LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

A Falência, Júlia Lopes de Almeida


Edição de base:
Biblioteca Virtual – Escola do Futuro

 

  

I

 

 

O Rio de Janeiro ardia sob o sol de dezembro, que escaldava as pedras, bafejando um ar de fornalha na atmosfera. Toda a rua de S. Bento, atravancada por veículos pesadões e estrepitosos, cheirava a café cru. Era hora de trabalho.

 

Entre o fragor das ferragens sacudidas, o giro ameaçador das rodas e os corcovos de animais contidos por mãos brutas, o povo negrejava suando, compacto e esbaforido.

 

À porta do armazém de Francisco Teodoro era nesse dia grande o movimento. Um carroceiro, em pé dentro do caminhão, onde ajeitava as sacas, gritava zangado, voltando-se para o fundo negro da casa:

 

Andem com isso, que às onze horas tenho de estar nas Docas!

 

E os carregadores vinham, sucedendo-se com uma pressa fantástica, atirar as sacas para o fundo do caminhão, levantando no baque nuvens de pó que os envolvia. Uns eram brancos, de peitos cabeludos mal cobertos pela camisa de meia enrugada de algodão sujo: outros negros, nus da cintura para cima, reluzentes de suor, com olhos esbugalhados.

 

Ao cheiro do café misturava-se o do suor daqueles corpos agitados, cujo sangue se via palpitar nas veias entumescidas do pescoço e dos braços.

 

No desespero da pressa, o carroceiro soltava imprecações, aos berros, furioso contra os outros carroceiros, que passavam raspando-lhe a caixa do caminhão, todo derreado para a aniagem das sacas, respirando a poeirada que se levantava delas. Os outros respondiam com iguais impropérios, que os cocheiros dos tílburis, em esperas forçadas, ouviam rindo, mastigando o cigarro.

 

Os carregadores serpeavam por meio de tudo aquilo, como formigas em correição, com a cabeça vergada ao peso da saca, roçando o corpo latejante nas ancas lustrosas dos burros.

 

Transeuntes recolhiam-se apressados, de vez em quando, para dentro de uma ou outra porta aberta, no pavor de serem esmagados pelas rodas que invadiam as calçadas, resvalando depois com estrondo para os paralelepípedos da rua.

 

Aqui, ali e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em forma de touca sobre a carapinha, varriam lépidas com uma vassoura de piaçava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento peneiravam-nos logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado a prego. Era o seu negócio, que aqueles dias de abundância tornavam próspero. Enriqueciam-se com os sobejos.

 

Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o mesmo triunfo, gemendo com o mesmo esforço, em uma orquestra barulhenta e desarmônica.

 

A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se atrevia a sair de alguma fábrica de sacos com dúzias deles à cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquelas pedras, só afeitas ao peso bruto.

 

Dominava ali o trabalho viril, a força física, movida por músculos de aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de atletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de guerra, davam à velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a uma artéria, correndo sempre com vigor e com ímpeto.

 

Já de outras ruas descia aquela onda quente, arfante de trabalho, vinha da rua dos Beneditinos e vinha dos armazéns da rua Municipal, todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.

 

Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando um momento, com os cotovelos fincados nos joelhos erguidos, salivando o sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indiferença para aquela multidão que passava aos trancos e barrancos, na ânsia da vida, num torvelinho de pó e gritaria.

 

De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, surgiram nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, às gargalhadas, enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de protesto se perdiam abafados pelo ruído complexo da rua.

 

Dentro dos armazéns a mesma lufa-lufa.

 

No de Francisco Teodoro não havia paragem.

 

O primeiro caixeiro, seu Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.

 

A porta, um capataz de tropa, mulato, furava com um furador tubular de aço e latão todas as sacas que saíam, para que se escapasse pela abertura uma mancheia de grãos. Os carregadores apenas retardavam os passos nessa operação, e o café caia cantando na soleira.

 

Ao fundo, um rapazinho magro e amarelo, o Ribas, apontava num caderno o número de sacas que levavam, rente à escada de mão por onde os carregadores subiam para as tirar do alto das pilhas, correndo depois pelo asfalto desgastado e denegrido do solo.

 

Tudo era feito numa urgência, obrigada a grande movimento.

 

Um sopro ardente de vida, uma lufada de incêndio bafejada por cem homens arquejando ao mesmo tempo na febre da ambição, varava todo aquele extenso porão negro, sem janelas, ladeado de sacos sobrepostos e adornado nas vigas sujas do teto por infinita quantidade de teias de aranha, enredadas, como longas sanefas viscosas de crepe russo.

 

De vez em quando, um ruído de cascata rolava pelo interior do armazém. Era o café, que ensacavam na área do fundo, e que na queda das pás desprendia um pó sutil e um cheiro violento.

 

Fora, chicotadas cortavam o ar com estalidos, e pragas rompiam alto, no som confuso, em que vozes humanas e rodas de veículos se amalgamavam com o estrupido das patas dos animais.

 

Alguns carregadores exaustos paravam um pouco, limpando o suor, mas corriam logo, chamados pelos olhos de seu Joaquim, que ia e vinha, muito trêfego, sungando as calças que lhe escorregavam pelos quadris magros.

 

Aviem-se! aviem-se! temos hoje muito que fazer!

 

Era o seu estribilho.

 

E havia sempre muito que fazer naquela casa, uma das mais graúdas no comércio de café. Dir-se-ia que o dinheiro aprendera sozinho o caminho dos seus cofres, correndo para eles sem interrupção.

 

Ao lado do armazém e comunicando com ele por uma portinha estreita, havia à esquerda o corredor e a escada, que levava ao escritório, acima, no primeiro andar.

 

Em uma sala ampla, quadrada, de madeiras velhas e papel barato, o Senra, guarda-livros, escrevia em pé, junto à escrivaninha colocado ao centro. Em outra carteira trabalhavam mais dois ajudantes, um velho, o Mota, de sorriso amável e modos submissos; e o outro, um moço bilioso de barbinhas pretas, mal plantadas em um queixo quadrado.

 

Nessa sala o trabalho era silencioso. As penas não paravam, mal dando tempo às mãos para folhearem os livros e as diversas papeladas. Diziam-se frases sem se levantar os olhos da escrita, e as perguntas eram apenas respondidas por monossílabos.

 

A um canto, sobre uma mesinha sólida, entre uma das janelas e a parede, estava a prensa de copiar; e no outro canto, em um alto banco de madeira pintada, a talha de filtro já enegrecida pelo uso. Pelas paredes, pastas de molas, rotuladas, em filas, prenhes de contas, recibos e cartas a responder. Ao fundo, entre a talha e o corredor da entrada, abria-se uma janela para o negrume do armazém, sob uma clarabóia estreita, de pouca luz.

 

Era em um gabinete, ao lado, com uma janela para a rua e igual avareza de mobília, que o dono da casa escrevia a sua correspondência, bem repousado em uma larga cadeira de braços.

 

Ele ali estava, acabando de fechar uma carta.

 

Toda a sua pessoa ressumava fartura e a altivez de quem sai vitorioso de teimosa luta.

 

Gordo, calvo, de barba grisalha rente ao rosto claro, com os olhos garços tranqüilos e os dentes brancos e pequeninos, tinha um belo ar de burguês satisfeito.

 

Não era alto e quando andava fazia tremer a casa, tal a firmeza dos seus passos pesados.

 

Um ou outro empregado vinha de vez em quando fazer-lhe uma pergunta, a que ele respondia com paciência, indicando claramente as coisas, com minúcias, para evitar confusões.

 

Francisco Teodoro, à sua larga secretária de peroba, dava a face para o cofre de ferro, de trincos e fechaduras abertas.

 

Tinha ele por hábito, tornado já em cacoete, remexer com a mão curta e gorda o dinheiro e as chaves guardadas no bolso direito das calças. No começo da sua vida, dura de trabalho e de áspera economia aquilo seria feito com intenção; agora representava um ato maquinal, alheio a qualquer pensamento de avareza ou de orgulho de posse.

 

Depois de muitas horas de trabalho febril, sem repouso, vinha o momento de paragem, a hora do café, que um mulato moço, o Isidoro, levava primeiro ao escritório, servindo depois os empregados do armazém.

 

Os degraus já gastos da escada rangiam então ao peso de um comissário vizinho, o João Ramos, e do ensacador Lemos, da rua dos Beneditinos, do Negreiros, da rua das Violas, e do Inocêncio Braga, recentemente associado ao grupo. As duas horas reuniam-se sempre ali para o cafezinho, descansando o corpo e desanuviando o espírito com palestras de seu interesse e do seu gosto.

 

Nesse dia tinham soado já as duas, quando os negociantes apareceram.

 

Francisco Teodoro levantou-se e bateu com os pés, desenrugando as calças.

 

Homem! vocês tardaram...

 

Culpa do Lemos...

 

E depois:

 

O senhor está com a casa repleta!

 

Tenho exportado muito café!

 

Felizardo! aproveite a época, que não pode ser melhor!

 

Corria então o ano de 1891 em que o preço do café assumira proporções extraordinárias. O movimento crescia e casas pequenas galgavam aos saltos grandes posições.

 

O que eu te invejo, disse o Ramos, único que ousava tratar Teodoro por tu, não é a fortuna, é a mulata que te engoma as camisas!

 

Os outros olharam rindo para o alvo e lustroso peitilho do dono da casa, que saboreava o café, com ar satisfeito, de pé, com o pires muito afastado do corpo, seguro na ponta dos dedos.

 

Não é má essa, regougou o Lemos, o comendador Lemos, da Beneficiência, franzindo o narizinho, submerso entre duas bochechas, que nem de criança.

 

Depois de um riso fraco e desafinado, ouviu-se a vozinha aflautada do Inocêncio, perguntando a Teodoro:

 

Aqui seu vizinho Gama Torres é que fez um casão de um dia para o outro, hem?

 

Homem, sempre é verdade aquilo?!

 

Se é!... tenho provas... Afinal, eu inspirei-o um pouco no negócio...

 

Fixaram todos a vista no Inocêncio Braga. Era um homem pequenino, magro, com uns olhinhos negros, febris e um fino bigode castanho, quase imperceptível.

 

Custa-me a crer nesses milagres... ponderou Teodoro, pousando a xícara na bandeja que o Isidoro oferecia.

 

Afirmo; questão de arrojo. Presumiu alta, abarrotou o armazém e esperou a ocasião. O sogro ajudou-o, está claro...

 

Não meditou nas conseqüências que poderiam sobrevir se desse uma baixa.

 

Quem fala em baixa?! Eu só lhe digo que o comércio do Rio de Janeiro seria o melhor do mundo se tivesse muitos homens como aquele. Senhores, a audácia ajuda a fortuna. Fiquem certos que o bom negociante não é o que trabalha como um negro, e segue a rotina dos seus antepassados analfabetos. O negociante moderno age mais com o espírito do que com os braços e alarga os seus horizontes pelas conquistas nobres do pensamento e do cálculo. O Torres é de bom estofo; é destes. Conheço os homens.

 

Olhavam. todos para o Inocêncio com um certo respeito, reconhecendo-lhe superioridade intelectual.

 

O Gama Torres teve dedo, teve; sentenciou o Lemos.

 

E logo o Inocêncio acrescentou:

 

Também aquele está destinado a ser o nosso Rottschild!

 

Teodoro contraiu as sobrancelhas. Ser o primeiro negociante, o mais hábil, o mais forte fora sempre o seu sonho...

 

Voltando-se, inquiriu dos outros explicações miúdas acerca daquele negócio fabuloso. O tempo favorecia as especulações, e ele meditava no assunto, alisando a barba grisalha, rente às faces gordas e macias.

 

O Negreiros, tendo dado volta à sala e enfiado pela porta do escritório o seu enorme nariz de cavalete, virou-se para os outros e disse a meia voz:

 

Que diabo! não posso acostumar-me a ver aquele velho como ajudante de guarda-livros!

 

Que quer você? murmurou Teodoro; o Matos empenhou. se por ele e afinal a aquisição foi boa. Precisa mais do que os moços, e como dá boa conta do recado não penso em substituído. É assíduo.

 

Outro esquisitão que você tem cá em casa é lá embaixo o Joaquim... ninguém dirá que é o mesmo, lá fora...

 

Muito carnavalesco e metido com as damas, hem? Que se divirta, aqui trabalha como nenhum. É uma praça de arromba: descansa-me.

 

Ouvi dizer que ele vai casar com a Delfina do Recreio...

 

Histórias! o rapaz é sério.

 

Tolo é que ele não é, resmungou o Negreiros, procurando o chapéu.

 

O Inocêncio despediu-se também; ia num pulo ao Torres. Os afazeres eram tantos, que mal lhe davam tempo para engolir o café.

 

Quando ele saiu, olharam uns para os outros interrogativamente. O comendador Lemos sentenciou:

 

Este Inocêncio é espertalhão! Está aqui, está diretor do banco. Não duvido que o Torres tivesse sido empurrado por ele... Tem uma lábia!

 

E sabe encostar-se a boas árvores. O Barros tem-lhe dado boas comissões e não é à-toa que ele procura tanto agora o Torres... Mete-se sempre na melhor roda... Aquele não veio de Portugal como nós, sem bagagem e cheirando a pau de pinheiro; trouxe luvas e meias de seda... O patife!

 

São os que naufragam...

 

Quando não vêm à caça e não têm o jeitinho que este revela. Canta que nem um pássaro, para atrair a gente!

 

E uma inteligência superior! suspirou o Ramos, esticando com ambas as mãos o colete sobre a barriga arredondada. Depois, refestelando-se no sofazinho austríaco, teve uma ponta de censura para as coisas desta terra: o governo era fraco, o povo indisciplinado. a cidade infecta.

 

Inda nessa manhã, vendo marchar um pelotão de soldados, sem cadência nem ritmo, lembrara-se da maneira por que os soldados da sua pátria andavam pelas ruas. As fardas eram mais bonitas, os metais mais polidos, os passos iguaizinhos, um, dois, um dois; fazia gosto. E assim, em tudo mais aqui, o mesmo relaxamento.

 

A maldita República acabaria de escangalhar o resto. Veriam.

 

Só no fim perguntaram pelas famílias.

 

A propósito, perguntou o Ramos a Teodoro, aquela menina que vai tocar violino no concerto dos pobres é sua filha?

 

Que concerto?

 

De amanhã, no Cassino. Foi a minha madama que leu isso num jornal...

 

Pode ser... são coisas lá da mãe... a pequena tem um talentão; o próprio mestre espanta-se.

 

E bonita! vi-a um destes dias, observou o Lemos.

 

Não, isso não! por enquanto ainda não se pode comparar com a mãe... protestou Francisco Teodoro, com sinceridade e um certo orgulho.

 

Os outros sorriram.

 

Lá isso, você tem um pancadão. Feliz em tudo, este diabo!

 

Houve uma pausa.

 

Realmente, insistiu Francisco Teodoro, o Gama Torres deu um cheque valente. Pois olhem, eu não dava nada por ele: um brasileirinho magro...

 

E começou outro dia!

 

De mais a mais, parecia acanhado... tímido...

 

Qual! isso não! Conheci-o caixeiro, ali do Leite Bastos. Foi sempre um atirado; ali está a prova: fez um casão de um dia para o outro. Dou razão ao Inocêncio; aquele está talhado para ser o nosso Rottschild...

 

Vejam lá, rosnou o Lemos com a papada trêmula e um brilho de cobiça nos olhinhos pardos, eu quis fazer o mesmo negócio e lá o meu sócio é medroso e: tá, tá, tá, é melhor esperar... Está aí!

 

Fez bem, foi prudente! Deixem lá falar o Inocêncio. Senhores, o comércio do Rio de Janeiro é honesto e não se tem dado mal com o seu sistema, observou Teodoro.

 

Sim, o Inocêncio aprecia isto de fora, por isso diz o contrário. Chama o comércio do Rio de Janeiro de ignorante e de porco.

 

Porco?! bradaram os outros, indignados.

 

Porco, confirmou o Ramos com solenidade.

 

Tudo mais aceito, o porco é que não engulo, observou do seu canto o Lemos, o anafado.

 

Ramos sentiu saltar-lhe na língua esta resposta: "porque os animais da mesma espécie não se devoram entre si". Ele confessava-se seduzido pelas exposições de Inocêncio. Que talento!

 

Mas, afinal de contas, que quer o Inocêncio?! perguntou Teodoro de pé, cruzando os braços sobre o fustão alvo do colete.

 

Queria... pensava encontrar aqui uma praça mais desenvolvida, maiores transações, casas de mais vulto. Diz que não temos sabido aproveitar as aragens. Que só trabalhamos com o corpo. Não o ouviu?

 

Com que diabo quereria ele que trabalhássemos?

 

Com a inteligência. Está claro. E ele explicou a coisa bem. O nosso comércio é formado por gente sem escola, vinda de arraiais... Eu por mim, confesso, mal tive uns meses magros de colégio! Apanhei muito e não aprendi nada.

 

Houve um curto silêncio, em que passou pelos olhos de todos a saudosa visão de uma escola rudimentar, em um recanto plácido de aldeia.

 

Depois de um suspiro, Teodoro concluiu:

 

Que venham para cá os doutores com teorias e modernismos, e veremos o tombo que isto leva!

 

Entreolharam-se. A verdade é que tinham todos eles um soberano desprezo pelas classes intelectuais. Dai um sorrizinho de expressiva intenção.

 

Mais um pouco de palestra sobre câmbio, transações da bolsa e assuntos lidos no Jornal do Comércio do dia encheram um quarto de hora, que passou depressa. Por fim saíram, falando alto, dizendo que aquela casa cheirava a dinheiro.

 

Francisco Teodoro foi dar o seu giro pelo armazém. Vendo-o em baixo, seu Joaquim acudiu logo, limpando com a língua o bigode molhado de café, a dar informações.

 

Estamos esperando o café do Simas.

 

O caminhão já está ai perto, mas ficou entalado entre os carroções do Gama Torres. Tem sido um despropósito o café que aquele armazém tem engolido.

 

Já sei disso... bem. Mandou as contas para cima?

 

O outro disfarçou um movimento de enfado e mal respondeu: - sim, senhor; depois gritou para o fundo:

 

Seu Ribas!

 

O Ribas cruzou-se com Francisco Teodoro, que seguiu até a área, a ver ensacar o café.

 

A gente do armazém tinha quizília à do escritório: fazia valer os seus serviços, deprimindo os alheios. Seu Joaquim considerava-se o melhor empregado da casa e gostava de mostrar as suas exigências. Os caixeiros temiam-no; mas o pessoal de cima tratava-o com certa sobranceria, que ele não perdoava.

 

O velho Mota, ajudante de guarda-livros, ainda era o único que lhe dispensava amabilidades e cortesias; mas, mesmo nisso, seu Joaquim lia uma adulação. Com certeza o velho só pensava em impingir-lhe a filha, que mirrava os seus trinta anos em um sobradinho da rua Funda.

 

Francisco Teodoro demorou-se um bocado na área vendo ensacar. Passou-lhe pela lembrança o tempo dos escravos, quando esse trabalho era exclusivamente feito pelos negros de nação, com a sua cantilena triste, de africanos. Era mais bonito.

 

As pás iam e vinham cantando, num compasso bem ritmado, sempre seguido da voz: eh, eh! eh, eh! E agora mal se via um preto nesse serviço! E ainda acham que as coisas se alteram devagar!

 

Rolavam pelo chão grãos de café, como contas de cimento, e na atmosfera carregada mal se podia respirar. Francisco Teodoro voltou. O caminhão estava já à porta e os carregadores andavam nas suas corridas afanosas. Ia subir, quando foi abordado por um dono de trapiche, o Neves, que, vendo-o da rua, entrou para lhe pedir a freguesia, acrescentando para o estimular:

 

Agora mesmo venho ali do seu vizinho, o Gama Torres, que me tem mandado lá para o trapiche um número assombroso de sacas!

 

O movimento do armazém interrompia-os de instante a instante. Francisco Teodoro mal respondia, com as idéias desviadas para outro sentido.

 

Pensava no Gama Torres, de quem toda a gente lhe falava com elogio e pasmo. Aquele está destinado a ser o primeiro homem da praça dissera-lhe o Inocêncio, e o Inocêncio era homem de bom faro e de êxito seguro em todas as suas previsões... Mas esse papel, de financeiro e negociante forte entre os mais fortes, fora o ideal de toda a sua longa vida de trabalhos, de sujeições e de amarguras! Seria justo que o outro, de um pulo, erigisse edifício mais alto e glorioso do que o seu, cimentado com lágrimas, com sacrifícios, com tantos anos de esforço e de labor?

 

Francisco Teodoro despediu-se do Neves sem o animar, apertando-lhe a mão frouxamente, e subiu para o escritório. Na escada encontrou o mulato, o Isidoro, com uma vassoura na mão.

 

Cuidado!... não me tirem as teias de aranha do armazém...

 

Não, senhor! Eu bem sei que aquilo dá felicidade...

 

Francisco Teodoro deteve-se um momento no escritório e entrou depois para o seu gabinete.

 

Fora, o sol avermelhava as fachadas feias e desiguais das casas fronteiras. Velhas paredes repintadas, outras com falhas de caliça, guardavam os seus segredos e as suas fortunas. Um hálito ardente de verão bafejava toda a rua febril.

 

Os armazéns, pelas bocas negras das suas portas escancaradas, vomitavam ainda sacas e sacas de café, que as locomotoras e as carroças levavam com fragor de rodas e cascalhar de ferragens para os lados da Prainha e da Saúde, levantando do solo esmagado camadas de pó, que espalhavam no ar cintilação de ouro.

 

 

 

 

II

 

 

Em caminho de casa, Francisco Teodoro, recostado em um bonde, persistia em querer ler um jornal da tarde, sentindo que as idéias lhe fugiam para um curso perigoso.

 

O êxito do Torres quizilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia o caminho, impedindo-o de chegar ao seu último ponto de mira. Galgava-lhe de assalto a dianteira, para se quedar sempre na sua frente, como um obstáculo.

 

Aquela conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canseira do trabalho. A vida tem ironias: teria ele sido um tolo?

 

Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples caixeiro, quase analfabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os sapatões barulhentos

 

Tinha ainda fresco na memória o dia do desembarque - estava um calor! - e de como depois rolara aos ponta-pés, mal vestido, mal alimentado, com saudades da broa negra, das sovas da mãe e das caçadas aos grilos pelas charnecas do seu lugar.

 

Pouco a pouco outros grilos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O som do dinheiro é música; viera para o ganhar, atirou-se ao seu destino, tolerando todas as opressões, dobrando-se a todas as exigências brutais, numa resignação de cachorro.

 

Assim correram anos, dormindo em esteiras infectas, molhando de lágrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi enchendo, enchendo avaramente.

 

Aquela infância de degredo era agora o seu triunfo. Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ela, não conhecera outra na mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao negócio. O negócio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço.

 

Não podia explicar, como, só pelo atrito com pessoas mais cultivadas, ele fora perdendo, aos poucos, a grossa ignorância de que viera adornado. A letra desenvolveu-se, tornou-se firme, e a sua tendência para contas fez prodígios, aguçada com o sentido na verificação de lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projetos, e observando atentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a quem a sociedade recebia bem.

 

Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para ele, o Brasil era o balcão, era o armazém atulhado, onde o esforço de cada indivíduo tem o seu prêmio.

 

Fora do comércio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um olhar...

 

Tempos de amargura e de esperança, aqueles!

 

Relembrando o passado, Francisco Teodoro procurava em si mesmo elementos com que pudesse bater influências e opor-se às especulações de afogadilho; devia encontrá-los espalhados pelos dias ásperos da incerteza e os macios da prosperidade.

 

Esta retrospecção agradou-lhe; fixou vários períodos.

 

O tempo em que morara em um sobradinho do beco de Bragança, sombreado pelo beiral muito estendido do telhado coberto de ervagem e pela sacada de rótula de um verde sujo.

 

Embaixo e defronte, caixoteiros, martelavam em tábuas de pinho, cujo cheiro dava ao beco imundo uma baforada fresca de floresta. E as marteladas que lhe importavam, se poucas horas estava em casa! De dia o trabalho; de noite o teatro ou a casa da Sidônia. Que seria feito da Sidônia? Devia estar por aí em qualquer canto... e velha.

 

Aos domingos na chácara do Matos, o solo, os jantares à portuguesa, e a hospitalidade paciente da boa D. Vica... Tudo lhe girava na memória, suavemente, suavemente.

 

Fora no conforto daquela chácara, vendo-se cercado de considerações, ao lado do amigo respousado e feliz, que ele sentiu a sua importância e se lembrou que deveria haver na terra outras delícias; mas o seu coração, cansado de uma luta formidável, negava-lhe novas inclinações. A pátria esquecida não lhe acenava com o mínimo encanto: a mãe morrera, a sua única irmã tinha-se recolhido a um convento. Fechara-se uma porta sobre a sua meninice.

 

Sentia-se só; começava a cansar-se e a enjoar as mulheres fáceis, com quem convivia em relações momentâneas. Mesmo a Sidônia enervava-o com os seus arrufos... e as suas denguices.

 

Atirou-se a proteger as instituições do seu país, a andar com medalhões e fazer mordomias na Beneficiência. No fundo, não era só a distração que ele buscava, nem a caridade que ele exercia; uma outra causa lhe filtrava nalma aquela vocação para o beneficio...

 

E a comenda chegou.

 

Foi só depois de comendador que Teodoro se sentiu vexado daquela habitação e se mudou para um segundo andar da rua da Candelária, que mobiliou a vinhático, com exuberância de cromos pelas paredes. Achou, ainda assim, que à sua casa alegre faltava qualquer coisa...

 

Viera-lhe a dispepsia. Que insônias!

 

Um médico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem a terra ou o casamento, para a regularização de hábitos. Ele achara cedo para a viagem: solidificaria primeiro a fortuna. A idéia do casamento parecia-lhe mais salvadora.

 

Para que lhe serviria o que juntara, se o não compartilhasse com uma esposa dedicada e meia dúzia de filhos que lhe herdassem virtudes e haveres?

 

No seu sonho começou a esboçar-se a idéia de um herdeiro. Teria um rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradições e fosse, sobretudo, um continuador daquela casa da rua de S. Bento, que engrandeceria com o seu prestígio, a sua mocidade, bem assente no apoio e na experiência paterna. O filho seria a sua estátua viva, nele reviveria, mais perfeito e melhor. Esse ao menos teria infância, seria instruído.

 

E tanto aquela idéia o perseguia, que num domingo de sol abriu-se ao Matos, que acolheu com ar solene e discreto as confidências do amigo.

 

Lembrava-se muito bem da cara com que o outro lhe respondera:

 

Sei o que você quer. Tivemos aqui na vizinhança uma família que está mesmo ao pintar... Gente pobre, mas de educação. A filha mais velha é a que lhe convém. Bonita e grave. Muito digna.

 

Francisco Teodoro murmurou:

 

Pois uma mulher assim é que me servia.

 

O diabo é que elas vão de mudança para Sergipe...

 

Então acabou-se.

 

Não se acabou tal. Por enquanto estão hospedadas em casa de umas tias, no Castelo. Ainda é tempo de lá irmos fazer uma visita... O resto fica por minha conta.

 

Foi por uma noite escura que ele, já mais por condescendência que por curiosidade, entrou com o Matos na casa das senhoras Rodrigues, no morro do Castelo.

 

Fazia frio; na rua um cão uivava longa, doloridamente.

 

Quem abriu a porta foi a mais velha das donas da casa, d. Itelvina. senhora alta e seca, muito nariguda, vestida de lãs pardas. Os outros ainda se cumprimentavam e já ela se sentava, erguendo o joelho agudo sob a costura. Não tinha tempo a perder.

 

A outra senhora da casa andava por fora; Teodoro conhecera-a depois. Essa era toda confiante e muito religiosa. Tinha ido à novena do Carmo com as duas sobrinhas mais moças e o irmão, o velho Rodrigues.

 

Em uma sala vasta, quase nua, mal clareada por um lampião de querosene, viu Teodoro, pela primeira vez, d. Emília, uma senhora bonita, de ar majestoso e olhos trêfegos, e as suas duas filhas mais velhas - Camila e Sofia.

 

Camila fazia crochê perto do lampião; Sofia refugiara-se para um canto do canapé. queixando-se da cabeça. E a mãe começou a falar com ar de sinceridade, muito demonstrativa. A cada instante o nome de Camila saia-lhe da boca com um elogio. Era a filha mais velha e a mais instruída: pilhara os tempos das vacas gordas, quando o pai exercia um cargo lucrativo.

 

Os dedos de Camila apressavam-se no crochê; com certeza ela havia de ter errado os pontos e sentido os olhares de Teodoro queimarem-lhe a pele, que a tinha linda, de uma alvura azul de camélia.

 

D. Emília asseverava que a sua Mila, como a chamavam em casa, esquecia-se das suas prendas, obrigadas pela necessidade a fazer serviços domésticos.

 

Francisco Teodoro comoveu-se com a idéia de que aquela mulher, talhada para rainha, passasse os dias a picar os dedos na agulha ou a calejar as mãos com o uso da vassoura ou do ferro.

 

Trabalhar! trabalhar é bom para os homens, de pele endurecida e alma feita de coragem. Olhou para a moça com veneração.

 

Era bonita, alta, com grandes olhos aveludados, cabelo ondeado preto e uns dentes perfeitos, muito brancos, mas que ela mostrava pouco, sorrindo apenas. Da irmã Sofia, na sombra, mal se adivinhavam as feições.

 

A uma das frases, em que a abundância do amor materno lhe debuxava as perfeições, Camila saiu de ao pé da luz e foi para a janela olhar para o escuro.

 

Como correu depressa aquela noite!

 

Francisco Teodoro saiu tonto. O amigo ria-se: não lhe tinha dito? Gabava-se de ser casamenteiro, levaria em breve tudo ao fim.

 

E dias depois o Matos pedia a mão de Camila para o amigo.

 

Começou então a série de presentes e de visitas. Mila tinha sempre o mesmo embaraço e a mesma brandura de sorriso.

 

O que ela ouvia da família, não o podia adivinhar Francisco Teodoro, que a sentia umas vezes reservada, outras vezes confiante.

 

Adiou-se a partida para Sergipe; houve doenças em casa, prolongação do noivado. peregrinações de Teodoro por aquele morro do Castelo, com raminhos de violetas para a Mila; todas as doçuras de namorado...

 

Casaram-se em um dia lindo.

 

Ele dera grandes esmolas aos pobres da igreja; Mila parecia um anjo entre nuvens brancas...

 

Depois. a família partiu para Sergipe. O pai era chocho, mas levava a carteira gorda. A mãe, com o seu modo de rainha destronada, e as irmãs iam bem enroupadas e todas tranqüilas sobre o futuro de Mila e do filho mais velho, o Joca, por quem Teodoro prometera olhar, e que andava por aí, à-toa.

 

A sua maior comoção fora ao entrar em casa, na rua da Candelária. Supusera sempre que ela apalpasse, com sofreguidão, todo o seu ninho, na alegria de ser a dona, a senhora de tantas coisas compradas para o agasalho do seu amor. Mas não: em vez de ir para o interior, Camila fora para a sacada. Ele acompanhou-a.

 

Em frente, os telhados mais baixos sucediam-se irregulares, cortando-se em linhas angulosas de um vermelho sujo; as casas, desiguais, acumulavam-se, paredes ameaçando paredes, janelinhas de sótãos espiando as telhas estriadas de limo, de onde emergiam chaminés negras e curtas, baforando fumo.

 

Camila murmurava, como quem fala só:

 

Se ao menos se visse o mar...

 

Disse; e curvava-se para a rua quando a badalada de um sino reboou perto, formidável, prolongando-se num som que era como um gemido da cidade inteira. Mila ergueu-se com um estremeção e voltou para o perfil da igreja o olhar estático.

 

Ele sorrira do susto, enquanto ela dizia:

 

Como é alto!

 

Depois desse, vieram dias tranqüilos. A mulher bordava almofadas para o sofá e emoldurava os cromos com musgo e flores secas.

 

Tinham-se acostumado um ao outro, viviam em paz, quando a Sidônia reapareceu na vida de Teodoro, obrigando-o a desvios e infidelidades. Nem a pobre Camila desconfiara nunca... Também, nada lhe tinha faltado e já devia ser um regalo para ela cobrir de boas roupas o seu corpo de neve, ter mesa farta, e andar pela cidade atraindo as vistas, no deleite da sua graça...

 

Então iam grandes remessas para Sergipe.

 

Um sorvedouro, aquela família, sempre exalando lamúrias em todas as cartas, na sede insaciável de dinheiro.

 

Por esse tempo o seu grande desgosto era o cunhado, o Joca, que se lhe metia em casa, com os seus maus costumes de vadio. Ele fora o causador de tantíssimas querelas! E agressivo na sua indolência, mal humorado pelas dividas do jogo, e ingrato! Má raça. Além do mais, pespegara-lhe depois com a filha em casa, aquela pobre Nina, tão enfezada nos seus primeiros tempos, fina como um caniço, e com uma tosse de cão, que repercutia pelos corredores. Enfim, essa, ao menos, servira depois para ajudar Camila a criar as filhas, que o Mário, esse já ela o encontrara forte como um herói!.

 

O Mário...

 

No percurso da Carioca à praia de Botafogo, Teodoro foi assim reconstruindo a sua vida, solidificando-a, pondo-a de pé. Era com essas memórias de família e de trabalho, que ele se entrincheiraria contra os assaltos das novas ambições.

 

O mar, muito azul, paletado de ouro aqui, desenhava já acolá em grandes sombras negras o perfil dos morros. Uma aragem forte sacudia as árvores, e folhas vinham redemoinhando no ar em vôos tontos. Uns pequenos atiravam um cão da Terra Nova à água, e as janelas dos palacetes mal se abriam aos esplendores de fora.

 

Perto do colégio, subiram para o bonde duas irmãs de caridade, com ramalhetes de rosas. Teodoro conhecia-as, eram professoras da filha, e distinguiam-no sempre, por sabê-lo religioso. Iam levar à ermida da Copacabana aquelas flores, prometidas pela salvação de uma aluna, que estivera às portas da morte.

 

Uma conversa simples, em dois minutos, foi como bálsamo para o espírito fatigado do negociante.

 

Demais, ele achou bonito, comovedor aquilo: uma criança às portas da morte, duas religiosas, um ramo de flores e a visão de uma ermida sobre o mar...

 

Quando Francisco Teodoro chegou à casa, as suas filhas gêmeas, Raquel e Lia, brincavam na chácara. Ao vê-lo abrir o portão, as crianças atiraram-se para ele, que mal lhes passou os dedos pelos cabelos; elas também pouco se detiveram e Teodoro atravessou o jardim.

 

O seu palacete era um dos mais lindos de Botafogo. No centro de um parque, ele erguia os seus balcões por entre palmas estreladas de coqueiros e copas de árvores bem escolhidas. Aquilo não fora obra sua; tinha comprado a vivenda a um titular de gosto, cuja ruína o obrigara a hipotecá-la quando a construção ia em meio e a vendê-la logo depois de concluída.

 

A esquerda, uma escada de pedra, ladeada por uma grade florida, conduzia ao terraço alpendrado do andar superior, onde muitas vezes a família palestrava, à espera de descer para o jantar. Nessa tarde só estava ali o filho mais velho, o Mário, todo derreado numa cadeira de balanço. O pai foi andando, e ele mal esboçou um movimento para levantar-se e dar-lhe as boas tardes.

 

Era já homem, muito moço ainda, e todo ele revelava preocupações de luxo e cuidado da sua pessoa.

 

Na sala da frente falava-se com alegria.

 

Temos visitas - pensou Teodoro, vendo chapéus de homem no cabide da saleta.

 

Quando ele entrou na sala, a mulher dizia à filha:

 

Vai ensaiar, Ruth!

 

A seu lado, sentado no mesmo divã, o dr. Gervásio Gomes desenhava a lápis na carteira qualquer coisa que a fazia sorrir. Ele gabava-se de ter jeito para a caricatura. Era um homem magro, nervoso, de quarenta e três anos, trigueiro, e apurado na toilette. Era ligeiramente calvo, tinha um olhar de que as lentes de míope não atenuavam a agudeza, e um sorrizinho irônico, que lhe mostrava os dentes claros e miúdos como os dos roedores.

 

Camila guardava um viço prodigioso de mocidade. Todo o Rio a apontava como mulher formosa. Tinha herdado da mãe aquele ar de majestade, que tanto impressionara Teodoro na primeira entrevista do Castelo, adoçado por uma grande expressão de calma e de bondade.

 

Francisco Teodoro foi direito a eles e cumprimentou-os, sem se atrever a roçar os lábios na face da mulher, com todo o escrupuloso pudor das suas ações em família. Sentava-se já, quando ela lhe disse com leve censura:

 

Você não cumprimenta o capitão Rino nem o maestro?

 

Os outros estavam ao canto da sala, junto ao piano para onde Ruth se dirigia com o violino na mão. Pedidas as desculpas, Teodoro voltou-se para o capitão Rino:

 

Muito me alegro de o ver aqui, capitão; quando chegou da sua viagem?

 

Ontem.

 

Você não imagina, interrompeu Camila; o capitão trouxe-me um presente lindíssimo!

 

Que foi? perguntou a meia voz o dr. Gervásio.

 

Francisco Teodoro enxugava com o lenço a calva rosada e luzidia. Mila, voltando-se para o médico, explicou:

 

Uma coleção de orquídeas do Amazonas; e prometeu mandar vir para o lago uma Vitória Régia.

 

O doutor murmurou por entre dentes, em tom que só Camila pudesse ouvir:

 

Isso de prometer é que não é bonito...

 

A moça relanceou-lhe um olhar, como a pedir misericórdia para o outro, que palestrava agora com o dono da casa. - Não era bonito, por que?!

 

O capitão Rino destacava-se entre todos na sala pelo seu tipo de louro e pela robustez do seu corpo. Era alto, de ombros largos. Tinha as mãos grandes, os olhos claros, de um azul de faiança, o bigode sedoso, como que acabado de nascer, e a pele queimada pelos ventos do mar. Só se lhe percebia a alvura da tez nos pulsos ou na raiz do pescoço, quando ele atirava a cabeça e os braços nos seus gestos largos e desajeitados. Havia qualquer coisa de infantil naquele homem grande, uma interrogação tímida talvez no olhar, e um certo abandono, de pessoa pouco afeita à sociedade. Vestia-se mal, usava gravatas de cores vistosas, abusando do xadrez nos seus casacos de casimira mal feitos.

 

Ruth pôs-se em atitude; a mãe gritou-lhe:

 

Imagina que estás diante do auditório!

 

Ela pareceu não a ouvir. Em pé, ao lado do piano, alta e espigada, com a cabeça unida ao seu ombro estreito de menina, os cabelos negros caindo-lhe em ondas sobre o pescoço moreno, os olhos de um verde límpido, de água marinha, abertos para o vácuo, tinha um ar de sonâmbula perdida em sonhos divinos. As mãos, longas e esguias, moviam-se com segurança; o vestido branco, salpicado de florinhas amarelas, mostrava-lhe um pouco das pernas finas, calçadas a preto.

 

O Lélio Braga, recém-chegado da Alemanha, o gordo maestro que só falava de música ou de jogo, atacou o teclado vigorosamente. Fez-se o silêncio em volta, mas por pouco tempo. Recomeçaram as conversas em tom mais baixo. Ruth não ouvia ninguém; um brilho quente. de sol, saia-lhe dos olhos verdes, voltados para a luz.

 

Só o capitão Rino parecia escutar a música, olhando de esguelha para Camila. Abominava a confiança que ela dava ao outro, ao magro dr. Gervásio, ali tão agarrado às suas saias, dizendo-lhe coisas que a faziam sorrir. Tudo naquele homem o irritava: o seu luxo, o seu tipo escanifrado e o seu ar de ironia, às vezes perversa. outras insulsa.

 

Francisco Teodoro, nunca interessado por coisas de arte, nem mesmo pela música, quebrava amiúde as reflexões do capitão Rino, interrogando-o sobre assuntos do Norte, de puro interesse comercial.

 

Ainda vibrava no ar a última nota do violino, quando Nina, sobrinha dos donos da casa, entrou na sala, com o seu modo simples que a tornava simpática a toda a gente. Não era bonita: tinha o nariz grosso e alguns sinais alourados na pele pálida.

 

Você viu as parasitas? perguntou-lhe Camila.

 

Sim; e, voltando-se para o capitão:

 

Devemos conservá-las ao ar livre ou na estufa?

 

O capitão fez um gesto de ignorância.

 

Só à hora do jantar, Mário se reuniu à família. A mesa, cheia de cristais e de prataria, tinha um aspecto festivo.

 

O dinheiro ganho à custa de trabalho gosta de impor-se a admiração alheia. O dono da casa, refrescado no paletó de brim, não se cansava de elogiar os seus vinhos e aludia amiúde à excelência do cozinheiro.

 

Se alguém se esquivava a um copo de Bordeaux ou a um cálice de velho Madeira, ele acudia animadoramente: - Beba, que esse é legítimo; igual não se encontra com facilidade por ai.

 

Havia sempre excesso de iguarias; voltavam para dentro pratos complicados intactos. A fartura passava ao desperdício. A copa atulhava-se de peças grandes, em que as folhas de alface e os desenhos a rodas de limão, de ovo, azeitonas e gelatina não disfarçavam a opulência das carnes.

 

À cabeceira da mesa, Francisco Teodoro gostava de, espalhando a vista por toda a longa superfície branca da toalha, vê-la bem coberta de coisas caras e vistosas. Assim comia com apetite, gostosamente. Era o seu triunfo na vida, que todo esse luxo representava, na única ocasião em que lhe sobrava tempo para admirá-lo.

 

Os convivas eram instados para que comessem mais, comessem sempre! Com o dr. Gervásio havia menos instâncias: conheciam-lhe os hábitos de homem delicado. O capitão Rino era muito mais moço e trazia da sua vida de mar valentias de estômago.

 

As crianças comiam à mesa, dirigidas por Nina, e faziam algazarra e exigências.

 

Mário repreendia-as. achando intolerável que o pai consentisse aquilo!

 

O nome do seu vapor é...? perguntou ao capitão o dr. Gervásio, ajeitando a luneta no nariz.

 

Netuno.

 

— Amado de Anfitrite e das nereidas. O patrono deve pôr-lhe em perigo o sossego...

 

Por que?

 

Porque assim moço, bonito, e com tal sugestão, de forte envergadura precisa o senhor para resistir as seduções das sereias...

 

Que ninguém viu nunca em mares brasileiros; respondeu o capitão ingenuamente.

 

Convirá não afirmar que não as haja também em terras do Brasil, sublimou o doutor com um sorrizinho, descendo o olhar para a pera que descascava.

 

Riram-se do embaraço do capitão, que murmurou, desviando a vista de Camila:

 

Os cantos das sereias não me seduziriam...

 

Pois é pena; sem imaginação a vida do mar não pode ter encantos. Se eu, em vez de médico, obrigado a deter-me com o que há de mais prosaico na natureza. fosse... o capitão do navio... perdão. do vapor Netuno, apegar-me-ia à mitologia, faria dos seus deuses a minha florida e alegre religião, e afirmo que seriam de gozo para mim as noitadas no convés, vendo ao clarão das estrelas Vênus surgir das espumas e boiarem à tona da onda negra os dorsos brancos das cinqüenta filhas de Nereu. Estou certo de que não sentiria a tal melancolia das águas, de que às vezes os senhores se queixam. Um homem de espírito nunca está só...

 

O capitão sorriu e Francisco Teodoro falou com o seu modo sentencioso:

 

Eles gozam a seu modo.

 

Não gozamos, não; a vida do mar é dura.

 

O dr. Gervásio não pode sentir com sinceridade o que disse...

 

Assevero-lhe que sim, capitão; e que parti de um princípio de que parto para todos os atos da vida, convicto de que está no próprio homem o remédio dos grandes males que o afligem.

 

Se vai dizer isso ao pé dos seus doentes, ninguém mais o chamará, replicou Camila.

 

Chamarão; infelizmente chamam sempre. Ninguém tem absoluta confiança em si. O homem, por mais que digam, ignora a força de que vem revestido para a sua função. Para nós, a natureza representa apenas o papel secundário da paisagem; é o acessório, a mise-en-scène da Vida, em que nos atormentamos mutuamente num alarido de inferno: Não valia a pena criar coisas tão bonitas para serem tão mal aproveitadas. Palavra de honra! se fosse possível conceber o riso, ou apenas o sorriso na face tremenda do Onipotente, eu diria que Ele às vezes escarnece de nós. A sua saúde, capitão!

 

Obrigado...

 

Um dia meto-me no seu Netuno e atiro-me para o Norte. Curiosidade, simplesmente; tenho mais vontade de ver os crocodilos do Amazonas do que... eu sei lá, as bailarinas da Grande Ópera.

 

Homem, dizem que a carne do crocodilo é boa, disse Francisco Teodoro.

 

Há também quem afirme que a das bailarinas ainda é melhor! observou o médico.

 

Camila riu-se; e depois:

 

E eu que nunca vi um grande vapor por dentro!

 

Quer ir comigo a Manaus?

 

Não; mas quero que o capitão Rino nos convide para visitar o Netuno.

 

O moço marítimo balbuciou, corando:

 

Oh! minha senhora...

 

Interrompeu a frase, porque ia dizer: - eu não desejo outra coisa! mas achou mais acertado e mais simples acrescentar somente: - quando quiser.

 

Será num domingo, para que meu marido vá também. E as crianças poderão ir?

 

Por que não?

 

Lia e Rachei bateram palmas.

 

Ao café, no terraço, Camila declarou preparar um grande baile para o S. João, quando Ruth completasse os seus quinze anos.

 

O dr. Gervásio protestou: que viesse o baile, mas com outro pretexto.

 

Por que?

 

Porque a noitada de S. João mete medo às casacas e assusta os decotes. É um santo que só quer luz de fogueiras, com altas labaredas e crepitações, e ainda há de ser no campo, entre gente rude que dance em torno às chamas.

 

É uma festa que me dá idéia de uma cerimônia ritual, de povo primitivo. Deixe o seu baile para outro dia.

 

Mas depois eu não terei pretexto...

 

Meu Deus! não é preciso descer uma pessoa a dar explicações aos amigos, quando se trata de os divertir...

 

Francisco Teodoro ouvia o dr. Gervásio com muito acatamento, reconhecendo-lhe superioridade intelectual.

 

Devia-lhe a vida dos filhos, confessava, e dessa dívida não se cansava de se dizer devedor.

 

Aprovou a idéia do baile, fizessem o que quisessem, a bolsa estava aberta. E a propósito, deixando os outros a tagarelar no terraço, ele fechou os olhos e pensou na felicidade do Gama Torres... Quem sabe?... talvez que ele pudesse fazer o mesmo; a época era favorável, o café rendia como nunca e ainda havia esperanças de alta... Se fugisse aquela ocasião... perderia o ensejo de triplicar de um dia para o outro a sua já grande fortuna... Fora sempre um homem de ação, de recursos, como ficar na retaguarda, imbecilmente, deixando que a outro, novato, se conferisse o título de Rottschild brasileiro? O ciúme do seu nome de negociante enchia-o até aos olhos. Encadeou e desencadeou pensamentos calculistas.

 

Ter a maior fortuna, tendo partido do nada, era toda a sua ambição. Repetia a qualquer a humildade da sua origem, espreitando o efeito dessa confissão. Ser o mais poderoso, o mais rico, o mais forte, tendo partido do nada, não seria ter alcançado a suprema glória na terra?

 

E, ali mesmo, bem recostado na sua cadeira de balanço, com o papo cheio de ótimas iguarias, as mãos descansadas nos braços da cadeira, ele insensivelmente passou do sonho ao sono.

 

Na meia sombra do lusco-fusco, os olhos do capitão Rino fulguravam, espiando com raiva os rostos do médico e de Camila, que se contemplavam. Mário atravessou o terraço de charuto na boca, em direção à rua.

 

Onde vais? perguntou-lhe a mãe.

 

Ao teatro; respondeu ele sem se deter. descendo a escada.

 

Este rapaz... este rapaz... resmungou por entre dentes o dr. Gervásio, em modo de censura.

 

Camila desculpou-o; o filho tinha gênio e era muito independente. Não queria contrariá-lo; para quê? a vida é curta, cedo viriam as amofinações. O juízo havia de vir com a idade...

 

Em baixo, no jardim, entre os grupos rescendentes de heliotropo e de jasmins do Cabo, as crianças e Ruth faziam roda à Noca, mulata antiga na família, que lhes contava histórias de fadas e de príncipes encantados. Vendo Mário dirigir-se para o portão, a mulata chamou-o com familiaridade de amiga velha:

 

Seu Mário, escuta aqui!

 

Que é, Noca?

 

Onde é que vai?

 

Se eu não morrer pelo caminho, hei de chegar ao teatro.

 

Não morre; eu ainda esta noite sonhei que v. estava amortalhado e que d. Nina chorava sangue... Sonhar com morte é sinal de saúde. Traga umas balas para mim.

 

Vá esperando.

 

O capitão Rino despediu-se e desceu também para a rua, ouvindo a voz da Noca recomeçar numa melopéia:

 

"Minha varinha de condão, pelo poder que Deus vos deu, fazei..."

 

Nina, encostada à grade, via Mário afastar-se; e lá em cima, no terraço, ao lado do marido adormecido, Camila curvou-se para o dr. Gervásio e beijou-o na boca.

 

 

 

 

III

 

 

Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castelo, Camila mandava às vezes as filhas pequenas abraçá-las em seu nome, em companhia da Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do morro, muito antiga, com janelas de guilhotina e paredes encardidas. D. Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a criatura mais sovina do bairro. A outra, d. Joana, pouco parava ali, sempre voltada para Deus. Era viúva de um colchoeiro rico, morto de anasarca, de quem sofrera os maus tratos que, na inconsciência das bebedeiras, ele lhe ministrava.

 

Viviam as duas, desde crianças, na mesma casa. herança dos pais, conservando os seus hábitos de vida mesquinha, amando ideais diversos: uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para a outra só em querer bens dos céu, com que a alma sonha.

 

Nada sorria naquela habitação árida e velha. No quintal, nem um canteiro de flores; uma horta raquítica a um canto, algumas laranjeiras e um coradouro de grama pisada e sem viço, estendendo-se ao lado de um tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo desconforto: salas com poucos móveis e esses antiqüíssimos, alcovas vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na lenha.

 

D. Itelvina percebia bem que para conservação daquela casa deveria fazer-lhe grandes consertos; mas queria obter da irmã que os fizesse todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo.

 

A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Cristo do seu oratório estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ela pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apática, gorda, de uma brancura anêmica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabelo grisalho, curto, que ela cobria com uma touca preta de folhos encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés largos calçados em duraque, e nas mãos finas e cor de leite tinha, ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos ângulos, ora um rosário de âmbar benzido pelo bispo.

 

D. Itelvina não parecia crente. Ninguém a vira nunca de joelhos em frente ao oratório da irmã. Nenhum traço comum lembraria a outrem o parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e lábios finos.

 

A voz de d. Joana tinha inflexões brandas, de alma tranqüila; a voz de d. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como se saísse de órgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam.

 

Os bons dias e as boas noites eram trocados sem o beijo que confraterniza as almas. Toleravam-se, talvez, apenas; apoiavam-se mutuamente, guiadas pelo hábito.

 

Quando Noca bateu à porta, ouviu gritos dentro: e calculou logo que haviam de ser da Sancha, a negrinha órfã que d. Itelvina explorava nos arranjos da casa.

 

Abriu-se uma janela com bulha impaciente e apareceu a cara de d. Itelvina, indagando de quem batia.

 

Ah!... é você, Noca! espera um pouco, eu já vou.

 

Dentro, a mulata explicou:

 

Nhâ Mila mandou fazer uma visita e saber das senhoras como estão... ela não pôde vir, porque...

 

Já sei. Isto é muito alto... se fossem as escadas do Lírico, muito que bem!... casa de pobres...

 

Não, senhora! não é por isso, nem as senhoras são pobres! até dizem todos o contrário...

 

Dizem? mentiras! mentiras só... Como vai seu Teodoro?

 

Muito bem.

 

Excelente homem; aquilo é que foi sorte grande. bem Noca?

 

Foi. sim. senhora; ele é bom... tem as suas impertinências... mas a gente já sabe que é do gênio...

 

Qual o quê! Mila deve adorar o marido de joelhos! Neste tempo já não é fácil uma moça pobre e sem proteção encontrar um casamento assim!

 

Isso é verdade... Ela também é muito boa.

 

Você se lembra de quando eles moravam na Lapa, que até você levava as vezes comida da casa de pasto para dar às meninas?

 

A mulata sorriu com ar contrafeito e modesto, lembrando-se que não fora da Lapa que ela levava os restos dos jantares da casa de pasto do amigo, mas que subira muitas vezes a ladeira do Castelo, com a trouxinha das carnes na mão, para matar a fome de Mila e das irmãs, então hospedadas em casa de d. Itelvina.

 

De quem é que você matava a fome, Noca? perguntou uma das crianças.

 

De uma viúva que já morreu, emendou Noca. impelindo as duas crianças para o quintal. Vão ver a vista... vão ver os sinais dos vapores... dizia ela.

 

D. Itelvina olhou para as duas meninas e não pôde conter-se que não exclamasse:

 

Tanta gente com fome e tanto dinheiro esperdiçado em vestidos de crianças! Mila teve sempre propensão para o desperdício... Bonitos aqueles vestidos! onde os compraram?

 

Vieram de Paris...

 

Uhm... não haviam de ser baratos... aquilo é seda, não é?

 

É, sim, senhora. D. Joana saiu?

 

Já se sabe! anda pelas igrejas... Se não fosse eu, não sei como havia de ser!...

 

Noca reparou, olhando para a alcova do oratório, aberta para a sala, que a lamparina estava apagada.

 

D. Itelvina continuou:

 

Joaninha só vem a casa para comer e dormir. Tem quem lhe faça tudo... Ela não tem aparecido por lá?

 

Não, senhora...

 

Ruth por que não veio?

 

Ficou dando lição. Ela tocou no concerto e foi muito festejada.

 

Há de lucrar muito com isso... Aposto em como não sabe ainda pregar um remendo ou fazer um vestido.

 

Graças a Deus, ela não precisa disso!...

 

O futuro o dirá...

 

Credo!

 

Pois sim. Cada vez bendigo mais a educação que minha mãe nos deu. Havia dias, que era desde manhã até de noite a fazer balas...

 

Tal! e d. Joana não deu pra outras coisas?

 

Ela sempre foi religiosa, mas depois de viúva refinou! E ainda se queixa de doente, que tem faltas de respiração e pernas inchadas!

 

Coitada!

 

Minha filha! ela vai daqui a pé a São Francisco, ao Carmo, a Penitência, a S. Bento a qualquer igreja da cidade!... As cinco horas já está nos Capuchinhos; e à tarde aqui na igreja do hospital ela canta com as Irmãs e com os soldados. E cada ladainha que Deus nos acuda!

 

Alguém batia à porta, e d. Itelvina, tendo espreitado pela janela, voltou-se apressada e foi reacender a lamparina do oratório.

 

Sancha apareceu, com os beiços inchados pelo excesso do choro, e, dependurando a chave da porta da rua, segura pela argola a um prego na sala, olhou com ar de queixa muda para a Noca.

 

A negrinha não teve resposta: a outra disfarçava, contemplando as paredes nuas e desbotadas da sala. Pela janela aberta via-se parte de um paredão desmoronado, e lá em baixo, em um fundo largo e fresco, um trecho de mar muito azul.

 

D. Joana entrou, arfando de cansaço, e sentou-se logo na primeira cadeira, ao pé da porta. Sancha tirou-lhe a touca, guardou-lhe o livro e os rosários, e sumiu-se, sem ter descerrado os lábios nem enxugado os olhos vermelhos e inundados.

 

Hoje a igreja estava repleta; falou monsenhor Nuno... foi um grande sermão, de muito proveito e de muita fé! disse d. Joana, e depois de uma pausa: O Noca! Mila não vai nunca às solenidades religiosas?

 

Vai todos os domingos à missa.

 

Bem! que não deixe perder a sua alma! Entretanto, eu rezo por todos. A pena que eu tenho é de me custar tanto a ajoelhar... estou com as pernas cada vez mais inchadas...

 

Isso é cisma, resmungou d. Itelvina, retirando-se para o interior. Noca aconselhou logo um remédio prodigioso, benzido com cinco cruzes. Ela sabia dessas coisas. Todos de casa a consultavam. A botica era a chácara, com as suas folhas, cultivadas umas, agrestes outras; conhecia-lhes os segredos, roubava-lhes os filtros mais sutis e aplicava-os acompanhando-os com orações especiais dos santos mártires. Era sempre a Noca quem avisava às pessoas da família qual o melhor dia para cortar o cabelo, para fazer uma viagem ou para tomar qualquer mezinha. Sabia as voltas da lua, e traduzia os sonhos que lhe contavam, com palavras de convicção inabaláveis. Criara todos os filhos de Mila, desde o Mário até a Biju, a pequena mais nova, já morta.

 

Quando ela descia o morro, as crianças queixaram-se de fome e confessaram que não queriam voltar a visitar aquelas tias, que não lhes davam nada. Nem um bocadinho de pão!

 

Na praça do Castelo, Noca, com pena, entrou numa quitanda, posta de nova, brilhando ainda nas tigelas lavadas e no barro das panelas e das moringas à venda, e comprou frutas para as duas meninas.

 

Portuguesas, de saias curtas e grandes arrecadas de ouro, iam e vinham, parando umas à porta, com pimpolhos ao colo, e outras falando alto, para dentro. A dona do negócio respondia a todos, conversando em ar de mexerico disfarçado, com a mulata, a quem via pela primeira vez.

 

A senhora vem morar por aqui?

 

Não; vim fazer uma visita.

 

A quem, inda que mal pergunte?

 

As senhoras Rodrigues; conhece?

 

As duas velhotas da travessa de S. Sebastião?

 

Essas mesmo.

 

Não conheço outra coisa!... E depois de uma pausa, em que procurou conter-se, abalou a falar sem interrupção. As senhoras Rodrigues eram muito conhecidas no bairro. Diziam que d. Itelvina passava horas da noite escavando o quintal, à procura dos afamados tesouros guardados pelos jesuítas. Os vizinhos viam uma luz de lanterna movendo-se na sombra do pátio, rente do chão, e olhavam-na com desconfiança.

 

A outra era uma beata de igreja e já constava que legaria os seus haveres ao frei Ângelo, dos Capuchinhos. A quitandeira afirmava que elas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras!

 

Quando a Noca atravessava o largo. com uma criança por cada mão, para a ladeira do Seminário, sentiu que alguém, que viera correndo, lhe puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.

 

Ué! que é que você quer?

 

Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio uma nota de quinhentos réis amarrotada e imunda.

 

Que favor, gente?

 

Quando voltar cá, traga isto de arsênico, disse ela apontando o dinheiro que oferecia à mulata.

 

Arsênico... pra quê?! você tá doida?!...

 

Pra nada! faça esta esmola...

 

E como Noca não estendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro, rapidamente, pela gola aberta do vestido, e voltou como uma seta para casa.

 

As cabritas andavam soltas, pastando nas ervas altas; o sol, muito quente, alvejava roupas estendidas nas ruas, e na torre repintada dos Capuchinhos o sino badalava, convidando à oração.

 

Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram em baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mário passar no seu phacton, que ele mesmo guiava numa posição correta. O lacaio, sem descruzar os braços, sorriu para as crianças; o moço passou sem reparar nas irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas à saia da ama.

 

O carro de Mário rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou:

 

Ele vai ali, vai direitinho pra casa da tal Luiza, o diabo da mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só!

 

O Dionísio dizia-lhe que a francesa era bonita e muito chic, e ela sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante daquele rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nu suspendera tantas vezes no ar para o fazer rir. E fora uma criança alegre; agora não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério... Noca suspirou e, depois de um levantar de ombros, prosseguiu nos seus pensamentos:

 

Afinal de contas, faz ele muito bem: a mocidade passa e o dinheiro foi inventado para se gastar. Ele gosta dela, acabou-se! Sabe Deus o que o pai teria pintado também; agora fala e quer dar leis ao coração do filho... Está-se ninando! Aquele! pois sim! Cada um sabe de si...

 

Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a única pessoa que percebera aquele segredo fora ela. Sabia, mas calava-se muito bem calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão fácil de contentar... Bastava ver os vestidos e os chapéus que ela usava: tudo restos de Mila e de Ruth, que ela fuchicava a seu jeito... Nunca pedia nada, nunca se punha em evidência, ninguém se lembrava até quando ela fazia anos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a moça; mas de quem era a culpa? Mário era um rapaz rico e de bom gosto, havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala.

 

Noca adorava o Mário; achava-o lindo, com o seu pequeno buço alourado e os seus olhos negros e pestanudos. A flor da família. Aquele saíra à mãe.

 

Passava um elétrico. As crianças sacudiram a mulata:

 

Vamos, Noca!

 

Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira...

 

A conselho do dr. Gervásio, Camila, tinha marcado as terças-feiras para as suas recepções. No começo houve relutância em casa. Francisco Teodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher mesmo, criada em velhos hábitos, vexava-se, porque era da vontade do dr. Gervásio, e para esse o portão da chácara estava sempre escancarado.

 

Ele não faltava, ia vê-la todas as manhãs, almoçar no lugar de Francisco Teodoro, que almoçava sozinho duas horas antes, a um canto da grande mesa vazia; e ali o médico ensinava àquela gente o meio de se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espírito, alterando-lhe os gostos, fazendo-a preferir o queijo que ele preferia, o vinho de que mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar.

 

A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de frases que ele formava para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que eles todavia aceitavam, com agrado, num sorriso...

 

Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas gordas estrondearam no jardim.

 

É o Lélio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e correndo para fora.

 

Era o Lélio; viram-lhe o gordo cachaço, através dos vidros da porta, quando ele passou pelo corredor.

 

Com o pretexto de mostrar ao médico um anel novo, Camila estendeu-lhe a mão, luminosa de pedrarias.

 

Ela segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou:

 

Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este brilhante... mas este outro ainda é mais límpido...

 

Ela sorria, e Nina excedeu-se em tratar das crianças, com o propósito de desviar a atenção.

 

Ponha este anel fora... É indigno da sua mão.

 

Brilha tanto!

 

É do Cabo, muito amarelo.

 

Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido.

 

Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de um brilhante negro, para este dedinho que está muito nu. Tenho pena que não goste de pérolas; só quer pedras que fulgurem.

 

Só.

 

Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro.

 

Versos?

 

Não. Um romance.

 

Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor mos lê. Uma monotonia...

 

Na saleta, ela abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos resedás plantados junto à parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia maravilhoso! depois, voltando-se:

 

O livro?

 

Está aqui.

 

Já leu?

 

Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.

 

Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras perversas. Os senhores romancistas não perdoam às mulheres; fazem-nas responsáveis por tudo - como se não pagássemos caro a felicidade que fruímos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que eles infligem às nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hipócritas! hipócritas! Leve o seu livro; não me torne a trazer desses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do fim.

 

Não tenha remorsos; o nosso não acabará!

 

Remorsos... remorsos de quê? Pensa, Gervásio, que, desde o primeiro ano de casado, o meu marido não me traiu também? Qual é a mulher, por mais estúpida, ou mais indiferente, que não adivinhe, que não sinta o adultério do marido no próprio dia em que ele é cometido? Há sempre um vestígio da outra, que se mostra em um gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho... Eles traem-se com as compensações que nos trazem...

 

Isso tudo é vago e abstrato.

 

Não importa. E as denúncias? e as cartas anônimas? e os ditos das amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignorá-las, todas! Não é isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me pregou, deixaram sulco e eu paguei-lhas com o teu amor, e só pelo amor! E assim mesmo o enganá-lo pesa-me, pesa-me, porque, quanto mais te amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só para mim!

 

Gervásio não respondeu. Tinha o rosto contraído por uma expressão de ciúme. Passado um instante de silêncio, murmurou:

 

É extraordinário! Nunca julguei possível essa dualidade no amor. Bem, levarei o livro. Adeus.

 

Não vá... É cedo... suplicou ela, com o rosto pálido, iluminado de paixão. Fique, é tão bom! Falarei noutra coisa. Ensine-me a falar, Gervásio.

 

Então, diga lá: - amo-te!

 

E ela ia repetir as palavras, quando as gêmeas entraram ruidosamente.

 

Lia queria saber se aqueles navios pretos e pequeninos espalhados no jornal eram do capitão Rino.

 

São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar.

 

Ih! então ele é muito rico?

 

É. Vão brincar.

 

As meninas saíram e o assunto voltou-se para o capitão Rino. O médico ridicularizava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito branco e muito louro, mal ajeitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha, faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo.

 

Camila negava alguns desses defeitos. Não tivesse medo: ela só o amaria a ele, em toda a sua vida.

 

Havia já muito tempo que duravam aquelas conversas na saleta, com a porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e Rachel passavam a galope, montadas nas bengalas do pai.

 

Era à despedida que o médico e Camila marcavam, de vez em quando, uma entrevista, longe, em uma casa da Lagoa, conservando o respeito por aquela habitação onde as filhas dela viviam soltas, procurando-a a todos os instantes, irrompendo de trás dos reposteiros ou dos móveis quando menos se esperava.

 

Ruth acabara a lição. Sentiram os passos do maestro na escada. Gervásio ergueu-se.

 

Pois vou-me por aí abaixo com o Lélio. São horas das moças bonitas na rua do Ouvidor...

 

Quem me dera que eu fosse uma delas... A velhice aterra-me por sua causa! E ela vem perto!...

 

Tontinha! e não sou eu mais velho?

 

Sim... mas os homens! Quando eu tiver os cabelos brancos, você...

 

Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos com as doces recordações destes dias lindos. O nosso romance não acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o Lélio.

 

Camila acompanhou-os ao terraço.

 

Que me diz da sua discípula? perguntou o maestro.

 

Muito bem. Vai muito bem! Daqui a pouco ensina-me...

 

Ela é estudiosa...

 

Enquanto os dois conversavam, o médico passeou o olhar pelo jardim; depois disse, voltando-se indignado para Camila:

 

O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos canteiros! Aqueles feitios em gramas são de péssimo gosto. Não tem instinto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francês acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a diferença.

 

Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz idéia do que seja a harmonia das cores; veja aquele canteiro: o roxo ao pé do escarlate, o amarelo ao pé da cor de rosa! Tudo mais, folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem guerra às flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro?

 

Eles desceram e Camila ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o médico; já ele tinha desaparecido e ainda ela olhava, pensativa...

 

Fora há anos... Gervásio morava já na mesma casa do Jardim Botânico, bem instalado, mas muito metido consigo.

 

Uma noite alguém lhe batera à porta com desespero: era Francisco Teodoro, que o chamava como o médico mais próximo, para ver uma filha que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua vizinhança, mudando o Mário, que tivera a palustre. O médico não clinicava, mas cedeu à súplica e salvou Ruth de um tifo. A doença fora longa; a menina só aceitava remédios e alimento pela mão do seu amiguinho, que tratou também de fortalecer Mário.

 

Camila dizia então em êxtase, ao marido:

 

Devemos ao dr. Gervásio a vida de nossos filhos! A entrada fora vitoriosa; justificava o ascendente do médico na família... Nem fora no começo, que ele amara a Camila. Nesse tempo ela não sabia ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa mãe tranqüila, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As gêmeas, então de meses, andavam sempre pendentes do paletó branco da mãe. Gervásio odiava aqueles casacos e aquelas queixumeiras insípidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ela ascendeu pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A evolução não foi rápida, mas refletida e suave, como impelida por sopros delicados. Quando o médico percebeu quanto Camila mudava, e que essa transformação lenta e visível se fazia ao influxo dos seus gostos, da sua convivência e do seu espirito, começou a observá-la com redobrada atenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que uma obra sua.

 

Camila usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que ele lembrara como mais propicias à sua tez, adquiria expressões novas, inflexões de voz em que nascia uma música de tons coloridos e harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de maneira mais ritmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem escolha, por uma essência branca; e tudo isso o fazia sem esforço, obedecendo à sugestão. O médico via nela um reflexo perfeito da sua alma, sentia-se voltar-se, subir para ele; e absorvido nesse estudo delicado - apaixonou-se por ela.

 

Levada na fascinação, só tarde Camila percebeu o perigo que a solicitava; então quis fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a ver o médico; mas, através da distância e do silêncio, ele percebia o amor dela a chamá-lo, a envolvê-lo todo com uma obsessão de loucura.

 

Passaram-se assim longos meses, de saudades sem remédio, de agonias mudas; até que um dia, cansados de uma resistência inútil, deixaram-se vencer.

 

Para ele, aquela ligação foi uma vitória; para ela como que uma lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa salvaguardava-se nessa crença.

 

Havia muito tempo já que o dr. Gervásio entrara na intimidade da família: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe, com repetidas súplicas de dinheiro. Conhecia a história do nascimento de Nina, filha natural do Joca, e da fugida dele, comprometido em uma casa de comércio; estava ao fato das doenças de d. Emília, das habilidades caligráficas do velho Rodrigues e da já alta soma de dotes dada por Francisco Teodoro às cunhadas.

 

Tudo isto soubera-o ele naturalmente, sem indagações; vinha na enxurrada dos desabafos, no desafogo da amizade.

 

Com o amor, ele tinha também sabido conquistar a estima. Toda a gente em casa o ouvia com atenção.

 

Um pouco dessas coisas vagou pelo espírito de Camila, quando, de olhar alongado, seguia ainda a sombra de Gervásio.

 

Dias depois ela dava os últimos retoques à sua toilette, em frente ao espelho, quando o marido entrou.

 

Camila viu-o no cristal e perguntou-lhe mesmo sem se voltar:

 

Por que é que você veio tão cedo?

 

Por duas razões...

 

E, como ele interrompesse a frase, ela, sobressaltada, acercou-se, indagando com interesse:

 

Você está doente? Diga!

 

Não tenho nada filha, descansa.

 

Camila sorriu e voltou tranqüila para defronte do espelho.

 

Então que motivos são esses?

 

O primeiro, para pedir ao Gervásio que vá ver o Mota, que quebrou hoje uma perna.

 

O velho?

 

Sim.

 

Coitado! como foi?

 

Foi no serviço da casa; descendo de um bonde. Já está medicado, mas quero que o Gervásio lhe examine o aparelho. O segundo motivo é mais sério.

 

Sem afastar do rosto o pompon do pó de arroz, Camila interrogou com certa indiferença:

 

Que é?

 

Trata-se do senhor seu filho.

 

Meu só?! tem graça...

 

Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra, o tal senhor!

 

Aposto, meu velho, em como você vem por aí com recriminações?!

 

Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das patifarias do rapaz és tu.

 

Camila voltou-se indignada, com os olhos chamejantes de cólera:

 

Hem?!

 

Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu filho.

 

Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camila, olhando para o marido de alto.

 

Ele continuou:

 

É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não pode continuar assim! Ele mantém agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e com toda a imprudência faz contas em meu nome! Já se viu coisa igual?!

 

É a mocidade...

 

Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe.

 

Trabalhar! Mário tem só dezenove anos!

 

Faze mãos de veludo para o acariciar; é o costume! Mas por que não lhe fala você?

 

Por que?! Ora essa! porque lhe vou à cara, se ele me retruca com um desaforo!... Esperarei mais alguns dias... fala-lhe tu primeiro. Não lhe metas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o meu exemplo, e que se deixe de fazer dívidas. Isto competiria a mim, bem sei, se não me tirasses toda a força moral.

 

Eu?!

 

Sim. Acodes com panos quentes sempre que o repreendo, e ai está o resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha...

 

Ora! também você exagera. Mário tem boa índole. É incapaz de uma ação má. Descanse; eu falarei com ele. Quer então que eu o aconselhe a deixar a tal mulher?...

 

Por força! Uma perua velha, que o há de comer por uma perna. Não posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mário que, ou ele toma caminho, ou o mando para a Marinha.

 

Já não está em idade disso, nem eu me separo de meu filho!

 

Temos outra. Faze o que quiseres; hoje fala-lhe tu, e se ele não seguir outro caminho, terá de se haver comigo. Diabo, tenho outros filhos!

 

Coitado do Mário! tu nunca o amaste muito...

 

Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores... está bom, está bom, falemos noutras coisas... Acalma-te... e veste-te á vontade. As Gomes já estão ai: vi-as no jardim com a Ruth.

 

Que me importam a mim as Gomes!

 

Francisco Teodoro chegou-se à janela, afastou a cortina e olhando por entre os vidros, informou com voz amável:

 

Lá está também o capitão Rino... Aí estava um bom casamento para a Nina, hem? Gosto dele, parece um excelente rapaz... apesar da procedência.

 

Que procedência?

 

Homem! a mãe morreu às mãos do marido, por crime de adultério... Enfim, isso já foi há tantos anos, que ninguém se lembrará do caso...

 

Você lembrou-se.

 

Ora, porque ainda ontem me falaram nisso.. Bom casamento para a Nina... bom casamento!...

 

Camila sorriu com desdém e tratou de abotoar melhor o seu broche de pérolas, sobre a escumilha cor de rosa do peitilho. Coitada da Nina... pois sim!

 

Muito bem! lá chegam o Lélio e o Gervásio... Sou muito amigo do Gervásio, mas olha que ele também é um esquisitão. Não diz nada a gente da sua vida, lá dos seus princípios... Com a intimidade que lhe damos era natural que soubéssemos mais dele que toda a gente; e afinal sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não simpatizam geralmente com ele por aí; dizem que ele nunca escreveu uma linha e que vive a criticar livros e autores... Realmente, ele não perdoa a ninguém. Pois vou falar-lhe. Até já.

 

Antes de sair, Teodoro contemplou a mulher, ajeitou-lhe os caracóis da nuca e, atraindo-a, quis beijá-la; ela porém esquivou-se com um movimento rápido. Francisco Teodoro riu-se e saiu pensando consigo:

 

Todas as mães são assim! Só porque lhe falei do filho... Em baixo, Ruth colhia flores para as visitas, que se agrupavam sob as ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças, eram indefectíveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse mau ou bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e escrúpulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinais como culinárias, que ela oferecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance da voz. As filhas eram espertas, cantavam ao piano e ao violão e vestiam-se com graça, fazendo valer panos baratos.

 

O capitão Rino examinava as palmeiras com a atenção de um botânico, enquanto o maestro e o dr. Gervásio cumprimentavam as senhoras.

 

Francisco Teodoro apareceu risonho, com as duas mãos estendidas para a querida sra. d. Inácia Gomes, que se levantou remexendo as sedas farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excelente seda aquela! já passara por três feitios diferentes, e ainda era aquilo que se via!

 

Cara senhora, então, o amigo Gomes?

 

Vem logo; ah! ele tem muito trabalho, não imagina.

 

Sei, sei... a vida foi feita para as mulheres. E ainda elas se queixam! Só se fala por ai em emancipação e outras patranhas... A mulher nasceu para mãe de família. O lar é o seu altar; deslocada dele não vale nada!

 

Todos concordaram; e Francisco Teodoro passou adiante, puxando o dr. Gervásio para uma aléia mais solitária do jardim:

 

Vou pedir-lhe um obséquio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de guarda-livros, o Mota, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bonde. O homem foi tratado na farmácia do Souto, mas... sabe que esses aparelhos feitos assim à pressa não inspiram confiança; peço agora ao amigo que amanhã vá lá vê-lo.

 

Perfeitamente. Onde mora?

 

Na rua Funda, tenho aqui o número...

 

Francisco Teodoro sacou de um bilhete escrito a lápis.

 

Rua Funda? Onde é isso?

 

É no outro mundo, lá para os lados da Saúde.

 

Enquanto Francisco Teodoro conversava com o médico, Camila desceu a escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.

 

As Gomes acharam-na muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não verem nela o menor sinal de decadência. Aquela pele alva e macia, aqueles cabelos negros sem um fio branco, aqueles dentes perfeitos e brilhantes, sem um toque sequer de ouro que atestasse a passagem dos anos e das mãos dos dentistas, faziam-na parecer sempre a mesma Camila dos tempos da Lapa, em que d. Inácia a conhecera.

 

Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até à raiz dos cabelos e foi ele o último que se aproximou, tocando-lhe de leve nos dedos estrelados de anéis.

 

Nina, que espreitava de cima, achou a ocasião oportuna para mandar pelo criado a bandeja de prata com o vermute.

 

Por que não subiram?

 

Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ela está crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos...

 

Não diga isso ao pé dela; apesar de que estou certa de que não toleraria as caudas; é muito criança e tem modos de rapaz. Não imagina, d. Inácia, que fantasia a desta menina! Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas árvores com o seu violino; e faz gosto ouvi-la tocar lá em cima. Diz que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso por de vestidos compridos. Que horror!

 

Ah! mas é preciso perder este costume; ela já tem os seus treze anos...

 

Quatorze... quase quinze! mas não parece.

 

Isso de trepar nas árvores é para rapazes; uma menina de educação tem deveres...

 

Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito perfumada.

 

Não fale mal de mim, d. Inácia; aqui tem a senhora uma fruta colhida por mim lá nos cocurutos da árvore. Se eu não tivesse ido buscá-la a senhora não a teria agora...

 

Ai está...

 

D. Inácia cheirou a fruta, com força, cerrando os olhos papudos; e depois, voltando-se:

 

Camila, você já comeu geléia de manga?

 

Não me lembra...

 

Pois é gostosa e fácil de fazer; olhe...

 

Enquanto d. Inácia desfiava a receita do doce, Camila olhava para ela, ouvindo o murmúro de outras vozes, querendo distinguir as palavras do médico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao Netuno, da esquerda, ou um - espreme-se e põe na peneira - da direita.

 

Nesse dia Mário não apareceu ao jantar e Francisco Teodoro queixou-se dele ao dr. Gervásio, em um vão de janela, num desabafo de sentimento.

 

Gervásio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer contudo uma única palavra. Teodoro assegurava:

 

A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal. A bondade excessiva leva aos desatinos... aquele filho é o mais velho e ela encontrou nele toda a sua ternura... não lhe levo a mal, - é mãe. Repare que para com as meninas ela é mais severa!

 

O dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite ele aconselhou Camila a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Ele conhecia a amante de Mário: era uma francesa gananciosa, podre de rica, de cabelos pintados e carne mole. Não valia nada e arruinara muita gente boa.

 

Camila prometeu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se na conversação geral, fugindo daquele assunto irritante.

 

A noite foram outras visitas, dois negociantes solteiros e duas moças da vizinhança, as Bragas.

 

Francisco Teodoro acoroçava os jogos e as músicas, acolhendo entre os joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se a tiravam para ele estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos, interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E foi no meio daquele barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da rua das Violas, se lembrou de falar das operações comerciais do Gama Torres, com elogio e assombro.

 

Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.

 

O capitão refugiou-se em uma janela. Ruth foi ter com ele: o moço ao princípio não lhe prestou atenção; seguia, através das cortinas, os olhares trocados entre Camila e Gervásio.

 

Seriam todos cegos, só a ele caberia descortinar aquele amor, tão evidente?

 

Ruth, derreando a cabeça para trás, olhava para o céu tranqüilo. Houve um largo espaço de silêncio entre ambos. Ruth disse por fim, sem abaixar os olhos:

 

Que parecerá a terra, vista de lá...?

 

Uma gota de luz...

 

Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrela. E como elas hoje estão bonitas! Se Deus me desse a escolher uma, eu ficaria embaraçada. Olhe, repare para aquela, como é grande e suave!

 

É Vésper...

 

Linda, linda, linda!

 

Levanta mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está límpido hoje! Maravilhosa noite!

 

Sim... estou vendo... cinco estrelas brilhantes em um lago negro. Por que é tão escuro aquele pedaço do céu ao lado do Cruzeiro?

 

Porque não tem astros.

 

Deveria ter sido por ali que Lúcifer caiu.

 

Por que?

 

Fez um rasgão no filó dourado. Por isso Deus pôs ali a cruz, para que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.

 

O capitão sorriu.

 

Se eu fosse pássaro, continuou ela, gostaria de voar à noite....

 

Como as corujas.

 

Não. As corujas são feias, metem medo, e eu só gosto do que é bonito. Quereria ser uma ave branca e com asas tão fortes que me levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar para o céu e que me desespero por não poder voar... Às vezes sonho que estou voando... e é tão bom!

 

O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatório do Castelo, o que lhe seria fácil, visto ter lá família na vizinhança. Assim veria bem a lua e a cor das estrelas.

 

Interessado por aquela imaginação ardente, o capitão Rino explicava à menina os nomes das estrelas, sentindo roçar-lhe pelo ombro o cabelo dela, vendo-lhe na transparência luminosa do olhar a chama de uma curiosidade insatisfeita.

 

Ele tinha uma linguagem clara, mas interrompia as frases de vez em quando, com sobressalto, voltando-se para a sala atraído pela voz de Camila.

 

Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naqueles movimentos e continuava a interrogá-lo, com o olhar aceso para o grande céu iluminado.

 

Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para uma valsa.

 

Quem toca?

 

Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal.

 

Apesar do barulho, Francisco Teodoro discutia com o Negreiros o arrojo do Gama Torres, atribuindo ao acaso o êxito da famosa empresa, o que o amigo negava, afirmando o tino especial do outro.

 

Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das moças. Carlotinha, não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros, atirou-se aos braços da Terezinha, a mais moça das Bragas. E as duas rodopiaram pela sala.

 

Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão. D. Inácia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito faladoras, prometeram à Carlotinha e à Judith moldes de casaquinhas modernas, como as que traziam vestidas. Camila acompanhava-as também, retardando o passo, entre o dr. Gervásio e o capitão Rino, que não dizia nada, recebendo em cheio o eflúvio daquela noite sem par! Um bonde passou e as Gomes partiram. Nina ficara em cima, acomodando a casa, vendo fechar as janelas da sala.

 

O médico chegou-se então para Francisco Teodoro, perto do gradil, à espera de outro bonde para o Jardim. Camila sentou-se, olhando-lhe para o perfil doce, ensaiando uma confissão que não lhe saía nunca dos lábios trêmulos. Camila abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se não bastassem a sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido.

 

Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto dela. A mão de Camila pousara no banco, e ele então, com o mesmo gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ela levantou-se, com modo brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da árvore. O olhar do Gervásio indagou logo de tudo, enquanto o marido falava em coisas indiferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma sonata harmoniosa e larga.

 

Embaixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquela música e naquela noite.

 

Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o vulto claro de Camila, que lhe fugia e se chegava para o seu amor feliz, toda embebida na poesia daqueles sons. Fechou os olhos para não ver...

 

A doçura da música enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado... Uma estrela cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso. Camila apontou-a com o dedo.

 

A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente Teodoro gritou para cima:

 

Não são horas de música. Para a cama!

 

Depois, em um murmúrio satisfeito:

 

O diabo da pequena tem sentimento, hem?

 

Tem mais do que isso, afirmou Gervásio: tem talento, tem inspiração!

 

Tanto esta é aplicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bonde, doutor!

 

O médico, despediu-se à pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo a sua comoção e saiu também, descendo a pé pela rua abaixo, apesar dos pedidos de Teodoro, que esperasse ali mesmo outro bonde para a cidade.

 

Camila entrou em casa antes do marido e procurou imediatamente a Noca, que vigiava o sono de Rachel e de Lia.

 

Mário já entrou, Noca?

 

Não senhora. Dionísio já veio há que tempos e disse que seu Mário ficava lá...

 

Lá?... Em casa da tal Luiza?!

 

É...

 

Se meu marido sabe! Olhe... se ele perguntar, você responda que Mário entrou com exaqueca, e que por isso não foi à sala. Ouviu? Diga que ele está dormindo.

 

E se ele amanhã perguntar a Dionísio?

 

Você previna primeiro o rapaz.

 

Também não sei pra que seu Mário faz assim; só pra meter a gente em embrulhos.. -

 

Tem paciência, Noca... ele é criança... Amanhã eu lhe darei conselhos...

 

Hum... Lia entornou o óleo da lamparina no chão, e eu já fico esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa!

 

Cala a boca; lá vem seu Teodoro. Boa noite, Noca!

 

Francisco Teodoro girou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado e fez à mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a caminho do dormitório, voltou-se e foi dizer-lhe:

 

Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mário aumentar, sempre será bom dar-lhe uma pastilha de antipirina...

 

Sim, senhor, eu vou ver...

 

Francisco Teodoro saiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a cabeça.

 

 

 

 

IV

 

 

Era meio-dia, quando o dr. Gervásio saltou do bonde e encaminhou os seus pés bem calçados para a rua dos Beneditinos.

 

Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções fragorosos abalavam os paralelepípedos, ameaçando esmagar tudo que topassem adiante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e pés gretados, esbofavam-se agarrados aos grilhões dos varais, saltando diante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.

 

Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café cru e a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a atmosfera de uma substância gordurosa e fétida, sensível à pele pouco afeita a penetrar naquele ambiente.

 

Através dos cristais da sua luneta de míope, o dr. Gervásio olhava para tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como se o olfato o ajudasse também um pouco a conhecer o porquê e o destino de todas aquelas coisas.

 

Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do veston, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho faulante de um rubi, ele atravessava como um estrangeiro aquelas ruas, só habituadas aos chapéus de coco, às roupas do trabalho diário, alpacas e brins burgueses, ou aos trapos imundos dos carregadores boçais.

 

Como tivesse perdido o endereço do velho Mota, teve o dr. Gervásio de subir ao escritório de Francisco Teodoro. No armazém, em baixo, a grita do negócio tocava à loucura: pareciam todos impelidos por molas flexíveis de movimentos rápidos; eram máquinas, não eram homens, aquelas criaturas nunca dobradas ao peso do cansaço...

 

O dr. Gervásio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua ginástica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aqueles homens tiravam as sacas do alto das pilhas e as punham aos ombros. O seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado diante daqueles bíceps de atletas.

 

Francisco Teodoro sorria-se do seu espanto, e para que ele não perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazém, o Ribas, e mandou-o acompanhar o médico até a casa do enfermo.

 

Será melhor assim; disse ele, não haverá perigo de errar o caminho, porque, conquanto você seja carioca, nesta parte da cidade, olhe que é mais estrangeiro do que eu!

 

O Ribas sacudiu a poeira do chapéu, enterrou-o até as orelhas enormes, e, balançando os longos braços sem punhos, dentro dum casaco enfiado à pressa, caminhou adiante, todo vergado, como um velho...

 

E por toda a rua de S. Bento, ele guardou aquela compostura, sem relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha, modificou a atitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar atrás, até marchar ao lado do médico, morto por lhe pedir um cigarrinho.

 

O dr. Gervásio percebeu-lhe a vontade.

 

Deu-lhe cigarros.

 

Atravessavam o largo da Prainha, que o sol alcatifava de ouro. Fazia calor. Ribas lembrou:

 

Se o senhor quiser tomar alguma coisa, aquele botequim é muito bom.

 

Não tenho sede.

 

É que lá para diante não há nenhum que preste...

 

"O rapaz quer cerveja, pensou consigo o médico;. pois façamos a vontade ao rapaz".

 

Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com cromos nas paredes e papéis de cor no lampião de gás, havia três mesinhas vazias e uma ocupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente, sacudindo-se nas suas longas sobre-casacas ensebadas. Tudo às moscas. O dono da casa veio, com ar sonolento, pedir as ordens; o dr. Gervásio deu-lhas, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.

 

Aquele instrumento abandonado sugeriu-lhe a idéia das noitadas de modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou à claridade baça do luar, aqueles prédios teriam ouvidos com que escutassem músicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos seus dias rudes tornaria de chumbo o seu sono, impassível a sua alma cansada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá dentro como um leve zumbir de abelhas...

 

O dono do botequim julgou ver no olhar do médico um reparo ao desleixo da sala e arrebatou a viola para dentro.

 

"Foi-se a única nota pitoresca", pensou Gervásio, atirando os níqueis para a mesa.

 

Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o médico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu conjunto de velharias e sobejidões.

 

A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: becos sórdidos, marinhando pelo morro; casas acavaladas, de paredes sujas; janelas onde não acenava a graça de uma cortina nem aparecia um busto de mulher; caras preocupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande musculatura, e ruído brutal de veículos pesadões. faziam daquele canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preocupada bestialmente pelo pão.

 

Subiam a rua da Saúde. Chegando à esquina do beco do Cleto, dr. Gervásio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um vapor do Lloyd.

 

Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço límpido. Em terra vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portugueses levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche.

 

Foi logo adiante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da véspera. Eram quatro: um caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino loiro, que os outros denominavam o Bota - por trazer uma bota velha suspensa de um barbante a tiracolo -, e um italianinho sardento, sem pestanas.

 

Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo ontem no jogo... reclamavam.

 

E o Ribas defendia-se, hipocritamente:

 

Que jogo? Eu?!

 

Sim, senhor, não se faça de engraçado!

 

O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: ele era o caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas.

 

Dr. Gervásio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de provocações.

 

Que se arranjasse.

 

A curiosidade instigava-o a andar para diante; por bom humor talvez, sabia-lhe bem aquela caminhada. Tinha um olhar curioso para cada fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janela de vidros quebrados um vaso de cravos brancos.

 

As flores trouxeram-lhe à idéia as mulheres.

 

Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou embarcadiços de pele queimada, ou mulatos chinelando nas calçadas, mostrando os calcanhares sem meias, num batepés barulhento.

 

Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia também o do açúcar ensacado, o das mantas nauseabundas da carne-seca, o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazéns, e do de sabão das fábricas, numa mistura enjoativa e asfixiante.

 

Veio-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade, abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da doidice - e olhou para si, receoso de encontrar nódoas e imundicie por toda a sua pessoa.

 

E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já esquecido do velho Mota. Ao pé das Docas parou.

 

No chão, perto da porta, sacas de milho sobrepostas exalavam cheiro de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do cânhamo, passeava ao sol.

 

Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma baiana de ombros roliços e dentes sãos vendia gergelim, mendubi, batata doce e tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem pelos trilhos para o cais, e as galerias em cima, por cujas rampas as sacas, apenas impelidas, desciam vertiginosamente.

 

Dr. Gervásio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranqüilo mas amarfanhado, atando com mãos ligeiramente trêmulas a gravata suja.

 

O senhor já passou a rua Funda!

 

Nesse caso voltaremos.

 

E voltaram, sem que o médico diminuísse de atenção, achando curioso um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada de rótulas, com janelas baixas, de caixilhos miúdos, muito velhinhas, sugerindo lembranças, provocando divagações... Então ele parava, erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquilo. O Ribas não compreendia, e ficava à espera, com ar estúpido e os braços pendurados.

 

Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo. disse com orgulho:

 

Esta loja é de minha irmã... ela está ali... o senhor dá licença?

 

Pode ir.

 

Dr. Gervásio olhou. Em um balcão tosco e estreito almoçavam um homem macilento e uma mulher moça, grávida, vestida de chita preta, sentada em um banco, com crianças nuas agarradas à saia. O almoço parecia parco, - não havia toalha nem vinho; o médico surpreendeu de relance dois copos dágua e qualquer coisa pálida dentro de um prato. Para não errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a meia dúzia de objetos expostos, na vidraça modestíssima da porta: linhas de redes, de crochete de costura, anzóis e agulhas, cigarros, objetos de pescaria e cartas de A B C.

 

O Ribas não se fez esperar; pareceu ao médico que o não tinham recebido bem...

 

Seguiram dali por diante silenciosos, até que o Ribas avisou:

 

Aí está a rua Funda.

 

Dr. Gervásio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscências de um quadro lhe sugeriam.

 

Aquela rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da Conceição, ladeada de casas de altura desigual, de onde em varais espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viela de Nápoles velha, onde o pitoresco não é por certo maior, e de que ele tinha uma aquarela em casa.

 

É interessante, murmurou baixo, enquanto o Ribas, na frente, ia galgando a rua e batia à porta do sr. Mota, um sobradinho amarelo, de janelas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.

 

O velho Mota dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna estendida sob uma colcha de retalhos de chita. As palmas do médico a filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o dr. Gervásio, ela estacou interdita, com os olhos arregalados e aconchegando com as mãos tontas a gola do paletó de chita.

 

Quem procura?

 

Dr. Gervásio explicou-se.

 

Faça o favor de entrar...

 

A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma colhendo as mostras de desmazelo da casa: aqui um pé de meia caldo da cesta de costura, acolá um pano de crivo roto, pendurado de um braço de cadeira.

 

O velho, despertado com sobressalto, mal atinava com o que dizer.

 

Sim, ele conhecia o médico, e agradecia o cuidado do patrão.

 

A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas pelo uso da vassoura e da cozinha. O médico acompanhou-a com a vista, depois apressou-se em examinar o aparelho do doente, achando tudo em ordem, bem prevenido. Ainda bem; ele desacostumara-se dos seus trabalhos profissionais. A clínica irritava-o, como se tivesse pelos homens um interesse medíocre.

 

Sentindo os dedos do médico percorrerem-lhe a perna, seu Mota descrevia, numa lengalenga, a sua queda e a sua falta de recursos. Supunha fazer falta, caíra exatamente em uma ocasião de grande movimento no armazém....

 

A filha trouxe café em xícaras de pó de pedra; dr. Gervásio bebeu uns goles por gentileza e o velho sorriu, aprovando-lhe a amabilidade.

 

O Mota pedia desculpas da casa... não morava ali por gosto. Oh, se o dr. Gervásio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha vivia! Com a morte dela tudo desandara...

 

O médico abreviou as lamúrias, prognosticando cura rápida, e despediu-se, sem notar que a moça reaparecera na salinha, com outro casaco enfeitado a crochet.

 

Embaixo respirou de alívio e começou a descer a rua, por entre o palavreado gutural de papagaios suspensos às janelas.

 

Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir daqueles abomináveis bichos; e ele apressou-se; mas logo na esquina pensou em andar por ali e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha e desejou saber que mundo haveria lá em cima. Subiu.

 

Crianças, nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam sozinhas, ladeando precipícios.

 

No alto o dr. Gervásio passou a outra rua, de grandes pedras engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas falavam alto e gatos magros se esgueiravam rente às paredes.

 

Pareceu ao médico que a atmosfera ali era mais fria, de uma umidade penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia que sé pudesse dormir e amar naquele canto sinistro da cidade, mais propício às minhocas do que à natureza humana, quando reparou para uma mulher moça, que, com uma lata de querosene, aparava água em uma bica. Era pálida e linda. Também ela olhava para ele com um olhar de veludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.

 

Esses encontros fortuitos traziam às vezes ao médico comparações singulares. Aquela mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma consciência forte, a sua pele, cor de luar uma saudade infinita. Era a Agar da Bíblia; urna açucena num canteiro de lodo...

 

Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas, corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o mistério e o crime. Assaltou-o a idéia de andar por ali à noite, disfarçado de qualquer maneira. E quando o sol se esconde quê o homem se mostra bem. Ele beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e penetraria em um daqueles albergues.

 

Aos seus instintos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a lembrança, observando se a rosa da sua lapela ainda estaria fresca.

 

Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta trapeira atiravam água de barrela à rua. A água corria espumosa, em fios grossos, por entre os pedregulhos desiguais.

 

Bonito!

 

Daí em diante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos se fixavam com estupefação no seu chapéu alto. Tinha a impressão de atravessar por meio de ruínas; parecia-lhe que em toda aquela rua não haveria um único caixilho com vidros, uma única chave sem ferrugem, uma única dobradiça perfeita.

 

Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, resignada a tudo: ao pão duro e à sombra de qualquer telha barata. Uma pobreza avarenta aquela, que formigava por toda a encosta de lagedos brutos, entre ratazanas e águas servidas.

 

O dr. Gervásio interrompeu o curso das suas idéias ao ver, atônito, d. Joana sair de uma casa.

 

Ela vinha cansada, com o largo rosto muito afogueado.

 

Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e em níqueis.

 

Ela não se mostrou menos espantada de o encontrar naqueles sítios e foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar livre varria toda a esplanada em frente ao palácio episcopal, e a luz de um céu muito anilado e puro caía com todo o brilho.

 

Respondendo a uma pergunta do médico, que aspirava com força o ar do mar, como se quisesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que passara, d. Joana explicou que andava a pedir para a missa cantada. Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrível!) era sempre nessas ruas de gente miúda, miserável mesmo, que ela colhia maior número de esmolas. "A pobreza está mais perto de Deus", dizia ela no seu doce tom de devoção.

 

Depois, ali mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha. Camila fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a igreja. Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos daquela alma as coisas do céu!

 

Que reparasse para os nomes judaicos que ela pusera nas filhas: Ruth, Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no calendário!

 

As crianças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o que a magoava.

 

Precisava salvar as crianças.

 

Francisco Teodoro, sim, esse era bom católico; gostava de o ver na Candelária, com a sua opa de irmão. Um santo homem!

 

Mas d. Mila vai à missa todos os domingos...

 

Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um preceito de religião. Camila só vai à igreja para se mostrar. Basta ver como ela se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve algum tempo no colégio das Irmãs: pois mal sabe o catecismo e ainda não cuidou da primeira comunhão! Eu peço a Deus por eles, mas...

 

Faz bem.

 

O senhor é dos tais, que não querem crer.

 

Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.

 

Aceito; rezarei nela pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o senhor está empurrando Camila para o inferno...

 

Eu?!

 

Quem mais!

 

Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrário...

 

Sim, vá falando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que eu não sei de tudo? O único cego ali é o pobre do marido, que não merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu pedir a Nossa Senhora do Rosário, minha madrinha... mas os pecados vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes, sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para que isso acabasse em bem... Ele é um sacerdote, deve ser atendido... enquanto que eu, pobre pecadora...

 

Mas a senhora está louca, d. Joana?! balbuciou o médico, mal disfarçando a sua ira; não a entendo!

 

Com medo de uma descarga de censuras, d. Joana despediu-se. Ia ainda dar uma volta pela Pedra do Sal.

 

O dr. Gervásio mal a cumprimentou; sentia-se colado de espanto àquele chão poeirento. Os seus amores, que ele julgava bem ocultos, tinham varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do Castelo e da Conceição! Quis desmentir a velha; mas os seus olhos claros, de um castanho louro, não o deixaram falar, cortando-lhe pela raiz qualquer protesto. Ela não falara só pela boca, que a tinha sincera; mas também pelos olhos, em cuja limpidez aparecera toda a verdade.

 

O médico viu-a, com ódio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé, as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que ainda os franzidos da saia exageravam.

 

Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ela tornasse, para lhe dizer ainda alguma coisa do pecado.

 

O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre. Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus sentimentos eram de espécie confusa e tristonha.

 

Em outros tempos, de mais verdes anos, a divulgação de tais amores não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ela, sim, devia ter cuidados e mistério; mas esse mesmo dever de discrição absoluta não seria abafado pela voz do egoísmo, sempre a mais imperiosa nos homens, e pela da vaidade, se outras circunstâncias não lhe exigissem segredo? As almas fortes dos homens têm dessas pequenices, e a dele, sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem propósito, de causar inveja aos menos afortunados...

 

Cansado, nervoso, picado pelo sol, o dr. Gervásio seguiu à-toa, desceu o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos cumprimentos dos conhecidos, que ia encontrando à proporção que se aproximava do seu centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquele giro, se lhe esboçava na lembrança. Aquelas riquezas, aquele movimento, aquelas casas, aquele rumor de população atarefada, baixa e mesclada, aquelas altas ruas despenhadas em escadarias imundas e barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de lixo, de onde surgia a voz melada, untuosa da tia Joana, oferecendo promessas, confidenciando com estranhos. sobre os seus amores e os seus adorados segredos.

 

Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou à rua do Ouvidor,

 

Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, à venda na esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e um vestido bem feito, distraíram-no um pouco...

 

 

 

 

V

 

 

Noca foi ao quarto de Mário, avisá-lo que a mãe lhe queria falar.

 

Você sabe pra que é? perguntou-lhe o moço.

 

Desconfio; há de ser por causa da tal francesa... Parece que ainda foi outro dia que você nasceu, e já anda por aí na extravagância!

 

Vai pregar a outra freguesia.

 

Verdade, verdade, seu pai tem razão...

 

Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papai, disse Mário com ironia, dando o último retoque à toilette. Nisso abriram a porta, ele voltou-se; era a mãe.

 

Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a janela e saiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.

 

Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.

 

Achei melhor falarmos aqui. Não seremos interrompidos.

 

Como quiser. Sente-se, mamãe.

 

Camila sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Ele, pegando-lhe nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:

 

Então?

 

Estás nos dando sérios desgostos, Mário.

 

Eu?

 

Sim; bem sabes de que se trata.

 

Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...

 

As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!

 

As minhas faltas são tributos da mocidade, fáceis de perdoar.

 

Enganas-te.

 

Mário largou as mãos da mãe e tornou-se muito sério.

 

Então não compreendo.

 

Compreendes. Falo... falo dessa mulher com quem andas agora... dizem todos que ela arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...

 

Oh! mamãe...

 

Não é criatura por quem um rapaz da tua idade se apaixone. Eu quando a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.

 

Mário corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.

 

Receio sempre ver-te aparecer a seu lado; porque eu sei que tens tido a coragem de te apresentar em público com ela. Vê a que horror expões tua família, já não digo teu pai, que é um santo, mas que enfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte sujeitar-nos a uma decepção dessa ordem...

 

Mário mordia os beiços, brancos de raiva.

 

Mamãe...

 

Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a exploração daquela mulher, Deixa-a quanto antes, hoje mesmo, ouviste? Teu pai exige isso de ti, ele sabe que por causa dela tens cometido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dívidas e mais dívidas!

 

Mário continha a custo a sua cólera, apertando com as mãos, nervosamente, as costas de uma cadeira.

 

Põe os olhos em teu pai. Segue-lhe o exemplo.

 

Mário sorriu com desdém.

 

Meu pai está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.

 

Bem sabes que ele nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um animal.

 

Os portugueses nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras aspirações. Meu pai não me compreende.

 

Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!

 

Ah, o dinheiro! logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse ele com redobrado escárnio.

 

Por isso e por outras coisas; exclamou Camila, espicaçada pela ironia do filho.

 

Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou ele, plantando-se diante dela, com raiva.

 

Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua saúde, que é fraca, e da tua reputação.

 

Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me fala nisso!

 

Camila estacou, sem atinar com uma resposta, compreendendo o alcance das palavras do filho. A surpresa paralisou-lhe a língua; o sangue arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reação sacudiu-a e então, num desatino, ferida no coração, ela achou para o Mário admoestações mais ásperas. Percebia que a língua dizia mais que a sua vontade; mas não podia contê-la. A dor atirava-a para diante, contra àquele filho, até então poupado.

 

Recebendo em cheio a cólera materna, Mário julgou perceber nela insinuações de outrem. Havia de andar por ali a intervenção danada do dr. Gervásio. Quando Camila acabou de falar, ele começou, destacando as palavras, que saíam pesadas:

 

A senhora pode censurar-me em nome de meu pai, visto que ele não teve coragem para tanto.; mas em seu nome, não!

 

Mário!

 

Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os gostos que eu tenho?

 

O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso agora que desespera teu pai...

 

Meu pai é cego para as culpas dos outros; por que não será também cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva à família que...

 

Basta!

 

Não basta; a senhora assim o quis; conhece o meu gênio., podia ter evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim; afinal eu precisava dizer-lhe alguma coisa, eu também. E isto: - odeio o dr. Gervásio, e dou-lhe a escolher entre mim e ele.

 

Camila fixou no filho olhos de espanto.

 

Houve um largo silêncio. Depois ele repetiu, martelando as palavras:

 

Ou ele ou eu.

 

A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefação. Todo o corpo lhe tremia, e lágrimas vieram pouco a pouco borbulhando, grossas e pesadas, nos seus olhos estáticos. Tentou defender-se, chamar de calúnia aquela idéia; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e ela encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se tentasse esmagar o coração ofendido.

 

Mário caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a mãe, ia falar ainda, mas viu-a de aspecto tão miserável, que uma súbita misericórdia se apoderou dele.

 

Ela chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de desaparecer.

 

Perdoe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse!!

 

Camila levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quase imperceptivelmente:

 

Nada...

 

Mário recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Camila, ainda na poltrona, com as costas para a janela, os cotovelos fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que pudesse convencer o filho da sua inocência. Tudo lhe parecia preferível àquela humilhação. Daria a luz dos seus olhos, - ah, antes ela fosse cega! para que Mário a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas crianças.. Compreendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem para a dor. Colhem rosas as insensíveis, que vivem eternamente na doce paz; para as outras há pedras, duras como aquelas palavras do seu filho adorado. Antes ela fora surda: não as teria ouvido!

 

Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos... e aí estava como dele só se dizia bem! Ele amara outras pela volúpia, pelo pecado, pelo crime; ela só se desviara para um homem, depois de lutas redentoras; e porque fora arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, aí estava boca do filho a dizer-lhe amarguras...

 

Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na veneziana do quarto.

 

Mário aconselhou:

 

Será bom aparecer; as meninas estão notando a sua ausência...

 

Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camila levantando-se.

 

Empurraram a porta. Era o Dionísio que vinha saber se o patrão precisaria do carro. Ouvira falar na véspera em um almoço na Gávea.

 

Mário respondeu com impaciência e sem abrir:

 

Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito à mãe; puxou-a para si, beijou-a na testa e, com carinho:

 

Diga a meu pai que hoje mesmo me despedirei dela...

 

Quando Camila saiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gêmeas, que a puxavam para o jardim, gritando com entusiasmo:

 

Venha ver, mamãe!

 

Que coisa linda, mamãe!

 

O homem disse que foi papai que mandou!

 

Adivinhe o que é!

 

Diga; sabe o que é, mamãe?

 

A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda trêmula ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe aquelas palavras terríveis. As crianças riam, e aquelas risadas eram como um clangor de sinos reboando em torno dela. Os sons avolumavam-se, repercutiam no seu cérebro dolorido. Ele sabia! Mário sabia! Quem lhe teria dito? que boca imunda profanara aquele segredo, em que há tantos anos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da casa saberiam também?

 

Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a cores, um menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéu de sol azul.

 

RacheI bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãozinho e a menina Maria.

 

Maria, não! há de se chamar Cecília, protestou Lia.

 

Há de ser Maria, há de ser Maria e há de ser Maria!

 

É verdade, mamãe, que a menina se há de chamar Maria?

 

Camila não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para os bonecos, pôs-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus bibes brancos, e os cabelos soltos.

 

Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ela de repente. puxando-as para si.

 

Eu gosto muito!

 

Eu gosto mais!

 

Mentira! quem gosta mais sou eu!

 

Eu acho mamãe muito bonita!

 

Eu também acho.

 

E se eu fosse feia... bem feia... se... por exemplo, eu tivesse bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pele repuxada... ainda assim vocês gostariam de mim?

 

Muito, muito!

 

Se Deus me desse uma doença repugnante... como aquela doença do Raimundo, sabem? a morféia, e que todos fugissem de mim com nojo e com medo... que fariam vocês?

 

Eu havia de. estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe meter a comida na boca; mudar-lhe roupa e contar-lhe histórias...

 

E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...

 

Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!

 

Camila beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade caiu sobre o seu rosto pálido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas defendê-la-iam dos maus tratos do mundo.

 

A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem também o grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Teodoro.

 

Nina vinha na frente, conto seu modo tranqüilo de ménagère, bem penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um aventalzinho circundado de rendas. Atrás dela, Noca bamboleava o seu corpo cheio, sem colete, vestida de chita clara, rindo alto de uma anedota do copeiro.

 

Camila teve um sobressalto.

 

Também aquela, a Nina, saberia tudo? Teve ímpetos de lhe ir ao encontro e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabelos negros da Rachel e da Lia, que se cosiam às suas saias, e passou-lhes as mãos na cabeça, devagar, numa carícia muda, grata ao seu amor e à sua inocência.

 

Que engraçadinho! não acha, tia Mila, que há de fazer bonita vista depois de colocado no meio do lago?

 

Acho...

 

É de muito gosto!

 

Noca tinha pena. Coitadinhas das crianças! haviam de ir assim tão nuas para o sereno das noites? Muito chic!

 

Uns admiravam a beleza da menina, outros a do menino, e afinal concordavam que o conjunto é que valia tudo. Ruth veio por último; queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram a opinião dela; não era tão bonito, aquilo?

 

Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem...

 

Isso é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é boneco! Você é enjoada! É verdade! Mário ainda não viu... Oh! Dionísio! chama aí seu Mário!

 

Nina voltou-se, vermelha, para a janela do primo; ele não apareceu, e Ruth, instando pelo almoço:

 

Que milagre! Dr. Gervásio hoje não apareceu! exclamou sem intenção, colhendo uma Marechal Neel para o peito.

 

Camila estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal disfarçado susto. Por que teria ela dito aquilo?

 

Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um trevo de quatro folhas, para dar à pobre da Nina.

 

Oh! se ela encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo, e assim o diabo da francesa iria bater a outra porta... Deus fizesse com que ela achasse um trevo de quatro folhas!

 

Meia hora depois estavam todos à mesa, e ainda a mulata procurava com ânsia a folhinha fatídica.

 

Mário atravessou o jardim; ela sentiu-lhe os passos e voltando-se chamou-o.

 

Uê! porque não foi almoçar?!

 

Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe...

 

Não foi se despedir dela?

 

Não... já nos falamos... diga isso mesmo.

 

Hum!... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está ninguém de fora: pode ir. E sua mãe...

 

Cantigas. Adeus.

 

Não. Olhe, Mário, lembre-se do que lhe diz esta mulata: - Sua felicidade está aqui... As estrangeiras só gostam de dinheiro...

 

Adeusinho!

 

Adeus, meu filho...

 

A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ela ajudara a criar desde o primeiro dia.

 

Como ele é bonito! pensava ela: as mulheres têm razão de o preferir a todos!... D. Nina não merece aquilo; mas, enfim, antes ela do que a tal sanguessuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não deve... Ele morre pela outra e é esta quem morre por ele!... Verdade, verdade, ele é a flor da família... em questão de boniteza, garanto que não há pessoa que se iguale a Mário... Eu bem dizia que ele poria as irmãs num chinelo! Por que não teria vindo o dr. Gervásio... o diabo do feiticeiro deu bruxaria a nhá Mila... Se seu Teodoro sabe da história!... que estralada! Mas quem há de dizer? Boca, fecha-te! boca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem! Mário tomou o bonde... lá vai ele almoçar com a outra... Ora! se isso lhe dá gosto, que aproveite!

 

Com um gesto decidido, ela rematou o seu pensamento egoísta e caminhou para a copa, à procura de almoço.

 

 

 

 

VI

 

 

Numa manhã límpida, cor de safira, Camila e Ruth entraram com Teodoro e o dr. Gervásio na lancha - Aurora - em demanda do Netuno.

 

O sol cobria com uma rede de ouro movediça a superfície das águas; fazia calor.

 

As senhoras ajeitaram os folhos das suas saias de linho no banco da ré, e abriram as sombrinhas claras.

 

Sempre gostaria que me provassem a serventia desses chapéus de sol. Não resguardam nada. São objetos inúteis. Eu se fosse mulher nunca me sujeitaria a modas, disse Teodoro.

 

Faria mal. Quanto aos chapéus, acho-os bonitos; são muito decorativos. Veja como a cor de rosa da sombrinha de Ruth, e a creme de D. Mila se harmonizam neste fundo azul. Digam o que quiserem; para mim a intuição da arte está na mulher, retrucou Gervásio.

 

Pode ser. Eu só gosto do que é positivo e prático. Enfim, nas senhoras ainda eu perdôo certas niquices...

 

Sabia Teodoro que o espírito e a posição de um homem se espelham nas suas roupas; por isso as dele eram sempre graves.

 

Para tudo que não fosse o trabalho, envergava a sobrecasaca, bem abotoada sobre o estômago arredondado.

 

A sua cartola luzidia, bem tratada, afirmava às turbas que ia ali alguém de cortesia e respeito; era como se o seu título de comendador tremeluzisse no cetim daquele pelo. Não saía de casa sem carregar o guarda-sol de excelente seda portuguesa e castão de ouro, traste que o protegeria em um amplo círculo, se acaso chuvas caíssem inesperadamente. Previa tudo; com habilidade, harmonizara à maneira do traje a dos seus discursos, sempre entrecortados de: tais como, de maneiras que, porém, tal e coisas...

 

Já a lancha singrava as ondas mansas, quando ele contou ao dr. Gervásio que aí uns colegas seus amigos queriam arranjar-lhe um título de Portugal; ele fizera constar que não aceitaria a distinção, mas, se a coisa viesse, que havia de fazer?

 

O médico respondeu com um gesto vago, em que perpassou a sombra de um sorriso.

 

Outros usarão desses títulos com menos direito, continuou o negociante, não digo que não; em todo o caso...

 

Mila lembrou que, para justificar essa honraria, bastariam as grandes somas com que ele entrava nas subscrições.

 

Ele riu-se.

 

Estou vendo que você quer ser viscondessa, hem?

 

Ela encolheu os ombros. Em verdade, nunca pensara nisso. Gostava de viver bem, à larga, com muito dinheiro. Esse tinha-o, bastava-lhe.

 

Iam todos calados, quando Ruth suspirou:

 

Tenho pena de não ter trazido o violino!

 

Que tolice! havia de ter graça!

 

Mamãe, quando eu me comovo, gosto de tocar. Entendo-me tão bem com a música!

 

Os pais riram-se da asneira e o dr. Gervásio fixou o rosto pálido da mocinha. Esse não riu.

 

A lancha Aurora, muito faceira, reluzente nos seus metais, cortava as águas com rapidez, soltando silvos que assustavam as senhoras.

 

Este passeio está-me abrindo o apetite para uma viagem... Se as coisas continuarem como até aqui, é fato assentado que levarei a minha gente ainda este ano à Europa, disse Francisco Teodoro.

 

Camila e o médico trocaram um olhar de susto.

 

Vendo o lindo rosto, sempre tão fresco e tão moço, de Mila, os seus cabelos negros, o seu colo cheio, os seus olhos de veludo, provocantes e apaixonados, toda aquela figura de mulher amorosa, quente e grave, que ele não se cansava de estreitar nos braços, a idéia de uma separação afigurou-se-lhe impossível e monstruosa.

 

Parecia-lhe que a amava ainda mais nesse dia do que em todos os passados; a doçura da sua convivência enternecia-o, como se a entrevisse já através da saudade.

 

Ela assegurou-lhe em um sorriso que não partiria. Não haveria forças capazes de a arrancarem do seu amor.

 

Francisco Teodoro mostrava agora à filha o casco branco de um navio de guerra, onde roupas lavadas de marinheiros enfestoavam de azul o castelo de proa. No cimo de um mastro, um homem que desatava cordames, tinha, na altura, proporções de boneco.

 

Gaivotas tontas voavam em bandos circulares, ponho grinaldas de asas fugitivas no azul imaculado. Longe, a casaria da cidade, com as suas torres, esfumava-se em uma neblina rósea, esbatida em diáfana violeta.

 

Como é bonito! exclamou Ruth fulgurante, bebendo o ar que vinha em cheio da barra. Está-me parecendo que, se eu fosse rapaz, seria marinheiro.

 

Outra tolice.

 

Mamãe, o azul é uma cor tão bonita!

 

Se fosses rapaz... se fosses rapaz... realmente antes fosses, tu o rapaz e Mário a rapariga... resmungou Teodoro.

 

Pobre do Mário... já tardava... disse Mila.

 

Isto não é falar mal; é a, verdade.

 

Não é falar mal dizer que ele não tem aptidões, que é insignificante?

 

Eu não disse tal.

 

Mas deu a entender. Eu nem sei até como ele é tão bom, ouvindo tantas insinuações. Se fosse outro, sabe Deus o que teria acontecido! É porque tem mesmo muito bom coração. Os erros que comete são naturais da idade...

 

Senhora! não o defenda. Bem sabe porque é que eu digo as coisas. Não falo à-toa.

 

Não, ela não sabia; o que via era uma grande injustiça, pesando continuamente sobre a cabeça do filho. Que mais queriam que o pobre fizesse? Ele não nascera para os trabalhos brutos, do comércio, era um delicado. Certamente que não tinha idade para se divertir a jogar a bisca em família; os seus dezenove anos tinham outras exigências. Reparassem todos que era naturalíssimo...

 

Qual naturalíssimo, qual nada! Indecente, sim,, é que aquilo era. Um bilontrinha, o tal seu Mário. Ainda na véspera soubera de novas proezas. Ele deixara a francesa, sim, senhores; parecia ceder ao conselho da mãe; mas para que? Para andar em público de braço dado com outras, talvez piores, e entrar em casas de jogo, que a polícia ataca!

 

Camila mostrou Ruth ao marido, com um olhar aflito, para que moderasse os furores da sua linguagem.

 

Contente por cortar o diálogo, o médico apontou um vapor, que já se via de perto.

 

O Netuno... é bonitinho, reparem.

 

Não é feio, não... resmungou Teodoro, já desviado dos seus pensamentos; mas... esperem! lá no convés parece estar uma mulher. Que diacho! o capitão Rino será casado?

 

Se é possível! se ele fosse casado nós estaríamos fartos de o saber. Você diz cada tolice...

 

Ora tolices! que mal fazia que o homem fosse casado, hein?

 

A mim? nenhum certamente. Que me importa!... e Mila riu-se, querendo subjugar à força a raiva que lhe ficara da discussão com o marido.

 

O médico tornou-se sombrio. Que mal faria que o outro fosse casado! Nenhum!... certamente. E se dissessem dele a mesma coisa a Mila, que responderia ela! a mesma coisa? com o mesmo levantar de ombros, com o mesmo desdém? Teve ímpetos de lho perguntar; mas como? Ali era impossível... Ficava para depois.

 

A lancha atracou ao Netuno, e do portaló desceu o capitão Rino, vestido de flanela branca, com uma bela rosa vermelha na lapela.

 

Estranharam-lhe o porte, acharam-no muito mais elegante; parecia outro. Tinha descido para ajudar as senhoras. Ruth saiu da lancha num salto, mostrando as pernas finas, contente por aquela novidade, aquele mar circundado, de montanhas azuis, aquelas velas brancas e aqueles cascos alcatroados, flutuantes, com que se cruzara no caminho. O capitão Rino mal olhou para ela; suspendeu-a, com pulso forte, até o primeiro degrau da escada e voltou-se logo para Camila, com olhar ansioso, estendendo-lhe os braços. Ela caiu-lhe em cheio sobre o peito largo e riu-se, pedindo desculpas. Era tão pesada! Ele corou, tonto, trêmulo, sem achar uma palavra com que lhe respondesse.

 

Francisco Teodoro, cuidadoso da cartola e das abas da sua ampla sobrecasaca, não prescindiu da mão auxiliadora do capitão; o dr. Gervásio veio por fim, tirando num cumprimento o seu chapéu mole.

 

Em cima, no tombadilho, marinheiros passavam vagarosos, indiferentes pelos visitantes. Junto ao portaló, estava uma senhora, a mesma, evidentemente, que eles tinham avistado da lancha.

 

Era uma mulher delgada, branca e loira, com um par de olhos semelhantes aos do capitão Rino, de um azul de faiança, e uma fisionomia vaga, de anjo decorativo. Contrastando com o tipo, trazia uma toilette escarlate, que lhe dava valor à pele cor de lírio pálido, e parecia uma ofensa ao seu corpo virginal. O capitão apresentou-a logo a todos com duas palavras:

 

Minha irmã.

 

Foi depois, aos poucos, durante a visita do Netuno, que viram desde o tombadilho até ao porão, que souberam que essa irmã, até ali ignorada, se chamava Catarina, e vivia em companhia da madrasta, senhora viúva, em uma frondosa chácara do Cosme Velho.

 

Catarina ajudava o irmão a mostrar o Netuno, e por vezes as suas explicações tinham maior clareza que as dele. Se ele parava, ela tomava-lhe a palavra cortada. completava-a e seguia para diante com todo o desembaraço.

 

Depois de percorrerem o navio, o capitão Rino convidou todos para um vermouth gelado, na rua Câmara.

 

O espaço não era grande. Camila, Ruth e Catarina apertaram-se no mesmo divã, de marroquim cor de azeitona, encaixilhado em cedro, Francisco Teodoro recostou-se em uma poltrona ao pé da mesa, enquanto o médico se arranjava ao lado de uma estante esguia, abarrotada de livros, e o capitão, em pé, narrava ao negociante vários episódios das suas viagens ao norte.

 

Que país! que maravilhoso pais este nosso! completava ele.

 

É pena não ter povo. sentenciou Teodoro.

 

Não é pena. Todas essas terras, ainda hoje virgens, serão num dia melhor a glória do mundo, quando ele, esgotado pela exploração das outras, voltar para elas olhos de amor. Guardam a sua fecundidade para uma outra raça de grandes ideais, que ainda há de vir. Tão formosas promessas não se fazem ao vento...

 

Outra raça... outra raça... vinda de onde?! nascida de quem?!

 

Da nossa, talvez; e das outras. As gerações que definham nos países velhos aperfeiçoam-se e revigoram-se os novos. O futuro do mundo é nosso, e será a coroação das nossas bondades e virtudes, visto que o povo brasileiro é bom.

 

Francisco Teodoro não concordava em absoluto; não podia perdoar a República. Aquela revolução fora uma revelação. Sentia-se engasgado com o exílio do imperador. Torceu assim a conversa para novo assunto.

 

Dr. Gervásio conhecia as idéias políticas de Francisco Teodoro; ouvia-lhe sempre os mesmos comentários. Estava inteirado; quanto às do outro, não lhe parecia que devesse lucrar muito em ouvi-las. Voltou-lhe as costas e pôs-se a ler as lombadas dos livros da estante:

 

Virgílio... Homem... Dante... Camões... Gonçalves Dias... Shakespeare... bravo!

 

Que espécie de homem seria então esse capitão Rino? Leria ele efetivamente aqueles poetas?! O médico abriu ao acaso o primeiro livro ao alcance da mão, e observou logo que ele estava anotado, a lápis, com sinais firmes, de uma vontade bem dirigida, perfeitamente consciente do seu claro juízo. Era o Cid. A primeira página onde o olhar do dr. Gervásio caiu, havia este verso marcado com uma linha gorda:

 

Lamour nest quun plaisir, lhonneur est un devoir.

 

Falava D. Diogo. O médico releu o verso com um sorriso de sarcasmo.

 

L amour nest quun plaisir...

 

Pois sim! bem esquecido estaria o velho pai de D. Rodrigo, ou não chegara na sua juventude a amar com amor!

 

Depois daquilo o dr. Gervásio folheou outros livros literários, por curiosidade, desprezando os técnicos, e em todos achou vestígios de uma leitura inteligente. Bastava; começava a compreender o homem. Iludira-se até então, julgando o Rino como um medíocre e um simples. Um simples seria, mas um medíocre, não. Não o temera nunca como rival, apesar de o ver apaixonado por Mila; julgara-o fraco, inferior, sem recursos, falto de elegância, que é sempre o que seduz as mulheres, física e intelectualmente; não passara nunca aos seus olhos de um marinheiro rude, ingênuo, sem a graça da palavra a tempo, nem a linha da distinção pessoal.

 

Que conservaria o capitão Rino no cérebro de tanta leitura inquietadora e extraordinária? Que nervos eram aqueles, tão perfeitos, que após tantas torturas e delícias pareciam intactos de comoções artísticas?

 

Daí - quem sabe? - toda aquela livralhada que ele marcara com o seu nome, no domínio da posse, viria de algum leilão, de alguma herança, não representando naquele gabinete mais que um mero adorno. Era o mais certo. Era mesmo a única hipótese verossímil; não admitia que o capitão Rino fosse amigo de intelectualidades. Aquele bruto! Fixou-o com atenção.

 

Não! não eram aqueles olhos límpidos, nem aquelas passadas que faziam tremer os rijos assoalhos, que revelariam a ninguém investigações da velha arte, turbadora como a febre ou como um vinho raro. Ninguém acreditaria que aquele homem grande, de carnes duras, faces rosadas como as de um menino são e modos bonachões, fosse capaz de entender Shakespeare!

 

Ler livros tais, anotá-los, amá-los, deleitar-se na sua convivência, era obra para outra espécie de criaturas. Aquilo era um escárnio, não era outra coisa. Permitia-lhe a leitura de um ou outro clássico português de mais calmo estudo e pulsação regular; lembrava-se mesmo agora de lhe ter surpreendido algumas palavras de sabor antigo e que lhe tinham feito, aos ouvidos delicados, um certo prurido de estranheza. A sensação avivava-se, a reminiscência induzia-o a estudar o homem. Voltou de novo o olhar para ele e resumiu ainda em um traço o seu juízo:

 

Um belo animal!

 

A irmã do capitão servia vermouth, mostrando em um sorriso amável os seus dentinhos bicudos e desiguais. Ao dirigir-se ao médico, ela obrigou-o a desviar-se da sua observação; e ele, descuidado, refletindo na frase uma idéia que lhe atravessava o espírito, agradeceu-lhe em inglês.

 

Acha-me com ar de miss, não é assim? Talvez tenha razão; não é a primeira pessoa que me dá a entender isso mesmo...

 

Se lhe desagrada...

 

Absolutamente nada; por que? Houve na nossa família qualquer antepassado estrangeiro, uma bisavó dinamarquesa, creio eu... entretanto, afirmo-lhe, somos bem brasileiros, mesmo um pouco nativistas... Já me disseram, a propósito disto, que são os descendentes de estrangeiros exatamente os patriotas mais exaltados. Mas não quer gelo?

 

Obrigado...

 

Ela passou adiante, e o doutor tomou o seu primeiro gole de vermouth.

 

"Uma avó dinamarquesa, creio eu..." Extraordinário, esse desprendimento pela sua origem! Bem lhe certificava esse dito, que aquela gente não era de indagações nem de perder tempo com objetos sem utilidade imediata.

 

A boa prática era essa: olhar para diante, que é onde se pode encontrar tropeços. Caminho andado, caminho perdido. Adeusinho!

 

Da cadeira de braços, Francisco Teodoro atirava, a sua última bomba contra a República, lamentando este grande piais tão digno de melhor sorte...

 

Fino levantou-se; ele tinha outras opiniões e uma fé sincera nos destinos da pátria. A alma nova da América só podia agasalhar sentimentos de liberdade. A monarquia era a poeira da tradição acumulada com o correr dos séculos, em velhas terras da Europa. Lã teria a sua razão de ser, talvez; mas não aqui! Concluiu ele.

 

Farfalharam as saias das senhoras, que se punham de pé, já cansadas da discussão, abominando a política...

 

Fora, no tombadilho, o sol estendia a sua luz clara. feita de ouro. Seguiram então para debaixo do toldo.

 

Que maravilha!

 

Ruth lançou-se á amurada, agitando o lenço. Passava uma barca de Niterói, repleta de passageiros, branca, ligeira, com a sua cauda de espumarada. Toda a superfície do mar, paletada de luzes. tremia como a pele moça a um afago volutuoso. Ao longe, a Serra dos Órgãos desenhava no céu os seus contornos de um azul de ardósia. Para os lados da barra havia montes de prata fosca em que o sol, cintilando nas pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos cor de violeta espelhavam-se nágua; entre montanhas de um verdor intensíssimo.

 

Houve uns instantes de pasmo e de concentração, e foi nesse silêncio que o médico percebeu um olhar de Camila para o capitão do Netuno.

 

Aquele simples movimento bastou para atear no peito do médico o fogaréu da ciumada. Estava feito; o outro venceria; soubera esperar e revelava-se a tempo. Era a primeira vez que sentia zelos da amante, sempre tão sua, tão submissa às arbitrariedades do seu gênio desigual de homem nervoso. Quem pode confiar na lealdade de uma mulher? ninguém, e a justiça era que ela o enganasse e o traísse, como por ele traía e enganava o esposo...

 

Percebia bem que o capitão Rino era mais belo, mais moço, e essas duas qualidades só por si bastavam, a seu ver, para fazer preferido um homem aos olhos de uma mulher de quarenta anos...

 

O senhor, hoje está nos seus dias de spleen, doutor? perguntou-lhe de repente Ruth, com o seu modo sacudido e imprudente.

 

Ele deu-lhe o braço e explicou-lhe que não; queria estar calado para ver melhor. Depois perguntou-lhe, sem rodeios se não achava o capitão Rino muito diferente do que lhes parecera sempre em Botafogo.

 

Eu já disse mesmo a ele, e descobri o motivo; é porque anda sempre de escuro, e hoje está de branco!

 

E com uma flor ao peito!

 

É verdade.

 

Ainda há outra razão; é que ele está contente. Ruth, a influência das cores é grande nas criaturas, mas a das impressões ainda é maior. A alegria força a ser-se bonito. O capitão tem hoje a alma vestida de branco e perfumada como a sua rosa vermelha da lapela... Uma bonita flor!... Não creia que baste um alfaiate para dar a uma cara de pau a expressão que a dele hoje tem; a grande influência do alfaiate pára no pescoço. A cabeça é...

 

Do cabeleireiro?

 

Da paixão. Não creio que as mais frívolas mulheres sejam tão frívolas que se contentem com o cheiro de uma pomada. ou o bom corte de um fraque...

 

Mas quem falou em mulheres!?

 

Tem razão, ninguém! Veja como aquele barco de pesca vai bonito... Você gosta destas coisas; faz bem. O amor da natureza e o amor da arte são os únicos salvadores e dignos das almas puras. Os outros, pff!

 

A mancha escarlate do vestido de Catarina apareceu diante deles; a irmã do capitão convidou-os para o almoço; repararam então que os outros já tinham entrado e logo o médico previu que Mila tivesse ido pelo braço de Rino...

 

E fora; e lá estavam ambos em pé a um ângulo da mesa, em frente a Francisco Teodoro, que gesticulava, no calor de uma discussão ainda política.

 

A mesa, sentaram-se, ao acaso, à exceção de Camila e do marido, a quem o capitão designou lugares. O médico escolheu assento entre Catarina e Ruth.

 

Havia apetite; os primeiros pratos foram bem acolhidos. Catarina, julgando-se um pouco em sua casa, ajudava o irmão; foi ela quem temperou a salada de camarões e quem polvilhou os morangos de açúcar e de gelo; as suas mãos muito brancas mostravam-se bem atiladas no hábito de servir.

 

O criado ia e vinha do bufet para a mesa, com a serenidade sobranceira de um ente necessário.

 

Na sala, longa e estreita, eles ocupavam uma das mesas compridas. a da esquerda, a mesma ocupada sempre em viagem pelo capitão; a outra, vazia e sem toalha, mostrando o verniz negro do oleado, dava um aspecto tristonho ao compartimento. Falou-se, a propósito de viagens, de quando naquela mesma sala não havia um só lugar vazio, e que ao rumor das vozes se juntava o tilintar das louças e dos talheres... Só nos dias de tempestade, em que o vapor era sacudido pelo furor das ondas, diminuía a afluência e apareciam, disseminados e tristonhos, só os passageiros fortes, de bom estômago...

 

Francisco Teodoro relembrou os episódios banais da sua única viagem, de Portugal para aqui, e olhavam quase todos para o capitão com certo interesse, como para um herói. Em casa, nas confortáveis salas de Botafogo, tão ricas e tão burguesas, nunca a sua profissão lhes parecera simpática; agora compreendiam-lhe os perigos e observavam-no com respeito. O mar é tão pérfido! Qual era o ponto da viagem que mais lhe agradava? perguntou Mila.

 

A entrada no Amazonas, respondeu Rino; e descreveu, comovido, o aspecto formidável do rio, a grossa corrente das suas águas profundas, o seu ruído sonoro, de ritmos novos, que nenhuma língua exprime e nenhum som musical imita; e os cambiantes deslumbrantíssimos dos poentes, derramando na água infinitas ramagens multicores, onde estrelejavam tons nunca dantes vistos, que apareciam para se apagar, e apagavam-se para reaparecer em outros pontos, igualmente luminosos e fugitivos.

 

Que esplendor de poentes!

 

Depois as ilhas verdejantes, verdadeiros jardins, trechos de bosques emergindo da água profunda e refletindo-se nela. Sinto ali, repetia ainda, um mundo novo, guardando virgindades e mistérios para uma raça de gigantes, ainda não nascida... Ah, as terras ardentes do Norte são um deslumbramento!

 

Havia outro ponto da viagem que lhe fazia inda maior comoção: era quando, já de volta, entrava na baía do Rio de Janeiro. A ampla poesia desse espetáculo adoçava-lhe o humor estragado pela monotonia do mar alto...

 

Dr. Gervásio punha afinal o dedo na alma do capitão. Era assim mesmo; os livros da estante pertenciam-lhe: havia ali um homem. O embarcadiço mercenário tirava o seu traje de piloto e aparecia cavalheiro e poeta. Por que se havia enganado tanto tempo? A explicação teve-a pouco depois, quando Rino afirmava que apesar das suas queixas, ele só estava bem no Netuno; tanto se afastara da sociedade que se sentia bisonho nela, e que acreditava deixar sempre no seu navio um bocado da sua alma, quando ia para a terra.

 

Só em terra, disse ele, compreendo o amor que tenho ao meu barco, aos meus livros, ao meu cachimbo e à minha rede, a que a solidão e o hábito deram foros de amigos; entretanto no mar, tenho saudades de terra, da família, das distrações, de tudo que conjuntamente a torna deliciosa...

 

Francisco Teodoro, a propósito do Norte, falou na prosperidade do Pará, no comércio da borracha e discutiu as suas rendas e os seus costumes. Ali, sim, havia gente refletida, de bons exemplos. Aquilo é que é povo: patriotismo, critério, boas intenções. Falem-me disso.

 

Concordaram. Houve uma pausa, em que se levaram à boca os copos cheios.

 

Veio o peru à brasileira provocar elogios ao cozinheiro do Netuno. Magnífico!

 

Francisco Teodoro afirmou logo que aquele prato parecia feito, de saboroso que estava, por uma mulher. A brasileira tem um jeitinho especial para temperar panelas, dizia ele; e verdade, verdade, assim como ela não devia ser chamada para os cargos exercidos por homens, também os homens não lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser trancada ao sexo feio.

 

Ele dizia isto como pilhéria, por alegria.

 

Catarina, fazendo estalar uma côdea de pão entre os dedos magros, perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa:

 

O senhor é contra a emancipação da mulher, está claro.

 

Minha senhora, eu sou da opinião de que a mulher nasceu para mãe de família. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juízo, e não me dei mal com ele, não quis casar com mulher sabichona. E nas medíocres que se encontram as Esposas.

 

O dr. Gervásio e o capitão Rino trocaram um olhar, de relance.

 

E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve consentir perto das suas filhas.

 

Camila fez um sinal afirmativo. Ela era a mesma opinião.

 

Não são sérias, concluiu.

 

Lá por isso, replicou Catarina, de quantas mulheres se fala na sociedade e que mal sabem ler?

 

De poucas...

 

De muitas. Sr. Teodoro, faz favor de me dar o vinho?

 

Ora, as senhoras não conhecem o mundo! exclamou Teodoro, passando a garrafa ao médico, que encheu o copo de Catarina e disse rindo:

 

Elas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a elas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana com uma arte capaz de endoidecer o próprio Mefistófeles...

 

Homem, que idéia faz você da honestidade das mulheres!

 

Faço idéia de que deve ser bem mais difícil de manter do que a nossa.

 

Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o pensamento de que houvesse duas honestidades.

 

Pois se tivesse tido tal pensamento, tê-lo-ia com muito acerto. Há duas.

 

Temos outra! Se está de maré, explique-nos a diferença.

 

Não estou de maré, mas explicarei: é pequena. Materializemos as comparações, para as tornarmos bem claras. Suponhamos, por exemplo, que a nossa honestidade é um casaco preto e que a, das senhoras é um vestido branco. Tudo é roupa, têm ambos o mesmo destino, mas que aspectos e que responsabilidades diferentes!

 

Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro, disfarçando as nodoazinhas. O pano é grosso, com uma escovadela voa para longe toda a poeira da imundície; e ficamos decentes. A honestidade das senhoras é um vestido de cetim branco, sem forro. Um pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede, à procura da sombra amável, macula-o; uma picadela de alfinete, que só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquela vasta candidez proporções desagradáveis... Realmente, deve ser bem difícil saber defender um vestido de cetim branco que nunca se tire do corpo. Eu não sei como elas fazem, e, francamente, não me parece que a vida mereça tamanho luxo.

 

Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as outras... pelo menos parecem...

 

Porque não lhes esquadrinhamos as nódoas de cetim... Passam despercebidas...

 

Adeus!

 

Agora é sério; vou repetir-lhe o que disse há pouco à sua filha, a quem aliás o senhor educa para a arte. Foi mais ou menos isto:

 

Não cabem na alma humana muitas paixões, e as melhores são as que nos desviam dos nossos semelhantes, sempre enganadores. Só os ideais de arte não pervertem, antes purificam e ensinam o Bem. As mulheres devem cultivá-los com especial carinho. Acompanho, pois, as opiniões de d. Catarina e bebo à sua saúde, minha senhora!

 

Enquanto ele bebia, Camila observou-o com pasmo; sabia que ele não tinha aquelas idéias. Sempre lhe ouvira que a mulher devia conservar-se no seu lugar de submissão.

 

Então, a senhora lamenta não ser eleitora? perguntou Francisco Teodoro à irmã do Rino, com um sorrizinho de mofa.

 

Eu? Deus me livre! Tomara que me deixem em paz no meu cantinho, com as minhas roseiras e os meus animais. Nunca falo por mim, sr. Teodoro. Eu nasci para mulher.

 

Então, pelas outras?

 

Pelas outras que tenham atividade e coragem.

 

E a casa, minha senhora? e os filhos? A este argumento é que ninguém responde!

 

É velho.

 

Mas é bom, prova que a mulher nasce com o fim de criar filhos e amar com obediência e fidelidade a um só homem, o marido. Que diz também a isto o nosso doutor?

 

Que ela talvez tivesse nascido com essas intenções, como o senhor disse, mas que as torceu depois de certa idade. Não seria sem causa que Francisco I disse:

 

Souvent femme varie.

 

Francisco Teodoro não entendeu, mas sorriu.

 

O médico dizia aquilo para Camila, que lhe evitara o olhar agudo, percebendo-lhe a perfídia.

 

Isto é que se chama falar para não dizer nada... observou alguém.

 

Catarina serviu o café; quando passava a última canequinha, disse:

 

As mulheres são mal compreendidas. Vejam aquela gravura. Está ali um homem desafiando o perigo, avançando na treva com a espada em punho, e a mulher mal o alumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada às suas costas!

 

O que prova que a mulher é medrosa! exclamou Teodoro com modo triunfante.

 

Mas, não é verdade; pelo menos no Brasil. Nós não nos escondemos atrás do homem que procura defender-nos. Se ele avança para o inimigo, sentimos não ter asas, e é sempre com ímpeto que nos lançamos na carreira querendo ajudá-lo a vencer ou evitar-lhe a derrota. Este é que é o nosso caráter; que me desminta quem puder!

 

O dr. Gervásio observou Catarina com atenção.

 

Ela estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas.

 

Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma brasileira. A tal avó dinamarquesa dava todo o lugar à outra avó indígena, descendente de alguma tribo selvagem.

 

Duas horas depois, os visitantes deixavam o Netuno; o capitão Rino e a irmã conduziram-os até o cais, onde se separaram. Foi então um grande alívio para o dr. Gervásio, a quem a presença do outro irritava terrivelmente.

 

Francisco Teodoro não se cansava de elogiar a ordem e o asseio em que encontrara tudo; começava a venerar o capitão Rino: achava-o eloqüente, superior... lembrava detalhes insignificantes, muito agradecido às cortesias do moço. Catarina desagradara-lhe, com os seus modos independentes. Achara-a feia. Mulher quer-se com carne, - bons volumes, dizia ele, olhando de esguelha para o vulto redondo da esposa.

 

À rua 1o de Março despediu-se do grupo. Aproveitava a ocasião para visitar um colega doente; e encarregou o doutor de acompanhar a família.

 

Foram então os três, Ruth adiante, com o seu modo distraído, de queixo erguido e passos firmes; Camila ao lado do médico, através as ruas quase desertas, de domingo. Ao princípio nada se disseram. Camila advinhava tempestade próxima, sem lhe atinar com a causa. Estranhara as frases do Gervásio à mesa; sentia ainda a dor dos remoques que ele lhe atirara disfarçadamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta; mais por submissão do que por indolência, ela esperava sempre que ele fosse o primeiro a falar e a agir, naquela torturante passividade de escrava, a que o seu amor a lançara.

 

Ele falou. Disse ter surpreendido a doçura de um amor nascente; que não se espantava da vitória do Rino. Achava que se devia despedir; que a via bem entregue...

 

Camila compreendeu tudo, de relance; as lágrimas subiram-lhe aos olhos, sem que ela, pudesse responder à brutalidade da ofensa. O rosto tingiu-se-lhe de vermelho, numa onda de vergonha que a sufocava; vendo-a calada, ele insistiu baixinho, teimosamente, irritantemente, espaçando as palavras, extravasando todo o ciúme contido durante as horas de bordo.

 

Ela murmurou então, vexada, por entre dentes:

 

Eu não gosto do Rino... eu não gosto...

 

E para que falar assim, na rua? É uma imprudência...

 

Não tive tempo de escolher lugar. Isso é bom para os calmos. Depois, vendo-me ameaçado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto tinha de ser já.

 

Como os homens são orgulhosos e injustos!

 

Serão. E as mulheres? volúveis!

 

Quase sempre a mulher ainda ama e já é considerada pelo homem como uma importuna!... Está ai nossa volubilidade...

 

Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ela quem disse primeiro:

 

Que me importa a mim o Rino! estou pronta a desfeiteá-lo, se com isso...

 

O médico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade.

 

Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua...

 

Ruth, sempre adiantada no caminho e sempre distraída, não percebia nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ela que, de repente, vendo uma confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces à Nina e às crianças, e parou à porta, à espera do médico e da mãe. No momento em que eles chegavam, saiu da confeitaria uma mulher ainda moça, toda de luto.

 

Ao vê-la, o médico recuou bruscamente e ela, mal o viu, corou até a raiz dos cabelos e vacilou também. O choque foi rude, e rápido. Ele ficou firme na calçada, muito pálido, com contrações nas faces, e ela passou séria, numa rigidez contrafeita e torturada.

 

Camila sentiu roçar pelo seu vestido claro o vestido de lã da outra; aspirou com força o seu aroma violento de uma essência desconhecida; viu-lhe a alvura da pele aveludada entre a gola de crepe e a parte da face onde terminava o veuzinho do chapéu; apanhou, naquele gesto de surpresa de ambos, um mistério qualquer, uma traição, uma infidelidade, uma ignominiosa mentira à sinceridade da sua paixão.

 

Quem é?... quem é?! Perguntou ela com avidez frenética, puxando imprudentemente pela manga do médico.

 

O dr. Gervásio, ainda no mesmo lugar, olhava para a mulher de luto que seguia numa pressa de quem foge; à voz de Camila, voltou-se atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo, mas com modo sacudido e nervoso, disse:

 

Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu.

 

Uma nuvem negra toldou a vista de Camila e o coração apressou a sua marcha num batimento louco.

 

Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia separando para um prato de papelão.

 

O dr. Gervásio pediu a Camila que serenasse o seu espírito. Ele lhe contaria tudo mais tarde. Descansasse, que aquilo era uma coisa passada, perfeitamente extinta.

 

Ela fingiu aceitar a promessa; no fundo duvidou dela; mas para que tentar uma recriminação, se a sua língua fraca não lhe sabia traduzir os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria calada...

 

 

 

 

VII

 

 

O comércio de café nadava em ouro. Casas pequenas galgavam de assalto posições culminantes; havia por todo o bairro cafezista um perene rumor de dinheiro. E a maré do ouro subia ainda com a magna abundância das enchentes que ameaçam inundação.

 

O preço do café chegara a uma altura a que antes nunca tinha atingido. Era um delírio de trabalho por todos aqueles armazéns de S. Bento.

 

No de Francisco Teodoro o movimento era enorme.

 

Seu Joaquim não parava um minuto, num vaivém incessante, realizando milagres de atividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando, rápido no expediente, seguríssimo nas suas previsões e nas suas ordens. Ele sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ninguém o visse arrancar uma confidência ou uma denúncia dos seus amigos ou dos seus subordinados. Era nele que parecia encarnada a alma daquele casario da rua S. Bento, porque era o nome dele que andava de boca em boca, no ar, desde o caminhão, na porta da rua, até o fundo, o pátio dos ensacadores, onde as pás do café, caindo em ritmo, davam ao trabalho um acompanhamento de música.

 

Seu Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento para o outro, fazer cessar todo aquele giro vertiginoso, armar greves, paralisar a vida, fechar a porta ao dinheiro que quisesse entrar.

 

Era dele todo o prestigio avistados trabalhadores boçais, das formigas do armazém que negrejavam por ali num movimento incessante.

 

Francisco Teodoro descansava nele, deixava-o agir, "conhecia-lhe o pulso", dizia; não fizera ele o mesmo no princípio da sua carreira? Agora, bem assente na vida, aristocratizava-se, dava-se ares de grande personagem.

 

Havia uma hora em que o gerente subia ao escritório do patrão para alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados à atividade de baixo, seu Joaquim achava jeito de expor a situação do dia, dar as notas pedidas e ainda falar do movimento das grandes casas próximas, fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armazém de Francisco Teodoro.

 

E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma chamazinha, brilhando tonta, faisca de ambição assanhada pelos sucessos próprios e alheios.

 

Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto.

 

Seu Joaquim, lá consigo, atribuía a prosperidade do negócio ao tino da sua gerência, esperta e positiva. A seu ver, a gente do escritório era inepta e não contribuía em nada para o êxito do negócio.

 

Julgava-se figura predominante, indispensável, e usava por isso de impertinências, que Teodoro tolerava, em desconto do serviço.

 

Quando o gerente descia a escada do escritório e voltava para o armazém, Francisco Teodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava pensativo. Na sala próxima as penas dos empregados rangiam nos livros e o rumor das folhas que viravam era às vezes o único que se ouvia.

 

Naquela grande paz da fortuna conquistada, Francisco Teodoro sonhava então com viagens demoradas, longos períodos de abstração.

 

Vinha-lhe o cansaço.

 

Todavia, se refletia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam inaturáveis os dias sem aquela confusão de trabalho, longe daquela atmosfera carregada e das tantíssimas preocupações do seu comércio. A esse desejo indeciso, que com tanta justiça o seu corpo e o seu espírito fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente, que o incitava a novas empresas e que ele combatia com ânimo e juízo.

 

Oh! se o Mário fosse um homem, se tivesse jeito e coragem para aquela vida... com que satisfação ele o sentaria no seu lugar e lhe mostraria o caminho já feito, fácil de percorrer!

 

Fora bem castigado o seu desejo de ter um filho, não pelo filho, mas pelo orgulho da continuação daquela casa, que levaria o seu nome a outras gerações. Viera o filho e voltava as costas à fortuna.

 

A casa passaria a mãos estranhas, ou teria de morrer com ele...

 

Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha concentrado tamanhos sacrifícios, sonhada nos seus tempos de tropeções pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esforço de uma vontade enérgica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe mudasse o nome. -

 

Como era bem-soante aquele - Casa Teodoro um ritmo de ouro!

 

Naquela rua, de casas ricas, ela seria a mais rica, se o Gama Torres não se tivesse posto adiante, ajudado pela mão do diabo, que a de Deus só auxilia os homens de longos trabalhos e belos exemplos.

 

O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade, que ele jogava na Bolsa como um doido. O resultado aí estava - magnífico; mas não poderia ter sido péssimo?

 

Certamente, concluía ele consigo, - não é a isso que se chama ser bom negociante; obra do acaso, nem mais nem menos...

 

Chegara a hora do café. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos. As carnes pesavam-lhe; sentou-se logo.

 

Então como vai isso, Seu Teodoro, ham?

 

Bem... Muito trabalho.

 

É o que se quer. Eu também não paro. Mas quer saber quem vai mesmo de vento em popa? O Inocêncio. O ladrão tem mão certeira; não erra o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transações com a maior fleugma. O dinheiro não lhe escalda as mãos. Ele vem aí; deixei-o lá embaixo a conversar com um sujeito. É um finório de marca.

 

É esperto, é.

 

Minutos depois o Inocêncio Braga entrou, trêfego e alegre, em companhia do Negreiros, que subira para tratar de um negócio, e, enquanto este se entretinha com Teodoro, o Inocêncio dizia, voltando-se para o Lemos:

 

Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho...

 

Terras de trigo?

 

Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por vingança. O dono era um fidalgo desses velhos, de raros exemplares. Por uma questão estúpida maltratou meu pai. Eu era pequeno, mas não me esqueci da ofensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho do meu velho ganhou o bastante para fazê-lo assinar, ainda que de cruz, as escrituras que lhe dão direito à, posse da sua quinta. Meu pai já se instalou no palácio; o diacho é que, pelos modos, ele não se acostuma à ociosidade e vai para o campo mondar o linho com os empregados... não faz mal, é o dono.

 

Realmente, foi um ato de amor filial, muito digno... murmurou o Lemos, assoando-se com estrondo.

 

Isidoro entrou com o café e a conversa generalizou-se. -

 

Então, senhor Teodoro, é verdade que o Joaquim é seu interessado?

 

É...

 

Inda bem. Você não parecia português, homem; você parecia inglês!

 

Por que?

 

Por não querer sócios. Um casão destes pode enriquecer muita gente. Olhe que é um erro isto de querer tudo para si.

 

Sim, pensou Francisco Teodoro, a vida é curta, e uma fonte cavada com tanto esforço é justo que dê água com abundância para muitas sedes...

 

Já o Isidoro recolhia as xícaras quando entrou o João Ramos, a bufar de calor. Pediu notícias da saúde de todos e mesmo antes de ouvir as respostas vasou quanto sabia acerca dos negócios. Vinha da casa do Lessa, que auferira lucros extraordinários de uma especulação de café. Ele também se metera em grandes empresas; sacou papelada que lhe enchia os bolsos e representava muitos contos de, réis.

 

Inocêncio Braga citava nomes de pobretões tornados em milionários, com a alta, quando João Ramos o interrompeu, consultando os amigos se deveria aceitar a presidência de um banco. Ele hesitava...

 

Inocêncio aconselhou-o a que acedesse. O cargo era de prestígio. Depois, o tempo efervescente do jogo tinha passado. As transações agora faziam-se com mais segurança. Também ele tinha em formação um grande projeto...

 

Teodoro sufocava; não ouvia falar noutra coisa. O seu vizinho da esquerda e o seu vizinho da direita passavam quantidades fabulosas de libras para a Europa, ganhas no azar do momento. E ele?

 

As suas reflexões tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para afinal alcançar o que os outros adquiriam com um gesto!

 

A pouco e pouco os seus amigos mais circunspectos iam-se atirando à voragem da Bolsa. Afortunados, como se mão invisível os guiasse, ganhavam quase sempre. Só ele resistira, firme nos seus princípios de moral e de economia. Mas o contágio da febre manifestava-se já nos primeiros arrepios da tentação.

 

Francisco Teodoro refletia...

 

Quando os amigos saíram, ele caminhou maquinalmente para a janela.,

 

Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a calçada, ajuntando o café da rua. Carregadores saíam-lhe da porta, vergados ao peso das sacas. Os carroções passavam cheíssimos, com estardalhaço, chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se no ar espesso, engrossado de pó.

 

Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido.

 

Daquele esforço surgiria a redenção do povo. E com suor e lágrimas que se fertilizam os melhores campos.

 

Da enxada, que fatiga o braço e rasga o seio do barro, é que deriva o bem da humanidade, a água que mata a sede e a árvore que dá sombra e se desmancha em flores.

 

Abençoados os que não fraquejam e podem no fim da existência erguer bem alto a cabeça sem respingos de vício. Esses não terão patinhado na enxurrada enganadora, esses dirão aos filhos:

 

Olhem para a minha vida e façam como eu fiz.

 

Era 6 que pensava Francisco Teodoro, querendo agarrar-se à sua fé antiga, que temia caísse agora, abalada pela ventania daqueles dias de loucura.

 

 

 

 

VIII

 

 

Na saleta de engomar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se passava em toda a casa. Nesse dia ela trouxera uma braçada de roupas para cima de uma cadeira junto da tábua. Lia e Rachel interromperam-na depressa.

 

Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.

 

E outro para a minha, Noca?

 

Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas.

 

Um só, Noca, sim?

 

Não faço nada! Amanhã seu pai está a5 gritando que não tem roupa!

 

Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se nela e a Noca não teve remédio senão cortar os vestidos das bonecas e ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuído o serviço, levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade daquela criatura.

 

A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores quanto mais estes a afagam. Por isso ela morria de amores por Mário, um rapazinho atrevido, de gênio autoritário e palavras duras.

 

Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando Dionísio se acercou da tábua.

 

Agora é que você está chegando, Dionísio?!

 

É. Fui levar um recado de seu Mário... A senhora já sabe que ele deixou a francesa? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe tirar o chapéu

 

Ora veja só como Dionísio está tolo... Ela apontou as crianças, que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois:

 

É loura ou é morena?

 

Morena, altinha, muito chic.

 

Bem. Vá arrumar o quarto de Mário, ande.

 

Mal saiu o Dionísio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar sonso.

 

Olhe aqui, d. Noca, o que eu achei embaixo do travesseiro de d. Nina.

 

Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho.

 

Um retrato.

 

Noca olhou; era um retrato de Mário. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda continuou:

 

Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto...

 

É para Sergipe.

 

A cabocla sorriu.

 

O professor de música está ai...

 

Já sei.... Vai pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu botar de infusão.

 

Noca tinha ascendência sobre a criadagem, que a tratava por dona. Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiência era ouvida com acatamento. Ela era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias de festa, a única das engomadeiras capaz de satisfazer as impertinências do dono da casa; ninguém sabia como a Noca preparar um remédio, um suadouro, nem dar um escalda-pés sinapisado, nem tão bem escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma criança.

 

Alegre, forte, faladora e arrogante, com o gênio picado e a língua pronta para a réplica, não admitia admoestações nem conhecia economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de cores claras e fitas alegres, pisando com todo o peso do seu corpo volumoso e encarando as criaturas de frente, num bom ar de sinceridade.

 

Exímia na tradução e interpretação dos sonhos, era de uma imaginação lentejolada de pequeninas idéias extravagantes e concepções originais. Para o mais insignificante fato, tinha uma explicação misteriosa, embrulhada em névoas e superstições curiosíssimas que saíam da sua boca como lemas fatais, de uma verdade indiscutível.

 

E aquela influência estendera-se pela família toda. Camila consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para tudo que tivesse ares de fantasia; e a criadagem pedia conselhos, rezas, remédios, palpites de jogo e consolações de desgostos...

 

Noca acudia com prontidão a todos, gabando-se, sem hipocrisia, de gostar de ser útil e servir de muito a muita gente...

 

Ela andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Mila. Desde aquele passeio ao Netuno deveria haver por ali grande novidade... O dr. Gervásio; entretanto, desfazia-se em cuidados... e o pobre do capitão Rino era recebido com certa secura, que o estúpido parecia não compreender!

 

A Nina, coitada, emagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver nada, como se a música a levasse por outros caminhos... O patrão... esse também ruminava qualquer coisa...

 

Quem provocava confidências indiscretas da mulata era Nina, que, com o pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia à saleta do engomado logo que dela via sair o Dionísio.

 

A mulata, percebia tudo e não tinha escrúpulos em repetir a verdade. Ora, aquilo talvez curasse a moça, pensava consigo. Se os amores não passassem, que seria da gente? O coração quer-se à larga. Sofrer por causa de um homem ? Não vê!

 

Nina, com os olhos úmidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente achatados, espalmados na tábua ainda quente do ferro, escutava tudo muito caladinha e, quando a última palavra caía dos beiços grossos da Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ela voltava para dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inúteis; Mário nem parecia vê-la e mal parava em casa... A outra era bonita; morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer sofrer.

 

Enquanto, no bulício da casa, todos se agitavam no trabalho ativo, Camila conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona, com as mãos inúteis, o olhar febril.

 

A visão daquela. mulher de luto, da manhã do Netuno, não a deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e aquele ar discreto de honestidade e de elegância. O que a punha doente, e que a atormentava ainda mais era a obstinação de Gervásio em negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos ?

 

No seu ciúme e ressentimento, Camila esquiva-se agora ao médico; era em vão que ele a chamava para as suas doces e cruéis entrevistas. Mas toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ela sentia bem que, apesar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para ele.

 

Foi ainda naquele canto do quarto que Francisco Teodoro a encontrou, ao voltar da cidade.

 

Estás doente ? Olha que eu trouxe um camarote para a Aída. O Negreiros disse-me que vai muito bem por esta companhia...

 

Que entende o Negreiros de música

 

Ele tem excelente ouvido. Acho bom desceres. O Gervásio está lá em baixo...

 

Mila desceu, e, ao sair para o terraço, parou entre portas, escutando o que dizia o dr. Gervásio. Ele estava sentado, de costas para ela. Em frente dele, em pé, Ruth ouvia-o atentamente, com a corda de pular enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercício interrompido.

 

"Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, ,querendo dizer que ela é uma moça instruída. Há diferença: educação e instrução não se confundem. Repare: por que considera você essa moça como bem educada? Porque fala francês, inglês, toca e desenha; não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço, compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivência. Uma pessoa instruída não será de exterioridade agradável se não for educada. A instrução nem sempre transparece e nem sempre concorre para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerância e revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que andamos na rua, por que nos ajoelhamos em uma igreja, por que comemos a uma mesa, por que falamos ou por que ouvimos falar, por que em discussões tonalizamos as nossas opiniões com as opiniões contrárias; por mil efeitos, enfim, que, sendo imperceptíveis, realçam o indivíduo, porque o polem e o tornam digno da boa sociedade. A instrução é a força com que aparelhamos o nosso espírito para a vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume que os pais inteligentes derramam na alma dos filhos e que por tal jeito se infiltra neles, que nunca mais se evapora, seja qual for o ambiente em que vivam depois.

 

É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões, à vista grossa dos indiferentes, não tem importância; mas alteram a verdade e não escapam aos ouvidos delicados."

 

Não tornarei a trocar o sentido dessas duas palavras...

 

O Lélio disse-me ontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin. Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante autor.

 

Por que?

 

Porque ainda não tem idade para compreendê-lo. Chopin é um músico perigoso, minha filha; é um torturador, um excitador de almas. Contente-se com os seus clássicos, mais sadios e mais frescos. A música como a leitura, deve ser ministrada com prudência. Falarei ao Lélio. Sua mãe já desceu?

 

Está ai, atrás do senhor.

 

Ah...

 

Mila socorreu-se da filha, para não ficar só com o médico que a via muito esquiva. A palidez e a tristeza adoçavam-lhe a fisionomia, dando-lhe um encanto novo. O Gervásio observava-a calado, indeciso, com medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só..,.

 

Todos os anos Francisco Teodoro celebrava os aniversários dele, da mulher e dos filhos com banquetes de três e quatro mesas, vinhos a rodo e danças até a madrugada.

 

Nesses dias o médico fazia apenas o seu cumprimento, oferecia as violetas e o brinde do estilo, e retirava-se cedo para a casa silenciosa, lá para os lados do Jardim Botânico, onde ia fazer as suas leituras, comodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do robe de chambre que lhe agasalhava o corpo magro.

 

Camila conhecia suas antipatias por essas festas e não se lamentava por isso da ausência.

 

A imensa casa era então pequena para o número de amigos. Nos jardins iluminados a barões e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos terraços, no bufet, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes, essências diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o único fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho: tapetes retirados à pressa para as danças; mesas de centro, almofadões do sofá, que tomavam espaço, floreiras, etc. As crianças corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista pago dedilhava no piano as polcas e as valsas do seu repertório.

 

A essas festas iam sempre os colegas e os conhecidos de Francisco Teodoro, o pessoal da sua casa de comércio, gente da vizinhança, alguns doutores, um senador do império, a quem era dirigida a melhor das atenções, e amigas de Camila, do tempo do colégio, mulheres de posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ela topara depois, na balbúrdia da vida.

 

Nos intervalos da dança havia sempre quem tocasse dificuldades ao piano, ou cantasse algum romance italiano.

 

Francisco Teodoro, jubiloso e amável, instava para que comessem, para que bebessem. Não se esquecia de ninguém, punha mancheias de balas nos regaços das crianças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as senhoras idosas ao bufet recomendando à Noca que distribuísse pela criadagem vinhos e doces.

 

Eram festas pantagruélicas, em que o riso se comunicava mais pelo barulho que pela intenção.

 

Camila dançava, roçando os seus maravilhosos braços nus pelas mangas dos comendadores ou dos empregados do marido.

 

A mesa os brindes sucediam-se atropeladamente. Para o fim, havia sempre uma voz alta, pausada, que se erguia a vitoria do trabalho honrado e puro, e essa voz lembrava os maus dias de Francisco Teodoro, a sua pobreza, a, sua energia e o seu triunfo.

 

O dono da casa respondia com palavras trêmulas e olhos umedecidos. Tilintavam as taças e a música vibrava com força na sala. Voltavam para as danças. Como Ruth não dançasse, o pai chamava-a de minha estudiosa gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados para ela. Ruth esquivava-se àquela curiosidade e fugia para fora. Iam encontrá-la depois no balanço, sozinha, voando à claridade das estrelas...

 

Só no dia seguinte ao do festim é que o dr. Gervásio ia ao palacete Teodoro saborear o peru quebrado do almoço e os fios de ovos, na quietação cansada da família.

 

Então eram por toda a parte vestígios da barafunda. Nina contava os talheres, que espalhados entre a louçaria e os cristais punham onda de luz pálida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os mármores da escada e do vestíbulo e o jardineiro guardava os copinhos e as lanternas disseminadas pelo jardim.

 

Era uma dessas festas que Francisco Teodoro desejava agora oferecer aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o médico. Encontrou-os ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam nervosamente.

 

Mila acolheu a idéia com frieza; o marido insistiu:

 

Você está mole, anda diferente. Reaja, tome remédios. Que diabo! eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Eles vêm aí em nome da colônia. Não quero fazer figura triste.

 

Alguma manifestação ? perguntou Gervásio.

 

Sim. Uma tolice. Idéias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me hoje disso o Negreiros. Foram até ao ministro e não sei mais o quê! Enfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O engraçado é que minha mulher falava em dar um grande baile, e agora, que se apresenta a ocasião, faz cara feia!

 

Dr. Gervásio acudiu. Achava magnífica a idéia e procuraria auxiliá-la na execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milú ao movimento da sua vida habitual; arrancá-la-ia daquela obstinação de pensamento, daquela apatia física que o atormentava.

 

Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Teodoro pediu-lhe que a dirigisse. Desse dia em diante o médico punha e dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob um toldo de seda, entre bosquetes de avencas e camélias brancas; desenhava ornamentos, encomendava flores, substituía estofos, harmonizava cores, dava estilo e graça ao que só tinha peso e luxo; idealizava a matéria, arrancava uma alma delicada àquelas salas carregadas e mudas.

 

Mila assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas, pouco a pouco, Gervásio convencia-a de que a sua ciumada era lima doidice. Não tivera ele também ciúmes do capitão Rino ? E ai estava: já nem pensava nisso!

 

Como o coração de Mila não comportasse rigores, afeito à felicidade, ela foi esquecendo.

 

 

 

 

IX

 

 

Uma tarde, Mário entrava na sala de jantar, quando viu o dr. Gervásio à mesa; então tornou a sair, sem dizer uma palavra.

 

Mila sentiu o coração parar-lhe no peito. Teodoro não ligou importância ao caso; para ele o filho voltara a buscar algum objeto esquecido, e, tão entusiasmado estava a falar em negócios, que só para a sobremesa disse espantado:

 

É verdade, e o Mário ? então o Mário não voltou?

 

Nina murmurou, desculpando-o:

 

Acho que está incomodado...

 

Vou ver isso.

 

Teodoro levantou-se.

 

Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre si. Camila tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pai? No seu amor, de tamanhos suplícios, nenhum igualara nunca ao desse instante.

 

Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mário!

 

Dr. Gervásio compreendeu-a e tentava sossegá-la de longe, com um olhar firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas asas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que ela temia...

 

E para afastar preocupações, falou de alegrias: anunciavam-se festas; abria-se uma exposição de pintura, excelente; e comentavam-se os brios de um tenor novo para o lírico...

 

Ele sentia que sua voz soava falso; ninguém o ouvia, nem ele mesmo, que apesar da calma aparente dizia aquelas palavras pensando em escutar outras, que viessem de fora, como raios, fulminando tudo.

 

Mila encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pálida, com uma expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervásio falava, falava...

 

Entretanto, Teodoro rompeu pelo quarto do filho.

 

Então, seu Mário ? isso faz-se ! Entra-se em uma sala para jantar e volta-se para trás sem satisfações, de mais a mais diante de visitas?!

 

Visitas? que visitas? o dr. Gervásio?... Esse é de casa.

 

Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias ao menos respeitar o hóspede.

 

Mas se é o hóspede que eu detesto ! não posso ver aquele homem, papai, não posso ver aquele homem!

 

Tu estás doido! por que?!

 

Mário calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pai insistia, furioso:

 

Essas coisas não se dizem à-toa; responde: porque lhe tens essa raiva ?

 

Não sei... desde criança que antipatizo com ele... por instinto... Aborreço aquele rosto pálido... aquele corpo esguio.. aquela voz desigual, aquele sorrisinho de mofa, embirro com as suas mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua assiduidade, com os seus sapatos, com a cor das suas roupas, com os vidros das suas lunetas, com as suas essências, com ele e com tudo que é dele. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente.

 

Se estás doente, trata-te; só mesmo um delírio de febre explica o que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não se repita, ouviste? que não se repita!... senão...olha que eu não sou bom!

 

Francisco Teodoro saiu ameaçador, mas foi dizer ao médico que efetivamente o Mário estava indisposto...

 

Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um - até logo!

 

Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa aborrecia-o.

 

A família andava a passear pela chácara, na doce pasmaceira costumada, vendo regar as plantas e nascer as estrelas. Fazia um calor bárbaro. Ruth voava agarrada às cordas do balanço, cantando alto, e atirando flores de cajazeiro à mãe, cada vez que ela passava por perto.

 

Camila recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma ácido e leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem.

 

Cuidado, minha filha

 

Ai vai um beijo, mamãe

 

O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabelos de Mila. E o passeio continuava, arrastado e feliz.

 

Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir!

 

Não, Teodoro, não ! É o divertimento dela; e é tão inocente!

 

Lá vens tu...

 

Ruth nãos os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos à claridade que se difundia nas cores gloriosas de um crepúsculo ardente. De vez em quando, num impulso mais forte sua cabeça roçava na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus ouvidos um rumor divino e ritmado, de música impecável. Toda a sua força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava, única parte então sensível do seu corpo, que ia e vinha na luz cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpável.

 

Na vertigem do vôo, ela não via, em cima e em roda, senão claridades estonteadoras, onde anjos azuis abriam asas esgarçadas de nuvens fugidias, por entre barras de ouro e enoveladas fogueiras rubras. Em baixo, na terra cor de âmbar, o veludo verde das gramas e dos arbustos distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, à espera do sono.

 

Ia chegando a hora da consagração puríssima da natureza: a hora das estrelas, Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a penumbra.

 

O calor aumentava; houve roncar de trovoada ao longe.

 

Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o médico.

 

Sim, é prudente, nós vamos ter chuva... respondeu Teodoro, consultando o céu. E chuva de arrasar!

 

Camila ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do médico. Despediram-se.

 

Quando Teodoro entrou em casa perguntou à Noca:

 

Seu Mário ?

 

Seu Mário saiu...

 

Hum... eu já esperava isso mesmo... Mas ele me paga...

 

Camila e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Mila impacientou-se. Formigas de asas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e perseguiam-na a ela também, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela gola do vestido.

 

Tudo se junta, quando a gente está aborrecida ! disse ela zangada.

 

Nina sacudiu as formigas com o lenço.

 

Pelas dez horas, Francisco Teodoro chamou de novo a mulata.

 

Seu, Mário ?

 

Ele ainda não voltou...

 

Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando ele vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu?

 

Percebi, sim, senhor.

 

Agora chame o Dionísio.

 

E ao Dionísio como a todos os criados, foi dada a mesma ordem.

 

Mila levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos com a agulha, mal acertando com a costura.

 

Teodoro voltou-se para elas:

 

Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se à mesma hora que os pais...

 

Saíam pelas janelas... murmurou Camila.

 

Pois sim!

 

E se chover? A noite está tão feia...

 

Que volte para trás. Não vem a pé.

 

Mas como despede o tílburi ao portão, terá de voltar a pé, e debaixo dágua...

 

Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Teodoro fora de si; ou raios, se caírem raios. Senhora, isto então é vida?!

 

É a mocidade...

 

Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em dois ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei com o suor do meu rosto!

 

Ele não tem a mesma saúde; Mário é fraco.

 

Mais uma razão.

 

Qual razão!

 

Basta; resolvi, acabou-se. Daqui em diante, ou o rapaz me entra em casa a horas convenientes ou...

 

Ou?...

 

Ou que vá dormir para o diabo!

 

Camila olhou com desprezo para o marido, enojada daquela fúria. Quis replicar, mas veio-lhe de repente um grande medo de que Francisco Teodoro a fizesse de novo intermediária das suas ameaças, e fugiu da sala para não responder, batendo com a porta, num desespero.

 

É por estas e por outras que o Mário está assim... resmungou o negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as chaves.

 

Fora, a noite estava negra, abafadíssima. Vinha da terra e dos vegetais um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosfera, corporizava-a, tornando-a irrespirável.

 

Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos, amodorrados, bambos.

 

Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe, soturnamente.

 

Fecharam-se as janelas; a tempestade aí estava. Quando rezava para dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao beiral do telhado.

 

A mulata persignou-se duas vezes e ficou à escuta.

 

O que passou depois, foi o vento.

 

Ela deitou-se com um suspiro.

 

Quem não se deitou foi a Nina. Sozinha, no seu quarto estreito, abriu a janela e debruçou-se para o jardim sondando a rua, através do arvoredo.

 

Os lampiões de gás mal alumiavam as calçadas solitárias, envolvidos pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania, lambendo tudo. De vez em quando, um bonde passava, de oleados corridos, com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da noite.

 

Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma cadeira; sentia-se opressa. O tufão descansava: ela voltou à janela, curiosa, com ansiedade, cosendo o peito nu ao peitoril largo. Não viu nada. A voz arrastada de um bêbedo guinchava na esquina, em falsete, acompanhada por outra voz que falava na mesma toada. Uma nova lufada veio forte, terrível, abalando tudo.

 

A única janela iluminada da vizinhança fechou-se.

 

O bêbedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes à distância, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando.

 

Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidável.

 

Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o aroma das verdes, que ele ia levando pelo ar em revoada louca. Na inútil resistência da luta, as árvores contorciam-se, estalavam; caíam arbustos arrancados pelas raízes, e frutas verdes despenhavam-se sobre as telhas, com estrondo.

 

Nina expunha a cabeça nua ao açoite da tormenta, enervada pela fixidez da sua idéia. Entretanto, sabia, o Mário não merecia aquilo, não a amaria nunca.

 

Havia uns quinze anos já que ela morava naquela casa, levada pelo pai, o Joca: era então muito enfezada, apesar dos seus dez anos. Entrara para ali como poderia ter entrado para um asilo qualquer: para ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecera a mãe, e em frente à mudez da treva pensava nela, como se a tivera visto. Não compreendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na infância, nem noivo na mocidade. Que triunfo!

 

Sabia pelos outros que a mãe fora urna mulher da má vida e baixa classe; mais nada; e não era pouco.

 

Criara-a desde o primeiro ano a avó paterna, d. Emília, sem muitos agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciência já não era nenhuma. Por causa disso aprendera depressa todos os serviços caseiros, era a copeira da família, e aos nove anos já não se atrapalhava quando tinha de por uma panela de arroz ou de feijão no fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse casado com uma viúva carregada de filhos e que não podia ver a enteada diante de si... Sempre as antipatias! Não era para tornar má uma criatura? Lembrava-se que não fora também acolhida com entusiasmo na casa de Francisco Teodoro.

 

Ao princípio, amedrontada, Nina procurara a companhia dos criados, de preferência à da família, habituada aos serviços grosseiros e às palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava isso como o mais claro indício dos instintos baixos; aquilo era o traço da lama que ela trazia da mãe e que arrastaria pela vida fora.

 

Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do seu caráter e o engenho do seu espírito. Ruth em poucos dias preferia-a aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pálido os seus dois bracinhos redondos. Aquela conquista foi uma glória para Nina. O amor de alguém nascia para ela, como a luz para um cego, e sentia nos beijos cor de rosa da criança gorda e bem tratada o aroma da vida, que até então ela só parecia ter espreitado de longe.

 

Mário era nesse tempo um rapazinho de cinco anos, alto e forte para a idade, muito lindo, arrojado e pouco amável para ela. Abusando da sua força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, pronta a ceder às suas vontades absurdas.

 

De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adoção da Nina em casa de Teodoro fora d. Joana, para quem a menina cheirava a pecado e era uma blasfêmia viva aos preceitos da moral religiosa. Para essa classe há os asilos, afirmava ela; as plantas daninhas não são para os canteiros de violetas. A caridade faz hospícios, orfanatos, rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da vergonha; mas agasalhar no seio honesto um animal desconhecido, era exporem-se a um veneno de efeitos imprevistos.

 

Mila não repelia a idéia, cheia de indignação pela origem da sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas graças de todos, devagar, pela sua docilidade e o seu préstimo.

 

Apesar de miúda e de pálida, ninguém a via doente; tinha os músculos flexíveis, como o gênio. Aos doze anos conservava o seu ar estúpido e humilde; não conhecia uma letra; mas ensinava as criadas novas a varrerem a casa e a porem a mesa com perfeição. Como o Mário lhe batesse um dia com os arreios do seu cavalo de pau, Francisco Teodoro resolveu pô-la em um colégio, de pensionista, recomendando uma instrução prática, nada ornamental. Bem orientado andou.

 

O colégio fora o seu melhor tempo. Do pai não sabia senão de longe em longe, quando ele participava à irmã o nascimento de mais um filho, com umas lembranças murchas, para ela, no fim da carta.

 

Ao princípio, a idéia daquele irmão, que não veria talvez nunca, sensibilizava-a; depois deixou de pensar nisso... Para quê?

 

Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado por todos e que ela cultivava como um segredo caro. Sondai bem o coração mais puro, que lá no fundo achareis um mistério, alguma coisa que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça sofrer.

 

Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber dela. Onde estaria essa mulher repudiada?

 

Ninguém lho dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha... ora em um desses recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida, escarnecida, miserável.

 

No meio da treva, que ela interrogava com ânsia, pareceu-lhe sentir a alma impenetrável da mãe solicitando-a nó agoniado suspiro do vento; então estendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que redimisse uma e desse à outra a sua primeira alegria.

 

Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um ziguezague de ouro cortou o espaço negro, e à luz branca de um relâmpago a casaria muda bailou macabramente com o arvoredo escuro.

 

A convulsão passou, para voltar depressa; na fosforescência móbil e ofuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinárias, mas logo, nos intervalos, a treva da noite mais se condensava.

 

Aplacou-se o vento, e então, só de um jato, a chuva caiu, pesada, brutal, ensurdecedora.

 

A água borrifava a janela. Nina procurou um chale, envolveu-se e voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir indistinta no véu fosco das águas, a lanterninha de um tílburi.

 

Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou:

 

Mário! Mário!

 

Mas a sua voz fraca perdia-se no dilúvio.

 

O primo abria o portão; ela tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o pai lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na sombra, ia-se embora.

 

Nina voltou para dentro, acendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.

 

Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço, com a precaução de quem vai para o crime.

 

Quando chegou embaixo já o Mário sacudia a fechadura com impaciência. praguejando raivoso.

 

Ela tateou os ferrolhos e recomendou:

 

Espere um bocadinho, Mário!

 

Que estupidez!

 

Não faça barulho... já vai! sussurrava ela sem que ele a ouvisse de fora.

 

Enfim, a porta abriu-se. Mário esperava cosido ao umbral.

 

Que idéia foi esta de deixarem a chave...

 

E ele interrompeu a frase e a cólera, ao ver a prima ali. Por que seria ela e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?

 

Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.

 

Nina quis subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a chama da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestíbulo, Mário percebeu-lhe a doçura do ombro nu, pequeno, redondo, um pouco de carne virginal guardada até aí em um recato que nem o baile afuguentara nunca. E já ele não viu senão a pureza daquele ombro acetinado, saindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto impudico e voluptuoso.

 

Acudiu-lhe então a idéia perversa de haver um propósito malicioso naquela história. Não lhe afirmara Noca tantas e tantas vezes que a prima o amava?

 

A filha da mulher de má vida aí estava agora, como devia ser: livre de hipocrisias. Mário estendeu-lhe os braços. Nina compreendeu.

 

Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e subiu correndo.

 

A vela apagou-se, os degraus da escada pareciam multiplicar-se debaixo de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu desespero, supondo-se ainda perseguida pelos braços do Mário, que se quedara estupefato no mesmo ponto.

 

Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.

 

Com as mãos estendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da chuva, compacta, sempre igual. Temia que o primo a perseguisse e não se atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com ele, ali mesmo, junto aos seus calcanhares.

 

Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada assobiando pelas frinchas de uma porta, tê-la reconhecer o quarto, de que deixara aberta a janela, e ela entrou arrebatada, forçando a porta, que resistia. Fechou-se logo à chave, colou o ouvido à fechadura. Ninguém; suspirou de alívio, estava só.

 

Um relâmpago conduziu-a à janela, de que fechou os vidros, alagando-se toda. Despiu-se à pressa, às escuras, deixando cair toda a roupa molhada no chão.

 

E foi à luz branca de um outro relâmpago que ela se viu toda nua, muito pálida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de repente, como se vira um fantasma, e saltou para a cama, enfiando a camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da sua própria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no vidro.

 

Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu alguém andar pelo corredor de vela acesa e passos compassados.

 

Mário adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Teodoro voltava para o sono interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada, - e ainda Nina, na estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o teto negro, sofria, sofria, sofria...

 

No outro dia, às oito horas da manhã, quando Francisco Teodoro entrou na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e à parte da família, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro para a sua mesa.

 

Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe ele, fixando-lhe os olhos pisados.

 

Eu passo sempre bem... respondeu ela corando.

 

Ele teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse:

 

Você fez mal em abrir a porta a meu filho; ele não lhe merece esses sacrifícios... e... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção foi boa; realmente a noite estava pavorosa... contudo espero ser esta a última vez que sou desobedecido.

 

Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angústia em que se fundia um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e adorando-o, sentindo-se dele para a vida e para a morte, quase que se arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aqueles braços de que fugira...

 

Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas junto à mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que ela atinasse com que palavra responder. Francisco Teodoro reclamou então dela, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe partisse uma fatia do roast-beef frio e que lhe fosse depois buscar o Jornal, esquecido em cima, no quarto de toilette.

 

Aquela maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos seus momentos de censura. Ao contrário, ele abusava dos termos violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma dessas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais comovedora.

 

Ela não respondeu, e apressou-se em servir o tio.

 

 

 

 

X

 

 

Raras vezes as tias do Castelo apareciam em Botafogo. D. Itelvina não se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os desperdícios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia sentar-se à mesa de Mila para uma palestra curta, no intervalo das suas devoções.

 

Nina, ainda atarantada pela advertência do tio, punha no terraço a gaiola do cacatua, quando viu d. Joana atravessar o jardim com os seus passos vagarosos, de mulher gorda e cansada.

 

Que milagre! a senhora por aqui!

 

A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que falou, com a blandícia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas o nó da mantilha preta.

 

Mal imagina você por onde tenho andado!

 

Olhe: às cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N.S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando esmolas.

 

Tão cedo?

 

Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por falar em esmolas, ontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?

 

Não, senhora.

 

É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as atrapalhadíssimas, preparando doces para oferecerem ao vigário Alves, que faz anos hoje. Não imagina como elas são...

 

Desculpe, tia Joana, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:

 

Ó Dionísio, leve o café ao sr. Mário, ouviu?

 

Ainda estão dormindo?!

 

Tio Francisco já saiu.

 

Triste pecado é a preguiça... enfim, cá estou eu rezando por todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande concerto que vai haver no Cassino, em beneficio da igreja do Monte Serrate... Para o fim que é, ninguém se pode negar; Camila deve levar a Ruth a essas festas de músicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá não vou, e as outras nove espero deixá-las aqui. Vocês vão a tantos espetáculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é para bom fim. Canta uma tal... Marcondes, ou... não sei quê...

 

A senhora fale com tia Mila. Seu João! chamou ela interrompendo outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não há rosas, faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada?

 

A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos canteiros, que Deus nos acuda!

 

Veja se remedeia isso hoje mesmo...

 

O jardineiro passou; d. Joana disse:

 

É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigário Alves. Ontem a mulher e as filhas do dr. Mendes passaram lá o dia, pregando cortinas, tapetes, ajudando d. Maria a enfeitar o quarto do filho... Aquelas são também muito boas pessoas...

 

Quer café, tia Joana?

 

Aceito... Você é das tais que nunca vão à missa... há de se arrepender...

 

Não tenho tempo... Quer mais açúcar?

 

Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem pecados atrás de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...

 

Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da tia, olhou para o jardim, ainda empapado dágua, muito verde, juncado de folhas arremessadas pela ventania..

 

D. Joana saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em pé, com o rosto contraído por uma expressão de raiva e de melancolia.

 

Ruth encontrou-as assim. Ela vinha toda fresca do banho, com o seu cabelo negro e ondeado solto sobre os ombros estreitos, e o vestido branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao corpo um ar de anjo de catedral.

 

Como está crescida! exclamou d. Joana ao vê-la.

 

Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.

 

Bons dias! Sabe, tia Joana? Ainda ontem pensei na senhora!

 

Por que?...

 

Porque ando com muita vontade de ir ao observatório do Castelo ver a lua e as estrelas.

 

Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de igreja...

 

Não; isso cansa-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquela da Sé, outro dia, os músicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatório foi o capitão Rino. Ver bem a luz e a cor das estrelas é o que me preocupa agora. Leve-me lá, titia, sim?

 

É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.

 

Seria querer demais. Você já leu hoje a Flor de Neve, Nina?

 

Nina meneou com a cabeça, que não.

 

Que história é essa de flor de neve? indagou D. Joana.

 

É um romance do Jornal, muito bonito. Estou morta por saber se a Madalena morreu... também se tiver morrido não tornarei a pegar no Jornal!

 

D. Joana ia reprovar a leitura, quando Camila apareceu no terraço, bonita, de peignoir cor de rosa, toda rescendente, dando as mãos as duas filhas pequenas.

 

Nina tomou a bênção à tia e, para fugir à presença da velha, que naquele momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de jantar.

 

Isto aqui está muito úmido; por que não foi lá para dentro, tia Joana?

 

Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...

 

Camila, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatua e beijou-o no penacho.

 

Depois, para a velha:

 

O que a trouxe tão cedo?

 

D. Joana voltou à história das Bragas, da missa em S. Bento, e apresentou à sobrinha as dez cadeiras para o concerto em benefício da capela do Monte Serrate.

 

Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrário não; porque exatamente no domingo tenho convite para uma festa.

 

Hoje faz anos o vigário Alves; você não lhe manda um bilhete?

 

Posso mandar.

 

Acho bom. Ele reza muito por sua intenção. É um santo padre e um perfeito homem.

 

Ele é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?

 

Já.. Por que é que você deixa Ruth ler jornais? Ela falou ai num folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua filha.

 

O pai não se importa, que hei de fazer?

 

Ainda não fez a primeira comunhão?

 

É cedo.

 

Não é tal. Ela não quererá?

 

Se quer! ainda que não fosse senão para pôr coroa e véu... Todas as meninas sonham com a primeira comunhão. É um ensaio para o casamento.

 

Heresias... E o Mário... como vai o Mário?

 

Está um moço bonito.

 

E... mais ajuizado?

 

Camila corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas asas brancas do cacatua, e respondeu com um sorriso:

 

Como todos os rapazes de vinte anos...

 

Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pêssego verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Mila chamou a Noca, que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joana levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.

 

Estava alquebrada, pesavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da poltrona, que a envolveu logo numa carícia de sono. Cochilou gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das crianças, o tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em movimento. Através do sono tudo aquilo era sutil e bom como uma música a distância. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um vão de janela, o dr. Gervásio, com roupa clara e flores na lapela, conversava baixo com a Camila.

 

D. Joana tossiu para preveni-los da sua presença; não se queria aproveitar do momento para indiscrições. Por fortuna, Nina entrou na sala,, vinda da copa, carregando uma cestinha de uvas brancas.

 

em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.

 

"Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, parece o zurrar de um burro!" pensou consigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.

 

À hora do almoço, o Dionísio trouxe uma bandeja para servir Mário no quarto, visto que este só comparecia á mesa da família quando o dr. Gervásio não estava.

 

Camila mal encobria o seu desespero, velando aquela ofensa com desculpas frouxas, só para que o médico não reparasse. E ele nem viu tal coisa; aceitou os pretextos sem desconfiança. Mário merecia-lhe pouca atenção.

 

Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joana notou aquilo muito calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito suspiros curtos, que afogava em bordeaux...

 

Dr. Gervásio observava a Ruth, que os exercícios que lhe ouvira não estavam no andamento justo. Deveria repassá-los, antes da lição; depois aconselhou a Camila que chamasse uma aia inglesa ou alemã para as gêmeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de criadas boçais. Ele opinava pelas alemãs; são disciplinadoras, risonhas e mais acessíveis que as outras. Depois de dirigir uns dois gracejos a Nina, o médico fixou com atenção o rosto pálido e humilde de D. Joana, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do encontro que tivera com ela no alto da ladeira de João Homem, sobre as pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e paredes sujas de prédios velhos.

 

Ficara-lhe no ouvido toda a censura dela, e houve então nele um ímpeto de agarrar Mila e de beijá-la mesmo ali, diante dos olhos castos e pudibundos da velha.

 

Foi só depois do café, ao acender o charuto, que ele ouviu d. Joana, com o seu tom açucarado, queixar-se à sobrinha:

 

Por que é que você não ensina ao menos as suas filhas a se persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciência, Mila, está muito perturbada por maus conselhos e exemplos de ateus sem caridade... Eu não queria falar, mas tenho-lhes muita amizade para ficar impassível; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas meninas a respeitarem a nossa religião?

 

Dr. Gervásio sorriu; compreendera o remoque; Mila protestou:

 

Todos em casa eram religiosos, ninguém deixaria de ouvir a sua missa ao domingo, exceto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; à noite também ninguém adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ela não se esquecia dos seus deveres.

 

Isto foi dito em tom seco, que encrespou um tanto o gênio manso da tia; para vingar-se do médico, de quem supunha emanar toda a alteração dessa família tão sua, ela exclamou com ironia, voltando-se para ele:

 

Aposto em como o doutor também reza todas as noites?

 

Aos meus deuses, respondeu ele com toda a calma, por que não?

 

Como se chamam os seus deuses?

 

Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. E a razão por que me explico ter tão belos sonhos, visto que este feio homem que aqui esta, excelentíssima, tem sonhos que perfumariam a existência da mais formosa das mulheres. Ontem li Dante. Estive no inferno, D. Joana, e que inferno belíssimo!

 

Vá trazendo para cá essas idéias...

 

Descanse; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A senhora já ouviu falar em Byron?

 

Algum inimigo da nossa Igreja, como o senhor?

 

Mas eu não quero mal à sua Igreja! acho-a só muito triste, toda voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua glorificação ela tem criado catedrais que são verdadeiras apoteoses da arte.

 

Só por isso?

 

É uma das razões, e a única fácil de explicar-lhe.

 

Julga-me muito bronca.

 

Ao contrário, estou-lhe falando como a um literato! Agora, se quer, discutamos religião e filosofia. Conhece Comte?

 

Algum danado.

 

É o termo.

 

Eu sei, adoram-no numa Capelinha da rua Benjamin Constant. Que pecado!

 

Ah! já tem notícias... Estamos bem adiantados.

 

O senhor é um dos tais que não perdem essas sessões?

 

Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a filosofia. Para enfadar-me basta-me a medicina e para distrair-me as minhas roseiras. A senhora conhece algum bom remédio para matar pulgões de roseira? Tenho uma Yellow Persian quase perdida!

 

A sua medicina nem para as plantas serve?

 

Nem para as plantas, a miserável!

 

Tia Mila! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.

 

Que é?

 

Estão aí a baronesa da Lage e a irmã...

 

Meu Deus! E eu de peignoir!

 

Dr. Gervásio voltou-se e disse:

 

Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não há vestido tão bonito.

 

Então vou assim mesmo...

 

D. Joana sorriu com mágoa; até nisso a opinião do diabo do homem era seguida!

 

Bem, Mila, ficamos despedidas, disse ela, eu vou-me embora. O dinheiro dos bilhetes?

 

É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joana pelas dez cadeiras. Até outra vez, tia Joana. Lembranças.

 

Adeus.

 

A moça saiu.

 

Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Mila esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigário Alves!

 

O médico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe no rosto. Que desejaria Mila dizer por escrito ao padre Alves? A velha percebeu-lhe a estranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que ele lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flácido na juba negra de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mário.

 

Quando Camila entrou no seu salão, a baronesa da Lage, toda de cetim preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente emoldurado.

 

A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loura anêmica, distraía-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do seu cordão de ouro.

 

A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar daquele modo...

 

Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este peignoiré é quase igual àquele que eu comprei ontem no Raunier, não é?

 

A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.

 

Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baronesa através de um belo sorriso.

 

É fácil. Vem participar-me o seu casamento!

 

Casar-me, eu? qual!

 

Por que não? É a viuvinha mais cobiçada deste Rio de Janeiro.

 

Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, espécie de dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade, Paquita?

 

Paquita meneou a cabeça, que sim.

 

Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?

 

Em um bond.

 

Já me tardava. O bond é o eterno mexeriqueiro desta terra. Também vocês quando não querem comprometer os seus informantes, atribuem ao pobre bond todas as indiscrições... Por isso o abomino. Só saio de carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protetoras do Sagrado Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de religião, eu não me meteria nisto. Já me têm pedido para organizar festas em beneficio de escolas e de hospitais para pobres, como se na nossa América houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não há miseráveis, há ateus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de fé cristã.

 

Camila concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.

 

Houve uma pausa.

 

Paquita deu-me um dia destes notícias de seu filho; diz que está muito bonito moço.

 

Paquita atirou à irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já tinham saído, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.

 

Está... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...

 

Oh! nem precisa disso! É muito distinto. Eu, no caso dele, faria o mesmo.

 

Sim, mas o pai é que não se resigna a isso.

 

Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baronesa continuou:

 

Já recebeu convite para o nosso baile?

 

Já...

 

Esperamos que seja Mário quem nos marque o cotillon. Papai gosta muito do Mário.

 

O pai da baronesa e da Paquita era um velho português, antigo cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda a cidade conhecia as suas anedotas e simplicidades. Demais, ele gabava-se dos seus princípios rudes e pesados.

 

Nós também preparamos um baile; somente a data é ainda incerta, disse Camila.

 

Já se fala nisso.

 

A baronesa conversava com volubilidade, mal tocando nos assuntos. Falou muito e falaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de repente com uma frase seca:

 

Vamo-nos embora.

 

Sim, vamo-nos embora.

 

Quando elas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no concerto, Camila ficou com as mãos cheias de bilhetes para a matinée.

 

A baronesa, no meio da vidrilhada do seu vestido de cetim, caminhava como se levasse música consigo; tinha os passos cadenciados, o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados de morena.

 

Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar à observação. Camila notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso, um pulso alvo, fino, de criança doente, entrevisto entre a luva e a manga.

 

Em baixo, no vestíbulo, as moças esbarraram com o dr. Gervásio, que saía também, cansado de esperar por Camila.

 

Houve então uma troca de olhares significativos entre a baronesa e a silenciosa Paquita, que fez ao médico um quase imperceptível sinal de cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, falou-lhe com alegria, achando jeito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de religião.

 

Nessa tarde o capitão apareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a ausência; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.

 

Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo notícias do Netuno. Nina acolhia-o sempre com simpatia, achando nele um ar de bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angústia o coração de uma mulher pode vasar uma confidência e pedir um conforto; Francisco Teodoro abriu-lhe os braços: Por que não aparecia, havia tanto? Só Camila sorriu com esforço e reserva, estendendo-lhe a ponta dos dedos frios.

 

E era por isso que ele fugia agora daquela casa, onde o seu pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por Camila crescia à proporção que ele se abstinha de a procurar, ou que se via maltratado por ela. Não achava explicação para aquela mudança; não a recebera ele no seu navio como a uma princesa?

 

As crianças abraçavam-no com entusiasmo.

 

Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Teodoro, rindo, muito fraco pelas denguices das gêmeas.

 

Camila olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua roupa, escura e desajeitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma tristeza resignada nos seus olhos garços. Ela levantou-se, pretextando dor de cabeça e subiu para o seu quarto.

 

Rino pensou: "Ela foge-me... talvez seja melhor assim".

 

Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguém percebeu que ele estava com o ouvido à escuta e os lábios franzidos por um sorriso amargo.

 

Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas grandes mãos às delas, tão mimosas...

 

Capitão Rino, por que não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe Ruth.

 

Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, ele respondeu:

 

Catarina é uma esquisita; ela sai todos os dias, mas para andar lá pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vai à cidade ou faz visitas. Somos uns insociáveis, nós dois. Meu pai era marítimo, minha madrasta foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso mal... ou do nosso bem, quem nos dirá?

 

Fazendo uma carinha cômica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com ar solene: - Só Deus!

 

 

 

 

XI

 

 

Era a hora do café no armazém de Francisco Teodoro. O escritório estava cheio; o Inocêncio, miúdo e trêfego, retorcendo com mão nervosa o bigodinho alourado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto pálido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar esparso no ambiente de todo aquele enorme casarão de S. Bento.

 

Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.

 

A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de faces e de gestos comentava com benevolência os atos do governo, berrando às vezes contra a opinião dos outros, que o atacaram por todos os lados em vivas represálias.

 

O Lemos sorria calado, muito estúpido para entrar em questões de tal ordem. Que lhe falassem do preço da carne seca, que importava em grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de cavalete, que a mão distraída acariciava de vez em quando, era o único republicano naquele ninho de velhos portugueses aferrados às instituições tradicionais da sua pátria e desta que o seu amor e o seu bem-estar escolheram.

 

João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias do Inocêncio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de Francisco Teodoro, que não compreendia como um tão fiel monarquista pudesse achar desculpas para os desatinos desta "República de ingratos".

 

Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Ele fora sempre um republicano e um estremado e era por isso olhado por alguns dos seus compatriotas com estranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de Negreiros, e lhe compreendesse o contentamento de o ter de seu lado, tergiversou e, com maldade alegre, achou logo também motivos de áspera censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que ele já estava maduro para dar o seu braço a torcer!

 

Os outros triunfaram, era assim que o queriam; e chegou a vez de Negreiros entrar na discussão.

 

Foi nesse instante, no meio da balbúrdia de vozes, que o capitão Rino apareceu no limiar da porta com o chapéu na mão, e uma expressão interrogativa no rosto.

 

A chegada súbita daquele estranho, para quem Francisco Teodoro fez logo um lugar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa.

 

Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos ombros, de reconciliação e amizade. Só os olhinhos do Inocêncio Braga ardiam na mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as pontas do bigode delgado.

 

Que novidade é esta, o senhor por aqui?!

 

Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes.

 

Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita... dê-me licença de o apresentar aos meus amigos.

 

Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande bandeja e houve uns segundos de silêncio. Depois, Francisco Teodoro perguntou baixo ao capitão se lhe quereria falar reservadamente.

 

Não senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os meus cumprimentos à sua família. Parto para o Pará.

 

Por que não vai jantar conosco? o senhor não imagina como é querido lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não fazemos cerimônias.

 

Obrigado, mas a minha viagem desta vez é mais longa, obriga-me a preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os meus respeitos a todos.

 

O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadíssimo, lhe bailava sob a pele de louro.

 

Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma... dou-lhe razão; sou homem de negócios. Darei os seus recados à minha gente. Camila vai ficar triste... paciência... Pois quando quiser lá estamos às ordens como bons amigos; e Francisco Teodoro estendeu a mão larga ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado.

 

Seu Joaquim apareceu no escritório e pousou um maço de papéis na secretária, pedindo a Teodoro que lhe desse pronto expediente.

 

Aquilo eqüivalia a uma despedida; havia urgência de recomeçar-se a lida. Levantaram-se todos.

 

Inocêncio Braga deixou-se para último e ao despedir-se do negociante pediu-lhe uma entrevista em sua casa para negócio urgente, de alta importância.

 

No olhar de Teodoro houve uma interrogação pasmada. O do Inocêncio tinha lampejos de ouro. Seu Joaquim observava em silêncio.

 

O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no corredor junto às grades do armazém, de orelhas moles e ombros descaídos, ruminando ódios em silêncio contra o Joaquim, que o deprimia à vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens, para atentar nele. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo à porta do armazém, a velha Terência varria à pressa as pedras com a vassourinha de piaçava, e a cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os veículos repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos os ventos a sua força poderosíssima.

 

O capitão Rino seguiu, abrindo passagem através de grupos compactos e movediços.

 

Aquela multidão aturdia-o.

 

O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas próprias comoções, a ser um isolado e um melancólico, afeito a amar na natureza o que ela tem de maior e de mais simples.

 

A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do oceano que ele cortava com a proa firme do seu Netuno.

 

Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era aquilo que ali estava: a agitação perene, o trabalho violento, o amor sem idealizações, o espetáculo renovado de tudo que a terra produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é instantâneo e é eterno.

 

O próprio mar, que escolhera e a que se lançara na fantasia da adolescência, não era à orla branca da Terra que vinha atirar a sua grande queixa, a sua fúria formidável ou a sua voluptuosidade infinita?

 

A terra pálida dos areais, a terra cor de sangue das matas, a terra negra do ouro, a terra roxa dos cafeeiros, mãe da abundância, ou a terra clara dos laranjais, fonte de perfume, não é por ventura a parte do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em caindo, se trasmuda em orvalho fecundo?

 

O capitão Rino olhava para toda aquela gente, marinheiros, soldados, vadios e trabalhadores braçais, negros ou portugueses, uma população de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a preocupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em repelões, pensando no ponto da chegada. Ele ouvia-lhes a respiração, a ofegância dos peitos cansados e a cadência dos passos batendo dominadoramente as pedras duras do chão.

 

Aquele ruído era sempre para ele uma música de sonoridade nova.

 

Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saúde, sem notar o aspecto desigual da casaria, os negros trapiches tresandando a sebos de carnes e meladuras de açúcar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a porta da rua até lá ao fundo do armazém, aberto para um quadro lampejante de mar.

 

Os trapiches sucediam-se, repletos de barricas, de sacos, de fardos e de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava de mistura, e de sons ásperos dos guindastes, suspensos sobre balanças. Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquela confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a impressão de que a terra se debatia num delírio de febre.

 

Ele ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro, agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se aqui para se despenhar acolá, acotovelando-se em ângulos de uma lado para descer ao outro em escadarias toscas.

 

De casas velhas, abertas para a grande luz, saíam mulheres para estender ao sol blusas de marinheiros, enquanto lá dentro vozes frescas de moças cantavam modinhas ternas.

 

A beira dos precipícios, crianças, quase nuas, atiravam com os pés, dentre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam trapos, entre gatos adormecidos e galinhas soltas.

 

O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a face quente e robusta da terra.

 

Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros.

 

Ao ver alguns rostos tranqüilos e braços grossos de mulheres, trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração daquela gente era resignado e sabia esperar.

 

A grande virtude estava com ela, só os simples podem ser fortes.

 

Depois de várias voltas, por caminhos muito acidentados e sujos, ele viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.

 

Outra gente ali se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarelavam em língua áspera, com vizinhos de má compostura, e um fartum enchia a atmosfera da rua longa, até às proximidades da velha fortaleza.

 

Em todo o comprimento do seu passeio, foi ali a primeira vez que o capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.

 

Aí estava uma coisa que ele não ouvia nunca sobre a onda inconstante...

 

Pouco depois bateu à porta do amigo, mas ele não estava em casa; só voltaria à noite. Rino continuou para cima até o pátio do forte e aí sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo.

 

Que via ele? a casaria desigual, feia, derramada, brilhando aqui nas telhas novas de reconstruções, mostrando acolá outras, negras ou esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento contínuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os prédios melancólicos? Não. Com os olhos fixos na água crespa da baía, coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo o feitio, ele só pensava em Camila, tão rígida para com ele quanto dócil e amorosa para com o outro...

 

Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus à sua mocidade, àquele sonho de amor, que ele dizia através daquela infinidade de corações felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria mais ninguém assim, tão desafortunado.

 

Como seria bom viver, mesmo naquele imundo bairro de trabalho, com o coração tranqüilo, com fé no amor!

 

Para ele, estava escrito: não tornaria a ver Camila. A humilhação da última visita queimara-o como brasas. Ainda se ela o desprezasse, mas não amasse o outro!

 

E toda a causa da sua desventura estava naquela preferência. Por que havia de ser o outro, e não ele?

 

O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço marítimo teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas iguais, tristes na sua esterilidade. Ainda aquelas tinham o seu ideal, se guardavam intato o óleo divino que todas as chagas suaviza e todas as misérias embeleza.

 

E ele? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que cria, pelo que combate ou pelo que amplia?

 

Os padres passaram; ele quis segui-los, mas o corpo, cansado, amolecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Mila de preferir ao outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre doce e platônico, se ela fosse para todos uma mulher austera, bem encerrada no círculo de seus deveres.

 

Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pai, como adúltera. A imagem dela encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente e começou a descer a rua, apressado com a idéia de fugir para longe, salvar-se do perigo que o solicitava.

 

Era preciso não tornar a ver Mila; nunca mais! Para algo lhe serviria o seu orgulho de homem.

 

A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vê-la.

 

A idéia da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com ela naquela silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria para bordo aprestar o Netuno.

 

Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Mila, para quê? não tornaria a vê-la...

 

Desceu o morro apressado, até à rua dos Ourives e seguiu por ela, sacudindo os ombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o poder da sua vontade.

 

Fugir de Camila e para sempre, criar, talvez, lá longe, em terras do norte, uma família honesta, era o que devia fazer, o que faria, inevitavelmente e bem depressa, como remédio para esquecer...

 

O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguém visse, e só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chofre, com um batimento forte de coração. Diante dele, majestosa no seu vestido preto picado apenas no peito por uma rosa escarlate, Camila sorriu-lhe, estendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um apelo; ele não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nele aquele brilhante par de esmeraldas que Deus lhe dera por olhos. Trocados os cumprimentos elas não se detiveram, e o moço seguiu também o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma dela todo deslumbrado por aquele ar de deusa inatingível.

 

Dali até à Carioca já os seus passos se colavam às pedras, desejosos de parar para a seguirem depois, quando ela voltasse para o calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juízo e caminhou para um bonde das Águas Férreas, que era justamente o assaltado nessa ocasião.

 

Só depois de sentado reparou que estava junto da D. Inácia Gomes e das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e risonhas nas suas toilettes claras.

 

D. Inácia suspirava, cansada do esforço da tomada de lugar, com as mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descaído sobre a orelha esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, afirmava.

 

Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo notícias da família Teodoro, como estava a boa Camila?

 

Ele disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.

 

A Carlotinha, sempre trêfega, debruçava-se sobre o colo da mãe, dizendo-lhe com a sua voz maliciosa frases em que entrava mais atrevimento do que espírito. Tinham-se mudado para as Laranjeiras e ofereciam-lhe a casa. D. Inácia vinha espantada com os preços dos objetos adquiridos; se não fossem as moças, ela não viria à cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.

 

E o sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse do que para dizer alguma coisa.

 

Coitado, como velho cheio de trabalho. O sr. não imagina! meu marido sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo é de ingratos...

 

Sim, é de ingratos; confirmou o capitão.

 

Até as Laranjeiras D. Inácia teve tempo de despejar todas as lamentações da sua alma atribulada; falou de tudo, até das cozinheiras e do mau serviço do açougue. O discurso, interminável, numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão insuportável a lonjura da viagem.

 

Carlotinha perguntou pelo dr. Gervásio. Que era feito dele, que ninguém o via, senão no palacete Teodoro?

 

Rino encolheu os ombros, não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e contemplou-o com curiosidade.

 

Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos oferecimentos, apontando o portão da sua residência.

 

O capitão Rino correspondeu às expansões com amabilidade discreta, admirado da exuberância daquela gente. Que lhe importavam as denguices da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pálida e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquela Mila de formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão enluvada?

 

A fatalidade daquela paixão bem se revelava em tudo; ele furtava-se a vê-la, saudoso e aflito, mas forte na sua resolução, e eis que ela lhe aparecia em uma volta 4e rua, inesperadamente! O bond parara no ponto e o moço desceu, caminhando para diante até a chácara da madrasta; o portão estava aberto, entrou.

 

Nos largos canteiros touceiras de canas da Índia erguiam os seus penachos de flores vermelhas e amarelas; ele tomou à esquerda, por uma rua ladeada de girassóis e de magnólias cor de ouro velho. Era ao fundo dessa rua que aparecia a casa, de feição antiga, sólida e simples, com paredes brancas e largas janelas de guilhotina.

 

Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos, e logo após apareceu Catarina no patamar de pedra, da escada em semicírculo.

 

Ela desceu ao encontro do irmão, muito risonha.

 

Estás boa? perguntou-lhe ele, segurando-lhe no queixo forte e ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.

 

Estou, d. Mariquinhas é que está doente, com uma das linfatites do costume.

 

Chamaste médico?

 

Chamei, e lá a deixei com a Hemengarda ao pé da cama.

 

Que Hemengarda?

 

Aquela enfermeira mulata, do n. 15, mãe do...

 

Já sei.

 

D. Mariquinhas gosta muito dela. Queres ir vê-la agora?

 

Depois; fiquemos por aqui. Os teus girassóis estão muito lindos.

 

Não parece um jardim japonês? Repara. Temos crisântemos que nem os dos biombos, canas como as das ventarolas, lírios e girassóis... d. Mariquinhas acha detestáveis todas estas flores e fala em mandá-las arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não compreende o adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo cheiro.

 

Que tens feito?

 

Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se eu quiser sair?

 

Efetivamente estás muito só.

 

Preciso casar-me.

 

Casa-te.

 

Tenho medo.

 

Os homens assustam-te?

 

Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflito! Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento.

 

Sê honesta.

 

Quem pode saber hoje o que será manhã?

 

Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma indomável. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propícia a uma vida de calma e de reflexão!

 

Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta comigo. Chama-me com malícia - doutora. Todos os meus gostos são assunto de mofa para ela, e todos os seus são para mim de aborrecimento. E aí tens a calma desta casa. Fresca tranqüilidade!

 

Tem paciência ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te!

 

Com quem?

 

Comigo não pode ser.

 

Nem tu quererias.

 

Por que?

 

Porque amas a Camila Teodoro.

 

Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas secas, e cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu à cortesia, tonto. pasmado para a irmã, que estacara também ao dizer as últimas palavras.

 

Nega, se és capaz; disse ela.

 

Não nego.

 

Quedaram-se mudos, contemplando-se de face. Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe assassinada pelo marido. Compreenderam-se através do silêncio. Catarina murmurou:

 

À proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade dela e não consigo desvanecer o meu rancor por ele. Não lhe perdôo.

 

Nem eu; mas a sociedade absolveu-o.

 

Os homens. Ela era tão boa!

 

Enganou-o.

 

Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento de casa e o meu ódio. Em vão ele se fazia bom para agradar-me; era de uma humildade que comovia a todos, menos a mim. Não tornei a beijar-lhe a mão.

 

Nem mesmo na hora da morte?!

 

Nem mesmo na hora da morte. E eu quis; curvei-me; mas quase ao encostar a minha boca à mão dele, ergui-me com terror. Ele percebeu tudo. Que morte!

 

Foste cruel.

 

Fui humana. Tu o amavas?

 

Antes? muito!

 

Depois?

 

Não. Mas era nosso pai...

 

E ela era nossa mãe!

 

Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura entre as mulheres.

 

Um sabiá cantou e eles ficaram a escutar, com os olhos rasos de água.

 

Foi no Netuno que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino mudando de tom.

 

Onde havia de ser?

 

E só aquela vez bastou?

 

Só.

 

Manda calar aquele sabiá, Catarina!

 

Deixa lá o pássaro; chora.

 

... Parto depois de amanhã. Desta vez a viagem será longa... Entrego em Belém o comando do Netuno a outro. Tenho substituto; está tudo combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo fugir-lhe. Não era preciso que evocasses a lembrança do passado para me dissuadir...

 

Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Somente, como ela ama o dr. Gervásio...

 

Por quem soubeste isso?

 

Por nossa madrasta, que sem sair daqui sabe sempre de tudo, benza-a Deus!

 

Mas quem lhe diria a ela semelhante coisa?!

 

Talvez o médico... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguém mais ouve. E é uma espada desembainhada para todas as faltas, aquela mulher!

 

De mais a mais, é uma calúnia! Camila é discreta;