Fonte: Biblioteca Digital de Literaturas de Língua Portuguesa

LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

ANJOS, Augusto dos. Obra completa. Alexei Bueno (Org.). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995, 883 p. Obra completaAugusto dos Anjos

EU

MONÓLOGO DE UMA SOMBRA

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,Do cosmopolitismo das moneras...Pólipo de recônditas reentrâncias,Larva de caos telúrico, procedoDa escuridão do cósmico segredo,Da substância de todas as substâncias!A simbiose das coisas me equilibra.Em minha ignota mônada, ampla, vibraA alma dos movimentos rotatórios...E é de mim que decorrem, simultâneas,A saúde das forças subterrâneasE a morbidez dos seres ilusórios!Pairando acima dos mundanos tetos,Não conheço o acidente da Senectus— Esta universitária sanguessugaQue produz, sem dispêndio algum de vírus,O amarelecimento do papirusE a miséria anatômica da ruga!Na existência social, possuo uma arma— O metafisicismo de Abidarma —E trago, sem bramânicas tesouras,Como um dorso de azêmola passiva,A solidariedade subjetivaDe todas as espécies sofredoras.Com um pouco de saliva quotidianaMostro meu nojo à Natureza Humana.A podridão me serve de Evangelho...Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosquesE o animal inferior que urra nos bosquesÉ com certeza meu irmão mais velho!Tal qual quem para o próprio túmulo olha,Amarguradamente se me antolha,À luz do americano plenilúnio,Na alma crepuscular de minha raçaComo uma vocação para a DesgraçaE um tropismo ancestral para o Infortúnio.Aí vem sujo, a coçar chagas plebeias,Trazendo no deserto das ideiasO desespero endêmico do inferno,Com a cara hirta, tatuada de fuligensEsse mineiro doido das origens,Que se chama o Filósofo Moderno!Quis compreender, quebrando estéreis normas,A vida fenomênica das Formas,Que, iguais a fogos passageiros, luzem...E apenas encontrou na ideia gasta,O horror dessa mecânica nefasta,A que todas as coisas se reduzem!E hão de achá-lo, amanhã, bestas agrestes,Sobre a esteira sarcófaga das pestesA mostrar, já nos últimos momentos,Como quem se submete a uma charqueada,Ao clarão tropical da luz danada,O espólio dos seus dedos peçonhentos.Tal a finalidade dos estames!Mas ele viverá, rotos os liamesDessa estranguladora lei que apertaTodos os agregados perecíveis,Nas eterizações indefiníveisDa energia intra-atômica liberta!Será calor, causa ubíqua de gozo,Raio X, magnetismo misterioso,Quimiotaxia, ondulação aérea,Fonte de repulsões e de prazeres,Sonoridade potencial dos seres,Estrangulada dentro da matéria!E o que ele foi: clavículas, abdômen,O coração, a boca, em síntese, o Homem,— Engrenagem de vísceras vulgares —Os dedos carregados de peçonha,Tudo coube na lógica medonhaDos apodrecimentos musculares!A desarrumação dos intestinosAssombra! Vede-a! Os vermes assassinosDentro daquela massa que o húmus come,Numa glutoneria hedionda, brincam,Como as cadelas que as dentuças trincamNo espasmo fisiológico da fome.É uma trágica festa emocionante!A bacteriologia inventarianteToma conta do corpo que apodrece...E até os membros da família engulham,Vendo as larvas malignas que se embrulhamNo cadáver malsão, fazendo um s.E foi então para isto que esse doudoEstragou o vibrátil plasma todo,À guisa de um faquir, pelos cenóbios?!...Num suicídio graduado, consumir-se,E após tantas vigílias, reduzir-seÀ herança miserável dos micróbios!Estoutro agora é o sátiro peraltaQue o sensualismo sodomista exalta,Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo...Como que, em suas células vilíssimas,Há estratificações requintadíssimasDe uma animalidade sem castigo.Brancas bacantes bêbadas o beijam.Suas artérias hírcicas latejam,Sentindo o odor das carnações abstêmias,E à noite, vai gozar, ébrio de vício,No sombrio bazar domeretrício,O cuspo afrodisíaco das fêmeas.No horror de sua anômala nevrose,Toda a sensualidade da simbiose,Uivando, à noite, em lúbricos arroubos,Como no babilônico sansara,Lembra a fome incoercível que escancaraA mucosa carnívora dos lobos.Sôfrego, o monstro as vítimas aguarda.Negra paixão congênita, bastarda,Do seu zooplasma ofídico resulta...E explode, igual à luz que o ar acomete,Com a veemência mavórtica do aríeteE os arremessos de uma catapulta.Mas muitas vezes, quando a noite avança,Hirto, observa através a tênue trançaDos filamentos fluídicos de um haloA destra descarnada de um duende,Que tateando nas tênebras, se estendeDentro da noite má, para agarrá-lo!Cresce-lhe a intracefálica tortura,E de su’alma na caverna escura,Fazendo ultra-epiléticos esforços,Acorda, com os candeeiros apagados,Numa coreografia de danados,A família alarmada dos remorsos.É o despertar de um povo subterrâneo!É a fauna cavernícola do crânio— Macbeths da patológica vigília,Mostrando, em rembrandtescas telas várias,As incestuosidades sanguináriasQue ele tem praticado na família.As alucinações táteis pululam.Sente que megatérios o estrangulam...A asa negra das moscas o horroriza;E autopsiando a amaríssima existênciaEncontra um cancro assíduo na consciênciaE três manchas de sangue na camisa!Míngua-se o combustível da lanternaE a consciência do sátiro se inferna,Reconhecendo, bêbedo de sono,Na própria ânsia dionísica do gozo,Essa necessidade de horroroso,Que é talvez propriedade do carbono!Ah! Dentro de toda a alma existe a provaDe que a dor como um dartro se renova,Quando o prazer barbaramente a ataca...Assim também, observa a ciência crua,Dentro da elipse ignívoma da luaA realidade de uma esfera opaca.Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,Abranda as rochas rígidas, torna águaTodo o fogo telúrico profundoE reduz, sem que, entanto, a desintegre,À condição de uma planície alegreA aspereza orográfica do mundo!Provo desta maneira ao mundo odientoPelas grandes razões do sentimento,Sem os métodos da abstrusa ciência friaE os trovões gritadores da dialética,Que a mais alta expressão da dor estéticaConsiste essencialmente na alegria.Continua o martírio das criaturas:— O homicídio nas vielas mais escuras,— O ferido que a hostil gleba atra escarva,— O último solilóquio dos suicidas —E eu sinto a dor de todas essas vidasEm minha vida anônima de larva!”Disse isto a Sombra. E, ouvindo estes vocábulos,Da luz da lua aos pálidos venábulos,Na ânsia de um nervosíssimo entusiasmo,Julgava ouvir monótonas corujas,Executando, entre caveiras sujas,A orquestra arrepiadora do sarcasmo!Era a elegia panteísta do Universo,Na podridão do sangue humano imenso,Prostituído talvez, em suas bases...Era a canção da Natureza exausta,Chorando e rindo na ironia infaustaDa incoerência infernal daquelas frases.E o turbilhão de tais fonemas acresTrovejando grandíloquos massacres,Há-de ferir-me as auditivas portas,até que minha efêmera cabeçaReverta à quietação da treva espessaE à palidez das fotosferas mortas!

AGONIA DE UM FILÓSOFO

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoletoRig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo...O Inconsciente me assombra e eu nele roloCom a eólica fúria do harmatã inquieto!Assisto agora à morte de um inseto!...Ah! todos os fenômenos do soloParecem realizar de pólo a póloO ideal de Anaximandro de Mileto!No hierático areópago heterogêneoDas ideias, percorro, como um gênio,Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...Rasgo dos mundos o velário espesso;E em tudo, igual a Goethe, reconheçoO império da substância universal!

O MORCEGO

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:Na bruta ardência orgânica da sede,Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.“Vou mandar levantar outra parede...”— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolhoE olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,Circularmente sobre a minha rede!Pego de um pau. Esforços faço. ChegoA tocá-lo. Minh’alma se concentra.Que ventre produziu tão feio parto?!A Consciência Humana é este morcego!Por mais que a gente faça, à noite, ele entraImperceptivelmente em nosso quarto!

PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,Monstro de escuridão e rutilância,Sofro, desde a epigênesis da infância,A influência má dos signos do zodíaco.Profundissimamente hipocondríaco,Este ambiente me causa repugnância...Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsiaQue se escapa da boca de um cardíaco.Já o verme — este operário das ruínas —Que o sangue podre das carnificinasCome, e à vida em geral declara guerra,Anda a espreitar meus olhos para roê-los,E há de deixar-me apenas os cabelos,Na frialdade inorgânica da terra!

A IDEIA

De onde ela vem? De que matéria brutaVem essa luz que sobre as nebulosasCai de incógnitas criptas misteriosasComo as estalactites duma gruta?!Vem da psicogenética e alta lutaDo feixe de moléculas nervosas,Que, em desintegrações maravilhosas,Delibera, e depois, quer e executa!Vem do encéfalo absconso que a constringe,Chega em seguida às cordas da laringe,Tísica, tênue, mínima, raquítica...Quebra a força centrípeta que a amarra,Mas, de repente, e quase morta, esbarraNo molambo da língua paralítica!

O LÁZARO DA PÁTRIA

Filho podre de antigos Goitacases,Em qualquer parte onde a cabeça ponha,Deixa circunferências de peçonha,Marcas oriundas de úlceras e antrazes.Todos os cinocéfalos vorazesCheiram seu corpo. À noite, quando sonha,Sente no tórax a pressão medonhaDo bruto embate férreo das tenazes.Mostra aos montes e aos rígidos rochedosA hedionda elefantíase dos dedos...Há um cansaço no Cosmos... Anoitece.Riem as meretrizes no Cassino,E o Lázaro caminha em seu destinoPara um fim que ele mesmo desconhece!

IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA

Rugia nos meus centros cerebraisA multidão dos séculos futuros— Homens que a herança de ímpetos impurosTornara etnicamente irracionais!Não sei que livro, em letras garrafais,Meus olhos liam! No húmus dos monturos,Realizavam-se os partos mais obscuros,Dentre as genealogias animais!Como quem esmigalha protozoáriosMeti todos os dedos mercenáriosNa consciência daquela multidão...E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,Somente achei moléculas de lamaE a mosca alegre da putrefação!

SONETO

Ao meu primeiro filho
nascido morto com 7 meses incompletos.2 fevereiro 1911.Agregado infeliz de sangue e cal,Fruto rubro de carne agonizante,Filho da grande força fecundanteDe minha brônzea trama neuronial,Que poder embriológico fatalDestruiu, com a sinergia de um gigante,Em tua morfogênese de infanteA minha morfogênese ancestral?!Porção de minha plásmica substância,Em que lugar irás passar a infância,Tragicamente anônimo, a feder?!Ah! Possas tu dormir, feto esquecido,Panteisticamente dissolvidoNa noumenalidade do NÃO SER!

VERSOS A UM CÃO

Que força pôde adstrita e embriões informes,Tua garganta estúpida arrancarDo segredo da célula ovularPara latir nas solidões enormes?!Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,Suficientíssima é, para provarA incógnita alma, avoenga e elementar,Dos teus antepassados vermiformes.Cão! — Alma de inferior rapsodo errante!Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-aA escala dos latidos ancestrais...E irás assim, pelos séculos, adiante,Latindo a esquisitíssima prosódiaDa angústia hereditária dos seus pais!

O DEUS-VERME

Fator universal do transformismo,Filho da teleológica matéria,Na superabundância ou na miséria,Verme — é o seu nome obscuro de batismo.Jamais emprega o acérrimo exorcismoEm sua diária ocupação funérea,E vive em contubérnio com a bactéria,Livre das roupas do antropomorfismo.Almoça a podridão das drupas agras,Janta hidrópicos, rói vísceras magrasE dos defuntos novos incha a mão...Ah! Para ele é que a carne podre fica,E no inventário da matéria ricaCabe aos seus filhos a maior porção!

DEBAIXO DO TAMARINDO

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,Como uma vela fúnebre de cera,Chorei bilhões de vezes com a canseiraDe inexorabilíssimos trabalhos!Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,Guarda, como uma caixa derradeira,O passado da Flora BrasileiraE a paleontologia dos Carvalhos!Quando pararem todos os relógiosDe minha vida, e a voz dos necrológiosGritar nos noticiários que eu morri,Voltando à pátria da homogeneidade,Abraçada com a própria EternidadeA minha sombra há de ficar aqui!

AS CISMAS DO DESTINO

I

Recife, Ponte Buarque de Macedo.Eu, indo em direção à casa do Agra,Assombrado com a minha sombra magra,Pensava no Destino, e tinha medo!Na austera abóbada alta o fósforo alvoDas estrelas luzia... O calçamentoSáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,Copiava a polidez de um crânio calvo.Lembro-me bem. A ponte era comprida,E a minha sombra enorme enchia a ponte,Como uma pele de rinoceronteEstendida por toda a minha vida!A noite fecundava o ovo dos víciosAnimais. Do carvão da treva imensaCaía um ar danado de doençaSobre a cara geral dos edifícios!Tal uma horda feroz de cães famintos,Atravessando uma estação deserta,Uivava dentro do eu, com a boca aberta,A matilha espantada dos instintos!Era como se, na alma da cidade,Profundamente lúbrica e revolta,Mostrando as carnes, uma besta soltaSoltasse o berro da animalidade.E aprofundando o raciocínio obscuro,Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,O trabalho genésico dos sexos,Fazendo à noite os homens do Futuro.Livres de microscópios e escalpelos,Dançavam, parodiando saraus cínicos,Bilhões de centrossomas apolínicosNa câmara promíscua do vitellus.Mas, a irritar-me os globos oculares,Apregoando e alardeando a cor nojenta,Fetos magros, ainda na placenta,Estendiam-me as mãos rudimentares!Mostravam-me o apriorismo incognoscívelDessa fatalidade igualitária,Que fez minha família origináriaDo antro daquela fábrica terrível!A corrente atmosférica mais forteZunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,Julgava eu ver o fúnebre candeeiroQue há de me alumiar na hora da morte.Ninguém compreendia o meu soluço,Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas,O vento bravo me atirava flechasE aplicações hiemais de gelo russo.A vingança dos mundos astronômicosEnviava à terra extraordinária faca,Posta em rija adesão de goma lacaSobre os meus elementos anatômicos.Ah! Com certeza, Deus me castigava!Por toda a parte, como um réu confesso,Havia um juiz que lia o meu processoE uma forca especial que me esperava!Mas o vento cessara por instantesOu, pelo menos, o ignis sapiens do OrcoAbafava-me o peito arqueado e porcoNum núcleo de substâncias abrasantes.É bem possível que eu um dia cegue.No ardor desta letal tórrida zona,A cor do sangue é a cor que me impressionaE a que mais neste mundo me persegue!Essa obsessão cromática me abate.Não sei por que me vêm sempre à lembrançaO estômago esfaqueado de uma criançaE um pedaço de víscera escarlate.Quisera qualquer coisa provisóriaQue a minha cerebral caverna entrasse,E até ao fim, cortasse e recortasseA faculdade aziaga da memória.Na ascensão barométrica da calma,Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,Que uma população doente do peitoTossia sem remédio na minh’alma!E o cuspo que essa hereditária tosseGolfava, à guisa de ácido resíduo,Não era o cuspo só de um indivíduoMinado pela tísica precoce.Não! Não era o meu cuspo, com certezaEra a expectoração pútrida e crassaDos brônquios pulmonares de uma raçaQue violou as leis da Natureza!Era antes uma tosse ubíqua, estranha,Igual ao ruído de um calhau redondoArremessado no apogeu do estrondo,Pelos fundibulários da montanha!E a saliva daqueles infelizesInchava, em minha boca, de tal arte,Que eu, para não cuspir por toda a parte,Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!Na alta alucinação de minhas cismas,O microcosmos líquido da gotaTinha a abundância de uma artéria rota,Arrebatada pelos aneurismas.Chegou-me o estado máximo da mágoa!Duas, três, quatro, cinco, seis e seteVezes que eu me furei com um canivete,A hemoglobina vinha cheia de água!Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,Sob a forma de mínimas camândulas,Benditas sejam todas essas glândulas,Que, quotidianamente, te segregam!Escarrar de um abismo noutro abismo,Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,Há mais filosofia neste escarroDo que em toda a moral do cristianismo!Porque, se no orbe oval que os meus pés tocamEu não deixasse o meu cuspo carrasco,Jamais exprimiria o acérrimo ascoQue os canalhas do mundo me provocam!

II

Foi no horror dessa noite tão funéreaQue eu descobri, maior talvez que Vinci,Com a força visualística do lince,A falta de unidade na matéria!Os esqueletos desarticulados,Livres do acre fedor das carnes mortas,Rodopiavam, com as brancas tíbias tortas,Numa dança de números quebrados!Todas as divindades malfazejas,Siva e Arimã, os duendes, o In e os trasgos,Imitando o barulho dos engasgos,Davam pancadas no adro das igrejas.Nessa hora de monólogos sublimes,A companhia dos ladrões da noite,Buscando uma taverna que os açoite,Vai pela escuridão pensando crimes.Perpetravam-se os atos mais funestos,E o luar, da cor de um doente de icterícia,Iluminava, a rir, sem pudicícia,A camisa vermelha dos incestos.Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me,Mas um lampião, lembrava ante o meu rosto,Um sugestionador olho, ali postoDe propósito, para hipnotizar-me!Em tudo, então, meus olhos distinguiram,Da miniatura singular de uma aspaÀ anatomia mínima da caspa,Embriões de mundos que não progrediram!Pois quem não vê aí, em qualquer rua,Com a fina nitidez de um claro jorro,Na paciência budista de cachorroA alma embrionária que não continua?!Ser cachorro! Ganir incompreendidosVerbos! Querer dizer-nos que não finge,E a palavra embrulhar-se na laringe,Escapando-se apenas em latidos!Despir a putrescível forma tosca,Na atra dissolução que tudo inverte,Deixar cair sobre a barriga inerteO apetite necrófago da mosca!A alma dos animais! Pego-a, distingo-a,Acho-a nesse interior duelo secretoEntre a ânsia de um vocábulo completoE uma expressão que não chegou à língua!Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos,Nos antiperistálticos abalosQue produzem nos bois e nos cavalosA contração dos gritos instintivos!Tempo viria, em que, daquele horrendoCaos de corpos orgânicos disformesRebentariam cérebros enormes,Como bolhas febris de água, fervendo!Nessa época que os sábios não ensinam,A pedra dura, os montes argilososCriariam feixes de cordões nervososE o neuroplasma dos que raciocinam!Almas pigmeias! Deus subjuga-as, cinge-asÀ imperfeição! Mas vem o Tempo, e vence-O,E o meu sonho crescia no silêncio,Maior que as epopeias carolíngias!Era a revolta trágica dos tiposOntogênicos mais elementares,Desde os foraminíferos dos maresÀ grei liliputiana dos pólipos.Todos os personagens da tragédia,Cansados de viver na paz de Buda,Pareciam pedir com a boca mudaA ganglionária célula intermédia.A planta que a canícula ígnea torra,E as coisas inorgânicas mais nulasApregoavam encéfalos, medulasNa alegria guerreira da desforra!Os protistas e o obscuro acervo rijoDos espongiários e dos infusóriosRecebiam com os seus órgãos sensóriosO triunfo emocional do regozijo!E apesar de já ser assim tão tarde,Aquela humanidade parasita,Como um bicho inferior, berrava, aflita,No meu temperamento de covarde!Mas, refletindo, a sós, sobre o meu caso,Vi que, igual a um amniota subterrâneo,Jazia atravessada no meu crânioA intercessão fatídica do atraso!A hipótese genial do microzimaMe estrangulava o pensamento guapo,E eu me encolhia todo como um sapoQue tem um peso incômodo por cima!Nas agonias do delirium-tremens,Os bêbedos alvares que me olhavam,Com os copos cheios esterilizavamA substância prolífica dos sêmens!Enterravam as mãos dentro das goelas,E sacudidos de um tremor indômitoExpeliam, na dor forte do vômito,Um conjunto de gosmas amarelas.Iam depois dormir nos lupanaresOnde, na glória da concupiscência,Depositavam quase sem consciênciaAs derradeiras forças musculares.Fabricavam destarte os bastodermas,Em cujo repugnante receptáculoMinha perscrutação via o espetáculoDe uma progênie idiota de palermas.Prostituição ou outro qualquer nome,por tua causa, embora o homem te aceite,É que as mulheres ruins ficam sem leiteE os meninos sem pai morrem de fome!Por que há de haver aqui tantos enterros?Lá no “Engenho” também, a morte é ingrata...Há o malvado carbúnculo que mataA sociedade infante dos bezerros!Quantas moças que o túmulo reclama!E após a podridão de tantas moças,Os porcos espojando-se nas poçasDa virgindade reduzida à lama!Morte, ponto final da última cena,Forma difusa da matéria embele,Minha filosofia te repele,Meu raciocínio enorme te condena!Diante de ti, nas catedrais mais ricas,Rolam sem eficácia os amuletos,Oh! Senhora dos nossos esqueletosE das caveiras diárias que fabricas!E eu desejava ter, numa ânsia rara,Ao pensar nas pessoas que perdera,A inconsciência das máscaras de ceraQue a gente prega, com um cordão, na cara!Era um sonho ladrão de submergir-meNa vida universal, e, em tudo imerso,Fazer da parte abstrata do Universo,Minha morada equilibrada e firme!Nisto, pior que o remorso do assassino,Reboou, tal qual, num fundo de caverna,Numa impressionadora voz interna,O eco particular do meu Destino;

III

“Homem! por mais que a Ideia desintegres,Nessas perquisições que não têm pausa,Jamais, magro homem, saberás a causaDe todos os fenômenos alegres!Em vão, com a bronca enxada árdega, sondasA estéril terra, e a hialina lâmpada oca,Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!)O conteúdo das lágrimas hediondas.Negro e sem fim é esse em que te mergulhaslugar do Cosmos, onde a dor infreneÉ feita como é feito o queroseneNos recôncavos úmidos das hulhas!Porque, para que a Dor perscrutes, foraMister que, não como és, em síntese, antesFosses, a refletir teus semelhantes,A própria humanidade sofredora!A universal complexidade é que ElaCompreende. E se, por vezes, se divide,Mesmo ainda assim, seu todo não resideNo quociente isolado da parcela!Ah! Como o ar imortal a Dor não finda!Das papilas nervosas que há nos tatosVeio e vai desde os tempos mais transatosPara outros tempos que hão de vir ainda!Como o machucamento das insôniasTe estraga, quando toda a estuada IdeiaDás ao sôfrego estudo da ninfeiaE de outras plantas dicotiledôneas!A diáfana água alvíssima e a hórrida áscuaQue da ígnea flama bruta, estriada, espirra;A formação molecular da mirra,O cordeiro simbólico da Páscoa;As rebeladas cóleras que rugemNo homem civilizado, e a ele se prendemComo às pulseiras que os mascates vendemA aderência teimosa da ferrugem;O orbe feraz que bastos tojos acresProduz; a rebelião, que na batalha,Deixa os homens deitados, sem mortalha,Na sangueira concreta dos massacres;Os sanguinolentíssimos chicotesDa hemorragia; as nódoas mais espessas,O achatamento ignóbil das cabeças,Que ainda degrada os povos hotentotes;O Amor e a Fome, a fera ultriz que o fojoEntra, à espera que a mansa vítima o entre,— Tudo que gera no materno ventreA causa fisiológica do nojo;As pálpebras inchadas na vigília,As aves moças que perderam a asa,O fogão apagado de uma casa,Onde morreu o chefe da família;O trem particular que um corpo arrastaSinistramente pela via férrea,A cristalização da massa térrea,O tecido da roupa que se gasta;A água arbitrária que hiulcos caules grossosCarrega e come; as negras formas feiasDos aracnídeos e das centopeias,O fogo-fátuo que ilumina os ossos;As projeções flamívomas que ofuscam,Como uma pincelada rembrandtesca,A sensação que uma coalhada frescaTransmite às mãos nervosas dos que a buscam;O antagonismo de Tífon e Osíris,O homem grande oprimindo o homem pequeno,A lua falsa de um parasseleno,A mentira meteórica do arco-íris;Os terremotos que, abalando os solos,Lembram paióis de pólvora explodindo,A rotação dos fluidos produzindoA depressão geológica dos pólos;O instinto de procriar, a ânsia legítimaDa alma, afrontando ovante aziagos riscos,O juramento dos guerreiros priscosMetendo as mãos nas glândulas da vítima;As diferenciações que o psicoplasmaHumano sofre na mania mística,A pesada opressão característicaDos dez minutos de um acesso de asma;E, (conquanto contra isto ódios regougues)A utilidade fúnebre da cordaQue arrasta a rês, depois que a rês engorda,À morte desgraçada dos açougues...Tudo isto que o terráqueo abismo encerraForma a complicação desse barulhoTravado entre o dragão do humano orgulhoE as forças inorgânicas da terra!Por descobrir tudo isso, embalde cansas!Ignoto é o gérmen dessa força ativaQue engendra, em cada célula passiva,A heterogeneidade das mudanças!Poeta, feto malsão, criado com os sucosDe um leite mau, carnívoro asqueroso,Gerado no atavismo monstruosoDa alma desordenada dos malucos;Última das criaturas inferioresGovernada por átomos mesquinhos,Teu pé mata a uberdade dos caminhosE esteriliza os ventres geradores!O áspero mal que a tudo, em torno, trazes,Análogo é ao que, negro e a seu turno,Traz o ávido filóstomo noturnoAo sangue dos mamíferos vorazes!Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhesA perfeição dos seres existentes,Hás de mostrar a cárie dos teus dentesNa anatomia horrenda dos detalhes!O Espaço — esta abstração spencereanaQue abrange as relações de coexistênciaÉ só! Não tem nenhuma dependênciaCom as vértebras mortais da espécie humana!As radiantes elipses que as estrelasTraçam, e ao espectador falsas se antolhamSão verdades de luz que os homens olhamSem poder, no entretanto, compreendê-las.Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes,Que essa mão, de esqueléticas falanges,Dentro dessa água que com a vista abranges,Também prova o princípio de Arquimedes!A fadiga feroz que te esbordoaHá de deixar-te essa medonha marca,Que, nos corpos inchados de anasarca,Deixam os dedos de qualquer pessoa!Nem terás no trabalho que tivesteA misericordiosa toalha amiga,Que afaga os homens doentes de bexigaE enxuga, à noite, as pústulas da peste!Quando chegar depois a hora tranquila,Tu serás arrastado, na carreira,Como um cepo inconsciente de madeiraNa evolução orgânica da argila!Um dia comparado com um milênioSeja, pois, o teu último Evangelho...É a evolução do novo para o velhoE do homogêneo para o heterogêneo!Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largoA apodrecer!... És poeira e embalde vibras!O corvo que comer as tuas fibrasHá de achar nelas um sabor amargo!”

IV

Calou-se a voz. A noite era funesta.E os queixos, a exibir trismos danados,Eu puxava os cabelos desgrenhadosComo o Rei Lear, no meio da floresta!Maldizia, com apóstrofes veementes,No estentor de mil línguas insurretas,O convencionalismo das PandetasE os textos maus dos códigos recentes!Minha imaginação atormentadaParia absurdos... Como diabos juntos,Perseguiam-me os olhos dos defuntosCom a carne da esclerótica esverdeada.Secara a clorofila das lavouras.Igual aos sustenidos de uma endecha,Vinha-me às cordas glóticas a queixaDas coletividades sofredoras.O mundo resignava-se invertidoNas forças principais do seu trabalho...A gravidade era um princípio falho,A análise espectral tinha mentido!O Estado, a Associação, os MunicípiosEram mortos. De todo aquele mundoRestava um mecanismo moribundoE uma teleologia sem princípios.Eu queria correr, ir para o inferno,Para que, da psique no oculto jogo,Morressem sufocadas pelo fogoTodas as impressões do mundo externo!Mas a Terra negava-me o equilíbrio...Na Natureza, uma mulher de lutoCantava, espiando as árvores sem fruto,A canção prostituta do ludíbrio!

BUDISMO MODERNO

Tome, Dr., esta tesoura, e...corteMinha singularíssima pessoa.Que importa a mim que a bicharia roaTodo o meu coração, depois da morte?!Ah! Um urubu pousou na minha sorte!Também, das diatomáceas da lagoaA criptógama cápsula se esbroaAo contato de bronca destra forte!Dissolva-se, portanto, minha vidaIgualmente a uma célula caídaNa aberração de um óvulo infecundo;Mas o agregado abstrato das saudadesFique batendo nas perpétuas gradesDo último verso que eu fizer no mundo!

SONHO DE UM MONISTA

Eu e o esqueleto esquálido de EsquiloViajávamos, com uma ânsia sibarita,Por toda a pro-dinâmica infinita,Na inconsciência de um zoófito tranquilo.A verdade espantosa do ProtiloMe aterrava, mas dentro da alma aflitaVia Deus — essa mônada esquisita —Coordenando e animando tudo aquilo!E eu bendizia, com o esqueleto ao lado,Na guturalidade do meu brado,Alheio ao velho cálculo dos dias,Como um pagão no altar de Proserpina,A energia intracósmica divinaQue é o pai e é a mãe das outras energias!

SOLITÁRIO

Como um fantasma que se refugiaNa solidão da natureza morta,Por trás dos ermos túmulos, um dia,Eu fui refugiar-me à tua porta!Fazia frio, e o frio que faziaNão era esse que a carne nos conforta...Cortava assim como em carniçariaO aço das facas incisivas corta!Mas tu não vieste ver minha Desgraça!E eu saí, como quem tudo repele,— Velho caixão a carregar destroços —Levando apenas na tumba carcaçaO pergaminho singular da peleE o chocalho fatídico dos ossos!

MATER ORIGINALIS

Forma vermicular desconhecidaQue estacionaste, mísera e mofina,Como quase impalpável gelatina,Nos estados prodrômicos da vida;O hierofante que leu a minha sinaIgnorante é de que és, talvez, nascidaDessa homogeneidade indefinidaQue o insigne Herbert Spencer nos ensina.Nenhuma ignota união ou nenhum sexoÀ contingência orgânica do sexoA tua estacionária alma prendeu...Ah! De ti foi que, autônoma e sem normas,Oh! Mãe original das outras formas,A minha forma lúgubre nasceu!

O LUPANAR

Ah! Por que monstruosíssimo motivoPrenderam para sempre, nesta rede,Dentro do ângulo diedro da parede,A alma do homem polígamo e lascivo?!Este lugar, moços do mundo, vede:É o grande bebedouro coletivo,Onde os bandalhos, como um gado vivo,Todas as noites, vêm matar a sede!É o afrodístico leito do hetairismo,A antecâmara lúbrica do abismo,Em que é mister que o gênero humano entre,Quando a promiscuidade aterradoraMatar a última força geradoraE comer o último óvulo do ventre!

IDEALISMO

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!O amor da Humanidade é uma mentira.É. E é por isso que na minha liraDe amores fúteis poucas vezes falo.O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!Quando, se o amor que a Humanidade inspiraÉ o amor do sibarita e da hetaíra,De Messalina e de Sardanapalo?!Pois é mister que, para o amor sagrado,O mundo fique imaterializado— Alavanca desviada do seu fulcro —E haja só amizade verdadeiraDuma caveira para outra caveira,Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

ÚLTIMO CREDO

Como ama o homem adúltero o adultérioE o ébrio a garrafa tóxica de rum,Amo o coveiro — este ladrão comumQue arrasta a gente para o cemitério!É o transcendentalíssimo mistério!É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,É a morte, é esse danado número UmQue matou Cristo e que matou Tibério!Creio, como o filósofo mais crente,Na generalidade decrescenteCom que a substância cósmica evolui...Creio, perante a evolução imensa,Que o homem universal de amanhã vençaO homem particular eu que ontem fui!

O CAIXÃO FANTÁSTICO

Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,Cinzas, caixas cranianas, cartilagensOriundas, como os sonhos dos selvagens,De aberratórias abstrações abstrusas!Nesse caixão iam, talvez as Musas,Talvez meu Pai! Hoffmmânicas visagensEnchiam meu encéfalo de imagensAs mais contraditórias e confusas!A energia monística do Mundo,À meia-noite, penetrava fundoNo meu fenomenal cérebro cheio...Era tarde! Fazia muito frio.Na rua apenas o caixão sombrioIa continuando o seu passeio!

SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO

Para desvirginar o labirintoDo velho e metafísico Mistério,Comi meus olhos crus no cemitério,Numa antropofagia de faminto!A digestão desse manjar funéreoTornado sangue transformou-me o instintoDe humanas impressões visuais que eu sinto,Nas divinas visões do íncola etéreo!Vestido de hidrogênio incandescente,Vaguei um século, improficuamente,Pelas monotonias siderais...Subi talvez às máximas alturas,Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,É necessário que inda eu suba mais!

A UM CARNEIRO MORTO

Misericordiosíssimo carneiroEsquartejado, a maldição de PioDécimo caia em teu algoz sombrioE em todo aquele que for seu herdeiro!Maldito seja o mercador vadioQue te vender as carnes por dinheiro,Pois, tua lã aquece o mundo inteiroE guarda as carnes dos que estão com frio!Quando a faca rangeu no teu pescoço,Ao monstro que espremeu teu sangue grossoTeus olhos — fontes de perdão — perdoaram!Oh! tu que no Perdão eu simbolizo,Se fosses Deus, no Dia de Juízo,Talvez perdoasses os que te mataram!

VOZES DA MORTE

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,Tamarindo de minha desventura,Tu, com o envelhecimento da nervura,Eu, com o envelhecimento dos tecidos!Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos!E a podridão, meu velho! E essa futuraUltrafatalidade de ossatura,A que nos acharemos reduzidos!Não morrerão, porém, tuas sementes!E assim, para o Futuro, em diferentesFlorestas, vales, selvas, glebas, trilhos,Na multiplicidade dos teus ramos,Pelo muito que em vida nos amamos,Depois da morte, inda teremos filhos!

INSÂNIA DE UM SIMPLES

Em cismas patológicas insanas,É-me grato adstringir-me, na hierarquiaDas formas vivas, à categoriaDas organizações liliputianas;Ser semelhante aos zoófitos e às lianas,Ter o destino de uma larva fria,Deixar enfim na cloaca mais sombriaEste feixe de células humanas!E enquanto arremedando Éolo iracundo,Na orgia heliogabálica do mundo,Ganem todos os vícios de uma vez,Apraz-me, adstrito ao triângulo mesquinhoDe um delta humilde, apodrecer sozinhoNo silêncio de minha pequenez!

OS DOENTES

I

Como uma cascavel que se enroscava,A cidade dos lázaros dormia...Somente, na metrópole vazia,Minha cabeça autônoma pensava!Mordia-me a obsessão má de que havia,Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,Um fígado doente que sangravaE uma garganta de órfã que gemia!Tentava compreender com as conceptivasFunções do encéfalo as substâncias vivasQue nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...E via em mim, coberto de desgraças,O resultado de bilhões de raçasQue há muitos anos desapareceram!

II

Minha angústia feroz não tinha nome.Ali, na urbe natal do Desconsolo,Eu tinha de comer o último boloQue Deus fazia para a minha fome!Convulso, o vento entoava um pseudosalmo,Contrastando, entretanto, com o ar convulsoA noite funcionava como um pulsoFisiologicamente muito calmo.Caíam sobre os meus centros nervosos,Como os pingos ardentes de cem velas,O uivo desenganado das cadelasE o gemido dos homens bexigosos.Pensava! E em que eu pensava, não perguntes!Mas, em cima de um túmulo, um cachorroPedia para mim água e socorroÀ comiseração dos transeuntes!Bruto, de errante rio, alto e hórrido, o urroReboava. Além jazia os pés da serra,Criando as superstições de minha terra,A queixada específica de um burro!Gordo adubo de agreste urtiga brava,Benigna água, magnânima e magnífica,Em cuja álgida unção, branda e beatífica,A Paraíba indígena se lava!A manga, a ameixa, a amêndoa, a abóbora, o álamoE a câmara odorífera dos sumosAbsorvem diariamente o ubérrimo húmusQue Deus espalha à beira do seu tálamo!Nos de teu curso desobstruídos trilhos,Apenas eu compreendo, em quaisquer horas,O hidrogênio e o oxigênio que tu chorasPelo falecimento dos teus filhos!Ah! Somente eu compreendo, satisfeito,A incógnita psique das massas mortasQue dormem, como as ervas, sobre as hortas,Na esteira igualitária do teu leito!O vento continuava sem cansaçoE enchia com a fluidez do eólico hissopeEm seu fantasmagórico galopeA abundância geométrica do espaço.Meu ser estacionava, olhando os camposCircunjacentes. No Alto, os astros miúdosReduziam os Céus sérios e rudosA uma epiderme cheia de sarampos!

III

Dormia embaixo, com a promíscua véstiaNo embotamento crasso dos sentidos,A comunhão dos homens reunidosPela camaradagem da moléstia.Feriam-me o nervo óptico e a retinaAponevroses e tendões de Aquiles,Restos repugnantíssimos de bílis,Vômitos impregnados de ptialina.Da degenerescência étnica do ÁriaSe escapava, entre estrépitos e estouros,Reboando pelos séculos vindouros,O ruído de uma tosse hereditária.Oh! desespero das pessoas tísicas,Adivinhando o frio que há nas lousas,Maior felicidade é a destas cousasSubmetidas apenas às leis físicas!Estas, por mais que os cardos grandes rocemSeus corpos brutos, dores não recebem;Estas dos bacalhaus o óleo não bebem,Estas não cospem sangue, estas não tossem!Descender dos macacos catarríneos,Cair doente e passar a vida inteiraCom a boca junto de uma escarradeira,Pintando o chão de coágulos sanguíneos!Sentir, adstritos ao quimiotropismoErótico, os micróbios assanhadosPassearem, como inúmeros soldados,Nas cancerosidades do organismo!Falar somente uma linguagem rouca,Um português cansado e incompreensível,Vomitar o pulmão na noite horrívelEm que se deita sangue pela boca!Expulsar, aos bocados, a existênciaNuma bacia autômata de barro,Alucinado, vendo em cada escarroO retrato da própria consciência!Querer dizer a angústia de que é pábulo,E com a respiração já muito fracaSentir como que a ponta de uma faca,Cortando as raízes do último vocábulo!Não haver terapêutica que arranqueTanta opressão como se, com efeito,Lhe houvessem sacudido sobre o peitoA máquina pneumática de Bianchi!E o ar fugindo e a Morte a arca da tumbaA erguer, como um cronômetro giganteMarcando a transição emocionanteDo lar materno para a catacumba!Mas vos não lamenteis, magras mulheres,Nos ardores danados da febre hética,Consagrando vossa última fonéticaA uma recitação de misereres.Antes levardes ainda uma quimeraPara a garganta onívora das lajesDo que morrerdes, hoje, urrando ultrajesContra a dissolução que vos espera!Porque a morte, resfriando-vos o rosto,Consoante a minha concepção vesânica,É a alfândega, onde toda a vida orgânicaHá de pagar um dia o último imposto!

IV

Começara a chover. Pelas algentesRuas, a água, em cachoeiras desobstruídas,Encharcava os buracos das feridas,Alagava a medula dos Doentes!Do fundo do meu trágico destino,Onde a Resignação os braços cruza,Saía, com o vexame de uma fusa,A mágoa gaguejada de um cretino.Aquele ruído obscuro de gagueiraQue à noite, em sonhos mórbidos, me acorda,Vinha da vibração bruta da cordaMais recôndita da alma brasileira!Aturdia-me a tétrica miragemDe que, naquele instante, no Amazonas,Fedia, entregue a vísceras glutonas,A carcaça esquecida de um selvagem.A civilização entrou na tabaEm que ele estava. O gênio de ColomboManchou de opróbrios a alma do mazombo,Cuspiu na cova do morubixaba!E o índio, por fim, adstrito à étnica escória,Recebeu, tendo o horror no rosto impresso,Esse achincalhamento do progressoQue o anulava na crítica da História!Como quem analisa uma apostema,De repente, acordando na desgraça,Viu toda a podridão de sua raçaNa tumba de Iracema!...Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone,Exercia sobre ele ação funestaDesde o desbravamento da florestaÀ ultrajante invenção do telefone.E sentia-se pior que um vagabundoMicrocéfalo vil que a espécie encerra,Desterrado na sua própria terra,Diminuído na crônica do mundo!A hereditariedade dessa pechaSeguiria seus filhos. Dora em dianteSeu povo tombaria agonizanteNa luta da espingarda contra a flecha!Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos,Uma desesperada ânsia improfícuaDe estrangular aquela gente iníquaQue progredia sobre os seus despojos!Mas, diante a xantocróide raça loura,Jazem, caladas, todas as inúbias,E agora, sem difíceis nuanças dúbias,Com uma clarividência aterradora,Em vez da prisca tribo e indiana tropaA gente deste século, espantada,Vê somente a caveira abandonadaDe uma raça esmagada pela Europa!

V

Era a hora em que arrastados pelos ventos,Os fantasmas hamléticos dispersosAtiram na consciência dos perversosA sombra dos remorsos famulentos.As mães sem coração rogavam pragasAos filhos bons. E eu, roído pelos medos,Batia com o pentágono dos dedosSobre um fundo hipotético de chagas!Diabólica dinâmica daninhaOprimia meu cérebro indefesoCom a força onerosíssima de um pesoQue eu não sabia mesmo de onde vinha.Perfurava-me o peito a áspera puaDo desânimo negro que me prostra,E quase a todos os momentos mostraMinha caveira aos bêbedos da rua.Hereditariedades politípicasPunham na minha boca putrescívelInterjeições de abracadabra horrívelE os verbos indignados das Filípicas.Todos os vocativos dos blasfemos,No horror daquela noite monstruosa,Maldiziam, com voz estentorosa,A peçonha inicial de onde nascemos.Como que havia na ânsia de confortoDe cada ser, ex.: o homem e o ofídio,Uma necessidade de suicídioE um desejo incoercível de ser morto!Naquela angústia absurda e tragicômicaEu chorava, rolando sobre o lixo,Com a contorção neurótica de um bichoQue ingeriu 30 gramas de nux-vômica.E, como um homem doido que se enforca,Tentava, na terráquea superfície,Consubstanciar-me todo com a imundície,Confundir-me com aquela coisa porca!Vinha, às vezes, porém, o anelo instávelDe, com o auxílio especial do osso masseter,Mastigando homeomérias neutras de éterNutrir-me da matéria imponderável.Anelava ficar um dia, em suma,Menor que o anfióxus e inferior à tênia,Reduzido à plastídula homogênea,Sem diferenciação de espécie alguma.Era (nem sei em síntese o que diga)Um velhíssimo instinto atávico, eraA saudade inconsciente da moneraQue havia sido minha mãe antiga!Com o horror tradicional da raiva corsaMinha vontade era, perante a cova,Arrancar do meu próprio corpo a provaDa persistência trágica da força.A pragmática má de humanos usosNão compreende que a Morte que não dormeÉ a absorção do movimento enormeNa dispersão dos átomos difusos.Não me incomoda esse último abandono.Se a carne individual hoje apodrece,Amanhã, como Cristo, reapareceNa universalidade do carbono!A vida vem do éter que se condensaMas o que mais no Cosmos me entusiasmaÉ a esfera microscópica do plasmaFazer a luz do cérebro que pensa.Eu voltarei, cansado da árdua liça,À substância inorgânica primevaDe onde, por epigênesis, veio EvaE a estirpe radiolar chamada Actissa.Quando eu for misturar-me com as violetasMinha lira, maior que a Bíblia e a FedraReviverá, dando emoção à pedraNa acústica de todos os planetas!

VI

À álgida agulha, agora, alva, a saraivaCaindo, análoga era... Um cão agoraPunha a atra língua hidrófoba de foraEm contrações miológicas de raiva.Mas, para além, entre oscilantes chamas,Acordavam os bairros da luxúria...As prostitutas, doentes de hematúria,Se extenuavam nas camas.Uma, ignóbil, derreada de cansaço,Quase que escangalhada pelo vício,Cheirava com prazer no sacrifícioA lepra má que lhe roía o braço!E ensanguentava os dedos da mão níveaCom o sentimento gasto e a emoção pobre,Nessa alegria bárbara que cobreOs saracoteamentos da lascívia...De certo, a perversão de que era presaO sensorium daquela prostitutaVinha da adaptação quase absolutaÀ ambiência microbiana da baixeza!Entanto, virgem fostes, e, quando o éreis,Não tínheis ainda essa erupção cutânea,Nem tínheis, vítima última da insânia,Duas mamárias glândulas estéreis!Ah! Certamente, não havia aindaRompido, com violência, no horizonte,O sol malvado que secou a fonteDe vossa castidade agora finda!Talvez tivésseis fome, e as mãos, embalde,Estendestes ao mundo, até que, à-toa,Fostes vender a virginal coroaAo primeiro bandido do arrabalde.E estais velha! — De vós o mundo é farto,E hoje, que a sociedade vos enxota,Somente as bruxas negras da derrotaFrequentam diariamente vosso quarto!Prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestesLonge da mancebia dos alcouces,Nas quietudes nirvânicas mais doces,O noivado que em vida não tivestes!

VII

Quase todos os lutos conjugados,Como uma associação de monopólio,Lançavam pinceladas pretas de óleoNa arquitetura arcaica dos sobrados.Dentro da noite funda um braço humanoParecia cavar ao longe um poçoPara enterrar minha ilusão de moço,Como a boca de um poço artesiano!Atabalhoadamente pelos becos,Eu pensava nas coisas que perecem,Desde as musculaturas que apodrecemÀ ruína vegetal dos lírios secos.Cismava no propósito funéreoDa mosca debochada que farejaO defunto, no chão frio da igreja,E vai depois levá-lo ao cemitério!E esfregando as mãos magras, eu, inquieto,Sentia, na craniana caixa tosca,A racionalidade dessa mosca,A consciência terrível desse inseto!Regougando, porém, argots e aljâmias,Como quem nada encontra que o perturbe,A energúmena grei dos ébrios da urbeFestejava seu sábado de infâmias.A estática fatal das paixões cegas,Rugindo fundamente nos neurônios,Puxava aquele povo de demôniosPara a promiscuidade das adegas.E a ébria turba que escaras sujas masca,À falta idiossincrásica de escrúpulo,Absorvia com gáudio absinto, lúpuloE outras substâncias tóxicas da tasca.O ar ambiente cheirava a ácido acético,Mas, de repente, com o ar de quem empesta,Apareceu, escorraçando a festa,A mandíbula inchada de um morfético!Saliências polimórficas vermelhas,Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo,Punham-lhe num destaque horrendo o horrendoTamanho aberretório das orelhas.O fácies do morfético assombrava!— Aquilo era uma negra eucaristia,Onde minh’alma inteira surpreendiaA Humanidade que se lamentava!Era todo o meu sonho, assim inchado,Já podre, que a morfeia miserávelTornava às impressões táteis, palpável,Como se fosse um corpo organizado!

VIII

Em torno a mim, nesta hora, estriges voam,E o cemitério, em que eu entrei adrede,Dá-me a impressão de um boulevard que fede,Pela degradação dos que o povoam.Quanta gente, roubada à humana coorteMorre de fome, sobre a palha espessa,Sem ter, como Ugolino, uma cabeçaQue possa mastigar na hora da morte;E nua, após baixar ao caos budista,Vem para aqui, nos braços de um canalha,Porque o madapolão para a mortalhaCusta 1$200 ao lojista!Que resta das cabeças que pensaram?!E afundado nos sonhos mais nefastos,Ao pegar num milhão de miolos gastos,Todos os meus cabelos se arrepiaram.Os evolucionismos benfeitoresQue por entre os cadáveres caminham,Iguais a irmãs de caridade, vinhamCom a podridão dar de comer às flores!Os defuntos então me ofereciamCom as articulações das mãos inermes,Num prato de hospital, cheio de vermes,Todos os animais que apodreciam!É possível que o estômago se afoite(Muito embora contra isto a alma se irrite)A cevar o antropófago apetite,Comendo carne humana, à meia-noite!Com uma ilimitadíssima tristeza,Na impaciência do estômago vazio,Eu devorava aquele bolo frioFeito das podridões da Natureza!E hirto, a camisa suada, a alma aos arrancos,Vendo passar com as túnicas obscuras,As escaveiradíssimas figurasDas negras desonradas pelos brancos;Pisando, como quem salta, entre fardos,Nos corpos nus das moças hotentotesEntregues, ao clarão de alguns archotes,À sodomia indigna dos moscardos;Eu maldizia o deus de mãos nefandasQue, transgredindo a igualitária regraDa Natureza, atira a raça negraAo contubérnio diário das quitandas!Na evolução de minha dor grotesca,Eu mendigava aos vermes insubmissosComo indenização dos meus serviços,O benefício de uma cova fresca.Manhã. E eis-me a absorver a luz de fora,Como o íncola do pólo ártico, às vezes,Absorve, após a noite de seis meses,Os raios caloríficos da aurora.Nunca mais as goteiras cairiamComo propositais setas malvadas,No frio matador das madrugadas,Por sobre o coração dos que sofriam!Do meu cérebro à absconsa tábua rasaVinha a luz restituir o antigo crédito,Proporcionando-me o prazer inédito,De quem possui um sol dentro de casa.Era a volúpia fúnebre que os ossosMe inspiravam, trazendo-me ao sol claro,À apreensão fisiológica do faroO odor cadaveroso dos destroços!

IX

O inventário do que eu já tinha sidoEspantava. Restavam só de AugustoA forma de um mamífero vetustoE a cerebralidade de um vencido!O gênio procriador da espécie eternaQue me fizera, em vez de hiena ou lagarta,Uma sobrevivência de Sidarta,Dentro da filogênese moderna;E arrancara milhares de existênciasDo ovário ignóbil de uma fauna imunda,Ia arrastando agora a alma infecundaNa mais triste de todas as falências.Um céu calamitoso de vingançaDesagregava, déspota e sem normas,O adesionismo biôntico das formasMultiplicadas pela lei da herança!A ruína vinha horrenda e deletériaDo subsolo infeliz, vinha de dentroDa matéria em fusão que ainda há no centro,Para alcançar depois a periféria!Contra a Arte, oh! Morte, em vão teu ódio exerces!Mas, a meu ver, os sáxeos prédios tortosTinham aspectos de edifícios mortos,Decompondo-se desde os alicerces!A doença era geral, tudo a extenuar-seEstava. O Espaço abstrato que não morreCansara... O ar que, em colônias fluídas, corre,Parecia também desagregar-se!Os pródromos de um tétano medonhoRepuxavam-me o rosto... Hirto de espanto,Eu sentia nascer-me n’alma, entanto,O começo magnífico de um sonho!Entre as formas decrépitas do povo,Já batiam por cima dos estragosA sensação e os movimentos vagosDa célula inicial de um Cosmos novo!O letargo larvário da cidadeCrescia. Igual a um parto, numa furna,Vinha da original treva noturnaO vagido de uma outra Humanidade!E eu, com os pés atolados no Nirvana,Acompanhava, com um prazer secreto,A gestação daquele grande feto,Que vinha substituir a Espécie Humana!

ASA DE CORVO

Asa de corvos carniceiros, asaDe mau agouro que, nos doze meses,Cobre às vezes o espaço e cobre às vezesO telhado de nossa própria casa...Perseguido por todos os reveses,É meu destino viver junto a essa asa,Como a cinza que vive junto à brasa,Como os Goncourts, como os irmãos siameses!É com essa asa que eu faço este sonetoE a indústria humana faz o pano pretoQue as famílias de luto martiriza...É ainda com essa asa extraordináriaQue a Morte — a costureira funerária —Cose para o homem a última camisa!

UMA NOITE NO CAIRO

Noite no Egito. O céu claro e profundoFulgura. A rua é triste. A Lua CheiaEstá sinistra, e sobre a paz do mundoA alma dos Faraós anda e vagueia.Os mastins negros vão ladrando à lua...O Cairo é de uma formosura arcaica.No ângulo mais recôndito da ruaPassa cantando uma mulher hebraica.O Egito é sempre assim quando anoitece!Às vezes, das pirâmides o quedoE atro perfil, exposto ao luar, pareceUma sombria interjeição de medo!Como um contraste àqueles misereres,Num quiosque em festa a alegre turba grita,E dentro dançam homens e mulheresNuma aglomeração cosmopolita.Tonto do vinho, um saltimbanco da Ásia,Convulso e roto, no apogeu da fúria,Executando evoluções de razziaSolta um brado epilético de injúria!Em derredor duma ampla mesa preta— Última nota do conúbio infando —Vêem-se dez jogadores de roletaFumando, discutindo, conversando.Resplandece a celeste superfície.Dorme soturna a natureza sábia...Embaixo, na mais próxima planície,Pasta um cavalo esplêndido da Arábia.Vaga no espaço um silfo solitário.Troam kinnors! Depois tudo é tranquilo...Apenas, como um velho stradivário,Soluça toda a noite a água do Nilo!

O MARTÍRIO DO ARTISTA

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,Busca exteriorizar o pensamentoQue em suas fronetais células guarda!Tarda-lhe a Ideia! A inspiração lhe tarda!E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,Como o soldado que rasgou a fardaNo desespero do último momento!Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...É como o paralítico que, à mínguaDa própria voz e na que ardente o lavraFebre de em vão falar, com os dedos brutosPara falar, puxa e repuxa a língua,E não lhe vem à boca uma palavra!

DUAS ESTROFES

(À memória de João de Deus)
Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova?
Tutti torniamo alla gran madre antica
E il nostro nome appena si ritrova.
— Petrarca
A queda do teu lírico arrabilDe um sentimento português ignotoLembra Lisboa, bela como um brinco,Que um dia no ano trágico de milE setecentos e cinquenta e cinco,Foi abalada por um terremoto!A água quieta do Tejo te abençoa.Tu representas toda essa LisboaDe glórias quase sobrenaturais,Apenas com uma diferença triste,Com a diferença que Lisboa existeE tu, amigo, não existes mais!

O MAR, A ESCADA E O HOMEM

“Olha agora, mamífero inferior,“À luz da espicurista ataraxia,“O fracasso de tua geografia“E do teu escafandro esmiuçador!“Ah! Jamais saberás ser superior,“Homem, a mim, conquanto ainda hoje em dia,“Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia“Voando ao vento o vastíssimo vapor,“Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me!”E a verticalidade da Escada íngreme:“Homem, já transpuseste os meus degraus?!”E Augusto, o Hércules, o Homem, aos soluços,Ouvindo a Escada e o Mar, caiu de bruçosNo pandemônio aterrador do Caos!

DECADÊNCIA

Iguais às linhas perpendicularesCaíram, como cruéis e hórridas hastas,Nas suas 33 vértebras gastasQuase todas as pedras tumulares!A frialdade dos círculos polares,Em sucessivas atuações nefastas,Penetrara-lhe os próprios neuroplastas,Estragara-lhe os centros medulares!Como quem quebra o objeto mais queridoE começa a apanhar piedosamenteTodas as microscópicas partículas,Ele hoje vê que, após tudo perdido,Só lhe restam agora o último denteE a armação funerária das clavículas!

RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÙ

A minha ama-de-leite GuilherminaFurtava as moedas que o Doutor me dava.Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...Via naquilo a minha própria ruína!Minha ama, então, hipócrita, afetavaSusceptibilidade de menina:“— Não, não fora ela! —“ E maldizia a sina,Que ela absolutamente não furtava.Vejo, entretanto, agora, em minha cama,Que a mim somente cabe o furto feito...Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha...Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,Eu furtei mais, porque furtei o peitoQue dava leite para a tua filha!

A UM MASCARADO

Rasga essa máscara ótima de sedaE atira-a à arca ancestral dos palimpsestos...É noite, e, à noite, a escândalos e incestosÉ natural que o instinto humano aceda!Sem que te arranquem da garganta quedaA interjeição danada dos protestos,Hás de engolir, igual a um porco, os restosDuma comida horrivelmente azeda!A sucessão de hebdômadas medonhasReduzirá os mundos que tu sonhasAo microcosmos do ovo primitivo...E tu mesmo, após a árdua e atra refrega,Terás somente uma vontade cegaE uma tendência obscura de ser vivo!

VOZES DE UM TÚMULO

Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilhoDestes meus olhos apagou!... AssimTântalo, aos reais convivas, num festim,Serviu as carnes do seu próprio filho!Por que para este cemitério vim?!Por que?! Antes da vida o angusto trilhoPalmilhasse, do que este que palmilhoE que me assombra, porque não tem fim!No ardor do sonho que o fronema exaltaConstruí de orgulho ênea pirâmide alta...Hoje, porém, que se desmoronouA pirâmide real do meu orgulho,Hoje que apenas sou matéria e entulhoTenho consciência de que nada sou!

CONTRASTES

A antítese do novo e do obsoleto,O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,O que o homem ama e o que o homem abomina,Tudo convém para o homem ser completo!O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,Uma feição humana e outra divinaSão como a eximenina e a endimeninaQue servem ambas para o mesmo feto!Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!Por justaposição destes contrastes,Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,Às alegrias juntam-se as tristezas,E o carpinteiro que fabrica as mesasFaz também os caixões do cemitério!...

GEMIDOS DE ARTE

I

Esta desilusão que me acabrunhaÉ mais traidora do que o foi Pilatos!...Por causa disto, eu vivo pelos matos,Magro, roendo a substância córnea da unha.Tenho estremecimentos indecisosE sinto, haurindo o tépido ar sereno,O mesmo assombro que sentiu ParfenoQuando arrancou os olhos de Dionisos!Em giro e em redemoinho em mim caminhamRíspidas mágoas estranguladoras,Tais quais, nos fortes fulcros, as tesourasBrônzeas, também gira e redemoinham.Os pães — filhos legítimos dos trigos —Nutrem a geração do Ódio e da Guerra...Os cachorros anônimos da terraSão talvez os meus únicos amigos!Ah! Por que desgraçada contingênciaÀ híspida aresta sáxea áspera e abruptaDa rocha brava, numa ininterruptaAdesão, não prendi minha existência?!Por que Jeová, maior do que Laplace,Não fez cair o túmulo de PlínioPor sobre todo o meu raciocínioPara que eu nunca mais raciocinasse?!Pois minha Mãe tão cheia assim daquelesCarinhos, com que guarda meus sapatos,Por que me deu consciência dos meus atosPara eu me arrepender de todos eles?!Quisera antes, mordendo glabros talos,Nabucodonosor ser no Pau d’Arco,Beber a acre e estagnada água do charco,Dormir na manjedoura com os cavalos!Mas a carne é que é humana! A alma é divina.Dorme num leito de feridas, gozaO lodo, apalpa a úlcera cancerosa,Beija a peçonha, e não se contamina!Ser homem! escapar de ser aborto!Sair de um ventre inchado que se anoja,Comprar vestidos pretos numa lojaE andar de luto pelo pai que é morto!E por trezentos e sessenta diasTrabalhar e comer! Martírios juntos!Alimentar-se dos irmãos defuntos,Chupar os ossos das alimarias!Barulho de mandíbulas e abdomens!E vem-me com um despreza por tudo istoUma vontade absurda de ser CristoPara sacrificar-me pelos homens!Soberano desejo! SoberanaAmbição de construir para o homem umaRegião, onde não cuspa língua algumaO óleo rançoso da saliva humana!Uma região sem nódoas e sem lixos,Subtraída à hediondez de ínfimo casco,Onde a forca feroz coma o carrascoE o olho do estuprador se encha de bichos!Outras constelações e outros espaçosEm que, no agudo grau da última crise,O braço do ladrão se paraliseE a mão da meretriz caia aos pedaços!

II

O sol agora é de um fulgor compacto,E eu vou andando, cheio de chamusco,Com a flexibilidade de um molusco,Úmido, pegajoso e untuoso ao tacto!Reúnam-se em rebelião ardente e acesaTodas as minhas forças emotivasE armem ciladas como cobras vivasPara despedaçar minha tristeza!O sol de cima espiando a flora moçaArda, fustigue, queime, corte, morda!...Deleito a vista na verdura gordaQue nas hastes delgadas se balouça!Avisto o vulto das sombrias granjasPerdidas no alto... Nos terrenos baixos,Das laranjeiras eu admiro os cachosE a ampla circunferência das laranjas.Ladra furiosa a tribo dos podengos.Olhando para as pútridas charnecasGrita o exército avulso das marrecasNa úmida copa dos bambus verdoengos.Um pássaro, alvo artífice da teiaDe um ninho, salta, no árdego trabalho,De árvore em árvore e de galho em galho,Com a rapidez duma semicolcheia.Em grandes semicírculos aduncos,Entrançados, pelo ar, largando pêlos,Voam à semelhança de cabelosOs chicotes finíssimos dos juncos.Os ventos vagabundos batem, bolemNas árvores. O ar cheira. A terra cheira...E a alma dos vegetais rebenta inteiraDe todos os corpúsculos do pólen.A câmara nupcial de cada ovárioSe abre. No chão coleia a lagartixa.Por toda a parte a seiva bruta esguichaNum extravasamento involuntário.Eu, depois de morrer, depois de tantaTristeza, quero, em vez do nome — Augusto,Possuir aí o nome dum arbustoQualquer ou de qualquer obscura planta!

III

Pelo acidentadíssimo caminhoFaísca o sol. Nédios, batendo a cauda,Urram os bois. O céu lembra uma laudaDo mais incorruptível pergaminho.Uma atmosfera má de incômoda hulhaAbafa o ambiente. O aziago ar morto a morteFede. O ardente calor da areia forteRacha-me os pés como se fosse agulha.Não sei que subterrânea e atra voz rouca,Por saibros e por cem côncavos vales,Como pela avenida das Mappales,Me arrasta à casa do finado Toca!Todas as tardes a esta casa venho.Aqui, outrora, sem conchego nobre,Viveu, sentiu e amou este homem pobreQue carregava canas para o engenho!Nos outros tempos e nas outras eras,Quantas flores! Agora, em vez de flores,Os musgos, como exóticos pintores,Pintam caretas verdes nas taperas.Na bruta dispersão de vítreos cacos,À dura luz do sol resplandecente,Trôpega e antiga, uma parede doenteMostra a cara medonha dos buracos.O cupim negro broca o âmago finoDo teto. E traça trombas de elefantesCom as circunvoluções extravagantesDo seu complicadíssimo intestino.O lodo obscuro trepa-se nas portas.Amontoadas em grossos feixes rijos,As lagartixas, dos esconderijos,Estão olhando aquelas coisas mortas!Fico a pensar no Espírito dispersoQue, unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança,Como um anel enorme de aliança,Une todas as coisas do Universo!E assim pensando, com a cabeça em brasasAnte a fatalidade que me oprime,Julgo ver este Espírito sublime,Chamando-me do sol com as suas asas!Gosto do sol ignívomo e iracundoComo o réptil gosta quando se molhaE na atra escuridão dos ares, olhaMelancolicamente para o mundo!Essa alegria imaterializada,Que por vezes me absorve, é o óbolo obscuro,É o pedaço já podre de pão duroQue o miserável recebeu na estrada!Não são os cinco mil milhões de francosQue a Alemanha pediu a Jules Favre...É o dinheiro coberto de azinhavreQue o escravo ganha, trabalhando aos brancos!Seja este sol meu último consolo;E o espírito infeliz que em mim se encarnaSe alegre ao sol, como quem raspa a sarna,Só, com a misericórdia de um tijolo!...Tudo enfim a mesma órbita percorreE as bocas vão beber o mesmo leite...A lamparina quando falta o azeiteMorre, da mesma forma que o homem morre.Súbito, arrebentando a horrenda calma,Grito, e se grito é para que meu gritoSeja a revelação deste InfinitoQue eu trago encarcerado da minh’alma!Sol brasileiro! queima-me os destroços!Quero assistir, aqui, sem pai que me ame,De pé, à luz da consciência infame,À carbonização dos próprios ossos!

VERSOS DE AMOR

A um poeta eróticoParece muito doce aquela cana.Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda!O amor, poeta, é como a cana azeda,A toda a boca que o não prova engana.Quis saber que era o amor, por experiência,E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,Todas as ciências menos esta ciência!Certo, este o amor não é que, em ânsias, amoMas certo, o egoísta amor este é que acinteAmas, oposto a mim. Por conseguinteChamas amor aquilo que eu não chamo.Oposto ideal ao meu ideal conservas.Diverso é, pois, o ponto outro de vistaConsoante o qual, observo o amor, do egoístaModo de ver, consoante o qual, o observas.Porque o amor, tal como eu o estou amando,É Espírito, é éter, é substância fluida,É assim como o ar que a gente pega e cuida,Cuida, entretanto, não o estar pegando!É a transubstanciação de instintos rudes,Imponderabilíssima e impalpável,Que anda acima da carne miserávelComo anda a garça acima dos açudes!Para reproduzir tal sentimentoDaqui por diante, atenta a orelha cauta,Como Mársias — o inventor da flauta —Vou inventar também outro instrumento!Mas de tal arte e espécie tal fazê-loAmbiciono, que o idioma em que te eu faloPossam todas as línguas decliná-lo,Possam todos os homens compreendê-lo!Para que, enfim, chegando à última calmaMeu podre coração roto não role,Integralmente desfibrado e mole,Como um saco vazio dentro d’alma!

SONETOS

I

A meu pai doentePara onde fores, Pai, para onde fores,Irei também, trilhando as mesmas ruas...Tu, para amenizar as dores tuas,Eu, para amenizar as minhas dores!Que coisa triste! O campo tão sem flores,E eu tão sem crença e as árvores tão nuasE tu, gemendo, e o horror de nossas duasMágoas crescendo e se fazendo horrores!Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,Indiferente aos mil tormentos teusDe assim magoar-te sem pesar havia?!— Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfimÉ bom, é justo, e sendo justo, Deus,Deus não havia de magoar-te assim!

II

A meu pai mortoMadrugada de Treze de Janeiro,Rezo, sonhando, o ofício da agonia.Meu Pai nessa hora junto a mim morriaSem um gemido, assim como um cordeiro!E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!Quando acordei, cuidei que ele dormia,E disse à minha Mãe que me dizia:“Acorda-o!” deixa-o, Mãe, dormir primeiro!E saí para ver a Natureza!Em tudo o mesmo abismo de beleza,Nem uma névoa no estrelado véu...Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,Como Elias, num carro azul de glórias,Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu!

III

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.Em seus lábios que os meus lábios osculamMicrorganismos fúnebres pululamNuma fermentação gorda de cidra.Duras leis as que os homens e a hórrida hidraA uma só lei biológica vinculam,E a marcha das moléculas regulam,Com a invariabilidade da clepsidra!Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijosRoída toda de bichos, como os queijosSobre a mesa de orgíacos festins!...Amo meu Pai na atômica desordemEntre as bocas necrófagas que o mordemE a terra infecta que lhe cobre os rins!

DEPOIS DA ORGIA

O prazer que na orgia a hetaíra gozaProduz no meu sensorium de bacanteO efeito de uma túnica brilhanteCobrindo ampla apostema escrofulosa!Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,O sistema nervoso de um gigantePara sofrer na minha carne estuanteA dor da força cósmica furiosa.Apraz-me, enfim, despindo a última alfaiaQue ao comércio dos homens me traz presa,Livre deste cadeado de peçonha,Semelhante a um cachorro de atalaiaÀs decomposições da Natureza,Ficar latindo minha dor medonha!

A ÁRVORE DA SERRA

— As árvores, meu filho, não têm alma!E esta árvore me serve de empecilho...É preciso cortá-la, pois, meu filho,Para que eu tenha uma velhice calma!— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!...— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”E quando a árvore, olhando a pátria serra,Caiu aos golpes do machado bronco,O moço triste se abraçou com o troncoE nunca mais se levantou da terra!

VENCIDO

No auge de atordoadora e ávida sanhaLeu tudo, desde o mais prístino mito,Por exemplo: o do boi Ápis do EgitoAo velho Niebelungen da Alemanha.Acometido de uma febre estranhaSem o escândalo fônico de um grito,Mergulhou a cabeça no Infinito,Arrancou os cabelos na montanha!Desceu depois à gleba mais bastarda,Pondo a áurea insígnia heráldica da fardaÀ vontade do vômito plebeu...E ao vir-lhe o cuspo diário à boca friaO vencido pensava que cuspiaNa célula infeliz de onde nasceu.

O CORRUPIÃO

Escaveirado corrupião idiota,Olha a atmosfera livre, o amplo éter belo,E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo,Que do fundo do chão todo o ano brota!Mas a ânsia de alto voar, de à antiga rotaVoar, não tens mais! E pois, preto e amarelo,Pões-te a assobiar, bruto, sem cerebeloA gargalhada da última derrota!A gaiola aboliu tua vontade.Tu nunca mais verás a liberdade!...Ah! Tu somente ainda és igual a mim.Continua a comer teu milho alpiste.Foi este mundo que me fez tão triste,Foi a gaiola que te pôs assim!

NOITE DE UM VISIONÁRIO

Número cento e três. Rua Direita.Eu tinha a sensação de quem se esfolaE inopinadamente o corpo atolaNuma poça de carne liquefeita!— “Que esta alucinação tátil não cresça!”— Dizia; e erguia, oh! céu, alto, por ver-vos,Com a rebeldia acérrima dos nervosMinha atormentadíssima cabeça.É a potencialidade que me elevaAo grande Deus, e absorve em cada viagemMinh’alma — este sombrio personagemDo drama panteístico da treva!Depois de dezesseis anos de estudoGeneralizações grandes e ousadasTraziam minhas forças concentradasNa compreensão monística de tudo.Mas a aguadilha pútrida o ombro inermeMe aspergia, banhava minhas tíbias,E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias,Cortando o melanismo da epiderme.Arimânico gênio destrutivoDesconjuntava minha autônoma almaEsbandalhando essa unidade calma,Que forma a coerência do ser vivo.E eu saí a tremer com a língua grossaE a volição no cúmulo do exício,Como quem é levado para o hospícioAos trambolhões, num canto de carroça!Perante o inexorável céu acesoAgregações abióticas espúrias,Como um cara, recebendo injúrias,Recebiam os cuspos do desprezo.A essa hora, nas telúrias reservas,O reino mineral americanoDormia, sob os pés do orgulho humano,E a cimalha minúscula das ervas.E não haver quem, íntegra, lhe entregue,Com os ligamentos glóticos precisos,A liberdade de vingar em risosA angústia milenária que o persegue!Bolia nos obscuros labirintosDa fértil terra gorda, úmida e fresca,A ínfima fauna abscôndita e grotescaDa família bastarda dos helmintos.As vegetalidades subalternasQue os serenos noturnos orvalhavam,Pela alta frieza intrínseca, lembravamToalhas molhadas sobre as minhas pernas.E no estrume fresquíssimo da glebaFormigavam, com a símplice sarcode,O vibrião, o ancilóstomo, o colpodeE outros irmãos legítimos da ameba!E todas essas formas que Deus lançaNo Cosmos, me pediam, com o ar horrível,Um pedaço de língua disponívelPara a filogenética vingança!A cidade exalava um podre báfio:Os anúncios das casas de comércio,Mais tristes que as elegias de Propércio,Pareciam talvez meu epitáfio.O motor teleológico da VidaParara! Agora, em diástoles de guerra,Vinha do coração quente da terraUm rumor de matéria dissolvida.A química feroz do cemitérioTransformava porções de átomos juntosNo óleo malsão que escorre dos defuntos,Com a abundância de um geyser deletério.Dedos denunciadores escreviamNa lúgubre extensão da rua pretaTodo o destino negro do planeta,Onde minhas moléculas sofriam.Um necrófilo mau forçava as lousasE eu — coetâneo do horrendo cataclismo —Era puxado para aquele abismoNo redemoinho universal das cousas!

ALUCINAÇÃO À BEIRA-MAR

Um medo de morrer meus pés esfriava.Noite alta. Ante o telúrico recorte,Na diuturna discórdia, a equórea coorteAtordoadamente ribombava!Eu, ególatra céptico, cismavaEm meu destino!... O vento estava forteE aquela matemárica da MorteCom os seus números negros, me assombrava!Mas a alga usufrutuária dos oceanosE os malacopterígios subraquianosQue um castigo de espécie emudeceu,No eterno horror das convulsões marítimasPareciam também corpos de vítimasCondenados à Morte, assim como eu!

VANDALISMO

Meu coração tem catedrais imensas,Templos de priscas e longínquas datas,Onde um nume de amor, em serenatas,Canta a aleluia virginal das crenças.Na ogiva fúlgida e nas colunatasVertem lustrais irradiações intensasCintilações de lâmpadas suspensasE as ametistas e os florões e as pratas.Com os velhos Templários medievaisEntrei um dia nessas catedraisE nesses templos claros e risonhos...E erguendo os gládios e brandindo as hastas,No desespero dos iconoclastasQuebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidávelEnterro de tua última quimera.Somente a Ingratidão — esta pantera —Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!O Homem, que, nesta terra miserável,Mora entre feras, sente inevitávelNecessidade de também ser fera.Toma um fósforo. Acende teu cigarro!O beijo, amigo, é a véspera do escarro,A mão que afaga é a mesma que apedreja.Se a alguém causa inda pena a tua chaga,Apedreja essa mão vil que te afaga,Escarra nessa boca que te beija!

VENCEDOR

Toma as espadas rútilas, guerreiro,E à rutilância das espadas, tomaA adaga de aço, o gládio de aço, e domaMeu coração — estranho carniceiro!Não podes?! Chama então presto o primeiroE o mais possante gladiador de Roma.E qual mais pronto, e qual mais presto assomaNenhum pôde domar o prisioneiro.Meu coração triunfava nas arenas.Veio depois um domador de hienasE outro mais, e, por fim, veio um atleta,Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...E não pôde domá-lo enfim ninguém,Que ninguém doma um coração de poeta!

A ILHA DE CIPANGO

Estou sozinho! A estrada se desdobraComo uma imensa e rutilante cobraDe epiderme finíssima de areia...E por essa finíssima epidermeEis-me passeando como um grande vermeQue, ao sol, em plena podridão, passeia!A agonia do sol vai ter começo!Caio de joelhos, trêmulo... OfereçoPreces a Deus de amor e de respeitoE o Ocaso que nas águas se retrataNitidamente reproduz, exata,A saudade interior que há no meu peito...Tenho alucinações de toda a sorte...Impressionado sem cessar com a MorteE sentindo o que um lázaro não sente,Em negras nuanças lúgubres e aziagasVejo terribilíssimas adagas,Atravessando os ares bruscamente.Os olhos volvo para o céu divinoE observo-me pigmeu e pequeninoAtravés de minúsculos espelhos.Assim, quem diante duma cordilheira,Para, entre assombros, pela vez primeira,Sente vontade de cair de joelhos!Soa o rumor fatídico dos ventos,Anunciando desmoronamentosDe mil lajedos sobre mil lajedos...E ao longe soam trágicos fracassosDe heróis, partindo e fraturando os braçosNas pontas escarpadas dos rochedos!Mas de repente, num enleio doce,Qual num sonho arrebatado fosse,Na ilha encantada de Cipango tombo,Da qual, no meio, em luz perpétua, brilhaA árvore da perpétua maravilha,À cuja sombra descansou Colombo!Foi nessa ilha encantada de Cipango,Verde, afetando a forma de um losango,Rica, ostentando amplo floral risonho,Que Toscanelli viu seu sonho extintoE como sucedeu a Afonso QuintoFoi sobre essa ilha que extingui meu sonho!Lembro-me bem. Nesse maldito diaO gênio singular da FantasiaConvidou-me a sorrir para um passeio...Iríamos a um país de eternas pazesOnde em cada deserto há mil oásisE em cada rocha um cristalino veio.Gozei numa hora séculos de afagos,Banhei-me na água de risonhos lagos,E finalmente me cobri de flores...Mas veio o vento que a Desgraça espalhaE cobriu-me com o pano da mortalha,Que estou cosendo para os meus amores!Desde então para cá fiquei sombrio!Um penetrante e corrosivo frioAnestesiou-me a sensibilidadeE a grandes golpes arrancou as raízesQue prendiam meus dias infelizesA um sonho antigo de felicidade!Invoco os Deuses salvadores do erro.A tarde morre. Passa o seu enterro!...A luz descreve ziguezagues tortosEnviando à terra os derradeiros beijos.Pela estrada feral dois realejosEstão chorando meus amores mortos!E a treva ocupa toda a estrada longa...O Firmamento é uma caverna oblongaEm cujo fundo a Via-Láctea existe.E como agora a lua cheia brilha!Ilha maldita vinte vezes a ilhaQue para todo o sempre me fez triste!

MATER

Como a crisálida emergindo do ovoPara que o campo flórido a concentre,Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novoSer, entre dores, te emergiu do ventre!E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,No lábio róseo a grande teta farta— Fecunda fonte desse mesmo leiteQue amamentou os éfebos de Esparta. —Com que avidez ele essa fonte suga!Ninguém mais com a Beleza está de acordo,Do que essa pequenina sanguessuga,Bebendo a vida no teu seio gordo!Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,Essas humanas coisas pequeninasA um biscuit de quilate muito raroExposto aí, à amostra, nas vitrinas.Mas o ramo fragílimo e venustoQue hoje nas débeis gêmulas se esboça,Há de crescer, há de tornar-se arbustoE álamo altivo de ramagem grossa.Clara, a atmosfera se encherá de aromas,O Sol virá das épocas sadias...E o antigo leão, que te esgotou as pomas,Há de beijar-te as mãos todos os dias!Quando chegar depois tua velhiceBatida pelos bárbaros invernos,Relembrarás chorando o que eu te disse,À sombra dos sicômoros eternos!

POEMA NEGRO

A Santos NetoPara iludir minha desgraça, estudo.Intimamente sei que não me iludo.Para onde vou (o mundo inteiro o nota)Nos meus olhares fúnebres, carregoA indiferença estúpida de um cegoE o ar indolente de um chinês idiota!A passagem dos séculos me assombra.Para onde irá correndo minha sombraNesse cavalo de eletricidade?!Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?E parece-me um sonho a realidade.Em vão com o grito do meu peito impreco!Dos brados meus ouvindo apenas o eco,Eu torço os braços numa angústia doudaE muita vez, à meia-noite, rioSinistramente, vendo o verme frioQue há de comer a minha carne toda!É a Morte — esta carnívora assanhada —Serpente má de língua envenenadaQue tudo que acha no caminho, come...— Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,Sai para assassinar o mundo inteiro,E o mundo inteiro não lhe mata a fome!Nesta sombria análise das cousas,Corro. Arranco os cadáveres das lousasE as suas partes podres examino...Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,Na podridão daquele embrulho hediondoReconheço assombrado o meu Destino!Surpreendo-me, sozinho, numa cova.Então meu desvario se renova...Como que, abrindo todos os jazigos,A Morte, em trajes pretos e amarelos,Levanta contra mim grandes cutelosE as baionetas dos dragões antigos!E quando vi que aquilo vinha vindoEu fui caindo como um sol caindoDe declínio em declínio; e de declínioEm declínio, com a gula de uma fera,Quis ver o que era, e quando vi o que era,Vi que era pó, vi que era esterquilínio!Chegou a tua vez, oh! Natureza!Eu desafio agora essa grandeza,Perante a qual meus olhos se extasiam...Eu desafio, desta cova escura,No histerismo danado da torturaTodos os monstros que os teus peitos criam!Tu não és minha mãe, velha nefasta!Com o teu chicote frio de madrastaTu me açoitaste vinte e duas vezes...Por tua causa apodreci nas cruzes,Em que pregas os filhos que produzesDurante os desgraçados nove meses!Semeadora terrível de defuntos,Contra a agressão dos teus contrastes juntosA besta, que em mim dorme, acorda em berros:Acorda, e após gritar a última injúria,Chocalha os dentes com medonha fúriaComo se fosso o atrito de dois ferros!Pois bem! Chegou minha hora de vingança.Tu mataste o meu tempo de criançaE de segunda-feira até domingo,Amarrado no horror de tua rede,Deste-me fogo quanto eu tinha sede...Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!Súbito outra visão negra me espanta!Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.A trava invade o obscuro orbe terrestreNo Vaticano, em grupos prosternados,Com as longas fardas rubras, os soldadosGuardam o corpo do Divino Mestre.Como as estalactites da caverna,Cai no silêncio da Cidade EternaA água da chuva em largos fios grossos...De Jesus Cristo resta unicamenteUm esqueleto; e a gente, vendo-o, a genteSente vontade de abraçar-lhe os ossos!Não há ninguém na estrada da Ripetta.Dentro da Igreja de S. Pedro, quieta,As luzes funerais arquejam fracas...O vento entoa cânticos de morte.Roma estremece! Além, num rumor forteRecomeça o barulha das matracas.A desagregação da minha IdeiaAumenta. Como as chagas da morfeia,O medo, o desalento e o desconfortoParalisam-me os círculos motores.Na Eternidade, os ventos gemedoresEstão dizendo que Jesus é morto!Não! Jesus não morreu! Vive na serraDa Borborema, no ar de minha terra,Na molécula e no átomo... ResumeA espiritualidade da matériaE ele é que embala o corpo da misériaE faz da cloaca uma urna de perfume.Na agonia de tantos pesadelosUma dor bruta puxa-me os cabelos.Desperto. É tão vazia a minha vida!No pensamento desconexo e falhoTrago as cartas confusas de um baralhoE pedaço de cera derretida!Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.Eu, somente eu, com a minha dor enormeOs olhos ensanguento na vigília!E observo, enquanto o horror me corta a falaO aspecto sepulcral da austera salaE a impassibilidade da mobília.Meu coração, como um cristal, se quebre;O termômetro negue minha febre,Torne-se gelo o sangue que me abrase,E eu me converta na cegonha tristeQue das ruínas duma cassa assisteAo desmoronamento de outra casa!Ao terminar este sentido poemaOnde vazei a minha dor supremaTenho os olhos em lágrimas imersos...Rola-me na cabeça o cérebro oco.Por ventura, meu Deus, estarei louco?!Daqui por diante não farei mais versos.

ETERNA MÁGOA

O homem por sobre quem caiu a pragaDa tristeza do Mundo, o homem que é tristePara todos os séculos existeE nunca mais o seu pesar se apaga!Não crê em nada, pois nada há que tragaConsolo à Mágoa, a que só ele assiste.Quer resistir, e quanto mais resisteMais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.Sabe que sofre, mas o que não sabeÉ que essa mágoa infinda assim, não cabeNa sua vida, é que essa mágoa infindaTranspõe a vida do seu corpo inerme;E quando esse homem se transforma em vermeÉ essa mágoa que o acompanha ainda!

QUEIXAS NOTURNAS

Quem foi que viu a minha Dor chorando?!Saio. Minh’alma sai agoniada.Andam monstros sombrios pela estradaE pela estrada, entre estes monstros, ando!Não trago sobre a túnica fingidaAs insígnias medonhas do infelizComo os falsos mendigos de ParisNa atra rua de Santa Margarida.O quadro de aflições que me consomemO próprio Pedro Américo não pinta...Para pintá-lo, era preciso a tintaFeita de todos os tormentos do homem!Como um ladrão sentado numa ponteEspera alguém, armado de arcabuz,Na ânsia incoercível de roubar a luz,Estou à espera de que o Sol desponte!Bati nas pedras dum tormento rudeE a minha mágoa de hoje é tão intensaQue eu penso que a Alegria é uma doençaE a Tristeza é minha única saúde.As minhas roupas, quero até rompê-las!Quero, arrancado das prisões carnais,Viver na luz dos astros imortais,Abraçado com todas as estrelas!A Noite vai crescendo apavoranteE dentro do meu peito, no combate,A Eternidade esmagadora bateNuma dilatação exorbitante!E eu luto contra a universal grandezaNa mais terrível desesperação...É a luta, é o prélio enorme, é a rebeliãoDa criatura contra a natureza!Para essas lutas uma vida é poucaInda mesmo que os músculos se esforcem;Os pobres braços do mortal se torcemE o sangue jorra, em coalhos, pela boca.E muitas vezes a agonia é tantaQue, rolando dos últimos degraus,O Hércules treme e vai tombar no caosDe onde seu corpo nunca mais levanta!É natural que esse Hércules se estorça,E tombe para sempre nessas lutas,Estrangulado pelas rodas brutasDo mecanismo que tiver mais força.Ah! Por todos os séculos vindourosHá de travar-se essa batalha vãDo dia de hoje contra o de amanhã,Igual à luta dos cristãos e mouros!Sobre histórias de amor o interrogar-meÉ vão, é inútil, é improfícuo, em suma;Não sou capaz de amar mulher algumaNem há mulher talvez capaz de amar-me.O amor tem favos e tem caldos quentesE ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;O coração do Poeta é um hospitalOnde morreram todos os doentes.Hoje é amargo tudo quanto eu gosto:A bênção matutina que recebo...E é tudo: o pão que como, a água que bebo,O velho tamarindo a que me encosto!Vou enterrar agora a harpa boêmiaNa atra e assombrosa solidão ferozOnde não cheguem o eco duma vozE o grito desvairado da blasfêmia!Que dentro de minh’alma americanaNão mais palpite o coração — esta arca,Este relógio trágico que marcaTodos os atos da tragédia humana!—Seja esta minha queixa derradeiraCantada sobre o túmulo de Orfeu;Seja este, enfim, o último canto meuPor esta grande noite brasileira!Melancolia! Estende-me a tua asa!És a árvore em que devo reclinar-me...Se algum dia o Prazer vier procurar-meDize a este monstro que fugi de casa!

INSÔNIA

Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbuloPassou de certo por aqui chorando!Assim, em mágoa, eu também vou passandoSonâmbulo... sonâmbulo... sonâmbulo...Que voz é esta que a gemer concentroNo meu ouvido e que do meu ouvidoComo um bemol e como um sustenidoRola impetuosa por meu peito adentro?!— Por que é que este gemido me acompanha?!Mas dos meus olhos no sombrio palcoSúbito surge como um catafalcoUma cidade ao mapa-múndi estranha.A dispersão dos sonhos vagos reúno.Desta cidade pelas ruas erraA procissão dos Mártires da TerraDesde os Cristãos até Giordano Bruno!Vejo diante de mim Santa FranciscaQue com o cilício as tentações suplanta,E invejo o sofrimento desta Santa,Em cujo olhar o Vício não faísca!Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse,Depois de embebedado deste vinho,Sair da vida puro como o arminhoQue os cabelos dos velhos embranquece!Por que cumpri o universal ditame?!Pois se eu sabia onde morava o Vício,Por que não evitei o precipícioEstrangulando minha carne infame?!Até que dia o intoxicado aromaDas paixões torpes sorverei contente?E os dias correrão eternamente?!E eu nunca sairei desta Sodoma?!À proporção que a minha insônia aumentaHieróglifos e esfinges interrogo...Mas, triunfalmente, nos céus altos, logoToda a alvorada esplêndida se ostenta.Vagueio pela Noite decaída...No espaço a luz de Aldebarã e de ÁrgusVai projetando sobre os campos largosO derradeiro fósforo da Vida.O Sol, equilibrando-se na esfera,Restitui-me a pureza da hematoseE então uma interior metamorfoseNas minhas arcas cerebrais se opera.O odor da margarida e da begôniaSubitamente me penetra o olfato...Aqui, neste silêncio e neste mato,Respira com vontade a alma campônia!Grita a satisfação na alma dos bichos.Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.As árvores, as flores, os corimbos,Recordam santos nos seus próprios nichos.Com o olhar a verde periferia abarco.Estou alegre. Agora, por exemplo,Cercado destas árvores, contemploAs maravilhas reais do meu Pau d’Arco!Cedo virá, porém, o funerário,Atro dragão da escura noite, hedionda,Em que o Tédio, batendo na alma, estrondaComo um grande trovão extraordinário.Outra vez serei pábulo do sustoE terei outra vez de, em mágoa imerso,Sacrificar-me por amor do VersoNo meu eterno leito de Procusto!

BARCAROLA

Cantam nautas, choram flautasPelo mar e pelo marUma sereia a cantarVela o Destino dos nautas.Espelham-se os esplendoresDo céu, em reflexos, nasÁguas, fingindo cristaisDas mais deslumbrantes cores.Em fulvos filões doiradosCai a luz dos astros porSobre o marítimo horrorComo globos estrelados.Lá onde as rochas se assentamFulguram como outros sóisOs flamívomos faróisQue os navegantes orientam.Vai uma onda, vem outra ondaE nesse eterno vaivémCoitadas! não acham quem,Quem as esconda, as esconda...Alegoria tristonhaDo que pelo Mundo vai!Se um sonha e se ergue, outro cai;Se um cai, outro se ergue e sonha.Mas desgraçado do pobreQue em meio da Vida cai!Esse não volta, esse vaiPara o túmulo que o cobre.Vagueia um poeta num barco.O Céu, de cima, a luzirComo um diamante de OfirImita a curva de um arco.A Lua — globo de louça —Surgiu, em lúcido véu.Cantam! Os astros do CéuOuçam e a Lua Cheia ouça!Ouço do alto a Lua CheiaQue a sereia vai falar...Haja silêncio no marPara se ouvir a sereia.Que é que ela diz?! Será umaHistória de amor feliz?Não! O que a sereia dizNão é história nenhuma.É como um requiem profundoDe tristíssimos bemóis...Sua voz é igual à vozDas dores todas do mundo.“Fecha-te nesse medonho“Reduto de Maldição,“Viajeiro da Extrema-Unção,“Sonhador do último sonho!“Numa redoma ilusória“Cercou-te a glória falaz,“Mas nunca mais, nunca mais“Há de cercar-te essa glória!“Nunca mais! Sê, porém, forte.“O poeta é como Jesus!“Abraça-te à tua Cruz“E morre, poeta da Morte!”— E disse e porque isto disseO luar no Céu se apagou...Súbito o barco tombouSem que o poeta o pressentisse!Vista de luto o UniversoE Deus se enlute no Céu!Mais um poeta que morreu,Mais um coveiro do Verso!Cantam nautas, choram flautasPelo mar e pelo marUma sereia a cantarVela o Destino dos nautas!

TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE

Quarto Minguante! E, embora a lua o aclare,Este Engenho Pau d’Arco é muito triste...Nos engenhos da várzea não existeTalvez um outro que se lhe equipare!Do observatório em que eu estou situadoA lua magra, quando a noite cresce,Vista, através do vidro azul, pareceUm paralelepípedo quebrado!O sono esmaga o encéfalo do povo.Tenho 300 quilos no epigastro...Dói-me a cabeça. Agora a cara do astroLembra a metade de uma casca de ovo.Diabo! Não ser mais tempo de milagre!Para que esta opressão desapareçaVou amarrar um pano na cabeça,Molhar a minha fronte com vinagre.Aumentam-se-me então os grandes medos.O hemisfério lunar se ergue e se abaixaNum desenvolvimento de borracha,Variando à ação mecânica dos dedos!Vai-me crescendo a aberração do sonho.Morde-me os nervos o desejo doudoDe dissolver-me, de enterrar-me todoNaquele semicírculo medonho!Mas tudo isto é ilusão de minha parte!Quem sabe se não é porque não saioDesde que, 6ª feira, 3 de maio,Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?!A lâmpada a estirar línguas vermelhasLambe o ar. No bruto horror que me arrebata,Como um degenerado psicopataEis-me a contar o número das telhas!— Uma, duas, três, quatro... E aos tombos, tontaSinto a cabeça e a conta perco; e, em suma,A conta recomeço, em ânsias: — Uma...Mas novamente eis-me a perder a conta!Sucede a uma tontura outra tontura.— Estarei morto?! E a esta pergunta estranhaResponde a Vida — aquela grande aranhaQue anda tecendo a minha desventura! —A luz do quarto diminuindo o brilhoSegue todas as fases de um eclipse...Começo a ver coisas de ApocalipseNo triângulo escaleno do ladrilho!Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho.Cinco lençóis balançam numa corda,Mas aquilo mortalhas me recorda,E o amontoamento dos lençóis desmancho.Vêm-me à imaginação sonhos dementes.Acho-me, por exemplo, numa festa...Tomba uma torre sobre a minha testa,Caem-me de uma só vez todos os dentes!Então dois ossos roídos me assombram...— “Por ventura haverá quem queira roer-nos?!Os vermes já não querem mais comer-nosE os formigueiros já nos desprezaram”.Figuras espectrais de bocas tronchasTornam-me o pesadelo duradouro...Choro e quero beber a água do choroCom as mãos dispostas à feição de conchas.Tal uma planta aquática submersa,Antegozando as últimas delíciasMergulho as mãos — vis raízes adventícias —No algodão quente de um tapete persa.Por muito tempo rolo no tapete,Súbito me ergo. A lua é morta. Um frioCai sobre o meu estômago vazioComo se fosse um copo de sorvete!A alta frialdade me insensibiliza;O suor me ensopa. Meu tormento é infindo...Minha família ainda está dormindoE eu não posso pedir outra camisa!Abro a janela. Elevam-se fumaçasDo engenho enorme. A luz fulge abundanteE em vez do sepulcral Quarto MinguanteVi que era o sol batendo nas vidraças.Pelos respiratórios tênues tubosDos poros vegetais, no ato da entregaDo mato verde, a terra resfolegaEstrumada, feliz, cheia de adubos.Côncavo, o céu, radiante e estriado, observaA universal criação. Broncos e feios,Vários reptis cortam os campos, cheiosDos tenros tinhorões e da úmida erva.Babujada por baixos beiços brutos,No húmus feraz, hierática, se ostentaA monarquia da árvore opulentaQue dá aos homens o óbolo dos frutos.De mim diverso, rígido e de rastosCom a solidez do tegumento sujoSulca, em diâmetro, o solo um caramujoNaturalmente pelos mata-pastos.Entretanto, passei o dia inquieto,A ouvir, nestes bucólicos retirosToda a salva fatal de 21 tirosQue festejou os funerais de Hamleto!Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas!Quisera ser, numa última cobiça,A fatia esponjosa de carniçaQue os corvos comem sobre as jurubebas!Porque, longe do pão com que me nutresNesta hora, oh! Vida, em que a sofrer me exortasEu estaria como as bestas mortasPendurado no bico dos abutres!

MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO

Pego de um fósforo. Olho-o. Olho-o ainda. Risco-oDepois. E o que depois fica e depoisResta é um ou, por outra, é mais de um, são doisTúmulos dentro de um carvão promíscuo.Dois são, porque um, certo, é do sonho assíduoQue a individual psique humana tece eO outro é o do sonho altruístico da espécieQue é o substractum dos sonhos do indivíduo!E exclamo, ébrio, a esvaziar báquicos odres:— “Cinza, síntese má da podridão,“Miniatura alegórica do chão,“Onde os ventres maternos ficam podres;“Na tua clandestina e erma alma vasta,“Onde nenhuma lâmpada se acende,“Meu raciocínio sôfrego surpreende“Todas as formas da matéria gasta!”Raciocinar! Aziaga contingência!Ser quadrúpede! Andar de quatro pésÉ mais do que ser Cristo e ser MoisésPorque é ser animal sem ter consciência!Bêbedo, os beiços na ânfora ínfima, harto,Mergulho, e na ínfima ânfora, harto, sintoO amargor específico do absintoE o cheiro animalíssimo do parto!E afogo mentalmente os olhos fundosNa amorfia da cítula inicial,De onde, por epigênese geral,Todos os organismos são oriundos.Presto, irrupto, através ovóide e hialinoVidro, aparece, amorfo e lúrido, anteMinha massa encefálica minguanteTodo o gênero humano intra-uterino!É o caos da ávita víscera avarenta— Mucosa nojentíssima de pus,A nutrir diariamente os fetos nusPelas vilosidades da placenta! —Certo, o arquitetural e íntegro aspectoDo mundo o mesmo inda é, que, ora, o que neleMorre, sou eu, sois vós, é todo aqueleQue vem de um ventre inchado, ínfimo e infecto!É a flor dos genealógicos abismos— Zooplasma pequeníssimo e plebeu,De onde o desprotegido homem nasceuPara a fatalidade dos tropismos. —Depois, é o céu abscôndito do Nada,É este ato extraordinário de morrerQue há de, na última hebdômada, atenderAo pedido da célula cansada!Um dia restará, na terra instável,De minha antropocêntrica matériaNuma côncava xícara funéreaUma colher de cinza miserável!Abro na treva os olhos quase cegos.Que mão sinistra e desgraçada encheuOs olhos tristes que meu Pai me deuDe alfinetes, de agulhas e de pregos?!Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis!Dentro um dínamo déspota, sozinho,Sob a morfologia de um moinho,Move todos os meus nervos vibráteis.Então, do meu espírito, em segredo,Se escapa, dentre as tênebras, muito alto,Na síntese acrobática de um salto,O espectro angulosíssimo do Medo!Em cismas filosóficas me percoE vejo, como nunca outro homem viu,Na anfigonia que me produziuNonilhões de moléculas de esterco.Vida, mônada vil, cósmico zero,Migalha de albumina semifluida,Que fez a boca mística do druidaE a língua revoltada de Lutero;Teus gineceus prolíficos envolvemCinza fetal!... Basta um fósforo sóPara mostrar a incógnita de pó,Em que todos os seres se resolvem!Ah! Maldito o conúbio incestuosoDessas afinidades eletivas,De onde quimicamente tu derivas,Na aclamação simbiótica do gozo!O enterro de minha última neuronaDesfila... E eis-me outro fósforo a riscar,E esse acidente químico vulgarExtraordinariamente me impressiona!Mas minha crise artrítica não tarda.Adeus! Que eu vejo enfim, com a alma vencidaNa abjeção embriológica da vidaO futuro de cinza que me aguarda!

OUTRAS POESIAS

O LAMENTO DAS COISAS

Triste, a escutar, pancada por pancada,A sucessividade dos segundos,Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundosO choro da Energia abandonada!E a dor da Força desaproveitada,— O cantochão dos dínamos profundos,Que, podendo mover milhões de mundos,Jazem ainda na estática do Nada!É o soluço da forma ainda imprecisa...Da transcendência que se não realiza.Da luz que não chegou a ser lampejo...E é, em suma, o subconsciente aí formidandoDa Natureza que parou, chorando,No rudimentarismo do Desejo!

O MEU NIRVANA

No alheamento da obscura forma humana,De que, pensando, me desencarcero,Foi que eu, num grito de emoção, sincero,Encontrei, afinal, o meu Nirvana!Nessa manumissão schopenhauereana,Onde a Vida do humano aspecto feroSe desarraiga, eu, feito força, imperoNa imanência da Ideia Soberana!Destruída a sensação que oriunda foraDo tato — ínfima antena aferidoraDestas tegumentárias mãos plebeias —Gozo o prazer, que os anos não carcomem,De haver trocado a minha forma de homemPela imortalidade das Ideias!

CAPUT IMMORTALE

Ad poetamNa dinâmica aziaga das descidas,Aglomeradamente e em turbilhãoSolucem dentro do Universo ancião,Todas as urbes siderais vencidas!Morra o éter. Cesse a luz. Parem as vidas.Sobre a pancosmológica exaustãoReste apenas o acervo árido e vãoDas muscularidades consumidas!Ainda assim, a animar o cosmos ermo,Morto o comércio físico nefando,Oh! Nauta aflito do Subliminal,Como a última expressão da Dor sem termo,Tua cabeça há de ficar vibrandoNa negatividade universal!

APÓSTROFE À CARNE

Quando eu pego nas carnes do meu rosto,Pressinto o fim da orgânica batalha:— Olhos que o húmus necrófago estraçalha,Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto...E o Homem — negro e heteróclito composto,Onde a alva flama psíquica trabalha,Desagrega-se e deixa na mortalhaO tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!Carne, feixe de mônadas bastardas,Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas,A dardejar relampejantes brilhos,Dói-me ver, muito embora a alma te acenda,Em tua podridão a herança horrenda,Que eu tenho de deixar para os meus filhos!

LOUVOR À UNIDADE

“Escafandros, arpões, sondas e agulhas“Debalde aplicas aos heterogêneos“Fenômenos, e, há inúmeros milênios,“Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas!“Une, pois, a irmanar diamantes e hulhas,“Com essa intuição monística dos gênios,“A hirta forma falaz do aere perennius“A transitoriedade das fagulhas!”— Era a estrangulação, sem retumbância,Da multimilenária dissonânciaQue as harmonias siderais invade...Era, numa alta aclamação, sem gritos,O regresso dos átomos aflitosAo descanso perpétuo da Unidade!

O PÂNTANO

Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!...Mas, para mim que a Natureza escuto,Este pântano é o túmulo absoluto,De todas as grandezas começantes!Larvas desconhecidas de gigantesSobre o seu leito de peçonha e lutoDormem tranquilamente o sono brutoDos superorganismos ainda infantes!Em sua estagnação arde uma raça,Tragicamente, à espera de quem passaPara abrir-lhe, às escâncaras, a porta...E eu sinto a angústia dessa raça ardenteCondenada a esperar perpetuamenteNo universo esmagado da água morta!

SUPRÊME CONVULSION

O equilíbrio do humano pensamentoSofre também a súbita ruptura,Que produz muita vez, na noite escura,A convulsão meteórica do vento.E a alma o obnóxio quietismo sonolentoRasga; e, opondo-se à Inércia, é a essência pura,E a síntese, é o transunto, é a abreviaturaDe todo o ubiquitário Movimento!Sonho, — libertação do homem cativo —Ruptura do equilíbrio subjetivo,Ah! foi teu beijo convulsionadorQue produziu este contraste fundoEntre a abundância do que eu sou, no Mundo,E o nada do meu homem interior!

A UM GÉRMEN

Começaste a existir, geleia crua,E hás de crescer, no teu silêncio, tantoQue, é natural, ainda algum dia, o prantoDas tuas concreções plásmicas flua!A água, em conjugação com a terra nua,Vence o granito, deprimindo-o... O espantoConvulsiona os espíritos, e, entanto,Teu desenvolvimento continua!Antes, geleia humana, não progridasE em retrogradações indefinidas,Volvas à antiga inexistência calma!...Antes o Nada, oh! gérmen, que ainda haveresDe atingir, como o gérmen de outros seres,Ao supremo infortúnio de ser alma!

NATUREZA ÍNTIMA

Ao filósofo Farias BritoCansada de observar-se na correnteQue os acontecimentos refletia,Reconcentrando-se em si mesma, um dia,A Natureza olhou-se interiormente!Baldada introspecção! NoumenalmenteO que Ela, em realidade, ainda sentiaEra a mesma imortal monotoniaDe sua face externa indiferente!E a Natureza disse com desgosto:“Terei somente, porventura, rosto?!“Serei apenas mera crusta espessa?!“Pois é possível que Eu, causa do Mundo,“Quando mais em mim mesma me aprofundo,“Menos interiormente me conheça?!”

A FLORESTA

Em vão com o mundo da floresta privas!...— Todas as hermenêuticas sondagens,Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens,São absolutamente negativas!Araucárias, traçando arcos de ogivas,Bracejamentos de álamos selvagens,Como um convite para estranhas viagens,Tornam todas as almas pensativas!Há uma força vencida nesse mundo!Todo o organismo florestal profundoE dor viva, trancada num disfarce...Vivem só, nele, os elementos broncos,— As ambições que se fizeram troncos,Porque nunca puderam realizar-se!

A MERETRIZ

A rua dos destinos desgraçadosFaz medo. O Vício estruge. Ouvem-se os bradosDa danação carnal... Lúbrica, à lua,Na sodomia das mais negras bodasDesarticula-se, em coréas doudas,Uma mulher completamente nua!É a meretriz que, de cabelos ruivos,Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivosNa mesma esteira pública, recebe,Entre farraparias e esplendores,O eretismo das classes superioresE o orgasmo bastardíssimo da plebe!É ela que, aliando, à luz do olhar protervo,O indumento vilíssimo do servoAo brilho da augustal toga pretexta,Sente, alta noite, em contorções sombrias,Na vacuidade das entranhas friasO esgotamento intrínseco da besta!E ela que, hirta, a arquivar credos desfeitos,Com as mãos chagadas, espremendo os peitos,Reduzidos, por fim, a âmbulas moles,Sofre em cada molécula a angústia altaDe haver secado, como o estepe, à faltaDa água criadora que alimenta as proles!É ela que, arremessada sobre o rudeDespenhadeiro da decrepitude,Na vizinhança aziaga dos ossuáriosRepresenta, através os meus sentidos,A escuridão dos gineceus falidosE a desgraça de todos os ovários!Irrita-se-lhe a carne à meia-noite.Espicaça-a a ignomínia, excita-a o açoiteDo incêndio que lhe inflama a língua espúria.E a mulher, funcionária dos instintos,Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos,Gane instintivamente de luxúria!Navio para o qual todos os portosEstão fechados, urna de ovos mortos,Chão de onde uma só planta não rebenta,Ei-la, de bruços, bêbeda de gozoSaciando o geotropismo pavorosoDe unir o corpo à terra famulenta!Nesse espolinhamento repugnanteO esqueleto irritado da bacanteEstrala... Lembra o ruído harto azorragueA vergastar ásperos dorsos grossos.E é aterradora essa alegria de ossosPedindo ao sensualismo que os esmague!É o pseudo-regozijo dos eunucosPor natureza, dos que são caducosDesde que a Mâe-Comum lhes deu início...É a dor profunda da incapacidadeQue, pela própria hereditariedadeA lei da seleção disfarça em Vício!É o júbilo aparente da alma quaseA eclipsar-se, no horror da ocídua faseEsterilizadora de órgãos... É o hinoDa matéria incapaz, filha do inferno,Pagando com volúpia o crime eternoDe não ter sido fiel ao seu destino!É o Desespero que se faz bramidoDe anelo animalíssimo incontido,Mais que a vaga incoercível na água oceânea...É a Carne que, já morta essencialmente,Para a Finalidade TranscendenteGera o prodígio anímico da Insânia!Nas frias antecâmaras do NadaO fantasma da fêmea castigada,Passa agora ao clarão da lua acesaE é seu corpo expiatório, alvo e desnudo,A síntese eucarística de tudoQue não se realizou na Natureza!Antigamente, aos tácitos apelosDas suas carnes e dos seus cabelos,Na óptica abreviatura de um reflexo,Fulgia, em cada humana nebulosa,Toda a sensualidade tempestuosaDos apetites bárbaros do Sexo!O atavismo das raças sibaritas,Criando concupiscências infinitasComo eviterno lobo insatisfeito;Na homofagia hedionda que o consome,Vinha saciar a milenária fomeDentro das abundâncias do seu leito!Toda a libidinagem dos mormaçosAmericanos fluía-lhe dos braços,Irradiava-se-lhe, hírcica, das veiasE em torrencialidades quentes e úmidas,Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidasLembrava um transbordar de ânforas cheias.A hora da morte acende-lhe o intelectoE à úmida habitação do vício abjectoAfluem milhões de sóis, rubros, radiando...Resíduos memoriais tornam-se luzes,Fazem-se ideias e ela vê as cruzesDo seu martirológio miserando!Inícios atrofiados de ética, ânsiaDe perfeição, sonhos de culminância,Libertos da ancestral modorra calma,Saem da infância embrionária e erguem-se, adultos,Lançando a sombra horrível dos seus vultosSobre a noite fechada daquela alma!É o sublevantamento coletivoDe um mundo inteiro que aparece vivo,Numa cenografia de diorama,Que, momentaneamente luz fecunda,Brilha na prostituta moribundaComo a fosforescência sobre a lama!É a visita alarmante do que outroraNa abundância prospérrima da aurora,Pudera progredir, talvez, decerto,Mas que, adstrito a inferior plasma inconsútil,Ficou rolando, como aborto inútil,Como o ........... do deserto!Vede! A prostituição ofídia aziagaCujo tóxico instila a infâmia, e a estragaNa delinquência ....... impune,Agarrou-se-lhe aos seios impudicosComo o abraço mortífero do FicusSugando a seiva da árvore a que se une!....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................Enroscou-lhe aos abraços com tal gosto,..........Mordeu-lhe a boca e o rosto...........................................................................................................................................................................................................................................................Ser meretriz depois do túmulo! A almaRoubada a hirta quietude da urbe calmaOnde se extinguem todos os escolhos:E, condenada, ao trágico ditame,Oferecer-se à bicharia infameCom a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos!Sentir a língua aluir-se-lhe na bocaE com a cabeça sem cabelos, oca.................................................................Na horrorosa avulsão da forma níveaDizer ainda palavras de lascívia.................................................................

GUERRA

Guerra é esforço, é inquietude, é ânsia, é transporte...E a dramatização sangrenta e duraDa avidez com que o Espírito procuraSer perfeito, ser máximo, ser forte!É a Subconsciência que se transfiguraEm volição conflagradora... É a coorteDas raças todas, que se entrega à mortePara a felicidade da Criatura!É a obsessão de ver sangue, é o instinto horrendoDe subir, na ordem cósmica, descendoÀ irracionalidade primitiva...É a Natureza que, no seu arcano,Precisa de encharcar-se em sangue humanoPara mostrar aos homens que está viva!

O SARCÓFAGO

Senhor da alta hermenêutica do FadoPerlustro o atrium da Morte... É frio o ambienteE a chuva corta inexoravelmenteO dorso de um sarcófago molhado!Ah! Ninguém ouve o soluçante bradoDe dor profunda, acérrima e latente,Que o sarcófago, ereto e imóvel, senteEm sua própria sombra sepultado!Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível,Que em toda a sua máscara se expande,À humana comoção impondo-a, inteira...Dói-lhe, em suma, perante o Incognoscível,Essa fatalidade de ser grandePara guardar unicamente poeira!

HINO À DOR

Dor, saúde dos seres que se fanam,Riqueza da alma, psíquico tesouro,Alegria das glândulas do choroDe onde todas as lágrimas emanam...És suprema! Os meus átomos se ufanamDE pertencer-te, oh! Dor, ancoradouroDos desgraçados, sol do cérebro, ouroDe que as próprias desgraças se engalanam!Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.Com os corpúsculos mágicos do tatoPrendo a orquestra de chamas que executas...E, assim, sem convulsão que me alvoroce,Minha maior ventura é estar de posseDe tuas claridades absolutas!

ULTIMA VISIO

Quando o homem, resgatado da cegueiraVir Deus num simples grão de argila errante,Terá nascido nesse mesmo instanteA mineralogia derradeira!A impérvia escuridão obnubilanteHá de cessar! Em sua glória inteiraDeus resplandecerá dentro da poeiraComo um gasofiláceo de diamante!Nessa última visão já subterrânea,Um movimento universal de insâniaArrancará da insciência o homem precito...A Verdade virá das pedras mortasE o homem compreenderá todas as portasQue ele ainda tem de abrir para o Infinito!

AOS MEUS FILHOS

Na intermitência da vital canseira,Sois vós que sustentais (Força Alta exige-o...)Com o vosso catalítico prestígio,Meu fantasma de carne passageira!O vulcão da bioquímica fogueiraDestruiu-me todo o orgânico fastígio.Dai-me asas, pois, para o último remígio,Dai-me alma, pois, para a hora derradeira!Culminâncias humanas ainda obscuras,Expressões do universo radioativo,Íons emanados do meu próprio Ideal,Benditos vós, que, em épocas futuras,Haveis de ser no mundo subjetivo,Minha continuidade emocional!

A DANÇA DA PSIQUE

A dança dos encéfalos acesosComeça. A carne é fogo. A alma arde. A espaçosAs cabeças, as mãos, os pés e os braçosTombam, cedendo à ação de ignotos pesos!E então que a vaga dos instintos presos— Mãe de esterilidades e cansaços —Atira os pensamentos mais devassosContra os ossos cranianos indefesos.Subitamente a cerebral coreiaPara. O cosmos sintético da IdeiaSurge. Emoções extraordinárias sinto...Arranco do meu crânio as nebulosas.E acho um feixe de forças prodigiosasSustentando dois monstros: a alma e o instinto!

O POETA DO HEDIONDO

Sofro aceleradíssimas pancadasNo coração. Ataca-me a existênciaA mortificadora coalescênciaDas desgraças humanas congregadas!Em alucinatórias cavalgadas,Eu sinto, então, sondando-me a consciência,A ultra-inquisitorial clarividênciaDe todas as neuronas acordadas!Quanto me dói no cérebro esta sonda!Ah! Certamente eu sou a mais hediondaGeneralização do Desconforto...Eu sou aquele que ficou sozinhoCantando sobre os ossos do caminhoA poesia de tudo quanto é morto!

A FOME E O AMOR

A um monstroFome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,Receando outras mandíbulas a esbangem,Os dentes antropófagos que rangem,Antes da refeição sanguinolenta!Amor! E a satiríases sedenta,Rugindo, enquanto as almas se confrangem,Todas as danações sexuais que abrangemA apolínica besta famulenta!Ambos assim, tragando a ambiência vasta,No desembestamento que os arrasta,Superexcitadíssimos, os doisRepresentam, no ardor dos seus assomosA alegoria do que outrora fomosE a imagem bronca do que inda hoje sois!

HOMO INFIMUS

Homem, carne sem luz, criatura cega,Realidade geográfica infeliz,O Universo calado te renegaE a tua própria boca te maldiz!O nôumeno e o fenômeno, o alfa e o omegaAmarguram-te. Hebdômadas hostisPassam... Teu coração se desagrega,Sangram-te os olhos, e, entretanto, ris!Fruto injustificável dentre os frutos,Montão de estercorária argila preta,Excrescência de terra singular,Deixa a tua alegria aos seres brutos,Porque, na superfície do planeta,Tu só tens um direito: — o de chorar!

MINHA FINALIDADE

Turbilhão teleológico incoercível,Que força alguma inibitória acalma,Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palmaDos que amam apreender o Inapreensível!Predeterminação imprescriptívelOriunda da infra-astral Substância calmaPlasmou, aparelhou, talhou minha almaPara cantar de preferência o Horrível!Na canonização emocionanteDa dor humana, sou maior que Dante,— A águia dos latifúndios florentinos!Sistematizo, soluçando, o Inferno...E trago em mim, num sincronismo eterno,A fórmula de todos os destinos!

NUMA FORJA

De inexplicáveis ânsias prisioneiroHoje entrei numa forja, ao meio-dia.Trinta e seis graus à sombra. O éter possuíaA térmica violência de um braseiro.Dentro, a cuspir escóriasDe fúlgida limalhaDardejando centelhas transitórias,No horror da metalúrgica batalhaO ferro chiava e ria!Ria, num sardonismo dolorosoDe ingênita amargura,Da qual, bruta, provinhaComo de um negro cáspio de água impuraA multissecular desesperançaDe sua espécie abjetaCondenada a uma estática mesquinha!Ria com essa metálica tristezaDe ser na Natureza,Onde a Matéria avançaE a Substância caminhaAceleradamente para o gozoDa integração completa,Uma consciência eternamente obscura!O ferro continuava a chiar e a rir.E eu nervoso, irritado,Quase com febre, a ouvirCada átomo de ferroContra a incude esmagadoSofrer, berrar, tinir,Compreendia por fim que aquele berroÀ substância inorgânica arrancadoEra a dor do minério castigadoNa impossibilidade de reagir!Era um cosmos inteiro sofredor,Cujo negror profundoAstro nenhum exornaGritando na bigornaAsperamente a sua própria dor!Era, erguido do pó,InopinadamentePara que à vida quenteDa sinergia cósmica desperte,A ansiedade de um mundoDoente de ser inerte,Cansado de estar só!Era a revelaçãoDe tudo que ainda dormeNo metal bruto ou na geleia informeNo parto primitivo da Criação!Era o ruído-clarão,— O ígneo jato vulcânicoQue, atravessando a absconsa cripta enormeDe minha cavernosa subconsciência,Punha em clarividênciaIntramoleculares sóis acesosPerpetuamente às mesmas formas presos,Agarrados à inércia do Inorgânico,Escravos da Coesão!Repuxavam-me a boca hórridos trismosE eu sentia, afinal,Essa angústia alarmantePrópria de alienação raciocinante,Cheia de ânsias e medosCom crispações nos dedosPiores que os paroxismosDa árvore que a atmosfera ultriz destronca.A ouvir todo esse cosmos potencial,Preso aos mineralógicos abismosAngustiado e arquejanteA debater-se na estreiteza broncaDe um bloco de metal!Como que a forja tétricaNum estridor de estragoExecutava, em lúgubre crescendo A antífona assimétricaE o incompreensível wagnerismo aziagoDe seu destino horrendo!Ao clangor de tais carmes de martírioEm cismas negras eu recaio imersoBuscando no delírioDe uma imaginação convulsionadaMais revolta talvez do que a onda atlânticaCompreender a semânticaDessa aleluia bárbara gritadaÀs margens glacialíssimas do NadaPelas coisas mais brutas do Universo!

NOLI ME TANGERE

A exaltação emocional do Gozo,O Amor, a Glória, a Ciência, a Arte e a BelezaServem de combustíveis à ira acesaDas tempestades do meu ser nervoso!Eu sou, por consequência, um ser monstruoso!Em minha arca encefálica indefesaChoram as forças más da NaturezaSem possibilidades de repouso!Agregados anômalos malditosDespedaçam-se, mordem-se, dão gritosNas minhas camas cerebrais funéreas...Ai! Não toqueis em minhas faces verdes,Sob pena, homens felizes, de sofrerdesA sensação de todas as misérias!

O CANTO DOS PRESOS

Troa, a alardear bárbaros sons abstrusos,O epitalâmio da Suprema Falta,Entoado asperamente, em voz muito alta,Pela promiscuidade dos reclusos!No wagnerismo desses sons confusos,Em que o Mal se engrandece e o Ódio se exalta,Uiva, à luz de fantástica ribalta,A ignomínia de todos os abusos!É a prosódia do cárcere, é a partêneaAterradoramente heterogêneaDos grandes transviamentos subjetivos...É a saudade dos erros satisfeitos,Que, não cabendo mais dentro dos peitos,Se escapa pela boca dos cativos!

ABERRAÇÃO

Na velhice automática e na infância,(Hoje, ontem, amanhã e em qualquer era)Minha hibridez é a súmula sinceraDas defectividades da Substância.Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia,Como Belerofonte com a QuimeraMato o ideal; cresto o sonho; achato a esferaE acho odor de cadáver na fragrância!Chamo-me Aberração. Minha alma é um mistoDe anomalias lúgubres. ExistoComo a cancro, a exigir que os sãos enfermem...Teço a infâmia; urdo o crime; engendro o lodoE nas mudanças do Universo todoDeixo inscrita a memória do meu gérmen!

VÍTIMA DO DUALISMO

Ser miserável dentre os miseráveis— Carrego em minhas células sombriasAntagonismos irreconciliáveisE as mais opostas idiossincrasias!Muito mais cedo do que o imagináveisEis-vos, minha alma, enfim, dada às braviasCóleras dos dualismos implacáveisE à gula negra das antinomias!Psique biforme, O Céu e o Inferno absorvo...Criação a um tempo escura e cor-de-rosa,Feita dos mais variáveis elementos,Ceva-se em minha carne, como um corvo,A simultaneidade ultramonstruosaDe todos os contrastes famulentos!

AO LUAR

Quando, à noite, o Infinito se levantaÀ luz do luar, pelos caminhos quedosMinha tátil intensidade é tantaQue eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!Quebro a custódia dos sentidos tredosE a minha mão, dona, por fim, de quantaGrandeza o Orbe estrangula em seus segredos,Todas as coisas íntimas suplanta!Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,Nos paroxismos da hiperestesia,O Infinitésimo e o Indeterminado...Transponho ousadamente o átomo rudeE, transmudado em rutilância fria,Encho o Espaço com a minha plenitude!

A UM EPILÉPTICO

Perguntarás quem sou?! — ao suor que te unta,À dor que os queixos te arrebenta, aos trismosDa epilepsia horrenda, e nos abismosNinguém responderá tua pergunta!Reclamada por negros magnetismosTua cabeça há de cair, defuntaNa aterradora operação conjuntaDa tarefa animal dos organismos!Mas após o antropófago alambiqueEm que é mister todo o teu corpo fiqueReduzido a excreções de sânie e lodo,Como a luz que arde, virgem, num monturo,Tu hás de entrar completamente puroPara a circulação do Grande Todo!

CANTO DE ONIPOTÊNCIA

Cloto, Átropos, Tifon, Laquesis, Siva...E acima deles, como um astro, a arder,Na hiperculminação definitivaO meu supremo e extraordinário Ser!Em minha sobre-humana retentivaBrilhavam, como a luz do amanhecer,A perfeição virtual tornada vivaE o embrião do que podia acontecer!Por antecipação divinatória,Eu, projetado muito além da História,Sentia dos fenômenos o fim...A coisa em si movia-se aos meus bradosE os acontecimentos subjugadosOlhavam como escravos para mim!

MINHA ÁRVORE

Olha: E um triângulo estéril de ínvia estrada!Como que a erva tem dor... Roem-na amargurasTalvez humanas, e entre rochas durasMostra ao Cosmos a face degradada!Entre os pedrouços maus dessa moradaÉ que, às apalpadelas e às escuras,Hão de encontrar as gerações futurasSó, minha árvore humana desfolhada!Mulher nenhuma afagará meu tronco!Eu não me abalarei, nem mesmo ao roncoDo furacão que, rábido, remoinha...Folhas e frutos, sobre a terra ardenteHão de encher outras árvores! SomenteMinha desgraça há de ficar sozinha!

ANSEIO

Quem sou eu, neste ergástulo das vidasDanadamente, a soluçar de dor?!— Trinta trilhões de células vencidas,Nutrindo uma efeméride inferior.Branda, entanto, a afagar tantas feridas,A áurea mão taumatúrgica do AmorTraça, nas minhas formas carcomidas,A estrutura de um mundo superior!Alta noite, esse mundo incoerente,Essa elementaríssima sementeDo que hei de ser, tenta transpor o Ideal...Grita em meu grito, alarga-se em meu hausto,E, ai! como eu sinto no esqueleto exaustoNão poder dar-lhe vida material!

À MESA

Cedo à sofreguidão do estômago. É a horaDe comer. Coisa hedionda! Corro. E agora,Antegozando a ensanguentada presa,Rodeado pelas moscas repugnantes,Para comer meus próprios semelhantesEis-me sentado à mesa!Como porções de carne morta... Ai! ComoOs que, como eu, têm carne, com este assomoQue a espécie humana em comer carne tem!...Como! E pois que a Razão me não reprime,Possa a Terra vingar-se do meu crimeComendo-me também!

MÃOS

Há mãos que fazem medo,Feias agregações pentagonais,Umas, em sangue, a delinquentes natos,Assinalados pelo mancinismo,Pertencentes talvez...Outras, negras, a farpas de rochedoCompletamente iguais...Mãos de linhas análogas a anfratosQue a Natureza onicriadora fezEm contraposição e antagonismoÀs da estrela, às da neve, às dos cristais.Mãos que adquiriram olhos, pituitáriasOlfativas, tentáculos sutis,E à noite, vão cheirar, quebrando portas,O azul gasofiláceo silenciosoDos tálamos cristãos.Mãos adúlteras, mãos mais sanguináriasE estupradoras do que os bisturisCortando a carne em flor das crianças mortas.Monstruosíssimas mãos,Que apalpam e olham com lascívia e gozoA pureza dos corpos infantis.

REVELAÇÃO

I

Escafandrista de insondado oceanoSou eu que, aliando Buda ao sibarita,Penetro a essência plásmica infinita,— Mãe promíscua do amor e do ódio insano!Sou eu que, hirto, auscultando o absconso arcano,Por um poder de acústica esquisita,Ouço o universo ansioso que se agitaDentro de cada pensamento humano!No abstrato abismo equóreo, em que me inundo,Sou eu que, revolvendo o ego profundoE a escuridão dos cérebros medonhos,Restituo triunfalmente à esfera calmaTodos os cosmos que circulam na almaSob a forma embriológica de sonhos!

II

Treva e fulguração; sânie e perfume;Massa palpável e éter; desconfortoE ataraxia; feto vivo e aborto...— Tudo a unidade do meu ser resume!Sou eu que, ateando da alma o ocíduo lume,Apreendo, em cisma abismadora absorto,A potencialidade do que é mortoE a eficácia prolífica do estrume!Ah! Sou eu que, transpondo a escarpa angustaDos limites orgânicos estreitos,Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia,Sinto bater na putrescível crustaDo tegumento que me cobre os peitosToda a imortalidade da Substância!

VERSOS A UM COVEIRO

Numerar sepulturas e carneiros,Reduzir carnes podres a algarismos,— Tal é, sem complicados silogismos,A aritmética hedionda dos coveiros!Um, dois, três, quatro, cinco... EsoterismosDa Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,Na progressão dos números inteirosA gênese de todos os abismos!Oh! Pitágoras da última aritmética,Continua a contar na paz ascéticaDos tábidos carneiros sepulcraisTíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,Porque, infinita como os próprios números,A tua conta não acaba mais!

TREVAS

Haverá, por hipótese, nas geenasLuz bastante fulmínea que transformeDentro da noite cavernosa e enormeMinhas trevas anímicas serenas?!Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?!Não! Porque, na abismal substância informe,Para convulsionar a alma que dormeTodas as tempestades são pequenas!Há de a Terra vibrar na ardência infindaDo éter em branca luz transubstanciado,Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo...A própria Esfinge há de falar-vos aindaE eu, somente eu, hei de ficar trancadoNa noite aterradora de mim mesmo!

AS MONTANHAS

I

Das nebulosas em que te emaranhasLevanta-te, alma, e dize-me, afinal,Qual é, na natureza espiritual,A significação dessas montanhas!Quem não vê nas graníticas entranhasA subjetividade ascensionalParalisada e estrangulada, malQuis erguer-se a cumíadas tamanhas?!Ah! Nesse anelo trágico de alturaNão serão as montanhas, porventura,Estacionadas, íngremes, assim,Por um abortamento de mecânica,A representação ainda inorgânicaDe tudo aquilo que parou em mim?!

II

Agora, oh! deslumbrada alma perscrutaO puerpério geológico interior,De onde rebenta, em contrações de dor,Toda a sublevação da crusta hirsuta!No curso inquieto da terráquea lutaQuantos desejos férvidos de amorNão dormem, recalcados, sob o horrorDessas agregações de pedra bruta?!Como nesses relevos orográfícos,Inacessíveis aos humanos tráficosOnde sóis, em semente, amam jazer,Quem sabe, alma, se o que ainda não existeNão vibra em gérmen no agregado tristeDa síntese sombria do meu Ser?!

APOCALIPSE

Minha divinatória Arte ultrapassaOs séculos efêmeros e notaDiminuição dinâmica, derrotaNa atual força, integérrima, da Massa.É a subversão universal que ameaçaA Natureza, e, em noite aziaga e ignota,Destrói a ebulição que a água alvorotaE põe todos os astros na desgraça!São despedaçamentos, derrubadas,Federações sidéricas quebradas...E eu só, o último a ser, pelo orbe adiante,Espião da cataclísmica surpresa,A única luz tragicamente acesaNa universalidade agonizante!

A NAU

A Heitor LimaSôfrega, alçando o hirto esporão guerreiro,Zarpa. A íngreme cordoalha úmida fica...Lambe-lhe a quilha a espúmea onda impudicaE ébrios tritões, babando, haurem-lhe o cheiro!Na glauca artéria equórea ou no estaleiroErgue a alta mastreação, que o Éter indica,E estende os braços de madeira ricaPara as populações do mundo inteiro!Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda,Para e, a amarra agarrada à âncora, sonha!Mágoas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as...E não haver uma alma que lhe entendaA angustia transoceânica medonhaNo rangido de todas as enxárcias!

VOLÚPIA IMORTAL

Cuidas que o genesíaco prazer,Fome do átomo e eurítmico transporteDe todas as moléculas, aborteNa hora em que a nossa carne apodrecer?!Não! Essa luz radial, em que arde o Ser,Para a perpetuação da Espécie forte,Tragicamente, ainda depois da morte,Dentro dos ossos, continua a arder!Surdos destarte a apóstrofes e brados,Os nossos esqueletos descarnados,Em convulsivas contorções sensuais,Haurindo o gás sulfídrico das covas,Com essa volúpia das ossadas novasHão de ainda se apertar cada vez mais!

O FIM DAS COISAS

Pode o homem bruto, adstrito à ciência grave,Arrancar, num triunfo surpreendente,Das profundezas do SubconscienteO milagre estupendo da aeronave!Rasgue os broncos basaltos negros, cave,Sôfrego, o solo sáxeo; e, na ânsia ardenteDe perscrutar o íntimo do orbe, inventeA lâmpada aflogística de Davy!Em vão! Contra o poder criador do SonhoO Fim das Coisas mostra-se medonhoComo o desaguadouro atro de um rio...E quando, ao cabo do último milênio,A humanidade vai pesar seu gênioEncontra o mundo, que ela encheu, vazio!

VIAGEM DE UM VENCIDO

Noite. Cruzes na estrada. Aves com frio...E, enquanto eu tropeçava sobre os paus,A efígie apocalíptica do CaosDançava no meu cérebro sombrio!O Céu estava horrivelmente pretoE as árvores magríssimas lembravamPontos de admiração que se admiravamDe ver passar ali meu esqueleto!Sozinho, uivando hoffmânnicos dizeres,Aprazia-me assim, na escuridão,Mergulhar minha exótica visãoNa intimidade noumenal dos seres.Eu procurava, com uma vela acesa,O feto original, de onde decorremTodas essas moléculas que morremNas transubstanciações da Natureza.Mas o que meus sentidos apreendiamDentro da treva lúgubre, era sóO ocaso sistemático de pó,Em que as formas humanas se sumiam!Reboava, num ruidoso borborinhoBruto, análogo ao peã de márcios brados,A rebeldia dos meus pés danadosNas pedras resignadas do caminho.Sentia estar pisando com a planta ávidaUm povo de radículas e embriõesPrestes a rebentar, como vulcões,Do ventre equatorial da terra grávida!Dentro de mim, como num chão profundo,Choravam, com soluços quase humanos,Convulsionando Céus, almas e oceanosAs formas microscópicas do mundo!Era a larva agarrada a absconsas landes,Era o abjeto vibrião rudimentarNa impotência angustiosa de falar,No desespero de não serem grandes!Vinha-me à boca, assim, na ânsia dos párias,Como o protesto de uma raça invicta,O brado emocionante de vindictaDas sensibilidades solitárias!A longanimidade e o vilipêndio,A abstinência e a luxúria, o bem e o malArdiam no meu orco cerebral,Numa crepitação própria de incêndio!Em contraposição à paz funérea,Doía profundamente no meu crânioEsse funcionamento simultâneoDe todos os conflitos da matéria!Eu, perdido no Cosmos, me tornaraA assembleia belígera malsã,Onde Ormuzd guerreava com Arimã,Na discórdia perpétua do sansara!Já me fazia medo aquela viagemA carregar pelas ladeiras tétricas,Na óssea armação das vértebras simétricasA angústia da biológica engrenagem!No Céu, de onde se vê o Homem de rastros,Brilhava, vingadora, a esclarecerAs manchas subjetivas do meu serA espionagem fatídica dos astros!Sentinelas de espíritos e estradas,Noite alta, com a sidérica lanterna,Eles entravam todos na cavernaDas consciências humanas mais fechadas!Ao castigo daquela rutilância,Maior que o olhar que perseguiu Caim,Cumpria-se afinal dentro de mimO próprio sofrimento da Substância!Como quem traz ao dorso multas cargasEu sofria, ao colher simples gardênia,A multiplicidade heterogêneaDe sensações diversamente amargas.Mas das árvores, frias como lousas,Fluía, horrenda e monótona, uma vozTão grande, tão profunda, tão ferozQue parecia vir da alma das cousas:“Se todos os fenômenos complexos,Desde a consciência à antítese dos sexosVem de um dínamo fluídico de gás,Se hoje, obscuro, amanhã píncaros galgas,A humildade botânica das algasDe que grandeza não será capaz?!Quem sabe, enquanto Deus, Jeová ou SivaOculta à tua força cognitivaFenomenalidades que hão de vir,Se a contração que hoje produz o choroNão há de ser no século vindouroUm simples movimento para rir?!Que espécies outras, do Equador aos pólos,Na prisão milenária dos subsolos,Rasgando avidamente o húmus malsão,Não trabalham, com a febre mais bravia,Para erguer, na ânsia cósmica, a EnergiaA última etapa da objetivação?!É inútil, pois, que, a espiar enigmas, entresNa química genésica dos ventres,Porque em todas as coisas, afinal,Crânio, ovário, montanha, árvore, iceberg,Tragicamente, diante do Homem, se ergueA esfinge do Mistério Universal!A própria força em que teu Ser se expande,Para esconder-se nessa esfinge grande,Deu-te (oh! mistério que se não traduz!)Neste astro ruim de tênebras e abrolhosA efeméride orgânica dos olhosE o simulacro atordoador da Luz!Por isto, oh! filho dos terráqueos limos,Nós, arvoredos desterrados, rimosDas vãs diatribes com que aturdes o ar...Rimos, isto é, choramos, porque, em suma,Rir da desgraça que de ti ressumaÉ quase a mesma coisa que chorar!”As vibrações daquele horrível carmeMeu dispêndio nervoso era tamanhoQue eu sentia no corpo um vácuo estranhoComo uma boca sôfrega a esvaziar-me!Na avançada epiléptica dos medosCria ouvir, a escalar Céus e apogeus,A voz cavernosíssima de Deus,Reproduzida pelos arvoredos!Agora, astro decrépito, em destroços,Eu, desgraçadamente magro, a erguer-me,Tinha necessidade de esconder-meLonge da espécie humana, com os meus ossos!Restava apenas na minha alma brutaOnde frutificara outrora o AmorUma volicional fome interiorDe renúncia budística absoluta!Porque, naquela noite de ânsia e inferno,Eu fora, alheio ao mundanário ruído,A maior expressão do homem vencidoDiante da sombra do Mistério Eterno!

A NOITE

A nebulosidade ameaçadoraTolda o éter, mancha a gleba, agride os riosE urde amplas teias de carvões sombriosNo ar que álacre e radiante, há instantes, fora.A água transubstancia-se. A onda estouraNa negridão do oceano e entre os naviosTroa bárbara zoada de ais bravios,Extraordinariamente atordoadora.À custódia do anímico registroA planetária escuridão se anexa...Somente, iguais a espiões que acordam cedo,Ficam brilhando com fulgor sinistroDentro da treva onímoda e complexaOs olhos fundos dos que estão com medo!

A OBSESSÃO DO SANGUE

Acordou, vendo sangue... Horrível! O ossoFrontal em fogo... Ia talvez morrer,Disse. Olhou-se no espelho. Era tão moço,Ah! Certamente não podia ser!Levantou-se. E, eis que viu, antes do almoço,Na mão dos açougueiros, a escorrerFita rubra de sangue muito grosso,A carne que ele havia de comer!No inferno da visão alucinada,Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,Viu vísceras vermelhas pelo chão...E amou, com um berro bárbaro de gozo,O monocromatismo monstruosoDaquela universal vermelhidão!

VOX VICTIMAE

Morto! Consciência quieta haja o assassinoQue me acabou, dando-me ao corpo vãoEsta volúpia de ficar no chãoFruindo na tabidez sabor divino!Espiando o meu cadáver ressupino,No mar da humana proliferação,Outras cabeças aparecerãoPara compartilhar do meu destino!Na festa genetlíaca do Nada,Abraço-me com a terra atormentadaEm contubérnio convulsionador...E ai! Como é boa esta volúpia obscuraQue une os ossos cansados da criaturaAo corpo ubiquitário do Criador!

O ÚLTIMO NÚMERO

Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,A Ideia estertorava-se... No fundoDo meu entendimento moribundoJazia o Último Número cansado.Era de vê-lo, imóvel, resignado,Tragicamente de si mesmo oriundo,Fora da sucessão, estranho ao mundo,Como o reflexo fúnebre do Incriado:Bradei: — Que fazes ainda no meu crânio?E o Último Número, atro e subterrâneo,Parecia dizer-me: “E tarde, amigo!Pois que a minha autogênica GrandezaNunca vibrou em tua língua presa,Não te abandono mais! Morro contigo!”

POEMAS ESQUECIDOS

SAUDADE

Hoje que a mágoa me apunhala o seio,E o coração me rasga atroz, imensa,Eu a bendigo da descrença em meio,Porque eu hoje só vivo da descrença.À noite quando em funda soledadeMinh’alma se recolhe tristemente,P’ra iluminar-me a alma descontente,Se acende o círio triste da Saudade.E assim afeito às mágoas e ao tormento,E à dor e ao sofrimento eterno afeito,Para dar vida à dor e ao sofrimento,Da saudade na campa enegrecidaGuardo a lembrança que me sangra o peito,Mas que no entanto me alimenta a vida.

ABANDONADA

Ao meu irmão Odilon dos AnjosBem depressa sumiu-se a vaporosaNuvem de amores, de ilusões tão bela;O brilho se pagou daquela estrelaQue a vida lhe tornava venturosa!Sombras que passam, sombras cor-de-rosa— Todas se foram num festivo bando,Fugazes sonhos, gárrulos voando— Resta somente um’alma tristurosa!Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,Hoje ela habita a erma soledade,Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!Seu rosto triste, seu olhar magoado,Fazem lembrar em noute de saudadeA luz mortiça d’um olhar nublado.Em 19-12-1900

CETICISMO

Desci um dia ao tenebroso abismo,Onde a Dúvida ergueu altar profano;Cansado de lutar no mundo insanoFraco que sou, volvi ao ceticismo.Da Igreja — a Grande Mãe — o exorcismoTerrível me feriu, e então sereno,De joelhos aos pés do NazarenoBaixo rezei em fundo misticismo:— Oh! Deus, eu creio em ti, mas me perdoa!Se esta dúvida cruel qual me magoaMe torna ínfimo, desgraçado réu.Ah, entre o medo que o meu Ser aterra,Não sei se viva pra morrer na terra,Não sei se morra p’ra viver no céu!Em 22-12-1900

MÁGOAS

Quando nasci, num mês de tantas flores,Todas murcharam, tristes, langorosas,Tristes fanaram redolentes rosas,Morreram todas, todas sem olores.Mais tarde da existência nos verdoresDa infância nunca tive as venturosasAlegrias que passam bonançosas,Oh! Minha infância nunca teve flores!Volvendo à quadra azul da mocidade,Minh’alma levo aflita à Eternidade,Quando a morte matar meus dissabores.Cansado de chorar pelas estradas,Exausto de pisar mágoas pisadas,Hoje eu carrego a cruz de minhas dores!Em 14-1-1901

O CONDENADO

“Folga a Justiça e geme a natureza.”
— Bocage
Alma feita somente de granito,Condenada a sofrer cruel torturaPela rua sombria d’amargura— Ei-lo que passa — réprobo maldito.Olhar ao chão cravado e sempre fito,Parece contemplar a sepulturaDas suas ilusões que a desventuraDesfez em pó no hórrido delito.E, à cruz da expiação subindo mudo,A vida a lhe fugir já sente prestesQuando ao golpe do algoz, calou-se tudo.O mundo é um sepulcro de tristeza.Ali, por entre matas de ciprestes,Folga a justiça e geme a natureza.Em 14-1-1901

SONETO

Ouvi, senhora, o cântico sentidoDo coração que geme e s’estertoraN’ânsia letal que o mata e que o devoraE que tornou-o assim, triste e descrido.Ouvi, senhora, amei; de amor ferido,As minhas crenças que alentei outroraRolam dispersas, pálidas agora,Desfeitas todas num guaiar dorido.E como a luz do sol vai-se apagando!E eu triste, triste pela vida afora,Eterno pegureiro caminhando,Revolvo as cinzas de passadas eras,Sombrio e mudo e glacial, senhora,Como um coveiro a sepultar quimeras!Em 23-1-1901

TRISTE REGRESSO

A Dias ParedesUma vez um poeta, um tresloucado,Apaixonou-se d’uma virgem bela;Vivia alegre o vate apaixonado,Louco vivia, enamorado dela.Mas a Pátria chamou-o. Era soldado,E tinha que deixar pra sempre aquelaMeiga visão, olímpica e singela?!E partiu, coração amargurado.Dos canhões ao ribombo, e das metralhas,Altivo lutador, venceu batalhas,Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela.E voltou, mas a fronte aureolada,Ao chegar, pendeu triste e desmaiada,No sepulcro da loura virgem bela.Em 27-1-1901

INFELIZ

Alma viúva das paixões da vida,Tu que, na estrada da existência em fora,Cantaste e riste, e na existência agoraTriste soluças a ilusão perdida;Oh! tu, que na grinalda emurchecidaDe teu passado de felicidadeFoste juntar os goivos da SaudadeÀs flores da Esperança enlanguescida;Se nada te aniquila o desalentoQue te invade, e o pesar negro e profundo,Esconde a Natureza o sofrimento,E fica no teu ermo entristecida,Alma arrancada do prazer do mundo,Alma viúva das paixões da vida.4-2-1901

SONETO

N’augusta solidão dos cemitérios,Resvalando nas sombras dos ciprestes,Passam meus sonhos sepultados nestesBrancos sepulcros, pálidos, funéreos.São minhas crenças divinais, ardentes— Alvos fantasmas pelos merencóriosTúmulos tristes, soturnais, silentes,Hoje rolando nos umbrais marmóreos,Quando da vida, no eternal soluço,Eu choro e gemo e triste me debruçoNa lájea fria dos meus sonhos pulcros,Desliza então a lúgubre coorte,E rompe a orquestra sepulcral da morte,Quebrando a paz suprema dos sepulcros.

NOIVADO

Os namorados ternos suspiravam,Quando há de ser o venturoso dia?!Quando há de ser?! O noivo então diziaE a noiva e ambos d’amores s’embriagavam.E a mesma frase o noivo repetia;Fora no campo pássaros trinavam,Quando há de ser?! E os pássaros falavam;Há de chegar, a brisa respondia.Vinha rompendo a aurora majestosa,Dos rouxinóis ao sonoroso harpejoE a luz do sol vibrava esplendorosa.Chegara enfim o dia desejado,Ambos unidos, soluçara um beijo,Era o supremo beijo de noivado!

SONETO

No meu peito arde em chamas abrasadaA pira da vingança reprimida,E em centelhas de raiva ensurdecidaA vingança suprema e concentradaE espuma e ruge a cólera entranhada,Como no mar a vaga embravecidaVai bater-se na rocha empedernida,Espumando e rugindo em marulhadaMas se das minhas dores ao calvário,Eu subo na atitude doloridaDe um Cristo a redimir um mundo vário,Em luta co’a natura sempiterna,Já que do mundo não vinguei-me em vida,A morte me será vingança eterna.

A MÁSCARA

Eu sei que há muito pranto na existência,Dores que ferem corações de pedra,E onde a vida borbulha e o sangue medra,Aí existe a mágoa em sua essência.No delírio, porém, da febre ardenteDa ventura fugaz e transitóriaO peito rompe a capa tormentóriaPara sorrindo palpitar contente.Assim a turba inconsciente passa,Muitos que esgotam do prazer a taçaSentem no peito a dor indefinida.E entre a mágoa que másc’ra eterna apoucaA Humanidade ri-se e ri-se loucaNo carnaval intérmino da vida.

AMOR E RELIGIÃO

Conheci-o: era um padre, um desses santosSacerdotes da Fé de crença pura,Da sua fala na eternal doçuraFalava o coração. Quantos, oh! quantosOuviram dele frases de canduraQue d’infelizes enxugavam prantos!E como alegres não ficaram tantosCorações sem prazer e sem ventura!No entanto dizem que este padre amara.Morrera um dia desvairado, estulto,Su’alma livre para o Céu se alara.E Deus lhe disse: “És duas vezes santo,Pois se da Religião fizeste culto,Foste do amor o mártir sacrossanto”.

SONETO

Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaveras que hoje completou.Canta no espaço a passarada e cantaDentro do peito o coração contente,Tu’alma ri-se descuidosamente,Minh’alma alegre no teu rir s’encanta.Irmão querido, bom Papá, consenteQue neste dia de ventura tantaVá, num abraço de ternura santa,Mostrar-te o afeto que meu peito sente.Somente assim festejarei teus anos;Enquanto outros que podem, dão-te enganos,Jóias, bonecos de formoso busto,Eu só encontro no primor de rimaA justa oferta, a jóia que te exprimaO amor fraterno do teu mano Augusto.Em 28 de abril de 1901

O COVEIRO

Uma tarde de abril suave e puraVisitava eu somente ao derradeiroLar; tinha ido ver a sepulturaDe um ente caro, amigo verdadeiro.Lá encontrei um pálido coveiroCom a cabeça para o chão pendida;Eu senti a minh’alma entristecidaE interroguei-o: “Eterno companheiroDa morte, quem matou-te o coração?”Ele apontou para uma cruz no chão,Ali jazia o seu amor primeiro!Depois, tomando a enxada, gravemente,Balbuciou, sorrindo tristemente:— “Ai! foi por isso que me fiz coveiro!”

PECADORA

Tinha no olhar cetíneo, aveludado,A chama cruel que arrasta os corações,Os seios rijos eram dois brasõesOnde fulgia o símb’lo do pecado.Bela, divina, o porte emolduradoNo mármore sublime dos contornos,Os seios brancos, palpitantes, mornos,Dançavam-lhe no colo perfumado.No entanto, esta mulher de grã beleza,Moldada pela mão da Natureza,Tornou-se a pecadora vil. Do fado,Do destino fatal, presa, morria,Uma noute entre as vascas da agonia,Tendo no corpo o verme do pecado!

NO CLAUSTRO

Pelas do claustro salas silenciosas,De lutulentas, úmidas arcadas,Na vastidão silente das caladasAbóbadas sombrias tenebrosas,Vagueiam tristemente desfiladasDe freiras e de monjas tristurosas,Que guardam cinzas de ilusões passadas,Que guardam pét’las de funéreas rosas.E à noute quando rezam na clausura,No sigilo das rezas misteriosas,Nem a sombra mais leve de ventura!Sempre as arcadas ogivais, desnudas,E as mesmas monjas sempre tristurosas,E as mesmas portas impassíveis, mudas!

IL TROVATORE

Canta da torre o trovador saudoso— Addio, Eleonora! oh! sonhos meus!E o canto se desprende harmoniosoNa vibração final do extremo adeus.Repercute, dolente, mavioso,Subindo pelo Azul da Inspiração;Assim canta também meu coração,Trovador torturado e angustioso.Ai! não, não acordeis, lembranças minhas!Saudade d’umas noutes em que vinhasCantar comigo um doce desafio!Mas, pouco a pouco, os sons esmorecendo,Perdem-se as notas pelo Azul morrendo,— Addio, Eleonora, addio, addio!

A LOUCA

A Dias ParedesQuando ela passa: — a veste desgrenhada,O cabelo revolto em desalinho,No seu olhar feroz eu adivinhoO mistério da dor que a traz penada.Moça, tão moça e já desventurada;Da desdita ferida pelo espinho,Vai morta em vida assim pelo caminho,No sudário da mágoa sepultada.Eu sei a sua história. — Em seu passadoHouve um drama d’amor misterioso— O segredo d’um peito torturado —E hoje, para guardar a mágoa oculta,Canta, soluça — o coração saudoso,Chora, gargalha, a desgraçada estulta.

PRIMAVERA

A meu irmão Odilon dos AnjosPrimavera gentil dos meus amores,— Arca cerúlea de ilusões etéreas,Chova-te o Céu cintilações sidéreasE a terra chova no teu seio flores!Esplende, Primavera, os teus fulgores,Na auréola azul dos dias teus risonhos,Tu que sorveste o fel das minhas doresE me trouxeste o néctar dos teus sonhos!Cedo virá, porém, o triste outono,Os dias voltarão a ser tristonhosE tu hás de dormir o eterno sono,Num sepulcro de rosas e de flores,Arca sagrada de cerúleos sonhos,Primavera gentil dos meus amores!

A ESPERANÇA

A Esperança não murcha, ela não cansa,Também como ela não sucumbe a Crença.Vão-se sonhos nas asas da Descrença,Voltam sonhos nas asas da Esperança.Muita gente infeliz assim não pensa;No entanto o mundo é uma ilusão completa,E não é a Esperança por sentençaEste laço que ao mundo nos manieta?Mocidade, portanto, ergue o teu grito,Sirva-te a Crença de fanal bendito,Salve-te a glória no futuro — avança!E eu, que vivo atrelado ao desalento,Também espero o fim do meu tormento,Na voz da Morte a me bradar: descansa!

SONETO

Senhora, eu trajo o luto do Passado,Este luto sem fim que é o meu CalvárioE anseio e choro, delirante e vário,Sonâmbulo da dor angustiado.Quantas venturas que me acalentaram!Meu peito, túm’lo do prazer finado,Foi outrora do riso abençoado,O berço onde as venturas se embalaram.Mas não queiras saber nunca, risonha,O mistério d’um peito que estertoraE o segredo d’um’alma que não sonha!Não, não busques saber por que, Senhora,É minha sina perenal, tristonha— Cantar o Ocaso quando surge a Aurora.

SOFREDORA

Cobre-lhe a fria palidez do rostoO sendal da tristeza que a desola;Chora — o orvalho do pranto lhe perolaAs faces maceradas de desgosto.Quando o rosário de seu pranto rola,Das brancas rosas do seu triste rostoQue rolam murchas como um sol já postoUm perfume de lágrimas se evola.Tenta às vezes, porém, nervosa e loucaEsquecer por momento a mágoa intensaArrancando um sorriso à flor da boca.Mas volta logo um negro desconforto,Bela na Dor, sublime na Descrença,Como Jesus a soluçar no Horto.

ECOS D’ALMA

Oh! madrugada de ilusões, santíssima,Sombra perdida lá do meu Passado,Vinde entornar a clâmide puríssimaDa luz que fulge no ideal sagrado!Longe das tristes noutes tumularesQuem me dera viver entre quimeras,Por entre o resplandor das PrimaverasOh! madrugada azul dos meus sonhares;Mas quando vibrar a última baladaDa tarde e se calar a passaradaNa bruma sepulcral que o céu embaça,Quem me dera morrer então risonho,Fitando a nebulosa do meu SonhoE a Via-Láctea da Ilusão que passa!

AMOR E CRENÇA

“— E sê bendita!”
— H. Sienkiewicz
Sabes que é Deus?! Esse infinito e santoSer que preside e rege os outros seres,Que os encantos e a força dos poderesReúne tudo em si, num só encanto?Esse mistério eterno e sacrossanto,Essa sublime adoração do crente,Esse manto de amor doce e clementeQue lava as dores e que enxuga o pranto?!Ah! se queres saber a sua grandeza,Estende o teu olhar à Natureza,Fita a cúp’la do Céu santa e infinita!Deus é o Templo do Bem. Na altura Imensa,O amor é a hóstia que bendiz a Crença,Ama, pois, crê em Deus, e... sê bendita!

ARIANA

Ela é o tipo perfeito da ariana,Branca, nevada, púbere, mimosa,A carne exuberante e capitosaTrescala a essência que de si dimana.As níveas pomas do candor da rosa,Rendilhando-lhe o colo de sultana,Emergem da camisa cetinosaEntre as rendas sutis de filigrana.Dorme talvez. Em flácido abandonoLembra formosa no seu casto sonoA languidez dormente da indiana,Enquanto o amante pálido, a seu ladoMedita, a fronte triste, o olhar velado,No Mistério da Carne Soberana.

TEMPOS IDOS

Não enterres, coveiro, o meu Passado,Tem pena dessas cinzas que ficaram;Eu vivo dessas crenças que passaram,E quero sempre tê-las ao meu lado!Não, não quero o meu sonho sepultadoNo cemitério da Desilusão,Que não se enterra assim sem compaixãoOs escombros benditos de um Passado!Ai! não me arranques d’alma este conforto!— Quero abraçar o meu Passado morto,— Dizer adeus aos sonhos meus perdidos!Deixa ao menos que eu suba à EternidadeVelado pelo círio da Saudade,Ao dobre funeral dos tempos idos!

SONETO

(Lendo o “Poema de Maio”)

Na rua em funeral ei-la que passa,A romaria eterna dos aflitos,A procissão dos tristes, dos proscritos,Dos romeiros saudosos da desgraça.E na choça a lamúria que traspassaO coração, além, ânsias e gritosDe mães que arquejam sobre os pobrezitosFilhos que a Fome derrubou na praça.Entre todos, porém, lânguida e bela,Da juventude a virginal capelaA lhe cingir de luz a fronte baça,Vai Corina mendiga e esfarrapada,A alma saudosa pelo amor vibrada— A Stella Matutina da Desgraça!

SONETO

Pareceu-me inda ouvir o nome dela
No badalar monótono dos sinos.
— Hermeto Lima
Adeus, adeus, adeus! E, suspirando,Saí deixando morta a minha amada,Vinha o luar iluminando a estradaE eu vinha pela estrada soluçando.Perto, um ribeiro claro murmurandoMuito baixinho como quem chorava,Parecia o ribeiro estar chorandoAs lágrimas que eu triste gotejava.Súbito ecoou do sino o som profundo!Adeus! — eu disse. Para mim no mundoTudo acabou-se, apenas restam mágoas.Mas no mistério astral da noute belaPareceu-me inda ouvir o nome delaNo marulhar monótono das águas!

A AERONAVE

Cindindo a vastidão do Azul profundo,Sulcando o espaço, devassando a terra,A aeronave que um mistério encerraVai pelo espaço acompanhando o mundo.E na esteira sem fim da azúlea esferaEi-la embalada n’amplidão dos ares,Fitando o abismo sepulcral dos maresVencendo o azul que ante si s’erguera.Voa, se eleva em busca do Infinito,É como um despertar de estranho mito,Auroreando a humana consciência.Cheia da luz do cintilar de um astro,Deixa ver na fulgência do seu rastroA trajetória augusta da Ciência.

LIRIAL

Porque choras assim, tristonho lírio,Se eu sou o orvalho eterno que te chora,P’ra que pendes o cálice que enfloraTeu seio branco do palor do círio?!Baixa a mim, irmã pálida da Aurora,Estrela esmaecida do Martírio;Envolto da tristeza no delírio,Deixa beijar-te a face que descora!Fosses antes a rosa purpurinaE eu beijaria a pétala divinaDa rosa, onde não pousa a desventura.Ai! que ao menos talvez na vida escassaNão chorasses à sombra da desgraça,Para eu sorrir à sombra da ventura!

A MINHA ESTRELA

A meu irmão Aprígio A.Eu disse — Vai-te, estrela do Passado!Esconde-te no Azul da Imensidade,Lá onde nunca chegue esta saudade,— A sombra deste afeto estiolado.Disse, e a estrela foi p’ra o Céu subindo,Minh’alma que de longe a acompanhava,Viu o adeus que do Céu ela enviava,E quando ela no Azul foi se sumindoSurgia a Aurora — a mágica princesa!E eu vi o Sol do Céu iluminandoA Catedral da Grande Natureza.Mas a noute chegou, triste, com elaNegras sombras também foram chegando,E nunca mais eu vi a minha estrela!

AVE LIBERTAS

Ao clarão irial da madrugada,Da liberdade ao toque alvissareiro,Banhou-se o coração do BrasileiroNum eflúvio de luz auroreada.É que baqueia a vida escravizada!Já se ouvem os clangores do pregoeiro,Como um Tritão, levando ao mundo inteiroDa República a nova sublimada.E ali, do despotismo entre os escombros,Rola um drama que a Pátria exalça e douraNuma auréola de paz imorredoura,A República rola-lhe nos ombros;Enquanto fora na trevosa agruraSucumbe o servilismo, e, esplendorosa,A Liberdade assoma majestosa,— Estrela d’Alva imaculada e pura!É livre a Pátria outrora opressa e exangue!Esse labéu que mancha a glória pública,Que apouca o triunfo e que se chama sangue,Manchar não pôde as aras da República.Não! que esse ideal puro, risonho,Há de transpor sereno os penetraisDa Pátria, e há de elevar-se neste sonhoAo topo azul das Glórias Imortais!Esplende, pois, oh! Redentora d’alma,Oh! Liberdade, essa bendita e brancaLuz que os negrores da opressão espanca,Essa luz etereal bendita e calma.Vós, oh Pátria, fazei que destes brilhos,Caia do santuário lá da História,Fulgente do valor da vossa glória,A bênção do valor dos vossos filhos!

SONETO

A praça estava cheia. O condenadoTranspunha nobremente o cadafalso,Puro de crime, isento de pecado,Vítima augusta de indelével falso.E na atitude do Crucificado,O olhar azul pregado n’amplidão,Pude rever naquele desgraçadoO drama lutuoso da Paixão.Quando do algoz cruento o braço alçadoSe dispunha a vibrar sem compaixãoO golpe na cabeça do culpadoEle, o algoz — o criminoso — então,Caiu na praça como fulminadoA soluçar: perdão, perdão, perdão!

VERSOS D’UM EXILADO

Eu vou partir. Na límpida correnteRasga o batel o leito d’água fina— Albatroz deslizando mansamenteComo se fosse vaporosa Ondina.Exilado de ti, oh! Pátria! ausenteIrei cantar a mágoa peregrinaComo canta o pastor a matutinaTrova d’amor, à luz do sol nascente!Não mais virei talvez e, lá sozinho,Hei de lembrar-me do meu pátrio ninhoD’onde levo comigo a nostalgiaE esta lembrança que hoje me quebrantaE que eu levo hoje como a imagem santaDos sonhos todos que já tive um dia!

SONETO

Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior, pelo término dos seus estudos neste ano, em troféu de homenagem ao grande aproveitamento que deles soube tirar; a aplicação será sempre a “alma mater” da inteligência humana, e o caminho mais perfeito que nos pode levar à tortuosa via da Ciência.Ergue, criança, a fronte condorinaQue é tua fronte, oh! genial criança,É como a estrela-d’alva da esperança,Do talento sagrado que a ilumina!Ergue-a, pois, e que, à auréola purpurinaDo Sol da Ciência, o rútilo tesouroDo Estudo — o Grande Mestre — que te ensina,Chova sobre ela suas gemas d’ouro!E hoje que colhes um laurel bendito,Aceita a saudação que num contritoFervor, eleva, qual penhor sinceroUm peito amigo a outro peito amigo,A um gênio que desponta e que eu bendigo,A um coração de irmão que tanto quero!Engenho Pau d’Arco — 14 de dezembro de 1901.

A ESMOLA DE DULCE

Ao Alfredo A.E todo o dia eu vou como um perdidoDe dor, por entre a dolorosa estrada,Pedir a Dulce, a minha bem-amada,A esmola dum carinho apetecido.E ela fita-me, o olhar enlanguescido,E eu balbucio trêmula balada:— Senhora dai-me u’a esmola — e estertoradaA minha voz soluça num gemido.Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo,Estendo à Dulce a mão, a fé perdida,E dos lábios de Dulce cai um beijo.Depois, como este beijo me consola!Bendita seja a Dulce! A minha vidaEstava unicamente nessa esmola.

AVE DOLOROSA

Ave perdida para sempre — crençaPerdida — segue a trilha que te traçaO Destino, ave negra da Desgraça,Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença!Dos sonhos meus na Catedral imensaQue nunca pouses. Lá, na névoa baça,Onde o teu vulto lúrido esvoaça,Seja-te a vida uma agonia intensa!Vives de crenças mortas e te nutres,Empenhada na sanha dos abutres,Num desespero rábido, assassino...E hás de tombar um dia em mágoas lentas,Negrejada das asas lutulentasQue te emprestar o corvo do Destino!

SONETO

Gênio das trevas lúgubres, acolhe-me,Leva-me o esp’rito dessa luz que mata,E a alma me ofusca e o peito me maltrata,E o viver calmo e sossegado tolhe-me!Leva-me, obumbra-me em teu seio, acolhe-meN’asa da Morte redentora, e à ingrataLuz deste mundo em breve me arrebataE num pallium de tênebras recolhe-me!Aqui há muita luz e muita aurora,Há perfumes d’amor — venenos d’alma —E eu busco a plaga onde o repouso mora,E as trevas moram, e, onde d’água rasoO olhar não trago, nem me turba a calmaA aurora deste amor que é o meu ocaso!

NIMBOS

Nimbos de bronze que empanais escurosO santuário azul da Natureza,Quando vos vejo, negros palinurosDa tempestade negra e da tristeza,Abismados na bruma enegrecida,Julgo ver nos reflexos de minh’almaAs mesmas nuvens deslizando em calma,Os nimbos das procelas desta vida;Mas quando o céu é límpido, sem brumaQue a transparência tolde, sem nenhumaNuvem sequer; então, num mar de esp’rança,Que o céu reflete, a vida é qual risonhoBatel, e a alma é a Flâmula do sonho,Que o guia e o leva ao porto da bonança.

O MAR

O mar é triste como um cemitério;Cada rocha é uma eterna sepulturaBanhada pela imácula brancuraDe ondas chorando num albor etéreo.Ah! dessas vagas no bramir funéreoJamais vibrou a sinfonia puraDo amor; lá, só descanta, dentre a escuraTreva do oceano, a voz do meu saltério!Quando a cândida espuma dessas vagas,Banhando a fria solidão das fragas,Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma,Reflete a luz do sol que já não arde,Treme na treva a púrpura da tarde,Chora a Saudade envolta nesta espuma!Pau d’Arco — 1902.

ANSEIO

Nessas paragens desoladas, ondeO silêncio campeia soberanoMorreram notas do bulício humano,Nem vibra a corda que a saudade esconde.Anseios d’alma aqui se perdem. DondeFluiu outrora a luz dum doce engano,Hoje é trevas, é dor, é desengano,E eu ergo preces que ninguém responde.Triste criança virginal, quem deraVoar est’alma a ti, longe dos laçosDessa jaula de carne que a encarcera!Ah! que unidos assim, lá nos espaços,Cantarias do amor a primavera,Tendo a minh’alma presa nos teus braços!Pau d’Arco — 1902.

SONETO

Aurora morta, foge! Eu busco a virgem louraQue fugiu-me do peito ao teu clarão de morteE Ela era a minha estrela, o meu único Norte,O grande Sol de afeto — o Sol que as almas doura!Fugiu... e em si levou a Luz consoladoraDo amor — esse clarão eterno d’alma forte —Astro da minha Paz, Sirius da minha SorteE da Noute da vida a Vênus Redentora.Agora, oh! minha Mágoa, agita as tuas asas,Vem! rasga deste peito as nebulosas gazasE, num Pálio auroral de Luz deslumbradora,Ascende à Claridade. Adeus oh! Dia escuro,Dia do meu Passado! Irrompe, meu Futuro;Aurora morta, foge — eu busco a virgem loura!Pau d’Arco — 1902.

NO CAMPO

Tarde. Um arroio canta pela umbrosaEstrada; as águas límpidas alvejamComo cristais. Aragem suspirosaAgita os roseirais que ali vicejam.No Alto, entretanto, os astros rumorejamUm presságio de noute luminosaE ei-la que assoma — a Louca tenebrosa,Branca, emergindo às trevas que a negrejam.Chora a corrente múrmura, e, à dolenteUnção da noute, as flores também choramNum chuveiro de pétalas, nitente,Pendem e caem — os roseirais descoramE elas bóiam no pranto da correnteQue as rosas, ao luar, chorando enfloram.Pau d’Arco — 1902.

SONETO

Canta o teu riso esplêndida sonata,E há, no teu riso de anjos encantados,Como que um doce tilintar de prataE a vibração de mil cristais quebrados.Bendito o riso assim que se desata— Cítara suave dos apaixonados,Sonorizando os sonhos já passados,Cantando sempre em trínula volata!Aurora ideal dos dias meus risonhos,Quando, úmido de beijos em ressábiosTeu riso esponta, despertando sonhos...Ah! num delíquio de ventura louca,Vai-se minh’alma toda nos teus beijos,Ri-se o meu coração na tua boca!Pau d’Arco — 1902.

CRAVO DE NOIVA

Ao Dias ParedesCravo de noiva. A nívea cor de ceraQue o seu seio branqueja, é como os prantosNíveos, que a virgem chora, entre os encantosDum noivado risonho em primavera.Flor de mistérios d’alma, sacrossantos,Guarda segredos divinais que eu deraDuas vidas, se duas eu tiveraP’ra desvendar os seus segredos santos.E tudo quer que nessa flor se enleveO poeta. E que dessa concha armínea,Da lactescência angélica da neve,Se evolam castos, virginais aromasDe essência estranha; olências de virgíneaCarne fremindo num langor de pomas.Pau d’Arco — 1902.

PLENILÚNIO

Desmaia o plenilúnio. A gaze pálidaQue lhe serve de alvíssimo sudárioRespira essências raras, toda a cálidaMística essência desse alampadário.E a lua é como um pálido sacrário,Onde as almas das virgens em crisálidaDe seios alvos e de fronte pálida,Derramam a urna dum perfume vário.Voga a lua na etérea imensidade!Ela, eterna noctâmbula do Amor,Eu, noctâmb’lo da Dor e da Saudade.Ah! como a branca e merencória lua,Também envolta num sudário — a Dor,Minh’alma triste pelos céus flutua!Pau d’Arco — 1902.

INSÂNIA

No mundo vago das idealidadesAfundei minha louca fantasia;Cedo atraiu-me a auréola fugidiaDa refulgência antiga das idades.Mas ao esplendor das velhas majestadesVacila a mente e o seu ardor esfria;Busquei então na nebulosa friaDas Ilusões, sonhar novas idades.Que desespero insano me apavora!Aqui, chora um ocaso sepultado;Ali, pompeia a luz da branca aurora.E eu tremo e hesito entre um mistério escuro:— Quero partir em busca do Passado— Quero correr em busca do Futuro.Paraíba — 1902.

DOLÊNCIAS

Oh! lua morta de minha vida,Os sonhos meusEm vão te buscam, andas perdidaE eu ando em busca dos rastos teus...Vago sem crenças, vagas sem norte,Cheia de brumas e enegrecida,Ah! se morreste p’ra minha vida!Vive, consolo de minha morte!Baixa, portanto, coração ermoDe lua friaÀ plaga triste, plaga sombriaDessa dor lenta que não tem termo.Tu que tombaste no caos extremoDa Noute imensa do meu PassadoSabes da angústia do torturado...Ah! tu bem sabes por que é que eu gemo!Instilo mágoas saudoso, e enquantoPlanto saudades num campo morto,Ninguém ao menos dá-me um conforto,Um só ao menos! E no entretantoNinguém me chora! ah! se eu tombarCedo na lida...Oh! lua fria, vem me chorar,Oh! lua morta de minha vida!Paraíba — 1902.

O BANDOLIM

Cantas, soluças, bandolim do FadoE de Saudade o peito meu transbordas;Choras, e eu julgo que nas tuas cordasChoram todas as cordas do Passado!Guardas a alma talvez d’um desgraçado,Um dia morto da Ilusão às bordas,Tanto que cantas, e ilusões acordas,Tanto que gemes, bandolim do Fado.Quando alta noute, a lua é triste e calma,Teu canto, vindo de profundas fráguas,É como as nênias do Coveiro d’alma!Tudo eterizas num coral de endechas...E vais aos poucos soluçando mágoas,E vais aos poucos soluçando queixas!

ARA MALDITA

Como um’ave, cindindo os céus risonhos,Meiga, tu vinhas a cindir os ares,E, qual hóstia caindo dos altares,Foste caindo n’ara dos meus sonhos.E eu vi os seios teus virem inconhos,— Esses teus seios que os cerúleos laresBranquejaram de eternos nenufares,Para nunca tocarem negros sonhos!Caíste enfim no meu sacrário ardente,Quiseste-me beijar a ara do peito,E eu quis beijar-te o lábio redolente.E beijei-te, mas eis que neste enleio,Tocando n’ara negra o níveo seio,Caíste morta ao celestial preceito.

SONETO

Na etérea limpidez de um sonho branco,Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta,E a procela chorou n’um fundo arrancoDe mágoa triste e de paixão violenta.E Lúcia disse à bruma lutulenta:— Foge, senão co’o o meu olhar te espanco!E eu vi que, à voz de Lúcia, grave e lenta,O céu tremia em seu trevoso flanco.Fulgia a bruma para sempre. A vidaDespontava na aurora amortecidaÀ rutilância mágica do dia.Aquele riso despertava a aurora!E tudo riu-se, e como Lúcia, agora,O sol, alegre e rubro, também ria!

TREVA E LUZ

Neste pélago escuro em que te afundas,Longe das sombras aurorais e amadas,Sentes o peito em ânsias revoltadas,Diluis teu peito em sensações profundas.Mas, eis que emerges, luminosa, às fundasÁguas do mar das glórias obumbradas,E, ante o branco estendal das madrugadas,Nua, em banho ideal de amor te inundas.Agora, à luz das alvoradas santasUngem-te o corpo redolências tantas,Que, ao ver-te nua, o Mundo se concentre,E a lua, a Virgem Mãe dos céus escampos,Que beija a terra e que abençoa os campos,Beije-te o seio e te abençoe o ventre!

SONETO

O Templo da Descrença — ei-lo que avisto. A imensaCruz da Dor lá está serena como um lírio!E vejo o pedestal que sustenta o Martírio;E vejo o pedestal que sustenta a Descrença!— A colunata exul do Sonho Morto — o círioDa Quimera Falaz, o túmulo da Crença,Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensaNuma fúria assombral de feras em delírio!Penetro louco enfim o abismo funerário,E a rasgar, a rasgar o lúrido sacrário,Em mim como no Templo a Angústia se condensa,E em mim como no Templo, urnas de Sonho; e, em bando,Flores mortas da Aurora, e, eu sombrio chorandoAnte a imagem fatal do Sepulcro da Crença!

A PESTE

Filha da raiva de Jeová — a PesteNum insano ceifar que aterra e espanta,De espaço a espaço sepulturas plantaE em cada coração planta um cipreste!Exulta o Eterno, e... tudo chora, tudo!Quando Ela passa, semeando a Morte,Todos dizem co’os olhos para a Sorte— É o castigo de Deus que passa mudo!— Fúlgido foco de escaldantes brasas— O sol a segue, e a Peste ri-se, enquantoVai devastando o coração das casas...E como o sol que a segue e deixa um rastroDe luz em tudo, ela, como o sol — o astro —Deixa um rastro de luto em cada canto!

QUADRAS

Embala-me em teus braços,De amores bons à sombra —Quero em cheirosa alfombraPousar os sonhos lassos!Teus seios, oh! morena— Relíquias de Carrara —Têm a ambrosia raraDa mais rara verbena.Aperta-me em teu peito,E dá-me assim, divina,De lírios e boninaUm veludíneo leito.Assim como Jesus,Eu quero o meu Calvário— Anelo morrer várioDos braços teus na Cruz!Por que não me confortas?!Bem sei, perdeste a olência,Morreu-te a redolência,Alma das virgens mortas —Mas não! Apaga os traçosDe tão funéreo aspeito...Aperta-me em teu peito,Embala-me em teus braços!

IDEAL

Quero-te assim, formosa entre as formosas,No olhar d’amor a mística fulgênciaE o misticismo cândido das rosas,Plena de graça, santa de inocência!Anjo de luz de astral aurifulgência,Etéreo como as Willis vaporosas,Embaladas no albor da adolescência,— Virgens filhas das virgens nebulosas!Quero-te assim, formosa, entre esplendoresColmado o seio de virentes flores,A alma diluída em etereais cismares...Quero-te assim... e que bendita sejasComo as aras sagradas das igrejas,Como o Cristo sagrado dos altares.

CÍTARA MÍSTICA

Cantas... e eu ouço etérea cavatina!Há nos teus lábios — dois sangrentos círios —A gêmea florescência de dois líriosEntrelaçados numa unção divina.Como o santo levita dos Martírios,Rendo piedosa dúlia peregrinaÀ tua doce voz que me fascina,— Harpa virgem brandindo mil delírios!Quedo-me aos poucos, penseroso e pasmo,E a Noute afeia corno num sarcasmoE agora a sombra vesperal morreu...Chegou a Noute... E para mim, meu anjo,Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo,É a música de Deus que vem do Céu!

SÚPLICA NUM TÚMULO

Maria, eis-me a teus pés. Eu venho arrependido,Implorar-te o perdão do imenso crime meu!Eis-me, pois, a teus pés, perdoa o teu vencido,Açucena de Deus, lírio morto do Céu!Perdão! e a minha voz estertora um gemido,E o lábio meu p’ra sempre apartado do teuNão há de beijar mais o teu lábio querido!Ah! quando tu morreste, o meu Sonho morreu!Perdão, pátria da Aurora exilada do Sonho!— Irei agora, assim, pelo mundo, para ondeMe levar o Destino abatido e tristonho...Perdão! e este silêncio e esta tumba que cala!Insânia, insânia, insânia, ah! ninguém me responde...Perdão! e este sepulcro imenso que não fala!

AFETOS

Bendito o amor que infiltra n’alma o enleioE santifica da existência o cardo,— Amor que é mirra e que é sagrado nardo,Turificando a languidez dum seio!O amor, porém, que da Desgraça veioMaldito seja, seja como o fardoDesta descrença funeral em que ardoE com que o fogo da paixão ateio!Funambulescamente a alma se atiraÀ luta das paixões, e, como a AuroraQue ao beijo vesperal anseia e expira,Desce para a alma o ocaso da CaríciaOra em sonhos de Dor, supremos, e oraEm contorções supremas de Delícia!

MARTÍRIO SUPREMO

Duma Quimera ao fascinante abraço,Por um Cocito ardente e luxurioso,Onde nunca gemeu o humano passo,Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo!O amor em lavas de candência d’aço,Banhou-me o peito... Em ânsia de repouso,Da Messalina fria no regaço,Chora saudades do terreno pouso!Como um mártir de estranho sacrifício,Tinha os lábios crestados pela ardênciaDa luz letal do grande Sol do Vício!E mergulhei mais fundo no estuário...Mas, no Inferno do Gozo, sem Calvário,Cristo d’amor, morri pela Inocência!

SOMBRA IMORTAL

— E tu velas, a sós, no pó da fulgurânciaComo uma velha cruz vela na sombra morta!Fora, a noute é tumbal... e a saudade da infância,Como um’alma de mãe, me acalenta e conforta!Noute! E somente tu velas a rutilância...Lua que já passou e que hoje ainda cortaO penetral que guia à derradeira estância,O penetral que leva à derradeira porta!Revejo em ti, mulher, num lânguido smorzandoA sombra virginal qu’eu adoro chorandoE há de um dia amparar-me na luta morrendo...Ah! que um dia da Vida, estes dardos acúleosCaiam, também da Dor, lá dos braços hercúleos,Domados pela meiga Onfale a que me rendo!

CORAÇÃO FRIO

Frio e sagrado coração de lua,Teu coração rolou da luz serena!E eu tinha ido ver a aurora tuaNos raios d’ouro da celeste arena...E vi-te triste, desvalida e nua!E o olhar perdi, ansiando a luz amenaNo silêncio noctívago da rua...— Sonâmbulo glacial de estranha pena!Estavas fria! A neve que a alma cortaNão gele talvez mais, nem mais alquebreUm coração como a alma que está morta...E estavas morta, eu vi, eu que te almejo,— Sombra de gelo que me apaga a febre,— Lua que esfria o sol do meu desejo!

NOTURNO

Para o vale noital da eterna gazaRolou o Sol — imenso moribundo —E a noute veio na negrura d’asa,Santificada pela Dor do Mundo!U’a luz, entanto, no negror me abrasa,E um canto vai morrer no vale fundo...Que luz é esta que das brumas vaza,Que canto é este, virginal, profundo?!Rumores santos... e no santo harpejo,Somente tristes os teus olhos vejo,Para o Infinito e para o Céu voltados!Cantas, e é noite de fatais abrolhos...Choras, e no meu peito estes teus olhosComo que cravam dois punhais gelados!

SEDUTORA

Alva d’aurora, e em lânguida sonataVinhas transpondo a margem do caminho,Branca bem como empalecido arminho,Alvorejando em arrebol de prata.— Bendita a Santa do Carinho, inata!E, ajoelhando à imagem do Carinho,O roble altivo entreteceu-te um ninho,Alva d’aurora, te acolheu a mata. —Pérolas e ouro pela serrania...No lago branco e rútilo do diaO azul pompeava para sempre vasto.Chegaste, o seio branco, e, tu, chegando,Uma pantera foi se ajoelhando,Rendida ao eflúvio do teu seio casto!

PELO MUNDO

Ânsias que pungem, mórbidos encantos,Crepitações de flamas incendidasN’alma explodindo como fogos santos,Vão pelo mundo ensanguentando as Vidas.Eflúvios quentes e fatais quebrantosCrestam a alma das virgens adormidas...E as brumas velam nos sinistros mantosE as virgens dormem nas tumbais jazidas!Súbitos fremem ’spasmos derradeiros...E a paixão morre e os corações coveirosVão como duendes pelos céus risonhos,Chorando auroras, músicas perdidas,Na estrada santa ensanguentando as Vidas,Nos campos-santos enterrando os Sonhos!

SONETO

E o mar gemeu a funda melopeiaÀ luz feral que a tarde morta instila,Triste como um soluço de Dalila,Fria como um crepúsc’lo da Judeia.Já Vésper, no Alto, e lânguida, cintila!Naquela hora morria para a IdeiaA minha branca e desgraçada Deia,Qual rosa branca que ao tufão vacila.E o mar chamou-a para o fundo abismo!E o céu chamou-a para o Misticismo.Nesse momento a Lua vinha calmaE céu e mar num desespero mudoNão viram que num halo de veludoÀ alma de Deia se evolava est’alma.

O RISO

“Ri, coração, tristíssimo palhaço.”
— Cruz e Souza
O Riso — o voltairesco clown — quem mede-o?!— Ele, que ao frio alvor da Mágoa Humana,Na Via-Látea fria do Nirvana,Alenta a Vida que tombou no Tédio!Que à Dor se prende, e a todo o seu assédio,E ergue à sombra da dor a que se irmanaLauréis em sangue de volúpia insana,Clarões de sonho em nimbos de epicédio!Bendito sejas, Riso, clown da Sorte— Fogo sagrado nos festins da Morte,— Eterno fogo, saturnal do Inferno!Eu te bendigo! No mundano cúmuloÉs a Ironia que tombou no túmuloNas sombras mortas dum desgosto eterno!

SONETO

Vamos, querida! Já é Ave-Maria— A hora dos tristes e dos descontentes.Desfaz-se o peito em vibrações dormentesE o Fado geme sob a névoa fria!Que eu sinta n’alma o que tu n’alma sentes!Nesta Missa de Atroz MelancoliaBebes chorando o Vinho da Agonia!— Consagração das almas padecentes!Foi numa tarde assim que nos amamos.Silfos morriam... No ar, os gaturamosNum recesso de névoa, adormecida...Punge-me o peito da Saudade o cardo,Enquanto um mocho, sonolento e tardo,Canta no espaço a maldição da vida!

A UMA MÁRTIR

Alma em cilício, vem, enrista a clava,Brande no seio o espículo e o acinaceE unjam-te o seio que d’auroras nasceSangrentas bênçãos eclodindo em lava!Nossa Senhora te unge a face escrava,Cristo saudoso te abençoa a face,Monja, — violeta que do Céu baixasseÀ Virgem Santa Natureza brava!Vais caminhando para a terra extrema,Rosa dos Sonhos! e o teu galho tremaE a tua crença, o desespero mate-a...E em nuvens d’ouro ascende enfim ao plaustroDa Neve Eterna, estrela azul do claustro,Levada para o Azul da Via-Látea!

VÊNUS MORTA

A Via-Sacra Azul do amor primeiroVeste hoje o luto que a desgraça vesteNo miserere do meu desespero...— Lótus diluído n’alma dum cipreste!Como um lilás eternizando abrolhosTinge de roxo o arminho da grinalda,Rola a violeta santa dos teus olhos,— Tufos de goivo em conchas de esmeralda.No vácuo imenso das desesperançasE dos passados viços,Recordo o beijo que te dei nas trançasEmolduradas num florão de riços.E como um nume de pesar, plangente,Guarda a saudade que levou do Marne,Eu guardo o travo deste beijo ardenteE a Nostalgia desta Pátria — a Carne!Sonho abraçar-te, pálida camélia,Mas neste sonho, langue e seminua,Pareces reviver a antiga Ofélia,À opalescência trágica da lua!Tu, oh! Quimera, de reverberantesE rubras asas de heliantos pulcros,Crava-lhe n’alma o tirso das bacantes,Brande-lhe n’alma o frio dos sepulcros.Reza-lhe todo o cantochão mementoDessa Missa de amor da Extrema Agrura,Abençoada pelo meu tormentoE consagrada pela sepultura.E que ela suba na serena gazaDos mistérios doirados e serenosÀ terra Ideal das púrpuras em brasaE ao Céu doirado e auroreal de Vênus!

RÉGIO

Festa no paço! Noute... e no entretantoLuzes, flores, clarões por toda a festaE há nos régios salões, em cada aresta,Credências d’ouro de supremo encanto.No baldaquino a orquestra real se aprestaE o áureo dossel finge um relevo santo...— Bissos egípcios d’alto gosto, a um canto,Flordelisados de nelumbo e giesta.Morreu a noute e veio o Sol Eterno— Âmbar de sangue que desceu do InfernoNo turbilhão dos alvos raios diurnos...Brilham no paço refulgências de elmoE a princesa assomou como um santelmoNa realeza branca dos coturnos.

PELO MAR

Manhã em flor. O mar é um policromoE imenso lago d’íris e alabastros...A aurora é branca e ao sol, o mar é comoUm pálio imenso que caiu dos astros.Longe, bem longe, no alvoral assomoErgue um navio os altanados mastrosE o Oceano dorme, — alourecido pomoNum leito irial de pérolas e nastros.A alma da Mágoa vai pelo seu dorso,Em sonhos geme... Um coração de corsoGeme no mar, vibra no mar, entanto,Colma-lhe o seio a opala das esponjas...E à noute morta, choram vagas — monjas —Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA

És do Passado! Vieste d’alvoradaN’asa dos elfos pela Morte espalma...Cantas... e eu ouço esta berceuse calmaDa harpa dos mundos ideais do Nada!Ergue o Missal brilhante de tu’alma,Mas nessa elevação mistificada,Vem, que eu te espero, Deusa constelada,Desce, anêmona exul que o Céu ensalma!Venhas e desças, Lua dos Martírios,Desças, mas venhas pela unção dos lírios,Visão de Ocaso de enluaradas comas,Vaso de Unção descido dos espaços,Para ungirmos, nós dois, os nossos paços,Na tule idealizada dos aromas!

A MORTE DE VÊNUS

Velhos berilos, pálidas cortinas,Morno frouxel de nardos recendendoVelam-lhe o sono... e Vênus vai morrendoNo berço azul das névoas matutinas!Halos de luz de brancas musselinasVão-lhe do corpo virginal descendo— Abelha irial que foi adormecendoSobre um coxim de pérolas divinas.E quando o Sol lhe beija a espádua nua,Cai-lhe da carne o resplendor da LuaNo reverbero dos deslumbramentos...Enquanto no ar há sândalos, há floresE haustos de morte — os últimos clangoresDa música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME

Nesta da vida lúgubre cavernaDe ossos e frios funerais que eu sintoComo um chacal saciando o eterno instintoVou saciando a minha Fome Eterna.— Fome de sangue de um Passado extinto,De extintas crenças — bacanal superna,Horrível assim como a Hidra de LernaE muda como o bronze de Corinto!Ânsias de sonhos, desespero fundo!E a alma que sonha no marnel do Mundo,Morre de Fome pelas noutes belas...E como o Cristo — o Mártir do Calvário.Morre. E no entanto vai para o estelárioMatar a Fome num festim de estrelas!

IDEALIZAÇÕES

A Santos Neto

I

Em vão flameja, rubro, ígneo, sangrentoO sol, e, fulvos, aos astrais desígnios,Raios flamejam e fuzilam ígneos,Nas chispas fulvas de um vulcão violento!É tudo em vão! Atrás da luz dourada,Negras, pompeiam (triste maldição!)— Asas de corvo pelo coração...— Crepúsculo fatal vindo do Nada!Que importa o Sol! A Treva, a Sombra — eis tudo!E no meu peito — condensada treva —A Sombra desce, e o meu pesar se elevaE chora e sangra, mudo, mudo, mudo...E há no meu peito — ocaso nunca visto,Martirizado porque nunca dormeAs Sete Chagas dum martírio enorme,E os Sete Passos que magoaram Cristo!

II

Agora dorme o astro de sangue e de ouroComo um sultão cansado! As nuvens, comoOdaliscas, da Noute ao negro assomo,Beijam-lhe o corpo ensaguentado d’ouro.Legiões de névoas mortas e finadasComo fragmentações d’ouro e basaltoLembram guirlandas pompeando no Alto,Eterizadas, volatilizadas.E a Noute emerge, santa e vitoriosaDentre um velarium de veludos. Atros,Descem os nimbos... No ar há malabatrosTuriferando a negridão tediosa.Além, dourando as névoas dos espaços,Na majestade dum condor bendito,Subindo à majestade do Infinito,A Via-Láctea vai abrindo os braços!Áureas estrelas, alvas, luminosas,Trazem no peito o branco das manhãsE dormem brancas como leviatãsSobre o oceano astral das nebulosas.Eu amo a noute que este Sol arranca!Namoro estrelas... Sírius me deslumbra,Vésper me encanta, e eu beijo na penumbraA imagem lirial da Noute Branca.

III

De novo, a Aurora, entre esplendores, há-deAlva, se erguer, como tombou outrora,E como a Aurora — o Sol — hóstia da Aurora,Abençoada pela Eternidade!E ei-lo de novo, ontem moribundo,Hoje de novo, curvo ao seu destino,Fantástico, ciclópico, assassinoÉbrio de fogo, dominando o mundo!Mas de que serve o Sol, se, triste, em cadaRaio que tomba no marmel da terra,Mais em meu peito uma ilusão se enterra,Mais em minh’alma um desespero brada?!De que serve, se, à luz áurea que deleEmana e estua e se refrange e ferve,A Mágoa ferve e estua, de que serveSe é desespero e maldição todo ele?!Pois, de que serve, se, aclarando os cerrosE engalanando os arvoredos gaios,A alma se abate, como se esses raiosN’alma caindo, se tornassem ferros?!

IV

Poeta, em vão na luz do sol te inflamas,E nessa luz queimas-te em vão! És todoPó, e hás de ser após as chamas, lodo,Como Herculanum foi após as chamas.Ah! Como tu, em lodo tudo acaba,O leão, o tigre, o mastodonte, a lesma,Tudo por fim há de acabar na mesmaTênebra que hoje sobre ti desaba.Ninguém se exime dessa lei imensaQue, em plena e fulva reverberação,Arrasta as almas pela Escuridão,E arrasta os corações pela Descrença.Ergue, pois, poeta, um pedestal de tantaTreva e dor tanta, e num supremo e insanoE extraordinário e grande e sobre-humanoEsforço, sobe ao pedestal, e... canta!Canta a Descrença que passou cortandoAs tuas ilusões pelas raízes,E em vez de chagas e de cicatrizesDeixar, foi valas funerais deixando.E foi deixando essas funéreas, frias,Medonhas valas, onde, como abutresMedonhos, de ossos, de ilusões te nutres,Vives de cinzas e de ruinarias!

V

Agora é noute! E na estelar coorte,Como recordação da festa diurna,Geme a pungente orquestração noturnaE chora a fanfarra triunfal da Morte.Então, a Lua que no céu se espalha,Iluminando as serranias, banhaAs serranias duma luz estranha,Alva como um pedaço de mortalha!Nessa música que a alma me iluminaTento esquecer as minhas próprias dores,Canto, e minh’alma cobre-se de flores— Fera rendida à música divina.Harpas concertam! Brandas melodiasPlangem... Silêncio! Mas de novo as harpasReboam pelo mar, pelas escarpas,Pelos rochedos, pelas penedias...Eu amo a Noute que este Sol arranca!Namoro estrelas... Sírius me deslumbra,Vésper me encanta, e eu beijo na penumbraA imagem lirial da Noute Branca!

SONHO DE AMOR

Sobre o aromal e amplo coxim de Flora,Que os vapores da tarde inda incensavamE que um incenso tênue e bom vapora,Os namorados lânguidos sonhavam.A alma do Ocaso entrava o céu agoraE havia pelas tênebras que entravamOra estrangulamentos surdos, oraRuídos de carnes que se estrangulavam.E sonharam assim durante todaA noute, e toda a alva manhã durante!— O Sol jorrava largos raios longos.E em roda, víride e nevado, em roda,Lembrava o campo um colorido ondeanteDe vidros verdes e cristais oblongos!

ODE AO AMOR

Enches o peito de cada homem, medrasN’alma de cada virgem, e toda a almaEnches de beijos de infinita calma...E o aroma dos teus beijos infinitosEntra na terra, bate nos granitosE quebra as rochas e arrebenta as pedras!És soberano! Sangras e torturas!Ora, tangendo tiorbas em volatas,Cantas a Vida que sangrando matas,Ora, clavas brandindo em seva e insanaFúria, lembras, Amor, a soberanaImagem pétrea das montanhas duras.Beijam-te o passo as multidões escravasDos Desgraçados! — Estas multidõesSonham pátrias doiradas de ilusõesEntre os tórculos negros da Desgraça— Flores que tombam quando a neve passaNo turbilhão das avalanches bravas!Tudo dominas! — Dos vergéis tranquilosAos Capitólios, e dos CapitóliosAos claros pulcros e brilhantes sóliosDe esplendor pulcro e de fulgências claras,Rendilhados de fulvas gemas rarasE pontilhados de crisoberilos.Sobes ao monte onde o edelweiss pompeiaN’alma do que subiu àquele monte!Mas, vezes, desces ao segredo insonteDo mar profundo onde a sereia cantaE onde a Alcíone trêmula se espantaOuvindo a gusla crebra da sereia!Rompe a manhã. Sinos além bimbalham.Troa o conúbio dos amores velhos —As borboletas, os escaravelhosBeijam-se no ar... Retroa o sino! E, quietos,Beijam-se além os silfos e os insetosSob a esteira dos campos que se orvalham.E em tudo estruge a tua dúlia, — dúliaQue na fibra mais forte e até na fibraMais tênue, chora e se lamenta e vibra...E em cada peito onde um Ocaso choraLevanta a cruz da redenção da AuroraComo Judite a redimir Betúlia!Bem haja, pois, esse poder terrível.— Essa dominação aterradora,— Enorme força regeneradoraQue faz dos homens um leão que dormeE do Amor faz uma potência enormeQue vela sobre os homens, impassível!Esta de amor ode queixosa, Irene,Quedo, sonhei-a, aos astros, ontem, quandoEntre estrias de estrelas, fosforeando,Egrégia estavas no teu plaustro egrégioMais bela do que a Virgem de CorreggioE os quadros divinais de Guido Reni!Qual um crente de asiático pagode,Entre timbales e anafis estrídulos,Cativo, beija os áureos pés dos ídolos,Assim, Irene, eis-me de ti cativo!Cativaste-me, Irene, e eis o motivo,Eis o motivo porque fiz esta ode.

SONETO

(A um poeta morto, aos 25 anos, numa noute de orgia).A orgia mata a mocidade, quandoRugem na carne do delírio as feras,E o moço morre como está sonhandoNas suas vinte e cinco primaveras!Em cima, — o oiro sem mancha das esferas,Embaixo oiro manchado de execrandoFestim dos sibaritas, das heterasLubricamente se despedaçando!Em cima, a rede do estelário imáculoSuspensa no alto como um tabernáculo— A orgia, embaixo, e no delírio doudoComo arvoredos juvenis tombadosOs moços mortos, os brasões manchados,E um turbilhão de púrpuras no lodo!

FESTIVAL

Para Jônatas CostaCímbalos soam no salão. O diaFoge, e ao compasso de arrabis serenosA valsa rompe, em compassados trenosSobre os veludos da tapeçaria.Estatuetas de mármore de LemnosEstão dispostas numa simetriaInconfundível, recordando a estriaDos corpos níveos de Afrodite e Vênus.Fulgem por entre mil cristais vermelhosO alvo cristal dos nítidos espelhosE a seda verde dos arbustos glabros,E em meio às refrações verdes e hialinas,Vibra, batendo em todas as retinas,A incandescência irial dos candelabros.

A VITÓRIA DO ESPIRITO

Era uma preta, funeral mesquitaAbandonada aos lobos e aos leopardosNuma floresta lúgubre e esquisita.Engalanava-lhe as paredes friasUma coroa de urzes e de cardosCoberta em pálio pelas laçarias.Uma vez, aos lampejos derradeirosDas irisadas, vespertinas velas,Feras rompiam tojos e balseiros.E pelas catacumbas desprezadas,Mochos vagavam como sentinelas,Em atalaia às gerações passadas!Um crepúsculo imenso nunca vistoTauxiava o Céu de grandes vidros roxosDa mesma cor da túnica de Cristo.Fulgia em tudo uma estriação violetaE um violáceo clarão banhava os mochosQue em torno estavam da mesquita preta.Já na eminência da amplidão sidéreaComo uma umbela, se desenrolavaA esteira astral da retração etérea.Os astros mortos refulgiam vivosE a noute, ampla e brilhante, rutilavaLantejoulada de opalinos crivos.Súbito alguém, o passo constrangendo,Parou em frente da mesquita morta...— Um vento frio começou gemendo.Era uma viúva, e o olhar errante, a viúvaEm passo lento, foi transpondo a porta,Eternamente aberta ao sol e à chuva.A Lua encheu o espaço sem limitesE, dentro, nos altares esboroados,Foram caindo como estalactitesSobre o oiro e a prata das alfaias priscasUm dilúvio de fósforos prateadosE uma chuva doirada de faíscas.Fora, entretanto, por um chão de onagrasVinha passeando como numa viagemUm grupo feio de panteras magras.E havia no atro olhar dessas panterasEssa alegria douda da carnagemQue é a alegria única das feras.E ardendo na impulsão das ânsias doudasE em sevas fúrias infernais ardendoTodas as feras, as panteras todasAvançam para a viúva desvalidaE raivosas, contra ela, arremetendo,Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.Morria a noute. As flâmulas altivasDo sol nascente erguiam-se vermelhas,Como uma exposição de carnes vivas,E iam cair em pérolas de sangueSobre as asas doiradas das abelhas,E sobre o corpo da viúva exangue.A Natureza celebrava a festaDo astro glorioso em cantos e baladas— O próprio Deus cantava na floresta!Nos arvoredos rejuvenescidos,Estrugiam canções desesperadasDe misereres e de sustenidos.Além, entanto, na redoma claraQue envolve a porta da região etérea,O espírito da viúva se quedaraAo contemplar dessa fulgente portaE dessa clara e alva redoma aéreaNo desfilar de sua carne mortaA transitoriedade da matéria!

NOTURNO

Chove. Lá fora os lampiões escurosSemelham monjas a morrer... Os ventosDesencadeados, vão bater, violentos,De encontro às torres e de encontro aos muros.Saio de casa. Os passos mal segurosTrêmulo movo, mas meus movimentosSusto, diante do vulto dos conventos,Negro, ameaçando os séculos futuros!De São Francisco no plangente bronzeEm badaladas compassadas onzeHoras soaram... Surge agora a Lua.E eu sonho erguer-me aos paramos etéreosEnquanto a chuva cai nos cemitériosE o vento apaga os lampiões da rua!

SONETO

Ao sétimo dia do seu falecimentoE ele morreu. Ele que foi um forteQue nunca se quebrou pelo DesgostoMorreu... mas não deixou na ara do rostoUm só vestígio que acusasse a morte!O anatomista que investiga a sorteDas vidas que se abismam no Sol-postoFicaria admirado de seu rosto,Vendo-o tão belo, tão sereno e forte!Quando meu Pai deixou o lar amigoUm sabiá da casa muito antigoQue há muito tempo não cantava lá,Diluiu o silêncio em litanias...E hoje, poetas, fazem sete diasQue eu ouço o canto desse sabiá!

CANTO DA AGONIA

Agonia de amar, agonia bendita!— Misto de infinda mágoa e de crença infinita.Nos desertos da Vida uma estrela fulguraE o Viajeiro do Amor, vendo-a, triste, murmura:— “Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore comoChorei, ontem, a sós, num voluptuoso assomo,Numa prece de amor, numa delícia infinda,Delícia que ainda gozo, oração, prece que aindaEntre saudades rezo, e entre sorrisos e entreMágoas soluço, até que esta dor se concentre!No âmago de meu peito e de minha saudade,Amor, escuridão e eterna claridade...— Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve,Frio que me assassina, amor e frio, neve,Neve que me embala como um berço divino,Neve de minha dor, neve de meu destino!E eu aqui a chorar nesta noute tão fria!Agonia, agonia, agonia, agonia!”— Diz, e morre-lhe a voz, e cansado e morrendoO Viajeiro vai, e vê a luz e vendoUma sombra que passa, uma nuvem que corre,Caminha e vai, e, louco, abraça a sombra e... morre!E a alma se lhe dilui na amplidão infinita...Agonia de amor, agonia bendita!

VAE VICTIS

Para o Alcides BaltarA Dor meu coração torça e retorçaE me retalhe como se retalhaPara escárnio e alegria da canalhaUm leão vencido que perdeu a força!Sobre mim caia essa vingança corsa,Já que perdi a última batalha!E, enquanto o Tédio a carne me trabalha,A Dor meu coração torça e retorça!Cubra-me o corpo a podridão dos trapos!Os vibriões, os vermes vis, os saposEncontrem nele pábulo eviterno...— Repositório de milhões de miasmasOnde se fartem todos os fantasmas,Primavera, verão, outono, inverno!

A DOR

Chama-se Dor, e quando passa, enlutaE todo mundo que por ela passaHá de beber a taça da cicutaE há de beber até o fim da taça!Há de beber, enxuto o olhar, enxutaA face, e o travo há de sentir, e a ameaçaAmarga dessa desgraçada frutaQue é a fruta amargosa da Desgraça!E quando o mundo todo paralisaE quando a multidão toda agoniza,Ela, inda altiva, ela, inda o olhar sereno,De agonizante multidão rodeada,Derrama em cada boca envenenadaMais uma gota do fatal veneno!

TERRA FÚNEBRE

Aqui morreram tantos poetas! TantaGuitarra morta este lugar encerra!...Aqui é o Campo-Santo, aqui é a TerraEm que a alma chora e em que a Saudade canta!O caminheiro que o Pesar desterra,Pare chorando nesta Terra Santa,E se cantar como a Saudade canta,O caminheiro fique nesta Terra!À noute aqui um trovador eternoChora, abraçado às campas dos poetas,— Esse sombrio trovador é o Inverno!Aqui é a Terra, onde, ao noturno açoute,Carpem na sombra pássaros ascetas,Gemem poetas — pássaros da Noute!

SONETO

O sonho, a crença e o amor, sendo a risonhaSantíssima Trindade da Ventura,Pode ser venturosa a criaturaQue não crê, que não ama e que não sonha?!Pois a alma acostumada a ser tristonhaPode achar por acaso ou porventuraFelicidade numa sepultura,Contentamento numa dor medonha?!Há muito tempo, o sonho, do meu seioPartiu num célere arrebatamentoDe minha crença arrebentando a grade,Pois se eu não amo e se também não creio,De onde me vem este contentamento,De onde me vem esta felicidade?!

MEDITANDO

Para o Celso MarizPenso em venturas! A alma do homem pensaSempre em venturas! Sorte do homem! O homemHá de embalar eternamente a CrençaSem ter grilhões e sem ter leis que o domem!Punjam-no os vermes da Desgraça, assomemDescrenças, surjam tédios na Descrença,Luta, e morrem os vermes que o consomem,Vence, e por fim, nada há que o abata e o vença!Por isso, poeta, eu penso na Ventura!E o pensamento, na Suprema AlturaSinto, no imenso Azul do FirmamentoIr rolando pelo ouro das estrelas,E esse ouro santo vir rolando pelasTrevas profundas do meu pensamento!

SONETO

(Feito no decurso de dois minutos, em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos — 28 de abril de 1905.)

Para quem tem na vida compreendidoToda a grandeza da FraternidadeO aniversário dum irmão queridoA alma de alegres emoções invade.Depois quando no irmão estremecidoFazem aliança o gênio e a probidade,Atinge o amor um grau nunca atingidoNo termômetro santo da Amizade.O Alexandre dos Anjos mereciaGrandes coroas nesse grande dia,Tesouros reais, auríferos tesouros...Terá no entanto indubitavelmenteA admiração do século presenteE a sagração dos séculos vindouros!

SONETO

A Frederico NietzschePara que nesta vida o espírito esfalfasteEm vãs meditações, homem meditabundo?!— Escalpelaste todo o cadáver do mundoE, por fim, nada achaste... e, por fim, nada achaste!...A loucura destruiu tudo que arquitetasteE a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo!...De que te serviu, pois, estudares, profundo,O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?!Pois, para penetrar o mistério das lousas,Foi-te mister sondar a substância das cousas— Construíste de ilusões um mundo diferente,Desconheceste Deus no vidro do astrolábioE quando a Ciência vã te proclamava sábio,A tua construção quebrou-se de repente!

O NEGRO

Oh! Negro, oh! filho da Hotentótia ufana,Teus braços brônzeos como dois escudos,São dois colossos, dois gigantes mudos,Representando a integridade humana!Nesses braços de força soberanaGloriosamente à luz do sol desnudosAo bruto encontro dos ferrões agudosGemeu por muito tempo a alma africana!No colorido dos teus brônzeos braços,Fulge o fogo mordente dos mormaçosE a chama fulge do solar brasido...E eu cuido ver os múltiplos produtosDa Terra — as flores e os metais e os frutosSimbolizados nesse colorido!

HISTÓRIA DE UM VENCIDO

Para o Aprígio dos Anjos

I

Sol alto. A terra escalda: é um forno. A flama oriundaDa solar refração bate no mundo, acendeO pó, aclara o mar e por tudo se estendeE arde em tudo, mordendo a atra terra infecunda.E o Velho veio para o labor cotidiano,Triste, do alegre Sol ao grande globo quenteE pôs-se para aí, desoladoramenteA revolver da terra o atro e infecundo arcano.Por seis horas seu braço, empenhado na luta,Fez reboar pelo solo, alta e descompassadaA dura vibração incômoda da enxada,Rasgando do agro solo a superfície bruta.Mas o braço cansou! Trabalhou... e o trabalho— Do Eterno Bem motor principal e alavanca —Arrancara-lhe a Crença assim como se arrancaDe um ninho a seda branca e de uma árvore o galho!Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora!— O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era!E surpreendido viu que um abismo se ergueraEntre o fraco que era hoje, e entre o Hércules de outrora!Pois havia de, assim, nesta maldita sendaDe sofrimento ignaro em sofrimento ignaroIr caminhando até tombar sem um amparoNo tremendo marnel da Desgraça tremenda?!

II

Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundoE ele, lúgubre e só, trôpego e cambaleandoFoi-se arrastando, foi aos poucos se arrastando,Para as bordas fatais dum precipício fundo!Quis um momento ainda olhar para o Passado...E em tudo que o rodeava, oito vezes, funéreo,Horrorizado viu como num cemitérioCadáveres de um lado e cinzas de outro lado!De súbito, avistando uma frondosa tíliaJulgou, louco, avistar a Árvore da Esperança...E bateram-lhe então de chofre na lembrançaA casa que deixara, os filhos, a família!Não morreria, pois! Somente morreriaSe da Vida, sozinho, ele pisasse os trilhos...Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?!Preciso era viver! Portanto, viveria!Viveria! E a fecunda e deleitosa searaVerde dos campos, onde arde e floresce a Crença,Compensaria toda a sua dor imensaTal qual o Céu a dor de Cristo compensara!E aos tropeços, tombando, o Velho caminhava...Caminhava, e a sonhar, bêbado de miragem,Nem viu que era chegado o termo da viagem,E amplo, a rugir-lhe aos pés, o precipício estava.Num instante viu tudo, e compreendendo tudo,Quis fazer um esforço, — o último esforço, e o braçoPendeu exangue, o peito arqueou-se, o cansaçoEmpolgara-o, e ele quis falar e estava mudo!Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?!E trágico, no horror bruto da despedidaAbraçou-se com a Dor, abraçou-se com a VidaE sepultou-se ali no coração das águas!Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos!Eram tropeiros, era a turba trovadoraQue assim cantava, enquanto a Terra VencedoraCelebrava ao luar a Missa dos Vencidos!E o cadáver, à toa, a flux d’água, flutua!Ninguém o vê, ninguém o acalenta, o acalenta...Somente, entre a negrura atra da terra poentaAlguém beija, alguém vela o cadáver: a Lua!24 de Maio 905

BEIJO MALDITO

Da Fantasia nos itinerários

Beijei teu lábio de veneno e insídias...— Rosa de outono aberta em dois nectários,— Mirra enganosa dos turibulários,— Vaso de Sèvres recendendo a orquídeas.Beijei teu lábio de veneno e agrurasE o beijo trouxe-me o fatal ressábioDos desesperos e das amarguras...E vou rolando para as sepulturasE nunca mais hei de beijar teu lábio!

SONETO

À memória do meu colega Caldas LinsVinhas trilhando gárrulo a AvenidaOnde Deus manda que todo homem goze,Quando o fantasma da tuberculosePediu-te, em ânsias, o óbolo da Vida!Recordo agora a nossa despedidaNa Estação do Cobé, — santa nevroseQue com fios de ferro as almas cosePrincipalmente se uma está ferida!Das tuas dores na procela bravaNão soubeste talvez que eu te estimava!Mas a amizade oculta não se finda...Embora oculta, ela subiu, no entanto...E subiu tanto e subiu tanto e tantoQue hoje que és morto, — ei-la que sobe ainda!Pau d’Arco — 1905.

ESTROFES SENTIDAS

Para o Neves FilhoEu sei que o Amor enche o Universo todoE se prende dos poetas à guitarraComo o polipo que se agarra ao lodoE a ostra que às rochas eternais se agarra.O Amor reduz-nos a uniformes placas,Uniformiza todos os anelosE une organizações fortes e fracasNos mesmos laços e nos mesmos elos.Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma,E, desvairado, sem prever o abismo,Fiz desse amor um ídolo de Roma,Eleito Deus no altar do fetichismo!Tudo sacrifiquei para adorá-lo— Mas hoje, vendo o horror dos meus destroços,Tenho vontade até de estrangulá-loE reduzi-lo muitas vezes a ossos!Todo o ser que no mundo turbilhonaVeja no Amor, à luz das minhas frases,Uma montanha que se desmorona,Estremecendo em suas próprias bases.E em qualquer parte do Universo veja —Sombrias ruínas de um solar egrégioE o desmoronamento duma IgrejaDespedaçada pelo sacrilégio.A Natureza veste extraordináriasRoupagens de ouro. Além, nas oliveiras,Aves de várias cores e de váriasEspécies, cantam óperas inteiras.A compreensão da minha niilidadeAumenta à proporção que aumenta o diaE pouco a pouco o encéfalo me invadeNuma clareza de fotografia.Na área em que estou, ao matinal assomo,Passa um rebanho de carneiros dóceis...E o Sol arranca as minhas crenças comoBoucher de Perthes arrancando fósseis.Observo então a condição tristonhaDa Humanidade, ébria de fumo e de ópio,Tal qual ela é, e não tal qual a sonhaE a vê o Sábio pelo telescópio.O Sábio vê em proporções enormesAquilo que é composto de pequenasPartes, construindo corpos quase informesDaquilo que é uma parcela apenas.Da observação nos elevados montesPrefiro, à nitidez real dos aspectos,Ver mastodontes onde há mastodontesE insetos ver onde há somente insetos.A inanidade da Ilusão demonstroMas, demonstrando-a, sinto um violentoRancor da Vida — este maldito monstroQue no meu próprio estômago alimento!Nisto a alma o oficio da Paixão entoaE vai cair, heroicamente, na águaDa misteriosíssima lagoaQue a língua humana denomina Mágoa!Dos meus sonhos o exército desfilaE, à frente dele, eu vou cantando a nêniaDo Amor que eu tive e que se fez argila,Como Tirteu na guerra de Messênia!Transponho assim toda a sombria escarpaSinistro, como quem medita um crime...E quando a Dor me dói, tanjo minha harpaE a harpa saudosa a minha Dor exprime!Estes versos de amor que agora findoForam sentidos na soidão de uma horta,À sombra dum verdoengo tamarindoQue representa a minha infância morta!Pau d’Arco, 1905.

O ÉBRIO

Bebi! Mas sei por que bebi!... Buscava,Em verdes nuanças de miragens, verSe nesta ânsia suprema de beber,Achava a Glória que ninguém achava!E todo o dia então eu me embriagava— Novo Sileno, — em busca de ascenderA essa Babel fictícia do PrazerQue procuravam e que eu procurava.Trás de mim, na atra estrada que trilhei,Quantos também, quantos também deixei!Mas eu não contarei nunca a ninguém,A ninguém nunca eu contarei a históriaDos que, como eu, foram buscar a GlóriaE que, como eu, irão morrer também!Pau d’Arco, 1905.

O CANTO DA CORUJA

A coruja cantara-lhe na portaSinistramente a noite inteira! IndícioMais certo não havia! — Era o suplício!...Daí a pouco, ela seria morta.Saiu. O Sol ardia. A estrada tortaLembrava a antiga ponte de Sublício...Havia pelo chão um desperdícioDe folhas que a áurea xantofila corta.Nisto, ouve o canto aziago da coruja!— Quer fugir, e não vê por onde fuja —Implora a Deus como a um fetiche vago...— Se ao menos voasse! — E o horror começa! RasgaAs vestes; uma convulsão a engasgaE morre ouvindo o mesmo canto aziago!Pau d’Arco — 1905

SENECTUDE PRECOCE

Envelheci. A cal da sepulturaCaiu por sobre a minha mocidade...E eu que julgava em minha idealidadeVer inda toda a geração futura!Eu que julgava! Pois não é verdade?!Hoje estou velho. Olha essa neve pura!— Foi saudade? Foi dor? — Foi tanta agruraQue eu nem sei se foi dor ou foi saudade!Sei que durante toda a travessiaDa minha infância trágica, vivia,Assim como uma casa abandonada.Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas...Sei que na infância nunca tive auroras,E afora disto, eu já nem sei mais nada!Pau d’Arco — 1905

ANDRÉ CHÉNIER

Na real magnificência dos gigantes,Grave como um lacedemônio harmosteAndré Chénier ia subir ao posteA que Luís XVI subira dantes!Que a sua morte a homem nenhum desgosteE incite o heroísmo das nações distantes!...Por isso, ele, a morrer, canta vibrantesVersos divinos que arrebatam a hoste.Não há quem nele um só tremor denote!— Continua a cantar, a alma serena...Mas, de repente, pressentindo a lousa,Batendo com a cabeça no barroteDa guilhotina, diz ao povo: — “É pena!— Aqui ainda havia alguma cousa...”Pau d’Arco — 1905

MYSTICA VISIO

Vinha passando pelo meu caminhoUm vulto estranhamente iluminado...Para onde eu ia, o vulto ia a meu ladoE desde então, não andei mais sozinho!Abraçou-me, beijou-me com um carinhoQue a um ser divino não seria dado...E eu me elevava, sendo assim beijado,Muito acima do humano burburinho!Falou-me de ilusões e de luares,Da tribo alegre que povoa os ares...— Assombrava-me aquela claridade!Mas através daquelas falsas luzesPude rever enfim todas as cruzesQue têm pesado sobre a Humanidade!Pau d’Arco — 1905.

ILUSÃO

Dizes que sou feliz. Não mentes. DizesTudo que sentes. A infelicidadeParece às vezes com a felicidadeE os infelizes mostram ser felizes!Assim, em Tebas — a tumbal cidade,A múmia de um herói do tempo de Ísis,Ostenta ainda as mesmas cicatrizesQue eternizaram sua heroicidade!Quem vê o herói, inda com o braço altivo,Diz que ele não morreu, diz que ele é vivo,E, persuadido fica do que diz...Bem como tu, que nessa crença infindaFeliz me viste no Passado, e aindaTe persuades de que sou feliz!Pau d’Arco — 1905.

CANTO ÍNTIMO

Meu amor, em sonhos, erra,Muito longe, altivo e ufanoDo barulho do oceanoE do gemido da terra!O Sol está moribundo.Um grande recolhimentoPreside neste momentoTodas as forças do Mundo.De lá, dos grandes espaços,Onde há sonhos inefáveisVejo os vermes miseráveisQue hão de comer os meus braços.Ah! Se me ouvisses falando!(E eu sei que às dores resistes)Dir-te-ia coisas tão tristesQue acabarias chorando.Que mal o amor me tem feito!Duvidas?! Pois, se duvidas,Vem cá, olha estas feridas,Que o amor abriu no meu peito.Passo longos dias a esmo...Não me queixo mais da sorteNem tenho medo da MorteQue eu tenho a Morte em mim mesmo!Meu amor, em sonhos, erra,Muito longe, altivo e ufanoDo barulho do oceanoE do gemido da terra!Pau d’Arco, 1905.

A LUVA

Para o Augusto BelmontPensa na glória! Arfa-lhe o peito, opresso,— O pensamento é uma locomotiva —Tem a grandeza duma força vivaCorrendo sem cessar para o Progresso.Que importa que, contra ele, horrendo e pretoO áspide abjeto do Pesar se mova!...E só, no quadrilátero da alcova,Vem-lhe à imaginação este soneto:— “A princípio escrevia simplesmentePara entreter o espírito... EscreviaMais por impulso de idiossincrasiaDo que por uma propulsão consciente.Entendi, depois disso, que devia,Como Vulcano, sobre a forja ardenteDa Ilha de Lemnos, trabalhar contente,Durante as vinte e quatro horas do dia!Riam de mim os monstros zombeiteiros.Trabalharei assim dias inteiros,Sem ter uma alma só que me idolatre...Tenha a sorte de Cícero proscritoOu morra embora, trágico e maldito,Como Camões morrendo sobre um catre!”Nisto, abre, em ânsias, a tumbal janelaE diz, olhando o céu que além se expande:“ — A maldade do mundo é muito grande,Mas meu orgulho inda é maior do que ela!Ruja a boca danada da profanaCoorte dos homens, com o seu grande grito,Que meu orgulho do alto do InfinitoSuplantará a própria espécie humana!Quebro montanhas e aos tufões resistoNuma absoluta impassibilidade!”E como um desafio à EternidadeAtira a luva para o próprio Cristo!Chove. Sobre a cidade geme a chuva.Batem-lhe os nervos, sacudindo-o todo,E na suprema convulsão o doudoParece aos astros atirar a luva!Paraíba, 1905.

GOZO INSATISFEITO

Entre o gozo que aspiro, e o sofrimentoDe minha mocidade, experimentoO mais profundo e abalador atrito...Queimam-me o peito cáusticos de fogo,Esta ânsia de absoluto desafogoAbrange todo o circulo infinito.Na insaciedade desse gozo falhoBusco no desespero do trabalho,Sem um domingo ao menos de repouso,Fazer parar a máquina do instinto,Mas, quanto mais me desespero, sintoA insaciabilidade desse gozo!Pau d’Arco — 1906.

NOME MALDITO

Das trombetas proféticas o alardeFalou-lhe, por seus onze augúrios certos:— “É maldito o teu nome! E, aos céus abertos,Não há divina proteção que o guarde!”Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! IncertosE cruéis momentos! Ânsias cruéis! E, à tarde,Saiu aos tombos, como um cão covardeA percorrer desertos e desertos...E, assombrado, com medo do Infinito,Por toda a parte, onde, aos tropeços, ia,Por toda a parte viu seu nome escrito!Vieram-lhe as ânsias. Teve sede e fome...E foi assim que ele morreu um diaAmaldiçoado pelo próprio nome!Pau d’Arco — 1906.

DOLÊNCIAS

Eu fui cadáver, antes de viver!...— Meu corpo, assim como o de Jesus Cristo,Sofreu o que olhos de homem não têm vistoE olhos de fera não puderam ver!Acostumei-me, assim, pois, a sofrerE acostumado a assim sofrer, existo...Existo!... — E apesar disto, apesar distoInda cadáver hei também de ser!Quando eu morrer de novo, amigos, quandoEu, de saudades me despedaçando,De novo, triste e sem cantar, morrer,Nada se altere em sua marcha infinda— O tamarindo reverdeça ainda,A lua continue sempre a nascer!Pau d’Arco — 1906.

A LÁGRIMA

— Faça-me o obséquio de trazer reunidosClorureto de sódio, água e albumina...Ah! Basta isto, porque isto é que originaA lágrima de todos os vencidos!— “A farmacologia e a medicinaCom a relatividade dos sentidosDesconhecem os mil desconhecidosSegredos dessa secreção divina. —“— O farmacêutico me obtemperou. —Vem-me então à lembrança o pai IoiôNa ânsia psíquica da última eficácia...E logo a lágrima em meus olhos cai.Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu PaiDo que todas as drogas da farmácia!Paraíba — 1909.

À CARIDADE

No universo a caridade,Em contraste ao vício infando,É como um astro brilhandoSobre a dor da humanidade!Nos mais sombrios horroresPor entre a mágoa nefastaA Caridade se arrastaToda coberta de flores!Semeadora de carinhos,Ela abre todas as portasE no horror das horas mortasVem beijar os pobrezinhos.Torna as tormentas mais calmasOuve o soluço do mundoE dentro do amor profundoAbrange todas as almas.O céu de estrelas se vesteE em fluidos de misticismoVibra no nosso organismoUm sentimento celeste.A alegria mais acesaNossas cabeças invade...Glória, pois, à CaridadeNo seio da Natureza!

Estribilho

Cantemos todos os anosNa festa da CaridadeA solidariedadeDos sentimentos humanos.

LAGO ENCANTADO

Vamos, meu desgraçado tamarindo,Por esta grande noite abandonada...As árvores da terra estão dormindoE a mãe da lua já cantou na estrada!Quantos laboratórios subterrâneosE heterogêneos mecanismos váriosE ruínas grandes e montões de estragoE decomposições de muitos crâniosNão foram, porventura, necessáriosPara formar as águas deste lago!Às suas atrações ninguém resiste:Este é o lago de todos os Destinos.O luar o beija. O círculo dos matosAbrange-o, e ele é mais triste e ele é mais tristeDo que a porta fatal dos MogrebinosQue levou Cristo à casa de Pilatos!Rola no mundo um canto de saudade!Tamarindo de minha mocidade,Vamos nele saber nossos destinos?!...

VERSOS DE CIRCUNSTÂNCIA

BILHETE POSTAL

Ilustre professor da Carta Aberta: — AlmejoQue uma alimentação a fiambre e a vinho e a queijoLhe fortaleça o corpo, e assim lhe fortaleçaAs mãos, os pés, a perna et coetera e a cabeça.Continue a comer como um monstro no almoço,Inche como um balão, cresça como um colossoE vá crescendo e vá crescendo e vá crescendo,E fique do tamanho extraordinário e horrendoDo célebre Titão e do Hércules lendário;O seu ventre se torne um ventre extraordinário,Cheio do cheiro ruim de fétidos resíduos;As barrigas então de cinquenta indivíduosNão poderão caber na sua ampla barriga.Não mais lhe pesará a desgraça inimiga,O seu nome também não será mais Antônio.Todos hão de chamá-lo o colosso, o demônio,A maravilha das brilhantes maravilhas.As hienas carniçais, as leoas e as novilhas,Diante do seu vigor recuarão e dianteDo estrídulo metal de sua voz atroanteDe certo, correrão mansas e espavoridas.Se as minhas orações, forem, pois, atendidas,O senhor há de ser o Teseu do universo.Seja um gigante, pois; não faça, porém, versoDe qualidade alguma e nem também me façaArtigos tresandando a bolor e a cachaça,Ricos de incorreções e de erros de gramática,Tenha vergonha, esconda essa tendência asnática,Que somente possui o seu cérebro obtuso —Esconda-a, e nunca mais se exponha a fazer usoDa pena, e nunca mais desenterre alfarrábios.Os tolos, em geral, são tidos como sábiosQuando querem calar-se e reprimir-se sabem,O senhor é papalvo e os papalvos não cabemNo centro literário e no centro político.Respeite-me, portanto!O Poeta Raquítico.

P.S.

Para o dia 17.

Análise dos erros de gramática, cometidos pelo professor de B, A — BÁ, autor dumas cartas que têm feito sucesso num grupo de sábios.

A BORBOLETA

Qualquer festa, onde Momo se intrometa,Brônzeo, quebrando o ramerrão frequente,Possui, possui incontestavelmenteNecessidade duma borboleta.Sou este inseto esplêndido e insolenteDe asa impecabilíssima e faceta...Mas, em torno de mim, quanta caretaFeia, capaz de arrepiar a gente!Adejo aqui. Adejo ali. AdejoAlém... Nutro um desejo e outro desejoE, às vezes, faço bem e faço mal...Polichinelos vis da Humanidade,Eu represento a volubilidadeDas borboletas deste carnaval.

A ROSA

Eu, sendo a rosa rubra e principescaDestas carnavalescas alegrias,Tenho nesta estação carnavalescaO privilégio de durar três dias.A vida humana é uma ópera burlesca.Quem me vê, goza logo, entre harmonias,A sensação de um banho de água frescaE o brando afago ideal das duchas frias.Sou bela. Grandes graças desenvolvo.Com o meu perfume faço, como um polvo,Um só nariz desses narizes todos...Canto e atraio, como a arca dos nababos,O olhar mefistofélico dos diabosE o miolo ruim dos beija-flores doudos...

NONEVAR (1908)

Senhora Virgem-Mãe — Surjo hoje em vossa festaComo na Ásia surgiu outrora o Zend-AvestaQue achou intérprete em Anquetil-Duperron.Sei vibrar toda a escala hierárquica do som,Transmitindo minh’alma aos dedos dos pianistas.À ciência da imortal grei dos gimnosofistasAlio o alto saber da indiana Trimourti.Maior que Michelet, sou Rabelais que riE arrebenta com o riso a máscara malvadaCom que Deus achincalha a geração inchadaDos que trazem no sangue a herança de algum mal.Gozo, além de tudo isto, a virtude especialDa fluidificação imponderabilíssimaQue reduz a óleo suave e a suave água tenuíssimaA substância malsã da agra injúria mordaz.Tal um ferro, batendo o osso dos animaisCom a força da impulsão, depressa o pulveriza,Igualmente a este sol que as plantas carbonizaE ao rígido rigor da xantofila máReduz os vegetais receptáculos aVírgulas de carvão, glóbulos graniformes,Eu reduzo também as saudades enormesA fumaça, a farelo e a outras fragmentações...Eu venho encher de luz os vossos corações:Igual ou superior a Zermane-Akerene,Substituindo o ódio infrene e a atra diatribe infrenePela necessidade altruística de amar,Virgens de minha terra, eu sou o Nonevar.— Aquele rouxinol feito de sentimentoQue nunca precisou de diabo de instrumentoE nem de outra inferior coadjuvação qualquer,Para cantar o Amor e as graças da Mulher.Filha única do Céu, Mulher Paraibana,Eu celebro nesta hora a dignidade humana,Que eternamente em vós se consubstanciou.Vós sois Nossa Senhora em pedaços, e eu souA neve que caiu por sobre esta cidadePara simbolizar a vossa virgindade,E servir de tapete à flor dos vossos pés.Não receeis, pois, de mim, as broncas frases cruéisQue, pronunciadas, ao fulgor destas gambiarrasCaem sobre o coração como oitocentas barrasDe bronze bruto ou como ágil tigre, a morderDeixa na carnação mortal de cada ser,Toda perpetuidade infame de uma nódoa.A legião de homens maus — azorrago-a, incomodo-aCom o hórrido aspecto dum energúmeno a rir,A palavra que vai dos meus lábios sairE a palavra que sai da boca de um giganteE na onda ascensional da acústica triunfanteGalga num jato o ar alto e vai bater no Céu.Burgueses! Ante mim, tirai vosso chapéu.

PERFIS CHALEIRAS

O oxigênio eficaz do ar atmosférico,O calor e o carbono e o amplo éter sãoValem três vezes menos que este AméricoAugusto dos Anzóis Sousa Falcão...Engraçado, magríssimo, pilhérico,Quando recita os versos do TristãoFica exaltado como um doente histéricoSofrendo ataques de alucinação.Possui claudicações de peru manco,Assina no “Croquis” Rapaz de BrancoE lembra alto brandão de espermacete...Anda escrevendo agora mesmo um poemaE há no seu corpo igual a um corpo de emaA configuração magra de um 7.Zé do Pátio

DESPEDIDA

A luz do “Nonevar” hoje se apaga,Muito embora a saudade horrenda rujaComo uma loba hedionda que escabujaNuma explosão enormemente aziaga.Canta hoje essa fealdade atra que estragaA humanidade — esta infeliz corujaA nutrir-se da própria roupa sujaComo um moscardo dentro duma chaga.Na veemência medonha da mandingaNão generalizou essa catingaQue aos estômagos bons causa receios.Interpretou assim a Natureza,Começou em concurso de BelezaE terminou, apoteosando os feios.

NONEVAR (1909)

Padroeira soberana: Eis-me, hoje, em vossa casaOutra vez. Outra vez um fragmento da ampla asaMaterna, com que o kchátria e os sudras protegeis,Ajoelhado, eu vos peço... Eu vos peço, outra vez,Com a cabeça oprimida e triste dos que pensam,A neve tutelar e a bondade da bênçãoQue em minha trajetória hão de sempre cair!Represento, talvez, mais do que o DesatirA consubstanciação dos tradicionalismos,O princípio de luz que esclarece os abismos,O facho acidental caído sobre o caos,O fogo redentor e útil que os germens mausConsome, com a eficácia especial duma esponja.Sem saber declinar os verbos da lisonja,Eu sou o Nonevar do vosso coração,— O livro ubiquitário e único de oração,Em que as virgens do mundo, à hora da tarde, rezam,Quando a Saudade chega, e os vegetais se enfezam,E elegíaca, ante o astro ígneo que já se pôsEstruge a irracional fonética dos boisNuma canção de instinto, ainda mal educada,Que a gente ouve, a tremer, com a alma muito apertada,E uma vontade enorme e íntima de morrer.Virgens da Paraíba, eu vou aparecer,— Ênea tiorba, a anunciar, alto e por toda parteA eternidade do Eu, e a independência da Arte;Universalizando a emoção singular,Invariável no tempo, hei de sempre vibrarNa estática fatal das emoções humanas.Os gregos com a Odisseia e os hindus com os Puranas,A máxima figura antiga de Moisés,A Idade Média com todos os menestréisE todas as canções que a sua noite encerra,Tudo que tem erguido e engrandecido a terra,A lira de Saul e os salmos de David:Tudo isto, como um Deus, eu trago para aqui.Sou a revelação do nôumeno absoluto.Somente eu sei, somente eu conheço, eu perscrutoO mistério do tato e o segredo do som.Tenho a penetração de Edouard PailleronQue para devassar toda a alma femininaNunca necessitou de intervenção divinaE artifícios brutais de jogral ou segrel.Tocaram minha fronte os dedos de Daniel.E eu, profeta, com a unção desses sagrados dedos,Agarro a Natureza e lhe arranco os segredosUm por um, como quem uma autópsia faz.Homero me emprestou seus versos imortais,Destarte, irmão da musa hierática de HomeroAssombrando Voltaire e enxotando LuteroSem a Maia falaz dos antigos hindus,Vendo na própria treva a gênese da luz,Abraçado com o Grand-Être da Humanidade,Cravando o iatagã terrível da verdadeNa fictícia Omoroka ancestral dos CaldeusIgual ao coração legítimo de Deus,A que o Universo inteiro o seu império empresta,Foi assim que hoje eu vim cair na vossa festaComo a neve que cai às vezes numa flor.......................................................Adeus, Nossa Senhora! Adeus, Nosso Senhor!

A. DA S.

Sua magreza de faquir encerraComo o algodão, ainda na maçã,Uma organização de Emanuel Kant,Pontificando a crítica da terra!Tales de Mileto

R. DE C.

Este poeta que canta as coisas levesO Mucuripe, os pássaros e as crianças,Vai realizar no festival das NevesO consórcio das Musas com as Finanças.Tales de Mileto

R. M.

Ao ver o seu pindárico semblanteIluminando a escuridão espessaEu penso que ele leva na cabeçaUma caixa de música ambulante.Tales de Mileto

A. F.

Fazendo mesmo o esforço mais insanoA fonética humana não defineO sentimento deste LamartineQue, entretanto, nasceu paraibano.

FOTOGRAFIAS

Ei-la, a máxima sílfide impoluta— A plenipotenciária da BelezaQue a própria gente bárbara traz presaÀ sua egrégia estética absoluta.Canta, e a gente a davídica harpa escuta!Ah! tamanha harmonia é, com certeza,Toda a objetivação da NaturezaRendida ao Som, no término da luta.E Norme liame ideal a ela nos prende;Quando ela chega, oculto gênio acendeNa imensidade a elipse ígnea dos sóis...Seu canto é o Niebelungen da GermâniaE o homem extraordinário da LituâniaTalvez chorasse, ouvindo a sua voz.Tales de Mileto

A. B.

Je pense comme un ange dans son rêveQue a misericordiosa mão divinaDesta delicadíssima Angelina,De tão perfeita que é, não se descreve!Que ignoto e audaz psicólogo se atreve,Com a sua aristotélica doutrinaA perscrutar essa alma femininaFilha da luz do luar e irmã da neve?!Com a subserviência búdica de um pária,Vejo, na irradiação extraordináriaDos seus olhos, de um fúlgido ônix bom,Duas reproduções de um quadro helenoOnde Safo se vê com o olhar serenoSuspirando na lira por Faon.Tales de Mileto

AP. DOS A.

Este endemoniado e único tipo— Bisneto espiritual de Satanaz,Lembra, na sua crítica mordaz,As sátiras modernas de Menippo.Tales de Mileto

E. P.

Pretende publicar um RamaianaCujo herói principal o intuito nutreDe, com a raiva específica do abutre,Estrangular a canalhice humana.Tales de Mileto

J. L.

Seu monóculo hierático de smartExportado da Rua do Ouvidor,Sanciona este projeto de doutorE o torna bacharel por toda a parte...Tales de Mileto

P. F.

Esta é a autêntica Erato prazenteiraQue, vestida de sol vibrando a lira,Mil rapsódias dulcíssimas inspiraAo coração da humanindade inteira.Na veemência afetiva derradeira,Também, por seu amor com Dejanira,Hércules, do alto monte Eta se atira,À meia-noite, às chamas da fogueira!Terníssima Terpsícore pulquérrima,Descida da montanha íngreme e aspérrimaDentro de um carro heráldico de luz...Quando ela vem, com as mãos cheias de lírios,Param na terra todos os martírios,Quebram-se os braços trágicos da cruz!Tales de Mileto

L. S.

Com a impassibilidade de Epicuro,Diz que será (e o foi, em tempos idos,)Exaltar os prazeres dos sentidosToda a filosofia do futuro!Tales de Mileto

D. C.

Austero, superior, quase de beca,Escavaca, remexe as livrarias,E para aproveitar horas vadiasFaz paródias na própria Biblioteca.Tales de Mileto

D. S.

O livro de Manu e o Zend-AvestaE toda a ciência estética do mundoNão têm, consoante um crítico profundo,Concepção de Arte mais perfeita que esta!É a flor aristocrática da festa.O sol, que é da atração cósmica oriundo,Aos seus olhos — dois céus de amor fecundo,Policromias dióptricas empresta.Com uma sonoridade de harpa avoenga,Sobreexcedendo a própria arte flamenga,Todo o ano, inédita e única, ressurges,Lembrando à alma unitária dos poetas —Uma Nossa Senhora que os estetasForam roubar na Catedral de Bourges!Tales de Mileto

ATENÇÃO!

Aquele último quartetoDa seção “Tipos”, excele,Não foi Tales de MiletoQue o escreveu, mas Bernadelli.

OR. S.

É o Petrônio de nossa Paraíba,Faz artigos, sentado num divãE tem, como o smartíssimo RostandTodos os requisitos de um escriba.Tales de Mileto

OS. S.

Como um impetuosíssimo siroco,Rolam no seu encéfalo as ideias,Conhece as carolíngias epopeiasE é um Maupassant que nunca há de ser louco.Tales de Mileto

J. L.

Com um tecido adiposo que me admiraDeseja, sem nenhum intuito espúrio,Roubar ao mitológico MercúrioA prioridade na invenção da lira.Tales de Mileto

N. R.

Quando, na radiosíssima viagem,Pela poeira telúrica passeia,A íntima e própria ânsia afetiva ateiaNos emocinalismos de um selvagem.Olha-a do alto, invejosa, a Lua Cheia,O milagre de luz de sua imagemDeixa, como lembrança da passagem,Uma sequência de astros sobre a areia.Treme, no abalo inteiro dos neurônios,O coração de todos os Petrônios,Com as sístoles e as diástoles ansiosas,Quando ela balbucia, de mansinho,Como o cisne encantado do caminho,A oração específica das rosas!Tales de Mileto

AL. DOS A.

Indubitavelmente não me queimasMau grado seres crítico e elegante,O cáustico de cada homem pedanteE o flagelo de todas as toleimas.Tales de Mileto

A. E.

Feito com toda a fleugma e toda a calma,A sua reportagem superiorNão omite a minúcia de uma florNem o segredo mínimo de uma alma.Tales de Mileto

J. C. L.

Pontífice de arcádias amorosas,Trata todas as moças com carinhoE gosta mais do cálice das rosasDo que mesmo de um cálice de vinho.Tales de Mileto

R. P.

Não perpetrou, horrendo e sanguinário,O fraticídio trágico de Remo,Dele diatribe de jogral não temoNem pedras negras de fundibulário.Tales de Mileto

V. L.

Vibram na sua voz clara de criança,Com o canto dos boukolos sicilianosTodos os sentimentos sobre-humanos,Dos nômades musards da antiga França!Deus a conserve assim, por muitos anos,Muito alva, muito meiga e muito mansaDando aos desesperados a esperançaDe algum dia destruir seus desenganos!Vem, mas vem, como Vésper, vem rasgandoTodas as tardes, com o seu brilho brando,A última obscuridade e o último véu...E, vindo inteiramente iluminada,Parece que caiu sobre a calçadaUm pedaço magnífico do céu!Tales de Mileto

M. B.

Com a abundância, a fartura e a demasiaDas suas reais e egrégias graças, certo,A vacuidade de qualquer desertoPiedosissimamente ela encheria!Tudo, quando procede da tristezaE em abraços recíprocos se agrega,Desde os olhos estéreis de uma cega,Às mais negras criações da Natureza,Tudo, unânime, ante ela, duma vez,Diria, recobrando a luz perdida,Como numa canção agradecida:— “Bendita sejas tu, por toda a vida,Misericordiosíssima Mercês!”Tales de Mileto

DES. H. C.

Vi-o ontem, na tarefa atabalhoadaDe arranjar votos, nesta capital,Para uma divindade nacionalQue possui um denguinho que lhe agrada.Tales de Mileto

D. P.

Traz à lapela esplêndidas orquídeasE surge, loquacíssimo e contente,De monóculo e anel, rindo alvarmente,Com a imponência do Júpiter de Fídias.Tales de Mileto

J. F.

A tempestuosa e atra alma byronianaQue no Sardanapalo e no ManfredoApreendia, terrível e sem medo,As convulsões da natureza humana,Talvez, estuando estúpida e atra, em faceDe sua estonteadora forma helena,Sentindo-se de súbito serena,Como a vaga vencida, se acalmasse.Por defini-la, Arquitas ou ArquílocoUm século infeliz trabalharia,Safo insuficientíssima seriaE Píndaro seria muito pouco!Destarte o defini-la é inútil. BastaSer ela uma rainha de ouro raroAos pés da qual, como um batráquio ignaro,A Humanidade humílima se arrasta.Tales de Mileto

E. P.

Tosquiou-se ultimamente, e assim tosquiadoParece um singular beneditinoAmarelo, feíssimo, mofinoA lembrar-se dos tempos de barbado.Tales de Mileto

S. DA N.

É deputado, e admirador confessoDa orientação política do Nilo,Quando ouve qualquer valsa de CamiloSoluça com saudade do Congresso.Tales de Mileto

ALINE M.

Justo é que fulja, a vez última, inteiraCom a vibratilidade de um instante,A alma de todo cósmico brilhante,Nesta fotografia derradeira.Fragmentos astronômicos, pedaçosDe céus e luar, tudo isso, envolto em nevePara fazer-te a alva estrutura leve,Veio imediatamente dos espaços.Veio, e todos os dias vem de novoE há de ficar ninguém sabe até quando— Ubíqua tiorba hierática, vibrando,Nas emoções anônimas do povo.Tales de Mileto

NONEVAR (1910)

Alma da Filipeia, ignorada e esquecidaNa mais alta expressão dinâmica da Vida.Sangue, estuando, a alardear rubros glóbulos bons,Surge hoje o “Nonevar” de vossas tradições— Esta privilegiada e grande boca de ouro,De onde jorra a ilusão que mata a água do choroNa nascente infeliz das fontes lacrimais.Não sou como os papéis que, com raiva, rasgais,— Condensadores maus de obsoletas ideias,Onde, lúgubres, vêm todas as odisseiasDa dor hereditária e negra de cada um.O lírico David e o assombroso NaumFicam diante de mim agachados colossos!A energia motriz de meus músculos moçosLembra o Vândalo e lembra o Alano medieval.Às vezes, estrangulo a rede neuronial —De horrendos harpagões, de espírito já pretosTraçando-lhes visões, pondo-lhes esqueletosNo fundo da consciência infecionada e má.Mas, para vós eu sou o anacreôntico EloáDe Alfredo de Vigny — o rouxinol da França.Pareço muita vez uma ave muito mansa;—Helênica ave ideal, apolínica florOriunda de qualquer semente superiorPlantada pelas mãos magníficas de Safo.íncola íntimo do amplo empíreo ático, abafoNesta terra de poeira e de implacável sol.Desejo com veemência ególatra, em meu prol,Comer neve, beber ânforas de falernoE num dia de Abril, dormir o sono eternoNo berço maternal de vosso coração.Oh! abençoado seja o estado de incoesãoDa matéria inicial de onde, um dia, radianteNasceu, como de um deus, a célula gigante —Que fez a majestade enorme de meu ser!Mefistófeles cruel, maligno e atro, a morder,Cravando a aspérrima unha incisiva na gleba,Alucinadamente, a irmanar-se com a ameba,Arranhando, a tombar e a erguer-se a um tempo só,Com a língua inchada e horrenda estirada no pó— Expressão modelar de energúmeno exausto,Toda a tragicomédia autêntica do FaustoE as medonhas criações diabólicas da FéE o Satan miltoniano e o diabo de GrassetE os ritos ancestrais de Lao-Tseu e Mafoma,Tudo isto, na coerência integral de uma somaSão microcosmos vis, comparados a mim.Dançam agora no ar visagens de cetim.Sou eu que, reduzido a um flóculo de neveImponderável como a molécula leveQue a sensação visual não pode descobrirNa ara de vossas mãos, venho ansioso cair!Tales de Mileto

I. MONTEIRO

Esta é a irmã da alvorada, é a deusa gregaQue, motivando esplêndidos assombros,De pé, sorrindo, a cabeleira aos ombros,No áureo coche imperial da estrofe chega.Vem fugida dos céus!... E à forte e nédiaQuadriga que de lá, da empírea altura,Rápida a trouxe à terra, ainda seguraCom as sacras mãos pulquérrimas a rédea!Vede-a: — os olhos ascendem-nos desejos,A boca é um cálice de flor macia,— Um fruto de coral que desafiaOs pássaros quirópteros dos beijos.Ah! quando assoma o seu perfil bizarro,Na conquista de todos os sentidos,—Rolam-lhe aos pés os corações feridos,Ensanguentando as rodas do seu carro!Mercúrio

SMARTS

Dilui-se em vários círculos de agradoEste que, oferecendo um chapéu novo,Dá à vista curiosíssima do povoO aspecto de um reclame vertebrado.Tem a aparência elipsoidal de um ovo,Bebe champagne num cíato dourado!Contra o seu carioquismo requintadoVersos epigramáticos não movo.A idolatria ideal das moças goza,Este miniaturesco Rui BarbosaQue anda fazendo eternamente roda.Mas, mostrando-se sempre economista,Prefere à propaganda civilistaA propaganda dos chapéus da moda.Petronius

H. C.

Celebrem sua intrínseca realezaPara que a humanidade unânime o ouçaOs scólios helênicos e o Pean...Expressão superior da Natureza,Promessa harmoniosíssima de moçaSob a forma de estrela da manhã.Festejem-lhe inda o olhar de deusa etéreaO canto legendário do rapsodoE as órficas, esplêndidas canções.Ah! certamente, a força da matériaAtingiu na escultura do seu todo,A mais perfeita das agregações!Receba ela por fim, de fronte erguida,As comburentes dádivas de fogoE a superabundância celestialQue o sol — o pai monístico da Vida,Dando começo ao matutino jogoAtira em sua forma escultural.Ovidius

A. SÁ

Verdade ou não! O fato é que se achavaEntre as supertições de um povo priscoO Basilisco — um sáurio que matavaCom o olhar! — Teus olhos são de Basilisco...Verdade ou não! Mas da Sereia diz-seQue no alto-mar, noites de lua cheia,Atraía com a voz o nauta!... — Alice,A tua voz é como a da Sereia...Verdade ou não! Contam de Vênus que ela,O sonho de estatuária dos helenos,Usando o Césto se tornou mais bela!— Tu tens o Césto mágico de Vênus...Eis porque é que de joelhos às tuas plantasLanças humilde a humanidade, a um gesto:— Matas com o olhar, prendes com a voz e encantasCom as mágicas virtudes do teu Césto...Mercúrio

M. L.

Não tem o ar democrático de acólito.Para integralizar-lhe a imorredouraGlória, faltam-lhe a altura de Zé Moura,E algumas banhas de Manoel Hipólito.Deixa escapar às vezes, muito dignoNa caudalosa fluência da conversa,Alguns períodos bons de prosa tersaQue em meus arquivos ótimos consigno.E é um gosto vê-lo de óculos, e escuraRoupa, julgando com prazer profundoQue é dele que depende, neste mundo,O progresso da estética futura.Petronius

D. S.

Dúlcida, abrindo, áurea e alva, a galeriaDas que, da excele e hierática hierarquia,Fazem parte, trazendo, alto, a olhos nusÀ absconsa e sepulcral cripta de Ellora,Nos raios caloríficos da aurora,Contribuições celígenas de luz.Da horrenda escuridão das Silvas bastasEmergindo com as pretas tranças vastas,Misericordiosíssima, a cantar,É como se surgisse, de repente,Em noite tropical, cerrada e quente,Um pedaço brilhante de luar.Ovidius

J. GUIMARÃES

Esta que o ebúrneo corpo, altivo, aprumaE, coroada de pétalas de rosas,Vem transformando a estrada em que anda numaVia-Láctea de flores perfumosas:Ótimo aroma suave e imorredoiroEm torno exala! E, trêmula e convulsa,Em sua voz, corda por corda, a de oiroLira de Safo apaixonada, pulsa.E o alvo óleo suave, o brando óleo piedosoQue um sofrimento jóbico aliviandoUnta, de leve, as chagas de um leproso,— É-lhe menos que o olhar, piedoso e brando!Fúlvido, ante ela, o Sol, ígneo, descerra,Por merecê-la, o cofre áureo no espaço!...— E o coração magnânimo da TerraBate mais forte lhe escutando o passo!Mercúrio

M. HlP.

Em sua obesidade soberanaDe gordalhufo senador do ImpérioHá uma concentração de Buda sérioMeditando, alta noite, no Nirvana.Se a pernosticidade atual se danaEle, como Calígula e Tibério,Tem vontade de pôr no cemitérioTodos os monstros da sandice humana.Com a força tartarínica dos braçosConservando até método nos passosDetesta as demostênicas arengas...Não anda recitando misereres— E em matéria de queijos e mulheresSó manda ver flamengos e flamengas.Petronius

A. MOREIRA

Chega, e todas as vezes que ela chegaA vibração de monocórdios hinosEnche, em concertos repetidos, o ar...Como que a alma da prisca gente gregaSe ergue, ouvindo-lhe os risos argentinosPara, ainda, admiradíssima, a admirar.E a gente, olhando-a, sente, súbita a ânsiaDe, do estreitíssimo orbe, em que ela habitaIgnorada dos mundos celestiais,Levá-la, acima da terráquea estânciaAté onde a massa cósmica infinitaRola por sobre as noites sepulcrais!Ovidius

M. B.

Eurípedes — o maior fisiologistaIntrospectivo das heterogêneasE atras paixões humanas imortais.................................................Nas tragédias, nos iambos, nas partênias,Nos ditirambos e outros versos mais,Que, aprofundando a natureza brava,Sem que o tornasse o extremo esforço exangue,Parecia que, abrindo os corações,Tragicamente, em ânsias, arrancavaUm lenço molhadíssimo de sangue,Para mostrá-lo, à noite, às multidões.Pois bem! Se o arcaico Eurípedes, hoje aindaViesse, e a este festival 30 de JulhoConsagrasse seu poético mister,Lamentaria a própria glória findaPor sentir-se incapaz de em seu orgulhoPintar tua beleza de mulher.Então, das femininas hierarquias,Deusa coroada, sem que alguém pintar-tePudesse após Eurípedes, talvez,Tu para todo o sempre ficariasMonopolizadora de minha ArteE credora de todas as mercês.Ovidius

ALZ. BASTOS

Esta a quem doce olhar, tímido, furtas,De régio entono e de perfil bizarro,Vem, coroada de pâmpanos e murtas,Alegoricamente no seu carro.Um punhado de pérolas lhe enfeitaA cabeleira esplêndida e o vestido!— Empunha, altiva, um cetro à mão direitaE esmaga aos pés um coração ferido!Ondeia ao vento a clâmide vermelhaNo ombro alvo e nu, de rosa e leite, morno,E a víbora da Inveja olha-a de esguelha,Com a língua preta babujando em torno!O tigre do Ódio vê-se brando ante elaE a serpente da Cólera ígnea, em calma!— Dormem quietas, em suma, às plantas delaTodas as feras que nós temos n’alma! —Mercúrio

A. DOS A.

Não possui o arqueológico arcabouçoDos megatérios desaparecidos...São seus dedos magríssimos, compridos,Tentáculos de um polvo muito moço.A humanidade atual para ele é um ossoExposto aos paladares atrevidos...Ah! Somente a dentuça dos sabidosHá de roer o quinhão que for mais grosso.É promotor, há muito tempo, advoga,Não consente que o mofo lhe encha a togaSob a exótica forma de estopim.E ao cabo disto, tempo ainda lhe restaPara todas as noites ir à festaComer unicamente amendoim.Petronius

A. FILHO

Baixíssimo, de brancas mâos peludas,De olhos esbugalhados de pitomba,Com os seus juvenalescos risos, zombaDe todas as pessoas barrigudas...Papa coroado de tertúlias mudasEm versos decassílabos de arromba,Apoteosou a companhia TombaE fez um poema inteiro sobre Judas.A íntegra ideia dá, com a cara chata,De alva e esquisitíssima batataNascida num terreno estéril e agro.Deseja ter os músculos de um núbioE faz harmoniosíssimo conúbioCom a musa superior de um poeta magro.Scopas

C. TOSCANO

Climéria é todo o sonho da arte helenaEsculpido nos mármores de Paros,Raios de sol num cálix de açucenaSão-lhe no rosto os grandes olhos claros!“Está naquela idade duvidosa”Que um poeta em versos rútilos descreve:— Menina e moça! Entrefechada rosa!Entreaberto botão de flor de neve!Recende-lhe a palavra sobremodoA um perfume de sândalo e bonina!E a impecabilidade do seu todoPede uma estátua criselefantina!Quando ela surge, e em torno os olhos vaga,Turba as estrelas no alto espaço infindo:— Também o sol com o olhar lúcido apagaTodos os astros quando vem surgindo!Mercúrio

ALEX DOS A.

Dentre a camaradagem dos janotasComo um peru anda fazendo rodaE com os seus semicírculos, engodaOs chicos, as chiquinhas e as chicotas...Chamaram, noutro dia, borra-botasA esse Mané científico da moda,Cujo ar aristocrático incomodaA pose má das multidões idiotas...Tem desejos danados de ir à França,Satisfazer unicamente a pança,E ler no original Edmond Rostand...De regresso, smartíssimo, tencionaRecostado em jacíntica poltronaComer pão com manteiga de manhã...Petronius

D. C.

Há um movimento intrínseco e profundoNa Natureza, para festejá-la;E ela recebe, no âmbito da salaA oblação panegírica do mundo.Deuses desconhecidos superioresTrazem todos os dias à su’almaNuma conjugação plácida e calmaAçafates pleníssimos de flores.E ela dos deuses áticos, acimaHá de ficar, hierática, adoradaE para todo sempre perpetuadaNa ênea memória póstuma da rima.Ovidius

O. XAVIER

Quando Olívia aparece o orbe se acendeTodo, num brilho intenso e policromo,E o tépido ar ambiente arde e recendeA nardo, a incenso, a mirra e a cinamono!Descem do Olimpo os deuses para vê-la;O sol canta-lhe esplêndida, ígnea, loa;Um anjo rindo assoma em cada estrelaE êneo timbale célico reboa.Depois da festa do Éter, do áureo bandoDos astros a correr no espaço infindo:Na terra, asas batendo... aves cantando...Urnas de aroma, flóreas, se partindo!...Mãos de róseo veludo e unhas de opalaSacudindo-lhe pétalas em cima...— E os poetas, ajoelhados, a incensá-laCom os doirados turíbulos da Rima!Mercúrio

AF. DOS A.

Este que em rimas ásperas debuxoSem lhe votar o mínimo respeito,— Espécie de anacreôntico sujeitoQue não liga importância alguma ao luxo,Aguenta tudo: pândegas, repuxo,Inalteravelmente satisfeito,Não receia ter febre, dor de peito,Nem solitária a lhe crescer no bucho.Faz diabólicas coisas, esperneia,Satiriza com gosto a gente feia,Julgando-se por isto homem feliz.E desde o Prata às plagas do AmazonasÉ o remorso ambulante das trintonasCom o seu cabulosíssimo nariz.Petronius

ALINE M.

No atro mármore mau dos versos meusGravo hoje esta que, adstrita a áureo pináculo,Lembra o privilegiado receptáculoDas prodigalidades de algum deus.Vezes, possui, esta Valquíria sãO aspecto de uma rosa muito frescaDesabrochando, alva e miniaturesca,Numa paradisíaca manhã.Bendita a estrela de oiro que a conduz,E a cujos imperiosos magnetismos,Desaparecem todos os abismosTransformados em tálamos de luz.Ovidius

ALAÍDE MONTEIRO

Salve, deusa que em Pafos se cultua!Que estranha ave do céu, gárrula, cantaDentro do ninho de coral da tuaBela, suavíssima, ótima garganta?!A caçoila da minha estrofe exaleA mirra e o incenso arábico mais brandoA ti que, assim como Hércules Onfale,Puseste aos pés a humanidade fiando!E que, bem como a água de um lago imundoA alvíssima asa imácula dos cisnes,Atravessas os pântanos do mundoSem que a diáfana alvura da alma tisnes.Diante o esplendor da tua maravilha,Beijando as tuas tranças de veludo,Flor da espuma do mar de Chipre, filhaDo sol e irmã do luar: — Eu te saúdo!Mercúrio

LEON. SM.

Este tipo, muito alto e muito louro,Espécie de Voltaire contemporâneoTem lampejos satânicos no crânioE o próprio Mefístófeles no couro.Areopagita assíduo deste foroArruine-o, esmague-o, enforque-o e, em suma, esgane-oTodo aquele, Mané, Chico ou Libânio,Que recear seu talento imorredouro.Olhem como ele agora faz caretas,Vê neste mundo extraordinárias tetasQue a gente deve, sôfrega, mamar.E ao cabo disto, num café urbano,Achincalhando o sentimento humanoPõe-se estrondosamente a gargalhar.Petronius

PUPU F.

Quando ela vem, cheirando a nardo santo,Luminosa coluna no ar se elevaE o reino demoníaco da trevaDesaparece como por encanto.Força é que extraordinária ode encomiásticaMelhor que o Pean e o canto das sereiasCelebre suas régias graças, cheiasDos magníficos dons da força plástica.E tudo ante ela, envolta em nítido halo,Como uma subserviente vassalagemVenha trazer-lhe, à guisa de homenagem,A alma reconhecida de vassalo.Ovidius

SAF. OLIVEIRA

Esta que arrastaria a alma pristinaDos gregos, inclusive Homero — o mestre,Por ser na crosta rígida terrestreUm milagre de gênese divina:Dá a quem crava sobre ela o amplo olhar fundoA ilusão psicológica do enleio!— Asa paradisíaca que veioPara voar nove noites, sobre o mundo.Agora, adstrita à unânime harmonia,Altares lhe erga a humanidade serva,Como os pagãos do templo de MinervaNa nevrose feliz da idolatria.E o luar lúcida esteira, ao som das lirasEstenda, embora escuro esteja, desdeQue ela apareça em cheio, enchendo o 3 deAgosto, de Oliveiras e Safiras.Ovidius

ALICE S. CARVALHO

A humanidade unânime e alto a aplauda!Porque a esta irmã da aurora, quando desceO sol, seu noivo, na celeste laudaEpinícios de togo áureo oferece!Erguem-se em roda do seu vulto lindoNuvens claras de incenso muito brando...Há por tudo um rumor de asas se abrindoE um barulho de pérolas rolando.Um deus doce licor do céu lhe ofertaNuma rosa de pétalas vermelhas:— Rosa paradisíaca entreabertaPara os beijos da aurora e das abelhas!E a estátua da Anadiômene, alva e bela,Diante de quem toda beleza é pouca,Os níveos braços move para ela,Com um sorriso de mármore na boca!Mercúrio

ALTARES

“Estes sinceros cânticos dispersosÀ Musa Inspiradora dos meus versos”Quero que o povo ante esta deusa austeraAjoelhado lhe oscule o pó do rastro!E a espere ansioso, como quem esperaA passagem magnífica de um astro!⁂Fugida das paragens luminosasAinda a engrinalda, acesa, a última réstia...Calçam-lhe os pés dois cálices de rosasE o sol com o manto do seu oiro veste-a!Alvo colar de pérolas pequenasGuarda no estojo de coral da boca,Seu passo é leve como o das camenasE a estrada em que anda de magnólias touca.Envergonhado o rouxinol se calaLhe ouvindo a voz: — que a sua voz de santaPovoa a terra de aves, quando fala,Povoa o céu de estrelas, quando canta!Os olhos são-lhe quietos lagos ondeSeu luminoso espírito se espelhaE o coração, que a hóstia do amor esconde,Aurilavrado artóforo semelha!A asa que ao sol, cortando águas serenas,Como um leque de prata, um cisne espalma,Tem nódoas e tem máculas nas penas,Comparada à brancura de su’alma!Anima-a celestial, vivido sopro...Rondam-lhe beijos rútilos os flancos!Ah!... Certo foi um deus com um sacro escopro,Quem lhe esculpiu os belos braços brancos!Quando ela surge em meio de secretasHarmonias e brilhos singulares,— Cantam todos os pássaros e poetasE iluminam-se todos os altares!Mercúrio

AVANI M.

Esta deusa infantil que hoje vos mostro,Ajoelhado, com a citara em sossego,Lembra um miniaturesco ídolo gregoDiante do qual, como um pagão, me prostro.Nítidas, do céu côncavo e alto, jorremNuma caudalosíssima fluênciaSobre sua arcangélica inocênciaAs línguas de oiro que no espaço correm.A Humanidade, estúpida, de rastrosContemple-a... Toda a Flora se desfolheVendo-a, e do Alto, com raiva ofídica, a olheO ígneo exército etéreo e áureo dos astros.Ovidius

ED. P.

Este valente espírito infernalDe expressão fisionômica jucundaQue satiriza com ironia fundaNossa grande sandice regional,Sobre a espinha (refiro-me à dorsal)Da pernosticidade vagabundaAplica, rindo, formidável tundaAfora uma injeção intraventral.A acreditar-se na metempsicosePara que a gente fantasias gozeE veja aberrações que nunca viu...Este endiabrado smart Eduardo Pinto,É o espírito profano de JacintoQue no Espírito Santo ressurgiu.Petronius

IVONE L.

D’“O Nonevar” no número último, é estaGermânica e louçã sílfide leveQue vem fechar com a sua mão de neveO Calendário rútilo da Festa.Ah! com certeza, sem que o orgulho a entrone,Ceres, Vesta, Minerva, Juno e ElêusisE a corte mitológica dos deusesSão escórias do céu, junto de Ivone.Tentam da Inveja os ínfimos ofídiosMordê-la. E em vão! Espera-os o hiante ocaso.Ivone, adeus! Publius, Óvidius Naso(Que é o nome inteiro) ou simplesmente:Ovidius

J. A. F.

Baixíssimo, de mãos miudinhas, andaComo um ventilador, sem ter descanso,Seu pescoço magérrimo de gansoSurge sempre roscofe na quitanda.Para a tábua o mundo inteiro mandaQuando à goela lhe vem o ardor do rançoMas tem meiguices de carneiro manso,E usa muito nos pés Sebo de Holanda.Faz reportagens de valor enorme,Quando a lua é minguante pouco dorme,Há poucos dias, o Álvaro MonteiroLhe perguntou assim quase em segredo:“Com que então, seu Totonho Figueiredo,Seu maganão, V. é escopeteiro?!”Petronius

VERSOS CARNAVALESCOS

Digno, como um presidente— CLOWNESCO, tangendo guisosAbro a válvula dos risosPara alegrar esta gente.Meu povo, não seja leso!Reparem Manoel HipólitoDas bricadeiras acólitoE peru de roda obesa.Vejam como ele está teso!O seu olho não balança.Mas o que nele a esperançaEstrangula, e o põe de molho,Não é, meus senhores, o olhoÉ o promontório da pança.Boas-noites, seu Mesquita,Deixe de fazer esgares,Olhe a seta dos olharesDaquela moça bonita!Para que se precipita?!Coma presuntos e engorde,Mesquita, não durma, acorde,V. é lá criancinha?Agora uma perguntinha:Seu Mesquita, V. morde?Que fenomenais arranjos,Que impulsos de bode esperto,Será aquele de certoDr. Odilon dos Anjos?Em matéria de marmanjosNinguém o excede, em verdade.Possui tudo: — a exiguidadeDos seus bigodes de gato;E aqui não há nenhum ratoQue o vença em sagacidade.Olhe o Benjamim Fernandes,Sujeito de mãos gorduchasQue é fabricante de buchasE tenta transpor os Andes.Usa umas pernas tão grandes,Que até me causam receio,É forte no bamboleio,Tem pestanas de estopim,Toma figa, Benjamim,Vá de retro, bicho feio!Possuo a harpa de David,E embora, senhores, pequeEu faço um salamalequeÀ elegância de Nini.Ninguém me expulsa daqui,Não há ninguém que me expulse,Faltam-me as rimas em ulce,Que sorte aziaga e mesquinha,Bravos de D. DonzinhaE da elegância de Dulce!D. Áurea aceite deverasMeus parabéns, olhe, aceite,Eu peço que não enjeiteEstas palavras sinceras.Rasgue as máscaras austeras,Isto lhe não dá trabalho.D. Nevinha Carvalho,Responda, não vá embora,Diga, por que é que a senhoraNão faz versos para O Malho?Vamos fazer da FoliaUm alegórico mastro!É D. Eurídice CastroQuem no-lo fazer devia,Mas fica para outro diaEsta exótica incumbência,A absurda resplandecênciaDo carnaval continueQue o povo, quando se influiNão interrompe a alegria.Como um soberbo paxáAqui termino. Aqui fico(Entre parênteses) ChicoSolon ou Chico de Sá.Como ele, talvez não há,Raspou noutro dia o andó.Às vezes, resmunga sóPremeditando atitudesDe elegância, come grudesE escreve Dulce com O.Chico das Couves

IMPROVISO

No ardor de ingenuidades folgazãsVive entre fartas ilusões travessas,Parece que possui duas cabeçasE é a mais formosa das maracanãs.

QUADRA

De caras que inspiram tédioA humanidade está cheia.Para uma cara tão feiaPrecisa haver um remédio.

QUADRAS COMERCIAIS

1Certo ninguém se incomodaNem corre aziagos perigos,Comprando os belos artigosLá da Rainha da Moda.2É maior que, juntamente,O grande Etna e o ChimborazoO Vesúvio do VicenteMais do Angelo Rattacaso.3Eu hoje em versos levanto,Como uma hóstia na patena,Todo o brilho e todo o encantoDa notável Casa Pena.4Vem-me agora, com certeza,A enormíssima vontade,De proclamar a riquezaDa formosa Casa Andrade.5Sonoridade de sino,E vibrações estridentesProclamam as excelentesBoas novas do Avelino.6Se a minha Musa não erra,É um celestíssimo domQue Deus presenteou à terraA Mediana de Aragon.7Apregoamos a eficáciaContra as humanas morbosesDas profiláticas dosesDa Silva Lemos Farmácia.8O Observatório de SagresPredisse, como sabemos,Os muitíssimos milagresDa Farmácia Silva Lemos.9Nesta cidade onde o atraso,Lembra uma cara morfética,Fez monopólio da estéticaA Loja do Rattacaso.10Garantimos, num assomo,Não há remédio tão bomE eficacíssimo comoA Mediana de Aragon.11Se, doente, por vezes andas,Arrastando horrendos tédiosVai à Farmácia VarandasQue tens todos os remédios.12Sei que um chinês de rabichoLendo a búdica doutrina,Fez propaganda na ChinaDe tudo que há n’O Capricho.13Estrela não há que atraiaMais do que os bicos e as rendasE as finíssimas fazendasDa loja de Antônio Maia.14Avantesmas e duendes,Gênios maus da Natureza,Fogem, perante a belezaDo Capricho, de seu Mendes.