LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

A NOSSA SÉ DA BAHIA

 

AOS CAPITULARES DO SEU TEMPO.

 

PONDERA ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO QUAM GLORIOSA HE A PAZ DA RELIGIÃO.

 

AO ILUSTRISSIMO SENHOR D. Fr. MANUEL DA RESURREYÇÃO.

 

A MORTE DO MESMO SENHOR SUCCEDIDA DE HUMA FEBRE MALIGNA EM BELLEM ANDANDO EM VISITA.

 

EPITAFIO À SEPULTURA DO MESMO EXmo. SENHOR ARCEBISPO.

 

A CHEGADA DO ILLUSTRISSIMO SENHOR D. JOÃO FRANCO DE OLIVEYRA TENDO SIDO JA BISPO EM ANGOLLA.

 

A FROTA EM QUE VEYO O PALLIOLO DESTE GRANDE PRELADO.

 

AO MESMO ILLUSTRISSIMO SENHOR CHEGANDO DE VISITA A VILLA DE S. FRANCISCO, ONDE Ò ESPERAVAM MUYTOS CLERIGOS PARA TOMAREM ORDENS.

 

A MAGNIFICENCIA COM QUE OS MORADORES DAQUELLA VlLLA RECEBERAM O DITO SENHOR COM VARIOS ARTIFICIOS DE FOGO POR MAR, E TERRA CONCORRENDO PARA A DESPEZA O VIGARIO.

 

OBRIGADOS OS ORDENANDOS A CANTAR O CANTO CHAM DESAFINARAM PERTURBADOS A VISTA DO PRELADO, E OS OBRIGOU, A QUE ESTUDASSEM OS SETTE SIGNOS. CELEBRA O POETA ESTE CASO, E LOUVA A PREDICA, QUE FEZ SUA ILLUSTRISSIMA.

 

A MORTE VIOLENTA QUE LUIZ FERREYRA DE NORONHA   CAPITÃO DA GUARDA DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DEO À JOZÉ DE MELLO SOBRINHO DESTE PRELADO.

 

AO RETIRO QUE FES ESTE ILLUSTRISSIMO PRELADO SENTIDISSIMO, E MAGUADO PELA TYRANNA, E VIOLENTA MORTE QUE O CAPITÃO DA GUARDA LUIZ FERREYRA DE NORONHA DEO A SEU SOBRINHO.

 

AOS MISSIONARIOS, À QUEM O ARCEBISPO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEUS RECOMENDAVA MUYTO AS VIAS SACRAS, QUE ENCHENDO A CIDADE DE CRUZES CHAMAVÃO DO PULPITO AS PESSOAS POR SEUS NOMES, REPREHENDENDO, À QUEM FALTAVA.

 

A CERTO PROVINCIAL DE CERTA REGIÃO QUE PREGOU O MANDATO EM TERMOS TA, RIDICULOS QUE MAIS SERVIO DE MOTIVO DE RIZO, DO QUE DE COMPAIXÃO.

 

AO CURA DA SÉ QUE ERA NAQUELLE TEMPO, INTRODUZIDA ALI POR DINHEYRO, E COM PRESUNÇÕES DE NAMORADO SATYRIZA O POETA COMO CREATURA DO PRELADO.

 

AO ILLUSTRISSIMO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEOS MUDANDO-SE PARA O SEU NOVO PALACIO, QUE COMPROU.

 

O DEÃO ANDRE GOMES CAVEYRA SE INTRODUZIO DE TAL MODO COM ÊSTE PRELADO EM DESABONO DO POETA, QUE ESTIMULADO O DITO FÊZ O SEGUINTE.

 

COMO ACREDITOU ESTE PRELADO MAIS OS MEXERICOS DE CAVEYRA, DO QUE AS LIZONJAS DO POETA, LHE FEZ ESTA SÁTIRA

 

LOUVA O POETA O SERMÃO, QUE PREGOU CERTO MESTRE NA FESTA, QUE A JUSTIÇA FAZ, AO SPIRITO SANTO NO CONVENTO DO CARMO NO ANO 1686.

 

CELEBRA O POETA (ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO), A BURLA, QUE FIZERAM OS RELIGIOSOS COM UMA PATENTE FALSA DE PRIOR A FREI MIGUEL NOVELLOS, APELIDADO O LATINO POR DIVERTIMENTO EM HUM DIA DE MUYTA CHUVA.

 

AO VIGARIO DA VILLA DE S. FRANCISCO POR HUMA PENDENCIA, QUE TEVE COM HUM OURIVES A RESPEYTO DE HUMA MULATA, QUE SE DIZIA CORRER POR SUA CONTA.

 

A OUTRO VIGARIO DE CERTA FREGUEZIA, CONTRA QUEM SE AMOTINÁVAM OS FREGUEZES POR SER MUYTO AMBICIOSO.

 

AO VIGARIO ANTONIO MARQUES DE PERADA ENCOMENDADO NA IGREJA DA Va DE S. FRANCISCO AMBICIOSO, E DESCONHECIDO.

 

AO PADRE DAMASO DA SYLVA PARENTE DO POETA, E SEU OPPOSTO, HOMEM DESBOCCADO, E PRESUNÇOSO COM GRANDES IMPLUSOS DE SER SER VIGARIO, SENDO POR ALGUM TEMPO EM NOSSA SENHORA DO LORETO.

 

RETRATO DO MESMO CLERIGO.

 

AO MESMO CLERIGO APPELLIDANDO DE ASNO AO POETA

 

AO MESMO COM PRESUNÇÕES DE SABIO, E INGENHOSO.

 

A OUTRO CLERIGO AMIGO DO FRIZÃO, QUE SE DEZIA ESTAR AMANCEBADO DE PORTAS ADENTRO COM DUAS MULHERES COM HUMA NEGRA, E OUTRA MULATA.

 

AO PADRE MANUEL ALVARES CAPELLÃO DA MARAPÉ REMOQUEANDO AO POETA HUMA PEDRADA QUE LHE DERAM DE NOYTE ESTANDO SE PROVENDO: E PERGUNTANDOLHE PORQUE SE NÃO SATYRIZAVA DELLA! ESCANDALIZADO, E PICADO, PORQUE O POETA HAVIA SATYRIZADO OS CLERIGOS, QUE VINHÃO DE PORTUGAL.

 

ENTRA AGORA O POETA A SATIRIZAR O DITO PADRE.

 

AO PADRE MANUEL DOMINGUES LOUREYRO QUE REHUSANDO IR POR CAPELLÃO PARA ANGOLLA POR ORDEM DE SUA ILUSTRISSIMA, FOY AO DEPOIS PREZO, E MALTRATADO, PORQUE RESISTIO AS ORDENS DO MESMO PRELADO

 

AO VIGARIO DA MADRE DE DEOS MANUEL RODRIGUES SE QUEYXA O POETA DE TREZ CLERIGOS QUE LHE FORAM A CASA PELA FESTA DO NATAL, ONDE TAMBEM ELLE ESTAVA E COM GALANTARIA O PERSUADE, A QUE SACUDA OS HOSPEDES FORA DE CASA PELO GASTO, QUE FAZIAM.

 

AOS MESMOS PADRES HOSPEDES ENTRE OS QUAIS VINHA O Pe PERICO, QUE ERA PEQUENINO.

 

AO MESMO VIGARIO GALANTEA O POETA FAZENDO CHISTES DE HUM MIMO, QUE LHE MANDÁRA BRITES HUMA GRACIOSA COMADRE SUA, ENTRE O QUAL VINHA PARA O POETA HUM CAJÚ.

 

AO CELEBRE FR. JOANNICO COMPREHENDIDO EM LISBOA EM CRIMES DE SODOMITA.

 

A FR. PASCOAL QUE SENDO ABBADE DE N. S. DAS BROTAS HOSPEDOU ALI COM GRANDEZA A D. ANGELA, E SEUS PAYS, QUE FORAM DE ROMARIA À AQUELLE SANTUARIO.

 

A FR. THOMAZ D'APRESENTAÇÃO PREGANDO EM TERMOS LACONICOS A PRIMEYRA DOMINGA DA QUARESMA.

 

HUM AMIGO DESTE RELIGIOSO PEDIO AO POETA SUAS APROVAÇÕES SOBRE A MESMA PREDICA, A PEDITORIO DO MESMO PREGADOR NESTE.

 

O MESMO AMIGO PEDIO AO POETA EM OUTRA OCCASIÃO LHE GLOZASSE ESTE MOTTE, CUJA MATERIA FOY HAVER TRIUNFADO O DITO FR. THOMAZ DE CERTA OPPOSIÇÃO CAPITULAR.

 

AO SOBREDITO RELIGIOSO DESDENHANDO CRITICO DE HAVER GONÇALLO RAVASCO, E ALBUQUERQUE NA PRESENÇA DE SUA FREYRA VOMITADO HUMAS NAUSEAS, QUE LOGO COBRIO COM O CHAPEO.

 

A CERTO FRADE NA VILLA DE SAM FRANCISCO, A QUEM HUA MOÇA FINGINDOSE AGRADECIDA À SEUS REPETIDOS GALANTEYOS, LHE MANDOU EM SIMULAÇÕES DE DOCE HUMA PANELLA DE MERDA.

 

O CERTO FRADE QUE GALANTEANDO HUAS SENHORAS NO CONVENTO DE ODIVELAS, LHES ENTREGOU HABITO, E MENORES PARA UM FINGIDO ENTREMEZ, E CONHECENDO O CHASCO, EM ALTA NOYTE DEO EM CANTAR O MISERERE, BORRANDO, E OURINANDO TODO O PARLATORIO, PELO QUE A ABADEÇA LHE DEO OS SEUS HÁBITOS, E HUA LANTERNA PARA SE RETIRAR À LISBOA.

 

A CERTO FRADE, QUE QUERENDO EMBARCAR-SE PARA FORA DA CIDADE, FURTOU HUM CABRITO, O QUAL SENDO CONHECIDO DA MAY PELO BERRO O FOY BUSCAR DENTRO DO BARCO, E COMO NÃO TEVE EFFEYTO O DITO ROUBO,TRATOU LOGO DE FURTAR OUTRO, E O LEVOU ASSADO.

 

A CERTO FRADE QUE PREGANDO MUITOS DESPROPOSITOS NA MADRE DE DEOS FOI APEDREJADO PELOS RAPAZES, E SE FINGIO DESMAYADO POR ESCAPAR: MAS DEPOIS FURTANDO AO POETA UM BORDÃO, E AO ARPISTA DA FESTA UM CHAPEO SE RETIROU: POREM SABENDO-SE DO FURTO LHE FOY AO CAMINHO TIRAR DAS MÃOS HUM MULATO DE DOMINGOS BORGES.

 

INDO CERTO FRADE A CASA DE HUMA MERETRIZ LHE PEDIO ESTA QUINZE MlL REIS DANTEMÃO PARA TIRAR HUMAS ARGOLLAS, QUE TINHA EMPENHADAS.

 

SATYRIZA OUTRO CASO DE HUMA NEGRA QUE FOY ACHADA COM OUTRO FRADE, E FOY BEM MOIDA COM UM BORDÃO POR SEU AMAZIO, POR CUJA CAUSA SE SAGROU, E SE FINGIO MANCA DE HUM PÉ.

 

A CERTO FRADE QUE TRATAVA COM HUMA DEPRAVADA MULATA POR NOME VICENCIA QUE MORAVA JUNTO AO CONVENTO, E ATUALMENTE Á ESTAVA VIGIANDO DESTE CAMPANARIO.

 

AO LOUCO DESVANECIMENTO, COM QUE ESTE FRADE TIRANDO ESMOLLAS CANTAVA REGAÇANDO O HABITO POR MOSTRAR AS PERNAS, COM PRESUNÇÕES DE GENTILHOMEM, BOM MEMBRO, E BOA VOZ.

 

AO MESMO FRADE TORNA A SATYRIZAR O POETA, SEM OUTRA MATERIA NOVA, SENÃO PRESUMINDO, QUE QUEM O DEMO TOMA HUMA VEZ SEMPRE LHE FICA HUM GEYTO.

 

A CERTO FRADE QUE INDO PREGAR A HUM CONVENTO DE FREYRAS, E ESTANDO COM HUMA NA GRADE, LHE DEO TAL DOR DE BARRIGA, QUE SE CAGOU POR SI.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A NOSSA SÉ DA BAHIA

 

 

com ser um mapa de festas

é um presépio de bestas.

e se nisto maldigo ou me engano,

eu me submeto à Santa Madre Igreja.

Se virdes um Dom Abade

sobre o púlpito cioso,

não Ihe chameis Religioso

chamai-lhe embora de Frade

Jesu, nome de Jesu!

 

 

 

 

AOS CAPITULARES DO SEU TEMPO.

 

 

A nossa Sé da Bahia,

com ser um mapa de festas,

é um presépio de bestas,

se não for estrebaria:

várias bestas cada dia

vemos, que o sino congrega,

Caveira mula galega,

o Deão burrinha parda,

Pereira besta de albarda,

tudo para a Sé se agrega.

 

 

 

 

PONDERA ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO QUAM GLORIOSA HE A PAZ DA RELIGIÃO.

 

 

Quem da religiosa vida não se namora, e agrada,

já tem a alma danada,

e a graça de Deus perdida:

uma vida tão medida

pela vontade dos Céus,

que humildes ganham troféus,

e tal glória se desfruta,

que na mesa a Deus se escuta,

no Coro se louva a Deus.

 

Esta vida religiosa

tão sossegada, e segura

a toda a boa alma apura,

afugenta a alma viciosa:

há cousa mais deliciosa,

que achar o jantar, e almoço

sem cuidado, e sem sobrosso

tendo no bom, e mau ano

sempre o pão quotidiano,

e escusar o Padre nosso!

Há cousa como escutar

o silêncio, que a garrida

toca depois da comida

pare cozer o jantar!

há cousa como calar,

e estar só na minha cela

considerando a panela,

que cheirava, e recendia

no gosto de malvasia

na grandeza da tigela!

 

Há cousa como estar vendo

uma só Mãe religião

sustentar a tanto Irmão

mais, ou menos Reverendo!

há maior gosto, ao que entendo,

que agradar ao meu Prelado,

para ser dele estimado,

se ao obedecer-lhe me animo,

e depois de tanto mimo

ganhar o Céu de contado!

 

Dirão réprobos, e réus,

que a sujeição é fastio,

pois para que é o alvedrio,

senão para o dar a Deus:

quem mais o sujeita aos céus,

esse mais livre se vê,

que Deus (como ensina a fé)

nos deixou livre a vontade,

e o mais é mor falsidade,

que os montes de Gelboé.

 

Oh quem, meu Jesus amante,

do Frade mais descontente

me fizera tão parente,

que fora eu seu semelhante!

Quem me vira neste instante

tão solteiro, qual eu era,

que na Ordem mas austera

comera o vosso maná!

Mas nunca direi, que lá

virá a fresca Primavera.

 

 

 

 

AO ILUSTRISSIMO SENHOR D. Fr. MANUEL DA RESURREYÇÃO.

 

 

Subi a púrpura já, raio luzente

Do sol Americano, que em dourado

Dossel o Tibre vos verá sagrado

Dar um dia leis à sua corrente.

 

Entonces da Tiara a vossa frente,

E vosso Patriarca coroado

Um redil deveremos, e um cajado

Às vossas claves, e a seu zelo ardente.

 

Subi a cumes tão esclarecidos,

ó vos, de cuja remendada capa

sombras são já purpúreos resplandores.

 

Em quem divinamente reunidos

Os brasões de Seráfico, e de Papa

Verão os vossos dous Progenitores.

 

 

 

 

A MORTE DO MESMO SENHOR SUCCEDIDA DE HUMA FEBRE MALIGNA EM BELLEM ANDANDO EM VISITA.

 

 

Neste túmulo a cinzas reduzido

Da virtude o Herói mais portentoso

Se oculta, feito estrago lastimoso

Da du7ra Parca, de que foi vencido.

 

De um incêndio cruel ficou rendido

Aquele peito forte, e valeroso,

Que por Deus tantas vezes amoroso

Tinha grandes incêndios padecido.

 

Porém a Parca andou muito advertida

Em Ihe tirar a vida desta sorte,

E tirana não foi, sendo homicida.

 

Que se o matou em um incêndio forte,

Foi, porque se de incêndios teve a vida,

De incêndios era bem tivesse a morte.

 

 

 

 

EPITAFIO À SEPULTURA DO MESMO EXmo. SENHOR ARCEBISPO

 

 

Este mármore encerra, ó Peregrino,

Se bem, que a nossos olhos já guardado,

Aquele, que na terra foi sagrado,

Para que lá no céu fosse divino.

 

De seu merecimento justo, e digno

Prêmio, pois na terra nunca irado

Se viu o seu poder, e o seu cajado

Neste nosso hemisfério ultramarino.

 

Enfim relíquias de um Prelado santo

Oculta este piedoso monumento:

As lágrimas detém, enxuga o pranto.

 

Prosta-te reverente, e beija atento

As cinzas, de quem deu ao mundo espanto,

E a todos os Prelados documento.

 

 

 

 

A CHEGADA DO ILLUSTRISSIMO SENHOR D. JOÃO FRANCO DE OLIVEYRA TENDO SIDO JA BISPO EM ANGOLLA.

 

 

Hoje os Matos incultos da Bahia

Se não suave for, ruidosarnente

Cantem a boa vinda do Eminente

Príncipe desta Sacra Monarquia.

 

Hoje em Roma de Pedro se Ihe fia

Segunda vez a Barca, e o Tridente,

Porque a pesca, que fez já no Oriente,

A destinou para a do meio-dia.

 

Oh se quisera Deus, que sendo ouvida

A Musa bronca dos incultos Matos

Ficasse a vossa púrpura atraída!

 

Oh se como Arion, que a doces tratos

Uma pedra atraiu endurecida,

Atraísse eu, Senhor, vossos sapatos!

 

 

 

 

A FROTA EM QUE VEYO O PALLIOLO DESTE GRANDE PRELADO.

 

 

Tal frota nunca viram as idades

De rota, desmembrada, e detençosa,

Mui Santa deve ser, e religiosa,

Pois de dous em dous veio, como frades.

 

Não Ihe duvido eu destas qualidades,

Se veio na Almirante venturosa

Aquela insígnia Santa, e poderosa,

Que à Mitra episcopal dá potestades.

 

Chegou o Pálio enfim, que de um Prelado,

Que nos veio a medida do desejo

Tão merecido foi, como esperado.

 

Eu ouço repicar, e folgar vejo:

Repica a Sé, o Carmo está folgado,

Louco devo eu de ser, pois não doudejo.

 

 

 

 

AO MESMO ILLUSTRISSIMO SENHOR CHEGANDO DE VISITA A VILLA DE S. FRANCISCO, ONDE Ò ESPERAVAM MUYTOS CLERIGOS PARA TOMAREM ORDENS.

 

 

Bem-vindo seja, Senhor, Vossa llustríssima

A este sítio famoso do Seráfico,

Onde nesta canção de verso alcaico

Ouça a ovelha balar sua amantíssima

 

Aqui verá correr água claríssima

Do grande Seregipe rio antártico,

Onde para tomar o eclesiástico

Caráter Santo há gente prestantíssima.

 

Aqui de Pedro a rede celebérrima

Cuido, que fez os lanços hiperbólicos,

Que na Bíblia se lêem Santa integérrima.

 

Porque estes Pescadores tão católicos

Nunca uma pesca fazem tão pulquérrima,

Que os buchos nos não deixem melancólicos.

 

 

 

 

A MAGNIFICENCIA COM QUE OS MORADORES DAQUELLA VlLLA RECEBERAM O DITO SENHOR COM VARIOS ARTIFICIOS DE FOGO POR MAR, E TERRA CONCORRENDO PARA A DESPEZA O VIGARIO.

 

 

Apareceram tão belas

no mar canoas, e truzes,

que se o céu é mar de luzes,

o mar era um céu de estrelas:

era uma armada sem velas

movida de outro elemento,

era um prodígio, um portento

ver com tanto desafogo

esta navegar com fogo,

se outras arribam com vento.

 

Sua Ilustríssima estava

assustado sobre absorto,

porque via um rio morto

o fogo, em que se abrasava:

grande cuidado Ihe dava ver,

que o mar morria então

infamado na opinião,

e como um judeu queimado,

sendo, que o mar é sagrado,

que inda é mais que ser cristão.

 

Lá no vale ardia o ar,

e por ser, comua a guerra,

no mar há fogo de terra,

na terra há fogo do mar:

toda a esfera a retumbar

fazia correspondência,

e com alegre aparênca

luzia na ardente empresa

fogo do ar por alteza,

e do mar por excelência.

 

Em cima as rodas paravam,

que varia a fortuna toda

desandava a sua roda,

e as do fogo não paravam:

os mestres se envergonhavam,

que era Lourenço, e Diogo:

e eu vi, que a Lourenço logo

a face se quebrantava,

com que a mim mais me queimava

 o seu rosto, que o seu fogo.

 

Deu-se fogo em conclusão

a uma roda de encomenda,

foi como a minha fazenda,

que ardeu num abrir de mão:

estava em meio do chão

um rasto, para que ardesse

uma câmara, e parece,

que uma faísca caiu,

disparou: quem jamais viu,

que o fogo em câmeras desse.

 

Era grande a multidão

do Clero, e dos Seculares,

que a graça destes folgares

consiste na confusão:

Sua llustríssima então

se foi, que o fogo não zomba,

aqui queima, ali arromba:

segue-lhe o vigário os trilhos,

que as rodas não tinham filhos

mas pariam muita bomba.

 

A gente ficou pasmada,

porque viu a gente toda,

que era a resposta da roda

de bombarda respostada:

ficou a turba enganada,

porque enfim nos perturbarnos:

mas todos nos alegramos,

que isto somos, e isso fomos,

que então alegres nos pomos

quando mais nos enganamos.

 

Entre o desar, e entre o risco

a noite alegre passou:

que mais noite! se a gabou

té o Padre São Francisco:

nas mais paróquias foi cisco,

foi sombra, foi ar, foi nada

do nosso Prelado a entrada,

e a desconfiança é vã

de o Cura ter bolsa chã,

se a vontade é tão sobrada.

 

 

 

 

OBRIGADOS OS ORDENANDOS A CANTAR O CANTO CHAM DESAFINARAM PERTURBADOS A VISTA DO PRELADO, E OS OBRIGOU, A QUE ESTUDASSEM OS SETTE SIGNOS. CELEBRA O POETA ESTE  CASO, E LOUVA A PREDICA, QUE FEZ SUA ILLUSTRISSIMA.

 

 

Senhor; os Padres daqui

por b quadro, e por b mol

cantam bem ré mi fá sol,

cantam mal lá sol fá mi:

a razão, que eu nisto ouvi,

e tenho para vos dar,

é, que como no ordenar

fazem tanto por luzir,

cantam bem para subir,

cantam mal para baixar.

 

Porém como cantariam

os pobres perante vós?

tão bem cantariam sós,

quão mal, onde vos ouviam:

quando o fabordão erguiam

cad'um parece, que berra,

e se um dissona, o outro erra,

mui justo me pareceu,

que sempre à vista do Céu

fique abatido, o que é terra.

 

Os Padres cantaram mal

como está já pressuposto,

e inda assim vos deram gosto,

que eu vi no riso o sinal.

foi-se logo cada qual

direito às suas pousadas

a estudar nas tabuadas

da música os sete signos,

não por cantar a Deus hinos,

mas por vos dar badaladas.

 

Vós com voz tão doce, e grata

enleastes meus sentidos,

que ficaram meus ouvidos,

engastados nessa prata:

tanto o povo se desata

ouvindo os vossos espritos!

que com laudatórios gritos

dou eu fé, que uma Donzela

disse, qual outra Marcela,

o cântico Benedictus.

 

 

 

 

A MORTE VIOLENTA QUE LUIZ FERREYRA DE NORONHA   CAPITÃO DA GUARDA DO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ DEO À JOZÉ DE MELLO SOBRINHO DESTE PRELADO.

 

 

Brilha em seu auge a mais luzida estrela,

Em sua pompa existe a flor mais pura,

Se esta do prado frágil formosura,

Brilhante ostentação do céu aquela.

 

Quando ousada uma nuvem a atropela,

Se a outra troca em lástima a candura,

Que há também para estrelas sombra escura,

Se para flores há, quem as não zela.

 

Estrela e flor, José, em ti se encerra,

Porque ser flor, e estrela mereceu

Teu garbo, a quem a Parca hoje desterra.

 

E para se admirar o indulto teu,

Como flor te sepultas cá na terra,

Como estrela ressurges lá no céu.

 

 

 

 

AO RETIRO QUE FES ESTE ILLUSTRISSIMO PRELADO SENTIDISSIMO, E MAGUADO PELA TYRANNA, E VIOLENTA MORTE QUE O CAPITÃO DA GUARDA LUIZ FERREYRA DE NORONHA DEO A SEU SOBRINHO.

 

 

Um benemérito peito,

uma Sacra Dignidade

sentir vem na soledade

da parca o cruel efeito:

que de um golpe sem respeito

quis cortar o vital fio,

sem atender Senhorio,

nem ver, o despojo horrendo,

de quem se agravara, vendo

desautorizado o brio.

 

Já de todo o mal distando

em Belém busca o retiro,

onde um, e outro suspiro

a pena estão aumentando:

e no pesar contemplando

jamais será divertido,

vendo de todo perdido

por culpa de um traidor vil

aquele Adônis gentil

a cadáver reduzido

 

Se a lei se deve observar,

como agora falta, e tarda?

a Justiça apenas guarda,

que agradou por aguardar:

privou por se depravar

pela via nunca usada,

deu ao vício franca entrada,

e bem se pode entender,

que enquanto vivo há de ser

privado pela privada.

 

Mas que muito haja amparado

um Calígula tirano

a seu amigo inumano

Capitão de cama, e lado?

o vulgo tem murmurado,

e a maldade não se doma,

e a sem-razão, que se assoma,

como demais já sobeja

contra um Ministro da Igreja

um nefando de Sodoma.

 

 

 

 

AOS MISSIONARIOS, À QUEM O ARCEBISPO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEUS RECOMENDAVA MUYTO AS VIAS SACRAS, QUE ENCHENDO A CIDADE DE CRUZES CHAMAVÃO DO PULPITO AS PESSOAS POR SEUS NOMES, REPREHENDENDO, À QUEM FALTAVA.

 

 

Via de perfeição é a sacra via,

Via do céu, caminho da verdade:

Mas ir ao Céu com tal publicidade,

Mais que à virtude, o boto à hipocrisia.

 

O ódio é d'alma infame companhia,

A paz deixou-a Deus à cristandade:

Mas arrastar por força, uma vontade,

Em vez de perfeição é tirania.

 

O dar pregões do púlpito e indecência,

Que de Fulano? venha aqui sicrano:

Porque o pecado, o pecador se veja:

 

E próprio de um Porteiro d'audiência,

E se nisto maldigo, ou mal me engano,

Eu me submeto à Santa Madre Igreja.

 

 

 

 

A CERTO PROVINCIAL DE CERTA REGIÃO QUE PREGOU O MANDATO EM TERMOS TA, RIDICULOS QUE MAIS SERVIO DE MOTIVO DE RIZO, DO QUE DE COMPAIXÃO.

 

 

Inda está por decidir,

meu Padre Provincial,

se aquele sermão fatal

foi de chorar, se de rir:

cada qual pode inferir,

o que melhor lhe estiver,

porque aquela má mulher

da preversa sinagoga

fez no sermão tal chinoga,

que o não deixou entender.

 

Certo, que este lava-pés

me deixou escangalhado,

e quanto a mim foi traçado

para risonho entremez:

eu lhe quero dar das três

a outro qualquer Pregador,

seja ele quem quer que for,

já filósofo, ou já letrado,

e quero perder dobrado,

se fizer outro pior.

 

E vossa Paternidade,

pelo que deve à virtude,

de tais pensamentos mude,

que prega mal na verdade:

faça atos de caridade,

e trate de se emendar,

não nos venha mais pregar,

que jurou o Mestre Escola,

que por pregar pare Angola

o haviam de degradar.

 

 

 

 

AO CURA DA SÉ QUE ERA NAQUELLE TEMPO, INTRODUZIDA ALI POR DINHEYRO, E COM PRESUNÇÕES DE NAMORADO SATYRIZA O POETA COMO CREATURA DO PRELADO.

 

 

O Cura, a quem toca a cura

de curar esta cidade,

cheia a tem de enfermidade

tão mortal, que não tem cura:

dizem, que a si só se cura

de uma natural sezão, que lhe dá na ocasião

de ver as Moças no eirado,

com que o Cura é o curado,

e as Moças seu cura são.

 

Desta meizinha se argúi,

que ao tal Cura assezoado

mais lhe rende o ser curado,

que o Curado, que possui,

grande virtude lhe influi

o curado exterior:

mas o vício interior

Amor curá-lo procura,

porque Amor todo loucura,

se a cura é de louco amor.

 

Disto cura o nosso Cura,

porque é curador maldito,

mas ao mal de ser cabrito

nunca pôde dar-lhe cura:

É verdade, que a tonsura

meteu o Cabra na Sé,

e quando vai dizer "Te

Deum laudamus" aos doentes,

se lhe resvela entre dentes,

e em lugar de Te diz me.

 

Como ser douto cobiça,

a qualquer Moça de jeito

onde pôs o seu direito,

logo acha, que tem justiça:

a dar-lhe favor se atiça,

e para o fazer com arte,

não só favorece a parte,

mas toda a prosápia má,

se justiça lhe não dá,

lhe dá direito, que farte.

 

Porque o demo lhe procura

tecer laços, e urdir teias,

não cura de almas alheias,

e só do seu corpo cura:

debaixo da capa escura

de um beato capuchinho

é beato tão maligno

o cura, que por seu mal

com calva sacerdotal

é sacerdote calvino.

 

Em um tempo é tão velhaco,

tão dissimulado, e tanto,

que só por parecer santo

canoniza em santo um caco:

se conforme o adágio fraco

ninguém pode dar, senão

aquilo, que tem na mão,

claro está que no seu tanto

não faria um ladrão santo,

senão um Santo Ladrão.

 

Estou em crer, que hoje em dia

já os cânones sagrados

não reputam por pecados

pecados de simonia:

os que vêem tanta ousadia,

com que comprados estão

os curados mão por mão,

devem crer, como já creram,

que ou os cânones morreram,

ou então a Santa unção.

 

 

 

 

AO ILLUSTRISSIMO D. FR. JOÃO DA MADRE DE DEOS MUDANDO-SE PARA O SEU NOVO PALACIO, QUE COMPROU.

 

 

Sacro Pastor da América florida,

Que para o bom regímen do teu gado

De exemplo fabricastes o cajado,

E de frauta te sene a mesma vida.

 

Outros tua virtude esclarecida

Cantem: mas teu palácio por sagrado

Cante Apolo de raios coroado

Na musa humilde de álamos cingida.

 

Gusano a tua folha me alimente,

Tua sombra me ampare peregrino,

Passarinho o teu ramo me sustente.

 

Tecerei tua historia em ouro fino,

De meus versos serás templo freqüente,

Onde glórias te cante de contino.

 

 

 

 

O DEÃO ANDRE GOMES CAVEYRA SE INTRODUZIO DE TAL MODO COM ÊSTE PRELADO EM DESABONO DO POETA, QUE ESTIMULADO O DITO FÊZ O SEGUINTE.

 

 

MOTE

 

O mundo vai-se acabando,

cada qual olhe por si,

porque dizem, que anda aqui

uma Caveira falando.

 

 

Chegou o nosso Prelado

tão galhardo, e tão luzido,

tão douro, e esclarecido,

tão nobre, e tão ilustrado,

e não houve Prebendado,

que para o ir enganando

se lhe não fosse chegando;

mas só Caveira asnaval

é, quem co Prelado val:

O mundo vai-se acabando.

 

Como não há de acabar-se,

se uma Caveira tão feia

ao Prelado galanteia

a risco de enamorar-se!

onde se viu galantear-se

o roxete carmesi

pela caveira de Heli?

não é mentira, é verdade;

pois para seguridade

cada qual olhe por si.

 

Olhe por si cada qual,

e não se dêem por seguros,

sabendo, que anda extramuros

esta Caveira infernal:

ela anda pelo arrebal,

e dacolá para aqui,

eu por mil partes a vi:

o leigo, o frade, e o monge

não a imaginem de longe,

Porque dizem, que anda aqui.

 

Aqui anda, e aqui está

rosnando sempre entre nós,

Deão com cara de algoz,

e pertensões de Bispá:

ele é, o que os pontos dá,

e os vícios vai acusando

com zelo torpe, e nefando,

com que nos bota a perder:

porque quem não há de crer

Uma Caveira falando.

 

 

 

 

COMO ACREDITOU ESTE PRELADO MAIS OS MEXERICOS DE CAVEYRA, DO QUE AS LIZONJAS DO POETA, LHE FEZ ESTA SÁTIRA

 

 

Eu, que me não sei calar,

mas antes tenho por míngua,

não purgar-se qualquer língua

a risco de arrebentar:

vos quero, amigo, contar,

pois sois o meu secretário,

um sucesso extraordinário,

um caso tremendo, e atroz;

porém fique aqui entre nós.

 

Do Confessor Jesuíta,

que ao ladrão do confessado

não só absolve o pecado,

mas os furtos lhe alcovita:

do Percursor da visita,

que na vanguarda marchando

vai pedindo, e vai tirando,

o demo há de ser algoz:

porém fique aqui entre nós.

 

O ladronaço em rigor

não tem para que o dizer

furtos, que antes de os fazer,

já os sabe o confessor:

cala-os para ouvir melhor,

pois com ofício alternado

confessor, e confessado

ali se barbeiam sós:

porém fique aqui entre nós.

 

Aqui o Ladrão consente

sem castigo, e com escusa,

pois do mesmo se lhe acusa

o confessor delinqüente:

ambos alternadamente

um a outro, e outro a um

o pecado, que é comum

confessa em comua voz:

porém fique aqui entre nós.

 

Um a outro a mor cautela

vem a ser neste acidente

confessor, e penitente,

porque fique ela por ela:

o demo em tanta mazela

diz: faço, porque façais,

absolvo, porque absolvais,

pacto inopinado pôs;

porém fique aqui entre nós.

 

Não se dá a este Ladrão

penitência em caso algum,

e somente em um jejum

se tira a consolação:

ele estará como um cão

de levar a bofetada:

mas na cara ladrilhada

emenda o pejo não pôs:

porém fique aqui entre nós.

 

Mecânica disciplina

vem a impor por derradeiro

o confessor marceneiro

ao pecador carapina:

e como qualquer se inclina

a furtar, e mais furtar,

se conjura a escavacar

as bolsas um par de enxós:

porém fique aqui entre nós.

 

O tal confessor me abisma,

que releve, e não se ofenda,

que um Frade Sagrado venda

o sagrado óleo da crisma:

por dinheiro a gente crisma,

não por cera, havendo queixa,

que nem a da orelha deixa,

onde crismando a mão pôs:

porém fique aqui entre nós.

 

Que em toda a Franciscania

não achasse um mau Ladrão,

quem lhe ouvisse a confissão,

mais que um padre da panhia!

nisto, amigo, há simpatia,

e é, porque lhe veio a pêlo,

que um atando vá no orelo,

e outro enfiando no cós:

porém fique aqui entre nós.

 

Que tanta culpa mortal

se absolva! eu perco o tino,

pois absolve um Teatino

pecados de pedra, e cal:

quem em vida monacal

quer dar à Filha um debate

condenando em dote, ou date

vem a dar-lhe o pão, e a noz;

porém fique aqui entre nós.

 

As Freiras com santas sedes

saem condenadas em pedra,

quando o ladronaço medra

roubando pedra, e paredes:

vós, amigo, que isto vedes,

deveis a Deus graças dar

por vos fazer secular,

e não zote de albernoz:

porém fique aqui entre nós.

 

 

 

 

LOUVA O POETA O SERM ÃO, QUE PREGOU CERTO MESTRE NA FESTA, QUE A JUSTIÇA FAZ, AO SPIRITO SANTO NO CONVENTO DO CARMO NO ANO 1686.

 

 

Alto sermão, egrégio, e soberano

Em forma tão civil, tão erudita,

Que sendo o pregador um carmelita,

Julguei eu, que pregava um Ulpiano.

 

Não desfez Alexandre o nó Gordiano,

Co'a espada o rompeu (traça esquisita)

Soltais na forma legal, e requisita

Soltais o nó do magistrado arcano.

 

Ó Príncipes, Pontífices, Monarcas,

Se o Mestre excede a Bártolos, e Abades

Vesti-lhe a toga, despojai-lhe alparcas.

 

Rompam-se logo as leis das Majestades,

Ouçam Ministros sempre os Patriarcas,

Pois mais podem, que leis, autoridades.

 

 

 

 

CELEBRA O POETA (ESTANDO HOMIZIADO NO CARMO), A BURLA, QUE FIZERAM OS RELIGIOSOS COM UMA PATENTE FALSA DE PRIOR A FREI MIGUEL NOVELLOS, APELIDADO O LATINO POR DIVERTIMENTO EM HUM DIA DE MUYTA CHUVA.

 

 

Victor, meu Padre Latino,

que só vós sabeis latim,

que agora se soube enfim,

para um breve tão divino:

era num dia mofino

de chuva, que as canas rega,

eis a patente aqui chega,

e eu por milagre o suspeito

na Igreja Latina feito,

para se pregar na grega.

 

Os sinos se repicaram

de seu moto natural,

porque o Padre Provincial,

e outros Padres lhe ordenaram:

os mais Frades se abalaram

a lhe dar obediência,

e eu em tanta complacência,

por não faltar ao primor,

dizia a um Victor Prior,

Victor, vossa Reverência.

 

Estava aqui retraído

o Doutor Gregório, e vendo

um breve tão reverendo

ficou co queixo caído:

mas tornando em seu sentido

de galhofa perenal,

que não vi patente igual,

disse: e é cousa patente,

que se a patente não mente,

é obra de pedra, e cal.

 

Vctor, Victor se dizia,

e em prazer tão repentino,

sendo os vivas ao latino

soavam a ingresia:

era tanta a fradaria,

que nesta casa Carmela

não cabia refestela,

mas recolheram-se enfim

cada qual ao seu celim,

e eu fiquei na minha cela.

 

 

 

 

AO VIGARIO DA VILLA DE S. FRANCISCO POR HUMA PENDENCIA, QUE TEVE COM HUM OURIVES A RESPEYTO DE HUMA MULATA, QUE SE DIZIA CORRER POR SUA CONTA.

 

 

Naquele grande motim,

onde acudiu tanta gente,

a título de valente

também veio valentim:

puxou pelo seu faim,

e tirando-lhe a barriga,

você se quer, que lho diga,

disse ao Ourives da prata,

na obra desta Mulata

mete muita falsa liga:

        Briga, briga.

 

É homem tão desalmado,

que por lhe a prata faltar,

a estar sempre a trabalhar

bate no vaso sagrado:

não vê que está excomungado,

porque com tanta fadiga

a peça da igreja obriga

numa casa excomungada

com censura reservada,

pela qual Deus o castiga:

        Briga, briga.

 

Porque com modos violentos

a um vigário tão capaz

sobre quatro, que já traz,

cornos, lhe põe quatrocentos!

deixe-se desses intentos,

e reponha a rapariga,

pois a repô-la se obriga,

quando afirma, que a possui,

e se a razão não conclui,

vai esta ponta à barriga:

        Briga, briga.

 

Senhor Ourives, você

não é ourives da prata?

pois que quer dessa Mulata,

que cobre, ou tambaca é?

Restitua a Moça, que

é peça da Igreja antiga:

restitua a rapariga,

que se vingará o Vigário

talvez no confessionário,

e talvez na desobriga:

        Briga, briga.

 

A Mulata já lhe pesa

de trocar odre por odre,

pois o leigo é membro podre,

e o Padre membro da igreja:

sempre esta telha goteja,

sempre dá grão esta espiga,

e a bola da rapariga

quer desfazer esta troca,

e deixando a sua toca

quer fazer co Padre liga

         Briga, briga.

 

Largai a Mulata, e seja

logo logo a bom partido,

que como tem delinqüido

se quer acolher à igreja:

porque todo o mundo veja,

que quando a carne inimiga

tenta a uma rapariga,

quer no cabo, quer no rabo

a Igreja vence ao diabo

com outra qualquer cantiga.

        Briga, briga.

 

 

 

 

A OUTRO VIGARIO DE CERTA FREGUEZIA, CONTRA QUEM SE AMOTINÁVAM OS FREGUEZES POR SER MUYTO AMBICIOSO.

 

 

Reverendo vigário,

Que é título de zotes ordinário,

Como sendo tão bobo,

E tendo tão larguíssimas orelhas,

Fogem vossas ovelhas

De vós, como se fôsseis voraz Lobo.

 

O certo é, que sois Pastor danado,

E temo, que se a golpe vem de fouce,

Vos há de cada ovelha dar um couce:

Sirva de exemplo a vosso desalinho,

O que ovelhas têm feito ao Padre Anjinho,

Que por sua tontice, e sua asnia

o tem já embolsado na euxovia;

Porém a vós, que sois fidalgo asneiro,

Temo, que hão de fazer-vos camareiro.

 

Quisestes tosquear o vosso gado,

E saístes do intento tosqueado;

Não vos cai em capelo,

O que o provérbio tantas vezes canta,

Que quem ousadamente se adianta.

Em vez de tosquear fica sem pêlo?

 

Intentastes sangrar toda a comarca,

Mas ela vos sangrou na veia d'arca

Pois ficando faminto, e sem sustento,

Heis de buscar a dente qual jumento

Erva para o jantar, e para a ceia,

E se talvez o campo a escasseia,

Mirrado heis de acabar no campo lhano,

Fazendo quarentena todo o ano:

Mas então poderá vossa porfia

Declarar aos Fregueses cada dia.

 

Sois tão grande velhaco,

Que a pura excomunhão meteis no saco:

Já diz a freguesia,

Que tendes de Saturno a natureza,

Pois os Filhos tratais com tal crueza,

Que os comeis, e roubais, qual uma harpia;

Valha-vos; mas quem digo, que vos valha?

Valha-vos ser um zote, e um canalha:

Mixelo hoje de chispo,

Ontem um passa-aqui do Arcebispo.

Mas oh se Deus a todos nos livrara

De Marão com poder, vilão com vara!

Fábula dos rapazes, e bandarras,

conto do lar, cantiga das guitarras.

 

Enquanto vos não parte algum corisco,

Que talvez vos despreza como cisco,

E fugindo a vileza desse couro,

Vos vai poupando a cortadora espada,

Azagaia amolada,

A veloz seta, o rápido pelouro:

 

Dizei a um confessor dos aprovados,

Vossos torpes pecados,

Que se bem o fazeis, como é preciso

Fareis um dia cousa de juízo:

E uma vez confessado,

Como vos tenha Deus já perdoado,

Todos vos perdoaremos

Os escândalos mil, que de vós temos,

E comendo o suor de vosso rosto

Dareis a Deus prazer, aos homens gosto.

 

 

 

 

AO VIGARIO ANTONIO MARQUES DE PERADA ENCOMENDADO NA IGREJA DA Va DE S. FRANCISCO AMBICIOSO, E DESCONHECIDO.

 

 

Da tua Perada mica

não te espantes, que me enoje,

porque é força, que a entoje

sendo doce de botica:

o gosto não se me aplica

a uma conserva afamada,

e em botes tão redomada,

que sempre por ter que almoces,

achas para tão maus doces

a tutia preparada.

 

Se tua Tia arganaz

te fez essa alcomonia,

com colher não ta faria,

com espátula ta faz:

criaste-te de rapaz

co pingue dessas redomas,

e hoje tal asco lhe tomas,

que tendo uma herança rica

hás raízes da botica,

contudo não tens, que comas.

 

Teu juízo é tão confuso,

que quando a qualquer cristão

lhe entra o uso de rezão,

de então lhe perdeste o uso:

sempre foste tão obtuso,

que já desde estudantete

te tinham por um doudete,

porque eras visto por alto,

na fala falso contralto,

na vista fino falsete.

 

Correndo os anos cresceste,

e se dizia em sussurro,

que era o teu crescer de burro,

pois cresceste, e aborreceste:

logo em tudo te meteste,

querendo ser eminente

nas artes, que estuda a gente,

mas deixou-te a tua asnia

Abel na filosofia,

na poesia inocente.

 

Deram-te as primeiras linhas

versos de tão baixa esfera,

que o seu menor erro era

serem feitos às Negrinhas:

com estas mesmas pretinhas,

por mais que te desbatizes,

gastaste os bens infelizes

do Marquês fino herbolário,

porque todo o Boticário

é mui rico de raízes.

 

Sendo um zote tão supino,

és tão confiado alvar,

que andas por i a pregar

geringonças ao divino:

pregas como um capuchino,

porque essa traça madura

um curado te assegura,

crendo Sua Senhoria,

que a botica te daria

as virtudes pare a cura.

 

Mas ele se acha enganado,

porque vê evidentemente,

que os botes para um doente

são, mas não pare um curado:

entraste tao esfaimado

a comer do sacrifício,

que todo o futuro ofício

cantaste sobre fiado,

pelo tirar de contado

ao dono do benefício.

 

Nenhuma outra cousa é

este andar dos teus alparques,

mais que ser Filho de Marques

vizinho da Santa Sé:

outro da mesma ralé

tão Marques, e tão bribante

te serve agora de Atlante,

porque para conjurer-se,

é facil de congregar-se

um com outro semelhante.

 

 

 

 

AO PADRE DAMASO DA SYLVA PARENTE DO POETA, E SEU OPPOSTO, HOMEM DESBOCCADO, E PRESUNÇOSO COM GRANDES IMPLUSOS DE SER SER VIGARIO, SENDO POR ALGUM TEMPO EM NOSSA SENHORA DO LORETO.

 

 

Dâmaso, aquele madraço,

que em pés, mãos, e mais miúdos

pode bem dar seis, e ás

ao major Frisão de Hamburgo:

Cuja boca é mentideiro,

onde acode todo o vulgo

a escutar sobre la tarde

las mentiras como punho:

Mentideiro freqüentado

de quantos senhores burros

perdem o nome de limpos

pela amizade de um sujo.

Cuja língua é relação

aonde acham os mais puros

para acusar um fiscal

para cortar um verdugo.

Zote muito parecido

aos vícios todos do mundo,

pois nunca os alheios corta,

sem dar no seu próprio escudo:

Santo Antônio de baeta,

que em toda a parte do mundo

os casos, que sucederam,

viu, e foi presente a tudo:

O Padre papa jantares,

hóspede tão importuno,

que para todo o banquete

traz sempre de trote o bucho:

Professo da providência,

que sem lograr bazaruco,

para passar todo um ano

nem dous vinténs faz de custo:

Que os amigos o sustentam,

e lhe dão como de juro

o jantar, quando lhes cabe

a cada qual por seu turno.

Essa vez, que tem dinheiro,

que é de sete em sete lustros:

três vinténs com um tostão,

ou dous tostões quando muito:

Com um vintém de bananas,

e de farinha dous punhos,

para passar dia, e meio

tem certo o pão, e conduto:

Lisonjeiro sem recato

adulador sem rebuço,

que por papar-lhe um jantar

de um sacristão faz um Núncio:

De um Tambor um General,

um Branco de um Mamaluco,

de uma senzala um palácio,

e um galeão de um pantufo.

Em passando a ocasião,

tendo já repleto o bucho,

desanda co'a taramela,

e a todos despe de tudo:

Outro sátiro de Esopo,

Que co mesmo bafo astuto

Esfriava o caldo quente,

E aquentava o frio punho:

O Zote, que tudo sabe

O grande Jurisconsulto

Dos Litígios fedorentos

Desta cidade monturo:

O Bártolo de improviso,

O subitâneo Licurgo,

Que anoitece um sabe-nada,

E amanhece um sabe-tudo:

O Letrado gratis dato,

e o que com saber infuso

quer ser Legista sem mestre,

canonista sem estudo:

Agraduado de douto

na academia dos burros,

que é braba universidade

para doutorar brandúzios:

desaforado sem susto,

entremetido sem riso,

e sem desar abelhudo:

Filho da puta com dita,

alcoviteiro sem lucro,

cunhado do Mestre-Escola,

parente que preza muito.

Fraquíssimo pelas mãos,

e valentão pelo vulto,

no corpo um grande de Espanha,

no sangue escória do mundo.

Este tal, de quem falamos,

como tem grandes impulsos

de ser batiza-crianças,

para ser soca-defuntos:

A Majestade d'El-Rei

tem já com mil esconjuros

ordenado, que o não colem

nem numa igreja de juncos.

Ele por matar desejos

foi-se ao adro devoluto

da Senhora do Loreto,

onde está Pároco intruso:

Ouvir é um grande prazer,

e vê-lo é um gosto sumo,

quando diz "os meus fregueses”

sem temor de um abrenuntio.

Item é um grande prazer

nas manhãs, em que madrugo

vê-lo repicar o sino,

para congregar o vulgo.

E como ninguém acode,

se fica o triste mazulo

em solitária estação

dizendo missa aos defuntos:

Quando o Frisão considero,

o menos que dele cuido,

é ser Pároco boneco

feito de trapos imundos.

 

 

 

 

RETRATO DO MESMO CLERIGO.

 

 

Pois me enfada o teu feitio,

quero, Frisão, neste dia

retratar-te em quatro versos

as maravi, maravi, maravilhas.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão, da Bahia,

        que está retratado

    às maravi, maravi, maravilhas.

 

A cara é um fardo de arroz,

que por larga, e por comprida

é ração de um Elefante

        vindo da Índia.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão da Bahia,

        que está retratado

    às maravi, maravi, maravilhas

 

A boca desempenada

é a ponte de Coimbra,

onde não entram, nem saem,

        mais que mentiras.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão da Bahia

        que está retratado

    às maravi, maravi, maravilhas.

 

Não é a língua de vaca

por maldizente, e maldita,

mas pelo muito, que corta

        de Tiriricas.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão da Bahia,

        que está retratado

    às maravi, maravi, maravilhas.

 

No corpanzil torreão

a natureza prevista

formou a fresta da boca

        para guarita.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão da Bahia,

        que está retratado

    às maravi, maravi, maravilhas.

 

Quisera as mãos comparar-lhe

às do Gigante Golias,

se as do Gigante não foram

        tão pequeninas.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão da Bahia,

        que está retratado

    às maravi, maravi, maravilhas

 

Os ossos de cada pé

encher podem de relíquias

para toda a cristandade

        as sacristias.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão da Bahia,

        que está retratado

    às maravi, maravi, maravilhas.

 

É grande conimbricense,

sem jamais pôr pé em Coimbra,

e sendo ignorante sabe

        mais que galinha.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão da Bahia,

        que está retratado

     às maravi, maravi, maravilhas.

Como na lei de Mafoma

não se argumenta, e se briga

ele, que não argumenta,

        tudo porfia.

        Ouçam, olhem,

    venham, venham, verão

        o Frisão da Bahia,

        que está retratado

    às maravi, maravi, maravilhas.

 

 

 

 

AO MESMO CLERIGO APPELLIDANDO DE ASNO AO POETA

 

 

Padre Frisão, se vossa Reverência

Tem licença do seu vocabulário

Para me pôr um nome incerto, e vário,

Pode fazê-lo em sua consciência:

 

Mas se não tem licença, em penitência

De ser tão atrevido, e temerário

Lhe quero dar com todo o Calendário,

Mais que a testa lhe rompa, e a paciência.

 

Magano, infame, vil alcoviteiro,

Das dodas corretor por dous tostões,

E enfim dos arreitaços alveitar:

 

Tudo isto é notório ao mundo inteiro,

Se não seres tu obra dos culhões

De Duarte Garcia de Bivar.

 

 

 

 

AO MESMO COM PRESUNÇÕES DE SABIO, E INGENHOSO.

 

 

Este Padre Frisão, este sandeu

Tudo o demo lhe deu, e lhe outorgou,

Não sabe musa musae, que estudou,

Mas sabe as ciências, que nunca aprendeu.

 

Entre catervas de asnos se meteu,

E entre corjas de bestas se aclamou,

Naquela Salamanca o doutorou,

E nesta salacega floresceu.

 

Que é um grande alquimista, isso não nego,

Que alquimistas do esterco tiram ouro,

Se cremos seus apógrafos conselhos.

 

E o Frisão as Irmãs pondo ao pespego,

Era força tirar grande tesouro,

Pois soube em ouro converter pentelhos.

 

 

 

 

A OUTRO CLERIGO AMIGO DO FRIZÃO, QUE SE DEZIA ESTAR AMANCEBADO DE PORTAS ADENTRO COM DUAS MULHERES COM HUMA NEGRA, E OUTRA MULATA.

 

 

A vós, Padre Baltasar,

vão os meus versos direitos,

porque são vossos defeitos

mais que as areias do mar:

e bem que estais num lugar

tão remoto, e tão profundo

com concubinato imundo,

como sois Padre Miranda,

o vosso pobre tresanda

pelas conteiras do mundo.

 

Cá temos averiguado,

que os vossos concubinatos

são como um par de sapatos

um negro, outro apolvilhado:

de uma, e outra cor calçado

saís pela porta fora,

hora negra, e parda hora,

que um zote camaleão

toda a cor toma, senão

que a da vergonha o não cora.

 

Vossa luxúria indiscreta

é tão pesada, e violenta,

que em dous putões se sustenta

uma Mulata, e uma Preta:

c’uma puta se aquieta

o membro mais desonesto,

porém o vosso indigesto,

há mister na ocasião

a negra para trovão,

e a parda para cabresto.

 

Sem uma, e outra cadela

não se embarca o Polifemo,

porque a negra o leva a remo,

e a mulata o leva a vela:

ele vai por sentinela,

porque elas não dêem a bomba;

porém como qualquer zomba

do Padre, que maravilha,

que elas disponham da quilha,

e ele ao feder faça tromba.

 

Elas sem mágoa, nem dor

lhe põem os cornos em pinha,

porque a puta, e a galinha,

têm o ofício de pôr:

ovos a franga pior,

cornos a puta mais casta,

e quando a negra se agasta,

e c’o Padre se disputa,

lhe diz, que antes quer ser puta,

que fazer com ele casta.

 

A negrinha se pespega

c’um amigão de corona,

que sempre o Frisão se entona,

que ao maior amigo apega:

a mulatinha se esfrega

c’um mestiço requeimado

destes do pernil tostado,

que a cunha do mesmo pau

em obras de bacalhau

fecha como cadeado.

 

Com toda esta cornualha

diz ele cego do amor,

que as negras tudo é primor,

e as brancas tudo canalha:

isto faz a erva, e palha,

de que o burro se sustenta,

que um destes não se contenta

salvo se lhe dão por capa

para a rua numa gualdrapa,

para a cama uma jumenta.

 

Há bulhas mnito renhidas

em havendo algum ciúme,

porque ele sempre presume

de as ver sempre presumidas:

mas elas de mui queridas

vendo, que o Padre de borra

em fogo de amor se torra,

andam por negar-lhe a graça

elas com ele de massa,

se ele com elas à porra.

 

Veio uma noite de fora,

e achando em seu vitupério

a mulata em adultério

tocou alarma por fora:

e por que pegou com mora

no raio do chumbo ardente,

foi-se o cão seguramente:

que como estava o coitado

tão leve, e descarregado

se pôde ir livremente.

 

Porque é grande demandão

o senhor zote Miranda,

que tudo, o que vê demanda,

seja de quem for o chão:

por isso o Padre cabrão

de contino está a jurar

que os cães lhe hão de pagar,

e que as fodas, que tem dado,

lhas hão de dar de contado,

e ele as há de recadar.

 

 

 

 

AO PADRE MANUEL ALVARES CAPELLÃO DA MARAPÉ REMOQUEANDO AO POETA HUMA PEDRADA QUE LHE DERAM DE NOYTE ESTANDO SE PROVENDO: E PERGUNTANDOLHE PORQUE SE NÃO SATYRIZAVA DELLA! ESCANDALIZADO, E PICADO, PORQUE O POETA HAVIA SATYRIZADO OS CLERIGOS, QUE VINHÃO DE PORTUGAL.

 

 

Não me espanto, que você,

meu Padre, e meu camarada,

me desse a sua cornada

sendo rês de Marapé:

mas o que lhe lembro, é,

que se acaso a carapuça

da sátira se lhe aguça,

e na testa se ajustou,

a chuçada eu não lhe dou,

você se meta na chuça.

 

E se por estes respeitos

diz, que versos não farei

à pedrada, que eu levei

quando fazia os meus feitos:

agora os dará por feitos,

pois eu de boga arrancada

a uma, e outra pedrada

os faço, à que levei já,

e à que agora você dá,

que é inda maior pedrada.

 

Era pelo alto serão,

fazia um luar tremendo,

quando eu estava fazendo

ou câmara, ou vereação:

não sei, que notícia então

teve um Moço, um boa-peça,

pôs-se à janela com pressa

tão sem propósito algum,

que quis ter comigo um

quebradeiro de cabeça.

 

Cum torrão na mão se apresta,

e tirando-o com seu momo

me fez o memento homo,

pondo-me a terra na testa:

fez-me uma pequena fresta,

de que arto Sangue corria,

mas eu disse, quem seria

um Médico tão sem lei,

que primeiro me purguei,

do que levasse a sangria.

 

Ergui-me com pressa tanta,

que um amigo me gritou,

inda agora se purgou,

tão depressa se levanta?

Sim, Senhor, de que se espanta?

Se este Médico, este tramposo

é médico tão forçoso,

que faz levantar num dia

depois de curso, e sangria

ao doente mais mimoso.

 

Este caso, e desventura

foi na verdade, contado,

e sendo eu por mim curado,

o Moço me deu a cura:

com uma, e outra brabura

jurei, e prometi, que

lhe daria um pontapé:

mas o Moço acautelado

me deixou calamocado

para servir a você.

 

 

 

 

ENTRA AGORA O POETA A SATIRIZAR O DITO PADRE.

 

 

Reverendo Padre Alvar,

basta, que por vossos modos

saís a campo por todos

os Mariolas de altar?

mal podia em vos falar,

quem notícia, nem suspeita

tem d’asno de tão má seita:

mas como vos veio ao justo

a sátira, estais com susto,

de que por vós fora feita.

 

Convosco a minha camena

não fala, se vos não poupa,

porque sois mui fraca roupa

para alvo da minha pena:

se alguém se queima, e condena,

por que vê, que os meus apodos

vão frisando por seus modos,

ninguém os tome por si,

um pelo outro isso si,

que assim frisarão com todos.

 

Vós com malícia veloz

aplicai-o a um coitado,

que este tal terá cuidado

de vo-lo aplicar a vós:

desta aplicação atroz

de um por outro, e outro por um,

como não livrar nenhum,

ninguém do Poeta então

se virá a queixar, senão

do poema que é comum.

 

Bonetes na minha mão,

como os lanço ao ar direitos,

caindo em vários sujeitos

nuns servem, e noutros não:

não consiste o seu senão,

nem menos está o seu mal

na obra, ou no oficial,

está na torpe cabeça,

que se ajusta, e endereça

pelos moldes de obra tal.

 

E pois, Padre, vos importa

nos meus moldes não entrar,

deveis logo endireitar

a cabeça, que anda torta:

mas sendo uma praça morta,

e um zotíssimo ignorante

vir-vos-á a Musa picante

a vós, Padre mentecapto,

de molde como sapato,

e ajustada como um guante.

 

Outra vez vos não metais

sentir alheios trabalhos,

que dirão, que comeis alhos

galegos, pois vos queimais:

e porque melhor saibais,

que os zotes, de que haveis dor,

são de abatido valor,

vede nos vossos sentidos,

quais serão os defendidos,

sendo vós o defensor.

 

 

 

 

AO PADRE MANUEL DOMINGUES LOUREYRO QUE REHUSANDO IR POR CAPELLÃO PARA ANGOLLA POR ORDEM DE SUA ILUSTRISSIMA, FOY AO DEPOIS PREZO, E MALTRATADO, PORQUE RESISTIO AS ORDENS DO MESMO PRELADO.

 

 

Para esta Angola enviado

vem por força do destino,

um marinheiro ao divino,

ou mariola sagrado:

com ser no monte gerado

o espírito lhe notei,

que com ser besta de lei,

tanto o ser vilão esconde,

que vem da vila do conde

morar na casa d'EI-Rei.

 

Por não querer embarcar

com ousadia sobeja

atado das mãos da Igreja

veio ao braço secular:

a empuxões, e a gritar

deu baque o Padre Loureiro:

riu-se muito o carcereiro,

mas eu muito mais me ri,

pois nunca Loureiro vi

enxertado em Limoeiro.

 

No argumento, com que vem

da navegação moral,

diz bem, e argumenta mal,

diz mal, e argumenta bem:

porém não cuide ninguém,

que com tanta matinada

deixou de fazer jornada,

porque a sua teima astuta

o pôs de coberta enxuta,

mas mal acondicionada.

 

O Mestre, ou o capitão

(diz o Padre Fr. Orelo),

que há de levar um capelo,

se não levar capelão:

vinha branco, e negro pão

diz, que no mar fez a guerra,

pois logo sem razão berra,

quando na passada mágoa

trouxe vinho como água,

e farinha como terra.

 

Com gritos a casa atroa,

e quando o caso distinga,

quer vomitar na moxinga,

antes que cagar na proa:

querer levá-lo a Lisboa

com brandura, e com carinho,

mas o Padre é bebedinho,

e ancorado a porfiar

diz, que não quer navegar

salvo por um mar de vinho.

 

Aquentou muito a História

sobre outras ações velhacas

ter-lhe aborcado as patacas .-

o magano do Chicória:

mas sendo a graça notória,

diz o Padre na estacada,

que ficarão a pancada,

quando um, e outro desfeche

se o Loureiro de escabeche,

o Chicória de selada.

 

 

 

 

AO VIGARIO DA MADRE DE DEOS MANUEL RODRIGUES SE QUEYXA O POETA DE TREZ CLERIGOS QUE LHE FORAM A CASA PELA FESTA DO NATAL, ONDE TAMBEM ELLE ESTAVA E COM GALANTARIA O PERSUADE, A QUE SACUDA OS HOSPEDES FORA DE CASA PELO GASTO, QUE FAZIAM.

 

 

Padre, a casa está abrasada,

porque é mais danosa empresa

pôr três bocas numa mesa,

que trezentas numa espada:

esta trindade sagrada,

com que toda a case abafa

a tomara ver já safa,

porque à casa não convém

trindade, que em si contém

três Pessoas, e uma estafa.

 

Vós não podeis sem dar pena

pôr à mesa três Pessoas,

nem sustentar três coroas

em cabeça tão pequena:

se a fortuna vos condena,

que vejais a casa rasa

com gente, que tudo abrasa,

não sofro, que desta vez

vos venham coroas três

fazer princípio de casa.

 

Se estamos na Epifania,

e os três coroas são Magos,

hão de fazer mil estragos

no caju, na valancia:

mágica é feitiçaria,

e a terra é tão pouco esperta,

e a gentinha tão incerta,

que os três a vosso pesar

não vos hão de oferta dar,

e hão de mamar-vos a oferta.

 

O incenso, o ouro, a mirra

que eles vos hão de deixar,

é, que vos hão de mirrar,

se vos não defende um irra:

o Crasto por pouco espirra,

porque é dado a valentão,

e se lhe formos à mão

no comer, e no engolir,

aqui nos há de frigir

como postas de cação.

 

 

 

 

AOS MESMOS PADRES HOSPEDES ENTRE OS QUAIS VINHA O Pe PERICO, QUE ERA PEQUENINO.

 

 

Vierarn Sacerdotes dous e meio

Para a casa do grande sacerdote,

Dous e meio couberam em um bote,

Notável carga foi para o granjeiro.

 

O barco, e o Arrais, que ia no meio,

Tanto que em terra pôs um, e outro zote,

Se foi buscar a vida a todo o trote,

Deixando a carga, o susto, e o recreio.

 

Assustei-me em ver tanta clerezia,

Que como o trago enfermo de remela,

Cuidei, vinham rezar-me a agonia.

Porém ao pôr da mesa, e postos nela,

Entendi, que vieram da Bahia

Não mais que por papar a cabidela.

 

 

 

 

AO MESMO VIGARIO GALANTEA O POETA FAZENDO CHISTES DE HUM MIMO, QUE LHE MANDÁRA BRITES HUMA GRACIOSA COMADRE SUA, ENTRE O QUAL VINHA PARA O POETA HUM CAJÚ.

 

 

Ao Padre Vigário a flor,

ao pobre Doutor o fruito,

há nisto, que dizer, muito,

e dirá muito o Doutor:

tenho por grande favor,

que a título de compadre

deis, Brites, a flor ao Padre:

mas dando-me o fruito a mim,

o que se me deu assim,

é força, que mais me quadre.

 

Quadra-me, que o fruito influa,

que uma flor, que eu não queria,

Se dê, a quem principia

e o fruito, a quem continua:

se o fruito faz, que se argua,

que eu sou o dono da planta,

a flor seja tanto, ou quanta,

sempre o dono a quer perdida,

porque pelo chão caída

faz, que o fruito se adianta.

 

Quem é do fruito Senhor

sabe as Leis d'agricultura,

que todo o fruito assegura,

e despreza toda a flor:

e inda que chamam favor

dar a sua flor a Dama

àquele, por quem se inflama

eu entendo de outro modo,

e ao fruito mais me acomodo,

que honra, e proveito se chama.

 

Porque na testa vos entre

o mistério, que isto encerra,

quem me dá o fruito da terra,

me pode dar do seu ventre:

e porque se reconcentre

este vaticínio imundo

no vosso peito fecundo,

digo qual bem augureiro,

que quem me deu o primeiro,

me pode dar o segundo.

 

O Padre andou muito tolo

em vos estimar a flor,

porque era folha o favor,

e o meu todo era miolo:

com meu favor me consolo

de sorte, e tão por inteiro,

que afirmou por derradeiro,

que um favor, e outro suposto,

eu levo de vós o gosto,

e o Padre vigário o cheiro.

 

Eu do Vigário zombei,

porque vejo, que levou

uma flor, que se murchou,

e eu o fruito vos papei:

este exemplo lhe gravei,

y este desengaño doy

dela dicha, em que me estoy

cantando a su flor ansi,

que ayer maravilla fui,

y oy sombra mia aun no soy.

 

 

 

 

AO CELEBRE FR. JOANNICO COMPREHENDIDO EM LISBOA EM CRIMES DE SODOMITA.

 

 

Furão das tripas, sanguessuga humana,

cuja condição grave, meiga, e pia,

sendo cristel dos Santos algum dia,

hoje urinol dos presos vive ufana.

 

Fero algoz já descortês profana

Sua imagem do nicho da enxovia,

Que esse amargoso traje em profecia

Com a lombriga racional se dana.

 

Ah, Joanico fatal, em que horoscopos,

Ou porque à costa, ou porque à vante deste,

Da camandola Irmão quebraste os copos.

 

Enfim Papagaio humano te perdeste,

Ou porque enfim darias nos cachopos,

Ou porque em culis mundi te meteste.

 

 

 

 

A FR. PASCOAL QUE SENDO ABBADE DE N. S. DAS BROTAS HOSPEDOU ALI COM GRANDEZA A D. ANGELA, E SEUS PAYS, QUE FORAM DE ROMARIA À AQUELLE SANTUARIO.

 

 

Prelado de tan alta perfecion,

Que supo em un aplauso, en un festin

Congregar en su casa um serafin

Cercado de tan alta relacion:

 

Ya mas tenga en su cargo dissension,

Ni en sus Fraylecitos vea motin:

Ninguno Hijuelo suyo sea ruin,

Y los crie en su santa bendicion.

 

Llena estè la cosina de sarten,

Y siempre el refectorio abunde en pan,

Que bien merece Frayle tan de bien.

 

A quien el sacro bago se le dan

Regir la casa santa de Belen,

Y que ya sela quite al soliman.

 

 

 

 

A FR. THOMAZ D'APRESENTAÇÃO PREGANDO EM TERMOS LACONICOS A PRIMEYRA DOMINGA DA QUARESMA.

 

 

Padre Tomás, se Vossa Reverência

Nos pregar as Paixões desta arte mesma,

Viremos a emender, que na Quaresma

Não há mais pregador do que vossência.

 

Pregar com tão lacônica eloqüência

Em um só quarto, o que escrevo em resma,

À fé, que o não fazia Frei Ledesma,

Que pregava uma resma de abstinência.

 

Quando pregar o vi, vi um São Francisco,

Senão mais eficaz, menos chagado,

E de o ter por um Anjo estive em risco.

 

Mas como no pregar é tão azado,

Achei, que no evangélico obelisco

É Cristo no burel ressuscitado.

 

 

 

 

HUM AMIGO DESTE RELIGIOSO PEDIO AO POETA SUAS APROVAÇÕES SOBRE A MESMA PREDICA, A PEDITORIO DO MESMO PREGADOR NESTE.

 

 

MOTE

   

 Louvar vossas orações

é próprio do Pregador,

e a mim me dá mais temor

o Pregador, que os sermões.

 

 

Só o vosso entendimento

vos pode Tomás louvar,

e eu se pudera imitar

qualquer vosso pensamento:

para mostrar seu talento

fez um círculo em borrões

Apeles com dous carvões;

quem vira uma risca vossa?

Riscai vós, para que eu possa

Louvar vossas orações.

 

A causa é melhor, que o efeito

na boa filosofia,

e assim é vossa energia

menor, que o vosso sujeito:

logo se no humano peito

não há alcançar o primor

nas obras de tal autor,

mal a causa alcançarão,

pois o pregar do sermão

É próprio do Pregador.

 

Se louvo vossa alta idéia,

sou culpado em me atrever,

e sou culpado em meter,

a fouce em seara alheia:

nesta empresa, em que receia

entrar o engenho major,

entra o néscio sem pavor,

porque a louca valentia

dá ao néscio a ousadia,

E a mim me dá mais temor.

 

Ou cobarde, ou atrevido,

ou ousado, ou não ousado

hei de dizer empenhado,

o que calava entendido:

um amigo a vós rendido

pede a vossas orações

as minhas aprovações,

e eu calando lhe obedeço,

porque fique em maior preço

O Pregador, que os sermões.

 

 

 

 

O MESMO AMIGO PEDIO AO POETA EM OUTRA OCCASIÃO LHE GLOZASSE ESTE MOTTE, CUJA MATERIA FOY HAVER TRIUNFADO O DITO FR. THOMAZ DE CERTA OPPOSIÇÃO CAPITULAR.

   

 

MOTE

 

Nuvens, que em oposição

o sol querem desluzir,

seus raios sabem sentir

                                                                                              por ser seu cuidado em vão.

 

 

No Céu pardo de Francisco

pardo à força de nublados

há vapores humilhados,

e soberbos com seu risco:

o soberbo ao sol arisco

se põe, e o humilhado não,

e o sol menos queima então

as nuvens, que chegar vê

em acatamentos, que

Nuvens, que em oposição.

 

As nuvens, que se lhe opõem

com tão néscio atrevimento,

o sol de um raio violento

queima, abrasa, e descompõe:

tudo o mais o sol dispõe

pare o manter, e cobrir

criar, e reproduzir,

e com razão não tem fé

co’as nuvens ingratas, que

O sol querem desluzir.

 

O sol por sua altiveza,

e nativo luzimento

não recebe abatimento

e abatê-lo é louca empresa:

quando se atreve a vileza

do vapor, que o vai seguir

na nuvem, que o quer cobrir,

se a subir não tem desmaios,

ao resistir dos seus raios

Seus raios sabem sentir.

 

Sentem com tanto pesar,

que têm por melhor partido

não haver ao sol subido

que subir para baixar:

era força escarmentar

na queda de Faetão,

e na Icária perdição,

que estes outros se arruinaram,

quando ao sol subir cuidaram,

Por ser seu cuidado em vão.

 

 

 

 

AO SOBREDITO RELIGIOSO DESDENHANDO CRITICO DE HAVER GONÇALLO RAVASCO, E ALBUQUERQUE NA PRESENÇA DE SUA FREYRA VOMITADO HUMAS NAUSEAS, QUE LOGO COBRIO COM O CHAPEO.

 

 

Quem vos mete, Fr. Tomás,

em julgar as mãos de amor,

falando de um amador

que pode dar-vos seis e ás?

Sendo vós disso incapaz,

quem vos mete, Fr. Franquia,

julgar, se foi policia

o vômito, que arrotastes,

se quando vós o julgastes,

vomitastes uma asnia:

 

Sabeis, por que vomitou

aquele amante em jejum?

lembrou-lhe o vosso budum,

e a lembrança o enjoou;

e porque considerou,

que o tal budum vomitado

era um fedor refinado,

por não ver poluto um céu,

o cobriu com seu chapéu,

e em cobri-lo o fez honrado.

 

Vós sois um pantufo em zancos,

mais oco do que um tonel,

e se estudais no burel,

entendereis de tamancos:

que as ações dos homens brancos,

tão brancos como Fuão,

não as julga um maganão

criado em um oratório,

julgador de refectório,

que dá o nosso Guardião.

 

O que sabeis, Frei Garrafa,

é a traça, e a maneira,

com que estafais uma Freira,

dizendo, que vos estafa:

vós saís com a manga gafa

do palangana, e tigela

d'ovos moles com canela,

e tão mal correspondeis,

que esse tempo, que a comeis,

são as têmporas para ela.

 

Item sabeis tresladar

falto de próprios conselhos

de trezentos sermões velhos

um sermão para pregar:

e como entre o pontear,

e cirgir obras alheias

se enxergam vossas idéias,

mostrais pregando de falso,

que sendo um Frade descalço,

andais pregando de meias.

 

E pois vossa Reverência

quis ser julgador de nora,

tenha paciência, que agora

se lhe tira a residência:

e inda que a minha clemência

se há com dissimulação,

livre-se na relação

dos cargos, em que é culpado

ser glutão como um capado,

como um bode fodinchão.

 

 

 

 

A CERTO FRADE NA VILLA DE SAM FRANCISCO, A QUEM HUA MOÇA FINGINDOSE AGRADECIDA À SEUS REPETIDOS GALANTEYOS, LHE MANDOU EM SIMULAÇÕES DE DOCE HUMA PANELLA DE MERDA.

 

 

Reverendo Frei Antônio

se vos der venérea fome,

praza a Deus, que Deus vos tome,

como vos toma o demônio:

uma purga de antimônio

devia a moça tomar,

quando houve de vos mandar

um mimo, em que dá a emender,

que já vos ama, e vos quer

tanto, como o seu cagar.

 

Fostes-vos mui de lampeiro

vós, e os amigos de cela

ao miolo da panela,

e achastes um camareiro:

metestes a mão primeiro,

de que vos desenganásseis,

e foi bem feito, que achásseis,

cagalhões, que então sentistes,

porque aquilo, que não vistes,

quis o demo, que cheirásseis.

 

A hora foi temerária,

o caso tremendo, e atroz,

e essa merda para vós

se não serve, é necessária:

se a peça é mui ordinária,

eu de vós não tenho dó:

e se não dizei-me: é pó

mandar-vos a ponto cru

a Moça prendas do cu,

que tão vizinho é do có?

 

Se vos mandara primeiro

o mijo num panelão,

não ficáreis vós então

mui longe do mijadeiro:

mas a um Frade malhadeiro

sem correia, nem lacerda,

que não sente a sua perda,

seu descrédito, ou desar,

que havia a Moça mandar,

senão merda com mais merda?

 

Dos cagalhões afamados

diz esta plebe inimiga,

que eram de ouro de má liga

não dobrões, porém dobrados:

aos Fradinhos esfamiados,

que abrindo a panela estão,

daí por cabeça um dobrão,

e o mais mandai-o fechar;

que por isso, e por guardar,

manhã serei guardião.

 

Se os cagalhões são tão duros,

tão gordos, tão bem dispostos,

é, porque hoje foram postos,

e ainda estão mal maduros:

que na enxurrada dos tais

é de crer, que abrandem mais,

porque a Moça cristãmente

não quer, que quebreis um dente,

mas deseja, que os comais.

 

 

 

 

O CERTO FRADE QUE GALANTEANDO HUAS SENHORAS NO CONVENTO DE ODIVELAS, LHES ENTREGOU HABITO, E MENORES PARA UM FINGIDO ENTREMEZ, E CONHECENDO O CHASCO, EM ALTA NOYTE DEO EM CANTAR O MISERERE, BORRANDO, E OURINANDO TODO O PARLATORIO, PELO QUE A ABADEÇA LHE DEO OS SEUS HÁBITOS, E HUA LANTERNA PARA SE RETIRAR À LISBOA.

 

   

Reverendo Frei Carqueja,

quentárida com cordão,

magano da religião,

e mariola da Igreja:

Frei Sarna, ou Frei Bertoeja,

Frei Pirtigo, que o centeio

moes, e não dás receio,

Frei Burro de Lançamento,

pois que sendo um Frei Jumento,

és um jumento sem freio.

 

Tu, que nas pardas cavernas

vives de um grosso saial,

és carvoeiro infernal,

pois andas com saco em pernas:

lembram-te aquelas fraternas,

que levaste a teu pesar,

quando a Prelada Bivar

por culpa, que te cavou,

de dia te desfradou

para à noite te expulsar.

 

Pela dentada, que Adão

deu no vedado fruteiro,

de folhas fez um cueiro,

e cobriu seu cordavão:

a ti o querer ser glutão

de outra maçã reservada,

ao vento te pôs a ossada,

mas com diferença muita,

que se nu te pôs a fruita,

tu não lhe deste a dentada.

 

De José se diz cad'hora,

que o fez um seno de chapa

deixar pela honra a capa

nas mãos da amante senhora:

tu na mão, que te namora,

por honra, e por pundonor

deixas hábito, e menor,

mas com desigual partido,

que José de acometido,

e tu de acometedor.

 

Desfradado em conclusão

te vistes em couro puro,

como vinho bem maduro,

sendo, que és um cascarrão:

era pelo alto serão,

quando a gente às adivinhas

viu entre queixas mesquinhas

na varanda um Frade andeiro

saído do Limoeiro

a berrar pelas casinhas.

 

Como Galeno na praça

apareceste ao luar

pobre, roubado do mar,

que era ver-te um mar de graça:

quando um pasma, e outro embaça;

não me tenham por visão,

frade sou inda em cueiros,

tornei-me aos anos primeiros,

e Bivar foi meu Jordão.

 

Porque luz se te não manda,

tu por não dar num ferrolho,

dizem, que abriste o teu olho,

que é cancela, que tresanda:

chovias por uma banda,

e por outra trovejavas,

viva tempestade andavas,

porque à comédia assistias,

que era tramóia fingias,

e na verdade o passavas.

 

Ninguém há, que vitupere

aquele lanço estupendo,

quando o teu pecado vendo

tomaste o teu miserere:

mas é bem, que me exaspere

de ver, que todo o sandeu,

que nos tratos se meteu

de Freiras, logo confessa,

que isso lhe deu na cabeça,

e a ti só no cu te deu.

 

Dessa hora temerária

ficou a grade de guisa,

que se até ali foi precisa,

desde então foi necessária:

tu andaste como alimária,

mas isso não te desdoura,

porque fiado na coura

da brutesca fradaria

estercaste estrebaria,

o que gostas manjedoura.

 

Que és frade de habilidade,

dás grandíssima suspeita,

pois deixas câmara feita,

o que foi té agora grade:

tu és um corrente Frade

nos lances de amor, e brio,

pois achou teu desvario

ser melhor, e mais barato,

do que dar o teu retrato,

pôr na grade o teu feitio.

 

Corrido enfim te ausentaste,

mas obrando ao regatão,

pois levaste um lampião

pela cera, que deixaste:

sujamente te vingaste

Frei Azar, ou Frei Piorno,

e estás com grande sojorno,

e posto muito de perna,

sem veres, que essa lanterna

te deram, por dar-te um corno.

 

O com que perco o sentido,

é ver, que em tão sujo tope

levando a Freira o xarope

tu ficaste o escorrido:

na câmara estás provido

e de ruibarbo com capa,

mas lembro-te Frei Jalapa,

que por cagar no sagrado

o cu tens excomungado,

se não recorres ao Papa.

 

Muito em teus negócios medras

com furor, que te destampa,

pois sendo um louco de trampa,

te tem por louco de pedras:

é muito, que não desmedras,

vendo-te trapo, e farrapo,

antes co’a Freira no papo,

como no sentido a tinhas,

parece, que a vê-la vinhas,

pois vinhas com todo o trapo.

 

Tu és magano de lampa,

Bivar é Freira travessa,

a Freira pregou-te a peça,

mas tu armaste-lhe a trampa:

se o teu cagar nunca escampa,

nunca estie o seu capricho,

e pois ta pregou, Frei Mixo,

chame-se por todo o mapa

ela travessa de chapa,

e tu magano de esguicho.

 

 

 

 

A CERTO FRADE, QUE QUERENDO EMBARCAR-SE PARA FORA DA CIDADE, FURTOU HUM CABRITO, O QUAL SENDO CONHECIDO DA MAY PELO BERRO O FOY BUSCAR DENTRO DO BARCO, E COMO NÃO TEVE EFFEYTO O DITO ROUBO,TRATOU LOGO DE FURTAR OUTRO, E O LEVOU ASSADO.

 

 

De fornicário em ladrão

se converteu Frei Foderibus

o lascivo em mulieribus,

o mui alto fodinchão:

foi o caso, que um verão

tratando o Frade maldito

de ir da cidade ao distrito,

querendo a cabra levar,

para mais a assegurar,

embarcou logo o cabrito.

 

Mas a cabra esquiva, e crua

a outro pasto já inclinada

não quis fazer a jornada,

nem que a faça cousa sua:

balou uma, e outra rua

com tal dor, e tal paixão,

que respondendo o mamão

alcançou todo o distrito

nas respostas do cabrito

o codilho do cabrão.

 

Estava ele muito altivo

com seu jogo bem assaz,

porém, por roubar sem ás

perdeu bolo, cabra, e chibo:

porque sem pôr pé no estrivo

saltou na barca do Alparca,

e dizendo desembarca

saiu co filho a correr,

porque então não quis meter

com tal cabrão pé em barca.

 

O Frade ficou num berro,

porque temia o maldito

se não levasse o cabrito,

de achar, que lhe pegue um perro:

e por não cair nesse erro

num rebanho em boa fé

outro, a quem o Frei Caziqui,

quando ele dizia mihi,

ele respondia mé.

 

Do mé desaparecido

foi logo o dono avisado,

que o Frade lhe havia achado

antes dele o haver perdido:

e sendo o sítio corrido,

se achou, que a modo de pá

num forno o cabrito está,

que o Frade é destro ladrão

porém nesta ocasião

saiu-lhe a fornada má.

 

 

 

 

A CERTO FRADE QUE PREGANDO MUITOS DESPROPOSITOS NA MADRE DE DEOS FOI APEDREJADO PELOS RAPAZES, E SE FINGIO DESMAYADO POR ESCAPAR: MAS DEPOIS FURTANDO AO POETA UM BORDÃO, E AO ARPISTA DA FESTA UM CHAPEO SE RETIROU: POREM SABENDO-SE DO FURTO LHE FOY AO CAMINHO TIRAR DAS MÃOS HUM MULATO DE DOMINGOS BORGES.

 

 

Reverendo Padre em Cristo,

Fr. Porraz por caridade,

Padre sem paternidade

salvo a tem pelo Anticristo:

não me direis, que foi isto,

que dizem, quando pregastes,

tão depressa vos pagastes,

que antes que o sermão findara

tanto cascalho embolsastes.

 

Pregastes tanta parvoíce

de tolo, e de beberrão,

que o povo bárbaro então

entendeu, que era louquice:

quis-vos seguir a doudice,

e posto no mesmo andar,

em lugar de persignar

uma pedrada vos prega,

que a testa ainda arrenega

de tal modo de pregar.

 

Aqui-d'EI-Rei me aturdistes,

e como um Paulo pregáveis,

entendi, quando gritáveis,

que do cavalo caístes:

vós logo me desmentistes,

dizendo, não tenho nada,

fingi aquela gritada,

porque entre tantos maraus

com seixos, limões, e paus

não viesse outra pedrada.

 

Bem creio eu, Peralvilho,

que sois cavalo de Troia,

e fazeis uma tramóia

co'a morte no garrotilho:

mas se perdendo o codilho,

que ganhais a mão, dizeis,

a vós o engano fazeis,

porque se quem compra, e mente,

se diz, que na bolsa o sente,

vós na testa o sentireis.

 

Vendo-vos escalavrado

o Vigário homem do céu

em casa vos recolheu,

por vos salvar no sagrado:

vós sois tão desaforado,

que não quisestes cear,

não mais que pelo poupar,

sendo que sois tão má preia,

que lhe poupastes a ceia,

por lhe roubar o jantar.

 

Fostes-vos de madrugada,

deixando-lhe aberta a porta,

mas a porta pouco importa,

importa a casa roubada:

fizestes uma trocada,

que só a pudera fazer

um beberrão a meu ver,

d’um por outro chapéu podre,

que trocar odre por odre

venha o demo a escolher.

 

Ficou o Mestre solfista

sem chapéu destro, ou sinestro,

e ainda que na arpa é destro,

vós fostes maior arpista:

quem por ladrão vos alista,

saiba, que sois mau ladrão,

que não perdendo ocasião,

lá em cima na vossa estada,

levastes a bordoada,

cá em baixo o meu bordão.

 

Tomastes do rio a borda,

e vendo os amigos Borges,

que leváveis tais alforjes,

trataram de dar-vos corda:

mas vendo, que vos engorda,

mais do que a vaca, o capim,

puseram-vos um selim,

um freio, e um barbicacho,

porque sendo um burro baio

logreis honras de rocim.

 

Vendo-vos ajaezado,

pela ocasião não perder,

botastes logo a correr

atrás das éguas mangado:

apenas tínheis chegado

de Caípe à casaria,

quando um Mulataço harpia

arrogante apareceu,

e vos tirou o chapéu

sem vos fazer cortesia.

 

Tirou-vos o meu cajado,

porque sois ladrão tão mau,

que levastes o meu pau,

que não serve a um barbado:

e vendo-vos despojado

dos furtos deste lugar

vos pusestes a admirar,

de que um Mulato valente

de vos despir se contente,

podendo-vos açoutar.

 

Nunca vós, borracho alvar,

a pregar-nos vos metais,

que se a rapazes pregais,

eles vos lá hão de pregar:

tratai logo de buscar

alguma Dona Bertola,

para pregar pela gola,

como aqui sempre fizestes,

que esse é o pregar, que aprendestes,

do que podeis pôr escola.

 

E guardai-vos, maganão

bêbado, jeribiteiro,

de tornar a este oiteiro

fazer vossa pregação:

que o Mestre Pantaleão,

e o Doutor, a quem roubastes,

e os mais, que aqui encontrastes

vos esperam com escarbas.

para arrancar-vos as barbas,

se é que a vinho as não pelastes.

 

 

 

 

INDO CERTO FRADE A CASA DE HUMA MERETRIZ LHE PEDIO ESTA QUINZE MlL REIS DANTEMÃO PARA TIRAR HUMAS ARGOLLAS, QUE TINHA EMPENHADAS.

 

 

Quinze mil-réis dantemão

Cota a pedir-me se atreve,

o diabo a mim me leve,

se ela val mais que um tostão:

que outra fêmea de canhão,

por seis tostões, que lhe dei

toda a noite a pespeguei,

e a quem faz tal peditório

Borrório.

 

Ora está galante o passo;

Menina, não me direis,

se vos deu quinze mil-réis,

quem vos tirou o cabaço?

fazeis de mim tão madraço,

que vos dê tanto dinheiro

por um triste parrameiro,

que está junto ao cagatório?

Borrório.

 

Quereis argolas tirar

 Co'as moedas, que são minhas?

para tirar argolinhas

só lança vos posso dar;

vós pedis por pedinchar

sem vergonha, nem receio,

como se eu tivera cheio

de dinheiro um escritório:

Borrório.

 

Saís muito à vossa Mãe

nos costumes de pedir,

e eu em não contribuir

me pareço com meu Pai:

essa petição deixai;

quereis sustentar-vos só

vossa Mãe, e vossa Avó,

e todo o mais avolório?

Borrório.

 

Vindes a mui ruim mato,

Menina, fazer a lenha,

que outra fêmea mais gamenha

mo fazia mais barato:

buscai outro melhor pato;

quereis depenar, a quem

a penas segura tem

a ração do refeitório?

Borrório.

 

Quereis, que o Prelado astuto

me tome conta da esmola,

e que a bom livrar dê a sola?

que tal faça! fideputo:

eu não sou amba macuto,

nem sou tampouco matreiro,

que vós comais o dinheiro,

e eu fique de gorgotório?

Borrório.

 

Vós quereis sem mais nem mais,

que no sermão de repente

eu faça chorar a gente,

para que vós vos riais?

tão ruim alma me julgais,

que para as vossas cobiças

tome capelas de missas,

e que chore o Purgatório?

Borrório.

 

Ora enfim vós a pedir,

e eu Cota a vo-lo negar,

ou vós havei de cansar,

ou eu me hei de sacudir:

com que venho a inferir

destas vossas petições,

que heis de pedir-me os culhões,

a parvoíce, e zimbório

Borrório.

 

 

 

 

SATYRIZA OUTRO CASO DE HUMA NEGRA QUE FOY ACHADA COM OUTRO FRADE, E FOY BEM MOIDA COM UM BORDÃO POR SEU AMAZIO, POR CUJA CAUSA SE SAGROU, E SE FINGIO MANCA DE HUM PÉ.

 

 

Nunca cuidei do burel,

nem menos do seu cordão,

que fosse tão cascarrão,

tão duro, nem tão cruel:

mas vós como sois novel,

e ignorais o bom, e o mau,

e o que tirastes do escote

foi ver, que era o seu picote

tão duro como um bom pau

 

Vós fostes bem esfregada

do burel esfregador,

mas depois o pão do amor

vos deixou mais bem pisada:

no bananal enramada

vos atastes ao cordão,

que vos fez a esfregação;

depois quem vos vigiou,

nas costas vos assentou

as costuras cum bordão.

 

Fingistes-vos mui doente,

e atastes no pé um trapo,

sendo a doença o marzapo

do Franciscano insolente:

enganastes toda a gente

fingidamente traidora,

mas eu soube na mesma hora,

que nos tínheis enganado,

e por haver-vos deitado,

fingis deitar-vos agora.

 

Eu sinto em todo o rigor

os vossos sucessos maus,

pois levastes com dois paus

um do Frade, outro do amor:

qual destes paus foi pior

vós nos haveis de dizer,

que eu não deixo de saber,

que sendo negras, ou brancas

é sempre um só pau de trancas

pouco para uma mulher.

 

Não vades ao bananal,

que e cousa escorregadia,

e eis de levar cada dia

lá no có, cá no costal:

sed libera nos a mal

dizei no vosso rosário,

e se o Frade é frandulário,

vá folgar a seu convento,

que vós no vosso aposento

tendes certo o centenário.

 

Muito mal considerastes,

no que o sucesso parou,

que o Frade vos não pagou,

e vós em casa o pagastes:

tal miserere levastes,

que vos digo na verdade,

fora melhor dá-lo ao Frade

porque é maior indecência

dá-lo a vossa negligência,

que à sua Paternidade.

 

 

 

 

A CERTO FRADE QUE TRATAVA COM HUMA DEPRAVADA MULATA POR NOME VICENCIA QUE MORAVA JUNTO AO CONVENTO, E ATUALMENTE Á ESTAVA VIGIANDO DESTE CAMPANARIO.

 

 

Reverendo Fr. Sovela,

saiba vossa Reverência,

que a caríssima Vivência

põe cornos de cabidela:

tão vária gente sobre ela

vai, que não entra em disputa,

se a puta é mui dissoluta,

sendo, que em todos os povos

a galinha põe os ovos

e põe os cornos a puta.

 

Se está vossa Reverência

sempre à janela do coro,

como não vê o desaforo

dos Vicêncios co'a Vicência?

como não vê a concorrência

de tanto membro, e tão vário,

que ali entra de ordinário?

mas se é Frade caracol,

bote esses cornos ao sol

por cima do campanário.

 

Do alto verá você

a puta sem intervalos

tangida de mais badalos,

que tem a torre da Sé:

verá andar a cabra mé

berrando atrás dos cabrões,

os ricos pelos tostões

os pobres por piedade,

os leigos por amizade,

os Frades pelos pismões.

 

Verá na realidade

aquilo, que já se entende

de uma puta, que se rende

às porcarias de um Frade:

mas se não vê de verdade

tanto lascivo exercício,

é, porque cego do vício

não lhe entra no oculorum

o secula seculorum

de uma puta de ab initio.

 

 

 

 

AO LOUCO DESVANECIMENTO, COM QUE ESTE FRADE TIRANDO ESMOLLAS CANTAVA REGAÇANDO O HABITO POR MOSTRAR AS PERNAS, COM PRESUNÇÕES DE GENTILHOMEM, BOM MEMBRO, E BOA VOZ.

 

 

Ouve, Magano, a voz, de quem te canta

Em vez de doces passos de garganta

Amargos pardieiros de gasnate:

Ouve, sujo Alparcate,

As aventuras vis de um Dom Quixote

Revestido em remendo de picote.

 

Remendado dos pés até o focinho

Me persuado, que és Frade Antoninho:

Por Frei Basílio sais de São Francisco,

E entras Frei Basilisco,

Pois que deixas à morte as Putas todas,

Ou já pela má vista, ou pelas fodas.

 

Tu tens um membralhaz aventureiro,

Com que sais cada trique ao terreiro

A manter cavalhadas, e fodengas,

Com que as putas derrengas;

Valha-te: e quem cuidara, olhos de alpistre,

Que seria o teu membro o teu enristre!

 

Gabas-te, que se morrem as Mulatas

Por ti, e tens razão, porque as matas

De puro pespegar, e não de amores,

Ou de puros fedores,

Que exalam, porcalhão, as tuas bragas,

Com que matas ao mundo ou as estragas.

 

Dizem-me, que presumes de três partes,

E as de Pedro serão de malas artes:

Boa voz, boa cara, bom badalo,

Que é parte de cavalo:

Que partes podes ter, vilão agreste,

Se não sabes a parte, onde nasceste?

 

Vestido de burel um salvajola

Que partes pode ter? de mariola:

Quando o todo é suor, e porcaria,

A parte que seria?

Cada parte budum, catinga, e lodos,

Que estas as partes são dos Frades todos.

 

Não te desvaneça andar-te a puta ao rabo,

Que Joana Lopes dormirá c’o diabo;

E posto que a Mangá também forniques,

Que é moça de alfiniques,

Supõe, que tinha então faminta a gola,

E que te quis mamar o pão da esmola.

 

Não hão mister as putas gentilezas,

Que arto bonitas são, arto belezas:

O que querem somente, é dinheiro,

E se as cavalgas tu, pobre sendeiro,

É, porque dando esmolas, e ofertório,

Quando as pespegas, geme o refectório.

 

Prezas-te de galã, bonito, e pulcro,

E os fedores da boca é um sepulcro

A cães mortos te fede a dentadura,

E se há puta, que te atura

Tais alentos de boca, ou de traseiro,

É porque tu as incensas com dinheiro.

 

O hábito levantas no passeio,

E cuidas, que está nisso o galanteio,

Mostras a perna mui lavada, e enxuta,

Sendo manha de puta

Erguer a saia por mostrar as pernas,

Com que és hermafrodita nas cavernas.

 

Tu és Filho de um sastre de bainhas,

E botas muito mal as tuas linhas,

Pois quando fidalgão te significas,

A ti mesmo te picas,

E dando pontos em grosseiro pano,

Mostras pela entertela, que és magano.

 

Torna em teu juízo, louco Durandarte,

Se algum dia o tiveste, a quem tornar-te;

Teme a Deus, que em tão louco desatino

De algum celeste signo

Hei medo, que um badalo se despeça,

E te rompa a cabaça, ou a cabeça.

 

Se és Frade, louva ao Santo Patriarca,

Que te sofre calçar-lhe a sua alparca,

Que juro a tal, se ao século tornaras,

Nem ainda te fartaras

De ser um tapanhuno de carretos,

Por não ser mariola, onde há pretos.

 

 

 

 

AO MESMO FRADE TORNA A SATYRIZAR O POETA, SEM OUTRA MATERIA NOVA, SENÃO PRESUMINDO, QUE QUEM O DEMO TOMA HUMA VEZ SEMPRE LHE FICA HUM GEYTO.

 

 

Reverendo Fr. Fodaz,

não tenho matéria nova,

de que vos faça uma trova,

mas de antiga tenho assaz:

que como sois tão capaz

de ires de mau a pior,

suponho de vosso humor,

que enquanto a velha, e o frade

sois sempre em qualquer idade

mais ou menos fodedor.

 

Na boa filosofia

mais ou menos não difere,

e assim vós que estais, se infere,

na mesma velhacaria:

Lembra-me a mim cada dia

tanto sucesso indecente,

que de vós refere a gente,

que inda que d'outra monção,

sei, que de hoje para então

nada tendes diferente.

 

Se o burel, que se remenda,

e o ser frade, e ser vilão

vos fazem mais fodinchão,

como haveis de ter emenda?

Será inútil contenda

querer, que vos emendeis,

pois como vós não deixeis

de ser frade, e ser vilão,

sempre heis de ser fodinchão,

fodereis, mais fodereis.

 

Quem a causa não desfaz,

não destrói o seu efeito,

com que vós no hábito estreito

sempre haveis de ser fodaz.

Valha o diabo o mangaz,

que em vendo a pinta, e a franga

aqui, em Jacaracanga,

em público, e em secreto,

se lhe cheira o vaso preto,

logo a porra se lhe emanga.

 

De um pirtigo tão velhaco,

que tão súbito se engrossa,

que direi, senão que almoça

vinte picas de Macaco:

membro, que em todo o buraco

se quer meter apressado,

qual arganaz assustado,

fugindo ao ligeiro gato,

que direi, que é membro rato?

Não: porque este é consumado.

 

Pois logo que hei de dizer,

como, e com que paridade

porei o membro de um frade,

a quem não farta  o foder?

Eu não me sei nisto haver,

nem por que apodo me reja:

mas o mundo saiba, e veja,

que o membro deste mangado

é já membro desmembrado

da justiça, mais da Igreja.

 

 

 

 

A CERTO FRADE QUE INDO PREGAR A HUM CONVENTO DE FREYRAS, E ESTANDO COM HUMA NA GRADE, LHE DEO TAL DOR DE BARRIGA, QUE SE CAGOU POR SI.

 

 

Ficaram neste intervalo

pagos a Freira, e o Frade,

ela a ele deu-lhe a grade,

que a vós não convém correr

com homem tão despejado,

ele a ela deu-lhe o ralo:

fê-lo ir com tanto abalo

o seu sujo proceder,

que se andar tão desatado,

logo vos há de feder.

 

Estas novas enxurradas

fizeram com novo estilo

na casa da grade um Nilo,

catadupa nas escadas:

não foram mal suportadas

dos vizinhos do lugar,

se chegaram a alcancar

(como ouvimos referir)

que os índios perdem o ouvir,

cá perdessem o cheirar.

 

Ao Frade, que assim vos trata,

porque outra vez não se entorne,

mandai, que à grade não torne,

até soldar a culatra:

que escopeta, que não mata,

quando tão junto atirou,

bem mostra, que se errou,

e toda a munição troca,

não rebentou pela boca,

pela escorva rebentou.

 

Neste hediondo tropel

cem mil causas achareis,

que não são para papéis,

posto que as ponha em papel:

o passo foi tão cruel,

que a dizê-lo me tentou:

se bem lastimado estou,

do que deste Frade ouvi,

torne ele mesmo por si,

já que por si se entornou.

 

Do monte Olimpo se conta,

que quando há maior tromento

deixa sua altura isenta,

porque das mais se remonta:

não sei, se vós nessa conta

entrastes, Senhora, então

naquela suja ocasião;

só sei, que o Frade seria,

pelo que dele corria,

monte, mais o limpo não.

 

Deste Frade ouvi dizer,

e é cousa digna de riso,

que tendo-se por Narciso,

fez fonte para se ver:

e deve-se reprender,

Dama bela, se vos praz

o que este Narciso faz,

pois ofende o fino amante,

deixando claro diante,

ver-se no escuro de trás.

 

Foi o Padre aqui mandado

para pregar: grande error!

Não pode ser pregador

um Frade tão despregado:

seja do ofício privado,

e de entre a gente falar,

pois todos vêem alcançar

o seu salvo presumir,

que sendo mau para ouvir,

é pior para cheirar.

 

 

 

 

 

 

  

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