LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

Primeiros Cantos, de Gonçalves Dias


Edição de base:
Biblioteca Virtual – Escola do Futuro

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

 

Prólogo

 

Poesias americanas

 

Canção do Exílio

 

O Canto do Guerreiro

 

O Canto do Piaga

 

O Canto do Índio

 

Caxias

 

Deprecação

 

O Soldado Espanhol

 

 

Poesias diversas

 

A Leviana

 

A Minha Musa

 

Desejo

 

Seus Olhos

 

Inocência

 

Pedido

 

O Desengano

 

Minha Vida e meus Amores

 

Recordação

 

Tristeza

 

O Trovador

 

Amor! Delírio - Engano

 

Delírio

 

Epicédio

 

Sofrimento

 

Visões

 

O Vate

 

À Morte Prematura da Il.ma Sra. D.

 

A Mendiga

 

A Escrava

 

Ao Dr. João Duarte Lisboa Serra

 

O Desterro de um Pobre Velho

 

O Orgulhoso

 

O Cometa

 

O Oiro

 

A um Menino

 

Miserrimus

 

O Pirata

 

A Vila Maldita, Cidade de Deus

 

Quadras da Minha Vida

 

 

Hinos

 

O Mar

 

Idéia de Deus

 

O Romper d'Alva

 

A Tarde

 

O Templo

 

Te Deum

 

Adeus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Prólogo

 

 

 

Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não serão as últimas.

 

Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de mera convenção; adotei

todos os ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me pareceram quadrar melhor com o que

eu pretendia exprimir.

 

Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em épocas diversas - debaixo de céu

diverso - e sob a influência de impressões momentâneas. Foram compostas nas margens viçosas do

Mondego e nos píncaros enegrecidos do Gerez - no Doiro e no Teia - sobre as vagas do Atlântico, e nas

florestas virgens da América. Escrevi-as para mim, e não para os outros; contentar-me-ei, se agradarem; e

se não... é sempre certo que tive o prazer de as ter composto.

 

Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa arena política para ler em minha

alma, reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéias

que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano - o aspecto enfim da natureza. Casar assim

o pensamento com o sentimento - o coração com o entendimento - a idéia com a paixão - cobrir tudo isto

com a imaginação, fundir tudo isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da

religião e da divindade, eis a Poesia - a Poesia grande e santa - a Poesia como eu a compreendo sem a

poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.

 

O esforço - ainda vão - para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só

merecimento deste volume. O Público o julgará; tanto melhor se ele o despreza, porque o Autor interessa

em acabar com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.

 

 

Rio de Janeiro, julho de 1846.

 

 

 

 

 

 

 

POESIAS AMERICANAS

 

 

 

 

 

Canção do Exílio

 

Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,

Im dunkeln die Gold-Orangen glühen,

Kennst du es wohl? - Dahin, dahin!

Möcht ich... ziehn.

-- Goethe

 

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

 

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas tem mais flores,

Nossos bosques tem mais vida,

Nossa vida mais amores.

 

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o sabiá.

 

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar - sozinho, à noite -

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu'inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

 

 

Coimbra - Julho 1843.

 

 

 

 

 

O Canto do Guerreiro

 

 

 

I

Aqui na floresta

Dos ventos batida,

Façanhas de bravos

Não geram escravos,

Que estimem a vida

Sem guerra e lidar.

- Ouvi-me, Guerreiros.

- Ouvi meu cantar.

 

II

Valente na guerra

Quem há, como eu sou?

Quem vibra o tacape

Com mais valentia?

Quem golpes daria

Fatais, como eu dou?

- Guerreiros, ouvi-me;

- Quem há, como eu sou?

 

III

Quem guia nos ares

A frecha imprumada,

Ferindo uma presa,

Com tanta certeza,

Na altura arrojada

Onde eu a mandar?

- Guerreiros, ouvi-me,

- Ouvi meu cantar.

 

IV

Quem tantos imigos

Em guerras preou?

Quem canta seus feitos

Com mais energia?

Quem golpes daria

Fatais, como eu dou?

- Guerreiros, ouvi-me:

- Quem há, como eu sou?

 

V

Na caça ou na lide,

Quem há que me afronte?!

A onça raivosa

Meus passos conhece,

O imigo estremece,

E a ave medrosa

Se esconde no céu.

- Quem há mais valente,

- Mais destro do que eu?

 

VI

Se as matas estrujo

Co os sons do Boré,

Mil arcos se encurvam,

Mil setas lá voam,

Mil gritos reboam,

Mil homens de pé

Eis surgem, respondem

Aos sons do Boré!

- Quem é mais valente,

- Mais forte quem é?

 

VII

Lá vão pelas matas;

Não fazem ruído:

O vento gemendo

E as malas tremendo

E o triste carpido

Duma ave a cantar,

São eles - guerreiros,

Que faço avançar.

 

VIII

E o Piaga se ruge

No seu Maracá,

A morte lá paira

Nos ares frechados,

Os campos juncados

De mortos são já:

Mil homens viveram,

Mil homens são lá.

 

IX

E então se de novo

Eu toco o Boré;

Qual fonte que salta

De rocha empinada,

Que vai marulhosa,

Fremente e queixosa,

Que a raiva apagada

De todo não é,

Tal eles se escoam

Aos sons do Boré.

- Guerreiros, dizei-me,

- Tão forte quem é?

 

 

 

 

 

O Canto do Piaga

 

 

 

I

Ó GUERREIROS da Taba sagrada,

Ó Guerreiros da Tribu Tupi,

Falam Deuses nos cantos do Piaga,

Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.

 

Esta noite - era a lua já morta -

Anhangá me vedava sonhar;

Eis na horrível caverna, que habito,

Rouca voz começou-me a chamar.

 

Abro os olhos, inquieto, medroso,

Manitôs! que prodígios que vil

Arde o pau de resina fumosa,

Não fui eu, não fui eu, que o acendi!

 

Eis rebenta a meus pés um fantasma,

Um fantasma d'imensa extensão;

Liso crânio repousa a meu lado,

Feia cobra se enrosca no chão.

 

O meu sangue gelou-se nas veias,

Todo inteiro - ossos, carnes - tremi,

Frio horror me coou pelos membros,

Frio vento no rosto senti.

 

Era feio, medonho, tremendo,

Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.

Falam Deuses nos cantos do Piaga,

Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!

 

II

Por que dormes, Ó Piaga divino?

Começou-me a Visão a falar,

Por que dormes? O sacro instrumento

De per si já começa a vibrar.

 

Tu não viste nos céus um negrume

Toda a face do sol ofuscar;

Não ouviste a coruja, de dia,

Seus estrídulos torva soltar?

 

Tu não viste dos bosques a coma

Sem aragem - vergar-se e gemer,

Nem a lua de fogo entre nuvens,

Qual em vestes de sangue, nascer?

 

E tu dormes, ó Piaga divino!

E Anhangá te proíbe sonhar!

E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,

E não podes augúrios cantar?!

 

Ouve o anúncio do horrendo fantasma,

Ouve os sons do fiel Maracá;

Manitôs já fugiram da Taba!

Ó desgraça! Ó ruína! Ó Tupá!

 

III

Pelas ondas do mar sem limites

Basta selva, sem folhas, i vem;

Hartos troncos, robustos, gigantes;

Vossas matas tais monstros contêm.

 

Traz embira dos cimos pendente

- Brenha espessa de vário cipó -

Dessas brenhas contêm vossas matas,

Tais e quais, mas com folhas; é so!

 

Negro monstro os sustenta por baixo,

Brancas asas abrindo ao tufão,

Como um bando de cândidas garças,

Que nos ares pairando - lá vão.

 

Oh! quem foi das entranhas das águas,

O marinho arcabouço arrancar?

Nossas terras demanda, fareja...

Esse monstro... - o que vem cá buscar?

 

Não sabeis o que o monstro procura?

Não sabeis a que vem, o que quer?

Vem matar vossos bravos guerreiros,

Vem roubar-vos a filha, a mulher!

 

Vem trazer-vos crueza, impiedade -

Dons cruéis do cruel Anhangá;

Vem quebrar-vos a maça valente,

Profanar Manitôs, Maracás.

 

Vem trazer-vos algemas pesadas,

Com que a tribu Tupi vai gemer;

Hão-de os velhos servirem de escravos

Mesmo o Piaga inda escravo há de ser?

 

Fugireis procurando um asilo,

Triste asilo por ínvio sertão;

Anhangá de prazer há de rir-se,

Vendo os vossos quão poucos serão.

 

Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,

Susta as iras do fero Anhangá.

Manitôs já fugiram da Taba,

Ó desgraça! ó ruína!! ó Tupá!

 

 

 

 

 

O Canto do Índio

 

 

 

Quando o sol vai dentro d'água

Seus ardores sepultar,

Quando os pássaros nos bosques

Principiam a trinar;

 

Eu a vi, que se banhava...

Era bela, ó Deuses, bela,

Como a fonte cristalina,

Como luz de meiga estrela.

 

Ó Virgem, Virgem dos Cristãos formosa,

Porque eu te visse assim, como te via,

Calcara agros espinhos sem queixar-me,

Que antes me dera por feliz de ver-te.

 

O tacape fatal em terra estranha

Sobre mim sem temor veria erguido;

Dessem-me a mim somente ver teu rosto

Nas águas, como a lua, retratado.

 

Eis que os seus loiros cabelos

Pelas águas se espalhavam,

Pelas águas, que de vê-los

Tão loiros se enamoravam.

 

Ela erguia o colo ebúrneo,

Por que melhor os colhesse;

Níveo colo, quem te visse,

Que de amores não morresse!

 

Passara a vida inteira a contemplar-te,

Ó Virgem, loira Virgem tão formosa,

Sem que dos meus irmãos ouvisse o canto,

Sem que o som do Boré que incita à guerra

Me infiltrasse o valor que m'hás roubado,

Ó Virgem, loira Virgem tão formosa.

 

As vezes, quando um sorriso

Os lábios seus entreabria,

Era bela, oh! mais que a aurora

Quando a raiar principia.

 

Outra vez - dentre os seus lábios

Uma voz se desprendia;

Terna voz, cheia de encantos,

Que eu entender não podia.

 

Que importa? Esse falar deixou-me n'alma

Sentir d'amores tão sereno e fundo,

Que a vida me prendeu, vontade e força

Ah! que não queiras tu viver comigo,

Ó Virgem dos Cristãos, Virgem formosa!

 

Sobre a areia, já mais tarde,

Ela surgiu toda nua;

Onde há, ó Virgem, na terra

Formosura como a tua!?

 

Bem como gotas de orvalho

Nas folhas de flor mimosa,

Do seu corpo a onda em fios

Se deslizava amorosa.

 

Ah! que não queiras tu vir ser rainha

Aqui dos meus irmãos, qual sou rei deles!

Escuta, ó Virgem dos Cristãos formosa.

Odeio tanto aos teus, como te adoro;

Mas queiras tu ser minha, que eu prometo

Vencer por teu amor meu ódio antigo,

Trocar a maça do poder por ferros

E ser, por te gozar, escravo deles.

 

 

 

 

 

Caxias

 

 

 

Quanto és bela, ó Caxias! - no deserto,

Entre montanhas, derramada em vale

De flores perenais,

És qual tênue vapor que a brisa espalha

No frescor da manhã meiga soprando

À flor de manso lago.

 

Tu és a flor que despontaste livre

Por entre os troncos de robustos cedros,

Forte - em gleba inculta;

És qual gazela, que o deserto educa,

No ardor da sesta debruçada exangue

À margem da corrente.

 

Em mole seda as graças não escondes,

Não cinges d'oiro a fronte que descansas

Na base da montanha;

És bela como a virgem das florestas,

Que no espelho das águas se contempla,

Firmada em tronco anoso.

 

Mas dia inda virá, em que te pejes

Dos, que ora trajas, símplices ornatos

E amável desalinho:

Da pompa e luxo amiga, hão de cair-te

Aos pés então - da poesia a c'roa

E da inocência o cinto.

 

 

 

 

 

Deprecação

 

 

 

Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto

Com denso velâmen de penas gentis;

E jazem teus filhos clamando vingança

Dos bens que lhes deste da perda infeliz!

 

Tupã, ó Deus grande! teu rosto descobree:

Bastante sofremos com tua vingança!

Já lágrimas tristes choraram teus filhos

Teus filhos que choram tão grande mudança.

 

Anhangá impiedoso nos trouxe de longe

Os homens que o raio manejam cruentos,

Que vivem sem pátria, que vagam sem tino

Trás do ouro correndo, voraces, sedentos.

 

E a terra em que pisam, e os campos e os rios

Que assaltam, são nossos; tu és nosso Deus :

Por que lhes concedes tão alta pujança,

Se os raios de morte, que vibram, são teus?

 

Tupã, ó Deus grande! cobriste o teu rosto

Com denso velâmen de penas gentis;

E jazem teus filhos clamando vingança

Dos bens que lhes deste da perda infeliz.

 

Teus filhos valentes, temidos na guerra,

No albor da manhã quão fortes que os vi!

A morte pousava nas plumas da frecha,

No gume da maça, no arco Tupi!

 

E hoje em que apenas a enchente do rio .

Cem vezes hei visto crescer e baixar...

Já restam bem poucos dos teus, qu'inda possam

Dos seus, que já dormem, os ossos levar.

 

Teus filhos valentes causavam terror,

Teus filhos enchiam as bordas do mar,

As ondas coalhavam de estreitas igaras,

De frechas cobrindo os espaços do ar.

 

Já hoje não caçam nas matas frondosas

A corça ligeira, o trombudo quati...

A morte pousava nas plumas da frecha,

No gume da maça, no arco Tupi!

 

O Piaga nos disse que breve seria,

A que nos infliges cruel punição;

E os teus inda vagam por serras, por vales,

Buscando um asilo por ínvio sertão!

 

Tupã, ó Deus grande! descobre o teu rosto:

Bastante sofremos com tua vingança!

Já lágrimas tristes choraram teus filhos,

Teus filhos que choram tão grande tardança.

 

Descobre o teu rosto, ressurjam os bravos,

Que eu vi combatendo no albor da manhã;

Conheçam-te os feros, confessem vencidos

Que és grande e te vingas, qu'és Deus, ó Tupã!

 

 

 

 

 

O Soldado Espanhol

 

Un soldat au dur visage

-- V. Hugo

 

 

 

I

 

Oh! qui révélera les troubles, les mystères

Que ressentent d'abord deux amants solitaires

Dans l'abandon d'un chaste amour?

-- Amour et Foi

 

O céu era azul, tão meigo e tão brando,

A terra tão erma, tão quieta e saudosa,

Que a mente exultava, mais longe escutando

O mar a quebrar-se na praia arenosa.

 

O céu era azul, e na cor semilhava

Vestido sem nódoa de pura donzela;

E a terra era a noiva que bem se arreava

De flores, matizes; mas vária, mas bela.

 

Ela era brilhante,

Qual raio do sol;

E ele arrogante,

De sangue espanhol.

 

E o espanhol muito amava

A virgem mimosa e bela;

Ela amante, ele zeloso

Dos amores da donzela;

Ele tão nobre e folgando

De chamar-se escravo dela!

 

E ele disse: - Vês o céu? -

E ela disse: - Vejo. sim;

Mais polido que o polido

Do meu véu azul cetim. -

Torna-lhe ele. .. (oh! quanto é doce

Passar-se uma noite assim!).

 

- Por entre os vidros pintados

D'igreja antiga, a luzir

Não vês luz? - Vejo. - E não sentes

De a veres, meigo sentir?

- É doce ver entre as sombras

A luz do templo a luzir!

 

- E o mar, além, preguiçoso

Não vês tu em calmaria?

- É belo o mar; porém sinto,

Só de o ver, melancolia.

- Que mais o teu rosto enfeita

Que um sorriso de alegria.

 

- E eu tão bem acho em ser triste

Do que alegre, mais prazer;

Sou triste, quando em ti penso,

Que só me falta morrer;

Mesmo a tua voz saudosa

Vem minha alma entristecer.

 

- E eu sou feliz, como agora,

Quando me falas assim;

Sou feliz quando se riem

Os lábios teus de carmim;

Quando dizes que me, adoras,

Eu sinto o céu dentro em mim.

 

- És tu só meu Deus, meu tudo,

És tu só meu puro amar,

És tu só que o pranto podes

Dos meus olhos enxugar. -

Com ela repete o amante:

- És tu só meu puro amar! -

 

E o céu era azul, tão meigo e tão brando

E a terra tão erma, tão só, tão saudosa,

Que a mente exultava, mais longe escutando

O mar a quebrar-se na praia arenosa!

 

 

 

II

 

Ainsi donc aujourd'hui, demain, après encore,

Il faudra voir sans tal naître et mourir l'aurore!

-- V. Hugo

 

E o espanhol viril, nobre e formoso,

No bandolim

Seus amores dizia mavioso,

Cantando assim:

 

"Já me vou por mar em fora

Daqui longe a mover guerra,

Já me vou, deixando tudo,

Meus amores, minha terra.

 

"Já me vou lidar em guerras,

Vou-me a Índia ocidental;

Hei de ter novos amores. . .

De guerras... não temas al.

 

"Não chores, não, tão coitada,

Não chores por t'eu deixar;

Não chores, que assim me custa

O pranto meu sofrear.

 

"Não chores! - sou como o Cid

Partindo para a campanha;

Não ceifarei tantos louros,

Mas terei pena tamanha."

 

E a amante que assim o via

Partir-se tão desditoso,

- Vai, mas volta; lhe dizia:

Volta, sim, vitorioso.

 

"Como o Cid, oh! crua sorte

Não me vou nesta campanha

Guerrear contra o crescente,

Porém sim contra os d'Espanha!

 

"Não me aterram; porém sinto

Cerrar-se o meu coração,

Sinto deixar-te, meu anjo,

Meu prazer, minha afeição.

 

"Como é doce o romper d'alva,

É-me doce o teu sorrir,

Doce e puro, qual d'estrela

De noite - o meigo luzir.

 

"Eram meus teus pensamentos,

Teu prazer minha alegria,

Doirada fonte d'encantos,

Fonte da minha poesia.

 

"Vou-me longe, e o peito levo

Rasgado de acerba dor,

Mas comigo vão teus votos,

Teus encantos, teu amor!

 

"Já me vou lidar em guerras,

Vou-me a Índia ocidental;

Hei de ter novos amores. . .

De guerras... não temas al."

 

Esta era a canção que acompanhava

No bandolim,

Tão triste, que de triste não chorava

Dizendo assim:

 

 

 

III

 

O Conde deu o sinal da partida

- À caça! meus amigos.

-- Burger

 

"Quero, pajens, selado o ginete,

Quero em punho nebris e falcão,

Qu'é promessa de grande caçada

Fresca aurora d'amigo verão.

 

"Quero tudo luzindo, brilhante

- Curta espada e venab'lo e punhal,

Cães e galgos farejem diante

Leve odor de sanhudo animal.

 

"E ai do gamo que eu vir na coutada,

Corça, onagro, que eu primo avistar!

Que o venab'lo nos ares voando

Lhe há de o salto no meio quebrar.

 

Eia, avante! - Dizia folgando

O fidalgo mancebo, loução:

- Eia, avante? - e já todos galopam

Trás do moço, soberbo infanção.

 

E partem, qual do arco arranca e voa

Nos amplos ares, mais veloz que a vista,

A plúmea seta da entesada corda.

Longe o eco reboa: - já mais fraco,

Mais fraco ainda, pelos ares voa.

Dos cães dúbio o latir se escuta apenas,

Dos ginetes tropel, rinchar distante

Que em lufadas o vento traz por vezes.

Já som nenhum se escuta... Quê? - latido

De cães, incerto, ao longe? Não, foi vento

Na torre castelã batendo acaso,

Nas seteiras acaso sibilando

Do castelo feudal, deserto agora.

 

 

 

IV

 

Vois, à l'horizon

Aucune maison?

- Aucune.

-- V. Hugo

 

Já o sol se escondeu; cobre a terra

Belo manto de frouxo luar;

E o ginete, que esporas atracam,

Nitre e corre sem nunca parar.

 

Da coutada nas ínvias ramagens

Vai sozinho o mancebo infanção;

Vai sozinho, afanoso trotando

Sem temores, sem pajens, sem cão.

 

Companheiros da caça há perdido,

Há perdido no aceso caçar;

Há perdido, e não sente receio

De sozinho, nas sombras trotar.

 

Corno ebúrneo embocou muitas vezes,

Muitas vezes de si deu sinal;

Bebe atento a resposta, e não ouve

Outro som responder-lhe; inda mal!

 

E o ginete que esporas atracam,

Nitre e corre sem nunca parar;

Já o sol se escondeu, cobre a terra

Belo manto de frouxo luar.

 

 

 

V

 

De rosée

Arrosée.

La rose a moins de fraîcheur.

-- Henrique IV

 

Silêncio grato da noite

Quebram sons duma canção,

Que vai dos lábios de um anjo

Do que escuta ao coração.

 

Dizia a letra mimosa

Saudades de muito amar;

E o infanção enleiado

Atento, pôs-se a escutar.

 

Era encantos voz tão doce,

Incentivo essa ternura,

Gerava delícias n'alma

Sonhar d'havê-la a ventura.

 

Queixosa cantava a esposa

Do guerreiro que partiu,

Largos anos são passados,

Missiva dele não viu. . .

 

Parou!... escutando ao perto

Responder-lhe outra canção!...

Era terna a voz que ouvia,

Lisonjeira - do infanção:

 

"Tenho castelo soberbo

Num monte, que beija um rio,

De terras tenho no Doiro

Jeiras cem de lavradio;

 

"Tenho lindas haquenéias,

Tenho pajens e matilha,

Tenho os milhores ginetes

Dos ginetes de Sevilha;

 

"Tenho punhal, tenho espada

D'alfageme alta feitura,

Tenho lança, tenho adaga,

Tenho completa armadura.

 

"Tenho fragatas que cingem

Dos mares a linfa clara,

Que vão preiando piratas

Pelas rochas de Megara.

 

"Dou-te o castelo soberbo

E as terras do fértil Doiro,

Dou-te ginetes e pajens

E a espada de pomo d'oiro.

 

"Dera a completa armadura

E os meus barcos d'alto-mar,

Que nas rochas de Megara

Vão piratas cativar.

 

"Fala de amores teu canto,

Fala de acesa paixão. . .

Ah! senhora, quem tivera

Dos agrados teus condão!

 

"Eu sou mancebo, sou Nobre,

Sou nobre moço infanção;

Assim podesse o meu canto

Algemar-te o coração,

Ó Dona, que eu dera tudo

Por vencer-te essa isenção!

 

Atenta escutava a esposa

Do guerreiro que partiu,

Largos anos são passados,

Missiva dele não viu;

Mas da letra que escutava

Delícias n'alma sentiu.

 

 

 

VI

 

Si tu voulais, Madeleine,

Je te ferais châtelaine;

Je suis le comte Roger: -

Quitte pour moi ces chaumières,

A moins que tu me préfères

Que je me fasse berger.

-- V. Hugo

 

E noutra noite saudoso

Bem junto dela sentado,

Cantava brandas endechas

O gardingo namorado.

 

"Careço de ti, meu anjo,

Careço do teu amor,

Como da gota d'orvalho

Carece no prado a flor.

 

"Prazeres que eu nem sonhava

Teu amor me fez gozar;

Ah! que não queiras, senhora,

Minha dita rematar.

 

"O teu marido é já morto,

Notícia dele não soa;

Pois desta gente guerreira

Bastos ceifa a morte à toa.

 

"Ventura me fora ver-te

Nos lábios teus um sorriso,

Delícias me fora amar-te,

Gozar-te meu paraíso.

 

"Sinto aflição, quando choras;

Se te ris, sinto prazer;

Se te ausentas, fico triste,

Que só me falta morrer.

 

"Careço de ti, meu anjo,

Careço do teu amor,

Como da gota d'orvalho

Carece no prado a flor."

 

 

 

VII

 

L'époux, dont nul ne se souvient,

Vient;

Il va punir ta vie infâme,

Femme!

-- V. Hugo

 

Era noite hibernal; girava dentro

Da casa do guerreiro o riso, a dança,

E reflexos de luz, e sons, e vozes,

E deleite, e prazer: e fora a chuva,

A escuridão, a tempestade, e o vento,

Rugindo solto, indômito e terrível

Entre o negror do céu e o horror da terra.

Na geral confusão os céus e a terra

Horrenda simpatia alimentavam.

 

Ferve dentro o prazer, reina o sorriso,

E fora a teritar, fria, medonha,

Marcha a vingança pressurosa e torva:

Traz na destra o punhal, no peito a raiva,

Nas faces palidez, nos olhos morte.

O infanção extremoso enchia rasa

A taça de licor mimoso e velha,

Da usança ao brinde convidando a todos

Em honra da esposada: - À noiva! exclama.

 

E a porta range e cede, e franca e livre

Introduz o tufão, e um vulto assoma

Altivo e colossal. - Em honra, brada,

Do esposo deslembrado! - e a taça empunha,

Mas antes que o licor chegasse aos lábios,

Desmaiada e por terra jaz a esposa,

E a destra do infanção maneja o ferro,

Por que tão grande afronta lave o sangue,

Pouco, bem pouco para injúria tanta.

Debalde o fez, que lhe golfeja o sangue

D'ampla ferida no sinistro lado,

E ao pé da esposa o assassino surge

Co'o sangrento punhal na destra alçado.

 

A flor purpúrea que matiza o prado,

Se o vento da manhã lhe entorna o cálix,

Perde aroma talvez; porém mais belo

Colorido lhe vem do sol nos raios.

As fagueiras feições daquele rosto

Assim foram tão bem; não foi do tempo

Fatal o perpassar às faces lindas.

 

Nota-lhe ele as feições, nota-lhe os lábios,

Os curtos lábios que lhe deram vida,

Longa vida de amor em longos beijos,

Qual jamais não provou; e as iras todas

Dos zelos vingadores descansaram

No peito de sofrer cansado e cheio,

Cheio qual na praia fica a esponja,

Quando a vaga do mar passou sobre ela.

 

Num relance fugiu, minaz no vulto:

Como o raio que luz um breve instante,

Sobre a terra baixou, deixando a morte.

 

 

 

 

 

 

 

Poesias diversas

 

 

 

A Leviana

 

Souvent femme varie,

Bien fol est qui s'y fie.

-- Francisco I

 

És engraçada e formosa

Como a rosa,

Como a rosa em mês d'Abril;

És como a nuvem doirada

Deslizada,

Deslizada em céus d'anil.

 

Tu és vária e melindrosa,

Qual formosa

Borboleta num jardim,

Que as flores todas afaga,

E divaga

Em devaneio sem fim.

 

És pura, como uma estrela

Doce e bela,

Que treme incerta no mar:

Mostras nos olhos tua alma

Terna e calma,

Como a luz d'almo luar.

 

Tuas formas tão donosas,

Tão airosas,

Formas da terra não são;

Pareces anjo formoso,

Vaporoso,

Vindo da etérea mansão.

 

Assim, beijar-te receio,

Contra o seio

Eu tremo de te apertar:

Pois me parece que um beijo

É sobejo

Para o teu corpo quebrar.

 

Mas não digas que és só minha!

Passa asinha

A vida, como a ventura;

Que te não vejam brincando,

E folgando

Sobre a minha sepultura.

 

Tal os sepulcros colora

Bela aurora

De fulgores radiante;

Tal a vaga mariposa

Brinca e pousa

Dum cadáver no semblante.

 

 

 

 

 

A Minha Musa

 

Gratia, Musa, tibi; nam tu solattia praebes.

-- Ovídio

 

Minha Musa não é como ninfa

Que se eleva das águas - gentil -

Co'um sorriso nos lábios mimosos,

Com requebros, com ar senhoril.

 

Nem lhe pousa nas faces redondas

Dos fagueiros anelos a cor;

Nesta terra não tem uma esp'rança,

Nesta terra não tem um amor.

 

Como fada de meigos encantos,

Não habita um palácio encantado,

Quer em meio de matas sombrias,

Quer à beira do mar levantado.

 

Não tem ela uma senda florida,

De perfumes, de flores bem cheia,

Onde vague com passos incertos,

Quando o céu de luzeiros se arreia.

 

 

___________

 

Não é como a de Horácio a minha Musa;

Nos soberbos alpendres dos Senhores

Não é que ela reside;

Ao banquete do grande em lauta mesa,

Onde gira o falerno em taças d'oiro,

Não é que ela preside.

 

Ela ama a solidão, ama o silêncio,

Ama o prado florido, a selva umbrosa

E da rola o carpir.

Ela ama a viração da tarde amena,

O sussurro das águas, os acentos

De profundo sentir.

 

D'Anacreonte o gênio prazenteiro,

Que de flores cingia a fronte calva

Em brilhante festim,

Tomando inspirações à doce amada,

Que leda lh'enflorava a ebúrnea lira;

De que me serve, a mim?

 

Canções que a turba nutre, inspira, exalta

Nas cordas magoadas me não pousam

Da lira de marfim.

Correm meus dias, lacrimosos, tristes,

Como a noite que estende as negras asas

Por céu negro e sem fim.

 

É triste a minha Musa, como é triste

O sincero verter d'amargo pranto

D'órfã singela;

E triste como o som que a brisa espalha,

Que cicia nas folhas do arvoredo

Por noite bela.

 

É triste como o som que o sino ao longe

Vai perder na extensão d'ameno prado

Da tarde no cair,

Quando nasce o silêncio involto em trevas,

Quando os astros derramam sobre a terra

Merencório luzir.

 

Ela então, sem destino, erra por vales,

Erra por altos montes, onde a enxada

Fundo e fundo cavou;

E pára; perto, jovial pastora

Cantando passa - e ela cisma ainda

Depois que esta passou.

 

Além - da choça humilde s'ergue o fumo

Que em risonha espiral se eleva às nuvens

Da noite entre os vapores;

Muge solto o rebanho; e lento o passo,

Cantando em voz sonora, porém baixa,

Vêm andando os pastores.

 

Outras vezes também, no cemitério,

Incerta volve o passo, soletrando

Recordações da vida;

Roça o negro cipreste, calca o musgo,

Que o tempo fez brotar por entre as fendas

Da pedra carcomida.

 

Então corre o meu pranto muito e muito

Sobre as úmidas cordas da minha Harpa,

Que não ressoam;

Não choro os mortos, não; choro os meus dias

Tão sentidos, tão longos, tão amargos,

Que em vão se escoam.

 

Nesse pobre cemitério

Quem já me dera um lugar!

Esta vida mal vivida

Quem já ma dera acabar!

 

Tenho inveja ao pegureiro,

Da pastora invejo a vida,

Invejo o sono dos mortos

Sob a laje carcomida.

 

Se qual pegão tormentoso,

O sopro da desventura

Vai bater potente à porta

De sumida sepultura:

 

Uma voz não lhe responde,

Não lhe responde um gemido,

Não lhe responde urna prece,

Um ai - do peito sentido.

 

Já não têm voz com que falem,

Já não têm que padecer;

No passar da vida à morte

Foi seu extremo sofrer.

 

Que lh'importa a desventura?

Ela passou, qual gemido

Da brisa em meio da mata

De verde alecrim florido.

 

Quem me dera ser como eles!

Quem me dera descansar!

Nesse pobre cemitério

Quem me dera o meu lugar,

E co'os sons das Harpas d'anjos

Da minha Harpa os sons casar!

 

 

 

 

 

Desejo

 

E poi morir.

-- Metastásio

 

Ah! que eu não morra sem provar, ao menos

Sequer por um instante, nesta vida

Amor igual ao meu!

Dá, Senhor Deus, que eu sobre a terra encontre

Um anjo, uma mulher, uma obra tua,

Que sinta o meu sentir;

Uma alma que me entenda, irmã da minha,

Que escute o meu silêncio, que me siga

Dos ares na amplidão!

Que em laço estreito unidas, juntas, presas,

Deixando a terra e o lodo, aos céus remontem

Num êxtase de amor!

 

 

 

 

 

Seus Olhos

 

Oh! rouvre tes grands yeux, dont la paupiére tremble,

Tes yeux pleins de langueur;

Leur regard est si beau quand nous sommes ensemble!

Rouvre-les; ce regard manque à ma vie, il semble

Que tu fermes ton coeur.

-- Turquety

 

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,

De vivo luzir,

Estrelas incertas, que as águas dormentes

Do mar vão ferir;

 

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,

Têm meiga expressão,

Mais doce que a brisa, - mais doce que o nauta

De noite cantando, - mais doce que a frauta

Quebrando a solidão.

 

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,

De vivo luzir,

São meigos infantes, gentis, engraçados

Brincando a sorrir.

 

São meigos infantes, brincando, saltando

Em jogo infantil,

Inquietos, travessos; - causando tormento,

Com beijos nos pagam a dor de um momento,

Com modo gentil.

 

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,

Assim é que são;

Às vezes luzindo, serenos, tranqüilos,

Às vezes vulcão!

 

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,

Tão frouxo brilhar,

Que a mim me parece que o ar lhes falece,

E os olhos tão meigos, que o pranto umedece

Me fazem chorar.

 

Assim lindo infante, que dorme tranqüilo,

Desperta a chorar;

E mudo e sisudo, cismando mil coisas,

Não pensa - a pensar.

 

Nas almas tão puras da virgem, do infante,

Às vezes do céu

Cai doce harmonia duma Harpa celeste,

Um vago desejo; e a mente se veste

De pranto co'um véu.

 

Quer sejam saudades, quer sejam desejos

Da pátria melhor;

Eu amo seus olhos que choram sem causa

Um pranto sem dor.

 

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,

De vivo fulgor;

Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,

Que falam de amores com tanta poesia.

Com tanto pudor.

 

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,

Assim é que são;

Eu amo esses olhos que falam de amores

Com tanta paixão.

 

 

 

 

 

Inocência

 

Sans nommer le nom qu'il faut bénir et taire.

-- S. Beuve

 

Ó meu anjo, vem correndo,

Vem tremendo

Lançar-te nos braços meus;

Vem depressa, que a lembrança

Da tardança

Me aviva os rigores teus.

 

Do teu rosto, qual marfim,

De carmim

Tinge um nada a cor mimosa;

É belo o pudor, mas choro,

E deploro

Que assim sejas medrosa.

 

Por inocente tens medo

De tão cedo,

De tão cedo ter amor;

Mas sabe que a formosura

Pouco dura,

Pouco dura, como a flor.

 

Corre a vida pressurosa,

como a rosa,

Como a rosa na corrente.

Amanhã terás amor?

Como a flor,

Como a flor fenece a gente.

 

Hoje ainda és tu donzela

Pura e bela,

Cheia de meigo pudor;

Amanhã menos ardente

De repente

Talvez sintas meu amor.

 

 

 

 

 

Pedido

 

 

 

Ontem no baile

Não me atendias!

Não me atendias,

Quando eu falava.

 

De mim bem longe

Teu pensamento!!

Teu pensamento,

Bem longe errava.

 

Eu vi teus olhos

Sobre outros olhos!

Sobre outros olhos,

Que eu odiava.

 

Tu lhe sorriste

Com tal sorriso!

Com tal sorriso,

Que apunhalava.

 

Tu lhe falaste

Com voz tão doce!

Com voz tão doce,

Que me matava.

 

Oh! não lhe fales,

Não lhe sorrias,

Se então só qu'rias

Exp'rimentar-me.

 

Oh! não lhe fales,

Não lhe sorrias,

Não lhe sorrias,

Que era matar-me.

 

 

 

 

 

O Desengano

 

 

 

JÁ VIGÍLIAS passei namorado,

Doces horas d'insônia passei,

Já meus olhos, d'amor fascinado,

Em ver só meu amor empreguei.

 

Meu amor era puro, extremoso,

Era amor que meu peito sentia,

Eram lavas de um fogo teimoso,

Eram notas de meiga harmonia.

 

Harmonia era ouvir sua voz,

Era ver seu sorriso harmonia;

E os seus modos e gestos e ditos

Eram graças, perfume e magia.

 

E o que era o teu amor, que me embalava

Mais do que meigos sons de meiga lira?

Um dia o decifrou - não mais que um dia

Fingimento e mentira!

 

Tão belo o nosso amor! - foi só de um dia,

Como uma flor!.

Por que tão cedo o talismã quebraste

Do nosso amor?

 

Por que num só instante assim partiste

Essa anosa cadeia?

De bom grado a sofreste! essa lembrança

Inda hoje me recreia.

 

Quão insensato fui! - busquei firmeza.

Qual em ondas de areia movediça,

Na mulher, - não achei!

E da esp'rança, que eu via tão donosa

Sorrir dentro em minha alma, as longas asas

Doido e néscio cortei!

 

E tu vás caprichosa prosseguindo

Essa esteira de amor, que julgas cheia

De flores bem gentis;

Podes ir, que os meus olhos te não vejam;

Longe, longe de mim, mas que em minha alma

Eu sinta qu'és feliz.

 

Podes ir, que é desfeito o nosso laço,

Podes ir, que o teu nome nos meus lábios

Nunca mais soará!

Sim, vai; - mas este amor que me atormenta,

Que tão grato me foi, que me é tão duro,

Comigo morrerá!

 

Tão belo o nosso amor! - foi só de um dia

Como uma flor!

Oh! que bem cedo o talismã quebraste

Do nosso amor!

 

 

 

 

 

Minha Vida e meus Amores

 

Mon Dieu, fais que je puisse aimer!

-- S. Beuve

 

QUANDO, no albor da vida, fascinado

Com tanta luz e brilho e pompa e galas,

Vi o mundo sorrir-me esperançoso:

- Meu Deus, disse entre mim, oh! quanto é doce.

Quanto é bela esta vida assim vivida! -

Agora, logo, aqui, além, notando

Uma pedra, uma flor, uma lindeza,

Um seixo da corrente, uma conchinha

A beira-mar colhida!

 

Foi esta a infância minha; a juventude

Falou-me ao coração: - amemos, disse,

Porque amar é viver.

E esta era linda, como é linda a aurora

No fresco da manhã tingindo as nuvens

De rósea cor fagueira;

Aquela tinha um quê de anelos meigos

Artífice sublime;

Feiticeiro sorrir dos lábios dela

Prendeu-me o coração; - julguei-o ao menos.

 

Aquela outra sorria tristemente,

Como um anjo no exílio, ou como o cálix

De flor pendida e murcha e já sem brilho.

Humilde flor tão bela e tão cheirosa,

No seu deserto perfumando os ventos.

- Eu morrera feliz, dizia eu d'alma,

Se pudesse enxertar uma esperança

Naquela alma tão pura e tão formosa,

E um alegre sorrir nos lábios dela.

 

A fugaz borboleta as flores todas

Elege, e liba e uma e outra, e foge

Sempre em novos amores enlevada:

Neste meu paraíso fui como ela,

Inconstante vagando em mar de amores.

 

O amor sincero e fundo e firme e eterno,

Como o mar em bonança meigo e doce,

Do templo como a luz perene e santo,

Não, nunca o senti; - somente o viço

Tão forte dos meus anos, por amores

Tão fáceis quanto indi'nos fui trocando.

Quanto fui louco, ó Deus! - Em vez do fruto

Sazonado e maduro, que eu podia

Como em jardim colher, mordi no fruto

Pútrido e amargo e rebuçado em cinzas,

Como infante glutão, que se não senta

À mesa de seus pais.

 

Dá, meu Deus, que eu possa amar,

Dá que eu sinta uma paixão,

Torna-me virgem minha alma,

E virgem meu coração.

 

Um dia, em qu'eu sentei-me junto dela,

Sua voz murmurou nos meus ouvidos,

- Eu te amo? - Ó anjo, que não possa eu crer-te!

Ela, certo, não é mulher que vive

Nas fezes da desonra, em cujos lábios

Só mentira e traição eterno habitam.

Tem uma alma inocente, um rosto belo,

E amor nos olhos. . . - mas não posso crê-la.

 

Dá, meu Deus, que eu possa amar,

Dá que eu sinta uma paixão;

Torna-me virgem minha alma,

E virgem meu coração.

 

Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo

Terna voz lhe escutei: - Sonhei contigo! -

Inefável prazer banhou meu peito,

Senti delícias; mas a sós comigo

Pensei - talvez! - e já não pude crê-la.

Ela tão meiga e tão cheia de encantos,

Ela tão nova, tão pura e tão bela. ..

Amar-me! - Eu que sou?

Meus olhos enxergam, em quanto duvida

Minha alma sem crença, de força exaurida,

Já farta da vida,

Que amor não doirou.

 

Mau grado meu, crer não posso, .

Mau grado meu que assim é;

Queres ligar-te comigo

Sem no amor ter crença e fé?

 

Antes vai colar teu rosto,

Colar teu seio nevado

Contra o rosto mudo e frio,

Contra o seio dum finado.

 

Ou suplica a Deus comigo

Que me dê uma paixão;

Que me dê crença à minha alma,

E vida ao meu coração.

 

 

 

 

 

Recordação

 

Nessun maggior dolore...

-- Dante

 

Quando em meu peito as aflições rebentam

Eivadas de sofrer acerbo e duro;

Quando a desgraça o coração me arrocha

Em círculos de ferro, com tal força,

Que dele o sangue em borbotões golfeja;

Quando minha alma de sofrer cansada, .

Bem que afeita a sofrer, sequer não pode

Clamar: Senhor piedade; - e que os meus olhos

Rebeldes, uma lágrima não vertem

Do mar d'angústias que meu peito oprime:

 

Volvo aos instantes de ventura, e penso

Que a sós contigo, em prática serena,

Melhor futuro me augurava, as doces

Palavras tuas, sôfregos, atentos

Sorvendo meus ouvidos, - nos teus olhos

Lendo os meus olhos tanto amor, que a vida

Longa, bem longa, não bastara ainda

Porque de os ver me saciasse!... O pranto

Então dos olhos meus corre espontâneo,

Que não mais te verei. - Em tal pensando

De martírios calar sinto em meu peito

Tão grande plenitude, que a minha alma

Sente amargo prazer de quanto sofre.

 

 

 

 

 

Tristeza

 

 

 

Que leda noite! - Este ar embalsamado,

Este silêncio harmônico da terra

Que sereno prazer n'alma cansada

Não espreme, não filtra, não difunde?

A brisa lá sussurra na folhagem

D'espessas matas, d'árvores robustas,

Que velam sempre e sós, que a Deus elevam

Misterioso coro, que do Bardo

A crença quase morta inda alimenta.

É esta a hora mágica de encantos,

Hora d'inspirações dos céus descidas,

Que em delírio de amor aos céus remontam.

 

Aqui da vida as lástimas infindas,

Do mirrado egoísmo a voz ruidosa

Não chegam; nem soluços, risos, festas,

- Hilaridade vã de turba incauta,

Néscia de ruim futuro; ou queixa amarga

De decrépito velho, enfermo, exangue,

Nem do mancebo os ais doidos, preso

Ao leito do sofrer na flor da vida.

 

Aqui reina o silêncio, o religioso,

Morno sossego, que povoa as ruínas,

E o mausoléu soberbo, carcomido,

E o templo majestoso, em cuja nave

Suspira ainda a nota maviosa,

O derradeiro arfar d'órgão solene.

 

Em puro céu a lua resplandece,

Melancólica e pura, simelhando

Gentil viúva que pranteia o extinto,

O belo esposo amado, e vem de noite,

Vivendo pelo amor, mau grado a morte,

Ferventes orações chorar sobre ele.

 

Eu amo o céu assim, sem uma estrela,

Azul sem mancha, - a lua equilibrada

Num céu de nuvens, e o frescor da tarde,

E o silêncio da noite adormecida,

Que imagens vagas de prazer desenha.

 

Amo tudo o que dá no peito e n'alma

Tréguas ao recordar, tréguas ao pranto,

À v'emência da dor, à pertinácia

Tenaz e acerba de cruéis lembranças;

Amo estar só com Deus, porque nos homens

Achar não pude amor, nem pude ao menos

Sinal de compaixão achar entre eles.

 

Menti - um inda achei; mas este em ócio

Feliz descansa agora, enquanto aos ventos

E ao cru furor das verde-negras ondas

Da minha vida a barca aventureira

Insano confiei; em céu diverso

Luzem com luz diversa estrelas d'ambos.

Ai! triste, que houve tempo em que eu julgava

As duas uma só, - c'o mesmo brilho

Uma e outra nos céus meigas brilhavam!

Hoje cintila a dele, enquanto a minha

Entre nuvens, sem luz, se perde agora.

Meu Deus, foi bom assim! No imenso pego

Mais uma gota d'amargor que importa?

Que importa o fel na taça do absinto,

Ou uma dor de mais onde outras reinam?

 

 

 

 

 

O Trovador

 

Ele cantava tudo o que merece de ser cantado;

o que há na terra de grande e de santo - o amor e a virtude.

 

Numa terra antigamente

Existia um Trovador;

Na Lira sua inocente

Só cantava o seu amor.

 

Nenhum sarau se acabava

Sem a Lira de marfim,

Pois cantar tão alto e doce

Nunca alguém ouvira assim.

 

E quer donzela, quer dona,

Que sentira comoção

Pular-lhe n'alma, escutando

Do Trovador a canção;

 

De jasmins e de açucenas

A fronte sua adornou;

Mas só a rosa da amada

Na Lira amante poisou.

 

E o Trovador conheceu

Que era traído - por fim;

Pôs-se a andar, e só se ouvia

Nos seus lábios: ai de mim!

 

Enlutou de negro fumo

A rosa de seu amor,

Que meia oculta se via

Na gorra do Trovador;

 

Como virgem bela, morta

Da idade na linda flor,

Que parece, o dó trajando,

Inda sorrir-se de amor.

 

No meio do seu caminho

Gentil donzela encontrou:

Canta - disse; e as cordas d'oiro

Vibrando, o triste cantou.

 

"Teu rosto engraçado e belo

"Tem a lindeza da flor;

"Mas é risonho o teu rosto:.

"Não tens de sentir amor!

 

"Mas tão bem por esse dia

"Que viverás, como a flor,

"Mimosa, engraçada e bela,

"Não tens de sentir amor!

 

"Oh! não queiras, por Deus, homem que tenha

"Tingida a larga testa de palor;

"Sente fundo a paixão, - e tu no mundo

"Não tens de sentir amor!

 

"Sorriso jovial te enfeita os lábios,

"Nas faces de jasmim tens rósea cor;

"Fundo amor não se ri, não é corado...

"Não tens de sentir amor;

 

"Mas se queres amar, eu te aconselho,

"Que não guerreiro, escolhe um trovador,

"Que não tem um punhal, quando é traído,

"Que vingue o seu amor."

 

Do Trovador pelo rosto

Torva raiva se espalhou,

E a Lira sua, tremendo,

Sem cordas d'oiro ficou.

 

Mais além no seu caminho

Donzel garboso encontrou:

Canta - disse: e argênteas cordas

Pulsando, o triste cantou.

 

"Aos homens da mulher enganam sempre

"O sorriso, o amor;

"É este breve, como é breve aquele

"Sorriso enganador.

 

"Teu peito por amor, Donzel, suspira,

"Que é de jovens amar a formosura;

"Mas sabe que a mulher, que amor te jura,

"Dos lindos lábios seus cospe a mentira!

 

"Já frenético amor cantei na lira,

"Delícias já sorvi num seu sorriso,

"Já venturas fruí do paraíso,

"Em terna voz de amor, que era mentira!

 

"O amor é como a aragem que murmura

"Da tarde no cair - pela folhagem;

"Não volta o mesmo amor à formosura

"Bem como nunca volta a mesma - aragem.

 

"Não queiras amar, não; pois que a'sperança

"Se arroja além do amor por largo espaço.

"Tens, brilhando ao sol, a forte lança,

"Tens longa espada cintilante d'aço.

 

"Tens a fina armadura de Milão,

"Tens luzente e brilhante capacete,

"Tens adaga e punhal e bracelete

"E, qual lúcido espelho, o morrião.

 

"Tens fogoso corcel todo arreiado,

"Que mais veloz que os ventos sorve a terra;

"Tens duelos, tens justas, tens torneios,

"Que os fracos corações de medo cerro;

 

"'tens pajens, tens valetes e escudeiros

"E a marcha afoita, apercebida em guerra

"Do luzido esquadrão de mil guerreiros.

"Oh! não queiras amar! - Como entre a neve

 

"O gigante vulcão borbulha e ferve

"E sulfúrea chama pelos ares lança,

"Que após o seu cair torna-se fria;

"Assim tu acharás petrificada,

 

"Bem como a lava ardente do vulcão,

"A lava que teu peito consumia

"No peito da mulher - ou cinza ou nada -

"Não frio, mas gelado o coração!"

 

E o Trovador despeitoso

De prata as cordas quebrou,

E nas de chumbo seu fado

A lastimar começou.

 

"Que triste que é neste mundo

"O fado dum Trovador! ,

"Que triste que é! - bem que tenha ,

"Sua Lira e seu amor,

 

"Quando em festejos descanta,

"Rasgado o peito com dor,

"Mimoso tem de cantar

"Na sua Lira - o amor!

 

"Como a um servo vil ordena

"Um orgulhoso Senhor,

"Canta, diz-lhe; quero ouvir-te:

"Quero descantes de amor!

 

"Diz-lhe o guerreiro, que apenas

"Lidou em justas de amor:

"- Minha dama quer ouvir-te,

"Canta, truão trovador! -

 

"Manda a mulher que nos deixa

"De beijos murchada flor:

"- Canta, truão, quero ouvir-te,

"Um terno canto de amor!

 

"Mas se a mulher, que ele adora

"Atraiçoa o seu amor;

"Embalde busca a seu lado

"Um punhal - o Trovador!

 

Se escuta palavras dela, -

"Que a outros juram amor;

"Embalde busca a seu lado

"Um punhal - o Trovador!

 

"Se vê luzir de alguns lábios

"Um sorriso mofador;

"Embalde busca a seu lado

"Um punhal - o Trovador!

 

"Que triste que é neste mundo

"O fado dum Trovador!

"Pesar lhe dá sua Lira,

"Dá-lhe pesar seu amor!"

 

E o Trovador neste ponto

A corda extrema arrancou;

E num marco do caminho

A Lira sua quebrou:

Ninguém mais a voz sentida

Do Trovador escutou!

 

 

 

 

 

Amor! Delírio - Engano

 

Y el llanto que en su cólera derrama,

La hoguera apaga del antiguo amor!

-- Zorrilla

 

Amor! delírio - engano... Sobre a terra

Amor tão bem fruí; a vida Inteira

Concentrei num só ponto - amá-la, e sempre.

Amei! - dedicação, ternura, extremos

Cismou meu coração, cismou minha alma,

- Minha alma que na taça da ventura

Vida breve d'amor sorveu gostosa.

Eu e ela, ambos nós, na terra ingrata

Oásis, paraíso, éden ou templo

Habitamos uma hora; e logo o tempo

Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto,

Doce encanto que o amor nos fabricara.

 

E eu sempre a via!... quer nas nuvens d'oiro

Quando ia o sol nas vagas sepultar-se,

Ou quer na branca nuvem que velava _

O círculo da lua, - quer no manto

D'alvacenta neblina que baixava

Sobre as folhas do bosque, muda e grave,

Da tarde no cair; nos céus, na terra,

A ela, a ela só, viam meus olhos.

 

Seu nome, sua voz - ouvia eu sempre;

Ouvia-os no gemer da parda rola,

No trépido correr da veia argêntea,

No respirar da brisa, no sussurro

Do arvoredo frondoso, na harmonia

Dos astros inefável; - o seu nome!

Nos fugitivos sons de alguma frauta,

Que da noite o silêncio realçavam,

Os ares e a amplidão divinizando,

Ouviam meus ouvidos; e de ouvi-lo

Arfava de prazer meu peito ardente.

 

Ah! quantas vezes, quantas! junto dela

Não senti sua mão tremer na minha;

Não lhe escutei um lânguido suspiro,

Que vinha lá do peito à flor dos lábios

Deslizar-se e morrer?! Dos seus cabelos

A mágica fragrância respirando,

Escutando-lhe a voz doce e pausada,

Mil venturas colhi dos lábios dela,

Que Instantes de prazer me futuravam.

Cada sorriso seu era uma esp'rança,

E cada esp'rança enlouquecer de amores.

 

E eu amei tanto! - Oh! não! não hão de os homens

Saber que amor, à ingrata, havia eu dado;

Que afetos melindrosos, que em meu peito

Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte!

Oh! - não, - morra comigo o meu segredo;

Rebelde o coração murmure embora.

 

Que de vezes, pensando a sós comigo,

Não disse eu entre mim: - Anjo formoso,

Da minha vida que farei, se acaso

Faltar-me o teu amor um só instante;

- Eu que só vivo por te amar, que apenas

O que sinto por ti a custo exprimo?

No mundo que farei, como estrangeiro

Pelas vagas cruéis à praia Inóspita

Exânime arrojado? - Eu, que isto disse,

Existo e penso - e não morri, - não morro

Do que outrora senti, do que ora sinto

De pensar nela, de a rever em sonhos,

Do que fui, do que sou e ser podia!

 

Existo; e ela de mim jaz esquecida!

Esquecida talvez de amor tamanho,

Derramando talvez noutros ouvidos

Frases doces de amor, que dos seus lábios

Tantas vezes ouvi, - que tantas vezes

Em êxtase divino aos céus me alçaram,

- Que dando à terra ingrata o que era terra

Minha alma além das nuvens transportaram.

Existo! como outrora, no meu peito

Férvido o coração pular sentindo,

Todo o fogo da vida derramando

Em queixas mulheris, em moles versos.

 

E ela!... ela talvez nos braços doutrem

Com sua vida alimenta uma outra vida,

Com o seu coração o de outro amante,

Que mais feliz do que eu, inferno! a goza.

Ela, que eu respeitei, que eu venerava

Como a relíquia santa! - a quem meus olhos,

Receando ofendê-la, tantas vezes

De castos e de humildes se abaixaram!

Ela, perante quem sentia eu presa

A voz nos lábios e a paixão no peito!

Ela, ídolo meu, a quem o orgulho,

A força d'homem, o sentir, vontade

Própria e minha dediquei, - sujeita

À voz de alguém que não sou eu, - desperta,

Talvez no instante em que de mim se lembra,

Por um ósculo frio, por carícias

Devidas dum esposo!...

 

Oh! não poder-te,

Abutre roedor, cruel ciúme,

Tua funda raiz e a imagem dela

No peito em sangue espedaçar raivoso!

 

Mas tu, cruel, que és meu rival, numa hora,

Em que ela só julgar-se, hás de escutar-lhe

Um quebrado suspiro do imo peito,

Que d'eras já passadas se recorda.

Hás de escutá-lo, e ver-lhe a cor do rosto

Enrubescer-se ao deparar contigo!

Presa serás também d'atros cuidados,

Terás ciúme, e sofrerás qual sofro:

Nem menor que o meu mal quero a vingança.

 

 

 

 

 

Delírio

 

Quando dormimos o nosso espírito vela.

-- Ésquilo

 

A noite quando durmo, esclarecendo

As trevas do meu sono,

Uma etérea visão vem assentar-se

Junto ao meu leito aflito!

Anjo ou mulher? não sei. - Ah! se não fosse

Um qual véu transparente,

Como que a alma pura ali se pinta

Ao través do semblante,

Eu a crera mulher... - E tentas, louco,

Recordar o passado,

Transformando o prazer, que desfrutaste,

Em lentas agonias?!

 

Visão, fatal visão, por que derramas

Sobre o meu rosto pálido

A luz de um longo olhar, que amor exprime

E pede compaixão?

Por que teu coração exala uns fundos,

Magoados suspiros,

Que eu não escuto, mas que vejo e sinto

Nos teus lábios morrer?

Por que esse gesto e mórbida postura

De macerado espírito,

Que vive entre aflições, que já nem sabe

Desfrutar um prazer?

 

Tu falas! tu que dizes? este acento,

Esta voz melindrosa,

Noutros tempos ouvi, porém mais leda;

Era um hino d'amor.

A voz, que escuto, é magoada e triste,

- Harmonia celeste,

Que à noite vem nas asas do silêncio

Umedecer as faces

Do que enxerga outra vida além das nuvens.

Esta voz não é sua;

É acorde talvez d'harpa celeste,

Caído sobre a terra!

 

Balbucias uns sons, que eu mal percebo,

Doridos, compassados,

Fracos, mais fracos; - lágrimas despontam

Nos teus olhos brilhantes...

Choras! tu choras!... Para mim teus braços

Por força irresistível

Estendem-se, procuram-me; procuro-te

Em delírio afanoso.

Fatídico poder entre nós ambos

Ergueu alta barreira;

Ele te enlaça e prende... mal resistes...

Cedes enfim. . . acordo!

 

Acordo do meu sonho tormentoso,

E choro o meu sonhar!

E fecho os olhos, e de novo intento

O sonho reatar.

Embalde! porque a vida me tem preso;

E eu sou escravo seu!

Acordado ou dormindo, é triste a vida

Dês que o amor se perdeu.

Há contudo prazer em nos lembrarmos

Da passada ventura,

Como o que educa flores vicejantes

Em triste sepultura.

 

 

 

 

 

Epicédio

 

Passa la bella donna e par che dorma.

-- Tasso

 

Seu rosto pálido e belo

Já não tem vida nem cor!

Sobre ele a morte descansa,

Envolta em baço palor.

 

Cerraram-se olhos tão puros,

Que tinham tanto fulgor;

Coração que tanto amava

Já hoje não sente amor;

 

Que o anjo belo da morte

A par desse anjo baixou!

Trocaram brandas palavras,

Que Deus somente escutou.

 

Ventura, prazer, ledice

Duma outra vida contou;

E o anjo puro da terra

Prazer da terra enjeitou.

 

Depois co'as asas candentes

O formoso anjo do céu

Roçou-lhe a face mimosa,

Cobriu-lhe o rosto co'um véu.

 

Depois o corpo engraçado

Deixou à terra sem vida,

De tênue palor coberto,

- Verniz de estátua esquecida.

 

E bela assim, como um lírio

Murcho da sesta ao ardor,

Teve a inocência dos anjos,

Tendo o viver duma flor.

 

Foi breve! - mas a desgraça

A testa não lhe enrugou,

E aos pés do Deus que a crIara

Alma inda virgem levou.

 

Sai da larva a borboleta,

Sai da rocha o diamante,

De um cadáver mudo e frio

Sai uma alma radiante.

 

Não choremos essa morte,

Não choremos casos tais;

Quando a terra perde um justo,

Conta um anjo o céu de mais.

 

 

 

 

 

Sofrimento

 

 

 

Meu Deus, Senhor meu Deus, o que há no mundo

Que não seja sofrer?

O homem nasce, e vive um só instante,

E sofre até morrer!

 

A flor ao menos, nesse breve espaço

Do seu doce viver,

Encanta os ares com celeste aroma,

Querida até morrer.

 

É breve o romper d'alva, mas ao menos

Traz consigo prazer;

E o homem nasce e vive um só instante:

E sofre até morrer!

 

Meu peito de gemer já está cansado,

Meus olhos de chorar;

E eu sofro ainda, e já não posso alivio

Sequer no pranto achar!

 

Já farto de viver, em meia vida,

Quebrado pela dor,

Meus anos hei passado, uns após outros,

Sem paz e sem amor.

 

O amor que eu tanto amava do imo peito,

Que nunca pude achar,

Que embalde procurei, na flor, na planta,

No prado, e terra, e mar!

 

E agora o que sou eu? - Pálido espectro,

Que da campa fugiu;

Flor ceifada em botão; imagem triste

De um ente que existiu...

 

Não escutes, meu Deus, esta blasfêmia;

Perdão, Senhor, perdão!

Minha alma sinto ainda, - sinto, escuto

Bater-me o coração.

 

Quando roja meu corpo sobre a terra,

Quando me aflige a dor,

Minha alma aos céus se eleva, como o incenso,

Como o aroma da flor.

 

E eu bendigo o teu nome eterno e santo,

Bendigo a minha dor,

Que vai além da terra aos céus infindos

Prender-me ao criador.

 

Bendigo o nome teu, que uma outra vida

Me fez descortinar,

Uma outra vida, onde não há só trevas,

E nem há só penar.

 

 

 

 

 

Visões

 

 

 

I - Prodígio

 

Naquele instante em que vacila a mente

Do sono ao despertar, quando pejada

Vem doutros mundos de visões etéreas;

Quando sobre a manhã surge brilhante

A luz da madrugada, - eu vi!... nem sonhos

Era a minha visão, real não era;

Mas tinha d'ambos o talvez. - Quem sabe?

Foi capricho falaz da fantasia,

Ou foi certo aventar d'eras venturas?

 

A ira do Senhor baixou tremenda

Sobre uma vasta capital! - em pedra

Tornou-se a gente impura. Muitos homens

Às portas férreas, largas, vi sentados.

Melhor do que um pintor ou estatuário

A morte, que de súbito os colhera

No ardor, no afã da vida, conservou-lhes

A ação - partida em meio, com tal força,

Que a mente seu malgrado a completava.

Um tinha os lábios entreabertos; outro

Parecia sorrir; mais longe aquele

Derramava um segredo, baixo, a medo,

Nos ouvidos do amigo; austero o guarda

Com rosto carregado e barba hirsuta,

Nas mãos calosas sopesava a lança.

Dos mercadores na comprida rua

Passavam muitos compradores; - este

Contava montes d'oiro; - à luz aquele

Expunha a seda do Indostão, de Tiro

A púrpura brilhante, a damasquina

Custosa tela entretecida d'oiro.

Cortês sorrindo, o mercador gabava

As cores vivas, o tecido, o corpo

Do estofo que vendia. Nos serralhos

Era o Eunuco imperfeito; das Mesquitas

Bradava à prece o Muezim...

- Num largo,

Fofo e vasto divã sentado, um velho

Os versos lia do Alcorão; - só ele

Dentre tanto punir ficara ileso.

 

 

 

II - A Cruz

 

Era um templo d'arábica estrutura,

Majestoso, elegante; - além das nuvens

Se entranhava nos céus subtil a agulha;

Sobre o zimbório retumbante e vasto

Ondas e ondas de vapor cresciam.

Dentro corriam três compridas naves

Sobre dois renques de colunas, onde

Baixos-relevos da sagrada história

Da base ao capitel se emaranhavam.

Ardia a luz na alâmpada sagrada;

No sagrado instrumento o som dormia.

 

Junto à cruz - da fachada egrégia pompa -

Muitos homens eu vi de torvo aspecto;

Muitos outros, servis, com mão armada

Profundos golpes entalhavam nela.

Um daqueles no entanto assim falava:

 

"Quando esta humilde cruz rojar por terra,

"Levando a crença de Jesus consigo,

"Nós outros, da verdade Sacerdotes,

"Nós Doutores do mundo, nós Luzeiros

"Que desvendamos a impostura, o erro,

"A mentira sagaz, a crença louca,

"Entrada fácil da razão no templo

"Teremos todos, e de então no trono,

"Do néscio vulgo imparciais sob'ranos,

"Santos juízes da verdade santa,

"Pregaremos o justo, a paz, concórdia

"E os seus deveres que dimanam fáceis

"Do amor do lucro e do interesse; todos

"- Vassalos da razão, nossos vassalos -

"Um éden terreal farão do mundo."

 

No entanto aos crebros golpes do machado

A cruz pendia oblíqua sobre a terra.

Criando novas forças com tal vista,

Os operários mais freqüentes golpes

Repetem, vibram, continuam; - soa

Por toda a parte o eco, - o som, mais longe,

Retumba, morre - e novamente ecoa.

Nisto a cruz - geme - estrala; um grito sobe

Uníssono e geral!. . .

Como sois grande,

Senhor, Senhor meu Deus? - Eu vi, morrendo,

Os obreiros cair; e a cruz erguer-se,

Como aos raios do sol a flor mimosa

Que a raiva do tufão vergara insana.

 

 

 

III - Passamento

 

Era um quarto espaçoso; - ali se viam

Rojar no pavimento, há pouco, as sedas,

Ricos tapetes multicor bordados,

E franjas complicadas dum céu d'oiro

Pendentes, - vastos rases narradores

De lenda pia ou de briosos feitos.

Mas de tanto luzir, de tanto ornato

Ora por mãos avaras depredado

O vasto d'área revelava aos olhos,

Tendo num canto escuro um leito apenas.

Do leito alguém rasgara o cortinado.

E da curva armação polida e bela

Aqui, ali, pendia a seda em fios,

Bem como tranças de mulher formosa

Por sobre o seio nu. - Ali no leito

Jazia um moribundo; em torno os olhos

Cheios de pasmo e de terror volvia,

Bebendo pelos sôfregos ouvidos

Mal sentido rumor doutro aposento.

Confusas vozes, altercar ruidoso,

E o tinir de metal ouvia apenas!

Então por vezes três no leito aflito

Erguer-se maquinou de raiva insano!

Por três vezes caiu, gemendo, sobre

O leito que da queda se sentia.

 

Da morte o cru torpor nos membros frios

Pouco e pouco s'espalha; mas teimoso

Da vida o amor debate-se nas ânsias

Desse passo fatal. . .

- Eis nisto à porta

Um Padre assoma, - dentre as mãos erguidas

Da hóstia santa resplendor luzia;

 

E palavras de paz, de amor, divinas,

Que nos lábios do justo Deus entorna,

Abundantes soltava. Longos anos

De piedoso sofrer o corpo enfermo

Alquebraram por fim: as cãs nevadas

Raras tremiam sobre a testa, como

Tremia na garganta a voz cansada.

 

Dizia o bom do velho: - "Irmão, nas ânsias,

"No extremo agonizar da morte amiga

"Ergue os olhos ao céu; - do céu te venha

"Esse divino amor, que só lá morri,

"Que filtra por nossa alma, que nos deixa

"Mais celeste prazer, mais doce arroubo,

"Do que a terra sói dar...

"Infames, tredos,

"Bufarinheiros de palavras, corvos

"De negro, feio agoiro, que esvoaçam

"Com grito grasnador por sobre o campo,

"Onde a peleja de reinar começa;

"Dizes-me tu - a mim! a mim que ao foro

"Caminho inda hoje entre alas de clientes,

"Que só me visto de veludo e d'oiro,

"Enquanto vives de burel coberto,

"Co'os lábios sobre o pó mordendo a terra!

"Dizes-me tu a mim!..."

Ergueu-se, o corpo

Caiu de fraco sobre o leito; o velho

No entanto humilde orava, que alma santa

Do mal cabido insulto não se ofende.

 

Jeová, que entre miríades

Vives de estrelas formosas,

Que das flores melindrosas

Da terra - os anjos formaste;

Jeová, que pela água

Lustrar quiseste o Messias,

Que ao beato, ao santo Elias

Nas chamas purificaste;

Jeová, que a mente apuras

No fogo do sofrimento,

Que divino alto portento

Deste fazer à Moisés,

Quando a negra rocha dura

Tocando co'a tênue vara,

Rebentou a linfa clara.

Lambendo-lhe mansa os pés:

 

Jeová, que eterno existes,

Cujo ser em si se encerra,

Que formaste o céu e a terra,

Que te chamas - o que é,

- Faz, Senhor d'altos prodígios,

Com que a mente empedernida

Não se aparte desta vida

Sem sentir a santa fé.

 

E tu, Cristo, que sofreste

Martírios por nosso amor,

Tu que foste o Salvador,

Salva-o, Senhor, por quem és.

Dá que em palavras piedosas

Se derrame contristado,

Como o rochedo tocado

Pela vara de Moisés.

 

E o confuso rumor do outro aposento

Crescia mais e mais. - Do moribundo

Os cúpidos herdeiros dividiam

Por si a vasta herança; os torvos olhos

Iam de rosto a rosto, fuzilando

Ameaças de morte.

 

No entanto o velho exânime e sem forças

Curtia amargos transes, que avarento,

E tendo a vida inútil presa a terra

Com toda a força d'alma, - agora em ânsias

Sentia o hálito vital fugir-lhe,

E a terra abandoná-lo.

 

Estua-lhe a dor no peito aflito!. . .

Só não chorava, que do pranto a fonte

Jazia extinta; mas pensava triste:

- Não tinha alguém que lhe cerrasse os olhos

Nem quem chorando lhe abrandasse o amargo

Do extremo agonizar

 

E a mente, já medrosa, em feio quadro

lhe pintava os seus feitos: - A vingança,

Que tão grande prazer lhe tinha sido,

Ora em martírios se tornava; a chusma

Dos homicídios seus crescia torva,

E no leito o cercava.

 

Crença infantil! dizia; loucos, cegos

Prejuízos do vulgo; - assim dizendo

Os vãos fantasmas repelir buscava.

Mas a crença infantil, os prejuízos

Do néscio vulgo, ríspidos tornavam,

Como inseto importuno.

 

Debalde por não ver cerrava os olhos.

Sobre os olhos debalde as mãos cruzava,

Que as sombras nos ouvidos lhe falavam,

E mais distintas se pintavam n'alma

- Tão bem molesta, qual se pinta o corpo

Do espelho no polido.

 

E do seu passamento o caso infando

Narrava uma após outra, sobre o peito

Mostrando o golpe fúnebre e cruento;

Sorvendo o fel da taça amarga o enfermo

Parecia sorrir!... era qual louco

Que sofre e um riso finge.

 

E das visões indo a fugir se arroja

De sobre o leito delirante; as sombras

Voam sobre ele, e em círculo se ordenam.

O moribundo a esta, a aquela, a todas

Volve o pávido rosto, no mover-se

Progressivo, incessante.

 

E preso ao duro embate da vertigem,

As mestas sombras ao redor com ele

Fugir sentia; o pavimento, a casa

Rápido rodava; a terra e tudo,

Como aos soluços dum vulcão tremendo,

As forças lhe tolhiam.

 

E o orgulhoso que feliz vivera,

Movendo a seu bom grado mil escravos,

Querendo a terra dominar co'um gesto,

Ora mesquinho, solitário e louco,

Face a face, lutando com seus crimes,

Morria impenitente.

 

 

 

IV

 

Era o vulto de um homem morto que afastando o sudário se ia

erguer do túmulo para revelar alguns dos temerosos mistérios,

que encerra a aparente quietação dos sepulcros.

-- O Presbítero

 

O negrume da noite avulta; e cresce

Mais feia a escuridão

À luz da sacra pira que derrama

Frouxo e tíbio clarão.

 

Calou-se o canto, a prece, - é mudo o templo;

Apenas fraco soa

Da torre o bronze, que a noturna brisa

De rumores povoa.

 

Mas eis que de um sepulcro a pedra fria

S'ergue e sobre outras cai.

Não se escuta rumor! - da campa livre

Medroso espectro sai.

 

O rosto ossificado em tomo volve,

Volve a suja caveira;

Do liso crânio os longos dedos varrem

A fúnebre poeira.

 

Mas inda inteiro o coração se via

Do peito nas cavernas,

Inda sangrento lágrimas chorava

Do negro sangue eternas.

 

E caminhando, qual se move a sombra,

Ao órgão se assentou!

Já não dormem os sons, não dormem ecos...

- O triste assim cantou:

 

"Onde estás, meu amor, meus encantos,

Por quem só me pesava morrer,

Doce encanto que a vida me prendes,

Que inda em morto me fazes sofrer?

 

"Doce amor, minha vida no mundo,

Desse mundo em que parte serás;

Em que cismas, que pensas, que fazes,

Onde estás, meu amor, onde estás?

 

Ah! debalde na campa gelada,

Fria morte me pôde deitar!

Foi debalde, - que eu sinto, que eu ardo;

Foi debalde, - que eu amo a penar.

 

"Ah! se eu triste no mundo pudesse

Como outrora viver, respirar. . .

Não soubera dizer-te os ardores

Que o sepulcro não pode apagar.

 

"Onde estás? - Já da morte o bafejo

Por teu rosto divino roçou;

Já na campa descansas finada,

Que o teu corpo sem vida tragou?

 

"Mas a morte não pode impiedosa

Crua foice vibrar contra til

Ah! tu vives, que eu sinto, que eu sofro

Crus ardores quais sempre sofri.

 

"E eu não posso o teu nome à noitinha

Entre as folhas saudoso cantar,

Nem seguir-te nas asas da brisa,

Nem teu sono de sonhos doirar.

 

"Nem lembrar-te os queridos instantes

Que a teu lado arroubado passei,

Sem cuidados de incerto futuro,

Só ruidoso da vida que amei.

 

"Não te lembras da noite homicida

Em que um ferro meu peito varou,

Quando a fácil conversa de amores

Teu marido cioso quebrou?!

 

"Desde então hei penado sozinho,

Verte sangue meu peito - de então;

Pode a morte acabar-me a existência,

Mas delir-me não pode a paixão!

 

"Nosso adúltero afeto no mundo

Não se acaba; - assim quis o Senhor!

Não se acaba... - qu'importa? - hei gozado

Teus encantos gentis, teu amor.

 

"Por te amar outras fráguas sofrera,

Outros transes e dor e penar;

Oh! poder que eu podesse outra vida

E outro inferno sofrer por te amar!"

 

Mas da aurora já raiava

Macio e brando clarão;

Macia e branda a canção

Do negro espectro soava.

 

E medroso se colava

Ao órgão seu negro véu,

Que imiga não se ajuntava

Ao seu vulto a luz do céu.

 

Pouco a pouco se perdia

O negro espectro; a canção

Pouco a pouco enfraquecia:

Do dia ao tênue clarão,

 

Era o cantar um soído

Fraco, incerto e duvidoso;

Era o vulto pavoroso

Duma sombra vão tremido.

 

 

 

V - A Morte

 

Dans sa doiileur elle se trouvail

malheurese d'être immortelle.

-- Fénélon

 

Da aurora vinha nascendo

O grato e belo clarão;

Eu sonhava! já mais brandos

Eram meus sonhos então.

 

Condensou-se o ar num ponto,

Cresceu o subtil vapor;

Vi formada uma beleza,

Cheia de encantos, de amor.

 

Mas na candura do rosto

Não se pintava o carmim;

Tinha um quê de cera junto '

À nitidez do marfim.

 

- "Quem és tu, visão celeste, '

Belo Arcanjo do Senhor?"

Respondeu-me: - "Sou a Morte,

Cru fantasma de terror?"

 

- Ah lhe tornei: És a morte,

Tão formosa e tão cruel!

- Correndo o mundo sozinha

No meu pálido corcel, -

 

Assim dizia - "Tu julgas

Que não tenho coração,

Que executo os meus deveres

Sem pesar, sem aflição?

 

- Que inda em flor da vida arranco

Ao jovem, sem compaixão,

A donzela pudibunda

Ou ao longevo ancião?

 

- Oh! não, que eu sofro martírios

Do que faço ao mais sofrer,

Sofro dor de que outros morrem,

De que eu não posso morrer;

 

- Mas em parte a dor me cura

Um pensamento, que é meu, -

Lembro aos humanos que a terra

É só passagem p'ra o céu.

 

- Faço ao triste erguer os olhos

Para a celeste mansão;

Em lábios que nunca oraram

Derramo pia oração.

 

- É meu poder quem apura

Os vícios que a mente encerra,

Ao fogo da minha dor;

Sou quem prendo aos céus a terra,

 

Sou quem ligo a criatura

Ao ser do seu Criador.

- Mas qu'importa? Sem descanso

É-me forçoso marchar,

 

Abater ímpias frontes,

Régias frontes decepar.

- Passar ao través dos homens,

Como um vento abrasador;

 

Como entre o feno maduro

A foice do segador.

- E prostrar uma após outra

Geração e geração,

 

Como peste que só reina

Em meio da solidão." -

Desponta o sol radioso

Entre nuvens de carmim:

 

Cessa o canto pesaroso,

Como corda áurea de Lira,

Que se parte, que suspira

Dando um gemido sem fim.

 

 

 

 

 

O Vate

 

No Álbum de um Poeta

 

Moi. . . j'aimerai la victoire;

Pour mon coeur, ami de toute gloire,

Les triomphes d'autrui ne sont pas un affront.

Poète, j'eus toujours un chant pour les poètes,

Et jamais le laurier qui pare d'autre têtes

Ne jeta d'ombre sur mon front.

-- V. Hugo

 

Vate! Vate! que és tu? - Nos seus extremos

Fadou-te Deus um coração de amores,

Fadou-te uma alma acesa borbulhando

Ardidos pensamentos, como a lava

Que o gigante Vesúvio arroja às nuvens.

 

Vote! vote! que és tu? - Foste ao princípio

Sacerdote e profeta;

Eram nos céus teus cantos uma prece,

Na terra um vaticínio.

E ele cantava então: - Jeová me disse,

Majestoso e terrível.

 

"Vês tu Jerusalém como orgulhosa

"Campeã entre as nações, como no Líbano

"Um cedro a cuja sombra a hissope cresce?

"Breve a minha ira transformada em raios

"Sobre ela cairá;

"Um fero vencedor dentro em seus muros

"Tributária a fará;

"E quando escravos seus filhos, sobre pedra

"Pedra não ficará."

 

E os réprobos de saco se vestiam,

Em pó, em cinza envoltos;

E colando co'a terra os torpes lábios,

E açoitando cu'as mãos o peito imbele,

Senhor! Senhor! - clamavam.

 

E o vate entanto o pálido semblante

Meditabundo sobre as mãos firmara,

Suplicando ao Senhor do interno d'alma.

Foram santos então. - Homero o mundo

Criou segunda vez, - o inferno o Dante, -

Milton o paraíso, - foram grandes!

 

E hoje!... em nosso exílio erramos tristes,

Mimosa esp'rança ao infeliz legando.

Maldizendo a soberba, o crime, os vicio;:

E o infeliz se consola, e o grande treme.

Damos ao infante aqui do pão que temos,

E o manto além ao mísero raquítico:

Somos hoje Cristãos.

 

 

 

 

 

À Morte Prematura da Il.ma Sra. D.

(no Álbum de seu Irmão Da. J. D. Lisboa Serra)

 

On dirait que le ciel aux coeurs plus magnanimes

Measure plus de maux.

-- Lamartine

 

Perfeita formosura em tenra idade

Qual flor, que antecipada foi colhida,

Murchada está da mão da sorte dura.

-- Camões (soneto)

 

Lá, bem longe daqui, em tarde amena,

Gozando a viração das frescas auras,

Que do Brasil os bosques brandamente

Faziam balançar, - e que espalhavam

No éter encantado odor, pureza -

Do que a rosa mais bela, - meiga e casta,

Como as virgens do sol,

Que de vezes não foi ela pendente

Dos braços fraternais em meigo abraço;

Como mimosa flor presa, enlaçada

A tenro arbusto que a vergôntea débil

Lhe ampara docemente. . .

 

E o Irmão que só nela se revia,

O Irmão que a adorava, qual se adora

Um mimo do Senhor;

Que a tinha por farol, conforto e guia,

Os seus dias contava por encantos;

E as virtudes co'os dias pleiteavam.

 

E ela morreu no viço de seus anos!...

E a laje fria e muda dos sepulcros

Se fechou sobre o ente esmorecido

Ao despontar de vida

Tão rica de esperanças e tão cheia

De formosura e graças!... _

 

Campal campa! que de terror incutes!

Quanto esse teu silêncio me horroriza!

E quanto se assemelha a tua calma

À do cruel malvado que impassível

Contempla a sua vítima torcer-se

Em convulsões horríveis, desesp'radas;

Cruas vascas da morte!...

Quem tão má fé te criou?

Tu que tragas o ente que esmorece

Ao despontar de vida

Tão rica de esperanças e tão cheia

De formosura e graças?!

 

O farol se apagou? a luz sumiu-se!

Como o fugaz clarão do meteoro,

Extinguiu-se a esperança; e o malfadado

Sobre a terra deserta em vão procura

Traços dessa que amou, que tanto o amara,

Da jovem companheira de seus brincos,

Pesares e alegrias.

Ele a procurai... o viajor pasmado

Nos campos de Pompéia, alonga a vista

Pela amplidão do plano,

Destroços e ruínas encontrando,

Onde esperava movimento e vida.

 

Não poder eu a troco de meu sangue

Poupar-te dessas lágrimas metade!

Oh! poder que eu pudesse! - e almo sorriso.

Que tanto me compraz ver-te nos lábios,

Inda uma vez brilhasse!

E essa existência,

Que tão cara me é, ta visse eu leda,

E feliz como a vida dos Arcanjos!

Infeliz é quem chora: ela finou-se,

Porque os anjos à terra não pertencem:

Mas lá dos imortais sobre os teus dias

A suspirada irmã vela incessante.

 

Vinde, cândidas rosas, açucenas,

Vinde, roxas saudades;

Orvalhai, tristes lágrimas, as c'roas,

Que hão de a campa adornar por mim depostas

Em holocausto à vítima da morte.

Inocência, pudor, beleza e graça

Com ela nessa campa adormeceram.

Anjo no coração, anjo no rosto,

Devera o amor chorar sobre o teu seio,

Que não grinaldas fúnebres tecer-te;

Devera voz d'esposo acalentar-te

O sono da inocência, - não grosseira

Canção de trovador não conhecido.

 

 

Coimbra, junho de 1841.

 

 

 

 

 

A Mendiga

 

Donnez: -

Et quand vous paraîtrez devant juge austère

Vous direz: J'ai connu la pitié sur la terre,

Je puis la demander aux cieux!

-- Turquety

 

 

 

I

 

Eu sonhei durante a noite...

Que triste foi meu sonhar!

Era uma noite medonha,

Sem estrelas, sem luar.

 

E ao través do manto escuro

Das trevas, meus olhos viam

Triste mendiga formosa,

Qu'infortúnios consumiam.

 

Era uma pobre mendiga,

Porém, cândida donzela;

Pudibunda, afável, doce,

Amorosa, e casta, e bela.

 

Vestia rotos andrajos,

Que o seu corpo mal cobriam;

Por vergonha os olhos dela

Sobre ela se não volviam.

 

Pelas costas descobertas

Cortador o frio entrava;

Tinha fome e sede, - e o pranto

Nos seus olhos borbulhava.

 

E qual vemos dos céus descendo rápido

Um fugaz meteoro, vi descendo

Um anjo do Senhor; - Parou sobre ela,

E mudo a contemplava. - Uma tristeza

Simpática, indizível pouco e pouco

Do anjo nas feições se foi pintando:

Qual tristeza de irmão que a irmã mais nova

Conhece enferrna e chora. - Ela no peito

Menor sentiu a dor, e humilde orava.

 

 

 

II

 

De um vasto edifício nas frias escadas

Eu vi-a sentada; - era um templo, diziam,

Secreto concílio de sócios piedosos,

Que o bem tinha juntos, que bem só faziam.

 

Defronte um palácio soberbo se erguia,

E dele partia confuso rumor:

- A dança girava, e a orquestra sonora

Cantava alegria, prazeres e amor.

 

E quando ao palácio um conviva chegava,

Rugindo se abria o ruidoso portão;

Eflúvios de incenso nos ares corriam

Da rua esteirada com vivo clarão.

 

E a triste mendiga ali 'stava ao relento,

Com fome, com frio, com sede e com dor;

E eu vi o seu anjo, mais triste no aspecto,

Mais baço, mais turvo da glória o fulgor.

 

E à porta do vasto sombrio edifício

Um vulto chegou.

- Senhor, uma esmola! bradou-lhe a mendiga

E o vulto parou.

 

E rude no acento, no aspecto severo,

Lhe disse: - O teu nome?

Tornou-lhe a mendiga: - Senhor, uma esmola,

Que eu morro de fome.

 

- Não, dizes teu nome? lhe torna o soberbo

- Sou órfã, sozinha;

Meu nome qu'importa, se eu sofro, se eu gemo,

Se eu choro mesquinha!"

 

- Em vis meretrizes não cabe esse orgulho,

Tornou-lhe o Senhor,

Que à noite, nas trevas, contratam no crime,

Vendendo o pudor.

 

E a porta do templo - erguido à piedade

Com força batia;

Co'o peso do insulto acrescido à crueza,

A triste gemia.

 

 

 

III

 

Ouvi depois um rodar que a todo o instante

Mais distinto se ouvia; e logo um forte,

Fascinador clarão por toda a rua

Se derramou soberbo. - Infindos pajens

Ricas librés trajando, mil archotes

Nos ares revolviam; - fortes, rápidos,

Fumegantes corcéis, sorvendo a terra,

Tiravam rica sege melindrosa.

Sobre a terra saltou airosa e bela

A dona, em frente do festivo paço;

E a mendiga bradou: - Senhora minha,

Dai uma esmola, dai! - À voz dorida

Volveu-se o rosto d'anjo, porém d'anjo

Não era o coração; - foi-lhe importuno,

Mais que importuno... da mesquinha o grito!

E da mendiga o protetor celeste

Parecia falar em favor dela;

E a rica dona o escutava, como

Se ouvisse a interna voz que dentro mora.

 

E eu dizia também - Ó bela Dona,

Dai-lhe uma esmola, daí; - de que vos serve

Um óbolo mesquinha, que não pode

Sequer um dixe sem valor comprar-vos?

Ah! bela como sois, que vos importam

Custosas flores, com que ornais a fronte?

Para a salvar do vórtice do crime,

O preço delas, uma só, da coisa,

Que sem valor julgardes, é bastante.

Sabeis? - Além da vida, além da morte,

Quando deixardes o ouropel na campa,

Quando subirdes do Senhor ao trono,

Sem andrajos sequer, também mendiga,

Ali tereis as lágrimas do pobre,

A bênção do afligido, a prece ardente

Do que sofrendo vos bendisse, - ó Dona.

 

Fechou-se a porta festival sobre ela!

E a donzela se ergueu, corou de pejo,

Lançando os olhos pela rua escusa,

E segura no andar, e firme, à porta

Do palácio bateu - entrou - sumiu-se.

 

E o anjo, como aflito sob um peso,

Um gemido soltou; era uma nota

Melancólica e triste, - era um suspiro

Mavioso de virgem, - um soído

Subtil, mimoso, como d'Harpa Eólia,

Que a brisa da manhã roçou medrosa.

 

 

 

IV

 

Dos muros ao través meus olhos viram

Soberba roda de convivas, - todos

Veludos, sedas, e custosas galas

Trajavam senhoris. - Reinava o jogo

Avaro e grave, leda e viva a dança

Em vórtices girava, a orquestra doce

Cantava oculta; condensados, bastos,

Em redor do banquete estavam muitos.

A mendiga ali estava, - não trajando

Sujos farrapos, mas delgadas telas.

Choviam brindes e canções e vivas

 

À Deusa airosa do banquete; todos

Um volver dos seus olhos, um sorriso,

Uma voz de ternura, um mimo, um gesto

Cobiçavam rivais; - e ali com ela,

Como um raio do sol por entre as nuvens

Lá na quadra hibernal penetra a custo

Quase sem vida, sem calor, sem força,

Menos brilhante vi seu anjo belo.

Nos curtos lábios da feliz mendiga

Passava rápido um sorriso às vezes;

Outras chorava, no volver do rosto,

Na taça do prazer sorvendo o pranto.

Encontradas paixões sentia o anjo:

Parecia chorar co'o seu sorriso,

Parecia sorrir co'o choro dela.

 

 

 

 

 

A Escrava

 

O bien qu'aucun bien ne peut rendre!

Patrie! doux nom que l'exil fait comprendre!

-- Marino Faliero

 

Oh! doce país de Congo

Doces terras d'além-mar!

Oh! dias de sol formoso!

Oh! noites d'almo luar!

 

Desertos de branca areia

De vasta, imensa extensão,

Onde livre corre a mente,

Livre bate o coração!

 

Onde a leda caravana

Rasga o caminho passando,

Onde bem longe se escuta

As vozes que vão cantando!

 

Onde longe inda se avista

O turbante muçulmano,

O Iatagã recurvado,

Preso à cinta do Africano!

 

Onde o sol na areia ardente

Se espelha, como no mar;

Oh! doces terras de Congo,

Doces terras d'além-mar!

 

Quando a noite sobre a terra

Desenrolava o seu véu,

Quando sequer uma estrela

Não se pintava no céu;

 

Quando só se ouvia o sopro

De mansa brisa fagueira,

Eu o aguardava - sentada

Debaixo da bananeira.

 

Um rochedo ao pé se erguia,

Dele à base uma corrente

Despenhada sobre pedras,

Murmurava docemente.

 

E ele às vezes me dizia:

- Minha Alsgá, não tenhas medo;

Vem comigo, vem sentar-te

Sobre o cimo do rochedo.

 

E eu respondia animosa:

- Irei contigo. onde fores! -

E tremendo e palpitando

Me cingia aos meus amores.

 

Ele depois me tornava

Sobre o rochedo - sorrindo.

- As águas desta corrente

Não vês como vão fugindo?

 

Tão depressa corre a vida,

Minha Alsgá; depois morrer

Só nos resta!... - Pois a vida

Seja instantes de prazer.

 

Os olhos em torno volves

Espantados - Ah! também

Arfa o teu peito ansiado!...

Acaso temes alguém?

 

Não receies de ser vista,

Tudo agora jaz dormente;

Minha voz mesmo se perde

No fragor desta corrente.

 

Minha Alsgá, porque estremeces?

Porque me foges assim?

Não te partas, não me fujas,

Que a vida me foge a mim!

 

Outro beijo acaso temes,

Expressão de amor ardente?

Quem o ouviu? - o som perdeu-se

No fragor desta corrente.

 

Assim praticando amigos

A aurora nos vinha achar!

Oh! doces terras de Congo,

Doces terras d'além-mar!

 

Do ríspido senhor a voz irada

Rábida soa,

Sem o pranto enxugar a triste escrava

Pávida voa.

 

Mas era em mora por cismar na terra,

Onde nascera,

Onde vivera tão ditosa, e onde

Morrer devera!

 

Sofreu tormentos, porque tinha um peito,

Qu'inda sentia;

Mísera escrava! no sofrer cruento.

Congo! dizia.

 

 

 

 

 

Ao Dr. João Duarte Lisboa Serra

 

23 agosto.

 

 

 

Mais um pungir de acérrima saudade,

Mais um canto de lágrimas ardentes,

Oh! minha Harpa, - oh! minha Harpa desditosa.

 

Escuta, ó meu amigo: da minha alma

Foi uma lira outrora o instrumento;

Cantava nela amor, prazer, venturas,

Até que um dia a morte inexorável

Triste pranto de irmão veio arrancar-te!

 

As lágrimas dos olhos me caíram,

E a minha lira emudeceu de mágoa!

Então aventei eu que a vida inteira

Do bardo, era um perene sacerdócio

De lágrimas e dor; - tomei uma Harpa:

Na corda da aflição gemeu minha alma,

Foi meu primeiro canto um epicédio!

Minha alma batizou-se em pranto amargo,

Na frágua do sofrer purificou-se!

 

Lancei depois meus olhos sobre o mundo,

Cantor do sofrimento e da amargura;

E vi que a dor aos homens circundava,

Como em roda da terra o mar se estreita;

Que apenas desfrutamos, - miserandos!

Desbotado prazer entre mil dores,

- Uma rosa entre espinhos aguçados,

Um ramo entre mil vagas combatido.

 

Voltou-se então p'ra Deus o meu esp'rito,

E a minha voz queixosa perguntou-lhe:

- Senhor, porque do nada me tiraste,

Ou por que a tua voz onipotente

Não fez secar da minha vida a sebe,

Quando eu era principio e feto - apenas?

 

Outra voz respondeu-me dentro d'alma:

- Ardam teus dias como o feno, - ou durem

Como o fogo de tocha resinosa,

- Como rosa em jardim sejam brilhantes,

Ou baços como o cardo montesinho.

Não deixes de cantar, ó triste bardo. -

E as cordas da minha harpa - da primeira

À extrema - da maior à mais pequena,

Nas asas do tufão - entre perfumes,

Um cântico de amores exaltaram

Ao trono do Senhor; - e eu disse às turbas:

- Ele nos faz gemer porque nos ama;

Vem o perdão nas lágrimas contritas,

 

Nas asas do sofrer desce a demência;

Sobre quem chora mais ele mais vela!

Seu amor divinal é como a lâmpada,

Na abóbada dum templo pendurada,

Mais luz filtrando em mais opacas trevas.

Eu o conheço: - o cântico do bardo

É bálsamo ao que morre, - é lenitivo,

Mas doloroso, mas funéreo e triste

A quem lhe carpe infausto a morte crua.

Mas quando a alma do justo, espedaçando

O invólucro de lodo, aos céus remonta,

Como estrada de luz correndo os astros,

Seguindo o som dos cânticos dos anjos

Que na presença do Senhor se elevam;

Choro... tão bem Jesus chorou a Lázaro!

Mas na excelsa visão que se me antolha

Bebo consolações, - minha alma anseia

A hora em que também há de asilar-se

No seio imenso do perdão do Eterno.

 

Chora, amigo: porém quando sentires

O pranto nos teus olhos condensar-se,

Que já não pode mais banhar-te as faces,

Ergue os olhos ao céu, onde a luz mora,

Onde o orvalho se cria, onde parece

Que a tímida esperança nasce e habita.

E se eu - feliz! - puder inda algum dia

Ferir por teu respeito na minha harpa

A leda corda onde o prazer palpita,

A corda do prazer que ainda inteira,

Que virgem de emoção inda conservo,

Suspenderei minha harpa dalgum tronco

Em of'renda à fortuna; - ali sozinha,

Tangida pelo sopro só do vento,

Há de mistérios conversar co'a noite.

De acorde estreme perfumando as brisas:

Qual Harpa de Sião presa aos salgueiros

Que não há de cantar a desventura,

Tendo cantos gentis vibrado nela.

 

 

 

 

 

O Desterro de um Pobre Velho

 

Et dulces moriens reminiscitur Argos.

-- Virgílio

 

O! schwer ist's, in der Fremde sterben unbeweint

-- Schiller

 

A aurora vem despontando,

Não tarda o sol a raiar:

Cantam aves, - a natura

Já começa a respirar.

 

Bem mansa na branca areia

Onda queixosa murmura,

Bem mansa aragem fagueira

Entre a folhagem sussurra.

 

É hora cheia de encantos,

E hora cheia de amor;

A relva brilha enfeitada,

Mais fresca se mostra a flor.

 

Esbelta joga a fragata,

Como um corcel a nitrir;

Suspensa a amarra tem presa,

Suspensa, que vai partir.

 

Em demanda da fragata,

Leve barco vem vogando;

Nele um velho cujas faces

Mudo choro está cortando.

 

Quem era o velho tão nobre,

Que chorava,

Por assim deixar seus lares,

Que deixava?

 

"Ancião, por que te ausentas?

Corres tu trás de ventura?

Louco! a morte já vem perto.

Tens aberta a sepultura.

 

"Louco velho, já não sentes

Bater frouxo o coração? .

Oh! que o sente! - É lei d'exílio

A que o leva em tal sazão!

 

"Não ver mais a cara pátria,

Não ver mais o que deixava,

Não ver nem filhos, nem filhas,

Nem o casal, que habitava!...

 

"Oh! que é má pena de morte,

A pena de proscrição;

Traz dores que martirizam,

Negra dor de coração!

 

"Pobre velho! - longe, longe

Vás sustento mendigar;

Tens de sofrer novas dores,

Novos males que penar.

 

"Não t'há de valer a idade,

Nem a dor tamanho e nobre;

Tens de tragar vis afrontas,

- Insultos que sofre o pobre!

 

"Nada acharás no degredo,

Que fale dos filhos teus;

Ninguém sente a dor do pobre,,,

Só te fica a mão de Deus.

 

"O sol, que além vês raiando

Entre nuvens de carmim,

Noutros climas, noutras terras

Não verás raiar assim.

 

"Não verás a rocha erguida,

Onde t'ias assentar;

Nem o som bem conhecido

Do teu sino hás de escutar.

 

"Há de cair sobre as ondas

O pranto do teu sofrer,

E nesse abismo salgado,

Salgado se há de perder."

 

Já chegou junto à fragata,

Já na escada de apoiou,

Já com voz intercortada

Último adeus soluçou.

 

Canta o nauta, e solta as velas

Ao vento que o vai guiar;

E a fragata mui veleira

Vai fugindo sobre o mar.

 

E o velho sempre em silêncio

A calva testa dobrou,

E pranto mais abundante

O rosto senil cortou.

 

Inda se vê branca a vela

Do navio, que partiu;

Mais além - inda se avista!

Mais além - já se sumiu!

 

 

 

 

 

O Orgulhoso

 

 

 

Eu o vi! - tremendo era no gesto,

Terrível seu olhar;

E o cenho carregado pretendia

O globo dominar.

 

Tremendo era na voz, quando no peito

Fervia-lhe o rancor!

E aos demais homens, como um cedro à relva,

Se cria sup'rior.

 

E o pobre agricultor, junto a seus filhos,

Dentro do humilde lar,

Quisera, antes que os dele, ver um Tigre

Os olhos fuzilar:

 

Que a um filho seu talvez quisera o nobre

Para um Executor;

Ou para o leito infesto alguma filha

Do triste agricultor.

 

Quem ousaria resistir-lhe? - Apenas

Algum pobre ancião

Já sobre o seu sepulcro, desejando

A morte e a salvação.

 

Alguns dias apenas decorreram;

E eis que ele se sumiu!

E a laje dos sepulcros fria e muda

Sobre ele já caiu.

 

E o bárbaro tropel dos que o serviam

Exulta com seu fim!

E a turba aplaude; e ninguém chora a morte

De homem tão ruim.

 

 

 

 

 

O Cometa

 

Ao Sr. Francisco Sotero dos Reis

 

Non est potestas, quae comparetur ei qui

factus est ut nullum timeret.

-- Job

 

Eis nos céus rutilando ígneo cometa!

A imensa cabeleira o espaço alastra,

E o núcleo, como um sol tingido em sangue,

Alvacento luzir verte agoireiro

Sobre a pávida terra.

 

Poderosos do mundo, grandes, povo,

Dos lábios removei a taça ingente,

Que em vossas festas gira; eis que rutila

O sangüíneo cometa em céus infindos!...

Pobres mortais, - sois vermes!

 

O Senhor o formou terrível, grande;

Como indócil corcel que morde o freio,

Retinha-o só a mão do Onipotente.

Ao fim lhe disse: - Vai, Senhor dos Mundos,

Senhor do espaço infindo.

 

E qual louco temido, ardendo em fúria,

Que ao vento solta a coma desgrenhada,

E vai, néscio de si, livre de ferros,

De encontro às duras rochas, - tal progride

O cometa incansável.

 

Se na marcha veloz encontra um mundo,

O mundo em mil pedaços se converte;

Mil centelhas de luz brilham no espaço

A esmo, como um tronco pelas vagas

Infrenes combatido.

 

Se junto doutro mundo acaso passa,

Consigo o arrasta e leva transformado;

A cauda portentosa o enlaça e prende,

E o astro vai com ele, como argueiro

Em turbilhão levado.

 

Como Leviatã perturba os mares,

Ele perturba o espaço; - como a lava,

Ele marcha incessante e sempre; - eterno,

Marcou-lhe largo giro a lei que o rege,

- Às vezes o infinito.

 

Ele carece então da eternidade!

E aos homens diz - e majestoso e grande

Que jamais o verão; e passa, e longe

Se entranha em céus sem fim, como se perde

Um barco no horizonte!

 

 

 

 

 

O Oiro

 

 

 

Oiro, - poder, encanto ou maravilha

Da nossa idade, - regedor da terra,

Que dás honra e valor, virtude e força,

Que tens ofertas, oblações e altares, -

Embora teu louvor cante na lira

Vendido Menestrel que pôde insano

Do grande à porta renegar seu gênio!

Outro, sim, que não eu. - Bardo sem nome,

Com pouco vivo; - sobre a terra, à noite,

Meu corpo lanço, descansando a fronte

Num tronco ou pedra ou mal nascido arbusto.

Sou mais que um rei co'o meu dossel de nuvens

Que tem gravados cintilantes mundos!

Com a vista no céu percorro os astros.

Vagueia a minha mente além das nuvens,

Vagueia o meu pensar - alto, arrojado

Além de quanto o olhar nos céus alcança.

 

Então do meu Senhor me calam n'alma

D'amor ardente enlevos indizíveis;

Se tento às gentes redizer seu nome,

Queimadoras palavras se atropelam

Nos meus lábios; - profética harmonia

Meu peito anseia, e em borbotões se expande.

Grandes, Senhor, são tuas obras, grandes

Teus prodígios, teu poder imenso:

O pai ao filho o diz, um sec'lo a outro,

A terra ao céu, o tempo à eternidade!

 

Do mundo as ilusões, vaidade, engano.

Da vida a mesquinhez - prazer ou pranto -

Tudo esse nome arrasta, prostra e some;

Como aos raios do sol desfeito o gelo,

Que em ondas corre no pendor do monte,

Precípite e ruidoso, - arbustos, troncos

Consigo no passar rompidos leva.

 

 

 

 

 

A um Menino

 

Oferecida à exma. Sra. D. M. L. L. V.

 

 

 

I

Gentil, engraçado infante

Nos teus jogos inconstante,

Que tens tão belo semblante,

Que vives sempre a brincar,

- Dos teus brinquedos te esqueces

À noitinha, - e te entristeces

Como a bonina, - e adormeces,

Adormeces a sonhar!

 

II

Infante, serão as cores

De várias, viçosas flores,

Ou são da aurora os fulgores

Que vem teus sonhos doirar?

Foi de algum ente celeste,

Que de luzeiros se veste,

Ou da brisa é que aprendeste,

Que aprendeste a suspirar?

 

III

Tens no rosto afogueado

Um qual retrato acabado

De um sentir aventurado,

Que te ri no coração;

É talvez a voz mimosa

De uma fada caprichosa,

Que te promete amorosa,

Algum brilhante condão!

 

IV

Ou por ventura és contente,

Porque no sonho, que mente,

Fantasiaste inocente

Algum dos brinquedos teus!. . .

Senhor, tens bondade infinda!

Fizeste a aurora bem linda,

Criaste na vida ainda

Um'outra aurora dos céus.

 

V

O som da corrente pura,

A folhagem que sussurra,

Um acento de ternura,

De ternura divinal;

A indizível harmonia

Dos astros no fim do dia,

A voz que Mêmnon dizia,

Que dizia matinal;

 

VI

Nada disto tem o encanto,

Nada disto pode tanto

Como o risonho quebranto,

Divino - do seu dormir:

Que nada há como a Donzela

Pensativa, doce e bela,

E a comparar-se com ela...

Só de um infante o sorrir.

 

VII

Mas de repente chorando

Despertas do sono brando

Assustado e soluçando...

Foi uma revelação!

Esta vida acerba e dura

Por um dia de ventura

Dá-nos anos de amargura

E fráguas do coração.

 

VIII

Só aquele que da morte

Sofreu o terrível corte,

Não tem dores que suporte,

Nem sonhos o acordarão:

Gentil infante, engraçado,

Que vives tão sem cuidado,

Serás homem - mal pecado!

Findará teu sonho então.

 

 

 

 

 

Miserrimus

 

 

 

Quando o inverno chegou, - por sobre a terra

O robe secular espalha a coma,

Que o rábido tufão cortou de morte.

Despida e nua jaz a flor mimosa,

Agora hástea somente; e o sol brilhante

Despede a custo a luz que mal penetra

As nuvens trovejadas que o circundam.

 

Mas o inverno passou! - De novo assume

Virente rama o robe gigantesco,

A flor formosa e bela vem brotando,

E o sol, rei do horizonte, já rutila

Em céu de puro azul-brilhante.

 

Mas quando o desengano, qual tormenta

Que por desertos só valente reina,

Do quente coração arranca, esmaga

Esp'ranças, que o amor enfeitiçava,

Em vão a natureza ufana brilha,

Em vão de puro orvalho a flor se arreia,

Em vão dardeja o sol seus quentes raios,

Em vão!... que o coração jaz frio e murcho.

E não mais viverá! - que a alma sentida

Conhece que o amor é só mentira,

Que é mentira o prazer, mentira tudo!

 

Um dia apareceu um recém-nado,

Como a concha que o mar à praia arroja,

Cresceu; - qual cresce a planta em terra inculta

Que ninguém educou; - a chuva apenas.

Infante - viu de roda sepulturas,

Em que não atentou; - sonhos mimosos,

Acordado ou dormindo, lhe doiravam

A infância leve, d'inocência rica.

Viu belo o ar, e terra, e céus, e mares,

Viu bela a natureza, como a noiva

Sorrindo em breve dia de noivado!

Então sentiu brotarem na sua alma

Sonhos de puro amor, sonhos de glória;

Sentiu no peito um mundo de esperanças,

Sentiu a força em si - patente o mundo.

 

Forte se levantou! correu fogoso,

E qual águia que nas asas se equilibra,

Começou a trilhar da vida a senda.

Um monte além topou; mais vagaroso

Subiu, - vingou mais lento! - Inda mais outro

Colossal - descalvado - íngreme e liso,

Costeou, mas cansou, que era sozinho!

Sentou-se, e mudo, e fraco, é pensativo,

À borda do caminho; e sobre o peito

A cabeça inclinou, cruzando os braços.

Minha mãe! - soluçou; e um eco ao longe

Minha mãe! - respondeu. - Sentiu que a fome

Dolorosa as entranhas lhe apertava,

E sede intensa a ressequir-lhe as fauces;

Fome e sede curtiu como num sonho.

Do rosto nas maçãs descoloridas

- Filtro do coração - sentiu que o pranto

Ardente escorregava a tez queimando.

Muda era a sua dor, - d'homem que sofre,

Que chora isento de vergonha ou crime.

 

Encontrou mais além no seu caminho,

Bela na sua dor, sozinha e fraca,

Figura virginal que ali jazia.

Esqueceu-se de si pensando nela;

Nova força criou, - novo incentivo,

Coragem nova o seu amor criou-lhe.

Lavou-lhe os curtos pés, contra o seu peito

Do frio a protegeu, - tomou nos braços

A carga tão mimosa! - E ela co'os olhos,

Que o amor vendava um pouco, agradecia.

E ela pôde viver; - disse que o amava,

Que era o seu coração dele - e só dele: -

Disse, e mais que uma vez, com peito e lábios

No peito e lábios dele; - era mentira!

 

E ele o conheceu! por precipícios

Descrido se arrojou, sentindo a morte,

Seu berço entre sepulcros procurando.

 

Aqui - ali - além - eram sepulcros;

E o nome de sua mãe, sequer não pode

Dos nomes conhecer de tantos mortos.

E só no seu morrer, qual só na vida,

Na terra se estendeu; nem dor, nem pranto

Tinha no coração que era já morto!

 

E alguém, que ali passou, vendo um cadáver

De sânie e podridão comido e sujo,

Co'o pé num fosso o revolveu; - e terra

Caída acaso o sepultou p'ra sempre.

 

Amizade! - ilusão que os anos somem;

Amor! - um nome só, bem como o nada,

A dor no coração, delícias n'alma,

Nos lábios o prazer, nos olhos pranto

- Tudo é vão, tudo é vão, exceto a morte.

 

 

 

 

 

O Pirata

 

(Episódio)

 

 

 

Nas asas breves do tempo

Um ano e outro passou,

E Lia sempre formosa

Novos amores tomou.

 

Novo amante mão de esposo,

De mimos cheia, lh'of'rece;

E bela, apesar de ingrata,

Do que a amou Lia se esquece.

 

Do que a amou que longe pára,

Do que a amou, que pensa nela,

Pensando encontrar firmeza

Em Lia, que era tão bela!

 

Nesse palácio deserto

Já luzes se vêm luzir,

Que vem nas sedas, nos vidros

Cambiantes refletir.

 

Os ecos alegres soam,

Soa ruidosa harmonia,

Soam vozes de ternura,

Sons de festa e d'alegria.

 

E qual ave que em silêncio

A face do mar desflora,

À noite bela fragata

Chega ao porto, amaina, ancora.

 

Cai da popa e fere as ondas

Inquieta, esguia falua,

Que resvala sobre as águas

Na esteira que traça a lua.

 

Já na vácua praia toca;

Um vulto em terra saltou,

Que na longa escadaria

Presago e torvo enfiou..

 

Malfadado! por que aportas

A este sítio fatal!

Queres o brilho aumentar

Das bodas do teu rival?

 

Não, que a vingança lhe range

Nos duros dentes cerrados,

Não, que a cabeça referve

Em maus projetos danados!

 

Não, que os seus olhos bem dizem

O que diz seu coração;

Terríveis, como um espelho,

Que retratasse um vulcão.

 

Não, que os lábios descorados

Vociferam seu rival;

Não, que a mão no peito aperta

Seu pontiagudo punhal.

 

Não, por Deus, que tais afrontas

Não as sói deixar impunes,

Quem tem ao lado um punhal,

Quem tem no peito ciúmes!

 

Subiu! - e viu com seus olhos

Ela a rir-se que dançava,

Folgando, infame! nos braços

Porque assim o assassinava.

 

E ele avançou mais avante,

E viu. . . o leito fatal!

E viu. . . e cheio de raiva

Cravou no meio o punhal.

 

E avançou... e à janela

Sozinha a viu suspirar,

- Saudosa e bela encarando

A imensidade do mar.

 

Como se vira um espectro,

De repente ela fugiu!

Tal foge a corça nos bosques

Se leve rumor sentiu.

 

Que foi? - Quem sabe dizê-lo?

Foram vislumbres de dor:

Coração, que tem remorsos,

Sente contínuo terror!

 

Ele à janela chegou-se,

Horrível nada encontrou. . .

Somente, ao longe, nas sombras,

Sua fragata avistou.

 

Então pensou que no mundo

Nada mais de seu contava!

Nada mais que essa fragata!

Nada mais de quanto amava!

 

Nada mais!... - que lh'importava

De no mundo só se achar?

Inda muito lhe ficava -

Água e céus e vento e mar.

 

Assim pensava, mas nisto

Descortina o seu rival,

Não visto; - a mão na cintura

Cingiu raivoso o punhal!

 

Mas pensou. . . - não, seja dela,

E tenha zelos como eu? -

Larga o punhal, e um retrato

Na destra mão estendeu.

 

Porém sentiu que inda tinha

Mais que branda compaixão;

Miserando! inda guardava

Seu amor no coração.

 

Infeliz! não foi culpada;

Foi culpa do fado meu!

Nada mais de pensar nela;

Finjamos que ela morreu.

 

Por entre a turba que alegre

No baile - a sorrir-se estava,

Mudo, triste, e pensativo

Surdamente se afastava.

 

De manhã - quando o sarau

Apagava o seu rumor,

Chegava Lia a janela,

Mais formosa de palor.

 

Chegou-se; - e além -.- no horizonte

Uma vela inda avistou;

E co'a mão trêmula e fria

O telescópio buscou!

 

Um pavilhão viu na popa,

Que tinha um globo pintado;

E no mastro da mezena

Um negro vulto encostado.

 

Eram chorosos seus olhos,

Os olhos seus enxugou;

E o telescópio de novo

Para essa vela apontou.

 

Quem era o vulto tão triste

Parece reconheceu;

Mas a vela no horizonte

Para sempre se perdeu.

 

 

 

 

 

A Vila Maldita, Cidade de Deus

 

Ao seu querido e afetuoso amigo

A. T. de Carvalho Leal

 

Peccata peccavit Jerusalem, et propter

ea instabilis facta est; omnes qui

glorificabant eam, spreverunt illam, quia

viderunt ignominiam ejus; ipsa autem

gemens conversa est retrorsum.

-- Lament

 

I

O imenso aposento a luz alaga

Com soberbo clarão,

E as mesas do banquete se devolvem

Pelo vasto salão;

 

E os instrumentos palpitantes soam

Frenética harmonia;

E o coro dos convivas se levanta

Pleno d'ébria alegria!

 

Ali se ostenta o nobre vicioso

Rebuçado em orgulho, - o rico infame,

Cheio de mesquinhez, - o envilecido,

Imundo pobre no seu manto involto

De misérias, torpeza e vilanias;

- A prostituta que alardeia os vícios,

Menosprezando a castidade e a honra,

Sem pejo, sem pudor, d'infâmia eivada.

 

E o livre ditirambo, a atroz blasfêmia,

Os cantos imorais, canções impudicas,

Gritos e orgia envolta em negro manto

De fumo e vinho, - os ares aturdiam;

E muito além, no meio d'alta noite,

Nos ecos, ruas, praças rebatiam.

 

II

Depois, ainda suja a boca, as faces,

D'imundo vomitar,

Com vacilante pé calcando a terra

Os viras levantar.

 

A larga porta despedia em turmas

A noturna coorte;

Ouvia-se depois por toda a parte

Gritos, horror de morte!

 

E ninguém vinha ao retinir de ferro,

Que assassinava;

Porque era dum valente o punhal nobre,

Que as leis ditava.

 

Outra vez a cair se emaranhavam

Da porta pelo umbral:

Tinham tintas de sangue a face, as vestes,

Em sangue tinto o punhal.

 

E vinha o sol manifestar horrores

Da noite derradeira;

E a morte vária revelava a fúria

Da turba carniceira.

 

E o sacrílego padre só vendia

O tum'lo por dinheiro;

Vendia a terra aos mortos insepultos,

O vil interesseiro!

 

Ou lá ficavam, como pasto aos corvos,

Por sobre a terra nua;

E ninguém de tal sorte se pesava,

Que ser podia a sua!

 

"E Deus maldisse a terra criminosa,

"Maldisse aos homens dela,

"Maldisse a cobardia dos escravos

"Dessa terra tão bela."