LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 
HOMENS DE BEM

A MORTE DO GOVERNADOR MATHIAS DA CUNHA.

AO MESMO ASSUMPTO.

AO MESMO ASSUMPTO.

DISCRIÇÃO, ENTRADA, E PROCEDIMENTO DO BRAÇO DE PRATA ANTONIO DE SOUZA DE MENEZES GOVERNADOR DESTE ESTADO.

SUBTILEZA COM QUE O POETA SATYRIZA À ESTE GOVERNADOR.

A PRIZÃO QUE FEZ ESTE GOVERNADOR À SEU CREADO O BRAÇO FORTE.

A DESPEDIDA DO MAO GOVERNO QUE FEZ ESTE GOVERNADOR.

SUCCEDE A ESTE GOVERNADOR O MARQUEZ DAS MINAS COM SEU FILHO O CONDE DO PRADO, DESFAZENDO TODAS AS SUAS OBRAS, E MANDANDO VIR OS PRINCIPAES DA BAHIA DO DESTERRO, EM QUE ANDAVÃO, PELA MORTE, QUE OUTROS DERAM AO ALCAYDE MÔR FRANCISCO TELLES.

A SEU FILHO O CONDE DO PRADO, DE QUEM ERA O POETA BEM VISTO, ESTANDO RETIRADO NA PRAYA GRANDE, LHE DÁ CONTA DOS MOTIVOS, QUE TEVE PARA SE RETIRAR DA CIDADE, E AS GLORIAS, QUE PARTICIPA NO RETIRO.

AO CONDE DO PRADO EMBARCANDO-SE PARA PORTUGAL EM COMPANHIA DE SEU PAY, DEPOlS DE TER ACABADO O TEMPO DE SEU GOVERNO LHE FAZ O POETA ESTAS SAUDOSAS DESPEDIDAS.

A MORTE DESTE CONDE SUCCEDIDA NO MAR QUANDO SE RETIRAVA PARA LISBOA.

AO MESMO ASSUMPTO.

AO MESMO ASSUMPTO.

AO MESMO ASSUMPTO.

AO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GLZ. DA CAMARA COUTINHO EM DIA DE REYS OBSEQUEA O POETA PEDINDOLHE EM NOME DE HUM AMIGO HUMA DAQUELLAS ESMOLLAS, QUE SUA MAGESTADE CONSIGNA DO REAL THESOURO CADA HUM ANNO PARA OS HOMENS DE BEM, A QUE CHAMÃO MERCÉ ORDINARIA.
 

EMPENHA O POETA PARA CONSEGUIR ESTA MERCÉ AO CAPITÃO DA GUARDA LUIZ FERREYRA DE NORONHA SEU PARTICULAR CRIADO.
 

A PEDITORIO DOS PRETOS DE NOSSA SENHORA DO ROSARIO FEZ O POETA O SEGUINTE MEMORIAL PARA O MESMO GOVERNADOR, IMPETRANDO LICENÇA PARA SAIREM MASCARADOS À HUMA OSTENTAÇÃO MILITAR, A QUE CHAMAVÃO ALARDE.

OUTRO MEMORIAL POR HUM SEU SOBRINHO, QUE DESEJAVA SENTAR PRAÇA DE SOLDADO.

AO MESMO GOVERNADOR SUBTILMENTE REMOQUEIA O POETA AO DESCUIDAR-SE DE SUA HONRADASUPPLICA SOBRE A MERCÉ ORDINÁRIA, LEMBRANDOLHE, QUE Á DERA A HUM SOLDADO RIDICULOCHAMADO O FARIA, POR QUEM NAQUELLE TEMPO CANTAVÃO OS CHULOS "A MULHER DO FARIA VAY PARA ANGOLLA".

TORNA O POETA A INVOCAR LUIZ FERREYRA DE NORONHA.

ATHE AQUI NÃO ERA AINDA VINDA A MERCÉ ORDINÁRIA.E NO DIA, EM QUE O GOVERNADOR FEZ ANNOS LHE MANDOU O SEGUINTE SONETO.

A D. JOÃO DALENCASTRE VINDO DO GOVERNO DE ANGOLLA, ASSISTINDO NO MESMO PALACIO, QUEIXANDO-SE, DE QUE O POETA O NÃO VISITASSE, E PEDINDOLHE HUMA SATYRA POR OBSEQUIO.

A JOÃO PLZ. DA CAMARA COUTINHO FILHO DO MESMO GOVERNADOR TOMANDO POSSE DE HUMA GINETA EM DIA DE S. JOÃO BAPTISTA, E LHE ASSISTIO DE SARGENTO D. JOÃO DE LANCASTRO SEU THIO VINDO DO GOVERNO DE ANGOLLA.

AO MESMO ASSUMPTO.

GENEALOGIA QUE O POETA FAZ DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DESABAFANDO EM QUEYXAS DO MUYTO, QUE AGUARDAVA NA ESPERANÇA DE SER DELLE FAVORECIDO NA MERCÉ ORDINARIA.

CONTINUA O POETA SATYRIZANDO-O COM O SEO CRIADO LUIZ FERREYRA DE NORONHA.

AOS MESMOS AMO, E CRIADO.

PROSSEGUE O MESMO ASSUMPTO.

REPETE A MESMA SATYRA.

AO MESMO ASSUMPTO.

DIZ MAIS COM O MESMO DESENFADO:

DEDICATORIA ESTRAVAGANTE QUE O POETA PAZ DESTAS OBRAS AO MESMO GOVERNADOR SATYRIZADO.

APOLOGIA CAVILLOSA EM DEFENÇA DO MESMO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ.

DESCANTA O POETA AGORA A DESPEDIDA DESTE GOVERNADOR EM METAPHORA DE CHULARIAS, QUE SE UZAVAM NAQUELLE TEMPO. POR DIZER-SE VINHA RENDÊLLO D. JOÃO DE ALENCASTRE SEU CUNHADO.

RETRATO QUE FAZ ESTRAVAGANTEMENTE O POETA, AO MESMO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DA CAMARA NA SUA DESPEDIDA.

A D. JOÃO D'ALENCASTRE TOMANDO POSSE DO SEO GOVERNO OBSEQUEA O POETA COM AS QUEYXAS DO SEU ANTECESSOR, E CUNHADO.

AO MESMO GOVERNADOR CHEGANDOLHE A NOVA DA MORTE DE SUA SOGRA, A QUEM DEYXOU CONVALECIDA DA MESMA ENFERMIDADE, DE QUE MORREO DEPOIS.

LOUVA O SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEYRA RAVASCO A HUM SUGEYTO, QUE FOY À COSTA DA MINA E LÁ FEZ HUMA ILLUSTRE ACÇÃO.

RESPONDE O POETA A BERNARDO VIEYRA RAVASCO PELOS MESMOS CONSOANTES POR AQUELLA PESSOA A QUEM SE FEZ O OBSEQUIO.

CONTINUA BERNARDO VIEYRA RAVASCO NO SEU PROPOSITO PELOS MESMOS CONSOANTES.

AO MESMO SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEYRA PEDINDO HUMAS OITAVAS AO POETA, EM TEMPO, EM QUE FAZIA ANNOS CONVALESCENDO DE HUMA GRAVE DOENÇA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

HOMENS DE BEM

 

 

... homem de bem...

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

o roubo, a injustiça, a tirania.

 

 

 

 

A MORTE DO GOVERNADOR MATHIAS DA CUNHA.

 

 

Ó caso o mais fatal da triste sorte!

Ó terrível pesar! ó dor imensa!

Quem viu, que em breves dias de doença

Acabasse valor, que era tão forte!

 

 

Quem viu prostrar-se a gala de Mavorte,

Que hoje em cinza se ve à morte apensa!

Que como se prostrou, logo a licença

Concedeu livremente ousada à morte.

 

 

Já se vê o valor, que esclarecido

Foi, em urnas de pedra sepultado

Do sujeito mais grave, e entendido.

 

 

À Parca rigorosa sujeitado,

Acabado já, e em cinzas consumido

o esforço, que se viu mais alentado.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

 

Teu alto esforço, e valentia forte

Tanto a outro nenhum valor iguala,

Que teve o céu cobiça de lográ-lo,

Que teve inveja de vencê-la a morte.

 

 

O céu veio a lográ-la, mas por sorte,

Que por poder não pôde conquistá-la;

A morte por haver de contrastá-la

Vigor de lei tomou, e deu-lhe o corte.

 

 

Prêmios, que mereceste, e nunca viste,

Todos com teu valor os desprezaste,

E com os merecer lhe resististe.

 

 

O cargo, que na vida não lograste,

Esse o mofino é, órfão, e triste,

Pois te não falta a ti, tu lhe faltaste.

 

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

 

Quem há de alimentar de luz ao dia?

Quem de esplendor ilustrará a Nobreza?

Quem há de dar lições de gentileza

A toda a gentileza da Bahia?

 

 

Já feneceu do mundo a galhardia,

Melancólica jaz a natureza,

Vendo em pó reduzida a fortaleza,

E em cinzas desatada a fidalguia.

 

 

O Marte (digo), que ao combate expunha

O peito sem temor, que ao mundo assombra,

Sendo da paz terror, da guerra espanto.

 

 

Foi este o Senhor Matias da Cunha,

Que hoje nos dá tornado em fria sombra

Ao discurso pesar, aos olhos pranto.

 

 

 

 

DISCRIÇÃO, ENTRADA, E PROCEDIMENTO DO BRAÇO DE PRATA

ANTONIO DE SOUZA DE MENEZES GOVERNADOR DESTE ESTADO.

 

 

Oh não te espantes não, Dom Antonio,

Que se atreva a Bahia

Com oprimida voz, com plectro esguio

Cantar ao mundo teu rico feitio,

Que é já velho em Poetas elegantes

O cair em torpezas semelhantes.

 

 

Da Pulga acho, que Ovídio tem escrito,

Lucano do Mosquito,

Das Rãs Homero, e destes não desprezo,

Que escreveram matérias de mais peso

Do que eu, que canto cousa mais delgada

Mais chata, mais sutil, mais esmagada.

 

 

Quando desembarcaste da fragata,

Meu Dom Braço de Prata,

Cuidei, que a esta cidade tonta, e fátua

Mandava a Inquisição alguma estátua

Vendo tão espremida salvajola

Visão de palha sobre um Mariola.

 

 

O rosto de azarcão afogueado,

E em partes mal untado,

Tão cheio o corpanzil de godolhões,

Que o julguei por um saco de melões;

Vi-te o braço pendente da garganta,

E nunca prata vi com liga tanta.

 

 

O bigode fanado feito ao ferro

Está ali num desterro,

E cada pêlo em solidão tão rara,

Que parece ermitão da sua cara:

Da cabeleira pois afirmam cegos,

Que a mandaste comprar no arco dos pregos.

 

 

Olhos cagões, que cagam sempre à porta,

Me tem esta alma torta,

Principalmente vendo-lhe as vidraças

No grosseiro caixilho das couraças:

Cangalhas, que formaram luminosas

Sobre arcos de pipa duas ventosas.

 

 

De muito cego, e não de malquerer

A ninguém podes ver;

Tão cego és, que não vês teu prejuízo

Sendo cousa, que se olha com juízo:

Tu és mais cego, que eu, que te sussurro,

Que em te olhando, não vejo mais que um burro.

 

 

Chato o nariz de cocras sempre posto:

Te cobre todo o rosto,

De gatinhas buscando algum jazigo

Adonde o desconheçam por embigo:

Até que se esconde, onde mal o vejo

Por fugir do fedor do teu bocejo.

 

 

Faz-lhe tal vizinhança a tua boca,

Que com razão não pouca

O nariz se recolhe para o centro

Mudado para os baixos lá de dentro:

Surge outra vez, e vendo a bafarada

Lhe fica a ponta um dia ali engasgada.

 

 

Pernas, e pés defendem tua cara:

Valha-te; e quem cuidara,

Tomando-te a medida das cavernas

Se movesse tal corpo com tais pernas!

Cuidei, que eras rocim das alpujarras,

E já frisão te digo pelas garras.

 

 

Um casaquim trazias sobre o couro,

Qual odre, a quem o Touro

Uma, e outra cornada deu traidora,

E lhe deitou de todo o vento fora;

Tal vinha o teu vestido de enrugado,

Que o tive por um odre esfuracado.

 

 

O que te vir ser todo rabadilha

Dirá que te perfilha

Uma quaresma (chato percevejo)

Por Arenque de fumo, ou por Badejo:

Sem carne, e osso, quem há ali, que creia,

Senão que és descendente de Lampreia.

 

 

Livre-te Deus de um Sapateiro, ou Sastre,

Que te temo um desastre,

E é, que por sovela, ou por agulha

Arme sobre levar-te alguma bulha:

Porque depositando-te à justiça

Será num agulheiro, ou em cortiça.

 

 

Na esquerda mão trazias a bengala

ou por força, ou por gala:

No sovaco por vezes a metias,

Só por fazer enfim descortesias,

Tirando ao povo, quando te destapas,

Entonces o chapéu, agora as capas.

 

 

Fundia-se a cidade em carcajadas,

Vendo as duas entradas,

Que fizeste do Mar a Santo Inácio,

E depois do colégio a teu palácio:

O Rabo erguido em cortesias mudas,

Como quem pelo cu tomava ajudas.

 

 

Ao teu palácio te acolheste, e logo

Casa armaste de jogo,

Ordenando as merendas por tal jeito,

Que a cada jogador cabe um confeito:

Dos Tafuis um confeito era um bocado,

Sendo tu pela cara o enforcado.

 

 

Depois deste em fazer tanta parvoíce,

Que inda que o povo risse

Ao princípio, cresceu depois a tanto,

Que chegou a chorar com triste pranto:

Chora-te o nu de um roubador de falso,

E vendo-te eu direito, me descalço.

 

 

Xinga-te o negro, o branco te pragueja,

E a ti nada te aleija,

E por teu sensabor, e pouca graça

És fábula do lar, riso da praça,

Té que a bala, que o braço te levara,

Venha segunda vez levar-te a cara.

 

 

 

 

SUBTILEZA COM QUE O POETA SATYRIZA À ESTE GOVERNADOR.

 

 

Tempo, que tudo trasfegas,

fazendo aos peludos calvos,

e pelos tornar mais alvos

até os bigodes esfregas:

todas as caras congregas,

e a cada uma pões mudas,

tudo acabas, nada ajudas,

ao rico pões em pobreza,

ao pobre dás a riqueza,

só para mim te não mudas.

 

 

Tu tens dado em mal querer-me,

pois vejo, que dá em faltar-te

tempo só para mudar-te, s

e é para favorecer-me:

por conservar-me, e manter-me

no meu infeliz estado,

até em mudar-te hás faltado,

e estás tão constante agora,

que para minha melhora

de mudanças te hás mudado.

 

 

Tu, que esmaltas, e prateias

tanta gadelha dourada,

e tanta face encarnada

descoras, turbas, e afeias:

que sejas pincel, não creias,

senão dias já passados;

mas se esmaltes prateados

branqueiam tantos cabelos,

como, branqueando pêlos,

não me branqueias cruzados?

 

 

Se corres tão apressado,

como paraste comigo?

corre outra vez, inimigo,

que o teu curso é meu sagrado:

corre para vir mudado,

não pares por mal de um triste:

porque, se pobre me viste,

paraste há tantas auroras,

bem de tão infaustas horas

o teu relógio consiste.

 

 

O certo é, seres um caco,

um ladrão da mocidade,

por isso nesta cidade

corre um tempo tão velhaco:

farinha, açúcar, tabaco

no teu tempo não se alcança,

e por tua intemperança

te culpa o Brasil inteiro,

porque sempre és o primeiro

móvel de qualquer mudança.

 

 

Não há já, quem te suporte;

e quem armado te vê

de fouce, e relógio, crê,

que és o percussor da morte:

vens adiante de sorte,

e com tão fino artifício,

que à morte forras o ofício;

pois ao tempo de morrer,

não tendo já que fazer,

perde a morte o exercício.

 

 

Se o tempo consta de dias,

que revolve o céu opaco,

como tu, tempo velhaco,

constas de velhacarias?

não temas, que as carestias,

que de ti se hão de escrever,

te darão a aborrecer

tanto as futuras idades,

que, ouvindo as tuas maldades,

a cara te hão de torcer.

 

 

Se, porque penas me dês,

paras cruel, e inumano,

o céu santo, e soberano

te fará mover os pés:

esse azul móvel, que vês,

te fará ser tão corrente,

que não parando entre a gente,

preveja a Bahia inteira,

que há de correr a carreira

com pregão de delinqüente.

 

 

 

 

A PRIZÃO QUE FEZ ESTE GOVERNADOR À SEU

CREADO O BRAÇO FORTE.

 

 

Preso entre quatro paredes

me tem Sua Senhoria

por golotão de despachos,

por fundidor de mentiras.

Dizem, que sou um velhaco,

e mentem por vida minha,

que o velhaco era o Governo,

e eu sou a velhacaria.

Quem pensara, e quem dissera,

quem cuidara, e quem diria,

que um braço de prata velha

pouca prata, e muita liga!

Tanto mais que o Braço Forte

fosse forte, que poria

um cabo de calabouço,

e um soldado de golilha!

Porém eu de que me espanto,

se nesta terra maldita

pode uma onça de prata

mais que dez onças de alquímia.

Quem me chama de ladrão,

erra o trincho à minha vida,

fui assassino de furtos,

mandavam-me, obedecia.

Despachavam-me a furtar;

eu furtava, e abrangia,

e são boas testemunhas

inventários, e partilhas.

Eu era o ninho de guincho,

que sustentava, e mantinha

com suor das minhas unhas

mais de dez aves rapinhas.

O Povo era, quem comprava,

o General, quem vendia,

eu triste era o corretor

de tão torpes mercancias.

Vim depois a enfadar,

que sempre no mundo fica

aborrecido o traidor,

e a traição muito bem vista.

Plantar de fora o ladrão,

quando a ladroíce fica,

será limpeza de mãos,

mas de mãos mui pouco limpas.

Eles cobraram o seu

dinheiro, açúcar, farinha,

até a mim me embolsaram

nesta hedionda enxovia.

Se foi bem feito, ou mal feito,

o sabe toda a Bahia,

mas se a traição ma fizeram,

com eles a traição fica.

Eu sou sempre o Braço Forte,

e nesta prisão me anima,

que se é casa de pecados,

os meus foram ninharias.

Todo este mundo é prisão,

todo penas, e agonias,

até o dinheiro está preso

em um saco, que o oprima.

A pipa é prisão do vinho,

e da água fugitiva

(sendo tão leve, ligeira)

é prisão qualquer quartinha.

Os muros de pedra, e cal

são prisão de qualquer vila,

d'alma é prisão o corpo,

do corpo é qualquer almilha.

A casca é prisão das fruitas,

da rosa é prisão a espinha,

o mar é prisão da terra,

a terra é prisão das minas.

É cárcere do ar um odre,

do fogo é qualquer pedrinha,

e até um céu de outro céu

é uma prisão cristalina.

Na formosura, e donaire

de uma muchacha divina

está presa a liberdade,

e na paz a valentia.

Pois se todos estão presos,

que me cansa, ou me fadiga,

vendo-me em casa d'EI-Rei

junto à Sua Senhoria?

Chovam prisões sobre mim,

pois foi tal minha mofina,

que, a quem dei cadeias d'ouro,

de ferro mas gratifica.

 

 

 

 

A DESPEDIDA DO MAO GOVERNO QUE FEZ ESTE GOVERNADOR.

 

 

Senhor Antão de Sousa de Meneses,

Quem sobe a alto lugar, que não merece,

Homem sobe, asno vai, burro parece,

Que o subir é desgraça muitas vezes.

 

 

A fortunilha autora de entremezes

Transpõe em burro o Herói, que indigno cresce

Desanda a roda, e logo o homem desce,

Que é discreta a fortuna em seus reveses.

 

 

Homem (sei eu) que foi Vossenhoria,

Quando o pisava da fortuna a Roda,

Burro foi ao subir tão alto clima.

Pois vá descendo do alto, onde jazia,

Verá, quanto melhor se lhe acomoda

Ser home em baixo, do que burro em cima.

 

 

 

 

SUCCEDE A ESTE GOVERNADOR O MARQUEZ DAS MINAS

COM SEU FILHO O CONDE DO PRADO, DESFAZENDO TODAS

AS SUAS OBRAS, E MANDANDO VIR OS PRINCIPAES DA BAHIA

DO DESTERRO, EM QUE ANDAVÃO, PELA MORTE, QUE OUTROS

DERAM AO ALCAYDE MÔR FRANCISCO TELLES.

 

 

MOTE

 De flores, e pedras finas

floresce, e enriquece o Estado,

floresce sim pelo Prado,

e enriquece pelas Minas:

As Aves, que peregrinas

aos montes se retiraram,

nesta manhã já cantaram

com tão doce melodia,

que a noite se tornou dia,

porque as penas se acabaram.

 

 

Já da Primavera entrou

a alegre serenidade,

com que toda a tempestade

do triste inverno acabou:

já Saturno declinou

nas operações malignas,

com influências benignas

Júpiter predominante

nos promete ano abundante

De flores, e pedras finas.

 

 

Se destes aspectos tais

bem se calcula a figura,

teremos grande fartura,

não há de haver fome mais:

mostras temos, e sinais

de um tempo muito abastado:

porque bem considerado

dele tem o próprio efeito;

já vemos, que a seu respeito

Floresce, e enriquece o Estado.

 

 

Para ser enriquecido

este Estado, e florescente,

temos a causa patente

no Planeta referido:

nem se equivoca o sentido

no efeito aqui declarado:

porque sendo bem notado

o estado, como parece,

se pelo mais não floresce,

Floresce sim pelo Prado.

 

 

Pelo Prado flor a flor

se vai a terra esmaltando,

com que o clima está mostrando

temperamento melhor:

do Luminar superior

por tais influências dignas

sendo as pedras, e boninas

da terra únicos primores

pois se esmalta pelas flores,

E enriquece pelas Minas.

 

 

Na terra já se exprimentam

virações tão temperadas,

que as aves determinadas

tornar aos ninhos intentam:

já não sentem, nem lamentam

tempestuosas ruínas,

pois com salvas matutinas

se mostram tão prazenteiras,

que mais parecem caseiras

As aves, que peregrinas.

 

 

Sua peregrinação

influxo foi de Saturno,

Planeta sempre noturno,

e muito importuno então:

todas nessa conjunção

seus doces ninhos deixaram,

e tanto se recearam

do nocivo temporal,

que escolhendo o menor mal,

Aos montes se retiraram.

 

 

Porém tanto que sentiram

haver no tempo mudança,

sem receio, e sem tardança

aos ninhos se reduziram:

outros ares advertiram,

outra clemência notaram,

com que alegres publicaram

dos astros os movimentos,

e com festivos acentos

Nesta manhã já cantaram.

 

 

Cantaram para mostrar

com repetidas cadências

singulares excelências

de um Planeta singular:

tal doçura no cantar

não se ouviu nesta Bahia,

ouvindo-se na harmonia

modulações tão suaves,

que nunca cantaram aves

com tão doce melodia.

 

 

Cada qual com voz sonora

nos mutetes, que cantavam,

por mil modos explicavam

de todo estado a melhora:

cada instante, e cada hora

a música mais se ouvia;

no Prado resplandecia

por modo maravilhoso

um lustre tão luminoso

que a noite se tornou dia.

 

 

Entre as aves modulantes,

que este nosso País tem

todas cantavam o bem,

de que são participantes:

dos males, que foram dantes,

todas também se queixaram;

assim que todas mostraram

com alegrias notórias,

que começaram as glórias,

Porque as penas se acabaram.

 

 

 

 

A SEU FILHO O CONDE DO PRADO, DE QUEM ERA O POETA

BEM VISTO, ESTANDO RETIRADO NA PRAYA GRANDE, LHE

DÁ CONTA DOS MOTIVOS, QUE TEVE PARA SE RETIRAR DA

CIDADE, E AS GLORIAS, QUE PARTICIPA NO RETIRO.

 

 

Daqui desta Praia grande,

Onde à cidade fugindo,

conventual das areias

entre os mariscos habito:

A vós, meu Conde do Prado,

a vós, meu Príncipe invicto,

Ilustríssimo Mecenas

de um Poeta tão indigno.

Enfermo de vossa ausência

quero curar por escrito

sentimentos, e saudades,

lágrimas, penas, suspiros.

Quero curar-me convosco,

porque é discreto aforismo,

que a causa das saudades

se empenhe para os alívios.

Ausentei-me da Cidade,

porque esse Povo maldito

me pôs em guerra com todos,

e aqui vivo em paz comigo.

Aqui os dias me não passam,

porque o tempo fugitivo,

por ver minha solidão,

pára em meio do caminho.

Graças a Deus, que não vejo

neste tão doce retiro

hipócritas embusteiros,

velhacos entremetidos.

Não me entram nesta palhoça

visitadores prolixos,

políticos enfadonhos,

cerimoniosos vadios.

Uns néscios, que não dão nada,

senão enfado infinito,

e querem tirar-me o tempo,

que me outorga Jesus Cristo.

Visita-me o lavrador

sincero, simples, e liso,

que entra co'a boca fechada,

e sai co queixo caído.

E amanhecendo Deus,

acordo, e dou de focinhos

co sol sacristão dos céus

toca aqui, toca ali signos.

Dou na varanda um passeio,

ouço cantar passarinhos

docemente, ao que eu entendo,

exceto a letra, e o tonilho.

Vou-me logo para a praia,

e vendo os alvos seixinhos,

de quem as ondas murmuram

por mui brancos, e mui limpos:

os tomo em minha desgraça

por exemplo expresso, e vivo,

pois ou por limpo, ou por branco

fui na Bahia mofino.

Queimada veja eu a terra,

onde o torpe idiotismo

chama aos entendidos néscios,

aos néscios chama entendidos.

Queimada veja eu a terra

onde em casa, e nos corrilhos

os asnos me chamam d'asno,

parece cousa de riso.

eu sei um clérigo zote

parente em grau conhecido

destes, que não sabem musa,

mau grego, e pior latino:

Famoso em cartas, e dados

mais que um ladrão de caminhos,

regatão de piaçavas,

e grande atravessa-milhos:

Ambicioso, avarento,

das próprias negras arnigo

só por fazer a gaudere,

o que aos outros custa jimbo.

Que se acaso em mim lhe falam,

torcendo logo o focinho,

ninguém me fale nesse asno,

responde com todo o siso.

Pois agora (pergunto eu)

e Job fora ainda vivo

sofrera tanto ao diabo,

como eu sofro este percito?

Também sei, que um certo Beca

o pretório presidindo,

onde é salvage em cadeira,

me pôs asno de banquinho.

Por sinal que eu respondi,

a quem me trouxe este aviso,

se fosse asno, como eu sou,

que mal fora a esse Ministro.

Eu era lá em Portugal

sábio, discreto, e entendido,

Poeta melhor, que alguns,

douto como os meus vizinhos.

Chegando a esta cidade,

logo não fui nada disto:

porque o direito entre o torto

parece, que anda torcido.

Sou um herege, um asnote,

mau cristão, pior ministro,

mal entendido entre todos,

de nenhum bem entendido.

Tudo consiste em ventura,

que eu sei de muitos delitos

mais graves que os meus alguns,

porém todos sem castigo.

Mas não consiste em ventura,

e se o disse, eu me desdigo;

pois consiste na ignorância

de Idiotas tão supinos.

De noite vou tomar fresco,

e vejo em seu epiciclo

a lua desfeita em quartos

como ladrão de caminhos.

O que passo as mais das noites,

não sei, e somente afirmo,

que a noite mais negra, escura

em claro a passo dormindo.

Faço versos mal limados

a uma Moça como um brinco,

que ontem foi alvo dos olhos,

hoje é negro dos sentidos.

Esta é a vida, que passo,

e no descanso, em que vivo,

me rio dos Reis de Espanha

em seu célebre retiro.

Se, a quem vive em solidão,

chamou beato um gentio,

espero em Deus, que hei de ser

por beato inda benquisto.

Mas aqui, e em toda a parte

estou tão oferecido

às cousas do vosso gosto,

como de vosso serviço.

 

 

 

 

AO CONDE DO PRADO EMBARCANDO-SE PARA PORTUGAL

EM COMPANHIA DE SEU PAY, DEPOlS DE TER ACABADO

O TEMPO DE SEU GOVERNO LHE FAZ O POETA ESTAS SAUDOSAS DESPEDIDAS

 

 

Generoso Dom Francisco,

mais que Conde Rei do prado,

porque se a Rosa é Rainha,

rei sois vóis, pois sois o Cravo.

Majestoso ramilhete

por cuja causa logramos

trinta e seis meses de flores,

que um mês fizeram de Maio.

Luminar esclarecido,

em quem tanto estão brilhando

as luzidas excelências

desses ascendentes Astros.

Ouvi de meus sentimentos

a voz, inda que o reparo

note, que para a matéria

o instrumento é mui baixo.

Ouvi meus saudosos tonos,

que é bem, Senhor Soberano,

que, quem deu assunto à solfa,

se digne de ouvir os cantos.

Neste papel ponde os olhos,

pois já quisestes dignar-vos

de verdes da minha Musa

noutro tempo outro traslado.

Naquele tempo, então digo,

quando escapei são, e salvo

por vosso bom patrocínio

de mil testemunhos falsos.

Quando viu toda a Bahia

no decurso de três anos

sempre em flor vosso carinho,

nunca murcho o vosso agrado

Aqui mil órgãos quisera,

para que com mil meatos

sempre ferisse os encômios,

onde soam os aplausos.

Mas inda assim não podiam

entender-se os vôos tanto,

que não ficassem sucintos

para elogios tão altos.

Aquele ligeiro monstro,

que nas presunções de alado

pelas plumas marca os vôos,

pelos vôos mede os passos.

Só pode com nova tuba

referir em pregões altos

os timbres da vossa pompa,

as prendas do vosso garbo.

Referirá, Senhor Conde,

que sempre os feitos preclaros

têm por doação dos tempos

da Fama os maiores brados.

Esta vai com grande empenho

desta Praça, para dar-vos

sobre as aras do meu trono

da memória os holocaustos.

Digo, que vai desta Praça,

onde em público teatro

vemos do melhor governo

os mais heróicos ensaios.

Do Mestre as prerrogativas

toquei em hino mais amplo

por ver-se nas lições suas

da pena o primeiro aparo.

Aqui dos seus documentos

nada digo, nada trato,

que pois o assunto é só vosso,

só convosco agora falo.

Só convosco, porque o gênio,

que é para pouco trabalho,

mal pode ser juntamente

Jardineiro, e Lapidário.

Tanto que vos embarcastes,

logo então fiquei notando,

que na falta do presente

se conhece o bem passado.

Por vossa ausência às escuras

fica a terra, e não me espanto,

de que quando o sol se ausenta,

se ausente da Luz os raios.

A vista dos nossos olhos

éreis; com que fica claro,

pois, meu Senhor, vos perdemos,

que sem vós cegos ficamos.

A vossa falta sentimos

geralmente neste estado,

que sentir-se a grande perda

efeito é muito ordinário.

Sente o grande, que não tem

o Prado alegre em Palácio,

o gentil Cravo na rua,

a Flor brilhante no Campo.

Sente igualmente o pequeno

não ter em seus desamparos

abrigo para a tormenta

e tábua para o naufrágio.

Eu sinto, e sentimos todos,

que fosse tão breve o prazo

dos objetos para a vista,

da vista para os regalos.

Mas não podia o triênio,

sendo um bem dos bens humanos,

deixar de incluir o logro

nos termos de momentâneo.

Nesta suposição nossa

concorrem motivos vários

uns por parte dos alívios,

outros em favor dos prazos.

Mas prevalecem as penas,

que os corações magoados,

quando a dor mais dissimulam,

então estão mais penando.

Não permita vossa ausência,

no sentimento intervalos,

que no mal sempre contino

nunca desconsolos faltam.

Vossa saudade gememos

nossa solidão choramos

se na solidão chorosos,

na saudade solitários.

Nesta assistência tão breve

nos mostrou o desengano

não ser para pecadores

o comércio de tal Anjo.

 

 

 

 

A MORTE DESTE CONDE SUCCEDIDA NO MAR QUANDO

SE RETIRAVA PARA LISBOA.

 

 

Do Prado mais ameno a flor mais pura,

Que em fragrâncias o alento há desatado,

Hoje a fortuna insípida há roubado

A pompa, o ser, a gala, a formosura.

 

 

Flor foste, ó Conde, a quem a desventura

Por decreto fatal do iníquio fado

Quis dar-te como flor do melhor Prado

Tumba no mar, nas águas sepultura.

 

 

Porque menos decente o monumento

Poderias achar no infeliz caso

De ver extinto tanto luzimento.

 

 

Por magnânimo herói no final prazo

Somente na extensão desse elemento

Terias como sol decente ocaso.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

 

Em essa de cristal campanha errante

Da morte um peito ilustre foi vencido,

Mágoa, que o mar chorava fementido

Com lágrimas de neve, ou de diamante.

 

 

Neste teatro horrível, e inconstante

Aos rigores do tempo pôs rendido

A sua pompa o Prado mais florido,

Fim a seu curso o sol mais rutilante.

 

 

Como Prado em tormentas inundado,

Como sol, que apressado a esfera corre,

Teve o seu fim nas águas destinado.

 

 

Por que se bem se adverte, ou se discorre,

Se o mar inunda, se sepulta o prado,

E se fenece o sol, nas ondas morre.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

 

No Reino de Netuno submergido

Nos campos de Anfitrite sepultado

Tem a Sorte a mais bela Flor, que o Prado

Em sua amenidade há produzido.

 

 

Os realces ilustres tem perdido,

porque a Parca os alentos lhe há roubado,

cuja memória os mares têm chorado,

cuja lembrança as águas têm sentido.

 

 

Mas se de flor, ó Conde a preminência

Gozavas em teu florido viver,

Que muito não tivesses existência!

 

 

Pois a flor, que mais pompa vem a ter

Se pondera em uma hora sem falência

Sujeita à pensão fera de morrer.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

 

Nasce el sol de los astros presidente

Principe en las espheras conocido,

Y aunque el dia le mira el mas luzido,

La noche se le atreve irreverente.

 

 

Sirve le de sepulchro transparente

El mar, pension fatal de haver nascido,

Pues el que en todo un ciclo nó ha cabido,

Le viene a ser el mar urna decente.

 

 

Sol fuiste, Conde ilustre, en la nobleza,

A quien la triste noche se le atreve,

Pues es el morir del sol naturaleza.

 

 

Hallaste como el sol tumba de nieve,

Pues siendo corto el sol à tu grandeza,

Solo à tal sol tal urna se le deve.

 

 

 

 

AO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GLZ. DA CAMARA COUTINHO

EM DIA DE REYS OBSEQUEA O POETA PEDINDOLHE EM NOME

DE HUM AMIGO HUMA DAQUELLAS ESMOLLAS,

QUE SUA MAGESTADE CONSIGNA DO REAL THESOURO CADA HUM ANNO

PARA OS HOMENS DE BEM, A QUE CHAMÃO MERCÉ ORDINARIA.

 

 

Num dia próprio a liberalidades,

No qual o Rei dos Reis aos Reis aceita,

Não é muito, que quem Rei vos respeita,

Vos troque a Senhoria em majestades.

 

 

Obriga-me a pedir calamidades

A que o meu fado triste me sujeita,

Obriga-vos a dar a mão perfeita,

Com que sabeis matar necessidades.

 

 

Chegaram hoje os Reis do diversório

A tributar incenso, mirra, e ouro,

Fazendo do presépio um oratório:

 

 

Se guiou aos três Reis Planeta Louro,

Guie-me a minha estrela o peditório,

Com que na vossa mão ache um tesouro.

 

 

 

 

EMPENHA O POETA PARA CONSEGUIR ESTA MERCÉ AO CAPITÃO DA

GUARDA LUIZ FERREYRA DE NORONHA SEU PARTICULAR CRIADO.

 

 

Senhor: se quem vem, não tarda,

vim eu em boa ocasião,

pois da Guarda o capitão

é Anjo da minha guarda:

vossa presença galharda,

vossa dócil natureza

bem mostram, que sois na empresa

da minha fortuna imensa

capitão pela defensa

Anjo pela gentileza.

 

 

Obrigado a tão bom trato,

que em mim é lance infalível,

o desempenho impossível

temo, que me faça ingrato:

mas como já me precato

de tão previsto desar,

que eu não basto a desviar,

sirva de escusa, ou perdão,

que não falta à gratidão,

quem se peja de faltar.

 

 

Na Corte em era oportuna

vistes a minha abastança,

hoje vereis a mudança

da minha infausta fortuna:

de estrela tão importuna

dera uma justa querela,

porque hajais de corrige-la:

mas no mundo é já patente,

que como sábio, e prudente

dominastes minha estrela.

 

 

Mudei-me de ponto a ponto

de Portugal ao Brasil,

lá deixo infortúnios mil,

acho cá ditas sem conto:

co’as ditas é, que de ponto

a desgraça lá passada,

e a graça considerada

está em vós, meu capitão,

que a dita está na eleição

da sombra, a que está chegada.

 

 

 

 

A PEDITORIO DOS PRETOS DE NOSSA SENHORA DO ROSARIO

FEZ O POETA O SEGUINTE MEMORIAL PARA O MESMO GOVERNADOR,

IMPETRANDO LICENÇA PARA SAIREM MASCARADOS À HUMA OSTENTAÇÃO

MILITAR, A QUE CHAMAVÃO ALARDE.

 

 

Senhor: Os Negros Juízes

da Senhora do Rosário

fazem por uso ordinário

alarde nestes Países:

como são tão infelizes,

que por seus negros pecados

andam sempre emascarados

contra a lei da policia,

ante Vossa Senhoria

pedem licença prostrados.

 

 

A um General Capitão

suplica a Irmandade preta,

que não irão de careta,

mas descarados irão:

todo o negregado Irmão

desta Irmandade bendita

pede, que se lhe permita

ir ao alarde enfrascados,

não de pólvora atacados,

calcados de jeribita.

 

 

 

 

OUTRO MEMORIAL POR HUM SEU SOBRINHO, QUE DESEJAVA

SENTAR PRAÇA DE SOLDADO.

 

 

Senhor: deste meu Sobrinho

afirmou um Padre tolo,

que é furado do miolo,

sendo o tal Padre o tolinho:

não é doudo, nem doudinho,

falando na realidade,

mas se hei de dizer verdade,

e nada hei de encobrir,

anda morto por servir

aqui Sua Majestade.

 

 

Pode Vossa Senhoria,

se nisto acertar deseja,

permitir, que o Moço seja

soldado de Infantaria:

e se alcançar algum dia,

que falei afeiçoado,

eu me dou por condenado,

e sem recurso nenhum

a servir sem soldo algum

em lugar deste Soldado.

 

 

AO MESMO GOVERNADOR SUBTILMENTE REMOQUEIA O POETA

AO DESCUIDAR-SE DE SUA HONRADA SUPPLICA SOBRE A

MERCÉ ORDINÁRIA, LEMBRANDOLHE, QUE Á DERA A HUM

SOLDADO RIDICULO CHAMADO O FARIA, POR QUEM NAQUELLE TEMPO

CANTAVÃO OS CHULOS

"A MULHER DO FARIA VAY PARA ANGOLLA".

 

Sei eu, Senhor, que Vossa Senhoria

Mandou dar ao Faria um bom vestido,

Sendo, que mais o tinha merecido

A mulher do mesmíssimo Faria

 

 

Provo: todo o prazer, gosto, e alegria,

Que se tem do Faria deduzido,

O deu sempre a Mulher, nunca o Marido.

Que ela ia pra Angola, e ele não ia.

 

 

Assim que se a Mulher vai para Angola,

E ele fica na infame lupanária,

Sua ausência cruel pondo à viola:

 

 

Tiro por conseqüência temerária,

Que à Mulher se lhe deve dar a esmola,

Que em crítico se diz mercê ordinária.

 

 

 

 

TORNA O POETA A INVOCAR LUIZ FERREYRA DE NORONHA.

 

 

Se da Guarda pareceis

Anjo sobre capitão,

não é novidade não,

que de males nos livreis:

dobrado ofício fazeis

em qualquer nossa aflição,

pois com nobre coração

nos livrais amante interno,

se como Anjo do inferno,

do mais como capitão.

 

 

 

 

ATHE AQUI NÃO ERA AINDA VINDA A MERCÉ ORDINÁRIA.

E NO DIA, EM QUE O GOVERNADOR FEZ ANNOS LHE MANDOU

O SEGUINTE SONETO.

 

 

Quem, Senhor, celebrando a vossa idade,

Os anos com prazer vos vai contando,

Parece, que vos vai aproximando

Para lograr tal dia a vossa herdade.

 

 

Se a conta vos chegara a eternidade,

Contente vo-la iria numerando,

Mas dá-me desprazer a conta, quando

Temo a raia tocar da mortandade.

 

 

Com olhos sempre postos na Ordinária

Vos dou os parabéns sem falso engano

De ver-vos contrastando a sorte vária.

 

 

Mas se por fim me dais o desengano

(que em vós seria cousa extraordinária)

Direi, que em tal dia fará um ano.

 

 

 

 

A D. JOÃO DALENCASTRE VINDO DO GOVERNO DE ANGOLLA,

ASSISTINDO NO MESMO PALACIO, QUEIXANDO-SE, DE QUE O

POETA O NÃO VISITASSE, E PEDINDOLHE HUMA

SATYRA POR OBSEQUIO.

 

 

A quem não dá aos fiéis

perdão, se lhe há de outorgar,

eu hoje vos hei de dar,

pedindo me perdoeis:

dou-vos, o que mais quereis,

e o que pedis por favor,

que quando chega um Senhor

a pedir, por não mandar,

mal lhe podia eu faltar

cuma sátira em louvor.

 

 

Não fui beijar-vos a mão,

e dar-vos a bem chegada,

porque nessa alta morada

nunca tive introdução:

até agora a indignação

não quis tão altivo trato,

mas hoje é quase distrato,

porque em todo mundo inteiro

de fidalgo, e de escudeiro

são brincos de cão com gato.

 

 

Os Fidalgos, e os Senhores

faltos de jurisdição

fazem tudo, e tudo dão

a amigos, e servidores:

os que jogam de maiores

por sangue, e não por poder

fazem jogo de entreter:

porque o sangue desigual

sempre brota ao natural,

e o mando bota a perder.

 

 

Perdoai a digressão,

porque esta prolixidade

é boa luz da verdade,

e escusa a sátira então:

quando se ofreça ocasião,

meu Senhor, de que eu vos veja

(na Igreja, ou na rua seja)

hei de prender-vos os pés,

e estai certo, que essa vez

vos não valerá a Igreja.

Estou na minha quintinha,

que é chácara soberana,

ora comendo a banana,

jogando ora a laranjinha:

nem vizinho, nem vizinha

tenho, porque sempre cansa

quem vê tudo, e nada alcança,

e na cidade são raros

os olhos, que não são claros,

se olhos são de vizinhança.

 

 

Mas inda que desterrado

me tem o fado, e a sorte

por um Juiz de má morte,

de quem não tenho apelado:

é hoje, que sois chegado,

Senhor, o tempo, em que apele;

fazei, que El-Rei o desvele

pagar o serviço meu,

pois é bizarro, e só

eu não vim muito pago dele.

 

 

 

 

A JOÃO PLZ. DA CAMARA COUTINHO FILHO DO MESMO GOVERNADOR

TOMANDO POSSE DE HUMA GINETA EM DIA DE S. JOÃO

BAPTISTA, E LHE ASSISTIO DE SARGENTO D. JOÃO

DE LANCASTRO SEU THIO VINDO DO GOVERNO DE ANGOLLA.

 

 

No culto, que a terra dava,

equivocava-se a vista,

se celebrava o Batista,

se ao Coutinho festejava:

um e outro João estava

arrojando à sua planta

tanto aplauso, e festa tanta:

mas viu-se, que ao mesmo dia,

em que o Batista caía,

o Coutinho se levanta.

 

 

Viu-se, que um João Batista

na terça-feira caíra,

e que outro João subira

a imperar esta conquista:

mas não se enganou a vista

por desacerto, ou desgraça,

antes com divina traça

se notou, e se advertiu,

que se um com graça caiu,

outro nos caiu em graça.

 

 

Braba ocorrência se achou

no martirológio então,

o dia era de um João,

e outro João lhe levou:

toda a cidade assentou

por razão, se por carinho

ser mais acerto, e alinho

preferir entre dous grandes

como um Silva a um Fernandes

a um Batista um Coutinho.

 

 

Mais ocorrências se leram,

porque pasmasse a Bahia,

dous num dia há cada dia,

mas três nunca concorreram:

três de um nome então vieram,

e qual mais para aplaudido,

e assim confuso, e sentido

ficou com tão nova traça

restaurada a nossa Praça

e o Calendário aturdido.

 

 

Se de um só João no dia

se abalava a cristandade,

por três de tal qualidade

quem se não abalaria!

tudo quanto então se via,

se via com grande abalo,

um mar de fogo a cavalo,

a pé um Etna de flores,

e por ver tantos primores

o Céu dava tanto estalo.

 

 

A ver o grande Alencastro

quem não fez do aperto graça:

se saiu o sol à praça

fazer praça a tanto Astro?

o bronze pois, e alabastro

por solenizar a glória

consentirão, que esta história

fique por mais segurança

nos arquivos da lembrança

nos volumes da memória.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

 

Entre aplausos gentis com luz preclara

Resplandece do sol a monarquia,

E o Príncipe da Luz, que o céu regia

Estático a carroça ardente pára.

 

 

E com razão: pois vê, se bem repara,

outro novo Faetonte neste dia,

E sente arder o mundo, como ardia,

Quando ao filho o governo delegara.

 

 

Pare pois, e repare, que o decreta

Astréia, porque aprenda no alto pólo

Ditames de luzir deste Planeta.

 

 

Sua fama andará de pólo a pólo,

Pois o Jove, que empunha uma gineta,

Faetonte é na luz, no garbo Apolo.

 

 

 

 

GENEALOGIA QUE O POETA FAZ DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ

DESABAFANDO EM QUEYXAS DO MUYTO, QUE AGUARDAVA

NA ESPERANÇA DE SER DELLE FAVORECIDO

NA MERCÉ ORDINARIA.

 

 

Veio ao Espírito Santo

da Ilha da Madeira Alz.

um Escudeiro Gonçalves

mais pobretão, que outro tanto:

e topando a cada canto

as Tapuias do lugar

havendo uma de tomar

para a bainha da espada,

tomou Vitória agradada,

que então lhe soube agradar.

 

 

A tal era uma Tapuia

grossa como uma jibóia,

que roncava de tipóia,

e manducava de cuia:

tocando ela a Aleluia,

tirava ele a culumbrina

com tal estrago, e ruína,

que chegando a conjuncão

lhe encaixou a opilação

por entre as vias da urina.

 

 

Pariu a seu tempo um cuco,

um monstro (digo) inumano,

que no bico era tucano

e no sangue mamaluco:

mas não tendo bazaruco,

com que faça o batizado

lhe assistiu sem ser rogado

um troço de fidalguia

pedestre cavalaria

toda de beiço furado.

 

 

O Cura, que não curou

de buscar no Calendário

nome de Santo ordinário,

por Antônio o batizou:

tanto o colonim mamou,

e tais forças tomou, que

antes de se pôr de pé,

e antes de estar já de vez,

não falava o português,

mas dizia o seu cobé.

 

 

Cansado de ver a Avoa

co'as cuias à dependura,

tratou de buscar ventura,

e embarcou numa canoa:

vindo aportar a Lisboa,

presumiu de fidalguia,

cuidou, que era outra Bahia,

onde basta a presunção

para fazer-se a um cristão

muchíssima cortesia.

 

 

Casou com uma rascoa,

que por ele ardia em chamas,

e era criada das Damas

da Rainha de Lisboa:

era uma grande pessoa,

porque tinha um cartapácio,

onde estudava de espácio

todo o primor cortesão,

que até um sujo esfregão

cheira a primor em Palácio.

 

 

Nasceu deste matrimônio

um Anjo, digo, um Marmanjo,

que era no simples um Anjo,

e no maligno um demônio:

deram-lhe por nome Antônio;

oh se o Santo tal cuidara!

creio eu, que se irritara

o grande Português tanto,

que deixara de ser Santo,

e o nome lhe não sujara.

 

 

Este pois por exaltar-se

veio reger a Bahia:

que bom governo faria,

quem não sabe governar-se!

se ele quisera enforcar-se

pelos que enforcar fazia,

que bom dia nos daria!

mas ele tão mal se salva,

que quando dava a mão alva

então tomava o bom dia.

 

 

O Ministro há de ser são,

justo, e não desobrigado,

há de ter ódio ao pecado,

e ao pecador compaixão:

que se tem má propensão,

faz justiça, mas com vício,

e se maior malefício

tem, e pode condenar-me,

livre-me Deus de julgar-me

oficial do meu ofício.

 

 

Que, porque furto, o que coma,

me enforquem, pode passar,

mas que me mande enforcar

a bengala de um Sodoma!

quem sofrerá, que Mafoma

me queime por mau cristão,

vendo, que Mafoma é cão,

velhaco, e de suja alparca,

e o mais torpe heresiarca,

que houve entre os filhos de Adão.

 

 

Quem na terra sofreria,

que o fedor de um ataúde

com bioco de virtude

disfarçasse a Sodomia?

e de feito em cada dia

desse ao povo um enforcado,

e que de puro malvado

desse esse dia um banquete,

e alegrasse o seu bofete

com bom vinho, e bom bocado?

 

 

O bem, que os mais bens encerra,

e as glórias todas contém,

é reinar, quem reina bem,

pois figura a Deus na terra:

eu cuido, que o mundo erra

nesta alta reputação,

que se o Rei erra uma ação,

paga a seu alto atributo

um tristíssimo tributo,

e misérrima pensão.

 

 

O Príncipe soberano

bom cristão temente a Deus,

se o não socorrem aos céus,

pensões paga ao ser humano:

está sujeito ao tirano,

que adulando ambicioso

é áspide venenoso,

que achacando-lhe os sentidos,

turbado o deixa de ouvidos,

de olhos o deixa ludoso.

 

 

Se fosse El-Rei informado,

de quem o Tucano era,

nunca à Bahia viera

governar um povo honrado:

mas foi El-Rei enganado,

e eu com o povo o paguei,

que é já costume, e já lei

dos reinos sem intervalo,

que pague o triste vassalo

os desacertos de um Rei.

 

 

Pagamos, que um figurilha

corcova de canastrão

com nariz de rebecão

em cara de bandurrilha,

descompusesse a quadrilha

dos homens mais bem nascidos,

e que dos mal procedidos

tal estimação fizesse,

que honras, e postos lhes desse

por lhe encherem os ouvidos.

 

 

Pagamos ver esta Hiena,

que com a voz nos engana,

pois fala como putana,

e como fera condena:

que uma terra tão amena,

tão fértil, e fão fecunda

a tornasse tão imunda

falta de saúde, e pão;

mas foi força, que tal mão peste,

e fome nos infunda.

 

 

Pagamos que um homem bronco

racional como um calhau,

mamaluco em quarto grau,

e maligno desde o tronco:

apenas se dá um ronco,

em briga apenas se fala,

quando os sargentos a escala

prendem com descortesia

aos honrados na enxovia,

todo o patifão na sala.

 

 

Pagamos, que um Sodomita,

porque o seu vício dissesse,

todo o homem aborrecesse,

que com mulheres coabita:

e porque ninguém lhe quita

ser um vigário-geral

com pretexto paternal,

aos filhos, e aos criados

tenha sempre aferrolhados

para o pecado mortal.

 

 

Pagamos, que o tal jumento

isento de mãos guadunhas

não furtasse pelas unhas,

senão por consentimento:

e que os quatro vezes cento,

que se vieram trazer

ao seu capitão mulher,

porque o pão suba mais dez,

não foi furto, que ele fez,

mas deu jeito a se fazer.

 

 

Pagamos ver o Prelado,

que se peca, é de prudente,

dos serventes de um agente

descortesmente ultrajado:

o sobrinho amortalhado

com tão fidalgos brasões

pela Puta dos calções,

que fiado em ser valido

fez do sangue esclarecido

tão lastimosos borrões.

 

 

Pagamos com dor interna,

que nos passos da Paixão

tão devoto é da prisão,

que quer levar a lenterna:

se entende, que a glória eterna

prendendo há de merecer,

fora melhor entender,

que o céu lhe dá mais ganhado,

não dormir-se co criado,

que desvelar-se em prender.

 

 

Pagamos vê-lo esperar,

e estar com expectativas

de ser Conde das Maldivas

por serviços de enforcar:

e como mandou tirar

um rol dos quatro maraus,

que enforcou por vaganaus,

cuidei (assim Deus me valha)

que entre os Condes da baralha

fosse ele o Conde de paus.

 

 

Porém Sua Majestade,

Qual Príncipe Soberano,

que não se indigna de humano

sem dano da dignidade:

conhecida esta verdade,

que é verdade conhecida,

fará justiça cumprida,

para que se lhe agradeça,

que o mau na própria cabeça

traga a justiça aprendida.

E porque nós de antemão

a seus favores mostremos,

quanto lhos agradecemos,

lhe agradecemos D. João:

era justo, era razão,

conforme o direito e lei,

quando o Rei dá Juiz a Grei,

outro em seu lugar dispor,

que seja o Governador

tão fidalgo como El-Rei.

 

 

 

 

CONTINUA O POETA SATYRIZANDO-O COM O SEO CRIADO

LUIZ FERREYRA DE NORONHA.

 

 

Estas as novas são de Antônio Luí=

No que passa sobre um gato de algá=,

Que algália tira com colher de Itá= .

que coze e corcoja em fonte Rabi= .

 

 

Se lhe escalda ou não a serventi=

Isto tem já provado o mesmo ga=

Porque passando os rios de cuá=

O caso tocou logo a Inquisi=

 

 

Há cousa mais tremenda e mais atró=,

Que em terra, onde há tanta fartu=,

E haja que por um cu enjeite um có= ?

 

 

E que por mau gosto seja um pu= ?

Eu me benzo, e arrenego do demô=

E do pecado, que é contra a natu= .

 

 

 

 

AOS MESMOS AMO, E CRIADO.

 

 

Que aguarde Luís Ferreira de Norô=

Tão grande pespegar pelo besbê=!

Para o Puto, que aguarda tal pespê=,

E faz servir seu cu de cocó= .

 

 

Subverteu-se a cidade de Sodô=

Pelo muito, que andou de caranguê=:

A Palácio também cteio, sucé=

O mesmo, que à cidade de Gomô=.

 

 

Que desse em pescador Antônio Luí= ?

Nefando gosto tem o seu cará=,

Em não querer topar ponta de cri= .

 

 

Pois tanto se namora do pescá=,

A cuama se vá pescar lombri=,

E em castigo de Deus morra queimá=.

 

 

 

 

PROSSEGUE O MESMO ASSUMPTO.

 

 

No beco do cagalhão,

no de espera-me rapaz,

no de cata que farás

e em quebra-cus o acharam,

que tirando ao come-em-vão

que era esperador de cus,

lhe arrebentou o arcabuz

no beco de lava-rabos,

onde lhe cantam diabos

três ofícios de catruz.

 

 

Tomem pois exemplo aqui

o Tucano e o Ferreira,

pois lhos diz esta caveira,

aprende, flores, de mi:

mais aqui, ou mais ali

sempre os demônios são artos

sempre bichos, e lagartos,

e dar-lhe-ão sobre beijus,

a comer sempre cuscuz,

a ver se se dão por fartos.

 

 

 

REPETE A MESMA SATYRA.

 

 

Quem aguarda a luxúria do Tucano

Também pode esperar a do Lagarto,

Se acaso conceber, verá no parto

A substância que leva do tutano.

 

 

Estes, que se debreiam mano a mano,

Disciplinar-se-ão de quarto em quarto,

E o que de mais sustância estiver farto,

A via busque, que o negócio é cano.

 

 

Conheça a Inquisição estas verdades,

E como é certo, o que o soneto diz,

Paguem-se em vivo fogo estas maldades,

 

 

Ardendo morram já como Solis,

E como arderam já duas cidades,

Ardam Luís Ferreira, e Antônio Luís.

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

MOTE

 

 

 

Quem sai a mijar de Beja

por fora de Vidigueira

Dá c'o piçalho em Ferreira.

Senhora velha roupeira

pois todo Alentejo andou

não me dirá, quanto achou,

que vai de Beja a Ferreira:

porque outra velha embusteira,

com profia, e com inveja,

não quer que uma légua seja,

e por palmos de cará

diz, que só um palmo achará

quem sai a mijar de Beja.

 

 

Isto a velha quer, que seja,

e do seu querer colijo,

que vai a beber do mijo,

quem sai a mijar de Beja:

porém quem saber deseja

a conclusão verdadeira,

deste caminho, ou carreira,

pelos passos do pismão

quer saber, que passos vão

por fora da Vidigueira.

 

 

Porque parvoíce fora

não ver entre boca, e centro,

que uma cousa é mijar dentro

outra cousa andar por fora:

e assim vós, minha Senhora

velha, que nesta carreira

já sois useira, e vezeira

desmenti da velha a inveja,

pois diz, que quem sai de Beja,

dá co piçalho em Ferreira.

 

 

 

DIZ MAIS COM O MESMO DESENFADO:

Sal, cal, e alho

caiam no teu maldito caralho. Amém.

O fogo de Sodoma e de Gomorra

em cinza te reduzam essa porra. Amém

Tudo em fogo arda,

Tu, e teus filhos, e o Capitão da Guarda.

 

 

 

DEDICATORIA ESTRAVAGANTE QUE O POETA PAZ DESTAS OBRAS

AO MESMO GOVERNADOR SATYRIZADO.

Desta vez acabo a obra,

porque é este o quarto

tomo das ações de um Sodomita,

dos progressos de um fanchono.

Esta é a dedicatória,

e bem que preverto o modo,

a ordem preposterando

dos prólogos, os prológios.

Não vai esta na dianteira,

antes no traseiro a ponho,

por ser traseiro o Senhor,

a quem dedico os meus tomos.

A vós, meu Antônio Luís,

a vós, meu Nausau ausônio,

assinalado do naso

pela natura do rosto:

A vós, merda dos fidalgos,

a vós, escória dos Godos,

Filho do Espírito Santo,

E bisneto de um caboclo:

A vós, fanchono beato,

Sodomita com bioco,

e finíssimo rabi

sem nascerdes cristão-novo:

A vós, cabra dos colchões,

que estoqueando-lhe os lombos,

sois fisgador de lombrigas

nas alagoas do olho:

A vós, vaca sempiterna

cosida, assada, e de molho,

Boi sempre, Galinha nunca

in secula seculorum:

A vós, ó perfumador

do vosso pagem cheiroso,

para vós algália sempre,

para vós sempre mondongo:

A vós, ó enforcador,

e por testemunhas tomo

os Irmãos da Santa Casa,

que lhes carregam os ossos:

Pois no dia dos Finados,

quando desenterram mortos

também murmuram de vós

pela grã carga dos ombros:

A vós, ilustre Tucano,

mal direito, e bem giboso,

pernas de rolo de pau,

antes de o levar ao torno:

A vós: basta tanto vós,

porque este insensato Povo

vendo, que por vós vos trato,

cuidará, que sois meu moço:

A vós dedico, e consagro

os meus volumes, e tomos,

defendei-os, se quiserdes,

e se não, vai nisso pouco.

 

 

 

APOLOGIA CAVILLOSA EM DEFENÇA DO MESMO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ.

 

Agora saio eu a campo

por vós, meu Antônio Luís,

que já fede tanto verso,

e enfada tanto pasquim!

Que vos quer esta canalha

tropel de vilões ruins,

tanto Poeta sendeiro,

tanto trovador rocim?

Se fizestes mau governo,

que é certo, que foi ruim,

eles, que o façam pior,

que eu lhe dou das quatro mil.

Entorcastes muita gente?

mente, quem tal coisa diz:

Gabriel os enforcava,

que eu com estes olhos vi.

É verdade, que gostáveis

vós muito de vê-los ir,

sois amigo de enforcados,

ter-lhes ódio, isso fora ruim.

Cada qual gosta, o que gosta,

uns carneiro outros perdiz,

vós um quarto de enforcado,

e eu de um quarto do pernil.

Em gostos não há disputa

dai ao demo o povo vil,

que até nos gostos se mete

a ser dos gostos juiz.

O querer não tem razão,

que a vontade é mui sutil,

e assim por onde quer entra,

e talvez não quer sair.

Cada um quer, o que quer,

não há nisto, que arguir,

fez Deus as vontades livres,

prendê-las é frenesi.

Sois amigo de enforcados,

quem vo-lo pode impedir?

oxalá fôreis amigo

levar o mesmo fim.

Ora vamos a farinha,

foi pouca, cara, e ruim:

mas vós não sois sol, nem chuva,

para haver de a produzir.

Eu confesso, que houve fome,

governando vós aqui,

sois mofino, e por contágio

ficou mofino o Brasil.

Ser mofino não é culpa,

a fortuna o quer assim:

quem é mofino consigo,

cos mais há de ser feliz?

Não vos mandou governar

El-Rei farinhas aqui,

as carnes, nem os pescados,

porém a forca isso sim.

Valha o diabo a vossa alma

cabelos de colomim,

mandou-vos El-Rei acaso

desgovernar os quadris?

Mandou-vos acaso El-Rei

com as fêmeas não dormir,

senão com vosso criado,

que é bomba dos vossos rins?

No mais vos levanta falsos

todo este povo civil,

mas isto do vosso corpo

vo-lo levanta o Luís.

Mandou-vos El-Rei acaso

a Sodoma, ou ao Brasil?

Se não viveis em Judá,

quem vos meteu a Rabi?

Mandou-vos El-Rei que fosse

vosso pajem meretriz,

madrasta de vossos filhos,

como dizem por aí?

Ora ide-vos co diabo,

que ja não quero acudir

por um Tucano, um Fanchono,

um Sodoma, um vilão ruim.

 

 

 

DESCANTA O POETA AGORA A DESPEDIDA DESTE GOVERNADOR

EM METAPHORA DE CHULARIAS, QUE SE UZAVAM NAQUELLE TEMPO.

POR DIZER-SE VINHA RENDÊLLO D. JOÃO DE ALENCASTRE SEU CUNHADO.

 

Bangüê, que será de ti

em vindo o Governador,

que manda El-Rei meu Senhor

para te botar daqui?

que será de ti, maldi-

to, que assaz a ti te toca

por neto de curiboca

e porque este teu pepino

no que é vaso feminino

jamais toca, nem emboca.

 

 

Que será de ti, Bangüê,

quando o sucessor vier,

que hás de perder a mulher,

que é fêmea de cutilque?

e se teu criado é,

que o podes também levar,

não te há de sofrer o mar,

nem suas ondas sagradas,

antes por essas porradas

a porra te há de salgar.

 

 

 

 

RETRATO QUE FAZ ESTRAVAGANTEMENTE O POETA, AO MESMO

GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DA CAMARA NA SUA DESPEDIDA.

 

 

Vá de retrato

por consoantes,

que e eu sou Timantes

de um nariz de tucano

     pés de Pato.

Pelo cabelo

começo a obra,

que o tempo sobra

para pintar a giba

     do camelo.

Causa-me engulho

o pêlo untado,

que de molhado

parece, que sai sempre

     de mergulho.

Não pinto as faltas

dos olhos baios,

que versos raios

nunca foram, senão

     a cousas altas.

Mas a fachada

da sobrancelha

se me assemelha

a uma negra vassoura

     esparramada.

Nariz de embono

com tal sacada,

que entra na escada

duas horas primeiro

     que seu dono.

Nariz, que fala

longe do rosto,

pois na Sé posto

na Praça manda pôr

      a guarda em ala.

Membro de olfatos,

mas tão quadrado,

que um Rei coroado

o pode ter por copa

     de cem pratos.

Tão temerário

é o tal nariz,

que por um triz

não ficou cantareira

     de um armário.

Você perdoe,

nariz nefando,

que eu vou cortando,

e inda fica nariz,

     em que se assoe.

Ao pé da altura

no naso oiteiro,

tem o sendeiro,

o que boca nasceu, e é

     rasgadura.

Na gargantona

membro do gosto

está composto

o órgão mais sutil

     da voz fanchona.

Vamos à giba:

mas eu que intento,

se não sou vento

para poder trepar

     lá tanto arriba?

Sempre eu insisto,

que no horizonte

deste alto monte

foi tentar o diabo

     A Jesu Cristo.

Chamam-lhe autores,

por falar fresco

dorso burlesco,

no qual fabricaverunt

     peccatores.

E havendo apostas,

se é homem, ou fera,

se assentou, que era

um caracol, que traz

     a casa às costas.

De grande a riba,

tanto se entona,

que já blasona,

que enjeitou ser canastra

     por ser giba.

Ó pico alçado,

quem lá subira,

para que vira,

se és Etna abrasador

     se Alpe nevado!

Cousa pintada

sempre uma cousa,

pois onde pousa,

sempre o vêem de bastão

     sempre de espada.

Dos santos passos

na bruta cinta

uma cruz pinta

a espada o pau da cruz,

     e eles os braços.

Vamos voltando

para a dianteira,

que na traseira

o cu vejo açoutado

     por nefando.

Se bem se infere

outro fracasso,

porque em tal caso

só se açouta, quem canta

     o miserere.

Pois que seria,

que eu vi vergões?;

serão chupões,

que o bruxo do Ferreira

     lhe daria.

Seguem-se as pernas,

sigam-se embora,

porque eu por ora

não me quero embarcar

     em tais cavernas.

Se bem, que assento

nos meus miolos

que são dous rolos

de tabaco já podre,

     e fedorento.

Os pés são figas

a mor grandeza,

por cuja empresa

tomaram tantos pés

     tantas cantigas.

Velha coitada

suja figura,

na arquitetura

da popa de Nau nova

     está entalhada.

Boa viagem

senhor Tucano,

que para o ano

vos espera a Bahia

     entre a bagagem.

 

 

 

 

A D. JOÃO D'ALENCASTRE TOMANDO POSSE DO SEO GOVERNO OBSEQUEA O

POETA COM AS QUEYXAS DO SEU ANTECESSOR, E CUNHADO.

 

 

Quando Deus redimiu da tirania

da mão do Faraó endurecido

o Povo Hebreu amado, e esclarecido.

Páscoa ficou de redenção o dia.

 

 

Páscoa de flores, dia de alegria

Àquele Povo foi tão afligido

O dia, em que por Deus foi redimido;

Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.

 

 

Pois mandado pela alta Majestade

Nos remiu de tão triste cativeiro,

Nos livrou de tão vil calamidade.

 

 

Quem pode ser senão um verdadeiro Deus,

que veio estirpar desta cidade

O Faraó do Povo Brasileiro.

 

 

 

 

AO MESMO GOVERNADOR CHEGANDOLHE A NOVA DA MORTE DE

SUA SOGRA, A QUEM DEYXOU CONVALECIDA DA MESMA ENFERMIDADE,

DE QUE MORREO DEPOIS.

 

 

Alto Príncipe, a quem a Parca bruta

Aos estragos negando-se de horrível,

Quando acredita assombro no inflexível,

Em rendimento a vossos pés tributa.

 

 

Tímida a vossa vista se reputa,

E o mostra nesta ação quase visível,

Onde em vós o pesar, sendo possível,

Reverente o rigor não executa.

 

 

Pouco faz a Bahia, se venera

Humilde, e grata a vossa presidência,

Se inda a morte convosco não é fera

 

 

Porque admirando em vós tanta excelência

Para dar-vos um golpe, astuta espera

(Por temer-vos, Senhor) a vossa ausência.

 

 

 

 

LOUVA O SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEYRA RAVASCO A HUM

SUGEYTO, QUE FOY À COSTA DA MINA E LÁ FEZ HUMA ILLUSTRE ACÇÃO.

 

 

Vindes da Mina, e só trazeis a fama,

De que vosso valor fez alta empresa,

Que não consiste a glória na riqueza

No seu desprezo sim, que honra se chama.

 

 

O vosso zelo, que ambição se inflama,

Do serviço fiel de Sua Alteza

Lhe deu prudente aquela Fortaleza,

Que é padrão imortal, que vos aclama.

 

 

Quanto co'a espada, e co juízo obrastes,

Quanto na África, e Europa merecestes,

São ações, que convosco competistes.

 

 

Não vos queixeis do pouco, que alcançastes,

Pois na glória, em que a todos excedestes,

Dificultais o prêmio, ao que servistes.

 

 

 

 

RESPONDE O POETA A BERNARDO VIEYRA RAVASCO PELOS MESMOS

CONSOANTES POR AQUELLA PESSOA A QUEM SE FEZ O OBSEQUIO.

 

 

Hoje é melhor ter mina, que ter fama,

Que no tesouro se acha a nobre empresa,

Porque onde se idolatra só riqueza,

A glória dos progressos nada clama.

 

 

Ambicioso e avarento mais se inflama

Pertendendo subir a nova alteza,

E fragando nos bens a fortaleza,

Quer estragar a honra, que se aclama.

 

 

Mas vós, que a acreditar-me tanto obrastes,

Fiado, no que, é certo, merecestes,

Em mérito, a que sempre competistes:

 

 

A mim me dais a glória, que alcançastes,

Que como vós em tudo me excedestes,

Té para me abonar hoje servistes.

 

 

 

 

CONTINUA BERNARDO VIEYRA RAVASCO NO SEU PROPOSITO

PELOS MESMOS CONSOANTES.

 

 

Nos assuntos, que dais à vossa fama,

Têm as invejas mais ardente empresa,

Pois se a glória do nome é mor grandeza,

No vosso acende mais ativa a chama

 

 

A emulação, que sempre assim se inflama,

O seu incêndio exala à suma alteza,

Mas esse incêndio em rara fortaleza

Salamandra vos faz, Fênix aclama.

 

 

Quanto nas armas valeroso obrastes,

Nas invejas prudente merecestes,

Triunfando sempre nunca competistes.

 

 

Mas outra maior glória inda alcançastes;

Não há Musa, que conte, o que excedestes,

Nem grandeza, que pague, o que servistes.

 

 

 

 

AO MESMO SECRETARIO DE ESTADO BERNARDO VIEYRA PEDINDO HUMAS

OITAVAS AO POETA, EM TEMPO, EM QUE FAZIA ANNOS CONVALESCENDO

DE HUMA GRAVE DOENÇA.

 

 

Oitavas canto agora por preceito,

Sem que na oitava possa diligente

Louvar as excelências de um sujeito,

Que pode ser em tudo o melhor Lente:

Mas como em mim não pode ser perfeito

O canto, ficará menos cadente

A música de Apolo, e de Talia,

Que não há cantar bem sem melodia.

 

 

Se do tempo perfeito o meu compasso

A compasso cantara neste canto,

Não faltara à garganta agora o passo,

E em passos de garganta fora espanto:

Porém se em canto nunca da mão passo

Como posso afinar no canto tanto,

Que me atreva a cantar vossa ciência,

Sem que falte ao compasso na cadência.

 

 

Canora a voz tomara, e tão suave,

Que em passos largos, e ecos repetidos

Sonora requintasse aquela clave,

Em que fossem meus ecos esparcidos:

Porém se o vosso nome o canto grave

Eleva suspendendo os mais sentidos,

Com a voz, que formar o meu alento

Chegar posso tarnbém ao Firmamento.

 

 

Discutindo esse globo de ciências

No mapa desta esfera Americana,

Acho um todo formado de excelências

Maravilha fatal em forma humana:

De modo se une, e formam as essências

Que o natural as graças vos germana:

Mas que muito se vós no largo mundo

Sois da graça, e ciências tão fecundo.

 

 

Se emulações tiraram Luzimentos,

Que soube a natureza vincular-vos,

Apolo não perdera os pensamentos,

Temendo-se na empresa de louvar-vos:

Suspende a admiração os vãos intentos

Ao discurso, que emprende realçar-vos,

Que a Musa enfraquecida, a pena leve

Nunca diz, o que sente, no que escreve.

 

 

Deixem-se os Gregos já do seu Eliano,

Condenam a silêncio um Xenofonte,

Não louve Alexandria Herodiano,

Que na Bahia tem Timocreonte:

O qual pode ensinar Quintiliano,

Camões, Terêncio, Ênio, Anacreonte,

Platões, Anaximandros, e Musés,

Acusilaus, Priscianos, e a Timéus.

 

 

Nos anos climatéricos glorioso

Vosso nome será tão dilatado,

Que suba, onde o decrépito invejoso

O veja nas estrelas colocado:

Sereis novo Planeta luminoso,

E Sol em nova esfera sublimado,

Que, a quem o mundo singular aclama,

Só descansa no céu com ele a fama.

 

 

Separar vossas partes, e Louvores

Absurdo fora certo, e averiguado,

Que à grandeza dos orbes superiores

Ninguém pode pôr termo limitado:

Receba o infinito por maiores,

Quem foi por singular ao mundo dado,

Com que as partes publica deste modo,

Quem de todo admirado admira o todo.

 

 

Cesse pois em louvar-vos minha pena,

Que impossível será, que sem engano

Presuma, que fazendo esta novena

Vos possa ponderar em todo um ano:

Este novo, e felice, que hoje ordena

O Céu, lograi, Senhor, sem tanto dano,

Porque sejam em vós os mais gloriosos

Aqueles, que vos faltam de invejosos.

 

 

 

 

 

  

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