LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

 

 

 

ARMAZÉM DE PENA E DOR

 

ANGOLA

 

AO GOVERNADOR D. JOÃO D'ALENCASTRE QUANDO MANDOU PRENDER AO AUCTOR PARA O DEGRADAR POR TER CHEGADO DISFARÇADO DE LISBOA EM HUMA NAO DE GUERRA O FILHO DE ANTONIO LUIZ DA CAMARA COUTINHO COM INTENTO DE Ó MATAR PELAS SATYRAS, QUE FEZ A SEU PAY: O QUE CONHECIDO PELO GOVERNADOR D. JOÃO D'ALENCASTRE, LHE QUIS SEGURAR A VIDA COM O PRETEXTO DE DEGREDO PARA ANGOLLA. O QUE O AUCTOR NESTA OBRA QUER NEGAR DESCULPANDO-SE.

 

DESCREVE O QUE REALMENTE SE PASSA NO REINO DE ANGOLLA.

 

DESCREVE A HUM AMIGO DESDE AQUELLE DEGREDO AS ALTERAÇÕES, E MISERIAS DAQUELLE REYNO DE ANGOLLA, E O QUE JUNTAMENTE LHE ACONTECEO COM OS SOLDADOS AMOTINADOS, QUE O LEVARAM PARA O CAMPO, E TIVERAM CONSIGO PARA OS ACONSELHAR NO MOTIM.

 

LAMENTA O POETA O TRISTE PARADEYRO DA SUA FORTUNA DESCREVENDO AS MIZERIAS DO REYNO DE ANGOLLA PARA ONDE Ò DESTERRARAM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ARMAZÉM DE PENA E DOR

 

OPÚSCULO DE GREGÓRIO DE MATTOS E GUERRA, POETA, AO TEMPO EM QUE, HOMEM BENEMÉRITO, FOI JUIZ DO CRIME E DE ÓRFÃOS EM LISBOA, ONDE ASSISTIU DU-- RANTE VINTE ANOS, TENDO-SE CASADO E ENVIUVADO; DE QUANDO EM SUA PÁTRIA DA BAHIA, FOI DEGRE-- DADO PARA BENGUELA, EM ANGOLA, PELO CRIME DE SUA POESIA; SUA PARTICIPAÇÃO COMO SECRETÁRIO DE ESTADO NA REVOLTA DA TROPA ALI AQUARTELADA; E DE COMO FOI REMETIDO DE VOLTA AO BRASIL, DESTA VEZ PARA PERNAMBUCO, ONDE REMANESCEU PROIBIDO

DE FAZER SÁTIRAS ATÉ O DIA DE SUA MORTE.

 

Pelo crime de poeta

sobre jurista famoso

 

Tomás Pinto Brandão

 

Porque todos te fazem degradá-,

Que no nosso idioma é para Angó-.

 

 

 

 

ANGOLA

 

mande-me já degradado

por sentença ou de perceito,

ao mar, largo, ou mar estreito,

onde os campos de Zafir

com respeito me hão de ouvir

e não falar por respeito

Ver dar açotes sin piedad ni tassa

 

 

 

 

AO GOVERNADOR D. JOÃO D'ALENCASTRE QUANDO MANDOU PRENDER AO

AUCTOR PARA O DEGRADAR POR TER CHEGADO DISFARÇADO DE LISBOA

EM HUMA NAO DE GUERRA O FILHO DE ANTONIO LUIZ DA CAMARA

COUTINHO COM INTENTO DE Ó MATAR PELAS SATYRAS. QUE FEZ A SEU

PAY: O QUE CONHECIDO PELO GOVERNADOR D. JOÃO D'ALENCASTRE, LHE

QUIS SEGURAR A VIDA COM O PRETEXTO DE DEGREDO PARA ANGOLLA. O

QUE O AUCTOR NESTA OBRA QUER NEGAR DESCULPANDO-SE.

 

 

MOTE

 

Não há mais tirano efeito,

que padecer, e calar

ter boca para falar,

e não falar por respeito.

 

 

 

Que hoje à força meu fado

um Governador envolto,

que, por ser na língua solta,

seja no discurso atado:

velhacamente informado

formou de mim tal conceito:

porém (salvo o seu respeito)

fazer-me a defesa pausa,

havendo mentir a causa,

Não há mais tirano efeito.

 

Já não há bem, e conheço

que neste presente abalo

padeço mais, do que calo,

calo mais, do que padeço:

porém, Senhor, se eu mereço

nos dous extremos votar,

se qualquer me há de ultrajar,

tenho a melhor padecer,

antes falar, e morrer,

Que padecer, e calar.

 

Eu tenho a língua embargada

aqui, que se a não tivera,

cousa boa não dissera,

fizera cousa falada:

tudo digo neste nada,

nada faço em me explicar;

assim quero-me calar,

porque no presente ano

só pode qualquer magano

Ter boca para falar.

 

 Serei qual melão letrado

 com bem estranho sentido,

 que hei de ser mais entendido,

 quando estiver mais calado:

 mande-me já degradado

 por sentença, ou de perceito,

 ao mar largo, ou mar estreito,

 onde os campos de Zafir

 com respeito me hão de ouvir,

 E não falar por respeito.

 

 

 

 

DESCREVE O QUE REALMENTE SE PASSA NO REINO DE ANGOLLA.

 

 

Passar la vida, sin sentir que passa,

De gustos falta, y de esperanças llena,

Bolver atraz pisando en seca arena,

Sufrir un sol, que como fuego abraza.

 

Beber delas cacimas água bassa,

Comer mal pos a medio dia, y cena,

Oyr por qualquer parte una cadena,

Ver dar açotes sin piedad, ni tassa:

 

Ver-se uno rico por encantamiento,

Y señor, quando a penas fué creado,

No tener, de quien fué, conocimiento;

 

Ser mentiroso por razon de estado,

Vivir en ambicion siempre sediento,

Morir de deudas, y pezar cargado.

 

 

 

 

DESCREVE A HUM AMIGO DESDE AQUELLE DEGREDO AS ALTERAÇÕES, E

MISERIAS DAQUELLE REYNO DE ANGOLLA, E O QUE JUNTAMENTE LHE

ACONTECEO COM OS SOLDADOS AMOTINADOS, QUE O LEVARAM PARA O

CAMPO, E TIVERAM CONSIGO PARA OS ACONSELHAR NO MOTIM.

 

 

Angola é terra de pretos,

mas por vida de Gonçalo,

que o melhor do mundo é Angola,

e o melhor de Angola os trapos.

Trapos foi o seu dinheiro

este século passado,

hoje já trapos não correm,

corre dinheiro mulato.

Dinheiro de infame casta,

e de sangue inficionado,

por cuja causa em Angola

houve os seguintes fracassos.

Houve amotinar-se o Terço,

e de ponto em branco armado

na praia de Nazaré

pôr-nos em sítio apertado.

Houve, que Luís Fernandes

foi entonces aclamado

por rei dos jeribiteiros,

e por sova dos borrachos.

Houve expulsão do Ouvidor,

que na chinela de um barco

botou pela barra fora

mais medroso, que outro tanto.

Houve levar-se o Doutor

rocim pelo barbicacho,

à campanha do motim

por Secretário de estado.

Houve, que receando o Terço

mandou aqui lançar bandos,

alguns com pena de morte,

outros com pena de tratos.

Houve, que sete cabeças

foram metidas num saco,

porque o dinheiro crescesse,

como os fizessem em quartos.

Houve, que sete mosquetes

leram aos sete borrachos

as sentenças aos ouvidos

em segredo aqui entre ambos.

Houve, que sete mosquetes

inda hoje se estão queixando,

que aquela grande porfia

lhe tem os cascos quebrados.

Houve, que após da sentença,

e execução dos madraços

prenderam os esmoleiros,

que deram socorro ao campo.

Houve, que saíram livres

por força de um texto Santo,

cuja fé nos persuade,

que a esmola apaga os pecados.

Houve mil desaventuras,

mil sustos, e mil desmaios,

uns tremiam com quartãs,

a outros tremiam os quartos.

Houve, que esteve em depósito,

a ponto de ser queimado

arremedando nas cinzas

ao antigo mar Troiano.

Leve o diabo o dinheiro,

por cujo sangue queimado

tanta queimação de sangue

padecem negros, e brancos.

Com isto não digo mais,

antes tenho sido largo,

que me esquccia até agora

do nosso amigo Lencastro.

 

 

 

 

LAMENTA O POETA O TRISTE PARADEYRO DA SUA FORTUNA DESCREVENDO

AS MIZERIAS DO REYNO DE ANGOLLA PARA ONDE Ò DESTERRARAM.

 

 

Nesta turbulenta terra

armazém de pena, e dor,

confusa mais do temor,

    inferno em vida.

 

Terra de gente oprimida,

monturo de Portugal,

para onde purga seu mal,

    e sua escória:

 

Onde se tem por vanglória

o furto, a malignidade,

a mentira, a falsidade,

    e o interesse:

 

Onde a justiça perece

por falta, de quem a entenda,

e onde para haver emenda

    usa Deus,

 

Do que usava cos Judeus,

quando era Deus de vinganças,

que com todas as três lanças

    de sua ira

 

De seu tronco nos atira

com peste, e sanguínea guerra,

com infecúndias da terra,

    e pestilente

 

Febre maligna, e ardente,

que aos três dias, ou aos sete

debaixo da terra mete

    o mais robusto.

 

Corpo queimado, e combusto,

sem lhe valer medicina,

como se peçonha fina

    fora o ar:

 

Deste nosso respirar

efeitos da zona ardente,

onde a etiópica gente

    faz morada:

 

Gente asnaval, e tostada,

que da cor da escura noite

a pura marca, e açoite

    se encaminha:

 

Aqui a fortuna minha

conjurada com seu fado

me trazem em tal estado,

    qual me vejo.

 

Aqui onde o meu desejo

debalde busca seu fim,

e sempre me acho sem mim,

    quando me busco.

 

Aqui onde o filho é fusco,

e quase negro é o neto,

negro de todo o bisneto

    e todo escuro;

 

Aqui onde ao sangue puro

o clima gasta, e conforme,

o gesto rói, e corcome

    o ar, e o vento,

 

Sendo tão forte e violento,

que ao bronze metal eterno,

que o mesmo fogo do inferno

    não gastara,

 

O racha, quebra, e prepara,

que o reduz a quase nada;

os bosques são vil morada

    de Empacassas

 

Animais de estranhas raças,

de Leões, Tigres, e Abadas,

Elefantes às marradas,

    e matreiros:

 

Lobos servis, carniceiros,

Javalis de agudas setas,

Monos, Bugios de tretas

    e dos rios

 

Há maldições de assobios

de crocodilos manhosos

de cavalos espantosos

    dos marinhos,

 

Que fazem horrendo ninhos

nas mais ocultas paragens

das emaranhadas margens,

    e se acaso,

 

Quereis encher de água um vaso,

chegando ao rio ignorante

logo nesse mesmo instante

    vos sepulta

 

Na tripagem mais oculta

um intrépido lagarto,

vós inda vivo, ele farto:

    pelo que

 

Não ousais a pôr o pé

uma braça da corrente

que este tragador da gente

    vos obriga

 

A fugir-lhe da barriga;

Deus me valha, Deus me acuda,

e com sua santa ajuda

    me reserve:

 

Em terra não me conserve,

onde a sussurros, e a gritos

a multidão de mosquitos

    toda a noite

 

Me traga em contino açoite,

e bofetadas soantes,

porque as veias abundantes

    do vital

 

Humor puro, e cordial

não veja quase rasgadas

a puras ferretoadas:

    e inda é mais;

 

Se acaso vos inclinais

por fugir da ocasião

da vossa condenação

    a lavrador,

 

Estando a semente em flor,

qual contra pintos minhotos,

um bando de gafanhotos,

    imundícia,

 

Ou qual bárbara milícia

em confusos esquadrões

marcham confusas legiões,

    (estranho caso!)

 

Que deixam o campo raso,

sem raiz, talo, nem fruto,

sem que o lavrador astuto

    valer lhe possa:

 

Antes metido na choça

se lastima, e desconsola

vendo, o quão geral assola

    esta má praga.

 

Há uma cobra, que traga

de um só sorvo, e de um bocado

um grandíssimo veado:

    e se me ouvis,

 

Há outra chamada Enfuís,

que se vos chegais a ela

vos lança uma esguicha dela

    de peçonha,

 

Quantidade, que se exponha

bem dos olhos na menina,

com dores, que desatina

    o paciente:

 

Cega-vos incontinenti

que o trabuco vos assesta

distante um tiro de besta:

    (ó clemência

 

De Deus?) ó onipotência,

que nada embalde criaste!

Para que depositaste

    num lugar

 

lnstrumentos de matar

tais, e em tanta quantidade!

e se o sol com claridade,

    e reflexão

 

É causa da geração

como aqui corrompe, e mata?

e se a lua cria a prata,

    e seu humor

 

Almo, puro, e criador

comunica às verdes plantas,

como aqui maldades tantas

    descarrega?

 

E se a chuva só se emprega

em fertilizar os prados,

como febres aos molhados

    dá mortais?

 

E se quantos animais

a terra sustenta, e cria,

são dos homens comedia,

    como nesta

 

Terra maldita, e infesta,

triste, horrorosa, e escura

são dos homens sepultura?

    Mas, Senhor,

 

Vós sois sábio e criador

desta fábrica do mundo,

e é vosso saber profundo,

    e sem medida.

 

Lembrai-vos da minha vida,

antes que em pó se desfaça,

ou dai-me da vossa graça

    por eterna despedida.

  

 

 

 

 

 

 

 

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