LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

A Intrusa, de Júlia Lopes de Almeida


Edição de base:
Biblioteca Nacional – obras digitalizadas

 

 

 

 

 

I

 

 

 

 

 

– Que temporal!

 

– E um friozinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho da chuva quando se está agasalhado? Eu estou me regalando...

 

– Sempre o mesmo egoísta!  Como  estás  em tua casa... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quase horas de me ir recolhendo aos meus penates. E ali o padre Assunção, caso não fique pelo caminho, terá também que marchar um bom pedaço a pé. Ao Teles, esse o bonde leva-o até o quarto de dormir! Nasceu empelicado.

 

Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Cláudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assunção, o deputado Armindo Teles e o Adolfo Caldas, homem de quarenta anos, sem profissão determinada, mas muito bem aceito nas rodas políticas e literárias, que freqüentava assiduamente.

 

Tinham jantado tarde, fumavam agora na biblioteca de Argemiro, sentados à mesa do pôquer.

 

Menos por virtude que por cansaço, padre Assunção não quisera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o pano da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma cor pálida; e nas suas feições acentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolfo Caldas costumava dizer:

 

– O riso do Assunção cheira a rosas brancas.

 

O dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diários do Rio – dos mais distintos do nosso foro – jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos à sua casa de viúvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando...

 

“Ah! uma casa sem mulher, afirmava ele, é um túmulo com janelas: toda a vida está lá fora...” E lembrar-se que aquilo havia de ser para sempre!

 

O dr. Argemiro Cláudio de Menezes, descendente direto dos Iglésias de Menezes, nobres de Portugal, cujo solar brasonado existe ainda, bem que arruinado, naquele país, em terras limítrofes da Espanha, à beira de um rio espelhento e de pinheirais perdidos, – era um homem ainda moço, robusto, de carnes sólidas e uns olhos negros, em que talvez a raça árabe transparecesse ainda, adoçada pelo cruzamento com a lusitana. A barba preta talhada rente ao rosto pálido, tinha já um ou outro fio prateado, e o cabelo muito curto desenhava-lhe a cabeça redonda e forte. Tinha as mãos pequenas, a atitude preguiçosa, em contradição à energia do tipo. Viúvo sete anos de uma formosa senhora, cujo retrato aparecia em todos os cantos da casa, ele protestara não tornar a casar-se.

 

A mulher, filha dos Barões do Cerro Alegre, levara-lhe a melhor porção da sua vida.

 

Do primeiro ano do seu casamento, que durara cinco, existia uma filha, Maria da Glória. Vivia esta menina com os avós maternos, numa chácara dos subúrbios, e andava agora pelos seus onze anos e os rudimentos de português e de música. Tanto como o pai e os avós, por ela se interessava o padrinho, padre Assunção. Sem interromper a partida, o deputado Armindo Teles gabou-se:

 

– Foi hoje um dos dias mais belos da minha vida; não preciso de mais nada para julgar-me compensado dos enormes sacrifícios que a deputação me tem custado... rios de dinheiro, noites de insônia, descomposturas de outros partidos... de tudo colhi hoje o prêmio. Imaginem vocês que tive de lutar renhidamente com o próprio governo, molestar colegas, ir de encontro mesmo a princípios que prezo de gratidão pessoal e de conveniência própria, e que, arrostando tudo, como um soldado na guerra, consegui a minha vitória. Imaginem se não devo estar satisfeito! Uma vitória política, já o disse Chartrier, embriaga melhor que o mais velho licor.

 

– Chartrier?... perguntou com curiosidade o padre Assunção.

 

Armindo Teles pareceu não ouvi-lo e continuou:

 

– Infelizmente temos agora na Câmara poucos talentos de combate. Carecemos de mais vivacidade... A indiferença de uns e a má vontade de muitos enfraquecem os golpes de um ou outro mais entusiasta... Eu cruzei as minhas armas, nesta porfia, com os maiores talentos da Câmara e feri-os a todos sem piedade. Criei inimigos; pouco importa, mas triunfei!

 

Adolfo Caldas, levantando os olhos das cartas em leque na mão gorducha, indagou, sorrindo::

 

– Por que feito ilustre glorificaste a pátria?

 

– Pelo reconhecimento do Simão da Cunha, o meu colega Simão da Cunha, que a Câmara em peso guerreava!

 

Sob o bigode de Argemiro passou a sombra de um sorriso. Adolfo Caldas impregnou de cândida ingenuidade os seus maliciosos olhos castanhos e disse apenas, como a procurar:

 

– Cunha?...

 

E depois:

 

– Ah! o Simão! sim... é desempenado. Veste-se bem.

 

– Não é águia, afirmou Teles; mas é o que se chama – uma mediocridade operosa – e é, sobretudo, um homem de bem!

 

– Isso em política não tem valor... comentou o dono da casa. – Mas que faz você aí, padre Assunção, remexendo nas estantes?!

 

– Estou a ver se encontro algum livro de Chartrier...

 

– Olha, o catálogo dos livros deve estar naquela gaveta, se acaso o Feliciano já o não deitou ao fogo! Eu já nem sei o que tenho...

 

– O que você deve procurar é os sermões do Padre Vieira! – disse malignamente Armindo Teles.

 

– Não preciso; sei-os de cor.

 

– Impinge-os como seus?

 

– Impingi-los-ia se os deputados fossem à igreja; mas você sabe, aos outros não... tenho medo que percebam!

 

Riram-se todos. Teles retrucou:

 

– Ainda o hei de ver na tribuna parlamentar, padre!

 

– Talvez. Os cilícios fazem os santos... mas eu, humilde padre, encontraria quem se batesse por mim com o mesmo denodo com que você se bateu pelo...?

 

– Simão da Cunha.

 

– Por esse senhor?

 

– Eu mesmo.

 

– Guarde as suas armas para melhor combate, amigo. Não tenho envergadura senão para um serviço – o divino. Cá tem você um livro precioso, Argemiro.

 

– Qual é?

 

– Vida de D. Frei Bertolomeu dos Mártires.

 

Adolfo Caldas comentou:

 

– Soleníssimo! Que bela língua, reverendo!

 

– Formosa! Frei Luiz de Sousa tinha a quem sair...

 

Padre Assunção ficou de pé, junto à alta estante de jacarandá, folheando o livro, muito atento.

 

O deputado recolheu as cartas dos parceiros: ganhava o jogo.

 

– A sabedoria dos provérbios está sendo comprometida... – declarou Argemiro. Você prova que a felicidade em amor é compatível com a do jogo!

 

Adolfo Caldas acrescentou:

 

– Leito, tribuna e mesa. Aí está um lema conveniente aos teus triunfos, Armindo!

 

Teles sorriu, respondendo sem disfarçar a vaidade:

 

– Leito e tribuna... ; mas mesa, não sei porquê!

 

Caldas, baralhando as cartas, concluiu:

 

Mesa, empreguei eu na expressão lata, falando como um dicionário. Referi-me à mesa do orçamento, à mesa do bacará e mesmo à do jantar. Não quero fazer-te a injustiça de supor que te alimentas a leite e a água de Vichy... Começas a ter pança; não te podes rir de mim; e jantaste hoje a meu lado, não te esqueças dessa circunstância; jantaste como um homem de boa consciência e magnífico estômago! Fiquei te considerando mais, depois que te vi comer.

 

Argemiro observou, rindo:

 

– É o exercício da profissão...

 

Armindo Teles respondeu:

 

– Vocês confundem-me como Araújo Braga... que trouxe da pasta a prática da mastigação e leva mesmo a imprudência a ponto de dizer, como disse ontem à porta do Watson, à minha vista: – eu hoje só rôo subsídios e clientes.

 

– Esse tem, ao menos, o mérito da franqueza. A mim então só me aparecem causas péssimas, clientes já  esfoladas, em  osso. Se eu não tivesse alguns bens, iria esmolar na esquina! – declarou Argemiro.

 

O jogo chegara a um ponto que requeria a atenção absoluta dos jogadores. Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a boca para a passagem das expressões obrigadas do pôquer.

 

Padre Assunção continuava a sua leitura, de pé, com o ombro encostado ao ângulo da estante. A batina muito escorrida desenhava-lhe o corpo esguio, descendo rente à moldura do móvel, confundindo-se com ele na sombra do aposento.

 

Os três jogadores eram de bem diferente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Teles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escocesa picada por um rubi fulgurante.

 

Representante do Paraná, que o tinha como um político hábil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra, onde a família carpia saudades da sua pessoa airosa e bem tratada. Maleável, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes políticas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e desta arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Claro, louro, sem barba, que raspava escrupulosamente, ele aparentava menos idade do que a que tinha realmente. Falava com sossego, num agradável timbre de voz. Às vezes mesmo Caldas caçoava:

 

– Na Câmara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. C’est la voix d’or do Congresso!

 

Assim como a voz ele tinha macio o gesto, que parecia obedecer a um estudo, a que por certo não  se  aplicara  nunca... As mãos, pequenas, mostravam os anéis de preço sem se desviarem muito do peito, sempre resguardado por linhos claros e fatos corretíssimos.

 

Em frente dele, Adolfo Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se à vontade no seu veston de pano preto, com um bom ar de despretensiosa superioridade.

 

Adolfo Caldas dizia-se rio-grandense, mas afirmavam alguns que ele era nascido em Montevidéu, de família brasileira. Vivia desde os vinte anos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda de financeiros ilustres e ministros afamados, chegando-se para as árvores de substanciosos frutos e boa sombra. Solteirão, intermediário de bons negócios, permitia-se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cor.

 

Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portugueses, clássicos sobretudo. Era com ele que o padre Assunção conversava às vezes sobre literatura antiga, certo de que os bons livros espirituais, como os profanos, tinham a mesma admiração no juízo competente daquele homem de tão esperta sagacidade.

 

Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os cálices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada.

 

– Ó Argemiro, onde arranjaste tu este Feliciano? – perguntou Caldas, mirando o copeiro, um negro de trinta e poucos anos, esgrouviado e bem vestido.

 

– Na família da minha sogra... é filho da ama de minha mulher.

 

– Se não fosse relíquia de família, pedia-to para mim.

 

Feliciano, servindo a todos como se não tivesse ouvido coisa nenhuma, substituiu por outros os cinzeiros já repletos e tornou a sair, silenciosamente.

 

– Se me não engano, – observou o Armindo Teles – vi-o outro dia em casa de Lolota...

 

– Ah! também você?...

 

– Que! ir à casa da Lolota? Mas toda a gente vai à casa da Lolota!

 

– Até o Feliciano... murmurou Caldas.

 

– Não! o Feliciano levava um recado. Ia com uma carta minha, corrigiu Argemiro.

 

– Por isso ela discutiu leis com tanto apuro! Parabéns. É uma mulher estonteadora...

 

– Não sei, a minha carta era acerca de negócios; ela é minha cliente.

 

– Homem puro, que nem sabe se as suas clientes são ou não são bonitas! Eu confesso-me pecador impenitente: quando vejo uma saia levanto logo os olhos para ver se o rosto da dona é feiticeiro! Tape os ouvidos, padre Assunção!

 

O padre sorriu e não desviou os olhos da leitura.

 

– Pecar ainda é e será a coisa melhor da vida, – continuou o Armindo – pecado de amor, está claro. Ah, e neste Rio de Janeiro, por melhor que seja a vontade de resistir, ninguém foge à tentação! Você conhece o dr. Aguiar?

 

– O da Caieira?

 

– Esse mesmo. Pois quando pretende alguma coisa da Câmara ou dos ministros, manda a mulher às secretarias ou à casa dos deputados. A mim procurou-me ela um dia no hotel, e como o negócio era reservado, tive de falar-lhe no meu quarto. O salão estava cheio. Ia linda!

 

– E?...

 

– O Aguiar entrou numa centena de contos; aliás, a pretensão era justa; todavia, se a mulher fosse feia, não digo isto por minha parte, creio que ele não arranjaria nada. O caso não dependia de mim, mas de quem “mais caso faz da formosura alheia”!

 

Armindo interrompeu o assunto para sorver um gole de Chartreuse.

 

O padre Assunção, talvez para desviar o assunto mal encaminhado, por achar a propósito o trecho ou para fazê-lo notar a Adolfo Caldas, leu alto uma frase:

 

“... um pecado chama outro pecado, e este outro vem logo acompanhado até criar devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remédio. Miserabilíssimo estado que abre as portas de par em par a todo o gênero de vício e apaga toda a memória do Céu e da Eternidade”.

 

Padre Assunção fechou o volumezinho de Frei Luiz de Sousa, pô-lo na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro.

 

Estava à espera de uma estiada para se ir embora; mas a chuva caía em torrentes fortes e continuadas. Houve um momento mesmo em que a tempestade pareceu recrudescer de fúria. Assunção confessou:

 

– Estou com medo que o temporal desta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal...

 

Os jogadores estavam absorvidos; mal o ouviram. Daí a pedaço, já desinteressado do pôquer e prestando atenção à bulha das águas, Argemiro propôs que ficassem todos com ele: a casa tinha quartos para hóspedes. Nenhum aceitou. Caldas confessou que não sabia dormir no Rio senão em cama feita pela sua ménagère e o padre Assunção afirmou que a mãe não se deitaria senão depois de o ver entrar.

 

A partida prolongou-se até as onze horas, em que deixaram os baralhos e Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua através dos vidros das janelas.

 

– Chove ainda! E deve estar frio lá fora! Parece-me que estou em Curitiba!

 

Padre Assunção, voltando-se para o dono da casa, disse:

 

– Amanhã terei de ir à casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria?

 

“Nossa Maria” era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem batizara e adorava.

 

– Nada... eu irei vê-la no domingo. Quero ver se para a semana ela vem passar uns dois dias comigo.

 

– Aqui?!

 

– De que te espantas?

 

– Ora essa! Com quem a deixarás, quando tiveres de sair?

 

– Vais-te rir... Botei hoje um anúncio no Jornal, pedindo uma moça para tratar da casa de um viúvo só.

 

– Estás doido! Não caias nessa asneira... Olha que chamas o perigo para casa.

 

– Não posso mais aturar o Feliciano; preciso de alguém que me ajude a suportá-lo. Mas a razão vocês sabem. Quero que minha filha não se crie completamente alheia à sua casa, preciso mesmo da sua companhia, ao menos uma vez por mês.

 

– E confiarás a nossa Maria a qualquer mulher desconhecida?!

 

– Glória não deixará os avós senão por um dia... É uma consolação fugitiva, a que eu procuro. Estou velho...

 

Caldas preveniu:

 

– Olha que essas madamas trazem anzóis nas saias... Quando menos pensares... estás fisgado... E  tu  que  és  bom  peixe! É uma raça abominável, a das governantas... Verás amanhã que afluência de francesas velhas à tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar sossegadinho nos braços do Feliciano!

 

– Que lembrança, pôr anúncio! –  repetia o padre. – Ainda se não tivesses tua filha...

 

– Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu lugar. Nem quero vê-la, mas sentir-lhe apenas a influência na casa. É a minha primeira condição.

 

– Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse ofício mulheres aposentadas, pela força da idade, de outros serviços! Feias, mas habilidosas... No fim de algum  tempo  tu  cairás doente, ela será uma enfermeira carinhosa e a comédia acabará quase sem se sentir. É o costume. O Assunção reprova-te. Eu aviso-te.

 

– Consultaste ao menos tua sogra? – perguntou o padre.

 

– Não. Ela, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido.

 

– Não tires de lá a nossa Glória. Está muito selvagem, mas está muito bem. Realmente, essas senhoras vindas por anúncio para tratarem da casa de um viúvo só devem trazer intenções muito esquisitas. Será preferível uma velha.

 

– Não! As velhas cheiram a galinha, desde que não sejam de fina sociedade. Uma, que meti por experiência em casa, encheu-me o jardim de patos e de perus, que ciscavam na grama. Quero uma mulher que tenha boa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciais, numa dona de casa. Quero uma moça educada.

 

Armindo Teles, enfiando o sobretudo, de que levantou a gola até as orelhas, ofereceu-se para vir esperá-la no dia seguinte...

 

Adolfo Caldas calçou as galochas, augurando que a moça educada teria mais de quarenta anos e não se resignaria a não conhecer monsieur... E concluiu: – Cá estou para espectador da cena. Vamos rir.

 

Só o padre Assunção não enfiou sobretudo nem calçou galochas, limitando-se a tirar do cabide o seu grande guarda-chuva inglês. Ele ali estava para defender a afilhada de um mau contato... previa desastres que procuraria obstar. Ora, como pudera Argemiro cair naquele ridículo?

 

Saíram os três, calados, para a chuva; e o Feliciano, alagando os sapatos nos ladrilhos do vestíbulo, desejou a todos – muito boas-noites – e fechou a porta.

 

II

 

 

 

 

 

Era meio-dia quando um bonde das Águas Férreas parou à entrada do Cosme Velho e uma moça desceu para a rua, com ar vexado. O bonde continuou o seu caminho; ela consultou uma notazinha da carteira e entrou num prédio cor de milho, ladeado por um jardim em meio abandono.

 

Um rapazinho lavava o vestíbulo; a moça olhou para ele ainda embaraçada e perguntou:

 

– O dono da casa...?

 

Felizmente, o pequeno não a deixou concluir; estava prevenido e gritou logo para dentro, fazendo correr uma porta de vidro que devassou um trecho do interior:

 

– Ó seu Feliciano, venha cá!

 

E voltando-se para a recém-chegada:

 

– A senhora entre.

 

Ela levantou cuidadosamente o seu vestido de lã preta, para que se não molhasse no chão encharcado, e atravessou o vestíbulo em bicos de pés.

 

O rapazinho olhou e viu que ela levava as botinas esfoladas, tortas no calcanhar, e que tinha os tornozelos finos. Mal ela chegava à porta do fundo, quando apareceu um negro muito empertigado, com um arzinho desdenhoso e enfiado num dólman branco de impecável alvura.

 

Ela repetiu a mesma frase e ele fez-lhe um gesto para que o acompanhasse.

 

Seguiram por um corredor até o escritório do dr. Argemiro, que escrevia à secretária, no meio de um montão de papéis, muito atarefado, já pronto para sair.

 

Feliciano avisou da porta:

 

– Uma pessoa que vem pelo anúncio!

 

O advogado levantou os olhos e viu entrar na sala uma figura meio encolhida, que lhe pareceu ter um ombro mais alto que o outro e cujas feições não viu, porque vinham cobertas com um véu bordado e ficavam contra a claridade.

 

– Tenha a bondade de sentar-se... permita-me mais um momento e prestar-lhe-ei toda a atenção...

 

Ela fez um gesto de assentimento e sentou-se perto da porta. Ele, bem iluminado pela claridade de fora, apressou as últimas notas, fazendo ranger a pena no papel. Chegada a vez de ordenar as folhas esparsas pela secretária e de acamá-las na pasta, para não perder muito tempo, foi dizendo:

 

– Antes de mais nada, como estes anúncios reclamando senhoras para casas de viúvos são ambíguos e prestam-se a interpretações pouco airosas, digo-lhe desde já que preciso, para governanta de minha casa, de uma senhora honesta, a quem eu possa francamente confiar minha filha, que é uma menina de onze anos. Ela mora fora, mas deverá vir passar de vez em quando alguns dias em minha companhia... Sendo essa a condição essencial, não estranhará por certo que lhe peça algumas informações...

 

Argemiro esperou um instante, a ver se ela se decidia a falar sem ser interrogada; mas ela, coitada, encolheu-se na cadeira e ele foi forçado a perguntar:

 

– A senhora é viúva?

 

– ... Não, senhor... sou solteira...

 

– Ah... mas já governou alguma casa, naturalmente?

 

– Sim... senhor...

 

– Bem... desculpe-me a minuciosidade. Poderá dizer-me em que casa desempenhou o cargo a que se propõe?

 

Ela pareceu não entender; depois disse baixo:

 

– Na minha... na de meu pai...

 

– Ah!... O nome de seu pai é...

 

– Meu pai morreu... e é por isso que eu...

 

Houve uma pausa. Argemiro consultou o relógio. Era tarde. O diabo da mulher não serviria?!

 

– Que idade tem?

 

– Vinte e cinco anos...

 

– É saudável? A saúde é também uma das condições que eu exijo.

 

– Sou.

 

– Pois, minha senhora, infelizmente tenho o tempo contado e não posso demorar-me. Vou procurar em poucas palavras fazer-me bem entendido; peço-lhe que me escute com a maior atenção e que me responda com absoluta franqueza. Como lhe disse, quero uma governanta para minha casa, que seja ao mesmo tempo uma companheira para minha filha nos dias em que ela vier ver-me. Para isso é preciso que essa governanta seja uma senhora séria, sobretudo educada, não digo instruída, mas que enfim não seja analfabeta e que tenha hábitos de asseio, de ordem e de economia. É absolutamente preciso pôr um dique à impetuosidade das minhas despesas domésticas. Eu não posso tratar disso. A senhora dirigirá tudo, com energia, de modo a regularizar as coisas definitivamente. Para isso lhe darei toda a força moral. Há uma cláusula, que talvez lhe pareça absurda, mas é indispensável na nossa situação, caso a senhora aceite as condições que estipulo...

 

Ele parou, com ar interrogativo.

 

Ela respondeu com um fio de voz trêmula:

 

– Perfeitamente...

 

– É esta: não nos vermos senão quando isso for absolutamente indispensável, ou melhor, não nos vermos nunca! A razão desta esquisitice, ou desta mania, não pode ser explicada por inteiro em poucas palavras; suponha, porém, que repousa só nisto: não querer eu que paire sobre quem deve velar por minha filha nem a sombra de uma suspeita! A minha casa é grande, tem dois pavimentos e eu passo o dia na cidade, só vindo jantar à noite. Na minha ausência toda a casa será sua; desde que eu entre a senhora saberá e poderá evitar-me. Acha isso possível?

 

– Acho...

 

– Concorda em que seja assim?

 

– Concordo.

 

– Pense na responsabilidade que vai assumir.

 

– Já pensei...

 

– Eu sou exigente. Quero sentir na minha casa a influência de uma pessoa moça, saudável e ordenada. Não quero ver essa pessoa, por motivos que expus e por outros particulares e que não vêm ao caso, como também já disse. Aviso-a de que sou comodista. A senhora julga-se com os predicados que apontei?

 

– Julgo-me.

 

– Tanto melhor; parece-me que nos entenderemos. Todavia, desejaria, repito, que me desse algumas informações a seu respeito. Como se chama?

 

– Alice Galba.

 

– Galba... tenho idéia de ter conhecido na minha infância um velho com esse nome... um botânico,  se  me  não  engano...

 

– Era meu avô...

 

– Então seu pai...

 

– Meu pai morreu há dez anos...

 

Argemiro puxou o relógio.  Era  a  hora  do bonde; levantou-se apressado, apanhando a pasta e o chapéu.

 

– A senhora veio tão tarde! E temos ainda uma coisa a combinar: o ordenado?

 

A moça levantou-se com timidez.

 

– O senhor dará o que entender...

 

– Ora essa! Eu não sei.

 

– Eu também não... É a primeira vez que me emprego...

 

Argemiro pressentiu sinceridade naquela confissão e olhou para a moça. Mal percebeu, através do véu, um rosto magro e pálido.

 

“Parece-me feia...” –  pensou ele consigo, com uma pontinha de desgosto; e logo alto:

 

– Onde poderei mandar preveni-la?

 

– Eu virei, quando determinar, saber a sua resposta.

 

– Se quer ter esse trabalho... Venha então quinta-feira. Somente peço-lhe mais algumas informações sobre os seus antecedentes e que fixe o seu ordenado.

 

Ele já se mostrava impaciente, caminhando para a porta, como a despedi-la. Ela fez uma reverência tímida e saiu.

 

Quando Argemiro chegou à rua, com a sua pasta pejada de papéis, viu Alice subir para o bonde e notou, como o seu criado, que ela levava as botinas rotas e tinha os tornozelos delicados.

 

O diabo da rapariga fizera-o perder um tempo precioso, e talvez inutilmente. Quem sabe? Talvez aparecesse outra mais jeitosa. Tudo lhe desagradava nesta, desde os ombros encolhidos até as botinas esfoladas...

 

 

 

Quando Argemiro voltou a casa para jantar, encontrou o padre Assunção, que vinha trazer-lhe notícias de Maria da Glória.

 

– Tua filha pediu-me que te viesse hoje mesmo dizer que está com muitas saudades tuas. Que  diabo fazes,  que  a não vais ver?

 

– Bem sabes em que consumo as horas... uma estupidez! É tão longe aquilo e minha sogra fecha tão cedo a casa!... Ah, estou morto por trazer minha filha, ao menos uma vez de quinze em quinze dias, para jantar comigo, encher esta minha casa triste de riso e de alegria. Como a achaste?

 

– Magnífica, muito corada, forte! A avó exasperada porque ela não lhe pára no estudo. Quando eu cheguei estava ela encarapitada no muro, apanhando as amoras do vizinho; quando entrou trazia o avental manchado e a saia toda descosida. A avó mostrou-me aquilo muito queixosa, mas Gloriazinha mal a deixava falar, tantos eram os beijos que lhe dava!

 

Riram-se ambos, Argemiro e o padre.

 

– A avó tem razão; minha filha já está muito crescida para aqueles modos de rapaz...

 

– É uma criança... deixa-a.

 

– Mas, afinal, de quem é a culpa? dos avós. Se ela morasse comigo seria muito outra.

 

– Não estaria tão bem.

 

– É uma selvagem... esta é que é a verdade; mal sabe ler, rabisca umas letras em péssima caligrafia... e toca sem compasso umas intoleráveis lições do método! Já era tempo de saber muito mais. Não te parece?

 

– Ora! sabe em que tempo se devem plantar os repolhos e podar as roseiras, como se cora roupa e se deitam galinhas. É uma ciência rara hoje em dia e muito útil. Tua sogra pediu-me que lhe ensinasse o catecismo, para a primeira comunhão.

 

– E tu...

 

– Eu disse-lhe que deixasse a menina por enquanto adorar a Deus a seu modo. Quando eu entrei na chácara ela repartia frutas com a criançada pobre da vizinhança.

 

– É brutinha, mas tem bons sentimentos...

 

– É um anjo; o ser selvagem não é culpa sua; mudará com o tempo.

 

– Não basta o tempo; estou convencido de que ela precisa de mais alguma coisa... Pobre criança, terei o direito de sacrificá-la ao egoísmo da avó? Andamos errados conservando-a lá... não acoroçoes a minha negligência; esta é a verdade. Se eu pudesse organizar a minha vida de outro modo... A propósito: veio hoje uma rapariga, pelo anúncio do jornal, oferecer-se para governanta. Só uma! vês tu? E vocês a dizerem que viriam em rebanho! Antes viessem várias, poderíamos escolher. Desta gostei pouco. Pareceu-me acanhada, toda torta.

 

– Corcunda?

 

– Não... não sei. Preciso da tua intervenção. Ela voltará quinta-feira à tarde; conversa tu com ela e decide tudo. Não quero tornar a vê-la, mas desde já te digo que seja como for, direita ou torta, será preferível a coisa nenhuma.

 

– Vais criar uma situação embaraçosa e insustentável. Já não estás em idade de fantasias.

 

– Fala para aí. Que disse tua mãe?

 

– Contra a minha expectativa, aprova a tua resolução...

 

– Por força.

 

– Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo teto com uma criatura sem nunca lhe pôr a vista em cima.

 

– Com esta, coitadinha, parece-me que isso há de ser fácil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governanta bonita, ou pelo menos graciosa. A beleza sugestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegância. Imagina, se ela efetivamente for aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade à nossa situação!

 

– Preferes o perigo...

 

– Para pôr à prova a minha impassibilidade e dar-me ares de herói – respondeu, rindo, Argemiro. – Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue frio.

 

– Tolices!

 

– Mas que queres que eu te diga, a ti, que me conheces de cor e salteado?! Vens com uns ares esquisitos assustar-me com um futuro que não promete coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo desta imposição está nisto: ser-me-ia penoso ver agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão viúva, que só vivo para senti-la. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridículo. Tu me compreenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher através do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ela preside à minha vida, soberanamente. Expliquei à outra, que aí veio, que só uma razão me obrigava a impor-lhe esta cláusula extravagante: não querer dar azo à maledicência e aos comentários dos criados... Como se isso me importasse!

 

– E ela?

 

– Aceitou.

 

– Enfim... acho que fazes mal. Mas isso é contigo. Preferiria que te casasses, apesar...

 

– Ah, isso nunca! Minha mulher, sabes bem, pediu-me que não me tornasse a casar; fez-me jurar... far-lhe-ei a vontade. Tanto mais que nenhuma mulher me interessa, a não ser...

 

– A não ser...

 

– Para essa espécie de amores que só tem um sabor – o da frivolidade. Eu não sou santo, mas sou fiel. Acredites ou não, a verdade é que não me deito nunca sem beijar o retrato de Maria, desde o dia da sua morte pendente à minha cabeceira. Tenho a sensação de que a alma dela não sai desta casa que tanto amava; como que a sinto a envolver-me todo... Lá fora sou um viúvo como outro qualquer, não me abstenho nem da corte à mulher de salão, nem do abraço à mulher do pecado; mas logo que entro em minha casa, parece-me sentir as mãos finas de Maria segurarem as minhas e a sua voz, que não esqueço, repetir-me aquela sua frase ciumenta e que era como que o seu estribilho: “Ama-me, a mim só! a mim só!”

 

Houve uma pausa. Padre Assunção observou:

 

– A nossa Maria não se parece com a mãe...

 

– Nada.

 

– Saiu a ti.

 

– Talvez. Mas vamos jantar, que tenho de ir ao Lírico.

 

À mesa, logo ao sentar-se, Argemiro viu à direita do seu prato um rasgão na toalha, do tamanho de um níquel; mostrou-o com um gesto de enfado ao padre Assunção.

 

– Naturalmente, uma dona de casa faz falta... – observou este.

 

Jantaram sem alegria; à sobremesa o criado foi buscar a caixa dos charutos e Argemiro, levantando o talher de cristofle, mostrou ao padre que o garfo tinha sinais de fogo na extremidade dos dentes, e que as lâminas das facas começavam a bailar nos cabos.

 

E tudo aquilo era novo!

 

Padre Assunção sorriu:

 

– Agora reparas em tudo!

 

Feliciano trouxe os charutos e Argemiro reconheceu que o negro se sortira abundantemente com os seus havanas. Sempre o mesmo abuso! Olhando com atenção para o criado, viu que ele ostentava cinicamente uma das suas camisas bordadas; também não estava certo de lhe haver dado já aquela bonita gravata roxa de bolinhas pardas. Como o padre Assunção era considerado de casa, Feliciano, mesmo à vista dele, apresentou ao amo as contas da semana.

 

– A ode do desperdício!

 

Era um batalhão de cifras encarreiradas, pelo almaço abaixo, atropelando-se no seu exagero que as fazia saltar aos olhos de Argemiro. Desde o fornecedor das frutas finas, até à cerzideira da roupa branca, todos tomavam vulto através da multiplicação do negro.

 

– Vês, Assunção? Quase um conto de réis numa quinzena, isto numa casa própria, onde há adega e que a chácara do sogro enche de perus, ovos, leitões e hortaliça! No tempo de Maria passava-se melhor, havia mais gente e gastava-se muito menos.

 

– Ainda tens um recurso...

 

– Qual?

 

– Uma pensão...

 

– Deus me livre! A casa de pensão é a vala comum da vida. Repugna-me!

 

E voltando-se para o negro:

 

– Olha cá, explica-me: por que, pagando eu tanto dinheiro a uma costureira, ela deixa buracos como este numa toalha de mesa? Que espécie de costureira é essa:

 

O Feliciano fazia-se de parvo quando lhe convinha.

 

– É uma espécie de velha...

 

– Ah! uma espécie abominável! Despede-a.

 

Acabado o jantar, padre Assunção saiu para a sua caminhada até o largo do Machado, como de costume, e Argemiro foi vestir-se para o espetáculo. Quando, já encasacado, enfiava o sobretudo, viu o Feliciano estender-lhe um papel, murmurando com a maior naturalidade:

 

– Mais uma conta que me esqueci de entregar; estava no fundo do bolso.

 

– O teu bolso não tem fundo, nunca se pode encher! Que conta é essa?

 

– Uma conta antiga, de um carro...

 

Argemiro estava de bom humor. Riu-se. E saiu pensando: “Acabou-se o teu reinado, ladrão!”

 

 

 

O salão do Lírico estava repleto.

 

O primeiro ato ia quase no fim.

 

Agarrados um ao outro, o tenor e a soprano esgoelavam-se em protestos de amor. O público via aquilo com respeito e certa solenidade. Argemiro levantou os olhos para o camarote da Pedrosa, que olhava exatamente para ele nesse momento. No primeiro intervalo subiu a apresentar a essa senhora os seus respeitos. Ela estendeu-lhe a mão enluvada, segurando-o com domínio, fazendo-o sentar-se ao pé de si. Pedrosa esquivou-se para o corredor, em conversa com o conselheiro Isaías e o dr. Sebrão.

 

O Pedrosa almejava a pasta da fazenda; andava na ocasião ostentando pelos jornais grandes artigos financeiros, coalhados de algarismos encarreirados como formigas por entre a secura sábia da fraseologia. Ah! como esses artigos espantavam uns e espicaçavam a maledicência de outros, que os atribuíam ao Benedito Lemos, um boêmio inteligente como o diabo e bêbedo como um gambá.

 

Ele, o Pedrosa, adulava agora o Sebrão e o conselheiro Isaías, ambos comensais e amigos do presidente da República.

 

Era um homem arguto.

 

A esposa, baixa, trêfega, de um moreno pálido sob o qual se via arder uma alma ambiciosa, instigava-o a ir ao encontro das posições aparatosas da alta política.

 

Vingava-se do Destino a ter feito mulher, conservando-se moça através dos quarenta anos. Não era bonita, mas a sua expressão de desafio, que agradava aos homens e irritava as mulheres, tornava-a talvez um tanto original. Gostava de impor a sua autoridade. Para o Argemiro era de tão carinhoso acolhimento, que ele trabalhava por penetrar-lhe as intenções.

 

Conversavam os dois, como se esperassem ambos uma palavra reveladora, quando entrou no camarote o Benjamim Ramalho, todo teso no seu alto colarinho, com uma camélia branca na lapela e o cabelo achatado sobre as orelhas pequenas e redondinhas. A Pedrosa mal disfarçou a sua contrariedade. Benjamim curvava-se diante dela numa reverência. E depois de sentado:

 

– Magnífico este primeiro ato. Não gostou?

 

A Pedrosa respondeu quase secamente:

 

– Muito.

 

Benjamim olhou para o Argemiro, que pôs o binóculo para o camarote da Vieirinha. A Pedrosa, percebendo o movimento do advogado, seguiu-lhe o exemplo. Benjamim ficou por um momento só, perplexo; hesitou, compreendeu que chegara inoportunamente e acabou também binoculando a Vieirinha!

 

Depois de um curto silêncio ouviu-se a voz da dona do camarote num comentário de enfado:

 

– Não é feia aquela senhora, mas veste-se muito mal...

 

Benjamim, confirmando:

 

– Realmente, não tem gosto... usa umas cores muito espantadas...

 

Argemiro sorriu por dentro. A pobre da Vieirinha tinha um pecado: ser casada com um ministro, cuja pasta apanhara no ar quando vinha atirada às mãos do Pedrosa!

 

Argemiro, sem retirar o binóculo:

 

– Então, Benjamim, você gostou muito do primeiro ato?

 

– Absolutamente!

 

– Homem feliz...

 

– Por quê?!

 

– Porque pode gostar absolutamente de alguma coisa... quando para toda a gente tudo no mundo tem restrições...

 

– Pois olhe, –  acudiu a Pedrosa sem poder disfarçar uma pontinha de inveja; – pela sua insistência em olhar para a Vieirinha, dir-se-ia que ela, ao menos para o senhor, não tem restrições.

 

A Pedrosa tinha jeito para dizer as coisas mais duras como se as tivesse fervido em mel. Falou rindo. Benjamim riu-se também e o advogado respondeu com um suspiro:

 

– É que aquela senhora não permite com facilidade que a gente a veja de perto...

 

– Sim?! Deve ser para que não lhe vejam os defeitos... ou talvez tivesse estado num convento. A propósito, minha filha deixa amanhã definitivamente o colégio das Irmãs de Sião. Vou buscá-la a Petrópolis. Estou velha, com uma filha já moça!... Sábado quero apresentá-la aos meus amigos. Ela tem grande predileção pelo sr. dr. Argemiro!

 

Notou então o advogado que a Pedrosa o olhava com uma expressão diferente, como se lhe visse na cara pela primeira vez qualquer coisa desconhecida...

 

Intrigava-o aquilo, mas não achou a explicação até ao fim da visita; Benjamim atrapalhava-o. Em que pensaria a Pedrosa?...

 

Ao sair do camarote, sentiu-se agarrado no corredor pela mão do marido, que o reteve, apresentando-o ao conselheiro Isaías e ao dr. Sebrão, a quem alcunhou de Demóstenes brasileiro.

 

Argemiro ouvira já o colega, num dos seus mais famosos discursos no Senado.

 

O conselheiro Isaías aprovou o cognome de Demóstenes dado ao Sebrão, lamentando que o Rio de Janeiro não tivesse, como a formosa Atenas, o gosto fino pela palavra, tão desbaratada aqui, e não considerasse a política como uma das artes superiores... Também eles conheciam o dr. Argemiro Cláudio e sabiam que ele escrevia atualmente um livro jurídico de extraordinário interesse...

 

Pedrosa, ufano da amizade dos três, resplandecia de orgulho.

 

Argemiro cumprimentou-o pelo seu artigo dessa manhã. Bons argumentos, excelentes demonstrações!

 

Pedrosa esfregou as mãos: sim, ele era sincero e estudara a questão a fundo. Fora impelido à publicidade por uma série de circunstâncias  muito  especiais; do  contrário  nunca  sairia do seu retiro, onde queimava as pestanas a ler os mestres e a  estudar  as  mais  graves questões financeiras do país...

 

O conselheiro Isaías afirmou:

 

– Ainda não pude ler o seu artigo;  mas  o  presidente leu-o e ficou bem impressionado.

 

Pedrosa deu um saltinho involuntário:

 

– O presidente leu o meu artigo? Gostou? Ah, mas naturalmente! Ele há de, forçosamente, ver que eu não aponto ali senão erros da administração passada e que lhe têm acarretado a ele enormes embaraços...

 

– Difíceis de vencer...

 

– Facílimos, senhor, facílimos!

 

– A verdade é que o presidente não está bem rodeado e deixa-se influenciar pelos ministros, mais do que convém... objetou Sebrão.

 

– Isso! – aprovou Pedrosa, estendendo a mão em forma de juramento.

 

Os outros olhavam para ele com certa admiração. Pedrosa continuou um tanto confidencial:

 

– Eu é que não quero dizer a última palavra...

 

Nesse instante rompeu a música e Argemiro achou mais interessante ir ouvir o segundo ato da Tosca, do que a última palavra do Pedrosa. Cumprimentou-os à pressa e caminhou para a escada.

 

III

 

 

 

 

 

O trem dos subúrbios ia partir, quando Adolfo e Argemiro entraram na gare da Central. Adiante deles corria uma multidão pressurosa e atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças.

 

– A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o feijãozinho não tem prestígio!

 

Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes tomavam a dianteira no assalto, muito nervosas, olhando para trás, a contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada.

 

– Isto é uma ignomínia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo.

 

– Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou ver minha filha é este horror! E perco um tempo!

 

Caldas rogou uma praga.

 

– Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!...

 

– Aquele sujeito ia me arrebatando o pacote dos marrons de tua filha! Não lhe basta a carga. Gente amiga de embrulhos, a dos subúrbios! Olha.

 

– Não tenho tempo. Entra.

 

Entraram ambos para um carro.

 

Cheirava a carvão de pedra e havia calor.

 

Argemiro continuou, depois de sentado:

 

– Minha sogra tem razão; ela vive como uma abadessa de convento rico; tem um prestígio por toda aquela redondeza que nem calculas... Muito boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de famílias que, se não dependem dela materialmente, acostumaram-se à sua tutela moral e não a dispensam. Eu compreendo-a e dou-lhe razão. Há ainda outro motivo que a obriga a viver na chácara: é o empenho de ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era filha única e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi casado tive ocasião de conhecer a mãe mais extremosa que jamais vi. Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para ela a filha morta. Glória foi para casa da avó muito pequena; foi ela quem a criou, julga-se com todo o direito a guardá-la para sempre... E é para tê-la só para si, nos mesmos lugares em que cresceu minha mulher, que teima em não sair do seu canto...

 

– E contigo não se conta?

 

– Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter Glória em minha companhia.

 

– E se te casares?

 

– Ela sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o ciúme da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a casar...

 

– Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos os viúvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota.

 

– Sinto-me bem assim.

 

– Teu sogro aferra-se também por gosto a este sítio?

 

– Por gosto e por economia. Ele  explica  melhor  a sua predileção pelo campo, dizendo que, à sombra das suas  mangueiras, se sente mais longe da República...

 

– Aí está! e eu nunca o ouvi falar em política...

 

– Não é homem que discuta fatos consumados. Depois, está velho e é amigo do repouso... Fez-se botânico, para entreter os ócios da chácara. Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz; agora então, para compensá-la, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho fez esquecido o mau rapaz...

 

Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distraídas um lequezinho de papel apanhado à entrada do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma vareta quebrada, unida às outras por um fio de linha.

 

– Deve ser daquela moça que se remexeu há bocado procurando qualquer coisa... Pensei que lhe tivessem roubado o relógio!

 

– Talvez faça falta...

 

Era dela. Argemiro, ao entregar-lhe o leque, notou-lhe um movimento de alegria mal disfarçada. Voltou a sentar-se e Caldas instou:

 

– Influi teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me para organizar uma colônia suíça, para a indústria dos laticínios... e convém lhe adicionar às dele as terras do barão. Dão-lhe resultado?

 

– Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar interesse por questões de dinheiro. Mas onde diabo vais tu arranjar suíços?!

 

– À China, talvez... que pergunta! Irei à Suíça, homem!

 

– Sempre arranjas uns negócios!

 

– Nunca os procuro. Eles entram por seus pés em minha casa; aí, ou os recebo ou atiro-os pela porta afora. Fica certo que negócios procurados não prestam. Não há nada como um sujeito passar por homem rico, para enriquecer... O próprio indivíduo chega até a iludir-se e a ficar mais bonito... Conheces maior volúpia que a do dinheiro, senhor absoluto do mundo todo? Só o que é bom e caro dá prazer...

 

Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de contentamento que fizera a  dona  ao  reavê-lo.  Pobrezinha...

 

Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua cooperação nos relatórios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que tivera com os relatórios do Teobaldo, quando ministro da fazenda...

 

– Dize-me cá, – atalhou Argemiro. – Em que disposição está o presidente a respeito do Pedrosa, sabes?

 

– O burro do Pedrosa vai ser ministro.

 

Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidências interrompidas.

 

O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos ensurdecedores. Uma criança chorava no colo da mãe aflita; um grupo de rapazes amarelos e desdentados  falava  de  eleições do Clube Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabelos grisalhos, bem vestida, e que viajava só.

 

Lá fora a paisagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um véu fino de pó dourava a atmosfera. Laranjeiras pequenas, de grandes frutos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas tortuosas.

 

– Isto é desconsolador... – observou Argemiro, apontando para a extensa pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias.

 

– E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra da flor esquisita e da fruta saborosa. De um lado e de outro destas estradas, se tivéssemos camponesas e agricultores de bom gosto, veríamos, Argemiro, lindas orquídeas suspensas na galharia de árvores frutíferas. Olha bem para aquilo! É preciso não ter absolutamente gosto nem instinto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui no país do bambu. Do lindíssimo bambu! Ah! o japonês! que povo feliz e aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colônia de japoneses, com a condição de fazerem eles mesmos as suas casas e trazerem muitas musmés bonitas...

 

– Condição essencial!

 

– E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu...

 

– Aprecio pouco o tipo e detesto a raça...

 

Adiante, o grupo de rapazes aumentara com outros sujeitos, que, abandonando os seus lugares, tinham vindo discutir a eleição do clube. Um dos moços, no calor da discussão, sentara-se no braço do banco em que viajava a senhora de cabelos grisalhos. Ela encolheu-se, com ar constrangido. O rapaz gritava aos outros:

 

– Se eu não tivesse educação, não teria contido o ímpeto que tive de esbofetear o Andrade, ali mesmo no clube!

 

Um outro advertiu-o de que ele estava incomodando a viajante; ele levantou-se com uma desculpa e foi nesse instante que o trem parou em Madureira.

 

Caldas e Argemiro encontraram na estação a vitória do barão, que os esperava.

 

– Lá em casa todos bons? – perguntou Argemiro ao cocheiro.

 

– Todos bons.

 

– Nota esta esquisitice, Adolfo; só me lembra que minha filha pode estar doente no momento em que me aproximo dela. Assalta-me então o terror de a ir encontrar de cama...

 

A chácara do barão ficava a um quilômetro da estação. O carrinho partiu ao galope de um cavalo ligeiro, e dez minutos depois transpunha o largo portão da chácara, seguindo até à porta da habitação, por uma extensa rua de mangueiras belíssimas.

 

– Como isto repousa a gente! – exclamou Caldas, aspirando com força o aroma da flor de fruta e pascendo o olhar pela frescura daquelas sombras.

 

– O Paraíso... murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a ver se via, ainda que de longe, a filha.

 

Antes que o carro chegasse à casa, Maria da Glória atravessou aos gritos um grande relvado lateral da rua e, irrompendo de entre as mangueiras, atirou-se para o carro alegremente:

 

– Papai! papai!

 

O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ela trepou para o estribo,  enfiando  no carro  a  cara afogueada e risonha. O pai segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com ela por aquela imprudência. Tentou falar, ela cobriu-lhe as barbas de beijos.

 

– Que exuberância! – exclamou Caldas, rindo.

 

Chegavam à porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre.

 

No patamar da escada, o sogro do Argemiro, barbeado de fresco, com o seu corpo franzino dentro de brins bem alvejados e o boné de seda preta seguro na mão fina e nervosa, sorria à espera dos hóspedes, a quem abraçou.

 

– Mamãe?

 

– Espera-os na sala do meio. Entrem.

 

Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baronesa de mamãe; percebendo agora quanto aquele título comovia o coração da velha, continuava a dispensá-lo de bom grado. Era como se a alma da morta lhe passasse pelos lábios todas as vezes que dizia essas duas sílabas amadas.

 

A baronesa era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e cabelos completamente brancos.

 

Tinha as faces flácidas, a carne do pescoço descaída, a boca larga, a testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras. Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda, coberta de um pano escuro e onde floria em um vaso um ramo de crisântemos pálidos.

 

– Benvindos sejais! – exclamou ela com a sua voz forte, de contralto.

 

Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a conversar com o barão, que, pedida a vênia, cobrira com o boné de seda os seus cabelos brancos e encaracolados.

 

– Então, meu filho, como acha sua filha?

 

– Forte... muito alta!

 

– Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade, não sei que seria... Precisa ralhar com ela; está muito voluntariosa...

 

– Tem a quem sair...

 

– A mãe era um cordeirinho...

 

– Mas a avó é enérgica. E eu...

 

– Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao tipo do pai; Gloriazinha saiu mais a mim... olhe para aquelas sobrancelhas!...

 

– Parecem uns bigodes! – retorquiu Argemiro para fazer zangar a filha. E depois de a beijar nos olhos: – E a respeito de estudos?

 

– Isso! fale-lhe nisso! É uma vadia de força... o avô não se cansa de a chamar e de ensinar-lhe as lições. Mas santos de casa...

 

– Pois chamemos os de fora. Vai buscar os livros, Glória.

 

– Ora, papai... depois... eu...

 

– O que ela quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias... eu, enfim, consinto nisso, porque com aquele crescimento não deve haver sujeição... Graças a Deus, ela tem uma saúde de ferro.

 

– Por isso mesmo precisa ter outros modos... se a puséssemos em um colégio?

 

Pelos olhos da baronesa passou a sombra de um desgosto e ela disse:

 

– Se quiserem matá-la...

 

O barão protestou:

 

– Isso nunca. Colégios nem para rapazes. São lugares de perdição. O que temos a fazer é interessá-la pelo estudo.

 

– Mas como?

 

– Há de haver um meio... Ó Glória, vai tocar a tua última lição, anda. A professora  de  música  não está descontente...

 

Glória amuou.

 

– Eu não sei nada!

 

– Como não sabes?! Vai tocar!

 

– Não...

 

– Glória!

 

– Não...

 

– Esta menina!

 

Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baronesa interveio:

 

– Depois do jantar teremos tempo;  ela  está  com  vergonha... manda servir o jantar, Glória; depois tocarás...

 

Glória aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde daí a instantes soavam as suas gargalhadas fortes, muito barulhentas.

 

O pai informou-se, voltando-se para o sogro:

 

– Como vai ela na leitura?

 

O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao Caldas:

 

– Se ela quisesse! Não imagina o talento que aquela menina tem! Aprende tudo com uma facilidade espantosa, de relance! Mas o diabo é que ela não quer! – asseverou o avô, rindo.

 

– Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa Glória é uma analfabeta!

 

– Quase.

 

– Ora, não digas isso! Ela lê... e escreve... e demonstra muito jeito para a música. Afinal, não se educa para doutora nem para professora. No meu tempo não se exigia tanto...

 

– Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruída, solidamente instruída, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.

 

– Está direito, mas sempre quero saber se o sacrifício do estudo tem compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre criança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compor e recompor orações gramaticais, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações matemáticas; curvar-lhe a espinha em cima de mapas e linhas geométricas, cansar-lhe a vista antes do tempo, roubando-lhe a liberdade que dá saúde, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amor nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala de estudo quando vejo meu marido chamar a  neta  para  a  lição...

 

– Eu imagino que ele há de ser muito ríspido... – comentou Caldas, sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse:

 

– Mamãe, talvez a senhora tenha razão; mas a verdade é que Glória já chegou a uma idade em que não deve ser tratada como o animalzinho amimado que é. Precisamos prepará-la para o futuro, que é sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente há de vir, faltem à nossa Glória os seus cuidados, os do avôzinho e os meus... que será dela, se for uma ignorante, ela que é tão impulsiva e... tão geniosa; hein?

 

– Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!

 

– Estará ou não. E se for mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua fortuna e a atirar depois às urtigas?

 

Os olhos da baronesa encheram-se de lágrimas; o velho pigarreou, advertindo o genro que avançara demais no caminho das hipóteses; mas a baronesa reagiu, sorrindo:

 

– Glória casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava mais nada! minha neta mal casada! pobre... desprezada... precisando trabalhar para viver... que coisa horrível!

 

– O que é horrível, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar!

 

– Ora...  a  necessidade  é o melhor mestre; se algum dia... oh! não! nem pensar nisso!... A minha Glória nasceu para ser amada. Eu leio naqueles olhos esse destino... É um pouco brusca... é um tanto autoritária... ora adeus! os homens gostam disso.

 

Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou:

 

– Eu queria-a mais meiga.

 

– Vovó, o jantar está na mesa! – gritou Gloriazinha do corredor, falando com a boca cheia.

 

– Já ela me foi às nozes... não tenho remédio senão concordar com ela; é um diabinho e é assim que eu a amo!

 

Foi só à sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governanta para casa, e querer daí em diante ter uma visita da filha todas as semanas. Era um sacrifício para ele, homem tão ocupado, ir ali amiúde. Assim dividiriam o trabalho.

 

A sua Gloriazinha iria jantar com ele todos os sábados, que era o seu dia mais livre.

 

A sogra parecia aterrada.

 

– Uma governanta!... quem a inculcou? – perguntou ela, mal disfarçando a sua má impressão.

 

– Ninguém; respondeu o genro placidamente; – arranjei-a por anúncio.

 

A baronesa pulou na cadeira.

 

– Por anúncio! meteu em sua casa, na casa da minha filha, uma mulher por anúncio! E quer confiar-lhe a sua filha, durante as horas em que ela estiver na cidade! Oh! meu amigo, isto não parece seu!

 

– Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi que me ajudasse a arranjar uma preceptora para Maria e que fosse ao mesmo tempo governanta da minha casa, e a senhora não se quis nunca dar a esse trabalho... Afinal, eu não lhe roubo a neta. Maria da Glória irá só aos sábados. É justo que eu também goze um pouco da companhia de minha filha. Voltará no próprio sábado, ou no domingo pela manhã...

 

– Era só o que faltava... Glória dormir fora de casa, entregue a uma mulher saída Deus sabe de onde! Uma mulher de anúncio! Uma... – a baronesa conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o garfo na mesa: – É velha, ao menos, essa criatura?

 

– É moça...

 

– Hein?!

 

– Tem vinte e poucos anos.

 

– Não é possível, Argemiro, ter essa mulher em casa!

 

– Por quê?!

 

– Não é conveniente...

 

– Pois já lá está. Entrou esta manhã.

 

– Poderá sair esta noite...

 

– Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela milésima vez direi isto: eu não podia dispensar em casa uma pessoa que soubesse dirigir os meus criados, coisa de que eu  sou incapaz. Reparem  bem  para  o  Feliciano.  Veste-se  no  meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folheia as minhas revistas e serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros, por seu lado, roubam como podem e trazem o serviço mal acabado, feito por favor... Além disso, eu quero ter minha filha à minha mesa, uma vez por semana, ao menos, e não podia deixá-la só, entregue a homens, e que homens! Concordem que não é exigir muito!

 

– Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governanta respeitável, mulher idosa e com bons certificados... Conheço o seu caráter, sei que não poria nunca minha neta em contato com uma... – Aí tremeu o queixo à baronesa e ela concluiu sufocadamente:

 

– Pobre da minha filha!

 

Houve um silêncio constrangido. O barão interrompeu-o:

 

– Bom, bom! Está tudo determinado: aos sábados Glória irá visitar o pai. É muito justo...

 

– A moça é bonita, papai? – perguntou Glória.

 

A baronesa olhou para o genro com curiosidade.

 

– Não sei... falei-lhe uma vez só, e ela levava a cara tapada por um véu lavrado, muito espesso. Mas não me pareceu bonita; nem mesmo isso me importa. Quanto aos atestados, mamãe, ela deu-mos e bons. O padre Assunção tomou algumas informações a seu respeito e todas excelentes. Está claro que eu não tomaria levianamente uma mulher, a quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha.

 

– Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar conosco... não sei o que parece ir uma mulher estranha para o lugar de... minha filha...

 

– Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher mercenária, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa disso... O lugar de Maria é insubstituível no meu coração, bem o sabe, melhor que ninguém. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na cidade: os meus negócios não me permitem este luxo do campo... Agora só lhe peço uma coisa: tomar esta minha resolução como irremediável e aceitá-la, ao menos, por algum tempo...

 

Glória assistira a toda a cena com muita atenção. O avô só no final se lembrou da conveniência de a afastar. Caldas, um pouco constrangido, demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um silêncio discreto, e foi só depois do jantar que ele pôde convencer o barão a vender as suas terras ao ministro para a formação da colônia suíça, exploradora dos laticínios.

 

A baronesa retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca súbita. Argemiro aproveitou um momento para conversar um bocado com a filha.

 

– Escuta, meu amor, por que é que tu não modificas esses teus modos de rapaz? Já estás crescida.

 

Ela abraçou-o com frenesi pelo pescoço.

 

– Olha que me amarrotas o colarinho! – disse ele rindo. – Não me respondes?

 

– Eu não sei!...

 

– Gostas de ir jantar comigo todos os sábados?

 

– Se gosto! Havemos de ir ao teatro, sim, papai?

 

– Ainda é cedo... terás tempo...

 

– Eu tenho uma vontade doida de ir ao teatro!...

 

– Irás... irás, se fores boazinha e dócil a teus avós... teu avô queixa-se de que estudas pouco... não quero isso.

 

– Não gosto de estudar; não gosto e não quero.

 

– Não quero?!  não  quero!  então  isso  é coisa que se diga?!

 

– É. Eu não quero mesmo! Se o papai soubesse como é aborrecido estudar! Outro dia fiquei com tanta raiva que até rasguei o livro!

 

– Oh!

 

– Que espanto! Olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar, exatamente quando eu ia para a horta ajudar a Emília a apanhar vagens...

 

– É muito divertido apanhar vagens?

 

– É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a pena na mão ou o livro diante dos olhos! Eu estava lendo e estava pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta, estava fazendo contas e a maldita horta não me saía da cabeça!... Vovô ralhou comigo; eu não sei que disse e ele levantou a régua para me dar... vovó entrou, zangou-se com vovô... Saíram os dois, eu fiquei sozinha... um pouco arrependida... quis estudar... abri o livro, mas não sei o que é que tinha nos olhos, que não via bem... então, desesperada, rasguei o livro...

 

– O que tinhas nos olhos eram lágrimas, minha filha, lágrimas de remorso por teres respondido  mal  ao teu avô,  que te ama tanto, e teres sido causa de outro desgosto  ainda  maior...  

 

– Oh! papai! – exclamou Glória, atirando-se de encontro ao peito de Argemiro, lacrimejante.

 

– O que me vale é que tens bom coração...

 

 

 

Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas falaram pouco. Um pensava na família, o outro em negócios. Foi já quase no fim que Argemiro desabafou:

 

– Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste bem como a educam? O avô não sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo seu excesso de amor, e a menina cresce cheia de vontades e à lei da natureza! Se falo em colégio, arrepiam-se; se falo em trazê-la para mim...

 

– Estás doido? tê-la contigo, como? Olha que eu não quis nem podia intervir naquela cena de família; mas a tua sogra tem razão. Que diabo! uma mulher, arranjada por  anúncio,  pode  lá tomar conta de uma menina que está exatamente na idade mais delicada da mulher! Deixa a pequena com os velhos e arranja-se uma preceptora inglesa ou alemã. Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas simples! São uns complicados...

 

– Talvez tenhas razão...

 

– Por força. Eis-nos chegados. Aparece amanhã na Câmara, às duas horas; o Teles vai soltar o verbo. Não faltes.

 

Argemiro  chegou  a  casa  muito  fatigado  e  entrou  para  o  seu  quarto. Estranhou  logo  ao  princípio  qualquer  coisa  que  não  pôde  determinar  o  que  fosse,  mas  que  o  impressionou  bem.  Ao  pendurar  a  roupa  no  cabide de pé, viu que o tinham aliviado do grande peso de ternos de casimira, que  o  Feliciano  deixava  acumulado  ali  semanas  e  semanas, por preguiça de os escovar e guardar. Enfiando o robe-de-chambre, notou que lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou: “Realmente, só as mulheres sabem governar bem uma casa...”

 

Sentou-se ao lado de uma mesa a ler um jornal, mas a folha descaiu-lhe das mãos e ele pôs-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em um  cavaletezinho  de prata fosca. A saudade da sua morta revivia todas as vezes que vinha de ver a filha; sentia-lhe a falta então, poderosamente. Se ela vivesse! Ah, se ela vivesse correria tudo suavemente!

 

Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes beijara aquela fronte larga e pálida, emoldurada por cabelos loiros, que tão mal se adivinhavam na fotografia! Que pena não ter Glória herdado a finura daquelas feições, tão bem delineadas, tão puras, nem a doçura daquele caráter, que só o ciúme conseguia agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventara para seu martírio! Que imaginação a dela para criar fantasmas de amores...

 

Argemiro  cerrou  os  olhos,  depondo  o  retrato  sobre  a  mesa;  e  calculou:  se  ela  fosse  viva  estaria  agora  com  trinta  e  dois  anos... teríamos  um  rancho  de  filhos...  um  rapaz...  Tanto  desejei  um  rapaz!...  e  Maria  teria  outra  educação...  Pobre  da  minha  filha,  foi  a  sacrificada!...

 

 

 

IV

 

 

 

 

 

Num belo sábado, o Barão do Cerro Alegre trouxe a neta à cidade e foi depô-la no escritório do pai, que a esperava, já impaciente. O velho não se demorou; tinha horror às ruas abafadas e às feias salas dos escritórios. Mostrava-se mesmo apressado em se desembaraçar da incumbência, temendo ser cúmplice em algum desastre que acontecesse a Maria, que via cercada de perigos, sempre que saía da sua chácara. Ainda assim, não se pôde conter e recomendou ao genro:

 

– Dizem que por aí há muitas febres... é preciso ter prudência! A avó pede-lhe que não deixe a Maria comer doces na confeitaria. Ela pode abusar, é gulosa...

 

– Vá descansado; e obrigado!

 

Enquanto Argemiro despachava uns papéis, Maria ora se debruçava na sacada, ora remexia todo o escritório do pai.

 

Mas Argemiro tinha pressa também de atravessar as ruas com a sua Gloriazinha pela mão, e abreviou o trabalho. Saíram; e as recomendações dos pobres velhos foram absolutamente esquecidas...

 

Maria da Glória agarrou-se ao pai, atordoada com o burburinho do povo com que ia esbarrando; aquilo alvoroçava-a sem diverti-la, mas a pouco e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos do papai lhe beijavam a mão, como a uma princesa, acordava nela uma curiosidade estranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrines, embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que não tivera nunca, exigia-as do pai, que, dócil como a cera mole, ia comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua Maria, só dele, nesse sábado bendito.

 

Quando chegaram às Laranjeiras, o pai subiu logo para o seu quarto e recomendou a Glória que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina.

 

Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu chapéu à jardineira. A antipatia da avó sugerira-lhe instintiva repugnância por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governanta das Laranjeiras. Ah, mas Glória tinha o seu plano, não deixaria que a outra tomasse confiança consigo. Uma alugada, uma mercenária!

 

E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de pelúcia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a boca e as suas faces rosadas, de criança. Realmente aquela atitude não era agradável, o chapéu sobretudo incomodava-a mortalmente, e sentia enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um alfinete. Suportou o sacrifício heroicamente, até que viu entrar na sala, com o modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves pendentes da cintura.

 

Glória empertigou-se mais. Alice aproximou-se dela sorrindo e estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Glória levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza:

 

– Quero ver o meu quarto.

 

Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as costas:

 

– Siga-me...

 

Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto forrado de azul, com janelas abertas para os lados do Silvestre e duas camas brancas.

 

– É aqui?!

 

– É aqui.

 

– De quem é esta cama?

 

– Sua.

 

– E aquela?

 

– Minha.

 

– Eu quero dormir sozinha; não sou medrosa. Arranje outro quarto para mim. Agora, tire-me o chapéu!

 

Glória sentou-se na cama, brutalmente. Alice tirou-lhe o chapéu e endireitou-lhe o cabelo. A menina foi ao espelho, achou-se bem penteada e lá no fundo da sua consciência concordou que jamais sentira pousar sobre a sua cabeça mãos mais habilidosas. Voltando-se contemplou Alice de alto a baixo, e perguntou:

 

– Quantos anos tem?

 

– Vinte e três.

 

– Parece mais velha.

 

Alice sorriu.

 

– Eu tenho doze...

 

– Parece mais criança...

 

– Hein?! toda a gente diz que já pareço uma moça! É míope?

 

– Parece criança no juízo, minha amiguinha, e é por eu ver muito bem que lhe digo isto... Não seja má... venha lavar as mãos; seu pai espera-a para jantar; não está ouvindo o tímpano? É o sinal...

 

Glória tremia, sem atinar com a resposta para semelhante afronta. Depois, num desabafo: – Você é muito grosseira!

 

Alice apoiu-se às costas da cama e fechou os olhos.

 

– Bem diz vovó: sempre é mulher de anúncio!

 

– Quê?!

 

Glória não respondeu, e correu, rindo às gargalhadas, para a mesa do jantar.

 

Argemiro esperava-a de abraços abertos.

 

– Ah! como a tua alegria me faz bem ao coração! Senta-te aqui e conta-me: por que te ris tanto?

 

– Por nada... à toa!

 

– À toa! como é bom rir à toa! Como eu preciso da tua inocência ao pé de mim! Ri sempre, meu amor!... Olha o guardanapo... Estás contente?... aqui tens o teu pãozinho... É a primeira vez que jantas sozinha com teu pai... que te parece? Olha a tua sopinha... Está a teu gosto?

 

– Eu não quero sopa.

 

– Estás sem apetite?

 

– Eu não gosto de sopa.

 

– Ah, aqui é preciso gostar de tudo, minha senhora! uma pessoa de educação nunca diz a uma mesa: – eu não gosto disto, eu não gosto daquilo... toma a tua sopinha... E agora dize-me: como achaste a D. Alice?

 

– Horrenda.

 

Feliciano sorriu, sorriu com tamanha indiscrição, que Argemiro repreendeu-o com um olhar.

 

– Seja boa e é o que se quer... precisas tratá-la com delicadeza e amizade; ouviste? É graças a ela que te tenho hoje aqui... Queres vinho? muito pouco... com água... assim... Ora, a minha Glória! Tomara já ver-te moça e tomando conta definitivamente disto tudo, para ter-te sempre aqui... sempre!

 

Glória, que recusara a sopa, comia agora com satisfação. O pai revia-se nela, todo contente.

 

A mesa estava bem posta; desde que Alice entrara não deixara de haver flores e frutas ao jantar.

 

Glória, confundindo a elegância com o luxo, exclamou:

 

– Que mesa rica, papai!

 

– Se viesses jantar comigo antes da D. Alice estar aqui, não dirias isso, embora na mesa estivessem as mesmas porcelanas e os mesmos talheres. Repara nisto, minha filha, que a arte e o gosto dão às coisas mais simples uma aparência de conforto e de alegria muito agradáveis à vida. A minha mesa era triste... agora é assim!

 

Feliciano franziu as sobrancelhas, mal humorado. Glória confessou:

 

– Lá em casa só se põe flores na mesa em dias de visitas...

 

– Porque tua avó é uma senhora idosa e cansada. Compete agora a ti esse trabalho. Informa-te com a d. Alice a esse respeito. Ela parece perita na arte de fazer buquês. Repara para aquele...

 

– Quem não sabe!

 

– Pensas que é fácil?

 

– Tenho a certeza.

 

– Pois então incumbo-te de fazeres todos os dias um ramo para a mesa de teu avô...

 

– Está dito.

 

Argemiro não cessava de olhar para a filha, num embevecimento de noivo, muito solícito em servi-la, provocando-lhe as expansões, com uma alegria de moço. Ela percebia a adoração e abusava, ora rindo, ora franzindo o narizinho aos pratos que o Feliciano lhe apresentava.

 

Entre as peças da baixela figurava nesse dia na mesa do jantar um candelabro de prata fosca, que Argemiro reconheceu com dificuldade, tal era o tempo em que esse objeto vivera segregado no fundo escuro de um armário. Na verdade, Alice caprichara em adornar a mesa! Seria uma homenagem a esse jantar de festa, só de dois talheres, para um homem quase velho, e uma menina quase moça?

 

Quando o Feliciano oferecia a Glória uma fatia de coelho assado, ela exclamou, batendo com o cabo do garfo na mesa:

 

– D. Fuas morreu, papai!

 

Argemiro contemplou-a com espanto; mas desatou logo a rir diante da expressão de seriedade quase cômica da filha.

 

– O teu gato?

 

– O meu coelho branco... Todas as manhãs, quando me levantava, a primeira coisa que eu fazia era correr para o pátio da criação... D. Fuas conhecia-me e vinha para mim... eu levava sempre muita couve para ele, e gostava de ver aquele focinhinho, toca que toca, mastigando a verdura... Ontem desci, e nada de D. Fuas! Procura para aqui, procura para ali, e fomos achar o coitado debaixo da paineira, todo esticadinho, e ainda mais branco porque estava cobertinho de paina... Então eu e a Emília fizemos uma cova, forramos a terra com a paina limpinha, deitamos ali D. Fuas, tornamos a cobri-lo com paina, depois com terra, e acabou-se!

 

– Choraste?

 

– ... Chorei... mas vovô prometeu-me outro!

 

– À saúde do outro que há de vir e que te consolará!

 

Argemiro bebeu convictamente à saúde do coelho, como se o fizera à saúde de uma ilustre personagem. Como ele adorava e era grato a tudo o que alegrasse a vida da sua Gloriazinha!

 

Ouvia-a com tal interesse, que a chama infantil dos olhos dela ateava-lhe na alma curiosidades de criança, também. Eram dois meninos à mesa, àquela mesa que Alice enfeitara como para um noivado.

 

Passaram então a discutir as qualidades dos animais prediletos.

 

Argemiro elogiou os gatos. Glória repelia-os; preferia os cães e cães de fila, que mordessem os outros e a adorassem a ela! Confessou ter muito desejo de ver leões e elefantes. Contou que uma onça, fugida do Jardim Zoológico, andara rondando a chácara; mas que, visse o pai que esquisitice! ela só lembrava de temer a fera à hora de ir para a cama, quando estava toda a casa fechada... De dia não; corria pela horta, pelo pomar... Mas à noite!...

 

– És medrosa?

 

Ela fez notar ao pai, com um olhar, o Feliciano.

 

“Que mulherzinha!” – pensou Argemiro; e riu-se. Embora quisesse, ele não pôde prolongar a demora na mesa; Glória ardia de impaciência; comera muito depressa, com a idéia de andar pela casa toda, a sua casa, que ela dentro de poucos anos governaria... E relanceou um olhar de domínio em redor de si.

 

– Bem, meu amor, gira um pouco pela casa e vai depois fazer companhia à d. Alice...

 

Feliciano informou:

 

– Ela está jantando.

 

– Ela janta na cozinha? – perguntou Glória, no tom mais natural do mundo.

 

– Não, filha; ela tem a sua mesa.

 

– Então cada criado aqui tem a sua mesa? Lá em casa...

 

Feliciano riu-se. Argemiro atalhou:

 

– Não digas mais. D. Alice não é uma criada; representa aqui a dona da casa.

 

– Tal qual como se fosse mamãe?

 

Feliciano olhou de esguelha para o patrão:

 

– Tal qual, não: basta dizer que à d. Alice eu não a vejo nunca, e que estava sempre ao pé de tua mãe; mas para manter a ordem da casa e dirigi-la, é como se fosse.

 

O ciúme da avó relampejava agora nos olhos da neta. Glória olhava para o pai numa atitude de desafio.

 

Toda ela crescera em um instante, como se a raiva a insuflara; e no momento mesmo em que ia formular um protesto, que lhe custava a articular, o padre Assunção entrou na sala, dando risonhamente as boas-noites.

 

Argemiro despegou vagarosamente os olhos da filha e ficou por um bocado alheio a tudo o mais, sem responder aos cumprimentos do amigo.

 

– Que tens tu?! – perguntou-lhe o padre, que lhe pousou no ombro a mão espalmada, depois de ter abraçado a menina.

 

– Nada... Chegas a propósito; vem ao meu escritório. Glória, vai tocar um pouco; experimenta o teu piano, enquanto d. Alice acaba de jantar.

 

– Eu não preciso dela!... – resmungou a menina, dirigindo-se para a sala.

 

– Ouviste? Eu não preciso dela! A prevenção da minha sogra imbuiu no espírito de minha filha uma antipatia medonha por esta pobre moça que tenho em casa e que ainda verdadeiramente nenhum de nós conhece! Ora, eu preciso de uma mulher em casa, exatamente para poder chamar minha filha a mim, e gozar, embora fortuitamente, a sua companhia; e vem-me a criança cheia de azedumes e idéias preconcebidas contra a única pessoa a quem posso confiá-la! Como há de ser?

 

– Fazer com que se estimem.

 

– Mas como?! Sem convivência, e com más insinuações... não há amizade possível. A minha filha tem ciúmes! Herdou o tormento da mãe, que tão bem conheceste, e o único defeito da avó... isto é, herdaram ambas, dela, o mesmo sentimento, porque só são ciumentas de mim! Minha sogra confessa nunca ter tido ciúmes do marido, e, entretanto, não dou um passo em que não sinta a sua vigilância! A alma da filha parece ter se encarnado nela, e é essa talvez a atração poderosa que me chama a si... mas esse excesso de  zelos  vai  estragar-me  a pequena... Não imaginas o gesto de revolta que ela fazia no momento em que entraste, só porque eu prestigiava a governanta! E agora?!

 

– Agora vais sair por umas duas horas, e eu ficarei seroando com a nossa Maria e a tal senhora. Quero vê-las ambas reunidas; não fazes obra acertada atirando tua filha, muito selvagem mas muito inocente, para os braços de uma criatura que tu não conheces... convém estudá-la...

 

– Mas, homem de Deus! não me trouxeste, tu mesmo, as melhores informações dessa tal senhora?

 

– Sim... disseram-me que é uma moça honesta... de boa família... pobre... saúde de ferro... Foi o que me disseram; mas isso bastará? Para governar teus criados, sim; para captar Maria e conviver, mesmo que por poucas horas, com ela... não!

 

– Neste caso voltamos à mesma. Despeço a mulherzinha e nunca mais tornarei a ter a minha filha aqui, comigo, só comigo, livre um bocadinho daquela atmosfera da chácara,  que  a  faz  tão malcriada... tão aborrecida e até antipática. Acabou-se.

 

– Nada acabou; tudo começa agora. Foste sempre prejudicado pela tua impaciência, homem! É tempo de te corrigires. Vai passear. Dizem que há bonitas coisas aí pelos teatros... resigna-se a perder um pouco do teu tempo indo ver qualquer delas... Aí tens o jornal, escolhe.

 

– Não tenho pachorra...

 

– Eu iria a uma mágica. Contam maravilhas desta – Fada Azul...

 

– És um homem inocente!

 

– Sou padre... mas se te não diverte a mágica, vai a outra parte, mas vai! Que diabo! Lembro-te tão bom alvitre e ainda vacilas!

 

– Vais aborrecer-te...

 

– Menos do que tu...

 

– É possível...

 

– É certo. O teu chapéu está ali... queres que te procure a bengala?!

 

– Parece-te que estou à espera que me dês com ela no lombo para então sair?

 

– Já me lembrei disso...

 

– Se não fosses padre...

 

– Não proporia zelar tua filha com tamanho interesse...

 

– Por quê?!

 

– Porque seria provável que estivesse velando pela minha...

 

Argemiro levantou os olhos para o padre Assunção, com uma pontinha de espanto, e mal lhe percebeu nos lábios finos um fio sutil de irônica amargura.

 

– Está bem; cedo-te por instantes o meu lugar e dir-me-ás depois se ele vale a solidão a que te condenaste!...

 

O padre Assunção desceu à sala onde Maria arranhava o teclado com uma fúria de gata brava. Encostou-se ao piano, ouvindo as desarmonias daquela criança, em que ele sentia um vago perfume da saudade materna. Quão diferente fora a mãe, toda delicadeza e graça, do que era agora a filha! Na penumbra da sala reconstrói-se-lhe o vulto airoso e fino, que os bandós loiros iluminavam de uma luz branda, de sol de primavera.

 

Que linda a vira naquela mesma sala àquela mesma hora...

 

Maria levantou-se com ímpeto. O padre Assunção atraiu-a a si e beijou-a na testa, com infinita ternura.

 

– O senhor está trêmulo. Onde está papai?

 

– Teu pai saiu. Manda acender o gás da saleta e convida d. Alice para vir passar o serão conosco.

 

– Não gosto dela...

 

– Por quê?

 

– Não sei... e o senhor?

 

– Eu gosto de  toda  a  gente, minha  filha... de  uns  mais... de outros menos, mas não quero mal a ninguém. Vai pedir a d. Alice, com muito bom modo, que nos faça o favor da sua companhia por umas duas horas...

 

– Papai foi ao teatro?

 

– Não.

 

– Onde foi?

 

– Não sei... daí, talvez tivesse ido ao teatro...

 

– Sem mim?!

 

– Sem ti.

 

– Que desaforo!

 

– Hein?! Ah! Maria, precisamos mudar de gênio... Não te quero assim... faze o que te disse, anda.

 

– Vamos antes para a janela.

 

– Não. Vai chamar d. Alice.

 

– Ela é muito enjoada, muito feia!

 

– Seja como for; quero conhecê-la.

 

– Ah! se é só por isso! Que bicha!

 

Maria percebeu, de relance, que havia uma intenção oculta naquela insistência e movida pela curiosidade acabou por ceder à ordem do padre.

 

E o serão correu tranqüilamente. Alice trouxera a sua cestinha de trabalho e um livro de histórias, confiando pouco nos seus méritos de conversadora.

 

Vendo que Maria se impacientava, propôs ensinar-lhe um ponto fácil de crochê, com a lã do seu agrado. Maria repeliu o oferecimento; mas, aconselhada pelo padre, aceitou-o por fim. Ela detestava os trabalhos  de  agulha,  que  achava difíceis de compreender. Alice tinha o condão de explicar tudo com tamanha simplicidade e clareza que a inteligência mais rebelde se esclarecia às suas palavras límpidas e teimosas. Maria interessou-se por fim, tentada por uma meada de lã vermelha; e, ora vendo, ora tentando fazer, guiada pelas mãos pacientes e ágeis da moça, conseguiu aprender não só esse ponto como outro mais complicado.

 

– A senhora é paciente. Gosta de crianças?

 

– Muito!

 

– Tem irmãs pequenas?

 

Alice olhou para o padre Assunção com ar de queixa. Para que interrogá-la, naquela hora distraída, acordando-lhe a saudade da família ausente ou perdida?

 

Foi isso que o padre pareceu sentir na expressão da moça.

 

Entretanto, ela disse:

 

– Tive... uma...

 

Como Glória se atrapalhasse, tirou-lhe o trabalho das mãos, adiantando-o um pouco, para influir a menina.

 

– Repare bem; olhe... uma volta... outra volta... vou bem devagar... compreende?

 

Maria arrancou-lhe a agulha e o novelo das mãos com impaciência, morta por fazer ela mesma o trabalho. O padre repreendeu-a; Alice sorriu.

 

– Deixe... são todas assim!

 

“Decididamente, esta rapariga não é uma rapariga vulgar” – pensava de si para si Assunção, olhando para a moça. Havia no seu vestido pobre, de lã barata, uma elegância reservada e distinta. O cabelo, sem frisados, de um castanho escuro, desnudava-lhe a testa clara, enrolando-se num penteado de uma graça discreta. As mãos bem tratadas, longas e pálidas, traçavam os gestos com firmeza de quem conhece o seu valor; e a sua voz, um pouco grave, tinha a doçura de uma queixa disfarçada. As feições vulgares não lhe ofereciam nenhum traço característico, e o padre Assunção impôs-se penitências, para castigar a sua vaidade, presumindo que na curta convivência de duas horas, pudesse conhecer bem uma mulher! Começava a ter medo de simpatizar com esta, e que esse sentimento lhe tolhesse mais tarde ações imprescindíveis para a salvação do amigo e de Maria...

 

Conversaram os três durante todo o serão. E afinal, qual foi o resultado de tantas palavras ditas e ouvidas? Nenhum... no serão o lucro correra todo para Glória, que aprendera a fazer crochê e ainda ficara de uma assentada dona da agulha e da meada de lã.

 

V

 

 

 

 

 

Argemiro ouvia um constituinte no seu escritório da rua da Quitanda. A causa era chocha; o homem expressava-se mal, perdendo palavras sobre palavras. O advogado deixava-o falar, olhando silencioso para os raminhos azuis do papel reles, como se pedisse às paredes encardidas a paciência de que deviam estar impregnadas.

 

Efetivamente, toda aquela casa, onde o cupim voraz trabalhava de parceria com os médicos especialistas, advogados e solicitadores, parecia derrear-se ao peso da sabedoria e da malícia.

 

À noite, fechados os escritórios e cubículos, os ratos, passeando por aqueles corredores e alcovas desertas, comentariam as chicanas, as mentiras e os segredos com que a ciência transfigura a verdade e uns homens enganam os outros... E não seriam poucos os ratos, porque às vezes, mesmo em plena luz do meio-dia, surgia de qualquer canto obscuro o focinhito agudo de um desses roedores mais curiosos, como a querer tomar contas do que se passasse; e a sua morrinha vagava na casa, de frente a fundo, enchendo-a como uma alma.

 

O constituinte de Argemiro voltava ao princípio da sua exposição; temia ter esquecido algum detalhe precioso, e a consulta era cara... Foi num desses pontos de repetição que o criado apresentou ao advogado um cartão da Pedrosa.

 

– A mulher do ministro!

 

Argemiro abotoou o colete de fustão e prometeu ao homenzinho que faria tudo por ele, mas que se fosse embora!...

 

O outro atropelou as últimas perguntas e marcou nova entrevista.

 

Através da meia parede de tabique ouvia-se, na sala próxima, o frou-frou das sedas abafadas em lãs e um sussurro de vozes femininas. Logo, a Pedrosa não viera só... Argemiro não a via desde a noite em que fora cumprimentar o marido pela sua nomeação. Que a traria ali?

 

O aroma do Bouton d’or introduzia-se pelas frinchas das portas, invadindo tudo, soberanamente.

 

Argemiro considerou aquele aroma como muito indiscreto, mas gostou.

 

A Pedrosa afinal... Ora, com que então estava no seu escritório a mulher do ministro!... ele ajeitou o nó da gravata e foi recebê-la à porta. Ela entrou logo, com o olhar repreensivo, o busto empertigado e um sorriso amigo na boca descorada. Atrás dela vinha a filha, muito espigada, mais alta que a mãe, com um arzinho petulantae no rosto claro, de feições miúdas.

 

– Seu mau! então é preciso que a gente  o  venha  ver  aqui?!

 

– Oh, minha senhora...

 

– Não se desculpe, nem me agradeça a visita.

 

Daí rompeu a falar, queixando-se de não ter o marido um minuto de descanso que lhe permitisse tratar dos seus negócios particulares, vendo-se ela na contingência de intervir, como fazia agora, a contragosto... Ia consultar o advogado e o amigo...

 

Argemiro agradeceu.

 

Enquanto a Pedrosa remexia na sua bolsinha de camurça, procurando um documento qualquer, o advogado olhou para a Sinhá, que não desviava o olhar de cima dele, numa expressão perturbadora, de mulher amorosa.

 

“Diabo!” – pensou ele consigo.

 

A consulta representava um pretexto. O negócio dispensaria a intervenção do advogado; todavia, a Pedrosa parecia não se importar de passar por estúpida; repetia as perguntas com uma dificuldade de compreeensão que dava tempo à filha de espichar a alma pelos olhos afora.

 

Mas o coração do viúvo parecia fechado a sete chaves e duro como uma pedra. Sinhá levantou-se, deu um giro pelo escritório, riu, falou, interrompeu a mãe e sentou-se depois mais perto de Argemiro, deixando-lhe cair de encontro a um joelho, por descuido, a sua linda sombrinha de seda e rendas brancas.

 

Como o assunto da consulta já não desse de si, a Pedrosa embarafustou por outras portas: as últimas récitas do Lírico, o jantar do presidente, o casamento do Ângelo Barros... aquele Ângelo que dizia ter feito também o juramento de ficar solteirão!

 

E, a propósito, a Pedrosa perguntou ao Argemiro quando teria de assistir ao seu...

 

– Eu já me casei, minha senhora...

 

– Sabemos; mas ser viúvo é como ser solteiro...

 

– Estou velho...

 

– Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se daria por feliz se o senhor a escolhesse... Olhe, na festa da apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor.

 

Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa continuou:

 

– É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a melhor prova a favor das mulheres... Ora, o seu coração por que há de ser mais insensível que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma homenagem ao primeiro... Só procuramos repetir os atos que nos trazem felicidade...

 

– Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que tenho. Está todo ocupado pela minha morta...

 

Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de Bouton d’or adejou pela feia sala do escritório. Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se com o aroma. Que significaria aquele gesto? Colheria o lenço uma lágrima ou disfarçaria um sorriso? Seria ele realmente amado por aquela criança, ou simplesmente preferido por aquelas mulheres como um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo?

 

Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a mãe, que assim o vinha provocar no lugar do seu trabalho arrastando pelos degraus carunchosos daquela casa de homens, a sua filha solteira, apenas saída do colégio! Mas a verdade era que o olhar da pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez. Obedeceria ela à sugestão da mãe, ou agiria a mãe em obediência a uma súplica da flha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de homem, começou a desejar a saída das duas senhoras; mas a Pedrosa não parecia apressada e entrou pela seara da política, como entrara pela do amor.

 

Acertou no ponto de fascinação. Ela estava bem informada; Argemiro abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutá-la de mais perto. Ela era indiscreta, por ser com ele... pedia segredo de algumas afirmações, mostrando-se de vez em quando em oposição a atos do marido...

 

– Pedrosa morre por servi-lo em qualquer coisa... veja se inventa um pedido, para contentá-lo... – concluiu ela, levantando-se com um arzinho malicioso nos olhos espertos.

 

Sinhá imitou-a, quebrada de  languidez,  como  desanimada...

 

Argemiro observou-a de face; ela baixou os olhos, corando. Estava galante.

 

– Recebemos às sextas-feiras e Sinhá tem umas amigas novas que desejam conhecê-lo... o senhor anda muito arredio, mas nem só de saudades vive o homem... é preciso distrair-se e ser amigo dos seus amigos. Até sexta-feira?

 

– Até sexta-feira.

 

Saíram, e ainda por alguns minutos vagou na atmosfera o aroma delas. Argemiro pôs-se a remexer nos seus papéis, pensando:

 

“E haver quem se case assim, pescado, pescado como um peixe! Não seria mais digno que a Pedrosa viesse a mim e dissesse: minha filha ama-o desde a primeira vez que o viu; o senhor convém-me para genro; quer casar com ela?”

 

Ele mesmo se riu da idéia. Essa inocência de costumes só passaria pela cabeça de um doido; e de mais pô-lo-ia em embaraços. Que responderia ele à coitadinha?

 

Daí, talvez que tudo fosse veleidade sua. Os seus cabelos começavam  a estriar-se de branco e Sinhá  deveria  ter  ideais moços... Fora com certeza ilusão... Não lhe faltariam a ela, bonitinha e moça, bons partidos. Todavia...

 

Apoderou-se dele uma doce tristeza. Não poderia amar nunca mais! Nunca mais? Fora tamanho o encanto da sua Maria, que nenhuma outra mulher tivesse jamais o poder de o emocionar?

 

Nenhuma! Ela perdurava no seu espírito como o conjunto de todas as perfeições. A sua figura esguia e branca, que a cabeleira aureolava de ouro pálido, plantara-se no seu coração como uma sentinela pronta a repelir a invasão de um sentimento amoroso, por mais leve e sutil que ele fosse.

 

O contínuo voltou, anunciando novo constituinte.

 

Nas suas tocas os ratos faziam provisão de assuntos para os comentários da noite, nos livres passeios das salas e corredores... e o novo consultor fornecer-lhe-ia matéria para irônicas conclusões: era um velho que procurava salvaguardar os direitos da sua casa de jogo encapado em disfarces, com que espoliava incautos e viciosos. Argemiro indicou um colega mais hábil no assunto. O outro saiu, ele pôs-se a ler, à espera do Caldas para um negócio de valor.

 

Razão tinham aquelas paredes para parecerem desgostosas e estarem enxovalhadas.

 

VI

 

 

 

 

 

Desde que fora entregue aos avós, era a primeira vez que Maria da Glória dormia fora de casa. A baronesa morria de impaciência por vê-la voltar; à tristeza da ausência juntava-se um cuidado que a punha doente. Que teria sucedido à sua netinha, longe do seu carinho e da sua vigilância? Se ela chegasse com febre! Que idéia maldita a de tirarem a criança dali, para a meterem na cidade, por uma noite inteira!

 

Mas a Maria chegou alegre. Saltou do carro sobraçando um grande embrulho de pastéis.

 

A baronesa estendeu-lhe os braços, com os olhos luzindo de alegria.

 

– Vem, meu amor! Eu estava com tantas saudades! Coitadinha...

 

– Coitadinha por quê, vovó?! Eu estou boa. Gostei muito!

 

– Ah, gostaste muito... Então não tiveste saudades minhas...

 

– Tive, mas gostei. Tome estes pastéis, são muito bons!

 

– Eu também tenho um doce guardado para ti.

 

– Onde está?

 

– Depois... escuta, conta-me o que fizeste.

 

– Passeei com papai, toquei, brinquei... já disse: gostei muito!

 

– E...

 

– E... e o quê?!

 

– A tal... a tal mulher, como a achaste?

 

– D. Alice? É tão boa! sabe? ontem ela me ensinou a fazer crochê e deu-me depois a agulha e o novelo de lã!

 

– Ora, que prenda, crochê! Eu não aprecio isso. Ela é bonita ou feia?

 

– É bonita!

 

– Ah...

 

Maria percebia bem que a avó não estava contente; mas continuava a açular o seu ciúme, com maldade.

 

– Tomaste banho hoje?...

 

– Tomei. Foi d. Alice quem me penteou. Sábado voltarei para lá, sim, vovó?

 

– Já?! mal chegaste já pensas em voltar!

 

– D. Alice pediu...

 

– Ora, d. Alice!

 

A baronesa retinha a neta a custo entre os braços. Maria tinha pressa de ir ver os coelhos e verificar se lhe tinham apanhado uma bela manga rosa que ela trazia de olho havia dias...

 

– Sossega, menina! Olha para mim!

 

– Estou com pressa...

 

– Deixa-me  tirar  a  faixa... como este laço vem mal dado... não hás de ir com este vestido para o quintal! Que penteado! Logo se vê que a tal mulher não tem jeito para tratar de crianças!

 

– Como não tem?! É tão delicada...

 

– Dize-me cá: em que quarto está dormindo?

 

– No quarto azul...

 

– Da sala de jantar?!

 

– Não. Em cima, aquele do terracinho.

 

– O gabinete de trabalho de Maria! Será possível? Para uma empregada, um quarto tão bonito... E tu, onde dormiste?

 

– Ao pé dela.

 

– Na mesma cama?!

 

– Não; mas no mesmo quarto...

 

A baronesa suspirou. Ela não pudera conciliar o sono, em frente à cama vazia da neta! E a criança ingrata, ao lado da inimiga, nem pensara nela!

 

O trabalho da baronesa seria agora afastar Maria quanto possível da idéia de voltar à cidade. Disputá-la-ia à outra, a ferro e fogo. A verdade é que Maria exagerava a sua simpatia por Alice, por perceber o desgosto da avó, assim como se comprazia em torturar Alice na ausência da baronesa...

 

No meio dessa semana o Feliciano foi, a mandado de Argemiro, levar uma carta à chácara dos velhos.

 

Glória corria pela chácara; o barão lia sob o alpendre e a baronesa, a seu lado, cerzia meias, sossegadamente. O negro, todo emproado e bem vestido, entregou a carta à velha, que foi a mais pronta em estender a mão.

 

– Então, Feliciano, como vai tudo por lá?

 

O negro sorriu, meneou a cabeça e calou-se.

 

– Que temos? – indagou o barão.

 

– Uma carta do Argemiro; pede-me que não me esqueça de mandar Maria no sábado!

 

– Pois lá a levarei.

 

– Não pode ser. Vou no domingo com ela à Tijuca; já está isso decidido.

 

– Tijuca! Que idéia é essa?

 

– É uma idéia como outra qualquer! Estou sempre como os caracóis metida em casa, e quando falo em sair lá vem tudo abaixo!

 

– Estimo que saias; mas que diabo! Vai noutro dia à Tijuca e deixa a pequena ir ver o pai no sábado, como se combinou.

 

– Há muitos sábados; neste ela não poderá ir. Ele que venha jantar conosco no domingo. Eu vou jantar à Tijuca com a minha neta e voltarei às quatro horas para casa. É uma promessa.

 

– O Argemiro pode ficar sentido...

 

– Que fique. Eu preciso mais da neta que ele da filha. Lá tem outras consolações...

 

O Feliciano sorriu e aprovou com a cabeça. O barão levantou-se e foi para o escritório responder ao genro. Antes mesmo que a baronesa perguntasse qualquer coisa, o Feliciano resmungou:

 

– Aquela casa já não parece a mesma... se a senhora visse! Até me dá saudades de quem está no céu!... Pobre de quem morre!

 

A baronesa sufocou o desejo de indagar do criado aquilo que mais queria, e recomeçou a trabalhar, limitando-se a oferecer:

 

– Entre, Feliciano; vá lá dentro tomar uma xícara de café.

 

– Obrigado; tomei lanche lá em casa antes de sair... apesar de que agora anda tudo muito contadinho...

 

– Isso é bom. O tempo não está para estragos...

 

– Sim, mas poupa-se de um lado para se gastar do outro; afinal, para o patrão as despesas talvez sejam maiores... D. Alice tem uma récua de parentes pobres... Para a gente às vezes o pão não chega, entretanto não bate bicho-careta na porta que ela não dê do bom e do melhor do armário. Até vinho.

 

– Até vinho! – exclamou inconscientemente a boronesa; e logo, reprimindo-se: – A caridade é aconselhada por Deus...

 

– Mas deve começar por casa... A senhora não diga nada ao patrão, porque ele agora é só: d. Alice na terra e Deus no céu!

 

– Ah...

 

– A senhora sabe que eu sempre fui um empregado de confiança, que punha e dispunha de tudo como entendia; pois hoje não posso mover uma palha, que não me tomem satisfação. Ela, com o seu modo de santinha, faz tudo quanto lhe dá na cachola! Eu não gosto de falar, mas... há certas coisas... ontem não afirmo, mas pareceu-me que d. Alice trazia no peito um alfinete...

 

A baronesa pousou a costura nos joelhos e levantou os olhos para o negro.

 

– A senhora não se lembra de um alfinete que iaiá sua filha gostava de usar e que representava uma andorinha de pedras?

 

A velha corou até a raiz dos cabelos e  abriu  a  boca, como se lhe faltasse o ar.

 

– Não diga nada ao patrão, pelo amor de Deus! Eu não afirmo... Pode ser outro alfinete... somente...

 

– Cala-te!... É impossível que as coisas chegassem até esse ponto!... Oh! minha filha!

 

– A senhora perdoe... mas acho do meu dever...

 

– Eu falarei a Argemiro!

 

– Pelo amor de Deus! A senhora me perdoe! Deixe eu adquirir a certeza e depois lhe direi toda a verdade... juro por quem está no céu! Lá vem seu barão... não diga nada a ele também!

 

– Por que não? Estás doido! Se não mentes, não deves temer coisa alguma!

 

– É porque assim serei despedido e não poderei velar de perto pelo interesse de d. Glória...

 

A baronesa já não ouviu as razões do preto e gritou para o marido, num desabafo:

 

– Sabes o que me disse o Feliciano?! Que a tal d. Alice se empavona com as jóias de nossa filha, jóias que só podem ser usadas por Maria! Vê a que ponto chegou aquilo! E ainda querem levar a minha Glória para lá!... Nunca mais!

 

O barão voltou-se furioso para o negro, que repetia aflito as suas palavras: – Não afirmo... parece-me... não digam nada, pelo amor de Deus!

 

– Vá-se embora! E não me torne  cá,  seu  patife! – gritou-lhe o velho, fora de si. – Não queremos saber de nada, ouviu? de nada! Suma-se!

 

A baronesa interveio a favor do rapaz, aconselhando-o a calar-se; entregando-lhe a resposta escrita pelo marido, acrescentou:

 

– Glória não iria, nem nesse domingo nem em nenhum outro! Passassem por lá sem ela! Era o que faltava!

 

Foi exatamente nesse instante que a menina, percebendo o criado do pai, correu para ele com um ramo de rosas na mão.

 

– Você já vai, Feliciano?

 

– Já, sim senhora...

 

– Bem; então leve estas rosas a d. Alice!

 

A baronesa fez um gesto para impedir tal incumbência, mas o barão travou-lhe o braço:

 

– Deixa-a lá.

 

– Minha pobre filha – exclamou a baronesa olhando para o céu; – Não sei como hei de defender-te sozinha!

 

E os olhos encheram-se-lhe de pranto.

 

– Lágrimas, aí temos lágrimas! Mas, querida, repara que a nossa Glória não ofendeu em nada a memória da mãe e lembra-te também de que, se for verdade o que pensas, o Argemiro é rapaz, não pode guardar a castidade de uma menina... Que mais queres? Amou a nossa filha, fê-la feliz durante a vida e isso basta para lhe sermos muitíssimos gratos.

 

– Que favor!

 

– Se ela vivesse, estou certo de que ele  lhe  seria  fiel... mas dela já não resta senão a memória. Os homens são vários, não exijas deles virtudes que não podem ter... Almas imaculadas só as das mães.

 

– Para mim, Maria existe, sinto-a tão viva na minha saudade, que traí-la me parece uma profanação!

 

– Exatamente, porque és mãe.

 

– Não achas também indigno que ele dê as jóias da mulher a uma rapariga de maus costumes e que meteu em casa, precisamente na casa onde viveu a outra e que está ainda toda cheia dela?

 

– Parece-te a ti. Ele, o viúvo, deve ter sentido o isolamento daquela casa, onde por nove anos viveu sozinho! Nove anos não são nove dias. Outro fosse ele... De mais a mais no Rio de Janeiro, que é a terra da tentação!

 

– Defendes o Argemiro!

 

– Tu havias de compreendê-lo e dar-lhe razão se...

 

– Se eu fosse homem...

 

– Ou se não fosse mãe de Maria...

 

– Maria! Acredita, ela renasce todos os dias, sinto muitas vezes o peso dela sobre os meus joelhos, ou dos meus braços, como quando a adormecia... Vejo-a desde pequenina, e de quando andava por aí correndo com o seu bibi branco e o cabelo solto, lembras-te? Tão linda! até depois, já mocinha... e sempre, sempre, tenho-a comigo, só comigo! Às vezes sinto nos dedos a seda dos seus cabelos tão finos e no rosto a doçura dos seus beijos... Sei que é ilusão, mas quem nos diz que no mundo não seja tudo ilusão?

 

A alma perfeita e amorosa de Maria não está longe de nós, mesmo que esteja no céu. É a minha convicção.

 

– Uma alma perfeita perdoa todas as ofensas.

 

– Mas sofre. Imagina a dor, se do outro mundo ela vê o marido pregar amorosamente as suas jóias ao peito de outra mulher, e que mulher, uma mercenária! Maria foi ciumenta... Argemiro foi o seu único amor!

 

– Está bem; mas não acredites que ele tenha dado as jóias da mulher à outra...

 

– O Feliciano viu.

 

– O Feliciano é um despeitado.

 

– Quando te parece, és cego e és surdo!

 

– Todos devem sê-lo, em certas ocasiões!

 

– A tua opinião é talvez que me cale!

 

– Que te cales e que mandes a nossa Glória todos os sábados visitar o pai. Ele assim o quer e manda, faça-se a sua vontade.

 

– Isso nunca! Seria uma desmoralização! O meu dever é velar por minha neta!

 

– Argemiro é um homem sério e muito amigo da filha.

 

– E nós?

 

– Nós só somos responsáveis por ela para com o pai.

 

– E perante Deus!

 

– Deus... A propósito de Deus: pedi na carta ao Argemiro que trouxesse no domingo o Assunção.

 

– Padre Assunção... que idéia! Se lhe falássemos?

 

– A que respeito?

 

– A respeito das jóias... Ele aconselhará o Argemiro e indagará de tudo... Se não estiver também fanatizado!

 

O barão riu-se.

 

– Faze o que quiseres; eu lavo daí as minhas mãos.

 

A baronesa, resolvida a agir, sentiu-se subitamente reanimada. Ela iria até ao inferno pela sua idéia. Defenderia, custasse o que custasse, a sua morta!

 

Nessa mesma tarde telegrafou ao padre, chamando-o.

 

VII

 

 

 

 

 

O domingo amanhecera de chuva; um bom dia para preguiça. Argemiro escreveu aos velhos desculpando-se por não ir vê-los e deliberou consagrar essa manhã aos papéis em desordem. Fora uma providência Glória não ter vindo.

 

Com tão feio dia...

 

A verdade, que ele sentia, que o penetrava por todos os poros, era que a sua casa nunca lhe soubera tão bem. Havia um conforto novo, um aroma de malva ou de pomar florido, melhor luz, melhor ar, por aqueles compartimentos que o Feliciano, quando sozinho, enchia do cheiro dos cigarros e dos charutos. Sempre era um fumante!

 

Agora não; percebia-se que o ar daqueles quartos tinha sido renovado e o ambiente purificado pelas roseiras abundantes do jardim.

 

Argemiro sentiu nessa manhã, pela primeira vez, uma certa curiosidade de ver Alice; mas não procurou pretexto para isso, certo de que, estando muitas horas em casa, forçosamente esbarraria com ela por acaso. Deixava pois, e de bom grado, a esse senhor a responsabilidade do encontro. Daí, a idéia moça trazia-lhe à lembrança umas pobres botinas cambadas...

 

O seu gabinete reluzia de asseio, cheirava bem, não precisava de mais nada.

 

Começou tranqüilamente a leitura dos jornais.

 

Estava em meio de um artigo, quando o padre Assunção bateu à porta.

 

– Então! Preguiçoso!

 

– Entra. Como vês! Tens razão, preguiçoso! E nunca tanto como agora... absolve-me e senta-te.

 

– Cá estou... bravo, como esta cadeira está bonita!...

 

– Que cadeira? homem, é verdade... hás de crer? Ainda não tinha reparado... agora me lembro, ela tinha o estofo do espaldar esgarçado... Este lírio seria pintado por d. Alice?

 

– Se te não pôs na conta do estofador...

 

– Posso verificar já. Ontem à noite recebi uma caderneta com a nota das despesas do mês e... pasma, saldo a meu favor! Eu não dizia que o Feliciano era um abismo? Que diferença! basta olhar. Tu, que és mais observador, repara: está tudo luminoso, tudo límpido, tudo bem arranjadinho... hein? Há outra atmosfera nesta casa; estou melhor aqui do que em parte nenhuma, porque em tudo me parece haver o propósito de me ser agradável. Abre essa gaveta, e verás como está bem arranjadinha a minha roupa branca. Um primor! E o que me delicia é sentir a alma desta criatura, que aqui tenho debaixo do meu teto, sem que nunca os meus olhos a vejam nem de relance... Ela esconde-se, ao mesmo tempo que se espalha pela casa toda. É a mulher-violeta, positivamente, não há outra comparação! Esta será estafada em literatura, mas na vida prática talvez nunca tivesse tão boa aplicação... A Glória, que é tão rebelde, já aprendeu com ela alguma coisa... Faz crochê! É uma coisa abominável, o crochê; mas, enfim, é uma prenda... Eu deveria ter tomado esta resolução há mais tempo...

 

– Talvez não tivesse vindo esta mulher... Outra seria assim?

 

– Não! Ontem, por exemplo, entrei em casa uma hora antes do costume; atravessava o jardim, quando senti acordes no piano; mas acordes bem harmônicos, vibrados por dedos disciplinados, conscientes. Ouvindo-me tocar a campainha, ela fugiu da sala; e quando eu entrei, um pouco curioso, confesso-te, encontrei o piano aberto, mas a sala deserta... Logo, esta mulher é uma mulher educada,; desenha, aí está esse lírio, que o prova; sabe música e escreve com firme caligrafia. Glória tem aqui uma excelente companheira e a minha casa uma alma inteligente, que lhe faltava desde a morte de Maria, que aliás não era tão prendada... Enfim, enquanto eu me visto, examina essa caderneta, acolá, naquela mesa...

 

– Para quê, meu velho? Só a ti compete isso. Eu não entendo de cifras. Mesmo de almas, apesar de me ter dedicado a elas, cada vez entendo menos... Estou um ignorantão.

 

– Almoças comigo? almoças, sim, e vais ver o que é uma mesa bem posta; sempre com flores e  com frutas.  Esta  mulher deve ter sido criada com luxo. Noto que ela gosta de rendas... Enfim, estou contente!

 

– Lamento.

 

– Hein?

 

– Lamento.

 

– Estás doido!

 

– Não.

 

– Explica-te. Ah! já sei! pensas talvez que estou apaixonado?! Quem me dera, Assunção, que assim fosse! Não sei que filtro misterioso tinha a minha pobre Maria, que não me deixa amar mais ninguém!... Se eu fosse espírita explicaria isso bem, dizendo-te que a sinto à roda de mim, e que ela se interpõe mesmo entre os meus mais frívolos beijos! Mas sabes que não sou espírita, nem religioso. O que me apraz, nesta situação, é sentir em roda de mim a influência de uma mulher moça, sem contudo a ver nunca. Gosto do silêncio e da ordem e a sua presença me perturbaria; assim, ela preside à minha casa, sendo para mim como um ser imaterial, que não me impõe a maçada dos cumprimentos, e eu vivo rodeado de solicitudes, podendo conservar a minha impassibilidade. Não acredites que me seja possível amar outra mulher, como amei a minha... O ciúme dela criou tantos fantasmas que eu mesmo acabei por temê-los!

 

– Pois foi para espantar um desses fantasmas, que tua sogra me chamou ontem. Jantei lá em cima.

 

– Sim?! E Glória? como a achaste?

 

– Perfeita, isto é, perfeita quanto ao físico. Parece uma maçã madura. Até a pele lhe cheira a fruta! Mas escuta: a baronesa, como toda a gente, menos eu, desconfia que tens pela tua governanta uma adoração menos espiritual.

 

– Já me tardava, o ciúme! Maria vive naquele coração como no meu!

 

– Folgo que a compreendas e a desculpes... que tencionas fazer?

 

– Nada. Afirma-lhe tu que não existe ligação absolutamente entre essa pobre moça (que conheces muito melhor do que eu) e o viúvo da filha...

 

– Já afirmei.

 

– E então?

 

– Não se contentou...

 

– Achas então que devo despedir esta senhora, que me torna a vida agradável, fácil e boa, só por um capricho da minha sogra?

 

– Acho.

 

– Ora! isso é levar muito longe a minha afeição filial!

 

– É uma medida de prudência...

 

– Mas se eu já te disse que estamos na mesma casa e é como se morássemos a cem léguas um do outro! De que cor são os seus olhos? nem sei. Dize a minha sogra que farei tudo por ela, menos isso... Com o governo da minha casa ninguém tem nada que ver. Nada! Lê a caderneta, que é melhor. Verifica como tudo isso está em ordem, direitinho... Nem um guarda-livros!

 

– Não digo que não. Amanhã terei de ir falar com tua sogra, a respeito de um lugar que arranjei no Asilo, para uma criança sua protegida. Desejaria levar-te em minha companhia. Há algum tempo que não apareces por lá. Ela adora-te. Farás bem em sossegá-la... Por hoje basta sobre o assunto. És ainda moço, Argemiro, e o tempo fará o milagre que desejas... Temos outra conversa de interesse: terás porventura entre as jóias de tua mulher algum alfinetinho, ou broche, não sei bem como se chama, que possas levar à nossa Glória? Ela deu bem as suas lições, segundo me disse o avô, e seria justo recompensá-la. Para incitamento, prometi-lhe que lhe levaria uma lembrança que tivesse pertencido à mãe... Sobretudo, é naquele coração que se deve cultivar a adoração dela... Contraria-te a idéia?

 

– Não será cedo para dar jóias a minha filha?

 

– Conforme a jóia; vamos ver... onde as tens?

 

– No cofre. Espera... ou antes, vem comigo.

 

Entraram para um gabinete contíguo e enquanto Argemiro escolhia a chave do cofre, Assunção estremeceu à idéia de poderem verificar um roubo...

 

Feliciano vira no peito de Alice um alfinete de Maria... a baronesa o dissera. Logo, se as jóias faltassem...

 

Era uma andorinha de pedras...

 

Senhor! Uma minúscula andorinha de pedras teria o poder de fazer tremer um homem?!

 

A chave rangeu na porta do cofre e Argemiro tirou de dentro uma caixa de cetim branco, amarelecido, que levou para cima da mesa.

 

– Há quanto tempo não mexo nisto! Faz-me saudades... Escolhe tu...

 

– Não... escolheremos juntos...

 

Argemiro abriu a caixa e logo Assunção suspirou de alívio vendo reluzir as pedrarias dos anéis e das pulseiras.

 

– Ela tinha muitas jóias... gostava de brilhantes... e a Glória, por enquanto, ainda não pode usar brilhantes... – disse Argemiro.

 

Colares, broches e pulseiras iam sendo retirados do cofre, com a maior atenção, num silêncio comovido.

 

Quantas vezes a dona lhes sorrira e os deslumbrara no meio daqueles adereços?

 

Não brilhava tanto uma estrela, como os seus cabelos de ouro coroados por aquele diadema... os anéis faziam-lhe saudades dos seus dedinhos pálidos e meigos.

 

De repente, Assunção gritou com júbilo:

 

– Este!

 

– Este? É também de brilhantes...

 

– São uns diamantinhos modestos. E depois representa uma avezinha inocente, símbolo da primavera... leva-lhe esta andorinha, e coloca-a tu mesmo no peito de tua filha, em nome de sua mãe...

 

– Mas que tens tu? estás trêmulo, com os olhos rasos d’água!

 

– Abraça-me, meu velho. Também eu tive saudades de Maria... que queres?

 

– Eras o seu confessor... e agora, com franqueza, dize-me: um homem que foi casado com um anjo daqueles, pode jamais pensar em outra mulher?

 

– Pode; e pensarás e hás de ser feliz. Quem sabe? talvez mais!

 

Argemiro olhava para o padre, com certo espanto.

 

– Agora fecha a caixa e apressa a tua toalete. Lembra-te que estou em jejum e com fome...

 

– Vai descendo... Eu irei ter contigo num minuto.

 

Momentos depois sentavam-se à mesa. Alice armara uma cestinha de flores e frutos, entrelaçando-as com umas pontas de renda. Argemiro apontou-as com o dedo:

 

– Lembras-te do que te disse lá em cima? Gostos finos... rendas... flores...

 

Padre Assunção sorriu, acenou que sim, desdobrou o seu guardanapo e começou:

 

– Um pouco de política: ouvi dizer que o...

 

Um criado interrompeu a frase, servindo os hors d’oeuvre; mas logo depois a palestra enveredou afoitamente pelos labirintos da Câmara e do Senado.

 

 

 

VIII

 

 

 

 

 

Provada a intriga do Feliciano, recomeçaram as visitas de Glória às Laranjeiras. A baronesa exigira segredo do que se passara, desejosa de que Argemiro conservasse em casa o criado, que já o fora da filha. De resto, ela estava intimamente convencida de que o negro não mentira, mas se enganara. Convinha-lhe tê-lo de guarda naquele lar em ruínas, como se à sua voz de alarme ela pudesse correr e ainda salvar alguma coisa!

 

A verdade, que percebia sem a confessar, é que a neta lucrava muito na convivência de Alice. Ela perdia aos poucos aqueles modos agressivos de criança malcriada, começava a interessar-se pela vida e a abrir os livros com mais freqüência. E já não lhe bastavam as visitas curtas, do sábado para o domingo; desejava estendê-las agora até as segundas-feiras, cujas manhãs aproveitaria em passeios com a governanta do pai.

 

A baronesa protestou indignada:

 

– Mais essa! andar uma menina de boa família colada às saias encardidas de uma mulher suspeita, por essas ruas da cidade! Não faltava mais nada...

 

Padre Assunção interveio:

 

– Consinta na primeira experiência. D. Alice parece-me severa e digna de toda a confiança. Confesso-lhe que sinto uma certa curiosidade pela direção que ela vai dando aos gostos da nossa Maria... Prometo velar pela sua neta.

 

– Ah! Padre Assunção, a República  estragou  a  nossa terra!  Agora qualquer criatura parece digna de toda a confiança... Quem nos dirá quais as intenções daquela criatura? Por mim tenho medo, apesar da sua vigilância...

 

Glória zangou-se e fugia, aos repelões, dos braços da avó. Não haveria remédio senão ceder à vontade da criança, e a baronesa cedeu, molestada, enfraquecida.

 

Na primeira segunda-feira o padre Assunção recebeu muito cedo uma cartinha da baronesa:

 

“Glória está nas Laranjeiras; é hoje o dia determinado para o seu passeio. Confio-a à sua guarda; olhe por ela. – Luiza”.

 

Assunção telegrafou a Alice. Esperá-la-ia no largo do Machado, às três horas.

 

Logo que Maria deparou com o seu grande amigo sentado sozinho em frente à estátua, correu alegremente para ele e, afogueada, risonha, abraçou-o com força. Ele mal teve tempo de interrogá-la e já ela, revelando uma piedade até então oculta no mais fundo do seu peito, lhe contou o que vira, toda entusiasmada. Vinha do Instituto dos Surdos-Mudos.

 

– Ah, padre Assunção, eu não sabia que havia gente assim, fechada dentro de si mesma, como me explicou d. Alice. Que desgraçados seriam se não houvesse aquela casa tão boa, onde eles conseguem aprender tudo, como os homens perfeitos! Como a gente tem vontade de ser boa, quando vê coisas dessas!

 

E, trêmula, loquaz, desatou a descrever as aulas, as oficinas, os dormitórios do estabelecimento, e os grupos de alunos, risonhos, limpos, sossegados...

 

Padre Assunção voltou-se para Alice, que, sentada a seu lado, riscava a areia do jardim com a ponteira do guarda-sol.

 

– A senhora já foi preceptora?

 

– Nunca...

 

– Não podias ter empregado melhor o teu dia, minha Glória; agradece a d. Alice ter-te feito conhecer infelizes, cuja existência, como disseste, desconhecias... e que te despertaram tão bons sentimentos... Agora, vamo-nos embora, que a tua avó deve estar impaciente!

 

Maria beijou Alice e ainda, depois, voltou-se da rua para lhe dizer adeus com a mão.

 

Que diferença entre esta despedida e o seu primeiro encontro...

 

Padre Assunção ia calado, meditativo. Que espécie singular de mulher era aquela, que, com tão alto senso de moral, se sujeitava ao papel de governanta da casa de um viúvo só? Humilhada em sua posição, maltratada por aquela menina orgulhosa, ela ia chamando habilidosamente a sua simpatia para os pobres e os infelizes. Seria por despeito ou por outro motivo mais maternal e em que a sua personalidade ofendida não tomasse parte? Fosse qual fosse a razão, a verdade é que aquela simples visita a um instituto do seu bairro valera por todos os sermões com que ele procurara abrandar o coração altivo de Glória. O tato sutil daquela mulher começava a encantá-lo; mas vinha-lhe medo de sugerir ao amigo essa impressão. Argemiro estava com o coração repousado, fácil lhe seria o apaixonar-se e o padre não se esqueceria, cem anos que vivesse, das últimas palavras trocadas por ele e a mulher moribunda:

 

– Jura que te não tornarás a casar!

 

– Juro.

 

– Jura por Deus!

 

– Juro pelo teu amor, juro por Deus!

 

Fragilidade do coração humano, por que hás de ser agrilhoada por palavras de ferro que se não podem partir?!

 

Toda a cena da morte de Maria se reproduzia na memória do padre, ali chamado para a última bênção. O som da voz dela ficara-lhe para sempre no ouvido, como nos olhos a sua imagem pálida... E não fora ele só a testemunha daquela terrível promessa: a mãe e o pai da moribunda ouviram com ele a voz de Argemiro, no inquebrantável juramento!

 

As asas do tempo têm forte envergadura; não cansam de voar, mas levam às vezes consigo penas que se não mudam, embora fiquem disfarçadas entre outras que vão nascendo...

 

Assunção sofria por não encontrar remédio para os males futuros, que via próximos. O seu papel estava feito por si, tinha de aceitá-lo, fazendo, como religioso, cumprir-se um juramento dito em nome de Deus. Mas o amigo? mas o homem? mas aquela pobre mulher sozinha? Deveria consentir que a guerreassem como a uma inimiga?

 

Ele não era cego nem era surdo. A obra de Alice era de paz e de benefício. Fora ela que modificara as impetuosidades daquela criança, cuja vontade onipotente dobrava tudo e todos a seu bel-prazer.

 

Seria isso um cálculo, uma impostura? Especularia ela, servindo-se da filha para entrar no domínio do pai? Afinal, que se sabia dela? Que pertencia a uma boa família descaída da fortuna e que passava por uma moça honesta...

 

Em boas famílias quantos maus germes existem e quantas mulheres honestas maquinam tramas infernais! O confessionário ensinara-lhe que o bem e o mal nascem da mesma fonte sempre inconstante e fértil...

 

A família... Seria certo o que a baronesa lhe insinuara? Dissera que uma récua de famintos ia tirar aos criados de Argemiro os pedaços que lhes competiam...

 

A que horas? Como? Deveria também indagar disso?! Por que não, se esse era um meio de conhecer a mulher com quem talvez tivesse de lutar?

 

E uma triste simpatia atraía-o logo para a pobre governanta, sempre bem arranjadinha nos seus vestidos surrados, sempre sorridente e sempre simples.

 

– O senhor também parece mudo! – disse Maria, rindo.

 

– Estava pensando cá numas coisas...

 

– Eu também.

 

– Em que pensavas?

 

Em d. Alice.

 

– Ah... e quais eram as tuas conclusões?

 

– Que é muito boa moça.

 

– A razão deve estar contigo.

 

– Eu queria que vovó gostasse dela...

 

– Há de gostar.

 

– Hum...

 

– Mais tarde; dá tempo ao tempo.

 

– Por que é que o papai não quer ver d. Alice?

 

– Oh, filha, é... é porque teu pai... receia avivar as saudades de tua mãe...

 

“Já me tardava esta pergunta” – disse ele de si para si.

 

– Não entendo...

 

– Tua mãe não era a dona da casa?

 

– Era.

 

– D. Alice não está desempenhando o papel de dona de casa?

 

– Ah, mas não é mulher dele!

 

– Ah!...

 

– Nem come à mesa, nem aparece às visitas... é, afinal, uma espécie de criada!

 

– Não. Ela governa os criados. É diferente...

 

– Tenho pena dela. Agora tenho pena dela...

 

– Agora?

 

– Antes não tinha... tinha raiva.

 

– Mas... por quê? ela queixou-se?

 

– Não... não sei porque! mas acho aquilo esquisito! Mal sente os passos do papai, zás! foge! chega a ser engraçado!

 

“Realmente, é uma situação de comédia” – pensou Assunção, rindo involuntariamente com Maria.

 

E a situação prolongava-se. Argemiro, cada vez mais caseiro, não lobrigava nem a pontinha da saia de Alice, a quem, de resto, resolvera definitiva e absolutamente evitar, contente por sentir a influência dela, não só no seu lar como na sua filha. Maria aproveitava sempre as segundas-feiras em passeios, uma vez no Jardim Botânico, outras aos asilos ou a novos bairros e diferentes jardins, trazendo sempre impressões bem definidas e em que se percebia uma direção cuidadosa e inteligente. A pouco e pouco a criança ia se tornando mais observadora e mais piedosa. O padre Assunção, que ia buscá-la sempre ao ponto indicado por Alice, sentia arraigar-se-lhe a idéia de que esses passeios através da cidade desenvolviam melhor o espírito e o coração de Maria do que o mais volumoso livro de moral.

 

Se vinha de visitar um asilo de velhos, com que meiguice Glória falava dos seus cabelos brancos, dos seus passos trêmulos e do seu triste sorriso desdentado! Se vinha da Tijuca, quantas exclamações de entusiasmo para as belas árvores poderosas e as quedas de água da cascata e as lindas flores silvestres! Se vinha do mar, que indagações curiosas sobre os navios e lanchas, e quantos elogios para as largas paisagens azuis, varridas de ar fresco! A vida dos marinheiros, com os seus perigos, a dos pescadores com os seus atrevimentos, atraíam a sua simpatia e a sua piedade. Ia vendo que o número dos sacrificados é muito maior no mundo do que o dos felizes, e assim se tornava menos selvagem e mais humana.

 

Ora, o padre Assunção sabia bem que tudo aquilo era reflexo e sugestão de Alice. Maria era inteligente, e as suas qualidades morais, ainda informes, propendiam mais para a maldade que para o bem. Aquela metamorfose era, pois, toda, obra da moça, que parecia acolher a companhia da criança, como um presente caído do céu... Realmente, ela estava tão só!

 

O ciúme da baronesa aumentava a cada novo triunfo de Alice, que lhe disputava a neta com furor. Sofria calada, não ousando queixar-se nem ao marido nem ao padre Assunção, que ambos glorificavam com entusiasmo a obra da moça. Fechada na sua chácara, à sombra das mais lindas mangueiras dos subúrbios, ela maldizia a hora em que o genro chamara para casa aquela aventureira, cujo propósito percebia a léguas. O Feliciano não voltara, e ela tinha pena... só ele lhe poderia dizer toda a verdade, por não estar enfeitiçado pela bruxa e por conhecê-la melhor que os outros, visto estar sempre na sua convivência...

 

Sua intenção estava feita. Havia de cumprir-se. Quando o negro, por acaso, aparecesse ali, ela puxar-lhe-ia pela língua, de modo que ninguém mais o ouvisse senão ela... ah! e então, nada ficaria em meio!

 

Com as idas de Maria à cidade, rareavam as visitas de Argemiro à chácara; esse desgosto vinculava as suspeitas da baronesa; mas quando o genro se lembrava de ir vê-la, achava jeito de falar na filha a todo o instante, numa obstinação dolorosa e impertinente.

 

– Você tem ido visitar o túmulo de Maria? Mandou reproduzir os retratos de Maria? – e assim  o nome da filha saía-lhe constantemente da boca, como a querer impô-lo à lembrança de todos.

 

Os retratos de Maria, desde o de colo, de quatro meses, até o último, em que o seu perfil delicado se voltava para o céu, como a interrogá-lo, alinhavam-se sobre o guéridon, sobre o piano, na sala de visitas, na saleta de trabalho e na sala de jantar, repetindo-se por toda a casa, para que nunca os olhos maternos deixassem de o encontrar... Ela vivia assim perpetuamente arrastada pela saudade, nunca conformada, e criadora da ilusão!

 

Argemiro identificara-se tanto com a sogra nesse sentimento, que para ele era como se Maria estivesse longe, muito longe, mas estivesse, e houvesse de voltar um dia. Era uma certeza tida pelo coração e não compartilhada pelo cérebro, mas que, sendo terrível, não deixava de o consolar...

 

Por seu lado, a baronesa temia vê-lo fugir para outras adorações, e não cessava de lhe lembrar a triste súplica da filha.

 

Agora, porém, não se tratava de juramento; Argemiro não o violaria por amar Alice, dando-lhe um lugar deixado vazio a seu lado. Esta solução, que ela não previra, enchia-a de dor. Afinal ele não tinha outra esposa, mas tinha outra mulher!

 

Por mais que dissessem, a baronesa não acreditava que dois entes moços, vivendo sempre na mesma casa, não se vissem nunca; e desesperava-a a idéia de atirar Maria todas as semanas para aquele poço de hipocrisia e de imoralidade!

 

 

 

IX

 

 

 

 

 

A Pedrosa empenhava-se na conquista de Argemiro. Não contente de o convidar com insistência, arrebanhava-lhe os amigos para os seus jantares das sextas-feiras, em que a sedução rescendia até nos molhos de peixe. Adolfo Caldas, que se gabava aos íntimos de fazer os relatórios do ministro, traduzindo para português castiço a linguagem quebradiça do homem de Estado, não faltava nunca a essas reuniões; e o deputado Teles, governista, assistia aos banquetes com o desassombro de quem concorria poderosamente para a felicidade e o prestígio daquela casa.

 

Argemiro, o mais solicitado, era incerto. Só o padre Assunção se esquivava sempre a essas honrarias, alegando que o seu sacerdócio o afastava de todos os gozos profanos. Para se aproximar também deste amigo, a Pedrosa não lhe faltava às suas missas das quartas-feiras, alegando devoção particular a S. José, patrono do marido, e oferecendo pela mão da filha esmolas gordas para os seus pobres.

 

A esmola, vinda daqui, dali ou dacolá, mata da mesma maneira a fome. É dinheiro. Padre Assunção agradecia sinceramente. S. José que valesse àquelas almas interesseiras, que outras menos dignas iam à sombra do seu manto pecar na igreja, sem que do seu pecado resultasse algum bem para os necessitados...

 

Que ambicionava, afinal, a Pedrosa? casar a filha com um homem de bem. Expor a menina àquele desfrute não era, por certo, ação digna de uma mulher criteriosa; mas a boa justiça encontraria para ela certa indulgência... Desgostavam-no mais as outras, que à sombra dos altares iam falar de amor, ali no interior sagrado da sua querida Matriz da Glória!

 

Pensaria, por exemplo, a Eugênia Duarte, que ele, padre, via com bons olhos a sua assiduidade na igreja? Fora sua confessada, sabia-a casada, com filhos, um lar precisado da sua presença e do seu carinho...

 

E lamentava os filhos dessa mãe, abandonados todos os dias, à hora exatamente de saltar do leito e da bênção maternal... Outra, cuja presença o inquietava ali, era Joaquininha Lobo, sempre com os pulsos cheios de rosários, sempre a dobrar-se em profundas reverências diante das imagens dos santos. Também essa fora sua confessada, e debandara como as outras, afligidas pelos seus conselhos e pelas suas admoestações... O marido desta vivia em viagens, como oficial de marinha; ela rabiava pelas igrejas, dando entrevistas entre padres-nossos, sempre envolvida em grandes obras de beneficência.

 

Numa quarta-feira, saía o padre Assunção de dizer a sua missa, quando foi abordado no adro pela Pedrosa e a Sinhá, que o aguardavam com a competente esmola. Embaixo, junto aos degraus, esperava-as o coupé. O dia estava magnífico.

 

– Reverendíssimo!

 

– Minhas senhoras...

 

– Acabamos de receber a sua bênção e viemos esperá-lo para darmos esta esmolinha aos seus pobres...

 

– Meus ou dos outros, todos os pobres me merecem a mesma consideração. V.as Ex.as devem tê-los também...

 

– Repele então o nosso oferecimento?! – perguntou a Pedrosa, desapontada.

 

– Não tenho esse direito. Somente, se me permitirem... eu ensinarei a uma das minhas velhinhas o caminho da sua porta, e a esmola será, então, dada diretamente, mais agradável a ambas...

 

– Isso não obsta... darei outra esmola à sua velhinha!

 

A Pedrosa continuava de mão estendida; e como o padre não a aceitasse logo, ela disse, com a sua costumada vivacidade:

 

– O sr. padre Assunção desconfia de nós!... não crê, por certo, na sinceridade da nossa simpatia. Tem sempre relutância em aceitar as nossas esmolas!

 

– Engana-se, minha senhora, engana-se! Não posso recusar o que não é para mim!... Todavia, desculpem-me a teimosia, a pessoa a quem eu destinaria esse dinheiro procurá-las-á amanhã. Posso morrer de um momento para o outro... é bom que conheça as suas benfeitoras...

 

– Morrer! Quem fala nisso, ainda tão moço!

 

Ele sorriu com ironia, sem responder.

 

– Diga-me, que fim levou o nosso amigo Argemiro? Não há quem o veja!... Não sei quem me disse tê-lo visto há dias com a filha... ela ainda mora com a avó?

 

– Sim, minha senhora...

 

– Então ele vive sozinho... absolutamente sozinho?...

 

– Sozinho.

 

– Que barbaridade!... Aquela ovelha está tresmalhada do seu rebanho... não lhe parece, padre Assunção?

 

– Ao contrário, Argemiro, consagrando-se à saudade da sua mulher, está bem escudado contra os perigos do mundo... Mas, minhas senhoras, perdoem-me V.as Ex.as estar a entretê-las aqui, com este sol!

 

– Ao contrário, eu...

 

Mas o padre apressou-se no cumprimento e as duas senhoras não insistiram na conversa, percebendo que ele tinha uma preocupação qualquer.

 

Ficaram as duas ainda alguns segundos no alto da escada, vendo a longa figura seca e angulosa do padre atravessando, a grandes pernadas, o jardim.

 

– É um homem difícil de conquistar... já não sei quantas esmolas lhe temos dado, não sei quantos convites lhe temos feito... parece antipatizar conosco...

 

– Se eu fosse a senhora não dava mais nada, nem o tornaria a convidar para ir lá a casa. Por ser padre não deve ser grosseiro...

 

– É o melhor amigo de Argemiro... Compreendes que o não convido só pelos seus belos olhos.

 

– Ah...

 

A Pedrosa olhou para a filha com certo espanto.

 

– Mamãe espera mais alguém?!

 

A Pedrosa, por única resposta, começou a descer a escada e, ao entrar no coupé, gritou para o cocheiro:

 

– Estação do Corcovado!

 

Sinhá, sentando-se a seu lado, indagou curiosamente:

 

– Vamos ao Corcovado, a esta hora! fazer o quê?

 

– Almoçar...

 

– Sozinhas? E o papai?

 

– Teu pai não almoça hoje em casa.

 

– Mas ele sabe?

 

– Há de saber quando eu lhe disser.

 

– E se ele não gostar?

 

– Tolinha... vejo que não tenho outro remédio senão ir te dizendo já o que adiava para mais tarde. Não saíste a mim na perspicácia...

 

Sinhá olhava para a mãe com uma linda expressão de estupidez.

 

– A razão por que vamos almoçar às Paineiras não pode ser desagradável a teu pai. É esta: está lá em cima, no hotel, o encarregado dos negócios de Inglaterra. Fui-lhe apresentada há dias, rapidamente: convém fazer-me lembrada... Aquele homem pode ser muito útil a teu pai. Aparecendo lá, como por acaso, ele forçosamente virá cumprimentar-nos. Almoçaremos talvez à mesma mesa e terei ensejo de lhe repetir o oferecimento de nossa casa. É uma relação útil. A vida, minha filha, é como uma caixa vazia que os sôfregos e os tolos enchem com tudo que topam, e os atilados só com coisas escolhidas. Se não fosse a minha tática, pensas que teu pai teria alcançado as posições que tem tido?!

 

– Julguei que fossem só os seus merecimentos que...

 

– Tontinha! Só pelos merecimentos, sem um pouco de manha, ninguém faz nada neste mundo!...

 

– Mas sendo o papá ministro a utilidade das relações é toda para o tal inglês!

 

– Não, filha; o homem é consideradíssimo no alto comércio e só por iniciativa dele podem advir para teu pai grandes simpatias... e choverem-lhe manifestações de apreço, que são sempre de um ótimo efeito. Um banquete, por exemplo, oferecido pelo alto comércio a um ministro, pensas que não lhe acrescenta a importância? É preciso ter faro para se perceber bem isso... Catando-se seixinhos podem-se fazer castelos... Este é um provérbio inventado por mim e que não deves esquecer...

 

– Mamã não receia...

 

– Quem tem medo não vai à guerra. E depois, medo de quê?

 

– Que percebam...

 

– Faço tudo com muita diplomacia; sei disfarçar a minha vontade, fazê-la triunfar sem que ninguém perceba. É um dom peculiar e que eu desejo transmitir-te. Mas acho-te muito frouxa; és ainda muito inocente, muito ingênua. Lá para diante, quando tiveres os teus trinta anos, me compreenderás. Apesar de que eu, desde que me conheço sou assim... atilada e corajosa. Quando me casei, teu pai não passava de um advogado pobre... Quem o lançou na política? Fui eu. Quem trabalhou para sua eleição de deputado e que maior número de votos alcançou? Fui eu. Quem o levou pela primeira vez ao paço de Suas Majestades? Fui eu, e tinha apenas vinte e dois anos!... Quem, depois de proclamada a República, o persuadiu de aderir e lhe arranjou uma cadeira no Senado? Eu. Quem o fez ministro agora? Eu. Eu sempre, servindo-me destas estratégias, aproveitando todas as ocasiões e todas as simpatias, obsequiando um dia para insinuar no outro uma proteção que parecesse vir espontaneamente; realçando os méritos de teu pai, quer de espírito quer de coração, seguindo-o como um cão de caça segue o caçador, através de todos os perigos, corajosamente.

 

– Se o papai não tivesse qualidades extraordinárias, a senhora, por mais que fizesse, nada alcançaria!... – interrompeu Sinhá, defendendo os brios paternos.

 

– Ah! eu não havia de ser tão tola que me casasse com insignificante. Casei por amor, mas também por ver em teu pai um homem de altas tendências. As mulheres são mais ambiciosas e mais ativas. Homem que casar com mulher acomodada, está perdido. É outra máxima das minhas. Toma nota.

 

– Homem que se casar com mulher acomodada... – repetiu Sinhá, quando a mãe continuou:

 

– Já minha avó era assim. Casou todas as filhas com quem muito bem quis. Os homens com herdeiras ricas, as filhas com senadores e conselheiros...

 

– Com homens velhos...

 

– Homens de posição. Que vale a mocidade sem dinheiro e sem brilho?

 

– Oh! mamãe...

 

– Não vale nada!

 

– Papai era moço...

 

– Nem tanto... Em todo o caso, maridos querem-se como frutos: maduros. Teu pai era de família distinta, excelentemente relacionado; percebi logo muito bem que seria feliz. E, efetivamente, ele tem sabido deixar-se levar.

 

– Por quem?!

 

– Que pergunta! Pelas circunstâncias... e por mim! Olha que saber levar alguém a um destino desejado, sem que nem mesmo esse alguém perceba que vai sendo impelido por mãos alheias... é uma grande arte! É a minha. Mas, credo! em que disparada nos leva o João!... isto cansa os animais!

 

– Leva-nos sem arte... – disse a Sinhá, sorrindo.

 

Ela tinha agora a fronte velada por uma sombra de tristeza. O vestido escuro, abotoado até o queixo, fazia-lhe ressaltar a palidez do rosto emoldurado por dois ondeados bandós pretos.

 

– A casa do Argemiro não deve estar longe... Aí está o Argemiro! já não é muito moço... os cabelos começam a pintar. Entretanto, conheces algum rapaz mais distinto?!

 

Sinhá não respondeu. A mãe, depois de ter esperado um pouco, continuou:

 

– Ele fará a tua felicidade. É dos tais que precisam de ser estimulados... Tendo tantos recursos, não se serve de nenhum! Nem deputado é.

 

– A eterna mania da política...

 

– Não há nenhuma mais patriótica. Mas advirto-te que não deves alcunhar de manias as minhas opiniões...

 

– Mamãe desculpe...

 

– Olha! a casa dele é aquela... é bonita... é própria... repara! Será tua...

 

– Já reparei, mamãe!...

 

– O único inconveniente é a filha...

 

– E ele não gostar de mim! – acrescentou Sinhá.

 

– Queiras tu! Para mim isso seria até um estímulo. Sempre gostei de vencer dificuldades...

 

– Eu sou muito mais fraca...

 

– Deixa isso por minha conta...

 

– Mamãe!...

 

Sinhá fez-se vermelha e não conseguiu dizer mais nada. Aquela palavra dita em tom de súplica parecia tê-la engasgado. Estava com os olhos cheios de água.

 

A Pedrosa continuou:

 

– Trabalharei para a tua felicidade, como tenho trabalhado para a felicidade de teu pai. Digo-te isto só a ti e exijo que o não repitas a ninguém! É uma lição de experiência, que te deve aproveitar. Infelizmente, no mundo só os espertos alcançam bom lugar. Quem não tiver cotovelos, não se meta nas multidões...

 

– Outro adágio, mamãe?

 

– Não é, mas pode servir... O padre Assunção ainda há de fazer o vosso casamento; e quero-lhe então ver a cara! Acha o pateta tão justo que o amigo esgote a mocidade a choramingar pela mulher defunta!

 

– Deve ser bom ser chorada assim!

 

– Qual o quê! nem a outra vê nada! Ela já em vida parece que não via grande coisa... Era tão vaga... tão vaporosa!

 

– Bonita?

 

– Hum... Delicada... Precisamos arrancá-la do coração de Argemiro.

 

– Deixe-a... Não devemos guerrear os mortos!

 

– Nem nos deixar vencer por eles. Endireita o teu chapéu... repara para o meu... está bem?

 

– Está bem...

 

O carro rodou ainda alguns minutos. Quando chegaram à estação, a Pedrosa recomendou ao cocheiro que as viesse esperar às quatro horas, e subiram para o trem que estava a partir.

 

Sinhá, perturbada com as teorias da mãe e procurando uma das extremidades do banco, voltou o rosto para fora e fez toda a viagem olhando para o mato. A Pedrosa não interrompeu o silêncio; também ela precisava recolher-se, arregimentar as idéias, preparar a sua cena...

 

Às onze horas, no jardim do hotel das Paineiras, não havia ninguém.

 

A sombra das árvores derramava-se silenciosa sobre mesinhas nuas. Só numa estavam restos de aperitivo em dois copos. A Pedrosa calculou logo que aquele vermute tivesse sido ingerido pelo encarregado dos negócios da Inglaterra – e olhou com simpatia para os cálices sujos...

 

Sinhá seguira até a extremidade do jardim e olhava para diante, para o vale despido de neblinas, resplandecendo no azul do dia. Entretanto, a Pedrosa encomendava o seu almoço ali mesmo, no ponto mais visível do jardim, inquirindo ao mesmo tempo com a vista se o inglês estaria almoçando na sala de jantar...

 

Não estava; e o criado, jeitosamente interrogado, declarou ter Sua Excelência descido no primeiro trem, para ir buscar um amigo a bordo do Madalena.

 

A Pedrosa olhou com raiva para os dois copos de vermute e apressou o almoço!

 

Sinhá contemplava a paisagem magnífica, afastada da mãe, perturbada por um sentimento que não saberia explicar. Era como se, meio despertada de um sonho extravagante, a sua consciência não pudesse determinar ainda bem a realidade da vida, pressentindo-a apenas...

 

Um dia de cetim, macio, vazava sobre montes e mares uma luz clara, destacando as copas das árvores e os pedregulhos das praias, escorregando pelas encostas acolchoadas de mato, de onde irrompiam pios de aves e manchas alvinitentes das umbaúbas. Duas grandes borboletas, de um azul dourado intensíssimo, perseguiam-se, indo e vindo, ora ao pé, ora longe da moça, que as acompanhava com o olhar deslumbrado. Para onde ia uma, partia logo a outra, para voltarem juntas, pousarem no mesmo galho, beijarem a mesma flor.

 

Amam-se, e o amor deve ser aquilo, o não poder estar uma sem a outra, na ânsia do beijo definitivo, do laço que as prende até a morte!... Felizes as borboletas, que procuram sozinhas os seus casais...

 

– O homem foi-se! – exclamou a Pedrosa, aproximando-se da filha. E logo depois:

 

– Estás com os olhos chorosos!

 

– É de olhar para a luz...

 

– Bem, vamos almoçar. Ora, que contrariedade! O bêbado não podia escolher outro dia para ir buscar o amigo! Diz que foi buscar um amigo a bordo. Enfim, é um passeio... há de fazer-nos bem... ficará para outra ocasião...

 

– A senhora não desiste?

 

– Não. Nunca desisto do que empreendo. Senta-te. Mas eles estão pondo a mesinha... Tens fome? Eu perdi o apetite. Isto aqui sem companhia é insípido... E eu, que dei ordem ao João para me esperar às 4 horas...

 

A outra mesinha era para um casal, a mulher morena e robusta, o marido já grisalho e magrinho.

 

A Pedrosa reconheceu-os logo que os viu e disse à filha:

 

– É a Marianinha Serpa, do Rio Grande... foi minha colega nas Irmãs. Deus queira que não me reconheça!...

 

– Por quê?!

 

– Filhinha, assim como devemos procurar certas relações, devemos evitar outras... esta senhora é casada com um médico e tem dele não sei quantos filhos... abandonou a família e participou agora a toda a gente o seu casamento com este...

 

– O outro morreu de desgosto?

 

– Não; em primeiro lugar, porque o desgosto não mata; depois, porque ele também se casou com outra!

 

Sinhá arregalou os olhos, espantada.

 

A manhã era de revelações! Ela cuidara sempre que os laços do matrimônio eram indissolúveis... A grande poesia do casamento parecia-lhe estar na perpetuidade do amor e na perpetuidade do voto. Que era o casamento, então? um contrato quebradiço, sujeito a ser violado ao primeiro amuo?

 

As idéias embaralhavam-se-lhe na cabeça. Ainda na véspera discutira-se à mesa, em sua casa, a lei do divórcio. E o próprio pai afirmara que ela jamais seria decretada no Brasil... Interrogou a esse respeito a mãe, que respondeu quase em segredo:

 

– Eles estão olhando para nós... disfarça... não convém falar nisso agora... A Marianinha já me conheceu... não fosse eu a mulher do ministro... verás como me abraça!

 

Assim aconteceu.

 

Pelos fins do almoço, a Marianinha atirou o guardanapo para a mesa e, arrastando o marido, correu a falar à Pedrosa.

 

– Petronilha! – exclamou ela num arranco enternecido.

 

A Pedrosa levantou-se com um sorriso cerimonioso e um ar de quem não atinava com o nome da outra...

 

– Não se lembra da Marianinha Serpa! das Irmãs? O diabrete azul, como me chamavam?

 

– Ah! sim!...  o diabrete azul...  lembro-me!  Desculpe-me... mas estava tão longe!...

 

– Mesmo depois disso encontramo-nos várias vezes em casa do...

 

Mas a Marianinha interrompeu-se para apresentar o marido.

 

Pedrosa apresentou, por sua vez, a filha, e os outros voltaram para o seu lugar; faltava-lhes o café.

 

– A vida é uma comédia... – comentou a ministra. – Vá a gente fiar-se... Eu não te disse? Viu que tínhamos acabado e não quis deixar-nos sair sem se apresentar. E agora teremos de ir cumprimentá-los. Mas vão esperando que lhes ofereça a casa... não por mim, que afinal não desgosto dela... A Marianinha é pianista, entretém; mas por causa da sociedade!

 

Reuniram-se depois, passeando ao longo do aqueduto; era preciso fazer horas para descer. Marianinha tinha vivacidade, falava muito. O marido colhia avencas que Sinhá deixava cair dos dedos distraídos. À hora da partida, o casal, obsequioso, ofereceu a Sinhá uma caixa de passas de pêssego do Rio Grande, lembrança acabadinha de chegar da sua terra.

 

Logo que o trem se pôs em movimento, a Pedrosa suspirou de alívio. Que dia!

 

E, abrindo a caixa de pêssegos, contemplou-os com aprovação e disse:

 

– A única coisa boa do dia! Vê como estão bem arranjadinhos e como são bonitos. O fabricante tem arte... estes lacinhos de fita estão bem dados...

 

E ela, antes de fechar a caixa, cheirou os pêssegos.

 

– Esta gente agora, seja onde for que nos encontre, há de atravessar diante de nós... Entendem lá consigo que já nos obsequiaram. É o que se chama vir buscar lã...

 

 

 

– Pare no no 274 – disse a Pedrosa ao João, ao entrar no carro.

 

– Na casa do dr. Argemiro? Para quê, mamãe? Eu não entro!

 

– É só por curiosidade... a esta hora ele não está em casa... deixo-lhe um cartão e a caixa dos pêssegos... dir-lhe-ei depois que ia passar-lhe também um bilhete de caridade...

 

– Mamãe, os pêssegos são meus!

 

– Não sejas gulosa. Aquilo fez-se só para presentes. E, afinal, para quem quero eu o Argemiro? Les petits cadeaux entretiennent l’amitié, dizem os franceses. Ele irá agradecer-mos a casa e tu o receberás...

 

– Mamãe!

 

– A mamãe só quer a tua felicidade, descansa!

 

Quando o carro parou, a Pedrosa desceu e ordenou à filha que a acompanhasse. Sinhá hesitou antes de obedecer.

 

O vestíbulo da casa de Argemiro, resguardado da rua por um largo pavimento de vidros lavrados, tinha uma porta lateral abrindo sobre o jardim e outra ao fundo, dando para uma saleta de espera. A Pedrosa dirigiu-se com a filha para a porta do fundo e ia tocar a campainha, quando ouviu uma voz de mulher dando uma ordem. Depois, a porta abriu-se e a figura de Alice apareceu entre os umbrais.

 

– Vejo que me enganei... não mora aqui o dr. Argemiro?!

 

Alice acenou que sim, com a cabeça e um leve sorriso.

 

– A família... a filha... está?

 

– A filha não mora aqui...

 

A Pedrosa, percebendo que não falava a uma criada, observou Alice com estranheza, da cabeça aos pés. Sinhá murmurou:

 

– Vamos, mamãe...

 

Adivinhando a confusão das senhoras, Alice, despeitada, voltou-se para o Feliciano, que se aproximava, e disse:

 

– Feliciano, receba as ordens destas senhoras!

 

Depois, cumprimentando-as, atravessou o vestíbulo e saiu pela porta do jardim.

 

A Pedrosa acompanhou-a com a vista.

 

 

 

Feliciano esperava empertigado, com um arzinho malicioso na fisionomia esperta. A Pedrosa escreveu a lápis num bilhete de visita:

 

“Dr. Argemiro. Passando pela sua porta, quis deixar estes pêssegos para a sua Glória. Tinham-me informado que ela estava aqui. Cumprimentos”.

 

Feliciano recebeu a caixa e o cartão e apressou-se em ir adiante abrir o guarda-vento e a portinhola do coupé.

 

No carro, a Pedrosa explodiu:

 

– Que tal o viuvinho, hein?!  E o bandido  do padre, que ainda hoje afirmou que o hipócrita vive só com a sua saudade!  Será  o  nome dela?!  Deixa-a estar... vamos a ver quem vence!...

 

– Mamãe!

 

– Mamãe! Mamãe! lá estás tu a balir como uma ovelhinha assustada! Ora, o ladrão do Argemiro!... Este Rio de Janeiro está perdido! É por isso que ficam tantas moças solteiras... O ménage! já é com um descoco que falam na sua ménagère!... Se as mães não tomam sentido, ficam as filhas em casa... havemos de defendê-las, custe o que custar... Ladrões!

 

– Mas não pense mais no Argemiro... mamãe...

 

– Hein?! que idéia, não pense no Argemiro! mas se ele é o marido que te convém! Julgas que é muito fácil encontrar um homem que reúna tantos predicados? Só por ter uma ménagère? Desistir de um marido por causa de uma ménagère! Tolinha... isto até prova em seu favor... já não cheira à defunta... Depois, essa espécie de mulheres só embaraçam os tolos. Acredita que muitas vezes é a amante quem atira, inconscientemente, um homem para os braços da esposa... Tu... bem! mas por enquanto não te posso dizer mais nada. Já falei demais.

 

Sinhá olhava para a mãe com olhos de espanto.

 

 

 

X

 

 

 

 

 

Era uma fortuna cair o aniversário de Maria num domingo. Sempre era um dia roubado à companhia da outra. O consumidor ciúme trazia a baronesa doente, de uma tristeza sem remédio. Os beijos da neta sabiam-lhe a falsidade, os seus abraços, amolecidos, tinham perdido o ímpeto selvagem dos tempos de que a via ir fugindo tão depressa. Qualquer dia levá-la-iam de todo, sem que nem ela ao menos voltasse a cabeça para trás, para um último sorriso...

 

Nem por ser exercitado no amor, o coração deixa de desvairar se o contrariam!

 

Às vezes, para o desabafo, a queixa subia-lhe aos lábios descorados; mas o marido, inflexível, acudia logo, com a crua lei do destino:

 

– Acostuma-te: mais tarde ela terá de acompanhar o marido, como a avó acompanhou o avô, e a mãe acompanhou o pai.

 

E ela, então, gemia desconsolada:

 

– Até lá, onde estarão os meus ossos! – como se a idéia da morte a tranqüilizasse.

 

Se os pensamentos a atormentavam de dia, à noite perseguiam-na os sonhos. Alice, sempre a Alice, apresentava-se-lhe sob diversas formas, mas sempre com as mãos que nem garras.

 

A insistência da idéia penetrava-a de crenças novas. Debateu-se em vão, concentrada no seu canto, com os olhos no retrato da filha, que o tempo ia desvanecendo num descolorido suave. Assim se atenuasse na sua alma a dor, como aquela sombra no papel! Por que há de haver coisas eternas na vida transitória? Já viu alguém refletir-se uma imagem com fixidez em águas de grande correnteza? A vida não faz outra coisa senão passar, e a dela então imobilizara-se num momento de horror? Uma noite, em sonhos, a filha apareceu-lhe lavada em pranto. Seus olhos, como dois ramos de miosótis inundados, vinham varados pela tristeza moça do amor. Não houve outra queixa. A mãe compreendeu-a. Era tempo de agir. Consultaria os espíritos, já que na terra não a ajudava ninguém.

 

Lembrou-se de uma tal d. Alexandrina, da estação do Rocha. Contavam-se dela maravilhas, revelações estupendas!

 

Preparou-se cedo. Vendo-a sair do quarto, de chapéu e de capa, o marido espantou-se, tão raramente ela punha os pés na rua.

 

– Vou à missa pedir a Deus saúde e juízo para Glória. Ela faz anos hoje...

 

– Sei...

 

A baronesa não sabia mentir.

 

Ao mesmo tempo que falava, as faces tingiam-se-lhe de vermelho.

 

Mas o marido não deu por tal; e ela saiu.

 

 

 

D. Alexandrina morava num sobradinho estreito, onde a baronesa entrou envergonhada. Fizeram-na esperar numa salinha de jantar atravancada por uma mesa coberta por um pano de aniagem, de franjas sujas, uns caixotes acolchoados, à guisa de divãs.

 

Nas paredes, colados sobre os mandarins do papel desbotado, cromos de folhinhas e uma gravura representando o Marechal Floriano Peixoto. Depois de alguns minutos de espera, entrou d. Alexandrina, uma mulherzinha magra e morena, quase sem queixo, de olhos redondos.

 

A baronesa entrou, seguindo-a, para uma alcova, onde ardia uma lamparina em frente a um oratório. Como na sala de jantar, havia ali profusão de imagens coladas às paredes; somente, estas eram apenas de santos. Uma cortina de chita corrida encobria um leito de que se viam somente os pés. Ao cheiro do óleo da lamparina juntava-se o de manjericão, num copo.

 

D. Alexandrina retirou um baralho de cartas de uma gaveta, pousou-o sobre a mesinha redonda,  junto  à  qual se sentaram e, pedindo com um gesto à baronesa que esperasse,  voltou-se para o oratório e rezou baixo, com os olhos e o queixinho a tremer-lhe.

 

Finda a reza, a cartomante pediu à baronesa que partisse o seu baralho, de grandes cartas, e começou a operação.

 

– A senhora tem uma inimiga...

 

A baronesa fez que sim com a cabeça.

 

– É uma mulher má, que abusa da sua confiança...

 

– Da minha confiança?!

 

– Repito o que está nas cartas... A senhora tem a receber uma grande herança...

 

– Não...

 

– Sim... daqui a um ano... Mas deve mudar-se da casa em que está, antes que lhe suceda um desastre... A sua inimiga é moça, é bonita e é pertinaz; ela alcançará tudo que deseja, se a senhora não se atravessar no seu caminho... Ela finge amar seu marido, por cálculo...

 

– Meu marido, não... meu genro! – retificou a baronesa, ofendida.

 

– A carta... diz um cavalheiro que a interessa... cuidei que se tratasse de seu esposo. Será seu genro...

 

– Pode saber-se quais são as suas intenções?

 

– Ser amada por ele e explorá-lo.

 

– Eu já desconfiava!...

 

– Não se apoquente... ela será desmascarada a tempo... Não é livre... ama um rapaz pobre... com quem se encontra furtivamente... A senhora receberá uma carta...

 

– Que mais?

 

– O mais não digo; a senhora poderia ficar impressionada, sem vantagem... Seja prudente... queime a carta que receber... e esteja alerta... não convém intervir já... espere um pretexto, que não se fará esperar muito... a sua inimiga tem recursos...

 

– Se tem!

 

– E já conseguiu muita coisa... Recomende a seu genro cuidado, sobretudo com uns papéis lacrados que ele tem encerrados em um cofre!

 

– Tenciona roubá-lo?!

 

– Por hoje não lhe posso dizer mais nada – concluiu d. Alexandrina, cerrando os olhos.

 

A baronesa saiu tonta. Era a primeira vez na sua vida que se abalançava para consultar uma adivinha. Envergonhava-se do seu ato; o marido censurá-la-ia... fora ali buscar um pouco do sossego e saía em maior confusão – aterrada!

 

Fizera mal até então em não acreditar nas cartomantes: como pudera aquela adivinhar a existência da inimiga e as suas idéias perigosas? Mas, por que não lhe dera a ponta da meada, por onde ela pudesse desfazer toda a teia? Tinha que esperar uma carta e só depois dela lida e desfeita em cinzas teria de entrar em cena! Entretanto, a outra iria tomando inteira posse do coração de Argemiro, que ela queria só cheio do amor e da saudade da filha!

 

Era por causa daquele coração que a sua doce Maria lhe aparecera banhada em lágrimas! Havia de lutar até restituí-lo à morta!

 

O carro entrava agora na larga rua das mangueiras da chácara, quando a baronesa viu o Feliciano a pé, sobraçando um grande embrulho. Ela fez parar o carro e chamou o negro.

 

– Feliciano! Bote esse embrulho aqui e ajude-me a descer. Quero fazer um pouco de exercício... E, voltando-se para o cocheiro: – Guarde isso no carro até a minha chegada.

 

O carro partiu; a baronesa disse:

 

– Feliciano, quero saber toda a verdade: que se passa em casa de minha filha?

 

O rapaz fingiu-se mais espantado do que estava e balbuciou:

 

– Nada demais... não, senhora.

 

– Não é verdade. Estou informada de que d. Alice conversa com o senhor doutor... nega, se és capaz.

 

– Quem informou a senhora?! – perguntou Feliciano, para não dizer que sim nem que não.

 

– Alguém... Ela tem dias certos para sair?

 

– Sai com d. Glória nas segundas-feiras...

 

– Que bem me pesa! Mas além dessas vezes?

 

– Nas quartas-feiras, à noitinha...

 

– Sozinha?

 

– Sozinha.

 

– Precisas acompanhá-la de longe, uma dessas vezes, e vir dar-me o resultado da tua espionagem... Deus me perdoe! mas é para bom fim!

 

– Não posso...

 

– Hein?!

 

– Nas quartas-feiras o patrão está em casa; é o dia em que os amigos vão jantar e jogar com ele, e  sou  eu  que  sirvo...

 

– O demônio prevê tudo! Ela não recebe visitas?

 

– Não, senhora...

 

– Estás comprado por ela! Deu-te bola!

 

– A mim?! não! que a Feliciano Ermelindo Braga ela não engana... nem enrola! É muito esperta, mas eu também não sou tolo...

 

– Feliciano, preciso que estejas sempre de olho vivo e vigiando a casa da tua antiga senhora. Lembra-te de como ela era tua amiga e tão condescendente!

 

– Não me esqueço...

 

– Se não te esqueces, dize a verdade: Argemiro não fala com essa mulher?

 

– À minha vista, não, senhora...

 

– Julgas que se falem?...

 

A baronesa parou, envergonhada. O negro começou:

 

– Anteontem, mal o patrão saiu, eu entrei devagarinho na sala de visitas e vi d. Alice espiando, para o ver, por detrás da cortina... Outra vez entrei no escritório e ela estava encostada no cofre...

 

– No cofre! É bom verificar sempre se o teu patrão se esquece de fechar o cofre...

 

– Não era com o sentido no cofre, não, senhora; ela tinha tirado da parede o retrato de d. Maria e estava olhando de perto para ele!...

 

– Que sacrilégio! com o retrato de minha filha nas mãos!

 

– Já por duas ou três vezes eu pilhei-a assim... parece que ela tem inveja... ou ciúme...

 

– Por que não contou isso ao seu patrão?

 

– Deus me livre!  Seu  doutor  parece  que está enfeitiçado... não admite que a gente diga nada. Também, ela pode fazer o que quiser! Desde que aquela senhora entrou lá em casa, não fui mais senhor de arrumar uma camisa do patrão nas gavetas, nem de mexer nos seus papéis. Eu tenho de levar o tabuleiro da roupa para perto da cômoda e é ela quem ajeita tudo. Outro dia pareceu-me, não afirmo, vê-la pôr um raminho verde embaixo das camisas de meia... A senhora sabe que há certas artes de feitiçaria que só o diabo as entende... ela depois fecha tudo a chave... Quem poderá livrar o patrão?

 

– O anjo custódio de minha filha! Feliciano, consta-me que ela ama um moço pobre e que o encontra de vez em quando. Fala a verdade... ele não vai lá nunca?

 

– Pobres vão lá... às vezes até tenho vontade de enxotar aquela canalha toda... mas o patrão deu licença...

 

– Impostora! Que dinheiro ela ganha para poder fazer tanta caridade!

 

– Não, senhora, são os restos... ela tem lá uns devotos para a ceia...

 

– A despensa está bem sortida!

 

– A senhora não fale nisso ao patrão, porque ele disse outro dia ao padre Assunção, à minha vista, que nunca em sua vida teve casa tão bem administrada como agora!

 

– Nunca, em sua vida?!

 

– Depois que d. Maria faleceu...

 

– Ah...

 

– Agora me lembro que foi lá um dia um moço procurar a d. Alice!

 

– E...

 

– Foi numa segunda-feira; ela tinha saído com d. Glória.

 

– Então não a viu?

 

– Não, senhora.

 

– Mas ao menos não lhe perguntaste o nome?

 

– Não quis dizer...

 

– Era fino... bonito? Há de ser o tal!

 

Estavam  a  curta  distância  da  casa,  quando  Glória  saiu  correndo:

 

– Vovó!  Por  que  não  me  levou?  Venha  depressa!  Vovô  não  quer  me  deixar  abrir  o  embrulho  que  veio  no  carro  e  eu  sei  que  é  para  mim!  Adeus,  Feliciano.  Como  está  d. Alice?

 

– Em  vez  de  perguntar  por  teu  pai,  perguntas  pela...  criada!  Anda, vamos  ver  o  teu  presente!

 

– Papai virá logo... mas a d. Alice...

 

– Basta! não quero que me tornes a  falar  nessa  criatura... ouviste?

 

– Eu gosto dela... é bem boa!

 

– Para o fogo.

 

– Eu gosto dela muito!

 

– Mas d. Glória lá em casa trata  a  d. Alice  com  secura... – observou o negro.

 

– É mentira! Você é um mentiroso! – protestou a menina, com raiva.

 

– Glória!

 

– Que é, vovó?

 

A baronesa não podia mais. Entrou e fechou-se no seu quarto. Arrependia-se já daquelas ações que praticara. Deus a livrasse de condenar uma inocente, mas lhe desse forças para punir uma culpada. O que a afligia eram os meios de que lançara mão para conhecer a verdade. A espionagem do negro... a intervenção da cartomante... oh! como isso lhe repugnava agora, bem a sós com a sua consciência! Valera a pena viver uma vida pura e nobre, para na velhice fazer aqueles desatinos?

 

O retrato da filha, suspenso à cabeceira da cama, absolvia-a daquela culpa, sorrindo-lhe docemente de entre a onda pálida dos cabelos soltos.

 

A baronesa sentia nojo pelas armas que ia preparando para o combate. Repugnava-lhe ter de servir-se da adivinha e do Feliciano. Receava acreditar demasiadamente na primeira; temia fazer-se eco dos despeitos do segundo... e todavia aceitava as indicações da cartomante, espantada de lhe ter ouvido referências tão verdadeiras... e dera o passo repugnante de induzir o criado à espionagem!

 

– No dia em que eu receber a carta, revelarei tudo a meu marido, – decidia ela – e se nada receber... não tornarei a voltar à d. Alexandrina... Que poderá aquela fraca criatura contra as disposições do destino? Velha tonta que eu sou!

 

À hora do jantar, quando a avó de Glória apareceu na sala, notou toda a gente que ela estava pálida, com olheiras pisadas e um sorriso forçado que não conseguia levantar-lhe os cantos da boca fatigada. A carne pálida e flácida do pescoço descaía-lhe sobre as rendas da gravata segura por um broche de esmalte representando a cabeça loura de Maria, cópia do seu último retrato, e em que o doce perfil da moça parecia já velado por uma sombra de infinita tristeza. Os cabelos brancos, presos à nuca por um pente de tartaruga, iluminavam de reflexos de prata a sua fronte amargurada, em que o pensamento parecia perder-se no labirinto das rugas.

 

Argemiro correu a abraçá-la e sentiu-a fria ao beijo com que correspondeu ao seu. Acudiram logo todos a rodeá-la de cumprimentos.

 

Adolfo Caldas fora arrebanhado na rua, pedia desculpa para o seu veston de trabalho, pondo nas mãos bondosas da velha um ramo de violetas, que ela prendeu junto ao broche da filha.

 

Dr. Teles beijou-lhe os dedos curtos, de unhas sem brilho; e o padre Assunção, lendo-lhe no rosto uma agonia estranha, fixou-lhe penetrantemente os olhos, que se turvaram, como a água clara de uma lagoa a que uma pedra revolve o fundo.

 

Glória avançou radiante, com os braços cheios de pacotes de bombons, de livros bonitos e de rosas. Também a d. Alice lhe mandara um presente pelo padre Assunção! Era um vasinho para flores, de cristal branco, mimosamente lavrado.

 

Glória entregou-o à avó, gabando-lhe a delicadeza; mas, no instante em que declarou o nome de Alice, os dedos da velha abriram-se trêmulos, e o lindo vaso fez-se em pedaços no soalho.

 

Argemiro e o padre Assunção trocaram um olhar rápido. Glória exclamou, num grito lamentoso:

 

– O meu vasinho! Ah! vovó!

 

– Perdoa, filha... eu te darei outro igual, perfeitamente igual... não sei o que tenho nas mãos. Que sensaboria!

 

– Realmente, – censurou o barão, sem compreender – não sei como se pode deixar cair assim um objeto desses!... Foi pena, porque era um bonito veneziano...

 

Glória olhava para os destroços, com os olhos marejados, e começava outra lamentação, quando o pai a chamou para o terraço e a aconselhou a se mostrar resignada e alegre. Empurrou-a para a sala.

 

Caldas foi ter com eles, e, rindo-lhe na cara:

 

– Han! que te dizia eu, meu velho? Eis-te em pleno romance, já no capítulo dos zelos! Para quem está de fora, o caso é bonito; chega mesmo a ser interessante... Ça marche!

 

– Cala-te, abelhudo. Foi uma injustiça. Se os meus olhos a não tivessem visto, não acreditaria nela. Tão delicada é quem a praticou que chego mesmo a supor não ter havido propósito no desastre!

 

– Olha que a ingenuidade faz mal ao apetite, a acreditar no exemplo das ingênuas... Vamos nós à sopa, que cheira melhor que a tua intriga...

 

– Vamos.

 

– O Assunção fez-se lívido. Reparaste-lhe para o rosto? Não reparaste: tu estavas contemplando a tua alma! Não há nada como ser espectador... Vi tudo e cresceu-me a admiração por tua sogra... foi transparente! Se amas a outra terás de lutar com esta. Sapristi! Quando as mães...

 

– Estás doido! Eu amo lá a outra! Eu nem a vejo! Dou-te a minha palavra de honra, que nem a conheço!

 

Caldas contemplava-o espantadíssimo, repetindo:

 

– Sério? Sério?!

 

– Já te dei a minha palavra de honra. Que mais queres?

 

– Não quero mais nada, filho, estou entusiasmado! Basta-me o espanto, que é dos maiores que tenho tido em minha vida. É adorável!

 

Glória, já risonha, veio puxá-los para a mesa, que o avô enfeitara toda de margaridas brancas. O dr. Teles discutia política com o barão. A baronesa, afastando-se do padre, com quem conversava, designou o lugar a cada um dos convivas e sentou-se à cabeceira.

 

 

 

 

 

XI

 

 

 

 

 

A casa do dr. Pedrosa era uma das mais antigas da rua Senador Vergueiro. À sua fachada, de velho estilo português, a vaidade do dono mandara adicionar uma cimalha, que encobria as telhas aldeãs com os seus floreados medalhões de estuque e dois torreões laterais, ligados ao corpo central por passadiços envidraçados, de caixilhos miúdos. Dentro de um vasto jardim, fechado por gradil prateado, essa residência ficava meio encoberta da rua por dois misericordiosos tamarineiros, altos e frondosíssimos.

 

Num dos torreões fazia o senhor ministro o seu gabinete de trabalho. O outro, todo esteirado e guarnecido de caquemonos, era chamado em casa o “pavilhão japonês”, e destinado a Sinhá, que aí recebia as amigas e pintava as suas tímidas aquarelas.

 

Era noite de recepção e a Pedrosa embarafustou pelo quarto da filha.

 

– Estás pronta?

 

– Sim, mamãe.

 

– Que! de azul?! Não! muda de vestido. Branco, branco! Trouxe-te os meus brincos de pérolas. Toda de branco, só com estas duas pérolas nas orelhas, ficarás melhor. Como uma noiva...

 

O olhar da mãe acariciava a filha, que sorriu com tristeza.

 

A Pedrosa tornou a sair, recomendando pressa; ela ia para a sala esperar os amigos; antes de abrir a porta, puxou a filha a si e beijou-a com ternura.

 

A moça começou passivamente a desenlaçar o seu vestido azul, pensando no ar misterioso com que a mãe a atraíra naquele beijo.

 

Sem poder obedecer às ordens maternas, que lhe haviam imposto pressa, ela, mal enfiou o seu vestido branco, deixou-se cair sentada na beira do leito e ali ficou um largo espaço de tempo, com os olhos fixos no vácuo e os dedos embaraçados nas fitas desatadas do cinto.

 

Tinha pensado muito desde aquele passeio ao Corcovado e começava a compreender o seu papel... A mãe oferecia-a ao Argemiro... era por causa dele que lhe pusera nas orelhas aquelas pérolas, que pareciam queimá-la... Por quê? Porque ele era rico e ocupava na sociedade um lugar brilhante... Amava-a ele? não!... amava-o ela? talvez...

 

Na verdade, a imagem de Argemiro nunca se lhe apresentara senão levada pela mão da mãe... lembrava-se mesmo de que a primeira vez que o vira achara-o velho e triste... depois, a pouco e pouco, habituara-se a imaginar-se noiva daquele homem sério, que todo o mundo dizia votado inteiramente à sua viuvez... e agora ei-la enciumada de uma mulher de cuja existência até as vésperas nem suspeitara e que ocupava já o lugar que a mãe lhe destinava a ela!

 

A figura de Alice desenhava-se inteira diante dos olhos pasmados da moça. Revia-lhe o rosto de um moreno pálido, de feições irregulares; o talhe esbelto do corpo, as mãos longas, o vestido cinzento, alegrado por uma gravatinha azul...

 

Que idéia faria dela o Argemiro? Um leve rubor subiu-lhe às faces e ela escondeu o rosto entre as mãos geladas.

 

A criada veio apressá-la. Sinhá levantou-se resolutamente e concluiu a sua toalete sem hesitação.

 

Quando entrou na sala, a mãe, entre um grupo de amigas, conversava com um homem gordo, de longos bigodes cor de vinhático. Apresentou-a; era o encarregado de negócios de Inglaterra no Rio de Janeiro!

 

Sinhá cumprimentou-o, admirada da habilidade da mãe; ela conseguira o seu desejo!

 

Ali estava na sua sala o homem por quem ela subira inutilmente o Corcovado. Bem o dissera ela: realizo todos os meus empreeendimentos!

 

Atendendo às visitas que rodeavam a mãe, Sinhá prestava atenção, a ver se distinguia a voz de Argemiro entre as vozes dos homens que palestravam no gabinete do pai.

 

 Aí, entre os livros de direito e de economia política, arrumados em estantes de canela ou espalhados sobre a secretária e a mesa, conversavam animadamente Adolfo Caldas, Argemiro, dr. Sebrão, o conselheiro Isaías e o dono da casa.

 

– Falem-me de tudo! – exclamava o Pedrosa, súplice, – menos da política! Vocês não imaginam! não lhes direi que estou farto dela até os cabelos, porque sou careca; mas ultrapassa a minha força aturá-la até nos cavacos entre camaradas.

 

Conselheiro Isaías, lembrando-se lá consigo do empenho do Pedrosa para alcançar a pasta, comentou do canto onde acolhera o seu corpinho murcho:

 

– Percebe-se o sacrifício...

 

Caldas levantou-se com estrondo, disfarçando a malícia do outro, e foi ao lampião reacender o charuto, enquanto Pedrosa continuava:

 

– É muito grande, e só mesmo a pátria poderia exigir tanto de mim. A ação de governar vai se  tornando  cada  vez mais perigosa nesta terra... Nós temos maus auxiliares e o povo tem má fé... A oposição agora serve-se de todos os meios para impedir-nos os passos, usando das armas mais pérfidas, que são as do ridículo e as da calúnia...

 

– Essa senhora é velha como Sócrates... não faça caso... – disse o conselheiro.

 

– Não faço caso, mas no fundo, francamente, desgosta-me. Trabalho sem interrupção e afinal...

 

– Não faz nada! – disse o conselheiro, rindo.

 

– Não seja perverso, amigo! ou declare-se já contra mim! Quem sabe se é você o autor daqueles versinhos que andam por aí carpindo a minha falta de eloqüência e de desinteresse, que julgam as qualidades primordiais para um homem de Estado!

 

– E são...

 

– Nego. Um político, do que precisa, sobretudo, é de tenacidade, sangue frio, patriotismo, sinceridade e um grande domínio sobre as suas paixões... além das qualidades superiores, que lhe são indispensáveis, de inteligência e de ilustração...

 

– É por isso que o seu colega Marcondes está fazendo tão bonita figura!... – disse ainda o conselheiro, com um fundo suspiro. Riram-se todos, que bem conheciam os dotes fraquíssimos do Marcondes.

 

Pedrosa continuou, com um sorrizinho magnânimo:

 

– Ele é bem intencionado, e trabalha! Há dias em que nem tenho tempo de beijar minha filha... O homem público é um galé, principalmente neste nosso país, em que os mais puros devotamentos são sempre interpretados às avessas!

 

– Muito bem! Apoiado! – exclamou o conselheiro, levantando-se.

 

– Eu sei que você é um homem corajoso, desde aquela célebre caçada que fizemos juntos em Teresópolis... lembra-se? – perguntou, sorrindo, o dr. Sebrão ao Pedrosa.

 

– E com bastantes saudades!

 

– Quem tem idade e competência para arcar com o peso de uma pasta é ali o amigo Argemiro... – disse o conselheiro Isaías.

 

Argemiro protestou; era um homem sem maleabilidade; não podia servir bem à política. Ao mesmo tempo o dr. Sebrão, voltado para Adolfo Caldas, começou a descrever a caçada feita com o Pedrosa e outro amigo nas florestas da serra.

 

– Tinham-nos falado em javalis. Uma madrugada partimos da Várzea, montados nuns velhos cavalos de  aluguel,  nós e mais um velho de Teresópolis, que se inculcara como excelente guia. Levávamos boas armas, bom farnel para o almoço, estando combinado voltarmos a jantar com a família. Trotamos para o alto, o velhote na frente; nós, muito esperançosos, atrás. Chegados a um certo ponto, amarramos os animais e metemo-nos a pé pelo mato. Imaginem que entrar nas florestas da serra é como entrar na treva. Ali, para se ser bom caçador é preciso ter afeito a vista à escuridão do ervaçal e ter criado sobre a epiderme uma segunda pele, ou melhormente uma espécie de couro, onde os espinhos se quebrem sem lograr ferir. Cada vez que os nossos pés se afundavam no colchão de folhas mortas, a idéia de ser mordido pelas cobras juntava-se ao prazer de conseguir matar algum porco do mato. O guia assegurava ter encontrado sinais; galhos quebrados, rastro de animais em fuga. Seguimo-lo com fé. Era prudente almoçar cedo. Comemos à beira do Paquequer, entre touceiras cheirosas de lírios. As águas convidavam. Quis banhar-me, mas o Pedrosa ponderou que a fresquidão da linfa aplacaria o meu humor sanguinário, que antes deveria ser exacerbado por um golinho de parati... Tropeçando em troncos, enrodilhando-nos em cipós, alagando-nos até o queixo em valas, passamos o dia inteiro à espera da porcada glorificadora! Mas os diabos dos porcos, zombando dos caçadores sem cães, deram-nos ao desprezo. Escureceu. Quer dizer: o negrume ainda se fez mais negro. O guia, desnorteado, levava-nos para um lado, para outro, sem achar saída...

 

Tiritando de frio, rodeados pelo fragor da água e do vento, ali passamos uma noite pavorosa; eu, gemendo com dores nas articulações, Pedrosa febril e impressionado com a idéia do susto que havia de estar curtindo a nossa boa d. Petronilha... Só no outro dia, às dez horas, esfomeados, lanhados e rotos, conseguimos sair da mata. Correu todo o mundo a ver-nos. As famílias choravam. Tinham andado pelas estradas, à noite, com archotes, gritando por nós... Tivemos de passar cabisbaixos e envergonhadíssimos por entre os curiosos... explicar aventuras... imaginárias... E querem vocês saber? Passáramos a noite a pequena distância de um hotel! O barulho da água e do vento abafou os outros rumores que nos denunciariam essa salvação. Foi uma tragédia cômica!

 

– A evocação não foi das mais felizes para consolar o amigo Pedrosa das suas atribulações! – disse ainda o murcho conselheiro Isaías, levantando-se do seu canto. E depois, para o Argemiro:

 

– É tempo de irmos prestar as nossas homenagens às senhoras; não lhe parece?

 

Levantaram-se todos e iam para a sala, quando o dr. Teles, entrando pela porta do jardim, reteve o Pedrosa, que deixou sair os outros e ficou com o deputado confabulando sobre política.

 

Caldas, antes de entrar na sala, puxou Argemiro de parte e, com o pretexto de acabar o charuto, encostado ao gradil do passadiço, espalhando baforadas para o jardim, foi avisando:

 

– Olha que a Pedrosa já teve uma conferência comigo a teu respeito esta tarde!

 

– Hein?!

 

– Não me faças repetir palavras: aviso-te de que já se sabe por aqui que tens uma ménagère moça, bonita... e que os conceitos são naturais. Quero dizer: maldosos.

 

– Ora!

 

– Ora! mais nada?

 

– Então? que lhe respondeste?

 

– Fiquei meio burro... disse-lhe que efetivamente tu tinhas uma ménagère, mas que a não conhecias!

 

– E ela?

 

– Riu-se.

 

– Riu-se?!

 

– Escandalosamente. Eu também me ri.

 

– Tu?!

 

– Que querias que eu fizesse? Crias uma situação de comédia e impões seriedades de melodrama?

 

– Mas que tem ela com a minha vida? Já se viu uma tal indiscrição? É boa!

 

– Cobiça-te para genro. Sabes perfeitamente disso! Estás farto, fartíssimo de o saber, e ainda te admiras? Ora, meu velho!

 

– Mas essa senhora já deve estar convencida de que não lhe aceito a filha. Não quero casar! Aposto em como não aproveitaste a ocasião para lhe dizer isto?

 

– Certamente que não! mas afinal aquela rapariga que lá tens em casa é séria ou não é séria?

 

– Eu presumo que sim.

 

– Se é séria, manda-a embora, porque a comprometes; se não é... não deves ter escrúpulos em fazê-la passar como tal!

 

– E minha filha? Lembra-te que tenho uma mulher em casa, não tanto pela boa ordem de minha vida, como para poder recebê-la e guardá-la de vez em quando comigo... E depois, sabes que mais?! pouco me importo com a opinião dos outros! Deita fora o charuto. Vou despedir-me lá dentro. Estou enojado. Lá te espero quarta-feira. Não te esqueças...

 

– Ó egoísta! lá irei com um baralho novo!

 

Argemiro entrou na sala a tempo de aplaudir a Sinhá, que acabava de tocar uma réverie ao piano. Vendo-o, a Pedrosa foi ao seu encontro:

 

– Pensei que fosse hoje todo do meu marido! Chego a ter ciúmes da política, acredite!

 

Ele sorriu.

 

– Foi pena que não tivesse ouvido Sinhá desde o princípio... ela toca com muito sentimento... anime-a... diga-lhe, embora mentindo... que a apreciou... as suas palavras são o melhor incentivo para ela...

 

A Pedrosa procurou a filha com a vista, para aproximá-la de Argemiro, mas já a moça desaparecera da sala.

 

Argemiro percebeu-lhe a contrariedade no olhar e apressou-se em dizer meia dúzia de banalidades, à espera do momento de se despedir. Mas a Pedrosa tinha que dividir a sua atenção. Estava com a casa cheia, e as moças mostravam desejos de dançar...

 

Por fortuna, as sobrinhas, as três filhas do dr. Adão, ajudavam-na a armar as quadras para os lanceiros, tirando pares e influindo os moços, que se deixavam arrastar, por complacência, para o meio da casa...

 

Como tardasse o pianista, foi mesmo a Pedrosa para o piano, rompendo com força os primeiros compassos da quadrilha. Argemiro aproveitou aquele instante de alegria para ir buscar o chapéu e o sobretudo ao pavilhão japonês e sair para a rua sem ser visto.

 

O pavilhão estava a meia luz. Nas paredes forradas de esteirinha as japonesas dos caquemonos requebravam-se entre os cetins das suas kobaias e o ouro das borboletas e dos crisântemos dos seus penteados... Carinhas de marfim, graciosamente pendidas sobre os ombrinhos estreitos, pareciam oferecer as cerejas das boquinhas para a guloseima de um beijo. Aves e insetos delicados, de asinhas transparentes, voejavam entre os galhos de pessegueiro em flor, nos panos cinzentos dos biombos. No meio do pavilhão, um enorme vaso bojudo, fabricado em Kioto, sustinha um profuso ramo de camélias brancas, grandes e silenciosas...

 

Os passos de Argemiro morreram ao entrar no pavilhão, abafados na esteirinha, e ele dirigira-se para o fundo, onde deixara o agasalho, quando Sinhá saiu de trás do biombo e veio ao seu encontro, trazendo-lhe ela mesma nas mãos a capa e o chapéu.

 

Argemiro não pôde conter um movimento de surpresa. Ela, muito séria, com uma gravidade que a tornava linda, estendeu para ele o agasalho e disse com um fio de voz suave e triste:

 

– Agradeço a sua resolução...  vá-se  embora  e  peço-lhe que não volte, senão quando souber que eu já não estou aqui... Para o senhor isso não será um sacrifício; e quanto a nós... a saudade que nos deixar será atenuada pela certeza do seu respeito e da sua estima...

 

Toda de branco, naquela meia luz em que bailavam insetos e sorriam japonesas, a figura grave da moça ressuscitava uma visão de sonho que perturbava o espírito de Argemiro. Ele curvou-se, beijou-lhe as pontas dos dedos gelados e, com a voz engasgada pela comoção, afirmou:

 

– Eu não a tinha compreendido, distanciado como estou da sua idade e da sua perfeição... Consinta que eu volte no dia em que o seu coração de menina tiver encontrado um outro coração moço e digno dele! Bastará então uma palavra sua: venha!

 

Sinhá não respondeu. Argemiro aceitou o agasalho das mãos dela e saiu comovido, tonto. Fora, as estrelas palpitavam luminosamente no fundo aveludado do céu. O ar cheirava a flores. E o viúvo caminhava a pé, sozinho, pensando nas surpresas desta vida de civilização, e revendo a palidez da moça, o seu olhar sincero e transparente. Não teria ele repelido a felicidade?

 

Entretanto, vendo-o sair, Sinhá recolheu-se para trás do biombo, chorando devagarinho, devagarinho, em segredo.

 

 

 

XII

 

 

 

 

 

“Bem dizem os romancistas que os romances se fazem por si. Criada a personagem, posta no meio em que terá de agir, ela caminhará por seus pés até o ponto final do último capítulo.

 

Acontece, por isso, que o autor tem, às vezes, verdadeiras surpresas, como se todos os atos dos seus heróis não fossem obra sua! Concebida a idéia fundamental do livro, está criado o sopro de vida que o animará. A dificuldade está toda no primeiro impulso! Hei de sempre lembrar-me de uma noite em que fui encontrar o Tadeu, pálido, passeando agitadíssimo pelo escritório, com um verdadeiro ar de fúria.

 

– Que tens tu?! – perguntei-lhe assustado, de entre portas.

 

Voltou para mim os olhos esgazeados e disse, com uma sinceridade comovedora:

 

– Tenho que o patife do Brás apaixonou-se por tal forma pela Delfina, que não sei como hei de casá-lo com a Lucinda! –  e apontava com o dedo colérico para as folhas esparsas do seu romance, desordenadas por um vento de insubmissão. O caso era grave. Entrei, sentei-me e fiquei calado, assistindo ao duelo fantástico de um romancista com a sua personagem revoltada.

 

Por fim, aventurei timidamente, querendo valer àquela aflição:

 

– Por que não casas essa tal Lucinda com outro? que diabo!

 

– Com outro?! estás doido! Ela adora o Brás e não pode absolutamente casar com outro. Seria um desastre! Com o Brás é que ela há de casar, quer ele queira, quer não queira!

 

O desespero do romancista era tão evidente e profundo, que eu não ri. Fiquei desde então convencido de que a ficção, como a realidade, obedece a leis de imprevisto e de fatalidade. Li depois o romance... O Brás não casou com a Lucinda. Porque não quis, está claro!”

 

Adolfo, acabando de dizer estas palavras, soltou uma baforada de fumo, afundou mais o corpo na larga poltrona do Argemiro e suspirou:

 

– Está-se bem aqui!

 

– Não achas? Pois essa poltrona amável estava encerrada no quarto dos badulaques por imprestável! Foi ela que a arrancou de lá, mandou-a ao estofador e pô-la aqui. E guerreiam uma mulher que me presta tais serviços!

 

– Deixa guerrear... Na vida, como nos folhetins, os romances fazem-se por si... Vê tu o trabalho e os manejos da Pedrosa em que deram! Surpreendeu-me tanto o que disseste da filha, que estou quase apaixonado por ela... Palavra! nunca a supus capaz de uma cena tão fina. Parece do Tadeu.

 

– E estava linda!

 

– Demais a mais... – e depois de uma pausa: – A tua governanta é bonita? Disse-me a Pedrosa que não. Por isso infiro que sim.

 

– Não sei...

 

– Deixa-te de asneiras; sê franco.

 

– Já te disse.

 

– Ela leva o seu rigor até os teus amigos?

 

– Parece. A não ser o Assunção...

 

– Teria graça se o nosso Assunção atirava a batina às urtigas por amor da tua...

 

– Cala-te, ímpio!

 

– Estou calado! Mas é cada vez mais adorável, o Assunção! Para mim, ele tem lá dentro coisa oculta, obra de feitiçaria, que nem a minha sagacidade nem talvez a tua intimidade pode adivinhar... Não te parece?

 

– Não. Nele há só o amor do céu... mais nada...

 

– Estás seráfico! Pois tu acreditas que, hoje em dia, um homem válido se faça padre só por amor do céu? Qual, histórias! Eles escolhem a vida clerical como poderiam escolher outra  qualquer  acomodada  ao  seu egoísmo e à sua habilidade... Os inteligentes pensam tanto na vida eterna como eu ou tu, mas fazem nesta o que podem para chegarem a bispos... Tenho um medo deles que me pelo... O nosso Assunção é um exemplar único, faz-me lembrar um desses sacerdotes virtuosos dos romances anticlericais, com que o autor adula o sentimento dos leitores piegas... O que me agrada sobretudo no Assunção é que ele é mais amigo da humanidade que dos santos; e gasta-se mais em esmolas que em jejuns... Não vês o recato em que ele envolve as suas ações e as suas idéias? Anula a sua personalidade, como para dar vulto ao fato e pôr em toda a evidência a personalidade alheia... A palavra eu parece que lhe morre na garganta antes de lhe chegar à boca, e todavia ele é inteligente. Já me tenho servido da sua biblioteca; é opulenta em obras clássicas portuguesas. Se fosse escritor, seria um defensor da língua!

 

– O valor do Assunção, para mim, que o conheço desde bem moço, está principalmente no coração. Ele é bom. Às vezes penso que ele estaria melhor num lugarejo qualquer do interior, ensinando crianças e animando a pobreza a suportar a vida, do que no Rio de Janeiro. Dizes bem. Ele não é lutador nem ambicioso; é um resignado e um meigo. se eu tivesse um irmão não lhe quereria mais. Entretanto, o Assunção nunca me confiou o seu segredo, que ele guardou sempre com tamanho recato que tive escrúpulo em interrogá-lo. Por que não havemos de acreditar na vocação? Ele sempre foi um místico. A mãe, uma senhora adorável, fez tudo para desviá-lo do sacerdócio, batalhou como uma heroína; mas ele dizia-se chamado por Deus, e Deus venceu a vontade materna. Fomos sempre amigos. Ele vivia com a sua ilusão, eu com o meu pecado; e com tão opostas idéias nunca ofendemos a nossa amizade. É verdade que ele me contagiou um pouco do seu sentimentalismo. É mais forte do que eu, que não lhe transmiti nem uma sombra da minha personalidade...

 

– Não lhe conheceste nem uma paixão?

 

– A dos livros, de que falaste há pouco; e essa mesma há alguns anos é que me dá a impressão de ser a tábua flutuante do seu naufrágio!

 

– E tua filha?

 

– Sim, ele adora minha filha!

 

– Ora, pois, já tem com que se entreter. Dá-me outro charuto. São magníficos os teus charutos... Realmente, está-se bem aqui. Estou vai não vai a raptar-te a tua Alice!

 

– Psiu! fala baixo...

 

– Receias que ela esteja atrás da porta?

 

– Quem sabe?...

 

– Não duvides! Uma governanta de casa de um viúvo só, vinda por anúncio de jornal... deve ter ao menos um defeitozinho, e olha que o da curiosidade é quase virtuoso... Antes do que me disse a Pedrosa, eu supus que vocês estivessem a mangar comigo, e que a tua mulherzinha fosse por aí uma matrona gorda, de cabelos pintados e verruga no queixo. Mas a Pedrosa, mais afortunada do que eu, esbarrou de cara com ela, e pela raiva com que lhe ficou, deduzi que a rapariga deve ser bonita...

 

– A Pedrosa disse-te isso?

 

– Disse que era feia.

 

– Então!

 

– Por isso mesmo fiquei sabendo que o não é. As mulheres, nesse assunto, são sempre contraditórias. Para experimentá-la, exclamei com ar de desgosto:

 

– Oh! minha senhora, uma velha! E ela logo, indignada: “Velha?! moça! E toda presunçosa, com a sua gravatinha azul!”

 

– Pensou, talvez, que a gravata fosse minha!

 

– E daí?!... Ó diabo, corre aquele reposteiro!

 

– Fala à vontade. Ninguém nos ouve.

 

– Que confiança!

 

– Absoluta.

 

– É extraordinário!

 

– É extraordinário. Desde que esta mulher entrou em minha casa eu sou outro homem, muito mais tranqüilo e muito mais feliz. Nunca a vejo, mas sinto-a; a sua alma de moça como que enche estas salas vazias de juventude e de alegria. Sozinho com os criados, eu abandonava-me. Ia às vezes para o almoço de chambre e de chinelos; passava pelo jardim sem olhar para os canteiros; e, no escrúpulo de alterar as coisas da antiga ordem em que as dispusera minha mulher, deixava-as envelhecer monotonamente, sem uma reforma que as alegrasse. Eu estava mofado, tinha bolor na alma. Botava pontas de cigarros pela casa... estava, enfim, de um desmazelo torpe! Depois, sentindo a influência dela, percebendo-lhe os gostos finos, que em tudo se demonstravam, comecei a exigir de mim hábitos mais corteses e a tratar a minha pessoa com mais consideração e maior carinho. A idéia de que ela poderia ver-me por uma fresta da veneziana, quando eu ia para a rua, fazia-me prestar atenção ao meu jardim e observar o seu progresso e melhor tratamento... Almoçando, eu via na cadeira vazia em frente ao meu lugar, a minha governanta a observar por que maneira eu levava o garfo à boca ou enchia o copo de vinho. Retomei insensivelmente os meus atos de elegância, prejudicados com o abandono em que por tantos anos vivi nesta casa, dirigida por um preto ladino. Entrando da rua, nunca surpreendi a minha governanta, como aconteceu à Pedrosa; mas ela vinha e vem ao meu encontro num aroma fresco de pomar florido, e que eu nunca sentira antes da sua estada nesta casa. Tu o disseste há bocado: “Está-se bem aqui!”. A pouco e pouco as coisas mudas que me rodeavam, e que só sugeriam idéias saudosas e melancólicas, foram se despindo desse aspecto doentio e talvez tolo e animando-se em novos polimentos ou cores risonhas, que me davam saúde. Cadeiras velhas, esgarçadas no estofo, atiradas para uma alcova do porão, subiram lustradas e estofadas de novo para os cantos desguarnecidos das salas, onde o conforto é muito maior do que foi sempre! Repara para o soalho: um espelho! Vê as cortinas: resplandecentes! Em um meio que se asseava cada vez com maior primor, eu tive de corrigir-me dos defeitos que ia adquirindo na solidão e no desmazelo... Estou só, sentindo que sou o alvo da atenção e da magnanimidade de alguém... Esta carícia sem mãos sabe-me bem; tanto mais que me dispensa o trabalho do agradecimento! Se não a queria ver antes, por prudência, não a quero ver agora, por egoísmo, para não desfazer esta ilusão agradável e esquisita, mas bem sincera. Uma noite, entrando inesperadamente em casa, percebi que alguém fugia precipitadamente da sala. Não pude vencer a minha curiosidade; entrei. Junto à janela do jardim, perto de uma cadeira de balanço, encontrei um livro aberto. Ergui-o. Cheirava a flor de fruta. Era um romance inglês. A minha governanta lia inglês! Foi a sua primeira revelação. Depus o livro fechado sobre a mesa e vi o nome dela escrito na capa. Para simpatizar com ela bastaria, talvez, isso; – para respeitá-la, o modo por que tem sabido corrigir Glória das suas brutalidades de menina malcriada...

 

– Como terminará tudo isto!

 

– Não terminará. Enquanto ela se sujeitar a este papel, eu ficarei muito bem naquele em que estou. Se não... ir-se-á embora e tratarei de arranjar outra pelo mesmo processo escandaloso, mas cômodo.

 

– Hum!...

 

– Afinal, talvez seja fácil...

 

– É impossível, digo-te eu! Essa mulher deve ter vindo acossada por uma grande miséria! Lembra-me uma garça marítima que vi caçar na floresta do alto da Serra! Tinha fugido à tempestade sozinha, branca, até aquelas paragens desconhecidas e inóspitas. Pobre ave do mar!

 

– Mataram-na?

 

– E empalharam-na.

 

– Esperemos que esta não tenha a mesma sorte.

 

– Pelos desejos da tua sogra!

 

– Que ciumenta! como se pudesse haver alguém neste mundo que me fizesse esquecer Maria!

 

– Há...

 

– O tempo?

 

Caldas não respondeu e sorriu.

 

E depois:

 

– Dizem que fama sem proveito faz mal ao peito. A tua governanta morrerá tísica!

 

– Coitada... defende-a quando se te oferecer ensejo. Eu sou tão mau que a sacrifico ao meu bem estar. E à minha imperfeição! Ignominioso! não achas?

 

– Humano. Ela veio ao encontro desse desastre. Tinha obrigação de prevê-lo. Talvez o desejasse... Que somos nós todos? Poços de mistério! Que pode esperar uma mulher que se aluga – por mais que te repugne a expressão, ela é corrente aqui – para tomar conta e governar a casa de um homem só? O teu egoísmo explica-se; tu pagas esse direito; agora, a sua sujeição, meu Argemiro, é que não tem duas faces por onde possa ser encarada. Para mim, ela é, única e simplesmente, uma especuladora.

 

– Não digas isso!

 

– Por que te indignas?

 

– Não...

 

– Acaba...

 

– Sem ter posto os olhos nunca em cima desta pobre moça, parece-me que a conheço já há muito... Ela fiava-se naturalmente na sua altivez para defender-se de qualquer assalto. Por que não acreditar que tenha, como tu disseste, vindo acossada pela miséria, estonteadamente, até a minha porta? A única impressão que tive dela, no dia em que a contratei, foi a de lhe ver as botinas esfoladas... Não lhe vi o rosto, que o trazia velado; mas vi-lhe os pés. Caprichosa como revela ser em tudo, bem vês que só por grande necessidade se sujeitaria a andar assim...

 

– Por que só uma pobre se sujeita a tal posição, naturalmente; mas as pobres honestas têm outros meios de ganhar o pão, menos suspeitos e sobretudo menos arriscados... Tua sogra tem uma certa pontinha de razão na insensatez do seu ciúme... De fora ninguém pode acreditar que esta situação seja senão uma fantasia.

 

– Mas que têm com isso?

 

– Nós outros, nada; mas tua sogra talvez tenha alguma coisa, por causa da tua filha!

 

– Não é por causa de Maria... é por mim! Minha sogra é uma sentinela sempre alerta na defesa do meu coração. Ela não se importa que me roubem os haveres ou que eu esbanje a minha fortuna; que eu tenha ou não tenha amigos, que eu trabalhe ou que descanse, que eu sofra ou me divirta; o que ela não quer, absolutamente, é que eu ame! Maria há de viver eternamente diante dos meus olhos, como vive diante dos seus, e hei de manter até o meu último alento a promessa que lhe fiz de não tornar a casar-me...

 

– Tolice...

 

– Que queres!

 

– Maria era um anjo... mas hoje é um fantasma; e um homem não pode viver abraçado a uma sombra...

 

– Dize-lhe isso...

 

– Na primeira ocasião.

 

– Não a mortifiques. Eu, bem o sabes, estou perfeitamente de acordo com ela.

 

– É o que te parece. Em todo o caso, dou-te um conselho: despede a tua governanta, ou dá um piparote nestas convenções românticas em que te embaraças e trata-a como toda a gente trata as governantas... Parece-me que nos temos ocupado demais com uma criatura que talvez não mereça tanto...

 

– Ou talvez mais...

 

– É o que eu digo!

 

– Não te entendo.

 

– Não admira, visto que nem te entendes a ti! Só te direi outra coisa, para concluir: a imaginação é uma amiga perigosa, e tu estás abusando dela.

 

– Estás tolo e sibilino. Na tua, queres dizer que acabarei apaixonado por uma mulher que vive em minha casa e que me obstino em não conhecer, julgando, talvez, que me ocupo em pensar nisso! Mas, nada! Eu penso tanto na minha governanta, que talvez seja picada de bexigas, ou desdentada, como penso na Sinhá, que tem os olhos que sabes e a pele lindíssima. Fiel à minha morta, não por virtude, mas porque não encontro no mundo mulher que se lhe compare, eu deleito-me no sacrifício de viver abraçado a sombras... É a minha esquisitice...

 

– Faze-te espírita.

 

– Nunca.

 

– Como espectador, eu estou gostando do caso. O que te peço é licença para conquistar a menina...

 

– Tens toda...

 

– E se ela aceitar a corte?

 

– Tanto melhor para ti...

 

– Não impões condições?

 

– De não ser em minha casa...

 

– Sabes onde é a dela?

 

– Não sei de onde veio, nem presumo para onde irá!

 

– Como um sonho!

 

– Tal qual!

 

O relógio do escritório marcava seis horas quando o dr. Teles e o padre Assunção entraram em casa de Argemiro. Teles resplandecia. Tinha falado nessa quarta-feira na Câmara. Via-se-lhe na cara, nua de pelos, a vaidade, e todo o corpo emproado num terno de sobrecasaca cor de avelã, parecia empertigar-se com mais satisfação. De vez em quando, ele olhava com um sorrisinho para as unhas reluzentes, como se relesse nelas o seu discurso famoso e sensacional...

 

Assunção vinha triste, com um ar fatigado, que mal dissimulava, dizendo-se amolecido por uma grande caminhada a pé. Enquanto os outros, com o cálice de vermute na mão, discutiam o último escândalo da Câmara, ele, recostado no divã, levantou o olhar para o retrato de Maria, suspenso na parede em frente, com o seu doce perfil de loura a esvair-se já no embranquecimento das tintas.

 

A beleza... a bondade... a juventude... tudo com o tempo se esvai, como o fumo delével. Na curta passagem da vida, confundem-se à distância todos os traços, os que marcam os caminhos da alegria, como os que vêm da tristeza... A saudade do passado é o nevoeiro que envolve tudo na mesma claridade enganadora e opaca...

 

 

 

XIII

 

 

 

 

 

A noite estava escura. Alice levantou a gola do casaco e, puxando o véuzinho até a queixo, desatou a andar em direção ao largo do Machado, sem paciência de esperar o bonde à porta de casa.

 

Atrás dela, à curta distância, Feliciano não lhe tirava os olhos de cima, cosendo às paredes o seu corpo esguio. A sombra, protetora de segredos, confundia-se com a cor do seu rosto, esvaindo-lhe a imagem. Os tacões da moça batiam na calçada em pancadinhas miúdas e sonoras; os dele dir-se-iam forrados de veludo.

 

A espionagem tem asas de morcego, teme a luz, mas espalma-se na treva sem rumor nem receio. Seu elemento é o mistério. O desejo do mal é silencioso. Oh, se ele pudesse estender as unhas afiadas e fazer sangrar na escuridão a carne branca daquela mulher!

 

Não fora ela quem o desprestigiara diante dos outros que ele dominara antigamente como senhor? Todas as suas fraquezas, os seus crimezinhos de infidelidade não tinham sido farejados e descobertos por essa criatura imperativa e doce a um tempo? Nem uma palavra lhe saíra dos lábios, mas a verdade salta pelos olhos quando a não deixam sair pela boca.

 

Ela sabia tudo. Tratava-o como um inferior, uma máquina de serviço, sempre necessitada de direção. Não fora para isso que ele aprendera a ler na mesma cartilha da sua antiga iaiá!

 

Revoltado contra a natureza que o fizera negro, odiava o branco com o ódio da inveja, que é o mais perene. Criminava Deus pela diferença das raças. Um ente misericordioso não deveria ter feito de dois homens iguais dois seres dessemelhantes!

 

Ah, se ele pudesse despir-se daquela pele abominável, mesmo que a fogo lento, ou a afiados gumes de navalha, correria a desfazer-se dela com alegria. Mas a abominação era irremediável. O interminável cilício duraria até que, no fundo da cova, o verme pusesse a nu a sua ossada branca...

 

Branca! Era a mulher branca que ele preferia, desprezando com asco as da sua raça.

 

A superioridade daquela que ia toc-toc na sua frente exasperava-o. O seu humor inalterável, os seus hábitos de asseio e de ordem não lhe tinham dado ensejo para a intriguinha fácil e perturbadora. Chegara o dia de castigar a afronta daquela branca intrometida, que ele odiava, e ardia por esmagar com a divulgação de algum segredo que a comprometesse. Desprezava o ardil pela verdade; mas, se esta lhe escapasse, então recorria a tudo, até ao feitiço de algum velho parceiro africano.

 

Mas desse recurso extremo só lançaria mão quando não pudesse contar com os da sua inteligência e malignidade.

 

Tinha ainda na memória uma sentença materna: “quem faz feitiço morre de feitiço”, e essa idéia afligia-o. A mãe era filha de mina. Devia saber... aquela branca pobre e presunçosa, que era mais do que ele na ordem das coisas, para o tratar assim por cima do ombro, com um arzinho superior de patroa fidalga?

 

– Ela há de me pagar!

 

O que ele queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mistério daquela existência flutuante, sem raízes conhecidas; assenhorear-se de um segredo que a tornasse escrava da sua vontade poderosa.

 

Como aos de Adolfo Caldas, ela também representava aos seus olhos o encardido papel de especuladora.

 

Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com mão de ferro, na hora marcada pela sua justiça.

 

O arrependimento entraria, então, no coração de Argemiro.

 

O bonde tardava e Alice não diminuía o ritmo dos passos. Antes assim; ele gostava de ir andando a pé, atrás daquela figurinha nervosa e fugidia.

 

Quem tanto se apressa, corre para a felicidade, que para o aborrecimento o passo é tardo. Pensava o negro: “Ela vai para alguma entrevista de amor...”

 

Isso contrariava-o... e crescia-lhe com essa idéia a raiva pela usurpadora dos seus regalados descansos e da sua autoridade de chefe!

 

Ela matara o seu prestígio. Viesse quem viesse depois dela, encontraria lançada na casa a semente da desconfiança. Fora um dia o Feliciano, que lia jornais nas cadeiras do amo, com deliciosos charutos entalados entre os beiços.

 

Um bonde! E o bonde parou a um gesto de Alice, que subiu para um dos bancos da frente, aconchegando com um arrepio o casaco cor de mel ao corpo friorento.

 

Feliciano, em pé na plataforma, não a perdia de vista.

 

No largo do Machado ela desceu e, passando pela frente da igreja, tomou a direção da rua Bento Lisboa.

 

O negro, a pequena distância, ia atrás dela, dando graças ao vento que fazia ulular o arvoredo da praça, abafando outros rumores. Na rua Bento Lisboa, Alice acelerou a marcha. Parecia levada por um grande desejo. Feliciano espiava-a aflito, numa ansiedade!

 

A sua admiração era não ver aparecer um homem, a quem ela desse o braço, que a comprometesse e o ajudasse na intriga... De resto, ele não queria crer, queria denunciar!

 

De repente estacou; a moça sumira-se na portinha negra de uma casa antiga, meio arruinada.

 

Feliciano passou, tornou a voltar, sondou com olhar atrevido o corredor escuro, procurou ver se estaria alguém a quem pudesse  fazer  qualquer  pergunta  na vizinhança, encostou-se a um umbral fronteiro e esperou, indignado, contra aquelas paredes, que um murro de homem deitaria abaixo e que lhe escondiam o mistério desejado!

 

O vento e o pó obrigavam os moradores do lugar à reclusão. As janelas fechadas estristeciam a rua ordinariamente animada. Que se passaria lá dentro?

 

Feliciano esteve uma ou duas horas à espera, como um vigia cuidadoso, firme no seu posto. Nem uma réstia, um tênue fio de luz vinha cortar a treva daquela fachada muda!

 

O negro tinha ímpetos de ir encostar o ouvido às janelas ou penetrar no corredor, cansado de esperar, numa impaciência que o adoecia.

 

Eram quase dez horas quando ouviu rumor de vozes e reconheceu a de Alice. Depois a moça reapareceu, puxando a porta sobre si.

 

A casa, impenetrável, guardava o seu segredo. Alice deslizava na sombra com o mesmo passo apressado. Dir-se-ia que igual desejo a levava ao ponto de onde partira três horas antes!

 

Desnorteado, Feliciano hesitava se deveria acompanhar Alice, cujo destino conhecia, se ficar mais alguns instantes esperando alguém que porventura saísse daquela casa. Alice nunca entrava nas suas quartas-feiras depois das dez horas; logo, ela marchava para o Cosme Velho. Interessava-o agora quem ficava ali. Começaram a cair grossos pingos de chuva e a escuridão era apenas dissimulada pelos lampiões de gás. Já sem receio de ser surpreendido, Feliciano verificou o número da porta por onde Alice saíra, mas só se afastou quando ouviu que a ferrolhavam de dentro.

 

“Quem estava, fica... logo, vou-me embora”. E ele voltou, intrigado, aborrecido, com maior ódio ainda por aquela mulher que se lhe escapava de entre os dedos fracos quando julgava prendê-la para toda a vida!

 

Enfim, já sabia alguma coisa: aprendera o caminho da toca, onde ela vinha furtivamente todas as semanas, em horas e dias determinados...

 

“Quem se fia em mulheres está bem servido!...” – pensava consigo o negro, desandando no seu caminho. Esta ainda é pior do que as outras, porque é fingida. Fingida como Judas!

 

– Ela há de me pagar...

 

Alice deu volta à casa do jardim e entrou por uma porta do fundo, evitando um encontro provável com Argemiro, que falava alto no escritório, junto à saleta da frente.

 

Cansada, sentou-se um momento na sala de jantar, antes de subir para o seu quarto, vigiando a porta do escritório, pronta a fugir num relance, caso ele aparecesse. Com as mãos abandonadas nos joelhos, sorria com amargura às palavras de Argemiro, que lhe chegavam nitidamente aos ouvidos. Ele arengava contra as mulheres. Os outros davam-lhe razão, citavam exemplos destacados de escândalos, riam-se alto, declarando o casamento uma instituição prejudicada.

 

A uma frase atrevida de Argemiro, respondeu Adolfo Caldas maliciosamente:

 

– Enquanto pelo anúncio do Jornal acudirem governantas moças para as casas de viúvos sós... Mas é que nem todos são viúvos, meu caro!

 

Teles riu alto; a voz de Assunção disse qualquer coisa que a palestra dos outros sufocou.

 

Poderiam gritar. Alice tapara os ouvidos com os dedos e subiu correndo para o seu quarto, onde se fechou por dentro.

 

Quem falava agora na sala era o padre Assunção:

 

– Ainda há mulheres tão puras como as mais puras de todos os tempos. Tenho ouvido muitas Ruths no confessionário, e conhecido almas adoráveis de inocência e de bondade. Vocês conhecem-nas pelas exterioridades, eu pelos sacrifícios, – que são ordinariamente as sacrificadas que nos vêm pedir conselho e consolação. Tenho encontrado em meu caminho sublimes abnegações, sempre por parte das mulheres...

 

– Por que os homens não se confessam!...

 

– Confessam-se alguns, mas não dizem tudo, ou, quando o dizem, fazem tremer! Tenho muito respeito pela mulher e sobretudo pela mulher pobre, porque nunca a pobreza deixou de ser afrontada, nem a mulher deprimida...

 

– Meu evangélico Assunção, parece-me que a tua psicologia está errada! Nós sacrificamo-nos muito mais...

 

– Nós sacrificamo-nos pelas idéias; elas sacrificam-se por nós, que somos menos compensadores e mais ingratos...

 

– Bonitas coisas você deve ter ouvido, padre! A mim o que me espanta e revolta é que ainda haja pais e maridos que consintam nessa abominação do confessionário. A religião não poderia ter inventado coisa mais vil nem mais repugnante. Vamo-nos embora.

 

– Vamo-nos embora, que a noite está negra que nem uma alma pecadora – disse Teles, ao mesmo tempo que Adolfo continuava:

 

– A minha confissão é que tu não ouves, padre! que me mandarias pelo telégrafo para o inferno. Basta que eu te confesse isto: amanhã darei um salto à tua biblioteca. Preciso de Rodrigues Lobo... Daquele – Pastor peregrino.

 

Assunção, procurando o chapéu, exclamou:

 

 

 

“Cabelos que na cor formosa e pura

 

Estais ao mesmo sol fazendo inveja,

 

Que confiança em vós será segura...”

 

 

 

 

 

Mas o Teles interrompeu:

 

– Olhem que o Argemiro está com sono e eu morto por me ver na pensão!...

 

Desceram, e, já na rua, o padre relembrou ainda uma frase do clássico:

 

Deixai-me enganosas alegrias, que eu não busco na ventura senão o que a meu desterro sem esperança e à minha vida desesperada convém.

 

– Sinto cheiro a bafio quando ouço clássicos – comentou o deputado.

 

Adolfo acendia um charuto. Assunção adiantou-se para mandar parar o bonde.

 

 

 

 

 

XIV