Fonte: Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Carta do reverendíssimo padre João Paulo Oliva


Edição referência:

Sermões, Padre Antônio Vieira. Vol. XII. Erechim: Edelbra, 1998

CARTA DO REVERENDÍSSIMO PADRE JOÃO PAULO OLIVA,

Geral da Companhia, Pregador de quatro Sumos Pontífices, escrita ao Padre Antônio Vieira em resposta de outra que o dito Padre lhe escreveu, em ocasião em que saíram à luz seus Sermões.

MUITO Rdo. EM CRISTO PADRE,

Nesta carta de V. Reverência, escrita em oito de julho, igualmente enriquecida de amor filial para comigo, que sou seu pai já decrépito, que, empenhado na defensa de meus pueris comentários, bem declara V. Reverência a sua proteção para uma obra que, ao mesmo tempo em que eu tratava no sepulcro, que já me tem aberto os anos, suscitei a nova luz nas estampas de França, não depois de quatro dias, mas passados trinta anos de sepultura. Continue V. Reverência a sua acreditada diligência no amparo de umas tão medíocres obras, não pela estimação que eu posso ter, porque a não mereço, mas por que a pobreza de meus pensamentos não escureça na Companhia o esplendor de apostólica e sábia, que V. Reverência lhe deu. Este único escrúpulo, que o meu verdadeiro conhecimento me tem impresso no coração, de que esta obra possa servir de descrédito a uma religião tão douta, me inquieta o espírito, e me faz arrepender da fé que dei às persuasões com que a língua de V. Reverência tentou dar forma às minhas obras com os reflexos das suas, sendo incomunicável a excelência delas, porque Deus dotou a V. Reverência de um entendimento tão fecundo nas reflexões prodigiosas, como estéril de imitadores e sequazes. Com que, sendo V. Reverência reputado por fênix no conceito de quem prega e de quem escreve, nas mesmas chamas, em que V. Reverência imortaliza os seus livros, reduz a cinza os meus, que aos de V. Reverência são tão dessemelhantes; uma só nuvem pode encobrir os seus resplendores, e é que, tendo V. Reverência concebido unia infinidade de nobres idéias, comunica tão poucas aos leitores, que devoram quanto V. Reverência imprime, e estão lamentando o pouco que V. Reverência divulga. Faz crescer V. Reverência o apetite com o que dá, e atormenta os famintos com o que nega. Como corresponderá V. Reverência ao eterno Juiz na restituição dos talentos, se, tendo recebido tantos, apenas vemos um multiplicado? Não queira V. Reverência parecer um José, que, sendo senhor de copiosíssimas searas, reparte só poucas espigas, enchendo de fome a Palestina, quando o mesmo José, em que V. Reverência se representa, satisfez à de todo o Egito. Não há quem não aspire ao escolhido pão de seus elevadíssimos conceitos, e todos aqui me argúem o não violentar a V. Reverência a que alimente as almas, e a que eleve os espíritos com aquele maná em que se acham todos os sabores, mais dignos do gosto dos anjos que dos homens, e é impossível fermentar-se por quem não for arcanjo na inteligência e serafim no amor. Livre-me V. Reverência de tão ruidosas queixas, com dar ao mundo não só volumes, mas livrarias daquelas sutilezas, que não nascem nem se acham em outra parte, senão em V. Reverência.

Que (lira agora V. Reverência, vendo que eu de novo, em nome da Rainha de Suécia, o convido para voltar a Roma, em ordem a ouvir as confissões de Sua Majestade, e ser o seu único condutor para aquele reino, por que esta famosíssima princesa deixou tantos? Agora mais que nunca é V. Reverência desejado de uma senhora, que, por servir a Cristo, não quis reina, e que não tem em todo o mundo quem a exceda no sacrifício que foz a Deus, só para crer nele perfeitamente, e santamente o adorar Quando V. Reverência verdadeiramente se não possa expor aos incômodos de tão larga navegação, é V. Reverência obrigado a significar em carta, que se possa mostrar; quanto estima uma ordem tão gloriosa, e quanto se magoa de não poder ter a fortuna de obedecer-lhe, assim pelo que padece como pelo que padeceria na viagem, com evidente perigo de sua vida, entregando-se em um navio à fúria do vento e tormentas do mar, quando, dentro em um cubículo suficientemente acomodado, não pode resistir às suas enfermidades. Lembre-se V. Reverência de mim nos seus santos sacrifícios. Roma, 12 de setembro de 1680.

De Vossa Reverência servo em Cristo,

João Paulo Oliva

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística