LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

 

OPÚSCULO DE PEDRO ALZ. DA NEYVA

 

SENTOU ESTE PRAÇA PARA SUBIR A CAPITÃO, NO TEMPO, EM QUE ERAM TRIENAIS: E SENDO NOMEADO PARA HUMA EXPEDIÇÃO MARITIMA, PROMETTEO DE ALVIÇARAS HUM CHAPEO, E OITO PATACAS, A QUEM O LIVRASSE.

 

LOUCURAS QUE FAZIA ÊSTE SUGEYTO COM HUM CAVALLO RUÇO, QUE LHE COMPROU O THIO: E MORTE DO MESMO CAVALLO.

 

ANNA MARIA ERA UMA DONZELLA NOBRE, E RICA, QUE VEIO DA INDIA SENDO SOLICITADA DOS MELHORES DA TERRA PARA DESPOSORIOS, EMPRENDEO FR. THOMAZ CASALLA COM O DITO, E O CONSEGUIO.

 

AO MESMO ASSUNTO.

 

CASADO, E RICO SE EMBARCOU PARA PORTUGAL A COMPRAR NOBREZA; E O POETA LHE FAZ AS DESPEDIDAS PROFETIZANDO, O QUE REALMENTE SUCCEDEO.

 

AO MESMO QUE CHEGANDO À BAHIA COM HÁBITO, E FORO FALSO ENTRA DESVANECIDAMENTE CONFIADO A TRATAR OS HOMENS NOBRES POR TERCEIRA PESSOA.

 

DEDICA HUM ESTUDANTE HUMAS CONCLUZÕES AO DITO COM O BRAZÃO DOS NEYVAS NA FAXADA: E IMPACIENTE O POETA DO DESAFORO ROMPE NESTAS QUEIXAS.

 

AO MESMO RETIRANDO-SE HOMIZIADO PARA O CARMO, POR TER NOTICIA DE HUM DECRETO, QUE VEYO DE SUA MAJESTADE AO DEZ.OR. ANTONIO RODRIGUES BANHA, PARA PRENDER, OS QUE HAVIÃO NA CIDADE COM HABITOS, E FOROS FALSOS.

 

AO MERGULHÃO CUNHADO DESTE SUGEYTO, QUE ENGANOU AO POETA COM HUMA PROPINA DE COBRE INDO TOMAR O GRAO DE LECENCIADO.

 

A HUMA DAMA QUE MANDOU PEDIR AO POETA O TESTAMENTO, QUE ELLE TINHA FEYTO AO CAVALLO DE PEDRALVES.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OPÚSCULO DE PEDRO ALZ. DA NEYVA

 

Casado e rico se embarcou para
Portugal a comprar nobreza.

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

 

E se o fumo da Bahia
a Pedro fidalgo fez,
fidalgo é da cheminez
dos Padres da companhia

 

 

 

 

SENTOU ESTE PRAÇA PARA SUBIR A CAPITÃO, NO TEMPO, EM QUE ERAM TRIENAIS: E SENDO NOMEADO PARA HUMA EXPEDIÇÃO MARITIMA, PROMETTEO DE ALVIÇARAS HUM CHAPEO, E OITO PATACAS, A QUEM

O LIVRASSE.

 
 

1    Deixais, Pedro, o ser chatim,
      por quererdes ser soldado,
      e quando sois nomeado
      dizeis, que não, e que sim:
      não fora melhor, rocim,
      conservar-vos charelete?
      quem a soldado vos mete?
      ide, não sejais magano,
      a despir d'El-Rei o pano,
      e metei-vos gurumete.
 

 

2   De alvíssaras um chapéu
     com oito patacas dais
     não vedes, que se ficais,
     heis de ser da mofa o réu?
     não conheceis isto, incréu?
     mas que pode conhecer
     um presumido sem ter
     mais honras, que a cabeleira,
     onde se estriba a poeira
     de seu vaníssimo ser.
 
 

 

 

LOUCURAS QUE FAZIA ÊSTE SUGEYTO COM HUM CAVALLO RUÇO, QUE LHE COMPROU O THIO: E MORTE DO MESMO CAVALLO.

 
 
  1    Pedralves não há alcançá-lo,
      porque se não cabe dele,
      se um cavalo tem a ele,
      ou se ele tem um cavalo:
      mandou o tio comprá-lo,
      por ver o seu Benjamim
      na charola do Rolim;
      mas tendo o rocim comprado,
      então ficou cavalgado
      o tio mais o rocim.

 

 

 

 2    E porque era o tal sendeiro
       um pouco acavaleirado,
       se lhe pôs casa de estado,
       dous pajens, e um escudeiro:
        item papel, e tinteiro,
        confessor, e capelão,
        donde veio ocasião,
        de todo o povo malvado
        dizer, que o ruço rodado
        morrera mui bom cristão.

 

 

  3    Pedralves tão grande asnia
        jura, e firma, que não disse,
        porém se era parvoíce,
        diria, mais que diria:
        que outros lhe ouviu a Bahia
        tão gordas, tão bem dispostas,
        que já à guitarra andam postas,
        donde chegam a julgá-lo
        mais besta, que o seu cavalo,
        por trazê-lo sempre às costas.

 

 

 4    Por não tomar algum vício
       ia ele, mais o rocim
       ao campo roer capim,
       fingindo, que ao exercício:
       por vê-lo em tão alto ofício
       ia com grande alvoroço
       a marotagem num troço,
       dizendo a puro intervalo,
       será homem de cavalo,
       quem foi de cavalo moço.

 

 

5    Uma tarde, em que corria,
      ei-lo pelas ancas vai;
      que muito, se também cai
      qualquer Santo no seu dia:
      foi tão grande a correria
      do rocim pelo escampado,
      que de um monte alcantilado
      rodou, por jogar de lombo,
      com que o ruço que era pombo,
      de então foi ruço rodado.

 

 

 6    Acudiu Pedro à burrada,
       e chegando ao arruído,
       vendo o cavalo caído,
       ficou solta desmaiada:
       mas a gente ali chegada
       lhe disse: ó Senhor Baulio,
       trunfe com valor, e brio,
       que se este perdido está,
       outro cavalo achará
       na baralha do seu tio.

 

 

 7    Ele então descendo a vala,
       e dando avante dous passos
       tomou o cavalo em braços,
       e fez-lhe esta branda fala:
       meu ruço, minha cavala,
       meu carinho, e meu amor
       pois fico em tão grande dor
       órfão tão desamparado,
       e morreis de mal curado,
       ordenai-me um curador.

 

 

 8    Testai consigo perene,
       que um testamento cerrado
       por vós, e por mim ditado
       por força há de ser solene:
       não queirais, que vos condene
       algum Platônico astuto,
       de que ao pagar do tributo
       (podendo com todo alinho
       falecer como um anjinho)
       acabastes como um bruto.

 

 

 9    O rocim, que era entendido
       pouco menos, que seu amo,
       em ouvindo este reclamo
       surgiu, dando um ai sentido:
       deu um, deu outro gemido,
       e depois de escoucinhar
       disse, inda estou de vagar,
       por mais que a morte não queira,
       que é acabar a carreira,
       não de carreira acabar.

 

 

 10    Isto disse o rocinante,
         e logo para o curar
         tratam de o desencovar
         um, e outro circunstante:
         com cordas, e cabrestante,
         e enxadas para cavá-lo;
         não podendo dar-lhe abalo,
         todo o trabalho se perde,
         porque era cavalo verde,
         sendo ruço o tal cavalo.

 

 

 11    Mas um Coadjutor bisonho
         disse, tal dono, tal gado,
         que o cavalo é tão pesado,
         como o dono é enfadonho:
         Pedralves como um medronho
         ficou, e já de afrontado
         desconfiou como honrado
         do Coadjutor malhadeiro,
         vendo estar o seu sendeiro
         de cura desconfiado.

 

 

12     Eis que com força, e arte
         a empuxões de cabrestante
         foi sacado o rocinante
         da barroca a outra parte:
         Pedralves num baluarte
         se pôs, e a gente deteve,
         dizendo em prática breve,
         vem-me alguém puxar a mim?
         pois é, que este meu rocim
         nem Deus quero, que mo leve.
 

 

13     Aqui o ruço há de jazer
         conforme o seu natural,
         que é filósofo moral,
         e no campo há de morrer:
         quem teve, que escarnecer!;
         e quem teve, que zombar!
         todos enfim a puxar
         deram todo aquele dia
         co ruço na estribaria,
         e trataram de curar.

 

 

14    Houve junta de alveitares,
        ou Médicos de jumentos
        carregados de instrumentos
        balestilhas, e azeares:
        item seringas a pares,
        ungüentos, mechas, e talos,
        e simples para formá-los
        tudo remédios inanes,
        porque só pós de Joanes
        é remédio de cavalos.

 

 

15    Curou-se enfim o Frisão
        pelos mais exprimentados
        homens bem intencionados
        pela primeira intenção:
        mas sobrevindo um febrão
        de implicadas qualidades,
        em tantas calamidades
        quis Deus, que não lhe aproveite
        nem das Brotas o azeite,
        nem o vinagre dos Frades.

 

 

16    Pedralves num acidente
        fiado em seu privilégio
        mandou pedir ao Colégio
        um osso do Sol do Oriente:
        mas sendo ao Reitor presente
        a casta do agonizante,
        dizei (disse) a esse bargante,
        que o Santo a curar não presta
        o mal, que ele tem de besta,
        nem o do seu rocinante.

 

 

17    Com que o ruço a piorar,
        as Relíquias a não vir,
        Pedralves a se afligir,
        e seu tio a se enfadar:
        o dinheiro a se gastar,
        e a casa a se aborrecer,
        tanto veio a suceder,
        que com pesar não pequeno
        em chegando ao quatrozeno
        o ruço veio a morrer.

 

 

18    Assistir-lhe na agonia
        vieram, sem que uma manque,
        todas as bestas do tanque
        dos Padres da Companhia:
        e uma, que cantar sabia,
        uma lição lhe cantou,
        e quando ao verso chegou,
        onde diz: "andante me"
        estirou o ruço um pé,
        e dando um zurro acabou.

 

 

19    Ao tratar do enterramento
        houve alguma dilação,
        porque Pedralves então
        chorava como um jumento:
        mas aberto o testamento
        perante um, e outro ouvinte,
        se achou, que morrera aos vinte,
        e testara aos vinte e três
        de tal ano, e de tal mês,
        e que dizia o seguinte.

 

 

20    Meu corpo vá amortalhado
        no hábito de cacoetes,
        que tem meu amo entre asnetes
        de falar agongorado:
        não o coma adro sagrado,
        que um monturo bastará,
        sendo que tão magro está
        de Hipócrates, e Avicenas,
        que vou receando apenas
        para um bocado haverá.

 

 

21    Item ao Senhor Marquês,
        a quem o céu há juntado
        as ferezas de soldado
        os carinhos de cortês:
        pela mercê, que me fez,
        de com tão justa razão
        suspender de Capitão
        meu Amo, que fica em calma,
        lhe peço, pela sua alma,
        que o suspenda de asneirão.
 
 

 

22    Meu Amo instituo enfim
        por meu herdeiro forçado,
        e lhe deixo de contado
        a manjedoura, e capim:
        item lhe deixo o selim,
        que me pôs de sarna gafo,
        e pois já morro, e abafo,
        o mou bocado lhe deixo,
        porque veja queixo a queixo,
        o que vai de bafo a bafo.
 

 

 

 

ANNA MARIA ERA UMA DONZELLA NOBRE, E RICA, QUE VEIO DA INDIA SENDO SOLICITADA DOS MELHORES DA TERRA PARA DESPOSORIOS, EMPRENDEO FR. THOMAZ CASALLA COM O DITO, E O CONSEGUIO.

 
 
Sete anos a Nobreza da Bahia
Serviu a uma Pastora Indiana, e bela,
Porém serviu a Índia, e não a ela,
Que à India só por prêmio pertendia.
 

Mil dias na esperança de um só dia
Passava contentando-se com vê-la:
Mas Fr. Tomás usando de cautela,
Deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.
 

Vendo o Brasil, que por tão sujos modos
Se lhe usurpara a sue Dona Elvira,
Quase a golpes de um maço, e de uma goiva:
 

Logo se arrependeram de amar todos,
E qualquer mais amara, se não fora
Para tão limpo amor tão suja Noiva.
 

 


 

AO MESMO ASSUNTO.

 
 

MOTE

 

Lá vem Maria, mais Ana,
e Pedro no meio delas;
ó Pedro, quem te roubara
a rica Noiva, que levas!

 
 

1    Apareceu na Bahia
      Pedro, que tudo enfeitiça,
      Moço da cavalariça
      enxertado em fidalguia:
      teve fortuna, e valia
      tão alta, e tão soberana,
      que o tio Milão se alhana,
      e por serem tão manaças
      lhe cantarão pelas praças
      Lá vem Maria, mais Ana
 

 

 2    Cantou-se-lhe em profecia,
        porque correndo alguns anos
        veio casar por enganos
        com Madama Ana Maria:
        por força de cantoria
        se meteu Perico entre elas,
        ou foi força das estrelas,
        pois hoje ao mesmo compás
        garganteia Fr. Tomás
        "E Pedro no meio delas".

 

 

3    Um casamento ao revés
      Fr. Tomás somente o faz,
      e eu raivo de Fr. Tomás,
      que tal casamento fez:
      quando considero os três
      Noivo besta, e Noiva rara,
      e o Frade, que os maniatara,
      metido entre os foliões,
      canto invejando os dobrões,
      Ó Pedro, quem te roubara!

 

 

 4    Porém depondo arrogância
       da paixão, e do interesse,
       só Pedro a Noiva merece,
       que a más Moros mas ganância:
       não tenhas, Pedro, jactância,
       nem tal dote à sorte devas,
       pois tanto no bafo entrevas,
       que se dá em to prefumar,
       em pobre há de vir a dar
       A rica Noiva, que levas.
 

 

 

 

CASADO, E RICO SE EMBARCOU PARA PORTUGAL A COMPRAR NOBREZA; E O POETA LHE FAZ AS DESPEDIDAS PROFETIZANDO, O QUE REALMENTE SUCCEDEO.

 
 
 

Adeus, Amigo Pedralves,
que vos partistes daqui
para geral desconsolo
deste Estado do Brasil.
Partistes-vos, e oxalá,
que então vos vira partir,
que sempre um quarto tomara
a libra por dous ceitis,
Pusera o quarto em salmoura,
e no fumeiro o pernil,
o pé não: porque me dizem,
que vos fede o escarpim.
Guardara o quarto de sorte,
que se vos pudera unir
na surreição dos ausentes,
quando tornásseis aqui.
Mas vós não fostes partido,
mente, quem tal cousa diz,
antes fostes muito inteiro,
e sem se vos dar de mim!
Saüdades não levastes,
deixaste-las isso sim,
porque de todo este povo
éreis o folgar, e o rir.
Desenfado dos rapazes
das Moças o perrexil,
o burro da vossa casa,
e da cidade o rocim.
Lá ides por esses mares,
que são vidraças de anil,
semeando de asnidades
toda a margem de Zafir.
O Piloto, e à companha,
apostarei, que já diz,
que vai muito arrependido
de irdes no seu camarim.
O homem se vê, e deseja,
e desesperado enfim,
aceita, que a Nau se perca
por vos ver fora de si.
Deseja ver-vos lutando
sobre o elemento sutil,
onde um tubarão vos parta,
vos morda um Darimdarim.
Deseja, que os peixes todos
tomem acordo entre si
de vos fazer nos seus buchos
sepultura portatil.
Sente, que em amanhecendo
a fina força há de ouvir
os bons dias de uma boca,
cujo bafo é tão ruim.
Sente, que não empregando
nem um só maravedi
em queijos frescos, e a eles
vos tresanda o chambaril.
Mas vos heis de ir a Lisboa
apesar do vilão ruim.
El-Rei vos há de fazer
com mil mercês honras mil.
Os cavalheiros da Corte
trazendo-vos junto a si,
vos hão de dar como uns doudos
piparotes no nariz.
E como vós sois doente
de fidalgos frenesis,
por ficar enfidalgado
toda a mofa heis de rustir.
O que trareis de vestidos!
uns assim, outros assim:
sereis o molde das modas,
e o modelo dos Turins.
À conta disto me lembra,
quando em Marapé vos vi
vestido de pimentão
com fundos de flor de Lis.
Em verdade vos afirmo,
que então vos supus, e cri
surrada tapeçaria,
tisnado guadamecim.
O que direis de mentiras,
quando tornares aqui!
amizades de um Visconde,
favores de um Conde vis,
Valido de um tal Ministro,
Cabido de um tal Juiz,
e até do mesmo Cabido
leiguíssimo Mandarim.
El-Rei me fez mil favores:
mil favores? mais de mil;
bem fez, com que lá ficasse,
mas não o pude servir.
Quem casou, como eu casei
com Mulher tão senhoril,
é cativo de um Terreiro,
não me posso dividir.
D'EI-Rei é minha cabeça,
porém o corpo gentil
todo é de minha Mulher,
não tem remédio, hei de me ir.
Achou-me razão El-Rei
e na hora de partir,
pondo-me a mão na cabeça
me disse, Perico, há de ir.
Ide-vos, Perico, embora,
ide-vos para o Brasil,
que, quem vos tirou da Corte,
não vos tirará daqui.
E pondo em seu peito a mão,
eu, que a firmeza entendi,
chorei por agradecê-la
lágrimas de mil em mil.
Botei pelo Paço fora
meti-me no bergantim,
cheguei a bordo, embarquei-me,
levamos ferro, e parti.
Os cavalheiros da Corte
choraram tanto por mim,
como por uma comenda
Santiago ou de Avis.
Ontem avistamos terra,
e quando na barra vi
coqueiros, e bananeiras,
disse comigo: Brasil.

 

 


 

AO MESMO QUE CHEGANDO À BAHIA COM HÁBITO, E FORO FALSO ENTRA DESVANECIDAMENTE CONFIADO A TRATAR OS HOMENS NOBRES POR TERCEIRA PESSOA.

   
 

1    Sejais, Pedralves, bem-vindo,
      e crede-me, meu amigo,
      que tudo, o que aqui vos digo,
      ora é zombando, ora rindo:
      aqui me andam perseguindo,
      que faça à vossa chegada
      alguma sátira honrada,
      que este Povo é tão sisudo,
      que quer, que eu vos diga tudo,
      mas eu não vos digo nada.

 

 

2    Se El-Rei vos enfidalgou
      (como me deram por novas)
      acabaram-se-me as trovas,
      e tudo enfim se acabou:
      mas não falta, quem notou,
      que indo-vos fidalgo honrado,
      vir com foro era escusado;
      porém logo se deu fé,
      que éreis fidalgo de pé,
      e agora estais assentado.

 

 

3    Qualquer Bispo da Turquia
      sem igreja é Bispo fiel,
      vós sois fidalgo de anel,
      fidalgo sem fidalguia:
      os fidalgos da Bahia
      são fidalgos de parolas,
      vós a puras carambolas
      por vós, por vossa Mulher,
      porque o quis El-Rei fazer,
      sois fidalgo de três solas.

 

 

 4    Ser fidalgo na Bahia
       é suma felicidade,
       porque há de arder a cidade
       numa, e noutra cortesia:
       heis de mamar Senhoria,
       quer vos dê, quer não pesar:
       porque se um triste alveitar
       a mama, sendo ancião,
       vós tão novo, e simplalhão
       como a não heis de mamar?

 

 

 5    Está toda a meninice
       desta terra a esperar,
       que saiais a passear,
       e digais muita parvoíce:
       já a mim um homem me disse,
       que vos ouvira umas poucas,
       mas vós a palavras loucas
       (se quereis lograr sossegos)
       heis de trazer olhos cegos,
       tanto como orelhas moucas.

 

 

6    Chegais de Lisboa enfim,
      e não quero de vós mais,
      senão só que me digais,
      como vindes de escarpim:
      que este povo é tão ruim,
      tão jocoso, e tão burlesco,
      que por vos pôr ao tudesco,
      tendo vós cara de nata,
      levantam, que a vossa pata
      tem dedo de queijo fresco.

 

 

 7    Triste da vossa parceira,
       que se vos muda talvez
       a cabeça para os pés,
       e os pés para a cabeceira,
       sempre o presunto lhe cheira,
       sempre o bafo cheira mal,
       e contra artifício tal,
       como lhe não dais proveito
       fedendo a torto, e a direito,
       vos admite ao natural.

 

 

8    Ela levada do amor
      diz (porque enfim vos quer bem)
      bom sangue o Fidalgo tem,
      mas tem mui velhaco humor:
      vós obrigado ao primor,
      de quem tão firme vos ama,
      que em tal caçoula se inflama,
      ficais por sentença dada
      vós apertando a privada,
      ela apartada da cama.

 

 

 9    Tratais a este e a aquele
       por ele de puro honrado,
       que o Senhor bem inclinado
       em lugar de um vós dá um ele:
       mas que o chantre se desvele
       em visitar-vos cada hora,
       e lhe digais, venha embora
       Chantre, folga de o ver bom,
       isso é ser sem tom, nem som
       asneirão de foz em fora.

 

 

 10    Que dissestes me constou,
         a um Capitão de alto som,
         folgo muito de o ver bom,
         e ele os olhos vos fincou:
         de boa então escapou,
         Pedro, o vosso cabeção,
         porque se vos lança a mão,
         creio eu, é para crer,
         vos havia de dizer,
         folgo de o ver asneirão.

 

 

  11    Diz ele, que em caso tal
          outra tal vos respondera,
          e mãos, e pés vos pusera
          a não vir o General:
          vós, Pedro, não fazeis mal,
          porque sois enfim fidalgo,
          mas sejais algo, o no algo,
          têm todos por certo agouro,
          que se vos foram ao couro,
          heis de correr como um galgo.

 

 

12    Temo, vos há de matar
        este mal de fidalguia,
        por falta de uma sangria,
        que ninguém vos manda dar:
        importa logo sangrar,
        e carregar sobre tudo,
        porque o sangue linhajudo
        fora da imaginação
        fará que fiqueis vilão,
        mas heis de ficar sisudo.

 

 

 

 

DEDICA HUM ESTUDANTE HUMAS CONCLUZÕES AO DITO COM O BRAZÃO DOS NEYVAS NA FAXADA: E IMPACIENTE O POETA DO DESAFORO ROMPE NESTAS QUEIXAS.

   
 

1    Digam, os que argumentaram,
      qual mais desaforo indica,
      quem as conclusões dedica,
      ou a quem se dedicaram:
      se as torres, que lhe gravaram
      com tanta magnificência
      não são da sua ascendência,
      posto que dos Neivas são,
      concedo-lhe a conclusão,
      mas nego-lhe a conseqüência.

 

 

 2    Concedo, que aquele escudo
       com gravados torreões
       seja dos Neivas brasões,
       mas não de um Neiva orelhudo:
       que homem pode haver sisudo,
       que vendo aquele jumento
       não conclua o argumento,
       de que os seus timbres, e duelos
       não são torres, são castelos,
       porém castelos de vento.

 

 

3    A um cavalheiro vilão
      estas armas lhe hão de dar,
      sobre escudo verde-mar
      uma aguilhada, e um podão:
      item porque lá em Milão
      morando na casa alheia
      foi Lacaio de libréia,
      passa-aqui de rocinante,
      lhe dão em campo brilhante
      uma almofaça, e uma peia.

 

 

4    Pelo torreão guerreiro
      dão-lhe em jurídica forma,
      na praia uma plaraforma,
      onde seja aguardenteiro:
      e porque vai a escudeiro
      por casar co'a Indiana
      com dote de porcelana,
      e enxoval de canequim,
      lhe dão por armas enfim
      um chuço, uma partasana.

 

 

 5    Desaforo tão insano
       sofrerão outras nações,
       que dedique as conclusões
       um magano a outro magano?
       que sendo costume lhano
       oferecer, e dedicar
       ao Prelado, ao Titular,
       ao Príncipe, ao Monarca,
       se veja uma suja alparca
       em tão subido espaldar?

 

 

 6    Mas enfim, que lhe importou
       ver-se assim entronizado,
       se tão vil é o dedicado,
       como quem lhe dedicou?
       tudo o diabo levou,
       a honra, a dedicatória
       a honra tornou-se escória,
       a dedicatória em mijo:
       o Brasil se ri de riso,
       aqui paz, e depois glória.

 

 


 

AO MESMO RETIRANDO-SE HOMIZIADO PARA O CARMO, POR TER NOTICIA DE HUM DECRETO, QUE VEYO DE SUA MAJESTADE AO DEZ.OR. ANTONIO RODRIGUES BANHA, PARA PRENDER, OS QUE HAVIÃO NA CIDADE COM HABITOS, E FOROS FALSOS.

 
 
  1    Treme a Pedro a passarinha,
      e tanto teme a prisão,
      que o cu lhe cheira a murrão,
      e a boca fede a caquinha:
      soube, que o decreto vinha,
      e antes que o fossem prender,
      fugiu logo a bom correr,
      pois quando o iam buscar,
      tocando o Banha a marchar,
      tocou ele a recolher.

 

 

 2    Pedralves com falso foro
       se vê na realidade,
       o foro com falsidade,
       com verdade o desaforo:
       que agora reze no coro,
       é justo, e bem permitido,
       e porque tem merecido
       por serviços ao selim
       não ser do campo rocim,
       agora está recolhido.

 

 

 3    Que se despache um caixeiro
       criado na mercancia
       com foro de fidalguia
       sem nobreza de Escudeiro!
       e que a poder de dinheiro,
       e papéis falsificados
       se vejam entronizados
       tanto mecânico vil,
       que na ordem mercantil
       são criados dos criados!

 

 

  4    O Fidalgo esclarecido
        traz de longe a descendência:
        mas Fidalgo de influência
        sem ter solar conhecido,
        é Fidalgo introduzido
        enfronhado em fidalguia
        e se o fumo da Bahia
        a Pedro Fidalgo fez,
        fidalgo é da cheminez
        dos Padres da companhia.
 
 

 

5      Ser perfilhado em Milão,
        e fidalgo em Portugal,
        ter Mulher Oriental,
        e cunhado Mergulhão,
        haver sido Capitão,
        trazer uma cruz ao lado,
        haver comido um morgado,
        e a fidalgo haver subido,
        se contudo está caído,
        é já fidalgo estirado.

 

 

6      Quem quer ser bem despachado
        a seu Rei serviços faz,
        a vida entre as bolas traz
        como valente soldado:
        mas por serviço comprado,
        com as premissas a pares,
        e mentiras como os mares
        faz ser caso lastimoso,
        que, o que deu honra a um Barroso,
        o merecesse um Cazares.
 

 

 7    Quando hábito se traz
       co dinheiro poderoso,
       torne outra vez Barroso,
       e venha o Doutor Gilvaz:
       também nesta conta jaz
       Fuão Maciel Teixeira,
       Manuel Dias Filgueira,
       o Marruás do sertão,
       e o Lobato patifão
       marido da confeiteira.

 

 

  8    Também vai a Escudeiro
        Marinículas da praia,
        porque para isso se ensaia
        a fiúza do dinheiro:
        por direito um canastreiro
        é homenzarrão de chapa,
        mas a cruz, que anda em tal capa,
        o faz com maior desonra
        sambenitado da honra
        porque não é cruz, é aspa.

 

 

 9    Que maganos desta laia
       patifes de toda a sorte
       subam ser homens de porte,
       tanto que o pé põem na praia:
       ver eu isto me desmaia,
       e me faz cair por terra,
       que quatro vilões da serra
       tenham tão propícia estrela,
       que sendo vis em Cabrela
       são fidalgos nesta terra.

 

 

10    Esta mãe universal,
        esta célebre Bahia,
        que a seus peitos toma, e cria,
        os que enjeita Portugal:
        que ao que nasceu natural
        seu Filhote em tenra idade
        o mate à necessidade,
        porque lhe tem ódio interno!
        Oh praza a Deus, que no inferno
        se subverta esta cidade.

 

 

 

 

AO MERGULHÃO CUNHADO DESTE SUGEYTO, QUE ENGANOU AO POETA COM HUMA PROPINA DE COBRE INDO TOMAR O GRAO DE LECENCIADO.

   
 

1    Entre os demais Doutorandos,
      que vieram à função,
      veio o grande Mergulhão
      da casa dos Mergulhandos:
      fidalgos tão miserandos
      de tronco, e solar tão pobre,
      que, porque a pena lhes dobre,
      digo, por mais que os acatem,
      que são fidalgos, que batem
      moeda, porém de cobre.

 

 

2    Achava-me eu na função,
      e a puro calar, e ver,
      não livrei de ali fazer
      terreiro de patacão:
      porque vindo o Mergulhão
      com a propina, que deu,
      m'arremessou no chapéu,
      e eu do peso me queimei,
      fui logo vê-la, e achei,
      que o dinheiro era guinéu.

 

 

3    Enlutado um patacão
      de uma resina maldita
      mais negra, que a minha dita,
      e mais vil, que o Mergulhão:
      que causa, ou que ocasião
      teria para enlutar-se,
      não pode conjeturar-se,
      se não é, porque morreu
      o pejo, de quem a deu,
      a quem deve venerar-se.

 

 

 4    Quem se gradua em Sofia,
       e dá propina de pobre,
       merece um anel de cobre
       com pedra de cantaria:
       por capelo merecia
       um vexame, ou reprensão,
       que o cure de patifão,
       e em cabeça tão patifa
       uns cadilhos de alcatifa
       por borla do chapeirão.

 

 

 5    Há caso de mais abalo,
       que um patife, um mariola
       desse em público uma esmola,
       a quem podia comprá-lo?
       e vendo, que sofro, e calo,
       lhe dê tão pouco desvelo,
       que não venha agradecê-lo,
       a quem comprá-lo podia
       não só, mas inda em Sofia
       podia também vendê-lo?

 

 

 6    Vós, meu Doutor judiciário,
       a quem dedico este pleito,
       não façais caso do feito,
       tanto que o façais sumário:
       ele pecou de falsário,
       mas sendo falsário, e mau,
       e por casta vaganau,
       se hão de dar-lhe em relação,
       carocha de papelão,
       eu cá lha darei de pau.

 

 


 

A HUMA DAMA QUE MANDOU PEDIR AO POETA O TESTAMENTO, QUE ELLE TINHA FEYTO AO CAVALLO DE PEDRALVES.

 

 
 Minha Reina estou absorto,
de que com tão grande abalo
busqueis um morto cavalo,
fugindo de um perro morto:
e assim daqui vos exorto,
que da idéia se vos borre
ler versos, em que discorre
um Poeta inveterado,
pois um cavalo enterrado
é cousa, que já não corre.

 

 

 

 

 

 

 

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