LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador


Edição de base:
Biblioteca Nacional – setor de obras digitalizadas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

LIVRO PRIMEIRO - EM QUE SE TRATA DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL, COSTUMES DOS  NATURAIS, AVES, PEIXES, ANIMAIS E DO MESMO BRASIL.

 

LIVRO SEGUNDO - DA HISTÓRIA DO BRASIL NO TEMPO DO SEU DESCOBRIMENTO

 

LIVRO TERCEIRO - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU TOMÉ DE SOUZA ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR MANUEL TELES BARRETO

 

LIVRO QUARTO - DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU MANUEL TELES BARRETO ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR GASPAR DE SOUZA

 

LIVRO QUINTO - DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU GASPAR DE SOUZA ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR DIOGO LUIZ DE OLIVEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIVRO PRIMEIRO

EM QUE SE TRATA DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL, COSTUMES DOS  NATURAIS, AVES, PEIXES, ANIMAIS E DO MESMO BRASIL.

 

 

 

 

 

 

Escrita na Bahia a 20 de dezembro de 1627.

 

 

 

DEDICATÓRIA

 

AO LICENCIADO MANUEL SEVERIM DE FARIA CHANTRE NA SANTA SÉ DE ÉVORA

 

 

O motivo que teve Aristóteles para se divertir da especulação, a que o seu gênio e inclinação natural o levava, como consta da sua Lógica, Física, e Metafísica, e dar-se a escrever livros históricos e morais, quais as suas Éticas epólicas e a história de animais, além de lho mandar o grande Alexandre, e lhe fazer as despesas, foi ver também, que estimava tanto o livro de Homero, em que se contam os feitos heróicos de Achiles, e de outros esforçados guerreiros que, segundo refere Plutarco in vita Alexandre de ordinário o trazia consigo, ou quando o largava da mão o fechava em escritório guarnecido de ouro, e pedras preciosas, melhor peça, que lhe coube dos despojos de Dario, ficando-lhe na mão a chave, que de ninguém a fiava, e com muita razão, porque como diz Túlio, de oratore, os livros históricos são luz da verdade, vida da memória, e mestres da vida; e Diodoro Siculo diz in proemio sui operis, que estes igualam os mancebos na prudência aos velhos, porque o que os velhos alcançam com larga vida e muitos discursos, podem os mancebos alcançar em poucas horas de lição, assentados em suas casas.

 

Eis aqui a razão por que o grande Alexandre tanto estimava o livro de Homero, e se hoje houvera muitos Alexandres, também houvera muitos Homeros, porque como diz Ovídio

 

                 scribentem juvat ipse favor, minuitque laborem:

                 Cun-ique suo crescens pectore fervet opus.

 

O favor ajuda o escritor, alivia-lhe o trabalho, anima-o, e dá-lhe fervor a sua obra; porém o que agora vemos é que querendo todos ser estimados, e louvados dos escritores, há mui poucos que os louvem e estimem, e menos que lhes façam as despesas, só temos a V. M. em Portugal que os estima, e favorece tanto como se vê na sua livraria, que quase toda tem ocupada de livros históricos, e principalmente no que fez de louvores dos três historiadores portugueses, Luiz Camões, João de Barros e Diogo do Couto, favor tão grande para escritores de histórias, que se pode dizer, e assim é, que aos mortos da vida, ressuscitando-lhes a memória, que já o tempo lhes tinha sepultada, e aos vivos excita, dá ânimo e fervor, para que saiam à luz com seus escritos, e folgue cada um de contar, e compor sua história. Este foi o motivo que tive, para sair com esta do Brasil,  junto com V. M. ma  querer fazer de tomar a impressão à sua custa para em tudo se parecer com Alexandre. Outro tive, que foi pedir-mo Vossa Mercê, e pelo conseguinte mandar-mo, pois os rogos dos senhores tem força de  preceitos. Glos. ï l unica, et in L. I. ff., quod jussu, donde é aquele verso

 

                 Est rogare ducum species violenta jubendi.

 

E assim foi este de tanta força, que não só incitei a um amigo que a mesma história compusesse em verso, de sorte que pudesse dizer o que disse Santo Agostinho ao Santo bispo Simpliciano, que havendo-lhe pedido um tratado breve em declaração de certas dificuldades lhe ofereceu dois livros inteiros, desculpando-se, ainda, com ser a letra tanta, que pudera causar fastio, de não satisfazer que lhe foi pedido, conforme ao desejo do suplicante; são suas palavras as que se seguem:

 

Vereor ne ista, quae sunt a me dicta, et non satisfecerint expectationi et taedio fuerint gmavitati tuae, quandoquidem et tu ex omnibus, quae interrogati unum a me libellum misti veles, ego duos libros, eosdemque longissimos  misi, et fortasse quaistionibus nequaquam expedite diligenter respondi. Aug. Lb. 2 º  quaistion. ad Simplic.

 

Desta maneira havendo-me Vossa Mercê pedido um tratado das coisas do Brasil, lhe ofereço dois, leitura, que pudera causar fastio, se o diverso método a não variara, e dera apetite, e contudo receio de não satisfazer curiosidade de Vossa Mercê, segundo sei, que gosta desta iguaria. Donde tomei também motivo para a dedicar a Vossa Mercê e não a outrem, lembrando-me que por dar Jacó a Isac seu pai uma de que gostava alcançou a bênção como a mãe lho havia certificado, dizendo:

 

Nuncergo, fihi mi, acquiesce consiliis meis: et mihi duos hcedos ut faciam ex eis escas patri tuo, quibus libentar vescituri quas cum intulenis, et comedenit bençdicat tibi.

 

Bem enxergou o santo velho, ainda que cego, que Jacob o enganava, pois o conheceu pela voz. Vere quidem voz Jacob, est; mas levado do gosto da iguaria a que era afeiçoado depois da inspiração do céu lhe concedeu a bênção, esta peço eu a Vossa Mercê, e com ela não tenho que temer a maldizentes. Nosso Senhor, vida, saúde, e estado conserve e aumente a Vossa Mercê, como os seus lhe desejamos.

 

 

 

Bahia, 20 de dezembro de 1627.

 

 

 

Servo de Vossa Mercê

 

FREI VICENTE DO SALVADOR.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIVRO PRIMEIRO

 

DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL

 

 

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

Como foi descoberto este Estado

 

 

 

A terra do Brasil, que está na América, uma das quatro partes do mundo, não se descobriu de propósito, e de principal intento; mas acaso indo Pedro Álvares Cabral, por mandado de el-rei d. Manuel, no ano de 1500 para as Índias, por capitão-mor de 12 naus, afastando-se da costa de Guiné, que já era descoberta ao Oriente, achou estoutra ao Ocidente, da qual não havia notícia alguma, foi costeando alguns dias com tormenta até chegar  a um porto seguro, do qual a terra vizinha ficou com o mesmo nome.

 

Ali desembarcou o dito capitão com seus soldados armados, para pelejarem; porque mandou primeiro um batel com alguns a descobrir campo, e deram novas de muitos gentios, que viram; porém não foram necessárias armas, porque só de verem homens vestidos, e calçados, brancos, e com barba / do que tudo eles carecem / os tiveram por divinos, e mais que homens, e assim chamando-lhe Caraíbas, que quer dizer na sua língua coisa divina, se chegaram pacificamente aos nossos.

 

Donde assim como os índios da Nova Espanha, quando viram desembarcar nela os espanhóis lhes chamaram viracocés, que significa escumas do mar, parecendo-lhes que o mar os lançara de si como escumas, e este nome lhes ficou sempre, assim somos ainda destoutros chamados Caraíbas e respeitados mais que homens. Mas muito mais cresceu neles o respeito, quando viram oito frades da ordem do nosso padre São Francisco, que iam com Pedro Álvares Cabral, e por guardião o padre frei Henrique, que depois foi bispo de Cepta, o qual disse ali missa, e pregou, onde os gentios ao levantar da hóstia, e cálice se ajoelharam, e batiam nos peitos como faziam os cristãos, deixando-se bem nisto ver como Cristo senhor nosso neste divino Sacramento domina os gentios, que é o que a igreja canta no Invitatório de suas Matinas, dizendo: Christum regem dominantem gentibus, qui se manducantibus dat spiritus pinguedinem, venite adoremus.

 

Do deus Pã, diziam os antigos gentios, que dominava e era senhor do Universo, e disseram verdade se o entenderam deste Pã divino; porque sem falta ele é o Deus que tudo domina, e apenas há lugar em toda a terra onde já não seja  venerado, nem nação tão bárbara de que não seja  querido e adorado, como estes Brasis bárbaros fizeram.

 

Bem quiseram os nossos frades, pela facilidade que nisto mostraram, para aceitarem a nossa fé católica, ficar-se ali, para os ensinarem e batizarem, mas o capitão-mor, que os levava para outra seara não menos importante, partiu daí a poucos dias com eles para a Índia, deixando ali uma cruz levantada como também dois portugueses degradados para que aprendessem a língua, e despediu um navio a Portugal, de que era capitão Gaspar de Lemos com a nova a el-rei d. Manuel, que a recebeu com o contentamento, que tão grande coisa, e tão pouco esperada merecia.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SEGUNDO

 

Do nome do Brasil

 

 

 

O dia em que o capitão-mor Pedro Álvares Cabral levantou a cruz, que no capítulo atrás dissemos, era 3 de maio, quando se celebra a invenção da Santa Cruz, em que Cristo Nosso Redentor morreu por nós, e por esta causa pôs nome à terra, que havia descoberta, de Santa Cruz, e por este nome foi conhecida muitos anos: porém como o demônio com o sinal da cruz perdeu todo o domínio, que tinha sobre os homens, receando perder também o muito que tinha nos desta terra, trabalhou que se esquecesse o primeiro nome, e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau assim chamado, de cor abrasada e vermelha, com que tingem panos, que o daquele divino pau que deu tinta e virtude a todos os sacramentos da igreja, e sobre que ela foi edificada, e ficou tão firme e bem fundada, como sabemos, e porventura por isto ainda que ao nome de Brasil ajuntaram o de estado, e lhe chamaram estado do Brasil, ficou ele tão pouco estável, que com não haver hoje 100 anos, quando isto escrevo, que se começou a povoar, já se hão despovoados alguns lugares, e sendo a terra tão grande, e fértil, como adiante veremos, nem por isso vai em aumento, antes em diminuição.

 

Disto dão alguns a culpa aos reis de Portugal, outros aos povoadores; aos reis pelo pouco caso que haviam feito deste tão grande estado, que nem o título quiseram dele, pois intitulando-se senhores de Guiné, por uma caravelinha que lá vai, e vem, como disse o Rei do Congo, do Brasil não se quiseram intitular, nem depois da morte de el-rei d. João Terceiro, que o mandou povoar e soube estimá-lo, houve outro que dele curasse, senão para colher suas rendas e direitos; e deste mesmo modo se haviam os povoadores, os quais por mais arraigados, que na terra estivessem, e mais ricos que fossem, tudo pretendiam levar a Portugal, e se as fazendas e bens que possuíam soubessem falar também lhes haveriam de ensinar a dizer como os papagaios, aos quais a primeira coisa que ensinam é papagaio real para Portugal; porque tudo querem para lá, e isto não tem só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra, não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem, e a deixarem destruída.

 

Donde nasce também, que nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. Não notei eu isto tanto quanto o vi notar um bispo de Tucuman da Ordem de S. Domingos, que por algumas destas terras passou para a Corte, era grande canonista, homem de bom entendimento e prudência, e assim ia muito rico; notava as coisas, e via que mandava comprar um frangão, quatro ovos, e um peixe, para comer, e nada lhe traziam: porque não se achava na praça nem no açougue, e se mandava pedir as ditas coisas, e outras muitas a casas particulares lhas mandavam, então disse o bispo verdadeiramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república, sendo-o cada casa; e assim é, que estando as casas dos ricos / ainda que seja  a custa alheia, pois muitos devem quanto têm / providas de todo o necessário, porque tem escravos, pescadores, caçadores, que lhes trazem a carne e o peixe, pipas de vinho e de azeite, que compram por junto: nas vilas muitas vezes se não acha isto a venda. Pois o que é fontes, pontes, caminhos e outras coisas públicas é uma piedade, porque atendo-se uns aos outros nenhum as faz, ainda que bebam água suja, e se molhem ao passar dos rios, ou se orvalhem pelos caminhos, e tudo isto vem de não tratarem do que há cá de ficar, senão do que hão de levar para o reino.

 

Estas são as razões porque alguns, como muitos dizem, que não permanece o Brasil nem vai em crescimento; e a estas se pode ajuntar a que atrás tocamos de lhe haverem chamado estado do Brasil, tirando-lhe o de Santa Cruz, com que pudera ser estado, e ter estabilidade e firmeza.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO TERCEIRO

 

Da demarcação da terra, e costa do Brasil com a do Peru e Índias de Castela

 

 

 

Grandes dúvidas e diferentes se começavam a mover sobre as conquistas das terras do Novo Mundo, e houveram de crescer cada dia mais, se os reis católicos de Castela, d. Fernando, e d. Isabel, sua mulher, e el-rei de Portugal, d. João Segundo, que as iam conquistando não atalharassem com um concerto, que entre si fizeram, de que também deram conta ao Papa, e houveram sua aprovação e beneplácito. O concerto foi, que de uma das ilhas de cabo Verde chamada Santo Antão se medissem 370 léguas para o oeste, e dali lançando uma linha meridiana de norte a sul, todas as terras e ilhas que estavam para descobrir desta linha para a parte do oriente fossem da coroa de Portugal, e as ocidentais da coroa de Castela.

 

Conforme a isto, diz Pedro Nunes, famoso cosmógrafo, que a terra do Brasil da Coroa de Portugal começa além da ponta do rio Amazonas, da parte do oeste no porto de Vicente Pizon, que demarca em dois graus da linha equinocial, para o norte, e corre pelo sertão até além da Baía de S. Mathias, por 44 graus, pouco mais ou menos, para o sul, e por esta medida / diz o mesmo cosmógrafo / tem o Brasil pela costa 1500 léguas; porém, dado que assim seja  na teoria a prática é não chegar ao Brasil mais que até o rio da Prata, que esta em 35 graus, e, contudo, ainda tem mais de 1000 léguas por costa, porque posto que em algumas partes corre de norte a sul, que são os graus só de 17,5 léguas: todavia pela maior parte, que é para o sul do cabo de Santo Agostinho até o rio da Prata, corre de nordeste a sudoeste, que são de 25 léguas, e para o norte do cabo Branco até o rio Amazonas, quase de leste a oeste, onde se altera o grau, se multiplicam as léguas, e assim não é muito que em 35 graus haja tantas.

 

Donde se colige também, que é a terra do Brasil da figura de uma harpa, cuja parte superior fica mais larga ao norte correndo do oriente ao ocidente, e as colaterais a do sertão do norte a sul, e da costa do nordeste a sudoeste, se vão ajuntar no rio da Prata em uma ponta à maneira de harpa, como se verá no mapa mundi, e na estampa seguinte.

 

Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse, por negligência dos portugueses que, sendo grandes conquistadores de terras, não se aproveitam delas, mas contentam-se de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos.

 

Depois do sobredito concerto e demarcação, se moveram ainda novas dúvidas sobre a conquista destas terras; porque um português por nome Fernão de Magalhães, homem de grande espírito, e de muita prática e experiência na arte de navegação, por um agravo que teve de el-rei d. Manuel, por lhe não mandar acrescentar um tostão a moradia que tinha para ficar igual a de seus antepassados, se tirou do seu serviço e se passou ao imperador Carlos Quinto, oferecendo-se até dar maiores proveitos da Índia de que tinham os portugueses, e por viagem mais breve e menos custosa e perigosa que a sua, por um estreito que ele novamente descobrira na costa do Brasil; e lhe pôs também as ilhas de Maluco na demarcação de Castela. Ao que o imperador não somente deu ouvidos, mas admitiu ao seu serviço, e posto que el-rei lhe escreveu logo, fazendo-lhe as lembranças necessárias, não deixou de dar navios e gente a Fernão de Magalhães com que cometeu a viagem, e foi pelo estreito às ilhas de Maluco, onde todos se perderam, exceto um, que depois de passar muitos trabalhos e perigos, e cinco meses de fome estreitíssima, de que lhe morreram 21 pessoas, os que ficaram vivos, constrangidos da extrema necessidade, arribaram-se à ilha de Cabo Verde, onde os portugueses, enquanto não souberam da viagem que traziam, os agasalharam e proveram com todos os mantimentos e refrescos necessários, porque os castelhanos diziam virem das Antilhas, mas depois que entenderam a verdade, determinaram secretamente de lançar mão da nau, e a fizeram deter, até darem aviso ao reino, o que também aventaram os castelhanos, e se fizeram à vela com tanta pressa, que não tiveram tempo de recolher o seu batel, e os da ilha o tomaram com 13 homens, que estavam em terra, e os mandaram logo a el-rei com novas do que passava. el-rei que já nesse tempo era d. João Terceiro, por falecimento de el-rei d. Manuel, seu pai, que havia um ano era morto, a 13 de dezembro de 1521, mandou logo quatro caravelas em busca do navio, mas por maior pressa, que se deram, acharam novas, que já era aportado em Sevilha.

 

Pelo que determinou no seu Conselho de mandar pedir ao imperador toda a especiaria, que o navio trouxera das ilhas de Maluco, por estarem dentro da sua demarcação, e que não quisesse começar a dar motivo de se quebrarem as pazes, que por ambos estavam ratificadas, e assim o escreveu ao imperador e a Luiz da Silveira, que havia mandado por seu embaixador a Castela sobre casamentos e lianças, escreveu mudasse a substância da embaixada, e só tratasse deste negócio, como também o mandou fazer o imperador pelo seu secretário que estava em Portugal, Cristóvão Barroso, ao qual escreveu, que falasse logo a el-rei, e lhe desse uma carta, que sobre isso lhe escrevia, em que se queixava muito de todas estas coisas, e principalmente de ele mandar no alcance da sua nau, que vinha carregada de especiaria das terras, que cabiam na sua demarcação sem tocar por toda a Índia e que isto era quebrar as capitulações antigas, e novas das pazes, que estavam assentadas, e juradas de um reino a outro, sendo todos os navios portugueses por seu mandado mui bem recolhidos em todos os portos de seus senhorios, por onde lhe pedia, que lhe mandasse soltar os presos, e castigar na ilha os que prenderam: às quais queixas se respondeu de parte a parte, que se poriam em juízo, e se julgaria o que fosse justiça.

 

 Mas  sem falta se viera o negócio a averiguar pelas armas, se não se efetuassem neste tempo os casamentos del-rei com a rainha d. Catarina irmã do imperador, e do imperador com a imperatriz d. Isabel, irmã del-rei com que ficaram duas vezes cunhados, e irmãos, e pelo conseguinte em muita paz e amizade.

 

Também el-rei Francisco de França desejoso de ter parte nos grandes proveitos, que diziam tirar-se destas terras, começou a argüir novas dúvidas sobre a demarcação que entre si os reis de Portugal fizeram com os de Castela, da qual ele se lançara de fora sendo requerido para isso, e agora sentia muito a renunciação, que tinha feito. Donde se veio a dizer, que pelo desgosto, que tinha destes dois reis de Portugal e Castela repartirem entre si o mundo, e o demarcarem à sua vontade, consentia andarem os seus vassalos pelo mar tão soltos, que não somente roubavam os navios, mas cometiam as ditas terras, e as queriam povoar, principalmente as do Brasil, como adiante veremos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO QUARTO

 

Do clima e temperamento do Brasil

 

 

 

Opinião foi de Aristóteles, e de outros filósofos antigos de que a zona tórrida era inabitável, porque como o sol passa por ela cada ano duas vezes para os trópicos, parecia-lhes, que com tanto calor não poderia alguém viver, e confirmavam sua opinião, porque o sol aquenta com os seus raios uniformiter diformiter, mais ao perto que ao longe, e por essa causa no inverno aquenta pouco, porque anda distante, sed sic est, que na zona temperada onde nunca entra, só pelo acesso que faz no verão enfermam, e morrem os homens de calor, logo a fortiori em a zona tórrida donde nunca sai, há de ser mortífero.

 

Porém a experiência tem já mostrado, que a zona tórrida é habitável, e que em algumas partes dela vivem os homens com mais saúde, que em toda a zona temperada, principalmente no Brasil, onde nunca há peste, nem outras enfermidades comuns, senão bexigas de tempos em tempos, de que adoecem os negros, e os naturais da terra, e isto só uma vez, sem a segundar em os que já as tiveram, e se alguns adoecem de enfermidades particulares, é mais por suas desordens, que por malícia da terra. A razão disto é porque ainda que a terra do Brasil seja cálida por estar a maior dela na zona tórrida, contudo é juntamente muito úmida, como se prova do orvalhar tanto de noite, que nem depois de sair o sol a quatro horas se enxugam as ervas; e se alguém dorme ao sereno, se levanta pela manhã tão molhado dele como se lhe houvera chovido.

 

Daqui vem também não poder o sal e o açúcar, por mais que o sequem, e resguardem, conservar-se sem umedecer-se, e o ferro e aço de uma espada ou navalha, por mais limpos, e sacalado que sejam, se enche logo de ferrugem, e esta umidade é causa de que o calor desta terra se tempere, e faz este clima de boa complexão, outra é pelos ventos leste e nordeste, que ventam do mar todo o verão do meio-dia pouco mais ou menos, até a meia-noite, e lavam e refrescam toda a terra.

 

A última causa é pela igualdade dos dias e das noites, porque (como dizem os filósofos) a extensão faz intenção; donde se um pusesse ou tivesse a mão devagar sobre um fogo fraco de estopas ou de palhas se queimaria mais, que se depressa a passasse por um fogo forte, e por isto em Portugal, posto que o calor é mais remisso se sente mais, porque dura mais, e são maiores os dias no verão, que as noites, mas no Brasil, ainda que mais intenso, dura menos, e não aquenta tanto que o frio da noite o não atalhe, que não chegue de um dia a outro.

 

Donde se responde ao argumento de Aristóteles de que o sol aquenta mais na zona tórrida, que na temperada, intensiva, mas não extensiva, e que esta intenção de calor se modera com os ventos frescos do mar, e umidade da terra, junto com a frescura do arvoredo, de que toda está coberta; de tal sorte que os que a habitam vivem nela alegremente. O em que se verifica a opinião dos filósofos é nas coisas mortas, porque estando nas outras terras a carne três ou quatro dias sã, e incorrupta, e da mesma maneira o pescado, nesta não está 24 horas, que se não dane e corrompa.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO QUINTO

 

Das minas de metais e pedras preciosas do Brasil

 

 

 

Já no capítulo terceiro, comecei a murmurar da negligência dos portugueses, que não se aproveitavam das terras do Brasil, que conquistaram, e agora me é necessário continuar com a murmuração, havendo de tratar das minas do Brasil, pois sendo contígua esta terra com a do Peru, que a não divide mais que uma linha imaginária indivisível, tendo lá os castelhanos descobertas tantas e tão ricas minas, cá nem uma passada dão por isso, e quando vão ao sertão é a buscar índios forros, trazendo-os à força, e com enganos, para se servirem deles, e os venderem com muito encargo de suas consciências, e é tanta a fome que disto levam, que ainda que de caminho achem mostras, ou novas de minas, não as cavam, nem ainda as vêem, ou as demarcam.

 

Um soldado de crédito me disse, que indo de São Vicente com outros, entraram muitas léguas pelo sertão, donde trouxeram muitos índios, e em certa paragem lhes disse um que dali a três jornadas estava uma mina de muito ouro limpo, e descoberto, donde se podia tirar em pedaços, porém que receava a morte se lha fosse mostrar, porque assim morrera já outro que em outra ocasião a quisera mostrar aos brancos; e dizendo-lhe estes, que não temesse, porque lhe rogariam a Deus pela vida, prometeu que lha iria mostrar, e assentaram de partir no dia seguinte pela manhã, porque aquele era já tarde, com isto se apartou o índio para o seu rancho, e quando amanheceu o acharam morto, e como morreram todos, não houve mais quem tivesse ânimo para descobrir aquela riqueza, que a mesma natureza / segundo dizia o índio / ali está mostrando descoberta. Outra entrada fez um Antônio Dias Adorno, da Bahia, em que também achou de passagem muitas sortes de pedras preciosas, de que trouxe algumas mostras, e por tais foram julgadas dos lapidários.

 

De cristal sabemos em certo haver uma serra na capitania do Espírito Santo em que estão metidas muitas esmeraldas, de que Marcos de Azevedo levou as mostras a el-rei, e feito exame por seu mandado, disseram os lapidários, que aquelas eram da superfície, e estavam tostadas do sol, mas que se cavassem ao fundo as achariam claras e finíssimas, pelo que el-rei lhe fez mercê do hábito de Cristo, e de dois mil cruzados, para que tornasse a elas, os quais se não deram; e o homem era velho e morreu sem haver mais até agora quem lá tornasse.

 

Também há minas de cobre, ferro e salitre, mas se pouco trabalham pelas de ouro e pedras preciosas, muito menos fazem por estoutras.

 

Não ponho culpa a el-rei, assim porque sei que nesta matéria lhe tem dado alguns alvitres falsos e, diz Aristóteles, que é pena dos que mentem não lhes darem crédito quando falam verdade, como também porque não basta mandar el-rei, se os ministros não obedecem, como se viu no das esmeraldas de Marcos de Azevedo.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SEXTO

 

Das árvores agrestes do Brasil

 

 

 

Há no Brasil grandíssimas matas de árvores agrestes, cedros, carvalhos, vinháticos, angelins, e outras não conhecidas em Espanha, de madeiras fortíssimas para se poderem fazer delas fortíssimos galeões, e o que mais é, que da casca de algumas se tira a estopa para se calafetarem, e fazerem cordas para enxárcia e amarras, do que tudo se aproveitam os que querem cá fazer navios, e se poderá aproveitar el-rei se cá os mandara fazer; mas os índios naturais da terra as embarcações de que usam são canoas de um só pau, que lavram a fogo e a ferro; e há paus tão grandes, que ficam depois de cavados, com 10 palmos de boca de bordo a bordo; e tão compridos, que remam a 20 remos por banda.

 

São também as madeiras do Brasil mui acomodadas para os edifícios das casas por sua fortaleza, e com elas se acha juntamente a pregadura; porque ao pé das mesmas árvores nascem uns vimes mui rijos, chamados timbós, e cipós que, subindo até o mais alto delas ficam parecendo mastros de navios com seus cordéis, e com estes atam os caibros, ripas e toda a madeira das casas, que houvera de ser pregadas, no que se forra muito gasto de dinheiro e, principalmente, nas grandes cercas, que fazem aos pastos dos bois dos engenhos, porque não saiam a comer os canaviais do açúcar, e os achem no pasto, quando os houverem mister para a moenda, as quais cercas se fazem de estacas e varas atadas com estes cipós.

 

Ao longo do mar, e em algumas partes, muito espaço dentro dele há grandes matas de mangues, uns direitos e delgados de que fazem estas cercas e caibros para as casas. Outros que dos ramos lhes descem as raízes ao lado, e delas sobem outros, que depois de cima lançam outras raízes, e assim se vão continuando de ramos a raízes, e de raízes a ramos, até ocupar um grande espaço, que é coisa de admiração.

 

Não é menos admirável outra planta, que nasce nos ramos de qualquer árvore, e ali cresce, e dá um fruto grande, e mui doce chamado caragatá, e entre suas folhas, que são largas, e rijas, se acha todo o verão água frigidíssima, que é o remédio dos caminhantes, onde não há fontes. Há muitas castas de palmeiras, de que se comem os palmitos e o fruto, que são uns cachos de cocos, e se faz deles azeite para comer, e para a candeia, e das palmas se cobrem as casas.

 

Nem menos são as madeiras do Brasil formosas que fortes, porque as há de todas as cores, brancas, negras, vermelhas, amarelas, roxas, rosadas e jaspeadas, porém tirado o pau vermelho, a que chamam Brasil, e o amarelo chamado Tataisba, e o rosado Arariba, os mais não dão tinta de suas cores, e, contudo, são estimados por sua formosura para fazer leitos, cadeiras, escritórios e bufetes: como também se estimam outros, porque estilam de si óleo odorífero, e medicinal, quais são umas árvores mui grossas, altas e direitas chamadas copaíbas, que golpeadas no tempo do estio com um machado, ou furadas com uma verruma, ao pé estilam do âmago um precioso óleo, com que se curam todas as enfermidades de humor frio, e se mitigam as dores que delas procedem, e saram quaisquer chagas, principalmente de feridas frescas, posto com o sangue, de tal modo, que nem fica delas sinal algum, depois que saram: e acerta às vezes estar este licor tão de vez, e desejoso de sair, que em tirando a verruma, corre em tanta quantidade como se tiraram o torno a uma pipa de azeite; porém, nem em todas se acha isto, senão nas que os índios chamam fêmeas, e esta é a diferença que tem dos machos, sendo em tudo o mais semelhante, nem só tem estas árvores virtude no óleo, mas também na casca, e assim se acham ordinariamente roçadas dos animais, que as vão buscar para remédio de suas enfermidades.

 

Outras árvores há chamadas coboreibas, que dão o suavíssimo bálsamo com que se fazem as mesmas curas, e o Sumo Pontífice o tem declarado, por matéria legítima da santa unção, e crisma, e como tal se mistura e sagra com os santos óleos onde falta o da Pérsia.

 

Este se tira também dando golpes na árvore, e metendo neles um pouco de algodão em que se colhe, e exprimido o metem em uns coquinhos para o guardarem e venderem.

 

Outras árvores se estimam ainda que agrestes, por seus saborosos frutos, que são inumeráveis, as que frutificam pelos campos, e matos, e assim não poderei contar senão algumas principais, tais são as sasapocaias de que fazem os eixos para as moendas dos engenhos, por serem rigíssimas, direitas e tão grossas como tonéis, cujos frutos são uns vasos tapados, cheios de saborosas amêndoas, os quais depois que estão de vez se destapam, e comidas as amêndoas servem as cascas de grãos para pisar adubos, ou o que querem.

 

Maçarandubas, que é a madeira mais ordinária de que fazem as traves e todo o madeiramento das casas, por ser quase incorruptível, seu fruto é como cerejas, maior e mais doce, mas lança de si leite, como os figos mal maduros.

 

Jenipapos, de que fazem os remos para os barcos como na Espanha os fazem de faia, tem um fruto redondo tão grande como laranjas, o qual quando é verde, espremido dá o sumo tão claro como a água do pote; porém quem se lava com ele fica negro como carvão, nem se lhe tira a tinta em poucos dias.

 

Desta se pintam, e tingem os índios em suas festas, e saem tão contentes nus, como se saíssem com uma rica libré, e este fruto se come depois de maduro, sem botar dele nada fora.

 

Gyitis (sic) é fruto de outras, o qual posto que feio à vista, e por isto lhe chamam coroe, que quer dizer nodoso, e sarabulhento, contudo é de tanto sabor e cheiro, que não parece simples, senão composto de açúcar, ovos e almiscar.

 

Os cajueiros dão a fruta chamada cajus, que são como verdiais, mas de mais sumo, os quais se colhem no mês de dezembro em muita quantidade, e os estimam tanto, que aquele mês não querem outro mantimento, bebida ou regalo, porque eles lhes servem de fruta, o sumo de vinho, e de pão lhes servem umas castanhas, que vem pegadas a esta fruta, que também as mulheres brancas prezam muito, e secas as guardam todo o ano em casa para fazerem maçapães e outros doces, como de amêndoas; e dá goma como a Arábia. A figura desta árvore e do seu fruto é a seguinte.

 

O mesmo tem outra planta que produz os ananases, fruta que em formosura, cheiro e sabor excede todas as do mundo, alguma tacha lhe põem os que têm chagas e feridas abertas, porque lhas assanha muito se a comem, trazendo ali todos os ruins humores, que acha no corpo: porém isto antes argue a sua bondade, que é não sofrer consigo ruins humores, e purgá-los, pelas vias, que acha abertas, como o experimentam os enfermos de pedra, que lha desfaz em areias, e expele com a urina, e até a ferrugem da faca, com que se apara, a limpa; a figura da planta e fruto é o seguinte.

 

Cultivam-se palmares de cocos grandes, e colhem-se muitos, principalmente à vista do mar, mas só os comem, e lhes bebem a água, que tem dentro seus mais proveitos, que tiram na Índia, onde diz o padre Frei Gaspar no seu Itinerário a folhas 14, que das palmeiras se arma uma nau à vela, e se carrega de todo o mantimento necessário sem levar sobre si mais, que a si mesma. Fazem-se favais de favas e feijões de muitas castas, e as favas secas são melhores que as de Portugal, porque não criam bicho, nem tem a casca tão dura como as de lá, e as verdes não são piores.

 

A sua rama é a modo de vimes, e se tem por onde trepar faz grande ramada.

 

Maracujás é outra planta que trepa pelos matos, e também a cultivam e põem em latadas nos pátios e quintais, dão fruto de quatro ou cinco sortes, uns maiores, outros menores, uns amarelos, outros roxos, todos mui cheirosos, e gostosos, e o que mais se pode notar é a flor porque além de ser formosa e de várias cores, é misteriosa, começa no mais alto em três folhinhas, que se rematam em um globo, que representa as três divinas pessoas em uma Divindade ou / como outros querem / os três cravos com que Cristo foi encravado, e logo tem abaixo do globo (que é o fruto) outras cinco folhas, que se rematam em uma roxa coroa, representando as cinco chagas e coroa de espinhos de Cristo Nosso Redentor.

 

Das árvores e plantas frutíferas, que se cultivam em Portugal, se dão no Brasil as de espinho com tanto viço, e fertilidade, que todo o ano há laranjas, limões cidras e limas doces em muita abundância. Há também romãs, marmelos, figos e uvas de parreira, que se vindimam duas vezes no ano; e na mesma parreira / se querem/ tem juntamente uvas em flor, outras em agraço, outras maduras, se as podam a pedaços em tempos diversos.

 

Há muitas melancias e abóboras de Quaresma, e de conserva muitos melões todo o verão tão bons, como os bons de Abrantes, e com esta vantagem que lá entre cento se não acham dois bons, e cá entre cento se não acham dois ruins.

 

Finalmente se dá no Brasil toda a hortaliça de Portugal, hortelã, endros, coentro, segurelha, alfaces, celgas, borragens, nabos e couves, e estas só uma vez se plantam de couvinha, mas depois dos olhos, que nascem ao pé, se faz a planta muitos anos, e em poucos dias crescem e se fazem grandes couves: além destas há outras couves da mesma terra, chamadas taiobas, das quais comem também as raízes cozidas, que são como batatas pequenas.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SÉTIMO

 

Das árvores e ervas medicinais, e outras qualidades ocultas

 

 

 

Além das árvores do salutífero bálsamo, e óleo de copaíba, de que já fiz menção no capítulo sexto, há outras, que destilam de si mui boa almécega, para as boticas: outras chamadas sassafrás, ou árvores de funcho, porque cheiram, a ele, cujas raízes e o próprio pau para enfermidades de humores frios é tão medicinal como o pau da China. Há árvores de canafístula brava, assim chamada, porque se dá nos matos, e outra que se planta, e é a mesma que das Índias.

 

Há umas árvores chamadas anudaz, que dão castanhas excelentes para purgas, e outras que dão pinhões para o mesmo efeito, os quais têm este mistério que se tomam com uma tona, e películo sutil, que tem, provocam o vômito, e se lha tiram, somente provocam a câmera. Mas tem-se por mais fácil, e melhor a purga da batata, ou mechoação, que também há muita pelos matos.

 

Nas praias do mar, ou ao longo delas se dá uma erva, que se não é a salsaparrilha, parece-se com ela, e tomada em suadouros faz os mesmos efeitos.

 

A erva fedegosa, chamada dos gentios e índios feiticeira, pelas muitas curas, que com ela se fazem e, particularmente do bicho, que é uma doença mortífera.

 

As ambaíbas, são umas figueiras bravas que dão uns figos de dois palmos, quase, de comprido, mas pouco mais grossos que um dedo, os quais se comem e são mui doces, e os olhos dessas árvores pisados, e postos em feridas frescas, com o sangue as saram maravilhosamente. A folha da figueira do inferno posta sobre nascidas, e leicenços mitiga a dor, e a sara. As de jurubeba saram as chagas, e as raízes são contra peçonha. A caroba sara das boubas. O cipó, das câmeras; enfim não há enfermidade contra a qual não haja ervas nesta terra, nem os índios naturais dela têm outra botica ou usam de outras medicinas.

 

Outras há de qualidades ocultas, entre as quais é admirável uma ervazinha, a que chamam erva viva, e lhe puderam chamar sensitiva, se o não contradissera a filosofia, a qual ensina o sensitivo ser diferença genérica que distingue o animal da planta, e assim define o animal, que é corpo vivente sensitivo.

 

Mas contra isto vemos, que se tocam esta erva com a mão, ou com qualquer outra coisa, se encolhe logo, e se murcha, como se sentira o toque, e depois que a largam, como já esquecida do agravo, que lhe fizeram, se torna a estender e abrir as folhas; deve isto ser alguma qualidade oculta, qual a da pedra de cevar para atrair o ferro, e não lhe sabemos outra virtude.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO OITAVO

 

Do mantimento do Brasil

 

 

 

É o Brasil mais abastado de mantimentos que quantas terras há no mundo, porque nele se dão os mantimentos de todas as outras. Dá-se trigo em S. Vicente em muita quantidade, e dar-se-á nas mais partes cansando primeiro as terras, porque o viço lhe faz mal.

 

Dá-se também em todo o Brasil muito arroz, que é o mantimento da Índia Oriental, e muito milho zaburro, que é o das Antilhas e Índia Ocidental. Dão-se muitos inhames grandes, que é o mantimento de S. Tomé e Cabo Verde, e outros mais pequenos, e muitas batatas, as quais plantadas uma só vez sempre fica a terra inçada destas.

 

Mas o ordinário e principal mantimento do Brasil é o que se faz da mandioca, que são umas raízes maiores que nabos e de admirável propriedade, porque se as comem cruas, ou assadas são mortífera peçonha, mas raladas, esprimidas e desfeitas em farinha fazem delas uns bolos delgados, que cozem em uma bacia, ou alguidar, e se chamam beijus, que é muito bom mantimento, e de fácil digestão, ou cozem a mesma farinha mexendo-a na bacia como confeitos, e esta se a torram bem, dura mais que os beijus, e por isso é chamada farinha de guerra, porque os índios a levam quando vão a guerra longe de suas casas, e os marinheiros fazem dela sua matalotagem daqui para o reino.

 

Outra farinha se faz fresca, que não é tão cozida, e para esta / se a querem regalada / deitam primeiro as raízes de molho, até que amoleçam, e se façam brandas, e então as espremem etc., e se estas raízes assim moles as põem a secar ao sol chama-se carimã, e as guardam ao fumo em caniços muito tempo, as quais, pisadas se fazem em pó tão alvo como o da farinha de trigo, e dele amassado fazem pão, que se é de leite, ou misturado com farinha de milho, e de arroz, é muito bom, mas estreme é algum tanto corriento; e assim o para que mais o querem é para papas, que fazem para os doentes com açúcar, e as tem por melhores que tisanas, e para os sãos as fazem de caldo de peixe ou de carne, ou só de água, e esta é a melhor triaga que há contra toda a peçonha, e por isso disse destas raízes, que tinham propriedade admirável, porque sendo cruas mortífera peçonha, só com um pouco de água e sal se fazem mantimento e salutífera triaga: e ainda tem outra a meu ver mais admirável, que sendo estas raízes cruas mantimento com que sustentam e engordam cevados e cavalos, se as espremem e lhe bebem só o sumo morrem logo, e com ser este sumo tão fina peçonha, se o deixam assentar-se coalha em um polme, a que chamam tapioca, de que se faz mais gostosa farinha, e beijus, que da mandioca, e cru é bela goma para engomar mantos.

 

Outra casta há de mandioca, a que chamam aipins, que se podem comer crus, sem fazer dano, e assados sabem a castanhas de Portugal assadas, e assim de uma como da outra não é necessário perder-se a semente, quando se planta, como no trigo; mas só se planta a rama feita em pedaços de pouco mais de palmo, os quais metidos até o meio na terra cavada dão muitas e grandes raízes, nem se recolhem em celeiros donde se comam de gorgulho como o trigo, mas colhem-as do campo pouco a pouco, quando querem, e até as folhas pisadas, e cozidas se comem.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO NONO

 

Dos animais e bichos do Brasil

 

 

 

Criam-se no Brasil todos os animais domésticos, e domáveis de Espanha, cavalos, vacas, porcos, ovelhas e cabras, e parem a dois e três filhos de cada ventre, e a carne de porco se come indiferentemente de inverno e verão, e a dão a doentes como a de galinha. Há também muitos porcos monteses; alguns como os javalis de Espanha, os quais andam em manadas, e se o caçador fere algum há logo de subir-se a alguma árvore; porque vendo eles que não podem chegar-lhe remetem todos ao ferido e aos outros em que se pegou algum sangue, com tanta fereza, que se não apartam até não deixarem três ou quatro mortos no campo, e então se vão em paz, e o caçador também com a caça.

 

Outros há que têm o umbigo nas costas, e é necessário tirar-lho com uma faca, antes que o esquartejem, sob pena de ficar toda a carne fedendo a raposinhos.

 

Outros há a que chamam capivaras, que quer dizer comedores de erva, andam sempre na água tirado, quando saem a passear pelos vales, e margens dos rios, e alguns tomam, e criam em casa fora da água, pelo que se julgam por carne, e não por pescado. Há outros animais a que chamam antas, que são de feição de mulas, mas não tão grandes, e têm o focinho mais delgado, e o beiço superior comprido a maneira de tromba, e as orelhas redondas, a cor cinzenta pelo corpo, e branca pela barriga, estas saem a passear só de noite, e tanto que amanhece metem-se em matos espessos, e ali estão o dia todo escondidos; a carne destes animais, é no sabor, e fêvera como de vaca, e do couro curtido se fazem mui boas couras para vestir, e defender de setas e estocadas: algumas tem no bucho umas pedras, que na virtude são como as de bazar, mas mais lisas, e maciças.

 

Há outras mais caças de veados, coelhos, cutias; e pacas que são como lebres, mas mais gordas e saborosas, e não se esfolam para se comerem, porque têm couros como de leitão.

 

Há tatus, a que os espanhóis chamam armadilhos, porque são cobertas de uma concha não inteiriça como a das tartarugas, mas de peças a modo de lâminas, e sua carne assada é como de galinha.

 

Tamanduá é um animal tão grande como carneiro, o qual é de cor parda com algumas pintas brancas, tem o focinho comprido e delgado para baixo, a boca não rasgada como os outros animais, mas pequena e redonda, a língua da grossura de um dedo, e quase de três palmos de comprido; as unhas, a maneira de escopros, o rabo mui povoado de cerdas, quase tão compridas como de cavalo, e todas estas coisas lhe são necessárias para conservar sua vida; porque como não come outra coisa senão formigas, vai-se com as unhas cavar os formigueiros, até que saiam da cova, e logo lança a língua fora da boca, para que se peguem a ela, e como a tem bem cheia a recolhe para dentro, o que faz tantas vezes até que se farta, e quando se quer esconder aos caçadores, lança o rabo sobre si, e se cobre todo com suas sedas, de modo que não se lhe vêem os pés nem cabeça, nem parte alguma do corpo, e o mesmo faz quando dorme, gozando debaixo daquele pavilhão um sono tão quieto, que ainda que disparem junta uma bombarda, ou caia uma árvore com grande estrépito não desperta, senão é somente com um assobio, que por pequeno, que seja o ouve logo, e se levanta.

 

A carne desse animal comem os índios velhos, e não os mancebos, por suas superstições, e agouros. Há também muita diversidade de animais nocivos, que se não comem, como são onças, ou tigres, que matam touros, e se estão famintos comerão um exército, mas se estão fartos, não só não ofendem a alguém, mas nem ainda se defendem e se deixam matar facilmente.

 

Há raposas, e bugios, e destes há uns que são grandes, chamados guaribas, que tem barbas como homens, e se barbeiam uns aos outros, cortando o cabelo com os dentes; andam sempre em bandos pelas árvores, e se o caçador atira em algum, e não o acerta matam-se todos de riso, mas se o acerta, e não cai, arranca a flecha do corpo, e torna a fazer tiro com ela a quem o feriu, e logo foge pela árvore acima e, mastigando folhas, metendo-as na feridas se cura, e estanca o sangue com elas.

 

Outros bugios há não tão grandes, nem tem mais habilidades que fazer momos e caretas, mas são de cheiro; e outros pequenos chamados sagüis, uns pardos, outros ruivos.

 

Há outro animal chamado jaritacaca, que tem as mãos e pés como bugio, o qual é malhado de várias cores e detestável à vista, mais que ao olfato, como experimentam os que o querem caçar, porque só com uma ventosidade que larga, é tanto o fedor, que lhe foge o caçador, e do caçador fogem os vizinhos, muitos dias não podendo sofrer o mau cheiro, que se lhe comunicou, e vai comunicando por onde quer que vá, e os cães se vão muitas vezes lavar na água, e esfregar com a terra sem poder tirar o fedor.

 

Outro animal há a que chamam preguiça, por ser tão preguiçoso, e tardo em mover os pés e mãos, que para subir a uma árvore, ou andar um espaço de vinte palmos há mister meia hora, e posto que o aguilhoem, nem por isso foge mais depressa.

 

Há outro a que chamam taibu, que, depois que pare os filhos, os recolhe todos em um bolso, que tem no peito, onde os traz até os acabar de criar.

 

Há também muitas cobras, e algumas tão grandes, que engolem um veado inteiro, e dizem os índios naturais da terra, que depois de fartas rebentam, e corrupta a carne se gera outra do espinhaço; porque já aconteceu achar-se alguma presa com um vime, que tinha em si incorporado, o que não podia ser, senão que ficou junto ao vime quando rebentou, e se lhe corrompeu a carne, e depois criando outra de novo a colheu de dentro, e incorporou em si; porém não se há de dizer que morrem / como os índios cuidam /, senão, que com a carne corrupta ficam ainda vivas, e assim não ressuscitam mas saram, e algumas se viram já de 60 palmos de comprido, em Pernambuco, se enrolou uma destas em um homem, que ia caminhando, de tal sorte que se não levara bom cão consigo, que mordendo-a muitas vezes a fez largar, sem falta o matava: e ainda assim o deixou tal, que nunca mais tornou as suas cores, e forças passadas.

 

Também me contou uma mulher de crédito, na mesma capitania de Pernambuco, que estando parida lhe viera algumas noites uma cobra mamar nos peitos, o que fazia com tanta brandura, que ela cuidava ser a criança, e depois que conheceu o engano o disse ao marido, o qual a espreitou na noite seguinte e a matou. Há outras a que chamam cascavéis; porque os têm no rabo, com que vão fazendo rugido, por onde quer que vão, e cada ano lhe nasce um de novo, algumas vi que tinham oito, e são tão venenosas, que os mordidos delas de maravilha escapam. Outra há que chamam de duas cabeças, porque tanto mordem com o rabo como com a cabeça.

 

Há no Brasil infinitas formigas, que cortam as folhas das árvores, e em uma noite tosam toda uma laranjeira, se seu dono se descuida de lhe botar água em uns testos, que tem aos pés.

 

Outra casta há chamada copy, que fazem uns caminhos cobertos por onde andam, e roem as madeiras das casas, e os livros, e roupa que acham, se não há muita vigilância. Piolhos e percevejos não há no Brasil, nem tantas pulgas como em Portugal; mas há uns bichinhos de feição de pulgas, tão pequenos como piolhos de galinhas, que se metem nos dedos e solas dos pés de quem anda descalço, e se fazem tão grandes, e redondos como camarinhas, quem sabe tirá-los inteiros sem lesão o faz com a ponta de um alfinete, mas quem não sabe rebenta-os, e ficando a pele dentro cria matéria.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO

 

Das aves

 

 

 

Além das aves que se criam em casa, galinhas, patos, pombos, e perus, há no Brasil muitas galinhas bravas pelos matos, patos nas lagoas, pombas bravas, e umas aves chamadas jacus, que na feição e grandeza são quase como perus.

 

Há perdizes e rolas, mas as perdizes têm alguma diferença das de Portugal. Há águias de sertão, que criam nos montes altos, e emas tão grandes como as da África, umas brancas, e outras malhadas de negro, que sem voarem do chão com uma asa levantada ao alto, ao modo de vela latina, correm com o vento como caravelas, e contudo as tomam os índios a cosso nas campinas.

 

Há muitas garças ao longo do mar, e outras aves chamadas guarás, que quando empenam são brancas, e depois pardas e, finalmente, vermelhas como grã. Há papagaios verdes de cinco ou seis espécies, uns maiores, outros menores, que todos falam o que lhes ensinam. Há também araras, e canindés de bico revolto como papagaios, mas são maiores, e de mais formosas penas. Há uns passarinhos, que para que as cobras lhes não entrem nos ninhos a comer-lhes os ovos, e filhinhos, os fazem pendurados nos ramos das árvores de quatro ou cinco palmos de comprido, com o caminho mui intrincado, e compostos de tantos pauzinhos secos, que se pode com eles cozer uma panela de carne. Há outros chamados tapéis, do tamanho de melros, todos negros, e as asas amarelas, que remedam no canto todos os outros pássaros perfeitissimamente, os quais fazem seus ninhos em uns sacos tecidos.

 

Há muitas mui grandes baleias, que no meio do inverno vem a parir nas baías, e rios fundos desta costa, e às vezes lançam a ela muito âmbar, do que do fundo do mar arrancam, quando comem, e conhecido na praia, porque aves, caranguejos, e quantas coisas vivas há acodem a comê-lo.

 

Há outro peixe chamado espadarte, por uma espada que tem no focinho de seis ou sete palmos de comprido, e um de largura, com muitas pontas, com que peleja com as baleias, e levantam a água tão alta quando brigam, que se vê daí a três ou quatro léguas.

 

Há também homens marinhos, que já foram vistos sair fora d’água após os índios, e nela hão morto alguns, que andavam pescando, mas não lhes comem mais que os olhos e nariz, por onde se conhece, que não foram tubarões, porque também há muitos neste mar, que comem pernas e braços, e toda a carne.

 

Na capitania de S. Vicente, na era de 1564, saiu uma noite um monstro marinho à praia, o qual visto de um mancebo chamado Baltazar Ferreira, filho do capitão, se foi a ele com uma espada, e levantando-se o peixe direito como um homem sobre as barbatanas do rabo lhe deu o mancebo uma estocada pela barriga, com que o derrubou, e tornando-se a levantar com a boca aberta para o tragar-lhe deu um altabaixo na cabeça, com que o atordoou, e logo acudiram alguns escravos seus, que o acabaram de matar, ficando também o mancebo desmaiado, e quase morto, depois de haver tido tanto ânimo. Era este monstruoso peixe de 15 palmos de comprido, não tinha escama senão pêlo, como se verá na figura seguinte.

 

Há uns peixes pequenos em toda esta costa, menores de palmo, chamados majacus, que sentindo-se presos do anzol o cortam com os dentes, e fogem, mas se lhe atam a isca em qualquer linha, e pegam nela, os vão trazendo brandamente a superfície da água, onde com uma rede-fole os tomam sem alguma resistência, e tanto que os tiram fora da água incham tanto, que de compridos que eram ficam redondos como uma bexiga cheia de vento, e assim se lhe dão um coice rebentam e soam como um mosquete, tem a pele muito pintada, mas mui venenosa, e da mesma maneira o fel; porém se o esfolam bem se comem assados, ou cozidos, como qualquer outro peixe. Outros há do mesmo nome mas maiores, e todos cobertos de espinhos mui agudos, como ouriços cacheiros, e estes não vêm senão de arribação de tempos em tempos, e um ano houve tantos nesta baía, que as casas, e engenhos se alumiaram muito tempo com o azeite de seus fígados.

 

Mariscos há em muita quantidade, ostras, umas que se criam nos mangues, outras nas pedras, e outras nos lodos, que são maiores. Nas restingas de areia há outras redondas e espalmadas, em que se acha aljôfar miúdo, e dizem que se as tirassem do fundo de mergulho achariam pérolas grossas. Há briguigões, amêijoas, mexilhões, búzios como caracóis, e outros tão grandes, que comida a polpa ou miolo fazem das cascas buzinas, em que tangem, e soão mui longe.

 

Há muitas castas de caranguejos, não só na água do mar e nas praias entre os mangues: mas também em terra entre os matos há uns de cor azul chamados guaiamus, os quais nas primeiras águas do inverno, que são em fevereiro, quando estão mais gordos, e as fêmeas cheias de ovas, se saem das covas, e se andam vagando pelo campo, e estradas, e metendo-se pelas casas para que os comam.

 

Camarões há muitos, não só no mar como os de Portugal, mas nos rios e lagoas de água doce, e alguns tão grandes como lagostins, dos quais também há muitos, que se tomam nos recifes de águas-vivas, e muitos polvos e lagostas.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO UNDÉCIMO

 

De outras coisas que há no mar e terra do Brasil

 

 

 

Inopem me copia fecit, disse o poeta, e disse verdade, porque onde as coisas são muitas é forçado que se percam, como acontece ao que vindima a vinha fértil e abundante de fruto, que sempre lhe ficam muitos cachos de rebusco, e assim me há sucedido com as coisas do mar e terra do Brasil, de que trato. Pelo que me é necessário rebuscar ainda algumas, que farei neste capítulo, que quanto todas é impossível relatá-las.

 

Faz-se no Brasil sal não só em salinas artificiais, mas em outras naturais, como em Cabo Frio, e além do Rio Grande, onde se acha coalhado em grandes pedras muito, e muito alvo. Faz-se também muita cal, assim de pedra do mar, como da terra, e de cascas de ostras, que o gentio antigamente comia, e se acham hoje montes delas cobertos de arvoredos, donde se tira e se coze engradada entre madeira com muita facilidade.

 

Há tucum, que são umas folhas quase de dois palmos de comprido, donde só com a mão sem outro artifício se tira pita rijíssima, e cada folha dá uma estriga. Outra planta há chamada caraguatá, da feição da erva babosa, mas cada folha tem uma braça de comprido, as quais deitadas de molho e pisadas, se desfazem em linho de que se fazem linhas, e cordas, e se pode fazer pano.

 

Há árvores de sabão, porque com a casca das frutas se ensaboa a roupa, e as frutas são umas contas tão redondas e negras, que parecem de pau evano torneado, e assim não há mais que furá-las, enfiá-las, e rezar por elas.

 

Há muita erva de anil, e de vidro, que se não lavra. Há muitas fontes, e rios caudalosos, com que moem os engenhos de açúcar, e outros por onde entra a maré, mui largos e fundos, e de boas barras e portos para os navios.

 

Quis um pintar uma cidade mui bastecida e abastada, e pintou-a com as portas serradas, e ferrolhadas, significando que tudo tinha em si, e não era necessário vir-lhe alguma de fora, que é a excelência; porque diz o Psalmista que louve a celestial cidade de Jerusalém ao senhor / Lauda Hierusalém dominum, lauda Deum tuum, Sion, quoniam confortavit seras portarum tuarum/. Mas não faltou logo quem contrafizesse e pintasse outra com as portas abertas, e por elas entrando carretas carregadas de mantimentos, dizendo que aquela era mais bastecida e abastada, nem lhe faltou outra autoridade com que a confirmar do mesmo Psalmista, o qual diz que ama Deus muito as Portas de Sion / diligit dominus portas Sion super omnia tabernacula Jacob/ e isto não porque as têm fechadas, senão abertas a naturais, e estrangeiros, a brancos e negros, que todos têm seu trato e comércio / Ecce alieniginae et Tiros et populus Ethiopum hi fuerunt illic /. Conforme a isto digna é de todos os louvores à terra do Brasil, pois primeiramente pode sustentar-se com seus portos fechados sem socorro de outras terras: Senão pergunto eu; de Portugal vem farinha de trigo? a da terra basta. Vinho? de açúcar se faz mui suave, e para quem o quer rijo, com o deixar ferver dois dias embebeda como de uvas.

 

Azeite? faz-se de cocos de palmeiras. Pano? faz-se de algodão com menos trabalho do que lá se faz o de linho, e de lã; porque debaixo do algodoeiro o pode a fiandeira estar colhendo, e fiando, nem faltam tintas com que se tinja.

 

Sal? cá se faz artificial e natural como agora dissemos. Ferro? muitas minas há dele, e em S. Vicente esta um engenho onde se lavra finíssimo. Especiaria? há muitas espécies de pimenta e gengibre. Amêndoas? também se escusam com a castanha de caju, et sic de caeteris.

 

Se me disserem que não pode sustentar-se a terra, que não tem pão de trigo, e vinho de uvas para as missas, concedo, pois este divino Sacramento é nosso verdadeiro sustento, mas para isto basta o que se dá no mesmo Brasil em S. Vicente e Campo de S. Paulo, como tenho dito no capítulo nono, e com isto está, que tem os portos abertos e grandes barras, e baías, por onde cada dia lhe entram navios carregados de trigo, vinho e outras ricas mercadorias, que deixam a troco das da terra.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO

 

Da origem do gentio do Brasil, e diversidade de línguas que entre eles há.

 

 

 

D. Diogo de Avalos vizinho de Chuquiabue no Peru na sua Miscelânea Austral, diz que nas serras de Altamira, em Espanha, havia uma gente bárbara, que tinha ordinária guerra com os espanhóis, e que comiam carne humana, do que enfadados os espanhóis juntaram suas forças, e lhes deram batalha na Andaluzia, em que os desbarataram, e mataram muitos. Os poucos que ficaram não se podendo sustentar em terra a desempararam, e se embarcaram para onde a fortuna os guiasse, e assim deram consigo nas ilhas Fortunadas, que agora se chamam Canárias: tocaram as de Cabo Verde e aportaram no Brasil: saíram dois irmãos por cabos desta gente, um chamado Tupi e outro Guarani, este último deixando o Tupi povoando o Brasil passou ao Paraguai com sua gente, e povoou o Peru: esta opinião não é certa, e menos o são outras, que não refiro, porque não tem fundamento: o certo é que esta gente veio de outra parte, porém donde não se sabe, porque nem entre eles há escrituras, nem houve algum autor antigo, que deles escrevesse. O que de presente vemos é que todos são de cor castanha, e sem barba, e só se distinguem em serem uns mais bárbaros, que outros / posto que todos o são assaz /. Os mais bárbaros se chamam in genere Tapuias, dos quais há muitas castas de diversos nomes, diversas línguas, e inimigos uns dos outros.

 

Os menos bárbaros, que por isso se chamam Apuabetó, que quer dizer homens verdadeiros, posto que também são de diversas nações e nomes; porque os de S. Vicente até o rio da Prata são Carijós, os de Rio de Janeiro, Tamoios, os da Bahia, Tupinambás, os do rio de S. Francisco, Amaupiras, e os de Pernambuco, até o rio das Amazonas Potiguaras, contudo todos falam uma mesma linguagem e este aprendem os religiosos que os doutrinam por uma arte de gramática que compôs o padre José de Anchieta, varão santo da ordem da Companhia de Jesus, é linguagem mui compendiosa, e de alguns vocábulos mais abundantes que o nosso Português; porque nós a todos os irmãos chamamos irmãos e a todos os tios, tios, mas eles ao irmão mais velho chamam de uma maneira, aos mais de outra. O tio irmão do pai tem um nome, e o tio irmão da mãe outro, e alguns vocábulos têm de que não usam senão as fêmeas, e outros que não servem senão aos machos, e sem falta são mui eloqüentes, e se prezam alguns tanto disto, que da prima noite até pela manhã andam pelas ruas e praças pregando, excitando os mais a paz, ou a guerra, ou trabalho, ou qualquer outra coisa que a ocasião lhes oferece, e entretanto que um fala todos os mais calam, e ouvem com atenção, mas nenhuma palavra pronunciam com f, l ou r, não só das suas, mas nem ainda das nossas, porque se querem dizer Francisco, dizem Pancicu; e se querem dizer Luiz, dizem Duhi; e o pior é que também carecem de fé, de lei e de rei, que se pronunciam com as ditas letras.

 

Nenhuma fé tem nem adoram a algum Deus; nenhuma lei guardam, ou preceitos, nem tem rei que lha dê, e a quem obedeçam, senão é um capitão, mais para a guerra, que para a paz, o qual entre eles é o mais valente e aparentado; e morto este, se tem filho, e é capaz de governar, fica em seu lugar, senão algum parente mais chegado ou irmão.

 

Fora este, que é capitão de toda a aldeia, tem cada casa seu principal, que são também dos mais valentes, e aparentados, e que tem mais mulheres; porém nem a estes, nem ao maioral pagam os outros algum tributo, ou vassalagem, mais que chamá-los quando tem vinhos, para os ajudarem a beber, ao que são muito dados, e os fazem de mel, ou de frutas, de milho, batatas, e outros legumes mastigados por donzelas, e delidos em água até se azedar, e não bebem quando comem, senão quando praticam, ou bailando, ou cantando.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO TERCEIRO

 

De suas aldeias

 

 

 

Há uma casta de gentios Tapuias chamados por particular nome Aimorés, os quais não fazem casas onde morem, mas onde quer que lhes anoitece, debaixo das árvores limpam um terreiro, no qual esfregando uma cana ou flecha com outra acendem lume, e o cobrem com bom couro de veado, posto sobre quatro forquilhas, e ali se deitam todos a dormir com os pés para o fogo, dando-lhes pouco, como os tenham enxutos e quentes, que lhes chova em todo o corpo.

 

Porém as mais castas de índios vivem em aldeias, que fazem cobertas de palma, e de tal maneira arrumadas, que lhes fique no meio um terreiro, onde façam seus bailes e festas, e se ajuntem de noite a conselho. As casas são tão compridas que moram em cada uma 70, ou 80 casais, e não há nelas algum repartimento mais, que os tirantes, e entre um e outro é um rancho, onde se agasalha um casal com sua família, e o do principal da casa é o primeiro no copiar, ao qual convida primeiro qualquer dos outros, quando vem de caçar, ou de pescar, partindo com ele daquilo que traz, e logo vai também repartindo pelos mais, sem lhe ficar mais que quanto então jante, ou ceie, por mais grande que fosse a cambada do pescado, ou da caça.

 

E quando algum vem de longe, as velhas daquela casa o vão visitar, ao seu rancho com grande pranto, não todas juntamente, mas uma depois de outra, no qual pranto lhe dizem as saudades que tiveram, e trabalhos que padeceram em sua ausência, e ele também chora dando uns urros de quando em quando sem exprimir coisa alguma, e o pranto acabado lhe perguntam se veio, e ele responde que sim, e então lhe trazem de comer, o que também fazem aos portugueses, que vão às suas aldeias, principalmente se lhes entendem a língua, maldizendo no choro a pouca ventura que seus avós e os mais antepassados tiveram, que não alcançaram gente tão valorosa como são os portugueses, que são senhores de todas as coisas boas, que trazem a terra de que eles dantes careciam, e agora as tem em tanta abundância, como são machados, foices, anzóis, facas, tesouras, espelhos, pentes e roupas, porque antigamente roçavam os matos com cunhas de pedra, e gastavam muitos dias em cortar uma árvore, pescavam com uns espinhos, faziam o cabelo e as unhas com pedras agudas, e quando se queriam enfeitar faziam de um alguidar de água espelho, e que desta maneira viviam mui trabalhados, porém agora fazem suas lavouras, e todas as mais coisas com muito descanso, pelo que os devem de ter em muita estima; e este recebimento é tão usado entre eles, que nunca ou de maravilha deixam de fazer, senão quando reinam alguma malícia ou traição contra aqueles, que vão às suas aldeias a visitá-los, ou resgatar com eles.

 

A noite toda tem fogo para se aquentarem, porque dormem em redes no ar, e não têm cobertores, nem vestido, mas dormem nus marido e mulher na mesma rede, cada um com os pés para a cabeça do outro, exceto os principais, que como têm muitas mulheres dormem sós nas suas redes, e dali quando querem se vão deitar com a que lhes parece, sem se pejarem de que os vejam. Quando é hora de comer se ajuntam os do rancho, e se assentam em cócoras, mas o pai da família deitado na rede, e todos comem em um alguidar, ou cabaço, a que chamam cuia, que estas são as suas baixelas, e dos cabaços principalmente fazem muito cabedal, porque lhes servem de pratos para comer, de potes e de púcaros para água e vinho, e de colheres, e assim os guardam em uns caniços que fazem chamados jiraus, onde também curam ao fumo os seus legumes, porque se não corrompam, e sem terem caixas, nem fechaduras, e os ranchos sem portas, todos abertos, são tão fiéis uns aos outros, que não há quem tome ou bula em coisa alguma sem licença de seu dono.

 

Não moram mais em uma aldeia que em quanto lhes não apodrece a palma dos tetos das casas, que é espaço de três ou quatro anos, e então o mudam para outra parte, escolhendo primeiro o principal, com o parecer dos mais antigos, o sítio que seja  alto, desabafado, com água perto, e terra a propósito para suas roças e sementeiras, que eles dizem ser a que não foi ainda cultivada, porque têm por menos trabalho cortar árvores que mondar erva, e se estas aldeias ficam  fronteiras de seus contrários, e têm guerras, as cercam de pau-a-pique mui forte, e às vezes de duas e três cercas, todas com suas seteiras, e entre uma e outra cerca fazem fossos cobertos de erva, com muitos estrepes de baixo, e outras armadilhas de vigas mui pesadas, que em lhes tocando caem, e derribam a quantos acham.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO QUARTO

 

Dos seus casamentos e criação dos filhos

 

 

 

Não é fácil averiguar, mormente entre os principais, que têm muitas mulheres, qual seja  a verdadeira, e legítima, porque nenhum contrato exprimem, e facilmente deixam umas e tomam outras, mas conjetura-se que é aquela de que primeiro se namoram, e por cujo amor serviram aos sogros, pescando-lhes, caçando, roçando o mato para a sementeira, e trazendo-lhes a lenha para o fogo. Mas o sogro não entrega a moça até lhe não vir seu costume, e então é ela obrigada a trazer atado pela cintura um fio de algodão, e em cada um dos buchos dos braços, outro, para que venha à notícia de todos, e depois que é deflorada pelo marido, ou por qualquer outro, quebra em sinal disso os fios, parecendo-lhe que se o encobrir a levará o diabo, e o marido de qualquer maneira a recebe, e consumando o matrimônio, se tem que esta é a legítima mulher, ou quando assim não estão casados, a cunhada, mulher que foi do irmão defunto, ainda que lhe ficasse filho dele, ou a sobrinha / filha, não do irmão, que esta tem eles em conta de filha própria, e não casam com ela, senão da irmã, / e com qualquer destas com que primeiro se casaram, ou seja,  a sobrinha ou a cunhada, os casam depois sacramentalmente os religiosos que os curam, no mesmo dia em que batizam dispensando nos impedimentos, por privilégio que para isto tem, e lhes tiram todas as outras, casando-as com outros, não sem sentimento dos primeiros maridos; porque de ordinário se ficam com as mais velhas.

 

A mulher em acabando de parir se vai lavar ao rio, e o marido se deita na rede, mui coberto, que não dê o vento, onde está em dieta, até que se seque o umbigo ao filho, e ali o vem os amigos a visitar como a doente, nem há poder lhes tirar esta superstição, porque dizem que com isto se preservam de muitas enfermidades a si, e à criança, a qual também deitam em outra rede com seu fogo debaixo, quer seja  inverno, quer verão, e se é macho logo lhe põem na azelha da rede um arquinho com suas flechas; e se fêmea uma roca com algodão.

 

As mães dão de mamar aos filhos sete ou oito anos, se tantos estão sem tornar a parir, e todo este tempo os trazem ao colo ora elas, ora os maridos, principalmente quando vão às suas roças, onde vão todos os dias depois de almoçarem, e não comem enquanto andam no trabalho, senão à véspera, depois que voltam para casa. Os maridos na roça derrubam o mato, queimam-no, e dão a terra limpa às mulheres, e elas plantam, mondam a erva, colhem o fruto e o carregam, e levam para casa em uns cofos mui grandes feitos de palma, lançados sobre as costas, que pode ser suficiente carga de uma azêmola, e os maridos levam um lenho aos ombros, e na mão seu arco e flechas, que fazem com as pontas de dentes de tubarões, ou de umas canas agudas, a que chamam taquaras, de que são grandes tiradores; porque logo ensinam aos filhos de pequenos a tirar ao alvo, e poucas vezes tiram a um passarinho, que não o acertem, por pequeno que seja .

 

Também os ensinam a fazer balaios, e outras coisas de mecânica, para as quais têm grande habilidade, se eles a querem aprender, que se não querem não os constrangem, nem os castigam por erros, e crimes que cometam, por mais enormes que sejam. As mães ensinam as filhas a fiar algodão e fazer redes de fio, e nastros para os cabelos, dos quais se prezam muito, e os penteiam, e untam de azeite de coco bravo, para que se façam compridos, grossos, e negros.

 

Nas festas se tingem todas de jenipapo, de modo que se não é no cabelo parecem negras de Guiné, e da mesma tinta pintam os maridos, e lhes arrancam o cabelo da barba, se acerta de lhe nascer algum, e o das sobrancelhas e pestanas, com que eles se tem por mui galantes, junto com terem os beiços de baixo furados, e alguns as faces, e uns tornos, ou batoques de pedras verdes metidos pelos buracos, com que parecem uns demônios.

 

Pois hei tratado neste capítulo do contrato matrimonial deste gentio: tratarei também dos mais contratos, e não serei por isso prolixo ao leitor, porque os livros que hão escrito os doutores de contractibus, sem os poderem de todo resolver pelos muitos, que de novo inventa cada dia a cobiça humana, não tocam a este gentio; o qual só usa de uma simples comutação de uma coisa por outra, sem tratarem do excesso, ou defeito do valor, e assim com um pintainho se hão por pagos de uma galinha.

 

Nem jamais usam de pesos e medidas, nem têm números por onde contem mais que até cinco, e se a conta houver de passar daí a fazem pelos dedos das mãos e pés, o que lhes nasce da sua pouca cobiça; posto que com isso está serem mui apetitosos de qualquer coisa que vem, mas tanto que a tem, a tornam facilmente de graça, ou por pouco mais de nada.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO QUINTO

 

Da cura dos seus enfermos e enterro dos mortos

 

 

 

Não há entre este gentio médicos sinalados, senão os seus feiticeiros, os quais moram em casas apartadas, cada um per si, e com porta mui pequena, pela qual não ousa alguém entrar, nem tocar-lhe em alguma coisa sua; porque se algum lhas toma, ou lhes não dá o que eles pedem, dizem vai, que hás de morrer, a que chamam lançar a morte, e são tão bárbaros que se vai logo o outro lançar na rede sem querer comer, e de pasmo se deixa morrer, sem haver quem lhe meta na cabeça que pode escapar, e assim se podem estes feiticeiros chamar mais mata-sanos, que médicos, nem eles curam os enfermos, senão com enganos chupando-lhes na parte que lhes dói, e tirando da boca um espinho ou prego velho, que já nela levavam, lho mostram dizendo que aquilo lhes fazia o mal, e que já ficam sãos, ficando eles tão doentes como de antes.

 

Outros médicos há melhores, que são os acautelados, e que padeceram as mesmas enfermidades, os quais aplicando ervas, ou outras medicinas, com que se acharam bem, saram os enfermos, mas se a enfermidade é prolongada; ou incurável, não há mais quem os cure, e os deixam ao desamparo. Testemunha sou eu de um, que achei na Paraíba tolhido de pés e mãos, à borda de uma estrada, o qual me pediu lhe desse uma vez de água, que morria de sede, sem os seus, que por ali passavam cada hora, lha quererem dar, antes lhe diziam que morresse porque já estava tísico, e que não servia mais que para comer o pão aos sãos; mandei eu buscar água por uns que me acompanhavam e, entretanto, o fiquei catequizando porque ainda não era cristão, e de tal maneira se acendeu na sede de o ser, e de salvar sua alma, que vinda a água, primeiro quis que o batizasse, que beber, e daí a poucos dias morreu em um incêndio de uma aldeia, onde o mandei levar, sem haver quem o quisesse tirar da casa que ardia, vendo que não tinha ele pés nem forças para se livrar.

 

Donde se vê a pouca caridade que tem este gentio com os fracos e enfermos, e juntamente a misericórdia do Senhor, e efeitos da sua eterna predestinação, a qual não só neste, mas em outros muitos manifesta muitas vezes, ordenando que percam os religiosos o caminho que levam, e vão dar nos tigipares ou cabanas com enfermos que estão agonizando, os quais recebendo de boa vontade o sacramento do batismo se vão a gozar da bem-aventurança no céu.

 

Tanto que algum morre o levam a enterrar, embrulhado na mesma rede em que dormia, e a mulher, filhas e parentas, se as tem, o vão pranteando até a cova com os cabelos soltos lançados sobre o rosto, e depois o pranteia ainda a mulher muitos dias: mas se morre algum principal da aldeia, o untam todo de mel, e por cima do mel o empenam com penas de pássaros de cores, e põem-lhe uma carapuça de penas na cabeça com todos os mais enfeites, que ele costumava trazer em suas festas, e fazem-lhe na mesma casa, e rancho onde morava, uma cova muito funda e grande, onde lhe armam sua rede, e o deitam nela assim enfeitado com seu arco e flechas, espada e tamaracá, que é um cabaço com pedrinhas dentro, com que costumam tanger, e fazem-lhe fogo ao longo da rede para se aquentar, e põem-lhe de comer em um alguidar, e a água em um cabaço, e na mão uma cangueira, que é um canudo feito de palma cheio de tabaco, e então lhe cobrem a cova de madeira, e de terra por cima, que não caia sobre o defunto, e a mulher por dó corta os cabelos, e tinge-se toda de jenipapo, pranteando o marido muitos dias, e o mesmo fazem com ela as que a vem visitar, e tanto que o cabelo cresce até lhe dar pelos olhos, o torna a cortar, e a tingir-se de jenipapo, para tirar o dó, e faz sua festa com seus parentes, e muito vinho.

 

O marido quando lhe morre a mulher também se tinge de jenipapo, e quando tira o dó se torna a tingir, tosquia-se e ordena grandes revoltas de cantar, e bailar, e beber, nestas festas se cantam as proezas do defunto, ou defunta, e do que tira o dó, e se morre algum menino filho de principal o metem em um pote, posto em cócoras, atados aos joelhos com a barriga, e enterram o pote na mesma casa, e rancho, debaixo do chão, e ali o choram muitos dias.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SEXTO

 

Do modo de guerrear o gentio do Brasil.

 

 

 

É este gentio naturalmente tão belicoso, que todo o seu cuidado é como farão guerra a seus contrários, e sobre isto se ajuntam no terreiro da aldeia com o principal dela, os principais das casas, e outros índios discretos, a conselho, onde depois de assentados nas suas redes, que para isto armam em umas estacas, e quieto o rumor dos mais que se ajuntam a ouvir, porque é a gente que em nenhuma coisa tem segredo, propõem o maioral sua prática, a que todos estão mui atentos, e como se acaba respondem os mais antigos cada um per si, até que vem a concluir no que hão de fazer, brindando-se entretanto algumas vezes com o fumo da erva santa, que eles têm por cerimônia grave, e se concluem que a guerra se faça, mandam logo que se faça muita farinha de guerra, e que se apercebam de arcos, e flechas, e alguns paveses, ou rodelas, e espadas de paus tostados, e como todas estas coisas estão prestes à noite antes da partida, anda o principal da aldeia pregando ao redor das casas, declarando-lhes onde vão, e a obrigação que tem de fazerem aquela guerra, exortando-os à vitória, para que fique deles memória, e os vindouros possam contar suas proezas.

 

O dia seguinte depois de almoçarem toma cada um suas armas nas mãos, e a rede em que há de dormir às costas, é uma paquevira de farinha, que é um embrulho liado, quanto pode carregar, feito de umas folhas rijas, que nem se rompem, nem a água as passa, e não se curam de mais vianda; porque com a flecha a caçam pelo caminho, e nas árvores acham frutas, e favos de mel.

 

Os principais levam consigo suas mulheres, que lhes levam a farinha e as redes, e eles não levam mais que as armas; e antes que abalem faz o maioral um capitão da dianteira, que eles têm por grande honra, o qual vai mostrando o lugar onde se hão de alojar, e o caminhar é um após outro, por um carreiro como formigas, nem já mais sabem andar de outra maneira, tem grande conhecimento da terra, e não só o caminho por onde uma vez foram atinam, por mais serrado que já esteja, mas ainda por onde nunca foram.

 

Tanto que saem fora de seus limites, e entram pela terra dos contrários, levam suas espias adiante, que são mancebos mui ligeiros, e há alguns de tão bom faro, que a meia légua cheiram o fogo, ainda que não apareça o fumo.

 

Chegando duas jornadas da aldeia de seus contrários não fazem fogo, porque não sejam por eles sentidos, e ordenam-se de maneira, que possam entrar de madrugada, e tomá-los descuidados e despercebidos, e depois entram com grande urro de vozes, e estrondo de buzinas e tambores, que é espanto, não perdoando no primeiro encontro a grandes nem pequenos, a que com suas espadas de pau não quebrem as cabeças, porque não tem por valor o matar, senão quebram as cabeças, ainda que seja  dos mortos por outros, e quantas cabeças quebram tantos nomes tomam, largando o que o pai lhes deu no nascimento, que um, e outros são de animais, de plantas, ou do que se lhes antolha, mas o nome que tomaram não o descobrem / ainda que lho roguem / senão com grandes festas de vinho, e cantares em seu louvor, e eles se fazem riscar e lavrar com um dente agudo de um animal, e lançando pó de carvão pelos riscos e lavores ensangüentados, ficam  com eles impressos toda a vida, o que tem por grande bizarria, porque por estes lavores, e pela diferença deles se entende quantas cabeças quebraram.

 

E sendo caso que acham seus contrários apercebidos com cercas feitas, fazem-lhes outra contracerca de estacas metidas na terra com ramos e espinhos, liados, a que chamam caiçara, a qual enquanto verde não há coisa que a rompa, e dali blasonam, e jogam as pulhas com os contrários, até que uns ou outros abalroam, ou saem a pelejar em campo, e toda a sua peleja é fazendo o motim, que é correr e saltar de uma parte para outra, porque lhe não façam pontaria.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SÉTIMO

 

Dos que cativam na guerra

 

 

 

Os que podem cativar na guerra levam para vender aos brancos, os quais lhe compram por um machado, ou foice cada um, tendo-os por verdadeiros cativos, não tanto por serem tomados em guerra, pois não consta da justiça dela, quanto por a vida que lhes dão, que é maior bem que a liberdade; porque se os brancos os não compram, os primeiros senhores os têm em prisões atados pelo pescoço, e pela cinta com cordas de algodão grossas e fortes, e dão a cada um por mulher a mais formosa moça, que há na casa, a qual tem o cuidado de o regalar, e lhe dar de comer até que engorde, e esteja para o poderem comer, e então ordenam grandes festas, e ajuntamentos de parentes e amigos, chamados de 30, 40 léguas, com os quais na véspera, e dia do sacrifício, cantam e bailam, comem, e bebem alegremente, e também o padecente come e bebe com eles, depois o untam com mel de abelhas, e sobre o mel o empenam com muitas penas de várias cores, e a lugares o pintam de jenipapo, e lhe tingem os pés de vermelho, e metendo-lhe uma espada na mão, para que se defenda como puder, o levam assim atado a um terreiro fora da aldeia, e o metem entre dois mourões, que estão metidos no chão, afastados um do outro alguns 20 palmos, os quais estão furados, e por cada furo metem as pontas das cordas, onde o preso fica como touro, e as velhas lhe cantam, que se farte de ver o sol, pois cedo o deixará de ver, e o cativo responde com muita coragem, que bem vingado há de ser, então vão buscar o que há de matar a sua casa todos os seus parentes, e amigos, onde o acham já pintado de tinta de jenipapo com carapuça de penas na cabeça, manilhas de ossos nos braços, e nas pernas grandes ramais de contas ao pescoço, com seu rabo de penas nas ancas, e uma espada de pau pesada de ambas as mãos mui pintada, com cascas de mariscos pegadas com cera, e no cabo e empunhadura da espada grandes penachos; e assim o trazem com grandes cantares, e tangeres de seus búzios, gaitas e tambores, chamando-lhe bem-aventurado, pois chegou a tamanha honra, e com este estrondo entra no terreiro, onde o paciente o espera, e lhe diz que se defenda, porque vem para o matar, e logo remete a ele com a espada de ambas as mãos, e o padecente com a sua se defende, e ainda às vezes ofende, mas como os que o tem pelas cordas o não deixam desviar do golpe, o matador lhe quebra a cabeça, e toma nome, que depois declara com as cerimônias que vimos no capítulo passado.

 

Em morrendo este preso, logo os velhos da aldeia o despedaçam, e lhe tiram as tripas e forçura, que mal lavadas cozem para comer, e reparte-se a carne por todas as casas, e pelos hóspedes, que vieram a esta matança, e dela comem logo assada, e cozida, e guardam alguma muito assada, e mirrada, a que chamam moquém, metida em novelos de fio de algodão, e posta nos caniços ao fumo, para depois renovarem o seu ódio, e fazerem outras festas, e do caldo fazem grandes alguidares de migas, e papas de farinha de carimã, para suprir na falta de carne, e poder chegar  a todos; o que o matou nenhuma coisa come dele, antes se vai logo deitar na rede, e se faz todo sarrafaçar, e sangrar, tendo por certo que morrerá se não derrama de si aquele sangue, nem faz o cabelo dali a sete ou oito meses, os quais passados faz muitos vinhos, e apelida os amigos para beber e cantar, e com essa festa se tosqueia, dizendo que tira o dó daquele morto, e é tão cruel este gentio com os seus cativos, que não só os matam a eles, mas se acontece a algum haver filho da moça que lhe deram por mulher, a obrigam que o entregue a um parente mais chegado, para que o mate, quase com as mesmas cerimônias, e a mãe é a primeira que lhe come a carne; posto que algumas, pelo amor que lhes têm, os escondem, e às vezes soltam também os presos, e se vão com eles para suas terras, ou para outras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIVRO SEGUNDO

 

 

 

DA HISTÓRIA DO BRASIL NO TEMPO DO SEU DESCOBRIMENTO

 

 

 

 

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

De como se continuou o descobrimento do Brasil, e se deu ordem a se povoar

 

 

 

Posto que el-rei d. Manuel, quando soube a nova do descobrimento do Brasil, feito por Pedro Álvares Cabral, andava mui ocupado com as conquistas da Índia Oriental, pelo proveito que de si prometiam, e com as de África pela glória e louvor, que a seus vassalos delas resultava, não deixou, quando teve ocasião de mandar uma armada de seis velas, e por capitão-mor delas Gonçalo Coelho, para que descobrisse toda esta costa, o qual andou por ela muitos meses descobrindo-lhe os portos e rios, e em muitos deles entrou e assentou marcos, com as armas del-rei, que para isso trazia lavrados, mas pela pouca experiência que então se tinha de como corria a costa, e os ventos com que se navega, passou tantos trabalhos e infortúnios, que foi forçado tornar-se para o reino com duas caravelas menos, e a tempo em que já era morto el-rei d. Manuel, que faleceu no ano do Senhor de 1521; e reinava seu filho el-rei d. João Terceiro, ao qual se apresentou com as informações que pôde alcançar, pelas quais el-rei parecendo-lhe coisa de importância, mandou logo outra armada, e por capitão-mor Cristóvão Jacques, fidalgo de sua casa, que neste descobrimento trabalhou com notável proveito sobre a clareza da navegação desta costa, continuando com seus padrões conforme o regimento que trazia, e andando correndo esta grande costa veio dar com a baía a que chamou de Todos os Santos, por ser no dia da sua festa, primeiro de novembro, e entrando por ela, especulando todo o seu recôncavo, e rios, achou em um deles chamado de Paraguaçu duas naus francesas, que estavam ancoradas comerciando com o gentio, com as quais se pôs às bombardadas, e as meteu no fundo com toda a gente, e fazenda, e logo se foi para o reino, e deu as informações de tudo a Sua Alteza, as quais bem consideradas, com outras que já tinha de Pero Lopes de Sousa, que por esta costa também andou com outra armada, ordenou que se povoasse esta província, repartindo as terras por pessoas que se lhe ofereceram para as povoarem e conquistarem à custa de sua fazenda, e dando a cada um 50 léguas por costa com todo o seu sertão, para que eles fossem não só senhores, mas capitães delas; pelo que se chamam, e se distinguem por capitanias.

 

Deu-lhes jurisdição no crime de baraço e pregão, açoites e morte, sendo o criminoso peão e sendo nobre até 10 anos de degredo; e no cível cem mil-réis de alçada, e que assistam às eleições dos juízes, e vereadores eles ou seu ouvidor, que eles fazem, como também fazem escrivãos do público, judicial e notas, escrivão da câmara, escrivão da ouvidoria, juiz, e escrivão dos órfãos, meirinho da vila, alcaide do campo, porque o do cárcere provê o alcaide-mor, e el-rei os ofícios da sua real fazenda, como são os dos provedores, e seus meirinhos, almoxarifes, porteiros da alfândega, e guardas dos navios; e ainda que os donatários são sismeiros das suas terras, e as repartem pelos moradores como querem, todavia movendo-se depois alguma dúvida sobre as datas, não são eles os juízes delas, senão o provedor da fazenda, nem os que as recebem de sesmaria têm obrigação de pagar mais que dízimo a Deus dos frutos que colhem, e este se paga a el-rei por ser Mestre da Ordem de Cristo, e ele da aos donatários a redízima, que é o dízimo de tudo o que lhe rendem os dízimos: pertencem-lhes também a vintena de todo o pescado que se pesca nos limites dar suas capitanias, e todas as águas com que moem os engenhos de açúcar, pelos quais lhes pagam de cada cem arrobas duas, ou três, ou conforme se concertam os senhores dos engenhos com eles, ou com seus procuradores, as quais pensões não têm a Bahia, Rio de Janeiro, Paraíba e as mais capitanias de el-rei, nas quais se paga o dízimo somente, mas no que toca a jurisdição do cível, e crime lha limitou el-rei depois muito, como veremos no capítulo primeiro do livro terceiro.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SEGUNDO

 

Das capitanias e terras, que el-rei doou a Pero Lopes e Martim

 

Afonso de Souza, Irmãos

 

 

 

Como Pero Lopes de Souza havia já andado por estas partes do Brasil coube-lhe a escolha primeiro que a outros, e não tomou todas as suas 50 léguas juntas, senão 25 em Itamaracá, de que adiante trataremos, e outras 25 em São Vicente, que se demarcam e confrontam com as terras da capitania de seu irmão Martim Afonso de Sousa em tanta vizinhança, que não deixa de haver litígio e dúvidas, sendo que quando de princípio as povoaram e fortificaram foi de muito proveito esta vizinhança por se poder ajudar um ao outro, e defender do inimigo, como bem se viu depois de idos pelas muitas guerras que os moradores tiveram com os gentios, e franceses, que entre eles andavam, e por mar em canoas lhe vinham dar muitos assaltos, e por muitas vezes os tiveram cercados, e sempre se defenderam muito bem, o que não poderiam fazer se as povoações e fortes não estivessem tão próximos.

 

Donde se verifica bem o que Scipião africano disse no senado de Roma, que era necessário continuar-se com as guerras de África, porque faltando estas as haveria civis entre os vizinhos; como as houve entre estes / ainda que irmãos / depois que venceram os gentios; mas descendo ao particular a razão das dúvidas, que estes senhores têm, ou seus herdeiros, acerca destas capitanias me parece que é por dizerem as suas doações, que se demarcaram pela barra do Rio de S. Vicente, um para o norte, outro para o sul, e como este rio tem três barras, causadas de duas ilhas, que o dividem, uma que corre ao longo da costa, e outra dentro do rio, como se verá na descrição seguinte, daqui vem duvidar-se de qual destas barras se há de fazer a demarcação.

 

Nesta ilha fora esteve uma vila, que se chamou Santo Amaro, de que já não há mais que a ermida do santo: mas fez-se outra na terra firme da parte do sul chamada vila da Conceição. Na ilha de dentro há duas povoações, uma chamada de Santos, outra de São Vicente como o rio, a qual veio edificar Martim Afonso de Souza em pessoa, e a povoou de mui nobre gente, que consigo trouxe, e assim floresceu em mui breve tempo.

 

Daqui se embarcou no ano de 1533, para descobrir mais costa e rios dela, e foi correndo até chegar ao rio da Prata, pelo qual navegou muitos dias, e perdendo alguns navios e gente deles nos baixos do rio, se tornou para a sua capitania, donde foi chamado por Sua Alteza para o mandar por capitão-mor do mar da Índia, do que serviu muitos anos, e depois de governador da Índia, donde vindo a Portugal serviu muitos anos no conselho de estado até el-rei d. Sebastião, em cujo tempo faleceu.

 

Pelo sertão nove léguas do rio de São Vicente está a vila de São Paulo, na qual há um mosteiro da Companhia de Jesus, outro do Carmo, e nos tem sinalado sítio para outro de nossa seráfica ordem, que nos pedem queiramos edificar há muitos anos, com muita instância e promessas, e sem isso era incitamento bastante termos ali sepultado na igreja dos padres da companhia um frade leigo da nossa ordem, castelhano, a quem matou outro castelhano secular, porque o repreendia que não jurasse, foi religioso de santa vida, e confirmou-o Deus depois de seu martírio com um milagre, e foi que assentando-se uma mulher enferma de fluxo de sangue sobre a sua sepultura ficou sã.

 

Ao redor desta vila estão quatro aldeias de gentio amigo, que os padres da Companhia doutrinam, fora outro muito, que cada dia desce do sertão.

 

São os ares destas duas capitanias frios e temperados, como os de Espanha, porque já estão fora da zona tórrida em 24 graus e mais; e assim é a terra mui sadia, fresca e de boas águas, e esta foi a primeira onde se fez açúcar, donde se levou plantas de canas para as outras capitanias, posto que hoje se não dão tanto a fazê-lo quanto a lavoura do trigo, que se dá ali muito, e cevada e grandes vinhas, donde se colhem muitas pipas de vinho, ao qual para durar dão uma fervura no fogo.

 

Outros se dão a criação de vacas, que multiplicam muito, e são as carnes mais gordas que na Espanha, principalmente os cevados, que se cevam com milho zaburro, e com pinhões de grandes pinhais, que há agrestes, tão férteis e viçosos, que cada pinha é como uma botija, e cada pinhão, depois de limpo, como uma castanha, ou belota de Portugal.

 

Cavalos há tantos, que vale cada um cinco ou seis tostões. Mas o melhor de tudo é o ouro, de que trataremos adiante, quando tratarmos do governador d. Francisco de Souza, que por mandado del-rei assistiu nas minas.

 

(A)  Destas vilas se foi há poucos anos um morador de nação castelhana, por ser muito cioso da mulher, que era portuguesa, natural de São Vicente, e muito formosa, a morar em uma ilha chamada de Cananéia, que fica mais ao sul, e chegada ao rio da Prata; mas pouco viveu sem seus receios, porque conhecida a fertilidade da terra, se foram outros muitos com suas famílias a morar também a ela, e se fez uma povoação tão grande como estoutras.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO TERCEIRO

 

Da terra e capitania que el-rei doou a Pero Lopes

 

 

 

Em companhia de Pero Lopes de Souza andou por esta costa do Brasil Pedro de Góes, fidalgo honrado, muito cavaleiro, e pela afeição que tomou à terra pediu a el-rei d. João que lhe desse nela uma capitania, e assim lhe fez mercê de cinqüenta léguas de terra ao longo da costa, ou as que se achassem donde acabassem as de Martim Afonso de Souza, até que entestasse com as de Vasco Fernandes Coutinho: da qual capitania foi tomar posse com uma boa frota, que fez em Portugal à sua custa, bem fornecida de gente e todo o necessário, e no rio chamado da Paraíba, que está em 21º e dois terços, se fortificou e fez uma povoação, em que esteve bem os primeiros dois anos, e depois se lhe levantou o gentio, e o teve em guerra cinco ou seis anos, fazendo às vezes pazes, que logo quebravam, e o apertavam tanto, que forçado a despejar a terra e passar-se com toda a gente para a Capitania do Espírito Santo, em embarcações, que para isso lhe mandou Vasco Fernandes Coutinho, donde ficou com toda a sua fazenda gastada, e muitos mil cruzados de um Martim Ferreira, que com ele armava para fazerem muitos engenhos de açúcar.

 

No distrito desta terra e capitania cai a terra dos Aitacazes, que é toda baixa e alagada, onde estes gentios vivem mais à maneira de homens marinhos que terrestres; e assim nunca se puderam conquistar, posto que a isso foram algumas vezes ao Espírito Santo e Rio de Janeiro; por que quando se há de vir às mãos com eles, metem-se dentro das lagoas, onde não há entrá-los a pé nem a cavalo, são grandes búzios e nadadores, e a braços tomam o peixe ainda que sejam tubarões, para os quais levam em uma mão um pau de palmo pouco mais, ou menos, que lhes metem na boca direito, e como o tubarão fique com a boca aberta, que a não pode serrar com o pau, com a outra mão lhe tiram por ela as entranhas, e com elas a vida, e o levam para a terra não tanto para os comerem, como para dos dentes fazerem as pontas das suas flechas, que são peçonhentas e mortíferas, e para provarem forças e ligeireza, como também dizem que as provam com os veados nas campinas, tomando-os a cosso, e ainda com os tigres e onças, e outros feros animais.

 

Estas e outras incredíveis coisas se contam deste gentio, creia-as quem quiser, que o que daqui eu sei é, que nunca foi alguém a seu poder, que tornasse com vida para as contar; verdade é que já hoje há deles mais notícia, porque lhes deu uma cruel doença de bexigas, que os obrigou a nos irem buscar, e ser nossos amigos, como veremos no livro quinto desta história.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO QUARTO

 

Da terra e capitania do Espírito Santo, que el-rei doou a Vasco Fernandes Coutinho

 

 

 

Não teve menos trabalhos com a sua capitania Vasco Fernandes Coutinho, a quem el-rei, pelos muitos serviços que lhe havia feito na Índia, lhe fez mercê de 50 léguas de terra por costa, o qual a foi conquistar, e povoar com uma grande frota à sua custa, levando consigo a d. Jorge de Menezes o de Maluco, e d. Simão de Castelo Branco, e outros fidalgos, com os quais avistando primeiro a serra de Mestre Álvaro, que é grande, alta e redonda, foi entrar no Rio do Espírito Santo, o qual esta em 20°; onde logo à entrada do rio, da banda do sul, começou a edificar a vila da Vitória, que agora se chama a Vila Velha em respeito da outra vila do Espírito Santo, que depois se edificou uma légua mais dentro do rio, na ilha de Duarte de Lemos, por temor do gentio: e como o espírito de Vasco Fernandes era grande, deixando ordenados quatro engenhos de açúcar, se tornou para o reino a aviar-se para ir pelo sertão a conquistar minas de ouro, e prata, de que tinha novas, deixando por seu loco-tenente d. Jorge de Menezes, ao qual logo os gentios fizeram tão cruel guerra, que lhe queimaram os engenhos, e fazendas, e a ele mataram às flechadas, sem lhe valer ser tão grande capitão, e que na Índia, Maluco e outras partes tinha feitas muitas cavalarias.

 

O mesmo fizeram a d. Simão de Castelo Branco, que lhe sucedeu na capitania, e a puseram em tal cerco, e aperto, que não podendo os moradores dela resistir-lhes se passaram para outras, e tornando-se Vasco Fernandes Coutinho do reino para a sua, por mais que trabalhou o possível pela remediar, e vingar do gentio, não foi em sua mão, por estar sem gente e munições de guerra, e o gentio pelas vitórias passadas muito soberbo, antes viveu muitos anos mui afrontado deles naquela ilha, até que depois pouco a pouco reformou as duas ditas vilas.

 

Mas enfim gastados muitos mil cruzados, que trouxe da Índia, e muito patrimônio, que tinha em Portugal, acabou tão pobremente que chegou a lhe darem de comer por amor de Deus, e não sei se teve um lençol seu em que o amortalhassem.

 

Seu filho, do mesmo nome, também com muita pobreza viveu, e morreu na mesma capitania, e não se atribua isto à maldade da terra, que é antes uma das melhores do Brasil; porque da muito bom açúcar, e algodão, gado vaccum, e tanto mantimento, frutas e legumes, pescado e mariscos, que lhe chamava o mesmo Vasco Fernandes o meu Vilão farto.

 

Dá também muitas árvores de bálsamo, de que as mulheres misturando-o com a casca das mesmas árvores pisadas fazem muita contaria, que se manda para o reino, e para outras partes; mas o que fez mal a estes senhores depois das guerras foi não seguirem o descobrimento das minas de ouro e prata, como determinavam, e parece que herdaram deles este descuido seus sucessores, pois descobrindo-se depois na mesma capitania uma serra de cristal, e esmeraldas, de que tenho feito menção no capítulo quinto do primeiro livro, nem disto se trata, nem de fortificar-se a terra, para defender-se dos corsários, sendo que por ser o rio estreito se pudera fortalecer com facilidade: antes levando-o pelo espiritual me disse Francisco de Aguiar Coutinho, senhor dela, que dissera a Sua Majestade que tinha uma fortaleza na barra da sua capitania, que lha defendia, e não havia mister mais, e que esta era a ermida de Nossa Senhora da Pena, que ali está, aonde do Mosteiro do Nosso Padre S. Francisco, que temos na vila do Espírito Santo, vão dois frades todos os sábados a dizer missa, e a temos a nossa conta; e na verdade a dita ermida se pode contar por uma das maravilhas do mundo, considerando-se o sítio, porque está sobre um monte alto um penedo, que é outro monte, a cujo cume se sobe por 55 degraus lavrados no mesmo penedo, e em cima tem um plano, em que está a igreja, e capela, que é de abóbada, e ainda fica ao redor por onde ande a procissão cercado de peitoril de parede, donde se não pode olhar para baixo sem que fuja o lume dos olhos.

 

Nesta ermida esteve antigamente por ermitão um frade leigo da nossa ordem, asturiano, chamado frei Pedro, de mui santa vida, como se confirmou em sua morte, a qual conheceu alguns dias antes, e se andou despedindo das pessoas devotas, dizendo que feita a festa de Nossa Senhora, havia de morrer, e assim sucedeu, e o acharam morto de joelhos, e com as mãos levantadas como quando orava, e na tresladação de seus ossos desta igreja para o nosso convento, fez muitos milagres, e poucos enfermos os tocam com devoção que não sarem logo, principalmente de febres, como tudo consta do Instrumento de testemunhas que esta no arquivo do convento.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO QUINTO

 

Da capitania de Porto Seguro

 

 

 

Esta capitania foi a primeira terra do Brasil que se descobriu por Pedro Álvares Cabral indo para a Índia, como está dito no primeiro capítulo do primeiro livro, e dela fez el-rei mercê, e doação de 50 léguas de terra na forma das mais a Pedro do Campo Tourinho, natural de Viana, muito visto na arte de marear, o qual armando uma frota de muitos navios à sua custa, com sua mulher e filhos, e alguns parentes, e muitos amigos, partiu de Viana, e desembarcou no rio de Porto Seguro, que está em 16º, e dois terços, e se fortificou no mesmo lugar onde agora é a vila, cabeça desta capitania: edificou mais a vila de Santa Cruz, e outra de Santo Amaro, onde esta uma ermida de Nossa Senhora da Ajuda em um monte mui alto, e no meio dele, no caminho pelo qual se sobe, uma fonte de água milagrosa, assim nos efeitos, que Deus obra por meio dela, dando saúde aos enfermos, que a bebem, como na origem, que subitamente a deu o Senhor ali pela oração de um religioso da companhia, segundo me disse como testemunha de vista, e bem qualificada, um neto do dito Pedro do Campo Tourinho, e do seu próprio nome, meu condiscípulo no estudo das Artes e Teologia, e depois Deão da Sé desta Bahia, o qual depois da morte de seu avô, se veio a viver com sua avó e mãe, por sua mãe Leonor do Campo, com licença de Sua Majestade, vender a capitania a d. João de Lencastre, primeiro duque de Aveiro, por 100 mil-réis de juro, o qual mandou logo capitão que a governasse em seu nome, e fizesse um Engenho à sua custa, e desse ordem a se fazerem outros, como se fizeram, posto que depois se foram desfazendo todos, assim por falta de bois, que não cria esta terra gado vaccum, por causa de certa erva do pasto, que o mata, como por os muitos assaltos do gentio Aimoré, em que lhe matavam os escravos, pelo que também despovoaram muitos moradores, e se passaram para outras capitanias.

 

Porém sem isto tem outras coisas, pelas quais merecia ser bem povoada; porque no rio Grande, onde parte com a capitania dos Ilhéus, tem muito pau-brasil, e no rio das Caravelas muito zimbo, dinheiro de Angola, que são uns buziozinhos mui miúdos de que levam pipas cheias, e trazem por elas navios de negros, e na terra deste rio, e em todas as mais que há até entestar com as de Vasco Fernandes Coutinho, se dá muito bem o gado vaccum, e se podem com facilidade fazer muitos engenhos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SEXTO

 

Da capitania dos Ilhéus

 

 

 

Quando el-rei d. João Terceiro repartiu as capitanias do Brasil, fez mercê de uma delas, com 50 léguas de terra por costa, a Jorge de Figueiredo Corrêa, escrivão de sua fazenda, a qual começa da ponta do sul da barra da Bahia, chamada o morro de São Paulo, por diante.

 

Este Jorge de Figueiredo fez uma frota bem provida do necessário, e moradores, com a qual mandou um castelhano, grande cavaleiro, homem de esforço e experiência, chamado Francisco Romeiro, o qual desembarcando no dito morro, começou ali a povoar, e por se não contentar do sítio, se passou para onde esta a vila dos Ilhéus, que assim se chama pelos que têm defronte da barra, e vindo assentar pazes com o gentio Tupiniquim foi com a capitania em grande crescimento, e neste estado a vendeu o donatário com licença de Sua Majestade a Lucas Giraldes, que nela meteu grande cabedal, com que veio a ter oito engenhos, ainda que os feitores (como costumam fazer no Brasil) lhe davam em conta a despesa por receita, mandando-lhe mui pouco ou nenhum açúcar: pelo que ele escreveu a um florentino chamado Thomaz, que lhe pagava com cartas de muita eloqüência, Thomazo, quiere que te diga, manda la asucre deixa la parolle, e assinou-se, sem escrever mais letra.

 

Mas não foi este o mal desta capitania, senão a praga dos selvagens Aimorés, que com seus assaltos cruéis, fizeram despovoar os engenhos, e se hoje estão já de paz, ficaram os homens tão desbaratados de escravos, e mais fábrica, que se contentam com plantar mantimento para comer.

 

Porém no rio do Camamu, e nas ilhas de Tinharé e Boepeba, que são da mesma capitania, e estão mais perto da Bahia, há alguns bons engenhos e fazendas, e no rio de Taipé, que dista só duas léguas dos Ilhéus, tem Bartolomeu Luiz de Espinha um engenho, e junto dele esta uma lagoa de água doce, onde há muito e bom peixe do mar, e peixes-bois, e um pomar formoso de marmelos, figos e uvas, e frutas de espinhos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SÉTIMO

 

Da capitania da Bahia

 

 

 

Toma esta capitania o nome da Bahia por ter uma tão grande, que por antonomásia e excelência se levanta com o nome comum, e apropriando-o a si se chama a Bahia, e com razão, porque tem maior recôncavo, mais ilhas, e rios dentro de si, que quantas são descobertas no mundo, tanto que tendo hoje 50 engenhos de açúcar, e para cada engenho mais de dez lavradores de canas, de que se faz o açúcar, todos têm seus esteiros, e portos particulares; nem há terra que tenha tantos caminhos, por onde se navega.

 

As ilhas que dentro de si tem, entre grandes e pequenas, são 32, só tem um senão, que é não se poder defender a entrada dos corsários, porque tem duas bocas, ou barras, uma dentro da outra, a primeira a leste da ponta do padrão da Bahia, ou morro de S. Paulo, que é de 12 léguas, a segunda, que é a interior ao sul da dita barra, ou ponta do Padrão, a ilha de Itaparica, que é boca de três léguas.

 

Está esta Bahia em 13º, e um terço e tem em seu circuito a melhor terra do Brasil; porque não tem tantas áreas como as da banda do norte, nem tantas penedias como as do sul, pelo que os índios velhos comparam o Brasil a uma pomba, cujo peito é a Bahia, e as asas as outras capitanias, porque dizem que na Bahia está a polpa da terra, e assim da o melhor açúcar que há nestas partes.

 

Também é tradição antiga entre eles, que veio o bem-aventurado Apóstolo São Tomé a esta Bahia, e lhes deu a planta da mandioca, e das bananas de São Tomé, de que temos tratado no primeiro livro; e eles em paga deste benefício, e de lhes ensinar que adorassem e servissem a Deus, e não ao Demônio, que não tivessem mais de uma mulher, nem comessem carne humana, o quiseram matar e comer, seguindo-o efeito até uma praia, donde o santo se passou de uma passada à ilha de Maré, distância de meia légua, e daí não sabem por onde, devia de ser indo para a Índia, que quem tais passadas dava bem podia correr todas estas terras, e quem as havia de correr também convinha que desse tais passadas.

 

Mas como estes gentios não usem de escrituras, não há disto mais outra prova, ou indícios, que achar-se uma pegada impressa em uma pedra naquela praia, que diziam ficara do santo quando se passou à ilha, onde em memória fizeram os portugueses no alto uma ermida do título, e invocação de São Tomé.

 

Pela banda do norte parte esta capitania com a de Pernambuco, pelo rio de São Francisco, o qual era merecedor de se escrever não só em bom capítulo particular, senão em muitos, pelas muitas e grandes coisas, que dele se dizem, mas contento-me com passá-las em suma, ou a vulto, como hei passado outras, porque estão todas as do Brasil tão desacreditadas, que não sei se ainda assim o quererão ler.

 

Está este rio em altura de 10º, e uma quarta, na boca da barra tem duas léguas de largo, entra a maré por ele outras duas somente, e daí para cima é água doce, donde há tão grandes pescarias, que em quatro dias carregam de peixe quantos caravelões lá vão, e se querem navegam por ele até 20 léguas, ainda que sejam de 50 toneladas de porte.

 

No inverno, nau traz tanta água, nem corre tanto como no verão, e no cabo das ditas 20 léguas, faz uma cachoeira, por onde a água se despenha, e impede a navegação; porém daí por diante se pode navegar em barcos, que lá se armarem, até um sumidouro, onde este rio vem 10 ou 12 léguas por baixo da terra, e também é navegável daí para cima 80 ou 90 léguas, podendo navegar barcos, ainda mui grandes, pela quietação com que corre o rio, quase sem sentir-se, e os índios Anaupirás navegam por ele em canoas.

 

É gentio este que ainda não foi tratado, e dizem que se ataviam com algumas peças de ouro; pelo que Duarte Coelho de Albuquerque, senhor que foi de Pernambuco, tratou no reino desta conquista, mas nunca se fez, nem o rio se povoou até agora mais que de alguns currais de gado e roças de farinha ao longo do mar, sendo assim que é capaz de boas povoações, porque tem muito pau-brasil e terras para engenhos.

 

Não trato do rio de Sergipe, do rio Real e outros, que ficam nos limites desta capitania da Bahia, por não ser prolixo, e também porque adiante pode ser tenham lugar.

 

Desta capitania da Bahia fez mercê el-rei d. João Terceiro a Francisco Pereira Coutinho, fidalgo mui honrado, de grande fama e cavalarias na Índia, o qual veio em pessoa com uma grande armada à sua custa no ano do nascimento do Senhor de 1535, e desembarcando da ponta do Padrão da Bahia para dentro se fortificou; onde agora chamam a Vila Velha, esteve de paz alguns anos com os gentios, e começou dois engenhos levantando-se eles depois, lhos queimaram, e lhe fizeram guerra por espaço de sete ou oito anos, de maneira que lhe foi forçado, e aos que com ele estavam, embarcarem-se em caravelões, e acolherem-se à capitania dos Ilhéus, onde o mesmo gentio, obrigado da falta do resgate que com eles faziam, se foram ter com eles assentando pazes, e pedindo-lhes que se tornassem, como logo fizeram com muita alegria; porém levantando-se uma tormenta deram à costa dentro na Bahia na ilha Itaparica, onde o mesmo gentio os matou, e comeu a todos, exceto um Diogo Alvares, por alcunha posta pelos índios o Caramuru, porque lhe sabia falar a língua, e não sei se ainda isto bastaria pelo que são carniceiros, e ficaram encarniçados nos companheiros, se dele não se namorara a filha de um índio principal, que tomou a seu cargo o defendê-lo, e desta maneira acabou Francisco Pereira Coutinho com todo o seu valor, e esforço, e a sua capitania com ele.

 

 

 

 

CAPÍTULO OITAVO

 

Da capitania de Pernambuco, que el-rei doou a Duarte Coelho

 

 

 

As 50 léguas de terra desta capitania se contêm do rio de São Francisco, de que tratei no capítulo próximo passado, até o rio de Iguaraçu, de que tratei no capítulo segundo deste livro, e chama-se de Pernambuco, que quer dizer mar furado, por respeito de uma pedra furada, por onde o mar entra, a qual está vindo da ilha de Itamaracá, e também se poderá assim chamar por respeito do porto principal desta capitania, que é o mais nomeado, e freqüentado de navios que todos os mais do Brasil, ao qual se entra pela boca de um recife de pedra tão estreita, que não cabe mais de uma nau enfiada após outra, e entrando desta barra, ou recife para dentro, fica logo ali um poço, ou surgidouro, onde vem acabar de carregar as naus grandes, e nadam as pequenas carregadas de 100 toneladas, ou pouco mais, para o que esta ali uma povoação de 200 vizinhos com uma freguesia do Corpo Santo, de quem são os mareantes mui devotos, e muitas vendas e tabernas, e os passos de açúcar, que são umas lojas grandes, onde se recolhem os caixões até se embarcarem os navios.

 

Esta povoação, que se chama de Recife, esta em 80º uma légua da vila de Olinda, cabeça desta capitania, aonde se vai por mar, e por terra, porque é uma ponta de areia como ponte, que o mar da costa, que entra pela dita boca, cinge ao leste, e voltando pela outra parte faz um rio estreito, que a cinge ao oeste, pelo qual rio navegam com a maré muitos batéis, e as barcas, que levam as fazendas ao varadouro da vila, onde esta a alfândega.

 

A vila se chama de Olinda, nome que lhe pôs um galego, criado de Duarte Coelho, porque andando com outros por entre o mato buscando o sítio onde se edificasse, achando este, que é em um monte alto, disse com exclamação e alegria, Olinda.

 

Desta capitania fez el-rei d. João Terceiro mercê a Duarte Coelho, pelos muitos serviços que lhe havia feito na Índia na tomada de Malaca, e em outras ocasiões, o qual como tinha tão valorosos e altos espíritos, fez uma grossa armada em que se embarcou com sua mulher d. Beatriz de Albuquerque, e seu cunhado Jerônimo de Albuquerque, e foi desembarcar no rio de Iguaraçu, onde chamam os marcos, porque ali se demarcam as terras de sua capitania com as de Itamaracá, e as mais que se deram a Pero Lopes de Souza, onde já estava uma feitoria de el-rei para o pau-brasil, e uma fortaleza de madeira que el-rei lhe largou, e nela se recolheu, e morou alguns anos, e ali lhe nasceram seus filhos Duarte Coelho de Albuquerque, e Jorge de Albuquerque, e uma filha chamada d. Ignez de Albuquerque, que casou com d. Jerônimo de Moura, e cá morreram ambos, e um filho, que houveram, todos três em uma semana.

 

Dali deu Duarte Coelho ordem a se fazer a vila de Iguaraçu uma légua pelo rio adentro, do qual tomou o nome, e também se chama a vila de São Cosme e Damião, pela igreja matriz, que tem deste título, e orago, a qual é mui freqüentada dos moradores da vila de Olinda, que dista dela quatro léguas, e de outras partes mais distantes, pelos muitos milagres, que o Senhor faz pelos merecimentos, e intercessão dos santos.

 

Esta vila encarregou Duarte Coelho a um homem honrado Viannez chamado Afonso Gonçalves, que já o havia acompanhado da Índia. Da vila de Iguaraçu, ou dos santos Cosmos, mandou vir de Viana seus parentes, que tinha muitos, e mui pobres, os quais vieram logo com suas mulheres e filhos, e começaram a lavrar a terra entre os mais moradores, que já havia plantando mantimentos e canas de açúcar, para o qual começava já o capitão a fazer um engenho, e em tudo os ajudavam os gentios, que estavam de paz, e entravam e saíam da vila com seus resgates, ou sem eles, cada vez que queriam, mas embebedando-se uma vez uns poucos se começaram a ferir, e matar de modo, que foi necessário mandar o capitão alguns brancos com seus escravos, que os apartassem, ainda que contra o parecer dos nossos línguas, e intérpretes, que lhe disseram os deixasse brigar, e quebrar as cabeças uns aos outros; porque se lhes acudiam, como sempre se receiem dos brancos, haviam cuidar que os iam prender, e cativar, e se haviam de pôr em resistência, e assim foi, que logo se fizeram em um corpo, e com a mesma fúria, que uns traziam contra os outros, se tornaram todos os nossos, sem bastar vir depois o mesmo capitão com mais gente para os acabar de aquietar, e o pior foi que alguns, que ficaram fora da bebedice, se foram logo correndo à sua aldeia apelidando arma; porque os brancos se haviam já descoberto com eles, e tinham presos, mortos, e cativos, e feridos quantos estavam na vila, e assim o iriam fazendo pelas aldeias, e para mais confirmação desta mentira levavam uns dos mortos, que era filho do principal da aldeia, com a cabeça quebrada, dizendo que por ali veriam se falavam verdade, o qual visto, e ouvido pelo principal, e pelos mais se puseram logo em arma, e foram dar nos escravos do capitão, que andavam no mato cortando madeira, onde mataram um, os outros fugiram para a vila a contar o que se passava; e não bastou mandar-lhes o capitão dizer que os seus próprios fizeram a briga, e se mataram uns aos outros com a bebedice, e que os brancos foram só apartá-los, e eram seus amigos; nada disto bastou, antes apelidou o principal o das outras aldeias mandando-lhes parte do escravo do capitão, que haviam morto, para que se cevassem nela, como os da sua haviam feito na outra e assim se ajuntaram infinitos, e puseram em cerco a vila, dando-lhe muitos assaltos, e matando alguns moradores, e entre eles o capitão Afonso Gonçalves de uma flechada, que lhe deram por um olho, e lhe penetrou até os miolos, o qual os da vila recolheram, e enterraram com tanto segredo, que o não souberam os inimigos em dois anos, que durou o cerco, antes viam tanto vigia, e concerto, que parecia estar dentro algum grande capitão, sendo que cada um o era de si mesmo, e a necessidade de todos; porque até as mulheres vigiavam o seu quarto na fortaleza enquanto os homens dormiam, e estando elas de posto uma noite, vendo os inimigos tanto silêncio, que parecia não haver ali gente, subiram alguns, e começaram a entrar pelas portinholas das peças, mas elas, que os haviam sentido subir, os estavam aguardando com suas partasanas nas mãos, e quando estavam já com meio corpo dentro lhas meteram pelos peitos, e os passaram de parte a parte, e uma não contente com isso tomou um tição, e pôs fogo a uma peça com que fez fugir os outros, e espertar os nossos, que foi um feito mui heróico para mulheres terem tanto silêncio, e tanto ânimo.

 

O aperto maior que houve neste cerco foi o da fome; porque se não podiam valer de suas roças, onde tinham o mantimento, nem do mar para pescar e mariscar, e se da ilha de Itamaracá os não socorreram pelo rio em um barco, sem dúvida morreram todos à fome; e ainda este socorro lhe quiseram estorvar por muitos modos, mandando ameaçar aos da ilha, que só por isto lhes iriam fazer guerra, e esperando o barco; quando passava, lhe tiravam de terra muitas flechadas, pelo que era necessário ir mui bem empavesado, e contudo sempre feriam alguns remeiros, e uma vez determinaram fazer uma armadilha com que metessem o barco no fundo com quantos iam nele, e para este efeito cortaram uma grande árvore, que estava em uma ponta de terra, por onde haviam de ir costeando, e não a cortaram de todo, senão quanto se tinha por uma corda, para que quando passasse o barco por junto dela então a largassem e deixassem cair; mas quis Deus que eles caíssem na armadilha, que fizeram, porque a árvore não caiu para fora, senão para a terra, e os colheu debaixo, matando e ferindo a muitos.

 

Outros muitos milagres obrou Nosso Senhor neste cerco, pela intervenção dos bem-aventurados S. Cosme e Damião, padroeiros desta vila, que se isto não fora não se puderam sustentar com tantas necessidades quantas padeciam.

 

Nem Duarte Coelho os podia socorrer, por estar também neste tempo em contínuos assaltos do gentio na vila de Olinda, e lhe terem por terra todos os caminhos tomados; somente mandou levar em uns barcos as crianças, e a mais gente, que não pudesse pelejar; porque não estorvassem, nem comessem o mantimento aos mais, que não foi pequeno acordo para aquele tempo, até que quis Nosso Senhor, que os mesmos inimigos, cansados já de pelejar, se pacificaram, e tornaram a ter paz, e amizade com os brancos, com o que tornaram a fazer suas fazendas.

 

 

 

 

CAPÍTULO NONO

 

De como Duarte Coelho correu a costa da sua capitania, fazendo guerra aos franceses, e paz com o gentio, e se foi para o reino

 

 

 

Não menos foi o aperto em que Duarte Coelho / como temos tocado / teve tudo este tempo na vila de Olinda, tendo-o por algumas vezes os inimigos posto em cerco em a sua torre, com muitas necessidades de fome e sede, contra quem não valiam as balas, que valorosamente atiravam de dentro, ainda que com elas matavam muitos gentios e franceses: mas Deus Nosso Senhor, que excitou o ânimo de Raab, mulher desonesta, para que escondesse as espias de seu povo, e fosse instrumento da vitória que se alcançou contra Jericó, a excitou também a filha de um principal destes gentios, que se havia afeiçoado a um Vasco Fernandes de Lucena, e de quem tinha já filhos, para que fosse entre os seus, e gabando os brancos às outras as trouxessem todas carregadas de cabaças de água, e mantimentos, com que os nossos se sustinham; porque isto faziam muitas vezes, e com muito segredo, e era este Vasco Fernandes tão bem temido e estimado entre os gentios, que o principal se tinha por honrado em tê-lo por genro, porque o tinham por grande feiticeiro; e assim uma vez que o cerco era mais apertado e estavam os de dentro receosos de os entrarem, saiu ele só fora, e lhes começou a pregar na sua língua brasílica, que fossem amigos dos portugueses, como eles o eram seus, e não dos franceses, que os enganavam, e traziam ali para que fossem mortos, e logo fez uma risca no chão com um bordão, que levava, dizendo-lhes que se avisassem, que nenhum passasse daquela risca para a fortaleza, porque todos os que passassem haviam de morrer, ao que o gentio deu uma grande risada, fazendo zombaria disto, e sete ou oito indignados se foram a ele para o matarem, mas, em passando a risca, caíram todos mortos; o que visto pelos mais levantaram o cerco, e se puseram em fugida.

 

Não crera eu isto, posto que o vi escrito por pessoa, que o afirmava, se não soubera que neste próprio lugar, onde se fez à risca, defronte da torre, se edificou depois um suntuoso templo do Salvador, que é matriz das mais igrejas de Olinda, onde se celebram os divinos ofícios, com muita solenidade e, assim não se há de atribuir aos feitiços senão à Divina Providência, que quis com este milagre sinalar o sítio, e imunidade do seu templo.

 

Com estas e outras vitórias, alcançadas mais por milagres de Deus, que por forças humanas, cobrou Duarte Coelho tanto ânimo, que não se contentou de ficar na sua povoação pacífico, senão ir-se em suas embarcações pela costa abaixo até o rio de S. Francisco, entrando nos portos todos de sua capitania, onde achou naus francesas, que estavam ao resgate de pau-brasil com o gentio, e as fez despejar os portos, e tomou algumas lanças e franceses, posto que não tanto a seu salvo, e dos seus, que não ficassem muitos feridos, e ele de uma bombardada, de que andou muito tempo maltratado, e contudo não se quis recolher até não a limpar a costa toda destes ladrões, e fazer pazes com os mais dos índios, e isto feito se tornou para a sua povoação com muitos escravos, que lhe deram os índios, dos que tinham tomados nas suas guerras, que uns lá tinham com os outros, o que fez também muito temido, e estimado dos circunvizinhos de Olinda, dizendo todos que aquele homem devia ser algum diabo imortal, pois se não contentava de pelejar em sua casa com eles, e com os franceses, mas ainda ia buscar fora com quem pelejar, e com isto mais por medo que por vontade lhe foram dando lugar para fazer um engenho uma légua da vila, e seu cunhado Jerônimo de Albuquerque outro; e os lavradores suas roças de mantimentos, e canaviais, a que o gentio os vinha ajudar, e lhes traziam muitas galinhas, caças, e frutas do mato, peixe, e mariscos a troco de anzóis, facas, foices, e machados, que eles estimavam muito.

 

Fez também caravelões, e lanchas em que fossem resgatar com os da costa com que tinha feito pazes, donde a troco das mesmas ferramentas, e de outras coisas de pouca valia, resgatavam muitos escravos e escravas, de que se serviam, e os casavam com outros livres, que os serviam também como os cativos.

 

Vendo Duarte Coelho que a terra estava quieta, e os moradores contentes, determinou ir-se a Portugal com seus filhos, deixando o governo da capitania a seu cunhado Jerônimo de Albuquerque em companhia da irmã.

 

O intento que o levou devia ser para requerer seus serviços, que na verdade eram grandes; e ainda que eram para seu proveito, e de seus descendentes, aos quais rende hoje a capitania perto de vinte mil cruzados: muito mais eram para el-rei, a quem só os dízimos passam cada ano de 60 mil cruzados, fora o pau-brasil, e direitos do açúcar, que importam muito os desta capitania por haver nela cem engenhos; porém como ainda então não havia tantos, nem tanta renda, e devia estar mexericado com el-rei, que lhe tomava a jurisdição, quando lhe foi beijar a mão lho remocou, e o recebeu com tão pouca graça, que indo-se para casa enfermou de nojo, e morreu daí a poucos dias; pelo que indo Afonso de Albuquerque com dó ao passo, e sabendo el-rei dele por quem o trazia, lhe disse: Pesa-me ser morto Duarte Coelho, porque era muito bom cavaleiro. Esta foi a paga de seus serviços, mas mui diferente a que de Deus receberia, que é só o que paga dignamente, e ainda ultra condignum, aos que o servem.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO

 

De como na ausência de Duarte Coelho ficou governando Jerônimo de Albuquerque a Capitania de Pernambuco, e do que nela aconteceu neste tempo

 

 

 

Razão tinha / se tivera perfeito uso dela / o gentio desta capitania para não se inquietar, e inquietá-la com a ausência de Duarte Coelho, pois ficava em seu lugar sua mulher d. Beatriz de Albuquerque, que a todos tratava como filhos, e Jerônimo de Albuquerque seu irmão, que assim por sua natural brandura, e boa condição, como por ter muitos filhos das filhas dos principais, os tratava a eles com respeito. Mas como é gente que se leva mais por temor, que por amor, tanto que viram ausentes o que temiam, começaram a fazer das suas, matando, e comendo a quantos brancos e negros seus escravos encontravam pelos caminhos, e o pior era que nem por isto deixavam de lhes vir a casa com seus resgates, dizendo que eles o não faziam, senão alguns velhacos, que haviam mister bem castigados.

 

Muito dava isto em que entender a Jerônimo de Albuquerque por não saber que conselho tomasse, e assim chamou a ele os oficiais da Câmara, e outras pessoas que o podiam dar, e juntos em sua casa lhes perguntou o que faria, começou logo cada um a dizer o que sentia, e os mais foram de parecer que os castigassem, e lhes fizessem guerra, mas não concordando no modo dela, se desfez a junta sem resolução do caso, e se foi cada um para sua casa, só ficaram alguns, que melhor sentiam, e entre eles um chamado Vasco Fernandes de Lucena, homem grave, e muito experimentado nesta matéria de índios do Brasil, que lhes sabia bem a língua, e as tretas de que usam, o qual disse ao governador que não era bem dar guerra a este gentio sem primeiro averiguar quais eram os culpados, porque não ficassem pagando os justos pelos pecadores; e que ele / se lhe dava licença / daria ordem e traça com que eles mesmos se descobrissem, e acusassem uns aos outros, e sobre isso ficassem entre si divisos, e inimigos mortais, que era o que mais importava; porque todo o reino em si diviso será assolado, e uns aos outros se destruíram sem nós lhes fazermos guerra, e quando fosse necessário fazer-lha, nos ajudaríamos do bando contrário, que foi sempre o modo mais fácil das guerras, que os portugueses fizeram no Brasil, e para isto mandasse logo ordenar muitos vinhos, e convidar os principais das aldeias, para que os viessem beber, e no mais deixasse a ele o cargo.

 

Pareceu isto bem aos que ali estavam, e o governador encomendando-lhes o segredo como convinha, mandou fazer os vinhos, e eles feitos mandou chamar os principais das aldeias dos gentios, e tanto que vieram os mandou agasalhar pelos línguas, ou intérpretes, que o fizeram ao seu modo bebendo com eles, porque não suspeitassem ter o vinho peçonha, e o bebessem de boa vontade, e depois que estiveram carregados, lhes disse Vasco Fernandes de Lucena que o governador os mandava chamar porque determinava ir fazer guerra aos Tobayoyas (Tobayáras?), que eram outros gentios seus contrários, o que não queria fazer sem sua ajuda; porém como entre eles havia .alguns velhacos, como eles mesmos confessavam, que ainda em sua presença matavam, e comiam os portugueses, e os seus escravos, que achavam pelos caminhos, se receava que em sua ausência viriam a suas casas a matar suas mulheres e filhos, pelo que era necessário, antes que se partissem, saber quem eram estes para os castigar, e premiar os bons; e como eles / deve de ser pela virtude do vinho, que entre outras tem também esta / nunca falam verdade, senão quando estão bêbados, começaram a nomear os culpados, e sobre isto vieram às pancadas, e flechadas, ferindo-se, e matando uns aos outros, até que acudiu o governador Jerônimo de Albuquerque, e os prendeu; e depois de averiguar quais foram os homicidas dos brancos, uns mandou pôr em bocas de bombardas, e dispará-las à vista dos mais, para que os vissem voar feitos pedaços, e outros entregou aos acusadores, que os mataram em terreiros, e os comeram em confirmação da sua inimizade, e assim a tiveram daí avante tão grande como se fora de muitos anos, e se dividiram em dois bandos, ficando os acusadores com os seus sequazes, que era o maior número, onde dantes estavam, da vila até a mata do pau-brasil, por onde tiveram os portugueses lugar de se alargarem por esta parte, e fazerem seus engenhos, e fazendas, assim na várzea de Capiguaribe, que é a melhor de toda esta capitania, como em todo o espaço, que há até a vila de Iguaraçu; e a gente dos culpados, e acusadores, se passou para as matas do cabo de Santo Agostinho, louvando aos portugueses que haviam feito justiça.

 

Porém de lá vinham fazer tanta guerra a estoutros nossos amigos de uma grande cerca, que fizeram nos outeiros, que cercam a várzea de Capiguaribe da banda do sul, chamados Guararapes, que foi necessário ao capitão-mor Jerônimo de Albuquerque ir dar nela com os brancos, que pôde ajuntar, e mais de dez mil de estoutros índios, que para isto se lhe ofereceram de boa vontade, e como eram tantos, e os da cerca 600 flecheiros, com muita confiança remeteram a ela, e a acometeram por todas as partes, parecendo-lhes que já a tinham ganhada, mas os de dentro, como andavam mais resguardados, se defenderam, e os ofenderam de modo matando e ferindo tantos, que foi forçado aos capitães, depois de muitas horas de peleja, mandá-los recolher para uma caiçara, ou cerca de rama, que fizeram 25 braças afastada da dos contrários, e houve toda aquela noite grande jogo de pulhas, e bravatas de parte a parte, como costumam: dizendo, todavia, os contrários sempre que não o haviam com os brancos, antes queriam sua amizade, senão com os índios, e assim o mostraram o dia seguinte, porque estando os nossos portugueses, e índios muito descuidados, cuidando que não os viriam buscar, eles com um socorro de duzentos flecheiros, que lhes veio de outra aldeia, saíram com tanta pressa, e os cometeram com tanta fúria, que a muitos não deram lugar para tomar armas, e sem elas, e sem ordem alguma lançaram a fugir, tirado o capitão-mor Jerônimo de Albuquerque, que se foi retirando com os portugueses ordenadamente, mas não tanto a seu salvo que lhe não quebrassem um olho com uma flecha naquela primeira remetida, que depois não quiseram segui-los senão aos negros, que iam fugindo, nos quais fizeram grande destruição, e matança, de que depois se vingaram indo com Duarte Coelho de Albuquerque, que por morte de seu pai veio com seu irmão Jorge de Albuquerque a governar esta sua capitania, e foi dar guerra a este gentio do cabo, como a seu tempo contaremos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO PRIMEIRO

 

Da capitania de Itamaracá

 

 

 

Já dissemos no capítulo segundo como Pero Lopes de Souza não tomou as 50 léguas de terra, de que el-rei lhe fez mercê, todas juntas, senão repartidas, 25 da capitania de São Vicente para o sul, e outras 25 da capitania de Pernambuco para o norte, a que chamam de Itamaracá por respeito de uma ilha assim chamada, na qual está situada a vila da Conceição com uma igreja matriz do mesmo título, e outra da Santa Misericórdia.

 

A ilha tem duas léguas de comprido, ou pouco mais, ao redor dela vem desembocar cinco rios, dos quais, o de Iguaraçu, que demarca e extrema esta capitania da de Pernambuco, e está em 7º e um terço, alaga da ilha da parte do sul, onde está a dita vila, e o porto dos Navios, os quais para entrarem tem por baliza, e sinal umas barreiras vermelhas, com as quais pondo-se nordeste sudoeste entram pela barra à vontade. Outra barra tem a ilha à parte do norte, pela qual entram caravelões da costa.

 

Os outros rios que da terra firme vêm desembocar ao redor desta ilha são os de Araripe, Tapirema, Tujucupapo e Gueena, nos quais há mui bons engenhos de açúcar principalmente neste último de Gueena, onde está outra freguesia.

 

Nesta ilha de Itamaracá tinham os franceses feito uma fortaleza com um presídio de mais de cem soldados, com muitas munições, e artilharia, onde se recolhia a gente dos seus navios quando vinham a carregar de pau-brasil, que os gentios lhe cortavam, e acarretavam aos ombros a troco de ferramenta e outros resgates de pouca valia, que lhes davam, como também lhes traziam a troco dos mesmos muito algodão, e fiado, e redes feitas em que dormem, bugios, papagaios, pimenta e outras coisas que a terra dá, que para os franceses era de muito ganho, e por esta causa assim neste porto como nos mais do Brasil comerciavam com o gentio, e os alteravam contra os portugueses, induzindo-os que os não consentissem povoar, antes os matassem e comessem, porque o mesmo vinham eles a fazer, o qual sabido por el-rei d. João Terceiro, ordenou uma armada mui bem provida de todo o necessário, e mandou nela por capitão-mor Pero Lopes de Souza, para que viesse primeiramente a esta ilha, e daqui a todos os mais portos, e lançasse dele todos os franceses que achasse, e destruísse suas fortalezas e feitorias, levantando outras, donde lhe carregassem o pau-brasil por sua conta, porque esta era a droga que tomava para si.

 

Esta armada partiu de Lisboa, e navegou prosperamente até avistar a ilha de Itamaracá a tempo que havia dela saído uma nau francesa carregada para França, a qual cuidou fugir-lhe, mas mandou atrás dela uma caravela muito ligeira, e por capitão dela um João Gonçalves, homem de sua casa, de cujo esforço tinha muita confiança, pela experiência que dele tinha de outras armadas  em que o acompanhou contra os corsários na costa de Portugal e de Castela; e como a caravela era um pensamento, e a nau francesa sobrecarregada, posto que alojou muita parte da carga do pau-brasil, enfim foi alcançada, e querendo se pôr em defesa lhe tiraram da nossa com um pelouro de cadeia, que a colheu de proa a popa, e a desenxarceou de uma banda, e lhe matou alguns homens, com o que se renderam os mais, que eram 35 entre grandes e pequenos, e a nau com oito peças de artilharia, com a qual presa se tornou o capitão João Gonçalves, havendo já 27 dias que o capitão-mor estava na ilha, onde teve informação de outra nau que vinha de França com munições e resgates aos franceses, e a mandou esperar por outras duas caravelas, de que foram por capitães Álvaro Nunes de Andrada, homem fidalgo, galezo, da geração dos Andradas, e Gamboas, e Sebastião Gonçalves Arvelos, os quais a tomaram, e entraram com ela na mesma maré em que João Gonçalves entrou com a outra, com que os franceses da fortaleza começaram a enfraquecer, e desmaiar, e muito mais porque se lhe levantou um levantisco, e alguns portugueses que eles tinham tomado, e andavam entre os gentios, os quais, como lhes sabiam falar já a língua, os amotinaram contra os franceses de tal modo, que se Pero Lopes de Souza lho não proibira, quiseram logo matá-los, e comê-los, que tão variável é o gentio, e amigo de novidades; e assim vieram logo os principais oferecer-se a Pero Lopes de Souza para isto, e para tudo o mais que lhes mandasse; o qual os recebeu benignamente, e lhes disse que não fizessem o mal aos franceses, porque todos eram irmãos, nem ele lho havia de fazer, se lhe não resistissem, antes muitos benefícios, e favores; sabido isto pelos franceses / que logo lhe foram dizer / lhe mandou o seu capitão oferecer que fosse tomar entrega da fortaleza, e deles, que todos queriam ser seus prisioneiros, e cativos, e só pediam mercê das vidas, e assim se fez; não esperando o capitão da fortaleza que Pero Lopes de Souza chegasse a ela, mas ao caminho lhe trouxe as chaves, e lhas entregou com todos os seus soldados desarmados, ele lhes mandou entregar a sua roupa, e despejada a fortaleza da artilharia, e do mais que tinha a mandou arrasar, fazendo outra mais forte na povoação, e outra nos marcos, para resguardo da feitoria Del-rei, que depois Sua Alteza deu a Duarte Coelho, onde logo se tratou de fazer muito pau para a carga dos navios: e enquanto estas coisas se faziam sucedeu uma noite, que estando o capitão-mor com a candeia, e janela aberta lhe tiraram de fora com duas flechas, das quais uma lhe foi tocando com as penas pelo roupão, e ambas se foram pregar em umas rodelas, que estavam defronte na parede, o qual suspeitando nos franceses, mandou pela manhã que os enforcassem todos, e começando-se a fazer execução, vendo dois que ele havia tomado para a fortaleza por serem bombardeiros, que os mais eram inocentes, disseram em altas vozes que eles eram os culpados, que lhe haviam atirado cuidando de o acertarem, e nenhum daqueloutros tinha culpa; pelo que mandou sustar a execução neles, e enforcar a estoutros, mas estavam muitos enforcados, e cá se consumiram todos, com que os gentios ficaram estimando mais os portugueses, e os começaram a ajudar a fazer suas roças e fazendas, e a cortar e trazer o pau, que se havia de carregar nos navios de el-rei, o que tudo se lhes pagava muito a seu gosto.

 

Carregados os navios da armada que o capitão havia trazido para este efeito se partiram para o reino, e ele nos outros foi correr a costa, como el-rei lhe mandava, onde entrou em muitos portos, e queimou algumas naus francesas que achou, mas os franceses lhe fugiram pela terra dentro com os gentios, donde depois nos fizeram muito mal.

 

Ultimamente chegou a São Vicente, onde achou a seu irmão mais velho, Martim Afonso de Souza, fortificando, e povoando a sua capitania, e dando ordem a se povoar, e fortificar também a sua de São Vicente para o sul, se tornou a esta de Itamaracá, e achando boa informação de um Francisco de Braga, grande intérprete do Brasil, que havia deixado em seu lugar, o tornou a deixar com todos os seus poderes, e se tornou a Portugal a dar conta a el-rei do que tinha feito, donde foi por capitão-mor de quatro naus para a Índia o ano de 1539, e a tornada para o reino se sumiu a nau em que vinha, sem nunca mais aparecer, nem coisa alguma dela.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO

 

Do que aconteceu na capitania de Itamaracá depois que dela se foi o donatário Pero Lopes de Souza

 

 

 

Como o capitão Francisco de Braga sabia falar a língua do gentio, e era tão conhecido entre eles, não faziam senão o que ele queria, e lhes mandava, e assim se ia esta capitania povoando com muita facilidade, mas chegou neste tempo Duarte Coelho a povoar a sua, e como fez a povoação nos marcos, foi a muita vizinhança causa de terem algumas diferenças, por fim das quais lhe mandou Duarte Coelho dar uma cutilada pelo rosto, e o capitão vendo que não podia vingar, se embarcou para as Índias de Castela, levando tudo o que pôde; pelo que ficou a capitania desbaratada, perdida, como corpo sem cabeça, e muito mais por chegar neste tempo novas que era morto Pero Lopes de Souza, vindo da Índia, onde el-rei o mandou por capitão-mor das naus. Mas sua mulher d. Isabel de Gamboa mandou logo aprestar um patacho em que viesse o capitão João Gonçalves, que já havia estado com seu marido, e se partisse à pressa, sem esperar por outros três navios, que se ficavam negociando; e assim se partiu; porém os que partiram derradeiro chegaram, e o primeiro arribou às Antilhas, e foi dar à costa na ilha de Santo Domingo, com os mastros quebrados, posto que se salvou a gente.

 

Vendo Pedro Vogado, que assim se chamava o capitão-mor dos três navios, que não era chegado o capitão João Gonçalves à ilha, os carregou logo de pau-brasil, e os tornou a mandar, avisando a d. Isabel do que passava, e de como ele ficava entretanto governando. A qual, em vez de o mandar continuar porque o fazia mui honradamente, mandou outro capitão, que mais era para governar uma barca, e assim se embarcou, e foi por essas capitanias abaixo / como fez o Braga /, deixando esta em termos de se acabar de despovoar, se não fora um morador honrado chamado Miguel Álvares de Paiva, o qual levantaram por capitão, porque nunca se quis sair da ilha, antes teve mão nos outros, que se não fossem nem mandassem suas mulheres, e filhos, como alguns queriam, com medo dos gentios, que neste tempo tinham cercada a vila de Iguaraçu, e os ameaçavam que lhes haviam de fazer o mesmo; este capitão era o que socorria os do cerco com os barcos do mantimento, como dissemos no capítulo nono, e trazia outros entre a ilha e a terra firme com soldados e armas, para que estorvassem ao inimigo a passagem, até que finalmente se quietaram, e chegou o capitão João Gonçalves das Antilhas, cuja vinda foi muito festejada, e os gentios lhe tinham muito respeito, por verem que assim lho tinha Pero Lopes de Souza, quando cá esteve, e assim não lhe chamavam senão o capitão velho, e pai de Pero Lopes: e na verdade ele o parecia no zelo com que o servia, e procurava o aumento desta sua capitania, não consentindo que aos Índios se fizesse algum agravo, mas cariciando a todos, com que eles andavam tão contentes, e domésticos, que de sua livre vontade se ofereciam a servir os brancos, e lhes cultivavam as terras de graça, ou por pouco mais de nada, principalmente um ano que houve de muita fome na Paraíba, donde só pelo comer se vinham meter por suas casas a servi-los; e assim não havia branco, por pobre que fosse nesta capitania, que não tivesse 20 ou 30 negros destes, de que se serviam como de cativos, e os ricos tinham aldeias inteiras.

 

Pois que direi dos resgates que faziam, donde por uma foice, por uma faca, ou um pente traziam cargas de galinhas, bugios, papagaios, mel, cera, fio de algodão, e quanto os pobres tinham.

 

Durou esta era, a que ainda hoje os moradores antigos chamam dourada, enquanto viveu o capitão velho, mas depois que morreu vieram outros a destruir quanto estava feito, fazendo, e consentindo fazerem-se tantas vexações e agravos aos pobres gentios em suas próprias terras, e aldeias, que se começaram a inquietar e rebelar, e os que pela nossa paz e amizade se afastavam dos franceses, e senão eram alguns da beira mar, os outros do sertão de nenhuma maneira os admitiam entre si, nem queriam seu comércio; depois uns e outros se liaram com eles, e nos fizeram tão grandes guerras, quanto os moradores desta capitania o sentiram em suas pessoas e fazendas, e não menos o donatário, que todo este tempo recebeu dela perdas sem proveito, e enfim lhe veio a custar tomar-lhe el-rei um grande pedaço dela, que é grande parte da Paraíba, por havê-la conquistado, e libertado do poder dos inimigos à custa da sua fazenda, e de seus vassalos, como no livro quarto veremos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO TERCEIRO

 

Da terra e capitania, que el-rei d. João Terceiro doou a João de Barros

 

 

 

No fim das 25 léguas da terra da capitania de Itamaracá, que el-rei doou a Pero Lopes de Souza, doou, e fez mercê a João de Barros, feitor, que foi da casa da Índia, de 50 léguas por costa; o qual cuidando de se aproveitar a si e a seus amigos, armou com Fernand’Álvares de Andrade, tesoureiro-mor do reino, e Aires da Cunha, que veio por capitão da empresa, mandando com ele dois filhos seus em uma frota de 10 navios, em que vinham 900 homens, e com todo o necessário para a jornada, e para a povoação que vinham fazer, se partiram de Lisboa no ano de 1535; mas desgarrando-se com as águas e ventos foram tomar terra junto do Maranhão, onde se perderam nos baixos.

 

Deste naufrágio escapou muita gente, com a qual os filhos de João de Barros se recolheram a uma ilha, que então se chamava das Vacas, e agora de São Luiz, donde fizeram pazes com o gentio tapuia, que então ali habitava, resgatando mantimentos, e outras coisas, que lhes eram necessárias: e chegou o trato e amizade a tanto que alguns houveram filhos das Tapuias, como se descobriu depois que cresceram, não só porque barbaram, e barbam ainda hoje todos os seus descendentes, como seus pais e avós, senão pelo amor que têm aos portugueses em tanta maneira, que nunca jamais quiseram paz com os outros gentios, nem com os franceses, dizendo que aqueles não eram verdadeiros Peros / que assim chamam aos portugueses, parece por respeito de algum que se chamava Pedro / e, todavia, quando na era de 614 entraram os nossos no Maranhão, logo os vieram ver, e fazer pazes com eles, dizendo que estes eram os seus Peros desejados, de que eles descendiam.

 

Donde se colige que não era o Maranhão a terra, que el-rei deu a João de Barros, como alguns cuidam, senão estoutra, que demarca pela Paraíba com a de Pero Lopes de Souza; porque se fora a do Maranhão, havendo seus filhos escapado do naufrágio, e chegado à do Maranhão com quase toda a sua gente, e achando a da terra tão benévola, e pacífica, que causa havia para que a não povoassem?

 

Prova-se também por que todas as que se deram naquele tempo foram contíguas umas com outras, e os donatários éreos uns dos outros pela ordem que vimos nos capítulos precedentes.

 

E finalmente se confirma, por que a do Maranhão foi dada a Luiz de Mello da Silva, que a descobriu, como se verá no capítulo seguinte, e não devia el-rei de dar a um, o que tinha dado a outro.

 

Nem o mesmo João de Barros, na primeira década, livro sexto, capítulo primeiro, onde fala da sua capitania, faz menção do Maranhão, mas só diz que da repartição que el-rei d. João Terceiro fez das capitanias na província de Santa Cruz, que comumente se chama do Brasil, lhe coube uma, a qual lhe custou muita substância de fazenda, por razão de uma armada, que fez em companhia de Aires da Cunha / et cetera, / que é a armada / como temos dito / que arribou, e se foi perder no Maranhão, e daí mandou depois em outros navios buscar seus filhos, donde ficou tão pobre, e endividado, que não pôde mais povoar a sua terra, a qual já agora é de Sua Majestade, por cujo mandado depois se conquistou, e se ganhou ao gentio Potiguar à custa de sua real fazenda.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO QUARTO

 

Da terra e capitania do Maranhão, que el-rei d. João Terceiro doou a Luiz de Mello da Silva

 

 

 

O Maranhão é uma grande baía, que fez o mar, cuja boca se abre ao norte em  2º e um quarto da linha para o sul, entre a’ponta do Pereá, que lhe fica a leste, e a do Cumá a oeste, tem no meio a ilha de S. Luiz, que é de 20 léguas de comprido, e sete ou oito de largura, onde esteve Aires da Cunha, quando se perdeu com a sua armada, e os filhos de João de Barros, como dissemos no capítulo precedente. A qual ilha sai desta baía como língua com a ponta de Arassoagi ao norte, onde tem a boca. Dentro tem outras muitas ilhas, das quais a maior é de seis léguas. Deságuam nesta baía cinco rios caudalosos, e todos navegáveis, que são o Monim, o Itapucuru, o Mearim, o Pinaré, que dizem nasce muito perto do Peru, e o Maracu, que se deriva por muitos, e mui espaçosos lagos.

 

Todos estes rios têm boníssimas águas, e pescados, excelentes terras, muitas madeiras, muitas frutas, muitas caças, e por isto muito povoadas de gentios.

 

No tempo que se começou a descobrir o Brasil, veio Luiz de Mello da Silva, filho do alcaide-mor de Elvas, como aventureiro, em uma caravela a correr esta costa, para descobrir alguma boa capitania, que pedir a el-rei, e não podendo passar de Pernambuco desgarrou com o tempo e águas, e se foi entrar no Maranhão, do qual se contentou muito, e tomou língua do gentio, e depois na Margarita de alguns soldados que haviam ficado da companhia de Francisco de Orelhana, que como testemunhas de vista muito lha gabaram, e prometeram muitos haveres de ouro, e prata pela terra dentro, do que movido Luiz de Mello se foi a Portugal pedir a el-rei aquela capitania para a conquistar e povoar, e sendo-lhe concedida, se fez prestes na cidade de Lisboa, e partiu dela em três naus e duas caravelas, com que chegando ao Maranhão se perdeu nos esparsos e baixos da barra, e morreu a maior parte da gente que levava, escapando só ele com alguns em uma caravela, que ficou fora do perigo, e 18 homens em um batel, que foi ter à ilha de Santo Domingo, dos quais foi um meu pai, que Nosso Senhor tenha em sua glória, o qual sendo moço, por fugir de uma madrasta, e ser Alentejano, como o capitão, da geração dos Palhas, e com pouco grau para sustentar a vida, se embarcou então para o Maranhão, e depois para esta Bahia, onde se casou, e me houve, e a outros filhos e filhas.

 

Depois de Luiz de Mello ser em Portugal se passou à Índia, onde obrou valorosos feitos, e vindo-se para o reino muito rico, e com tenção de tornar a esta empresa, acabou na viagem na nau São Francisco, que desapareceu sem se saber mais novas dela; nem houve quem tratasse mais do Maranhão o que visto pelos franceses, lançaram mão dele, como veremos no livro quinto.

 

Mas hão se aqui por fim deste de advertir duas coisas: a primeira que não guardei nele a ordem de tempo e antigüidade das capitanias, e povoações, senão a do sítio, e contiguação de umas com outras, começando do sul para o norte, o que não farei nos seguintes livros, em que seguirei a ordem dos tempos, e sucessão das coisas. A segunda, que não tratei das do Rio de Janeiro, Sergipe, Paraíba, e outras, porque estas se conquistaram depois, e povoaram por conta del-rei, por ordem de seus capitães, e governadores gerais, e terão seu lugar quando tratarmos deles nos livros seguintes.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIVRO TERCEIRO

 

 

 

DA HISTÓRIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU TOMÉ DE SOUZA ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR MANUEL TELES BARRETO

 

 

 

 

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

De como el-rei mandou outra vez povoar a Bahia por Tomé de Souza, governador geral da Bahia

 

 

 

Depois que el-rei soube da morte de Francisco Pereira Coutinho, e da fertilidade da terra da Bahia, bons ares, boas águas, e outras qualidades que tinha para ser povoada; e juntamente estar no meio das outras capitanias, determinou povoá-la e fazer nela uma cidade, que fosse como coração no meio do corpo, donde todas se socorressem, e fossem governadas. Para o que mandou fazer uma grande armada, provida de todo o necessário para a empresa, e por capitão-mor Tomé de Souza, do seu conselho, com título de governador de todo o estado do Brasil, dando-lhe grande alçada de poderes, e regimento, em que quebrou os que tinha concedido a todos os outros capitães proprietários, por no cível e crime lhes ter dado demasiada alçada, como vimos no capítulo segundo do livro segundo; mandando que no crime nenhuma tenham, sem que dêem apelação para o ouvidor-geral deste estado, e no cível 20 mil-réis somente; e que o dito ouvidor-geral possa entrar por suas terras por correção, e ouvir nelas de auções novas e velhas, o que não faziam dantes, e para isto lhe deu por ajudadores o doutor Pero Borges, corregedor que fora de Elvas, para servir de ouvidor-geral; Antônio Cardoso de Barros para provedor-mor da Fazenda, e Diogo Moniz Barreto para alcaide-mor da cidade que edificasse; com os quais, e com alguns criados del-rei, que vinham providos em outros cargos, e seis padres da companhia para doutrinar, e converter o gentio, e outros sacerdotes, e seculares, partiu de Lisboa a 2 de fevereiro de 1549, trazendo mais alguns homens casados, e mil de peleja, em que entravam quatrocentos degradados.

 

Com toda esta gente chegou à Bahia a 20 de março do mesmo ano, e desembarcou na Vila Velha, que Francisco Pereira deixou edificada logo à entrada da barra, onde achou a Diogo Álvares Caramuru, de quem disse no sétimo capítulo do livro segundo, que foi livre da morte pela filha de um índio principal, que dele se namorou, a qual embarcando-se ele depois, fugido em um navio francês, que aqui veio carregar de pau, e indo já o navio à vela, se foi a nado embarcar com ele, e chegando à França, batizando-se ela, e chamando-se Luiza Alvares, se casaram ambos, e depois os tornaram a trazer os franceses no mesmo navio, prometendo-lhes ele de lho fazer carregar por seus cunhados.

 

Porém chegando à Bahia, e ancorando no rio de Paraguaçu, junto à ilha dos franceses, lhes mandou uma noite cortar a amarra, com que deram à costa, e despojados de quanto traziam, foram todos mortos, e comidos do gentio, dizendo-lhes Luiza Alvares, sua parenta, que aqueles eram inimigos, e só seu marido era amigo, e como tal tornava a buscá-los, e queria viver entre eles, como de feito viveu até a vinda de Tomé de Souza, e depois muitos anos, e a ela alcancei eu, morto já o marido, viúva mui honrada, amiga de fazer esmolas aos pobres, e outras obras de piedade.

 

E assim fez junto a Vila Velha em um aprazível sítio uma ermida de Nossa Senhora da Graça, e impetrou do Sumo Pontífice indulgências para os romeiros, dos quais é mui freqüentada.

 

Esta capela ou administração dela doou aos padres de São Bento, que ali vão todos os sábados cantar uma missa.

 

Morreu muito velha, e viu em sua vida todas suas filhas, e algumas netas casadas com os principais portugueses da terra, e bem o mereciam também por parte de seu progenitor Diogo Álvares Caramuru, por cujo respeito fiz esta digressão; pois este foi o que conservou a posse da terra tantos anos, e por seu meio fez o governador Tomé de Souza pazes com o gentio, e os fez servir aos brancos, e assim edificou, povoou e fortificou a cidade, que chamou do Salvador, onde ela hoje está, que é meia légua da barra para dentro, por ser aqui o porto mais quieto, e abrigado para os navios: onde ouvi dizer a homens do seu tempo / que ainda alcancei alguns / que ele era o primeiro que lançava mão do pilão para os taipais, e ajudava a levar a seus ombros os caibros, e madeiras para as casas, mostrando-se a todos companheiro, e afável / parte mui necessária nos que governam novas povoações /; com isto folgavam todos de trabalhar, e exercitar cada um as habilidades que tinha, dando-se uns à agricultura, outros a criar gado, e a toda a mecânica, ainda que a não tivessem aprendida, com o que foi a terra em grande crescimento, e muito mais com a ajuda de custa, que el-rei fazia com tanta liberalidade, que se afirma no triênio deste governador gastar de sua real fazenda mais de 300 mil cruzados em soldos, ordenados de ministros, edifícios da Sé, e casa dos padres da Companhia, ornamentos, sinos, artilharia, gados, roupas, e outras coisas necessárias, o que fazia não tanto pelo interesse, que esperava de seus direitos, e dos dízimos, de que o Sumo Pontífice lhe fez concessão com obrigação de prover as igrejas, e seus ministros, quanto pelo gosto, que tinha de aumentar este estado, e fazer dele um grande império, como ele dizia.

 

Nem se deixou então de praticar, que se alguma hora acontecesse / o que Deus não permita / ser Portugal entrado, e possuído de inimigos estrangeiros, como há acontecido em outros reinos, de sorte que fosse forçado passar-se el-rei com seus portugueses a outra terra, a nenhuma o podia melhor fazer, que a esta: porque passar-se às ilhas / como diziam, e fez o senhor d. Antônio, pretendente do reino, no ano do Senhor de 1580 /, além de serem mui pequenas, estão tão perto de Portugal que lhe iriam os inimigos no alcance, e antes de se poderem reparar dariam sobre eles.

 

A Índia, ainda que é grande, é tão longe, e a navegação tão perigosa, que era perder a esperança de poder tornar, e recuperar o reino. Porém o Brasil, com ser grande fica em tal distância, e tão fácil a navegação, que com muita facilidade pode cá vir e tornar quando quiserem, ou ficar-se de morada, pois a gente que cabe em menos 100 léguas de terra, que tem todo Portugal, bem caberá em mais de mil, que tem o Brasil, e seria este um grande reino, tendo gente, porque donde há as abelhas há o mel, e mais quando não só das flores, mas das ervas e canas se colhe mel e açúcar, que de outros reinos estranhos viriam cá buscar com a mesma facilidade a troco das suas mercadorias, que ca não há; e da mesma maneira as drogas da Índia, que daqui fica mais vizinha, e a viagem mais breve e fácil, pois a Portugal não vão buscar outras coisas senão estas, que pão, panos, e outras coisas semelhantes não lhe faltam em suas terras; mas toda esta reputação e estima do Brasil se acabou com el-rei d. João, que o estimava e reputava.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SEGUNDO

 

De outras duas armadas, que el-rei mandou com gente e provimento para a Bahia

 

 

 

Logo no ano seguinte de mil quinhentos e cinqüenta mandou el-rei outra armada com muita gente e provimento, e por capitão-mor dela Simão da Gama d’Andrade, no galeão velho muito afamado; foi este fidalgo nesta cidade grande republico, e daí a muitos anos  morreu nela de herpes, que lhe deram em uma perna, deixando uma capela perpétua de missas na Igreja da Misericórdia, onde está sepultado com um epitáfio, que diz assim:

 

Pela suma caridade

de Cristo Crucificado,

está aqui sepultado

Simão da Gama d’Andrade

para ser ressuscitado.

 

Nesta armada veio o bispo d. Pedro Fernandes Sardinha, pessoa de muita autoridade e exemplo, e extremado pregador, e trouxe em sua companhia quatro sacerdotes da Companhia de Jesus para ajudarem os seis, que já cá estavam, na doutrina, e conversão do gentio, e outros clérigos, e ornamentos para a sua Sé.

 

O ano seguinte de mil quinhentos cinqüenta e um, mandou el-rei outra armada, e por capitão-mor dela Antônio de Oliveira Carvalhal para alcaide-mor de Vila Velha, com muitas donzelas da rainha d. Catarina, e do Mosteiro das Órfãs, encarregadas ao governador para que as casasse, como o fez, com homens a que deu ofícios da República, e algumas dotou de sua própria fazenda.

 

Era Tomé de Souza homem muito avisado e prudente, e muito experimentado nas guerras da África e da Índia, onde estivera, tinha mostrado valoroso cavaleiro, mas estava isto cá tão em agro, e enfadava-se de labutar com degradados, vendo que não eram como o pêssego, «pomo que da Pátria Pérsia veio melhor tornado no terreno alheio,» que pediu com muita instância por muitas vezes a el-rei que lhe desse licença para se tornar ao reino, contudo é muito para notar um dito, que / entre outros que tinha mui galantes / disse quando lhe veio a licença.

 

É costume nesta Bahia ir o meirinho do mar quando entram os navios, e trazer a nova ao governador donde são, e do que trazem; como pois fosse em aquela ocasião, e achasse que vinha sucessor ao governador, tornou-se mui alegre a pedir-lhe alvíssaras, porque já eram cumpridos seus desejos, e estava no porto novo governador, respondeu-lhe ele depois de estar um pouco suspenso: Vedes isso, meirinho, verdade é que eu o desejava muito, e me crescia a água na boca quando cuidava em ir para Portugal, mas não sei que é que agora se me seca a boca de tal modo, que quero cuspir, e não posso. Não deu o meirinho resposta a isto, nem eu a dou, porque os leitores dêem a que lhes parecer.

 

 

 

        

 

CAPÍTULO TERCEIRO

 

Do segundo governador geral, que el-rei mandou ao Brasil

 

 

 

Movido el-rei dos rogos e importunações do governador Tomé de Souza, acabado o triênio do seu governo, lhe mandou por sucessor d. Duarte da Costa, o qual se embarcou, e partiu de Lisboa no ano de mil quinhentos cinqüenta e três a oito do mês de maio, trazendo em sua companhia seu filho d. Álvaro, e o Padre Luiz da Grã, que havia sido reitor no Colégio de Coimbra, e mais dois padres sacerdotes, e quatro irmãos da companhia, um dos quais era José de Anchieta, que depois foi cá seu provincial, e se pode chamar Apóstolo do Brasil, pelas obras e milagres, que nele fez, como o padre São Francisco Xavier se chamou da Índia.

 

O governador tanto que chegou trabalhou muito por fortificar e defender esta nova cidade da Bahia contra os bárbaros gentios, que se levantaram, e cometeram grandes insultos, que ele emendava dissimulando alguns com prudência, e castigando outros com armas, matando-os, e cativando-os em guerras, que lhes fez, de que era capitão seu filho d. Álvaro da Costa, o qual em todas se houve valorosamente. Nem el-rei o deixou de favorecer em todo o seu tempo com armadas de muitos soldados, e moradores.

 

Ajudavam também o bispo d. Pedro Fernandes, trabalhando sem cessar na conversão das almas, na ordem do Culto Divino, administração dos sacramentos, e em tudo mais tocante ao espírito, que el-rei não menos pretendia, e encomendava que o temporal.

 

Porém o demônio perturbador da paz a começou a perturbar de modo entre estas cabeças eclesiásticas, e secular, e houve entre eles tantas diferenças que foi necessário ao bispo embarcar-se para o reino com suas riquezas, aonde não chegou por se perder a nau, em que ia, no rio Cururuipe, seis léguas do de S. Francisco, com toda a mais gente que nela ia, que era Antônio Cardoso de Barros, que fora provedor-mor, e dois cônegos, duas mulheres honradas, muitos homens nobres, e outra muita gente, que por todos eram mais de cem pessoas, os quais, posto que escaparam do naufrágio com vida, não escaparam da mão do gentio Caeté, que naquele tempo senhoreava aquela costa, o qual depois de roubados, e despidos, os prenderam, e ataram com cordas, e pouco a pouco os foram matando, e comendo, senão a dois índios, que iam desta Bahia, e um português, que sabia a língua.

 

Não sei se deu isto ânimo aos mais governadores para depois continuarem diferenças com os bispos, de que tratarei em seus lugares, e porventura os culparei mais, porque tenho notícia das razões, ou para melhor dizer sem razões de suas diferenças, o que não posso neste caso sem ser notado de murmurador, pois não sei a causa, que tiveram, somente direi o que ouvi das pessoas, que caminham desta Bahia para Pernambuco, e passam junto ao lugar donde o bispo foi morto / porque por ali é o caminho / que nunca mais se cobriu de erva, estando todo o mais campo coberto dela, e de mato, como que está o seu sangue chamando a Deus da terra contra quem o derramou; e assim o ouviu Deus, que depois se foi desta Bahia dar guerra àquele gentio, e se tomou dele vingança, como adiante veremos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO QUARTO

 

De uma nau da Índia, que arribou a esta Bahia no tempo do governador D. Duarte da Costa

 

 

 

No segundo ano do governador d. Duarte da Costa, que foi o do Senhor de mil quinhentos cinqüenta e cinco, em o mês de maio, arribou a esta Bahia, por falta de água, a nau São Paulo, que ia para a Índia em companhia de outras quatro, das quais todas ia por capitão-mor d. João de Menezes de Sequeira, e por capitão desta arribada Antônio Fernandes, que era senhor dela; vinham nesta nau muitos doentes, os quais o governador mandou recolher no hospital, e aos sãos ordenou darem-lhes mesa cinco meses que aqui estiveram, por se tomar parecer entre os oficiais da nau, e outros da terra / presente o governador, e d. Antônio de Noronha, o catarraz, que ia servir à capitania de Diu / e assentaram todos que, se partisse em outubro poderia passar à Índia, como aconteceu, e em menos de quatro meses chegou a Cochim, onde ainda achou a nau Capitânia, de que era capitão d. João de Menezes, e o dia seguinte deu a vela para Goa muito contente por levar novas daquela nau, que já se tinha por perdida, ainda que mui descontente com outras que levava da morte do ínclito infante d. Luiz, duque de Beja, e Condestable de Portugal, senhor de Serpa, Moura, Cavilhão, e Almada, e governador do priorado de Crato, que faleceu este ano de mil quinhentos cinqüenta e cinco, o qual, entre outras muitas virtudes, e excelências, de que foi adornado, principalmente teve duas, zelo da religião cristã e ciência da arte militar, e ainda que em seu tempo se moveram poucas guerras, em que ele se pudesse achar, sabendo que o imperador Carlos Quinto, seu cunhado, passava a África, se foi para ele sem licença alguma, nem companhia, por saber que o havia el-rei seu irmão de negar, como já em outras ocasiões o havia feito, ao que todavia el-rei acudiu logo dando licença a alguns fidalgos, que o seguissem, e mandando a uma armada sua, que já lá estava, lhe obedecesse, de que era capitão Antônio de Saldanha, e para todo o dinheiro que gastasse lhe mandou grande crédito, e por esta via se achou com formosa cavalaria de nobreza de seu reino acompanhado, em ajuda do invictíssimo imperador na conquista da Goleta, e de Tunes, que por seu conselho se conquistou contra o parecer de muitos capitães mais antigos, experimentados, que o contrário diziam.

 

Mas o nosso infante, não podendo sofrer que no exército onde ele se achava se enxergasse ponto algum de covardia, tanto insistiu neste seu parecer que o imperador deixou de levantar o cerco, como determinava pelo conselho dos outros, e o mandou prosseguir como o infante dizia, o qual militando debaixo da bandeira do imperador, se mostrou soldado digno de tal capitão, e ele se havia por bem-afortunado da milícia de tal soldado, parecendo-lhe que no Conselho tinha um Nestor, e no Exército um Achiles; era aos estrangeiros benigno, aos naturais afável, e com todos geralmente liberalíssimo, pelo que de todos era amado, e de todos louvado.

 

Nunca casou nem teve filhos, mais que um natural, que foi o senhor d. Antônio, o qual, por não ser legítimo, não foi rei de Portugal, posto que em algumas partes do reino chegou a ser levantado por rei.

 

Também este mesmo ano de mil quinhentos cinqüenta e cinco se recolheu o imperador Carlos Quinto à religião no Convento de S. Jerônimo de Juste, por ser lugar sadio, e acomodado a quem larga o governo, e inquietações do mundo, que ele deixou ao muito católico príncipe d. Felipe seu filho.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO QUINTO

 

De outra nau da Índia, que arribou à Bahia
 

 

 

No ano de mil quinhentos cinqüenta e seis mandou el-rei negociar cinco naus para mandar à Índia, de que deu a capitania-mor a d. Luiz Fernandes de Vasconcellos, o qual escolheu a nau Santa Maria da Barca para ir nela; estando todas prestes, e carregadas para dar à vela abriu a nau Capitânia uma água tão grossa, que se ia ao fundo, e acudindo oficiais para lhe darem remédio, não lho puderam dar, por não saberem por onde entrava a água, vendo el-rei, que se ia gastando o tempo, mandou fazer as outras naus à vela, e que aquela se descarregasse, o que se fez já; na nau Capitânia se despejou toda com muita pressa, e se resolveu, e buscou de popa a proa sem lhe poderem dar com a água, e andava um grande burburinho entre os pescadores de Alfama, dizendo que Deus prometia aquilo, porque aquele ano lhes tirara o arcebispo as antigas cerimônias com que festejavam o dia do bem-aventurado São Frei Pedro Gonçalves levando-o às hortas de Enxobregas com muitas folias, cargas de fogaças, e outras mostras de alegria, e de lá o traziam enramado de coentros frescos, e eles todos com capelas ao redor dele cantando, e bailando; chegou esta queixa ao arcebispo, e como era mui amigo deste fidalgo, que andava tristíssimo, por não poder aquele ano fazer viagem; movido também da grande fé, e devoção, que os pescadores, e mareantes tinham ao santo, lhes tornou a conceder licença para que o festejassem como dantes, entretanto não se deixou de buscar a água da nau, e trabalhar com as bombas, e outros vasos em esgotar, ou diminuir a muita que entrava, até que um marinheiro foi dar com o furo de um prego na quilha, que por descuido ficou por pregar, e por calafetar, e só se tapou com o breu, que depois se tirou, e por ali fazia aquela água, a qual se tomou logo com grande alvoroço, e tornou a nau a carregar, porque disseram os oficiais que ainda tinham tempo, e assim deu a vela a dois de maio, e foi seguindo sua derrota, mas na costa de Guiné achou tanta calmaria, que a deteve setenta dias, e tomando parecer sobre o que fariam assentaram que fossem invernar ao Brasil, porque era muito tarde, e logo se fizeram na volta da baía de Todos os Santos, onde chegaram a quatorze de agosto.

 

O governador d. Duarte da Costa foi logo desembarcar o capitão-mor, e os fidalgos que vinham na nau, que eram Luiz de Mello da Silva, d. Pedro de Almeida, despachado na capitania de Baçaim, d. Filipe de Menezes, d. Paulo de Lima, Nuno de Mendonça, e Henrique de Mendonça seu irmão; Jerônimo Corrêa Barreto, Henrique Moniz Barreto, e outros fidalgos, que agasalhou, banqueteou, e deu pousadas à sua vontade, e o mesmo fez a toda a mais gente da nau, a que deu mantimento todo o tempo que ali esteve.

 

Seguiu-se o ano de mil quinhentos cinqüenta e sete mui sinalado assim pela morte do imperador Carlos Quinto, que nele morreu na idade de cinqüenta e oito anos  e sete meses, renunciando ainda em vida em seu filho Felipe os seus reinos, e em seu irmão Fernando o império, e recolhendo-se em um mosteiro, onde acabou felicissimamente a vida; como pela morte de el-rei d. João, que faleceu em 11 de junho de idade de cinqüenta e cinco, tendo reinado trinta e cinco, e neste ano acabou o seu governo d. Duarte da Costa, e lhe veio sucessor.

 

Teve d. Duarte da Costa, além de ser grande servidor del-rei, uma virtude singular, que por ser muito importante aos que governam não é bem que se cale, e é que sofria com paciência as murmurações que de si ouvia, tratando mais de emendar-se, que de vingar-se dos murmuradores, como lhe aconteceu uma noite, que andando rondando a cidade ouviu que em casa de um cidadão se estava murmurando dele altissimamente, e depois que ouviu muito lhes disse de fora: Senhores, falem baixo, que os ouve o governador. Conheceram-no eles na fala, e ficaram mui medrosos que os castigaria, mas nunca mais lhes falou nisso, nem lhes mostrou ruim vontade ou semblante.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SEXTO

 

Do terceiro governador do Brasil, que foi Mem de Sá

 

 

 

A d. Duarte da Costa sucedeu o dr. Mem de Sá, que com razão pode ser espelho de governadores do Brasil; porque concorrendo nele letras, e esforço, se sinalou muito na guerra, e justiça.

 

Este, em pondo os pés no Brasil, que foi no ano de mil quinhentos cinqüenta e sete, nenhuma coisa do seu regimento executou primeiro que o que el-rei lhe mandava em favor da Religião Cristã; para isto mandou chamar os principais índios das aldeias vizinhas desta Bahia, e assentou com eles pazes com condição que se abstivessem de comer carne humana, ainda que fosse de inimigos presos, ou mortos em justa guerra, e que recebessem em suas terras os padres da companhia, e os outros mestres da fé, e lhes fizessem casas em suas aldeias, onde se recolhessem, e templos onde dissessem missa aos cristãos, doutrinassem os catecumenos, e pregassem o Evangelho livremente; e porque a cobiça os portugueses tinha dado em cativar quantos podiam colher, fosse justa ou injustamente, proibiu o governador isto com graves penas, e mandou dar liberdade a todos os que contra justiça eram tratados como escravos.

 

Acudiu depois a vingar as injúrias dos índios cristãos, que outros seus vizinhos pagãos lhe faziam até chegar a matar alguns.

 

Pediu que lhe entregassem os homicidas, e perdoaria aos mais, mas eles fiados na sua multidão zombaram da sua petição; pelo que o governador em pessoa os cometeu dentro de suas terras, e feita neles grande matança, e queimadas mais de setenta aldeias, os desfez, de sorte que lhes foi forçado pedirem a paz, a qual lhes concedeu com as mesmas condições, que havia posto aos outros.

 

O tempo que lhe vagava da guerra, gastava o bom governador na administração da justiça, porque além de ser em que consiste a honra dos que regem, e governam, como diz David: Honor Regis judicium diligit: a trazia ele particularmente a cargo por uma provisão del-rei, em que mandava que nenhuma ação nova se tomasse sem sua licença; o que mandou el-rei por ser informado das muitas usuras, que já naquele tempo cometiam os mercadores no que vendiam fiado, pelo que muitos, por se não descobrir a usura, que eles sempre costumam paliar, e por não perderem a dívida, e haver as mais penas que o direito põe, não levavam seus devedores a juízo, e lhes esperavam pela paga quanto tempo queriam; mas só punham ações por dívidas lícitas, que o governador logo mandava pagar, e se era o devedor pessoa pobre pagava por ele, ou fazia que o credor esperasse pela dívida, pois fiara de quem sabia que não tinha por onde lhe pagar; e assim cessaram as demandas, de modo que fazendo o dr. Pedro Borges, ouvidor-geral, uma vez audiência, não houve parte alguma requerente, do que levantando as mãos ao céu deu graças a Deus; mas durou pouco este bem, porque logo veio por ouvidor-geral o dr. Braz Fragoso com outra provisão em contrário à do governador, e tornaram a correr as demandas, e as usuras, não só paliadas, mas tanto de escancara, que se vale um escravo vinte mil-réis pago logo, o dão fiado por um ano por quarenta, e o que mais é, que por isso o não querem já vender a dinheiro de contado, senão fiado, e não há quem por isto olhe.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SÉTIMO

 

De como mandou o governador seu filho Fernão de Sá socorrer a Vasco Fernandes Coutinho, e o matou lá o gentio

 

 

 

Neste tempo estava Vasco Fernandes Coutinho em grande aperto posto pelo gentio na sua capitania do Espírito Santo, e mandou à Bahia requerer ao governador Mem de Sá que o socorresse, o que o governador logo fez, mandando cinco embarcações bem providas de gente, e por capitão-mor dela a seu filho Fernão de Sá na galé São Simão; os outros capitães eram Diogo Morim, o Velho, e Paulo Dias Adorno. Chegaram todos a Porto Seguro, onde lhes disseram, que no rio chamado Bricaré estava o mais do gentio, que fazia guerra a Vasco Fernandes, e que aí deviam de os ir buscar, oferecendo-se para ir com eles, como de feito foram, o capitão Diogo Álvares, e Gaspar Barbosa em seus caravelões, e navegaram pelo dito rio arriba quatro dias, até que viram as cercas do gentio que estavam juntas da água, onde, pondo as proas em terra por estar a maré cheia, por elas desembarcaram, e saltaram fora os soldados, tornando-se os marinheiros com os navios ao meio do rio por não ficarem em seco na vazante, e os bombardeiros, para de lá fazerem seus tiros, começou-se a travar a briga, na qual logo no primeiro encontro puseram o gentio em desbarate, mas tornando-se a ajuntar, e reformar, voltou com tanta força que forçou aos nossos a desordenarem, e misturarem com os inimigos, de maneira que os tiros que tiravam das embarcações, não só os não defendiam, mas antes os feriam, e matavam, e retirando-se para se acolher a elas estavam tanto ao pego, que os mais foram a nado, e os feridos em algumas jangadas, entre os quais foram os dois capitães Adorno, e Morim, ficando o capitão-mor com o seu alferes Joanne Monge na retaguarda, onde crescendo o gentio, que de outras aldeias vinha de socorro, os mataram às flechadas; e assim acabou Fernão de Sá, depois de haver feito grandes coisas em armas contra a multidão destes bárbaros, assim neste combate, como em outros em que se achou na Bahia, e em outras partes: os mais se partiram para o Espírito Santo, onde Vasco Fernandes os recebeu com muito pesar., sabendo do seu destroço, e da morte de Fernão de Sá, e os mandou com a mais gente que pôde ajuntar a dar em outros gentios, que o tinham quase em cerco, os quais lho fizeram levantar, posto que com morte de alguns dos nossos, entre os quais Bernardo Pimentel, o Velho, que mataram ao entrar em uma casa.

 

Feito isto se foram a São Vicente, e daí a Bahia, onde o governador os não quis ver, sabendo como haviam deixado matar seu filho, e quando eles não tiveram esta culpa, nem por isso a devemos dar ao pai em fazer extremos pela morte de tal filho.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO OITAVO

 

Da entrada dos franceses no Rio de Janeiro, e guerra que lhe foi fazer o governador

 

 

 

O Rio de Janeiro esta em 23º graus debaixo do Trópico de Capricórnio, e impropriamente se chama Rio, porque antes é um braço de mar, que ali entra por uma boca estreita, que se pode facilmente defender de uma parte a outra com artilharia; mas dentro faz uma baía, ou enseada em que entram muitos rios, e tem perto de quarenta ilhas, das quais as maiores se povoam, e as menores servem de ornar o sítio, ou de portos onde se abriguem os navios.

 

Estas comodidades, e outras muitas deste Rio e baía, juntas com a fertilidade da terra, a faziam digna de ser povoada, quando se povoaram as mais do Brasil; mas ou porque coube na doação a Pero de Goes, que se não atreveu com o gentio, como dissemos no capítulo terceiro do segundo livro, ou por não sei que descuido, ela esteve por povoar até que Nicolau Villegaignon, homem nobre de França, e cavaleiro do hábito de São João, informado dos franceses, que por ali vinham comerciar com o gentio Tapuia, determinou de vir a povoá-la; para o que fez uma armada em que veio com muitos soldados, e entrando no rio no ano de mil quinhentos cinqüenta e seis, lhe fortificou a entrada, solicitou os gentios, e fez liga e amizade com eles, e para maior defensa começou em uma das ilhas da enseada a levantar uma fortaleza de pedra, tijolo, e gesso, em cuja obra trabalhavam os índios com muita vontade, e de França lhe vinham cada dia novos socorros.

 

Corria já o ano de mil quinhentos cinqüenta e nove, em que reinava a rainha d. Catarina por morte de el-rei d. João seu marido, e por seu neto el-rei d. Sebastião não ter ainda a este tempo mais que cinco anos  de idade; a qual, informada do que passava no Rio de Janeiro, escreveu ao governador Mem de Sá encarregando-lhe muito esta empresa, e mandando-lhe para ajuda dela uma boa armada, com a qual o governador, e com outras naus, que pôde ajuntar, acompanhado dos principais portugueses da Bahia, e alistados os mais soldados, que pôde, assim brancos como índios da terra, no ano do Senhor de mil quinhentos e sessenta se partiu para o Rio de Janeiro, onde rompendo as forças, que impediam a entrada, entrou na enseada, e tomou uma nau francesa, da qual soube não estar aí já o Villegaignon, que fora chamado a Malta, mas ter deixado um sobrinho seu por capitão na fortaleza, a quem escreveu o governador na maneira seguinte:

 

«El-rei de Portugal, meu Senhor, sabendo que Villegaignon vosso tio lhe tinha usurpada esta terra, se mandou queixar a el-rei de França, o qual lhe respondeu que se cá estava, que lhe fizesse guerra, e botasse fora, porque não viera com sua comissão, e posto que já aqui o não acho, estais vós em seu lugar, a quem admoesto, e requeiro da parte de Deus, e do vosso rei, e do meu, que logo largueis a terra alheia a cuja é, e vos vades em paz sem querer experimentar os danos que sucederam da guerra.»

 

Ao que respondeu o mancebo que não era seu julgar cuja era a terra do Rio de Janeiro, senão fazer o que o senhor Villegaignon seu tio lhe havia mandado, que era sustentar, e defender aquela sua fortaleza, e que assim o havia de cumprir, ainda que lhe custasse a vida, e muitas vidas, das quais lhe requeria também que não quisesse ser homicida, antes se tornasse em paz.

 

Gastaram-se nisto dez ou doze dias, nos quais a nossa armada se pôs em ordem de guerra, e assim ouvida esta resposta, a outra que lhe deram foi de artilharia e arcabuzes, com que começaram a bater o forte insuperável / ao parecer / às forças humanas; porém estando uns outros metidos no furor do combate, Manuel Coutinho, homem pardo, Afonso Martins Diabo, e outros valentes soldados portugueses, subindo por uma parte que parecia inacessível, entraram o castelo, e ocuparam repentinamente a pólvora do inimigo.

 

Descorçoados os franceses com a perda da pólvora, e com o inopinado atrevimento dos portugueses, desampararam o castelo à meia-noite com todas as máquinas de guerra que nele havia, recolheram-se às suas naus, e parte deles nelas se tornaram para sua terra, outros ficaram com os Tamoios/ que este é o nome daquele gentio /, assim para restaurar a guerra, e a opinião perdida, como para exercitar a mercancia com eles, de que tiravam muito proveito.

 

Alcançada tão ilustre vitória desfez o governador o forte, por não poder deixar gente que o defendesse, e povoasse a terra, por lhe haverem morta muita gente neste combate, e mandou seu sobrinho Estácio de Sá na nau que havia tornado aos franceses com o aviso do sucesso a rainha d. Catarina.

 

 

 

CAPÍTULO NONO

 

De como o governador tornou do Rio de Janeiro para a Bahia, e o sucesso que teve uma nau da Índia, que a ela arribou

 

 

 

O governador se tornou do Rio de Janeiro para a Bahia, e chegou a ela no mês de junho do mesmo ano de mil quinhentos e sessenta, onde continuou com o governo da terra, na qual era tão necessária a sua assistência, e presença, que algumas poucas vezes, que ia ver um engenho que fez em Sergipe, ia de noite, e deixava um pajem na escada, que dissesse que estava ocupado a quem por ele perguntasse, o qual não mentia, porque onde quer que estava se ocupava; e isto fazia para que a notícia da sua ausência não fosse ocasião de alguma desordem, e assim, ainda que o engenho distava desta cidade oito léguas, fazia lá mui pouca detença.

 

Neste ano de mil quinhentos e sessenta arribou a esta Bahia a nau S. Paulo, como já outra vez havia arribado em tempo do governador d. Duarte da Costa, posto que então vinha nela por capitão Antônio Fernandes, como dissemos no capítulo quarto deste livro, e desta vez vinha Rui de Mello da Câmara, o qual vendo que para invernar aqui haviam de gastar sete ou oito meses, e que a água e gusano corrompem brevemente a madeira das naus, ajuntando-se com os pilotos, e da terra, diante do governador praticaram se haveria ainda tempo para seguirem viagem, e ir invernar à Índia? e de comum parecer assentaram que sim, se partissem daqui em setembro, e fossem por muita altura buscar a ilha de Sumatra, para dela em fevereiro voltarem com a monção com que vem as naus de Malaca e China, e tomando desta cidade tudo o que lhes foi necessário, partiram em 15 de setembro, achando os tempos prósperos foram a vista do cabo da Boa Esperança em fim de novembro, e assim foram seguindo sua viagem para a ilha de Sumatra com ventos brandos até vinte de janeiro, dia do bem-aventurado mártir São Sebastião à boca da noite, em que se acharam tão abordados com a terra por causa da grande corrente das águas, que por muito que trabalharam por se afastar foram varar nela, e quis Deus que foi em parte onde ficou a nau encalhada, e todos nela até pela manhã, que lançaram o batel ao mar, e se passaram a terra sem coisa alguma entender com eles, por ser a gente dali mesquinha, e tão doméstica, que acudiram logo a lhes vender algumas coisas posto que assim não fora, os da nau eram setecentos homens, todos bem dispostos, e armados, que puderam atravessar toda aquela ilha, e assim logo fizeram cabanas, para se agasalharem, e desembarcaram da nau mantimentos, vinhos, azeite, e tudo o mais, que puderam, e desfizeram a nau, e tiraram dela toda a pregadura, madeira, cordoalha, e tudo mais que lhe foi necessário, e armaram duas embarcações, e levantaram o batel, trabalhando todos com muito gosto, e presteza; servindo de ferreiros, serradores, carpinteiros, e de todos os mais ofícios, como se sempre o usaram; e assim em breve tempo as acabaram, e lançaram ao mar, e fizeram sua aguada em abastança, e recolheram nelas todas as armas, e alguns berços, e falcões, por não serem as vasilhas capazes de maiores peças, porque eram a modo de barcaças.

 

Uma delas se deu a Diogo Pereira de Vasconcelos, um fidalgo que ali levava sua mulher, que se chamava d. Francisca Sardinha, e era uma das mais formosas do seu tempo.

 

Outra tomou Rui de Mello, capitão da nau, e a terceira deram a Antônio de Refoios, um cavaleiro muito honrado, que ia despachado com a Capitânia de Coulão, e repartindo a gente por elas não coube em cada uma mais que cento e setenta homens, ficando cento e setenta, que por nenhum caso se puderam agasalhar: pelo que assentaram, que estes caminhassem por terra à vista dos batéis, para lhes socorrerem alguma necessidade, e repartindo por eles as espingardas, que havia, começaram a caminhar de longo do mar, e os batéis sempre à sua vista, e tanto que era noite escolhiam lugar para descansarem, e dormirem, e surgiam os batéis com as proas em terra; e o mesmo faziam a horas de jantar, em que tomavam a refeição ordinária, e assim foram caminhando nesta ordem sem lhes acontecer desastre algum, e havendo poucos dias que caminhavam houveram vista de quatro embarcações, a que foram correndo, e elas trabalhando tudo o que podiam por lhes fugir, e atirando-lhes de uma embarcação das nossas com um falcão, que lhes foi zunindo pelas orelhas, lhes pôs tão grande medo e espanto, que logo se lançaram a nado para a terra, e deixaram os navios carregados de farinhas de sagu / que é o principal mantimento de todas aquelas ilhas / de que os nossos se proveram em abastança /, e recolheram nestas embarcações toda a gente que ia por terra, com o que ficaram mais descansados, e sendo já em três graus da banda do sul, se recolheram a um formoso rio, que acharam, desembarcando todos em terra para se recrearem, e dormindo também nela algumas noites, com tanto descuido e segurança, como se a terra fosse sua, e até Diogo Pereira de Vasconcellos se desembarcou ali com sua mulher, a qual vista pelos Manancabos, que é a gente da terra, tão formosa, junto com estar ricamente vestida, desejaram levá-la ao seu rei, e assim deram uma noite nas suas estâncias, e mataram perto de sessenta pessoas, e levaram d. Francisca Sardinha, em cuja defensa fez o mestre da nau espantosas coisas até que o mataram. O Diogo Pereira salvou uma filha, que tinha, chamada d. Constança, que depois casou com Tomé de Mello de Castro, e outras mulheres, com que se recolheu à sua embarcação muito anojado desta desventura, que lhe aconteceu por sua sobeja confiança.

 

Dali se partiram de longo da costa, que era mui limpa, com muito mais tento, porque aquele desastre os espertou, e não se fiaram mais da gente da terra; e assim embocaram o boqueirão do Sonda, e foram tomar a cidade de Pata, onde acharam quatro naus portuguesas, de que era capitão-mor Pero Barreto Rollim, que ali estava carregando de pimenta, e recebeu toda esta gente, e a repartiu pelas naus, e proveu a todos bastantemente, e parte deles se passaram a China, para onde Pero Barreto Rollim ia por mandado do viso-rei d. Constantino.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO

 

Do aperto, em que os Tamoios do Rio de Janeiro puseram a Capitania de S. Vicente, e o governador lhes mandou fazer segunda guerra

 

 

 

Vendo-se os Tamoios já livres da guerra do governador Mem de Sá, se tornaram a fortificar no Rio de Janeiro, donde saíam a correr a costa toda até São Vicente, salteando os índios novos cristãos, prendendo, matando, e comendo a quantos podiam alcançar.

 

Durou esta moléstia dois anos, sem que força alguma pudesse reprimir o atrevimento dos bárbaros insolentes, que cada dia crescia com o favor, e ajuda dos franceses, com que já se não contentavam do mal que faziam aos outros índios, mas a todos os moradores de São Vicente ameaçavam com cruel guerra, e apresentavam uma armada de canoas para por mar, e por terra os combaterem.

 

Este mal tão grande quis remediar o padre Manuel da Nóbrega, primeiro provincial que havia sido da Ordem da Companhia de Jesus na província do Brasil, resolvendo-se a ir tentear os ânimos dos bárbaros para reduzi-los a condições de paz, ou dar a vida pela saúde comum.

 

Para isto tomou por seu companheiro o irmão José de Anchieta, e um Antônio Luiz, homem secular; com os quais se embarcou em uma nau de Francisco Adorno, ilustre genovês, homem naquela terra mui conhecido, rico, e devoto da companhia.

 

Os bárbaros, a notícia da nau portuguesa, cuidando que ia de guerra, acudiram a suas canoas, e lhe saíram ao encontro carregadas de flechas; porém o irmão José de Anchieta com uma breve, e amorosa prática, que lhes fez na sua língua, os quietou, e fez benévolos a sua chegada, e depois com outras muitas, e principalmente com suas devotas orações, e exemplo, que deu de sua vida em três meses, que ficou só entre eles, e dois que esteve com o padre Nóbrega, que se tornou para São Vicente, os reduziu a desejada paz, exceto alguns, que discordes dos mais, e fiados nas armas dos franceses, continuaram a guerra contra os portugueses.

 

Estes sucessos previu a rainha d. Catarina quando leu a carta do governador Mem de Sá, em que lhe dava conta da vitória, que alcançara no Rio de Janeiro, e assim, ainda que lhe agradeceu, e se houve por bem servida dele, todavia lhe estranhou muito o haver arrasado o forte, e não deixar quem defendesse, e povoasse a terra, e lhe mandou, que logo o fizesse, porque não tornasse o inimigo a fazer ali assento com perigo de todo o Brasil; o mesmo lhe escreveu o cardeal d. Henrique, que com ela governava o reino, e para este efeito lhe mandaram pelo próprio seu sobrinho Estácio de Sá, que levou a nova, uma armada de seis caravelas com o galeão S. João, e uma nau da carreira da Índia chamada Santa Maria, a Nova, a que ajuntou o governador os mais navios que pôde, e quisera ir em pessoa; mas por o povo lho não consentir mandou o dito seu sobrinho, no ano de mil quinhentos sessenta e três, a quem acompanhou o ouvidor-geral Braz Fragoso, e Paulo Dias Adorno, comendador de Santiago, em uma galeota sua, que remava dez remos por banda, e outros capitães, os quais chegando todos ao Rio de Janeiro acharam uma nau francesa, que lhe quis fugir pelo rio acima, mas os nossos lhe foram no alcance, e a primeira que lhe chegou foi a galé de Paulo Dias Adorno, em que também ia Duarte Martins Mourão, e Melchior de Azeredo, depois chegou Braz Fragoso, e outros, os quais entrando na nau, acharam muito pão, vinho, e carne, e assim a levaram para baixo onde ficava a Capitânia Santa Maria, a Nova, e o galeão, e o capitão-mor Estácio de Sá fez capitão dela a Antônio da Costa; mas como não há gosto nesta vida, que não seja  aguado, indo uma madrugada três batéis nossos tomar água à ribeira da Carioca, deram com nove canoas de índios inimigos, que estavam aguardando em cilada, os quais repartindo-se três e três a cada batel, mataram no da capitânia o contramestre, o guardião, e outros dois marinheiros, e no do galeão feriram a Cristóvão d’Aguiar, o moço, com sete flechadas, e outros sete homens, e o levavam, mas Paulo Dias Adorno lhe acudiu à pressa na sua galé, e chegando a tiro mandou pôr fogo a um falcão, que os fez largar o batel.

 

Enterrados os mortos em uma ilha, chamou Estácio de Sá os capitães a conselho, e assentaram, que se fosse a S. Vicente buscar canoas, e gentio doméstico, e amigo, com que melhor se poderia fazer guerra àquele bárbaro inimigo.

 

Saíram uma madrugada, e a nau francesa, que haviam tomado, diante de todas as outras com um caravelão de Domingos Fernandes, dos Ilhéus, acharam na barra muitas canoas de inimigos índios, e franceses misturados, que chegando ao caravelão o furaram com machados, e o meteram no fundo, matando-lhe quatro homens, e ferindo a Domingos Fernandes de seis flechadas, com que se foi a nado para a nau, a qual também chegaram, e lhe fizeram um buraco; mas um índio da Índia de Praz Fragoso, que ali ia com seu senhor, se foi abaixo da coberta, e pelo mesmo buraco matou um francês, com o que eles, ou com o temor da armada, que vinha atrás, se foram embora, e a nau também, seguindo seu caminho para São Vicente, onde contaram ao capitão-mor, e aos mais o que lhes havia sucedido.

 

Neste tempo estava a povoação de São Paulo, que é da capitania de São Vicente, de guerra com o gentio, que a tinha posta em grande aperto, ao que acudiu Estácio de Sá com muita gente da que consigo levava, a cuja vista o gentio lhe veio logo pedir pazes, e ele lhas concedeu, e ficaram fixas.

 

Entretanto chegaram os capitães Jorge Ferreira, e Paulo Dias, com as canoas, e gentio, que tanto que chegou mandou buscar a Cananéia, e provida a armada de todo o necessário se partiu outra vez para o Rio de Janeiro no ano de mil quinhentos sessenta e quatro, dia de São Sebastião, a quem tomou por patrão da sua jornada, entrou pelo Rio em primeiro de março, e ancorando na enseada, saltaram em terra, e feitos tujupares, que são umas tendas ou choupanas de palha, para morarem, onde agora chamam a Cidade Velha, ao pé de um penedo, que se vai às nuvens, chamado o Pão de Açúcar, se fortificaram com baluarte, e trincheiras de madeira, e terra, o melhor que puderam, donde saíam a fazer guerra aos bárbaros, ajudando-os Deus por espaço de dois anos que ali estiveram, de modo que em encontros quase sempre saíam vitoriosos, e os feridos de mortais feridas das flechas inimigas brevemente saravam: outros feridos nos peitos nus com pelouros dos arcabuzes franceses, não sentiam mais o golpe que se estiveram armados de peitos de prova, e aos pés lhes caíam os pelouros.

 

Cansados já os Tamoios de tão prolixa guerra, e enfados de ruins sucessos, porque ordinariamente nos encontros saíam escalavrados, determinaram lançar o resto de seu poder, e de sua ventura em uma batalha industriados pelos franceses, e sem dúvida a coisa ia traçada para conseguirem seu intento. Porém a Divina Providência se acostou à parte mais justificada.

 

Haviam os Tamoios ajuntado ao número ordinário de suas canoas outras novas, que chegaram a cento e oitenta, fabricadas secretamente longe do posto donde estavam os navios dos portugueses.

 

Toda esta armada de canoas puseram em cilada, escondida em uma volta que fazia o mar, daqui saiu um pequeno número delas, contra as quais mandou o general cinco das nove que trouxe de S. Vicente, porque os índios amigos, enfadados da guerra, se haviam já ido com as quatro.

 

Os Tamoios, não ainda bem começada a batalha, viraram as costas, que assim o haviam traçado, e meteram os nossos, que atrevidamente os iam seguindo na cilada, donde saíram as mais canoas inimigas, e subitamente as cercaram por todas as partes; mas nem por isso perderam o ânimo os portugueses, antes resistiram valorosamente ajudados do Divino favor, o qual ainda das coisas que parecem adversas sabe tirar prósperos sucessos, como aqui se viu que acaso ascendendo-se a pólvora em uma das nossas canoas chamuscou a alguns dos inimigos, que a tinham abordada, com o que, e com a chama que levantou a pólvora se alterou tanto a mulher do general, Tamoia, que dando gritos e vozes espantosas atemorizou a todos, e sendo seu marido o primeiro que fugiu com ela, os seguiram os mais, deixando livres os nossos, os quais tornando às suas fronteiras deram graças a Deus por tão grande benefício, e por os haver livres de perigo tão grande pela voz e assombro de uma fraca mulher, ainda que depois declararam os mesmos inimigos que não fora por isto, senão por haverem visto um combatente estranho, de notável postura, e beleza, que saltando atrevidamente nas suas canoas os enchera de medo; donde creram os portugueses que era o bem-aventurado S. Sebastião, a quem haviam tomado por padroeiro desta guerra.

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO PRIMEIRO

 

Da viagem, que fez Jorge de Albuquerque de Pernambuco para o reino, e casos que nela sucederam

 

 

 

Não faltavam também neste tempo guerras em Pernambuco, porque com aquela vitória, que os gentios do cabo de Santo Agostinho alcançaram de Jerônimo de Albuquerque, de que fizemos menção no capítulo undécimo do livro precedente, ficaram tão soberbos, e atrevidos, que não cessavam de dar assaltos nos escravos que os portugueses tinham em suas roças, e fazendas, e principalmente em outros gentios da mata do Brasil, nossos confederados, que eles tinham par mortais inimigos; e o mesmo faziam os do rio de São Francisco nos barcos que iam ao resgate, que se ao descoberto comerciavam, e mostravam amor aos portugueses, em secreto se colhiam alguns descuidados os matavam, e comiam.

 

Sobre tudo isto a rainha d. Catarina, que governava o reino, e não teve menos cuidado em mandar acudir a estas guerras que às do Rio de Janeiro, mandando que logo se embarcasse Duarte Coelho de Albuquerque herdeiro daquela capitania, e a viesse socorrer, o qual, por entender quão necessário lhe era trazer consigo seu irmão Jorge de Albuquerque, pediu à rainha que o mandasse como mandou, e ele obedeceu, assim por serviço da Rainha e del-rei, seu neto, como por dar gosto a seu irmão, e o ajudar.

 

E assim, tanto que chegaram a Pernambuco, e tomou Duarte Coelho de Albuquerque posse da sua capitania, que foi na era de mil quinhentos e sessenta, logo chamou a conselho os homens principais do governo da terra, e se assentou entre todos, que se elegesse por general da guerra Jorge de Albuquerque, o qual aceitando o cargo começou logo a fazer assim aos inimigos do cabo de Santo Agostinho, saindo-lhes muitas vezes ao encontro aos seus assaltos, matando, e ferindo a muitos, com que já deixavam alargar-se os brancos, e viver em suas granjas, como aos do rio de São Francisco, aonde foi em companhia de seu irmão, e neste militar exercício se ocupou cinco anos, sofrendo muitas fomes, e sedes, e não sem derramar seu sangue de muitas flechadas, que os inimigos lhe deram, até que enfadado mais das guerras civis, e dissensões dos portugueses amigos que destoutras, determinou ir-se outra vez para o reino, e embarcar-se em uma nau nova de duzentos tonéis, por nome Santo Antônio, que estava carregada no porto do Recife para Lisboa, de que era mestre André Rodrigues, e piloto Álvaro Marinho, e estando carregada a nau, se embarcou, e partiu em uma quarta-feira, 16 de maio do ano de 1566, e não era bem fora da barra, quando lhe acalmou o vento com que partiu, e se lhe tornou tão contrário, que com a corrente da maré, que começava a vazar, levou a nau através até dar em um baixo, onde esteve quatro marés mui perto de se perder, se os mares foram mais grossos; e por lhe acudirem com presteza muitos batéis e outras embarcações, se salvou toda a gente, e fazenda, e nem assim descarregada pôde sair do baixo, em que estava, sem lhe cortarem os mastros, pelo que lhe foi forçado tornar ao porto, e concertar-se, e carregar de novo, no que gastou mês e meio, até 29 de junho, dia de São Pedro e São Paulo, em que se tornou a embarcar com todos os da sua companhia não sem contradição dos amigos, que pelo princípio lhe prognosticavam o ruim sucesso da viagem, a qual foi uma das piores, e mais perigosas, que hão visto navegantes; porque indo demandar as ilhas uma segunda-feira, 3 de setembro, fazendo-se o piloto com elas, veio a eles uma nau de corsários franceses, artilhada, e concertada como costumam, e por a nossa ir desarmada, e só com um falcão, e um berço, determinaram os homens do mar a se render, e entregar aos franceses, a que acudiu Jorge de Albuquerque, dizendo que nunca Deus quisesse, nem permitisse que a nau em que ele ia se rendesse sem pelejar, e se defender quanto possível fosse; por isso que trabalhassem todos de fazer o que deviam, e o ajudassem a pelejar, porque, com a ajuda de Nosso Senhor, somente com o berço, e falcão, que tinham, esperava se defender; mas como a nau ia tão desapercebida de armas, e os mais que nela iam fossem tão fracos de coração, não achou Jorge de Albuquerque quem o quisesse ajudar, mais que sete homens, que para isso se lhe ofereceram; e assim com estes somente, contra o parecer dos mais, se pôs às bombardas, arcabuzadas, e flechadas com os franceses perto de três dias, até que o mestre, e o piloto, vendo o muito dano que assim a nau como a gente recebia da artilharia, e arcabuzaria dos franceses, e que Jorge de Albuquerque em nenhum modo determinava entregar-se, mandaram dar subitamente com as velas embaixo, e começaram a bradar pelos franceses que entrassem a nau, como logo fizeram pela quadra dezessete franceses armados de armas brancas com suas espadas e broquéis, e pistolas, os quais, sem lhes responderem nem lhe poder estorvar se asenhorearam da nau, e vendo que nela não havia mais que o berço, e falcão, que esta dito, ficaram muito espantados, e muito mais quando lhe disseram quão poucos eram os que pelejavam, e sendo dito ao capitão francês que Jorge de Albuquerque fora o que fizera defender a nau todo aquele tempo, se chegou a ele, e lhe disse: Não me espanta o teu esforço, que esse tem todo o bom soldado, mas espanta-me a temeridade de quereres defender uma nau tão desapercebida com tão poucos companheiros, e menos petrechos de guerra, mas mão te desconsoles, que por quão bom soldado tu és, eu te farei muito boa companhia, e assim lha fez, tanto que não queria comer sem ele vir primeiro, e o fazia assentar na cabeceira da mesa, até que um dia, rogando-lhe o capitão que a benzesse ao modo dos portugueses, ele a benzeu com o sinal da cruz, como costumamos, do que alguns dos circunstantes luteranos o repreenderam, e ele repreendido, mas não arrependido, se tornou a benzer, dizendo que com aquele sinal da cruz se havia de abraçar enquanto vivesse, e nele esperava de se salvar de todos seus inimigos, e com isto pediu ao capitão licença para não ir comer mais, com eles, e poder comer em sua câmera o que lhe dessem, e posto que o capitão mostrou-se agravar-se disto, todavia lhe deu a licença que pedia, e vinha ele algumas vezes comer com Jorge de Albuquerque.

 

Estando já em altura de 43º graus, em uma quarta-feira 12 de setembro, sobreveio a maior tormenta de vento que nunca se viu, com que a nau chegou a ficar sem leme, sem velas, sem mastros, e quase rasa com a água; e vendo-se todos em tão grande perigo, ficaram assombrados e fora de si, temendo ser esta a derradeira hora da vida, e com este temor se chegaram todos a um padre da Companhia de Jesus por nome Álvaro de Lucena, que com eles ia, e a ele se confessaram, e depois de confessados, e se pedirem perdão uns aos outros, se puseram todos de joelhos pedindo a Nosso Senhor Misericórdia, o que também fizeram os franceses, que ficaram dentro da nossa nau, porque a sua logo no princípio da tormenta desapareceu, e pediam perdão aos portugueses dizendo que por seus pecados viera aquela tormenta, que rogassem a Deus por eles, que já se davam por mortos, pois a nau estava da maneira que todos viam. Mas Jorge de Albuquerque começou em altas vozes a esforçar a uns e outros, dizendo que fizessem também de sua parte o remédio possível, uns dando à bomba, outros esgotando a água que estava no convés; porque esperava na bondade divina, e intercessão da Virgem Senhora Nossa, que haviam de ser livres do perigo em que estavam; estando-lhes dizendo isto viram todos um resplendor grande no meio da grandíssima escuridão com que iam, a que todos se tornaram a pôr de joelhos, encomendando-se à Virgem, e pedindo a Deus Misericórdia, o qual foi servido de aplacar a tormenta, e logo apareceu também a nau francesa também muito desbaratada, mas não tanto que ainda não pudesse prover estoutra assim de enxárcia e velas como de mantimento, o que não quiseram fazer, antes descarregando-a de alguma fazenda que tinha em si, e levando os seus franceses, se foram para França, deixando só aos portugueses dois sacos de biscoito podre, e uma pouca de cerveja danada, ao que se ajuntou uma botija, que ainda os nossos tinham, com duas canadas de vinho, e um frasco de água de flor, uns poucos de cocos, e poucos punhados de farinha de guerra, e seis tassalhos de peixe-boi, que Jorge de Albuquerque foi repartindo por trinta e tantos homens o tempo que durou a viagem, para a qual deu ordem com que se fizesse uma vela de alguns guardanapos e toalhas, que se acharam na nau, as quais mandou se ajuntassem a uma velinha de esquife dos franceses, que ficou, e de dois remos fizeram uma verga, e sobre o pé do mastro grande puseram um pedaço de pau de duas braças em alto, e de uns pedaços de enxárcia, que haviam ficado, e de cordas de rede, e morrões, fizeram enxárcia; o leme andava pendurado por um só ferro, que lhe ficou, e lançaram-lhe umas cordas para que pudesse servir, e com isto seguiram sua viagem, tomando a Nossa Senhora Mãe de Deus por guia, sem mais outra agulha ou astrolábio que prestasse, porque tudo lhe levaram os franceses; a qual os guiou de modo que milagrosamente se acharam defronte da sua igreja da Pena, entre as Barlengas e a serra de Cintra; ao dia seguinte se acharam mui perto da roca, e indo já a nau para dar à costa, passou por eles uma caravela, que ia para a pederneira, e pedindo aos homens dela que à honra da morte e paixão de Nosso Senhor os quisessem socorrer, e que lhes pagariam muito bem se os tomassem, e levassem à terra, responderam que Jesus Cristo lhes valesse, que eles não podiam perder tempo de viagem, e se foram sem alguma piedade, ou porventura houveram medo da nau por lhes parecer fantasma, porque nunca se viu no mar coisa tão dessemelhada para navegar, como o pedaço da nau em que iam; porém este medo ou crueldade não tiveram outros que iam para a Atouguia, os quais acudiram logo aos primeiros brados / que não podiam ouvir senão milagrosamente por estarem muito longe / e levaram a nau à toa até a porem em Cascais, a horas de sol posto; donde o infante d. Henrique, cardeal, que neste tempo governava o reino de Portugal, a mandou levar pelo rio acima, e pô-la defronte da igreja de São Paulo, para que todos os que a vissem dessem muitos louvores a Deus, por livrar os que nela vinham de tantos perigos como passaram. E assim, ainda que esta viagem pertence tanto a História do Brasil que vou escrevendo por ser ele o término a quo, e feita, e padecida por um dos capitães destas partes, e natural delas, contudo rogo aos que lerem este capítulo, que dêem ao Senhor as mesmas graças, e louvores; e tenham sempre nele firme esperança, que os pode livrar de todos os perigos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO

 

De como o governador Mem de Sá tornou ao Rio de Janeiro, fundou nele a cidade de S. Sebastião, e do mais que lá fez até tornar à Bahia

 

     

 

Posto que o governador Mem de Sá não estava ocioso na Bahia, não deixava de estar com o pensamento nas coisas do Rio de Janeiro, e assim sacudindo-se de todas as mais, aprestou uma armada, e com o bispo d. Pedro Leitão, que ia visitar as capitanias do sul, que todas naquele tempo eram da sua diocese, e jurisdição, e com toda a mais luzida que pôde levar desta cidade, se embarcou e chegou brevemente ao Rio, onde em dia de São Sebastião, vinte de janeiro do ano de mil quinhentos sessenta e sete, acabou de lançar os inimigos de toda a enseada, e os seguiu dentro de suas terras sujeitando-os a seu poder, e arrasando dois lugares em que se haviam fortificado os franceses, posto que em um deles, que foi na aldeia de um índio principal chamado Iburaguaçu mirim, que quer dizer «pau grande pequeno,» lhe feriram seu sobrinho Estácio de Sá de uma mortífera flechada, de que depois morreu.

 

Sossegadas as coisas da guerra, escolheu o governador sítio acomodado ao edifício de uma nova cidade, a qual mandou fortalecer com quatro castelos, e a barra ou entrada do Rio com dois, chamou a cidade de S. Sebastião, não só por ser nome de seu rei, senão por agradecimento dos benefícios recebidos do santo, pois a vitória passada se ganhou dia de S. Sebastião; e em este dia, dois anos  antes, partiu Estácio de Sá de S. Vicente para o Rio de Janeiro, e começou a guerra invocando o seu favor, o qual reconheceram bem os portugueses, assim na batalha naval das canoas, como em outras ocasiões de perigo.

 

Pelo que, ainda em memória da vitória das canoas, se faz todos os anos naquela baía, defronte da cidade, no dia do glorioso São Sebastião uma escaramuça de canoas com grande grita dos índios, que as remam, e se combatem, coisa muito para ver.

 

O sítio em que Mem de Sá fundou a cidade de São Sebastião foi o cume de um monte, donde facilmente se podiam defender dos inimigos, mas depois, estando a terra de paz, se estendeu pelo vale ao longo do mar, de sorte que a praia lhe serve de rua principal, e assim sendo lá capitão-mor Afonso de Albuquerque, se achou uma manhã defronte da porta do Convento do Carmo, que ali está, uma baleia morta, que de noite havia dado à costa; e as canoas que vem das roças, ou granjas dos moradores, ali ficam desembarcando cada um à sua porta, ou perto dela, com o que trazem, sem lhe custar trabalho de carretos, como costa pela ladeira acima. Nem eles próprios lá subiram em todo o ano, e menos as mulheres, se não fora estar lá a igreja Matriz, e a dos padres da companhia, pela qual causa mora ainda lá alguma gente.

 

Fundada pois a cidade pelo governador Mem de Sá no dito outeiro, ordenou logo que houvesse oficiais, e ministros da milícia, justiça, e fazenda, e porque haviam ido na armada mercadores, que entre outras mercadorias levaram algumas pipas de vinho, mandou-lhes o governador que o vendessem atavernado, e pedindo eles que lhes pusesse a canada por um preço excessivo, tirou ele o capacete da cabeça com cólera, e disse que sim, mas que aquele havia de ser o quartilho, e assim foi, e é ainda hoje, por onde se afilam as medidas, donde vem serem tão grandes, que a maior peroleira não leva mais de cinco quartilhos.

 

Entre os primeiros franceses, que vieram ao Rio de Janeiro em companhia de Nicolau Villegaignon, de que tratamos no capítulo oitavo deste livro, vinha um hereje calvinista chamado João Bouller, o qual fugiu para a capitania de S. Vicente, onde os portugueses o receberam cuidando ser católico, e como tal o admitiam em suas conversações, por ele ser também na sua eloqüente, e universal na língua espanhola, latina, grega, e saber alguns princípios da hebréia, e versado em alguns lugares da Sagrada Escritura, com os quais entendidos a seu modo dourava as pirolas, e encobria o veneno aos que o ouviam, e viam morder algumas vezes na autoridade do Sumo Pontífice, no uso dos sacramentos, no valor das indulgências, e na veneração das imagens. Contudo não faltou quem o conhecesse / que ao lume da Fé nada se esconde /, e o foram denunciar ao bispo, o qual o condenou como seus erros mereciam, e sua obstinação, que nunca quis retratar-se; pelo que o remeteu ao governador, o qual o mandou que à vista dos outros, que tinham cativos na última vitória, morresse a mãos de um algoz.

 

Achou-se ali para o ajudar a bem morrer o padre José de Anchieta, que já então era sacerdote, e o tinha ordenado o mesmo bispo d. Pedro Leitão, e posto que no princípio o achou rebelde não prometeu a Divina Providência que se perdesse aquela ovelha fora do rebanho da igreja, senão que o padre com suas eficazes razões, e principalmente com a eficácia da graça, o reduzisse a ela, ficou o padre tão contente deste ganho, e por conseguinte tão receoso de o tornar a perder, que vendo ser o algoz pouco destro em seu ofício, e que se detinha em dar a morte ao réu, e com isso o angustiava, e o punha em perigo de renegar a verdade, que já tinha confessada, repreendeu o algoz, e o industriou para que fizesse com presteza seu ofício, escolhendo antes pôr-se a si mesmo em perigo de incorrer nas penas eclesiásticas, de que logo se absolveria, que arriscar-se aquela alma às penas eternas.

 

Casos são estes que desculpa a divina dispensação, e a caridade, que é sobre toda a lei, e sem isto mais são para admirar, que para imitar.

 

Ordenadas todas as coisas tocantes ao governo político, povoada, e fortificada a terra, a encarregou o governador a Salvador Corrêa de Sá, seu sobrinho, para que a governasse, e ele se tornou para a Bahia.

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO TERCEIRO

 

De como o governador tornou para a Bahia, e de uma nau que a ela arribou indo para a Índia

 

 

 

Tornando o governador Mem de Sá para a Bahia, e chegando a ela, escreveu logo a rainha, e ao infante cardeal d. Henrique, que governava o reino, o que tinha feito no Rio de Janeiro, pedindo em satisfação de seus serviços lhe mandasse sucessor, para se poder ir para Portugal, onde tinha sua filha d. Helena, que depois casou com o conde de Linhares d. Fernando de Noronha; e entretanto foi continuando com seu cargo como costumava, e era obrigado.

 

Neste tempo veio aqui de arribada Francisco Barreto, que havia sido governador da Índia, e ia conquistar Menomotapa, a quem o governador em tudo o que pôde para sua navegação; ficou-lhe aqui muita gente, e entre os mais um soldado homicida, que em algum tempo teve diferenças com outro em Portugal, mas haviam-se depois congraçado, e vinham ambos, e como tais se foram uma tarde recrear ao campo, onde se lançaram à sombra de uma fresca árvore, e adormecendo o outro, o Medeiros / que assim se chamava o homicida/ lhe deu uma estocada de que logo morreu.

 

Muito desejou Francisco Barreto castigar esta aleivosia do seu soldado, mas não pôde colhê-lo, porém depois da sua partida o ouvidor-geral Fernão da Silva o prendeu, e formado o processo foi sentenciado à morte.

 

O dia que o levaram a justiçar os mais, que ficaram de Francisco Barreto, tinham dado ordem que estivessem trincados os baraços, para que caísse da forca, como em efeito caiu não só uma vez mas três vezes, o que visto pelos irmãos da Misericórdia, que o haviam acompanhado com a justiça, como é costume, requereram ao ouvidor-geral, que não executasse a sentença, pois assim parecia ser vontade de Deus, o que ele fez, e tornando-o ao cárcere foi logo avisar ao governador do que havia passado, o qual, como era letrado e reto na justiça, o repreendeu muito, dizendo que aquela piedosa opinião era, mas não tinha lugar naquele caso, onde a verdade era sabida, e a aleivosia tão notória, pelo que o mesmo governador uma madrugada o mandou tirar da cadeia, e fazer uma forca à porta dela, onde o enforcaram, e não quebrou a corda.

 

Nestas, e outras coisas semelhantes se ocupava o governador na Bahia enquanto esperava sucessor, e as guerras não cessavam assim nas capitanias do sul, como do norte, segundo veremos nos capítulos seguintes.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO QUARTO

 

De como os Tamoios, e franceses depois da vinda do governador foram do Cabo Frio ao Rio de Janeiro para tomarem uma aldeia, e do que lhe sucedeu

 

 

 

Posto que o governador geral Mem de Sá, antes que se viesse para a Bahia, deixou limpa a do Rio de Janeiro dos inimigos Tamoios, eles se acolheram ao Cabo Frio, que dista do Rio 18 léguas, e ali se fizeram, fortes, e saíam a dar alguns assaltos aos de S. Vicente ajudados dos franceses, a conta deles mesmos também os ajudarem a cortar pau-brasil para carregarem suas naus, que há muito naquele cabo; e a tanto chegou o seu atrevimento, que juntando a oito naus francesas as canoas que puderam, se embarcaram uns e outros, e entraram pelo Rio de Janeiro, e passando à vista da cidade de S. Sebastião, foram surgir em um porto de uma aldeia, que distava da cidade uma légua, a qual era dos índios confederados, e amigos dos portugueses, onde estava por principal um de grande ânimo, e esforço, que nas guerras passadas havia feito grandes façanhas em defensa do nome cristão, e dos portugueses: seu nome brasileiro foi Araribóia, e no batismo se chamou Martim Afonso de Souza, como seu padrinho o senhor de S. Vicente, que o padrinhou quando viu a sua capitania no ano de mil quinhentos e trinta.

 

A este vinham os Tamoios ajudados dos franceses saltear e prender, para fazerem em sua terra um solene banquete de suas carnes, segundo eles o mandaram por um mensageiro dizer ao capitão-mor Salvador Corrêa de Sá, o qual temeroso que tomada a aldeia tornassem sobre a cidade, a fortificou muito à pressa, e mandou aos moradores, e soldados que estivessem em armas, e não menos solícito da saúde do índio amigo lhe mandou logo socorro de gente portuguesa / ainda que pouca/ animosa, e governada por Duarte Martins Mourão, seu capitão.

 

Avisado o valoroso índio Martim Afonso de Souza, cercou logo a sua aldeia de trincheiras, e detendo só nela os que podiam pelejar, mandou sair toda a gente inútil, e escondê-la em parte segura, e ele com grande ânimo esperou os inimigos, os quais desembarcados em terra, e a seu prometer seguros da vitória, nenhuma coisa fizeram aquele dia, dilatando a batalha para o outro seguinte.

 

Donde os nossos, que vieram de socorro, ajudados da obscuridade da noite puderam pôr em bom lugar um falconete, que em uma grande canoa haviam trazido para arredarem com ele os inimigos.

 

Esforçado mais o valoroso índio com este socorro, e animando os seus, mandou romper as trincheiras, e apelidando o nome de Jesus e de São Sebastião, acometer o inimigo, antes que se concertasse em esquadrões; os índios alentados com a voz do seu capitão, e animados com o exemplo dos portugueses, cerraram com os inimigos desconcertados, os quais ainda, por serem mais em número, lhes resistiram fortemente, enfim viraram as costas, não podendo sofrer a força dos portugueses, e índios confederados.

 

Os nossos os seguiram, e com pouco dano seu, fizeram grande matança, porque as naus francesas, acostando-se demasiadamente à terra, com a vazante da maré haviam ficado em seco, e o falconete, chovendo sobre elas uma tempestade de pedras, matava, e feria muitos marinheiros, que nelas estavam, e soldados que se embarcavam, até que tornando a crescer a maré se fizeram ao mar, perdidos muitos franceses, e elas maltratadas; os bárbaros destroçados com dificuldade saltaram nas canoas, e perdidos os brios, e desfeitas as forças, em companhia das naus francesas tornaram para o Cabo Frio, e os que carregados de armas saíram de sua terra ameaçando que haviam despedaçar com seus dentes a Martim Afonso, deixaram no campo espalhados muitos dos seus, para que com seus bicos os despedaçassem as aves.

 

Os franceses, reparadas suas naus, e carregadas de pau-brasil, se tornaram nelas à sua pátria.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO QUINTO

 

Das guerras, que houve neste tempo em Pernambuco

 

 

 

Vendo Duarte Coelho de Albuquerque a muita gente que acudia, assim de Portugal como das outras capitanias, para povoarem a sua de Pernambuco, e fazerem nela engenhos e fazendas; e que as terras do cabo, que os gentios inimigos tinham ocupadas, eram as mais férteis, e melhores, determinou de lhas fazer despejar por guerra, e para isto fez resenha de gente que podia levar, e ordenou que com a gente de Iguaraçu fosse por capitão Fernão Lourenço, que era o mesmo capitão da dita vila: com a gente de Parati Gonçalo Mendes Leitão, irmão do bispo, que então era d. Pedro Leitão, e casado com uma filha de Jerônimo de Albuquerque; com a gente da Várzea de Capiguaribe Cristovão Lins, fidalgo alemão; e da gente da vila, mercadores, e moradores, porque eram de diversas partes do reino, ordenou outras três companhias, e que por capitão dos Vianenses fosse J.0 Paes; dos do Porto, Bento Dias de Santiago; e dos de Lisboa, Gonçalo Mendes Delvas, mercador; pelas quais seis companhias iam repartidos vinte mil negros, os mais deles do gentio da mata do pau-brasil, contrários dos do cabo.

 

Também lhes mandou o capitão da ilha de Itamaracá uma companhia de trinta e cinco soldados brancos, e dois mil índios flecheiros, e por capitão Pero Lopes Lobo: posto que ele os entregou a Duarte Coelho, para que os repartisse por onde visse serem necessários, e quis antes meter-se na companhia dos aventureiros, que era dos mancebos solteiros.

 

Sobre todos ia por general Duarte Coelho de Albuquerque, acompanhado de d. Filipe de Moura, e Filipe Cavalcante, genros de Jerônimo de Albuquerque, e de outros homens nobres e honrados, que todos o quiseram acompanhar, e não ficou mais na vila que Jerônimo de Albuquerque com alguns velhos, que não podiam menear as armas.

 

Com toda esta gente se partiu Duarte Coelho de Albuquerque, e foi marchando até às primeiras cercas dos inimigos, onde o esperaram aos primeiros encontros, e houve alguns mortos e feridos de parte a parte, mas vendo que era impossível resistir a tantos, se puseram em fugida com grande pressa, para que seguindo-os com a mesma não tivessem os nossos lugar de desmanchar-lhes as casas, e as cercas, e assim tornassem depois pelos matos a meter-se nelas; mas Duarte Coelho, que lhes adivinhou os pensamentos, lhes mandou queimar algumas, e em outras deixou presídios, com ordem que lhes arrancassem todos os mantimentos, com o que os obrigou a cometer pazes, e ele lhas outorgou com as condições, que melhor lhe estiveram, e repartiu as terras por pessoas, que as começaram logo a lavrar, os quais como acharam tanto mantimento plantado não faziam mais que comê-lo, e replantá-lo da mesma rama, e nas mesmas covas, e com isto foram fazendo seus canaviais, e engenhos de açúcar, com que enriqueceram muito, por a terra ser fertilíssima, e só um, que por isto se chamou João Paes do Cabo, chegou a fazer oito engenhos, que repartiram por oito filhos que teve, e coube a cada um seu de legítima.

 

E porque as terras do rio de Cirinhaen, que ficam defronte da ilha de Santo Aleixo, seis léguas do cabo, eram também muito boas, e as tinha ocupadas outro gentio contrário, que já estava sujeito e pacífico, e de lá os vinham inquietar, e salteá-los, lhes mandou Duarte Coelho dizer pelos nossos línguas, e intérpretes, que se quietassem, e fossem amigos, senão que lhe seria necessário defendê-los, e tomar vingança dos agravos, e injúrias, que lhes faziam.

 

Ao que eles com muita arrogância responderam que não o haviam com os brancos, nem com ele, senão com aqueles que eram seus inimigos, e contrários antigos; mas se os brancos queriam por eles tomar pendências, ainda tinham braços para se defenderem de uns, e de outros.

 

Tornados os línguas com esta reposta, fez Duarte Coelho de Albuquerque uma junta de oficiais da Câmera, e mais pessoas da governança, onde se julgou ser a coisa bastante para se lhes fazer guerra justa, e os cativar, e com este assento se aprestou logo outro exército, em que foi Filipe Cavalcante, fidalgo florentino, capitão dos que foram por mar em barcos, e caravelões, e Jerônimo de Albuquerque, dos que marcharam por terra, que Duarte Coelho como soldado quis ir solto, na companhia dos aventureiros, e tanto que chegaram às cercas, e aldeias dos inimigos, tiveram grandes encontros, e resistências, porque eram muitas, e rotas umas se acolhiam logo, e se fortificavam, e defendiam em outras com grande ânimo e coragem.

 

Porém quando viram o socorro dos barcos, e que não puderam impedir-lhes o desembarcar, posto que o acometeram animosamente, logo desconfiaram, e fugiram para o sertão, levando as mulheres, e filhos diante, e ficando os valentes fazendo-lhes costas, que nunca as viraram aos nossos aventureiros, e índios nossos amigos, que os foram seguindo muitas léguas, até chegar a uma grande cerca, onde se meteram uma tarde, aparecendo alguns pelos altos dela, com tantos ralhos, e mostras de se defenderem, que ali cuidaram os nossos que os tinham certos, e não sabiam já quando havia de amanhecer para abalroarem, animando-se todos uns aos outros para a peleja; porém pela manhã a acharam despejada, que todos haviam fugido, e só saíram de entre o mato um moço e uma moça de outro gentio, que eles tinham cativos, os quais contaram que no mesmo tempo, que os ralhadores apareceram na fronteira da cerca, iam todos os mais secretamente fugindo pela outra parte; e assim não havia para que cansar mais em os seguir, porque iam para mui longe, e para mais não tornarem, como de feito assim foi, e os nossos se tornaram para onde haviam deixado os mais, e os acharam arrancando, e desfazendo os mantimentos dos fugidos, com o que se tornaram todos, uns por mar outros por terra, a Olinda com muito contentamento.

 

A fama destas duas vitórias ficou todo o gentio desta costa até o rio de S. Francisco tão atemorizado, que se deixavam amarrar dos brancos como se foram seus carneiros e ovelhas; e assim iam em barcos por esses rios, e os traziam carregados deles a vender por dois cruzados, ou mil-réis cada um, que é o preço de um carneiro. Isto não faziam os que temiam a Deus, senão os que faziam mais conta dos interesses desta vida, que da que haviam de dar a Deus, e principalmente veio um clérigo a esta capitania, a que vulgarmente chamavam o Padre do Ouro, por ele se jactar de grande mineiro, e por esta arte era mui estimado de Duarte Coelho de Albuquerque, e o mandou ao sertão com 30 homens brancos, e 200 índios, que não quis ele mais, nem lhe eram necessários; porque em chegando a qualquer aldeia do gentio, por grande que fosse, forte, e bem povoada, depenava um frangão, ou desfolhava um ramo, e quantas penas , ou folhas lançava para o ar tantos demônios negros vinham do inferno lançando labaredas pela boca, com cuja vista somente ficavam os pobres gentios machos, e fêmeas, tremendo de pés e mãos, e se acolhiam aos brancos, que o padre levava consigo; os quais não faziam mais que amarrá-los, e levá-los aos barcos, e aqueles idos, outros vindos, sem Duarte Coelho de Albuquerque, por mais repreendido que foi de seu tio, e de seu irmão Jorge de Albuquerque, do reino, querer nunca atalhar tão grande tirania, não sei se pelo que interessava nas peças, que se vendiam, se porque o Padre Mágico o tinha enfeitiçado; e foi isto causa para que el-rei d. Sebastião o mandasse ir para o reino, donde passou, e morreu com ele na África, e ficou a capitania a Jorge de Albuquerque Coelho, que também passou com el-rei, e foi cativo, ferido, e aleijado de ambas as pernas, mas resgatou-se, e viveu depois muitos anos casado com a filha de d. Álvaro Coutinho de Amourol, da qual houve dois filhos, Duarte de Albuquerque Coelho, e Mathias de Albuquerque, de que trataremos em o Livro Quinto. E o Padre do Ouro também foi preso em um navio para o reino, o qual arribou às ilhas, donde desapareceu uma noite sem mais se saber dele.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SEXTO

 

De como vinha por governador do Brasil d. Luiz Fernandes de Vasconcelos, e o mataram no mar os corsários

 

 

 

No ano do Senhor de mil quinhentos e setenta vinha por governador do Brasil d. Luiz Fernandes de Vasconcelos, o qual, partido em uma boa frota, ao segundo dia que saiu da barra de Lisboa começou a correr tormenta, que fez apartar umas naus das outras, donde uma foi encontrar com corsários poderosos, que a tomaram, e mataram quarenta padres da Companhia de Jesus, que nela vinham com o padre Inácio de Azevedo, que já havia sido no Brasil seu primeiro visitador, e a toda a mais gente que a nau trazia e d. Luiz arribou destroçado da tempestade à ilha da Madeira, onde refazendo-se, sobre ter navegado de uma parte para a outra mais de duas mil léguas, com imenso trabalho chegou à vista do Brasil, que demandava, e sem a poder tomar, por mais que por isso trabalhou, lhe foi forçado arribar dali a ilha Espanhola, que é das Índias de Castela, e invernar nela, e arribar dali outra vez a Portugal com a nau desbaratada da falta de tudo, e aportando assim na ilha Terceira, no porto da ilha lhe deram a nova da morte de seu filho d. Fernando, que desastradamente morreu na Índia a mãos de mouros.

 

Passado a outra nau, esperando tempo para tornar a cometer a viagem do Brasil, partiu quando o teve, sem alguma companhia de outras naus, e encontrou na mesma semana três naus de corsários luteranos, a cujas mãos, não sendo poderoso de defender-se nem se querendo render, sobre ter mui esforçadamente pelejado, foi morto na batalha.

 

Era d. Luiz Fernandes de Vasconcelos / além de outras boas qualidades, pelas quais parecia digno de melhor ventura / curiosíssimo da arte marítima, e tão douto, e diligente nela, que podia competir com os mais cientes, e experimentados pilotos; mas com isto infelicíssimo em todas suas viagens, e navegações.

 

A primeira vez que houve de sair ao mar, sendo despachado por capitão-mor da Armada da Índia, estando já as naus carregadas, e a ponto de partirem, abriu a sua capitania uma tão grossa água, que não pôde partir com as outras, mas partiu depois só, e veio invernar a esta Bahia, como dissemos no capítulo quinto deste livro, e pior foi a jornada da Índia para o reino, em que se perdeu com miserabilíssimo naufrágio, de que salvou somente a pessoa, com 30 e tantos companheiros, no batel da nau, deixando nela mais de 300, que se afogaram, com tanta mágoa de seu coração por lhes não poder valer, que cobriu os olhos com uma toalha por não ver tão triste espetáculo, e saindo assim da nau permitiu Nosso Senhor que visse ela em poucos dias da ilha de S. Lourenço, povoada de cruel, e bárbaro gentio, com que as vidas não ficavam menos arriscadas, não tendo dali, senão muito longe, outra terra, nem navio, nem mantimento; mas ordenou a Divina Misericórdia que topasse ali acaso uma nau resgatando, na qual tornaram a Índia, onde d. Luiz se embarcou em outra para Portugal, e sobre ter peregrinado três anos, e mais, chegou ao reino, sem ter de tão longa jornada, em que metera tanto cabedal, mais que dívidas, e trabalhos, e perigos, que nela passou, e não se cansando nem se mudando por tempo sua fortuna, sendo depois mandado por governador do Brasil lhe aconteceram os infortúnios, que atrás dissemos, e por fim deles a morte, que põe fim a tudo.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SÉTIMO

 

Da morte do governador Mem de Sá

 

 

 

Neste mesmo ano, em que d. Luiz Fernandes de Vasconcelos foi morto no mar a mãos de inimigos corsários, que foi o de mil quinhentos setenta e um, morreu de sua enfermidade o governador Mem de Sá, que o estava esperando para ir-se para o reino, mas quereria Nosso Senhor levá-lo para outro reino melhor, que é do céu, como por sua vida, e morte, e principalmente pela Misericórdia Divina, se pode confiar. Foi sepultado na capela da igreja dos padres da companhia, que ele havia ajudado a fazer de penas das condenações aplicadas para a obra, e de outras esmolas. Fez testamento, em que instituiu universal herdeira da sua fazenda, a sua filha condessa de Linhares, com esta cláusula, que se morresse sem deixar filho ou filha, que a herdasse, do engenho e terras, que cá tinha em Sergipe, ficasse a terceira parte a casa da Misericórdia desta cidade da Bahia, e os outros dois terços aos padres da companhia, um para eles, outro para repartirem em esmolas, e dotes de órfãs.

 

Porém ainda que a condessa morresse sem deixar filhos herdeiros, ela legou estes bens ao Colégio dos Padres da Companhia de Santo Antão de Lisboa, onde mandou fazer uma capela, e os padres de cá, não lhes parecendo bem pôr-se à demanda com os seus, deixaram o litígio a Misericórdia.

 

Não somente o governador Mem de Sá morreu gozoso de suas vitórias / se há coisa nas mundanas que na morte possa dar gozo/, mas também de outras, que neste ano da sua morte, o décimo quarto do seu governo, alcançaram os católicos contra os infiéis, que foram as mais insignes de quantas no mundo se hão visto; uma foi a que os portugueses alcançaram na Índia contra três reis, que se confederaram para os lançarem dela, e para este efeito deram todos a um tempo, o Hidalcão sobre Goa, o Nisa Maluco sobre Chaul, e o de Achem sobre Malaca; mas como em todas estas partes havia defensores portugueses, em todas foi igual a resistência. Muitos foram de parecer que se largasse Chaul, porque não estava murado, nem tinha gente que o pudesse defender do poder de Nisa Maluco, e para lhe mandar socorro de Goa seria porem-se a perigo de perderem uma coisa, e outra: porém o viso-rei d. Luiz de Ataíde, contra o parecer de todos, disse que nada havia de largar, e assim ficando-se com só dois mil homens em Goa, mandou d. Francisco Mascarenhas a Chaul com 600 soldados escolhidos, fora muitos fidalgos, e capitães, dos quais alguns aperceberam navios em que o seguiram com gente à sua custa, como foram d. Nuno Álvares Pereira, Pedro da Silva de Menezes, Nuno Velho Pereira, Rui Pires de Távora, João de Mendonça, e outros, que não podendo haver embarcações por partirem a furto do viso-rei, se embarcaram com estes, que dissemos, e com outros, que pelo tempo foram acudindo, e com tão pouca gente foi Deus servido que o viso-rei vencesse em Goa o Hidalcão, o qual o teve cinco meses em cerco com 35 mil cavalos, e 60 mil de pé, dois mil elefantes armados, e 200 peças de artilharia de campo, as mais delas de monstruosa grandeza, e d. Francisco Mascarenhas com a gente que levava de socorro, e a que tinha Luiz Freire de Andrade, capitão-mor de Chaul, que senão 800 homens, mataram a Nisa Maluco 12 mil mouros de 100 mil combatentes de pé, e 55 mil de cavalo, com que teve cercado a Chaul, e o puseram em tanta desconfiança que a cabo de nove meses, que durou o cerco, cometeu pazes a d. Francisco Mascarenhas.

 

As mesmas cometeu o Hidalcão ao viso-rei, e um, e outro as aceitou com condições a seu gosto, muito a salvo da sua honra, e del-rei. Pois o de Achem não livrou melhor que estoutros, porque indo para Malaca se encontrou com Luiz de Mello da Silva, que em naval batalha o venceu, e o fez por então tornar frustrado de seu intento.

 

Com esta vitória chegou o viso-rei d. Luiz de Ataíde ao reino a 22 de julho do ano seguinte de mil quinhentos setenta e dois, por deixar já na Índia d. Antônio de Noronha, seu sucessor, e el-rei d. Sebastião foi na cidade de Lisboa dar graças a Deus no domingo seguinte, em solene procissão da Sé ao Mosteiro de S. Domingos, onde se pregou, e denunciou ao povo, levando à mão direita o viso-rei em precedência de todos os príncipes e senhores, de que foi acompanhado; grande honra, mas bem merecida, e devida a tão heróicos feitos.

 

A outra vitória que neste ano de mil quinhentos setenta e um se alcançou foi a de d. João de Áustria, general da liga cristã, o qual com Marco Antônio Colona, general das galés do papa Pio Quinto, Sebastião Veniero, general dos Venezianos, o príncipe Doria, o de Parma, e Urbino, e outros senhores, que seguiram seu estandarte, em um domingo, a 7 de outubro, no golfo de Lepanto venceu o Baxá general dos turcos, matou-o, e lhe cativou dois filhos, sendo mais mortos 30 mil turcos, cativos cinco mil, tomadas duzentas e 20 galés, e galeotas, e libertados 15 mil escravos cristãos, a que vinham remando na armada do turco; mas também dos nossos morreram na batalha sete mil e quinhentos soldados, em que entraram alguns capitães famosos.

 

Sabida a nova da perda da sua armada por Selim, imperador dos turcos, a sentiu tanto, que saiu do seu juízo, dizendo que era princípio da ruína do seu império, mas sendo consolado por Luchali, que havia escapado com 15 galés, e lhe mostrou o estandarte de Malta, que havia tomado na batalha, aconselhado pelos seus, mandou logo aprestar outra armada, fazendo general dela o dito Luchali, o qual mui contente com o novo cargo se dava pressa em fabricar galés, fundir artilharia, fazer munições, e vitualhas para sair o ano seguinte, o que sabido pelo Sumo Pontífice tornou a tratar com os príncipes cristãos de nova liga, pedindo também a el-rei de Portugal d. Sebastião quisesse entrar nela, e juntamente quisesse aceitar o casamento de Margarita, filha de el-rei Henrique de França, em que já lhe haviam falado, e ela não quisera, o qual sabendo que o dito rei de França se escusava da liga contra o turco, respondeu que aceitava o casamento, e não queria mais dote com ela, senão que entrasse seu pai na dita liga, e ele mesmo se oferecia que pelo mar Roxo, e Pérsico molestaria o grão turco com suas armadas naquele tempo vitoriosas, e nisso trabalharia com todo o seu poder e forças.

 

Tão zeloso era el-rei d. Sebastião da honra de Deus, e de guerrear por ela contra os infiéis, que só por isto aceitava o casamento / a que não era afeiçoado /, e não queria outro dote; mas não se concluindo este matrimônio, que tantos males, e desventuras pudera escusar, casou com ela Henrique de Bourbon, duque de Vandoma, e príncipe de Bierne, e el-rei d. Sebastião continuou com suas guerras, que era o que desejava sobre todas as coisas da vida, até que nelas a perdeu.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO OITAVO

 

De como el-rei d. Sebastião mandou Cristóvão de Barros por capitão-mor a governar o Rio de Janeiro

 

 

 

El-rei d. Sebastião, depois que começou a governar por si o reino, como era tão solícito de conquistas / que provera a Deus não fora tanto /, sabendo da que se fazia no Rio de Janeiro, mandou a ela por capitão-mor, e governador a Cristóvão de Barros, o qual era filho bastardo de Antônio Cardoso de Barros, primeiro provedor-mor da Fazenda del-rei no Brasil, que tornando-se para o reino em companhia do primeiro bispo, dando a nau à costa junto ao rio de S. Francisco, foi morto, e comido do gentio, como já dissemos no capítulo terceiro deste livro.

 

Era Cristóvão de Barros homem sagaz, e prudente, e bem-afortunado nas guerras, e assim depois que chegou ao Rio de Janeiro, em todas as que teve com os Tamoios ficou vitorioso, e pacificou de modo o recôncavo, e rios daquela Bahia, que tornados os ferros das lanças em foices, e as espadas em machados, e enxadas, tratavam os homens já somente de fazer suas lavouras, e fazendas, e ele fez também um engenho de açúcar junto a um rio chamado Magé, onde se faz uma pescaria de fataças, e chama-se Piraiqué, que quer dizer «entrada de peixe», tão notável, que não é bem passá-la em silêncio.

 

É este rio de água doce, mas entra por ele a maré uma légua pouco mais ou menos. Nas águas vivas do mês de junho, que é ali a força do inverno, entram por ele tantas fataças, ou corimans / como os índios brasis lhes chamam /, que para as poderem vencer se juntam duzentas canoas de gente, e lançando muito barbasco machucado à riba donde chega a maré, quando esta preamar se tapa a boca, ou barra do rio com uma rede dobrada, vai o peixe a sair com a vazante, não pode com a rede, nem menos esconder-se no fundo, porque a água o embasbaca, e embebeda de maneira que, viradas de barriga as fataças andam sobre ela meias mortas, donde com um rede-fole as tiram como colher de caldeira, aos pares, até encher as canoas.

 

Saem-se logo fora, e cortadas as cabeças lhes escalam os corpos, e salgadas os põem a secar nos penedos, que há ali muitos; e das cabeças cozidas fazem azeite para se alumiarem todo o ano.

 

Nas águas seguintes de julho se faz outra Piraiqué, ou pescaria, da mesma maneira que a passada, mas não são já tão gordas as fataças, porque estão todas ovadas de ovas grandes e saborosas, as quais salgam, prensam, e secam para comerem, e levarem a vender à Bahia, e a outras partes.

 

Contei isto, porque esta pescaria se faz naquele rio de Magé, onde Cristovão de Barros fez o seu engenho, e no seu tempo, e ainda depois alguns anos  se mandava lançar público pregão na cidade do dia em que se havia de fazer a pescaria, para que fossem a ela todos os que quisessem, e poucos deixavam de ir, assim pelo proveito como por recreação.

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO NONO

 

Do quarto governador do Brasil Luiz de Brito de Almeida, e de sua ida ao rio real

 

 

 

Sabida no reino a nova da morte de Luiz Fernandes de Vasconcellos, que os corsários mataram no mar vindo governar o Brasil, mandou logo el-rei por governador a Luiz de Brito de Almeida, que havia sido escrivão da Misericórdia em um ano de muita festa em Lisboa, e desamparando o provedor, e irmãos o hospital com temor do mal contagioso, ele assistiu sempre, provendo-os de todo o necessário para sua cura; pelo que el-rei lhe encarregou este governo, no qual, depois de chegar, e prover nas coisas da paz, que por morte de seu antecessor achou desordenadas, começou a entender nas da guerra; e a primeira a que acudiu foi a lançar os gentios inimigos do rio Real, e povoá-lo como el-rei lhe havia mandado, pelas boas informações que dele tinha, e o mesmo nome de rio Real esta publicando, e prometendo.

 

Este rio esta em 12 graus, tem de boca meia légua, em a qual há dois canais, e por qualquer deles entram navios da costa de cinqüenta toneladas. Da barra para dentro é o rio mui fundo, e faz uma baía de mais de uma légua, onde há grandes pescarias de peixes-bois, e de toda a mais sorte de peixe.

 

Entra a maré por ele sete ou oito léguas. Do salgado para cima é a terra muito boa para canas-de-açúcar, e outras plantas; tem muito pau-brasil, e por todas estas coisas a mandava el-rei povoar; porém como havia ali gentio contrário, foi primeiro o governador para a fazer despejar com muitos moradores da Bahia, uns por terra, outros nos barcos, em que iam os mantimentos, e alcançou vitória de um grande principal chamado Sorobi, queimando-lhe as aldeias, matando, e cativando a muitos; e porque outro chamado Aperipé lhe fugiu com a sua gente o seguiu cinqüenta léguas pelo sertão sem lhe poder dar alcance, onde achou duas léguas notáveis, uma de quinhentas braças de comprido, e cento de largo, cuja água é mais salgada que a do mar, e toda cercada de perrexil outra pegada a esta de mais de 600 braças de largo de água muito doce; ambas têm muitos peixes, e o governador mandou pescar muito, com que se tornou para a Bahia, encarregando a povoação a Garcia da Vida, que tinha sua casa, fazenda, e muitos currais dali a 12 ou 13 léguas no rio de Tatuapará, o qual a começou, mas nunca se acabou de povoar senão de currais de gado.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO VIGÉSIMO

 

Das entradas, que neste tempo se fizeram pelo sertão

 

 

 

Não ficaram pouco pesarosos os moradores da Bahia, que acompanharam o governador ao rio Real, por não acharem o gentio, que buscavam, para o cativarem, e se servirem dele como aqueles a quem havia levado mais esta cobiça que o zelo da nova povoação, que el-rei pretendia se fizesse; mas ainda se ajudaram do sucesso para seu intento, dizendo ao governador que pois as guerras afugentavam os gentios, como se vira nesta, e nas que seu antecessor lhes havia feitas, com que os fez afastar do mar mais de sessenta léguas, seria melhor trazê-los por paz, e per persuasão de mamalucos, que por eles saberem a língua, e pelo parentesco, que com eles tinham / porque mamalucos chamamos mestiços, que são filhos de brancos, e de índias/, os trariam mais facilmente que por armas.

 

Por estas razões, ou por comprazer aos suplicantes, deu o governador as licenças, que lhe pediram, para mandarem ao sertão descer índios por meio dos mamalucos, os quais não iam tão confiados na eloqüência, que não levassem muitos soldados brancos, e índios confederados, e amigos, com suas flechas, e armas, com as quais, quando não queriam por paz, e por vontade, os traziam por guerra, e por força: mas ordinariamente bastava a língua do parente mamaluco, que lhes representava a fartura do peixe, e mariscos do mar, de que lá careciam, a liberdade de que haviam de gozar, a qual não teriam se os trouxessem por guerra.

 

Com estes enganos, e com algumas dádivas de roupas, e ferramentas, que davam aos principais, e resgates, que lhes davam pelos que tinham presos em cordas para os comerem, abalavam aldeias inteiras, e em chegando à vista do mar, apartavam os filhos dos pais, os irmãos dos irmãos, e ainda às vezes a mulher do marido, levando uns o capitão mamaluco, outros os soldados, outros os armadores, outros os que impetraram a licença, outros quem lha concedeu, e todos se serviam deles em suas fazendas, e alguns os vendiam, porém com declaração que eram índios de consciência, e que lhes não vendiam senão o serviço, e quem os comprava, pela primeira culpa, ou fugida, que faziam, os ferrava na face, dizendo que lhe custaram seu dinheiro, e eram seus cativos; quebravam os pregadores os púlpitos sobre isto, mas era como se pregassem em deserto.

 

Entre estas entradas no sertão fez uma Antônio Dias Adorno, ao qual encomendou o governador que trabalhasse por descobrir algumas minas, o qual entrou pelo rio das Contas, que é da capitania dos Ilhéus, e seguindo a sua corrente, que vem de mui longe, rodeou grande parte do sertão, onde achou esmeraldas, e outras pedras preciosas, de que trouxe as amostras, e o governador as mandou ao reino, onde examinadas pelos lapidários, as acharam muito boas; mas nem por isso se mandou mais a elas, sinal que haviam lá ido mais a buscar peças que pedras, e assim trouxeram 7000 almas dos gentios Tupiguaens, sem trazerem algum mantimento, que comessem, em 200 léguas, que caminharam muito devagar, por virem muitas mulheres, e crianças, e muitos velhos, e velhas, sustentando-se só de frutas agrestes, caça, e mel, mas isto em tanta abundância que nunca se sentiu fome, antes chegaram todos gordos, e valentes: donde se colige quão fértil é aquele sertão, e pelo conseguinte com quanta facilidade se pudera tornar em busca das pedras preciosas já descobertas, e descobrir outras.

 

Também mandou o mesmo governador um Sebastião Álvares ao rio de S. Francisco com oficiais, e tudo o mais necessário para fazer uma embarcação em que por ele navegassem em descobrir algumas minas, e para isso escreveu a um grande principal do sertão chamado Porquinho, que o ajudasse com gente, e tudo o mais que pudesse; ele mandou um vestido de escarlata, e uma vara de meirinho para trazer na mão.

 

Levou este recado um Diogo de Castro, que já havia estado em sua casa, e sabia bem falar-lhe a língua, e outro grande língua, que havia sido irmão da companhia, chamado Jorge Velho.

 

Estimou muito o Porquinho ver o caso que dele fazia o governador, e nunca jamais faltou em quanto os brancos o ocuparam; e assim pôs com sua ajuda o capitão a embarcação em boa altura, e a fez em paragem donde o rio era todo navegável, porque dali para baixo lhe ficava já a cachoeira, e o sumidouro, quando lhe chegou uma carta do governador Lourenço da Veiga, que sucedeu a Luiz de Brito, em que mandava que logo lhe viesse dar conta da fazenda de el-rei, que levara, obedeceu o homem, e posto que depois tornou não achou já os seus, que se haviam metido com outros de Pernambuco a descer gentio, como ele também fez, e todos lá acabaram.

 

Não só da Bahia, mas também dos Ilhéus, e de Pernambuco, se fizeram neste tempo outras entradas.

 

Dos Ilhéus foi Luiz Álvares Espinha com pretexto de fazer guerra a certas aldeias daí a 30 léguas, por haverem nelas mortos alguns brancos, porém hão se contentou com lha fazer, e cativar todas aqueles aldeãos, senão que passou adiante, e desceu infinito gentio.

 

De Pernambuco foram Francisco de Caldas, que serviu de provedor da fazenda, e Gaspar Dias de Taíde com muitos soldados ao rio de S. Francisco, e ajudando-se do Braço de Peixe, que era um grande principal dos Tabajaras, e da sua gente, que era muito esforçada, e guerreira, entraram muitas léguas pelo sertão, matando os que resistiam, e cativando os mais.

 

Tornando-se depois para o mar com sete mil cativos, determinaram pagar ao Braço com o levarem também amarrado, e a todos os seus: porém ele os entendeu, e não deixando de os servir com mantimentos das suas roças, e caça do mato, para aqueles, deu 200 caçadores para assegurar mais a sua caça, e depois que os teve seguros, que nem se vigiavam, nem lhes parecia haver para que, mandou chamar outro principal seu parente, chamado Assento de Pássaro, que viesse com os flecheiros da sua aldeia, e avisou os seus caçadores, que estavam entre os brancos, estivessem alerta na madrugada seguinte, para que, quando ouvissem o seu urro costumado, darem juntamente nos nossos, e lhes não escapar algum com vida; e assim foi que, achando-os dormindo mui descuidados, subitamente os acometeram com tanto ímpeto, que não lhes deram lugar, a tomar armas, nem a fugir, e os mataram todos; e soltos os outros gentios cativos, depois que ajudaram a festejar a sua liberdade, comendo a carne de seus senhores, os deixaram tornar para suas terras, ou para onde quiseram; só escapou dos nossos um mamaluco, que uma moça, irmã do principal Assento de Pássaro, escondeu.

 

Este levou a nova aos brancos, que estavam no porto esperando, e depois neles a Olinda, onde foi muito sentida de todos, pranteando as viúvas seus maridos, e os filhos seus pais, que ali morreram. Nem parou aqui o mal, senão que os homicidas, temendo-se que os brancos fossem tomar vingança destas mortes, sendo Tabajaras, e contrários dos Potiguares, se foram meter com eles na Paraíba, e se fizeram seus amigos para os ajudarem nas guerras, que nos faziam, como adiante veremos.

 

NB. Este capítulo foi copiado das adições e emendas a esta História do Brasil; cujos adiamentos existem no Real Arquivo da Torre do Tombo.

 

 

 

 

CAPÍTULO VIGÉSIMO PRIMEIRO

 

Das diferenças, que o governador, e o bispo tiveram sobre um preso, que se acolheu a igreja

 

 

 

Por morte do bispo d. Pedro Leitão veio o bispo d. Antônio Barreiros, que havia sido d. prior de Aviz, a governar este bispado do Brasil; era homem benigno, esmoler, e dotado de muitas virtudes; mas não era chegado de muitos dias, quando se ofereceu uma ocasião de diferenças, e desgostos entre ele e o governador Luiz de Brito; a ocasião foi esta:

 

Havia nesta terra um homem, aliás honrado, e rico, chamado Sebastião da Ponte, mas cruel em alguns castigos, que dava a seus servos, fossem brancos ou negros; entre outros chegou a ferrar um homem branco em uma espádua como ferro das vacas depois de bem açoutado; sentido o homem disto se embarcou, e foi para Lisboa, onde esperando uma manhã a el-rei, quando ia para a capela, deixou cair a capa, que só levava sobre os ombros, e lhe mostrou o ferrete, pedindo-lhe justiça com muitas lágrimas.

 

Informado el-rei do caso, escreveu ao governador que mandasse preso, e a bom recado ao reino o dito Sebastião da Ponte.

 

Teve ele notícia disto, e acolheu-se a uma ermida de Nossa Senhora da Escada, que está junto a Pirajá, onde o réu então morava: demais disto chamou-se às ordens, dizendo que tinha as menores, e andava com hábito, e tonsura, porque não era casado, pelas quais razões deprecou o bispo ao governador não o prendesse, mas não lhe valeu, começou logo a proceder a censuras, e finalmente chegou o negócio a tanto, que houveram de vir às armas, correndo com elas o povo néscio, e inconstante, já ao bispo com o temor das censuras, já ao governador com o temor da pena capital, que ao som da caixa se publicava, e o que mais era, que ainda depois de todos acostados ao governador, seus próprios filhos, que estudavam para se ordenarem, com pedras nas mãos contra seus pais se acostavam ao bispo, e a seus clérigos, e familiares.

 

Porém enfim/ Jussio Regis urgebat/, e se mandou o preso ao reino, como el-rei o mandava, onde foi metido na prisão do Limoeiro, e nela acabou como suas culpas mereciam.

 

Também neste tempo deu a nau Santa Clara, indo para a Índia, à costa no rio Arambepe à meia-noite, dando por cima de uma lájea, um tiro de falcão do recife, e se perderam mais de trezentos homens, que nela iam com o capitão Luiz de Andrade.

 

Dista o rio donde a nau se perdeu cinco ou seis léguas desta cidade, e assim acudiu logo lá muita gente, e se tirou do fundo do mar muito dinheiro de mergulho, de que se pagaram per si os búzios, e nadadores, e muitos que nada nadaram. A isto acudiu o bispo com a excomunhão da Bula da Ceia contra os que tomam os bens dos naufrágios; não sei se aproveitou alguma coisa, só sei, que ouvi dizer a um, dali a muitos anos, que aquele fora o tempo dourado para esta Bahia pelo muito dinheiro que então nela corria, e muitos índios, que desceram do sertão, e bem dizia dourado, e não de ouro, porque para este outras coisas se requeriam.

 

 

 

CAPÍTULO VIGÉSIMO SEGUNDO

 

Do princípio da rebelião, e guerras do gentio da Paraíba

 

 

 

O rio da Paraíba, que nas cartas de marear se chama de S. Domingos, está em seis graus e três quartos... A boca da abra que o rio faz tem de largo uma légua, e o canal que vai pelo meio, que é o que chamam barra, tem um quarto de légua, e todo o mais de uma parte e outra é muito esparcelado, o fundo é de areia limpa, e assim é muito maior porto, e capaz de maiores embarcações, que o de Pernambuco, do qual dista 22 léguas de costa para a banda do norte.

 

Pelo rio acima uma légua tem uma ilha formosa de arvoredo de uma légua de comprido, e um terço de largo, defronte da qual esta o surgidouro das naus capaz de grande quantidade delas, e abrigado de todos os ventos, e chega ainda a maré pelo rio acima cinco léguas, por onde podem navegar grandes caravelões; tem uma várzea de mais de 14 léguas de comprido, e de largo duas mil braças, toda retalhada de esteiros, e rios caudais de água doce, que já hoje está toda povoada de canas-de-açúcar e engenhos, para os quais dão os mangues do salgado lenha para se cozer o açúcar, e para cinza da decoada em que se limpa; neste rio entravam mais de 20 naus francesas todos os anos a carregar de pau-brasil, com ajuda que lhes davam os gentios Potiguares, que senhoreavam toda aquela terra da Paraíba até o Maranhão algumas 400 léguas: e assim ajudavam os portugueses vizinhos das capitanias de Itamaracá e Pernambuco, depois que tiveram pazes, como fica dito no capítulo décimo segundo do livro segundo; mas tantas vexações, e perrarias lhe fizeram, que se tornaram a rebelar.

 

Uma só contarei, que foi como disposição última, e ocasião propínqua desta rebelião, e foi que entre outros mamalucos, que andavam pelas aldeias suas resgatando peças cativas, e outras coisas, e debaixo disto roubando-os com violência e enganos, houve um natural de Pernambuco, o qual, posto que era filho de um homem honrado, tirou mais a ralé da mãe que do pai; este indo a uma aldeia da Capaôba com seus resgates se agasalhou em um rancho de um principal grande chamado Iniguaçú, que quer dizer «rede grande», e se namorou de uma filha sua, moça de 15 anos, dizendo que queria casar ou amancebar-se com ela, para ficar entre eles, e não vir mais para os brancos, no que ela consentiu, e o pai também, entendendo que cumpriria o noivo a condição prometida. Porém indo a uma caça, que durou alguns dias, quando tornou não achou o genro, nem a filha, porque se haviam ido para Pernambuco: sentiu-o muito, e mandou logo dois filhos seus em busca da irmã, os quais, porque o mamaluco lha não quis dar se foram queixar a Antônio Salema, que estava por correição em Pernambuco, posto que já de partida para a Bahia, e ele mandou logo notificar que o pai do querelado, que trouxesse a moça, como trouxe, e a entregou aos irmãos, passando-lhes uma provisão para que ninguém lhes impedisse o caminho, ou lhes fizesse agravo, antes lhes dessem os brancos por onde passassem todo o favor, e ajuda para o seguirem; avisando-os que não consentissem mamalucos em suas aldeias, e assim o avisou ao capitão-mor da ilha Afonso Rodrigues Bacelar, que não consentisse em ir ao sertão semelhante gente.

 

Foram os negros mui contentes com sua irmã, e mais depois que viram o bom agasalhado, que pelo caminho lhes faziam os brancos, obedecendo à provisão que levavam, até que chegaram à casa de um Diogo Dias, que era o derradeiro que estava nas fronteiras  da capitania de Itamaracá, o qual os recebeu com muitas mostras de amor, e muito mais a irmã, que mandou recolher com outras moças de Câmera, sem mais a querer dar aos portadores, nem ao outros, que o pai mandou depois que soube, pedindo-lhe que lhe mandasse sua filha, e quando não quisesse a fossem pedir ao dito capitão-mor da ilha, como foram, e nenhuma coisa aproveitou, porque o capitão era amigo de Diogo Dias, e dissimulou com o caso.

 

Espalhada esta nova pelos gentios das aldeias quiseram logo tomar vingança nos regatões, que nelas estavam, e tomar-lhes os resgates; mas o principal agravado lhes foi à mão dizendo que aqueles não tinham culpa, e não era razão pagassem os justos pelos pecadores, e somente os fez sair das aldeias, e ir para suas casas como o corregedor Antônio Salema havia mandado; tão bem intencionado era este negro, e afeto aos portugueses, que nem ainda de seu ofensor tomara vingança, senão fora atiçado por outros Potiguares, principalmente pelos da beira-mar, com os quais comunicavam os franceses, e para o seu comércio do pau-brasil lhes importava muito ter aliança com estoutros da serra, e como nesta conjunção estavam três naus francesas à carga na baía da Traição, e o capitão-mor da ilha de Itamaracá havia dado um assalto, que matou alguns franceses, e lhes queimou muito pau que tinham feito, no qual o assalto se havia também achado Diogo Dias, tantas coisas disseram ao bom Rede Grande, que veio a consentir que dessem em sua casa, e fazenda, que era um engenho que havia começado no rio Taracunhaê; e porque sabiam que o homem tinha muita gente, e escravos, e uma cerca mui grande feita, com uma casa forte dentro, em que tinha algumas peças de artilharia, se concertaram que ele viria com todo o gentio da serra por uma parte, e o Tujucipapo, que era o maior principal da ribeira, com os seus, e com os franceses por outra, e assim como o disseram o fizeram, e com serem infinitos em número ainda usaram de uma grande astúcia, que não remeteram todos à cerca nem se descobriram, senão somente alguns, e ainda estes começando os nossos a feri-los de dentro com flechas, e pelouros, se foram retirando como que fugiam;  o que visto por Diogo Dias se pôs a cavalo, e saindo da cerca com os seus escravos, foi em seu seguimento, mas tanto que o viram fora rebentaram os mais da cilada com um urro, que atroava a terra, e o cercaram de modo, que não podendo recolher-se à sua cerca, foi ali morto com todos os seus, e a cerca entrada, onde não deixaram branco nem negro, grande nem pequeno, macho nem fêmea, que não matassem, e esquartejassem.

 

Foi esta guerra dos Potiguares, governando o Brasil Luiz de Brito, na era de mil quinhentos setenta e quatro, e dela se seguiram tantas, que duraram 25 anos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO VIGÉSIMO TERCEIRO

 

De como dividiu el-rei o governo do Brasil mandando o dr. Antônio Salema governar o Rio de Janeiro com o Espírito Santo, e mais capitanias do sul, e o governador Luiz de Brito com a Bahia, e as outras do norte, e que fosse conquistar a Paraíba

 

 

 

Informado el-rei d. Sebastião de todo o conteúdo no capítulo precedente, e receoso de se os franceses situarem no rio da Paraíba, mandou ao governador Luiz de Brito de Almeida o fosse ver, e eleger sítio para uma forte povoação, donde se pudessem defender deles, e dos Potiguares, e para que melhor o pudesse fazer, e sem que sentissem sua falta as capitanias do sul, de Porto Seguro para baixo, encarregou o governo delas ao dr. Antônio Salema, que havia estado em Pernambuco com alçada, e então estava na Bahia, donde se partiu no ano do Senhor de mil quinhentos setenta e cinco, e foi bem recebido no Rio de Janeiro assim pelo capitão-mor Cristóvão de Barros, como de todos os mais portugueses, e índios principais, que o visitaram, sendo o primeiro e principalíssimo Martim Afonso de Souza, Araribóia, de quem tratamos no capítulo décimo quarto deste livro, ao qual, como o governador desse cadeira, e ele em se assentando cavalgasse uma perna sobre a outra segundo o seu costume, mandou-lhe dizer o governador pelo intérprete, que ali tinha, que não era aquela boa cortesia quando falava com um governador, que representava a pessoa de el-rei.

 

Respondeu o índio de repente, não sem cólera e arrogância, dizendo-lhe:” Se tu souberas quão cansadas eu tenho as pernas das guerras em que servi a el-rei, não estranharas dar-lhe agora este pequeno descanso, mas já que me achas pouco cortesão eu me vou para minha aldeia, onde nós não curamos desses pontos, e não tornarei mais à tua corte.” Porém nunca deixou de se achar com os seus em todas as ocasiões, que o ocupou.

 

Depois que o governador esteve alguns dias em terra compondo e ordenando as coisas dela, e da justiça, como bom letrado que era, foi informado que no Cabo Frio estavam muitas naus francesas resgatando com o gentio, e que todos os anos  ali vinham carregar de pau-brasil; pelo que determinou logo lançá-los fora, e para isto se ajuntou com Cristóvão de Barros, e com 400 portugueses, e 700 gentios amigos, cometeram animosamente os franceses, e posto que os acharam já fortificados com os Tamoios, e se defenderam com muito ânimo, todavia apertaram tanto com eles, que tiveram por seu bem entregar-se, e os Tamoios, que escaparam, com espanto do que tinham visto se afastaram de toda aquela costa, mas os cativos, que quiseram receber a Fé, pôs o governador Antônio Salema em duas aldeias no recôncavo do Rio de Janeiro, a que chamaram uma de S. Barnabé, e outra de S. Lourenço, e se encomendaram aos padres da companhia, para que como aos outros catecumenos lhes ensinassem o ministério de nossa Fé.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO VIGÉSIMO QUARTO

 

De como o governador Luiz de Brito mandou o ouvidor-geral Fernão da Silva à conquista da Paraíba, e depois ia ele mesmo, e não pôde chegar com ventos contrários

 

 

 

Por não poder o governador Luiz de Brito de Almeida ir logo à conquista da Paraíba, que el-rei lhe encomendou, a encarregou ao dr. Fernão da Silva, ouvidor-geral, e provedor-mor deste estado, que naquela ocasião ia por correição a Pernambuco, o qual com todo o poder de gente de pé e de cavalo, e índios, que de Pernambuco e Itamaracá pôde levar, foi a ver o sítio, e castigar os Potiguares rebelados: os quais como o viram ir tão poderoso não ousaram esperá-lo, nem ele os correu mais que até à boca do dito rio, onde tomou dele posse em nome de el-rei com muita solenidade de atos, que mandou fazer muito bem notados, e com este feito se tornou mui satisfeito a Pernambuco, e daí depois de concluídos os negócios de seu ofício outra vez para a Bahia, porém os Potiguares, que nenhuma coisa entendem de atos nem termos judiciais, nem se lhes dá deles, como não viram pelouros, nem quem lhos tirasse, se tornaram a senhorear da terra como de antes, e com mais ânimo e coragem.

 

Neste interim se havia concertado Boaventura Dias, filho de Diogo Dias, com um Miguel de Barros, de Pernambuco, homem rico, e que tinha muito gentio da terra para fazerem um engenho de açúcar em Guiana (Goyana?), no sítio em que depois o teve Antônio Cavalcante, e para bem o poderem fazer, e defender, fizeram uma casa forte de madeira de taipa, e mão dobrada, donde com os arcabuzes, que os brancos dentro tinham, e o seu gentio com arcos e flechas, se defenderam de alguns assaltos, que os Potiguares lhe deram, e cerco em que os puseram; porém um dia advertiram que a loja da casa estava aberta por uma parte onde lhes não haviam feito taipa, e enquanto uns pelejavam outros secretamente meteram por ali muita palha seca, e lhes puseram fogo, o qual se começou logo a atear nas traves, e tábuas do sobrado, sem que os de riba vissem mais que a fumaça, que os cegava, sem saberem donde vinha, e indo duas mulheres abrir um alçapão para verem o que era, subiu incontinente tão grande labareda que as abrasou, o que visto pelos homens, e como toda a casa estava cercada de inimigo, determinaram sair a campo, e vender bem suas vidas, como fizeram, matando primeiro a muitos, que deles fossem mortos, e como o número era tão grande foram vencidos e mortos.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO VIGÉSIMO QUINTO

 

De uma entrada, que nesse tempo se fez de Pernambuco ao sertão

 

 

 

Na era do Senhor de mil quinhentos setenta e oito, em que Lourenço da Veiga governava este estado, se ordenou em Pernambuco uma entrada para o sertão em que foi por capitão Francisco Barbosa da Silva em um caravelão até ao rio de S. Francisco, e por ser a gente muita, e não caber na embarcação, foram setenta homens por terra, levando por seu cabo a Diogo de Castro, que falava bem a língua da terra, e havia já ido da Bahia a outras entradas.

 

Estes havendo passado o rio Formoso foram cometidos de um bando de porcos monteses, com tanta fúria, e rugido de dentes, que os pôs em pavor, mas como tinham as espingardas carregadas, descarregaram-nas neles, e os fizeram voltar ficando sete mortos, que foram bons para a matulagem.

 

Daí a nove dias, chegando à lagoa viram estar uma nau francesa, surta três léguas ao mar, para o rio de S. Miguel, da qual se haviam desembarcado 10 franceses, e estavam em uma tranqueira contratando com alguns gentios.

 

Deram os nossos sobre eles de madrugada quando dormiam, mataram nove, ficando só um defendendo-se tão valorosamente com uma alabarda, que com estar já com uma perna cortada, ainda antes que o matassem matou um soldado nosso chamado Pedro da Costa.

 

Os índios, que com eles estavam, eram poucos, e dizendo-lhes Diogo de Castro, que os não buscavam, senão aos franceses, se foram sem fazer alguma resistência, e os nossos seguiram seu caminho até o desembarcadouro do rio de S. Francisco, onde foi aportar o caravelão com o seu capitão, e os mais, que levava; e dali, por não terem índios, que lhes carregassem os mantimentos, e resgates, os mandaram pedir ao principal chamado Porquinho, e a outro seu contrário chamado o Seta, para que se um os não desse, os desse o outro, e eles foram tão obedientes, que de ambas as partes vieram; e assim para os contentar se foi o capitão com os do Seta, e Diogo de Castro com os do Porquinho.

 

O Seta, depois de ter o capitão em casa, lhe cometeu que lhe queria vender uma aldeia de contrários, que tinha dali a nove ou 10 léguas, que fosse com ele, e lha. entregaria; aceitou o capitão o partido, e deixando em guarda do fato um Diogo Martins Leão com 12 homens, se foi com os mais onde o Seta os levava.

 

Dos que ficaram com o Leão foram cinco pelas aldeias vizinhas a buscar de comer, porque os gentios delas se publicavam amigos, mas eles os mataram sem lhes haverem dado para isso ocasião alguma, e logo se foram à casa onde Diogo Martins Leão havia ficado com os mais para os matarem todos, e lhes tomarem os resgates, os quais entendendo a determinação com que iam carregaram à pressa as espingardas, e começaram a se defender valorosamente.

 

Logo escreveu Diogo Martins uma carta a Diogo de Castro, que o socorresse, e lha mandou por um cigano, a qual vista, e o perigo, e aperto em que ficavam, deu cópia dela ao Porquinho, que logo se pôs a pregar que sempre fora amigo dos brancos, e o havia de ser até a morte, pois eles lhes levavam as ferramentas com que faziam suas roças, e sementeiras, e outras coisas boas de que eram senhores; que se fizessem prestes para os irem socorrer, porque ele se punha já ao caminho, como de feito se pôs, e dentro de 24 horas se achou junto aos cercados com 1.500 índios, em companhia de Diogo de Castro, e de mais oito homens brancos, os quais, repartidos todos em duas mangas, feito o sinal com uma corneta, deram subitamente no inimigo com tanto ímpeto que não lhes puderam resistir, e se puseram em fugida; mas como os tinham cercados com as mangas, iam lhes dar nas mãos, e foram mortos mais de 600; era isto antemanhã, e como amanheceu depois de se saudarem, e renderem as graças os que ficaram livres do cerco, lhes perguntou se sabia o capitão daquela rebelião do gentio, e por lhe dizerem que não, lhe escreveu dois escritos do que havia passado, e que logo se tornasse com boa ordem, e vigilância até se juntarem com ele, que também o ia buscar, porque entre tantos inimigos não convinha andarem espalhados: um destes escritos levava um mamaluco, que não chegou, porque os inimigos o mataram no caminho; o outro levou um índio que chegou, o qual visto pelo capitão dissimulou o temor, e alvoroço, que com ele recebeu e disse ao Seta e aos mais, que os acompanhavam, que era necessário tornar atrás a socorrer os brancos, que o Porquinho tinha posto em cerco, e com isto fez volta até um rio, que distava dali quatro léguas, onde os rebeldes o estavam já aguardando em cilada, e rebentando dela se travou entre todos uma briga, que durou até a noite, e tornando pela manhã a continuá-la, chegaram Diogo de Castro, e o Porquinho, com cujo socorro se animou mais o capitão, e combatendo-os uns por detrás, outros por diante, mataram mais de 500.

 

Ali tomaram conselho, e assentaram que os acabassem de uma vez, e fossem a uma cerca forte, e grande, onde se haviam acolhido, dali a 12 léguas, no alto de uma serra.

 

Começaram a marchar, e no segundo dia chegaram a um rio, que manava de um penedo, onde acharam morto, e com os braços cortados, e as pernas, o mamaluco, que haviam mandado com o escrito ao capitão. Dali mandaram um branco com dois negros por espias, que se encontraram com outros dois dos inimigos; um mataram, e trouxeram o outro vivo, do qual souberam que a cerca distava dali duas léguas, e que estavam nela 43 principais nomeados com toda a sua gente, mulheres e filhos.

 

Chegados os nossos à vista, não a quiseram os brancos dar de si senão só os do Porquinho, que já a este tempo eram vindos das suas aldeias mais de dois mil, os quais vistos pelos da cerca saíram a eles outros tantos, e fingindo os do Porquinho, depois de haverem bem batalhado, que lhes fugiam, se foram retirando até os afastar um bom espaço da cerca, e então saiu o nosso capitão com os brancos, dando-lhe sua surriada de pelouros pelas costas, e voltaram os da retirada com outra de flechas, onde tomando-os em meio trezentos, e os mais sem poderem tornar à cerca, se acolheram para os matos.

 

A cerca tinha três mil e 236 braças em circuito, e lançava um braço até a água de que bebiam; esta lhe determinaram os nossos tomar primeiro, e posto que os de dentro a defenderam com muito esforço seis dias, contudo no sétimo foi rendida, com o que começaram a morrer de sede, e a cometer muitos partidos, e o último foi que entregariam uma aldeia de seus contrários se os brancos fossem com eles a tomar a entre a como foram, e entrando na aldeia começaram a pregar que eles os tinham vendido por serem seus inimigos, e ainda lhe faziam muita mercê em não os matarem nem os venderem a outros gentios, que os matassem ou maltratassem, senão a cristãos, que os haviam tratar cristãmente; ao que respondeu o principal da aldeia, chamado Araconda, que eles eram os que mereciam o cativeiro, e a morte, por serem matadores de brancos, e não ele nem os seus, que nunca lhes fizeram nenhum dano; e então se virou para o capitão, e lhe disse: «Branco, eu nunca fiz mal a teus parentes, nem estes me podem vender; mas eu por minha vontade quero ser cativo, e ir contigo.»

 

O capitão lhe agradeceu com palavras, e mandou que se aprestassem dentro de quinze dias para o caminho, como fizeram; eram tantos, que indo todos em fileira um atrás de outro como costumam /, ocupavam uma légua de terra.

 

Não sei eu com que justiça e razão homens cristãos, que professavam guardá-la, quiseram aqui que pagasse o justo pelo pecador, trazendo cativo o gentio, que não lhes havia feito mal algum, e deixando em sua liberdade os rebeldes, e homicidas, que lhes haviam feito tanta guerra e traições. Porém eles lhes deram o pago, pois apenas os haviam deixado, quando determinaram de lhe ir no alcance, e mandaram adiante alguns por espias, que se metessem pelos matos, e quando os do Araconda fossem à caça lhes dissessem que eles remordidos de suas consciências os queriam redimir do cativeiro dos brancos em que os puseram, e para isto lhes queriam dar guerra, pelo que os avisavam que quando vissem a batalha os deixassem, e se fossem embora para suas terras, porque a gente do Porquinho era já despedida, e não tinham que temer; mas posto que isto se tratou com muito segredo, o ouviu uma índia das cativas, que o disse a seu senhor, e o senhor a outros, que não creram senão depois que o viram, e não lhes aproveitou o aviso, porque os inimigos lhes deram na retaguarda, e lhes mataram 11 homens, sem os da vanguarda lhes poderem valer, assim por irem mais longe, como pelo gentio de Araconda ser acolhido, e cuidar o capitão que nenhum da retaguarda lhes haveria escapado com vida; só mandou dois negros saber se eram mortos ou vivos, os quais vendo-os cercados e postos em tanto aperto, que quase estavam desmaiados, entraram apelidando a Santo Antônio, e um com arco e flecha, outro com seu terçado, e rodela, fazendo tanto estrago, que bastou este pequeno socorro para animar os amigos, e atemorizar os inimigos, de sorte que se puseram em fugida, e os pernambucanos não os podendo já seguir, se tornaram para suas casas, mais pobres do que vieram.

 

Tinha o governador d. Lourenço da Veiga uma coisa, e era que, por mais negócios, que tivesse, não deixava de ouvir missa, e para não obrigar alguém a que o acompanhasse, ia e vinha sempre a cavalo.

 

 

 

CAPÍTULO VIGÉSIMO SEXTO

 

Da morte do governador Lourenço da Veiga

 

 

 

Depois que el-rei d. Henrique reinou, por morte de el-rei d. Sebastião seu sobrinho, como era já de tanta idade quando entrou no reinado, que passava de sessenta e seis anos, logo se começou a altercar sobre quem lhe havia de suceder no reino, porque os pretensores eram el-rei católico Filipe Segundo de Castela, a duquesa de Bragança, o príncipe de Parma, o duque de Sabóia, e o senhor d. Antônio, e todos enviaram seus procuradores à Corte, para que, informado el-rei da justiça de cada um, declarasse por sucessor o que lhe parecesse nela mais justificado.

 

Todos alegavam que eram seus sobrinhos, filhos de seus irmãos ou irmãs, e estavam em igual grau de parentesco, porque el-rei católico era filho de sua irmã a imperatriz d. Isabel, e do imperador Carlos Quinto. A duquesa de Bragança era filha do infante d. Duarte, seu irmão, e de d. Isabel, filha do duque de Bragança d. Jaime.

 

O príncipe de Parma era casado com a infanta d. Maria, também filha do mesmo infante d. Duarte. O duque de Sabóia era filho da infanta d. Beatriz, sua irmã, e de Carlos, duque de Sabóia.

 

O senhor d. Antônio era filho natural do infante d. Luiz, seu irmão, todos netos de el-rei d. Manuel, pai dos seus genitores, e do mesmo rei Henrique, seu tio.

 

El-rei, posto que de princípio se inclinou à parte da duquesa de Bragança, contudo, por ser fêmea, e el-rei católico varão, e por outras razões, se resolveu que a ele pertencia o reino, mas não o quis declarar por sentença, nem em testamento, porque era melhor para os pretensores, e para o mesmo reino de Portugal, que lho dessem por concerto.

 

Já a este tempo el-rei se achava mui fraco, e foi apertando o mal de maneira que morreu sendo de idade de 68 anos, e os perfez no mesmo dia em que morreu, que foi o último rei de Portugal de linha masculina, e como o primeiro senhor de Portugal se chamou Henrique, assim se chamou o último.

 

Morto el-rei, os governadores que deixou nomeados foram o arcebispo de Lisboa, Francisco de Sá, camareiro-mor de el-rei, d. João Tello, d. João Mascarenhas, e Diogo Lopes de Souza, presidente do Conselho de Justiça, ainda que não tinham vontade de resistir a el-rei católico, todavia, por dar satisfação ao povo, proveram algumas coisas para a defensa do reino, o que tudo sabido por el-rei, e as diligências que d. Antônio fazia para que o levantassem por rei de Portugal, sentiu muito não poder escusar-se de aproveitar-se das armas, e já estava assegurado da consciência, com pareceres de teólogos e canonistas, que o podia fazer, e se aparelhava para isso; mas escreveu primeiro aos governadores, e a cinco principais cidades do reino, e aos três estados, que estavam em Cortes em Almeirim, pedindo-lhes que o declarassem conforme a vontade do rei-defunto seu tio, e a seu direito. Responderam-lhe que não podiam até que a causa se declarasse por justiça; o que visto por el-rei, nomeou o duque de Alba por general do exército, e mandou que entrassem em Portugal por terra e por mar.

 

Iam no exército mais de 1.400 cavalos, a infantaria, além dos terços de Espanha, eram quase quatro mil alemães, e seu coronel o conde Baldrou (de Lodron), e quatro mil italianos com seu capitão-general d. Pedro de Médicis.

 

O duque de Alba, contra o parecer de outros, que diziam que sem tratar da torre de S. Gião (S. Julião), se fossem direitos a Lisboa, e começou de bater com vinte e quatro canhões, e ainda que lhe não fez grande dano, Tristão Vaz da Veiga, irmão de Lourenço da Veiga, governador do Brasil, que era o capitão da Torre, determinou de entregá-la, e mandando pedir seguro ao duque se viu com ele em campo, e se concertou de entregar a fortaleza, se lhe concediam o que d. Antônio lhe havia dado, e assim se fez, e se meteu nela presidiu de castelhanos; o que visto por Pedro Barba, capitão do forte da Cabeça Seca, que até então se não havia querido render, e que o marquês de Santa Cruz, d. Álvaro Baçan, ia entrando com as galés castelhanas, o desamparou, e se foi a d. Antônio, que também foi daí a poucos dias vencido em Lisboa, e retirando-se dela a cidade de Coimbra, e de Coimbra à do Porto, onde o reconheceram por rei, indo sempre em seguimento Sancho de Ávila; finalmente o forçou a embarcar-se no rio Minho, vestido como marinheiro, e passar-se às ilhas, e delas a outros reinos estranhos, onde acabou a vida.

 

Hei dito estas coisas em suma, não sem propósito, senão para declarar o achaque ou ocasião da morte do governador do Brasil Lourenço da Veiga, .que como se prezava de português, sentiu tanto haver seu irmão Tristão Vaz da Veiga entregue a torre de S. Gião da maneira que temos visto, que ouvindo a nova enfermou, e morreu; e assim acabou o governador Lourenço da Veiga, e nós com ele acabamos também este livro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIVRO QUARTO

 

DA HISTORIA DO BRASIL DO TEMPO QUE O GOVERNOU MANUEL TELES BARRETO ATÉ A VINDA DO GOVERNADOR GASPAR DE SOUZA

 

 

 

 

 

CAPÍTULO PRIMEIRO

 

De como veio governar o Brasil Manuel Teles Barreto, e do que aconteceu a umas naus francesas, e inglesas no Rio de Janeiro, e S. Vicente

 

 

 

Como a Majestade de el-rei Filipe Segundo de Castela, e Primeiro de Portugal, foi jurado nele por rei no fim do ano de mil quinhentos e oitenta, sabendo da morte do governador do Brasil Lourenço da Veiga, mandou por governador Manuel Teles Barreto, irmão de Antônio Moniz Barreto, que foi governador da Índia; era de 60 anos de idade, e não só era velho nela, mas também de Portugal o Velho; a todos falava por vós, ainda que fosse ao bispo, mas caía-lhe em graça, a qual não têm os velhos todos.

 

Tanto que chegou a esta Bahia, que foi no ano de mil quinhentos oitenta e dois, escreveu a todas as capitanias que conhecessem a Sua Majestade por seu rei, e foi de importância este aviso, porque daí a poucos dias chegaram três naus francesas ao Rio de Janeiro, e surgiram junto ao baluarte, que está no porto da cidade, dizendo que iam com uma carta de d. Antônio para o capitão Salvador Corrêa de Sá, o qual nesta ocasião era ido ao sertão fazer guerra ao gentio; mas o administrador Bartolomeu Simões Pereira, que havia ficado governando em seu lugar, e estava informado da verdade pela carta do governador geral, lhes respondeu que se fossem embora, porque já sabia quem era seu rei; e porque a cidade estava sem gente, e não havia mais nela que os moços estudantes, e alguns velhos, que não puderam ir à guerra do sertão, destes fez uma companhia, e d. Ignez de Souza, mulher de Salvador Corrêa de Sá, fez outra de mulheres com seus chapéus nas cabeças, arcos e flechas nas mãos, com o que, e com o mandarem tocar muitas caixas, e fazer muitos fogos de noite pela praia, fizeram imaginar aos franceses que era gente para defender a cidade, e assim a cabo de dez ou doze dias levantaram as âncoras, e se foram.

 

No mesmo tempo foram dois galeões de ingleses, de 300 toneladas cada um, à capitania de S. Vicente com intento de povoar, e fortificar-se por relação de um inglês, que se havia ali casado, das minas de ouro, e outros metais, que há naquela terra, e publicavam que el-rei católico era morto, e d. Antônio tinha o reino de Portugal, oferecendo da parte da rainha de Inglaterra grandes coisas. Porém os portugueses, pela carta que tinham estiveram mui firmes por el-rei católico, sem querer admitir aos ingleses, os quais ameaçavam de entrar por força, e realmente o fizeram, se naquela conjunção não chegaram três naus de castelhanos, que começaram a pelejar com eles, os quais logo bateram estandarte, pedindo paz, que os castelhanos lhes não deram, antes jogaram a artilharia toda a noite, porque pelas correntes não os puderam abordar.

 

Ao outro dia, ainda que deixaram uma nau tão maltratada que se foi ao fundo, desampararam a empresa, e saíram do porto mui maltratadas, sem antenas, e as naus furadas por muitas partes, e mais de 50 homens mortos, e 14 feridos. Entraram as naus castelhanas no porto, sendo bem recebidas dos portugueses, que rogavam mil bens a Sua Majestade, pois / ainda que acaso / tão presto os começava a defender.

 

O caso como ali foram aquelas naus se contará no capítulo seguinte.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SEGUNDO

 

Da armada, que mandou Sua Majestade ao estreito de Magalhães, em que foi por general Diogo Flores de Valdez, e o sucessor que teve

 

 

 

Francisco Drake, corsário inglês, passou o ano de mil quinhentos setenta e nove o estreito de Magalhães, e correu o mar do Sul; e d. Francisco de Toledo, viso-rei do Peru, mandou atrás dele a Pedro Sarmento, e Antão Paulo Corso, piloto, os quais havendo passado o mesmo estreito do sul ao norte, chegaram a Sevilha, e daí a Badajós, onde el-rei católico então estava despedindo o seu exército sobre Portugal, e ouvida sua relação, e o desassossego, que no Peru havia posto o corsário; e certificando muito Pedro Sarmento, que no estreito se podiam fazer fortes de ambas as partes, dos quais facilmente com a artilharia se impedisse o passo aos navios, houve pareceres contrários, dizendo que o estreito era mais largo do que Sarmento o figurava, e que quando fosse tão estreito, como dizia, nem por isso se impediria o passo aos navios, pela muita corrente, e porque com um golpe, ou dois de artilharia, não sempre se mete uma nau no fundo, e quando se meta passa outra: entre outros que tiveram esta opinião foi um o duque de Alba d. Fernando Álvares de Toledo,

 

Porém el-rei mandou que se juntassem no rio de Sevilha 23 naus de alto bordo, com cinco mil homens de mar e guerra, com petrechos para a fábrica destes fortes, capazes para 300 homens de guerra, e alguns povoadores para facilitar mais sua conservação.

 

Nomeou para general desta armada a Diogo Flores de Valdez, e por piloto-mor a Antão Paulo Corso, e a Pedro Sarmento por governador dos fortes, e povoações. Saiu de S. Lucas esta armada a 25 de setembro do ano de 1581, com tão mau tempo por a pressa que o duque de Medina Sidonia dava, que depois de três dias arribou com tormenta a baía de Cadiz com perda de três navios, havendo-se afogado a maior parte da gente, e tão destroçada, que para reparar-se se deteve mais de 40 dias; tornou a sair com 17 navios, e chegou ao Brasil, ao porto da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, onde invernou seis meses e meio; porque ainda que chegou a 25 de março, que em Espanha é a primavera, nestas partes é o princípio do inverno, em que se não pode navegar para o estreito; e porque neste tempo não estivesse a gente ociosa, a ocupou em fazer estacas para trincheiras, e taipais, e outros petrechos, e em lavrar madeira para duas casas, em que no estreito tivessem as munições recolhidas.

 

Para o que tudo deu muita ajuda Salvador Corrêa de Sá, governador do Rio de Janeiro, e parecendo que já era tempo para navegar saíram da barra do Rio a 2 do mês de outubro com 16 navios, deixando um por inútil, e tomando a derrota do estreito, que está 700 léguas deste porto, chegaram ao rio da Prata, donde se levantou um temporal de ventos tão fortes, que estiveram 22 dias mar em través, sem poder pôr um palmo de vela; e havendo-se perdido aqui em véspera de Santo André a nau do capitão Palomar, e 236 pessoas nela, sem podê-los remediar; aos 2 de dezembro aplacou alguma coisa o mar, e o vento, e com acordo dos capitães e pilotos tornou Diogo Flores atrás, buscando porto para reparar as naus, porque estavam cinco delas abertas da tormenta, e as mais em perigo de fazer o mesmo.

 

Foram à ilha de Santa Catarina, 300 léguas dali, a qual ainda que despovoada / por ser de portugueses, que não sabem povoar, nem aproveitar-se das terras, que conquistam/, é terra de muita água, pescado, caça, lenha, e outras coisas: onde a cabo de vinte e dois dias, que ali estiveram, deixou Diogo Flores de Valdez três naus, que não puderam navegar, a cargo do contador André Equinon, com ordem que se tornassem ao Rio de Janeiro, e deu outras três a d. Alonso de Souto Maior, que ia por governador do Chile, para levar a sua gente pelo rio da Prata ao porto de Buenos Aires, donde não há mais que vinte jornadas à China; e o dito Diogo Flores, com as mais, em dia de reis do ano de mil quinhentos oitenta e três, tornou a volta do estreito. As três naus, que ficaram na ilha de Santa Catarina, saíram dali aos 14 de janeiro, e aos 24 do mesmo chegaram à barra de S. Vicente, e na mesma barra acharam os dois galeões ingleses, que estavam para tomar a terra se não chegassem os castelhanos, que os lançaram dali às bombardas, como temos dito.

 

Diogo Flores de Valdez seguiu seu caminho, para o estreito, levando a terra à vista, sobre a mão direita, até darem com a boca em 53º graus, e entrando com bom tempo como duas ou três léguas, se levantou de repente uma tempestade, que os. tornou ao mar mais de 40 léguas.

 

Andaram oito dias porfiando por tornar a embocar o estreito; porém não podendo com o vento, não quis Diogo Flores tentar mais a fortuna, por ver as naus destruídas, e a gente enferma de tanto trabalho. Tornou-se à costa do Brasil, ao porto de S. Vicente, e com as naus que trazia, e as duas, que ali achou, passou ao Rio de Janeiro, onde topou a d. Diogo de Alzeda, que por mandado de el-rei com quatro naus o ia socorrer com batimentos, e outras coisas, e parecendo a Diogo Flores que a armada estava desfeita, sem gente, e sem munições, determinou de tornar à Espanha com d. Diogo de Alzeda, e que o seu almirante Diogo da Ribeira, com cinco navios, que lhe deixou, ficasse ali para tornar o verão seguinte, a ver se teria mais ventura de embocar o estreito, e povoá-lo, como el-rei mandava.

 

Navegando Diogo Flores com os mais navios, que já não eram mais de sete, arribou com uma tormenta, que o fez tornar 200 léguas atrás, a esta baía de Todos os Santos, no princípio do mês de junho de 1583, onde se deteve a concertá-los, para o que da fazenda de el-rei se lhe deu o que foi necessário; e se mandou fornecimento ao Rio de Janeiro para o almirante Diogo da Ribeira seguir a sua viagem ao estreito, e o governador Manuel Teles Barreto o banqueteou, e a todos os capitães e gentis-homens um dia esplendidamente, e o bispo d. Antônio Barreiros outro; mas o que mais fez nesta matéria foi um cidadão senhor de engenho, chamado Sebastião de Faria., o qual lhe largou as suas casas com todo o serviço, e o banqueteou, e aos seus familiares e apaniguados oito meses, que aqui estiveram, só por servir a el-rei, sem por isso receber mercê alguma, porque serviços do Brasil raramente se pagam.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO TERCEIRO

 

Do socorro, que da Paraíba se mandou pedir ao governador Manuel Teles, e o assento que sobre isso se tomou

 

 

 

No capítulo vinte e cinco do livro terceiro tocamos como o governador Lourenço da Veiga desistira da conquista da Paraíba, por el-rei d. Henrique, que naquele tempo governava, a encarregar a Frutuoso Barbosa, que lha pediu.

 

Havia este homem ido de Pernambuco, e por haver na Paraíba carregados navios de pau por algumas vezes, no tempo das pazes, que lhe os Potiguares fizeram, e por ter conhecimento da terra, e deles, o encarregou el-rei da conquista por contrato que fez em sua fazenda, dando-lhe para isso as provisões necessárias, naus, e mantimentos, e conquistando a Paraíba, a capitania por 10 anos chegou Frutuoso Barbosa à barra de Pernambuco no ano de mil quinhentos setenta e nove em um formoso galeão, e uma zabra, e outros navios, com muita gente portuguesa, assim soldados como povoadores casados, com muitos resgates, munições, e petrechos necessários, assim a conquista como a povoação, que logo havia de fazer; para a qual trazia um vigário, a quem el-rei dava quatrocentos cruzados de ordenado, e religiosos da nossa Seráfica Ordem Franciscana, e de S. Bento, com toda a ordem e recado necessário à empresa, que a fazenda de el-rei devia de custar muito, e em sete ou oito dias, que esteve na barra surto sem desembarcar, nem tratar do negócio a que vinha, lhe deu um tempo com que arribou às Índias, onde lhe morreu a mulher, e tornando dali ao reino partiu dele no ano de mil quinhentos e oitenta e dois, por mandado de el-rei d. Filipe, e tornando a Pernambuco se concertou com os da vila de Olinda que o licenciado Simão Rodrigues Cardoso, capitão-mor e ouvidor de Pernambuco, fosse por terra com gente, e ele com a que trazia, e outra muita que da capitania por serviço de el-rei se lhe ajuntou, por mar, o qual chegando a boca da barra da Paraíba com a armada que trouxe, e alguns caravelões, entrou pelo rio acima, por ter aviso de sete ou oito naus francesas, que lá estavam surtas bem descuidadas, e varadas em terra, e a maior parte da gente nela, e os índios metidos pelo sertão a fazer pau para carregá-las, e dando de súbito sobre elas queimou cinco, esbulhando-as primeiro, que foi um honrado feito, e as outras fugiram com quase toda a gente.

 

Descuidados os nossos com esta vitória alcançada com tão pouco custo, e nenhum sangue, saindo alguns deles em terra com um filho de Frutuoso Barbosa, rebentou o gentio de uma ilha, em que estava, e dando neles os foram matando até os batéis, aonde se iam recolhendo, sem das naus os socorrerem, que foi coisa lastimosa ver matar mais de quarenta portugueses, em que entrou o filho do capitão, e com a mesma fúria houveram os inimigos de tomar a zabra em que ia Gregório Lopes de Abreu por capitão, que o dia de antes entrara diante, e o fizera muito bem, por ficar na ponta da ilha quase em seco, e a se não defender tão esforçadamente, sempre os índios o tomaram, e acabaram todos.

 

O capitão Frutuoso Barbosa ficou tão cortado, e receoso deste sucesso, que se levantou com toda a armada, e foi surgir na boca da barra, por se não ter por seguro dentro, esperando a gente que ia por terra, e estando para dar à vela por ver que tardava, chegou o licenciado Simão Rodrigues com duzentos homens de pé, e de cavalo, e muito gentio, o qual no caminho da várzea da Paraíba teve um bom recontro com os Potiguares, que avisados da sua vinda o foram esperar, e meteram em revolta e pressa, se o nosso gentio ajudado da gente branca lhe não tivera aquele primeiro encontro; porque os Potiguares animados da vitória passada se metiam tanto, que vinham a braços com os nossos, mas enfim ficaram vencidos, e desbaratados, e assim chegaram os nossos à barra do rio da banda do norte com esta vitória, com que consolaram os da armada, e animados uns com outros trataram, em oito dias, que ali estiveram, os meios de se fortificarem da banda do norte, porque pareceu impossível da banda do sul, no Cabedelo, por ser mau o sítio, e não ter água, o que não fizeram de uma parte nem de outra, antes fugiram à maior pressa, por verem da banda dalém muito gentio, pelo que mandando dali o galeão com aviso à Sua Majestade do que passava, desesperado já Frutuoso Barbosa de tudo se veio lograr um novo casamento, que à sombra da governação de caminho em Pernambuco havia feito para restauro da mulher e filho, que havia perdido; e assim ficou tudo como dantes, os inimigos mais soberbos, e as capitanias vizinhas a risco de se despovoarem, só os detinham as esperanças, que tinham de serem socorridos da Bahia, onde haviam mandado por procurador um Antônio Raposo ao governador Manuel Teles Barreto com grandes protestos de encampação; o qual fez sobre isto junta, e conselho em sua casa, em que se acharam com ele o bispo d. Antônio Barreiros, o general da Armada Castelhana Diogo Flores Valdez, o ouvidor-geral Martim Leitão, e os mais que na matéria podiam ter voto, e se assentou que fosse o general Diogo Flores, e em sua companhia o licenciado Martim Leitão, com todos os poderes bastantes para efeito da povoação da Paraíba, e por provedor da Fazenda, e mantimentos da armada, Martim Carvalho, cidadão da Bahia, os quais todos aceitaram com muito ânimo e gosto, particularmente Diogo Flores, por ver, já que o jogo lhe sucedeu tão mal no estreito, se ao menos podia levar este vinte de caminho.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO QUARTO

 

De como o  licenciado Martim Leitão, ouvidor-geral, foi por mandado do governador com o general Diogo Flores de Valdez a conquista da Paraíba, e se fez nela a fortaleza da barra

 

 

 

Tomado o assento que fica dito no capítulo precedente se aprestaram, e saíram da Bahia a primeiro do mês de março do ano de 1584 com uma armada de nove naus, sete castelhanas, e duas portuguesas, e chegaram a Pernambuco a vinte do mesmo, onde logo desembarcou o ouvidor-geral, ficando de fora toda a armada, e fez ajuntar em Câmera d. Filipe de Moura, capitão da capitania por Jorge de Albuquerque, senhor dela, com os mais vogais, em que também se achou d. Antônio de Barreiros, bispo deste estado, que havia ido na armada a visitar as igrejas de Pernambuco, e Itamaracá, e ficou assentado se aprestasse tudo para domingo de Páscoa partirem d. Filipe de Moura por cabeça, com a gente que o ouvidor-geral havia de fazer, como logo começou rogando um, e um, compondo-lhes suas coisas, com que se aviaram muitos dos moradores de Pernambuco, e se ajuntaram na vila de Iguaraçu no dia sinalado; havendo já d. Filipe juntos os da ilha de Itamaracá no engenho de seu sogro Filipe Cavalcante, em Araripe, até onde Martim Leitão acompanhou o arraial, e depois de partidos dali ajuntou mais alguns 40 homens, que entregues a um Álvaro Bastardo, mandou a d. Filipe, e o alcançaram junto ao rio Paraíba, onde tiveram todos um recontro com o gentio; mas enfim passaram o rio acima para a banda do norte, por onde Simão Rodrigues Cardoso o havia outra vez passado, e foram demandar a barra, onde acharam a Diogo Flores, que já tinha queimadas três naus francesas, que ali achou surtas, e varadas em terra, donde indo para subir em uma lhe deram os inimigos de dentro do mato uma flechada no peito, que lhe não fez nojo, pelas boas armas que levava, e porque o principal fim, que se pretendia, era povoar-se a terra, chegado, e alojado o arraial, saiu Diogo Flores, e tomado conselho entre os capitães, assentaram fazer-se um forte primeiro, para que à sua sombra pudessem povoar.

 

Para o qual nomeou o general por alcaide o capitão da sua infantaria Francisco Castejon com 110 arcabuzeiros castelhanos, e 50 portugueses, para os quais e para povoação, que se havia de fazer, remeteu ao exército português elegesse cabeça, e por a maior parte ser de vianeses, se elegeu Frutuoso Barbosa, que era vianês, tendo-se também respeito à provisão que apresentou de el-rei d. Henrique, em que o fazia capitão da Paraíba se a conquistasse, posto que, como era condicional, faltando a condição parece que já não obrigava, e este era o parecer do general.

 

O forte se situou logo uma légua da barra da parte do norte, defronte da ponta da ilha, mas, por não fugirem os soldados, com o largo rio, que fica em meio, que por ser bom sítio, que é baixo, e de ruim água, do qual ficou por alcaide o capitão Francisco Castejon, e dele deu homenagem ao general Diogo Flores, e se lhe pôs o nome de S. Filipe e Santiago; no dia dos quais santos se fez à vela o general caminho de Espanha, onde chegou a salvamento.

 

O capitão Simão Falcão, enquanto os mais assistiam na obra do forte, espiada uma aldeia dos inimigos a salteou uma madrugada, matando alguma gente, e cativando quatro, com cuja língua o nosso exército, vendo que já ali não era de efeito, se partiu a via do sertão em busca dos inimigos até uma campina, que se chama das Ostras, três léguas do forte, onde se alojou, e por ser a festa do Espírito Santo, e a gente ser dada a folgar, se puseram a festejar com muito descuido o dia, e oitavas, e dizia d. Filipe por descargo que esperava a seu sogro Filipe Cavalcante, que havia ficado no forte.

 

Uma tarde ouvindo uma trombeta, e grande rumor, foram dez de cavalo, e alguns quarenta de pé com muitos índios à ordem de um Antônio Leitão, com muita desordem, a descobrir campo, e deram em uma cilada, que os começou a sacudir até chegarem à vista do arraial, sem haver acordo para lhes acudirem, antes se pôs tudo em tão grande confusão, que vinda a noite se deitaram a uma lagoa por onde haviam tornar ao forte, e passando uns por cima dos outros, voando com asas do medo, que levavam, foram bater às portas do forte, que o alcaide, enfadado de os ver, lhes não quis abrir, deixando-os estar à chuva toda a noite, que foi leve castigo para o merecido.

 

Vindo o dia lhes persuadiu que tornassem a buscar os inimigos com mais cinqüenta arcabuzeiros, que lhes dava dos do presídio, e tais estavam que nem com isto quiseram ir, senão voltar para Pernambuco, e assim se vieram, passando o rio defronte do forte em barcos com bem trabalho por ser inverno, que os tratou mal todo o caminho, onde lhes morreram muitos cavalos, e escravos à míngua.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO QUINTO

 

Dos socorros, que por indústria do ouvidor-geral se mandaram a Paraíba

 

 

 

Chegados desta maneira a Pernambuco, em o mês de junho, começaram logo os requerimentos do alcaide do forte, e Frutuoso Barbosa por ficarem faltos de mantimentos; e os inimigos por ficarem vitoriosos os molestaram tanto, que só os detinha a não levarem a fortaleza nas unhas a fúria da artilharia, que achando-os em descoberto os despedaçava, a cuja sombra o alcaide em algumas escaramuças, que com eles teve, lhes mostrou o valor da sua pessoa, e dos espanhóis, e portugueses, que o seguiam, apesar de seu capitão Frutuoso Barbosa, que não tinha paciência com estas escaramuças, e com requerimentos as estorvava quanto podia; e assim encontrados ele, e o alcaide nos humores, tudo eram brigas, e ruins palavras, fazendo papeladas um do outro, que mandavam ao ouvidor-geral, com requerimentos do socorro dos mantimentos, que como conhecido por mais zeloso do serviço de el-rei até isto batia nele, sendo obrigação do provedor Martim Carvalho, que pelo contrário se mostrava mui remisso, e por esta causa se começaram entre ambos grandes desavenças; crescendo sempre do forte os requerimentos, porque se viam nele tão apertados da guerra, e fome, que até os cavalos tinham comido.

 

Mandou-lhes Martim Leitão por mar 24 homens a cargo de um Nicolau Nunes com alguns mantimentos, que deu o provedor, mas foram tão parcos, e cresciam tanto os rebates dos inimigos Potiguares, que o alcaide do forte se veio no mês de setembro a Pernambuco a pedir socorro; onde achou a Pedro Sarmento, que o general havia deixado com o almirante Diogo da Ribeira no Rio de Janeiro para ir povoar o estreito de Magalhães, e governar a povoação, que fizesse, donde já vinha destroçado, e pedia também mantimento, que se lhe deu para poder passar à Espanha; mas o alcaide Castejon havia-se tão devagar, que andava impaciente; pelo que achando-se um dia / depois de outros muitos / em casa de Martim Carvalho com os juízes e oficiais da Câmera, em presença do bispo, vieram a muito ruins palavras, sobre as quais alguma gente da casa arrancou com os soldados do alcaide em cima onde todos estavam, e baralhados assim saíram à rua com grande briga, a que acudiu muita gente com o ouvidor-geral, que os apaziguou como pôde; por isto se tornou o almirante para a Paraíba, no mês de outubro, mal-provido, e com claras mostras de o ser cada vez menos pelo ódio em que com eles ficava o provedor.

 

Mas foi de muito efeito a sua tornada, porque logo no novembro seguinte entraram duas naus francesas na Paraíba, e reconhecendo o forte, e uma nau grande portuguesa com dois patachos, que lhe Diogo Flores tinha deixado, se saíram, e foram surgir três léguas daí na boca da baía da Traição, e começando trato com os Potiguares, vieram de lá por terra correr o forte, trazendo alguns berços, com que grandemente o apertavam, fazendo grandes cavas, e bardos de terra, e areia, pelos não pescar a artilharia; com os quais, e outros ardis, como práticos nas nossas guerras, puseram o alcaide em termos de desesperar de poder defender-se, e logo disso avisou ao ouvidor-geral, com grandes requerimentos, assim seus como de Frutuoso Barbosa.

 

O ouvidor no primeiro dia que lhos deram se foi dormir ao Recife, onde aprestou um navio de setenta toneladas à sua custa com muitos homens brancos, e setenta índios, e por capitão um Gaspar Dias de Moraes, soldado antigo de Flandes, que por seu rogo aceitou sê-lo, e em dois dias, andando em uma rede por andar doente, os deitou pela barra fora; este navio, e a galé de Pedro Lopes Lobo, capitão de Itamaracá, que também o ouvidor forneceu, em que o mesmo Pedro Lopes foi por capitão com cinqüenta homens, e alguns índios, chegaram a Paraíba, onde foram recebidos, e estimados como a própria vida.

 

Os franceses vendo o socorro se recolheram às suas naus, que haviam deixado na baía da Traição, e consultando o caso o almirante com os capitães do socorro, assentaram que ficasse Pedro Lopes capitão da galé no forte, por respeito do muito gentio, que diziam passar de dez mil, os que o tinham cercado com suas cavas, e trincheiras, e que o alcaide na sua galé, e nau, que lá tinha, e a do socorro, fossem buscar os franceses, como logo foram, e tomando-lhes o mar os fizeram varar em terra com as naus, e lhas queimaram, e mataram alguns, que foi honrado feito por serem as naus grandes, e estarem avisados; mas a nau do forte, por ser muito grande, e a costa ali ir já muito voltando para as Índias, arribou a elas, e nela foi a maior parte da artilharia, que haviam tomado das francesas. O navio, e galé voltaram, e chegando ao forte desembarcando de súbito, e com a gente de dentro, deram nos inimigos com tão grande ímpeto, que lhes ganharam as suas estâncias, matando muitos, com o que se afastaram bem longe, e os nossos cobraram a água, que lhes tinham tomada, e assim ficando os do forte mais largos, que nunca; e todos muito contentes, com grandes louvores ao ouvidor-geral se tornaram os de Pernambuco, e Itamaracá até lhe dar razão de tudo, e receber os parabéns da jornada, que fui de muito efeito, assim para o desengano dos franceses, que nem na baía da Traição haviam de ter colheita, como dos Potiguares, que já com eles por nenhuma parte poderiam ter comércio.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SEXTO

 

De como o ouvidor-geral Martim Leitão foi a Paraíba a primeira vez, e da ordem da jornada, e primeiro rompimento, e cerca tomada

 

 

 

Com esta mágoa, e desejo de vingança, que ficou dos Potiguares, no fim de janeiro de mil quinhentos oitenta e cinco se ajuntaram mais que nunca, e fizeram três cercas mui fortes ao longo do forte a tiro de pedreiro, de troncos de palmeiras, que por muito grossos os defendiam da artilharia, e todas as noites as iam chegando, e ganhando terra, do que logo o almirante avisou ao ouvidor-geral, ficando muito receoso que por aquela via com as próprias cercas os viriam abordando, até se abarbarem, e igualarem com o forte, sem se poderem valer da artilharia, nem das mãos, por no forte haver muitas doenças por respeito do mau sítio, fomes, e ruim água, de que muita gente lhe era morta, e assim estava com muito perigo.

 

Aos 8 de fevereiro dobrou com mais força os requerimentos, e encampações de logo despejarem todos; como também por avisos se soube terem já para isto o melhor embarcado em uma nau, que lá tinham; pela qual nova todas as capitanias se meteram em grandes revoltas, e muito mais com se saber esta determinação, e por ter chegado de socorro aos Potiguares o famoso entre o gentio Braço de Peixe, ou por sua língua Pirágiba, de que tratamos em o capítulo vigésimo do livro próximo passado.

 

O ouvidor-geral logo em lhe dando os requerimentos do alcaide os mandou ao capitão d. Filipe, que estava já aliado com Martim Carvalho, ao qual se levaram também outros requerimentos sobre mantimentos, vindo a isso o tenente do forte, a cuja instância todos concordaram, e juntamente o bispo, e oficiais da Câmera requererem ao ouvidor-geral Martim Leitão fosse em pessoa a esta guerra, de que fizeram autos, o que ele, vista a importância do caso, aceitou em 14 de fevereiro com determinação de partir dentro dele no que se começou com incrível presteza em toda a parte, e era coisa notável ver a vontade com que todos se ofereciam a ir com ele; mas contudo, a não haver no porto passante de trinta navios com muitos mantimentos, que nunca tantos houve, nem fora possível aviarem-se com tanta brevidade, suprindo também a grande diligência de Martim Leitão, escrevendo particularmente aos nobres convidando-os com razões eficazes para a jornada, e aviando a muitos; porque no Brasil tudo se compra fiado, e estes nestas coisas querem superabundâncias, a que os mercadores já não acudiam, e era necessário fazê-los prover; e aviar uns, e outros era infinito; fez também duas capitanias para sua guarda, que depois mandou na vanguarda, pela confiança que neles tinha, por ser toda gente solta, e muitos mamalucos, e filhos da terra, porque estes nisto são de muito efeito, e a estas duas companhias deu sempre à sua custa de comer, e tudo o mais necessário, e prover de armas, ainda que nos requerimentos, que lhe fizeram para ele haver de ir, disse o provedor Martim Carvalho que fosse, que ele o proveria à custa da fazenda de Sua Majestade.

 

Além dos dois capitães da guarda, que um era Gaspar Dias de Moraes, que de socorro antes havia ido a Paraíba, e outro mister Hipólito, antigo, e mui prático capitão da terra, se elegeram mais de novo por capitães Ambrósio Fernandes Brandão, e Fernão Soares, que se chamavam capitães de mercadores; foram mais os capitães das companhias da ordenança da terra, Simão Falcão, Jorge Camelo, João Paes, capitão do cabo de Santo Agostinho, muito rico, que o fez nesta jornada por cima de todos, em tudo levando sempre a retaguarda, e João Velho Rego, capitão de Iguaraçu, e todos da ilha de Itamaracá, com seu capitão Pedro Lopes, e porque havia muita, e boa gente de cavalo, que foram cento e noventa e cinco, ordenou três guiões de trinta cavalos cada um dos melhores para acudirem ao cumprisse (sic), de que eram capitães Cristóvão Paes Daltera, Antônio Cavalcante, filho de Filipe Cavalcante, e Baltazar de Barros.

 

Ia mais um filho do capitão Antônio de Carvalho com a sua bandeira por ele ficar doente, que em todas as jornadas o fez muito bem; e era a segunda pessoa deste exército, sobre quem carregava o peso dele, Francisco Barreto, cunhado do ouvidor-geral Martim Leitão, a que chamavam mestre de campo, e ele o pudera ser de outro de muitos milhares de soldados, por seu esforço e destreza.

 

Com tudo este exército, que foi a mais formosa coisa, que nunca Pernambuco viu, nem sei se verá, foi o general Martim Leitão / que assim lhe chamaremos nesta jornada / dormir no campo de Iguaraçu, no meio do qual mandou armar sua tenda de campo, com outras duas pegadas, uma para dois padres da Companhia de Jesus, que com ele iam; e outra de sua despensa, onde se agasalhava também a gente do seu serviço. Aqui mandou deitar grandes bandos, pondo graves penas contra todos aqueles, que brigassem, ou arrancassem, encomendando mui particularmente que houvesse entre todos muita amizade, e conformidade, e outras boas ordens necessárias, que se se cá costumaram no Brasil não houvera tantas perdas, e desconcertos, como sabemos. Ali esteve três dias esperando se ajuntassem alguns, que faltavam; onde fez aposentador, e mais oficiais de campo.

 

Ao quarto dia / que foi o primeiro de março / daquele alojamento foram dormir além do rio Taporema, onde fez resenha, e se achou com quinhentos e tantos homens brancos, e o general deu regimento a todos do que haviam de fazer, repartiu as campanhas, e ordenou que um dos guiões de cavalos aos dias por evitar competências fosse na vanguarda, outro na retaguarda, e o terceiro na batalha, onde ele ia; e o capitão a que no seu dia tocava a retaguarda, tivesse obrigação de uma hora antemanhã com alguns índios correrem, e descobrirem o campo, e assim como toda a ordem possível, e com irem de contínuo alguns homens de confiança com mamalucos e índios por descobridores diante, e pelas ilhargas do exército metidos pelo mato, e gastadores abrindo o caminho, foram por suas jornadas em cinco dias a grande campina da Paraíba, onde pela lembrança de que alguns ali em outras jornadas tinham visto, ia a gente tão apartada, que sendo o caminho da campina largo, e raso, não andavam por mais recados, que se passavam a vanguarda em que naquele dia, por ser de mais importância, ia Francisco Barreto; mas não sofrendo tanto vagar tomou o general um galope, e foi ver o que era, e achando que haviam já dado em mato, e se detinham os gastadores em abrir caminho com as foices, os fez abreviar, e marchar a vanguarda com presteza e recado, esperando ele ali até se meter em seu lugar.

 

Marchando pois a vanguarda, e o mestre de campo Francisco Barreto com ela, já quase sol posto deu em uma cerca mui grande de gentio, pegada do rio Tibiri, que prometia ter dentro mais de três mil almas, o que não obstante, nem a escuridão da noite, que sobrevinha, nem ser a cerca mui forte, e com uma rede de madeira por fora, como uns leões remeteram, e entraram nela, matando muitos dos inimigos, e pondo os mais em fugida, ficando dos nossos muito pouco feridos, porque foi tal a pressa e açodamento, que lhes não deram vagar, nem tempo para despedirem muitas flechas, o que sentindo o corpo do exército, e retaguarda, rebentavam todos por chegar  com os dianteiros à briga, e por mais pressa que se deram, quando já chegaram, era acabada.

 

Entrando pois todo o exército dentro na cerca, que Francisco Barreto lhe tinha ranqueada com a gente da vanguarda, e alojados todos nela, repousaram ali aquela noite, onde acharam farinha feita, e armas, e pólvora, que tinham para ir cercar o forte, conforme os cativos disseram.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO SÉTIMO

 

De como se tentaram as pazes com o Braço de Peixe, e por as não querer se lhe deu guerra

 

 

 

Ao outro dia pela manhã cedo logo os índios se puseram às pulhas / como é seu costume / em um teso alto defronte da nossa cerca, além de um grande alagadiço, que por aquela parte ficava, donde foram conhecidos dos nossos ser gente do Braço de Peixe, que não eram Potiguares, senão Tabajaras seus contrários; mas por se temerem dos portugueses, que vingassem a morte de cento e tantos, que com Gaspar Dias de Ataíde, e Francisco de Caldas / ainda que com razão / haviam mortos / como dissemos no capítulo vigésimo do livro precedente/, se vieram a meter com os Potiguares, e assim por se reconciliarem com eles, como por serem mais industriosos, e valentes, nos faziam muito dano; o que entendido pelo general Martim Leitão, e considerando de quanta importância seria ter paz com eles, e apartá-los dos Potiguares, mandou por línguas fazer-lhe práticas, que estivessem seguros que só buscavam os Potiguares, com os quais nunca queríamos paz, mas com eles sim, dizendo-lhes mais que o general era homem do reino, fora de malícias e enganos, que com eles usavam os do Brasil, e estava muito bem informado da sua amizade antiga com os brancos, pelos quais sabia que quebrava a paz, e que se os capitães Ataíde e Caldas foram vivos os mandara el-rei castigar; com estas práticas, e vinho que lhes deram a beber, concertaram que dando reféns mandaria o Braço seus embaixadores depois de jantar assentar pazes com o general, o qual neste meio tempo trabalhou com toda a dissimulação em mandar descobrir o alagadiço, se por cima ou por baixo daria vau à gente; mas não se achou nisto remédio, pela grandeza do alagadiço, e espessura do mato à roda.

 

Ao meio-dia vieram três índios a tratar das pazes, que foram ouvidos na tenda do general, e examinados por línguas, e feitas todas as diligências, e ostentações que foram necessárias, por o Braço e os seus terem consigo muitos Potiguares, juntamente com o medo de suas culpas, nada bastou para os segurar, e assim tornando-se à tarde quiseram lá matar os reféns, e ficou a guerra rota, que os inimigos estimando pouco esquentaram toda aquela tarde, com trinta e tantas espingardas, e muitas flechas que tiraram. Ao que ainda querendo atalhar o general, para os desenganar mandou sair por sua ordem todas as companhias, e gente por uma campina entre a cerca, e o lago, que naquela manhã, para o que sucedesse, tinha mandado roçar; também lhe mandou dar mostra de dois berços, que trazia em carros, e varejar com eles uma caiçara, ou tranqueira, que para pelejarem, e se defenderem no cume de um pico, no cabo de uma queimada, os inimigos haviam feito, e com outros assombros, nada bastou para quererem paz: com isto se resolveu o general a lhes darem ao outro dia batalha, mandando aquela tarde fazer muitos feixes de faxina, que ao longo da cerca haviam cortado, para que com as pontes, que o gentio no alagadiço havia feito, passagem da outra banda.

 

Não foi nada aprazível ao arraial esta determinação do general, que se viu melhor no Conselho, que na sua tenda se teve aquela noite, que foi assaz vário, e confuso, e a seus brados se assentou ficassem ali as duas partes do arraial, e Francisco Barreto com eles, com todo o provimento, para o que sucedesse, e ele a pé com a terça parte ir dar nos inimigos no pico.

 

Ouvindo missa ao outro dia pela manhã muito cedo, partiu o general com as companhias da vanguarda somente, e o guião de cavalo de Antônio Cavalcante, que mandou no roçado, e em uma queimada andar da nossa parte do alagadiço, para por ali não rebentar alguma cilada, e lhe tomarem as costas, e levando o padre Jerônimo Machado, da companhia, um crucifixo diante, acharam no alagadiço muito estorvo por de noite os inimigos cortarem muitas árvores, com que o atravessaram, e embaraçaram todo: com isto, e com andarem muitos soldados pela queimada da outra banda às flechadas, e arcabuzadas, se passava devagar, e com tanto receio, que foi necessário ao general agastar-se com alguns, e mandando ficar a companhia de Ambrósio Fernandes com ordem que se não bulisse do alagadiço até todos serem em cima, arrancou da espada jurando havia de escalar o primeiro que falasse, senão obrarem todos como esforçados; isto, e meter-se com o passo apressado após os dianteiros, fez passar os mais, e tornar a ladeira acima bem depressa.

 

Depois de se recolherem os inimigos na cerca, subiam os nossos em pés e  mãos por ela, e ferrando-a todos não acabavam de a render, o que vendo o general tomou um inglês, que levava consigo armado, e subindo às costas em cima da cerca com uma formosa lança de fogo fez tais floreios, lançando dela infinidade de foguetes, que despejaram os inimigos. Por ali, e derribando os nossos duas ou três braças de cerca, que cortaram, entraram dentro, e os foram seguindo um pedaço, ainda que, com o ruim caminho, e impedimentos que os inimigos tinham postos, e eles serem bichos do mato, que foram por onde querem, foi causa de escaparem muitos. O que ordenou Deus para nos ficarem, como agora os temos, por amigos.

 

Corridos assim, o mais que os nossos puderam, mandou o general queimar toda a caiçara, e madeira da cerca, e assolado tudo se tornou para seus companheiros, que haviam ficado na outra cerca, os quais o vieram receber fora com Te-Deum Laudamus, e no mesmo dia a tarde houve um rebate da banda do Tibiri a que alguns capitães acudiram desordenadamente, e por ser a revolta grande mandou o general a Francisco Barreto os fosse recolher, o que fez muito bem, e com muita ordem; porque na escaramuça que se travou foram mortos alguns Potiguares, sem dos nossos haver ferido algum, e por não ser já de efeito a estada ali, ao outro dia mandou o general pôr fogo à cerca, e com todo o exército pelo rio Tibiri abaixo foi seguindo os inimigos, e foram dormir dali a duas léguas, onde agora se chama as marés, e arrancados todos os mantimentos, que acharam, que foi a maior guerra que se lhes pôde fazer, e queimadas duas aldeias, que ali estavam despovoadas, se tornaram acima a buscar outra cerca nova, que havia feito um principal, chamado Assento de Pássaro, aonde, antes de chegarem, acharam tantos embaraços de ruim caminho, que se ia abrindo pelo mato, e brejos, e alguns inimigos corredores, que se atravessaram diante, que por mais que o general se apressou, passando-se á vanguarda com o ouvidor da capitania Francisco do Amaral, que sempre o seguia, e marchando com ela, já acharam a cerca, que era grande, e forte, despejada, ainda que em alguns velhos e  fêmeas se vingou o nosso gentio; e ali pararam aquele dia, e o outro, donde pelos muitos alagadiços, e diversidade de opiniões dos caminhos, que ninguém sabia, se resolveram tornar pelo rio da Paraíba abaixo, buscar o passo para o forte, onde se assentaria o que cumprisse.

 

Partidos desta cerca por outro caminho, que era a estrada, acharam nela tantos labirintos, que os inimigos tinham feitos, tantos fojos, árvores cortadas atravessadas, que era admiração, e a não haver grande cautela, poucos bastaram ali para desbaratar a muitos; mas de tudo Nosso Senhor os guardou e desviou.

 

Passado embaixo o rio da Paraíba, em três dias chegaram ao forte, que estava coisa piedosa de ver, assim o danificamento, e ruinez dele, como as pessoas dos soldados, que bem mostravam as fomes, e misérias, que tinham passado.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO OITAVO

 

De como o general Martim Leitão chegando ao forte mandou o capitão João Paes à baía da Traição, e depois se tornaram para Pernambuco

 

 

 

Logo na tarde que chegaram ao forte ordenou o general que fosse o capitão João Paes com trezentos homens de pé e de cavalo correr a baía da Traição, como foram o seguinte dia em amanhecendo. Procurou também muito com Frutuoso Barbosa quisesse ir duas léguas do forte, junto das marés, onde havia muitos mantimentos da parte do sul do rio da Paraíba, fazer povoação, para o que lhe juntava oitenta homens brancos, e índios os mais que pudesse, e se oferecia estar com ele seis meses, e outros seis seu cunhado Francisco Barreto, mas nunca se pôde acabar com ele, e por atos que disto se fizeram, desistiu de toda a pretensão da Paraíba, dizendo que não estaria mais uma hora nela; contudo determinou o general fazer no dito sítio / que a todos pareceu bem / a povoação, para o que cometeu a Pero Lopes, e a outros, mas não pôde concluir. Pelo que com assaz paixão se determinou ir pela praia com a gente, que lhe ficou, juntar-se na baía da Traição com João Paes; porque assim, levando um campo por cima outro por baixo, não ficando coisa em meio, seguissem por alguns dias os inimigos até os encontrarem, ou enxotarem para longe, mas determinando partir na baixa-mar do outro dia, subitamente aquela noite adoeceram quarenta, e duas pessoas com estranhas dores de barriga e câmaras, entre os quais foi Francisco Barreto, e o padre Simão Tavares, da companhia, e outros de muita importância, com o que houve detença dois dias, e vendo que não melhoravam pelos ruins ares, e águas daquele sítio, foi forçado levantar o arraial, e tomar acima duas léguas em um campo muito formoso e aprazível, sítio de muitas boas águas, a que puseram nome Campo das Hortas, onde em seis dias, que ali estiveram esperando por João Paes, alguns se refizeram; chegado ele, e juntos outra vez todos, e sabido que na baía da Traição não ousaram os inimigos esperar, eles queimaram muitas aldeias, e arrancaram mantimentos, fizeram-se dois ou três conselhos, para se dar ordens no que se devia fazer, e por terem por certo que os Tabajaras, gentio do Braço de Peixe, estavam desavindos com os Potiguares, e começavam a guerrear uns contra outros; se resolveram todos era bem deixá-los, já que por si se queriam gastar antes convir muito por alguma via avisar o Braço de Peixe, que lhe dariam socorro contra os Potiguares, e que não se tornasse à serra; com que em muito segredo o general fez fugido um índio seu parente com grandes promessas, se o quietasse, e fizesse tornar ao mar; com esta ordem, e provido o forte de mais vinte homens, e com lhe deixar o capitão Pero Lopes em lugar de Frutuoso Barbosa, e os prover do seu como melhor pôde, deixando-lhes pipas de farinha, biscoito, vinho, e sardinhas, para dois meses, se partiram todos para a vila de Olinda com muita festa, ainda que o espírito do ouvidor-geral Martim Leitão/ que já chamarei general / não se quietava nem contentava, dizendo não ter feito nada, pois não ficava levantada povoação na Paraíba, e tudo o da guerra concluído, como se fora poderoso para tão grande empresa, em que nosso Senhor o tinha tão favorecido.

 

Desta maneira entraram na vila de Olinda em som de guerra, postos em ordem, acompanhando todos ao ouvidor-geral até sua casa, com a maior festa, e triunfo que Pernambuco nunca teve, que foi a 6 de abril de 1585.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO NONO

 

De como o capitão Castejon fugiu, e largou o forte, e o ouvidor-geral o prendeu, e agasalhou os soldados

 

 

 

O primeiro de junho do mesmo ano de oitenta e cinco, chegou nova a Pernambuco era chegado a Itamaracá o capitão Pero Lopes, que o ouvidor-geral Martim Leitão deixara com alguns portugueses no forte da Paraíba em companhia do alcaide, o qual também se dizia o queria desamparar com os espanhóis, e que em secreto buscavam piloto, que de lá os levasse às Índias, e como o ouvidor-geral andava tão pronto, e receoso destas coisas, logo pela posta mandou buscar Pero Lopes, do qual informado, em quatro dias concluiu com ele se tornasse a assistir no forte como o deixava, com alguns filhos da terra, e gente, no qual estivesse até janeiro, com obrigação de lhe darem cada mês cinqüenta cruzados; porque não seria possível deixar el-rei até então de avisar, e prover, por cuja falta se despovoava isto.

 

Dificultosamente aceitou Pero Lopes, porque pela má condição do alcaide Castejon todos fugiam dele; mas sobre isto rebentou outro maior inconveniente, que foi resolver-se o provedor Martim Carvalho / que até então mal provia o forte / em não o querer mais prover bem nem mal, nem nisso entender, e assim o respondeu por atos públicos, com o que ficou tudo desarmado, e se concluíra pior se o ouvidor-geral não tratara este negócio por via de empréstimo, com que logo mandou o capitão Pero Lopes fizesse rol do que havia mister para provimento de 100 homens em seis meses, e feito, e somado em três mil cruzados, os mandou logo tomar, e repartir pelos mercadores, que tinham as coisas necessárias, aos quais se satisfazia com créditos de João Nunes mercador, e tomado navio, e aviado, por não suceder no forte fazer o alcaide com os espanhóis abalo, lhe fez escrever da Câmera com muitos mimos, e certeza de serem agora muito melhor providos; pois havia de correr por eles livres de Martim Carvalho, que muito deviam estimar.

 

O mesmo lhe escreveu o ouvidor-geral, e com estas cartas se foi Pero Lopes aviar a sua casa à ilha de Itamaracá, donde havia o navio, e gente de o ir tomar de caminho, e ele entretanto avisaria o alcaide; e ou o diabo o tecesse ou não sei porque, Pero Lopes não avisou ao forte, nem mandou as cartas, indo disso tão encarregado, e as teve em seu poder sem as mandar desde 8 de junho até 24, que estando tudo a pique para o outro dia partir o navio, e de caminho ir pela ilha, se começou a dizer serem chegados a ela castelhanos do forte; dizendo vinha atrás o alcaide, e deixavam tudo arrasado.

 

A isto / que em breve se encheu a terra / se ajuntou toda a vila às aves-marias em casa do ouvidor-geral, onde se assentou que se juntassem logo pela manhã no colégio; bispo, capitão d. Filipe, Câmera, provedor Martim Carvalho; e ele, que nestas coisas não dormia, na mesma noite despediu os seus oficiais que fossem buscar a Castejon, e lho trouxesse preso a bom recado, como fizeram, e nas perguntas não deu outra razão senão da fome, que era assaz fraca, pois confessava que depois da guerra que havia dado não aparecer mais inimigo, e irem os barcos, que lhe havia deixado, pelo rio acima buscar mantimentos, que era assaz provimento; mas deviam de estar enfadados, e vingaram-se em deitar a artilharia ao mar, e uma nau que lá estava ao fundo, e pôr o fogo ao forte, e quebrar o sino, e com isto se vieram à vila como quem não tinha feito nada; e o que mais é que assim se julgou depois no reino aonde o ouvidor-geral mandou o Castejon preso, que de tudo se livrou e saiu bem.

 

Ao outro dia pela manhã, juntos em modo de conselho no colégio, houve algumas dúvidas com o bispo, e outros, movidos de quão mal se respondia do reino a tanta importância, dificultavam a empresa, que na verdade estava mais duvidosa que nunca, por ser sobre tantas quedas, e lá consumirem tantas vezes os nossos, e se recearem franceses, que nunca ali faltavam.

 

Pelas quais causas diziam que na terra sem grossa mão de el-rei haveria força para esta empresa, só o ouvidor-geral Martim Leitão, todo aceso em cólera, e fervor com que andava, com muitas razões o persuadiu a entre si elegerem um homem, que com cento e cinqüenta, que se ofereceu a buscar, e gentio com a despesa, e vitualha, que estava buscada, tornasse logo a recuperar o perdido, senão que ele com os seus, e amigos que tivesse, estava determinado ir a meter-se no nosso forte arruinado, antes que os inimigos se fortificassem nele, pois os que tinham obrigação de o defender o desampararam, e isto com tanta veemência, requerimentos, protestos, e ameaças da parte de Sua Majestade, que os espertou e aviventou; e assim elegeram o capitão Simão Falcão, que pareceu pessoa para isso, por Frutuoso Barbosa em nenhuma maneira querer aceitar, com estar a tudo presente: do que Simão Falcão foi logo avisado; e o ouvidor-geral com alguns pregões, indústria, e suma diligência juntou todos os espanhóis, que do forte vieram, e ao presente na terra havia, dos quais fez duas esquadras, de quarenta e dois, que ajuntou em umas casas, a que cada dia fazia prover da tação ordinária de sua casa, e à sua custa, não se esquecendo de por via de religiosos fazer encomendar este negócio a Deus.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO

 

De como o Braço de Peixe mandou cometer pazes, pedindo socorro contra os Potiguares, e o ouvidor-geral tornou à Paraíba, e começou a povoação

 

 

 

Havendo neste mês de julho alguma dilação por adoecer Simão Falcão, tanto ao cabo como esteve, no fim do mês chegaram dois índios do Braço de Peixe ao ouvidor-geral, pedindo-lhe socorro contra os Potiguares, porque tornando-se pelo seu recado ao mar o cercaram por vezes, e tinham posto em grande aperto.

 

Neste próprio dia vestiu Martim Leitão os índios, e se foi dormir ao Recife com João Tavares, escrivão da Câmera e juiz dos órfãos, ao qual por parecer de todos encomendou este socorro, e ele por seus rogos, e por serviço del-rei aceitou, e assim com 12 espanhóis bem concertados, e satisfeitos, e oito portugueses, e uma caravela equipada, e concertada para tudo com algumas dádivas, e bom regimento, partiu do porto de Pernambuco a 2 de agosto de 1585, e aos três chegou pelo rio da Paraíba acima, onde se viu com o Braço de Peixe, e mais principais no porto, que agora é a nossa cidade, assombrando primeiro os Potiguares com alguns tiros, que presumindo mais força fugiram.

 

Assentadas as pazes, e dadas suas dádivas, e reféns, saiu o capitão João Tavares dia de Nossa Senhora das Neves, por cujo respeito depois se pôs esse nome a povoação, e a tomaram por patrona, e advogada, debaixo de cujo amparo se sustenta, e ordenaram um forte de madeira com as costas no rio, onde se recolheram.

 

Avisado logo o ouvidor-geral, se alvoroçou toda a vila, e moradores destas capitanias, parecendo-lhes, e com razão, eram já todos seus trabalhos acabados, e depois de muitas graças a Deus, sobre isto chegaram os línguas por terra com obra de 40 índios com a embaixada do Braço, aos quais todos o ouvidor-geral em sua casa agasalhou, vestiu, e festejou, e avisando ao capitão João Tavares do que havia de fazer, mandando-lhe mais vinte e cinco homens de toda a sorte, pelos espanhóis estarem ainda muito enfermos, e mandando vestidos finos para os principais, e outros mimos, e todos muito contentes os tornou a mandar, e com grandes defesas, que não houvesse algum gênero de resgate, de que o ouvidor como experimentado era muito inimigo, e com razão, que isto é o que dana o Brasil, mormente quando é de índios, pois com título de resgate os cativam.

 

Para se aperfeiçoarem estas pazes pareceu necessário não se perder tempo, antes ir-se logo fazer um forte, recuperar a artilharia do outro, e assentar a povoação; para o que por todos foi assentado que ninguém podia fazer todas estas coisas, senão o ouvidor-geral Martim Leitão, ao qual o pediram, e requereram todos, e ele o aceitou, por serviço de Deus e de el-rei, e por bem destas capitanias, e assim se partiu para a Paraíba a 15 do mês de outubro do mesmo ano com alguns amigos seus, oficiais, e criados, faziam número de 25 de cavalo, e 40 de pé, levando pedreiros e carpinteiros, e todo o recado necessário para fazer o forte, e o que mais cumprisse, e chegou lá aos vinte e nove, onde foi grandemente recebido dos índios e brancos, que aí estavam; e aos principais dos índios, que vieram uma légua recebê-lo, abraçou um a um com grande festa, e fazendo apear os de sua casa os fez ir a cavalo, e alguns, pelo que tinham passado com os brancos, iam tremendo de maneira, que era necessário i-los sustentando na sela.

 

Com este triunfo os levou pelo meio de suas aldeias, com que uns choravam, e outros riam de prazer, e logo nessa noite se informou dos sítios, que particularmente tinha encomendado lhe buscassem com todas as comodidades necessárias para a povoação a Manuel Fernandes, mestre das obras de el-rei; Duarte Gomes da Silveira, João Queixada, e ao capitão, que todos estavam para isso prevenidos dele em segredo, mas encontrados nos pareceres dos sítios.

 

Ao outro dia o ouvidor-geral, ouvindo missa antes de sair o sol / que caminhando, e andando nestas jornadas sempre a ouvia /, foi logo a pé ver alguns sítios, e à tarde a cavalo, até o ribeiro de Jaguaripe, para o cabo Branco, e outras partes, com que se recolheu à noite resoluto ser aquele em que estavam o melhor, onde agora está a cidade, planície de mais de meia légua, muito chão, de todas as partes cercado de água, senhor do porto, que com um falcão se passa além, e tão alcantilado que da proa de navios de sessenta tonéis se salta em terra, donde sai um formoso torno de água doce para provimento das embarcações, que a natureza ali pôs com maravilhosa arte, e muita pedra de cal, onde logo mandou fazer um forno dela, e tirar pedra um pouco mais acima; com o que visto tudo muito bem, e roçado o mato, a 4 de novembro se começou o forte de 150 palmos, deram em quadra com duas guaritas, que jogam oito peças grossas uma ao revés da outra, no qual edifico trabalhavam maus e bons com o seu exemplo, que um e um os chamava de madrugada, e repartia uns na cal, outros no mato com os carpinteiros, e serradores, outros nas pedreiras, e os mais a pilar nos taipais; porque os alicerces, e cunhais só eram de pedra e cal, e o mais de taipa de pilão de quatro palmos de largo, para o que mandou logo fazer oito taipais, para todos trabalharem, e era coisa para ver a porfia e inveja, em que os metia, trabalhando mais que todos, com o que duravam na obra de sol a sol, sem descansar mais que a hora de comer, e assim em duas semanas de serviço chegou a estado de se lhe pôr artilharia, que neste meio tempo com muito trabalho, e indústria, por búzios, que para isso levou, se havia tirado do mar sem se perder peça, que foi coisa milagrosa, só as Câmeras faltaram, mas com seis, que levou de Pernambuco, e dois falcões, que foram nos caravelões da matalotagens, se remediou tudo.

 

Assentada a artilharia ordenou, por se não perder tempo, e o nosso gentio confederado se não esfriar, como já começava, fossem João Tavares, e Pero Lopes, com toda a gente dar uma boa guerra às fraldas de Copaoba, que é uma terra montuosa, e mui fértil, dezoito léguas do mar, donde há muito gentio Potiguar; e assim ficando-lhe somente os seus moços, e oficiais da obra, e Cristóvão Lins, e Gregório Lopes de Abreu, foram todos os mais, aonde por andarem treze ou quatorze dias somente não destruíram mais de quatro ou cinco aldeias, cuja vinda tão apressada o ouvidor-geral sentiu muito, e determinando ir em pessoa, concluiu com a maior brevidade que pôde a obra do forte, casa para o capitão, e armazém.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO PRIMEIRO

 

De como o ouvidor-geral foi à Baía da Traição

 

 

 

Posto isto em boa ordem até 20 de novembro, deixou aí Cristóvão Lins, fidalgo, alemão de nação, com os oficiais e gente necessária, e ele se partiu com 85 homens brancos, e 180 índios do nosso gentio, coisa assaz temerária, e que muitos procuravam estorvar com roncas de estarem naus francesas na baía da Traição, e sobre isto alguns lhe começaram em palavras a perder o devido acatamento, e respeito, particularmente um, que se soltou mais do necessário, que já também havia posto o arcabuz nos peitos ao capitão João Tavares, o qual mandou o ouvidor-geral tomar, e à porta do forte, em presença de todos açoutar, que foi gentil mesinha, porque não houve quem mais falasse, e assim partidos todos do forte foram dormir ao Tibiri, e daí no dia seguinte ao Campo das Hortas, onde se juntaram com o nosso gentio, que não levava mais vianda para todo o caminho, que seis alqueires de farinha de guerra, nem os brancos levaram de comer mais que para dois dias, do que sendo advertido o ouvidor-geral respondeu alegremente que o iriam buscar entre os inimigos, que era gente viva, e havia de ter o que comer, e assim se partiram daí até a água que chamam de Jorge Camelo, e depois do sol posto chegaram ao rio Mamanguape, que são grandes oito léguas, e por haver de ir dar em umas aldeias, que estavam da outra parte do rio, antes que os inimigos, que haviam achado atrás na campina, lhes dessem aviso, e se aproveitarem da baixa-mar, o passaram sem ceia à meia-noite, e moídos do trabalho do dia, donde em amanhecendo marcharam com boa ordem e recado até às dez horas, que deram em um grande golpe de gentio, o qual com o seu medonho urro atroou aquela campina, e ribeira, mas os nossos muito contentes de os ver, ainda que fora por ponte de prata.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SEGUNDO

 

De como da baía da Traição foram ao Tujucupapo, e tornaram para Pernambuco

 

 

 

Ao terceiro dia, carregados os índios de despojos, e alguns mantimentos, partiram da baía da Traição, indo sempre ao longo da costa com o língua dos índios cativos, em busca do Tujucupapo o mor, principal dos Potiguares, por ser muito grande feiticeiro, e indo ao quarto dia depois da partida bem descuidados, parecendo-lhes que já não o achariam o inimigo, gritaram da vanguarda — Potiguares! Potiguares!, e não se espantem falar desta maneira sendo tão poucos, porque como as guerras destas partes são nos matos, sempre vão enfiados por o ruim caminho atrás dos outros, e assim, ainda que poucos, como não podem ir em fileira nem ordem de guerra, ocupam muita terra ao comprido; por esta causa à grita da vanguarda se concertou cada um em seu lugar, e começaram a marchar depressa, mas por neste tempo vir um soldado espanhol dizer a Martim Leitão acudisse, que recuava a vanguarda, e havia feridos, em calças e em gibão, como ia, tomou uma remissão a João Nunes, e uma rodela a um índio, e encomendando a gente a Gregório Lopes de Abreu, e a Antônio de Barros Rego, pôs as pernas ao cavalo, e atravessando o mato, que era baixo, chegou a tempo que rebentavam do bosque três esquadrões de gente inimiga, e se tornaram a recolher em ondas ou remetidos, que este é o seu pelejar; e o nosso gentio vendo tantos inimigos, quase que ficou assombrado, e à pressa em corpo se andavam cercando de rama para todos se recolherem em qualquer fortuna; mas chegando assim o ouvidor-geral, os começou a afrontar de palavras, dizendo-lhe se determinavam fazer ali casas para viver, e depois morrer como ovelhas, e que as suas casas haviam de ser as dos inimigos, e assim gritando rijo a eles passou avante, mandando João Tavares por outra parte, e com isso pelejava com homens, mas aqui com os elementos, que é mais.

 

Passados assim da banda dalém, que senão duas horas antemanhã, feito algum fogo, em que brevemente enxugaram os arcabuzes, fez logo o ouvidor-geral tomar a praia, que como até então não fosse sabida, e sobre tantos trabalhos, pareceu a todos tão comprida como trabalhosa.

 

Mas indo ele com Duarte Gomes, e Antônio Lopes de Oliveira, com três negros da terra descobrindo diante todos, foram até em amanhecendo, apartados os de cavalo com alguns arcabuzeiros, para darem da parte do norte, e os mais com o nosso gentio, do sul, remeteram ao forte que ali tinham os inimigos, o que fizeram com grande grita, e mataram até vinte índios, tomaram vivo o seu principal, outros se deitaram ao mar por lhe terem a terra tomada, e se acolheram à nau dos franceses, que todos estavam recolhidos com sua artilharia do dia de antes, pelo aviso que lhes deu um índio, que fugiu a Duarte Gomes; e porque com a claridade da manhã começou a varejar a praia, onde os nossos estavam com a artilharia, vararam todos a aldeia, e povoação, que estava acima, a qual acharam toda despejada, mas com muitas farinhas feitas, e favas, que foi grande recreação, junto com os cajus do mato, fruta que já começava, e para lhe destruírem todos os mantimentos, e assolarem aquela estalagem aos franceses, assentaram estar ali três dias, e logo à tarde foram arrancar a mandioca; de noite mandou o ouvidor-geral lançar ao mar três ferrarias, que ali havia de franceses, que foi coisa de importância tirá-las aos inimigos, que com elas os cevavam os franceses, reparando-lhe estes três ferreiros, que ali já eram moradores, suas ferramentas.

 

Acharam-se aqui mais de sessenta caldeiras grandes, e pequenas, fato, e muita ferramenta, de que se o nosso gentio carregou.

 

Ao outro dia mandou o ouvidor-geral 24 arcabuzeiros na baixa-mar dar-lhe uma surriada com três ou quatro cargas, e ainda que lhes não fez dano, todavia temendo que o viriam a receber, ou que viessem algumas embarcações da Paraíba, levaram âncora, e se foram, esbombardeando para o ar, levar estas novas à França, ficando os inimigos diante de si, deitando-os de fora de mil labirintos, que ali tinham feito e ordenado, e por extremo fortificados, ficando todavia as suas estâncias, e meadas de muitos corpos mortos, e mais foram se não houvera a detença dos nossos no abrir dos caminhos para todos passarem, e assim tiveram os inimigos alguma guarida com o ruim caminho, e grande alagadiço / que sempre eles costumam tomar por reparo/, onde houve muitas graças de muitos atolarem mais do que quiseram, não querendo seguir o ouvidor-geral seu capitão, que ainda que o cavalo caiu com ele, o levou pela rédea, e saindo fora muito gentil-homem, e enlodado saltou em cima dele mui desenvolto, e seguiu os inimigos por um caminho com outros dois de cavalo, e alguns índios, que sempre foram derribando neles, e o mesmo aconteceu por onde foi o capitão João Tavares, e houveram de ser infinitos os mortos, se o nosso gentio ousara segui-los; mas vendo tantos, e eles tão poucos, o fizeram pesadamente, e só à sombra dos brancos; e com isto se recolheram depois das três da tarde à grande aldeia, que estava perto do alagadiço, onde descansaram o que ficava do dia; dando muitas graças a Deus por esta grande vitória, porque se afirmou haver ali mais de 20 mil portugueses apercebidos de dia do seu feiticeiro, que por desastre se acolheu em um cavalo, que lá tinha de brancos havia muitos anos, curados os feridos, que houve alguns, e nenhum morto, para a vitória ficar com dobrado gosto, ali estiveram até ao outro dia, e por serem 12 léguas aquém do Rio Grande, donde tiveram novas ser já passado todo o gentio inimigo da outra banda ,que como senhores de mais de quatrocentas léguas desta costa não era possível esgotá-los, se tornaram ao forte, donde foram recebidos com muitas festas, e continuou o ouvidor-geral as obras em que Cristóvão Lins com oficiais havia bem trabalhado, e de todo acabou o forte, torres, e casas de armazéns com seus sobrados para morada do capitão e almoxarife, e feitos também alguns reparos para a maior parte da artilharia, e ficando-se acabando os mais, tomou a homenagem ao capitão João Tavares, e o deixou com trinta e cinco homens de peleja, providos para quatro meses, e feito isto se tornaram para Pernambuco no fim de janeiro de mil quinhentos oitenta e seis, que foi assaz breve tempo para tantas coisas, e obras; mas tudo nos homens honrados o desejo da honra faz possível.

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO TERCEIRO

 

Da vinda do capitão Morales do reino, e tornada do ouvidor-geral a Paraíba

 

 

 

No fim de fevereiro seguinte vieram cartas ao ouvidor-geral Martim Leitão de haver por bem servido no que fazia na povoação da Paraíba, e ordem para que se pagassem todos os gastos, as quais trouxe um capitão espanhol coxo chamado Francisco de Morales, com cinqüenta soldados também espanhóis, e para recolher a si os que cá ficaram de Francisco Castejon, que foi grande bem ainda, que disso se não conseguiu efeito pelo capitão ser em tudo de mui pouco, o qual se partiu de Pernambuco a 2 do mês de abril seguinte para na Paraíba haver de estar a obediência de João Tavares, capitão do forte, conforme a sua patente, e todos a do ouvidor-geral; mas o coxo tanto que lá chegou deitou João Tavares fora do forte, e os portugueses, tratando-os de maneira que alvoroçou tudo, e amotinou o gentio das aldeias, que todos os dias se ia queixar a Pernambuco, e sobre o avisarem que parecia mal tomar o forte a quem tinha dado homenagem dele, e que lho tornasse, se desentoou em palavras com o ouvidor-geral, esquecido de sua obrigação, e de quanto gasalhado e mimos lhe havia feito em Pernambuco; e assim se enfrestou logo com ele, e com a Câmera, e com todos os portugueses, que houve muitos requerimentos o tirassem de lá, e o mandassem a el-rei, por muitos excessos, que sempre nele foram crescendo, ajudado dos ruins conselhos, que lhe mandavam de Pernambuco inimigos do ouvidor-geral, que por inveja dos seus bons sucessos o queriam infamar, assim cá como no reino, o que tudo o ouvidor foi passando, e dissimulando até o fim de setembro do dito ano, porque aos vinte e sete dias dele lhe vieram novas da Paraíba, e cartas que avisaram serem chegadas à baía da Traição cinco naus francesas com muita gente, e munições, determinados a se ajuntarem com os Potiguares para combaterem, e assolarem o forte da Paraíba, com as quais cartas vinha um grande requerimento do capitão Morales, e moradores, e assim ao mesmo ouvidor, como ao capitão de Pernambuco, e Câmera os fossem socorrer.

 

Recebido este requerimento, fez logo Martim Leitão ajuntar no colégio o capitão de Pernambuco, Câmera, oficiais da Fazenda, e os mais nobres e ricos da terra, onde por todos foi assentado que por não crescer mais aquela ladroeira, e sair dali algum grande exército de franceses, que junto com os Potiguares destruíssem o que estava ganhado da Paraíba, convinha acudir-lhe, e que ninguém o podia fazer senão ele, como dantes tinha feito; e assim todos juntos lho pediram, e requereram em nome de el-rei, e ele aceitou, ordenando logo que se aprestassem duas naus, que não estavam mais no porto, e alguns caravelões, em que fossem 150 homens de peleja, fora os do mar, e alguma gente de cavalo por terra, que se ajuntariam com os que estavam na Paraíba, para que lhes dessem por terra, e por mar uma boa guerra, porque estando-se os navios concertando, e as mais coisas necessárias, chegou nova que Francisco de Morales se queria vir da Paraíba, lhe escreveu Martim Leitão tal não fizesse, e que chegando lá o acomodaria, e serviria em tudo, como sempre fizera, e quando de todo em todo se quisesse vir neste tempo não trouxesse os soldados de el-rei; mas nada bastou para deixar de se vir, e trazer os soldados de el-rei, e persuadido de alguns de Pernambuco, invejosos, e inimigos do ouvidor-geral, largou o forte, e se perdeu e estragou na vila de Olinda até se ir para o reino, e porque a 20 de outubro se soube haverem chegado mais à baía da Traição outras duas naus, que eram já sete. Pelo que se requeria melhor recado se tomou mais uma, que chegou do reino, e posta a monte, provida de xareta, e fortalecida para poder sofrer a artilharia como as outras até a entrada de dezembro, se puseram a pique todas três naus mercantes, e dois bons caravelões ou zabras, de que eram capitães Pero de Albuquerque, Lopo Soares, e Tomé da Rocha, Pero Lopes Lobo, capitão da ilha de Itamaracá, e Álvaro Velho Barreto.

 

Ordenado isto, foi o ouvidor-geral até o engenho de Filipe Cavalcante, que é sete léguas da vila de Olinda, com 25 homens de cavalo bons, e despedindo-os dali para a Paraíba se tornou para a vila a embarcar, prometendo-lhes primeiro seria com eles na semana seguinte; e assim se foi logo ao Recife, onde estiveram embarcados 13 dias, sem poderem partir com tão grande tormenta de nordeste, que dentro do rio se desamarrou uma nau, e deu à costa; e temendo o ouvidor-geral a tardança, quis mandar um caravelão com aviso a Paraíba, e eram tais os nordestes, que o levaram sem remédio além do cabo de Santo Agostinho à ilha de Santo Aleixo.

 

Com este trabalho e estando todos pasmados, e o ouvidor-geral atribulado de não poder fazer viagem, chegou Mauro de Resende com grandes requerimentos; e protestos de largarem todos tudo, se o ouvidor-geral não era lá até o dia de S. Tomé, por estarem todos assombrados da muita gente francesa, e Potiguares, que quatro dias havia tinha dado em uma aldeia das nossas fronteiras, cujo principal era Assento de Pássaro, o melhor índio dos nossos, onde mataram mais de oitenta pessoas, e dois Castelhanos, com o que se davam todos por perdidos; pelo que o ouvidor-geral, vendo que o tempo lhe não dava lugar a ir por mar, determinou ir por terra, dizendo aos mais que o seguissem, se partiu quase só de madrugada, e no rio Tapirema, que são nove léguas de Olinda, se achou ao segundo dia com alguns trinta e dois homens, com os quais seguiu avante, que por ir assim, e os homens despropositados para o acompanharem, por terra o seguiram somente estes, e com eles chegou à nossa povoação da Paraíba, a que os moradores chamam cidade de Nossa Senhora das Neves, aos 23 de dezembro, véspera da véspera do Natal, onde se começou logo a pôr em ordem, e aviar para haver de partir no dia seguinte, como partiu, caminho da Copaíba, onde teve por novas que estava todo o gentio, e alguns franceses fazendo-lhes pau-brasil para a carga das naus, porque estorvar-lha era a maior guerra, que podia fazer assim a uns como a outros.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO QUARTO

 

De como o ouvidor-geral foi da Paraíba a Copaíba

 

 

 

Da cidade de Nossa Senhora das Neves, onde o ouvidor-geral Martim Leitão deixou Pero de Albuquerque por capitão em quatro jornadas, chegou  a grande cerca de Penacama, que era um grande e principal Potiguar, aonde Duarte Gomes da Silveira havia ido o outubro atrás, e depois de lhe suceder muito bem, ao recolher lhe mataram oito ou dez homens, que foi a maior perda que esta empresa da Paraíba teve depois de correr por Martim Leitão, e que ele em extremo sentiu; porque além das guerras, que todos estes anos  lhes dava por sua pessoa, sempre lhe mandava dar outros assaltos, assim pelo dito Duarte Gomes como pelo capitão João Tavares e outras pessoas nesta jornada foi infinito o trabalho, principalmente o da água, que não havia senão de muito ruins poços, pouca, e tão fedorenta, que era necessário com uma mão tapar o nariz, com a outra beber.

 

Desta cerca marcharam para a Copaíba direitos, onde ao segundo dia pela manhã deram com outra dos inimigos, e por o nosso gentio dar o seu urro primeiro que entrasse, fugiram alguns, ainda que se fez incrível matança, e se tomaram 70 ou 80 vivos; aos fugidos foram dando alcance por uma parte, e por outra mais de uma légua até outra grande cerca, que estava despejada, na qual quis o nosso gentio descansar dois dias, e assim era necessário para o grande trabalho do caminho, que tinham passado, e por acharem ali rio de água, ainda que logo sobre ela começou de haver briga por acudirem os inimigos a defendê-la, ajudados dos sítios, porque esta Copaíba aonde estavam é toda feita em altibaixos de montes e abismos, e contudo, contra a regra geral do Brasil, é tudo massapés, e fertilíssima; pela qual causa havia nela cinqüenta aldeias de Potiguares, todas pegadas umas nas outras: ao outro dia pela manhã começou de recrescer a briga sobre a água, ainda que os nossos tinham ordem não fossem senão juntos, e a uma hora certa a buscá-la, e a dar de beber aos cavalos, acompanhados sempre com 10 ou 12 arcabuzeiros de guarda, todavia cresceram muitos inimigos, e tinham já feito uma caiçara sobre dia, que o ouvidor-geral lhes mandou desmanchar por Duarte Gomes com alguma gente: e porque começaram a flechar, e se recolheram, assentou com o Braço que à tarde lhes lançasse uma cilada por cima, tornando-se primeiro a travar a briga, em que bem cevados lhes dessem nas costas, e saindo a isso o Braço à tarde se alvoroçou o arraial dizendo estavam muitos inimigos sobre a água, saindo fora o ouvidor-geral, e vendo que da outra parte do rio, na ladeira, andavam dez ou doze nossos muito apertados, que não ousavam virar as costas, e carregavam sobre eles muitas flechas, e pelouros, mandou que fossem sete ou oito de cavalo socorrê-los com Francisco Pereira, que só passou, e Simão Tamares, e deitaram fora os inimigos, e recolheram os nossos com um já morto, e outro quase, e todos feridos de flechas e espingardas, e Francisco Pereira pior, que o fez aqui como bom cavaleiro, e João Tavares foi recolher o Braço de Peixe, que neste tempo mandou recado lhe acudissem, porque indo para fazer cilada aos inimigos, caíra primeiro em uma sua, e o tinham posto em aperto; com isto começou a entrar um medo espantoso em todos, e à noite foi avisado o ouvidor-geral em segredo por João Tavares estavam mais de 20 dos mais honrados ajuramentados para fugirem, ao que acudiu o ouvidor-geral fazendo-lhe uma fala de mil esforços, e outras diligências, com que lhes desfez a roda, e se assentou se desse pela manhã com boa ordem nos inimigos, para o que mandou aquela noite das tábuas de algumas caixas, que se acharam, fazer 10 paveses, detrás das quais os medrosos pudessem ir seguros, com o que animados todos / deixando primeiro queimado tudo, como sempre fizeram a todas as cercas, e aldeias que tomaram /, foram pela manhã buscar os inimigos, os quais estavam à vista em três tranqueiras, que eles armaram nos piores passos, umas diante das outras; e por na primeira tranqueira ou caiçara do rio haver detença pela moita resistência que acharam, passou lá o ouvidor-geral, e dando-lhes muita pressa, como quem entendia que nisto estava a importância, com sua chegada se levou sem nos ferirem pessoa, e com a mesma fúria remeteram a segunda, que era entulhada de terra em um vale, e lançando-se uma boa manga por um outeiro acima, ficando as outras duas no baixo; vendo os inimigos três mangas, e os braços que a meneavam, se assombraram de todo, que nem na terceira cerca pararam, ainda que não subiam os nossos a ela senão de pés e mãos, e sempre lhes custava muito, a se não terem lançado as mangas, que foi gentil ordem do ouvidor-geral, que nesta ocasião trabalhou muito, e nesta manhã cansou três cavalos, porque queria ver, e estar presente em toda a parte; e assim os ajudou Deus, e foram seguindo os inimigos mais de meia légua, até chegarem a uma aldeia, onde fizeram grande resistência, todo por salvarem as mulheres, e filhos que ali tinham, com que o negócio esteve em peso, porque três ou quatro vezes se viu a nossa vanguarda quase vencida, até que chegou o corpo da nossa gente com o ouvidor-geral, e carregando rijo os levaram vencidos, com mais três ou quatro aldeias, que no mesmo dia lhe foram destruindo, até se irem aposentar em um alto, donde viam trinta e tantas em menos de uma légua, que os inimigos com medo tinham despejado, e iam ardendo, sendo infinitos em número, e os nossos só 140, e 500 índios flecheiros.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO QUINTO

 

De como destruída a Copaíba foram ao Tujucupapo

 

 

 

Daqui se partiram em busca do Tujucupapo, que o ano atrás lhe havia fugido, e caminhando dois dias, virando abaixo ao mar ao terceiro dia pela manhã deu a vanguarda em uma mui poderosa cerca, onde pela bandeira e tambor conheceram haver franceses com os Potiguares, do que logo avisaram ao ouvidor-geral, o qual quando chegou achou a bandeira do capitão João Tavares, que o fez aqui tão animosamente como sempre, porque à sua ilharga tinham morto três homens com piedosas feridas de pelouros de cadeia, que os tinham escalados, e contudo sempre sustentou a sua bandeira pegado à cerca em uma fronteira, na qual ele, e o sargento Diogo Arias, espantoso soldado que nesta jornada tinha recebido 14 flechadas, ganharam cada um sua seteira ou bombardeira aos inimigos, por onde umas vezes com as espadas, outras com os arcabuzes, os faziam despejar dali.

 

O ouvidor, não obstando os grandes chuveiros, e nuvens de flechas, e pelouros, que dos inimigos nunca cessavam, tomando alguns consigo, que o quiseram seguir, e agachando-se como podiam, chegou à cerca pela banda de baixo, que por aquele confiados os inimigos na espessura do mato era mui fraca, e entulhada de terra e palma, e a começaram a desfazer, ainda que os inimigos logo ali acudiram de dentro com uma espingarda, e muita flecha, com que feriram o meirinho da alçada, a Heitor Fernandes, e outros; contudo Martim Leitão foi o primeiro que rompeu a cerca, cortando com a espada os cipós ou vimes com que estava liada, e fazendo buraco por onde se meteu, e posto que de boa entrada com um pau feitiço lhe feriram uma mão, de que lhe rebentou o sangue pelas unhas; à vista dele, como elefante indignado, se lançou dentro com Manuel da Costa, natural de Ponte de Lima, que o acompanhava, o que vendo os inimigos, derrubaram de duas ruins flechadas a Manuel da Costa, e com outras duas deitaram a carapuça de armas fora da cabeça ao ouvidor-geral, que só lhe ficou pendurada pelo rebuço de diante, e com muitas flechadas pregadas na adarga, pôs o joelho no chão para se desembaraçar das flechas, e cobrir a cabeça, ao que acudiu golpe de gentio para o tomarem às mãos, porque o não quiseram matar pelo conhecerem, e desejarem levá-lo vivo para testemunha de sua vitória, e triunfo, mas só o feriram a mão tente em uma coxa; ele vendo neste último transe da vida se levantou manquejando, mas furiosamente, e chegando-se a Manuel da Costa, seu amigo, para o defender, os fez afastar, por verem também a este tempo entrar já outros, dos quais o primeiro foi o alcaide de Pernambuco Bartolomeu Álvares, feitora do mesmo Martim Leitão, que bem lho pagou ali, e ajudou como mui valente, e esforçado soldado que era africano.

 

O mesmo fizeram os mais, que entraram após ele com tanto valor e esforço que foram os inimigos despejando a cerca, sendo os franceses os primeiros: com o que gritando os nossos de dentro vitória, entraram os de fora, uns por uma parte, outros por outra, sem tratarem mais senão de se abraçarem uns aos outros com lágrimas de contentamento da mercê que lhe Deus fez, e não seguiram muito os inimigos, porque passada a fúria todos tinham que curar, e fazer consigo assaz, por ficarem quarenta e sete feridos, e três mortos do nosso arraial: do contrário também ficou morto algum gentio, que levavam às costas, como costumam, e o alferes francês, que na cerca ficou estirado com a sua bandeira e tambor, que se levaram para a Paraíba: porém apenas se começavam a curar os feridos, quando foi necessário deixá-los, por se ouvir uma grande grita, e alarido de Potiguares, que vieram de socorro a estoutros, e a virem mais cedo um pouco espaço não houvera remédio contra eles, os quais deram ainda em alguns da nossa retaguarda, mas vendo que eram fugidos os seus da cerca, e os nossos que dela vinham acudindo, também fugiram.

 

Eram tantas, e tais as feridas, mormente de pelouros, que os franceses, que com os negros estavam na cerca, tiravam, que todo o restante do dia se gastou na cura dos feridos: na qual o ouvidor andou provendo com muita vigilância, e caridade, porque para tudo ia apercebido de botica, e por respeito deles, falta de pólvora, e outros inconvenientes que havia, se assentou queimassem o pau que ali se achou, voltassem por outro caminho o seguinte dia pela manhã, como fizeram com boa ordenança, buscando a Paraíba com assaz trabalho, guiados pelo sol, porque ninguém sabia aonde estava, e assim se agasalharam ao longo de um ribeiro pequeno aquela primeira noite da jornada como cada um pôde.

 

No segundo dia de caminho marchando, em amanhecendo os salteou o gentio por duas partes a provar como iam, mas rebatendo-os fugiram com seu dano, e os nossos sem algum por suas jornadas chegaram à Paraíba, onde todos foram recebidos como mereciam.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SEXTO

 

De como despedida a gente o ouvidor-geral fez o forte de S. Sebastião

 

 

 

Logo naquela semana se aviou o ouvidor-geral para por mar ir à baía da Traição dar nas naus francesas, que lá estavam, e para isto tinha mandado vir caravelões com que de noite, a remos, os determinava saltear, por já irem faltando as munições para naus grandes irem de Pernambuco à Paraíba; porém sendo certificado que os franceses, por lhe haverem queimado a carga de pau-brasil, haviam já ido com as naus vazias, despediu a gente toda, ficando ele somente com os seus oficiais, e Pedro de Albuquerque, e Francisco Pereira, que ainda estava mal das feridas, e no fim do mês de janeiro de mil quinhentos e oitenta e sete se foi ao rio Tibiri, duas léguas acima da cidade, ao longo da várzea da Paraíba, fazer um forte para o engenho de açúcar de el-rei, que já estava começado, e para defender a aldeia do Assento de Pássaro, e mais fronteiras, com o que se segurava tudo, e se povoaria a várzea, e assim o ordenou, e fez muito em breve de cem palmos de vão, de muito grossas vigas muito juntas, e forradas de entulho de cinco palmos de largo, e de altura de nove, donde podia pelejar a gente amparada com o muro de fora, que era mais de vinte e dois em alto, de taipa dobrada de mão muito forte, e do alto vinha o teto cobrindo o andaime, e casas que se fizeram a roda para agasalho da gente, com duas grandes guaritas em revés sobradadas, e uma torre no meio com grandes portas para o rio Tibiri.

 

Feito este forte, que por o haver começado dia de S. Sebastião o chamou do seu nome, e assentada nele a artilharia, abertos os caminhos, e tudo acabado, como se houvera de viver ali toda a sua vida, ou o fizera para si, e seus filhos, se partiu na segunda semana do mês de fevereiro para Pernambuco, já achacado de algumas febres, que com seu fervor, e incansável espírito havia passado em pé, e chegando à casa se não levantou mais de uma cama os três meses seguintes, e não foi muito com tantas calmas, chuvas, guerras, e trabalhos como havia padecido.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO SÉTIMO

 

De uma grande traição, que o gentio de Sergipe fez aos homens da Bahia, e a guerra que o governador fez aos Aimorés

 

 

 

Grande contentamento recebeu o governador geral Manuel Teles Barreto com as boas novas do sucesso destas guerras, e conquista, por ver a boa eleição que fizera em mandar a elas o ouvidor-geral Martim Leitão: mas como todos os contentamentos do mundo são aguados, o foi também este com uma grande traição, e engano, que lhe fez o gentio de Sergipe, dizendo que se queriam vir para esta Bahia à doutrina dos padres da Companhia de Jesus, e tomando-os por isto por intercessores, e terceiros com o governador, para que lhes desse soldados, que os acompanhassem, e defendessem no caminho de seus inimigos, se lho quisessem impedir; fez o governador sobre isto uma junta de oficiais da Câmera, e outras pessoas discretas, onde o primeiro que votou foi Cristóvão de Barros, provedor-mor da Fazenda, dizendo, como experimentado nas traições dos gentios, que se lhes respondesse que se queriam vir viessem embora, e seriam bem recebidos, e favorecidos em tudo, mas que lhes não davam soldados, porque lhes não fizessem alguns agravos, como costumam, e o mesmo votaram os mais experimentados; porém pôde tanto a importunação, e autoridade dos terceiros, alegando a importância da salvação daquelas almas, que se queriam vir ao grêmio da Santa Madre Igreja, que o bom governador lhes veio a conceder o que pediam, e lhes deu cento e trinta soldados brancos, e mamalucos, que os acompanhassem, com os quais, e com alguns índios das aldeias, e doutrinas dos padres se partiram mui contentes os embaixadores, mandando diante aviso aos seus que os viessem esperar ao rio Real, como vieram, e os passaram em jangadas a outra parte, onde estavam com tijupares feitos ou cabanas, em que os agasalharam, vindo as velhas à pranteá-los, que é o seu sinal de paz e amizade, e o pranto acabado lhes administraram os nossos seus guisados de legumes, caças, e pescados, não se negando também elas aos que as queriam, nem lho proibindo seus pais, e maridos, sendo aliás muito ciosos, que foi mui ruim sinal, e assim o significaram alguns escravos dos brancos a seus senhores, mas nem isto bastou para que se lhes não entregassem de modo como se foram suas legítimas mulheres, e nesta forma caminharam por suas jornadas mui breves, e descansados até Sergipe, e se posentaram nas suas aldeias repartidos por suas casas e ranchos com tanta confiança, como se estiveram nesta cidade em suas próprias casas, deixando as armas às concubinas, e indo-se a passear de umas aldeias para as outras com um bordão na mão, as quais lhe entupiram os arcabuzes de pedras e betume, e tomando-lhes a pólvora dos frascos lhos encheram de pó de carvão, e feito isto vieram uma madrugada gritando aos nossos que se armassem, que vinha outro gentio seu contrário, sendo que eles mesmos eram os contrários, e como os nossos estivessem tão descuidados, e se não pudessem valer das armas, ali foram todos mortos como ovelhas ou cordeiros, sem ficarem vivos mais que alguns índios dos padres, que trouxeram a nova, a qual o governador sentiu tanto, que quisera ir logo pessoalmente tomar vingança, e para, este efeito escreveu a Pernambuco ao capitão-mor, que então era d. Filipe de Moura, e a Pero Lopes Lobo, capitão-mor de Itamaracá, que se fizessem prestes com toda a gente, que pudessem trazer, para por uma parte, e por outra os combaterem, posto que depois, impedido da sua muita idade, e indisposição, lhes rescreveu que não viessem, antes fossem socorrer a Paraíba.

 

Também neste tempo se levantou outro gentio chamado os Aimorés na capitania dos Ilhéus, que a pôs em muito aperto, do que sendo avisado o governador, ordenou que fossem Diogo Corrêa de Sande e Fernão Cabral de Ataíde, que possuíam muitos escravos, e tinham aldeias de índios forros, a ver se lhes podiam dar com eles alguns assaltos, dando-lhes mais os soldados das suas guardas com seus cabos Diogo de Miranda, e Lourenço de Miranda, ambos irmãos, e castelhanos, os quais foram todos de Juguaripe por terra ao Camamuré Tinharé, e lhes armaram muitas ciladas, mas como nunca saíam a campo a pelejar senão à traição, escondidos pelos matos, mui poucos lhes mataram, e eles flecharam também alguns dos nossos índios.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO OITAVO

 

Da morte do governador Manuel Teles Barreto, e como ficaram em seu lugar governando o bispo d. Antônio Barreiros, o provedor-mor Cristóvão de Barros, e o ouvidor-geral

 

 

 

Como o governador Manuel Teles Barreto era tão velho ainda antes de ver bem o fim destas guerras, enfermou e passou desta vida, que também é uma contínua guerra, como diz o Santo Job, quereria Deus que fosse para a triunfante, donde tudo é uma suma paz, gloria, e bem-aventurança; foi este governador mui amigo, e favorável aos moradores, e o que mais esperas lhe concedeu, para que os mercadores os não executassem nas fábricas de suas fazendas, e quando se lhes iam queixar disso os despedia asperamente, dizendo que eles vinham a destruir a terra, levando dela em três ou quatro anos, que cá estavam, quanto podiam, e os moradores eram os que a conservavam, e acrescentavam com seu trabalho, e haviam conquistado à custa do seu sangue.

 

Morto pois Manuel Teles, cuja morte foi no ano de mil quinhentos oitenta e sete, se abriu logo a via de el-rei, que ele próprio havia trazido, na qual se continha que governassem por sua morte o bispo d. Antônio Barreiros, o Provedor-mor Cristóvão de Barros, e o ouvidor-geral; e porque este último então estava ausente, começaram de governar os dois, tomando por secretário o contador-mor da fazenda Antônio de Faria, e foi próspero o tempo do seu governo, assim pelas vitórias, que se alcançaram contra os inimigos, de que faremos menção nos capítulos seguintes, como por este tempo se abrir o comércio do rio da Prata, mandando o bispo de Tucuman o tesoureiro-mor da sua Sé a esta Bahia a buscar estudantes para ordenar, e coisas pertencentes a igreja, o que tudo levou, e daí por diante não houve ano em que não fossem alguns navios de permissão real, ou de arribada com fazendas, que lá muito estimam, e cá o preço universal que por elas trazem.

 

Também neste tempo e era do Senhor de mil quinhentos oitenta e sete vieram ao Brasil fundar conventos os religiosos da nossa província capucha de Santo Antônio, com o irmão frei Melchior de Santa Catarina, religioso de muita autoridade, e bom púlpito, por comissário por um breve do senhor Papa Xisto Quinto, e patente do nosso Reverendíssimo padre geral frei Francisco Gonzaga, que faz do breve relação no fim do livro que fez da nossa seráfica ordem, e por virem a instância de Jorge de Albuquerque, senhor de Pernambuco, fizeram lá o primeiro convento, pela qual causa, e por termos naquela capitania quatro conventos, se fazem nela os nossos capítulos, e congregações custudiais.

 

 

 

 

 

CAPÍTULO DÉCIMO NONO

 

De três naus inglesas, que neste tempo vieram à Bahia

 

 

 

Pouco tempo depois de começarem a governar o bispo, e Cristóvão de Barros, entraram subitamente nesta Bahia duas naus, e uma zabra de ingleses com um patacho tomado, que havia dela saído para o rio da Prata, em que ia um mercador espanhol chamado Lopo Vaz; tanto que chegaram, tomaram também os navios que estavam no porto, entre os quais estava uma urca de Duarte Osquer, mercador flamengo, que aqui residia, com marinheiros flamengos, que voluntariamente lha entregaram, e se passaram aos ingleses, e logo todos começaram as bombardadas à cidade tão fortemente que desanimados, e cheios de medo, os moradores fugiram dela para os matos; e posto que o bispo pôs guardas, e capitães nas saídas, que eram muitas, porque não estava murada, para que detivessem os homens, e deixassem sair as mulheres, muitos saíram entre elas de noite, e algum com manto mulheril, e esses poucos que ficaram pediram ao bispo fizesse o mesmo; ao que acudiu um venerável, e rico cidadão chamado Francisco de Araújo, requerendo-lhe da parte de Deus, e de el-rei não deixasse a terra, pois não só era bispo, mas governador dela, e que se a gente era fugida, ele com a sua se atrevia a defendê-la.

 

Também veio uma mulher a cavalo, com lança e adarga, da Itapoã, repreendendo aos que encontrava, porque fugiam de suas casas, e exortando-os para que se tornassem para elas, do que eles zombavam.

 

Neste tempo não estava Cristóvão de Barros na cidade, que andava pelos engenhos do recôncavo, tirando uma esmola para a casa da Misericórdia, de que era provedor aquele ano, mas logo acudiu ao som das bombardadas, trazendo consigo todos os que achava, com os quais, e com os que na cidade achou, a fortificou, repartindo-os por suas estâncias, castigando alguns dos fugitivos porque não tornassem a fugir, e para exemplo dos outros pôs um à vergonha no pelourinho metido no cesto com uma roca na cinta; e porque os ingleses se não atreveram a entrar na cidade, mas contentaram-se de balraventear pela Bahia, que é larguíssima, e de muito fundo, e onde não era tanto que pudessem chegar  os navios grandes, mandaram a zabra, e as lanchas à pilhagem, ordenou Cristóvão de Barros uma armada de cinco barcas, das que levam cana e lenha aos engenhos, as quais ainda que sem coberta são mui fortes e veleiras, mandando-as empavesar, e meter em cada uma dois berços, e soldados arcabuzeiros com seus capitães, que eram André Fernandes Margalho, Pantaleão Barbosa, Gaspar de Freitas, Antônio Álvares Portilho, e Pedro de Carvalhaes, e por capitania uma galé, em que ia por capitão-mor Sebastião de Faria, para que onde quer que desembarcassem os ingleses dessem sobre eles; e assim sabendo que eram idos a Jaguará a tomar carnes ao curral de André Fernandes Morgalho, e por os acharem já embarcados à zabra a combateram, donde houve mortos, e feridos de parte a parte, e entre os mais foi um Duarte de Goes de Mendonça, que ia na galé, a quem passaram o capacete, que tinha na cabeça, com um pelouro, e lhe fez nela tão grande ferida, que esteve a perigo de morte.

 

Também saíram outra vez na ilha de Itaparica. Donde Antônio Álvares Capara, e outros portugueses com muito gentio os fizeram embarcar com morte de alguns, e no mar lhe tomou também uma das nossas barcas um batel com quatro ingleses, que o remavam, e mataram três, pelo que visto o pouco ganho que tinham, e que Lopo Vaz, de quem esperavam resgate, lhes havia fugido a nado para a cidade, levantaram as âncoras e se foram ao Chamamu, para fazer aguada, onde também o Capara lha não deixou fazer, e lhes matou oito, de que trouxe as cabeças aos governadores e assim se tornaram os ingleses para a sua terra, depois de haverem aqui estado dois meses.

 

 

 

CAPÍTULO VIGÉSIMO

 

Da guerra, que Cristóvão de Barros foi dar ao gentio de Sergipe

 

 

 

Muito estimou Cristóvão de Barros entrar nu governo do Brasil para poder ir vingar assim a traição, que o gentio de Sergipe fez aos homens da Bahia, de que tratamos no capítulo dezoito deste livro, como a morte de seu pai Antônio Cardoso de Barros, que ali mataram, e comeram, indo para o reino com o primeiro bispo desta Bahia, como tenho contado no capítulo terceiro do terceiro livro, e assim apelidou por isso muitos homens desta terra, e alguns de Pernambuco, e uns e outros o acompanharam com muita vontade, porque sendo guerra tão justa, dada com licença de el-rei, esperaram trazer muitos escravos.

 

Fez capitão da vanguarda a Antônio Fernandes, e da retaguarda a Sebastião de Faria, e determinando ir ao longo do mar, mandou primeiro pelo sertão Rodrigo Martins, e Álvaro Rodrigues, seu irmão, com 150 homens brancos, e mamalucos, e mil índios, para que levassem todos os tapuias que de caminho pudessem em sua ajuda, como de feito levaram perto de três mil flecheiros e assim vendo-se com tanta gente, sem esperar por Cristóvão de Barros cometeram as aldeias dos inimigos, que tinham por aquela parte do sertão, os quais foram fugindo até se ajuntarem todos, e fazerem um corpo com que lhe resistiram, e puseram em cerco mui estreito, donde mandaram quatro índios dar conta a Cristóvão de Barros do perigo em que estavam, com que mandou apertar mais o passo, e chegando a um alto viram um fumo, a que mandou Amador de Aguiar com alguns homens, e trouxeram quatro espias, que tomaram aos inimigos, dos quais guiados os nossos chegaram aos cercados véspera da véspera do Natal, às duas horas depois do meio-dia, os quais vistos pelos contrários fugiram logo, e levantaram o cerco, mas não tanto a seu salvo, que lhes não matassem 600, e eles a nós seis.

 

Dali desceram a cerca de Baepeba, que era o rei, e príncipe de todo este gentio, e tinha juntas da sua mais duas cercas, nas quais todas haveria 20 mil almas; os nossos fizeram suas trincheiras, e lhes tomaram a água, que bebiam, sobre que houve mortos, e feridos de parte a parte, mas da sua mais.

 

Também lhes abalroaram o lanço de uma cerca, que eles logo refizeram, e por onde estava Sebastião de Faria abalroaram outra, da qual saíram, e nos mataram um homem, e feriram muitos, mas os nossos os fizeram retirar, matando-lhes 300.

 

Finalmente determinou o Baepeba concluir o negócio, e para este efeito mandou avisar os das outras cercas, que saíssem contra os nossos para ele também sair, e colhendo-os em meio os matarem, o qual aviso levaram três índios aventureiros por meio do nosso arraial, porque não tinham outro caminho, às quatro horas da tarde, sem que lho pudessem impedir, mais que um deles que mataram.

 

Ouvido pois o mandamento se saíram das cercas, e o nosso general lhes saiu só com os de cavalo, que eram 60 homens, e o pôs em fugida, não consentindo que os nossos os seguissem, como queriam, porque os da cerca principal do Baepeba não lhes dessem nas costas, donde à noite do Ano Bom de mil quinhentos e noventa, vendo-se sem os das outras cercas, e sem a água, começaram também a fugir, indo os mais valentes diante despedindo nuvens de flechas, com que forçaram os nossos por aquela parte estavam não só a dar-lhes caminho, mas ainda em lhes irem fugindo; porém o general atravessando-se-lhes diante, a brados, e com o conto da lança os fez parar, e voltar aos inimigos até os fazer tornar à cerca, onde entrando os nossos após eles, lhes mataram 1.600, e cativaram quatro mil.

 

Alcançada a vitória, e curados os feridos, armou Cristóvão de Barros alguns caravelões, como fazem na África, por provisão de el-rei, que para isso tinha, e fez repartição dos cativos, e das terras, ficando-lhe de uma coisa, e outra muito boa porção, com que fez ali uma grande fazenda de currais de gado, e outros a seu exemplo fizeram o mesmo, com que veio a crescer tanto pela bondade dos pastos, que dali se provêm de bois os engenhos da Bahia e Pernambuco, e os açougues de carne.

 

Está Sergipe na altura de 11º graus e dois terços, por cuja barra com os batéis diante costumam entrar os franceses com naus de mais de cem toneladas, e vinham acabar de carregar da barra para fora, por ela não ter mais de três braças de baixa-mar; e assim ficou Cristóvão de Barros não só castigando os homicidas de seu pai, mas tirando esta colheita aos franceses, que ali iam carregar suas naus de pau-brasil, algodão, e pimenta da terra, e sobretudo franqueando o caminho de Pernambuco, e mais capitanias do norte, para esta Bahia, e daqui para elas, que dantes ninguém caminhava por terra, que o não matassem, e comessem os gentios, e o mesmo faziam aos navegantes, porque ali começa a enseada de Vasa-barris, onde se perdem muitos navios, por causa dos recifes que lança muito ao mar, e os que escapavam do naufrágio não escapavam, de suas mãos, e dentes, donde hoje se caminha por terra com muita facilidade, e segurança, e vem, e vão cada dia com suas apelações, e o mais que lhes importa, sem esperarem seis meses para monção, como dantes faziam, que