LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

A MUSA PRAGUEJADORA
 

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAY ERRADO, E QUERENDO EMENDÂLO O TEM POR EMPREZA DIFFICULTOSA.
 

SANTIGUA-SE O POETA CONTRA OUTROS PATARATAS AVARENTOS, INJUSTOS, HYPOCRITAS, MURMURADORES, E POR VARIAS MANEIRAS VICIOSOS, O QUE TUDO JULGA EM SUA PÁTRIA.
 

EXPOEM ESTA DOUTRINA COM MIUDEZA, E ENTENDIMENTO CLARO,  E SE RESOLVE A SEGUIR SEU ANTIGO DICTAME.
 

SACODE A OUTROS, QUE PECCAVÃO NA PRESUNÇÃO, E ATREVIMENTO INDIGNO.
 
 

SATYRIZA O POETA ALLEGORICAMENTE ALGUNS LADRÕES,  QUE MAIS SE ASSIGNALAVÃO NA REPUBLICA. ABOMINANDO A VARIEDADE, E O MODO DE PURTAR.
 

COM VISTA CLARA SACODE OS ENTREMETTIDOS, MENCIONANDO ALGUNS DE SEOS PATRICIOS, QUE MAIS O ENFADAVAM.
 

DEFENDE O POETA POR SEGURO, NECESSARIO, E RECTO SEU PRIMEYRO INTENTO SOBRE SATYRIZAR OS VICIOS.
 

EM TEMPO QUE GOVERNAVA ESTA CIDADE DA BAHIA O MARQUEZ DAS MINAS AJUIZA O POETA COM SUBTILEZA DE HOMEM SAGAZ, E ENTENDIDO O FOGO SELVAGEM, QUE POR MEYO DA URBANIDADE SE INTRODUZIO EM CERTA CASA.
 

CONTEMPLANDO NAS COUSAS DO MUNDO DESDE O SEU RETIRO, LHE ATIRA COM O SEU APAGE, COMO QUEM A NADO ESCAPOU DA TROMENTA.
 

TORNA O POETA A DAR OUTRA VOLTA AO MUNDO COM ESTA SEGUNDA CRISI.
 

 

 

 

 

A MUSA PRAGUEJADORA

E bem que os descantei bastantemente
canto segunda vez na mesma lira
o mesmo assunto, em plectro diferente.

Que a mudez canoniza bestas feras.

Oh que cansado trago o sofrimento.

 
 
 

QUEIXA-SE O POETA EM QUE O MUNDO VAY ERRADO, E QUERENDO

EMENDÂLO O TEM POR EMPREZA DIFFICULTOSA.

 
 
 

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
 
 

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
 
 

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
 
 

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
 
 
 

SANTIGUA-SE O POETA CONTRA OUTROS PATARATAS AVARENTOS,

INJUSTOS, HYPOCRITAS, MURMURADORES, E POR VARIAS MANEIRAS

VICIOSOS, O QUE TUDO JULGA EM SUA PÁTRIA.

 
 
 

1      Destes, que campam no mundo
        sem ter engenho profundo,
        e entre gabos dos amigos
        os  vemos em papa-figos
        sem tempestade, nem vento:
        Anjo Bento.
 
 

2     De quem com Letras secretas
       tudo, o que alcança é por tretas,
       baculejando sem pejo
       por matar o seu desejo
       dês de manhã até a tarde:
       Deus me guarde.
 
 

3      Do que passeia farfante
        muito prezado de amante,
        por fora luvas, galões,
        insígnias, armas, bastões,
        por dentro pão bolorento:
        Anjo Bento.
 
 

4      Destes beatos fingidos
        cabisbaixos, encolhidos,
        por dentro fatais maganos,
        sendo nas caras uns Janos,
        que fazem do vício alarde:
        Deus me guarde.
 
 

5     Que vejamos teso andar,
       quem mal sabe engatinhar,
       mui inteiro, e presumido,
       ficando o outro abatido
       com maior merecimento:
       Anjo Bento.
 
 

6     Destes avaros mofinos,
       que põem na mesa pepinos
       de toda a iguaria isenta,
       com seu limão, e pimenta,
       porque diz que queima, e arde:
       Deus me guarde.
 
 

7     Que pregue um douto sermão
       um alarve, um asneirão,
       e que esgrima em demasia,
       quem nunca já na Sofia
       soube pôr um argumento:
       Anjo Bento.
 
 

8     Deste Santo emascarado,
       que fala do meu pecado,
       e se tem por Santo Antônio,
       mas em lutas co demônio
       se mostra sempre cobarde:
       Deus me guarde.
 
 

9     Que atropelando a justiça
       só com virtude postiça
       se premie o delinqüente,
       castigando o inocente
       por um leve pensamento:
       Anjo Bento.
 
 
 
 

EXPOEM ESTA DOUTRINA COM MIUDEZA, E ENTENDIMENTO CLARO,

 E SE RESOLVE A SEGUIR SEU ANTIGO DICTAME.

 
 
 

1     Que néscio, que era eu então,
       quando o cuidava, o não era,
       mas o tempo, a idade, a era
       puderam mais que a razão:
       fiei-me na discrição,
       e perdi-me, em que me pes,
       e agora dando ao través,
       vim no cabo a entender,
       que o tempo veio a fazer,
       o que a razão nunca fez. .
 
 

2     O tempo me tem mostrado,
       que por me não conformar
       com o tempo, e co lugar
       estou de todo arruinado:
       na política de estado
       nunca houve princípios certos,
       e posto que homens espertos
       alguns documentos deram,
       tudo, o que nisto escreveram,
       são contingentes acertos.
 
 

3     Muitos por vias erradas
       têm acertos mui perfeitos
       muitos por meios direitos,
       não dão sem erro as passadas:
       cousas tão disparatadas
       obra-as a sorte importuna,
       que de indignos é coluna,
       e se me há de ser preciso
       lograr fortuna sem siso,
       eu renuncio à fortuna.
 
 

4     Para ter por mim bons fados
       escuso discretos meios,
       que há muitos burros sem freios,
       e mui bem afortunados:
       logo os que andam bem livrados,
       não é própria diligência,
       é o céu, e sua influência,
       são forças do fado puras,
       que põem mantidas figuras
       do teatro da prudência.
 
 

5     De diques de água cercaram
       esta nossa cidadela
       todos se molharam nela,
       e todos tontos ficaram:
       eu, a quem os céus livraram
       desta água fonte de asnia,
       fiquei são da fantesia
       por meu mal, pois nestes tratos
       entre tantos insensatos
       por sisudo eu só perdia.
 
 

6     Vinham todos em manada
       um simples, outro doudete,
       este me dava um moquete,
       aqueloutro uma punhada:
       tá, que sou pessoa honrada,
       e um homem de entendimento;
       qual honrado, ou qual talento?
       foram-me pondo num trapo,
       vi-me tornado um farrapo,
       porque um tolo fará cento.
 
 

7     Considerei logo então
       os baldões, que padecia,
       vagarosamente um dia
       com toda a circunspeção:
       assentei por conclusão
       ser duro de os corrigir,
       e livrar do seu poder,
       dizendo com grande mágoa:
       se me não molho nesta água,
       mal posso entre estes viver.
 
 

8     Eia, estamos na Bahia,
       onde agrada a adulação,
       onde a verdade é baldão,
       e a virtude hipocrisia:
       sigamos esta harmonia
       de tão fátua consonância,
       e inda que seja ingnorância
       seguir erros conhecidos,
       sejam-me a mim permitidos,
       se em ser besta está a ganância
 
 

9     Alto pois com planta presta
       me vou ao Dique botar,
       e ou me hei de nele afogar,
       ou também hei de ser besta:
       do bico do pé à testa
       lavei as carnes, e os ossos:
       ei-los vêm com alvoroços
       todos para mim correndo.
       ei-los me abraçam, dizendo.
       agora sim, que é dos nossos.
 
 

10    Dei por besta em mais valer,
        um me serve, outro .me presta;
        não sou eu de todo besta,
        pois tratei de o parecer:
        assim vim a merecer
        favores, e aplausos tantos
        pelos meus néscios encantos,
        que enfim, e por derradeiro
        fui galo de seu poleiro,
        e lhes dava os dias santos.
 
 

11    Já sou na terra bem visto,
        louvado, e engrandecido,
        já passei de aborrecido
        ao auge de ser benquisto:
        já entre os grandes me alisto,
        e amigos são, quando topo,
        estou fábula de Esopo
        vendo falar animais,
        e falando eu que eles mais,
        bebemos todos num copo.
 
 

12    Seja pois a conclusão,
        que eu me pus aqui a escrever,
        o que devia fazer,
        mas que tal faça, isso não:
        decrete a divina mão,
        influam malignos fados,
        seja eu entre os desgraçados
        exemplo de desventura:
        não culpem minha cordura,
        que eu sei, que são meus pecados.
 
 
 

SACODE A OUTROS, QUE PECCAVÃO NA PRESUNÇÃO,

E ATREVIMENTO INDIGNO.

 
 
 

1     Um vendelhão baixo, e vil
       de cornos pôs uma tenda,
       e confiado, em que os venda,
       corre por todo o Brasil:
       para mim de tantos mil
       lhe mandei, que me guardasse,
       se verdade não falasse
       em sobrosso, e com sojorno:
       Um corno.
 
 

2     Para o Alcaide ladrão
       com despejo, e com temor,
       que na mão leva o Doutor,
       na barriga a Relação:
       indo à casa de um Sansão
       entra audaz, e confiado,
       e faz penhora no estado
       da mulher, e seu adornos:
       dois cornos.
 
 

3     Para o escrivão falsário,
       que sem chegar-lhe à pousada,
       dando a parte por citada,
       dá fé, e cobra o salário:
       e sendo o feito ordinário,
       como corre à revelia,
       sai a sentença num dia
       mais amarga que piornos:
       três cornos.
 
 

4     Para o Julgador Orate
       ignorante, e fanfarrão,
       que sendo Conde de Unhão,
       já quer ser Marquês de Unhate:
       e por qualquer dou-te, ou dá-te
       resolve do invés um feito
       e assola a torto, e direito
       a cidade, e seus contornos:
       quatro cornos.
 
 

5     Para o Judas Macabeu,
       que porque na tribo estriba,
       foi de Capitão a Escriba,
       e de Escriba a Fariseu:
       pois no ofício se meteu
       a efeito só de comer,
       sufrágios, que em vez de os ter,
       quer antes arder em fornos:
       cinco cornos.
 
 

6     Para o bêbado mestiço,
       e fidalgo atravessado,
       que tendo o pernil tostado,
       cuida, que é branco castiço:
       e de flatos enfermiço
       se ataca de jeribita,
       crendo, que os flatos lhe quita,
       quando os vomita em retornos:
       seis cornos.
 
 

7     Para o Cônego observante
       todo o dia. e toda a hora,
       cuja carne é pecadora
       das completas por diante:
       cara de disciplinante,
       queixadas de penitente,
       e qualquer jimbo corrente
       serve para seus subornos:
       sete cornos.
 
 

8     Para as Damas da Cidade
       Brancas, Mulatas, e Pretas,
       que com sortílegas tretas
       roubam toda a liberdade:
       e equivocando a verdade
       dizem, que são um feitiço,
       não o tendo em o cortiço
       tanto como caldos mornos:
       oito cornos.
 
 

9     Para o Frade confessor,
       que ouvindo um pecado horrendo
       se vai pasmado benzendo,
       fugindo do pecador:
       e sendo talvez pior
       do que eu, não quer absolver-me,
       talvez porque inveja ver-me
       com tão torpes desadornos:
       nove cornos.
 
 

10   Para o Pregador horrendo,
       que a Igreja esturgindo a gritos,
        nem ele entende os seus ditos,
        nem eu também os entendo:
        e a vida, que está vivendo,
        é lá por outra medida,
        e a mim me giza uma vida
        mais amarga, que piornos:
        dez cornos.
 
 

11     Para o Santo da Bahia,
         que murmura do meu verso,
         sendo ele tão perverso,
         que a saber fazer faria:
         e quando a minha Talia
         lhe chega às mãos, e ouvidos
         faz na cidade alaridos,
         e vai gostá-la aos contornos:
         mil cornos.
 
 
 

SATYRIZA O POETA ALLEGORICAMENTE ALGUNS LADRÕES,

 QUE MAIS SE ASSIGNALAVÃO NA REPUBLICA. ABOMINANDO

A VARIEDADE, E O MODO DE PURTAR.

 
 
 

Ontem, Nise, a prima noite
vi sobre o vosso telhado
assentados em cabido
cinco, ou seis formosos gatos.
Estava a noite mui clara
fazia um luar galhardo,
 e porque tudo vos diga,
estava eu em vós cuidando
O Presidente, ou Deão
na Cumeeira sentado
era um gato macilento
barbirruço, e carichato.
Os demais em boa ordem
pela cumeeira abaixo
lavandeiros de si mesmos
lavavam punhos, e rabos.
Tão profundo era o silêncio,
 que não se ouvia um miau,
e o Deão o interrompeu
dando um mio acatarrado.
 Tossiu, tossiu, e não pôde
articular um miau,
que de puro penitente
traz sempre o peito cerrado.
Eis que um gatinho reinol
mui estítico, e mui magro
relambido de feições,
e de tono afalsetado:
quis por primeiro falar,
e falara em todo o caso,
se outro gato casquiduro
lhe não saíra aos embargos.
Eu sou gato de um meirinho
(disse) que pelos telhados
vim fugindo a todo o trote
do poder de um saibam-quantos.
Com que venho a concluir,
que servindo a tais dois amos,
hei de falar por primeiro,
porque sou gato dos gatos.
Fale, disse o Presidente,
pois lhe toca pro anciano;
e ele tomando-lhe a vênia,
foi o seu conto contando.
Em casa deste Escrivão
me criei com tal regalo,
que os demais gatos da casa
eram comigo uns bichanos.
Mas cresci, e aborreci,
porque se cumpra o adágio,
que o oficial do mesmo ofício
é inimigo declaraclo.
Foi me tomando tal ódio,
porque foi vendo, e notando,
que era capaz eu de dar-lhe
até no ofício um gataço
Topou me em uns entreforros,
e tirando-me porraços,
eu lhe miava os narizes,
quando ele me enchia os quartos
Fugi, como tenho dito,
e me acolhi ao sagrado
de uma vara de justiça,
que é valhacouto de gatos.
Sai meu amo aos prendimentos,
e eu fico em casa encerrado
por caçador de balcões,
onde jejuo o trespasso.
Porque em casa de um meirinho
nas suas arcas, e armários
é quaresma toda a vida,
e têmporas todo o ano.
Não posso comer ratinhos,
porque cuido, e não me engano
que de meu amo são todos
ou parentes, ou paisanos.
Porque os ratinhos do Douro
são grandíssimos velhacos:
em Portugal são ratinhos,
e cá no Brasil são gatos.
Eu sou gato virtuoso.
que a puro jejum sou magro,
não como, por não ter quê,
não furto, por não ter quando
E como sobra isto hoje,
para me terem por Santo,
venho pedir que me ponham
no Calendário dos gatos.
Acabada esta parlenda
mui ético do espinhaço
sobre a muleta das pernas
se levantou outro gato:
Dizendo: há anos, que sirvo
na casa de um Boticário,
que a récipe de pancadas
me tem os bofes purgado.
Queixa-se, que lhe comi
um boião de ungüento branco,
e bebi-lhe a mesma noite
um canjirão de ruibarbo.
Diz bem, porque assim passou;
mas eu fiquei tão passado
como de tal solutivo
dirá qualquer mata-sanos.
Fiquei de humores exangue,
tão escorrido, e exausto,
que não sou gato de humor,
porque nem bom, nem mau gasto.
Suplico ao senhor Cabido,
que de um homem tão malvado
me vingue com ter saúde,
por não gastar os emplastos.
Apenas este acabou,
quando se ergueu outro gato,
e entoando o jube domine
disse humilde, e mesurado:
Meu amo é um bom Alfaiate
gerado sobre um telhado
na maior força do inverno,
alcoviteiro dos gatos.
É pardo rajado em preto,
ou preto embutido em pardo,
malhado, ou já malhadiço
do tempo, em que fora escravo.
Tão caçador das ourelas,
tão meador de retalhos,
que com onças de retrós
brinca qual gato com ratos.
E porque eu com dois fios
joguei o sapateado,
houve de haver por tão pouco
uma de todos os diabos.
Estrugiu-me a puros gritos,
e plantou-me no pedrado;
ele pelo cabo é cão,
e eu fiquei gato por cabo.
Que de verdades dissera,
a estar menos indignado!
mas para falar de um cão
é mui suspeitoso um gato.
Pelo menos quando eu corto,
nunca dobro a tela em quatro,
por dar um colete ao demo,
e outro a mim pelo trabalho.
Nem menos peço dinheiro
para retrós e o não gasto,
porque o gavetão do cisco
me dá o retrós necessário.
Não cirzo côvado, e meio
por dar um colete ao diabo,
nem vendo de tela fina
retalhinhos de três palmos.
Tudo enfim se há de saber
no universal cadafalso,
que no tribunal de Deus
não se estilam secretários
Requeiro a vossas mercês;
que me ponham com outro amo,
porque com este hei de estar
sempre como cão com gato.
À vista deste Alfaiate
disse o Cabido espantado.
somos nós gatos mirins,
que inda agora engatinhamos.
O gato tome outro amo
em qualquer convento honrado.
seja Fundador Barbônio,
ou Sacristão-mor do Carmo.
A propósito do que
se foi erguendo outro gato.
e amortalhado de mãos
armou os lombos em arco:
E dizendo o jube domine
se pôs em terra prostrado:
e eu disse logo: me matem,
se não é dos Franciscanos.
Sou gato de refeitório,
disse, há três ou quatro anos,
pajem do refeitoreiro,
do despenseiro criado.
Fui Custódio da cozinha,
e dei mal conta do cargo,
porque sisando rações,
fui guardião dos traçalhos.
Eu era por outro tempo
mui gordo, e mui anafado,
porque os da esmola então vinham
despejar-me em casa os sacos.
Mas hoje, que já da rua
vêm cos bolsos despejados,
veio a ser o refeitório
uma Tebaida de gatos.
Não pode o pão das esmolas
manter tantos Remendados,
que em lhe manter as amigas
(sendo infinitas) faz arto.
Dei com isto entisicar-me,
e esburgar-me do espinhaço,
não tanto já de faminto,
quanto de escandalizado.
Não posso viver entre homens,
que se remendam seus panos,
é mais por nos enganar,
que porque lhes dure o ano.
E hoje, que na casa nova
gastam tantos mil cruzados,
são gatos de maior dura,
pois de pedra, e cal são gatos.
Palavras não eram ditas,
quando zunindo, e silvando
sentiram pelas orelhas
um chuveiro de bastardos.
E logo atrás disso um tiro
de um bacamarte atacado,
que disparou de um quintal
um malfazejo soldado
Descompôs-se a audiência,
e cada qual por seu cabo
pela campanha dos ares
foram de telha em telhado.
E depois que légua e meia
tinha cada qual andado,
parando, olharam atrás
atônitos e assustados.
E vendo-se desunidos,
confusos, desarranchados,
usaram de contra-senha
miau aqui, ali, miau.
Mas depois, que se juntaram,
disse uma gato castelhano,
cada qual a su cabana,
que hoje de boa escapamos,
Chuviscou naquele instante,
e safaram-se de uma salto,
porque sempre da água fria
tem medo o gato escaldado.
 
 
 

COM VISTA CLARA SACODE OS ENTREMETTIDOS, MENCIONANDO

ALGUNS DE SEOS PATRICIOS, QUE MAIS O ENFADAVAM.

 
 
 
 

A várias pessoas

 
 

1     Como nada vêem
       e andam sempre aos tombos
       querem os mazombos
       que eu cegue também:
       não temo ninguém,
       e se os matulões
       hão medo a prisões,
       eu sou de carona:
       forro minha cona
 
 

2     Olhem para a terra
       que está nestes anos
       gafa de maganos
       que El-Rei o desterra:
       O pano da Serra
       em sedas trocou
       quem lá sempre andou
       em uma atafona:
       forro minha cona
 
 

3     Verão um sandeu
       que quer sem disputa
       ser filho da puta,
       por não ser judeu:
       se hábitos perdeu
       por ser cristão-novo,
       a mim todo o povo
       de velho me abona:
       forro minha cona
 
 

4     Aquele é de ver,
       que apuros aqueles
       explica por eles,
       quanto quer dizer:
       Não posso sofrer
       que um tangarumanga
       use de pendanga
       com língua asneirona:
       forro minha cona
 
 

5     Verão um jumento
       de figura rara,
       que anda sempre a vara,
       por lhe darem vento:
       Notável portento
       neste tal se enxerga,
       pois trás a chomberga
       a barba capona:
       forro minha cona
 
 

6     Verão um vilão
       na dona montanha
       farto de castanha
       faminto de pão:
       e se bem à mão
       com bois e arado
       cultivou o prado
       de Flora, e Pamona:
       forro minha cona
 
 

7     Clérigo verão
       que porque em Cantabra
       nasceu de uma cabra
       cresceu a cabrão:
       Tão fino ladrão
       que até a filha alheia
       com ser cananéia
       furta à mãe putona:
       forro minha cona
 
 

8     Verão um Doutor
       em Judá nascido
       mais entremetido
       que um grande fedor:
       Grande assistidor
       de Igreja festeira,
       que ao longe lhe cheira
       como mangerona:
       forro minha cona
 
 

9     Verão um Galego
       grande salvajola,
       veste à mariola,
       anda ao palacego:
       Fidalgo Noroego
       em cruz de Calvário,
       que um certo falsário
       nos peitos lhe entona:
       forro minha cona
 
 

10    Verão um inocente,
        que a fidalgo vai
        e calando o pai
        a mãe diz somente:
        A este impertinente
        lembro-lhe o Godim
        do pai matachim,
        e a mãe vendilhona:
        forro minha cona
 
 

11    Verão um pasguate
         monstro de ouro, e prata,
         que sendo uma pata,
         é filho de um gato:
         A renda de um trato
         pôs por seu regalo
         um burro a cavalo
         de sela mamona:
         forro minha cona
 
 

12     Entre outros ladrões
         verão um letrado
         na mente graduado
         de quatro asneirões:
         Na cara pontões
         na idéia nem ponto,
         e ou tonto, ou não tonto,
         de rico blasona:
         forro minha cona
 
 

13     Verão um alvar
         fidalgo tendeiro,
         que o pai sapateiro
         lhe fez o solar:
         Cônego ultramar
         por duas patacas
         ferrou ontem atacas
         e hoje se entona:
         forro minha cona
 
 

14     Verão outro Zote,
         a quem Satanás
         por culpas de atrás
         fará galeote:
         O tal sacerdote
         só prega a doutrina
         da lei culatrina,
         que ensina, e abona:
         forro minha cona
 
 

15     Verão um Guinéu
         moço assalvajado
         fidalgo estirado
         por quedas, que deu:
         O Góis lhe meteu
         sogro do seu jeito
         a torto, e direito
         nobreza sevona:
         forro minha cona
 
 

16     Verão um Gavacho
         com sede tamanha,
         que a palma se ganha
         ao maior borracho:
         Beca sem empacho
         que no mar caiu,
         e o mar lhe fugiu
         por ser borrachona:
         forro minha cona
 
 

17     Verão outrossim
         entregue ao diabo
         um esfola-rabo
         pobre colomim:
         Mau vilão, ruim,
         duas caras trás
         ambas muito más
         que tudo inficiona:
         forro minha cona
 
 

18     Verão borundangas
         que o mundo podia
         vender à Bahia
         três mil bugigangas:
         Figurões de mangas
         que não vi em meus dias
         nas tapeçarias
         de Rasa e Pamplona:
         forro minha cona.
 
 
 

DEFENDE O POETA POR SEGURO, NECESSARIO, E RECTO SEU

PRIMEYRO INTENTO SOBRE SATYRIZAR OS VICIOS.

 
 
 

Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
 
 

E bem que os decantei bastantemente,
canto segunda vez na mesma lira
o mesmo assunto em plectro diferente.
 
 

Já sinto, que me inflama, ou que me inspira
Talia, que Anjo é da minha guarda,
Dês que Apolo mandou, que me assistira.
 
 

Arda Baiona, e todo o mundo arda,
Que, a quem de profissão falta à verdade,
Nunca a Dominga das verdades tarda.
 
 

Nenhum tempo excetua a Cristandade
Ao pobre pegureiro do Parnaso
Para falar em sua liberdade.
 
 

A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
 
 

De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
 
 

Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
 
 

Isto faz a discreta fantesia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
 
 

O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, meu mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
 
 

E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
 
 

Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
 
 

Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
 
 

Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
 
 

A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
 
 

Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
 
 

Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
 
 

Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
 
 

Todos somos ruins, todos preversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
 
 

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
 
 
 

EM TEMPO QUE GOVERNAVA ESTA CIDADE DA BAHIA O MARQUEZ

DAS MINAS AJUIZA O POETA COM SUBTILEZA DE HOMEM SAGAZ, E

ENTENDIDO O FOGO SELVAGEM, QUE POR MEYO DA URBANIDADE SE

INTRODUZIO EM CERTA CASA.

 
 
 

1       Cansado de vos pregar
         cultíssimas profecias,
         quero das culteranias
         hoje o hábito enforcar:
         de que serve arrebentar,
         por quem de mim não tem mágoa?
         verdades direi como água,
         porque todos entendais
         os ladinos, e os boçais
         a Musa praguejadora.
         Entendeis-me agora?
 

2       O falar de intercadência
         entre silêncio, e palavra,
         crer, que a testa se vos abra,
         e encaixar-vos, que é prudência:
         alerta homens de Ciência,
         que quer o Xisgaravis,
         que aquilo, que vos não diz
         por lho impedir a rudeza,
         avalieis madureza,
         sendo ignorância traidora.
         Entendeis-me agora?
 
 

3       Se notais ao mentecapto
         a compra do Conselheiro,
         o que nos custa dinheiro,
         isso nos sai mais barato:
         e se da mesa do trato,
         de bolsa, ou da companhia
         virdes levar Senhoria
         mecânicos deputados;
         crede, que nos seus cruzados
         sangue esclarecido mora.
         Entendeis-me agora?
 
 

4       Se hoje vos fala de perna,
         quem ontem não pôde ter
         ramo, de quem descender
         mais que o da sua taverna:
         tende paciência interna,
         que foi sempre D. Dinheiro
         poderoso Cavalheiro,
         que com poderes iguais
         faz iguais aos desiguais,
         e Conde ao vilão cad'hora.
         Entendeis-me agora?
 
 

5       Se na comédia, ou sainete
         virdes, que um D. Fidalgote
         lhe dá no seu camarote
         a xícara de sorvete:
         havei dó do coitadete,
         pois numa xícara só
         seu dinheiro bebe em pó,
         que o Senhor (cousa é sabida)
         lhe dá a chupar a bebida,
         para chupá-la num'hora.
         Entendeis-me agora?
 
 

6       Não reputeis por favor,
         nem tomeis por maravilha
         vê-lo jogar a espadilha
         co Marquês, co grão Senhor:
         porque como é perdedor,
         e mofino adredemente,
         e faz um sangue excelente
         a qualquer dos ganhadores,
         qualquer daqueles Senhores
         por fidalgo igual o adora.
         Entendeis-me agora.
 
 
 

CONTEMPLANDO NAS COUSAS DO MUNDO DESDE O SEU RETIRO, LHE ATIRA

COM O SEU APAGE, COMO QUEM A NADO ESCAPOU DA TROMENTA.

 
 
 

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.
 
 

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
 
 

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.
 
 

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
 
 
 

TORNA O POETA A DAR OUTRA VOLTA AO MUNDO COM ESTA SEGUNDA CRISI.

 
 
 

1       Que ande o mundo mascarado
         jogando conosco o entrudo,
         e que cada qual sisudo
         ande atrás dele esgalgado!
         que nenhum desenganado
         este patifão conheça,
         e que lhe quebre a cabeça
         para ter dele vitória!
         Boa história.
 
 

2       Mas que alguns queiram viver
         vida tão bruta, e tão fera,
         como que se não houvera
         mais que nascer, e morrer:
         que estes mesmos queiram ser
         tão nobres, tão absolutos,
         como desbocados brutos
         correndo pela carreira!
         Boa asneira.
 
 

3       Que haja turcos belicosos
         filhos da perversidade,
         havendo na cristandade
         Monarcas tão poderosos:
         que não se juntem zelosos
         para prostrar seus furores,
         mandando-se embaixadores
         de eloqüência persuasória!
         Boa história.
 
 

4       Mas que haja com mais extremos
         entre cristãos batizados
         sacrílegos, renegados,
         ímpios, judeus, e blasfemos:
         que algum cristão (como vemos)
         dos tais seja muito amigo,
         tendo tão grande perigo
         de pagar-se-lhe a manqueira!
         Boa asneira.
 
 

5       Que tantas almas pereçam
         hoje entre gentios vários,
         por não haver Missionários,
         que em convertê-los mereçam:
         que muitos não se ofereçam
         para esta santa conquista,
         bem que o inferno o resista
         com sugestão dissuasória!
         Boa história.
 
 

6       Mas que muitos professores
         da lei católica, e santa
         se metam pela garganta
         dos infernos tragadores:
         que por uns tristes amores,
         ou por uns negros tostões
         vão para eternos tições
         lá na hora derradeira!
         Boa asneira.
 
 

7       Que muitos salvar-se esperem,
         os bens alheios devendo,
         e uma ocasião retendo,
         porque emendar-se não querem:
         e que jamais considerem,
         que deixar a ocasião
         é para uma confissão
         circunstância obrigatória:
         Boa história.
 
 

8       Mas que quando alguns resolvam
         confessar os seus delitos,
         que hajam tantos imperitos
         confessores, que o absolvam:
         que com eles se revolvam
         no estígio, que mereceram,
         porque estes tais absolveram
         sem disposição inteira:
         Boa asneira.
 
 

9       Que no estado secular,
         onde houve mais de mil Santos,
         haja hoje tantos, e tantos,
         que se não sabem salvar:
         que estes não queiram cuidar
         na celestial ventura,
         havendo uma pena dura,
         eterna, e cominatória!
         Boa história.
 
 

10     Mas que nas Religiões
         alguns Frades maus Letrados
         sejam de Deus reprovados
         pelas suas eleições:
         que andam com perturbações
         por amor das prelazias,
         e depois de breves dias
         se acham na estígia caldeira
         Boa asneira.
 
 

11     Que algum Frade, que se cobre
         na santa comunidade,
         no tempo, que é pobre frade,
         não queira ser frade pobre:
         que ao mesmo tempo lhe sobre
         o dinheiro equivalente
         para alcançar facilmente
         a valia impetratória!
         Boa história.
 
 

12     Mas que um Frade de mais fundo
         por causa de certos mandos
         se queira meter em bandos,
         qual se fora vagabundo:
         que podendo ir cá do mundo
         ao céu vestido, e calçado,
         vá descalço, e remendado
         para uma infernal Leoneira!
         Boa asneira.
 
 

13     Que haja pregador noviço,
         que estude alheios sermões,
         só para juntar dobrões,
         porque os ajunta por isso:
         que cuide muito remisso,
         que poderá bem pregar
         sem teologia estudar,
         ou sem saber a oratória!
         Boa história.
 
 

14     Mas que haja mais pregadores,
         que estudando resolutos,
         não tratem de colher frutos,
         porém só de escolher flores:
         que sendo estes tais doutores
         preguem conceitos galantes,
         bem como os representantes
         na comédia prazenteira?
         Boa asneira.
 
 

15     Que os rústicos montanheses
         não saibam nunca a doutrina,
         porque também nunca a ensina
         o Pároco a seus fregueses:
         que lhes diga muitas vezes
         patranhas, e histórias tantas,
         mas nunca as palavras santas,
         e a doutrina exortatória!
         Boa história.
 
 

16     Mas que Amariles mui vã
         saiba muito bem de cor,
         toda a cartilha de amor,
         não a doutrina cristã:
         que se vá pela manhã
         na quaresma à confissão,
         e por não sabê-la então
         vá para casa à carreira!
         Boa asneira.
 
 

17     Que o Juiz pelo respeito
         profira a sentença absorto,
         fazendo o direito torto,
         mas isto a torto, e direito:
         que cuide, que pode o feito
         no agravo, ou na apelação
         melhorar na Relação
         só pela conservatória!
         Boa história.
 
 

18     Mas que o Juiz da ciência
         por causa de alguns respeitos
         não faça exame nos feitos,
         por forrar o da consciência:
         que o tal com muita insolência
         por descuido, ou por preguiça
         não reforme esta injustiça
         da sentença lisonjeira!
         Boa asneira.
 
 

19     Que Juizes mentecaptos
         sabendo jurisprudência
         castiguem uma inocência
         como fez Pôncio Pilatos:
         que para certos contratos
         o réu, que a si se condena
         absolvam de culpa, e pena
         com uma interlocutória!
         Boa história.
 
 

20     Mas que outros com vozes mudas
         levados da vil cobiça
         vendam a mesma justiça,
         como a vendeu o mau Judas:
         que com razões tartamudas
         indo de mal em pior
         não dêem conta ao confessor
         da sentença trapaceira!
         Boa asneira.
 
 

21     Que o Letrado lisonjeiro
         venda, fazendo negaças
         em almoeda as trapaças,
         e por muito bom dinheiro:
         que diga, que é verdadeiro
         porque tem famosas partes
         pelas suas grandes artes,
         pela cota dilatória!
         Boa história.
 
 

22     Mas que o Ministro o suporte,
         porque isto na alçada cabe,
         ou pelo que ele só sabe,
         tantas dilações não corte:
         que primeiro chegue a morte,
         e o juízo universal,
         do que a sentença final
         de uma demanda ligeira!
         Boa asneira.
 
 

23     Que haja causas inda assim
         na Legacia piores,
         porque entre réus, e entre autores
         são causas, que não têm fim:
         que se conseguis o fim
         de vir em breve um rescrito,
         o tempo seja infinito,
         e eterna uma compulsória!
         Boa história.
 
 

24     Mas que alguns com tal porfia
         queiram com raivas internas,
         sendo a parte por eternas
         demandas na Legacia:
         que hajam muitos cada dia,
         que gastem seus benefícios
         simples nestes exercícios
         trepando uma, e outra ladeira!
         Boa asneira.
 
 

25    Que haja Escrivães que mal lêem
        Letra, que bem se soletra,
        e que fazendo má Letra,
        contudo escrevem mui bem:
        que a este dando o parabém
        as alvíssaras lhe peçam,
        e a estoutro logo despeçam
        com ficção consolatória!
        Boa história.
 
 

26    Mas que haja algum, que trabalha
        toda a vida sem proveito,
        e que logo faça um pleito
        sobre dá cá aquela palha:
        que queira em civil batalha
        perder a fazenda, e vida
        nas trapaças consumida,
        com quem lhe faz a moedeira!
        Boa asneira.
 
 

27    Que andam muitos em conjuro
        para cometerem vícios,
        roubando nos seus ofícios,
        e com cartas de seguro,
        que estes, dos quais eu murmuro,
        não vão todos a enforcar,
        só porque sabem roubar
        com sua astúcia notória!
        Boa história.
 
 

28    Mas que andem muitos espertos
        esganados como galgos,
        por parecerem fidalgos,
        sendo ladrões encobertos:
        que estando estes mesmos certos,
        que os conhecem muito bem,
        não se lhes dêem de ninguém,
        nem isto lhes dê canseira!
        Boa asneira.
 
 

29    Que haja médicos, que tratam
        só de jogos, e de amores,
        sendo como os caçadores,
        que vivem só, do que matam:
        que estes, que não se recatam,
        venham com pressa esquisita,
        vão-se, e está feita a visita
        depois da purga expulsória!
        Boa história.
 
 

30    Mas que outros, que põem à raça,
        e se prezam de estafermos,
        não o tomando aos enfermos,
        só tomem o pulso à casa:
        que haja enfermo, que se abrasa
        em febre, e dores mortais,
        e que se cure com tais,
        que só estudam na frasqueira!
        Boa asneira.
 
 

31    Que haja Poetas ocultos
        nas sombras da poesia,
        fugindo da luz do dia.
        e que estes se chamem cultos;
        que sendo loucos, e estultos,
        por natural tenebrosos
        queiram, que os chame lustrosos
        a fama celebratória!
        Boa história.
 
 

32    Mas que muitos os defendam
        pelos seus gênios bem raros
        chamando-os belos, preclaros,
        suposto que os não entendam:
        que os tais imitar pertendam
        a poesia de Angola,
        cuja catinga os consola,
        qual mandioca negreira!
        Boa asneira.
 
 

33    Que haja muitos pertendentes,
        só porque têm prendas boas
        nas arcas, não nas pessoas,
        que a todos fazem presentes:
        que consigam diligentes,
        quanto quer o seu intento,
        por lhes dar merecimento
        a carta condenatória!
        Boa história.
 
 

34    Mas que outros mil alentados,
        que andaram pelas campanhas
        fazendo muitas façanhas,
        andem tão esfrangalhados:
        que sendo uns pobres coitados
        queiram pertender também,
        não se lhes dando a ninguém,
        que andassem pela fronteira!
        Boa asneira.
 
 

35    Que um marido perdulário
        perca o dote da mulher,
        e depois de pouco ter,
        gaste mais do necessário:
        que se ponha temerário
        depois a gritar com ela,
        fazendo-lhe a remoela
        com a praga imprecatória!
        Boa história.
 
 

36    Mas que outro com tanto estudo
        ame a mulher, que lhe agrada,
        que o marido mande nada,
        mas que a mulher mande tudo:
        que se ponha mui sisudo
        em casa a lisonjeá-la,
        e que depois vá gabá-la
        a seus amigos na feira!
        Boa asneira.
 
 

37    Que um pai a seu filho ensine
        a ser vingativo, e vão,
        porém nunca a ser cristão,
        nem na cartilha o doutrine:
        que o tal Pai se determine
        a levá-lo por seu rogo
        rapaz à casa do jogo
        a pôr-se na pasmatória!
        Boa história.
 
 

38    Mas que outro mais esquisito,
        se o filho só andar ousa,
        o permita: é bela cousa!
        Sendo rapaz: é bonito!
        que o deixe de pequenito
        andar em más companhias
        para que ele em breves dias
        vá cair na ratoeira!
        Boa asneira.
 
 

39    Que o Pai pela descendência
        do filho, ou do seu aumento
        meta a filha num convento
        freira da conveniência:
        que não faça consciência,
        se a casá-la o persuade,
        de lhe forçar a vontade,
        e com ordem peremptória!
        Boa história.
 
 

40    Mas que o Pai, que filha tem
        única, a não vá casar,
        por se não desapossar,
        se dote lhe pede alguém:
        que faça com tal desdém,
        que a filha ande às furtadelas
        buscando pelas janelas
        alguém, que traz cabeleira!
        Boa asneira.
 
 

41    Que os Pais andem pelos cantos
        namorando de contino,
        e queiram com este ensino
        que os seus filhos sejam Santos:
        que eles então façam prantos,
        se os vêem mortos numa briga,
        vindo de casa da amiga,
        e da amante parlatória!
        Boa história.
 
 

42    Mas que haja Pais de tal sorte,
        que seu filho o quer roubar,
        o não deixem castigar
        para escarmento da Corte:
        que se o Ministro de porte
        o quer desterrar, então,
        o Pai chorando o perdão
        lhe solicite, e requeira!
        Boa asneira.
 
 

43    Que Mãe desde pequenina
        ensine a filha a ser vã,
        não a doutrina cristã,
        sendo cristã sem doutrina:
        que a costume de menina
        à moda, ao donaire, à gala,
        e lhe ensine por amá-la
        até cantiga amatória!
        Boa história.
 
 

44    Mas que outra Mãe sem cautela
        a filha crie com vício
        sem outro algum exercício
        mais, do que o pôr-se à janela:
        que queira, que uma donzela
        seja honesta, e recolhida,
        quando não tem outra vida
        mais do que ser janeleira!
        Boa asneira.
 
 

45    Que alguns queiram Senhoria,
        quando aos tais (como se vê)
        o tratá-los de mercê
        fora muita cortesia:
        que ande pois a fidalguia
        vendida assim por dinheiro,
        só porque há nisso vanglória!
        Boa história.
 
 

46    Mas que outros tendo tostões
        pelo jogo, ou pela dama
        arrastados pela lama
        andam como uns pedinchões:
        que gastassem seus dobrões,
        porque quiseram jogar,
        e só para namorar
        com a patifa terceira!
        Boa asneira.
 
 

47    Que alguns tanto por seu mal
        vistam (por não ser comuns)
        de altos, e ricos tissuns,
        destruindo o cabedal:
        que com porfia fatal
        se mostram nisso empenhados,
        sendo a noite os seus guisados
        azeitonas, e chicória!
        Boa história.
 
 

48    Mas que outros mil à porfia
        por toda a vida o dinheiro
        ajuntem, que o seu herdeiro
        há de gastar num só dia:
        que andem com melancolia
        sem comer, e sem cear
        para poder ajuntar
        todos cheios de lazeira!
        Boa asneira.
 
 

49    Que haja muitos ateístas,
        que pelos costumes seus
        não crêem, no que disse Deus
        pelos quatro Evangelistas:
        que só vivam Dogmatistas,
        cuidando por seu prazer,
        que há só nascer, e morrer,
        não crendo no inferno, e glória!
        Boa história.
 
 

50     Mas que outros (como se vê)
         sejam com hipocrisia
         só cristãos por cortesia,
         ou fiéis de meia-fé:
         que inda que febre lhes dê,
         não tratem da confissão,
         cuidando, que escaparão
         com a amiga à cabeceira!
         Boa asneira.
 
 

51     Que alguns fantásticos vãos,
         aos quais o vício consome,
         sendo só cristãos no nome,
         queiram nome de cristãos:
         que aos céus levantando as mãos
         esperam com muita fé,
         que Deus os salve, sem que
         obra tenham meritória!
         Boa história.
 
 

52     Mas que hipócritas sandeus
         andem rezando, e no cabo
         a todos leve o diabo
         pelo caminho de Deus:
         que pelos rosários seus
        queiram ser homens de conta,
        sem cuidar na estreita, e pronta,
        que hão de dar da vida inteira!
        Boa asneira.
 
 

53    Que haja certas mercancias
        não de cousas temporais
        mas de outras espirituais,
        que se chamam simonias:
        que haja, quem todos os dias
        com modo tão peregrino
        seja Ladrão ao divino
        com tão falsa narratória!
        Boa história.
 
 

54    Mas que o rico prebendado
        que postilou nas escolas,
        não pague as suas esmolas
        ao pobre necessitado:
        que por amor do Cunhado,
        ou por causa dos Sobrinhos
        venha a cair de focinhos
        na sempiterna esterqueira!
        Boa asneira.
 
 

55    Que o riso despreze o pobre,
        só porque tem mais vinténs,
        sendo o pobre inda sem bens
        talvez mais honrado, e nobre:
        que por ter dois réis de cobre,
        se finja, que vem dos Godos,
        quando conhecemos todos,
        que é de estirpe pescatória!
        Boa história.
 
 

56    Mas que o pobre, que não tem,
        que comer, ou que gastar,
        nem tem sangue, nem solar,
        seja soberbo também:
        que não tenha um só vintém,
        e se inche como pirum,
        conhecendo cada um,
        que fora a Mãe taverneira!
        Boa asneira.
 
 

57    Que alguns tanto a gastar venham
        na vida de toda a sorte,
        que depois chegando a morte,
        com que enterrar-se não tenham:
        com estes tais, que assim se empenham
        em todo o gosto, e prazer,
        não cuidem, que hão de morrer,
        nem tenham disso memória!
        Boa história.
 
 

58    Mas que outros com muita lida
        edifiquem mausoléus,
        mas não morada nos céus,
        vãos na morte, e vãos na vida:
        que a soberba sem medida
        fique em pedras estampada,
        e a pobre da alma coitada
        que perneie na fogueira!
        Boa asneira.
 
 

59    Que aqueles, que não têm renda,
        e usam porém de tramóias,
        possuam telas, e jóias,
        como o que tem a comenda:
        que com estes não se entenda,
        inda que estejam culpados,
        mas que sejam celebrados
        na lisonja laudatória!
        Boa história.
 
 

60    Mas que outros com muitos bens
        andem (não sei como o diga)
        com a sela na barriga
        sem ter um par de vinténs:
        que padecendo vaivéns
        gastem tudo como tolos,
        e em doces, e bolinholos
        despejem sua algibeira!
        Boa asneira.
 
 

61    Que os lisonjeiros sem leis
        nos palácios muito prontos
        aos Reis se vão com mil contos,
        por ter mil contos de réis:
        que sendo pouco fiéis
        tenham glória, e tenham graça
        com tão verdadeira traça,
        e mentira adulatória!
        Boa história.
 
 

62    Mas que o pobre jovial
        chocarreiro de vis traças
        queira com fingidas graças
        entrar na graça Real:
        que quando ele nada val,
        entre assim no valimento,
        para o seu requerimento
        com a gracinha grosseira!
        Boa asneira.
 
 

63    Que haja ingratos descuidados,
        os quais nunca as graças dão
        do benefício, ou pensão,
        sendo uns beneficiados:
        que estes andem retirados,
        de quem lhes faz tanto bem,
        porque as graças lhe não dêem,
        que é lei remuneratória!
        Boa história.
 
 

64    Mas que outros muito piores
        (quando tal lhes não merecem)
        finjam, que eles não conhecem
        os seus mesmos benfeitores:
        que tendo alguns acredores
        queiram livrar do perigo
        pelo benfeitor antigo
        com a súplica embusteira!
        Boa asneira.
 
 

65    Que haja muitos, que se pintam
        de verdadeira piedade,
        os quais falando verdade,
        nunca falam, que não mintam:
        que estes mesmos não consintam,
        que os enganem, mas primeiros
        se intitulam verdadeiros
        com mentira defensória!
        Boa história.
 
 

66    Mas que tenham fatal ira,
        se os apanham, tendo pronta
        a verdade por afronta,
        e por crédito a mentira:
        que com raiva, que delira,
        façam na razão teimosa
        a verdade mentirosa,
        e a mentira verdadeira!
        Boa asneira.
 
 

67    Que juradores parleiros
        hajam, que sem medo algum
        pela manhã em jejum
        comam diabos inteiros:
        que eles sejam os primeiros
        (bem que a verdade não digam)
        que o bom crédito consigam
        para toda a rogatória!
        Boa história.
 
 

68    Mas que haja algum, que imprudente
        dê credito a seus clamores,
        vendo, que são juradores,
        pois quem mais jura mais mente:
        que logo tão facilmente
        se creia com tal loucura,
        o que dizem, sendo a jura
        da mentira pregoeira!
        Boa asneira.
 
 

69    Que haja muitos, que murmurem
        daqueles, que estão ausentes,
        e os que ali se acham presentes,
        que calados os aturem:
        que advertidos não procurem
        mudar de conversação
        fugindo à murmuração
        de uma língua infamatória!
        Boa história.
 
 

70    Mas que outros mil sem receios
        não vejam por ter antolhos
        a grande trave em seus olhos,
        vendo a palha nos alheios:
        que estando estes próprios cheios
        de lepra, com que se tingem,
        olhem para a alheia impingem,
        tendo tão grande coceira!
        Boa asneira.
 
 

71    Que versistas a milhares
        queiram só por seu regalo
        andar no alado cavalo,
        devendo ser alveitares:
        que intentem por singulares
        todo o aplauso, que mais campa,
        e depois saiam na estampa
        com uma destampatória!
        Boa história.
 
 

72    Mas que estes de tão má veia,
        quando a ignorância lhes sobra,
        saindo mal da sua obra,
        se metam em obra alheia:
        que quando essoutra recreia,
        por inveja a satirizem,
        e que todo o mundo avisem
        da sátira frioleira!
        Boa asneira.
 
 

73    Que haja mil de escornicoques,
        que com satíricos modos
        zingando estejam de todos:
        e que não temam mil coques:
        que falando com remoques,
        eles não queiram ser tidos
        por toleirões, e atrevidos,
        tendo uma língua irrisória!
        Boa história.
 
 

74    Mas que outros muitos Orates
        da venerável igreja
        façam casa de cerveja
        com risos, e disparates:
        que pareçam bonifrates,
        as cabeças meneando,
        e acenem de quando em quando
        à Dama, que está fronteira!
        Boa asneira.
 
 

75    Que alguém junte cabedais
        para testar, o que em breve
        diga: o diabo te leve,
        porque não deixastes mais:
        e que, a quem com razões tais
        ao diabo os encomenda
        deixe este a sua fazenda
        a principal, e acessória!
        Boa história.
 
 

76    Mas que outro rico avarento
        (bem que ouro, e prata lhe sobre)
        não saiba dar nada ao pobre
        com moedas cento a cento:
        que deixe em seu testamento
        tudo ao mais rico vizinho,
        ou quando muito ao Sobrinho,
        para andar numa liteira!
        Boa asneira.
 
 

77    Que haja muitos, que às centenas
        entre os amigos, e sócios
        façam bem os seus negócios,
        cometendo mil onzenas:
        que conhecendo-se as penas,
        que pelo direito têm,
        não os demande ninguém
        cuma carta citatória!
        Boa história.
 
 

78    Mas que o outro em confiança
        diga, que vende o seu trigo
        mais barato a seu amigo,
        metendo-lhe então a lança:
        que o tal lhe faça a fiança
        por ser amigo leal,
        roubando-lhe o cabedal
        essa amizade onzeneira!
        Boa asneira.
 
 

79     Que haja, quem faltando às Leis
        seja traidor por um rogo,
        não se lhe dando no jogo
        nem de Roques, nem de Reis:
        que tenha ambições cruéis
        sabendo, que inda que cresça,
        não levantará cabeça
        pela lei impetratória!
        Boa história.
 
 

80    Mas que inda que se atropele,
        e de tal se não desvie,
        que haja, quem dele se fie,
        e quem se troça por ele:
        que não tema a sua pele
        vendo, que lha surraram
        só pela sua ambição
        tão fatal, e interesseira!
        Boa asneira.
 
 

81    Que haja muitos pandilheiros,
        os quais às mil maravilhas
        saibam fazer as pandilhas,
        que em Castela são fulheiros:
        que só por interesseiros
        sejam ladrões mui honrados,
        mas nunca são enforcados,
        porque isso é graça ilusória!
        Boa história.
 
 

82    Mas que outros sabendo bem
        que há no jogo esta destreza,
        só por uma sutileza
        entreguem tudo, o que têm:
        que o cabedal todo dêem
        ao tal, que nesta conquista
        os está roubando a vista
        despacio, mais à ligeira!
        Boa asneira.
 
 

83    Que andem muitos namorados
        qual ave de rama em rama
        atrás de uma, e outra Dama
        morrendo por seus pecados:
        que por ter estes cuidados
        andem toda a noite escura
         só por dizer com ternura
        à Dama a jaculatória!
        Boa história.
 
 

84    Mas que alguém pague às espias
        para ter Freiras devotas,
        e depois de mil derrotas
        ande pelas portarias:
        que ande este todos os dias
        com cargas, e sem carreto,
        e tendo-se por discreto
        seja o burrinho da feira!
        Boa asneira.
 
 

85    Que os adúlteros adorem
        a alheia mulher, que vêem,
        e não queiram, que também
        outros a sua namorem:
        que então neste caso implorem
        à Justiça, ou à vingança,
        e não queiram sem tardança
        outra ação acusatória!
        Boa história.
 
 

86    Mas que uma mulher casada,
        sendo o Marido um corisco,
        pondo-se a tamanho risco
        seja louca enamorada:
        que se acaso alguém lhe agrada,
        com marido turbulento
        busque o seu divertimento
        como uma mulher solteira!
        Boa asneira.
 
 

87    Que ande o moço em mau estado
        podendo nos anos seus
        ser desposado com Deus,
        e não co demo amigado:
        que não tenha outro cuidado,
        mais que em viver absoluto,
        tratando só como bruto
        desta vida transitória!
        Boa história.
 
 

88    Mas que o velho, que renova
        os seus vícios namorando
        vá falar à Dama, quando
        anda cos pés para a cova:
        que este mesmo com corcova
        queira ser galã narciso
        motivando a gente a riso,
        cacundo em grande maneira!
        Boa asneira.
 
 

89    Que haja muitos medianeiros
        do mal, que chamam francês
        os quais em bom português
        dos pecados são terceiros:
        que estes muito lambareiros
        tenham com todos caída,
        e levem tão boa vida,
        sendo tão criminatória!
        Boa história.
 
 

90    Mas que estes pobres tolinhos,
        de que tratos há do mundo,
        caiam no inferno profundo
        pelas culpas dos vizinhos:
        que por tão feios caminhos
        sejam solicitadores,
        e se façam Lavradores
        de uma infernal sementeira!
        Boa asneira.
 
 

91    Que os valentões arrojados
        andem feitos tranca-ruas
        com suas espadas nuas
        comendo a gente a bocados:
        que os Ministros alentados
        se os prendam, quais delinqüentes,
        digam, que estão inocentes
        na sentença executória!
        Boa história.
 
 

92    Mas que outros andem de noite,
        morando perto o Juiz,
        roubando, como se diz,
        dando em todos muito açoite:
        e não haja, quem se afoite
        com quadrilhas agarrá-los,
        para um algoz cavalgá-los
        com capuz, e com coleira!
        Boa asneira.
 
 

93    Que alguns, bem que os não encanta
        a música celestial,
        gastem todo o cabedal
        em bons passos de garganta:
        que os tais com gula, que espanta,
        se o mundo fora guisado
        o comeram de um bocado,
        qual pequena pepitória!
        Boa história.
 
 

94     Mas que haja, quem facilmente
        dinheiro fie dos tais,
        que vai para o vós reais
        logo todo incontinente:
        que o credor cuide contente,
        que bem empregado está,
        estando o dinheiro já
        em casa da confeiteira!
        Boa asneira.
 
 

95    Que andem muitos à porfia,
        que merecem muito açoite,
        fazendo do dia noite,
        da noite fazendo dia:
        que durmam com demasia
        té o dia anoitecer,
        querendo assim bem viver,
        mas com vida implicatória!
        Boa história.
 
 

96    Mas que outros com muito espanto
        trabalhem sempre à porfia,
        isto todo o santo dia,
        inda sendo o dia Santo:
        que tenham trabalho tanto
        para poder ajuntar,
        não tendo para testar
        nem herdeiro, nem herdeira!
        Boa asneira.
 
 

97    Que haja alguns, que se consomem
        inda com vício mais feio,
        que por não comer o alheio
        logo de inveja se comem:
        que sua ambição não domem,
        e que dos outros o aumento
        aos tais sirva de tormento
        com pena meditatória!
        Boa história.
 
 

98    Mas que outros, que se desfazem,
        porque não têm sendo nobres,
        façam muito por ser pobres,
        isto porque nada fazem:
        que com fome estes se abrasem,
        que tanto mal ocasiona,
        sendo a preguiça potrona
        da pobre da companheira!
        Boa asneira.
 
 

99    Que alguém que aqui se consome
        com a sátira abundante,
        diga, que está mui picante,
        mas quem se queima, alhos come:
        que este por si mesmo a tome,
        quando eu falando bem claro,
        a ninguém hoje declaro
        nesta carta monitória!
        Boa história.
 
 

100   Mas que outros por vários modos
        satirizem muito bem,
        e sem monir a ninguém
        queiram declarar a todos
        que estes tais com mil apodos
        assim queiram ganhar fama,
        quando a dos outros se infama,
        levantada tal poeira!
        Boa asneira.
 
 

101  Que haja sem livros Letrado,
        homem, que é pobre, com teima,
        poeta, sem muita fleima,
        e sem muleta aleijado:
        que haja sem funda quebrado,
        estudante sem estudo,
        cavalheiro sem escudo,
        e mestre sem palmatória!
        Boa história.
 
 

102  Mas que haja nos fracos ira,
        e nos que são pobres gula,
        que haja médico sem mula,
        e fidalgo com mentira:
        que haja espingarda sem mira,
        sem tesoura cirurgião,
        com partidos matassão,
        e sem contas merceeira!
        Boa asneira.
 
 

103  E que eu também queira enfim
        no poético exercício,
        que entre outros do mesmo ofício
        algum diga bem a mim:
        que não tema algum malsim,
        que fiscalize os meus versos,
        e com apodos diversos
        diga, que têm muita escória!
        Boa história.
 
 

104  Mas que eu mesmo furibundo
        nisto, que hoje aqui pertendo,
        quando a mim me não entendo,
        intente emendar o mundo:
        que não tendo muito fundo,
        para que possa falar,
        quanto mais para emendar,
        fundar tais acentos queira!
        Boa asneira.
 
 

105  Que os consoantes se acabem,
        tendo eu muito, que escrever,
        e de outros mais que dizer,
        para que nenhuns se gabem:
        que as cousas, que aqui não cabem,
        eu as haja de calar,
        porque as não pode explicar
        minha Musa exortatória!
        Boa história.
 
 

106  Mas que eu fizesse hoje estudo
        para cousas importantes,
        por estéreis consoantes,
        que não podem dizer tudo:
        que algum diga carrancudo,
        quando escrevo para todos,
        que não falo em cultos modos,
        mas em frase corriqueira!
        Boa asneira.
 
 

 

 

 

 

 

  

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