LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

PERNAMBUCO

 

DESCREVE O POETA A CIDADE DO RECIFE EM PERNAMBUCO.

 

A CERTO POETA MODERNO QUE EM PERNAMBUCO LHE VEYO MOSTRAR HUM PASSO, QUE COMPUSERA, OBSEQUIO FEYTO EM NOME DE CERTA PESSOA, ONDE O POETA SE ACHAVA POR HOSPEDE.

 

DESCREVE A PROCISSÃO DE QUARTA FEYRA DE CINZA EM PERNAMBUCO.

 

FLORALVA E FLORÊNCIA

 

VIO O POETA ESTA FORMOSURA, E DESTA SORTE COMEÇA A ENCARECER SUAS ALTAS PRENDAS.

 

PASSANDO O POETA EM CERTA OCCASIÃO PELA PORTA DESTA GALHARDA DAMA REPAROU, QUE A SUA VISTA EXPUSERA NO PEYTO HUM RAMILHETE DE FLORES, QUE TINHA NA MÃO.

 

RESPONDE FLORALVA PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

TORNA O POETA A INSTAR SEGUNDA VEZ.

 

RESPONDE FLORALVA PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

TERCEYRO PIQUE À MESMA DAMA.

 

ATONITO E ABRAZADO O POETA NOS ESTRONDOS DAQUELLA FORMOSURA SEM ALCANÇAR OUTRA COUSA MAIS QUE DESVIOS, E DESDENS: TORNA A COMBATER QUARTA VEZ AQUELLE DURO PEYTO.

 

RESPONDE FLORALVA QUARTA VEZ E CADA VEZ MAIS DESDENHOSA: E PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

ARGUMENTA O POETA, (PHILOSOPHANDO ENGANOS) RAZÕES DE FINO COM PERSEVERAR A TODO O RIGOR DE SEU DESPRÊZO.

 

MOSTRA QUE PRIMEYRO DEVE ATENDER AO SEU RESPEYTO QUE AO SEU AMOR, PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

MOSTRA FINALMENTE MEYO PARA NO MESMO DESPREZO CONTINUAR O SEU AMOR COM DECORO, PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

RESPONDE FLORALVA SEM SE DESVIAR DO SEU THEMA: PELO MESMO CAPRICHO DE REPETIR OS CONSOANTES DO PRIMEIRO SONETO.

 

SEGUNDA RESPOSTA DE FLORALVA. PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

TERCEYRA RESPOSTA DE FLORALVA. PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

CONTINUA DESFAVORECIDO EM SEU AMOR, LEMBRANDO-SE AGORA DO SEU MISERO DESTERRO, NATURAL EFFEYTO DE HUA GRANDE PENA TRAZER À MEMORIA OS PASSADOS INFORTUNIOS.

 

REMETTE O SEU CUYDADO AS DELIGENCIAS DO TERREYRO LIZONGEANDO A MAY DESTA DAMA.

 

DE HUMA FESTIVIDADE PUBLICA ONDE A TODOS DAVA QUE SENTIR, SE AUSENTOU FLORALVA A DIVERTIR-SE NAS RIBEYRAS DO CAPIBARIBE, ONDE TINHA SEUS EMPREGOS.

 

SAUDOSO O POETA DAQUELLA AUSENCIA, QUE FEZ FLORALVA DA FESTIVIDADE, VAY MEDINDO ESTA OBRA PELAS IDEAS DE D. AUGOSTIN DE SALAZAR, Y TORRES, QUANDO DESCREVE A FORMOSURA DE SCYLLA, PORQUE TINHA ESTA DAMA TODAS AS SUAS PERFEYÇÕES ALI COMO PINTADAS AO VIVO.

 

COM ESTE ROMANCE MANDOU O POETA POR INTERPRETE ENCARECEDOR DO QUE NELLE SE EXPRESSA O SEGUINTE SONETO.

 

POR VER HUMA OBRA EM QUE O POETA EXAGERA OS DONAYRES DE ANNICA DE SOUZA MULATA EM PERNAMBUCO SE PICOU DE ZELOS FLORALVA, E DANDO LHO A ENTENDER, ELLE LHE RESPONDE.

 

DEYXOU-SE FLORALVA HUMA VEZ CONVERSAR DO POETA E PELA VER DESDENHOSISSIMA SE DESPEDE: E COMO ELLA CONSENTIO DESABRIDA, LHE FAZ ESTE SONETO.

 

LAMENTA O POETA OS DEVIOS, E RIGORES, QUE MOSTROU FLORALVA DAHI POR DIANTE.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PERNAMBUCO

 

Por entre o Beberibe e o Oceano
.......................................................................
Que o Belga edificou, ímpio tirano
As Damas cortesãs
.......................................................................
mas a culpa têm Vossas Reverências
pois as trazem rompidas, e escaladas
com cordões, com bentinhos, e indulgências

Quando os meus olhos mortais
ponho nos vossos divinos,
creio estar vendo os meninos
do Gregório de Morais.

 

 
 

DESCREVE O POETA A CIDADE DO REClFE EM PERNAMBUCO.

 

 

Por entre o Beberibe, e o Oceano
Em uma areia sáfia, e lagadiça
Jaz o Recife povoação mestiça,
Que o Belga edificou ímpio tirano.

 

O Povo é pouco, e muito pouco ufbano,
Que vive à mercê de uma lingüiça,
Unha-de-velha insípida enfermiça,
E camarões de charco em todo o ano.

 

As Damas cortesãs, e por rasgadas
Olhas podridas, são, e pestilências,
Elas com purgações, nunca purgadas.

 

Mas a culpa têm vossas reverências,
Pois as trazem rompidas, e escaladas
Com cordões, com bentinhos, e indulgências.
 

 

 

A CERTO POETA MODERNO QUE EM PERNAMBUCO LHE VEYO MOSTRAR HUM PASSO, QUE COMPUSERA, OBSEQUIO FEYTO EM NOME DE CERTA PESSOA, ONDE O POETA SE ACHAVA POR HOSPEDE.

 

O vosso Passo, Senhor,
premissas do que aprendestes,
a quem por título destes
os milagres de um favor:
quando o lestes ao Doutor,
vi, que estava tão atento,
que me veio ao pensamento,
que com tal tento o ouvia,
um Doutor da poesia,
porque era o passo um portento.

 

Acabado em conclusão,
e limado ao rigor d'arte
correrá por toda a parte
por obra de vossa mão:
por vosso o conhecerão
em todo o côncavo espaço,
porque só um real braço,
como o vosso vem a ser,
poderá hoje emprender
fazer, e acabar um passo.

 

 
 

DESCREVE A PROCISSÃO DE QUARTA FEYRA DE CINZA EM PERNAMBUCO.

 

Um negro magro em sufilié mui justo,
Dous azorragues de um Joá pendentes,
Barbado o Peres, mais dous penitentes,
Com asas seis crianças sem mais custo.

 

De vermelho o Mulato mais robusto,
Três meninos Fradinhos inocentes,
Dez, ou doze Brichotes mui agentes,
Vinte, ou trinta canelas de ombro onusto.

 

Sem débita reverência seis andores,
Um pendão de algodão tinto em tejuco,
Em fileira dez pares de Menores:

 

Atrás um negro, um cego, um Mamaluco,
Três lotes de rapazes gritadores,
É a Procissão de cinza em Pernambuco.
 

 

 

OS SEUS DOCES EMPREGOS
 

FLORALVA E FLORÊNCIA

 

Huma Dama, que em Pernambuco, foi soberano at-
-tractivo das melhores attenções. Desterrado, e abatido
remaneceu naquella terra o Doutor Gregorio de Mat--
tos, e não perdendo os brios de seu divertido genio,
galanteou esta Dama competindo nesta empreza com
pessoa generosa: cujo respeyto malogrou sempre os fer-
-vorosos excessos de seu cuydado. Foy esta Dama pro--
porcionadamente gentil, e sobre huma nevada cor teve
os mais vivos esmaltes da natureza com os olhos ne-
-gros e madeyxa de encrespados cabellos da mesma cor.

Manuel Pereira Rabelo, licenciado


 

ofertar-vo-lo de geolhos.

Como não fareis vós por tal respeito
favores, de que nunca me despido?

 

 
 

VIO O POETA ESTA FORMOSURA, E DESTA SORTE COMEÇA
A ENCARECER SUAS ALTAS PRENDAS.

 

 

Peregrina Florência Portuguesa,
Se em venda vos puser o Deus vendado,
Pouco estima o seu gosto, e seu cuidado,
Quem, Florência, por vós não der Veneza.

 

Eu entre a formosura, e a riqueza
De um, e outro domínio dilatado,
Não desejara estado por estado,
Mas trocara beleza por beleza.

 

Só, Florência, por vossa flor tão pura
Um reino inteiro, não uma cidade
Deve dar, quem saber amar procura.

 

Em vós do mundo admiro a majestade,
Quanto é mais que a grandeza a formosura,
Menos a monarquia, que a deidade.
 

 

 

PASSANDO O POETA EM CERTA OCCASIÃO PELA PORTA DESTA GALHARDA
DAMA REPAROU, QUE A SUA VISTA EXPUSERA NO PEYTO HUM RAMILHETE DE FLORES, QUE TINHA NA MÃO.

 

 

Flores na mão de uma flor,
Floralva, nunca tal vi,
quem viu flores pela neve?
quem viu neve por Abril?
Flor, que fala, flor, que zomba,
e de toda a flor se ri,
deve ser nevado nácar,
ou nacarado jesmim.
Na esfera do vosso peito
souberam ontem luzir
as fragrâncias raio a raio,
os raios rubi, a rubi.
No peito as flores pusestes,
e eu não posso conseguir
a dita de vossas flores,
que sou convosco infeliz.
Não vi tal tropel de luzes
em concurso de jesmins
vibravam fragrância os raios,
chispavam fogo os Abris.
Porém, lembra-te Floralva,
que eu não passo por aí,
porque a vossa flor me cheira,
a que não me heis de admitir.
Importa estares de acordo,
que se entro em vosso jardim,
por mais que me defendais,
hei de colher, quanto vir.
Já não colherei a flor,
porque não sou tão infeliz,
mas co cheiro me contento,
que é dádiva do Brasil.
 

 

 

RESPONDE FLORALVA PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

Quem me engrandece por flor,
muitos dias há, que vi,
sem fazer caso da neve
nem me dar cuidado Abril.
Eu sou flor, que fala, e zomba,
e flor que também se ri
já do acendido do nácar,
já do mais claro jesmim.
Cá na esfera do meu peito
hoje só sabem luzir
as finezas raio a raio,
o fino rubi a rubi.
Vós fostes, que a flor pusestes
no peito; e quem conseguir
pertendia flor com flores,
não se reputa infeliz.
Inda não vistes de luzes
tal tropel? nem de jesmim
tal fragrância? pois são raios
dos meus passados Abris.
Nada lembreis de Floralva,
que eu não passo por aí,
e esse cheiro, que vos cheiram
bem o podeis admitir.
Não há, que pôr-me de acordo
de entrar cá no meu jardim,
em que vós mo defendais,
não vos hei de deixar vir.
Por que aqui a colher flores
entra só, quem é feliz
e com ele me contento,
e nada mais do Brasil.

 

 
 

TORNA O POETA A INSTAR SEGUNDA VEZ.

 

Bela Floralva, se Amor
me fizera abelha um dia,
todo esse dia estaria
picado na vossa flor:
e quando o vosso rigor
quisestes dar-me de mão
por guardar a flor, então
tão abelhudo eu andara,
que em vós logo me vingara
com vos meter o ferrão.

 

Se eu fora a vosso vergel,
e na vossa flor picara,
um favo de mel formara
mais doce, que o mesmo mel:
mas como vós sois cruel,
e de natural castiço
deixais entrar no caniço
um Zangano comedor,
que vos rouba o mel, e a flor,
e a mim o vosso cortiço.

 

 
 

RESPONDE FLORALVA PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

 

Senhor Abelha, se Amor
fizesse abelhudo um dia,
sem dúvida, que estaria
doido à vista desta flor:
tal demasia, e rigor
merecia: mas de mão
quero dar-lhe, porque então,
quando eu rigorosa andara,
de outra sorte me vingara
do equívoco do ferrão.

 

Entrar cá no meu vergel
não presuma, e me picara,
se acaso disso formara
escrúpulos: e este mel
é, de quem menos cruel
me trata, Senhor Castiço,
porque cá no meu caniço
o Zangano comedor,
a quem dou o mel, e a flor
é o Senhor do cortiço.
 

 


 

TERCEYRO PIQUE À MESMA DAMA.

 

Não me farto de falar,
Floralva, em vossa flor bela,
e tanto hei de falar nela,
té que a hei de desfolhar:
que a fim de despinicar,
como fazem as mulheres
nos dourados malmequeres,
à roda a hei de despir,
até que venha a cair
a sorte no bem me queres.

 

Que coisas chega a dizer
em dois versos um Poeta.
e vós sendo tão discreta
não me acabais de entender:
porque possais perceber
outra vez direi o caso:
é pois, minha Flor, o prazo,
que torno a pedir aqui
não a flor, que já perdi,
senão a flor com seu vaso.

 

Forrai-me os largos espaços,
que dais ao vosso Matias,
pois sabeis, que há tantos dias,
morro por vossos pedaços:
os desejos já relassos
nos prova da vossa olha
se querem ver na bambolha,
e se achais, que a flor em preço
é coisa, que não mereço,
dai-me ao menos uma folha.
 

Dai-me já, o que quiseres,
dai-me o cheiro dessa flor,
que é o mais leve favor,
que no Brasil dão mulheres:
e se me não concederes,
que possa essa flor cheirar,
assim só de me matar,
façamos este partido,
pois me tirais um sentido,
dai-me já o de apalpar.
 

 

 

ATONITO E ABRAZADO O POETA NOS ESTRONDOS
DAQUELLA FORMOSURA SEM ALCANÇAR OUTRA COUSA
MAIS QUE DESVIOS, E DESDENS: TORNA A
COMBATER QUARTA VEZ AQUELLE DURO PEYTO.

 

Floralva: que desventura
vos foi causar o meu fado,
que sendo vosso criado,
vos mostrais cruel, e dura?
Olhai, que tal formosura,
tal donaire, e tão bons olhos
tudo se vira em abrolhos,
e eu perderei, quanto tenho,
sendo o meu maior empenho
ofertar-vo-lo de geolhos.

 

Quando vos vejo diente,
tenho grão contentamento,
porque vejo em um momento
a melhor luz do Oriente:
tendo-vos ali presente,
todo me estou gloriando
de ver, que mil mates dando
estais aos lírios, e rosas,
e que as flores de invejosas
de vos ver se vão murchando.

 

Amor, que assim se declara,
bem mostra, que está rendido,
e que empregou seu sentido
na vossa beleza rara:
e se certo não ficara
de ser bem remunerado,
morrera desesperado,
e nunca jamais amara,
antes de vós me queixara
como amante desgraçado.
 

 


 

RESPONDE FLORALVA QUARTA VEZ E CADA VEZ MAIS DESDENHOSA: E PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

Por glória, e não desventura
tenho ver em vós tal fado,
pois obrais mais que criado
com quem é no amor tão dura:
se vos rende a formosura
garbo, e luz, que têm meus olhos,
sofrei eternos abrolhos,
pois flores pisado tenho,
por mais que façam empenho
de se prostrar de geolhos.

 

E se por me ver diente
há em vós contentamento,
sabei, que só num momento
dou luz ao claro Oriente:
e que assistindo presente
de Febo me estou gloriando,
e luz aos mais astros dando
enchendo de brios as rosas,
tem seu mate as invejosas,
pois todas se vão murchando.

 

E se tanto se declara
vosso amor assim rendido,
eu me vejo sem sentido
de ver lisonja tão rara:
porque sei, que já ficara
vosso amor remunerado,
em querer desesperado
a outra, que tanto amara,
e nunca mais se queixara
chamando-se desgraçado.
 
  

 

 

ARGUMENTA O POETA, (PHILOSOPHANDO ENGANOS) RAZÕES DE FINO
COM PERSEVERAR A TODO O RIGOR DE SEU DESPRÊZO.

 

Já desprezei, sou hoje desprezado,
Despojo sou, de quem triunfo hei sido,
E agora nos desdéns de aborrecido
Desconto as ufanias de adorado.

 

O amor me incita a um perpétuo agrado,
O decoro me obriga a um justo olvido,
E não sei, no que emprendo, e no que lido,
Se triunfe o respeito, se o cuidado.

 

Porém vença o mais forte sentimento,
Perca o brio maior autoridade,
Que é menos o ludíbrio, que o tormento.

 

Quem quer, só do querer faça vaidade,
Que quem logra em amor entendimento,
Não tem outro capricho, que a vontade.

 

 
 

MOSTRA QUE PRIMEYRO DEVE ATENDER AO SEU RESPEYTO
QUE AO SEU AMOR, PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

Querido um tempo, agora desprezado,
Nada serei por muito, que haja sido,
Agora sinto o ver-me aborrecido,
Inda mais que estimei ver-me adorado.

 

Sem decoro não há manter agrado,
Se amo o desprezo, o pundonor olvido:
E nas grandes empresas sempre lido,
Que seja o brio objeto do cuidado.

 

Então só será justo o sentimento,
Se da perda nascer a autoridade,
Que onde injúria não há, não há tormento.

 

Manter respeito é honra, e não vaidade,
E a honra tem lugar no entendimento,
Que é potência mais nobre, que a vontade.

 

 
 

MOSTRA FINALMENTE MEYO PARA NO MESMO DESPREZO CONTINUAR
O SEU AMOR COM DECORO, PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

Ser decoroso amante, e desprezado
Fácil empresa em mim de amor há sido,
Pois não caminho sendo aborrecido
Atrás dos interesses do adorado.

 

Se não quer merecer o meu agrado,
Se a fé sustento, se o favor olvido,
O decoro mantenho, porque lido
Só pela propensão do meu cuidado.

 

Sendo tão fino enfim, meu sentimento
Não perco em adorar a autoridade,
Pois não é por lograr o meu tormento.

 

Logo pode o desprezo ser vaidade,
A quem com parecer do entendimento
Por prêmio não amar, mas por vontade.

 

 
 

RESPONDE FLORALVA SEM SE DESVIAR DO SEU THEMA: PELO MESMO
CAPRICHO DE REPETIR OS CONSOANTES DO PRIMEIRO SONETO.

 

Querida amei, prossigo desdenhada,
E de amor, e docoro combatida:
Me dá glória, e tormento uma ferida
Sentindo o golpe, festejando a espada.

 

Mas se de amor o empenho só me agrada,
Não olho, ao que o respeito me convida,
Pois se em saber amar esgoto a vida,
Em a honra perder, não perco nada.

 

Se o querer no desprezo é não ter brio,
Fora o deixar de amar não ter vontade,
E nada é mais em nós, que o alvedrio.

 

Cárcere a honra, o gosto imunidade:
Logo fora em mim cego desvario
Trocar pela prisão a liberdade.

 

 
 

SEGUNDA RESPOSTA DE FLORALVA.
PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

Amar não quero, quando desdenhada,
Da maior afeição sou combatida,
Que em mim podem fazer menos ferida
Do Amor as setas, que do brio a espada.

 

Com razão o respeito só me agrada,
E em vão o afeto a injúrias me convida,
Que se nos corações o amor é vida,
A vida nos desprezos não é nada.

 

Entre a isenção do gosto, e ser do brio
Deve ter mais impulsos a vontade
A favor da razão, que do alvedrio.

 

Mais glória alcança, mais imunidade
Em fazer do desprezo desvario,
Que em fazer da fineza liberdade.

 

 
 

TERCEYRA RESPOSTA DE FLORALVA.
PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

 

Que importa se amo, que ame desdenhada,
Se não sou de interesses combatida,
Pois vivendo sem custas da ferida
Mui embalde será crelar da espada.

 

Quando o servir sem prêmio só me agrada,
Que importa no rigor, que me convida,
Que do próprio morrer sustente a vida,
Se do muito querer não quero nada.

 

Na independência se conserve o brio,
Obre Amor seus efeitos na vontade,
E ambos ficarão com alvedrio.

 

Em tal amor, em tal imunidade
Não sirvo por lograr, que é desvario:
Mas amo por amar, que é liberdade.

 

 
 

CONTINUA DESFAVORECIDO EM SEU AMOR, LEMBRANDO-SE AGORA DO
SEU MISERO DESTERRO, NATURAL EFFEYTO DE HUA GRANDE PENA TRAZER
À MEMORIA OS PASSADOS INFORTUNIOS.

 

Que me queres, porfiado pensamento,
Arquiteto da minha alta loucura,
Invencível martírio, que me apura
Fatal presunção do sofrimento!

 

Que me queres, que dentro em um momento
Voas, corres, e tomas de andadura,
Até pôr-me na idéia a formosura,
Que é morte cor do meu contentamento!

 

Que queres a um ausente desterrado?
Que pois começa a morte na partida,
Por morto amor me julga, e me condena.

 

Se lá para viver sobrou cuidado,
E cá para morrer me sobra a vida,
Fantasma sou, que por Floralva pena.

 

 
 

REMETTE O SEU CUYDADO AS DELIGENCIAS DO TERREYRO
LIZONGEANDO A MAY DESTA DAMA.

 

Senhora Florenciana, isto me embaça
Contares vós de mim tantos agrados,
E estar eu vendo, que por meus pecados
Tenho para convosco pouca graça.

 

Em casa publicais, no lar, na praça
Que sou homem capaz de altos cuidados,
E nunca me ajudais cos negregados
Que tenho com Madama de Mombaça.

 

Eu não sei, como passo, ou como vivo
Na pouca confiança, que me destes,
Depois que fui de Amor aljava, ou crivo.

 

Porque por mais mercês, que me fizestes,
Jamais me recebestes por cativo,
Nem menos para genro me quisestes.

 

 
 

DE HUMA FESTIVIDADE PUBLICA ONDE A TODOS DAVA QUE SENTIR, SE
AUSENTOU FLORALVA A DIVERTIR-SE NAS RIBEYRAS DO CAPIBARIBE,
ONDE TINHA SEUS EMPREGOS.

 

Ausentou-se Floralva, e ocultou
A luz, com que nas festas assistiu,
Tudo em trevas na ausência confundiu,
Porque consigo todo o sol levou.

 

Dizem, que Amor de medo a retirou
Tão louco, que a si próprio se feriu,
Porque do ponto, que a Floralva viu,
Só pode persuadir-se, que cegou.

 

Por livrá-la na terra de olho mau,
Na região de Vênus a escondeu,
Ou em um rio, de que sabe o vau.

 

Oh quem fora por roubo assim do Céu
Ou Jasão embarcado numa Nau,
Ou atado a um penhasco Prometeu!

 

 
 

SAUDOSO O POETA DAQUELLA AUSENCIA, QUE FEZ FLORALVA DA
FESTIVIDADE, VAY MEDINDO ESTA OBRA PELAS IDEAS DE D. AUGOSTIN DE
SALAZAR, Y TORRES, QUANDO DESCREVE A FORMOSURA DE SCYLLA, PORQUE TINHA ESTA DAMA TODAS AS SUAS PERFEYÇOES ALI COMO PINTADAS AO VIVO.

 

Oh dos cerúleos abismos:
ouvi-me Deuses salobres,
que as deidades nunca faltam
ao triste clamor dos homens.
Ouve, divino Nereu,
escuta cândida Dores,
quanto contém de um amante
de mérito os seus clamores.
Que é isto, ingratas Deidades?
como os Deuses não respondem?
como em vós piedades faltam,
que vos distinguem dos homens?
Mas já em cândidas Coréias
o pélago as Ninfas rompem,
e os largos campos colmados
de tanto embrechado monte.
Já me atendeis piedosas
mil vezes, mil vezes, nobres
Filhos do mar, quanto devem
já a vossos pés minhas vozes.
Chegai, e a neve das plantas
a neve dos mares corte,
velozes andai, que tardam,
a quem espera, os velozes.
Sabei, Nereidas, e Ninfas;
oh quem para imensas dores.
para imenso mal tivera
imensas ativas vozes!
Sabei já, sagradas Ninfas,
que em vossos mares se esconde
uma Deidade tão bela,
que aos mesmos Deuses se encobre.
Uma beleza tão fera,
que aspira, a que se equivoquem
a formosura, a beleza,
as perfeições, os rigores.
Ontem foi vista entre as gentes,
e há dúvida desde entonces,
se é Anjo em traje de fera,
se é fera em forma de bronze.
É tal Floral, não sei, se o diga,
nem se de Humana tem nome;
é Floralva, e tenho dito,
ou perdoe, ou não perdoe.
Pintar-vos quero as feições
deste mármore, deste roble,
constantes como o seu tronco,
lindas como as suas flores.
Quando humana, e quando ociosa
as negras tranças descolhe
em pélagos de azeviche,
não há alma, que não soçobre.
Nas sobrancelhas Amor
traidoras armas esconde,
os olhos as julgam arcos,
mas sente-as a alma fulgores.
Ardor, e neve seu rosto
mistura em tintas conformes,
porque é tão divina, que
faz unir, o que é discorde.
Se as pérolas de seus dentes
não foram do dia alvores,
a Aurora faltara ao dia,
eterna seria a noite.
A boca é tão incendida,
que em um cravo se recolhe,
e parece ensangüentada,
que em lugar de abrir, a rompe.
Este assombro das Deidades,
esta admiração das orbes
por meu bem quis Deus, que a visse,
e Amor por meu mal, que a adore.
Mas sabei, que a meu afeto
tão ingrata corresponde,
que a seu natural ofendem
até seus mesmos louvores.
 
  

 

 

COM ESTE ROMANCE MANDOU O POETA POR INTERPRETE ENCARECEDOR
DO QUE NELLE SE EXPRESSA O SEGUINTE SONETO.

 

Entre, ó Floralva, assombros repetidos
É tal a pena, com que vivo ausente,
Que palavras a vós me não consente,
E só para sentir me dá sentidos.

 

Nos prantos, e nos ais enternecidos
Dizer não pode o peito o mal, que sente,
Pois vai confusa a queixa na corrente,
E mal articulada nos gemidos.

 

Se para o meu tormento conheceres
Não basta o sutil discurso vosso,
A dor me não permite outros poderes.

 

Vede nos prantos, e ais o meu destroço,
E entendei o mal, como quiseres,
Que só sei explicá-lo, como posso.

 

 
 

POR VER HUMA OBRA EM QUE O POETA EXAGERA OS DONAYRES DE ANNICA DE SOUZA MULATA EM PERNAMBUCO SE PICOU DE ZELOS FLORALVA, E DANDO LHO A ENTENDER, ELLE LHE RESPONDE

 

Dos vossos zelos presumo,
Floralva, que são mentira,
porque donde Amor não tira
flama, não levanta fumo:
anos há, que me consumo
por vós, por vossos bons feitos,
e vós por certos respeitos
desviastes-me os prefumes,
e agora nestes ciúmes
sem ver causa, vejo efeitos.

 

Se me não tendes amor,
como zelos me fingis?
não mos dais, e mos pedis,
dai ao demo tal favor:
que importa, que chame eu flor
a uma papoula silvestre,
se neste globo terrestre
o que importa, é lisonjeira,
e eu nas artes de enganar
penteio barbas de mestre.

 

Vós sois verdadeira flor
no trato, e no parecer,
e eu só o sei conhecer,
porque sou taful de amor:
se jogásseis com primor,
como outras tafuis fizeram,
nunca elas vos excederam,
que a mim na tafularia
da conjugal dameria
sempre os dados me perderam.

 

E ainda que em todo o mapa
me vejais tratar com flores,
Floralva, isso são amores,
que arranco da minha capa:
só vós sois dama de chapa,
só vos sois flor às direitas,
e para deixar desfeitas
essas vossas presunções,
sabei, que isso são sezões,
que passam como maleitas.
 
  

 

 

DEYXOU-SE FLORALVA HUMA VEZ CONVERSAR DO POETA E
PELA VER DESDENHOSISSIMA SE DESPEDE: E COMO ELLA
CONSENTIO DESABRIDA, LHE FAZ ESTE SONETO.

 

Tão depressa vos dais por despedida,
Que vista a varonil conformidade,
Me está dizendo vossa crueldade,
Que morríeis por ver-vos excluída.

 

Pois não seria ação mais comedida,
Demais cortês, e justa urbanidade
Fingir, que por amor, ou por piedade
Recusáveis a minha despedida?

 

O certo é, Floralva, que esse peito
Anda mui penetrado, e mui ferido
De outro amor, outra seta, outro sujeito.

 

E pois fiz tal serviço a tal Cupido,
Como não fazeis vós por tal respeito
Favores, de que nunca me despido?

 

 
 

LAMENTA O POETA OS DESVIOS, E RIGORES, QUE MOSTROU
FLORALVA DAHI POR DIANTE.

 

Chorai, tristes olhos meus,
que o chorar não é fraqueza,
quando Amor vos tiraniza,
os sentidos, e as potências.
Senti, pois tendes razão,
uma ausência tão violenta,
que a luz, meus olhos vos tira,
sem alma o corpo vos deixa.
Senti, coração, senti,
pois por vossa culpa mesma
emprendi um impossível
tão fácil em me dar penas.
Chorai, que chorais mui pouco,
se a causa se considera,
porque uma ausência chorais,
e heis de sentir uma quebra.
A ausência é um mal curável,
que com dois dias de pena
dá gosto ao terceiro dia,
vendo-se, o que se deseja.
A quebra é mal sem remédio,
pois se desata, e desfecha
aquela união das almas,
de que a vida se alimenta.
Eu hei de perder Floralva,
não porque ingrata me seja,
mas como vivo amanhã,
sou mofino, hei de perdê-la.
 

  

 

 

 

 

 

 

 

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