LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

 

OS SEUS DOCES EMPREGOS

 

DIVERTIA-SE O POETA COM MARIA JOÃO, E PERSUADE AGORA A OUTRA CHAMADA MARIQUlTA, QUE À VENHA VISITAR SOMENTE POR TRAÇA DE A VER.

 

A MAY DE MARIA JOÃO CHAMADA IZABEL NÃO LEVAVA EM GOSTO AS AMIZADES DE SUA FILHA COM O POETA, OU SE TEMIA DE MARIQUITA, E OCCACIONANDO ENREDOS O POETA LHE CANTA A MOLIANA.

 

RETIRA-SE O POETA E DESCREVE POR CONSOANTES FORÇADOS DE QUE MANEYRA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS SEUS DOCES EMPREGOS

 

 

MARIA JOÃO

 

A May de Maria João chamada Izabel não levava em gosto as amizades de sua Filha com o Poeta.

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

 
 

As damas de toda a cor
Como tão pobre me vêem,
as mais lástima me têm,
as menos me têm amor

 

E a ceia se acabou, jantar, e almoço

 

 

 

DIVERTIA-SE O POETA COM MARIA JOÃO, E PERSUADE AGORA A OUTRA CHAMADA MARIQUlTA, QUE À VENHA VISITAR SOMENTE POR TRAÇA DE A VER.

 

 

1    Vossarcê senhora Quita,
      para quem ama, já tarda
      a uma dama galharda,
      que por você se esganita:
      e quem de saudades grita,
      e de tristeza emudece,
      sobre o pouco que merece,
      justifica o meu dizer,
      que você a quem bem lhe quer,
      foge, que desaparece.
 

2    Se não há lá uma canoa,
      poremos de cá uma prancha,
      e por falta irá a Lancha
      cos esteiros da camboa:
      Antonica venha à toa
      sobre um esteiro em castigo
      de ficar com seu amigo,
      e deixar de ver a Irmã,
      que da noite até a manhã
      te mói como o bom trigo.

 

 

 

 

A MAY DE MARIA JOÃO CHAMADA IZABEL NÃO LEVAVA EM GOSTO AS AMIZADES DE SUA FILHA COM O POETA, OU SE TEMIA DE MARIQUITA, E OCCACIONANDO ENREDOS O POETA LHE CANTA A MOLIANA.

 

 

1    Já que a puta Zabelona
      anda morta por me ouvir,
      eu lhe corto de vestir,
      que anda despida a putona:
      se eu disse, que a sua cona
      trazia a borda desfeita,
      já creio, que a tem perfeita,
      que estando dos eixos fora,
      quem nela bateu agora,
      agora lha pôs direita.
 

 

2    Em uma direita porta
      feita por bom capinteiro,
      quem nela bateu primeiro
      esse primeiro a entorta:
      mas depois de estar já torta,
      e depois que se entortou,
      o malho, que ali malhou,
      se malhar, e porfiar,
      ou a porta há de quebrar,
      ou o malho a endireitou.

 

 

 3    Tudo isto à Zabel se ajeita:
       a borda ia desvairada,
       deram-lhe tanta pancada,
       que isso mesmo a pôs direita
       e a Filha é moça escorreita,
       e basta, que o dissesse eu,
       mas como o mesmo correu,
       e os mesmos passos andou,
       se transes a Mãe passou,
       o mesmo lhe sucedeu.

 

 

 4    Se falam de Bibiana,
       tudo Bibiana fora,
       a preta é muito Senhora,
       mas branca, amorosa, humana:
       Maria é mui desumana,
       sacudida, e pespegada,
       e esta cansada jornada,
       que faz ao rio das pedras,
       se faz pelas suas medras
       sei que me deixa por nada.

 

 

 5    Por nada, e menos de nada,
       pois por um negro cueiro
       mui negro, e mni lamareiro
       se faz sua camarada:
       o Preto é porra tisnada
       mas sobre ser porra dura,
       é porra dura, que atura,
       o Branco mais lindo, e belo
       é porra de caramelo,
       desfaz-se na cozedura.

 

 

 6     O medo de vir à Ilha
        foi mui bem considerado,
        pretexto se dá ao pecado,
        da má Mãe nasce a má Filha:
        a mim, não me maravilha,
        que do Branco fuja a Preta;
        mas se a Mãe é tão discreta,
        como não lhe entra no peito,
        que aqui se me tem respeito,
        ou por branco, ou por poeta.

 

 

  7    Quem olhos levantaria
        para Maria João,
        vendo, que no coração
        trago a João, e a Maria?
        escusas de cada dia
        são sempre, as que dá uma puta,
        e por dar fim à disputa,
        vão embora por seu pé
        aos montes de Gelboé,
        que cá não me falta fruta.

 

 

 8    Siris nem moles, nem duros
       tocam a tão alta saia,
       que isto de ir servir à praia,
       são serviços de monturos:
       lavar serviços impuros,
       como é serviço do mar,
       isto mesmo é mariscar,
       e as negrinhas desta Ilha
       mariscam por maravilha
       só por nos maravilhar.

 

 

9    Se quis esses bons siris,
      que não lhes nego a bondade,
      bem sabe a minha vontade,
      que os há cá muito gentis:
      e se por lisonja o fiz,
      e os pedi por agradar,
      a quem tem gosto de os dar,
      agora me emendarei,
      e jamais os pedirei
      às Negras de mariscar.

 

 

10   Esta Maria João
      de conselhos bem guiada
      está bem aconselhada
      mas põe sempre a mão no chão:
      se os conselhos, que lhe dão,
      lhos dá, quem os há mister,
      triste da pobre mulher,
      que há de obrar pelo conselho
      do pobre cueiro velho,
      que não tem, o que há mister.
 

 

 

 

RETIRA-SE O POETA E DESCREVE POR CONSOANTES FORÇADOS DE QUE MANEYRA.

 

 

Depois de consoarmos um tramoço,
A noite se passou jogando a polha,
Arnanheceu, e pôs-se-nos a olha
De que não sobejou caldo, nem osso.
 

Reinou, por não ficar-lhe nada, o Moço,
De um berro, que lhe dei, fiz-lhe uma bolha,
Rasguei-lhe uma camisa ainda em folha,
E a ceia se acabou, jantar, e almoço.
 

O Moço tal se despediu por isso,
E eu fiquei a beber vinho sem gesso
Sobre ovos moles, que me pus um uço.
 

Neste tempo topei com amor e enguiço,
Tive com Antonica o meu tropeço,
E parti de carreira no meu ruço:

 

 

 

 

 

 

 

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