LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

 

OS SEUS DOCES EMPREGOS

 

ÀS RELIGIOSAS QUE EM HUMA FESTIVIDADE, QUE CELEBRÁRAM, LANÇÁRAM A VOAR VARlOS PASSARINHOS.

 

A D. MARTHA DE CHRISTO PRIMEYRA ABBADEÇA DO DESTERRO GALANTEA O POETA OBSEQUIOSAMENTE.

 

CELEBRA O POETA O CASO, QUE SUCCEDEU A HUA FREYRA DO MESMO CONVENTO A QUEM OUTRAS FREYRAS TRAVESSAS LHE MOLHARAM O TOUCADO, COM QUE PERTENDIA FALLAR À SUA AMANTE.

 

A D. CATHERINA PRELADA, QUE FOY NO MOSTEYRO DE ODIVELLAS, E AGORA PORTEYRA PEDE O POETA HUMA GRADE.

 

REPETIO O POETA A MESMA ROGATIVA DEPOIS DE ALGUM TEMPO.

 

NO DIA EM QUE O POETA EMPRENDEO GALANTEAR HUA FREYRA DO MESMO CONVENTO SE LHE PEGOU O FOGO NA CAMA, E INDO APAGAR-LO, QUEYMOU UMA MÃO.

 

QUEYXA-SE HUMA FREYRA DAQUELLA MESMA CASA, DE QUE SENDO VISTA HUA VEZ DO POETA, SE DESCUYDAVA-SE DE À TORNAR A VER.

 

A HUMA FREYRA QUE NAQUELLA CASA SE LHE APRESENTOU RICAMENTE VESTIDA, E COM UM REGALO DE MARTAS.

 

A OUTRA FREYRA, QUE SATYRIZANDO A DELGADA FIZIONOMIA DO POETA LHE CHAMOU PICAFLOR.

 

QUEYXA-SE O POETA DAS FUNDADORAS, QUE VIERAM DE EVORA, POR NÃO PODER CONSEGUIR ALGUM GALANTEYO NAQUELLA CASA, E SEREM SOMENTE ADMITTIDOS FRADES FRANCISCANOS.

 

REPETE A QUEYXA INCREPANDO AS CONFIANÇAS DE FR. THOMAZ D'APRESENTAÇÃO, QUE SE INTROMETTIA SOFREGAMENTE NAQUELLA CASA, ONDE O POETA JA TINHA ENTRADA COM D. MARIANNA, FREYRA, QUE BLAZONANDO SUAS ESQUIVANÇAS LHE HAVIA DITO, QUE SE CHAMAVA ORTIGA.

 

A MESMA FREYRA D. MARIANNA PELO MESMO CASO DE SE HAVER APPELLIDADO ORTIGA.

 

QUEYXA SE O POETA A MESMA FREYRA DE SUAS INGRATIDÕES DESPRIMOROSAS, IMITANDO A D. THOMAZ DE NORONHA EM HUM SONETO, QUE FEZ A CERTA FREYRA, QUE PRINCIPIA "SOROR DONA BARBARA".

 

À MESMA FREYRA JA DE TODO MODERADA DE SEUS ARRUFOS E CORRESPONDENDO AMANTE AO POETA.

 

À MESMA FREYRA EM OCCASIÃO, QUE O POETA À OUVIU CANTAR COM AQUELLA ESPECIAL GRAÇA QUE PARA ISSO TINHA.

 

À MESMA FREYRA MANDANDOLHE HUM PRESENTE DE DOCES.

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

A OUTRA FREYRA QUE ESTRANHOU AO POETA SATYRIZAR AO PE. DAMASO DA SYLVA, DIZENDOLHE QUE ERA HUM CLERIGO TAM BENEMERITO, QUE JA ELLA TINHA EMPRENHADO, E PARIDO DELLE.

 

A HUMA FREYRA QUE IMPEDIO A OUTRA MANDAR HUM VERMELHO AO POETA DE PRESENTE, DIZENDO, QUE À HAVIA SATYRIZAR.

 

A CERTA FREYRA QUE EM DIA DE TODOS OS SANTOS MANDOU A SEU AMANTE GRACIOSAMENTE POR PAM POR DEOS HUM CARÁ.

 

A OUTRA FREYRA QUE MANDOU AO POETA HUM CHOURIÇO DE SANGUE.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS SEUS DOCES EMPREGOS

 

A FREIRA: RALO, RODA E GRADE

 

No dia em que o Poeta emprendeo galantear uma Freyra

no mesmo convento se lhe pegou o fogo na cama.

 

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

 

Alto: vou- me meter Frade

na ordem de Fr. Tomás,

serei perpétuo lambaz

do ralo, da roda, e grade:

mamarei paternidade,

Deo gratias se me dará,

e apenas se me ouvirá

o estrondo do meu tamanco,

quando a Freira sobre o banco

no ralo me aguardará.

 

 

 

 

ÀS RELIGIOSAS QUE EM HUMA FESTIVIDADE, QUE CELEBRÁRAM, LANÇÁRAM A VOAR VARlOS PASSARINHOS.

 

 

Meninas, pois é verdade,

não falando por brinquinhos,

que hoje aos vossos passarinhos

se concede liberdade:

fazei-me nisto a vontade

de um passarinho me dar,

e não o deveis negar,

que espero não concedais,

pois é dia, em que deitais

passarinhos a voar.

 

 

 

 

A D. MARTHA DE CHRISTO PRIMEYRA ABBADEÇA DO DESTERRO GALANTEA O POETA OBSEQUIOSAMENTE.

 

 

Ilustríssima Abadessa,

generosa Dona Marta,

que inda que nunca vos vi,

vos conheço pela fama.

Um ludíbrio da fortuna,

epílogo de desgraças

se oferece a vossos pés,

para beijar-vos as plantas.

E bem, que a tão breve pé

sobra uma boca tamanha,

que mal me estará fazer-vos

as adorações sobradas.

Que dissera eu, se vos vira

a beleza dessa cara,

dos corações doce enleio,

suave encanto das almas?

Mas já que nunca vos vi,

por não ter dita tão alta,

a informação, que tirei,

para desejar-vos basta.

Vós sois, Senhora Abadessa,

fruto de tão nobre planta,

que se não nascêreis vós,

mal pudera outro imitá-la.

O que vos peço, é querer-vos

ou que me désseis palavra

de consentir, que vos queira,

que é dom, que não custa nada.

Eu sou um conimbricense

nascido nestas montanhas,

e sobre um ovo chocado

entre gemas, e entre clara.

Servi a Amor muitos anos,

e como sempre mal paga,

tenho a alma sabichona

já de muito escarmentada.

Não tenho medo de vós,

que não sois das namoradas,

dadas a mui pertendidas

pelo meio de falsárias.

Sois uma Freira mui linda,

bem nascida, e bem criada.

e o gabo não vos assuste,

que ninguém gorda vos chama.

A este pobre fradulário

dai qualquer favor por carta,

porque no tardar do prêmio

não perigue a esperança.

 

 

 

 

CELEBRA O POETA O CASO, QUE SUCCEDEU A HUA FREYRA DO MESMO CONVENTO A QUEM OUTRAS FREYRAS TRAVESSAS LHE MOLHARAM O TOUCADO, COM QUE PERTENDIA FALLAR À SUA AMANTE.

 

 

1    Pelo toucador, clamais,

      e em confusão me meteis,

      porque se enxuto o quereis

      como sobre ele chorais?

      quanto mais suspiros dais,

      novos extremos fazendo,

      vai vosso dano crescendo,

      e é mui mal esperdiçado

      sobre a perda do toucado

      andar pérolas perdendo:

 

 

2    Mas um peito lastimado,

      que tem em pouco essas sobras,

      dirá, pois chora por dobras,

      que o deixem chorar dobrado:

      ditoso o vosso toucado

      nas lágrimas, que chorastes,

      pois tão bem desempenhastes

      as vezes, que vos ornou,

      que se até aqui vos toucou,

      de pérolas o toucastes.

 

 

3    Porventura, Nise, achais,

      que mais bela a touca estava

      ao tempo, que vos toucava,

      do que agora a toucais?

      não vedes, não reparais,

      que aqueles vãos ornamentos

      umedecidos, e lentos

      de aljôfares derretidos,

      o que estão de mui caídos,

      isso têm de mais alentos?

 

 

4    Chorais com razão tão pouca,

      que estão todos murmurando,

      que andais as toucas lançando

      não mais que por uma touca

      se por Sílvio ides louca,

      porque arnante vos anele,

      e mais por vós se desvele,

      vinde à grade destoucada,

      e verá, que de empenhada

      botais as toucas por ele.

 

 

5    Inundais as escarlatas

      à guisa da bela aurora,

      como se mui novo fora,

      que nágua se banhem patas:

      se as Professas, ou Donatas,

      que as patas vos mergulhararn

      tanto a peça celebraram,

      zombai das suas invejas,

      não se gabem malfazejas,

      que de patas nos viraram.

 

 

 

 

A D. CATHERINA PRELADA, QUE FOY NO MOSTEYRO DE ODIVELLAS,   E AGORA PORTEYRA PEDE O POETA HUMA GRADE.

 

 

Parabém seja à vossa Senhoria

Ser da Chave dourada dessa glória,

Que há de dar-nos sem obra meritória

Por graça só da sua fidalguia.

 

Se, quando o céu monástico regia,

Deixou de seu juízo tal memória,

Quanto mais, que o reger, dará vã glória

Estar abrindo a glória cada dia.

 

Qualquer alma, que à glória se avizinha,

Contente aceita, alegre se acomoda

Com toda glória não: cuma casinha.

 

Não dê Vossenhoria a glória toda,

Mas bem vê, que à crueldade se encaminha,

Que, sendo Caterina, dê a roda.

 

 

 

 

REPETIO O POETA A MESMA ROGATIVA DEPOIS DE ALGUM TEMPO.

 

 

Minha Senhora Dona Caterina,

Posto que montam pouco os meus engodos,

Agora os junto, e os engrazo todos,

Chamando a minha Mãe minha Menina.

 

Já sabeis, que me faz fome canina

Lise, de cujos agradáveis modos

Não são para servir de seus apodos

Os astros dessa esfera cristalina.

 

Tratai de me fartar esta vontade

em uma grade, como em uma boda,

Que é pouco em cada mês uma só grade.

 

Pois toda a Mãe seus Filhos acomoda,

Adverti, que parece crueldade,

Que sendo Caterina deis a roda.

 

 

 

 

NO DIA EM QUE O POETA EMPRENDEO GALANTEAR HUA FREYRA DO MESMO CONVENTO SE LHE PEGOU O FOGO NA CAMA, E INDO APAGAR-LO, QUEYMOU UMA MÃO.

 

 

Ontem a amar-vos me dispus, e logo

Senti dentro de mim tão grande chama,

Que vendo arder-me na amorosa flama,

Tocou Amor na vossa cela o fogo.

 

Dormindo vós com todo o desafogo

Ao som do repicar saltais da cama,

E vendo arder uma alma, que vos ama,

Movida da piedade, e não do rogo

 

Fizestes aplicar ao fogo a neve

De uma mão branca, que livrar-se entende

Da chama, de quem foi despojo breve.

 

Mas ai! que se na neve Amor se acende,

Como de si esquecida a mão se atreve

A apagar, o que Amor na neve incende.

 

 

 

 

QUEYXA-SE HUMA FREYRA DAQUELLA MESMA CASA, DE QUE SENDO VISTA HUA VEZ DO POETA, SE DESCUYDAVA-SE DE À TORNAR A VER.

 

 

Quem a primeira vez chegou a ver-vos,

Nise, e logo se pôs a contemplar-vos,

Bem merece morrer por conversar-vos,

E não pode viver sem merecer-vos.

 

Não soube ver-vos bem, nem conhecer-vos

Aquele, que outra vez deseja olhar-vos,

Pois não caiu nos riscos de tratar-vos,

Quem quer, que lhe queirais por já querer-vos.

 

Essas luzes de amor ricas, e belas

Vê-las basta uma vez, para admirá-las,

Que vê-las outra vez, será ofendê-las.

 

E se por resumi-las, e contá-las,

Não se podem contar, Nise, as estrelas,

Nem menos à memória encomendá-las.

 

 

 

 

A HUMA FREYRA QUE NAQUELLA CASA SE LHE APRESENTOU RICAMENTE VESTIDA, E COM UM REGALO DE MARTAS.

 

 

De uma rústica pele, que antes dera

A um bruto monte, fez regalo Armida,

Por ser na fera a gala conhecida,

Como na condição já dantes era.

 

Menos que Armida já se considera

Ser a fera, pois perde a doce vida

Por Armida cruel: e esta homicida

Por vestir a fereza, despe a fera.

 

Se era negra, e feroz por natureza,

Com tal mão animada a pele goza

De um cordeirinho a mansidão, e a alvura.

 

Oh que tal é de Armida a mão formosa!

Que faz perder às feras a fereza,

E trocar-se a fealdade em formosura.

 

 

 

 

A OUTRA FREYRA, QUE SATYRIZANDO A DELGADA FIZIONOMIA DO POETA LHE CHAMOU PICAFLOR.

 

 

Se Pica-flor me chamais,

Pica-flor aceito ser,

mas resta agora saber,

se no nome, que me dais,

meteis a flor, que guardais

no passarinho melhor!

se me dais este favor,

sendo só de mim o Pica,

e o mais vosso, claro fica,

que fico então Pica-flor.

 

 

 

 

QUEYXA-SE O POETA DAS FUNDADORAS, QUE VIERAM DE EVORA, POR NÃO PODER CONSEGUIR ALGUM GALANTEYO NAQUELLA CASA, E SEREM SOMENTE ADMITTIDOS FRADES FRANCISCANOS.

 

 

1    Estamos na cristandade?

      Sofrer se há isto em Argel,

      que um convento tão novel

      deixe um leigo por um Frade?

      que na roda, ralo, ou grade

      Frades de bom, e mau jeito

      comam merenda e eito,

      e estejam a seu contento

      feitos papas do convento,

      porque andam co papo feito?

 

 

2    Se engordar a fradaria

      a esta cidade os trouxeram,

      melhor fora, que vieram,

      sustentar a Infantaria:

      que importa, que cada dia

      façam obras, casas fundem,

      se os Fradinhos as confundem

      por modo tão execrando,

      que quanto elas vão fundando,

      tudo os Frades lhes refundem.

 

 

 3    Pelo jeito, que isto leva,

       cuidam, que em Évora estão,

       onde de Inverno, e Verão

       se põem os marrões de ceva:

       nenhuma jamais se atreva

       sob pena de excomunhão

       a cevar o seu marrão,

       que se em tais calamidades

       me asseguram, que são Frades

       arto em cevá-los lhe irão.

 

 

 4    Sirvam-se do secular,

       que ali está o garbo, o asseio,

       o primor, o galanteio,

       a boa graça, o bom ar:

       a este lhe hão de falar

       à grade, ao pátio, ao terreiro,

       que o secular todo é cheiro,

       e o Frade a mui limpo ser,

       sempre há de vir a feder

       ao cepo de um Pasteleiro.

 

 

 5    Em chegando à grade um Frade

       sem mais carinho, nem graça,

       o braço logo arregaça,

       e o trespassa pela grade:

       e é tal a qualidade

       de qualquer Frade faminto,

       que em um átomo sucinto

       se vê a freira coitada

       como um figo apolegada,

       e molhada como um pinto.

 

 

 6    O secular entendido,

       encolhido e mesurado

       não pede de envergonhado,

       não toma de comedido:

       cortesmente de advertido,

       e de humilde cortesão

       declara a sua afeição,

       e como se agravo fora,

       chama-lhe sua Senhora,

       chama-lhe, e pede perdão.

 

 

 7    Mas o Frade malcriado,

       o vilão, o malhadeiro

       nos modos é mui grosseiro,

       nos gostos mui depravado:

       brama, qual lobo esfaimado,

       porque a Freira se destape,

       e quer, porque nada escape,

       levar logo a causa ao cabo,

       e fede como o diabo

       ao budum do trape-zape.

 

 

 8    Portanto eu vos admoesto,

       que o mimo, o regalo, o doce

       o secular vo-lo almoce,

       que a um Frade basta um cabresto:

       toda Freira de bom gesto

       se entregue em toda a maneira

       a um leigo, que bem lhe queira,

       e faltando ao que lhe pedem,

       praza a Deus, que se lhe azedem

       os doces na cantareira.

 

 

 

 

REPETE A QUEYXA INCREPANDO AS CONFIANÇAS DE FR. THOMAZ D'APRESENTAÇÃO, QUE SE INTROMETTIA SOFREGAMENTE NAQUELLA CASA, ONDE O POETA JA TINHA ENTRADA COM D. MARIANNA, FREYRA, QUE BLAZONANDO SUAS ESQUIVANÇAS LHE HAVIA DITO, QUE SE CHAMAVA ORTIGA.

 

 

1    Nenhuma Freira me quer

      de quantas tem o Desterro,

      porque todas são do ferro

      de Fr. Burro de Almister:

      que me dá do seu querer,

      se eu também nenhuma quero:

      mas o rostinho severo

      de Soror Madama Urtiga,

      porque me há de dar fadiga,

      se tão rendido o venero.

 

 

 2    Que tem Freirinhas tão belas

       cos pobres dos seculares,

       que a todos lançam azares,

       e nunca a sorte cai nelas:

       deve de vir das estrelas

       de algum signo peçonhento,

       que abaixo do firmamento,

       onde jaz o Escorpião,

       lhos influi um Fradalhão,

       que lhes domina o convento.

 

 

  3    Alto: vou-me meter Frade

        na ordem de Fr. Tomás,

        serei perpétuo lambaz

        do ralo, da roda, e grade:

        mamarei paternidade,

        Deo gratias se me dará,

        e apenas se me ouvirá

        o estrondo do meu tamanco,

        quando a Freira sobre o banco

        no ralo me aguardará.

 

 

4    Daí para a grade iremos,

      e apenas terei entrado,

      quando o braço arregaçado

      aos ofícios nos poremos:

      e quando nos não cheguemos

      (porque o não consentirá

      a grade, que longe está)

      o seu, e o meu coração,

      porque vá de mão em mão,

      irá na barca da pá.

 

 

5    Pela pá irá o meu zás,

      e o seu pela pá virá,

      e à força de tanta pá

      viveremos sempre em paz:

      serei o maior mangaz,

      que passou de leigo a demo,

      e a Frade, que é mor extremo,

      e será por meu sojorno

      a pá para ela de forno,

      e pá para mim de remo.

 

 

 6    Então me virá buscar

       a Senhora Dona Urtiga,

       Deo gratias, meu Fr. Fustiga,

       Deo gratias Sor Rosalgar:

       então me hei de pôr a olhar,

       e tão grave me hei de pôr,

       que quando me diga Amor,

       esta é a Freira, que dei,

       dir-lhe-ei, já me purguei,

       e evacuei esse humor.

 

 

 7    A fé Soror Mariana,

       que tanto me hei de vingar,

       que eu mesmo hei de perguntar

       pela Freira soberana:

       e há de dizer vossa Mana

       (digo Soror Florencinha)

       Senhor Doutor, esta é minha

       Irmã, a quem você quis,

       e hei de dizer-lhe, mentis,

       que esta é uma coitadinha.

 

 

 8    Não sabeis, Soror Florença

       não sabeis diferençar

       um Frade de um secular?

       pois é esta a diferença:

       tendo o leigo a capa imensa

       como homem racional

       nada lhe parece mal,

       toda a Freira é uma flor:

       mas em sendo Frei Fedor,

       a melhor é um cardal.

 

 

 

 

A MESMA FREYRA D. MARIANNA PELO MESMO CASO DE SE HAVER APPELLIDADO ORTIGA.

 

 

1    Como vos hei de abrandar,

      se dizeis, que sois Urtiga

      salvo se vos açoutar,

      porque então heis de ficar

      mais branda que uma bexiga.

 

 

2    Outro remédio melhor

      sei eu para a formosura,

      que faz gala do rigor,

      e é não a querer, que amor

      se vê, que vos faz mais aura.

 

 

 3    Mas se isto de não querer-vos,

       a dureza há de abrandar-vos,

       sempre hei de vir a perder-vos,

       que o mesmo é morrer de ver-vos,

       que morrer de não falar vos.

 

 

 4    Com que a cura de meu mal

       é amar, calar, sofrer

       que quando o mal é mortal,

       se à vida é prejudicial,

       será remédio o morrer.

 

 

 5    Eu morro de vos querer,

       e tanto em morrer persisto,

       que podereis vos fazer,

       que não ficasse malquisto

       o venturão de vos ver.

 

 

 6    Pois sabida a minha morte,

       e a sua causa sabida,

       fugindo vós de corrida,

       todos terão por má sorte

       ver-vos, e perder a vida.

 

 

 7    Mas eu, que do mal de amor

       faço tanta estimação,

       não hei de queixar-me não

       de tão formoso rigor,

       nem de tão bela afeição.

 

 

 8    Antes morte tão luzida

       com tal gosto a ela corro,

       que temo, minha homicida,

       que me torne dar a vida

       o prazer, com que me morro.

 

 

 

 

QUEYXA SE O POETA A MESMA FREYRA DE SUAS INGRATIDÕES DESPRIMOROSAS, IMITANDO A D. THOMAZ DE NORONHA EM HUM SONETO, QUE FEZ A CERTA FREYRA, QUE PRINCIPIA "SOROR DONA BARBARA".

 

 

Senhora Mariana, em que vos pes,

Haveis de me pagar por esta cruz,

Porque nisto de cornos nunca os pus,

E sei, que me pusestes mais de três.

 

Não sei, quem vos tentou, ou quem vos fez

Cruel, que rigor tanto em vós produz,

Pois convosco não val, e em mim não luz

Fé de Tudesco, e amor de Português.

 

Se contra vós algum delito fiz,

Que do vosso favor fora me traz,

Vós não podeis ser Parte, e mais Juiz.

 

Não queirais dar contudo a trasbarrás,

Nem vos façais de mim xarrisbarris,

Que me armeis por diante, e por detrás.

 

 

 

 

À MESMA FREYRA JA DE TODO MODERADA DE SEUS ARRUFOS E CORRESPONDENDO AMANTE AO POETA.

 

 

A bela composição

dos dous nomes, que lograis,

bem explica, o que cifrais

nessa rara perfeição:

porque sendo em conclusão

por Maria Mar, e sendo

Graças por Ana, já entendo,

que quem logra a sorte ufana

de estar vendo a Mariana

um mar de graça está vendo.

 

 

 

 

À MESMA FREYRA EM OCCASIÃO, QUE O POETA À OUVIU CANTAR COM AQUELLA ESPECIAL GRAÇA QUE PARA ISSO TINHA.

 

 

Oh quem de uma Águia elevada

tIvera uma pena! eu creio,

que só então com fortuna

descrevera a sol tão belo.

Porém se tenho de Fênix

as penas dentro em meu peito

pelo abrasado, em que vivo

sejam chamas, quanto escrevo.

Mas não: sejam lavaredas

à vista desse luzeiro,

que a vista de sol tão claro

escurece um vivo incêndio.

Contudo se o desafogo

se permite a todo o peito,

por não estalar esta alma,

coragão, desabafemos.

Convosco falo, Senhora,

de minhas atenções centro,

que a voz de um vale humilhado

também chega ao monte excelso

Recebi o sacrifício

de um profundo rendimento,

que as Deidades soberanas

aceitam toscos obséquios.

Não culpeis esta ousadia,

nem crimineis tanto excesso

que o destino de alta estrela

me influi um amante excesso.

Vi esse pasmo, que adoro,

ouvi a voz, que venero,

de ver fiquei sem sentido,

e de ouvir sem pensamentos.

Por ouvir fico enlevado,

e por ver fico suspenso,

se o ver me prendeu o corpo,

o ouvir a alma me tem preso.

Um pasmo de formosura

do corpo é somente enleio,

e a voz mais doce, e canora

é só d'alma firme emprego.

Mas ser cantora suave,

e ser gentil com portento

é ser labirinto, e pasmo

d'alma, e corpo ao mesmo tempo.

Porém se em laços tão doces

for eterno prisioneiro,

não terão prêmio mais alto

meus firmíssimos intentos.

No nome sois mar de graça,

de prendas sois mar imenso,

não permitais, que naufrague

meu arnor sem ter remédio.

Concedei-me um mar bonança,

porto seguro, e sereno,

que a esperança de servir-vos

é âncora de querer-vos.

Na firmeza sou penhasco,

mas pronto a qualquer aceno,

por isso as ondas mais brandas

desse mar serei ligeiro.

O vento do vosso agrado

sopra sobre mim preceitos,

serei baixel, que obediente

voe como um pensamento.

Seguirei o vosso norte,

e por navegar direito,

só esse sol seja o astro,

que eu observe com empenho.

Não haverá tempestade,

por brabo que sopre o vento,

que obrigue a mudar de rumo,

quando em vosso mar navego.

Venham pois de vossas luzes

os mais brilhantes reflexos,

porque possa encher a altura

da viagem dos afetos.

Mandai, que a vossa presença

chegar possa a salvamento,

pois ao mar dessas ternuras

com vento em popa navego.

 

 

 

 

À MESMA FREYRA MANDANDOLHE HUM PRESENTE DE DOCES.

 

 

1    Um doce, que alimpa a tosse,

      cousa muito grande era,

      se eu não trocara, e pudera

      a doçura pelo doce:

      se quisera Amor, que eu fosse

      tão digno, e tal me fizera,

      que juntos vos merecera

      ora o doce, a doçura ora,

      maldita a minha alma fora,

      se tudo vos não comera.

 

 

 2    Mas há grande distinção.

       e discrímen temerário

       entre os doces de um almário,

       e as doçuras de uma mão:

       e quem é tão sabichão

       destro no ré mi fá sol

       mal pode errar, em seu prol,

       quando sabe, que a doçura

       se se come, é por natura,

       e os mais doces por bemol.

 

 

3    O que enfim venho a dizer,

      é, que se à minha ventura

      negais comer da doçura,

      doces não hei de comer:

      não hei de troca fazer,

      mais que a palos me moais,

      e se comigo apertais,

      que os vossos doces almoce,

      é fazer-me a boca doce,

      quando a mim é por demais.

 

 

 4    Trocai o doce em favor,

       e curai meu mal tão grave

       co'aquela ambrósia suave,

       com que foi criado o Amor:

       o néctar será melhor,

       que destilam vossas flores,

       que são tão secos favores

       são de amor efeitos pecos,

       tão mais são amores secos,

       como são secos amores.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

Senhora minha: se de tais clausuras

Tantos doces mandais a uma formiga,

Que esperais vós agora, que vos diga,

Se não forem muchisimas doçuras.

 

Eu esperei de amor outras venturas:

Mas ei-lo vai, tudo o que é de amor, obriga,

Ou já seja favor, ou uma figa,

Da vossa mão são tudo ambrósias puras.

 

O vosso doce a todos diz, comei-me,

De cheiroso, perfeito, e asseado,

E eu por gosto lhe dar, comi, e fartei-me.

 

Em este se acabando, irá recado,

E se vos parecer glutão, sofrei-me,

Enquanto vos não peço outro bocado.

 

 

 

 

A OUTRA FREYRA QUE ESTRANHOU AO POETA SATYRIZAR AO PE. DAMASO DA SYLVA, DIZENDOLHE QUE ERA HUM CLERIGO TAM BENEMERITO, QUE JA ELLA TINHA EMPRENHADO, E PARIDO DELLE.

 

 

Confessa Sor Madama de Jesus,

Que tal ficou de um tal Xesmeninês,

Que indo-se os meses, e chegando o mês,

Parira enfim de um Cônego Abestruz.

 

Diz, que um Xisgaravis deitara à luz

Morgado de um Presbítero montês,

Cara frisona, garras de Irlandês

Com boca de cagueiro de alcatruz.

 

Dou, que nascesse o tal Xisgaravis,

Que o parisse uma Freira: vade in paz,

Mas que o gerasse o Senhor Padre! arroz

 

Verdade pois o coração me diz,

Que o Filho foi sem dúvida algum trás,

Para as barbas do Pai, onde se pôs.

 

 

 

 

A HUMA FREYRA QUE IMPEDIO A OUTRA MANDAR HUM VERMELHO AO POETA DE PRESENTE, DIZENDO, QUE À HAVIA SATYRIZAR.

 

 

1    Ó vós, quem quer que sejais,

      que nem o nome vos sei,

      Freira, a quem nunca falei,

      e tão mal de mim falais:

      porque à fome me matais,

      sem vos dar motivo algum?

      pois querendo mandar-me um

      vermelho uma Freira guapa,

      vós me destes sem ser paga

      esse dia de jejum.

 

 

 2    Não quisestes porfiosa,

       que se me mandasse o peixe,

       formando para isso um feixe

       de razões de bem má prosa:

       a Freirinha era medrosa,

       e vós, que o peixe intentastes

       livrar de tantos contrastes,

       de sátiro me arguístes,

       e satírica não vistes,

       que então me satirizastes.

 

 

 3    Sendo o conselho tão tosco,

       tão bem a Freira o tomou,

       que o peixe me não mandou,

       por não se espinhar convosco:

       mas vós que tendes conosco,

       comigo, e minha talia?

       e se o peixe vos doía,

       em que eu agora me escaldo,

       se o fazíeis pelo caldo,

       o caldo eu vo-lo daria.

 

 

 4    Oh: faz a um cuspir no chão

       uma sátira o Doutor:

       satiriza um Pica-flor,

       quanto mais a um peixarrão:

       homem de tal condição

       não se lhe dá de comer,

       e tem pouco que entender,

       que o Doutor já fraco, e velho

       se há de comer o vermelho

       por força o há de morder.

 

 

 5    Pois destes tão mal conselho,

       rogo ao demo, que vos tome,

       por deixar morrer à fome

       um pobre faminto velho:

       rogo ao demo, que ao seu relho

       vos prenda com força tanta,

       que nunca arredeis a planta,

       e que a espinha muita, ou pouca,

       que me tirastes da boca,

       se vos crave na garganta.

 

 

 6    Assim como isto é verdade,

       que pelo vosso conselho

       perdi eu o meu vermelho,

       percai vós a virgindade:

       que vo-la arrebate um frade;

       mas isto que praga é?

       praza ao demo, que um cobé

       vos plante tal mangará,

       que parais um Paiaiá,

       mais negro do que um Guiné.

 

 

 

 

A CERTA FREYRA QUE EM DIA DE TODOS OS SANTOS MANDOU A SEU AMANTE GRACIOSAMENTE POR PAM POR DEOS HUM CARÁ.

 

 

1    No dia. em que a Igreja dá

      pão por Deus à cristandade,

      tenho por má caridade

      dares vós, Freira, um cará:

      se foi remoque, oxalá,

      que vos dêem a mesma esmola,

      que não há mulher tão tola,

      que por mais honesta, e grave,

      não queira levar o cabe,

      se pôs descoberta a bola.

 

 

2    Descobristes a intenção,

      e o desejo revelastes,

      quando o cará encaixastes,

      a quem vos pedia o pão:

      como quem diz: meu Irmão,

      se quem toma, se obrigou

      a pagar, o que tomou,

      vós obrigado a pagar-me,

      ficais ensinado a dar-me

      o cará, que vos eu dou.

 

 

 

 3    Levado desta seqüela

       promete o mancebo já

       de dar-vos o seu cará,

       porque fique ela por ela:

       se consiste a vossa estrela

       em dar, o que heis de tomar,

       cará não há de faltar,

       porque o Moço não repara

       em levar a cópia, para

       o original vos tornar.

 

 

 4    Se assim for, que assim será,

       fareis um negócio raro,

       porque um cará não é caro

       se por um outro se dá:

       e pois o quer pagar já

       sem detença, e com cuidado,

       se o quereis ver bem pagado,

       há de ser com tal partido,

       que por um cará cozido

       leveis o meu, que anda assado.

 

 

 5    Vós pois me haveis de dizer

       (assentado este negócio)

       se quereis fazer socrócio,

       porque comigo há de ser:

       de carás heis de cozer

       uma boa caldeirada,

       e de toda esta tachada

       tal conserva heis de tomar,

       que vos venhais a pagar

       do cará co caralhada.

 

 

 

 

A OUTRA FREYRA QUE MANDOU AO POETA HUM CHOURIÇO DE SANGUE.

 

 

  1    Conta-se pelos corrilhos

      que o Pelicano às titelas

      sustenta como morcelas

      a puro sangue a seus filhos:

      vós, Dona Fábia Carrilhos,

      se bem cuido, e não me engano,

      deveis de ser Pelicano,

      que enchestes este chouriço

      com o sangue alagadiço

      desse pássaro magano.

 

 

 2    Com que este chouriço gordo,

       tão gordo, e especiado

       um filho vosso é criado

       co sangue do vosso tordo:

       porém tomou mau acordo,

       quem quer que o empapelou,

       e a dar-mo vos obrigou,

       pois não tem caminho enfim,

       mandares-me o filho a mim,

       que outro Pai vos encaixou.

 

 

 3    O que me dita o toutiço,

       é, que o paio se mediu;

       e por onde este saiu,

       pode entrar qualquer chouriço:

       direis, que vos não dá disso,

       e eu creio, se vos não dá,

       mas alguém vo-lo dará,

       e que fora o meu quisera,

       porque se fartara, e enchera

       do sangue, que vai por lá.

 

 

  4    Comi o chouriço cozido

        com sossego, e sem empenho,

        porque outro chouriço tenho

        para pagar o comido:

        vós tendes melhor partido,

        mais liberal, e mais franco,

        pois como em real estanco

        tal seguro vos prometo,

        que por um chouriço preto

        heis de levar o meu branco.

 

 

 5    Sobre vos aventejar

       nas cores desta trocada,

       vós destes-me uma talhada,

       e eu todo vo-lo hei de dar:

       se cuidais de mo cortar,

       ele é duro de maneira

       que a faca mais cortadeira

       não fará cousa, que importa,

       que o meu chouriço o não corta,

       salvo um remoque de Freira.

 

 

 6    Eu o dou por bem cortado

       deste primeiro remoque,

       que ao vosso mais leve toque

       fique de todo esgorado:

       então o vosso cuidado

       vendo, que tanto me emborco,

       e inda assim vos não emporco,

       terá por cousa do Olimpo,

       que a tripa de um homem limpo

       se dê por tripa de porco.

 

 

 7    Muito me soube atalhada

       do chouriço inda que preto,

       e a ser todo vos prometo,

       que a ceia fora dobrada:

       mas fora mais acertada

       cousa, e de menos trabalho

       que dando-vos nisto um talho,

       uma lingüiça vos cangue,

       que o chouriço coalha o sangue,

       e a lingüiça leva o alho.

 

 

 8    Eu sou tão bom conselheiro,

       que heis de escolher, o que digo,

       porque quem fala comigo,

       escolhe em um tabuleiro:

       se vos for mais lisonjeiro

       o chouriço, que a lingüiça,

       dou gosto, e faço justiça:

       mas bem sabe quem se abrocha,

       que o chouriço a boca atocha,

       e a lingüiça o fogo atiça.

 

 

 

 

 

 

 

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