LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

 

BRITES

 

DESCREVE O POETA O MELINDRE, COM QUE ESTA GALHARDA DAMA SAHIO A SER VISTA DO MESMO POETA DEPOIS DE MUYTOS ROGOS SEM EFFEYTO Dr VARIAS PESSOAS, E SOMENTE A PEDITORIO DE GENEBRA.

 

INCLINAVA-SE BRITES A HUM SUGEYTO DE MAIS ESPERANÇAS, QUE MERITOS, E EM SUA COMPETENCIA CONTINUA O POETA ESTE GALANTEYO.

 

RETRATA O POETA AS PERFEYÇÕES DESTA DAMA COM GALHARDO ACEYO.

 

FINGE O POETA QUE SE ARREPENDE DE A TER AMADO, E TUDO PIQUES PARA SER QUERIDO.

 

CASUAL ENCONTRO QUE TEVE O POETA COM BRITES NO SEU RETIRO DE HUA ROÇA.

 

INSISTE O POETA (VENDO ESTES DESAPEGOS DE BRITES EM O NÃO QUERER ADMITIR) PARA SER CORRESPONDIDO EM SEU AMOR, ARGUMENTANDO-LHE RIJAMENTE CAUTELLOSOS SILLOGISMOS MAS TUDO DEBALDE.

 

REFORÇA O POETA SEUS ENGANOS PROTESTANDO, QUE QUER SOMENTE AMAR POR AMAR, SEM OUTRO GENERO DE GALARDÃO, OU INTERESSE.

 

COROU A FORMOSA BRITES ESTAS PRECIOSAS MENTIRAS DAQUELLE GALHARDO ENGENHO COM HUM ALEGRE RISO NA PRIMEYRA OCCASIÃO, QUE TEVE DE ENCONTRO COM ELLA, PARA CONTRADIZER-SE CAVILLOSO; O QUE LHE DEO MOTIVO PARA FAZER O SEGUINTE.

 

A GRACIOSA BRITES, DE QUEM JA FALLAMOS POR COMER HUM CAYJU, QUE VINHA PARA O POETA.

 

TENDO BRITES DADO ALGUMAS ESPERANÇAS AO POETA SE LHE OPPOZ UM SUGEYTO DE POUCOS ANNOS, PERTENDENDO-A POR ESPPOSA, RAZÃO POR ONDE VEYO ELLA A DESVIAR-SE, DESCULPANDO-SE POR SER JA VELHO.

 

SABENDO O POETA O MOTIVO DO DESVIO LHE MANDOU ESTAS DÉCIMAS.

 

AO MESMO ASSUMPTO E PELO MESMO MOTIVO.

 

MAGUADO O POETA E SENTIDISSIMO COM ESTA PENA DE VER FRUSTRADO TODOS OS SEUS INTENTOS, CANTAVA AO SOM DO SEU INSTRUMENTO A SEGUINTE LETRA.

 

RESOLVE-SE BRITES TOTALMENTE A DEYXAR OS GALANTEYOS DO POETA POR LOGRAR SEUS PROPRIOS INTERESSES: E COMPADECIDA DESTAS QUEBRAS THEREZA IRMÃA DE BRITES REPETIO AO POETA PASSANDO-HE PELA RUA O SEGUINTE.

 

ACABA O POETA DE CRER A RESOLUÇÃO DE BRTTES, ESTRANHANDO LHE EM CERTA OCCASIÃO HUM TAL DESAPEGO.

 

A MESMA COM IRAS DE NAMORADO.

 

RESPONDE O POETA A HUM MAL CONSIDERADO AMIGO, QUE O MATRAQUEAVA DE COBARDE NESTA MATERIA.

 

COSTUMAVA CANTAR O POETA ESTA LETRA A SEU INSTRUMENTO EM QUANTO LHE DUROU O PEZAR DAS TYRANNIAS DESTA DAMA

 

DESENGANADO O POETA AO EFFEYTOAREMSE AQUELLAS VODAS COM HUM MOÇO LICENCIADO SAHIO RAYVOSAMENTE COM ESTA SATYRA.

 

A VISTA DO AMOR, QUE TEVE O POETA A ESTA DAMA, COMO SE COLHE É A SEGUINTE OBRA HUM TESTEMUNHO DA SUA GENEROZIDADE: POIS LHE RECUSA OS SEUS CONVITES, ACONSELHANDO-A A SOFFRER SEU ESPOSO. NEM OS SEUS GALANTEOS FORAM COM PESSOA PROHIBIDA.

 

COM ESTA RESPOSTA SE AVIVARAM NA DAMA OS INCENDIOS DE AMOR E NO POETA SE AVIVARAM OS QUILATES DESTA HONRA.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BRITES

 

Huma Dama bem parecida de negros olhos, e formosos, com negros cabellos sobre huma notável alvura. Foy Dama, a quem agradáram muyto os requebros do Poeta: mas nunca se resolveo a agradecê-los, temendo-o pela fama, que delle davão outras de menos meritos, de quem era havido por inconstante: porque as vezes satyrizava aquillo mesmo, que encarecia.

 

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

 

Que tens comércio co vento

E se bem pode um Poeta
uma flor negra estimar,
também eu posso adorar
no céu um pardo Planeta

 
 

 

 

DESCREVE O POETA O MELINDRE, COM QUE ESTA GALHARDA DAMA SAHIO A SER VISTA DO MESMO POETA DEPOIS DE MUYTOS ROGOS SEM EFFEYTO Dr VARIAS PESSOAS, E SOMENTE A PEDITORIO DE GENEBRA.

 
 

Depois de mil petições
deste, daquele, e daquela
saiu Brites pare fora
a rogo só de Genebra.
Atravessou toda a sala,
chegou, e tomou cadeira,
ela diz, que com vergonha,
mas eu não dou fé de vê-la.
Porque a coisa mais oculta,
mais escondida, e secreta,
é de Brites a vergonha,
porque não há, quem lha veja.
Vi eu aquele prodígio
de graça, e de gentileza,
e absorto estive admirando
sobre uma pedra outra pedra.
Até que tornei em mim,
por cortês recompensa
(uma razão mais, ou menos)
lhe fui dizendo esta arenga.
Permitiu minha ventura,
não sei se a minha desgraça,
que não cegasse com ver-te,
para padecer mais ânsias.
Que sempre em ódio de um triste
faz natureza mudanças
pois cheguei a ver um sol,
sem ter as potências d'águia.
Movido da mão de Amor,
das liberdades pirata,
por fim dei a meus suspiros
tumba ardente, amante frágua.
E por ser curta a vitória
para beleza tamanha,
achei, que era pouco excesso
entregar-te toda um'alma.
De novo não me rendi,
que era fineza encontrada,
ter ainda, que render-te
d'alma, que vencida estava.
Mas por obrar as finezas
em respondência das causas
fiz contando as tuas prendas
mil holocaustos desta alma.
Enfadei de mui rendido,
que amor sem ventura enfada,
mas não me emendei de amar-te,
de mofino me emendara.
Vimos p'ra casa, e cantei
ao som da minha guitarra
"ay, verdades, que en amor
siempre fuistes desdichadas."
E Brites me respondeu
tão doce, como tirana:
en vano llama la puerta,
quien no ha llamado en el alma.

 

 

 

 

INCLINAVA-SE BRITES A HUM SUGEYTO DE MAIS ESPERANÇAS, QUE MERITOS, E EM SUA COMPETENCIA CONTINUA O POETA ESTE GALANTEYO.

 
 

Dizem, por esta comarca,
Brites, que, a quem vos conquista,
matais da primeira vista
por ter olhos mais da marca.

Eu o quis ir a dizer
à justiça, mas de inveja
me há de mandar, que vos veja
para acabar de morrer.

Eu me vejo, e me desejo
com penas, que me causais,
se me vedes, me matais,
e morro, se vos não vejo.

Dai remédio à minha flama,
mais que seja com matar-me:
porque se eu quis namorar-me,
só a morte cura, a quem ama.

Procuro o vosso favor,
mas não lhe acerto o caminho,
porque me dana o carinho,
e não me aproveita amor.

Tudo consiste em ventura,
que eu conheço algum talento
com menos merecimento,
porém com dita segura.

Mas espero todavia
merecer o vosso agrado,
que é suspeitoso cuidado,
o que de si desconfia.

Da vossa benevolência
tudo os meus desejos fiam,
que sempre amor entibiam
faltas de correspondência.

Faço por ver meu emprego
cada dia, e toda a vida
estais adrede escondida,
não vejo, a quem me faz cego.

Vejo casa tão-somente,
porque achais, que é justo, que
quem a pérola não vê,
vendo a concha se contente.

Não val convosco a fineza,
não val convosco a verdade,
não sei, como vos agrade,
não sei, como vos mereça.

Amor, que tem compaixão,
de quem aflige um cuidado,
ou vos arranque o agrado,
ou vos mude a condição.

 

 

 


 

RETRATA O POETA AS PERFEYÇÕES DESTA DAMA COM GALHARDO ACEYO.

 
 

  1    Podeis desafiar com bizarria
        Só por só, cara a cara a bela Aurora,
        Que a Aurora não só cara vos faria
        Vendo tão boa cara em vós, Senhora:
        Senhora sois do sol, e luz do dia,
        Do dia, que nascestes até agora,
        Que se Aurora foi luz por uma estrela,
        Duas tendes em vós, a qual mais bela.
 

  2    Sei, que o sol vos daria o seu tesouro
        Pelo negro gentil desse cabelo
        Tão belo, que em ser negro foi desdouro
        Do sol, que por ser d'ouro foi tão belo:
        Bela sois, e sois rica sem ter ouro
        Sem ouro haveis ao sol de convencê-lo,
        Que se o sol por ter ouro é celebrado,
        Sem ter ouro esse negro é adorado.
 

  3    Vão os olhos, Senhora, estai atento;
        Sabeis os vossos olhos o que são?
        São de todos os olhos um portento,
        Um portento de toda a admiração:
        Admiração do sol, e seu contento,
        Contento, que me dá consolação,
        Consolação, que mata o bom desejo,
        Desejo, que me mata, quando os vejo.
 

  4    A boca para cravo é pequenina,
        Pequenina sim é, será rubi,
        Rubi não tem a cor tão peregrina,
        Tão peregrina cor eu a não vi:
        Vi a boca, julguei-a por divina,
        Divina não será, eu não o cri:
        Mas creio, que não quer a vossa boca
        Por rubi, nem por cravo fazer troca.
 

  5    Ver o aljôfar nevado, que desata,
        A Aurora sobre a gala do rosal,
        Ver em rasgos de nácar tersa prata,
        E pérolas em concha de coral:
        Ver diamantes em golpe de escarlata
        Em picos de rubi puro cristal,
        É ver os vossos dentes de marfim
        Por entre os belos lábios de carmim.
 

  6    No peito desatina o Amor cego
        Cego só pelo amor do vosso peito,
        Peito, em que o cego Amor não tem sossego,
        Só cego por não ver-lhe amor perfeito:
        Perfeito, e puro amor em tal emprego
        Emprego assemelhando à causa efeito,
        Efeito, que é mal feito ao dizer mais,
        Quando chega o amor a extremos tais.
 

  7    Tanto se preza o Amor do vosso amor,
        Que mais prazer o tem em amor tanto,
        Tanto, que diz o Amor, que outro maior
        Não teve por amor, nem por encanto:
        Encanto é ver o amor em tal ardor,
        Que arde tão bem o peito, por espanto,
        Tendo de vivo fogo por sinal
        Duas vivas empolas de cristal.
 

  8    Ao dizer das mãos não me aventuro,
        Que a ventura das mãos a tudo mata,
        Mata Amor nessas mãos já tão seguro,
        Que tudo as mãos lavadas desbarata:
        A cuja neve, prata, e cristal puro
        Se apurou o cristal, a neve a prata
        Belíssimas pirâmides formando
        Onde Amor vai as almas sepultando.
 

   9    Descrever a cintura não me atrevo,
         Porque a vejo tão breve, e tão sucinta,
         Que em vê-la me suspendo, e me elevo,
         por não ver até agora melhor cinta:
         Mas porque siga o estilo, que aqui levo,
         Digo, que é a vossa cinta tão distinta,
         Que o Céu se fez azul de formosura,
         Só para cinto ser de tal cintura.
 

  10   Vamos já para o pé: mas tate-tate,
         Que descrever um pé tão peregrino,
         Se loucura não é, é desbarate,
         Desbarate, que passa o desatino:
         A que me desatina, me dá mate
         O picante de pé tão pequenino,
         Que pé tomar não posso em tal pegada,
         Pois é tal vosso pé, que em pontos nada.

 

 


 

FINGE O POETA QUE SE ARREPENDE DE A TER AMADO, E TUDO PIQUES PARA SER QUERIDO.

 
 

De uma Moça tão ingrata
que pode contar agora
a Musa, que me arrebata,
senão que é falsa traidora,
e traidoramente mata.
 

Para a ingratidão não sei,
que se ponha certa a pena,
porque se a condena a Lei,
nunca certa pena achei
na mesma Lei, que a condena.
 

Isto agraveza casou
da culpa, que se condena,
que como torpe a julgou,
não pode chegar a pena,
onde a ingratidão chegou.
 

A maior condenação,
a mais terrível, e forte,
é, quando de morte a dão;
porém uma ingratidão
não se paga nem co'a morte.

 
Mas eu vejo, que esta ingrata
sobre não pagar co'a morte
as vidas, que desbarata,
vive ufana em sua sorte,
e sobre viver me mata.
 

Não me mata a ingratidão,
com que trata o meu amor,
mata-me a satisfação,
e glória, com que o rigor
me dá como galardão.
 

Se chegara a conhecer
que falta ao gratificar,
me obrigara a mais querer,
sem pressupor, que o dever
é gênero de pagar.
 

Mas cuidar de presumida,
que com deixar-se querer
me paga os riscos da vida,
e as ânsias do pertender
com dar-se por pertendida:
 

É crueldade, é rigor
que nenhum peito suporta:
mas recate o seu furor,
que eu sei, que nem sempre amor
há de estar atrás da porta.
 

Eu perdoara, o que deve
a meu ardor, e fineza,
e afirmo para firmeza
esta quitação tão breve,
que, do que lhe quis, me pesa.
 
 

 

 

CASUAL ENCONTRO QUE TEVE O POETA COM BRITES NO SEU RETIRO DE HUA ROÇA.

 
 

Fui ver a fonte da roça,
e quando a mais gente vai
a refrescar-se na fonte,
eu me fui nela abrasar.
Dentro na fonte achei Brites,
que ali se foi a banhar,
por dar que entender aos olhos
um cristal noutro cristal.
Noutras horas corre a fonte:
com Brites corrida vai,
vendo que a sua brancura
a excede nos cabedais.
Sentiu-me Brites ao longe,
e o fraldelim posto já
era narciso no campo,
quem foi incêndio do mar.
Cheguei, e vendo tão claro
da fonte o rico raudal,
estive um pouco perplexo
entre o crer, e o duvidar.
Enfim vim a persuadir-me
que Brites em caso tal
não foi lavar-se na fonte,
mas foi à fonte lavar.
Tão líquida, e transparente
corria, que por sinal
de Brites lhe pôr as mãos
desatada em prata vai.
Por entre pedras a fonte
percipita o seu cristal,
que lhas tira como louco,
quem o vê precipitar.
Convidou-me, a que bebesse
a neve do manancial,
e se a neve assim me abrasa,
o incêndio que fará.
Bebi, e não matei sede,
porque no inferno de amar
fui Tântalo, cuja pena
o beber acende mais.
Queira Amor, Brites ingrata,
que essa fonte, esse cristal
não seja o vosso perigo,
em que Narciso morrais.
Que, quem me matou na fonte
por seu gosto a meu pesar,
será despique de um cego,
e vingança de um rapaz.

 

 

 

 

INSISTE O POETA (VENDO ESTES DESAPEGOS DE BRITES EM O NÃO QUERER ADMITIR) PARA SER CORRESPONDIDO EM SEU AMOR, ARGUMENTANDO-LHE RIJAMENTE CAUTELLOSOS SILLOGISMOS MAS TUDO DEBALDE.

 

 

Tenho-vos escrito assaz,
e torno nesta ocasião
a escrever-vos pertinaz,
para ver se o tempo faz,
o que não pode a razão.
 

Que talvez de importunada,
muito mais que de rendida
cede a vontade obstinada
mais que à razão de adorada,
à força de perseguida.
 

Vós não me correspondeis,
porque haveis medo de amar,
e esses riscos, que temeis,
são falsos, pois bem podeis
agradecer sem pagar.
 

Agradecei-me não mais
verdes-vos idolatrada,
porque com leves sinais
a mais amor me empenhais,
e ficais desobrigada.
 

Isto tem a gratidão,
que escusa grandes despesas,
com uma demonstração,
gastando pouca afeição
se ganham muitas finezas.
 

Fazei comigo um assento
de amor, e seu galardão,
ganhareis cento por cento,
se entrais co agradecimento,
entrando eu com afeição.
 

Não sei, que mal vos esteja,
Senhora, o meu bem-querer,
e porque a Lua se veja,
tudo, o que quer bem, deseja
muitos bens, a quem bem quer.
 

Isto é, o que significa
querer bem, isso contém,
que quem a Amor se dedica,
ao sujeito, a quem se aplica,
quer bem, e deseja bem.
 

Para os que mal vos quiserem,
que lhes guarda, ou lhes prepara
vossa condição tão rara?
se àqueles, que bem vos querem,
mostrais desabrida a cara.
 

Estou por me arrepender
de adorar, a quem me mata,
porque se a ambos maltrata,
mau fim tenha o bem-querer,
que vos faz a vós ingrata.
 

Mas eu tenho averiguado,
que isto consiste na estrela,
e o que perde o meu cuidado,
porque vós sois Moça bela,
e eu velho mal estreado.
 

Não o tenhais a escarcéu,
que se às estrelas mais belas
levais ganhado o troféu,
depois que eu trato esse céu,
entendo muito de estrelas.
 

E pois com vosso crisol
se ilumina a esfera bela,
em seu azul arrebol
bem podereis vós, meu sol,
dar-me outra melhor estrela.
 

Servi-vos de apiedar-vos
deste triste sem ventura,
porque é certa conjetura,
que, quem pertende adorar-vos,
nem faz mal, nem mal procura.

 

 


 

REFORÇA O POETA SEUS ENGANOS PROTESTANDO, QUE QUER SOMENTE AMAR POR AMAR, SEM OUTRO GENERO DE GALARDÃO, OU INTERESSE.

 

 

 

1    Menina: estou já em crer,
      que não é vosso rigor
      crueldade: mas temor,
      que tendes de vos render
      hei de dar-vos a entender
      por mais vos desenganar,
      que só pertendo adorar
      isento, e independente,
      que o querer do pertendente
      é mui distinto do amar.

 

 2    Bem posso sem ser amado,
       amar-vos, minha Senhora,
       porque amor sempre melhora
       o fino em o desgraçado:
       no impossível adorado
       está o afeto maior,
       que quem aspira ao favor
       em sua dor importuna,
       faz lisonjas à fortuna,
       e não serviços a Amor.
 
 

 3    Se do meu conhecimento
       nasceu a minha vontade,
       não pague uma divindade
       ter eu este entendimento:
       que mais agradecimento
       quer uma amante paixão,
       que amar, e amar com razão?
       e se é preciso querer
       ao belo, porque há de ser
       mérito a obrigação?

 4    O amar correspondido
       não é o mais perfeito amar,
       que não se hão de equivocar
       amante, e agradecido:
       sempre contingência há sido
       o rigor, ou a clemência
       e se da correspondência
       nascera sempre a vontade,
       não fora Amor divindade,
       porque o fosse a contingência.
 

5    Todo amante, que procura
      ser em seu amor ditoso,
      tem ambição ao formoso,
      não amor à formosura:
      quem idolatra a luz pura
      da beleza rigorosa,
      com fineza generosa
      ame sempre desprezado,
      porque o ser eu desgraçado,
      não vos tira o ser formosa.

 

6    Não ser de vós admitido
      acredita o meu cuidado,
      logo a ser tão desprezado
      devo estar agradecido:
      rigores peço sofrido,
      não clemência, nem piedade,
      porque inútil é a vontade,
      que deixa em sua fineza
      pelos logros da beleza
      respeitos da divindade.
 

 


 

COROU A FORMOSA BRITES ESTAS PRECIOSAS MENTIRAS DAQUELLE GALHARDO ENGENHO COM HUM ALEGRE RISO NA PRIMEYRA OCCASIÃO, QUE TEVE DE ENCONTRO COM ELLA, PARA CONTRADIZER-SE CAVILLOSO; O QUE LHE DEO MOTIVO PARA FAZER O SEGUINTE.

 
 
 

MOTE

 

Se é por engano esse riso,
fortuna, não me contenho,
que tens comércio co vento,
e mudas-te de improviso.

 
 

1    Se haveis por pouco custoso
      pagar meu amor, Senhora,
      vos quero afirmar agora,
      que é muito dificultoso:
      porque se um olhar iroso
      me rouba a vontade, e sigo,
      argumento é não preciso,
      que amor me pagais assim
      com um rir-vos para mim,
      Se é por engano esse riso.

 

 2    Um amor paga outro amor:
        logo mal podeis pagar-me
        um render-me, e cativar-me,
        que são obras de rigor:
        se me déreis um favor
        levada do rendimento,
        fora igual o pagamento;
        porém sendo eu firme amante
        com acasos de inconstante,
        Fortuna, não me contenho.

 

 3    Mas não te enojes, fortuna,
       de que em matérias de amor
       repudie um tal favor,
       por quem a alma te importuna:
       em hora mais oportuna
       o aceitarei mais atento,
       mas por agradecimento
       do mais firme amor aqui
       tanto não fio de ti,
       Que tens comércio co vento.

 

 4    Tu não és vento mudável,
       nem és nuvem aparente,
       nem exalação corrente,
       és fortuna variável:
       em um peito incontrastável,
       onde o fim está indeciso,
       não faz fincapé, nem siso
       teu jeroglífico errante,
       que és vária, como inconstante,
       E mudas-te de improviso.
 
 

 

 

A GRACIOSA BRITES, DE QUEM JA FALLAMOS POR COMER   HUM CAYJU, QUE VINHA PARA O POETA.

 
 

1    Se comestes por regalo,
      Brites, o caju vermelho,
      tomastes mui mau conselho,
      e temo, que heis de amargá-lo
      no pomo há de ter abalo
      toda a vossa geração,
      pois vós sem comparação
      gulosa à Eva excedestes,
      quando só por só comestes,
      sem dar parte ao vosso Adão.
 

2    Pôs-vos Deus Eva segunda
      nesse novo paraíso,
      fiando de vosso siso,
      que fosses menos imunda:
      vós como mais moribunda,
      mais fraca, e mais alfenim
      comestes o pomo enfim,
      e por lhe meter o dente
      não fugistes da serpente,
      e andais fugindo de mim.

 

3    Sinto amarguissimamente,
      que visto o vosso pecado
       hei de sair condenado,
       como se fosse a serpente:
       do Vigário era o presente,
       e meu o caju do meio,
       e assim com razão receio,
       que pelo vosso pecar,
       hei de sair a arrastar,
       como a serpente lhe veio.

 

4    Eu não vos persuadi,
      para haveres de o comer,
      que Deusa havíeis de ser,
      pois Deusa sempre vos vi:
      mas vendo o caju rubi,
      gulosa, e arremessada
      lhe fostes dar a dentada,
      e diz a lei com a glosa,
      que pois fostes a gulosa,
      haveis de ser arrastada.
 

 


 

TENDO BRITES DADO ALGUMAS ESPERANÇAS AO POETA SE LHE OPPOZ UM SUGEYTO DE POUCOS ANNOS, PERTENDENDO-A POR ESPPOSA, RAZÃO POR ONDE VEYO ELLA A DESVIAR-SE, DESCULPANDO-SE POR SER JA VELHO.

 

 

1        P.     Ao Velho, que está na roça,
                  que fuja às Moças dizei.
          R.     A bofé não fugirei,
                   enquanto Brites for moça.
                   Se lhe não fazeis já mesa,
                   por que não heis de fugir?
          P.      Por quê? Porque hei de cumprir
                   co'a obrigação de cascar,
                   dando-lhe sete ao entrar,
                   e quatorze ao despedir.

2                 E já que em vosso sujeito
                   há fidalguia estirada
                   honrai-me, que a que é honrada
                   não perde a um velho o respeito.
          P.      Tendes comigo mau pleito
                    pelas cãs, que penteais.
          R.      Nisso mais vos enganais,
                    que eu penteio desenganos,
                    não pelo peso dos anos,
                    pelo pesar, que me dais.
 
 

 

 

SABENDO O POETA O MOTIVO DO DESVIO LHE MANDOU ESTAS DÉCIMAS.

 
 

1    Se mercê me não fazeis
      pelas cãs, que me enxergais,
      vós sois, a que perdeis mais,
      pois tal simpleza dizeis:
      que se a um velho aborreceis
      por ser homem de maior,
      que heis de fazer ao menor?
      porque se pela trocada
      deixais o muito por nada,
      entendeis pouco de amor.
 

2    Não vos entra no miolo,
      que é de valor mais subido
      um velho, sendo entendido
      que um menino, sendo tolo?
      Se da Dama de alto colo
      (diz a história, que dizia)
      que para o que ela queria,
      arto sabia o seu preto
      de teologia, um discreto
      sabe inda mais teologia.

 

3    A diferença, que há
      entre o homem, e entre o bruto,
      é da razão o atributo,
      que Deus aos homens nos dá:
      logo mais homem será
      o homem, que é mais sagaz,
      mais homem o mais capaz,
      mais home o mais racional,
      e o rapaz mais animal
      mas bruto por mais rapaz.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO E PELO MESMO MOTIVO.

 
 
Senhora Beatriz: foi o demônio
Este amor, esta raiva, esta porfia,
Pois não canso de noite nem de dia
Em cuidar nesse negro matrimônio.
 

Oh se quisesse o Padre Santo Antônio,
Que é Santo, que aos perdidos alumia,
Resvelar-lhe a borrada serventia
Desse Noivo essa purga, esse antimônio!

 

Parece-lhe, que fico muito honrado
Em negar-me por velho essa clausura?
Menos mal me estaria o ser capado.
 

Não sofro esses reveses da ventura,
Mas antes prosseguindo o começado
A chave lhe hei de pôr na fechadura.
 

 


 

MAGUADO O POETA E SENTIDISSIMO COM ESTA PENA DE VER FRUSTRADO TODOS OS SEUS INTENTOS, CANTAVA AO SOM DO SEU INSTRUMENTO A SEGUINTE LETRA.

 
 

Aqui-d'EI-Rei, que me matam
os negros olhos de Brites!
eu não vi mulher tão branca
com tão negros azeviches.
Dizem, que pelos cabelos
a leva certa velhice,
que como enfim é menina,
gosta mais das meninices.
Quer-se casar cum Menino,
e está nisto tão terrível,
que amanhã há de enjeitá-lo,
por lhe passar da puerice.
Está nisto tão teimosa,
tão dura, e tão invencível,
que quer enforcar-se o velho
pela demônia de Brites.
E porque Amor a beber
me deu artos alfiniques,
a Mãe, que disto não sabe,
sabe somente afligir-me.
Vai divertir-se na roça
confusa, chorosa, e triste,
onde os compadres lhe cantam
os desenganos seguintes.

 

 

ESTRIBILHO

 

Tá tá,
não me mateis tá,
que inda que sou velho,
não hei de cansar.

 

 

 

 

RESOLVE-SE BRITES TOTALMENTE A DEYXAR OS GALANTEYOS DO POETA POR LOGRAR SEUS PROPRIOS INTERESSES: E COMPADECIDA DESTAS QUEBRAS THEREZA IRMÃA DE BRITES REPETIO AO POETA PASSANDO-LHE PELA RUA O SEGUINTE.

 

 

MOTE

 

Campos bem-aventarados,
tornai-vos agora tristes,
que os dias, em que vos vistes
alegres, já são passados.

 

1    Estes campos, que a firmeza
      com tais afetos cultiva,
      se choram ser Lise esquiva,
      não os muda uma aspereza:
      que renascendo a beleza
      dessa Deusa em seus cuidados,
      mostram, quando derrotados
      da tirana sem razão,
      que por amar Lise, são
      Carnpos bem-aventurados.

 

2    Neles sempre Amor perfeito
      sustentou tantos poderes,
      que não pode Malmequeres
      tirá-lo nunca do peito:
      as mais flores com efeito
      (segundo vós advertistes)
      ficaram tais, quais as vistes,
      e em suma melancolia
      o mesmo sol lhe dizia,
      Tornai-vos agora tristes.

 

3    Não é maravilha não
      durar nos campos tal flor,
      que como a cultiva Amor,
      sempre guarda a duração:
      e assim não pode a paixão
      deixá-la, como inferistes,
      que posto os meus olhos tristes
      não logrem sua beleza,
      mais firme estou na fineza,
      Que os dias, em que vos vistes.

 

 4    E por fim não há rigor,
       que abalar possa esta fé,
       pois nela, e em mim se vê,
       que a Lise só tenho amor:
       não merecer seu favor
       não basta para os cuidados,
       pois da pena acrisolados,
       requintando idolatrias,
       vendo de amor as porfias
       Alegres já são passados.

 

 


 

ACABA O POETA DE CRER A RESOLUÇÃO DE BRTTES, ESTRANHANDO LHE EM CERTA OCCASIÃO HUM TAL DESAPEGO.

 

 

MOTE

 

Que fostes meu bem, mostrastes,
mas já agora não sentistes,
que os bens não duram nos tristes
sem que padeçam contrastes.

 

 

1    Horas de contentamento
      sempre são poucas, e breves,
      que os gostos, como são leves,
      voam como o pensamento:
      trocou-se o gosto em tormento,
      Lise, porque vos trocastes,
      e como um mal me deixastes
      em câmbio de um bem, Senhora,
      em seres meu mal agora,
      Que fostes meu bem, mostrastes.

 

2    O mal sempre é substituto
      do bem, que a fortuna veda,
      e que ao bem o mal suceda,
      é já lei, é já estatuto:
      um do outro é flor, e fruto,
      e num bem que me aplaudistes,
      porque vós mo repetistes,
      tempo sei eu, Lise fera,
      que chorareis, se o perdera,
      Mas já agora não sentistes.

 

3    Não me espanto, Lise, não
      dessa dureza, e rigor,
      porque da fonte do amor
      é, que nasce a compaixão:
      não sinto em minha paixão
      ver, que vós a não sentistes;
      sinto saber, que a urdistes:
      como há de chorar-me alguém,
      se todos sabem mui bem,
      Que os bens não duram nos tristes?
 

4    Nunca da vossa dureza
      dor alguma se esperou:
      porque aonde amor faltou,
      falta a lei da natureza:
      logrei na vossa beleza
      os bens, que me dispensastes,
      enquanto a ira aplacastes
      do mar dessa formosura,
      que não dá bens a ventura,
      Sem que padeçam contrastes.

 

 

 

 

A MESMA COM IRAS DE NAMORADO.

 

 

MOTE

 

Mi rezelo me dizia,
quando te empecé a querer,
que en effecto eras muger,
y es nescio, quien dellas fia.

 
 

1    Quize-te, Beliza, amar,
      y por mas que iba queriendo,
      iba conmigo diziendo,
      que me havias de engañar:
      yo nó quise acreditar
      el daño, que presumia,
      mas viendo tu aleyvozia,
      luego al instante alcancé,
      que era cierto aquilo, que
      Mi rezelo me dizia.
 

2    Iba queriendo, y dudando
      traz de mi misma sospecha
      que el aviso no aprovecha,
      al que se vá despenhando:
      hasta que cahi pagando
      mi imprudente proceder,
      y es justo, que llegue a ver
      afflicto mi coraçon,
      pues no segui la rason,
      Quando te empecé a querer.
 

3    Saliste al fin con tu engaño,
      pues en tu naturaleza,
      como ya mas ay firmeza,
      siempre tuvo assiento el daño:
      toco aora el desengaño
      del mal, que hize en te querer,
      pues para no pertender
      firmeza en tu pecho hallar,
      luego deviera pensar,
      Que en effecto eras muger.
 

4    Muger eras, falsa fuiste,
      falsa devias de ser,
      pues si nasciste muger,
      obras, como qual naciste:
      muy pouco a mim me offendiste,
      porque yo te conocia,
      y nunca, Beliza mia,
      aguardé de tus verdades,
      ni fié de tus lealtades,
      Y es nescio, quien dellas fia.

 

 


 

RESPONDE O POETA A HUM MAL CONSIDERADO AMIGO, QUE O MATRAQUEAVA DE COBARDE NESTA MATERIA.

 

 

Deixei a Dama, a outrem, mas que fiz?
Deixar o começado é ser falaz,
Porém Amor por louco, e por rapaz
Ao mesmo tempo afirma, e se desdiz.
 

Consenti de outro amante ações gentis,
Largando o bem, fiquei dele incapaz,
Se eu não souber fazer, o que outrem faz,
Que muito, que outrem queira, o que eu não quis.
 

O Sítio, em que a vontade a mim me pôs,
Do qual fora a razão já me conduz,
Seja a outrem prisão, seja cadoz.
 

Seja ele o infeliz, que eu ser propus
Alexandre, que em laços cortou nós,
Teseu, que em labirintos achou luz.

 

 

 
 

COSTUMAVA CANTAR O POETA ESTA LETRA A SEU INSTRUMENTO EM QUANTO LHE DUROU O PEZAR DAS TYRANNIAS DESTA DAMA

 
 

Forasteiro descuidado,
se acaso chegar vos move
ou negócio, ou pertensão,
curiosidade, ou amores.
Guardai-vos, digo mil vezes,
de pôr os olhos nas torres
dessa traidora cidade,
que tal basalisco encobre.
De um serafim o mais belo,
que o Céu corta, os ares rompe,
tão cruel, e tão tirano,
qual jamais admira o orbe:
Com estes sinais vos dou
exemplo nas minhas dores,
forasteiro, caminhai,
queira, Amor, que vos não olhe.
Caminhai, digo outra vez,
prevenido de temores,
que eu já me vou a enterrar,
porque me condena a morte.

 

 


 

DESENGANADO O POETA AO EFFEYTOAREMSE AQUELLAS VODAS COM HUM MOÇO LICENCIADO SAHIO RAYVOSAMENTE COM ESTA SATYRA.

 
 
 

1    Casai-vos, Brites, embora,
      mas adverti, que em solteira
      se até aqui fostes rendeira,
      sereis costureira agora:
      heis de coser cada hora,
      para enganar o esposado,
      esse berbigão rasgado:
      saiba o Moço de corrida,
      que andais por ele cozida,
      quando ele por vós assado.

 

2    Se por douto se vos vende,
      bem sabe a filosofia,
      mas tão pouca astrologia,
      que, o que é virgo, não entende:
      e se na esfera pertende
      lançar linhas sem medida,
      ignorância é conhecida,
      pois a saber as da esfera,
      logo as linhas conhecera,
      com que vos estais cosida.

 

3    Pontos em cousa surrada
      fazem o feitio caro:
      melhor é falar-lhe claro,
      e dizer, que estais usada:
      não entenda o Noivo nada
      dos usos, que há em direito,
      que eu, que lhe tenho algum jeito,
      sei, que a vossa honrinha falsa,
      posto que um ponto só calça,
      grande entrada tem no peito.

 

4    O que me tem mais confuso,
      é, que casar-vos temais,
      porque tão usada estais,
      sendo a gala andar ao uso:
      se o Noivo está já obtuso
      na regra de musa musa,
      como há de tomar a escusa,
      de casar com Noiva honrada,
      por se dizer ser usada,
      se o que se usa, não se escusa.

 

5    Animai-vos, Brites, pois,
      tomai de casada o estado,
      servireis de guardar gado,
      pois sabeis o nome aos bois:
      e se o Noivo lá depois
      vos der no rasto da linha,
      direis chorosa, e mesquinha
      (culpando o poder do Arnor)
      não é culpa do pastor
      meterem-lhe os bois na vinha.

 

 6    Quem fez ao Noivo capaz
       de vos tocar na desonra,
       quando vós em pontos d'honra
       excedeis ao Noivo assaz?
       não é ele tão audaz,
       que fale no vosso vício,
       pois lhe fazeis benefício
       casando, que sois na empresa
       honrada por natureza
       não só, mas por artifício.

 7    Quereis (fora vá de pulha)
       por dar à vida descarga,
       que numa barra tão larga
       entre o Noivo pela agulha?
       vós mesma fazeis a bulha,
       pois dais com essa cautela
       sinais da vossa mazela;
       agulha se há de escusar,
       que para essa foz entrar,
       o que importa, é pôr a vela.

 

8    Muito ao Noivo lhe convinha,
      que vós por me dar o jeito
      entupísseis bem o estreito,
      para que ele passe a linha:
      e se a hora for mesquinha,
      que antes da linha passada
      ache calma, ou trovoada,
      com que se esgote o refresco,
      vós fareis, com ele o fresco,
      para seguir a jornada.

 

9    Casai-vos, bebei o trago,
      que estou já frito, e assado
      por ver o Licenciado
      alagado nesse lago
      sempre me destes mau pago
      ao bem, que sempre vos quis,
      e agora estou por um triz
      de bem vingado me ver,
      se vos quer, ou não vos quer
      o Sô Licenciado Ortis.

 

10    Ele virá no partido,
        porque verá como honrado,
        que qualquer virgo ensopado
        não tem mais do que cozido:
        ele é da terra o Cupido,
        o Narciso, e o Nanaço,
        e não sirva de embaraço
        não ir para a nova casa,
        cabaço, que se ele casa,
        eu jurarei, que é cabaço.

 

 

 

 

A VISTA DO AMOR, QUE TEVE O POETA A ESTA DAMA, COMO SE COLHE É A SEGUINTE OBRA HUM TESTEMUNHO DA SUA GENEROZIDADE: POIS LHE RECUSA OS SEUS CONVITES, ACONSELHANDO-A A SOFFRER SEU ESPOSO. NEM OS SEUS GALANTEOS FORAM COM PESSOA PROHIBIDA.

 
 

1    Vós casada, e eu vingado,
       todo o meu coração sente,
       mas a vingança presente
       mais que o agravo passado:
       o agravo já perdoado
       pelas desculpas, que dais,
       menos dor me ocasionais
       por ser contra meu respeito
       que, o que contra vós é feito,
       força é, que doa mais.

 

2    Chorar vosso casamento
      é sentir a minha dor
      e agora me obriga Amor
      a sentir vosso tormento:
      vosso descontentamento
      do meu mal distância encerra,
      que no meu coração não erra
      censurando um, e outro sim,
      pois de vós vai tanto a mim,
      como vai dos céus a terra.
 

3    Um só coração assestam
      os pesares, de quem ama,
      mas os pesares da Dama
      a dois corações molestam:
      se duas vidas infestam
      males, de que estais sentida,
      com razão, prenda querida,
      dois prantos faço em comum.
      pela minha vida um,
      outro pela vossa vida.

 

4    Levai prudenre, e sagaz
      esse cargo, essa pensão,
      porque o erro da eleição
      consigo outros erros traz:
      se é de remédio incapaz
      o erro do casamento,
      dissimule o sofrimento
      esse erro: porque maior
      não faça o erro de amor
      erros do arrependimento.

 

 


 

COM ESTA RESPOSTA SE AVIVARAM NA DAMA OS INCENDIOS DE AMOR E NO POETA SE AVIVARAM OS QUILATES DESTA HONRA.

 
 
 

Não me culpes, Filena, não de ingrato,
Se notado hás de mim tanta esquivança;
Por que a força do fado em tal mudança
Ou inclina o desdém, ou move o trato.

Mas que importa, se quando olvidar trato
Teus amores por lei, que não se alcança,
Dura impressa no amor tua lembrança;
Vive n'alma estampado teu retrato.
 

Os efeitos combatem da vontade
Amoroso desdém zelosa pena,
Produzindo tão grande variedade.
 

Teu amor, que me obriga, te condena,
Que como não tens livre a liberdade,
Não me podes prender o amor, Filena.

 

 

 

 

 

 

 

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