LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Música do Parnaso, de Manuel Botelho de Oliveira


 

Edição de referência:

Poesia Completa. Introd., org. e fixação de texto de Adma Muhana.

São Paulo: Martins, 2005.

 

 

 

 

 

MUSICA

DO

PARNASSO

DIVIDIDA EM QUATRO COROS

DE RIMAS

PORTUGUESAS, CASTELHA-.

nas, Italianas, & Latinas.

COM SEU DESCANTE COMICO REDUSI

do em duas comedias,

OFFERECIDA

AO EXCELLENTISSIMO SENHOR DOM NUNO

Alvares Pereyra de Mello, Duque do Cadaval, &tc.

E ENTOADA

PELO CAPITAM MOR MANOEL BOTELHO

de Oliveyra, Fidalgo da Caza de Sua

Magestade.

LISBOA.

 

Na Officina de MIGUEL MANESCAL, Impressor do

Santo Officio, Anno de 1705.

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Dedicatória

Prólogo ao leitor

Licenças do Santo Ofício

 

Primeiro coro de rimas portuguesas em versos amorosos de Anarda

Sonetos

Madrigais

Décimas

Redondilhas

Romances

 

Versos vários que pertencem ao primeiro coro das rimas portuguesas escritos a vários assuntos

Sonetos

Oitavas

Canções várias

Silva à Ilha da Maré

Romances

 

Segundo coro das rimas castelhanas em versos amorosos da mesma Anarda

Sonetos

Canções

Madrigais

Décimas

Romances

 

Versos vários que pertencem ao segundo coro das rimas castelhanas, escritas a vários assuntos

Sonetos

Canções

Romances vários

 

Terceiro coro das rimas italianas

Sonetos

Madrigais

 

Quarto coro das rimas latinas

Heróicos

Epigramas

 

Apêndice

 

Lira sacra

Dedicatória

Prólogo ao leitor

Sonetos [a Nossa Senhora]

Sonetos da vida de Cristo até sua divina ascenção

Sonetos a vários santos

Sonetos aos doze apóstolos

Oitavas

Décimas

Romances

Romances castelhanos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao Excelentíssimo

 

Senhor D. Nuno Álvares Pereira de Melo, Du­que do Cadaval, Marquês de Ferreira, Conde de Tentúgal, Alcaide-mor das Vilas e Castelos de Olivença, e Alvor. Senhor das Vilas de Tentúgal, Buarcos, Vila Nova Dansos, Rabaçal, Alvaiazere, Penacova, Mortágua, Ferreiradaves, Cadaval, Cer­cal, Peral, Vilaboa, Vilarruiva, Albergaria, Água de Peixes, Mujem, Noudar e Barrancos: Comenda­dor das Comendas de Grândola, Sardoal, Eixo, Morais, Marmeleira, Noudar e Barrancos. Dos Conselhos de Estado, e Guerra, e do despacho de mercês, e expediente. Mestre-de-campo, Gene­ral da Corte, e Província da Estremadura junto à pessoa de Sua Majestade, Capitão-general da Ca­valaria da mesma Corte, e Província da Estrema­dura junto à pessoa de Sua Majestade, Capitão-general da Cavalaria da mesma Corte, e Provín­cia, Presidente do Desembargo do Paço etc.

 

Célebre fez em Fócio ao Monte Parnasso o ter sido das musas domicílio, mas se nisto teve a fortuna de ser talvez o primeiro, não faltou quem lhe tirasse a de ser único. Essa queixa pode formar da famosa Grécia, para cujas interiores províncias se passaram as musas com tanto em­penho, como foi o que tiveram em fazer aque­le portento da sua Arte, o insigne Homero, cujo poema eternizou no Mundo as memórias da sua pena e do seu nome. Transformou-se Itália em uma nova Grécia, e assim, ou se passaram outra vez de Grécia, ou de novo renasceram as mu­sas em Itália, fazendo-se tão conaturais a seus engenhos, como entre outros o foram no do fa­moso Virgílio e elegante Ovídio, os quais, vulga­rizada depois, ou corrupta a língua latina, na mesma Itália se reproduziram no grande Tasso e delicioso Marino, poetas que entre muitos flo­resceram com singulares créditos e não meno­res estimações. Ultimamente se transferiram para Espanha onde foi e é tão fecunda a cópia de poetas, que entre as demais nações do Mundo parece que aos espanhóis adotaram as musas por seus filhos, entre os quais mereceu o culto Gôngora extravagante estimação, e o vastíssimo Lope aplauso universal; porém em Portugal, ilus­tre parte das Espanhas, se naturalizaram, de sor­te que parecem identificadas com os seus patrí­cios; assim o testemunham os celebrados poe­mas daquele lusitano Apoio, o insigne Camões, de Jorge Monte-Maior, de Gabriel Pereira de Cas­tro, e outros que nobilitaram a língua portugue­sa com a elegante consonância de seus metros.

 

Nesta América, inculta habitação antigamen­te de bárbaros índios, mal se podia esperar que as Musas se fizessem brasileiras; contudo quise­ram também passar-se a este empório, aonde como a doçura do açúcar é tão simpática com a suavidade do seu canto, acharam muitos enge­nhos, que imitando aos poetas de Itália, e Espa­nha, se aplicassem a tão discreto entretenimento, para que se não queixasse esta última parte do mundo que, assim como Apoio lhe comunica os raios para os dias, lhe negasse as luzes para os entendimentos. Ao meu, posto que inferior aos de que é tão fértil este país, ditaram as Mu­sas as presentes rimas, que me resolvi expor à publicidade de todos, para ao menos ser o pri­meiro filho do Brasil que faça pública a suavida­de do metro, já que o não sou em merecer ou­tros maiores créditos na Poesia.

 

Porém encolhido em minha desconfiança, e temeroso de minha insuficiência, me pareceu logo preciso valer-me de algum herói, que me atentasse em tão justo temor, e me segurasse em tão racionável receio, para que nem a obra fos­se alvo de calúnias, nem seu autor despojo de Zoilos, cuja malícia costuma tiranizar a ambos, mais por impulso da inveja, que por arbítrio da razão: para segurança, pois destes perigos soli­cito o amparo de Vossa Excelência, em quem venero relevantes prerrogativas para semelhan­te patrocínio; porque se é próprio de príncipes o amparar a quem os busca, Vossa Excelência o é não menos na generosidade de seu ânimo, que na regalia de seu sangue, com cuja tinta trasla­dou em Vossa Excelência a natureza o exemplar das heróicas prendas de seus ilustríssimos progenitores, de quem como águia legítima não de­generou a Sua Soberania: a Vossa Excelência ve­nera o estado do Reino por Conselheiro o mais político, pois assim sabe nele propor as dificul­dades, e investigar os meios. A Vossa Excelên­cia faz o nosso sereníssimo Monarca árbitro dos negócios mais árduos, e arquivo dos segredos mais íntimos, repartindo, ou descansando em generoso Atlante o grande peso de toda a esfera lusitana; nela re­conhecem a Vossa Excelência por luminar, ou astro mui benéfico, tantos quantos são os que participam das continuadas influências de sua grandeza, a qual como logra propriedades de Sol, a todos alcança com seus benignos influxos; assim o experimentam tantas viúvas, a quem Vossa Excelência socorre compassivo, tantas don­zelas a quem dota liberal, tantas mulheres que têm o título de visitadas, a quem se não visita sua pessoa, remedeia todos os meses sua muni­ficência, sendo esta em Vossa Excelência tão fe­cunda, como o mostram outras muitas esmolas, que por sua mão faz, além das que em trigo, e dinheiro, todo o ano reparte por seu esmoler e pároco, que são dois contínuos aquedutos, pe­los quais perenemente corre a fonte de sua li­beralidade; a esta dá Vossa Excelência muito maiores realces, quando tão pia e profusamen­te a exercita com o sagrado, ornando e enrique­cendo os templos, especialmente o em que foi batizado, a quem consignou todos os anos co­piosa côngrua para seu culto, favorecendo com toda a grandeza as comunidades, provendo com larga mão as Religiões do que necessitam, como o confessa a Seráfica Família do grande Patriar­ca São Francisco, e dando aos conventos pobres das religiosas vestiaria para todas, sendo a sua caridade como fogo, que nunca diz basta para dar, enquanto acha necessidades que socorrer; esta lhe conciliou a Vossa Excelência o renom­bre de Pai da Pobreza, título entre os muitos que logra o mais ilustre, pois tanto o assemelha ao mesmo Deus, que por ser o sumo Bem, sempre se está comunicando a todos.

 

Mas como nos astros não só há influxos, se­não também luzes, os brilhantes reflexos das de Vossa Excelência bem se viram em todos os tri­bunais deste Reino, que foram os iluminados zodíacos, onde giraram tanto tempo seus res­plandores: aqui luziu a sua justiça com raios sem­pre diretos, porque nunca houve coisa que pu­desse torcer, nem ainda inclinar a sua retidão: aqui brilhou o seu zelo com luzes tão vivas, que nada pode diminuir sua eficácia, nem res­friar o intenso de sua atividade, sendo em Vos­sa Excelência este zelo tão geral e pronto para todas as matérias tocantes ao bem do Reino, que por causa deste o levou no tempo presente dos tribunais aos exércitos, e da corte para a campa­nha, na qual se houvera mais, ou maiores oca­siões para a peleja, o admiráramos todos vivo retrato daquele famoso Marte lusitano, o Se­nhor Nuno Álvares Pereira, de quem Vossa Ex­celência herdou o valor com o nome, e com o sangue a generosidade, e ficara conhecendo o mundo como na paz e na guerra era Vossa Ex­celência sempre César.

 

Bem certificado estava de seu marcial âni­mo, e militar ciência o nosso Sereníssimo Mo­narca, pois em sábado 4 de outubro lhe encar­regou o governo da primeira linha do exército, para que dirigisse a marcha dele ao sítio que se pretendia, empresa tão difícil em si, como pelas circunstâncias para Vossa Excelência gloriosa, porque obedecendo com pronto rendimento à real vontade e encarregando-se com singular prudência desta ação, que Sua Majestade lhe fiara, fez marchar o exército com tão admirável ordem, que todos os cabos nacionais e estran­geiros concorreram a dar-lhe os parabéns do acerto com que Vossa Excelência desempenhou felizmente o bom sucesso, que nesta empresa se desejava: bem conheceram a Vossa Excelên­cia por herói capaz e digno de outras maiores as Majestades ambas, pois na bataria, que se fez no Porto de Águeda em sete de outubro, ven­do-o livre das balas do inimigo, especialmente de uma que lhe chamuscou a anca e cauda do cavalo, em que andava montado, não podendo dissimular o seu júbilo, davam também multi­plicados parabéns a Vossa Excelência de esca­par a tantos perigos, em que o meteu o seu va­lor, e de que o livrou a Providência Divina, fa­vor bem merecido da piedade com que Vossa Excelência socorria na campanha aos soldados com tão repetidas esmolas, escudos fortíssimos que o defendem nos maiores apertos da terra, ao mesmo tempo que lhe servem de poderosas armas, com que Vossa Excelência está conquis­tando o céu. Mais pudera dizer de outras mui­tas heróicas ações, relevantes prendas e singu­lares virtudes de Vossa Excelência, se este epi­logado papel fora capaz de tanto empenho; po­rém, como nele não cabe a multiplicidade de tantos títulos, quantos as acreditam, seria teme­ridade querer recopilar um mar imenso em tão limitada concha, e copiar figura tão agigantada em um quadro tão pequeno, guarde Deus a pes­soa de Vossa Excelência por dilatados e felicís­simos anos para glória de Portugal.

 

De Vossa Excelência,

Menor súdito,

MANUEL BOTELHO DE OLIVEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PRÓLOGO AO LEITOR

 

Estas Rimas, que em quatro línguas estão compostas, ofereço neste lugar, para que se en­tenda que pode uma só Musa cantar com diver­sas vozes. No princípio celebra-se uma dama com o nome de Anarda, estilo antigo de alguns poetas, porque melhor se exprimem os afetos amorosos com experiências próprias: porém, por que não parecesse fastidioso o objeto, se agre­garam outras rimas a vários assuntos: e assim como a natureza se preza da variedade para for­mosura das coisas criadas, assim também o en­tendimento a deseja, para tirar o tédio da lição dos livros. Com o título de Música do Parnasso se quer publicar ao Mundo: porque a Poesia não é mais que um canto poético, ligando-se as vozes com certas medidas para consonância do metro.

 

Também se escreveram estas Rimas em qua­tro línguas, porque quis mostrar o seu autor com elas a notícia, que tinha de toda a Poesia, e se estimasse esta obra, quando não fosse pela ele­gância dos conceitos, ao menos pela multiplici­dade das línguas. O terceiro e quarto coro das Italianas e Latinas estão abreviados, porque além desta composição não ser vulgar para todos, bas­tava que se desse a conhecer em poucos versos. Também se acrescentaram duas Comédias, para que participasse este livro de toda a composição poética. Uma delas, Hay amigo para amigo, an­da impressa sem nome. A outra, Amor, Engaños, y Celos, sai novamente escrita: e juntas ambas fazem um breve descante aos quatro coros. Se te parecerem bem, terei o louvor por prêmio de meu trabalho; se te parecerem mal, ficarei com a censura por castigo de minha confiança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LICENÇAS DO SANTO OFÍCIO

 

Vistas as informações, pode se imprimir o li­vro, de que esta petição trata, e impresso tornará para se conferir, e dar licença que corra, e sem ela não correrá. Lisboa, 19 de julho de 1703.

Carneiro. Moniz. Frei Gonçalo. Hasse. Mon­teiro. Ribeiro.

 

 

 

 

Pode-se imprimir o livro, de que esta peti­ção trata, e impresso tornará para se dar licença para correr. Lisboa, 14 de outubro de 1703.

Frei Pedro, Bispo de Bona.

 

 

 

 

LICENÇA DO PAÇO

 

Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Ofício, & Ordinário, e depois de impresso tornará à Mesa para se conferir, e taxar e sem isso não correrá. Lisboa, 20 de outubro de 1703.

Oliveira. Azevedo.

 

 

 

 

Taxam este livro em trezentos e cinqüenta réis. Lisboa, 27 de fevereiro de 1705.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PRIMEIRO CORO DE RIMAS PORTUGUESAS EM VERSOS AMOROSOS DE ANARDA

 

 

 

 

SONETOS

 

 

 

ANARDA INVOCADA

Soneto I

 

Invoco agora Anarda lastimado

Do venturoso, esquivo sentimento:

Que quem motiva as ânsias do tormento,

É bem que explique as queixas do cuidado.

 

Melhor Musa será no verso amado,

Dando para favor do sábio intento

Por Hipocrene o lagrimoso alento,

E por louro o cabelo venerado.

 

Se a gentil formosura em seus primores

Toda ornada de flores se avalia,

Se tem como harmonia seus candores;

 

Bem pode dar agora Anarda impia

A meu rude discurso cultas flores,

A meu plectro feliz doce harmonia.

 

 

 

PERSUADE A ANARDA QUE AME

Soneto II

 

Anarda na estrela, que em piedoso

Vital influxo move amor querido,

Adverte no jasmim, que embranquecido

Cândida fé publica de amoroso.

 

Considera no Sol, que luminoso

Ama o jardim de flores guarnecido;

Na rosa adverte, que em coral florido

De Vênus veste o nácar lastimoso.

 

Anarda pois, não queiras arrogante

Com desdém singular de rigorosa

As armas desprezar do Deus triunfante:

 

Como de amor te livras poderosa,

Se em teu gesto florido e rutilante

És estrela, és jasmim, és Sol, és rosa?

 

 

 

PONDERAÇÃO DAS LÁGRIMAS DE ANARDA

Soneto III

 

Suspende, Anarda, as ânsias do alvedrio,

Quando a fortuna cegamente ordena

Essa dor, que dilatas pena a pena,

Esse aljôfar, que vertes fio a fio.

 

Se és dura rocha no rigor impio,

Se és brilhadora luz na fronte amena;

A triste chuva de cristais serena,

Da sucessiva prata embarga o rio.

 

Mas ai, que não depões o sentimento,

Para que em ti padeça rigor tanto,

Se tens meu coração no peito isento.

 

De sorte, pois, que no amoroso encanto

Avivas em teu peito o meu tormento,

Derramas por teus olhos o meu pranto.

 

 

 

SOL, E ANARDA

Soneto IV

 

O Sol ostenta a graça luminosa,

Anarda por luzida se pondera;

O Sol é brilhador na quarta esfera,

Brilha Anarda na esfera de formosa.

 

Fomenta o sol a chama calorosa,

Anarda ao peito viva chama altera,

O jasmim, cravo, e rosa ao Sol se esmera,

Cria Anarda o jasmim, o cravo, e rosa.

 

O Sol à sombra dá belos desmaios,

Com os olhos de Anarda a sombra é clara,

Pinta Maios o Sol, Anarda Maios.

 

Mas (desiguais só nisto) se repara

O Sol liberal sempre de seus raios,

Anarda de seus raios sempre avara.

 

 

 

MOSTRA-SE QUE A FERMOSURA ESQUIVA

NÃO PODE SER AMADA

Soneto V

 

A pedra Ímã, que em qualidade oculta

Naturalmente atrai o ferro impuro,

Se não vê do diamante o lustre puro,

Prende do ferro a simpatia inculta.

 

Porém logo a virtude dificulta,

Quando se ajunta c'o diamante duro:

Que um ódio até nas pedras é seguro,

Que até nas pedras uma inveja avulta.

 

Prendendo pois com atração formosa

A formosura, qual Ímã se aviva,

É diamante a dureza rigorosa;

 

Aquela junta com a dureza esquiva,

Não logra a simpatia de amorosa,

Perde a virtude logo de atrativa.

 

 

 

IRAS DE ANARDA CASTIGADAS

Soneto VI

 

Do cego Deus, Anarda, compelido

Vejo teu rosto, e digo meu tormento;

Digo para favor do sentimento,

Vejo para recreio do sentido;

 

As rosas de teu rosto desabrido,

De teus olhos o esquivo luzimento;

Este fulmina logo o raio isento

Estas espinham logo ao Deus Cupido.

 

Porém para experiências amorosas,

Quando de amor as ânsias atropelas,

As perfeições se mudam deslustrosas:

 

Porque tomando amor vingança delas,

Nos rigores te afeia as lindas rosas,

Nas iras te escurece as luzes belas.

 

 

 

VENDO A ANARDA DEPÕE O SENTIMENTO

Soneto VII

 

A Serpe, que adornando várias cores,

Com passos mais oblíquos, que serenos,

Entre belos jardins, prados amenos,

É maio errante de torcidas flores;

 

Se quer matar da sede os desfavores,

Os cristais bebe co'a peçonha menos,

Porque não morra c'os mortais venenos,

Se acaso gosta dos vitais licores.

 

Assim também meu coração queixoso,

Na sede ardente do feliz cuidado

Bebe c'os olhos teu cristal fermoso;

 

Pois para não morrer no gosto amado,

Depõe logo o tormento venenoso,

Se acaso gosta o cristalino agrado.

 

 

 

CEGA DUAS VEZES, VENDO A ANARDA

Soneto VIII

 

Querendo ter Amor ardente ensaio,

Quando em teus olhos seu poder inflama,

Teus sóis me acendem logo chama a chama.

Teus sóis me cegam logo raio a raio.

 

Mas quando de teu rosto o belo Maio

Desdenha amores no rigor que aclama,

De meus olhos o pranto se derrama

Com viva queixa, com mortal desmaio,

 

De sorte, que padeço os resplandores,

Que em teus olhos luzentes sempre avivas,

E sinto de meu pranto os desfavores

 

Cego me fazem já com ânsias vivas

De teus olhos os sóis abrasadores,

De meus olhos as águas sucessivas.

 

 

 

RIGORES DE ANARDA NA OCASIÃO

DE UM TEMPORAL

Soneto IX

 

Agora o Céu com ventos duplicados,

E com setas de prata despedidas,

Se enfurece com nuvens denegridas,

E se irrita com golpes fulminados.

 

Quando Anarda em tormentos desprezados

Fulmina nas finezas padecidas

Os raios dos rigores contra as vidas,

As nuvens dos desdéns contra os cuidados.

 

Mas ũa, e outra tempestade encerra

Diverso mal nas amorosas calmas,

Ou quando forma da borrasca a guerra:

 

Porque perdendo Amor ilustres palmas,

Aquela é tempestade contra a terra,

Mas esta é tempestade contra as almas.

 

 

 

PONDERAÇÃO DO ROSTO,

E OLHOS DE ANARDA

Soneto X

 

Quando vejo de Anarda o rosto amado,

Vejo ao Céu, e ao jardim ser parecido;

Porque no assombro do primor luzido

Tem o Sol em seus olhos duplicado.

 

Nas faces considero equivocado

De açucenas, e rosas o vestido;

Porque se vê nas faces reduzido

Todo o Império de Flora venerado.

 

Nos olhos, e nas faces mais galharda

Ao Céu prefere quando inflama os raios,

E prefere ao jardim, se as flores guarda:

 

Enfim dando ao jardim, e ao Céu desmaios,

O Céu ostenta um Sol; dois sóis Anarda,

Um Maio o jardim logra; ela dois Maios.

 

 

 

NÃO PODENDO VER A ANARDA

PELO ESTORVO DE ŨA PLANTA

Soneto XI

 

Essa árvore, que em duro sentimento,

Quando não posso ver teu rosto amado,

Opõe grilhões amenos ao cuidado,

Verdes embargos forma ao pensamento;

 

Parece que em soberbo valimento,

Como a vara do próprio, que há logrado,

Dando essa glória a seu frondoso estado,

Nega essa glória a meu gentil tormento.

 

Porém para favor dos meus sentidos

Essas folhas castiguem rigorosas,

Os teus olhos, Anarda, os meus gemidos.

 

Pois caiam, sequem pois folhas ditosas,

de meus ais aos ventos repetidos,

de teus sóis às chamas luminosas.

 

 

 

PONDERAÇÃO DO TEJO COM ANARDA

Soneto XII

 

Tejo formoso, teu rigor condeno,

Quando despojas altamente impio

Das lindas plantas o frondoso brio,

Dos férteis campos o tributo ameno.

 

Nas amorosas lágrimas, que ordeno,

Porque cresças em claro senhorio,

Corres ingrato ao lagrimoso rio,

Vás fugitivo com desdém sereno.

 

Oh como representa o desdenhoso

Da bela Anarda teu cristal ativo,

Neste, e naquele efeito lastimoso!

 

Em ti já vejo a Anarda, ó Tejo esquivo,

Se teu cristal se ostenta rigoroso,

Se teu cristal se mostra fugitivo.

 

 

 

AO SONO

Soneto XIII

 

Quando em mágoas me vejo atribulado,

Vem, sono, a meu desvelo padecido,

Refrigera os incêndios do sentido,

Os rigores suspende do cuidado.

 

Se no monte Cimério retirado

Triste lugar ocupas, te convido

Que venhas a meu peito entristecido,

Porque triste lugar se tem formado.

 

Se querem noite escura teus intentos,

E se querem silêncio; nas tristezas

Noite, e silêncio têm meus sentimentos:

 

Porque triste, e secreto nas ternezas,

É meu peito ũa noite de tormentos,

É meu peito um silêncio de finezas.

 

 

 

ANEL DE ANARDA PONDERADO

Soneto XIV

 

Esse vínculo, Anarda, luminoso,

Do mínimo jasmim prisão dourada,

Logra na mão beleza duplicada,

Quando logra na mão candor formoso.

 

Se te aprisiona seu favor lustroso,

Te retrata os efeitos de adorada;

Porque quando te adorna a luz amada,

Me aprisionas o peito venturoso.

 

Agora podem teus desdéns esquivos,

Na breve roda de ouro ver seguros,

Se cuidados, se incêndios logro ativos;

 

Pois nela considero em males duros,

Que tenho a roda dos cuidados vivos,

Que tenho o ouro dos incêndios puros.

 

 

 

ANARDA ESCULPIDA NO CORAÇÃO

LAGRIMOSO

Soneto XV

 

Quer esculpir artífice engenhoso

Ũa estátua de bronze fabricada,

Da natureza forma equivocada,

Da natureza imitador famoso.

 

No rigor do elemento luminoso,

(Contra as idades sendo eternizada)

Para esculpir a estátua imaginada,

Logo derrete o bronze lagrimoso.

 

Assim também no doce ardor que avivo,

Sendo artífice o Amor, que me desvela,

Quando de Anarda faz retrato vivo;

 

Derrete o coração na imagem dela,

Derramando do peito o pranto esquivo,

Esculpindo de Anarda a estátua bela.

 

 

 

ANARDA TEMEROSA DE UM RAIO

Soneto XVI

 

Bramando o Céu, o Céu resplandecendo,

Belo a um tempo se via, e rigoroso,

Em fugitivo ardor o Céu lustroso,

Em condensada voz o Céu tremendo.

 

Gira de um raio o golpe, não sofrendo

O capricho de ũa árvore frondoso:

Que contra o brio de um subir glorioso

Nunca falta de um raio o golpe horrendo.

 

Anarda vendo o raio desabrido,

Por altiva temeu seu golpe errante,

Mas logo o desengano foi sabido.

 

Não temas (disse eu logo) o fulminante:

Que nunca ofende o raio ao Céu luzido,

Que nunca teme ao raio o Sol brilhante.

 

 

 

EFEITOS CONTRÁRIOS DO RIGOR DE ANARDA

Soneto XVI

 

Anarda bela no rigor sofrido

Deseja a morte ao lastimoso peito,

Sem ver que em seu perigo a morte aceito,

Pois sempre vive Anarda em meu sentido:

 

Mas como o mortal golpe desabrido

Nunca exprimenta um infeliz sujeito,

Morro somente de amoroso efeito,

Nunca morro do golpe pretendido.

 

Teme em meu coração a Parca forte

O divino retrato, que convida

A meu peito amoroso imortal sorte.

 

De sorte pois, que em glória padecida

Anarda própria me deseja a morte,

Anarda própria me defende a vida.

 

 

 

ESPERANÇAS SEM LOGRO

Soneto XVIII

 

Se contra minha sorte enfim pelejo,

Que quereis, esperança magoada?

Se não vejo de Anarda o bem que agrada,

Não procureis o bem do que não vejo.

 

Quando frustrar-se o logro vos prevejo,

Sempre a ventura espero dilatada;

Não vejo o bem, não vejo a glória amada,

Mas que muito, se é cego o meu desejo?

 

Enfermais do temor, e não se alcança

O que sem cura quer vossa loucura;

E morrereis de vossa confiança.

 

Esperança não sois, porém se apura,

Que só nisto sereis certa esperança:

Em ser falsa esperança da ventura.

 

 

 

ENCARECE A FINEZA DO SEU TORMENTO

Soneto XIX

 

Meu pensamento está favorecido,

Quando cuida de Anarda o logro amado;

Ele se vê nas glórias do cuidado,

Eu me vejo nas penas do sentido.

 

Ele alcança o fermoso, eu o sofrido,

Ele presente vive, eu retirado;

Eu no potro de um mal atormentado,

Ele no bem, que logra, presumido.

 

Do pensamento está muito ofendida

Minha alma, do tormento desejosa,

Porque em glória se vê, bem que fingida:

 

Tão fina pois, que está por amorosa,

De um leve pensamento arrependida,

De um vão contentamento escrupulosa.

 

 

 

ROSA, E ANARDA

Soneto XX

 

Rosa da fermosura, Anarda bela

Igualmente se ostenta como a rosa;

Anarda mais que as flores é fermosa,

Mais fermosa que as flores brilha aquela.

 

A rosa com espinhos se desvela,

Arma-se Anarda espinhos de impiedosa;

Na fronte Anarda tem púrpura airosa,

A rosa é dos jardins purpúrea estrela.

 

Brota o carmim da rosa doce alento,

Respira olor de Anarda o carmim breve,

Ambas dos olhos são contentamento:

 

Mas esta diferença Anarda teve:

Que a rosa deve ao Sol seu luzimento,

O Sol seu luzimento a Anarda deve.

 

 

 

MADRIGAIS

 

 

NAVEGAÇÃO AMOROSA

Madrigal I

 

É meu peito navio,

São teus olhos o Norte,

A quem segue o alvedrio,

Amor Piloto forte;

Sendo as lágrimas mar, vento os suspiros,

A venda velas são, remos seus tiros.

 

 

 

PESCA AMOROSA

Madrigal II

 

Foi no mar de um cuidado

Meu coração pescado;

Anzóis os olhos belos;

São linhas teus cabelos

Com solta gentileza,

Cupido pescador, isca a beleza.

 

 

 

NAUFRÁGIO AMOROSO

Madrigal III

 

Querendo meu cuidado

Navegar venturoso,

Foi logo soçobrado

Em naufrágio amoroso;

E foram teus desdéns contrário vento,

Sendo baixo o meu vil merecimento.

 

 

 

EFEITOS CONTRÁRIOS DE ANARDA

Madrigal IV

 

Se sai Anarda ao prado,

Campa todo de flores matizado;

Se sai à praia ondosa,

Brilha toda de raios luminosa;

Enfim, se está presente,

Tudo se contente;

Mas eu nos desdéns, com que me assiste,

Quando presente está, me vejo triste.

 

 

 

PONDERAÇÃO DO ROSTO, E

SOBRANCELHAS DE ANARDA

Madrigal V

 

Se as sobrancelhas vejo,

Setas despedes contra o meu desejo;

Se do rosto os primores,

Em teu rosto se pintam várias cores;

Vejo, pois, para pena, e para gosto

As sobrancelhas arco, Íris o rosto.

 

 

 

ENCARECIMENTO DOS RIGORES DE ANARDA

Madrigal VI

 

Se meu peito padece,

O rochedo mais duro se enternece;

Se afino o sentimento,

O tronco se lastima do tormento;

Se acaso choro, e canto,

A fera se entristece do meu pranto;

 

Porém nunca estas dores

Abrandam, doce Anarda, teus rigores.

Oh condição de um peito!

Oh desigual efeito!

Que não possa abrandar ũa alma austera

O que abranda ao rochedo, ao tronco, à fera!

 

 

 

VER, E AMAR

Madrigal VII

 

Anarda vejo, e logo

A meu peito atormenta o brando fogo;

Enfim quando me inflama,

Procedendo da luz a bela chama,

Vejo por glórias, sinto por desmaios,

Relâmpagos de luz, de incêndios raios.

 

 

 

CABELO PRESO DE ANARDA

Madrigal VIII

 

Se esse vínculo belo

Prende, Divina ingrata, teu cabelo;

Justa prisão lhe ofende.

Quando em castigos prende a quem me prende;

Querendo a lei de Amor, quando o condena,

Que seja a própria culpa própria pena.

 

 

 

AO VÉU DE ANARDA

Madrigal IX

 

Negando um véu ditoso

Da bela Anarda o resplandor queixoso,

Beberam meus suspiros

De Amor as chamas, e do Amor os tiros;

De sorte que em motivos de meu gosto

Era venda do Amor o véu do rosto.

 

 

 

AO MESMO

Madrigal X

 

Se me encobres, tirana,

De teu rosto gentil a luz ufana,

Julga meu pensamento

Que hás de dar bem ao mal, gosto ao tormento;

Sendo esse linho, se padeço tanto,

Às chagas atadura, lenço ao pranto.

 

 

 

DESDÉM, E FERMOSURA

Madrigal XI

 

Querendo ver meu gosto

O Cândido e purpúreo de teu rosto,

Sinto o desdém tirano,

Que fulmina teu rosto soberano;

Mata-me o esquivo, o belo me convida,

Encontro a morte, quando busco a vida.

 

 

 

ANARDA ESCREVENDO

Madrigal XII

 

Quando escreves, ordena

Meu amor que te dite minha pena;

Para que decorada,

De ti seja lembrada:

Mas ai, que na lição da pena impia

Me botas os borrões da tirania.

 

 

 

NÃO PODE O AMOR PRENDER A ANARDA

Madrigal XIII

 

Amor, que a todos prendes

Naquele doce ardor que n'alma acendes,

Prende a Anarda, que dura

Isenta de teu fogo a fermosura;

Mas ai, que já não podes, pois primeiro

Em seus olhos ficaste prisioneiro.

 

 

 

SEPULCRO AMOROSO

Madrigal XIV

 

Já morro, doce ingrata,

Já teu rigor me mata:

Seja enterro o tormento,

Que inda morto alimento;

Por responsos as queixas,

Se tiras-me a vida e o amor me deixas;

E por sepulcro aceito,

Pois teu peito é de mármore, teu peito.

 

 

 

AMANTE PRESO

Madrigal XV

 

Anarda, fui primeiro

De teus valentes raios prisioneiro;

Prendeu-me agora o fado,

Às mãos de ũa desgraça castigado;

Tenho pois de prisões dobrado peso;

No corpo preso estou, n'alma estou preso.

 

 

 

SUSPIROS

Madrigal XVI

 

Quando o fogo se inflama,

Sobe ao Céu natural a nobre chama;

Verás o mesmo efeito,

Divina Anarda, no amoroso peito,

Que em brando desafogo

Sobe o suspiro ardente de meu fogo

A teu luzido rosto; e não me admiro,

Pois é teu rosto Céu, chama o suspiro.

 

 

 

ROSAS DE LISTÕES NO CABELO DE ANARDA

Madrigal XVII

 

Quando, Anarda, hás formado

As rosas de listões nesse toucado,

Julga meu pensamento

Que produz os listões teu luzimento;

Que para florescer jardim tão belo,

São rosas os listões, Sol o cabelo.

 

 

 

DOUTORAMENTO AMOROSO

Madrigal XVIII

 

Anarda, o Deus Cupido

Entre as leis de constante

Dá por prêmio luzido

O venturoso grau de sábio amante;

São propinas forçosas

As finezas custosas;

As orações prudentes,

Os rogos eloqüentes;

Sendo Padrinho o agrado;

Doutor o coração, Borla o cuidado.

 

 

 

CONVENIÊNCIAS DO ROSTO, E PEITO

DE ANARDA

Madrigal XIX

 

Teu rosto por florido

Com belo rosicler se vê luzido;

Teu peito a meus amores

Brota agudos rigores;

Uniste enfim por bens, e penas minhas

No rosto rosas, e no peito espinhas.

 

 

 

AO MESMO

Madrigal XX

 

Ostentando esplendores,

Teu rosto vivifica mil candores;

Desprezando finezas,

Teu coração congela mil tibezas;

Por frio, e branco enfim chamar se deve

Neve teu coração, teu rosto neve.

 

 

 

ANARDA VENDO-SE A UM ESPELHO

Madrigal XXI

 

Anarda, que se apura

Como espelho gentil da fermosura,

Num espelho se via,

Dando dobrada luz ao claro dia;

De sorte que com próvido conselho

Retrata-se um espelho noutro espelho.

 

 

 

ANARDA JOGANDO A ESPADILHA

Madrigal XXII

 

Joga, Anarda formosa,

Espadilha amorosa:

Os Parceiros atentos

Sejam meus pensamentos;

Serão os matadores

Teus, esquivos rigores;

E por maior triunfo

A fermosura o preço,

Amor o trunfo.

 

 

 

TEME QUE SEU AMOR NÃO POSSA

ENCOBRIR-SE

Madrigal XXIII

 

Não pode, bela ingrata,

Encobrir-se este fogo, que me mata;

Que quando calo as dores,

Teme meu coração que entre os ardores

Das chamas, que deseja,

Meu peito se abra, e minha fé se veja.

 

 

 

DÉCIMAS

 

 

ANARDA VENDO-SE A UM ESPELHO

Décima 1

 

De Anarda o rosto luzia

No vidro, que o retratava,

E tão belo se ostentava,

Que animado parecia:

Mas se em asseios do dia

No rosto o quarto farol

Vê seu lustroso arrebol;

Ali pondera meu gosto

O vidro espelho do rosto,

O rosto espelho do Sol.

 

 

 

2

 

É da piedade grandeza

Nesse espelho ver-se Anarda,

Pois ufano o espelho guarda

Duplicada a gentileza:

Considera-se fineza

Dobrando as belezas suas,

Pois contra as tristezas cruas

Dos amorosos enleios

Me repete dois recreios,

Me oferece Anardas duas.

 

 

 

3

 

De sorte que, sendo amante

Da beleza singular,

Posso outra beleza amar,

Sem tropeços de inconstante;

E sendo outra vez triunfante

Amor do peito, que adora

Ũa Anarda brilhadora,

Em dois rostos satisfeito,

Se em um fogo ardia o peito,

Em dois fogos arde agora.

 

 

 

4

 

Porém depois rigorosa,

Deixando o espelho lustroso,

Oh como fica queixoso,

Perdendo a cópia fermosa!

Creio pois que na amorosa

Lei o cego frechador,

Que decreta único ardor,

Não quis a imagem que inflama,

Por extinguir outra chama,

Por estorvar outro amor.

 

 

 

A UM CUPIDO DE OURO, QUE TRAZIA

PRESO ANARDA NOS CABELOS

Décima 1

 

Ao Cíprio rapaz, isento,

De Anarda prende o rigor;

E se prende ao mesmo Amor,

Que muito que a um pensamento?

no solto luzimento

nos olhos sempre amados,

Ali se vêem ponderados,

Vencedores, não vencidos,

Os seus olhos por Cupidos,

Os cabelos por dourados.

 

 

 

2

 

Se já não foi que o Deus cego

Quer à bela Anarda amar;

Que bem se pode invejar

De um Deus tão divino emprego.

Em feliz desassossego,

Sentindo amorosa brasa,

Parece n'ũa, e noutra asa,

Quando de amante se enleia,

Ouro não, com que se asseia,

Chama sim, com que se abrasa.

 

 

 

3

 

Creio já que disfarçado

Quer lograr Anarda bela,

E naquele ouro desvela

Luzimentos de um cuidado:

Pois qual Jove namorado

Daquele belo tesouro,

Um, e outro amante louro,

Ambos são no ardor querido,

Jove em ouro convertido,

Convertido Amor em ouro.

 

 

 

LACRE ATREVIDO A ŨA MÃO DE ANARDA

Décima 1

 

Quando a tanta neve pura

Liquida-se ardor luzente

Solicita o centro ardente

Nessa ardente fermosura;

Oh como nele se apura,

Para que explique meu rogo

De meu pranto o desafogo!

Pois quando o lacre se adverte,

Lágrimas de fogo verte,

Verto lágrimas de fogo.

 

 

 

2

 

Porém com vário rigor

Essa chama lagrimosa,

Ardendo na mão formosa,

Queima da neve o candor:

Mas em teu peito, que Amor

Nunca o transforma, sujeito,

Logra meu pranto outro efeito;

Pois quando padeço tanto,

Estilo o fogo do pranto,

Não queimo a neve do peito.

 

 

 

EXEMPLOS COM QUE SE CONSIDERA

AMANTE DE ANARDA

Décima 1

 

Qual Girassol por amante

Solicita o ingrato Sol

Tal meu peito Girassol

O Sol de Anarda brilhante;

E qual no Estio flamante,

Quer Zéfiro, e quer verdor

O prado: quer meu amor,

Abrasado na esquivança,

O verdor de ũa esperança,

O Zéfiro de um favor.

 

 

 

2

 

Qual o centro natural

Deseja o fogo nocivo,

Qual pretende o mar esquivo

Do rio ameno o cristal,

Tal busca em desejo igual

De Anarda no senhorio,

Que é centro de ardor impio,

Que é mar de cristais brilhante,

De meu peito o fogo amante,

De meu pranto o largo rio.

 

 

 

3

 

Qual o monte sublimado,

Qual a planta envelhecida;

Esta de folhas despida,

Aquele de cãs nevado;

Querem num, e noutro estado

De Abril o belo horizonte;

Tais querem de Anarda a fronte,

Como Abril de graça tanta,

De meu pensamento a planta,

De minha firmeza o monte.

 

 

 

SONO POUCO PERMANENTE

Décima

 

Quando, Anarda, o sono brando

Quer suspender meus tormentos,

Condenando os sentimentos,

Os desvelos embargando;

Dura pouco, porque quando

Cuido que em belo arrebol

Estou vendo teu farol,

Foge o sono à cova fria;

Porque lhe amanhece o dia,

Porque lhe aparece o Sol.

 

 

 

COMPARAÇÕES NO RIGOR DE ANARDA

Décima

 

Quando Anarda me desdenha

Afetos de um coração,

É diamante Anarda? não,

Não diamante, porque é penha;

Penha não, porque se empenha,

Qual Áspid' seu rigor forte;

Áspid' não, que tem por sorte

Ser qual tigre na crueza;

Tigre não, que na fereza

Tem todo o império da Morte.

 

 

 

ROSTO DE ANARDA

Décima

 

O Sol em belos ensaios,

Por representar-se belo

Com luminoso desvelo

De teu rosto aprende os raios;

De teu rosto os lindos

Maios Únicas luzes apura

Com qualquer beleza pura,

De sorte que no arrebol

É fermosura do Sol,

Brilha Sol da fermosura.

 

 

 

CRAVO NA BOCA DE ANARDA

Décima

 

Quando a púrpura fermosa

Desse cravo, Anarda bela,

Em teu céu se jacta estrela,

Senão luzente, olorosa;

Equivoca-se lustrosa,

(Por não receber o agravo

De ser nessa boca escravo)

Pois é, quando o cravo a toca,

O cravo, cravo da boca,

A boca, boca de cravo.

 

 

 

ROSA NA MÃO DE ANARDA ENVERGONHADA

Décima

 

Na bela Anarda ũa rosa,

Brilhando desvanecida,

Padeceu por atrevida

Menoscabos de fermosa:

Porém não, que vergonhosa

Com mais bela galhardia

Do que era d'antes, se via;

Pois quando se envergonhava,

Mais vermelha se jactava,

Mais fermosa se corria.

 

 

 

COMPARAÇÃO DO ROSTO DE MEDUSA

COM O DE ANARDA

Décima

 

Contra amorosas venturas

É de Medusa teu rosto,

E por castigo do gosto

São cobras as iras duras;

As transformações seguras

Acharás em meus amores;

Pois ficando nos ardores

Todo mudado em finezas,

Sou firme pedra às tristezas,

Sou dura pedra aos rigores.

 

 

 

COMPARAÇÃO DOS GIGANTES COM

OS PENSAMENTOS AMOROSOS

Décima

 

Ao Céu de Anarda lustroso

Com montes de vãos intentos

Subiram meus pensamentos

Gigantes, no ardor queixoso;

Fulminou logo o penoso

Castigo de desfavores

Apesar de altos primores;

Que em merecidos desmaios

Seus rigores foram raios

Etnas foram meus ardores.

 

 

 

ECO DE ANARDA

Décima

 

Entre males desvelados,

Entre desvelos constantes,

Entre constâncias amantes,

Entre amores castigados,

Entre castigos chorados,

E choros, que o peito guarda,

Chamo sempre a bela Anarda;

E logo a meu mal, fiel,

Eco de Anarda cruel

Só responde ao peito que Arda.

 

 

 

REDONDILHAS

 

 

ANARDA AMEAÇANDO-LHE A MORTE

Redondilhas

 

Ameaças o morrer:

Como morte podes dar,

Se estou morto de um penar,

Se estou morto de um querer?

 

Mas é tal essa fereza,

Que quer dar a um fino amor

Ũa morte com rigor,

Outra morte co'a beleza.

 

E com razão prevenida

Quis duplicar esta sorte,

Que a pena daquele é morte,

Que a glória daquela é vida.

 

Da morte me contento,

Se por nojo de mal tanto

Derrames um belo pranto,

Formes um doce lamento.

 

Tornarás meu peito ativo

Com tão divino conforto,

Se ao rigor da Parca morto,

Por glória do pranto vivo.

 

De teu rigor aplaudidas

Serão piedosas grandezas;

Por que te armes mais ferezas,

Por que te entregue mais vidas.

 

Quando teu desdém se alista,

Impedes o golpe atroz;

Pois quando matas co'a voz,

Alentas então co'a vista.

 

Confunde pois a nociva

Impiedade, que te exorta,

A um tempo ũa vida morta,

A um tempo ũa morte viva.

 

De teu rigor os abrolhos

Se rompem da vida os laços,

Hei de morrer em teus braços,

Hei de enterrar-me em teus olhos.

 

 

 

QUE DE SER O AMOR UM SÓ

Redondilhas

 

Uma alma do abrasador

Frecheiro é gloriosa palma;

Quem pois sacrifica ũa alma,

Deve adorar um Amor.

 

Rende Amor por majestade

Do entender a excelência,

Da memória a persistência,

A inclinação da vontade.

 

Prendem belas sujeições

O coração nos ardores;

Quem pois cria dois amores,

Há mister dois corações.

 

Inconstante de lograr

Dois fogos, por mais que anele:

Pois quando cuida naquele,

Neste já deixa de amar.

 

Inteiro amante não é,

Que no florido primor,

Partida a flor, não é flor,

Partida a fé, não é fé.

 

Amor é Sol no sujeito

Que belos incêndios cria;

E se brilha um Sol no dia,

Um amor brilhe no peito.

 

Veneno amor é julgado;

Mate pois, quando o condeno,

Se um veneno, outro veneno,

Um cuidado, outro cuidado.

 

de ser no coração

Um, ou outro emprego belo,

Agrado sim, não desvelo,

Faísca sim, chama não.

 

Venero enfim, se avalio

Entre muitos um desejo,

Muitas damas no cortejo,

Ũa Anarda no alvedrio.

 

 

 

QUE O AMOR HÁ DE SER DESCOBERTO

Redondilhas

 

Se brilha um fogo luzido,

(O mesmo no Amor é certo)

Arder não pode encoberto,

Luzir não pode escondido.

 

Se é raio Amor, rompa o medo,

Quando os sentidos inflama,

Patenteie a luz da chama,

Rasgue a nuvem do segredo.

 

Se quando a beleza adora,

Qual harmonia se estuda;

Nunca a harmonia foi muda,

Sempre a harmonia é sonora.

 

Atreva-se o Amor constante

A publicar o que sente;

Não desmaie, se é valente,

Não se encolha, se é gigante.

 

Se brilha qual perla, ou rosa,

Nunca estimações ordena,

No botão a rosa amena,

Na concha a perla fermosa.

 

Cupido n'afeição louca

Este intento há persuadido;

Os olhos cerra Cupido,

Não cerra Cupido a boca.

 

Se Amor de ave tem a empresa,

Quando o encerra algum desprezo

Por violência vive preso,

Porém não por natureza.

 

Quando Amor se mostra, é certo

Que, como se vê despido,

Não se encobre Amor vestido,

Mostra-se Amor descoberto.

 

Anarda pois, no Amor ledo,

Por mais que silêncios gozes,

Se o cala o medo das vozes,

Dizem-no as vozes do medo.

 

 

 

ROMANCES

 

 

ANARDA PASSANDO O TEJO EM UMA BARCA

Romance 1

 

O Cristal do Tejo Anarda

Em ditosa barca sulca;

Qual perla, Anarda se alinda,

Qual concha, a barca se encurva.

 

Se falta o vento, Cupido

Batendo as asas com fúria,

Zéfiro alenta amoroso,

Aura respira segura.

 

Aumenta o Tejo seus logros,

Que com tanta fermosura

Cristal em seu colo bebe,

Ouro em seu cabelo usurpa.

 

Se bem nas águas copiado,

Ali se viam confusas

Ondas de ouro no cabelo,

E do cristal ondas puras.

 

Já deixa o nome de rio,

Oceano se assegura,

Pois a branca Tétis logra,

Pois o claro Sol oculta.

 

Corta o aljofre escumoso,

Que como Vênus se julga,

Ufano se incha o aljofre,

Cândida se ri a escuma.

 

De seus olhos foge o rio,

Que pois nele a vista ocupa,

Evitar seus olhos trata,

Fugir às chamas procura.

 

Logrando o cabelo a barca,

(Se bem feliz, o não furta)

Um por véu de ouro se jacta,

Outra por Argo se inculca.

 

Ardem chamas n'água, e como

Vivem das chamas, que apura,

São ditosas Salamandras

As que são nadantes turbas.

 

Meu peito também, que chora

De Anarda ausências perjuras,

O pranto em rio transforma,

O suspiro em vento muda.

 

 

 

ANARDA DOENTE

Romance II

 

Anarda enferma flutua,

E quando flutua enferma,

Jaz doente a fermosura,

Está fermosa a doença.

 

Se nela a doença triste

Bela está, que será nela

De tanta graça o donaire!

De tanta luz a beleza!

 

Se o mal é sombra, ou eclipse,

É pensão das luzes certa,

Que ao Céu uma sombra aspire,

Que ao Sol um eclipse ofenda.

 

Cruéis prognósticos vejo,

Pois são ameaças feras,

O Sol entre eclipses pardos,

O Céu entre nuvens densas.

 

Quando as belas flores sentem

De Anarda a grave tristeza,

Digam-no as rosas na face,

Digam-no os jasmins na testa.

 

Faltam flores, faltam luzes,

Pois ensina Anarda bela

Lições de flores ao Maio,

E leis de luzes à Esfera.

 

As almas se admiram todas

Em repugnâncias austeras,

Vendo enferma a mesma vida,

Vendo triste a glória mesma.

 

Desdenhado Amor se vinga,

Se n'ânsia a febre a condena;

Pois qual ânsia amor se forja,

Pois qual febre amor se gera.

 

Basta já, Frecheiro alado,

Bate as asas, solta a venda;

Do rosto o suor lhe alimpa,

Do peito o ardor refresca.

 

Vem depressa, Amor piedoso

Que te importa, pois sem ela

Em vão excitas as chamas,

Em vão despedes as setas.

 

Mas não teme a morte Anarda,

Que se ũa morte a cometa,

Com mil almas se defende,

Com mil corações se alenta.

 

De mais sim que nunca a Parca

Contra Anarda se atrevera,

Que contra as frechas da Morte

Fulmina de Amor as frechas.

 

 

 

ANARDA SANGRADA

Romance III

 

É bem que desate Anarda

De tanto sangue os embargos;

Sendo o sangue rio alegre,

Sendo Anarda Abril galhardo.

 

Ensina no braço, e sangue

Com branco, e purpúreo ensaio,

A ser neve à mesma neve,

A ser cravo ao mesmo cravo.

 

Se bem num, e noutro efeito,

Faz Amor milagre raro;

Pois a neves une rosas,

Pois Dezembros une a Maios.

 

Se Anarda é vida de todos,

E o sangue à vida comparo:

Tantas vidas vai perdendo,

Quantos corais vai brotando.

 

Pára um pouco, e como teme

De haver dado morte a tantos,

Ficava presa à corrente,

Ficava sem sangue o braço.

 

E não mata a sangue frio,

Se com sangue está matando;

Pois aviva mil ardores,

Pois abrasa mil cuidados.

 

A sangue, e fogo publica

Guerra a meu peito abrasado;

A sangue em corais vertidos,

A fogo em olhos tiranos.

 

Corre o sangue, porque dizem

Que está corrido, admirando

Do rosto o carmim confuso,

Da boca o nácar rasgado.

 

 

 

ANARDA CHORANDO

Romance IV

 

Se o mar da beleza temes,

Alerta, amoroso peito,

Alije-se uma esperança,

Amaine-se um pensamento.

 

Tempestades lagrimosas

Te provocam os receios;

Pois vejo o dia nublado,

Pois não vejo o Céu sereno.

 

Porém não temas, covarde,

Que na cor do rosto belo

Navego em maré de rosas,

Em um mar leite navego.

 

Mas inda naqueles olhos

Fatal prodígio me temo;

Quem viu água em brasas duas?

Quem viu chuva em dois luzeiros?

 

Não são piedade os suspiros,

Nem seu pranto, pois é certo

Brotar chamas ũa pedra,

Abrir fontes um rochedo.

 

Se são Astros, que me influem,

Amor, com razão receio

Impiedades nos cuidados,

Infortúnios nos desejos.

 

Vai a meu peito, e seus olhos

Pelo amor, pelo tormento

Da vida os fios cortando,

Do pranto os fios vertendo.

 

Naquelas águas Cupido,

Por avaro, e por severo,

Das chamas excita a sede,

Das setas amola o ferro.

 

E quando as lágrimas param

Nas gentis faces, pondero

Que se faz rubi, parando,

O que era aljofre correndo.

 

 

 

ANARDA COLHENDO NEVE

Romance V

 

Colhe a neve a bela Anarda,

E nos peitos incendidos

Contra delitos de fogo

Arma de neve castigos.

 

Na brancura, na tibieza

Tem dois triunfos unidos;

Vence a neve à mesma neve,

Vence o frio ao mesmo frio.

 

Congela-se, e se derrete

De sorte, que em branco estilo

A um desdém se há congelado

A dois sóis se há derretido.

 

Se não é que os candores

Daquela neve vencidos,

Liquidam-se pranto a pranto,

Lastimam-se fio a fio.

 

As mãos escurecem tanto

A neve, que em pasmos lindos

O que era prata chuvosa,

Ficava azeviche tíbio.

 

A seu Sol suspiros voam,

E tornam por atrevidos,

Como exalações do peito,

Em nevados desperdiços.

 

Da neve tiros me vibra,

E felizmente imagino

Que não são tiros de neve,

Que são mãos de Anarda os tiros.

 

Frustra a neve seus efeitos,

Que me tinham defendido,

De Anarda o Sol luminoso,

De Amor o fogo nocivo.

 

 

 

ANARDA CINGINDO UMA ESPADA

Romance VI

 

Varonilmente arrogante

Anarda se considera,

na fereza da espada,

na espada da fereza.

 

Em dois assombros unidas,

Duas Deusas se vêem nela;

Fermosa Vênus se aclama,

Armada Palas se ostenta.

 

Não é muito que valente

Se preze, pois sempre altera,

Valentias no donaire,

Valentias na beleza.

 

Quis aumentar os rigores;

Por que matasse soberba,

da beleza nas luzes,

do ferro nas violências.

 

Porém parece frustrado,

Se o mortal ferro se empenha;

Porque quando esgrime o ferro,

Já deu morte à gentileza.

 

Porém quando mata os peitos,

Que ressuscitam de -la,

Noutra morte os ameaça,

Noutra vida os atropela.

 

Se já não é, que cingindo

Dura espada, representa

Da beleza a guerra dura,

Que a beleza é dura guerra.

 

Armada do agrado, e ferro,

Um, e outro brio aumenta,

Sendo mais que armada amada,

Mais que belicosa bela.

 

Desigual c'o Deus menino

Se arma, ela a luz, ele a venda,

Ela ornada, ele despido,

Ela a espada, Amor a frecha.

 

 

 

Volta

 

Deixa as armas, lhe disse,

Cruel, atenta

Que nas luzes fulminas

Armas mais feras.

 

Se é para render vidas,

As armas deixa;

Todo o peito a teus olhos

A vida entrega.

 

De ponto em branco armada

Sempre te asseias,

De ponto a boca em branco

A fronte amena.

 

 

 

ANARDA VISTA DE NOITE

Romance VII

 

Contra os impérios da noite

Anarda bela se vê,

Que ta noite mal podia

A tantos sóis ofender.

 

Oh como a noite se queixa

Contra a brilhadora lei!

Pois rompem seu privilégio,

Pois revogam seu poder.

 

Só nisto noite parece,

Que em seu rosto, olhos cruéis,

Cândida Lua descobre,

Luzidas estrelas tem.

 

Se no inferno condenada

Habita a noite infiel;

Como pode a noite infausta

A glória de Anarda ver?

 

Se conduz a noite o sono,

Não pode permanecer,

Que Anarda embarga o repouso,

Que Anarda desvela a fé.

 

Se a noite afeta silêncios,

Não pode silêncios ter;

Porque em queixa lastimosa

Clama o suspiro fiel.

 

Se borrifa águas de Letes,

Não pode o Letes verter;

Pois dela se acordam todos,

Dela se esquece ninguém.

 

Deixa Anarda tantas luzes,

Que inda a noite em seu temer

Oculta Anarda, se encolhe,

Ausente o Sol, se detém.

 

 

 

ANARDA SAINDO FORA

Romance VIII

 

Alerta peitos, alerta,

Que sai a gentil Anarda,

Aquele acinte das rosas,

Aquele arrufo das graças.

 

Desafia a todo o peito,

Ilustremente alentada,

Tendo a graça valentona,

Tendo a beleza fidalga.

 

Ostenta com dois motivos,

Mui soberba, mui bizarra,

O seu brio à Portuguesa,

O seu pico à Castelhana.

 

Com seus olhos de azeviche,

Com sua flórida cara

Aos astros dá belas figas,

Aos jasmins faz muitas raivas.

 

Mostrando-se mui senhora,

Aos escravos peitos dava

De um menosprezo as injúrias,

De um rigor as bofetadas.

 

Ao mesmo tempo se juntam

Na fermosura adorada

Os rigores de Quaresma

Entre alegrias de Páscoa.

 

Estocadas dá de penas,

De amores fulmina balas,

Se as graças desembainha,

Se os resplandores dispara.

 

Nas mangas de holanda bela

Contra Amor rebelde se arma;

Por Holanda a holanda vejo,

Por mangas receio as mangas.

 

Castigando-a por traidora

O Rei menino, formava

O cadafalso do colo,

O degolado da gala.

 

É Céu a beleza sua,

Quando o manto se adornava,

Servindo o manto de glória,

Servindo a garça de graça.

 

 

 

 

VERSOS VÁRIOS QUE PERTENCEM AO PRIMEIRO CORO DAS RIMAS PORTUGUESAS ESCRITOS A VÁRIOS ASSUNTOS

 

 

 

 

À MORTE FELICÍSSIMA DE UM JAVALI

PELO TIRO, QUE NELE FEZ ŨA INFANTA

DE PORTUGAL

Soneto I

 

Não sei se diga (oh bruto) que viveste,

Ou se alcançaste morte venturosa;

Pois morrendo da destra valorosa,

Melhor vida na morte mereceste.

 

Esse tiro fatal, de que morreste,

Em ti fez ũa ação generosa,

Que entre o fogo da pólvora ditosa

Da nobre glória o fogo recebeste.

 

Deves agradecer essa ferida,

Quando esse tiro o coração te inflama,

Pois a maior grandeza te convida:

 

De sorte, que te abriu do golpe a chama

Uma porta perpétua para a vida,

Ũa boca sonora para a fama.

 

 

 

A UM GRANDE SUJEITO INVEJADO,

E APLAUDIDO

Soneto II

 

Temerária, soberba, confiada,

Por altiva, por densa, por lustrosa,

A exalação, a Névoa, a Mariposa,

Sobe ao Sol, cobre o dia, a luz lhe enfada.

 

Castigada, desfeita, malograda,

Por ousada, por débil, por briosa,

Ao raio, ao resplandor, à luz fermosa,

Cai triste, fica vã, morre abrasada.

 

Contra vós solicita, empenha, altera,

Vil afeto, ira cega, ação perjura,

Forte ódio, rumor falso, inveja fera.

 

Esta cai, morre aquele, este não dura,

Que em vós logra, em vós acha, em vós venera,

Claro Sol, dia cândido, luz pura.

 

 

 

A FREI JOSÉ, RELIGIOSO DESCALÇO,

PREGANDO NA FESTA DE SÃO JOSÉ

Soneto III

 

Hoje, José, vosso discurso aclama

Do Divino José sacros primores;

E vós ganhando aplauso em seus louvores,

Por um José outro José se afama:

 

Um, e outro José maior se chama,

Ele dos Santos, vós dos Pregadores;

E o nome de José obra melhores

Nele aumentos de graça, em vós de fama.

 

Com tanta discrição, assombro tanto

Vosso discurso seu louvor provoca,

Que vossa boca infunde doce encanto:

 

E para ser perfeita no que toca,

Se fala vossa boca em José Santo,

Fala o Santo José por vossa boca.

 

 

 

A AFONSO FURTADO RIOS E MENDONÇA

SAINDO DO PORTO DE LISBOA A GOVERNAR

O ESTADO DO BRASIL, EM OCASIÃO

TEMPESTUOSA, HAVENDO DEPOIS

BONANÇA NOS MARES

Soneto IV

 

Entre horrores cruéis do crespo vento

Cortais, Afonso, o pélago arrogante,

Vós constante no brio, ele inconstante,

Ele em frio cristal, vós no ardimento.

 

Se nos conflitos do Mavórcio intento

Marte vos respeitou sempre triunfante,

Venceis no mar de um Deus o Reino errante,

E na terra de um Deus o forte alento.

 

Perde Netuno as iras obediente,

Ou entrega seus cerúleos senhorios,

Afonso invicto, a vosso braço ardente,

 

E por glória maior de vossos brios

Prostra ao vosso Bastão o seu Tridente,

Obedece seu mar a vossos Rios.

 

 

 

AO MESMO SENHOR, ENTRANDO

NO PORTO DA BAHIA NA MESMA OCASIÃO

TEMPESTUOSA, HAVENDO ANTES

BONANÇA NOS MARES

Soneto V

 

Nos marítimos reinos imperioso

Éreis do Rei Netuno obedecido,

Com vosso ilustre jugo enobrecido,

Inchado o mar se viu por venturoso.

 

Tétis vos queria para esposo,

Anfitrite vos tem favorecido;

Prendia amor ao Bóreas atrevido,

E desatava ao Zéfiro amoroso.

 

Mas sabendo Netuno o vosso cargo,

Vossa ausência previu, e no Hemisfério

Borrascas move com tormento amargo:

 

Pois sente que com fácil vitupério

Deixeis de seu cristal o império largo,

E da terra busqueis o novo Império.

 

 

 

À MORTE DO DESEMBARGADOR JERÔNIMO

DE E CUNHA

Soneto VI

 

Ministro douto, afável, comedido,

Discreto, pio, reto, e respeitado,

Foste de todos igualmente amado,

Como foste de todos bem sentido.

 

Morreste; porém cuido persuadido

Que não morreste não, porque lembrado

Vives nos corações tão retratado,

Como se nunca foras fenecido.

 

Inda que contra nós a Parca corte

Os teus fios vitais por despedidas,

Não temas de que acabes dessa sorte;

 

Antes entre memórias repetidas,

Se ũa vida perdeste em ũa morte,

Nos corações cobraste muitas vidas.

 

 

 

AO ASTROLÁBIO INVENTADO, E FABRICADO

PELO ENGENHO DO REVERENDO PADRE

MESTRE JACOBO ESTANCEL, RELIGIOSO

DA COMPANHIA

Soneto VII

 

Artífice engenhoso da escultura,

Famoso Mestre da cerúlea via,

Que quanto discorreis na Astrologia,

Tudo fácil fazeis na Arquitetura;

 

Neste Astrolábio a fama vos segura,

Que pouco se há mister ver meio o dia,

Que no Zênite está da mor valia,

Quando a ciência luz na mor Altura.

 

Tomais o Sol com pensamento leve;

Dédalo sábio o Mundo vos aclama,

Quando invento tão raro se vos deve.

 

E quando vosso nome mais se afama,

Sendo a terra a seus vôos orbe breve,

Tomais o Sol por orbe à vossa fama.

 

 

 

AO GENERAL JOÃO CORREIA DE

VINDO DA ÍNDIA

Soneto VIII

 

Quem vos vê sem tropeços de inconstante,

Quem vos trata sem notas de invejoso,

Vos rende o coração por amoroso,

Vos tributa a vontade por amante.

 

Na Plaga Oriental será constante

A fama em vosso nome generoso;

Que são vossas empresas, Sá famoso,

Melhores asas a seu vôo errante.

 

Entre o laço de afável senhorio

Correia sois enfim, que a quem vos ama,

A vontade lhe atais, sem ter desvio.

 

sois: e quando o Mundo vos aclama,

Preservais com o sal de vosso brio

Da corrupção dos tempos vossa fama.

 

 

 

À VIDA SOLITÁRIA

Soneto IX

 

Que doce vida, que gentil ventura,

Que bem suave, que descanso eterno,

Da paz armado, livre do governo,

Se logra alegre, firme se assegura!

 

Mal não molesta, foge a desventura,

Na Primavera alegre, ou duro Inverno,

Muito perto do Céu, longe do Inferno,

O tempo passa, o passatempo atura.

 

A riqueza não quer, de honra não trata,

Quieta a vida, firme o pensamento,

Sem temer da fortuna a fúria ingrata:

 

Porém atento ao rio, ao bosque atento,

Tem por riqueza igual do rio a prata,

Por aura honrosa tem do bosque o vento.

 

 

 

AO CRAVO

Soneto X

 

Quando rei dos floridos esplendores,

Te reconhece Abril, te aclama o prado,

Em sólio de esmeralda entronizado,

Da púrpura tivestes os primores.

 

Luzes qual Sol entre Astros brilhadores,

Se bem Rei mais propício, e mais amado;

Que ele estrelas desterra em régio estado,

Em régio estado não desterras flores.

 

Porém deixa a soberba, que te anela

Essa fragrância, essa beleza culta,

Pois somente em queimar-te se desvela:

 

Que se teu luzimento mais se avulta,

Esse alento, que exala, é morte bela,

Essa grã, que se veste, é chama oculta.

 

 

 

À AÇUCENA

Soneto XI

 

Quando alentas por glória do sentido

O fermoso candor, que Abril enflora;

Não te aplaude, Açucena, a linda Flora,

Nevada estrela sim no Céu florido.

 

Entre aplausos do adorno embranquecido,

Quando ao prado amanhece a bela Aurora,

No luminos'Oriente ũa Alva chora,

Outra Alva nasce no jardim luzido.

 

Teme o fim, flor ufana, que a temê-lo

A própria fermosura te convida,

Que de abrasar-se no solar desvelo:

 

Porque aos raios do sol pouco advertida,

Neve te julgo já no candor belo,

Neve te julgo já na frágil vida.

 

 

 

CONTRA OS JULGADORES

Soneto XII

 

Que julgas, ó Ministro de Justiça?

Por que fazes das leis arbítrio errado?

Cuidas que dás sentença sem pecado?

Sendo que algum respeito mais te atiça.

 

Para obrar os enganos da injustiça,

Bem que teu peito vive confiado,

O entendimento tens todo arrastado

Por amor, ou por ódio, ou por cobiça.

 

Se tens amor, julgaste o que te manda;

Se tens ódio, no inferno tens o pleito,

Se tens cobiça, é bárbara, execranda.

 

Oh miséria fatal de todo o peito!

Que não basta o direito da demanda,

Se o Julgador te nega esse direito.

 

 

 

A UM CLARIM TOCADO NO SILÊNCIO

DA NOITE

Soneto XIII

 

Quando em acentos plácidos respiras,

Por modo estranho docemente entoas,

Que estando imóvel, pelos ares voas,

E inanimado, com vigor suspiras.

 

Da saudade cruel a dor me inspiras,

Despertas meu desejo, quando soas,

E se ao silêncio mudo não perdoas,

De minha pena o mesmo exemplo tiras.

 

Sentindo o mal de um padecido rogo,

Com que Nise se opõe a meu lamento,

Pretendes respirar-me o desafogo:

 

Mas contigo é diverso o meu tormento;

Que eu sinto de meu peito o ardente fogo,

Tu gozas de teu canto o doce vento.

 

 

 

À MORTE DO REVERENDO PADRE

ANTÔNIO VIEIRA

Soneto XIV

 

Fostes, Vieira, engenho tão subido,

Tão singular, e tão avantajado,

Que nunca sereis mais de outro imitado,

Bem que sejais de todos aplaudido.

 

Nas sacras Escrituras embebido,

Qual Agostinho, fostes celebrado;

Ele de África assombro venerado,

Vós de Europa portento esclarecido.

 

Morrestes; porém não; que ao

Mundo atroa Vossa pena, que aplausos multiplica,

Com que de eterna vida vos coroa;

 

E quando imortalmente se publica,

Em cada rasgo seu a fama voa,

Em cada escrito seu ũa alma fica.

 

 

 

À MORTE DE BERNARDO VIEIRA RAVASCO,

SECRETÁRIO DO ESTADO DO BRASIL

Soneto XV

 

Idéia ilustre do melhor desenho

Fostes entre o trabalho sucessivo,

E nas ordens do Estado sempre ativo

Era o zelo da Pátria o vosso empenho.

 

Ostentastes no oficio o desempenho

Com pronta execução, discurso vivo,

E formando da pena o vôo altivo,

Águia se viu de Apolo o vosso engenho.

 

Despede a morte, cegamente irada,

Contra vós ia seta rigorosa,

Mas não vos tira a vida dilatada:

 

Que na fama imortal, e gloriosa,

Se morrestes como Aguia sublimada,

Renasceis como Fênix generosa.

 

 

 

PONDERAÇÃO DA MORTE DO PADRE

ANTÔNIO VIEIRA, E SEU IRMÃO BERNARDO

VIEIRA AO MESMO TEMPO SUCEDIDAS

Soneto XVI

 

Criou Deus na celeste Arquitetura

Dois luzeiros com giro cuidadoso,

Um que presida ao dia luminoso,

Outro que presidisse à noite escura.

 

Dois luzeiros também de igual ventura

Criou na terra o Artífice piedoso;

Um, que foi da Escritura Sol famoso,

Outro, Planeta da ignorância impura.

 

Brilhando juntos um e outro luzeiro,

Com sábia discrição, siso profundo,

Não podia um viver sem companheiro.

 

Sucedeu justamente neste Mundo,

Que fenecendo aquele por primeiro,

Este também feneça por segundo.

 

 

 

A UM ILUSTRE EDIFÍCIO DE COLUNAS, E ARCOS

Soneto XVII

 

Essa de ilustre máquina beleza,

Que o tempo goza, e contra o tempo atura;

É soberbo primor da arquitetura,

É pródigo milagre da grandeza.

 

Fadiga da arte foi, que a Natureza

Inveja de seus brios mal segura;

E cada pedra, que nos Arcos dura,

É língua muda da fatal empresa.

 

Não teme da fortuna os vários cortes,

Nem do tempo os discursos por errantes,

Arma-se firme contra as leis das sortes.

 

Que nas colunas, e Arcos elegantes,

Contra a fortuna tem colunas fortes,

Contra o tempo fabrica Arcos triunfantes.

 

 

 

A DOM JOÃO DE LANCASTRO, NA OCASIÃO

DO INCÊNDIO DO MOSTEIRO, E IGREJA DE

SÃO BENTO EM LISBOA, FAZENDO-SE

MENÇÃO DE SE LIVRAR DO NAUFRÁGIO

DA BARRA DA BAHIA

Soneto XVIII

 

Arde o templo com fogo furibundo,

É tudo confusão, e teme a gente;

E todo o inferno se conjura ardente,

Para abrasar o templo no profundo.

 

Contra Lusbel, e seu poder imundo

Vos arrojais Católico e valente.

E abraçado co'a Virgem felizmente,

Livrastes de um eclipse ao Sol do Mundo.

 

Pagando a Virgem vossa fé ditosa,

Vendo-vos perigar no mar irado,

Vos livra agradecida, e generosa.

 

Em ambos fica o empenho executado;

Ela vos livra da água procelosa,

Vós a livrais do fogo conjurado.

 

 

 

AO MESMO SENHOR, TRAZENDO A IMAGEM

DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA, DESDE O

SEU TEMPLO ATÉ O MOSTEIRO DE SÃO

BENTO, SEM A LARGAR DE SEUS OMBROS

Soneto XIX

 

Com generoso brio o forte Atlante

(Sem recear do Céu o peso urgente)

Toma sobre seus ombros firmemente

Do céu superno o peso rutilante.

 

Vós também com primor da constante

Tomais em vossos ombros reverente

O Céu claro da Virgem preminente:

Que tem muito valor um peito amante.

 

Porém sois mais que Atlante esclarecido,

Que ele de Alcides pede a fortaleza

Para largar-lhe o Céu, como oprimido:

 

Diga a Fama que em ũa, e outra empresa

Ele largou o Céu, enfraquecido,

Vós sustentais o Céu, sem ter fraqueza.

 

 

 

AO MESMO SENHOR, MANDANDO A SEU

FILHO DOM RODRIGO DE LANCASTRO

PARA A ÍNDIA

Soneto XX

 

Mandastes vosso filho desejado

Aos perigos do pélago espantoso,

Porém Tétis, amando o gesto airoso,

Fará que nunca o mar seja alterado.

 

Nesta ausência cruel, avantajado

No serviço Real, por generoso,

Abalo vos não faz o amor queixoso,

Nem vos perturba o sangue magoado.

 

Vosso peito fiel ao Rei descobre

Que sois varão de ilustre fortaleza,

Para que com valor virtudes obre.

 

Pois em vós com plausível inteireza

É mais forte que o filho a Pátria nobre,

Mais o afeto leal, que a natureza.

 

 

 

AO NASCIMENTO DO PRÍNCIPE

NOSSO SENHOR

Soneto XXI

 

De um Régio tronco, de uma Régia rama,

Qual ramo nasces, e qual flor respiras;

E porque a todos singular prefiras,

Áustria te alenta, Portugal te inflama.

 

O Monstro alado no seu templo aclama

Futuras obras, a que tanto aspiras;

Que inda, quando entre lágrimas suspiras,

Geme o mar, treme a terra, voa a fama.

 

De Lísia tomarás o cetro honroso

E te verás na sacrossanta guerra

Absoluto Monarca glorioso.

 

A teu valor, que a tenra idade encerra,

Prometem para Império poderoso,

Marte o esforço, o mar Tétis, Jove a terra.

 

 

 

À MORTE DA SENHORA RAINHA DONA MARIA

SOFIA ISABEL, ALIVIADA COM A VIDA DOS

SENHORES PRÍNCIPES, E INFANTES

Soneto XXII

 

Sai o Sol dos crepúsculos do Oriente,

E começando em lúcidos ensaios,

Representa depois ardentes raios

No teatro do Pólo refulgente.

 

Chega depois ao Ocaso, e quando sente

(Bem que a seu resplandor floresçam Maios)

Na vida, que ostentou, mortais desmaios,

Os Astros ficam pelo Sol ausente.

 

Assim também alívios semelhantes

Deixa este Sol aos olhos nunca enxutos

Dos corações dos Lusos sempre amantes:

 

Porque nos deixa, sendo noite os lutos,

Nas Régias prendas Astros rutilantes,

Que sejam de seus raios substitutos.

 

 

 

OITAVAS

 

 

PANEGÍRICO

AO EXCELENTÍSSIMO SENHOR

MARQUÊS DE MARIALVA,

CONDE DE CANTANHEDE,

NO TEMPO QUE GOVERNAVA

AS ARMAS DE PORTUGAL

Oitavas

 

Agora, Aquiles Lusitano, agora,

Se tanto concedeis, se aspiro a tanto,

Deponde um pouco a lança vencedora,

Inclinai vossa fronte ao rude canto:

Se minha veia vossa fama adora,

Corra em Mavórcio, corra em sábio espanto,

Cheia de glória, de Hipocrene cheia,

No Mundo a fama, no discurso a veia.

 

 

 

II

 

Vós, Ramo ilustre de ũa excelsa planta,

Sua genealogia     Que em fecunda virtude enobrecida,

Entre os Troncos mais altos se levanta,

Donde               Grande na estirpe, no valor crescida:

descendem          Tão nobre sempre, que em nobreza tanta,

os Meneses         Com água não, com sangue foi nascida,

Da Infanta heróica; dando em tempos muitos

De espadas folhas, de vitórias fruitos.

 

 

 

III

 

Escassamente quinze Maios eram,

Que abrem do tenro buço os resplandores,

começou a          Quando logo no peito vos alteram

ensaiar-se na       Guerreira propensão vossos Maiores:

guerra com         Venatório exercício pretenderam

o exercício da       Vossos brios, se verdes superiores,

caça                 Vendo em desejos de tratar escudos

De Cíntia agrados não, de Marte estudos.

 

 

 

IV

 

Quantas vezes o bruto generoso,

Que em virtude do impulso soberano

Alterna as plantas gravemente airoso,

Correndo            Move a carreira loucamente ufano;

a cavalo             Seguia ao cervo, que de vós medroso,

Asas lhe dava aos pés o próprio dano,

De sorte que seguiu no mesmo alento,

Não bruto ao bruto, porém vento ao vento.

 

 

 

V

 

Entre os ócios da paz já valoroso

Ostentáveis, Senhor, ao mesmo instante

No peito denodado, e gesto airoso,

Alentado valor, belo semblante;

De sorte pois, que em gênio belicoso,

De sorte pois, que em gentileza amante,

Unindo as prensas de ũa, e outra sorte,

Éreis galhardo Heitor, Narciso forte.

 

 

 

VI

 

Na manhã tenra da florida idade,

Onde se ofusca a luz do entendimento,

Com névoas de apetites a vontade,

Com nuvens de loucura o pensamento:

Sua mocidade,      Na manhã tenra enfim a claridade

e prudência         Da prudência mostráveis sempre atento,

                       Qual dia belo, que em manhã celeste

Não se orna nuvens, não; raios se veste.

 

 

 

VII

 

Quando vosso primor alimentava

Os doutos partos do sutil juízo,

Lusitânia feliz vos aclamava,

                       Entre verde saber maduro siso:

Sua ciência na      Lusitania feliz vos admirava,

Mesma idade          Quando entre ostentações de sábio aviso

Frutificava em prevenido abono

Na verde Primavera o rico Outono.

 

 

 

VIII

 

Quando a Pátria sujeita se rendia

Do Castelhano Império à força crua,

                       Oh como infelizmente se afligia,

Restauração de     Fúnebre, triste, desmaiada, nua!

Portugal, em        Depois isenta da violência impia,

que teve grandes   Despindo as dores da tristeza sua

parte o Senhor      amou-se no ardor de vossa espada

Marquês             Festiva, alegre, valorosa, ornada.

 

 

 

IX

 

Descingindo da fronte belicosa

As verdes folhas da Arvore funesta,

Dourando a nuvem d'ânsia lastimosa,

O pranto serenou da mágoa infesta:

Ao mesmo          Adornada escarlata generosa,

Entre a voz popular da heróica festa

Juntou, prevendo o forte, e fausto agouro,

Na mão a espada, na cabeça o louro.

 

 

 

X

 

Roma já não se jacte por ufana

De Cúrcio o arrojo, na lealdade pio,

Não solenize já por soberana

De Fábio a testa, de Marcelo o brio:

Ao mesmo             Pois logra em vós a gente Lusitana,

Pois em vós com mais crédito avalio,

(Unindo três Heróis neste desvelo)

Outro Cúrcio, outro Fábio, outro Marcelo.

 

 

 

XI

 

Vendo o frecheiro Deus que valoroso

Vosso peito se opunha ao fogo ativo,

Himeneu vos prendeu por amoroso,

Cupido vos frechou por vingativo:

Seu casamento     Sendo vós igualmente amante airoso,

Vós logrando igualmente esforço altivo,

Se ornou no forte ardor, na doce chama

Mavorte o Mirto, Citeréia a grama.

 

 

 

XII

 

Diga este Amor aquela Aurora, aquela

Descendente do Herói, que em brio tanto

À Senhora           Brilhando em seu valor invicta estrela,

Marquesa de        De Lisia glória foi, d'Africa espanto:

Marialva com       Oh como agora se publica nela,

que casou o         Se a honestidade, se a beleza canto,

Senhor Marquês    Marialva por ilustre simpatia

É de virtudes mar, e Alva do dia!

 

 

 

XIII

 

Quando vos elegeu supremo Aluno

(Elvas opressa) a Pátria vacilante,

Entre Soldado Capitão, vos uno,

General das         O bastão nobre, a espada fulminante:

armas contra o     Quando rios de sangue vê Netuno,

sítio de Elvas        Pareceu um purpúreo, outro arrogante,

De Lísia o Reino, do Oceano o espelho

Por Arábia Feliz, por Mar Vermelho.

 

 

 

XIV

 

Campou de Lísia a Flor por renascida,

Murchou a Flor de Ibéria por cortada;

Aquela está no campo esclarecida,

Esta fica no campo desmaiada,

Ao mesmo          A campanha parece florescida,

Sendo no duro Inverno maltratada:

Porque tinta em correntes sanguinosas

De cravos se vestiu, se ornou de rosas.

 

 

 

XV

 

Ostentando no sítio heroicamente,

Excessos de valor Cipião famoso,

Ulisséia ficou Roma potente,

O Tejo pareceu Tibre glorioso;

E com tantos aplausos excelente

Mostrastes por assombro generoso

Na sorte alegre, no valor impio

Modesto o coração, prudente o brio.

 

 

 

XVI

 

Marquês vos honra o generoso Atlante,

Se do Céu não, da Lusitana terra,

Sexto Afonso, que em armas fulminante

El-rei D. Afonso     Fez invicto o valor na justa guerra:

VI lhe dá o títilo    Não foi por desempenho, porque amante

de Marquês         Pagara o esforço, que esse braço encerra,

Se Afonso fora no valor profundo

Não Rei de um Reino, não; Senhor de um Mundo.

 

 

 

XVII

 

Passando ao        Depois seguramente conduzindo

Alantejo com        Contra o Príncipe Austríaco insolente

segundo             Exército segundo, persuadindo

exército, no         Com muda discrição, voz eloqüente:

tempo em que      Com a Deidade Estrimônia competindo,

era governador     Do Tejo abristes o cristal corrente;

das armas           Jacta-se já, pois logra em seu festejo

D. Sancho                Se Netuno o Oceano, Marte o Tejo.

Manuel

                      

 

 

XVIII

 

Na campanha do Ibero mal segura

Vosso nome altamente publicado,

Vitória do            Ambos vencestes a batalha dura,

Cano, que hoje     Sancho guerreiro então, vós respeitado:

se chama de        Com vosso nome a palma se assegura

Ameixal             Somente pelas vozes de afamado,

Quando Lísia aclamou glórias ufanas,

Sendo Sancho Aníbal, o Cano Canas.

 

 

 

XIX

 

Outra vez com esforço verdadeiro

Governador         No Transtagano império obedecido,  

das armas do       Mostrastes na Província ânimo inteiro,

Partido do           Quando dela tivestes o Partido:

Alantejo. Vitória    Valente o peito foi, no ardor guerreiro,

da praça de         Alcançando a vitória esclarecido,

Valença              (Valença o sabe) que em igual conceito

Valença a Praça foi, valente o peito.

 

 

 

XX

 

Diga Lísia também a Palma nobre,

Última empresa, da Mavórcia História

Da fama devedora aplausos cobre

Vitória última        Quando a fama por vós alcança a glória;

de Montes           O nome venturoso o sítio dobre

Claros               De Montes Claros na feliz vitória,

Que são da Parca, e Marte os golpes raros

Nos corpos Montes, nas façanhas Claros.

 

 

 

XXI

 

Cedendo o peito à força sucessiva,

Princípio da         Sendo opresso do Ibero o Lusitano,

batalha, em que    Retrocede, que a sorte compassiva

os Castelhanos     Quis dar um troféu breve ao Castelhano:

se imaginaram      Nos bronzes logo o fero ardor se aviva,

vencedores         E nos ferros se esgrime o brio ufano,

Armam-se os Lusos mais que duros cerros

Com bronzes bronzes, e com ferros ferros.

 

 

 

XXII

 

Qual Deidade da Esfera luminosa

Entre vapores pérfidos, consente

Que um pouco ofusque a névoa tenebrosa

Alenta-se a          As lisonjas gentis da luz ardente:

batalha por          Porém depois, os golpes da lustrosa

parte dos            Vingança a névoa desmaiada sente,

Portugueses         Vibrando o Sol em férvido desmaio

Luz a luz, chama a chama, raio a raio.

 

 

 

XXIII

 

Tal o luso valor, que Sol se apura,

Consente entre escondidos ardimentos

Que do Ibero conflito a névoa impura

Ofusque de seu brio os luzimentos:

Alcança-se a        Porém depois na bélica ventura

vitória               Castigando nublados pensamentos

Com luzidas façanhas, vibram logo

Bala a bala, aço a aço, fogo a fogo.

 

 

 

XXIV

 

Vós posto na eminência agigantada,

Que rouba os raios do medroso Etonte,

Não já de louro vossa fronte ornada,

Posto no monte     Ornada sim de estrelas vossa fronte:

O Senhor            Subis ao Céu na glória celebrada,

Marquês             Sois assombro guerreiro do Horizonte,

Com que o monte por ũa, e outra parte

Fica Atlante do Céu, templo de Marte.

 

 

 

XXV

 

Quando na Aula celeste visitava

O louro amante do Peneu Louro

Ao Troiano gentil, que a Jove dava

Sua estância        Do Néctar o licor em mesas d'ouro:

no campo em       Entre o nevado horror, que o Céu vibrava

tempo de            Pronto no campo, intrépido ao pelouro,

Inverno              Repousáveis porém com braço feito,

Sendo a neve colchões, as armas leito.

 

 

 

XXVI

 

Quando entre obstinações do ardor nocivo

Latindo nesse Pólo o Cão luzente,

Vomita em grave horror o fogo esquivo,

Sua estância        Abre na boca adusta o círio ardente:

no campo em       Vosso peito também no esforço vivo

tempo do Estio      Fomentava os ardores de valente,

Ambos ardendo, um de outro satisfeito,

Na calma o círio, no valor o peito.

 

 

 

XXVII

 

Qual Águia ilustre, que do Sol os raios,

Sendo de altivas plumas adornada,

Sem maltratar-se à luz, sem ter desmaios,

Comparação        Bebe constante, opõe-se remontada:

com a Águia        Vós remontado em bélicos ensaios

mais                 Vendo raios de Marte na estacada,

avantajado          Águia sois, e subis com mais instinto,

Ela ao Planeta quarto, vós ao quinto.

 

 

 

XXVIII

 

Se fulminais ousado, forte, e ledo

Contra Iberos Gigantes a pujança,

Comparação        Oh que estrago! Oh que lástima! Oh que medo!

de Júpiter           Quando a espada tratais, brandis a lança:

contra os            Mui cedo pelejais venceis mais cedo

Castelhanos         O Transtagano ardor Flegra se alcança,

Vendo Iberos Gigantes, senão erro,

Por Júpiter a vós, por raio o ferro.

 

 

 

XXIX

 

Qual firme escolho, que no mar resiste

Ao cristalino impulso, que discorre,

Ou quando o mar com crespa fúria insiste,

Sua constância      Ou quando o mar com terso aljôfar corre:

no bom, ou          Assim também quando a borrasca assiste,

mal sucesso         Assim também quando a bonança ocorre,

do bem, já do mal; ao mesmo instante

Constante sois no bem, no mal constante.

 

 

 

XXX

 

Se espedaçando escudo, arnês, e malha

Chovem globos em pólvora incendidos,

Alusão de seu       E se arvoram bandeiras na Batalha,

valor no tremor     Os Castelhanos fortes já vencidos;

da terra, e das      Não fazem globos, que Vulcano espalha, terra, e das

bandeiras           Não fazem ventos nos troféus movidos,

Faz somente o valor, que em vós se encerra,

As bandeiras tremer, tremer a terra.

 

 

 

XXXI

 

Qual Órion de estrelas matizado,

Para que com cristais ao Mundo ofenda,

Da procelosa espada nasce armado,

Luminosa no Céu, no mar tremenda:

Comparação de         Tal vós com vossa espada denodado

sua espada          Fazeis de estragos tempestade horrenda,

Se bem com mais terror, que em glória nossa

Água esperdiça aquela, e sangue a vossa.

 

 

 

XXXII

 

Em vosso peito habitam finalmente

Todas as prendas do primor glorioso,

Se não sois mil Heróis, Conde excelente,

Breve elogio de     Sereis por vezes mil Herói famoso:

suas virtudes       Lograis bélico ardil, voz eloqüente,

Prudente discrição, valor ditoso,

Severo agrado, sangue esclarecido,

Amado no temor, no amor temido.

 

 

 

XXXIII

 

Sendo vós exemplar da humana glória,

Sendo do Luso Império forte amparo,

Para eterno papel de vessa história

Suas ações          Bronzes Corinto dê, mármores Paro:

eternizadas, e      Vós esculpido na fatal vitória,

seu retrato          Vós retratado no conflito raro;

temido por elas     Metam medo aos remotos, aos vizinhos,

Lenhos na imagem, no retrato linhos.

 

 

 

XXXIV

 

Cesse a Musa, senhor, retumbe a fama,

Destempere-se a Lira, entoe a Trompa,

Que quando o Plectro humilde vos aclama,

Sua fama do        É bem que a tuba o Plectro me interrompa:

Oriente até o        Se vosso esforço como Sol se afama,

Poente               Dos Gigantes a filha os ares rompa,

Donde se veste esse Planeta louro

Mantilhas de rubi, mortalhas de ouro.

 

 

 

À ROSA

Oitavas

 

Inundações floridas de Amaltéia

Prodigamente Clóri derramava

E líquida em rocio a sombra feia

No fraudulento Bruto, o Sol brilhava:

Quando entre tanta flor, que Abril semeia,

Fidalgamente a rosa se adornava,

Ostentando por garbo repetido

De ouro o toucado, de âmbar o vestido.

 

 

 

II

 

Esta gala, que veste generosa,

Deve aos cândidos pés da Deusa amante,

E ficando no orvalho mais lustrosa,

Deve estimar da Aurora o mal constante:

De sorte que no prado fica a Rosa

Com desditas alheias arrogante,

Pois quando se entroniza brilhadora,

Sangue de Vênus tem, pranto de Aurora.

 

 

 

III

 

Quando esse Deus de raios aparece,

Agrado dando à vista, luz ao prado,

A Deidade das flores amanhece,

Ao prado dando luz, à vista agrado:

E quando a Primavera resplandece

Com gala verde, e brilhador toucado,

Fica sendo no adorno de verdores

Jóia esta flor, e gargantilha as flores.

 

 

 

IV

 

Em galharda altivez tanto se afina,

Que vestida de púrpura fermosa

Adulação se arroga de divina,

Desprezando o primor de majestosa:

Por Deidade do campo peregrina

Não lhe faltam perfumes de olorosa,

E quando Deusa dos jardins e aclamo,

Faz templo do rosal, altar do ramo.

 

 

 

V

 

Ave purpúrea no jardim lustroso

Soberbamente a considera o dia,

As verdes ervas são ninho frondoso,

Donde a fragrante adulação se cria:

Se respira do alento o deleitoso,

Se desprega da pompa a bizarria,

Forma em tanta beleza, em olor tanto

As folhas asas, a fragrância canto.

 

 

 

VI

 

Com plácidos requebros assistida

Do Zéfiro fecundo a Rosa amada,

Lhe dá lascivos beijos por querida,

E vermelha se faz de envergonhada:

se encalma com chama padecida,

respira com ânsia suspirada,

Oh como no jardim, quando se adora

Sente Zéfiro amor, ciúmes Flora!

 

 

 

VII

 

Como Lua no Céu entre as estrelas,

Campa fermosamente em resplandores

Entre as flores a Rosa, é Lua entre elas,

Brilhando o prado, Céu; astros, as flores:

Por vantagens se jacta horas mais belas,

Nem se escondem c'o sol os seus primores,

Se brilha a Lua; a Rosa vencer trata

Com raios de rubi raios de prata.

 

 

 

VIII

 

Mas ai, quão brevemente se assegura

A flor purpúrea no primor luzido!

Que não logre isenções a fermosura!

Que a morte de ũa flor rompa o vestido!

Oh da Rosa gentil mortal ventura!

Que logo morta está, quando há nascido,

Sendo o toucado do infeliz tesouro

Em berço de coral sepulcro de ouro.

 

 

 

IX

 

Se vivifica a grã, se olor expira,

Dando lisonja ao prado, ornato à fonte,

No doce alento, e bela grã se admira

De Sido inveja, emulação de Oronte:

Mas se vento aromático respira,

Mas se lhe pinta o luminoso Etonte

Da cor a sombra, passa num momento

Qual sombra a sombra, como vento, o vento.

 

 

 

X

 

Se abre a Rosa pomposo nasc