LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

MARIANA, APELIDADA A ROLA

 

FOI VISTA ESTA DAMA PELO POETA EM CASA DE HUA AMIGA INDO DIVERTIR-SE AO CAMPO COM CERTO SUGEYTO

 

RECOLHIDO O POETA A SUA CASA ASSASMENTE NAMORADO QUE HAVIA VISTO: NAO PÓDE SOCEGAR SEU AMANTE GENIO, QUE LHE NÃO MANDASSE NO OUTRO DIA ESTE  ENCARECIMENTO DE SEU AMOR

 

TORNA O POETA A INSTAR SEGUNDA VEZ SEM SE AFASTAR DO SEU ENCARECIMENTO

 

A MUDANÇA QUE FEZ ESTA DAMA FAZ AGORA O POETA MENÇÃO

 

A MESMA MARIANNA PEDINDO LHE FIZESSE HUNS VERSOS, ENCONTRANDO-A NO MAR INDO PARA FORA

 

SENTIO-SE MARIANNA DE QUE O POETA PUBLICASSE SEU NOME SABENDO, O QUE DEVIA A THOMAZ PATRICIO, E QUE, PERSERVERASSE AINDA NA EMPREZA, AO QUE RESPONDE O POETA COM O SEGUINTE MOTE

 

ADOECENDO MARIANNA GALANTEA O POETA SUA ENFERMIDADE

 

CONTINUA O POETA NA MESMA EMPREZA DE SER ADMITIDO FAZENDO GALA DO SEU MESMO DESPREZO

 

FOY PREZA MARIANNA PELOS REPETIDOS ESCANDALOS COM THOMAZ PATRICIO POR ORDEM DE SUA ILUSTRISSIMA, E RAYOVOSO O POETA DO PASSADO LHE FEZ ESTE

 

A FUGIDA QUE FEZ DA CADEYA MARIANNA COM O FAVOR DO CHANCELLER DA RELAÇÃO DESTE ESTADO, COM QUEM ELLA TINHA ALGUNS DESHONESTOS DIVERTIMENTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MARIANA, APELIDADA A ROLA

 

Foy Dama, em quem admirou esta cidade huma  prodigiosa transmutação: porque sendo em suma pobreza pouco parecida, aconteceu, que pedindo huma esmolla a Thomaz Patrício mercador Inglêz chamado Mazullo, por ter hum esquipatico  nariz, se namorou della de tal sorte, que dispendeo  com ela grosso cabedal, trajando ricas, e custosas galas, e assim se fêz admiravelmente formosa. Esta algumas vezes he tratada pelo seu nome, e outros pelo poético disfarce de Anarda.

 

Manoel Pereira Rabelo, Licenciado

 

"Também você tem licença

(me disse a Môça) porque

onde há lei de cortesia

não val comigo outra lei"

"Era uma estrêla? pior,

a estrêla que tem que ver?"

 

 

 

 

FOI VISTA ESTA DAMA PELO POETA EM CASA DE HUA AMIGA INDO DIVERTIR-SE AO CAMPO COM CERTO SUGEYTO.

 

ROMANCE

 

Eu vi, Senhores Poetas,

quarta-feira pelas três

do presente mês, que corre,

o prodígio, que direi.

Ia eu por certo bairro,

que agora calar convém,

porque o lanço me não furtem,

ao campo a espairecer.

Acompanhava-me entonces

um amigo, que à mi fe

e douto disto de fêmeas,

porque as conhece el por el.

Eis que em frente de uma porta,

que sua urupema tem,

ouvimos um ruge-ruge

da sêda de um guarda-pé

Chegou logo o tal amigo,

que no que toca a saber

segredos, de quem será,

e grandíssimo corcês.

Chegou, como tenho dito,

e mesurado de pés

abriu a urupema, e disse,

sois vos, Dona Bersabé!

Ao que ela respondeu logo,

esta sou: entre você;

ia ele ja quase entrando,

quando eu da rua gritei:

"Tá, que não é cortesia

entrar só vossa mercê,

deixando-me a mim na rua,

que de inveja morrerei"

"Também você tem licença

(me disse a Môça) porque

onde há lei de cortesia

não val comigo outra lei."

Palavras não eram ditas,

quando eu logo a quatro pés

me emboquei pela urupema,

tomei vênia, e me assentei.

Fitei os olhos na Môça

e embasbacado de a ver

estive co'a alma no papo

morrerei não morrerei.

Mas subindo-me a memória,

que era obrigado por fé

servir ao menos sete anos

Jacó a bela Raquel;

Acordei do paracismo,

e fiz tanto por viver,

que estou capaz de pintar-vos

quao jeitosa a Môça é.

Era, se creio a meus olhos,

e e crível o meu pincel,

Anjo disfarcada em Dama,

ou flor mentida em mulher.

Era um sol: mal a comparo:

porque o sol que tem que ver,

tendo a caraça redonda

mascarada de ouropel?

Era uma estrêla: pior,

a estrêla que tem que ver?

é pisca em anoitecendo,

e vesga ao amanhecer.

Era uma jóia; mal disse;

porque com quatro vinténs

se compra uma boa jóia,

e esta Môça nem com dez.

Era um diamante; tampouco,

que o diamante vem a ser

um parto bruto da terra,

e ela imagem de Deus é.

Eu digo desta vez: era

Maria: mas não sei, em que

se me pega a voz, que enfim

não acabo de o dizer.

Digo, que era Mariana

"disse-o?" que remédio tem?

já dei co segrêdo em terra;

mal fiz: mas aliviei.

É linda; e que manso o digo:

tem garbo: e como que o tem,

e bonita, não sei como,

e tem gravea como quê.

Mais que o favor, e o carinho

da mais formosa mulher

val de Mariana um riso:

que digo um riso? um desdém.

Neste estado ia o debuxo

dêste meu tosco pincel,

quando pela porta entrou

todo o firmamento a pé.

Entrou uma linda Môça,

que mora logo através,

pela porta do quintal,

traidoramente fiel.

Fizemos-lhe a reverência,

e ela com gentil prazer

nos disse "as de vossarcedes,

e nos as de vossarcê."

Foi-se a ela o meu amigo

quel Pirata Dunquerqué,

e a rendeu a bom partido,

porque pediu bom quartel.

Estimei a ocasião,

porque co'a outra fiquei

tão só, que os meus segredinhos

lhe pude entonces dizer.

Fretam-nos finalmente

para a semana, que vem,

que por estar achacada,

de achaque se quis valer

A outra Môça do amigo

ficou fretada também

para qualquer outro dia,

porque bem sabe em qualquer.

Isto, Senhores Poetas,

é, o que a quarta passei,

e o que suceder à quinta

direi a vossas mercês.

 

 

 

 

RECOLHIDO O POETA A SUA CASA ASSASMENTE NAMORADO QUE HAVIA VISTO: NAO PÓDE SOCEGAR SEU AMANTE GENIO, QUE LHE NÃO MANDASSE NO OUTRO DIA ESTE  ENCARECIMENTO DE SEU AMOR.

 

SONETO

 

Ontem quando te vi, meu doce emprêgo,

Tão perdido fiquei por ti, meu bem,

Que parece, êste amor nasce, de quem

Por amar-te já vive sem sossêgo,

 

Essa luz de teus olhos me tem cego,

E tão cego, Senhora, êles me têm,

Que é fineza o adorar-te, e assim convém,

A ti, ó rica prenda, o desapêgo.

 

Eu buscar-te, meu bem, isso é fineza,

Tu deixares de amar-me é desfavor,

Eu amar-te com fé, isso é firmeza.

 

Tu ausente de mim, vê, que é rigor,

Nota pois, que farei, rica beleza,

Quando amar-te desejo com primor.

 

 

 

 

TORNA O POETA A INSTAR SEGUNDA VEZ SEM SE AFASTAR DO SEU ENCARECIMENTO

 

DÉCIMA

 

Maricas, quando te eu vi,

tanto a minha alma roubastes,

que não sei, se me acabastes,

ou se eu fui, que me perdi:

porém sempre presumi,

que êste amor, que há entre nós,

causa pena tão atroz,

que a mim no fim me tem pôsto,

porque nada me dá gôsto

quando me vejo sem vós.

 

 

 

 

A MUDANÇA QUE FEZ ESTA DAMA FAZ AGORA O POETA MENÇÃO

 

 

DÉCIMAS

 

 

1

 

Tenho por admiração,

Menina, e por coisa rara,

que mudásseis vós de cara,

porém não de condição:

vendo-vos nesta ocasião

de feições tão desmentida,

mais dura, e mais sacudida,

vos julguei (porque o revele)

qual cobra, que despe a pele,

mas não põe emenda a vida.

 

 

2

 

Como não terá desgôsto,

quem adora uma beleza,

se sem mudar natureza

tão mudada está de rosto?

para vós me dareis gôsto,

e pegardes minha fé,

o que haveis de fazer, é,

(por dar-me algum galardão)

mudares de condição,

mas de cara, para quê?

 

 

3

 

Cara, que já me agradara

por bonita, e por graciosa,

comigo e mudança ociosa,

convosco é mudanca cara:

se Amor vos desenganara,

que me parecíeis bem,

não tivéreis vos por quem

fazer esta varieção,

sendo vária na afeição,

e tão firme no desdém.

 

 

4

 

Não digo, minha Senhora,

mal da vossa perfeição;

quero Mariana de então,

e não Mariana de agora:

que quem vos ama, e adora

tão firme, e constantemente,

quer, que saiba tôda a gente,

que minha alma enamorada

não da Mariana passada

por Mariana presente.

 

 

5

 

Quem faz mudanças na cara,

bem que não no coração,

sempre deixa a presunção,

que por pouco se mudara:

eu a amar-vos não chegara

sem ter por delito atroz,

que haja mudança entre nós:

pois não só mudar se chama,

irdes vós para outra Dama,

como de vós para vós.

 

 

6

 

Ou mudada, ou não mudada

vos afirmo reverente,

que sois mais môça ao presente

para ser fruita passada:

e está tão idolatrada

de mim essa cara bela,

que ou seja esta, ou aquela,

o que agora importa, é,

que deis um jeito, com que

eu pobre me logre dela.

 

 

 

 

A MESMA MARIANNA PEDINDO LHE FIZESSE HUNS VERSOS, ENCONTRANDO-A NO MAR INDO PARA FORA.

 

 

DÉCIMAS

 

 

1

 

Os versos, que me pedis,

podendo-os mandar formar,

que vós por me não mandar,

não mandareis dois ceitis:

como sem assunto os fiz,

pois vós a vosso contento,

não destes o pensamento,

os rasgues, por ser melhor

assunto do meu amor,

que o vosso contentamento.

 

 

2

 

Por sete anos de Pastor

serviu Jacó a Raquel,

eu servi a uma cruel,

mais de sete anos de amor:

a Jacó lhe foi traidor

Labão: cuja aleivosia

por Raquel lhe entregou Lia,

e a mim não pior me vai,

se me não engana um Pai,

veio a enganar-me uma Tia.

 

 

3

 

Esta tão assegurada

me propôs a refestela,

que cuidei, que tinha nela

a tutia preparada:

enganou-me de malvada

tanto pior, que Labão,

que Lia a Jacó lhe dão,

bem que com sorte trocada,

e a mim nem Lia, nem nada

me deram, dão, nem darão.

 

 

4

 

Oito anos há, que fiel,

estou servindo a um amor,

que Labão não foi pior,

porque vós sois a Raquel:

esta ingratidão cruel

foi o meu triste alimento

oito anos, e fôra um cento,

porque quem chega a querer,

para ajudar-se a viver

faz do Malquerer sustento.

 

 

5

 

Ontem vos topei no mar

em uma barca tão breve,

quem nem por ligeira, e leve

os pôde a vista alcançar:

pus-me logo a duvidar,

vendo-vos ir sôbre  pôpa,

se sérieis vós Europa

sôbre a vaca fabulosa,

mas vós íeis mais formosa,

do que Europa, e tôda Europa.

 

 

6

 

Se hei de dizer-vos verdade,

e me haveis de crer a mim,

até o meu bergantim

ficou morto de saudade:

ficou de tal qualidade

a barquinha entropecida,

que nem do vento impelida,

nem do remo forcejada

se moveu, antes pasmada,

que a vi por vós perdida.

 

 

7

 

Com trabalho em tanta calma,

(que o trabalho havia eu tido,

por não haver conhecido;

o que tinha dentro n´alma)

levei do perigo a palma,

e ao pôrto o bergantim,

e saindo dêle enfim

soube já na terra lhana,

que éreis vós a Mariana

disfarçada em serafim.

 

 

8

 

Então fiquei mais absorto,

mais sentido, e pesaroso

mais amante, e mais saudoso,

enfim então fiquei morto:

nestes versos me conforto,

pois nêles se queixa Amor:

e inda que o vosso favor

é coisa, que nunca espero,

digo ao menos, que vos quero,

e alivio a minha dor.

 

 

 

 

SENTIO-SE MARIANNA DE QUE O POETA PUBLICASSE SEU NOME SABENDO, O QUE DEVIA A THOMAZ PATRICIO, E QUE, PERSERVERASSE AINDA NA EMPREZA, AO QUE RESPONDE O POETA COM O SEGUINTE MOTE

 

Se tomar minha pena em penitência

Do êrro em que caiu o pensamento

Não abranda, mas dobra meu tormento:

A isto, e a mais obriga a paciência.

 

 

GLOSA

 

 

1

 

Bem conheço, Senhor, que hei errado,

Em pedir-vos afeto tão rendido,

Mas bem vêdes, que andei muito acertado,

Em vos dar meu amor enternecido:

Baste a pena de não ser vosso amado,

Se punir-me quereis por atrevido,

Que mereço da culpa a indulgência,

Se tomar minha pena em penitência.

 

 

2

 

Quando viram meus olhos a beleza

Dêsse rosto, e os mates dessa graça,

Logo a fé de querer-vos com firmeza

Dedicar-vos pensei do amor por traça:

Se julgais por arrôjo esta fineza,

Ou dizeis, que é meu êrro por desgraça,

Emendar-me, Senhora, não intento

Do êrro em que caiu o pensamento.

 

 

3

 

Sim dos tempos fiar posso a ventura,

Porque o tempo domina na vontade,

Mas medicina é esta, que não cura

de uma amor excessivo a enfermidade:

Porque eu logre essa rara formosura

Quer Amor, que deixeis a crueldade,

Que o remédio do tempo, como é lento,

Não abranda, mas dobra meu tormento.

 

 

4

 

Nesse cravo partido por fiança

Se o remédio do tempo é aplicado,

Não duvido, que só desta esperança

Viver possa o amor mais alentado:

Abster quero já agora da esquivança

Meu amor na esperança sossegado,

Que a viver um amor em abstinência

A isto, e a mais obriga a paciência.

 

 

 

 

ADOECENDO MARIANNA GALANTEA O POETA SUA ENFERMIDADE.

 

ROMANCE

 

Enfermou Clóri, Pastôres,

por ter de humana um só es.

que também padece males,

quem logra em si tantos bens.

Clóri, digo, aquêle extremo

de formosura cruel,

que a quantos vê, tira a vida,

hoje prostrada se vê.

Triunfa agora o achaque,

o que nunca fez ninguém,

porque levar Clóri à cama,

o mal só agora fêz.

Dizem, que adoeceu Clóri,

por lhe faltar não sei quê,

eu não sei, que faltar possa,

a quem tão perfeita é.

Mover dúvidas podia

esta doença fazer,

porque haver em Clóri faltas

grande causa é de as morrer.

Nunca quis Clóri sangrar-se

nos bracos, senão nos pés,

que de puro soberana,

não dá seu braço a torcer.

Mostrou seu pé ao Barbeiro,

que com suspensão cortês,

inda que água era mui pouca,

não podia tomar pé.

Água fria pediu logo

com brevidde, porque

com a quente se podia

tanta neve derreter.

Então vadio o Barbeiro

com Clóri quis entender

que como a colheu descalça,

dizem, que a picara bem.

Desmaiou Clóri sentida,

dando bem a perceber,

que a tal sangria lhe custa

gôtas de sangue esta vez.

Com sal na bôca diverte

o desmaio, mas eu sei,

que bôca tão engraçada

nenhum sal há de mister.

Que foi supérfluo o remédio

do sal, não duvide alguém,

porque quem é luz do mundo,

sal da terra deve ser.

Logrou bem o sangrador

privilégios de Moisés,

da pedra não, mas de um jaspe

fez também sangue correr.

Agora chegai, formosas,

nestas côres aprender

o melhor branco da neve,

do coral o mais fiel.

Chegai a ver êstes mares,

onde em crescida maré

dentre a neve matizada

belos rubis colhereis.

Tôdas, as que amor lhe tinham,

parece, que ódio lhe tem

pelo muito, que desejam

chegar seu sangue a beber.

Mas todos ficam em branco,

quando vêem convalescer

a Clóri do seu desmaio,

e da doença também.

 

 

 

 

CONTINUA O POETA NA MESMA EMPREZA DE SER ADMITIDO FAZENDO GALA DO SEU MESMO DESPREZO.

 

 

MOTE

 

Não me queixo de ninguém,

se bem, que por vida minha

que bastante causa tinha

para queixar-me de alguém.

 

 

GLOSA

 

 

1

 

Queixar-me a mais não poder

e despedir o pesar:

amar, querer, e queixar

e queixar-se do querer:

eu, que isto sei entender,

e alcanço, que me está bem

não queixar-me de um desdém

por mostrar, que estimo a causa,

dando a meus alívios pausa,

Não me queixo de ninguém.

 

 

2

 

Se me queixo de uma dor,

abro a porta a meu tormento,

e não perco um sentimento

porquanto gostos dá Amor:

vencer a pena e melhor,

que render-se a uma dorzinha:

e quando a Parca mesquinha

da vida os fios me corte,

passarei por minha morte,

se bem, que por vida minha.

 

 

3

 

Se Clóri de mui querida

é alma do meu viver,

porque a morte hei de temer

dada pelas mãos da vida?

que vida mais bem perdida,

que dar eu, não sendo minha,

a vida, a quem ma sustinha?

e quando não baste isto,

sei eu, por havê-la visto,

Que bastante causa tinha.

 

 

4

 

Bastante causa tivera,

já que não para queixar-me,

para morrer, e matar-me

por calar pena tão fera:

e inda que a fineza era

calar a rigor, de quem

me mata a puro desdém,

calar por mais perfeição

não tira o ter eu razão,

Para queixar-me de alguém.

 

 

 

 

FOY PREZA MARIANNA PELOS REPETIDOS ESCANDALOS COM THOMAZ PATRICIO POR ORDEM DE SUA ILUSTRISSIMA, E RAYOVOSO O POETA DO PASSADO LHE FEZ ESTE.

 

SONÊTO

 

Esta prêsa uma Dama do Xadrês,

um nôvo serafim de Satanás,

Aquela, que em querer muito a Tomás,

Esta já feita a roupa de Francês.

 

Mudou de herege a Idolatrino Inglês,

E sacrifica tanto êsse Mangaz,

Que de tudo, o que tem vítima faz,

E dá cos burros n´água desta vez.

 

Prêsa uma Dama? nome de Jesus!

Mas eu digo, que foi reto o Juiz,

Que a condena à prisão por esta cruz;

 

Porque o caso é tremendo, e o mundo diz,

Que se mata uma Rôla, uma Avestruz

Por um herege de tão grão nariz.

 

 

 

 

A FUGIDA QUE FEZ DA CADEYA MARIANNA COM O FAVOR DO CHANCELLER DA RELAÇÃO DESTE ESTADO, COM QUEM ELLA TINHA ALGUNS DESHONESTOS DIVERTIMENTOS

 

 

DÉCIMAS

 

 

1

 

Na gaiola episcopal

caiu por dar no pinguelo

um pássaro de cabelo

pouco maior, que um Pardal:

O Passareiro real

ou de lastima, ou carinho,

ou já por dar-lhe co ninho,

brecha lhe abriu na gaiola:

não quis mais a passarola,

foi-se como um passarinho.

 

 

2

 

A Rolinha, que as amola,

zomba, de quem se desvela,

por colhê-la na esparrela,

ou tomá-la na gaiola:

não é passarinho a Rôla,

que no débil embaraço

caia de linho, ou sedaço,

salvo um Mazulo nariz

se lhe põem por chamariz,

que então cairá no laço.

 

 

3

 

Se o Prelado tem jactância

de a tornar a reduzir,

ojos, que la vieron ir,

 no la veran mas en Francia:

que ela de estância em distância,

e de amigo em amigão

assegura o cordovão,

porque é segura cautela,

que quem se prende com ela,

não a dá a outra prisão.

 

 

4

 

Quem no mundo há de ter modos

de prender uma mulher

tão destríssima em prender,

que de um olhar prende a todos:

que Medos, Partos, ou Godos,

que Ministro, ou Regedor

a há de prender em rigor,

se ela àqueles, que por lei

prendem da parte d'El-Rei

prende da parte do Amor.

 

 

 

 

 

 

  

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

 

Apoio

CNPq / CAPES

UFSC / PRPG