LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Direito por Linhas Tortas, de França Junior

 

 


Obra de Referência

Biblioteca Virtual de Literatura

 

 

 

 

DIREITO POR LINHAS TORTAS

Comédia em 4 atos
por
França Júnior

PERSONAGENS

FORTUNATO ARRUDA - 58 anos
LEONARDA ARRUDA, sua mulher - 45 anos
INACINHA ARRUDA, sua filha - 20 anos
LUÍS DE PAIVA - 25 anos
COMENDADOR MIGUEL PEIXOTO e depois
BARÃO DA COVA DA ONÇA - 40 anos
FELISBERTA, mulata - 18 anos
SANTA RITA GOSTOSO DOS ANJOS - 40 anos
ANASTÁCIO
HENRIQUE
JOSÉ
FELIPE
Três chicards

A ação passa-se no Rio de Janeiro.
Época - Atualidade.

 

 

ATO PRIMEIRO

O teatro representa à direita uma igreja, ao lado da qual deve haver uma espécie de coreto com luminárias; à esquerda uma casa, tendo em seguida uma linha de coqueiros com lanternas de papel de diversas cores; ao fundo vista de campo com algumas casinhas iluminadas, bandeiras e diversas peças de fogo de artifício. É noite. Na plataforma do coreto há uma mesa, coberta por uma toalha, com vários objetos, tais como roscas, pombos, galinhas, etc. Durante o ato muita gente passeia em cena, conservando-se a maior parte apinhada em frente do coreto.

 

CENA I

SANTA RITA, ANASTÁCIO, HENRIQUE, JOSÉ e FELIPE

 

SANTA RITA (Na plataforma do coreto, vestido com uma opa encarnada, segurando uma salva com uma rosca.) - Seiscentos réis tenho pela rosca, seiscentos réis, seiscentos réis, seiscentos reis.

FELIPE - Seiscentos e oitenta.

SANTA RITA - Seiscentos e oitenta, seiscentos e oitenta tenho, seiscentos e oitenta tenho pela rosca. Afronta faço que mais não acho, se mais achara mais tomara, dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três, uma maior, outra mais pequena. Seiscentos e oitenta e... (Para Henrique.) Olhe que O senhor perde a pechincha: aquela mocinha está lhe deitando uns olhos! Está mesmo lhe dizendo: arremate a rosca, moço.

HENRIQUE - Setecentos.

SANTA RITA - Setecentos réis. Não há quem cubra o lance?

ANASTÁCIO - Mil réis.

SANTA RITA - Mil réis me dão pela rosca superfina. Mil réis, mil réis... Que súcia de pingas! Não há quem dê mais?

JOSÉ - Oitenta réis.

SANTA RITA - Mais quatro vinténs dou-lhe eu pela gaiatice.

TODOS - Oh! oh! oh!...

SANTA RITA (Para Anastácio.) - Leve a rosca, moço. (Entregando-a.) Tome cuidado, que não lhe faça indigestão. (Põe a salva em cima da mesa e procura outro objeto.)

JOSÉ (Para Anastácio.) - Divida isto com os amigos.

HENRIQUE - Apoiado!

FELIPE - Pretendes levá-la para a casa? (Henrique, José e Felipe agarram na rosca.)

SANTA RITA (Com um ananás coberto por um lenço.) - Silêncio e atenção! lá vai obra. Tem olhos, e não vê; tem coroa, e não é rei; tem pé e não anda. Adivinhem O que é!

HENRIQUE - E uma banana.

SANTA RITA (Descobrindo o ananás.) - Tristis est anima mea! Quanto dão pelo arganás? Vem do latim argo, argas e nás, nasis. (Cheirando.) Vejam só isto, está mesmo desafiando. Lá vai verso, rapaziada.

TODOS - Oh! oh! oh!

HENRIQUE - Silêncio.

TODOS - Sciu! sciu!

SANTA RITA (Recitando.) -

As setas do deus Cupido
Me vararam o coração.
Viva o povo de Irajá
E os progressos da nação!

FELIPE - Bravos o Gostoso.

SANTA RITA - Ninguém se tenta? Dez réis para principiar.

JOSÉ - Meia pataca.

SANTA RITA - Meia pataca tenho pelo arganás. Vale dois mil réis a olhos fechados. É um torrão de açúcar.

HENRIQUE - Quinhentos réis.

SANTA RITA - Quinhentos réis, quinhentos réis.

ANASTÁCIO - Quinhentos e sessenta.

SANTA RITA - Que cascaria! (Apontando para um do grupo.) Aquele que ali está, virado de cabeça para baixo, não pinga uma de X. (Riem-se todos.) Pois não há quem dê por aí, pelo menos, mil e quinhentos pela fruta?

HENRIQUE - Ponha mil e quatrocentos.

SANTA RITA - Mil e quatrocentos, mil e quatrocentos e... vá lá. (Entregando a Henrique.) Agradeça a pechincha ao Divino. (Procura outros objetos.)

 

CENA II

OS MESMOS e o COMENDADOR MIGUEL PEIXOTO e LUÍS DE PAIVA (Saindo da casa.)

 

MIGUEL - Decididamente estás louco.

LUÍS - Não acreditas na força do destino? César chegou, viu e venceu. Ver essa menina e render-me foi para mim um ato fatal.

MIGUEL - É pouco mais ou menos a história de todos os namorados.

SANTA RITA (Com dois pombos.) - Um casal de pombinhos. (Arremedando.) Corrupá pá pá, corrupá pá pá, corrupá pá pá.

MIGUEL - Ainda ontem chegaste da Corte; trouxeste apenas uma pequena mala de viagem e pretendes voltar para lá com a bagagem a mais pesada deste mundo - uma mulher!

LUÍS - O comendador é um homem sem crenças.

SANTA RITA - Senectus est morbus! Quinhentos réis tenho pelo casal de pombinhos batedores.

HENRIQUE - Espere lá. (Conversa com Anastácio.)

MIGUEL - Criança, eu conheço palmo a palmo o terreno que queres pisar. Estás então disposto a dar a destra a esta mulher? Já estudaste a tua futura sogra?

HENRIQUE - Oitocentos e vinte.

SANTA RITA - Oitocentos e vinte tenho pelo mimoso par.

MIGUEL - Estranhas talvez a minha pergunta?

LUÍS - Certamente.

SANTA RITA - Mil réis, mil réis pelos pombinhos. (Entrega-os a Henrique.) Eu já volto, rapaziada. Vou molhar a goela; até já. (Sai; Henrique, José, Anastácio e Felipe passeiam pelo fundo.)

 

CENA III

LUÍS e MIGUEL

 

MIGUEL - Estudar a sogra é uma das primeiras necessidades do indivíduo que se destina ao estado a que aspiras. Uma noiva é uma mentira viva desde a cabeça até os pés. Começando por estudar o sorriso com que te há de receber, no próprio espelho em que ensaia o penteado que lhe vai melhor, não dá um passo que não seja com o desejo de agradar. Se tem um pé mimoso e feiticeiro, toma todas as cautelas, de modo a deixar entrever o rosto do sapatinho, quando distraidamente conversares a seu lado; se a natureza, porém, dotou-a com uma destas raízes que afugentam os poetas, não trepido desde já em apostar a minha cabeça em como nunca lhe lobrigarás o pé.

LUÍS - Ora, comendador.

MIGUEL - Quanto ao moral, a noiva é sempre uma pomba sem fel. Cordata como um polaco, abraçará todas as tuas opiniões, salvo o caso de um ou outro arrufo, estudado de antemão para que possas com mais facilidade engolir a isca.

LUÍS - Sempre o conheci com a mania de pregar moral.

MIGUEL - Procuro falar sempre a verdade, seja ela embora contra mim. Ao passo que a noiva tudo oculta, a mãe, que não tem interesse imediato em enganar, apresenta-se tal qual é. Não estuda sorrisos ao espelho e nos transes os mais pequenos da vida está traindo a filha.

LUÍS - Eu conheço muitos exemplos em contrário.

MIGUEL - Que constituem exceções que vêm confirmar a regra geral.

LUÍS - Seja como for, não me curvarei ao poder de sua lógica. Estou decidido a dar este passo e a filha de Fortunato Arruda será minha.

MIGUEL - Casa-te, rapaz, casa-te.

LUÍS - Sinto por ela uma paixão irresistível.

MIGUEL - Uma paixão de vinte e quatro horas!

LUÍS - O senhor não conhece o coração humano. Ver uma mulher e amá-la é o ato mais natural desta vida. Li, não sei onde, que as almas nascem aos pares; no momento em que o Criador lança ao mundo a alma de um homem, nesse momento surge também a alma de uma mulher do seio da criação. Acontece muitas vezes que essas almas jamais se encontram; porquanto uma nasce, por exemplo, na Rússia e a outra na Patagônia. Dois seres se ligam, julgam-se talhados um para o outro e mais tarde reconhecem que não podem formar pares na quadrilha universal. A desigualdade dos casamentos provém do raro encontro das almas irmãs. Quando vi ontem pela primeira vez aquela menina, disse logo: ali está a alma que Deus me destinou.

MIGUEL - À vista disto...

LUÍS - Serei seu marido.

MIGUEL - E estás bem convencido de que não tomas a nuvem por Juno?

LUÍS - Convencidíssimo.

MIGUEL - Pois bem: casa-te, rapaz. (Diversas pessoas saem da igreja.) Está acabado o Te Deum. Aí vem a tua alma.

 

CENA IV

OS MESMOS, FORTUNATO ARRUDA, LEONARDA ARRUDA, INACINHA ARRUDA e FELISBERTA (Que saem da igreja.)

 

LEONARDA - Que desaforo! Não se pode aturar semelhante bandalheira!

INACINHA (Puxando o vestido de Leonarda.) - O que é isto, mamãe?

LEONARDA - Deram-me empurrões, encurralaram-me no altar-mor, riram-se do meu vestido, dos meus brincos, das minhas luvas e ainda tenho o braço inchado dos beliscões que levei.

INACINHA - Mamãe.

LEONARDA (Para Inacinha.) - A senhora achou aquilo bonito? (Para Fortunato.) E este pastrana, de boca aberta, a ouvir calado as chufas e as inconveniências que os tais pelintras diziam à mulata. Era mesmo uma água morna!

FORTUNATO - Mas senhora...

LEONARDA - Nem se mexia! Forte tambor! Mas os pintalegretezinhos que agradeçam ao Santíssimo que estava exposto no altar.

FORTUNATO - Está bom, senhora; isto não vai a matar.

LEONARDA (Para Felisberta.) - Passe para a casa (Felisberta entra em casa.) No meu tempo não havia essas bandalheiras.

MIGUEL - A Senhora Dona Leonarda faz-se mais velha do que é; no meu tempo, que é também o seu...

LEONARDA - Eu creio que sou um pouco mais moça que o comendador.

MIGUEL - Perdão...

LEONARDA - Ora eu lhe digo: Inacinha nasceu três anos depois do meu casamento. Quando eu me casei, tinha dezoito anos.

FORTUNATO - Quando nos casamos, tu tinhas vinte e dois.

LEONARDA - Senhor Fortunato, não tenha o desaforo de me desmentir em público.

INACINHA (Para Luís.) - O senhor está caçoando. Quem sou eu? Uma pobre moça da roça...

LUÍS - As flores do campo são as mais lindas e aquelas que exalam mais suave fragrância.

MIGUEL - Eu dou-me por vencido; a Senhora Dona Leonarda é muito mais moça do que eu. Como ia lhe dizendo, no meu tempo as coisas eram piores que hoje.

INACINHA (Para Luís.) - Eu não creio nos moços da cidade.

LUÍS - Por quê?

FORTUNATO - Ainda me lembro do que se passou comigo há trinta e tantos anos. Havia uma grande festa em Marapicu. Ora, eu não sou lá dos mais apaixonados pelas festas; mas meu pai, que era uma santa criatura, a quem Deus haja, obrigou-me a ir, dizendo-me que não havia de arrepender-me. Monto no meu burrinho, era um burrinho ruço que marchava que fazia gosto. (Leonarda conversa com Luís e Inacinha, que passeiam pelo fundo.) Meu pai tinha três burros para o seu serviço; um baio, outro castanho e este ruço. O burro baio era menos mau, mas tinha o defeito de empacar diante de todas as vendas.

MIGUEL (Á parte.) - Que história interminável!

FORTUNATO - O ruço e o castanho eram algum tanto passarinheiros. Para lhe falar com franqueza, eu não gosto de burros porque nunca me hei de esquecer de uma história que contam... Não sei se sabe?

MIGUEL - Sei, sei; vamos adiante.

FORTUNATO - Onde estava eu?

MIGUEL - No capítulo das antipatias pelos burros.

FORTUNATO - É verdade. Saio pela estrada e encontro-me com a família do major Pereira, que ainda vem a ser parente de minha mulher; porque o major Pereira foi casado duas vezes; primeiro casou-se com a filha do Cajueiro - da Fazenda do Pau Grande -, a mulher morreu de uma perniciosa, como sofreu aquela pobre criatura! os médicos receitaram-lhe tisanas e mais tisanas, tomou sulfato a dar com um pau; a infeliz senhora tinha a pele sobre os ossos. Pudera não! Pois se não comia há vinte dias! Eu, no meu caso, mandava dar-lhe algum caldinho de galinha. Depois veio a casar com uma tia política de minha mulher. O major, logo que avistou-me, obrigou-me a parar: - Oh! como está? como tem passado? - Vai-se indo, menos mal. - Não pergunto pela família, porque vejo que goza saúde. Palavras puxam palavras, seguimos juntos para o arraial.

MIGUEL (Rindo-se contrafeito.) - É uma história muito engraçada, eu já sei o fim. O senhor foi para...

FORTUNATO - Eu lhe conto o que me aconteceu. Foi também, se não me engano, em uma festa do Espírito Santo.

LEONARDA (Vindo com Inacinha e Luís para a boca da cena.)- Aposto que está arrependido de ter abandonado a Corte por estes dias?

LUÍS - Nunca me julguei tão feliz.

INACINHA - Não creio.

LEONARDA (Para Miguel.) - Por que não veio passear, comendador?

MIGUEL - Estou ouvindo uma história muito interessante que o Senhor Fortunato está contando.

LEONARDA - Pois ainda a mesma história! Este homem é capaz de fazer perder a paciência a um santo. Quando começa a contar um caso, perde-se nos pormenores os mais insignificantes e nunca chega ao fim. O senhor tem o privilégio de afugentar-me de casa os hóspedes.

FORTUNATO - Está bom, senhora; não se amofine, isto não vai a matar.

MIGUEL - Tem toda a razão. Viemos aqui para passar três dias agradáveis e apreciar esta bela festa. Nada de amofinações. Ó saudosos tempos da minha juventude! Quando me vejo em um desses pagodes é que avalio o quanto este país é conservador por índole e sabe guardar ilesas as suas tradições. Nada se muda; tudo segue inalterável o mesmo curso. Ali está o clássico império com o mesmo leiloeiro a dizer as mesmas pilhérias, os mesmos coqueiros murchos balouçando às brisas lanternas furta-cores, o mesmo fogo de artifício com o clássico barbeiro a girar em torno da roda, a mesma fragata a atacar castelos e o remate do - Glória ao Divino -, iluminado por fogos de cores. Em vão a locomotiva do progresso e o fio elétrico passam por estes sítios. É um grande país este meu Brasil!

LUÍS - O comendador, minha senhora (Para Leonarda.) é um ente muito positivo. Não compreende o que vai de poético nessas tradições que perpetuam os costumes de um povo.

MIGUEL - As tradições é que têm sido a causa do atraso em que vivemos. Por amor das tais tradições, os nossos homens de estado estudam política por Aristóteles, eloqüência por Quintiliano e filosofia por Genuense. Os filhos vão seguindo a mesma marcha e este país caminha, é verdade, mas sob o influxo benéfico da Divina Providência.

FORTUNATO - Parece-me que o comendador é meio republicano.

LUÍS - O que não o impede de aceitar condecorações.

MIGUEL - Graças a quatro moleques que mandei para o Sul. Se me desfizesse da cozinha inteira estaria hoje titular.

FORTUNATO (Rindo-se.) - É boa! é boa!

LEONARDA - Eu já lhe tenho dito que não quero que o senhor se meta em política.

FORTUNATO - Mas filha, estamos em um país livre.

LEONARDA - Não admito réplica. O senhor está em minha casa; quem manda nela sou eu.

MIGUEL (Baixo, a Luís.) - Que tal é a menina?

LUÍS (Baixo.) - É um anjo!

MIGUEL (Baixo.) - E a velha é um querubim! (Para Fortunato e Leonarda.) Vamos dar um passeio pelo povoado, enquanto não se ataca o fogo. (Santa Rita aparece na porta da igreja.)

LUÍS - Hão de permitir-me que fique. (Saem todos, menos Luís.)

 

CENA V

LUÍS e SANTA RITA

 

LUÍS - Vem cá.

SANTA RITA - O que deseja sua senhoria, deste seu humilde servo?

LUÍS - Há quanto tempo estás em casa do Senhor Fortunato?

SANTA RITA - Ora, eu já lhe digo; vim da Bahia em 1863, mil e oitocentos e sessenta e três para sessenta e oito vão cinco. Estou aqui há cinco anos e durante esse tempo, com o favor de Deus, tenho exercido o lugar de sacristão na fazenda de meu amo.

LUÍS - Tu és capaz de responder-me com franqueza a uma pergunta?

SANTA RITA - Eu sou baiano da gema, nasci na baixa de Itapagipe, e Santa Rita Gostoso dos Anjos não deixa pergunta sem resposta.

LUÍS - A filha de tua ama não sente inclinação por nenhum moço deste lugar?

SANTA RITA - Homem, para lhe falar com franqueza... Eu lá sei... Isto de mulher é bicho tão dissimulado! Mas parece-me que a menina ainda não engoliu isca. Eu ouço ela todos os dias dizer lá em casa que tem vontade de mudar-se para a cidade. Olhe, se há alguma coisa é com algum moço da Corte.

LUÍS - Ela nunca foi à Corte?

SANTA RITA - Apenas duas vezes. A velha costuma vir passar todos os anos a festa do Divino aqui nesta casa, que é própria.

LUÍS - Se eu te pedisse um favor, eras capaz de mo prestar? Tu és um rapaz inteligente e atilado.

SANTA RITA - Ora, meu senhor, quem sou eu para acompanhar nosso pai fora de horas.

LUÍS - Se fosse possível fazer chegar uma carta às mãos de Dona Inacinha.

SANTA RITA - Mas isto assim, sem mais, nem menos? O senhor já lhe piscou o olho, já lhe pisou no pé, ela já lhe fez presente de algum pano de barba, já lhe deu alguma flor, já lhe deu cabelos? Não se entrega uma carta sem essas formalidades. Eu cá quando namoro, gosto de fazer as coisas em regra.

LUÍS - Deixa-te de capadoçagens. Entregas ou não a carta?

SANTA RITA - E se ela não quiser receber?

LUÍS - Tenho toda a certeza que a receberá. Dou-te uma boa molhadura.

SANTA RITA - Defunto não enjeita cova; mas se sua senhoria dá licença, eu peço-lhe um obséquio, além da molhadura.

LUÍS - Qual é?

SANTA RITA - Saberá sua senhoria que eu também gosto... da mulatinha cá da casa...

LUÍS - Compreendo. E queres também que lhe entregue alguma carta?!

SANTA RITA - Nada, não, senhor; nós cá não temos destas histórias.

LUÍS - Então O que queres tu?

SANTA RITA - Eu desejava que sua senhoria arranjasse o consentimento da velha para o nosso casório. Podia ficar isto em família... Minha ama tem suas patacas... é uma mulatinha de estimação... - e o meu futuro estava arranjado. Se sua senhoria me prometesse...

LUÍS - Estou pronto a advogar a tua causa, uma vez que te interesses por este negócio. Entregas hoje mesmo a carta, sim?

SANTA RITA - Homem... isto agora é que se fia mais fino. Hoje é impossível. Mas já que sua senhoria é tão apressado, por que não diz logo, na ocasião de se atacar o fogo... O senhor me entende... duas palavrinhas bonitas... por exemplo: - meu coração abrasa! não posso viver sem ti! - Isto, com umas tremidelas na voz, vale mais que trinta cartas. Porém o senhor quer começar por onde os mais acabam!

LUÍS - Mas tu não sabes que a paixão verdadeira tem o poder de nos embargar a palavra, ao lado da mulher que amamos?

SANTA RITA - Quais o quê! São caraminholas que não engulo. Ainda não encontrei até hoje mulher alguma que me fizesse ficar mudo.

LUÍS - Em suma: entregas ou não, hoje mesmo, a carta?

SANTA RITA - Deixe-me ver um meio de arranjar isso. (Pensando.) Ah! tenho uma idéia! Eu vou apregoar daqui a pouco um pão-de-ló e uma galinha. Amarro a carta ao pescoço da galinha, digo ao respeitável público que aquilo é um segredo, sua senhoria arremata a história e faz presente da galinha juntamente com a carta à pequena, tendo a cautela de dizer-lhe em voz baixa: não deixe ninguém ler isto? Hein? Que tal?!

LUÍS - E se a velha abrir o segredo?

SANTA RITA - O que tem? Ficará sabendo já o que deve saber mais tarde.

LUÍS - No meio de tudo, vejo que te queres livrar da responsabilidade da entrega, fazendo convencer à tua ama que a carta veio ter às mãos da filha.

SANTA RITA - Por obra e graça do Espírito Santo. A qui qui mineris.

LUÍS - És um grandíssimo velhaco. Seja como for, toma. (Entrega a carta.)

SANTA RITA - Sua senhoria verá com que limpeza se arranja o negócio. (Luís dá-lhe dinheiro.) O Divino lhe dê muitas felicidades.

LUÍS - Eu já volto. (Sai pelo fundo.)

 

CENA VI

SANTA RITA e FELISBERTA (Que sai de casa com duas cadeiras e coloca-as ao lado da porta.)

 

SANTA RITA - Grande novidade no beco. Se tu soubesses...

FELISBERTA - O que é?

SANTA RITA - O tal mocinho que chegou ontem da Corte está chumbado deveras por tua sinhá moça.

FELISBERTA - E ela ainda mais por ele! Se tu visses os elogios que lhe faz... Ainda hoje de manhã deu-me uma porção de beliscões, porque não lhe arranjei o penteado lá como entendia. E digna filha de tal mãe!

SANTA RITA - Então pelo que vejo, as bichas vão pegar? Salvo se o velho se opuser.

FELISBERTA - Que tolice! Pois sinhô lá tem vontades nesta casa!

SANTA RITA - Aposto que não sabes que deste casamento depende a nossa felicidade?

FELISBERTA - Por quê?

SANTA RITA - Porque o Senhor Luís ficou de arranjar o nosso casório, depois de ter apertado o doce nó com a menina.

FELISBERTA - Duvido muito. Se sinhá não dá confianças ao velho, o que dirá ao genro?

SANTA RITA - Quem sabe se ele não lhe quebrará a proa?

FELISBERTA - Eles não tardam; será bom que você saia de perto de mim para não haver alguma estralada. Sinhazinha recomendou-me que pusesse as cadeiras na porta para verem todos o fogo daqui; vou buscá-las. (Sai.)

SANTA RITA - Também não tenho tempo a perder. Vou acabar o leilão. (Entra na igreja.)

 

CENA VII

MIGUEL, LUÍS, LEONARDA, FORTUNATO e INACINHA

 

MIGUEL - Eu sou de opinião que partamos amanhã para a Corte.

LUÍS - Eu não sairei daqui enquanto houver festa. (Para Inacinha baixo.) Se soubesse o que me vai pelo coração...

FORTUNATO (Para Leonarda.) - Não se zangue, senhora; isto não vai a matar.

LEONARDA (Arremedando-o.) Eh! isto não vai a matar! Vê-me quase sufocada no meio do povo e nem ao menos tomou o expediente de ir abrir o caminho.

FORTUNATO - Pois a senhora quer obrigar-me nesta idade a abrir caminhos? (Para Miguel.) Eu lhe conto o que me aconteceu uma vez. (Durante esta cena Felisberta arruma as cadeiras, à proporção que as traz de dentro; Inacinha, Luís e Leonarda sentam-se.) Era eu solteiro e estava neste tempo um rapagão desempenado: não sofria dos calos, como hoje, que me põem os pés a tinir, principalmente quando há mudança de tempo. Em ameaçando chuva, é sabido...

LEONARDA - Daqui podemos apreciar o fogo à nossa vontade.

 

CENA VIII

OS MESMOS, SANTA RITA e ANASTÁCIO, HENRIQUE, JOSÉ e FELIPE (Que se postam juntamente com várias pessoas em frente do coreto.)

 

SANTA RITA (No coreto, com um pão-de-ló em uma salva.)

Cá está de novo o Gostoso,
Que é fino tabaco em pó!
Rapaziada do bom gosto,
Quanto dão pelo loló?

JOSÉ - Bravos o poeta.

SANTA RITA - Não há nenhum casca por aí que se atreva a lançar?

MIGUEL (Para Fortunato.) - É muito comprida a história?

FORTUNATO - Eu lhe digo o que houve.

SANTA RITA - Vejam só esta massa como está loura! Está provocando uma dentada.

FELIPE - Um tostão.

SANTA RITA - Um tostão tenho pelo loló, um tostão, um tostão...

ANASTÁCIO - Quinhentos réis.

JOSÉ - Toma espiga.

SANTA RITA - Quinhentos réis, quinhentos, quinhentos... Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Quinhentos réis. Estou queimado.

FELIPE - Dez tostões.

LEONARDA (Para Miguel.) - Ainda não arrematou nada, comendador?

MIGUEL - Não, minha senhora; estou à espera que o Senhor Fortunato arremate a sua história.

LEONARDA - Eu já me encarrego de arrematá-la; Senhor Fortunato, passe para aqui. (Fortunato senta-se.)

SANTA RITA - Dez tostões me oferecem pelo rico pão-de-ló.

MIGUEL - Dois mil réis, e passe-o para ca.

SANTA RITA - Bem se vê que isto não é piaba cá da terra. Leve a droga. (Entrega o pão-de-ló a Miguel, que oferece-o a Leonarda.)

MIGUEL (A Luís.) - É preciso que o meu amigo arremate também alguma coisa.

SANTA RITA (Com uma galinha anilada tendo uma carta ao pescoço.) - Có, có, cocó, coró có, có có coró.

TODOS - Ah! ah! ah!

SANTA RITA (Olhando para Luís.) - Quem vai arrematar esta galinha é um mocinho cheiroso da Corte... Olhem só como ele me espia. Quanto dão pela galinha e o competente segredo? E pura raça cochinchina! Dá caldo para um hospital e jantar para um batalhão.

LUÍS (Levantando-se.) - Dois mil réis.

SANTA RITA - E então? Olhem o bichinho como vem cair no laço. Só o segredo vale o dobro. Dois mil réis tenho pela galinha, dois mil réis, dois e...

HENRIQUE - Dois e quinhentos.

LUÍS - Três mil réis.

SANTA RITA - Três mil réis já me oferecem pelo luzido galináceo.

LEONARDA - Que diabo tem ela no pescoço?

FORTUNATO - É um segredo, filha.

SANTA RITA - Três mil réis, três mil réis.

JOSÉ - Quatro mil réis.

LUÍS - Cinco.

SANTA RITA - Não há quem dê mais? (Pausa.) Aqui tem a cochinchina. (Entrega a Luís e sai juntamente com Anastácio, Henrique, José e Felipe.)

 

CENA IX

LUÍS, MIGUEL, FORTUNATO, INACINHA e LEONARDA

 

LUÍS (Entregando a galinha a Inacinha.) - Quero dar-lhe também um presente. (Baixo.) Não deixe ninguém ver o segredo.

LEONARDA - Vejamos em que consiste o segredo.

INACINHA - Não é nada, mamãe; não é nada.

MIGUEL - Não, senhora, tenha paciência; eu também quero ver.

LUÍS (À parte.) - Estou em talas.

LEONARDA - Deixa ver, menina.

INACINHA - Ora, mamãe. (Corre para a casa com a galinha.)

 

CENA X

OS MESMOS, menos INACINHA

 

MIGUEL (Baixo a Luís.) - É uma maneira original de se entregar uma carta.

FORTUNATO - Eu já arrematei também em uma ocasião um segredo. É verdade que foi sem querer... Tinha na carteira apenas dez mil réis, mas o diabo do leiloeiro tais pilhérias contou.

LEONARDA - Estou morta por saber o que é aquilo. Inacinha?

 

CENA XI

INACINHA, FORTUNATO, LEONARDA, LUÍS e MIGUEL

 

INACINHA (Rindo-se.) - Forte caçoada. (Mostrando um papel em branco.) Aqui está o segredo.

FORTUNATO (Para Miguel.) - Foi justamente O que me aconteceu.

LUÍS (Baixo a Inacinha.) - Qual é a sua resposta?

INACINHA (Baixo.) - Que o autorizo a pedir a minha mão.

MIGUEL (Á parte.) - Que Sonsa! (Ouve-se a bomba de um foguete.)

TODOS - Oh! oh!...

LUÍS - É o fogo que começa.

MIGUEL (Baixo a Luís.) - E a tua felicidade que finda! (Sentam-se todos nas cadeiras.)

 

(Cai o pano.)

 

ATO SEGUNDO

O teatro representa uma sala, regularmente mobiliada, em casa de Luís de Paiva. É noite.

 

CENA I

LUÍS, só.

 

LUÍS (Acalentando ao colo uma criança e cantando.)

Menino bonito
Não dorme na cama,
Dorme no regaço
Da Senhora Santa Ana.
Senhora Santa Ana,
Ninai este menino,
Que as noites são grandes
E ele é pequenino.

(Gritando para dentro.) - Felicidade? ó Felisberta? Não há ninguém nesta casa? Felisberta?

 

CENA II

O MESMO e FELISBERTA

 

FELISBERTA - O que quer, nhonhô?

LUÍS - Onde está a ama?

FELISBERTA - A ama está apertando o colete de sinhá velha.

LUÍS - E a Felicidade?

FELISBERTA - Felicidade saiu: foi comprar uma peça de fita no armarinho.

LUÍS - E o que faz você lá dentro?

FELISBERTA - Estou vestindo sinhazinha.

LUÍS - Pois não há quem venha carregar o menino?

FELISBERTA - Eu não sei. Isto é lá com sinhazinha. Está braba que vosmecê não faz idéia! Já deu dois cachações em tia Maria Porque não pôs goma bastante nas saias e prometeu-me uma grande sova porque fiz a cintura do vestido muito larga; no entretanto, vosmecê não imagina como está o corpinho do tal vestido. Estou há um quarto de hora a querer abotoá-lo: quem diz?! Olhe os meus dedos... (Mostrando os dedos.)

LUÍS - Está bom: tome o menino. (Entrega a criança a Felisberta.) Leve-o para o berço.

 

CENA III

LUÍS, FELISBERTA e INACINHA

 

INACINHA (De dentro.) - Felisberta?

FELISBERTA - Lá está ela me chamando.

INACINHA (De dentro.) - Ó diabo?

FELISBERTA (Gritando.) - Lá vou, sim, senhora.

INACINHA (Entrando com o corpinho do vestido desabotoado.) - Ó ladra de uma figa; pois tu me deixas com o vestido desabotoado e vens te pôr de palestra aqui na sala?!

LUÍS - Ela estava segurando no menino, senhora; no nosso filho.

INACINHA - E o senhor por que não o carrega?

LUÍS - Parece-me que não faço outra coisa nesta casa, desde que ele nasceu!

INACINHA - Não faz mais que a sua obrigação.

LUÍS - Se a senhora e sua mãe cumprissem com as suas obrigações, não dariam constantemente nesta casa os escândalos de que a vizinhança tem sido testemunha.

INACINHA - Quando falar em minha mãe, limpe a boca, ouviu? O senhor há de nascer e tornar a nascer para chegar-lhe aos calcanhares.

LUÍS (Baixo.) - Repare que estamos adiante de uma escrava.

INACINHA - Diga já quais são os escândalos que praticamos?

LUÍS - Em primeiro lugar saírem as senhoras todos os dias e andarem por toda a parte sem seus maridos.

INACINHA - Antes de nos casarmos, o senhor dizia que isto era moda cá na Corte.

LUÍS - Segundo: deixarem a casa ao Deus dará e fazerem por dá cá aquela palha uma gritaria diabólica que já serviu de tema a uma publicação a pedido nas folhas públicas.

INACINHA - Terceiro: não tenho que lhe dar satisfações dos meus atos; hei de sair quantas vezes quiser e gritar até arrebentar. Fique sabendo, uma vez por todas, que eu aqui sou senhora do meu nariz.

LUÍS (A Felisberta, que passeia durante esta cena ninando o menino.) - Dá cá o menino. É o único consolo que me resta no meio do martírio em que vivo. (Sai.)

 

CENA IV

FELISBERTA e INACINHA

 

INACINHA - Abotoa isto, anda, diabo. (Felisberta tenta abotoar o vestido e não pode.) Ó desajeitada!

FELISBERTA - Está muito apertado, sinhazinha.

INACINHA - Mulata, não me exasperes; olha que daqui mesmo te desando...

FELISBERTA - Sinhazinha está estufando a barriga...

INACINHA (Frenética; examinando os colchetes.) - Ora dá-se, pois esta ladra não está abotoando os colchetes desencontrados!

FELISBERTA - Não se zangue; já está quase abotoado.

INACINHA - Não me futiques o vestido.

 

CENA V

INACINHA, FELISBERTA e LEONARDA

 

LEONARDA (Vestida para sair.) - Ainda não estás pronta, menina?

INACINHA - Já vou, mamãe. (A Felisberta que acaba de abotoar o vestido.) Ora, graças a Deus!

LEONARDA - Anda; vai pôr o chapéu, o carro já está aí. Impliquei com este vestido, não sei o que acho nele.

INACINHA - Tem uma cauda muito pequena.

LEONARDA - E eu que tanto recomendei à francesa que o queria bem à moda. Passo-lhe uma descalçadeira a primeira vez que lá for. Não achas este penteado muito baixo?

INACINHA - Não, está bom. (Sai.)

LEONARDA (Para Felisberta.) - Endireita-me as fitas deste chapéu. (Felisberta endireita.) Veja lá se me vai para a janela, assim que eu sair. Diga a seu amo, quando ele vier, que tome conta da casa. (Gritando para dentro.) Ó menina? (Empurrando Felisberta e endireitando as fitas do chapéu.) Sai, sai, vai dizer à sinhazinha que são horas.

FELISBERTA (Á parte.) - Irra! (Benzendo-se.) Padre, Filho e Espírito Santo. (Sai.)

 

CENA VI

MIGUEL e LEONARDA

 

MIGUEL (Entrando pelo fundo.) - Ainda se lembram do velho amigo?

LEONARDA (Com alegria.) - Ó comendador!! Quando chegou?

MIGUEL - Ontem, no paquete inglês. E a primeira casa que visito, ao chegar aos pátrios lares. Onde está o Senhor Fortunato? E o Luís?

LEONARDA - Meu genro está lá dentro com o menino.

MIGUEL - Olé! Já há um nenê em casa?! Imagino a alegria que por aqui vai.

 

CENA VII

OS MESMOS e INACINHA

 

INACINHA - Oh! Senhor Comendador, já de volta!

MIGUEL - É verdade, minha senhora. No meio dos ruídos e prazeres do velho mundo ralava-me a saudade da pátria. Depois de alguns meses veio-me a saciedade e sentia-me asfixiado sob aquela atmosfera.

INACINHA - Os que lá vão não dizem isto.

MIGUEL - Os pedantes, minha senhora, aqueles que trazem apenas daquele foco de civilização um bigode torcido, calça colada ao joelho, colarinho de papelão e a gíria que aprenderam nos cafés e restaurantes.

INACINHA - Eu suspiro por ir à Europa.

LEONARDA - Qual é a última moda de vestidos, Senhor Comendador?

MIGUEL - O que a imaginação ostenta de mais extravagante: fofos na cabeça, fofos no corpo, fofos nos pés... tudo fofo, minha senhora. O fofo é o característico da sociedade atual.

 

CENA VIII

FORTUNATO, LEONARDA, INACINHA e MIGUEL

 

FORTUNATO (Entrando com um embrulho debaixo do braço) - Aqui está, menina. (Entrega-o à Leonarda.)

MIGUEL - Venha lá um abraço.

FORTUNATO - Como está moço e bonito!

LEONARDA (Depois de ter aberto o embrulho.) - O senhor nunca entende o que se lhe diz. Eu pedi-lhe botinas de salto alto e o senhor traz-me isto!

FORTUNATO - Foram as melhores que achei.

LEONARDA - Este homem é capaz de fazer perder a paciência a um santo. E dizem, depois, que eu tenho mau gênio! A minha vontade era... (Atira com as botinas ao chão.)

FORTUNATO (Apanhando-as.) - Está bom, senhora; isto não vai a matar.

INACINHA - Vamos, mamãe.

LEONARDA - O Senhor Comendador há de dar-nos licença.

MIGUEL - Pois não, minha senhora.

LEONARDA - Vamos fazer uma visita de parabéns e já voltamos.

INACINHA - Até já. (Sai juntamente com Leonarda.)

 

CENA IX

MIGUEL e FORTUNATO

 

FORTUNATO - Ora veja o senhor como elas se armam. Esta mulher encomendou-me umas botinas: eu saio de casa, por sinal que algum tanto incomodado, porque há alguns dias que sinto umas picadas no braço... não sei que diabo seja isto. Está me querendo parecer que é reumatismo. Encontro-me com o Pereira, que é homem que entende de modas porque a mulher traja debaixo de todo o rigor... Também não sei onde é que ele vai buscar dinheiro para sustentar aquele luxo! Eu, que não sou lá dos menos apatacados, não posso fazer destes milagres; mas enfim cada um vive como entende e não tem que dar satisfações a ninguém. O Pereira indica-me a casa de um Guilherme, na rua da Quitanda e que é o sapateiro da gente... Ora espere; deixe-me ver qual foi a palavra que ele empregou.

MIGUEL - Vamos adiante; isto não vem ao caso.

FORTUNATO - Ah!... Da gente chique. Era a mesma casa que minha mulher me havia indicado. Leonarda, depois que se mudou para a corte...

MIGUEL - Ah! o senhor está morando aqui?

FORTUNATO - Moramos todos juntos. Voltando ao que lhe ia dizendo...

 

CENA X

OS MESMOS e LUÍS

 

MIGUEL (Para Luís.) - Nos meus braços.

LUÍS - Ah! comendador, que alegria! Sabe que estou muito zangado com o senhor?

MIGUEL - Não creio.

LUÍS - Pois é verdade. Durante todo o tempo em que esteve na Europa, esqueceu-se completamente da minha pessoa. Nem uma linha sequer ao pobre diabo que cá ficava.

MIGUEL - Dou-te os meus parabéns; já sei que és pai.

LUÍS - E verdade.

MIGUEL - Aposto que é uma menina viva e travessa, faces rubicundas, duas safiras à flor do rosto, um anjinho das criações desses gênios, cujas telas acabo de admirar nos museus do velho mundo?

LUÍS - É um rapaz.

MIGUEL - Ainda bem; um rapagão! Como és feliz!

LUÍS - Feliz? (Pensativo.)

FORTUNATO - Vou mudar esta roupa, estou alagado em suor. Se soubesse como implico com o calor... O defunto meu pai dizia-me muitas vezes... O senhor conheceu meu pai; era um homem alto, forte, tinha muita força de sangue...

MIGUEL - Vá mudar a roupa; não faça cerimônia comigo.

FORTUNATO - Então... (Sai.)

 

CENA XI

MIGUEL e LUÍS

 

MIGUEL - Que ar pensativo é este, Luís? O que tens?

LUÍS - Nada.

MIGUEL - Uniste-te a uma menina que era o teu ideal, a tua alma, como me disseste há um ano e tanto; lembras-te?

LUÍS (Suspirando.) - Lembro-me.

MIGUEL - A Providência deu-te um filho, cercam-te todos os gozos, estás ainda moço e tua mulher conta apenas vinte e três primaveras. O que mais desejas? Eu que nasci com a predestinação do celibatário, não duvidaria por tal preço arriscar a minha liberdade.

LUÍS - Comendador, o senhor foi um profeta.

MIGUEL - Deveras?

LUÍS - Não pode imaginar os tormentos por que tenho passado. Inacinha é a fotografia viva de minha sogra e eu tomei-me o daguerreótipo fiel de meu sogro. Nesta casa, eu e ele representamos o papel de zeros, à esquerda da unidade.

MIGUEL - Pobre Luís.

LUÍS - Há uma diferença, porém, entre nós; o Senhor Fortunato entende que isto não vai a matar e eu sinto que se aproximam os limites da paciência, com os dissabores que crescem de dia em dia.

MIGUEL - Pois aquela criatura, que era um anjo...

LUÍS - Não zombe da minha posição, comendador. Inacinha seria ainda hoje talvez um anjo, se minha sogra não tivesse a maldita idéia de vender as suas fazendas logo depois do nosso casamento e mudar-se de uma vez para a Corte. A nossa lua-de-mel durou apenas dois meses. A discórdia entrou-nos em casa com aquela maldita mulher que introduziu aqui a desordem desde a cozinha até a sala de visitas. O vergalho vive lá dentro em contínuo exercício e perdi de todo a moralidade perante os meus escravos, testemunhas quotidianas das cenas vergonhosas de que sou vítima.

MIGUEL - Cenas vergonhosas?! Dar-se-á acaso que... Pontos de honra talvez?!

LUÍS - Oh! não! Por esse lado, em tão boa hora o diga, levei ao altar uma esposa modelo. Inacinha tem em seu seio gérmens de grandes virtudes, mas sobeja-lhe em índole o que falta-lhe em educação. Longe dos exemplos de sua mãe, sua alma ia se amoldando à minha e o futuro parecia sorrir-nos nesses dias felizes que passávamos um ao lado do outro, conchegados no regaço do mais puro amor.

MIGUEL - Esse regaço do puro amor não era mais que o resultado efêmero da lua-de-mel. Quer tua sogra batesse-te às portas, quer não, a mimosa diva de Irajá devia apresentar-se mais tarde tal qual era. As lições e exemplos que bebemos no seio da família jamais se desapegam do nosso espírito e a família, meu caro Luís, resume-se nessa mulher que nos dá o ser, que acalenta-nos em seu seio, que nos ensina a balbuciar as primeiras palavras e que aponta-nos o caminho do céu nas primeiras orações que ouvimos de seus lábios. O que esperavas dos exemplos de tua sogra? Estudaste-a, porventura, antes de dar tão arriscado passo? Deixaste-te fascinar pela beleza, que talvez já não admiras e só agora te lembras da educação, que deveria ser a base da felicidade que procuravas.

LUÍS - Eu a regeneraria com os meus exemplos e este lar seria um paraíso.

MIGUEL - Criança! Não se destrói em tão pouco tempo a obra de anos. Rolarias a pedra, como o Sísifo da fábula, sem nunca atingir a meta de teus esforços.

LUÍS - O que fazer então, comendador? Eu não posso por mais tempo conservar-me nessa posição humilhante. Revejo-me a cada passo no Senhor Fortunato e compreendo o papel ridículo que estou representando. Minha mulher, como geralmente se diz, pôs-me o pé no cachaço. Infelizmente, por amor da sociedade em que vivo, não posso recorrer a meios rigorosos para manter a minha atitude de marido.

MIGUEL - Por amor unicamente da sociedade em que vives?! Não há consideração alguma, qualquer que ela seja, Luís, que obrigue o homem a lançar mão de tais meios para com aquela a quem estendeu a destra. Há muitas maneiras de evitar o mal sem quebra da dignidade própria.

LUÍS - O comendador teoriza; eu quisera vê-lo nas minhas circunstâncias.

MIGUEL - Ora dize cá: tu estás rico...

LUÍS - Infelizmente.

MIGUEL - Infelizmente?! Homem, essa é boa!

LUÍS - A minha riqueza é uma ignomínia. Sabe que quando me casei era pobre e minha mulher leva constantemente a lançar-me em rosto o dinheiro que trouxe.

MIGUEL - Não te incomodes por isso. Olha: arranja um emprego para a província, a mais longínqua possível, e lá, distante de tua sogra, vê se consegues continuar essa obra de regeneração que ela veio interromper. Quanto a mim, duvido, mas enfim é bom tentar.

LUÍS - O senhor não conhece minha mulher e muito menos minha sogra. Convencer Inacinha a abandonar hoje a Corte é um impossível tão grande, como fazer um peixe respirar fora dágua. As modas, os passeios, os teatros têm-lhe transtornado de tal arte a cabeça que ela já se esqueceu até de que é mãe e, enquanto corre atrás de quimeras, como uma verdadeira leoa, fica o inocente fruto de suas entranhas confiado aos caprichos de uma ama mercenária. A Senhora Leonarda começa também agora a pagar este tributo e anima a filha em todos os desvarios, dizendo-lhe constantemente "que a Corte é o paraíso dos que têm dinheiro". Inacinha suspirava pela vida da cidade e o seu casamento comigo não foi mais que um meio para realizar tão almejado fim.

MIGUEL - Então, meu amigo, coração à larga e resignação. Onde está o teu filhinho?

LUÍS (Indicando urna das portas da direita.) - Entre, comendador.

MIGUEL - Imagino que há-de ser um rapagão sacudido e desempenado. (Saem os dois pela direita.)

 

CENA XII

FELISBERTA e depois SANTA RITA

 

FELISBERTA (Saindo de uma das portas da esquerda e examinando a sala.) - Como está esta sala! Há três dias que não vê vassoura. Também se hão-de tomar conta da casa, andam por aí a correr coxia! Lá se avenham; sua alma, sua palma. (Arruma os trastes.)

SANTA RITA (Aparecendo na porta do fundo.) - Scio? scio?

FELISBERTA (Assustando-se.) - Quem é?

SANTA RITA - Sou eu, o Gostoso, a velha não está aí?

FELISBERTA - Arre lá, que susto que você me fez.

SANTA RITA (Entrando.) - Minha Felisbertazinha!

FELISBERTA - Vá-se embora, sinhá não tarda. Ela já correu com você daqui. Se ela lhe apanha, Santa Rita!

SANTA RITA - Que me importa? Estou disposto a tudo; não duvido até arriscar o lombo, que é o que tenho de mais caro, para estar dois minutos junto de você. O tal seu Luís é uma boa bisca; prometeu-nos arranjar o casamento e no entretanto nem sequer soube dizer à velha, no dia em que ela pôs-me fora de casa: - Deixe este pobre diabo, ele não faz mal a ninguém. Que sarilho feio houve naquele dia, hein, Felisberta?!

FELISBERTA - É porque você não sabe o que tem havido depois. Sinhá tem-se tornado uma jararaca e sinhazinha está pior do que uma víbora. Olha, Santa Rita, quando esta gente menos pensar, fujo de casa.

SANTA RITA - Apoiado; é o que você deve fazer quanto antes. Vamos para a Bahia e lá passaremos felizes o resto da vida, comendo o louro vatapá e a apimentada moqueca debaixo dos dendezeiros. Iremos juntos à festa do Bonfim e então você verá o Santa Rita Gostoso dos Anjos pondo poeira em tudo e metendo inveja a toda aquela gente.

FELISBERTA - É muito bonita a festa do Bonfim?

SANTA RITA - Você não faz idéia do que é aquilo. Olhe: a igreja fica assim num alto, embaixo está Itapagipe, onde nasceu este seu criado, e ao longe vê-se a cidade com aquelas casinhas trepadas umas em cima das outras, que é mesmo um céu aberto! Você entra na sacristia da igreja e vê milagres de alto a baixo! É impossível que aquele santo não seja mesmo da Bahia. A festa dura quinze dias; na minha terra é assim que se festeja. Foguetes ali é mato! Três dias antes vai toda aquela mulataria e crioulada lavar o templo. Ai é que se vê obra! Reúnem-se todas no largo com potes à cabeça, molhos de chaves à cintura, ouro a dar com pau nos braços e no pescoço, torço bordado e o chinelinho só nos calcanhares (Arremedando.) Tac, taraque, tac, taraque, adeus, ioiô. Depois entra tudo para a igreja de vassoura em punho e toca à lavagem. De tarde estende-se a toalha na relva, a viola soluça e em cada casinha daquelas ferve o sapateado.

FELISBERTA - A Bahia é mais bonita que o Rio de Janeiro?

SANTA RITA - Que pergunta! O Rio de Janeiro ainda tem muito que andar para chegar à Bahia. De lá têm saído os primeiros poetas, os oradores e os defensores da pátria. Ali há gente para tudo.

FELISBERTA - E você por que não foi defender a pátria?

SANTA RITA - A prova de que há gente para tudo, é que eu fiquei para dar os vivas e atacar os foguetes quando os patrícios chegarem. (Ouve-se rodar de carro.)

FELISBERTA - E sinhá velha; estamos perdidos!

SANTA RITA - Ó diabo! Adeus. (Vai sair pelo fundo.)

FELISBERTA - Não saia por aí, que vai esbarrar-se com ela. Esconda-se, esconda-se. Meu Deus!

SANTA RITA - Mas, onde?

FELISBERTA - Aqui. (Indica-lhe uma das portas da esquerda, por onde Santa Rita entra.)

 

CENA XIII

INACINHA, LEONARDA e FELISBERTA

 

LEONARDA - Também não sei onde tens esta cabeça.

INACINHA - A culpa não é minha; eu levei cartões de visita.

LEONARDA (À Felisberta.) - Ah! seu diabo, por que não me deu os cartões quando saí?

FELISBERTA - Eu não posso estar me lembrando de tudo. (Sai.)

 

CENA XIV

INACINHA e LEONARDA

 

LEONARDA - E eu que desejava mostrar este vestido àquela sirigaita.

INACINHA - Podíamos ter ido dar um passeio à rua do Ouvidor. Não sei para que saímos de casa.

LEONARDA - E sempre assim; quando se está bem Vestida... (Dirige-se ao espelho.) Não achas que estes fofos estão muito pequenos?

 

CENA XV

AS MESMAS, MIGUEL, FORTUNATO e LUÍS

 

MIGUEL - Pois já voltaram?!

LEONARDA - Não encontramos em casa a pessoa que procurávamos.

FORTUNATO (Para Miguel.) - E uma criança muito engraçadinha. Já diz - vovô! Também não admira. O defunto meu pai contava que quando eu nasci... Foi em mil oitocentos e... Ora, deixe-me fazer o cálculo: eu estou com cinqüenta e tantos anos.

LEONARDA - O senhor já mandou preparar o chá? Era melhor que se ocupasse com a casa, em vez de andar maçando a humanidade com histórias que nunca se acabam.

MIGUEL (Para Inacinha.) - Acabo de ver o seu menino.

INACINHA - Ah!

MIGUEL - Está muito espertinho.

LEONARDA - Não saiu por certo ao pai, e muito menos ao avô, que são os dois maiores pastranas que conheço.

LUÍS - Repare, senhora, que estamos diante de um amigo a quem prezo.

LEONARDA - A minha linguagem foi sempre esta. O senhor sabe perfeitamente que eu nunca tive papas na língua. Além disso estou em minha casa e posso dizer o que bem me parecer.

FORTUNATO (Recordando-se da data.) - Ah! foi em mil e oitocentos e dezesseis.

LEONARDA - Pois o senhor ainda está aí?

FORTUNATO - Ó senhora, isto não vai a matar; já vou. (Sai.)

 

CENA XVI

MIGUEL, LEONARDA, INACINHA e LUÍS

 

LUÍS (Para Inacinha.) - O nosso filho está chorando desde que saíste.

INACINHA - O senhor tirou-me da casa de meus pais para tornar-me ama de leite?

LUÍS - É que a ama não está em casa.

LEONARDA - Onde se meteu aquele demônio?

LUÍS - Senhora, estas expressões.

INACINHA - Eu não hei de passar a minha mocidade metida em casa, como uma bruxa. Se foi para encerrar-me como uma freira que casou comigo fique sabendo que não me sujeito às suas imposições.

LUÍS - Tenho-lhe eu feito já porventura imposições?

LEONARDA - E nem tem esse direito.

LUÍS - Eu não me dirijo à senhora.

LEONARDA - Faz muito bem; porque levaria imediatamente o troco.

INACINHA - Eu já sei onde isto vai ter. O senhor começa deste modo para cair depois no tema favorito de todos os dias: - o luxo e o dinheiro que gasto em toaletes. Os meus vestidos atacam-lhe os nervos, não é assim? Pois não sabe o prazer que isto me dá. Tem alguma coisa a dizer desta cauda, comendador?

MIGUEL - Está irrepreensível. Se as senhoras pagassem impostos sobre a vaidade, Vossa Excelência já estaria de há muito titular.

INACINHA - Agradeço-lhe a amabilidade.

LUÍS - Não é seu luxo que me ataca os nervos; o que me incomoda é ver a senhora gastar em puerilidades o pecúlio daquele inocente, a quem temos de educar.

INACINHA - O senhor não tem o direito de dizer a mais pequena palavra acerca das minhas despesas.

LUÍS - Basta; já sei.

INACINHA - Não; já que me provocou para este terreno há de ouvir tudo. O senhor trouxe alguma coisa para o prato? Antes de se casar comigo era um pinga e não tinha onde cair morto.

LEONARDA - Veio lambuzar a nossa família.

LUÍS (Com força.) - Senhora, a paciência tem limites.

INACINHA - Gasto do que é meu. Não pense que há de fazer figura depois da minha morte à custa da fortuna que herdar. Não me chame eu Inacinha Arruda se deixar-lhe um só real.

MIGUEL - Ora pois, deixem-se de desavenças.

 

CENA XVII

OS MESMOS e FORTUNATO (Que entra e diz um segredo ao ouvido de Leonarda.)

 

LEONARDA - Eu vou já ensinar àquela cachorra.

FORTUNATO - Venha cá, senhora.

LEONARDA - Deixe-me. (Sai.)

LUÍS - Está bom, senhora, em nome da resignação com que a aturo vá ver seu filho que está chorando.

INACINHA - Desculpe-me, comendador. (Lança um olhar feroz para Luís e sai.)

 

CENA XVIII

FORTUNATO, LUÍS, MIGUEL e depois FELISBERTA

 

LUÍS - E então, comendador?

MIGUEL - É horrível, meu amigo, horrível!

FELISBERTA (Chorando dentro.) - Não me dê, que eu grito.

LUÍS - O que é isto?

FELISBERTA (Entra chorando.) - Sinhá velha está hoje com o diabo no corpo e por uma coisa à toa caiu de bordoada em cima da gente.

LUÍS - Passe para dentro.

FELISBERTA (Chorando.) - Que culpa tenho eu que ela não deixasse dinheiro para o chá? Eu já não posso aturar esta casa.

LUÍS - Atrevida!

FELISBERTA - Também vosmecê se revolta contra mim? Não sei de que serve eu ter mamado o mesmo leite que sinhazinha, para ser desfeiteada deste modo.

FORTUNATO - Está bom, filha, isto não vai a matar; passa para dentro.

FELISBERTA - Não vou; eu hei de fazer hoje aqui uma estratralada dos mil diabos.

LUÍS (Baixo a Miguel.) - Vamos para dentro, comendador; ela em parte tem razão e eu não quero desmoralizar-me mais do que estou.

FORTUNATO - Entremos; porque no fim de contas sempre há de se encontrar alguma coisa que se coma. (Saem, menos Felisberta.)

 

CENA XIX

FELISBERTA e SANTA RITA

 

SANTA RITA (Espiando.) - Já se foram?

FELISBERTA - Santa Rita, você neste momento é a minha providência. Quer fugir comigo?

SANTA RITA - Homem, isto assim às pressas... Você bem vê... quando a gente não está prevenida...

FELISBERTA - Eu já sabia que o seu amor não passava de uma capadoçagem. Mas eu terei coragem bastante para sair sozinha e procurar trabalho em qualquer parte.

SANTA RITA - É que eu ando meio baldo ao naipe, Felisberta. Ficaram de me arranjar um lugar no corpo de urbanos e se você pudesse adiar isto para mais tarde...

FELISBERTA - Estou resolvida a não ficar um só minuto aqui.

SANTA RITA - Pois então, filha, fujamos. Mas para onde?

FELISBERTA - Para qualquer lugar.

SANTA RITA - Vamos raciocinar a sangue frio. Eu moro num cortiço na rua da Relação. E um quarto, onde mal cabe a minha cama, furado no teto e devassado pelos lados por toda a vizinhança.

FELISBERTA - Não há tempo a perder, quer ou não quer?

SANTA RITA - Se você sujeita-se a todas as conseqüências, vamos embora.

FELISBERTA - Vamos. (Vão a sair.) Sinto uns tremores pelas pernas...

SANTA RITA - Partamos. (Saem correndo.)

 

CENA XX

LUÍS e INACINHA

 

INACINHA - E o senhor a justificou? Sabe porventura os desaforos que ela disse à minha mãe?

LUÍS - Não podiam ser maiores que aqueles que a senhora me atirou há pouco em presença de um amigo a quem trato com todo o respeito.

INACINHA - Ainda foram poucos. Continuo a sustentar que o senhor era um pinga e que não tem o direito... (Gesticulando perto do rosto de Luís.)

LUÍS - Chegue-se para lá, senhora; não me faça perder-lhe o respeito.

INACINHA - O senhor ameaça-me? Quero ver isso, vamos lá.

LUÍS - Não me tentes, Inacinha.

INACINHA - Eu o desprezo, porque o senhor é um covarde.

LUÍS (Avançando.) - Senhora!...

INACINHA (correndo e gritando.) - Ai! ai! ai!

 

CENA XXI

OS MESMOS, FORTUNATO, LEONARDA e MIGUEL

 

LEONARDA (Gritando.) - O que é isto? Minha filha!

INACINHA (Apontando para Luís.) - Aquele monstro é um miserável. (Cai no sofá.)

MIGUEL (Baixo a Luís.) - O que fizeste, Luís?

LEONARDA - Retire-se de minha casa, senhor. O homem que ousa levantar a mão para sua mulher é um infame. Saia que eu já não o vejo.

LUÍS - Eu juro pela minha honra que não levantei a mão para essa mulher; apelo para a sua consciência.

FORTUNATO - Então fica o dito por não dito. Façam as pazes e isto não vai a matar.

LEONARDA - Isto não vai a matar?! O senhor que deveria ser o primeiro a defender sua filha, não sente neste momento um ímpeto de indignação contra aquele que acaba tão vilmente de injuriá-la! Já que não tem rubor nessas faces é preciso que eu. (Avança para Fortunato, Miguel põe-se de permeio.)

MIGUEL - É demais, minha senhora.

LEONARDA - Vamos embora, minha filha: aquele malvado há de ter do céu o castigo que merece. (Sai juntamente com Inacinha.)

 

CENA XXII

MIGUEL, FORTUNATO e LUÍS

 

FORTUNATO - Se o senhor não se mete no meio, eu levava um tapa-olho tão certo, como três e dois são cinco.

LUÍS - E duro atribuírem-me agora o papel de algoz, quando não passo de uma vítima resignada e sofredora. A taça transborda e é preciso que findem as torturas em que vivo.

MIGUEL - O que vais fazer?

LUÍS - Fugir para bem longe daqui. Sairei de cabeça erguida com meu filho nos braços e terei a coragem necessária para arrostar os comentários do mundo.

MIGUEL - Loucura, meu caro amigo. (Para Luís e Fortunato.) Querem um remédio pronto e eficaz para sustar os efeitos da febre que por aqui vai?

FORTUNATO - Aceito-o como pão para a boca.

MIGUEL - Pois bem: sente-se ali e escreva.

FORTUNATO (Sentando-se e escrevendo.) - Estou tremendo como varas verdes, ainda não me saiu da cabeça o tapa-olho de que escapei.

MIGUEL - Escreva lá: "Os abaixo assinados, não podendo por mais tempo tolerar o estado degradante em que vivem nesta casa...

FORTUNATO - Ó comendador, isto não é muito forte?

MIGUEL - ... tomaram de comum acordo a resolução de abandoná-la...

FORTUNATO - Nada, isto não faço eu.

MIGUEL - Ouça o resto e faça depois os seus comentários... "e vão atirar-se no seio das orgias...

FORTUNATO - O r, or, j, i... É com j ou g que se escreve isto?

MIGUEL - Escreva como quiser... "já que a posição de homens de bem que têm sabido sustentar até aqui não lhes garante a tranqüilidade e a consideração a que têm direito, como dignos chefes de família". Date e assine.

FORTUNATO - Lá isso de assinar, temos conversado. O que conseguiríamos com mais este escândalo?

MIGUEL - Eu lhe explico: os senhores não se vão atirar no seio das orgias, como reza a carta, longe de mim um tal conselho; fugindo, porém, de casa por algum tempo e fazendo constar às suas mulheres que estão na vida desregrada, ferem-lhes o amor próprio, dão assim uma prova de que sabem reagir com coragem contra o despotismo que os escraviza e obrigam essas criaturas a regenerarem-se, assinando dentro em breve um tratado de paz que será a garantia da felicidade futura.

LUÍS - O náufrago no estado de desespero abraça-se à primeira tábua que encontra. Aceito a sua idéia, comendador.

FORTUNATO - Oxalá que não se volte o feitiço contra o feiticeiro.

MIGUEL - Fique descansado; assinem a carta. (Para Luís e Fortunato.)

FORTUNATO - Eu saio de casa, mas sob condição de ser homem de bem, como tenho sido até aqui.

MIGUEL - É justamente o que eu quero. (Luís e Fortunato assinam a carta e deixam-na em cima da mesa.)

LUÍS (Para Fortunato.) - Saíamos, senhor.

FORTUNATO - Uma vez que é para nosso bem, partamos. (Saem todos pelo fundo.)

 

CENA XXIII

LEONARDA e INACINHA

 

LEONARDA (Entrando pela direita.) - Felisberta? Felisberta?

INACINHA (Entrando após.) - Na cozinha não está, mamãe.

LEONARDA - A maldita fugiu! Eu já antevia isto. Onde está aquele monstro?

INACINHA (Deparando com a carta em cima da mesa.) - Aqui está uma carta para nós.

LEONARDA - Lê.

INACINHA (Abrindo a carta e lendo.) - Ai! (Cai desmaiada.)

LEONARDA (Tomando a carta.) - O que é isto? (Lê: pequena pausa.) Fugiram com a mulata!

INACINHA (Acordando do desmaio.) - Vingança!

LEONARDA (Abismada.) - Fugiram com a mulata!

 

(Cai o pano.)

ATO TERCEIRO

O teatro representa o salão do Teatro Lírico. É noite. Diversos indivíduos, a maior parte mascarados, percorrem a cena.

 

CENA I

BARÃO DA COVA DA ONÇA e LUÍS

 

LUÍS (Vestido com um dominó e disfarçando a voz.) - Excelentíssimo, a sua cozinha deve estar completamente despovoada.

BARÃO - Parece que o meu baronato está lhe incomodando muito! Pois faça o mesmo. É preciso que cada cidadão pague, como pode, o tributo à pátria. Uns derramam o sangue em sua defesa, outros dão planos de campanha pelas esquinas e os mais sensatos, como eu, alcançam um título que os enobrece do dia para a noite, mandando para a guerra alguns representantes do elemento servil.

LUÍS - Que franqueza, meu caro comendador... Desculpe-me... senhor barão...

BARÃO - Da Cova da Onça, se me faz favor, e com grandeza. Mas quem é o senhor ou a senhora que está a incomodar-me desde o princípio da noite?

LUÍS - Pois ainda não me conheceu?

BARÃO - É boa! Como quer que o conheça, debaixo de uma máscara e com esta voz de apito!

LUÍS (Tirando a máscara cautelosamente.) - Olhe.

BARÃO - Luís! O que vieste aqui fazer?

LUÍS - Ora que pergunta, meu amigo! Não contraí para comigo o compromisso de atirar-me no seio dos prazeres, já que a vida de chefe de família exemplar não me garantia a paz e a tranqüilidade a que tinha direito?!

BARÃO - Não foi este o pacto que fizemos. Há três dias, Luís, que não me apareces em casa e a sociedade começa já a murmurar contra teu procedimento.

LUÍS - Que me importa a sociedade? Não passo eu aos olhos do mundo, como um algoz, quando tenho sido até aqui um verdadeiro mártir? É preciso tirar a minha desforra, gozando das regalias do papel que me querem atribuir.

BARÃO - Imprudente que fui! Eu devia prever este desfecho; mas o que eu não previa era que teu sogro, o tipo da circunspecção e da sisudez, se lançasse também de corpo e alma nesse labirinto, que é o inferno das algibeiras e a morte do coração.

LUÍS - Não creio.

BARÃO - É infelizmente a verdade. Há dias que o não vejo...

LUÍS - Está sem dúvida empenhado em uma botica, nalguma partida complicada de gamão.

BARÃO - Ontem foi encontrado no Rocambole, ceando com duas estrelas parisienses.

LUÍS (Rindo-se.) - É engraçado! Eu dava a parte que me há de tocar no Paraíso para ver o Senhor Fortunato Arruda nesses apuros. (Arremedando-o.) Senhora, isto não vai a matar. (Ri-se às gargalhadas.)

BARÃO - Escuta, Luís.

LUÍS - Estamos em um baile mascarado, barão. (Ouve-se tocar uma quadrilha.) A quadrilha me chama e um lindo tity, vaporoso com uma Valquíria, espera-me lá embaixo. (Põe a máscara.) Adeus! (Saem os dois.)

 

CENA II

SANTA RITA, FELISBERTA e TRÊS CHICARDS

 

1o CHICARD - É um princez!

2o CHICARD - Desgarrou-se sem dúvida de algum Zé-Pereira. Diga-nos alguma coisa de espírito. (Com voz fina.) Você me conhece?

SANTA RITA (Vestido de príncipe, dando o braço a Felisberta vestida de pastora.) - Os senhores não me façam subir a mostarda ao nariz.

2o CHICARD - Vejam aquele porte! Quem não dirá que está ali um carroceiro?

1o CHICARD - É pena que não esteja vestido de capim.

SANTA RITA - Nessa não caía eu: os senhores comiam-me o vestuário. (Riem-se os três às gargalhadas.)

3o CHICARI) - Meus senhores: fato nunca visto nos anais do carnaval - um princez com espírito!

2o CHICARD (Dando uma encapelação em Santa Rita.) - Eu te saúdo!

SANTA RITA - Olhe, que os senhores não sabem com quem se metem.

FELISBERTA - Vamos embora.

1o CHICARD (Segurando no rosto de Felisberta.) - Gentil pastora!

SANTA RITA - Arrede-se para lá; não me toque na fazenda. Olhe que isto aqui não é mungugu, hein?

2o CHICARD (Olhando para outro mascarado que passa.) - Lá está outro. A ele, rapaziada. (saem os três chicards e atropelam o indivíduo, depois do que retiram-se da cena.)

 

CENA III

SANTA RITA e FELISBERTA

 

SANTA RITA - Eu bem te dizia que não devíamos sair do Pavilhão.

FELISBERTA - Também não sei por que todo o mundo há de implicar conosco.

SANTA RITA - Não é por causa do vestuário: foi o que encontrei de mais rico no Guedes. Se eu me apanho contigo agora na Bahia... Que vistão, hem, Felisberta?!...

FELISBERTA - Qual vistão, nem pera vistão! Eu creio que estamos representando um papel muito ridículo.

SANTA RITA - Felisberta, um baiano não representa papel ridículo em parte alguma.

FELISBERTA - Ainda não pudeste conhecer quem é aquele sujeito de nariz de papelão, que anda atrás de mim?

SANTA RITA - Se eu o pilho, arrumo-lhe tamanho trompázio...

FELISBERTA - Para quê? coitado! Ele quis pagar-me o sorvete!...

SANTA RITA - Ah! ele quis pagar-te o sorvete?! Felisberta, olha que eu sou filho de Itapagipe e estive na revolução da Sabinada.

FELISBERTA - Pois o que tem que ele pagasse-me o sorvete?

SANTA RITA - No dia em que me constar que tu tomaste um sorvete à custa de outra pessoa, retiro-te a minha proteção.

FELISBERTA - Fresca proteção! levo o dia inteiro a coser para sustentá-lo e o senhor a tocar viola e a cantar modinhas.

SANTA RITA - Tenho eu porventura a culpa de não me terem dado ainda o lugar que me prometeram no corpo de urbanos? Quando chegar esse dia, serás tratada como uma princesa.

FELISBERTA - Veremos.

SANTA RITA - Hás de andar no trinque, metendo inveja a todas essas sirigaitas, que não te chegam aos calcanhares.

FELISBERTA - Isso é língua só. Tirou-me de casa dizendo-me que havia de casar.

SANTA RITA - Filha, eu não te tirei de casa, nem te disse coisa alguma; tu é que saíste de lá com teus próprios pés. Se há alguém seduzido, sou eu.

 

CENA IV

OS MESMOS e FORTUNATO (Que entra vestido de Pierrô, com um nariz de papelão e barbas postiças.)

 

SANTA RITA - Eis o bilter outra vez conosco; vamos embora.

FELISBERTA (Baixo a Santa Rita.) - Como ele me olha.

FORTUNATO (À parte.) - A tal pastorinha está me transtornando a cabeça. (Dirige-se à Felisberta.)

SANTA RITA - O que é isso lá, meu amigo? Você para cá vem de carrinho. Se pensa que todos nós somos uns, está muito mal enganado.

FORTUNATO (À parte.) - Eu conheço esta voz.

SANTA RITA - Vamos, que se fico aqui mais dois minutos não respondo depois por mim. (Sai juntamente com Felisberta.)

 

CENA V

FORTUNATO e depois LUÍS

 

FORTUNATO - Aquela voz não me é desconhecida. Irra! já não posso com o maldito calor. (Tira as barbas e o nariz no momento em que Luís aproxima-se e vê-lhe o rosto.)

LUÍS (A parte.) - Olé! O senhor meu sogro!

FORTUNATO (Pondo de novo as barbas e o nariz, à parte.) Um dominó! Que olhos que me deita! querem ver que é uma mulher? Experimentemos. (Alto.) Interessante máscara, quereis conceder-me a honra de dar-me o vosso braço?

LUÍS (Com voz fina.) - Não sei se devo... Os homens são tão imprudentes...

FORTUNATO (Á parte.) - Não há dúvida, é mulher. (Alto.) Depositai em mim toda a confiança, eu sou um cavalheiro.

LUÍS (Com voz fina.) - Todos os senhores dizem sempre a mesma coisa, mas depois.. . Nós mulheres somos tão fracas.

FORTUNATO (Á parte.) - É um anjo de candura! (Alto.) Vinde comigo, formosa menina.

LUÍS (Com voz fina.) - Como é que o senhor sabe que eu sou formosa?

FORTUNATO - O meu coração o diz; deveis ser muito bela e encantadora.

LUÍS (Á parte.) - Que tratante! Quem te viu e quem te vê!

FORTUNATO - Esta voz angélica e harmoniosa está traindo um lindo rosto. Há pouco lá embaixo eu vos seguia. Ora, eu não tenho por hábito andar seguindo as mulheres, porque no fim de contas, quando menos se espera, lá se encontra um malcriado, como já aconteceu a um amigo meu que andou em papos de aranha! Mas foi bem feito: quem o mandou se meter a abelhudo! Eu faço estas coisas, mas com certa cautela.

Luís (Com voz fina.) - Há duas horas também que o sigo.

FORTUNATO - Será possível?! O que fiz eu para ser tão feliz?!

LUÍS (Com voz fina.) - Há um quê no senhor que me agrada. Debaixo deste disfarce oculta-se necessariamente um homem elegante.

FORTUNATO - Que tem um coração cheio de vida e que o deposita a vossos pés. Deixai-me abraçar esta cintura delicada, (Luís esquiva-se.) consenti ao menos que eu beije esta linda mão. (Fortunato beija a mão de Luís e durante esta cena este tira a máscara.) Pois era o senhor?! (Luís ri-se às gargalhadas.) Devia se lembrar de que sou quase seu pai. (Luís continua a rir-se.) Basta, senhor.

LUÍS - Tem razão, meu sogra, (Rindo-se às gargalhadas.) isto não vai a matar.

FORTUNATO - Pois convença-se que eu já sabia que era o senhor. Preparei muito de propósito esta cena para ver até onde chegava o seu...

LUÍS - Cinismo, talvez? Senhor Fortunato, eu estou sem máscara e o senhor traz um nariz de papelão. Tire o nariz e deixe-se de hipocrisias. Seja franco: confesse que temos ido além do papel que devêramos representar.

FORTUNATO - Não confesso coisa alguma, senhor; porque tenho sido homem de bem até hoje.

LUÍS - Justamente como eu. Há uma diferença, porém, entre nós: eu tenho me atirado, durante esses quinze dias, no seio dos prazeres, porque nele encontro o esquecimento das dores que me torturam a alma; o senhor deixou-se fascinar pela liberdade a que não estava habituado, à semelhança do pássaro que tolhido no vôo pelos arames da gaiola vê-se de repente na imensidade do espaço, voa, voa com sofreguidão, sem medir o abismo que se lhe abre debaixo dos pés.

FORTUNATO - Ora esta! Mas que diabo de abismo tenho eu debaixo dos pés?

LUÍS - A sua reputação periga e quando um dia quiser reivindicá-la será tarde.

 

CENA VI

OS MESMOS, INACINHA e LEONARDA (Vestidas de dominó.)

 

LEONARDA (Baixo a Inacinha.) - São eles.

INACINHA (Baixo.) - Vosmecê está bem certa disso?

LEONARDA (Baixo.) - O que está de dominó é teu mando e o outro é aquele velho sem-vergonha, que há de pagar-me a afronta com língua de palmo.

FORTUNATO (Baixo à Luís.) - Conheces aqueles dominós? Desde o princípio do baile que me seguem.

LUÍS (Que tem posto a máscara logo que entram Leonarda e Inacinha.) - Mais uma conquista.

FORTUNATO - Creio que sim. Decididamente estou em maré de felicidades. Olha, quando há pouco chegaste, não viste aqui uma pastorinha?

LUÍS - Não reparei.

FORTUNATO - Estou perplexo entre a tal pastora e aqueles dois dominós. (Inacinha e Leonarda atravessam a cena olhando para Fortunato e Luís.)

LEONARDA (A Inacinha, baixo.) - Eu tenho toda a certeza de que eles nos seguem.

INACINHA (Baixo.) - Que monstro!

FORTUNATO (À parte.) - Eu vou segui-la. (Vai a sair.)

LUÍS - Onde vai?

FORTUNATO - Deixa-me. (Vai a sair atrás de Leonarda e Inacinha que retiram-se no momento em que avista Felisberta sozinha. Luís sai pelo fundo.)

 

CENA VII

FELISBERTA e FORTUNATO

 

FORTUNATO (Á parte.) - A pastora sozinha! (Dirigindo-se a Felisberta.) Feiticeira menina, não quereis aceitar o meu braço?

FELISBERTA (À parte.) - Eu conheço esta voz! (Reparando em Fortunato.) É célebre!

FORTUNATO - Não tendes medo de andar sozinha nestes sabes?

FELISBERTA - Medo de quê?

FORTUNATO (À parte.) - É singular! Eu já ouvi esta fala,. não sei onde. (Procura examinar Felisberta por baixo da máscara: alto.) Onde está o vosso gentil cavalheiro?

FELISBERTA - Perdi-me dele lá embaixo no meio do povo.

FORTUNATO - Vamos procurá-lo.

FELISBERTA - Não, senhor; eu ando bem sozinha.

FORTUNATO - Vinde ao menos tomar um sorvete.

FELISBERTA - O senhor paga o sorvete?

FORTUNATO - Pago, sim.

FELISBERTA (Dando-lhe o braço.) - Então, vamos já, antes. que ele apareça.

FORTUNATO (À parte.) - Que candura! (Sai com Felisberta.).

 

CENA VIII

OS TRÊS CHICARDS e depois SANTA RITA

 

1o CHICARD - Vivam os estudantes de Heidelberg!1

TODOS - Vivam!

2o CHICARD - Procura-se um máscara de espírito.

3o CHICARD - Dá-se uma garrafa do mais fino clicot a quem. apresentar um princez. (Entra Santa Rita com ares de quem procura alguém.)

1o CHICARD - Cá está o princez! Venha o clicot. (Dá uma encapelação em Santa Rita.)

SANTA RITA - Os senhores não me percam. Olhe, quem lhes avisa seu amigo é.

2o CHICARD - Mais consideração para o homem de sangue azul, respeitem a espada de pau e a capa de belbutina.

SANTA RITA (Olhando em redor, como quem procura alguém.) Os senhores não viram por aqui uma pastora de vestido encarnado?

3o CHICARD - Bateu a linda plumagem. As pastoras dão-se mais com a democracia.

SANTA RITA - Fale sério, senhor; eu não sei onde tenho a cabeça.

2o CHICARD - Lá se vai a dinastia. (Santa Rita quer sair.)

1o CHICARD - Antes de sair daqui há de dar-nos um ar de sua graça. Diga-nos alguma coisa de espírito, como há pouco.

SANTA RITA - Deixem-me passar.

2o CHICARD (Arrumando-lhe uma encapelação.) - Está furioso! (Santa Rita sai acompanhado pelos chicards que riem-se às gargalhadas.)

 

CENA IX

BARÃO DA COVA DA ONÇA e INACINHA

 

INACINHA (Com voz fina.) - Eu o conheço como as palmas de minhas mãos.

BARÃO - Pode ser, minha senhora; eu é que não tenho esta honra.

INACINHA (Com voz fina.) - Engana-se, senhor barão, as nossas relações datam de há muito. Eu já sabia que havia de encontrá-lo aqui; há dias que acompanho todos os seus passos.

BARÃO - Deveras? Como sou feliz!

INACINHA (Com voz fina.) - Vi-o do meu camarote e tomei este disfarce para melhor segui-lo.

BARÃO - Uma aventura romântica! Bendigo a feliz inspiração que me trouxe a este lugar.

INACINHA (Com voz fina.) - Não se trata de sua pessoa. Vossa Excelência não sabe com quem está falando.

BARÃO - Certamente, minha senhora; mas creio que não a ofendi.

INACINHA (Com voz fina.) - Vossa Excelência é um cavalheiro.

BARÃO - Tenho-me nesta conta.

INACINHA (Com voz fina.) - Poderá dizer-me quem é aquele dominó com quem andava há pouco?

BARÃO (À parte.) - E esta! a sujeitinha não quer fazer-me de pau de cabeleira!

INACINHA (Com voz fina.) - Já vejo que fui indiscreta.

BARÃO - Aquele dominó, minha senhora, é...

INACINHA (Com voz fina.) - Sei que é um moço elegante que anda fugido da mulher há quinze dias, que é rico como um Creso e que gasta como um lorde.

BARÃO - Calúnias, minha senhora. O mundo está cheio de más línguas!

INACINHA (Com voz fina.) - Eu o adoro.

BARÃO - Deveras?! Pois nada mais fácil, dirija-se a ele e faça-lhe a declaração. (À parte.) Não há dúvida, estou servindo de pau de cabeleira.

 

CENA X

OS MESMOS e SANTA RITA (Que entra olhando para os lados como quem procura alguém.)

 

SANTA RITA - O senhor não viu por aqui uma pastora de vestido encarnado? (À parte.) O comendador!

BARÃO - Não, senhor. (Santa Rita sai olhando para os lados.)

 

CENA XI

BARÃO e INACINHA

 

INACINHA (Com voz fina.) - Como deve ser feliz a pessoa que for amada por ele.

BARÃO (À parte.) - E esta!

INACINHA (Com voz fina.) - Onde mora este homem, senhor barão? Diga-me em nome de tudo o que tem de mais caro.

BARÃO - Não sei, minha senhora.

INACINHA (Com voz fina.) - É impossível, Vossa Excelência é íntimo dele.

BARÃO - Este homem é um pai de família; cometeu, é verdade, na opinião dos que não o conhecem, a leviandade de abandonar sua mulher e eu, como seu amigo dedicado, jamais consentirei que ele desonre o seu nome entregando-se a um amor criminoso.

INACINHA (À parte.) - É ele mesmo.

BARÃO - O que me pede, portanto, é impossível.

INACINHA (Com voz fina.) - Não poderá dizer-me, ao menos, quem é um pierrô que o acompanha?

BARÃO - Que sarna! (Alto.) Pois ele anda com um pierrô?

INACINHA (Com voz fina.) - Ora, o senhor faz-se de mais inocente do que na realidade é.

BARÃO - Minha senhora, a minha idade e a minha posição não toleram o papel que quer obrigar-me a representar. A senhora encontrou-me lá embaixo, pediu-me o braço e quando eu pensava que vinha lisonjear-me o amor próprio, acedendo aos galanteios que comecei a dirigir-lhe, fala-me ex abrupto de um terceiro e quer reduzir-me à posição de correio de amores.

INACINHA (Com voz fina.) - Estou o desconhecendo, senhor barão, Vossa Excelência está muito susceptível.

BARÃO - Nada mais tem a dizer-me, minha senhora?

 

CENA XII

OS MESMOS e SANTA RITA

 

SANTA RITA - O senhor não viu passar por aqui uma pastora de vestido encarnado?

BARÃO - Já lhe disse que não. Irra!

SANTA RITA - Está bom; não é preciso zangar-se. (Sai olhando para os lados.)

 

CENA XIII

BARÃO e INACINHA

 

INACINHA - Já que Vossa Excelência não quer prestar-me este serviço, hei de encontrar alguém que me aproxime de seu amigo.

BARÃO - Assevero-lhe que não o conseguirá, enquanto ele ouvir os meus conselhos.

INACINHA - E Vossa Excelência é um ótimo conselheiro.

 

CENA XIV

OS MESMOS, LUÍS e LEONARDA

 

LUÍS (Dando o braço à Leonarda.) - Espero que seja mais feliz do que eu, barão. Há dez minutos, seguramente, que passeio com esta menina, encantadora talvez, mas ainda não pude saber qual o timbre de sua voz.

BARÃO (Para Inacinha.) - O que tem, minha senhora? Esta' tremendo!

LEONARDA (À parte.) - Estou com ímpetos de arrumar-lhe um bofetão.

LUÍS (Para Leonarda.) - Vamos lá, diga alguma coisa. Que tal acha o baile? Decididamente não é uma mulher, é uma estátua!

BARÃO (Para Inacinha.) - Não trema, minha senhora.

LUÍS (Para o barão.) - Pelo que vejo o seu par também é mudo?

BARÃO - É uma criatura romântica; consome-se nas chamas de um amor impossível, e perdeu a fala diante do objeto amado.

LUÍS - Bravo, barão, dou-lhe os meus parabéns. (Para Leonarda.) Mas a senhora está deveras resolvida a não dizer-me nada?

BARÃO (Baixo a Inacinha.) - O seu amor é uma loucura, minha senhora; esqueça-se disto.

LUÍS - Estou na realidade representando um papel interessante! Conte-me lá esta aventura, barão.

BARÃO - Imagina que esta senhora, a quem não tenho a honra de conhecer, pediu-me o braço...

LUÍS - Foi justamente o que me aconteceu: mas creia que eu me considero neste momento o ente mais feliz do mundo. Tenho plena certeza que sob esta máscara se oculta um rosto de anjo.

BARÃO - E eu nutro a convicção de que serias mais feliz se estivesses no meu lugar.

LUÍS - Deveras?

BARÃO - Figura-te que esta senhora arde de amores por ti, que se interessa extraordinariamente por tua pessoa e que deseja saber tua morada.

LUÍS - Fale mais baixo, barão; eu não desejo provocar ciúmes desta linda dama, que com tanto afã se obstina em envolver-se nas trevas do mistério.

BARÃO - Não há receio, os amores de carnaval raras vezes acarretam duelos.

 

CENA XV

BARÃO, INACINHA, LUÍS, LEONARDA, FORTUNATO e FELISBERTA

 

FELISBERTA (Pelo braço de Fortunato.) - Deixe-me ir embora, senhor; ele pode aparecer e estou perdida.

LUÍS (Para Fortunato.) - Olá.

FORTUNATO (Baixo a Luís.) - Cala a boca, não convém que o barão me conheça.

FELISBERTA (À parte.) - O comendador! (Forceja por sair do braço de Fortunato, que a retém. Leonarda segura com força no braço de Fortunato, deixando o de Luís.)

LUÍS - Temos outra aventura?

LEONARDA (Tirando a máscara, depois de ter arrancado o nariz e as barbas de Fortunato.) - Sim, uma aventura com que não contavam.

FORTUNATO - Jesus, Padre, Filho, Espírito Santo.

INACINHA (Tirando a máscara de Luís e segurando-lhe no braço.) - Conheces-me, monstro? (Tira a máscara.)

BARÃO (À parte.) - Que escândalo, Santo Deus!

LEONARDA (Apontando para Felisberta.) - Quem é esta mulher? Quero saber quem é esta mulher.

INACINHA (Para Luís.) - Tu não sairás mais do meu poder.

LEONARDA (Segurando em Felisberta que tenta fugir.) - Quem é esta mulher, senhor?

FELISBERTA (À parte.) - Valei-me, Nossa Senhora do Amparo.

LEONARDA - Hei de conhecê-la. (Arranca a máscara de Felisberta.)

INACINHA e LEONARDA - Felisberta!!

LEONARDA (Deixando Felisberta.) - Eu sufoco! Ar, quero ar!

INACINHA (Deixando Luís e indo acudir Leonarda.) - Minha mãe!

LEONARDA - Anda-me tudo à roda. (Felisberta foge.) Um pau! Eu morro! (Caí nos braços de Inacinha, o barão ajuda a levá-la para um banco à direita. Acodem os máscaras que passeiam pelo salão e rodeiam Leonarda e Inacinha: o barão abre passagem por entre o grupo e vem ao lugar onde se acham Luís e Fortunato estupefactos.)

BARÃO - Fujam, desgraçados, e quanto antes, que eu velarei por elas. (Empurra Fortunato e Luís que saem.)

 

CENA XVI

BARÃO e SANTA RITA

 

BARÃO - Que escândalo!

SANTA RITA - O senhor não viu por aqui uma pastora de vestido encarnado?

BARÃO - Vá-se embora com trezentos milhões de diabos! (Dirige-se ao lugar em que estão Leonarda e Inacinha, Santa Rita sai, olhando para os lados.)

 

(Cai o pano.)

ATO QUARTO

O teatro representa a mesma cena do segundo ato.

CENA I

LEONARDA e INACINHA

 

LEONARDA (Encostada ao sofá com um lenço atado à cabeça.) - Ai, ai, ai; parece-me que estão me arrancando os miolos.

INACINHA - Sossegue, mamãe.

LEONARDA - Posso porventura ficar tranqüila quando considero que aqueles dois santarrões acabam de cometer para conosco tão negra ingratidão, introduzindo a vergonha e o escândalo no seio de uma família?!

INACINHA - Tem razão; se eu apanhasse o monstro neste momento, ele havia de passar comigo um mau quarto de hora.

LEONARDA - A sede de vingança que me devora é tamanha que, apertando-lhe o pescoço, obrigando-o a pôr um palmo de língua de fora e a morrer como um carneiro, sem dar um gemido, ainda assim eu não a saciaria! Ai, ai, ai.

INACINHA - Acalme-se, mamãe.

LEONARDA - O que se deve esperar mais de um velho sem pudor que, unindo-se com um tratante casado apenas há dois anos, seduz uma cria de casa e atira-se com ela no seio das orgias?!

INACINHA - Uma irmã colaça de sua mulher.

LEONARDA - Quase sua filha! Uma criança que ele carregou muitas vezes ao colo e a quem eu dei a liberdade na pia batismal. O que se deve esperar desses entes perdidos?

INACINHA - Parece-me um sonho a cena de ontem.

LEONARDA - Fortunato era o tipo da pachorra e da bondade; foi teu marido quem o perdeu, graças aos bons conselhos desse improvisado barão, em cuja casa eles se acham acoitados.

INACINHA - Nunca pensei que aquele homem se sujeitasse a representar papel tão infame!

LEONARDA - Ai, ai, ai, minha cabeça.

INACINHA - São horas de tomar o remédio. O médico recomendou-lhe o maior repouso possível e vosmecê está falando demais.

LEONARDA - Oh! mas a minha desforra há de ser tremenda.

INACINHA (Indo buscar uma garrafa em cima da mesa e despejando o remédio num cálice.) - Tome.

LEONARDA (Bebendo.) - Tira isto daqui, está me embrulhando o estômago.

INACINHA - Falta só um bocadinho; beba este resto.

LEONARDA (Depois de ter bebido um bocado, com repugnância.) - Não posso mais, leva.

INACINHA (Pondo a garrafa em cima da mesa.) - Por que não vai deitar-se? (Batem palmas.)

LEONARDA - Vê quem é.

INACINHA (Indo à porta do fundo.) - É ele!

LEONARDA (Levantando-se agitada.) - Ele, quem?

INACINHA - O barão.

LEONARDA - Manda-o entrar.

 

CENA II

AS MESMAS e o BARÃO

 

BARÃO (Dirigindo-se a Leonarda.) - Bom dia, minha senhora. (Vai apertar a mão de Leonarda, esta volta-lhe a cara; dirigindo-se a Inacinha.) Como tem passado? (A mesma cena; à parte.) Estou metido em boas. (Alto.) O que aqui me traz, minha senhora, é um dever de bom amigo. (Leonarda volta-lhe o rosto.) Não sei se fui indiscreto... (Inacinha também vira-lhe o rosto: à parte.) Que temporal! (Alto.) Ora pois, vinha trazer a paz e a tranqüilidade a este lar e entretanto viram-me a cara e torcem-me o nariz.

LEONARDA - É na realidade interessante que o senhor venha aqui apresentar-se como o mensageiro da paz!

BARÃO - É verdade, esqueci-me do símbolo - o ramo de oliveira.

INACINHA - A situação é imprópria para gracejos.

BARÃO - Contam que Maomé resolvera um dia dar um passeio ao céu.

LEONARDA - Senhor, repare que fui muito condescendente recebendo-o em minha casa depois das cenas que se acabam de passar.

BARÃO - Peço-lhe licença para acabar a historia. Diversos gêneros de condução foram oferecidos ao profeta que ardia em desejos por Ver a mansão dos justos. "Não posso ir no meu burro? perguntou ele ao alado cicerone que devia guiá-lo em tão arriscada viagem. À resposta negativa deste, Maomé abanou a cabeça resignado e disse: "Já que não posso ir no meu burro, desisto da empresa."

LEONARDA - Não sei a que vem esta história.

BARÃO - O ridículo é o meu burro, minha senhora, habituei-me a viajar nele em todas as situações da vida e não mudo de montaria por princípio algum.

LEONARDA - Diz muito bem, senhor barão. O homem que entra com pés de lá no seio de uma família e que sob a máscara da amizade oculta a traição, aconselhando a dois maridos que abandonem suas mulheres e acoitando-os em sua casa, se não é um malvado, é um ente leviano que não tem consciência dos atos que pratica.

BARÃO - Vossa Excelência labora em um grande erro; em primeiro lugar nada aconselhei a esses dois maridos: segundo, eles não encontraram em minha casa a proteção que se costuma dar aos criminosos.

INACINHA - Quando lá fomos por diversas vezes...

BARÃO - Abri-lhes as portas e não os encontraram.

LEONARDA - Porque o senhor tinha o cuidado de escondê-los.

BARÃO - Escondê-los! Minhas senhoras, Vossas Excelências hão de permitir-me que lhes diga que não conhecem bem seus maridos. Aqueles homens, pacatos e mansos como dois cordeiros, já não são os mesmos que dantes eram. E doloroso dizê-lo, mas é a verdade. Operou-se neles uma transformação súbita desde aquela célebre noite em que foram aqui feridos em sua dignidade. Em vão tentei evitar o mal quando os vi fugir, o Senhor Fortunato, gesticulando como um possesso e o Senhor Luís de Paiva, rubro de cólera, gritavam vingança, depois de terem escrito uma carta e saíram desorientados por aquela porta. Sai também atrás deles, disposto a lançar mão de todos os meios, para que não prosseguissem na carreira que premeditavam. Recebendo-os em casa estava disposto a trazê-los apadrinhados no dia seguinte. Desprezaram, porém, os meus conselhos e afogando-se na vertigem dos prazeres.

INACINHA - Foram dar com os ossos em um baile mascarado...

LEONARDA - Ao lado dessa mulata que raptaram. E o senhor, que também foi cúmplice em toda essa bandalheira, acha que deve ficar impune uma tal afronta?!

BARÃO (Rindo-se.) - Tocou Vossa Excelência no ponto a que eu queria chegar. A mulata Felisberta entra nesse negócio como Pilatos no Credo.

LEONARDA - Pois o senhor ousa negar aquilo que eu vi com os meus próprios olhos?!

BARÃO - Entendamo-nos, minha senhora, o que foi que Vossa Excelência viu?

LEONARDA - O que eu vi? Ele que agradeça à sua boa estrela o ter-me faltado o ar naquela ocasião.

BARÃO - O que Vossa Excelência viu foi o Senhor Fortunato de braço com uma mulher mascarada, que reconheceu-se depois ser Felisberta. Segue-se porém daí que foi ele quem a raptou? Quantas vezes em um desses bailes não damos o braço a um homem, julgando que nos achamos ao lado de uma mulher encantadora e mais tarde caímos das nuvens, reconhecendo o engano em que laborávamos?

LEONARDA - Quem foi então que roubou a mulata?

BARÃO - E por que não acredita antes Vossa Excelência que ela tivesse saído desta casa, por seu motu propriu?

LEONARDA - Não creio, Felisberta era uma criatura tímida e pacata e só poderia dar este passo movida pela sedução.

BARÃO - O Senhor Fortunato e o Senhor Luís de Paiva eram também duas pombas sem fel; os maus tratos viraram-lhes a cabeça e hoje são dois tigres de Bengala.

INACINHA - O que quer dizer o senhor com isto?

BARÃO - Que Felisberta deu este passo levada talvez pelo desespero. Enfim, minhas senhoras, quer acreditem-me, quer não, vim de propósito a esta casa para dizer-lhes que o Senhor Fortunato e o Senhor Luís de Paiva foram ontem vítimas inocentes de uma coincidência comprometedora, cuja origem atribuem a Vossas Excelências. Dizem eles ter sido aquilo um meio diabólico de que lançaram mão para apanhá-los com mais facilidade com a boca na botija.

LEONARDA - Tanta inocência, senhor barão, seria irrisória, se não causasse nojo.

INACINHA - Vamos para dentro, mamãe.

LEONARDA - Diga a esse velho sem-vergonha que nos havemos de encontrar ainda um dia face a face. (Saí com Inacinha.)

 

CENA III

BARÃO, só.

 

BARÃO - E então? Mas, no fim de contas, eu dou um doce a quem me explicar o aparecimento daquela mulata no baile mascarado!

 

CENA IV

O MESMO e SANTA RITA e FELISBERTA
(Que entram timidamente pelo fundo, olhando para os lados.)

 

SANTA RITA (Deparando com o barão, que deve estar pensando, recua com medo.) - Entra tu primeiro. (Esconde-se atrás de Felisberta.)

FELISBERTA - Você é quem deve falar.

SANTA RITA - Eu não.

BARÃO (Voltando-se.) - Quem é?

FELISBERTA (Tremendo.) - Sou eu.

SANTA RITA (Também tremendo.) - Sim, senhor, somos nós.

BARÃO (Com alegria.) - Ora pois: está descoberta finalmente a chave do enigma!

SANTA RITA - A chave?!

BARÃO - Foi pois você, seu maganão, quem raptou aquela inocente e tímida criatura?!

SANTA RITA - Eu, não, senhor; ela foi quem me seduziu. (Felisberta abaixa os olhos.)

BARÃO (Com alegria.) - Bravo, muito bem! E foram ontem ao baile mascarado..

SANTA RITA - É verdade: Vossa Senhoria não se lembra daquele sujeito vestido de rei, que perguntou-lhe...

BARÃO - O senhor não viu por aqui uma pastora de vestido encarnado?...

SANTA RITA - Isso mesmo, sim senhor; era eu.

BARÃO (Rindo-se.) - Magnífico! Magnífico!

SANTA RITA (Baixo a Felisberta.) - Este homem está maluco!

BARÃO (À parte.) - Posso, enfim, reabilitar dois palermas perante a família!

FELISBERTA - Creia vosmecê que eu não fui culpada daquele desaguisado.

BARÃO (Com alegria.) - Eu já volto. Onde está o meu chapéu? (Achando-o.) Ah! (Sai apressado pelo fundo.)

 

CENA V

FELISBERTA e SANTA RITA

 

SANTA RITA - Sabes o que quer dizer aquilo?

FELISBERTA - Não.

SANTA RITA - Pois eu sei, minha cara; vou me pôr ao fresco e arranja-te lá como puderes. O homem foi chamar as sujeitas e não dou cinco minutos que elas não estejam aqui furiosas.

FELISBERTA - Você não há de sair.

SANTA RITA - Mas, enfim, que papel represento eu? Gasto dinheiro, levo-te a um baile e quando menos esperava, deixando-te engodar por um sorvete, dás o braço àquele bilter, vindo me dizer depois que era teu amo. Felisberta, eu não engulo araras, o Senhor Fortunato foi tanto ao baile mascarado como eu à China.

FELISBERTA - Você sabe perfeitamente que eu não poria mais os meus pés aqui, se não fosse aquela embrulhada de ontem.

SANTA RITA - O que eu sei é que tu estás arranjando meios e modos de levar um par de pescoções, iguais àqueles com que já foste mimoseada.

FELISBERTA - Sinhô velho está inocente e é preciso que eu ele há de ter sofrido. Além disso se até então a velha não podia me ver, não sabendo como se deu aquele fato, seria capaz de estrangular-me à primeira vez que me encontrasse.

SANTA RITA - La isso era; vamos embora, Felisberta. (Assusta-se.)

FELISBERTA - Quem é?

SANTA RITA (Olhando- para os lados.) - Ninguém.

FELISBERTA - Nunca pensei que você fosse tão poltrão!

SANTA RITA - Eu cá me entendo. Tenho muito amor a este lombo e meu pai que Deus haja, não faz um outro Santa Rita.

FELISBERTA - Não era isto o que você me dizia antigamente.

SANTA RITA - Nem tudo o que a gente diz se escreve.

 

CENA VI

OS MESMOS, LEONARDA e INACINHA

 

LEONARDA (Gritando dentro.) - Inacinha?

SANTA RITA (Tremendo.) - Valei-me, Senhor do Bonfim.

LEONARDA (De dentro.) - Inacinha?

SANTA RITA - Minha Nossa Senhora da Guia!

INACINHA (Gritando dentro.) - Lá vou, mamãe...

SANTA RITA (Querendo fugir.) - Vou-me embora.

FELISBERTA (Detendo-o.) - Não seja banana. (Leonarda entra amparada por Inacinha, Felisberta e Santa Rita ajoelham-se.)

INACINHA e LEONARDA - Ela!

LEONARDA - Segura-me, segura-me, que eu vou ter um ataque.

SANTA RITA (À parte.) - Misericórdia!

FELISBERTA - Perdão, minha senhora, eu estou inocente.

LEONARDA - Sai de minha presença. Miserável! (Avança para Felisberta.)

SANTA RITA (Recuando à parte.) - Hoje é o último dia da minha vida.

INACINHA - Como te atreveste a entrar nesta casa depois de tanta infâmia?!

LEONARDA (Gritando para dentro.) - Genoveva? (A Inacinha.) Menina, manda buscar dois pedestres ali na polícia.

SANTA RITA (Levantando-se e procurando fugir. À parte.) - Dois pedestres!

INACINHA (Tomando-lhe a passagem.) - Para ali.

FELISBERTA - Reconheço que cometi uma falta, fugindo de casa com Santa Rita.

LEONARDA - Com Santa Rita!

SANTA RITA (À parte.) - Ei-la comigo.

INACINHA - Pois foi com Santa Rita.

FELISBERTA - Sim, senhora, em um momento de desvario, perdi a cabeça e pratiquei essa ingratidão para com vocemecês.

SANTA RITA (A Felisberta.) - Mas é preciso que você diga que não fui eu quem a seduziu.

LEONARDA - E a cena de ontem, deslambida?

FELISBERTA - Sinhô velho está inocente; ele não sabia quem eu era, nem eu tampouco podia imaginar com quem conversava. Perdendo-me de Santa Rita no meio do povo, encontrei aquele homem que convidou-me para tomar um sorvete, dei-lhe o braço e parecia-me a todo o momento que eu conhecia aquela voz; porém meu coração estava longe de pensar que fosse sinhô. O resto vocemecê sabe. Eu juro-lhe, por Nossa Senhora do Amparo, que estou inocente.

LEONARDA (À parte.) - Será possível?! (Para Felisberta.) Levanta-te.

SANTA RITA - Tudo isto é a pura verdade.

INACINHA - E onde estão eles?

FELISBERTA - Não sei, sinhazinha. Eu saí do teatro depois do que houve e fui para a casa corrida de vergonha.

SANTA RITA (À parte.) - Parece que o temporal vai serenando.

LEONARDA - Eu te perdôo, em nome do peso de que me aliviaste.

FELISBERTA (Beijando a mão de Leonarda.) - Obrigada, sinhá; mas ainda não lhe disse o outro motivo que aqui me trouxe. Eu vou-me casar com Santa Rita, e por isso preciso do seu consentimento.

LEONARDA - Muito bem; procedes como uma rapariga de juízo, reparando a falta que cometeste.

SANTA RITA - Mas olhe que não é para já, não, senhora.

LEONARDA - E por que não?

SANTA RITA - E que eu esperava um lugar no corpo de urbanos e não desejava dar este passo sem ter uma posição na sociedade.

LEONARDA - Pois bem; eu me encarregarei de arranjar quanto antes o que desejas.

SANTA RITA (À parte.) - O que diz ela!

LEONARDA (Para Felisberta.) - Podes ir lá dentro ver as outras. (Para Santa Rita.) Vai também.

SANTA RITA (Baixo a Felisberta.) - É impossível que nesta casa não entrasse mandinga. (Sai com Felisberta pela esquerda.)

 

CENA VII

LEONARDA e INACINHA

 

INACINHA - À vista do que acabamos de ouvir qual deve ser a nossa atitude?

LEONARDA - O que pretendes fazer?

INACINHA - A mesma pergunta lhe faço eu.

LEONARDA - Minha filha, sejamos prudentes. Teu pai e teu marido puseram as mangas de fora de uma maneira insólita, é verdade, mas não tanto quanto pensávamos. As explicações de Felisberta vieram mudar a face das coisas e, a meu ver, este era o ponto que atacava mais de frente a nossa dignidade.

INACINHA - É também a minha opinião.

LEONARDA - Portanto, entendo que devemos recebê-los, e quanto antes.

INACINHA - Mas debaixo de que condições?

LEONARDA - Debaixo de todas, quaisquer que elas sejam.

INACINHA - Isso nunca.

LEONARDA - Tu não conheces os homens, Inacinha. Uma vez sujeitos ao nosso jugo, eles caminham até a humilhação; quebrado porém esse laço, alcançam sobre nós a força que lhes dá o sexo e então é-nos impossível reaver de um momento o terreno perdido. Fortunato e Luís quebraram de um modo tão violento as cadeias que os prendiam que hoje só nos restam dois alvitres: ou acabarmos os dias em uma viuvez prematura e inconsolável ou, perdoando-lhes as extravagâncias que cometeram, chamá-los de novo ao grêmio da família. Queres ficar viúva?

INACINHA - Oh! não.

LEONARDA - Então, façamos o sacrifício da nossa dignidade, convidando os dois monstros a voltarem para a casa.

INACINHA - E havemos de estar dovarante sujeitas aos seus caprichos?

LEONARDA - Que remédio! Representaremos durante algum tempo o papel de vítimas resignadas...

INACINHA E vocemecê se sente com forças para representar esse papel?

LEONARDA - Oh! mas depois... depois hastearemos em todo o fulgor o pavilhão do nosso primitivo domínio. (Dirigindo-se à mesa.)

INACINHA - O que vai fazer?

LEONARDA - Vou escrever ao barão. (Senta-se e escreve.)

 

CENA VIII

AS MESMAS e o BARÃO

 

BARÃO (À parte.) - Vejamos o que se passou. (Alto.) Minhas Senhoras.

LEONARDA - Chegou a propósito, senhor barão, livrando-me do trabalho de escrever-lhe uma carta.

INACINHA - Pode dizer a seus amigos que estamos resolvidas a recebê-los.

BARÃO - Ainda bem. Resta agora saber se eles estarão pelos autos. Como já lhes disse, minhas senhoras, o fim a que me propus vindo a esta casa foi explicar-lhes tão somente a desagradável ocorrência de ontem, na qual os seus maridos não tiveram a mais pequena parte.

LEONARDA - Já sabemos de tudo. Nós lhes concedemos o perdão, e pedimos a Vossa Excelência que o transmita de nossa parte.

BARÃO - Ora muito bem. Vou ver se consigo convencê-los. É preciso, porém, que Vossas Excelências portem-se com a maior brandura e delicadeza possíveis; qualquer coisinha é bastante para irritá-los e a menor palavra, o menor gesto poderão servir-lhes de pretexto para um rompimento perpétuo.

LEONARDA - Vá descansado, senhor barão.

INACINHA - Eu serei de ora em diante uma mártir.

BARÃO - Até já. (Sai.)

LEONARDA (Saindo com Inacinha pela esquerda.) - Sim, seremos mártires; mas quando eles menos pensarem havemos de hastear a bandeira do nosso primitivo domínio.

 

CENA IX

BARÃO, e depois LUÍS e FORTUNATO

 

BARÃO - Foram-se. (Dirigindo-se à porta do fundo.) Entrem. (Luís e Fortunato entram timidamente.) Trata-se de representar uma comédia. É preciso, portanto, que se compenetrem bem de seus papeis.

FORTUNATO - Estou com o coração do tamanho de uma pulga.

BARÃO (Para Fortunato.) - O senhor representa de marido furioso.

FORTUNATO - Mas se não está no meu gênero. Vou fazer fiasco com toda a certeza. Eu lhe conto o que me aconteceu uma vez. O senhor deve ter ouvido falar em uma célebre Dona Rita que vem ainda a ser parente longe..

BARÃO - Tá, tá, tá, meu caro, guarde essa história para depois. (Para Luís.) Em que diabo estás aí a pensar!

LUÍS - Considero, meu amigo, que aqui está a paz e a felicidade a despeito mesmo dessas pequenas tribulações que nos aguilhoam o espírito sem ferir-nos o coração. Em geral só avaliamos o bem quando dele nos vemos privados. Lá fora encontrei amores vendidos, mulheres que levantam seus tronos sobre ruínas, a hipocrisia nesses amigos de ocasião que me abraçavam, a febre do delírio por toda a parte. Aqui... está a família. Quero ver meu filho, barão.

BARÃO - Então o que é isto? Queres pregar moral? O teu papel é de marido atacado em sua dignidade.

LUÍS - Pois não basta a comédia que já representamos?

FORTUNATO - E que comédia!

BARÃO - Insensatos! A peça que representaram depende toda deste final. Vamos lá, mostrem-se artistas de força. (Para Fortunato.) O senhor arranja um ar carrancudo, sua fisionomia, seus gestos devem trair a coragem que lhe borbulha na alma. (Para Luís.) Tu deves afetar desprezo, indiferença e um certo ar de superioridade. Convençam-se, meus senhores, que deste epílogo depende o bom êxito da empresa.

FORTUNATO - E se o epílogo for um tapa-olho? (Inacinha e Leonarda espiam na porta.)

BARÃO (Baixo.) - Lá estão elas. Andem, não temos tempo a perder.

 

CENA X

OS MESMOS, INACINHA e LEONARDA (Espiando à porta.)

 

FORTUNATO (Gritando.) - Não se abusa assim impunemente da paciência de um homem, a paciência tem limites. Eu hei de tirar a limpo este desaforo. (Batendo com a bengala no chão.)

BARÃO (Baixo.) - Magnífico! Magnífico!

LUÍS - Mas que diabo viemos fazer aqui? Vamos embora, eu estava lá fora passando muito bem e esta vida não me quadra.

BARÃO - O que pretendem então os senhores? Querem continuar nesta vida de ócio e de pândega, abandonando duas mulheres honestas que os adoram? (Baixo.) Andem, andem, é preciso que as cenas sejam bem atacadas.

FORTUNATO - Esta bengala, não me há de sair das mãos. (Baixo.) Isto não é muito forte?

BARÃO - O senhor é um miserável. (Baixo a Fortunato.) Avance para mim.

FORTUNATO (Avançando.) - Senhor barão, não me faça perder-lhe o respeito.

LUÍS - Que maçada! Vamos embora.

BARÃO - Os senhores não sairão daqui. (Baixo.) Falem no negócio da mulata.

FORTUNATO - Vou falar no negócio da mulata.

BARÃO (Baixo.) - Não, não é assim.

FORTUNATO (Gritando.) - Não é assim.

BARÃO - Ora bolas!

FORTUNATO - Ora bolas! O negócio da mulata há de ser esmerilhado.

LEONARDA (Entrando.) - Fortunato! (Fortunato estremece e recua afetando depois coragem.)

INACINHA - Eu te perdôo, Luís.

LUÍS - E irrisório esse perdão, minha senhora. Só se perdoam os criminosos e a senhora vê que eu estou de fronte erguida.

FORTUNATO (A Leonarda.) - Peço-lhe, senhora, que repare também para o meu porte.

LEONARDA - Foste um ingrato para comigo. (Quer abraçá-lo, Fortunato recua com medo.)

FORTUNATO - Chegue-se para lá.

INACINHA (Para Luís.) - Esqueceste teu filho!

LUÍS - Sim, esse filho, a quem a senhora muitas vezes abandonou. (Para Fortunato.) Vamos embora. (Luís e Fortunato vão sair.)

INACINHA - Oh! não saias, Luís, eu te peço. (Chorando.) Queres me matar?

LEONARDA (À parte.) - Que humilhação!

BARÃO - Os senhores hão de ficar e continuarão a viver nesta casa, como bons maridos, ainda que para isso me veja obrigado a lançar mão dos meios os mais enérgicos.

FORTUNATO - Pois bem, ficamos; mas sob a condição de que havemos de assumir as rédeas do poder. Concordam?

LUÍS - Se não quiserem é o mesmo, voltamos para a boa vida.

INACINHA (Para Leonarda.) - Deixemo-lhes a força e esse poder aparente, minha mãe, nós os dominaremos pelo coração.

FORTUNATO - Concordam ou não?

LEONARDA - Sim.

BARÃO - Ora pois, abracem-se e sejam felizes. (Leonarda abraça Fortunato, Inacinha, Luís; para Luís.) Agora venha lá também um abraço. (Abraça Luís.) Já que estou condenado a findar os meus dias como celibatário, resta-me ao menos o grato consolo de ter contribuído para a tua felicidade que começa hoje.

 

CENA XI

FORTUNATO, LEONARDA, INACINHA, LUÍS, BARÃO, SANTA RITA e FELISBERTA

 

SANTA RITA (Entrando com Felisberta.) - Muito me contas, quem diria?

BARÃO (Vendo Santa Rita.) - Olá!

LEONARDA (Para o barão.) - Vão casar, já sabe?

BARÃO - Bravo! Eis o que se chama um dia cheio! Conciliação completa! (Batendo no ombro de Santa Rita.) Um conselho agora, meu capadócio.

SANTA RITA - Capadócio, não senhor, Santa Rita Gostoso dos Anjos para o servir.

BARÃO - Queres ouvir o conselho?

SANTA RITA - Sou todo ouvidos.

BARÃO - Trata de fazer entrar no caminho do bom viver esta inocente criatura com quem vais te ligar. Tiveste o exemplo em casa; aproveita-o.

SANTA RITA - Comigo está-se ninando. Vou entrar para o corpo de urbanos e no dia em que ela me sair fora do alinhamento tenho a polícia em casa.

FORTUNATO (A Leonarda, que abraça-o com força.) - Irra, senhora! Isto não vai a matar.

 

(Cai o pano.)

 

 

 

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística