LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

LETRADOS

CONTRA OUTROS SATIRIZADOS DE VÁRIAS PENAS QUE O ATTRIBUHIRÃO AO POETA, NEGANDO-LHE A CAPACIDADE DE LOUVAR.

A HUM IGNORANTE POETA, QUE POR SUAS LHE MOSTROU HUMAS DECIMAS DE ANTONIO DA FONCECA SOARES.

DESCREVE A VIDA ESCOLASTICA.

AO MESMO ASSUMPTO.

A HUM FULANO DA SYLVA EXCELENTE CANTOR, OU POETA.

MANDANDO GONÇALLO SOARES DA FRANCA SENDO AINDA ESTUDANTE PEDIR AO POETA HUM LIVRO INTITULADO REPUBLICA GENTILICA EM OCCASIÃO, QUE AMBOS ESTAVAM DESFAVORECIDOS DE SUAS DAMAS, O POETA LHO MANDOU COM ESTA DÉCIMA.

RESPOSTA QUE MANDOU AO POETA GONÇALLO SOARES DA FRANCA DE REPENTE E PELOS MESMOS CONSOANTES.

A ESTA DÉCIMA RESPONDEO O POETA COM ESTE SONETO.

AO DOUTOR ANTONIO RODRIGUES DA COSTA CAVALHEYRO DO HABITO CHRISTO, CHEGANDO DE PORTUGAL COM HUM VESTIDO VERDE, E CANHÕES DE VELUDO, O QUAL SE FEZ ABORRECIDO DO POETA POR MAO LETRADRO, E JURISTA INTRUSO.

AO MESMO LETRADO QUE HAVENDO ARTICULADO CONTRA HUMA PARTE EM TOTAL PERJUIZO DE HUMA HERANÇA, ESTA HUMA NOYTE LHE METTEO NA CABEÇA HUMA PANELLA DE MERDA, DIZENDO, QUE ERAM CAMARÕES.O POETA LHE CHAMA AQUI GILVAZ, PORQUE TINHA HUMA CUTILADA NA CARA.

AO MESMO LETRADO MORDENDO, E ABOCCANHANDO AS LETRAS DO POETA; E ELLE LHE AMEAÇA SEUS ATREVIMENTOS.

A CERTO LETRADO QUE SENDO HOMEM DE NAÇÃO AFFECTAVA JACOBICES CORRENDO A VIA SACRA COM OS BRAÇOS ABERTOS.

A CERTO LETRADO FULANO COELHO, CASANDO-SE COM HUMA MOÇA, QUE SE DIZIA SER TAL COMO PUBLICA A MESMA SATYRA.

AO MESMO ASSUMPTO E AOS MESMOS SUGEYTOS SUCCEDENDOLHE O QUE DIZ.

AO MESMO LETRADO METTIDO EM AMIZADES COM O Pe. DAMASO, A QUEM PRATICAVA OS TEMPOS DA VOCACIA, SATYRISA O POETA A AMBOS.

A MANUEL ROIZ DE FIGUEYREDO, QUE SENDO REQUERENTE SE POZ COM PRESUNÇÕES DE LETRADO, A QUEM CONCORRIA GRANDE PARTE DOS PLEYTEANTES.

AO TABELIÃO MANUEL MARQUES TENDO SIDO ESPADEYRO HAVIA POUCO.

A OUTRO REQUERENTE DA MESMA CIÊNCIA E DA MESMA PRESUNÇÃO, MAS INFAMADO DE CHRISTÃO NOVO E DE MULATO CHAMADO PEDRO DE TAL.

A OUTRO REQUERENTE APELLIDADO O PERALVILHO, QUE COSTUMAVA VENDER AS CAUSAS, E FURTOU AO POETA UM CAVALLO SELLADO.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LETRADOS

 
 

Porque com quatro ditinhos,
De conceitos estudados,
Não podem ser graduados
Em as ciências.
 

que hajam poetas ocultos
na sombra da poesia
fugindo da Luz do dia,
e que estes se chamem cultos!
 

no hábito de cacoetes,
que tem o meu amo entre asnetes
de falar agongorado.
        (o cavalo de Pedralvez)

 

  CONTRA OUTROS SATIRIZADOS DE VÁRIAS PENAS QUE O ATTRIBUHIRÃO AO

POETA, NEGANDO-LHE A CAPACIDADE DE LOUVAR.

 

 

 

1    Saiu a sátira má,
      e empurraram-ma os preversos
      que nisto de fazer versos
      eu só tenho jeito cá:
      noutras obras de talento
      eu sou só o asneirão,
      em sendo sátira, então
      eu só tenho entendimento.
 

 2    Acabou-se a Sé, e envolto
       na obra o Sete Carreiras
       enfermou de caganeiras,
       e fez muito verso solto:
       tu, que o Poeta motejas,
       sabe, que andou acertado
       que pôr na obra louvado
       é costume das Igrejas.
 

 3    Correm-se muitos carneiros
       na festa das Onze mil,
       e eu com notável ardil
       não vou ver os cavaleiros:
       não vou ver, e não se espantem,
       que algum testemunho temo,
       sou velho, pelo que gemo,
       não quero, que mo levantem.
 

4    Querem-me aqui todos mal,
      mas eu quero mal a todos,
      eles, e eu por nossos modos
      nos pagamos tal por qual:
      e querendo eu mal a quantos
      me têm ódio tão veemente
      o meu ódio é mais valente,
      pois sou só, e eles são tantos.
 

5    Algum amigo, que tenho,
      (se é, que tenho algum amigo)
      me aconselha, que, o que digo,
      o cale com todo o empenho:
      este me diz, diz-me estoutro,
      que me não fie daquele,
      que farei, se me diz dele,
      que me não fie aqueloutro.
 

6    O Prelado com bons modos
      visitou toda a cidade,
      é cortesão na verdade,
      pois nos visitou a todos:
      visitou a pura escrita
      o Povo, e seus comarcãos,
      e os réus de mui cortesãos
      hão de pagar a visita.
 

7    A Cidade me provoca
      com virtudes tão comuas:
      há tantas cruzes nas ruas,
      quantas eu faço na boca:
      os diabos a seu centro
      foi cada um por seu cabo,
      nas ruas não há um diabo,
      há os das portas a dentro.
 

8    As damas de toda a cor
      como tão pobre me vêem,
      as mais lástima me têm,
      as menos me têm amor:
      o que me tem admirado
      é, fecharam-me o poleiro
      logo acabado o dinheiro,
      deviam ter-mo contado.

 
 

A HUM IGNORANTE POETA, QUE POR SUAS LHE MOSTROU

HUMAS DECIMAS DE ANTONIO DA FONCECA SOARES.

 

 

Protótipo gentil do Deus muchacho,
poeta singular o mais machucho,
Que no mais levantado do Cartucho
Quis trazer o Pegaso por penacho.
 

Triunfante ao Parnaso entrou gavacho
Com décimas do métrico Capucho;
Se são suas merece um bom cachucho,
Que por boas conseguem bom despacho.
 

Mas o Sol, que na Aurora do desfecho
Os párpados abrindo vos viu micho,
Por ser vosso talento de relexo
 

Logo disse não éreis vós o bicho,
Que vos sente nas ancas este sexo,
Que vos limpe essas barbas cum rabicho.

 
 

DESCREVE A VIDA ESCOLASTICA.

 

Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.
 

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.
 

A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.
 

Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

 

Devem de ter-me aqui por um Orate
Nascido lá na gema do Lubeque,
Ou por filho de algum triste Alfaqueque
Daqueles, que trabucarn lá em Ternate.
 

Porque um me dá a glosar um desparate,
E quer, que se lhe imprima com crasbeque;
Outro vem entonando como um Xeque,
E fala pela língua de um mascate.
 

Anda aqui a poesia a todo o trote,
E de mim corre já como um lambique
Não sendo eu destilador brichote.
 

Outro vem, que casou em Moçambique,
E vive co'a razão de vinho, e brote,
Que o Sogro deu, e o Clérigo Cacique.

 
 

A HUM FULANO DA SYLVA EXCELENTE CANTOR, OU POETA.

 

 

Tomas a Lira, Orfeu divino, ta,
A lira larga de vencido, que
Canoros pasmos te prevejo, se
Cadências deste Apolo ouviras cá.
 

Vivas as pedras nessas brenhas lá
Mover fizeste, mas que é nada vê:
porque este Apolo em contrapondo o ré,
Deixa em teu canto dissonante o fá.
 

Bem podes, Orfeu, já por nada dar
A Lira, que nos astros se te pôs
Porque não tinha entre os dous Pólos par.
 

Pois o Silva Arião da nossa foz
Dessas sereias músicas do mar
Suspende os cantos, e emudece a voz.

 

MANDANDO GONÇALLO SOARES DA FRANCA SENDO AINDA ESTUDANTE

PEDIR AO POETA HUM LIVRO INTITULADO REPUBLICA GENTILICA EM

OCCASIÃO, QUE AMBOS ESTAVAM DESFAVORECIDOS DE SUAS

DAMAS, O POETA LHO MANDOU COM ESTA DÉCIMA.

 

 

Na República, Senhor,
de antigas gentilidades
achareis as Divindades
compadecidas do amor;
com que podereis melhor
desse mal, que padeceis
ter dó de mim, pois sabeis,
(que por meu mal, já se vê)
restaurar as leis da fé,
destruir do Amor as leis.

 

RESPOSTA QUE MANDOU AO POETA GONÇALLO SOARES DA

FRANCA DE REPENTE E PELOS MESMOS CONSOANTES.

 
 
 

Na república, Senhor,
não dessas gentilidades,
mas de vossas divindades,
triunfará o vosso amor:
com que então vereis melhor
no temor, que padeceis,
o quanto vencer sabeis,
que muitas vezes se vê
dos erros da lei da fé,
apurar do amor as leis.

 

A ESTA DÉCIMA RESPONDEO O POETA COM ESTE SONETO.

 

 

De repente, e cos mesmos consoantes
Não o fazem Poetas negligentes,
Um Apolo o fará Mestre das gentes,
E vós, Gonçalo, Sol dos Estudantes.
 

A princípios tão raros, e elegantes
As Musas já se prostrarn reverentes,
Querendo duplicar-vos muitas frentes,
Porque um laurel não são lauréis bastantes
 

Canta pois, doce espírito engenhoso,
Nunca a Lira deponhas, nem suspendas,
Porque das nove o coro soberano
 

Se põem no Sacro Monte deleitoso
Umas, porque Mecenas as acendas,
Outras, porque as emendes Mantuano.

 
 

AO DOUTOR ANTONIO RODRIGUES DA COSTA CAVALHEYRO DO HABITO

CHRISTO, CHEGANDO DE PORTUGAL COM HUM VESTIDO VERDE, E CANHÕES

DE VELUDO, O QUAL SE FEZ ABORRECIDO DO POETA POR MAO LETRADRO, E

JURISTA INTRUSO.

 
 
 

1    Quem vos viu na terra entrar
      com libréia de Lacaio
      verde cor de papagaio,
      que há de vos esperar?
      haveis de papagaiar,
      e fazer tal garalhada,
      que fique a gente pasmada
      com raiva, e sem paciência
      vendo a Casa da audiência
      reduzida em milharada.

 
          2    As mangas veludo inteiro,
                e a roupeta verde pano
                é libréia em todo o ano
                da grande casa de Aveiro:
                Vós sois tão vil malhadeiro,
                que não pode a minha idéia
                presumir, que tão má preia
                serviu tão alto solar,
                salvo vós por vos honrar
                lhe furtastes a Libréia.

 
3    Bem é verdade constante,
      que éreis na praça, e na feira
      um prólogo do Fronteira,
      pois lhe íeis sempre diante:
      que essa Libréia flamante
      fez ele para uma tropa
      de Lacaios fraca roupa
      em uns touros como uns ouros,
      e por seres contra os touros,
      vos lançou de si Europa.
 

4    Daqui a gente malvada
      vendo-vos na cara um zás,
      não cuida, que foi gilvaz,
      mas cuida, que foi cornada:
      vós fostes na Lacaiada,
      quando o Marquês à espanhola
      quantos touros vê, degola,
      e bem que andastes na praça,
      suposto que sois caraça,
      contudo não sois carola.
 

5    E como o parto suposto
      é delito atroz, e grave,
      tendes na cara esse cabe
      por lacaio pressuposto:
      dá-me grandíssimo gosto
      ver-vos ir peão peão
      co'a capa arrastando o chão,
      pois a crer, que sois me arrisco
      na cinza de São Francisco
      São Ivo da procissão.
 

 6   A ver-vos com sobrecéu
      fôreis em retrato fiel
      Rainha Santa Isabel
      sem rosas, mas com chapéu:
      ganhais por isso o troféu
      aos advogados, porquanto
      a todos excedeis tanto,
      que ainda dos condenados
      os demais são advogados,
      contudo vós sois o Santo.
 

7    Só vós sabeis, quanto a mim,
      os prelúdios, que fazeis,
      Casus est iste, dizeis,
      reverente: é grão Latim!
      dissera um vilão ruim
      tirado ant'onte das cabras
      tais latins, nem tais palavras?
      vá lavar-se ao mar Euxino
      o latim do Calepino,
      e o do Padre Manuel Abrás.
 

8     Ó lacaio alatinado,
       ó macarrônico ilustre,
       ó Jurista balaústre
       ao machado torneado!
       pois sois tão grande Letrado,
       vede, que dizem doutores,
       que os Rábulas ladradores
       por isso cães se chamavam,
       porque aos ouvidos ladravam
       dos míseros pleiteadores.
 

9     Cuidais, caraça de broma,
       que as Leis dos Imperadores
       se hão de levar a clamores,
       como a espada as de Mafoma?
       se a língua vos dá, que coma,
       pode dar-vos, que jejue,
       e bem que a pança se atue
       com gritos, pode a Bahia
       acordar sisuda um dia,
       e é força descontinue.
 

10    Com homens, que têm por pulha
        tomar-vos por seu Lacaio,
        nem heis de ser papagaio,
        nem menos heis de ser grulha:
        navegai por outra agulha,
        e atai melhor vossos molhos,
        porque em chegando aos abrolhos
        a ressaca muita, ou pouca,
        se não tapares a boca,
        há de fechar-vos os olhos.
 

 AO MESMO LETRADO QUE HAVENDO ARTICULADO CONTRA HUMA PARTE EM

TOTAL PERJUIZO DE HUMA HERANÇA, ESTA HUMA NOYTE LHE METTEO NA

CABEÇA HUMA PANELLA DE MERDA, DIZENDO, QUE ERAM CAMARÕES.O

POETA LHE CHAMA AQUI GILVAZ, PORQUE TINHA HUMA CUTILADA NA CARA.

 
 
 

1    Estava o Doutor Gilvaz
      à margem da livraria,
      cuidando, no que faria,
      e estudando, o que não faz:
      quando uma parte sagaz
      lhe entrou com certas questões,
      e ao pagar-lhe das razões
      lhe transformou no bofete
      a panela em capacete,
      e em câmara os camarões.

 

          2    Uns camarões em panela
                era o mimo, e o presente,
                que aquela parte insolente
                levava ao Doutor cabrela:
                ele arremessou-se a ela,
                mas mostrou-lhe o seu pecado,
                que do ofício de advogado,
                em que estriba o seu sustento,
                era aquele um provimento
                pela Câmara passado.
 
 

3    Porque da Câmara era,
      diz a Parte, que o levara,
      que reverente o beijara,
      e na cabeça o pusera:
      que a panela se escorrera,
      e da cara mascarada
      saíra tal enxurrada,
      que o Doutor nesta ocasião
      não cegou de privação,
      ficou cego de privada.

 
 

 4    Deste sucesso infeliz
       logo, e a todo o correr
       teve notícia a Mulher
       por avisos do nariz:
       e posto que ver não quis
       tal cara com tal salmoura,
       viu na cabeleira cara,
       que a afeia, e a desdoura,
       que adequada a tornara
       mais suja, porém mais loura.

 

 5    Por evitar maior perda,
       água água pediu logo,
       senão para tanto fogo,
       água para tanta merda:
       lavou-lhe cabelo, e cerda,
       lavou-lhe roupa, e vestido,
       e como o tinha sentido,
       disse medrosa, a velhaca,
       vede vós toda esta caca,
       não me cheira bem, Marido.

 

  6    E porque mais água pede,
        ela lhe disse, isto basta,
        porque esta merda é de casta,
        que se a mais bolem, mais fede:
        ide para a rua, e vede
        a razão, com que vos move,
        na história fazei-vos novo,
        mostrai-vos leve na perda,
        porque esta merda foi merda,
        de que gostou todo o povo.
 

7      A Parte andou temerária,
        e com sobeja ousadia,
        não faria valentia,
        mas fez causa necessária:
        vós como grande alimária
        no pleito lhe dareis perda,
        pois um artigo a deserda,
        e ela já pode afirmar,
        que me inventou deserdar
        pela mesma boca merda.

 

 8    Que era de engenho notório
       dá grandíssima suspeita,
       pois deixa câmara feita,
       o que foi sempre escritório:
       mudai logo o consistório
       como Letrado de Lampa,
       que já hoje o juízo escampa;
       mas diz a gente travessa,
       que vós fazíeis-lhe a peça,
       mas ele amou-vos a trampa.

 
 

 9    Quem pôs tal merda em tal capa,
       tenho por ponto assentado,
       que morrerá excomungado,
       se não recorrer ao Papa:
       vós sois Fidalgo de chapa
       desde o Brasil até Europa,
       pois quando a merda vos topa,
       tanto fedeis, que ao nariz
       do Moço da Câmara ides
       a Moço de guarda-roupa.

 
 

 10      Se vos não houve respeito
          (que é cousa, em que se repara)
          nem à cruz da vossa cara,
          nem à cruz, que está no peito:
          o que presumo, e suspeito,
          é, que nunca está seguro
          de tanto cabungo impuro
          cruzeiro em monturo alçado,
          com que o vosso está cagado
          por cruz posta em um monturo.

 

 11      A Parte não andou lerda
          em vir com panela cheia,
          porque a mim me coube meia
          panela com meia merda:
          não quis a fortuna esquerda,
          que mos dê tão má maré
          desigualar-nos, mais que
          no sentimento, e respeito,
          pois vós tomaste-la a peito,
          porém eu dei-lhe c'o pé.

 
 

12    Não temais, que a Parte lusa,
        porque leva a mão ganhada,
        que se ela fez panelada,
        nós faremos garatusa:
        ela deu assunto à Musa,
        que já dormia, e roncava,
        pois quando agora acordava,
        viu, que pelo triste caso
        té a fonte do Parnaso
        com tanta merda inundava.
 

AO MESMO LETRADO MORDENDO, E ABOCCANHANDO AS LETRAS

DO POETA; E ELLE LHE AMEAÇA SEUS ATREVIMENTOS.

 

1    Vós não quereis, Cutilada,
      tomar emenda, e calar,
      morrendo andais por levar
      outra na outra queixada:
      quereis a cara cruzada,
      gilvazada a não quereis,
      pois tudo conseguireis,
      e se a vossa fé vos salva,
      no calvário dessa calva
      três cruzes postas vereis.
 

2    Na capinha, ou no capuz,
      tendes a cruz de cristão,
      na cara a do mau ladrão,
      e inda vos falta outra cruz:
      eu vos juro por Jesus,
      que por fazer o ternário
      por modo extraordinário
      à outra vos hei de pôr,
      porque do monte Tabor
      vades ao monte Calvário.

3    Ao Pretório ireis levado,
      onde a gentinha vulgar
      crucifige há de clamar,
      e heis de sair condenado:
      um negro Simão chamado
      será o vosso Cireneu,
      e na fôrma do chapéu
      um pau vos há de encaixar,
      e então vos hão de jogar
      o adivinha, quem te deu.
 

 4    Ireis entre dous Teatinos
       vendo o vosso enterramento,
       tendo o maior desalento
       na cantiga dos Meninos:
       que piedosos, e benignos
       ora por ele dirão,
       e vós nesta ocasião
       revirando os bugalhitos,
       os Padres serão mosquitos,
       e o mais povo confusão.

 

 5    Irá o porteiro diante
       pelo seu papel cantando,
       e dirá de quando em quando
       justiça a este Bargante:
       manda El-Rei, que num instante
       se lhe tire fala, e vista,
       e se lhe faça com vista;
       justiça, que manda El-Rei
       fazer a um homem sem lei,
       por se meter a legista.

 

 6    Não heis de então requerer,
       e muito menos gritar,
       pois por gritos de advogar
       ide-vos a padecer:
       deitar pleitos a perder
       a puros gritos e zurros
       botar na terra sussurros,
       de que sois grande Doutor
       na forca vos hão de pôr
       a vós, mais a vossos burros
 

A CERTO LETRADO QUE SENDO HOMEM DE NAÇÃO AFFECTAVA JACOBICES

CORRENDO A VIA SACRA COM OS BRAÇOS ABERTOS.

 
 

Deixe, Senhor Beato, a Beati-,
Que se é via do Céu a via sa-
Ninguém o quer já crer nesta cidá-
Porque é você da casta Israeli-.
 

Quando devoto corre a sacra vi-
E a cada pé de cruz estende os bra-
Parece um entremez da Lei da gra-
Que a toda a cristandade causa ri-.
 

Deixe-se disso, e trate do escritó-
Que esse lhe dá de render o pão da me-,
E o céu também, se com bom zelo advó-.
 

Mas se quer, que por Santo o reconhê-
E na paixão de Deus faz o graciô-,
Embolsará as risadas da comé-.
 

 

A CERTO LETRADO FULANO COELHO, CASANDO-SE COM HUMA MOÇA,

QUE SE DIZIA SER TAL COMO PUBLICA A MESMA SATYRA.

 
 
 

1    Este, que de Nise conto,
      ouçam, que é bem raro caso,
      pois dizem, calça seu vaso
      (com ser tão grande) um só ponto:
      casou com Fábio, que é tonto,
      e eu folgo por vida minha,
      porque é cousa bem sabida
      que andavam com grão cuidado
      o Moço por ela assado,
      e ela por ele cozida.
 

 2   Por dar alívio a seu peito
      no mar de amor, lhe convinha
      a Fábio passar a linha,
      porém não passar o estreito:
      mas não haverá conceito,
      que repare a Fábio amante,
      pois hoje a vela constante
      (quando em deleites se arrulha)
      o rumo serve de agulha
      como astuto navegante.
 

 3    Mais direito do que um fuso
       Fábio com manha seleta
       no vaso por linha reta
       lhe encaixou o membro obtuso:
       mas de dizer não me escuso,
       que nisto tinha interesse,
       pois caso estranho parece,
       e coisa rara que Fábio
       sendo Astrólogo tão sábio
       o Virgo não conhecesse.
 

4     Andou prudente, e alentado
       nesta empresa, a que aspirava
       pois de Nise o vaso estava
       com linhas fortificado:
       avançou-o denodado,
       donde claramente infiro
       (não cuide alguém, que isto é conto)
       que a Moça lhe pôs o ponto?
       para ele fazer o tiro.
 

5     Em casar com Nise bela
       nada Fábio se desonra,
       que nisto de pontos d'honra
       ninguém sabe mais do que ela:
       e assim com gentil cautela
       que ambos ganharam (suspeito),
       a vida num mesmo efeito,
       sem que pareça tolice,
       com os pontos de honra Nice,
       Fábio com os de direito.

 

 6    Se Fábio ocioso alguma hora
       de Nise, por ser sandeu
       as linhas tristes torceu
       alegre as destorce agora:
       embainhe o membro embora
       no vaso, pois nisto acerta;
       mas é bom, que esteja alerta,
       não se fira nesta bulha
       porque bainha de agulha
       é força, que esteja aberta.

7     Bem é, liberal se ostente
       em casar-se Nise bela,
       dando-se aos mais donzela
       pois dando-se a muitos ela
       hoje um recebe somente:
       ter-me-ão por maldizente,
       mas não tenho a culpa eu,
       que sou mui cativo seu:
       a verdade aqui só conto,
       sem lhe acrescentar um ponto
       dos que ela no vaso deu.

 

 AO MESMO ASSUMPTO E AOS MESMOS SUGEYTOS

  SUCCEDENDOLHE O QUE DIZ.

 
 

Casou-se nesta terra esta, e aquele,
Aquele um gozo filho de cadela,
Esta uma donzelíssima donzela,
Que muito antes do parto o sabia ele.

Casaram por unir pele com pele,
E tanto se uniram, que ele com ela
Com seu mau parecer ganha para ela,
Com seu bom parecer ganha para ele.
 

Deram-lhe em dote muitos mil cruzados
Excelentes alfaias, bons adornos,
De que estão os seus quartos bem ornados:
 

Por sinal, que na porta, e seus contornos
Um dia amanheceram bem contados
Três bacios de merda, e dous de cornos.

 

AO MESMO LETRADO METTIDO EM AMIZADES COM O Pe. DAMASO, A QUEM

PRATICAVA OS TEMPOS DA VOCACIA, SATYRISA O POETA A AMBOS.

 

 

Deu agora o Frisão em requerente
Fiado ern seu saber, e boas artes.
Será por essa via homem de partes,
E irá (se for à queima) por agente.
 

Má hora, que vá ele por paciente,
Sendo agente de tantos Durandartes,
Que atacando-lhe o Ventre a puros fartes,
Come-os ele, mas não lhe põe o dente.
 

Neste ofício se val da companhia
De um moderno, que em vez de pêlo Louro
Penteia as tranças da carneceria.
 

Doutor com borla de osso? mau agouro:
Adonde pode achar-se? Na Bahia,
Que de um manso Coelho faz um touro.
 

A MANUEL ROIZ DE FIGUEYREDO, QUE SENDO REQUERENTE

SE POZ COM PRESUNÇÕES DE LETRADO, A QUEM CONCORRIA

GRANDE PARTE DOS PLEYTEANTES.

 
 

1    Letrado, que cachimbais,
      quando estudais nos Jasões
      e assentais as conclusões
      com as letras garrafais:
      grande riso me causais,
      quando no vosso cetial
      dais audiência geral,
      e as Partes aconselhando,
      todas ides defumando
      porque tornem ao pombal.
 

2    Vós graduado a borrões
      em uma universidade
      que fundou nesta cidade
      o braço dos asneirões:
      fazeis tais alegações
      nas lides, causas, e pleitos,
      que vos dão alguns sujeitos,
      que afirmarn letrados velhos
      fedem os vossos conselhos
      tanto, como vossos feitos.

 

3    O que me vira o miolo
      é o gabão, que trazeis,
      que um Bártolo pareceis,
      não sendo senão Bartolo:
      comeis a queijada, e o bolo
      desde a Baia ao Cairu;
      eu vos peço, meu Mandu,
      que se usais das vossas artes,
      comendo das vossas partes,
      que a primeira seja o cu.
 

4    Não vos culpo, asno barbado,
      senão a esta simples gente,
      que de um tão mau requerente
      quer formar um bom letrado:
      vós pondes todo o cuidado
      em manter a vida cara,
      e assim eu vos não culpara,
      senão ao néscio, que quer
      comprar-vos o parecer,
      tendo vós tão torpe cara.

 

5    Irmão, não vos acelere
      querer subir de repente,
      que o cargo de requerente
      vosso talento o requere:
      assim o céu vos prospere,
      que da vocacia honrada
      torneis à vida passada,
      que quem se entrega aos Jasões
      comer pode os camarões
      que comeu o Cutilada.

 

 6    Não é o advogar de nós,
       Santos são, os advogados,
       dai ao demo os maus letrados,
       e o primeiro sejais vós:
       bem vistes o caso atroz,
       que depois de Ave-Marias
       sucedeu, há quatro dias,
       ardendo os vossos papéis,
       porque vós, e eles ardeis
       pelas vossas heresias.

 

 AO TABELIÃO MANUEL MARQUES TENDO SIDO

  ESPADEYRO HAVIA POUCO.

 

 

Há cousa, como ver o Sô Mandu
Mui prezado de ser Tabelião
Na Ilha descendente de um vilão,
E cá feito um Monarca do Pegu.
 

Aspecto reverendo, feio, e cru
Trombeteiro de sua geração,
E encaixando o barrete, e seu roupão
Representa um fatal Jacó Baru.
 

Que ignore este enfim seu nascimento,
Como o faz no Brasil qualquer Brichote,
Vade em paz, porque imita mais de cento:
 

Mas que sendo inda há pouco espadeirote,
Queira ser como Bruto grão talento;
Será: que manhas tem de Dom Quixote.

A OUTRO REQUERENTE DA MESMA CIÊNCIA E DA MESMA PRESUNÇÃO, MAS

INFAMADO DE CHRISTÃO NOVO E DE MULATO CHAMADO PEDRO DE TAL.

 

 

1    Ó Galileu Requerente,
      Macabeu solicitante,
      quem vos deu tamanho guante,
      tendo-vos de gozo o dente?
      Se me dais cá por agente,
      sois homens de tantas partes,
      que me ganhais estandartes:
      eu zombo de vossos pleitos,
      porque são vossos direitos
      de Pedro de malas artes.

 

2    Latis, e cuidais, que eu morro
      de ouvir o vosso latir,
      e eu zombo de vê-lo ouvir,
      porque quem late, é cachorro:
      vós latis, e eu me desforro
      dando-vos estas pedradas,
      que quando um cão nas estradas
       late ao manso caminheiro,
       assentando-lhe o cacheiro
       deixa as partes sossegadas.

 
 

3    Guardais-vos Israelita,
      que se me chega a mostarda,
      talvez, que a casa vos arda,
      porque é casa de mesquita:
      se à força da jeribita
      tendes a idéia turbada,
      com que vos não dais de nada,
      vede, que a minha Camena
      como vos corta co'a pena
      vos pode cortar co'a espada.

 
 

4    Dizem, que um Hebreu vos fez
      entre o Porto, e entre Judá,
      por isso não falais cá
      nem hebreu, nem português:
      temo, que caiais de vez
      neste, ou noutro qualquer porto,
      porque culpado no Horto,
      e do Egito no desterro,
      não me podeis pegar, Perro,
      como eu a vós, Perro morto.

 
 

 5    Quem vos meteu, canzarrão,
       co demo, que vos atiça,
       a ser membro da justiça,
       se não sois membro cristão?
       corre de vós opinião,
       que bem pouco vos aflige,
       que o mais a que se dirige
       o vosso negro saber,
       é somente o requerer
       crucifige, crucifige.

 

  6    Dirigi pois os sapatos
        caminho da terra Santa,
        onde heis de fincar a planta
        no Pretório de Pilatos:
        Lá tão sacrílegos tratos,
        como em pretório fiel
        fareis, Escriba cruel,
        porque vejais entre os cães,
        que há na Bahia escrivães,
        e Escribas em Israel.

A OUTRO REQUERENTE APELLIDADO O PERALVILHO, QUE COSTUMAVA

VENDER AS CAUSAS, E FURTOU AO POETA UM CAVALLO SELLADO.

 

 

1    Peralvilho: o Peralvilho
      pudera de vos tomar
      lições de peralvilhar,
      para ser reperalvilho:
      vós sereis muito bom filho,
      como eu entendo em rigor,
      mas sois mau procurador,
      porque aqui para entre nós,
      em procurar para vós
      sois contra procurador.

 

2    Procurastes ao traidor,
      e eu fiquei desenganado,
      que fostes já procurado
      para mau procurador;
      lá entregou ao Senhor
      um Judas Escariote,
      vós, Peralvilho Quixote,
      entregastes como acinte
      ao vosso constituinte
      como a simples sacerdote.

 

3    Judas vendeu por dinheiro
      a seu Mestre, a seu Rabi,
      a vós nem maravedi
      vos rendeu ser mau vendeiro:
      Judas teve o paradeiro
      da sua dor, e fadiga
      numa figueira inimiga,
      e vós de puro coitado
      para seres enforcado,
      nem figueira achais, nem figa.

 
 

4    As custas me heis de pagar
      em ser tido por velhaco,
      e por velhaco, e por caco
      vos hei de os cacos quebrar:
      caco não há de ficar
      no vosso casebre inteiro
      e por velhaco embusteiro
      a vossa casa velhaca
      terão por caco de caca,
      e a vós por caco, e caqueiro.

 
 

5    Sois um simples, e um coitado,
      e a mim nada me acobarda,
      pois furtando-me uma albarda
      vós ficastes o albardado:
      ficai agora ensinado
      a andar pelo barbicacho,
      com focinho triste, e baixo,
      vendo, que como ruim
      me furtastes um rocim
      para cair dele abaixo.
 

6    Por traidor, e por falsário
      a sentença vos condena,
      e para dar-vos a pena,
      foi curto o vocabulário:
      esgotou-se o Calendário
      das nossas execuções,
      e por encurtar razões
      temi, que no caso atroz
      cheirasses ao duro algoz
      os fundilhos dos calções.

 

 

 

 

  

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística

 

Apoio

CNPq / CAPES

UFSC / PRPG