LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

A cidade e seus pícaros

Os seus doces empregos

Vio huma manhãa de natal as tres irmãas, a cujas vistas fez as seguintes décimas.

Ao mesmo assumpto.

Ao mesmo assumpto

Pondera agora com mais attenção a formosura de d. angela.

Retrata o poeta as perfeições de sua senhora a imitação de outro soneto que fez Felippe IV à huma dama somente com traduzi-lo na lingua portugueza

No dia em que fazia annos esta divina belleza; este portento de formosura dona angela, por quem o poeta se considerava amorosamente perdido, e quasi sem remedio pela grande impossibilidade de poder lograr seus amores: celebra obsequiosa, e primorosamente suas florentes primaveras com esta lindissima canção.

Rompe o poeta com a primeyra impaciencia querendo declarar-se e temendo perder por ouzado.

Segunda impaciencia do poeta.

Falla o poeta com sua esperança.

Ausente o poeta daquella casa, falleceo D. Thereza hua das irmãs, e com esta noticia se achou o poeta com Vasco de Souza a pezames, onde fez o presente soneto.

Epitafio à mesma belleza sepultada.

Lizongea o poeta a Vasco de Souza fazendo em seu nome esta lacrimimosa nenia.

Lizongea os sentimentos de Dona Victoria com este soneto feyto em seu nome.

Lizongea o sentimento de Francisco Moniz de Souza seu irmão fazendo em seu nome este soneto.

Pertende o poeta consolar o excessivo sentimento de Vasco de Souza com este soneto

A vista do excesso de Vasco de Souza pondera o poeta,que o verdadeyro amor, ainda tirada a causa não cessa nos effeytos, contra a regra de aristoteles.

Linzongea finalmente o poeta com estas moralidades tristes de  huma vida florecente pelas frias voces daquella sepultada belleza sua formosas irmãas, avivandolhe os motivos da dor.

Desta vez se deixou o poeta esquecer naquella casa, esperando occasião de declarar se, e sempre se acobardou a vista da causa, sempre em lutas com o amor, e respeyto.

Admiravel expressão que faz o poeta de seu atiencioso silencio.

Terceira impaciencia dos desfavores de sua senhora.

Encarece o poeta a graça e a bizarria com que sua senhora desembarcou a seus olhos e foy levada por quatro escravos.

Outra vez o assaltão novos pensamentos de declarar-se, e temer.

A vista de hum penhasco que vertendo frigidissimas aguas lhe chamão no caippe a fonte do paraizo, imagina agora o poeta menos toleravel a sua dissimulação.

Com o exemplo do lacrimoso penhasco entra a suspirar, faz pausa, e resolve ultimamente a proseguir, resgatando o silencio a nobreza da causa.

Em contraposição do que resolveo, se entrega o poeta novamente ao silencio, respeytando, a que os suspiros posto que consolão, não allivião por menos nobres.

Porfia o poeta em louvar seu necessario siiencio, como quem faz virtude da necessidade.

Pertende agora persuadir a hum ribeyrinho a que não corra,   temendo, que se perca: que he muy proprio de hum louco enamorado querer que todos sigam o seu gapricho. e resolve a cobiçarlhe a liberdade.

Solitario em seu mesmo quarto a vista da luz do candieyro porfia o poeta ensamentear exemplos de seu amor na barboleta.

Ratifica sua fidalga resolução tirando dentre salamandra e barboleta o mais seguro documento para bem amar.

Ao rio de Caippe recorre queyxoso o poeta de que sua senhora admitte por esposo outro sujeito.

Imagem singular de sua desesperada payxao, vendo que sua senhora sem embargo de receberlhes seus amorosos divertimentos, aceytava  em casamento hum sugeyto muyto da vontadede de seus pays: mas nem estas, nem outras obras ousava elle a confiar mais que do seu baul.

Chora o poeta a ultima resolução de seu idolatrado impossivel tam merecedora destes delicados versos.

Chora o poeta de huma vez perdidas estas esperanças.

Vagava o poeta por aquelles retiros filosofando em sua desdita sem poder desapegar as harpias de seu justo sentimento.

Ao pé daquelle penhasco lacrimoso que ja dicemos pertende moderar seu sentimento, e resolve, que a soledade ó não alivia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A CIDADE E SEUS PÍCAROS

 

Quando escrevo para todos

que não falo em cultos modos,

mas em frase corriqueira

 

Os doutos estão nos cantos

os ignorantes na Praça

 

Eu não me quero emendar,

pois faço versos em rimas,

e às unhadas os sujeito

de quem os corta, e belisca.

 

 

 

 

OS SEUS DOCES EMPREGOS

 

1 - ÂNGELA

 

Pertende o Poeta casar-se com esta Senhora, e por se achar alcançado em annos, e abatido em bens, Introduzio amizade com seo Irmão o Capitão Francisco Moniz de Souza fazendo especial menção delle na festa das virgens e depois com hum soneto, e varias obras pertendendo assim introduzir-se naquella casa. Posto com effeyto nella, vio huma manhãa de Natal as tres Irmãas, a cuyas vistas fez as seguintes décimas

 

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

que digo eu? este mundo inteiro

namorei eu tão primeiro,

que nisto de namorar

podeis vós comigo estar

a soldada de Escudeiro.

 

são feias, mas são mulheres

 

 

 

 

VIO HUMA MANHÃA DE NATAL AS TRES IRMÃAS, A CUJAS VISTAS FEZ AS SEGUINTES DÉCIMAS.

 

 

1    Numa manhã tão serena

      como entre tanto arrebol

      pode caber tanto sol

      em esfera tão pequena?

      quem aos pasmos me condena

      da dúvida há de tirar-me,

      e há de mais declarar-me,

      como pode ser ao certo

      estar eu hoje tão perto

      de três sóis, e não queimar-me.

 

 

2    Onde eu vi duas Auroras

      com tão claros arrebóis,

      que muito visse dois sóis

      nos raios de três Senhoras:

      mas se as matutinas horas,

      que Deus para aurora fez,

      tinham passado esta vez,

      como pode ser, que ali

      duas auroras eu vi,

      e os sóis eram mais de três?

 

 

 3   Se lhes chamo estrelas belas,

      mais cresce a dificuldade,

      pois perante a majestade

      do sol não luzem estrelas:

      seguem-se-me outras seqüelas,

      que dão mais força à questão,

      com que eu nesta ocasião

      peco à Luz, que me conquista,

      que ou me desengane a vista,

      ou me tire a confusão.

 

 

4    Ou eu sou cego em verdade

      e a luz dos olhos perdi,

      ou tem a luz, que ali vi,

      mais questão, que a claridade:

      cego de natividade

      me pode o mundo chamar,

      pois quando vim visitar

      a Deus em seu nascimento,

      me aconteceu num momento,

      vendo a três luzes, cegar.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO

 

 

Debuxo singular, bela pintura,

Adonde a Arte hoje imita a Natureza,

A quem emprestou cores a Beleza,

A quem infundiu alma a Formosura.

 

 

Esfera breve: aonde por ventura

O Amor, com assombro, e com fineza

Reduz incompreensível gentileza,

E em pouca sombra, muita luz apura.

 

 

Que encanto é este tal, que equivocada

Deixa toda a atenção mais advertida

Nessa cópia à Beleza consagrada?

 

 

Pois ou bem sem engano, ou bem fingida

No rigor da verdade estás pintada,

No rigor da aparência estás com vida.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO

 

 

Vejo-me entre as incertezas

de três Irmãs, três Senhoras,

se não três sóis, três auroras,

 três flores, ou três belezas:

para sóis têm mais lindezas

que aurora mais resplandor,

muita graça para flor,

e por final conclusão

três enigmas do Amor são,

mais que as três cidras do Amor.

 

 

 

 

PONDERA AGORA COM MAIS ATTENÇÃO A FORMOSURA DE D. ANGELA.

 

 

Não vi em minha vida a formosura,

Ouvia falar nela cada dia,

E ouvida me incitava, e me movia

A querer ver tão bela arquitetura.

 

 

Ontem a vi por minha desventura

Na cara, no bom ar, na galhardia

De uma Mulher, que em Anjo se mentia,

De um Sol, que se trajava em criatura.

 

 

Me matem (disse então vendo abrasar-me)

Se esta a cousa não é, que encarecer-me.

Sabia o mundo, e tanto exagerar-me.

 

 

Olhos meus (disse então por defender-me)

Se a beleza hei de ver para matar-me,

Antes, olhos, cegueis, do que eu perder-me.

 

 

 

 

RETRATA O POETA AS PERFEIÇÕES DE SUA SENHORA A IMITAÇÃO DE OUTRO SONETO QUE FEZ FELIPPE IV À HUMA DAMA SOMENTE COM TRADUZI-LO NA LINGUA PORTUGUEZA

 

 

Se há de ver-vos, quem há de retratar-vos,

E é forçoso cegar, quem chega a ver-vos,

Se agravar meus olhos, e ofender-vos,

Não há de ser possível copiar-vos.

 

 

Com neve, e rosas quis assemelhar-vos,

Mas fora honrar as flores, e abater-vos:

Dois zéfiros por olhos quis fazer-vos,

Mas quando sonham eles de imitar-vos?

 

 

Vendo, que a impossíveis me aparelho,

Desconfiei da minha tinta imprópria,

E a obra encomendei a vosso espelho.

 

 

Porque nele com Luz, e cor mais própria

Sereis (se não me engana o meu conselho)

Pintor, Pintura, Original, e Cópia.

 

 

 

 

NO DIA EM QUE FAZIA ANNOS ESTA DIVINA BELLEZA; ESTE PORTENTO DE FORMOSURA DONA ANGELA, POR QUEM O POETA SE CONSIDERAVA AMOROSAMENTE PERDIDO, E QUASI SEM REMEDIO PELA GRANDE IMPOSSIBILIDADE DE PODER LOGRAR SEUS AMORES: CELEBRA OBSEQUIOSA, E PRIMOROSAMENTE SUAS FLORENTES PRIMAVERAS COM ESTA LINDISSIMA CANÇÃO.

 

 

1    Pois os prados, as aves, as flores

      ensinam amores,

      carinhos, e afetos:

      venham correndo

      aos anos felizes,

      que hoje festejo:

      Porque aplausos de amor, e fortuna

      celebrem atentos

      as aves canoras

      as flores fragrantes

      e os prados amenos.

 

 

 2   Pois os dias, as horas, os anos

      alegres, e ufanos

      dilatam as eras;

      Venham depressa

      aos anos felizes,

      que Amor festeja.

      Porque aplausos de amor, e fortuna

      celebrem deveras

      os anos fecundos,

      os dias alegres,

      as horas serenas.

 

 

 3   Pois o Céu, os Planetas, e Estrelas

      com Luzes tão belas

      auspiciam as vidas,

      venham luzidas

      aos anos felizes

      que Amor publica.

      Porque aplausos de amor, e fortuna

      celebrem um dia

      a esfera imóvel,

      os astros errantes,

      e as estrelas fixas.

 

 

 4   Pois o fogo, água, terra, e os ventos

      são quatro elementos,

      que alentam a idade,

      venham achar-se

      aos anos felizes

      que hoje se aplaudem.

      Porque aplausos de amor, e fortuna

      celebrem constantes

      a terra florida,

      o fogo abrasado,

      o mar furioso,

      e as auras suaves.

 

 

 

 

ROMPE O POETA COM A PRIMEYRA IMPACIENCIA QUERENDO DECLARAR-SE E TEMENDO PERDER POR OUZADO.

 

 

Anjo no nome, Angélica na cara,

Isso é ser flor, e Anjo juntamente,

Ser Angélica flor, e Anjo florente,

Em quem, senão em vós se uniformara?

 

 

Quem veria uma flor, que a não cortara

De verde pé, de rama florescente?

E quem um Anjo vira tão luzente,

Que por seu Deus, o não idolatrara?

 

 

Se como Anjo sois dos meus altares,

Fôreis o meu custódio, e minha guarda

Livrara eu de diabólicos azares.

 

 

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,

Posto que os Anjos nunca dão pesares,

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

 

 

 

 

SEGUNDA IMPACIENCIA DO POETA.

 

 

Cresce o desejo, falta o sofrimento,

Sofrendo morro, morro desejando,

Por uma, e outra parte estou penando

Sem poder dar alívio a meu tormento.

 

 

Se quero declarar meu pensamento,

Está-me um gesto grave acobardando,

E tenho por melhor morrer calando,

Que fiar-me de um néscio atrevimento.

 

 

Quem pertende alcançar, espera, e cala

Porque quem temerário se abalança,

Muitas vezes o amor o desiguala.

 

 

Pois se aquele, que espera sempre alcança,

Quero ter por melhor morrer sem fala,

Que falando, peder toda esperança.

 

 

 

 

FALLA O POETA COM SUA ESPERANÇA.

 

 

Não te vás, esperança presumida,

A remontar a tão sublime esfera,

Que são as dilações dessa quimera

Remora para o passo desta vida.

 

 

Num desengano acaba reduzida

A larga propensão, do que se espera,

E se na vida o adquirir te altera,

Para penar na morte te convida.

 

 

Mas voa, inda que breve te discorres,

Pois se adoro um desdém, que é teu motivo,

Quando te precipitas, me discorres.

 

 

Que ne obriga meu fado mais esquivo,

Que se eu vivo da causa, de que morres,

Que morras tu da causa, de que vivo.

 

 

 

 

AUSENTE O POETA DAQUELLA CASA, FALLECEO D. THEREZA HUA DAS IRMÃS, E COM ESTA NOTICIA SE ACHOU O POETA COM VASCO DE SOUZA A PEZAMES, ONDE FEZ O PRESENTE SONETO.

 

 

Astro do prado, Estrela nacarada

Te viu nascer nas margens do Caípe

Apolo, e todo o coro de Aganipe,

Que hoje te chora rosa sepultada.

 

 

Por rainha das flores aclamada

Quis o prado, que o certo participe

Vida de flor, adonde se antecipe

Aos anos a gadanha coroada.

 

 

Morrer de flor é morte de formosa,

E sem junções de flor nasceras peca,

Que a pensão de acabar te fez pomposa.

 

 

Não peca em fama, quem na morte peca,

Nácar nasceste, e eras fresca rosa:

O vento te murchou, e és rosa seca.

 

 

 

 

EPITAFIO À MESMA BELLEZA SEPULTADA.

 

 

Vemos a luz (ó caminhante espera)

De todas, quantas brilham, mais pomposa,

Vemos a mais florida Primavera,

Vemos a madrugada mais formosa:

Vemos a gala da luzente esfera,

Vemos a flor das flores mais lustrosa

Em terra, em pó, em cinza reduzida:

Quem te teme, ou te estima, ó morte, olvida.

 

 

 

 

LIZONGEA O POETA A VASCO DE SOUZA FAZENDO EM SEU NOME ESTA LACRIMIMOSA NENIA.

 

 

Morreste, Ninfa bela,

na florescente idade:

nasceste para flor,

como flor acabaste.

 

 

Viu-te a Alva no berço,

a Véspora no jaspe,

mimo foste da Aurora,

a lástima da tarde.

 

 

O nácar, e os alvores

da tua mocidade

foram, se não mantilhas,

mortalha a teus donaires.

 

 

Oh nunca flor nasceras,

Se imitando-as tão frágil,

no âmbar de tuas folhas

te ungiste, e te enterraste.

 

 

Morreste, e logo Amor

quebrou arco, e carcases;

que muito se lhe faltas,

que logo se desarme?

 

 

Ninguém há neste monte,

ninguém naquele vale,

o cortesão discreto,

o pastor ignorante:

 

 

Que teu fim não lamente,

dando aos quietos ares

já fúnebres endechas,

já trágicos romances.

 

 

O eco, que responde

a qualquer voz do vale,

já agora só repete

meus suspiros constantes.

 

 

A árvore mais forte,

que gemia aos combates

do vento, que a meneia

ou do raio, que a parte,

 

 

Hoje geme, hoje chora

com lamento mais grave

forças da tua estrela

mais que a força dos ares.

 

 

Os Ciprestes já negam

às aves hospedagem,

porque gemendo tristes,

andarn voando graves.

 

 

Tudo enfim se trocou,

montes, penhas, e vales,

o penedo insensível,

o tronco vegetável.

 

 

Só eu constante, e firme

choro o teu duro transe,

o mesmo triste sernpre

por toda a eternidade.

 

 

Ó alma generosa,

a quem o Céu triunfante

usurpou a meus olhos

para ser lá deidade.

 

 

Aqui onde o Caípe

já te erigiu altares

por Deusa destes montes,

e por flor destes vales:

 

 

Agrário o teu Pastor

não te forma de jaspes

sepulcro a tuas cinzas

túmulo a teu cadáver.

 

 

Mas em lágrimas tristes,

e suspiros constantes

de um mar tira dois rios,

de um rio faz dois mares.

 

 

 

 

LIZONGEA OS SENTIMENTOS DE DONA VICTORIA COM ESTE SONETO FEYTO EM SEU NOME.

 

Alma ditosa, que na empírea corte

Pisando estrelas vais de sol vestida,

Alegres com te ver fomos na vida,

Tristes com te perder somos na morte.

 

 

Rosa encarnada, que por dura sorte

Sem tempo do rosal foste colhida,

Inda que melhoraste na partida,

Não sofre, quem te amou, pena tão forte.

 

 

Não sei, como tão cedo te partiste

Da triste Mãe, que tanto contentaste,

Pois partindo-te, a alma me partiste.

 

 

Oh que cruel comigo te mostraste!

Pois quando a maior glória te subiste,

Então na maior pena me deixaste.

 

 

 

 

LIZONGEA O SENTIMENTO DE FRANCISCO MONIZ DE SOUZA SEU IRMÃO FAZENDO EM SEU NOME ESTE SONETO.

 

Flor em botão nascida, e já cortada,

Tiranamente murcha em flor nascida,

Que nos primeiros átomos da vida,

Quando apenas sois nada, não sois nada.

 

Quem vos despiu a púrpura corada?

Como assim da beleza estais despida?

Mas ah Parca cruel! Morte atrevida!

Por que cortaste a flor mais engraçada?

 

Porém que importa, bem que me desvela

Na flor o golpe, se maior ventura

Vos prometo no Céu, bela Teresa.

 

De flor ao Céu passais a ser estrela,

E não perde de flor a formosura,

Quem no Céu melhor flor logra a beleza.

 

 

 

 

PERTENDE O POETA CONSOLAR O EXCESSIVO SENTIMENTO DE VASCO DE SOUZA COM ESTE SONETO

 

 

Sôbolos rios, sôbolas torrentes

De Babilônia o Povo ali oprimido

Cantava ausente, triste, e afligido

Memórias de Sião, que tem presentes.

 

 

Sôbolas do Caípe águas correntes

Um peito melancólico, e sentido

Um anjo chora em cinzas reduzido,

Que são bens reputados sobre ausentes.

 

 

Para que é mais idade, ou mais um ano,

Em quem por privilégio, e natureza

Nasceu flor, a quem um sol faz tanto dano?

 

 

Vossa prudência pois em tal dureza

Não sinta a dor, e tome o desengano

Que um dia é eternidade da beleza.

 

 

 

 

A VISTA DO EXCESSO DE VASCO DE SOUZA PONDERA O POETA, QUE O VERDADEYRO AMOR, AINDA TIRADA A CAUSA NÃO CESSA NOS EFFEYTOS, CONTRA A REGRA DE ARISTOTELES.

 

 

Errada a conclusão hoje conheça

O Mestre, que mais douto na ciência

Nos deixou em prolóquio sem falência,

Que em a causa cessando, o efeito cessa.

 

 

Porque a dor de um Magoado nos confessa,

Que arrastou a Beleza com violência,

Que o que efeito causara uma assistência,

Apartado da causa então começa:

 

 

Apartada a Beleza inda lhe causa

Um efeito tão forte, que suspeito,

Que não tem inda a causa feito pausa.

 

 

Porque já em domínios de seu peito,

Se na vida a rendia como causa,

Hoje o vence na morte pelo efeito.

 

 

 

 

LINZONGEA FINALMENTE O POETA COM ESTAS MORALIDADES TRISTES DE  HUMA VIDA FLORECENTE PELAS FRIAS VOCES DAQUELLA SEPULTADA BELLEZA SUA FORMOSAS IRMÃAS, AVIVANDOLHE OS MOTIVOS DA DOR.

 

 

MOTE

 

Ya que flor, mis Flores, fui

Vuestro exemplo aora soy,

pues de flor a sol subi,

y oy de mi aun sombras doy.

 

 

1      En flor, mis Flores, se muere,

        quien en la vida fué flor,

        que es la muerte com rigor

        de las Flores Malmequiere:

        quien de vosotras se huviere

        desconocido haste aqui,

        su triste flor veya en mi

        como en un puro cristal,

        que espejo soy de su mal,

        ya que flor, mis Flores, fui.

 

 

2      Triunfar, Flores, en effecto

        ya me visteis de la suerte,

        si mal me quiso la muerte,

        siempre he sido Amor perfecto:

        desengañada os prometto

        de la ceniza, en que estoy,

        pues al sepulchro me voy,

        Flores, para que nasci,

        que si Perpetua no fui,

        Vuestro exemplo aora soy.

 

 

3      de aqueste jardin de Flora,

        que flagra oloroso aliento,

        ya fui gallardo elemento,

        ya fui bellissima aurora:

        pero, mis Flores, aora

        nada soy, de lo que fui,

        bien que los habitos di,

        con que a los astros llegué,

        y en el cielo me quedé,

        Pues de flor e sol subi.

 

 

4       Alerta, Flores, que ayrada

         la rnuerte uzurpa las flores,

         en quien colores, y olores

         son exemplos de la nada:

         alerta pues que prostada

         mis brios llorando estoy;

         lo que va de ayer a oy

         aprended de um muerto sol,

         que ayer candido arrebol,

         y oy de mi aun sombras doy.

 

 

 

 

DESTA VEZ SE DEIXOU O POETA ESQUECER NAQUELLA CASA, ESPERANDO   OCCASIÃO DE DECLARAR SE, E SEMPRE SE ACOBARDOU A VISTA DA CAUSA, SEMPRE EM LUTAS COM O AMOR, E RESPEYTO.

 

 

MOTE

 

Muero por dizir mi mal,

Va-me la vida en callar.

 

 

 1       Dos vezes muerto me hallo

          de los arpones de Amor,

          una al dizir mi dolor,

          y otra vez quando lo callo.

          No sé corno remediarllo,

          pues su implicacion es tal,

          que hazes mi dolor mortal,

          y con peligro tan fiero,

          que quando por callar muero,

          Muero por dizir mi mal.

 

 

2        Aqui el contrario no es medio

          de curar a su contrario,

          porque el remedio ordinario

          no es para mi mal remedio:

          yo tengo un azar, um tedio

          a todo, lo que es sanar,

          porque todo es peligrar;

          si callo, pierdo la vida,

          y si digo, mi homicida,

          Va-me la vida en callar.

 

 

 

 

ADMIRAVEL EXPRESSÃO QUE FAZ O POETA DE SEU ATIENCIOSO SILENCIO.

 

 

Largo em sentir, em respirar sucinto

Peno, e calo tão fino, e tão atento,

Que fazendo disfarce do tormento

Mostro, que o não padeço, e sei, que o sinto.

 

 

O mal, que fora encubro, ou que desminto,

Dentro no coração é, que o sustento,

Com que para penar é sentimento,

Para não se entender é labirinto.

 

 

Ninguém sufoca a voz nos seus retiros;

Da tempestade é o estrondo efeito:

Lá tem ecos a terra, o mar suspiros.

 

 

Mas oh do meu segredo alto conceito!

Pois não me chegam a vir à boca os tiros

Dos combates, que vão dentro no peito.

 

 

 

 

TERCEIRA IMPACIENCIA DOS DESFAVORES DE SUA SENHORA.

 

 

Dama cruel, quem quer que vós sejais,

Que não quero, nem posso descobrir-vos,

Dai-me agora licença de argüir-vos,

Pois para amar-vos tanto me negais.

 

 

Por que razão de ingrata vos prezais,

Não pagando-me o zelo de servir-vos?

Sem dúvida deveis de persuadir-vos

Que a ingratidão a formosenta mais.

 

 

Não há cousa mais feia na verdade;

Se a ingratidão aos nobres envilece,

Que beleza fará uma fealdade?

 

 

Depois que sois ingrata, me parece

Torpeza hoje, o que ontem foi beldade

E flor a ingratidão, que em flor fenece.

 

 

 

 

ENCARECE O POETA A GRAÇA E A BIZARRIA COM QUE SUA SENHORA DESEMBARCOU A SEUS OLHOS E FOY LEVADA POR QUATRO ESCRAVOS.

 

 

1        Esperando uma bonança,

          cansado já de esperar

          um pescador, que no mar

          tinha toda a confiança:

          receoso da tardança

          de um dia, e mais outro dia

          pela praia discorria,

          quando aos olhos de repente

          uma onda lhe pôs patente,

          quanto uma ausência encobria.

 

 

2        Entre as ondas flutuando

          um vulto se divisava,

          sendo, que mais flutuava,

          quem por ela está aguardando:

          e como maior julgando

          o tormento da demora

          como se Leandro fora,

          lançar-se ao mar pertendia,

          quando entre seus olhos via

          quem dentro em seu peito mora.

 

 

3        Mora em seu peito uma ingrata

          tão bela ingrata, que adrede

          pescando as demais com rede,

          ela só com a vista mata:

          as redes, de que não trata

          vinha agora recolhendo;

          porque como estava vendo

          todo o mar feito uma serra,

          vem pescar almas à terra,

          de amor pescadora sendo.

 

 

4       Logo que à praia chegou,

          tratou de desembarcar,

          mas sair o sol do mar

          só esta vez se admirou:

          tão galharda enfim saltou,

          que quem tão galharda a via,

          justamente presumia,

          para mais abono seu,

          que era Vênus, que nasceu

          do mar, pois do mar saía.

 

 

 5       Pôs os pés na branca areia,

          que comparada cos pés

          ficou pez, em que lhe pes,

          porque em vê-la a areia areia:

          pisando a margem, que alheia

          de um arroio os dois extremos,

          todos julgamos, e cremos

          Galatéia a Ninfa bela,

          pois bem que vimos a Estrela,

          fomos cegos Polifemos.

 

 

6        Toda a concha, e toda a ostrinha,

          que na praia achou, a brio,

          mas nenhum aljôfar viu,

          que todos na boca tinha:

          porém se em qualquer conchinha

          pérolas o sol produz,

          daqui certo se deduz,

          que onde quer, que punha os olhos,

          produz pérolas a molhos

          pois de dois sóis logra a luz.

 

 

7        Em uma portátil silha

          ocaso a seu sol entrou,

          e pois tal peso levou,

          não sentiu peso a quadrilha:

          vendo tanta maravilha

          tanta luz de monte a monte,

          abrasar-se o Horizonte,

          temi com tanto arrebol,

          pois sobre as Pias do sol

          ia o carro de Faetonte.

 

 

 

 

OUTRA VEZ O ASSALTÃO NOVOS PENSAMENTOS DE DECLARAR-SE, E TEMER.

 

MOTE

 

Ay de ti, pobre cuydado,

que en la carcel del silencio

has de tener tu razon,

porque lo manda el respeyto.

 

 

1        Si por fuerça del respeyto,

          ou floxedad de alvedrio

          nasciste, cuydado mio,

          tan captivo, y tan sugeto:

          y aun eres tan indiscreto,

          que de nescio, y porfiado

          quieres por lo bien hablado

          librar tu innocencia mucha,

          con quien te riñe y no escucha,

          Ay de ti,  pobre cuydado.

 

 

2        Cessa y serás escuchado,

          que en la quexa de un tormento

           las vozes se lleva el viento,

           no el alivio, que es passado:

           calla, y no hables deslumbrado

           al dueño, à quien reverencio,

           y sien la quietud, que agencio,

           conviene, que mi razon

           se prenda, que mas prision,

           Que en la carcel del silencio

 

 

 3         Mi concejo esto contiene,

             y  porque mejor se entienda,

            antes la razon se prenda,

            que quien la rason se tiene:

            la prudencia lo previene

            con viva demonstracion:

            tener quieres duracion?

            luego debes entender,

            que para rason tener

            Has de tener tu rason.

 

 

4          Y pues dizirla es perderla,

             porque hablada va perdida,

             tenla en tu pecho escondida,

             que assi vendras a tenerla:

             no temas el no entenderla

             de tu silencio el objecto:

            pues callando te prometto,

             que en prueba de rnis lealdades

             sepan, que callé verdades,

             Porque lo manda el respeto.

 

 

 

 

A VISTA DE HUM PENHASCO QUE VERTENDO FRIGIDISSIMAS AGUAS LHE CHAMÃO NO CAIPPE A FONTE DO PARAIZO, IMAGINA AGORA O POETA MENOS TOLERAVEL A SUA DISSIMULAÇÃO.

 

 

Como exalas, Penhasco, o licor puro,

Lacrimante a floresta lisonjeando,

Se choras por ser duro, isso é ser brando,

Se choras por ser brando, isso é ser duro.

 

 

Eu, que o rigor lisonjear procuro,

No mal me rio, dura penha, amando;

Tu, penha, sentimentos ostentando,

Que enterneces a selva, te asseguro.

 

 

Se a desmentir objetos me desvio,

Prantos, que o peito banham, corroboro

De teu brotado humor, regato frio.

 

 

Chora festivo já, ó cristal sonoro,

Que quanto choras, se converte em rio,

E quanto eu rio, se converte em choro.

 

 

 

 

COM O EXEMPLO DO LACRIMOSO PENHASCO ENTRA A SUSPIRAR, FAZ PAUSA, E RESOLVE ULTIMAMENTE A PROSEGUIR, RESGATANDO O SILENCIO A NOBREZA DA CAUSA.

 

 

Suspiros, que pertendeis

Com tanta despesa de ais,

Se quando um alívio achais,

todo um segredo rompeis?

 

 

Não vedes, que a opinião

sente o segredo rompido,

quando no alívio adquirido

Consta a sua perdição?

 

 

Não vedes, que se acompanha

o desafogo do peito,

mais se perde no respeito,

do que no alívio se ganha?

 

 

Não vedes, que o suspirar

diminui o sentimento,

usurpando ao rendimento

tudo, quanto dais ao ar?

 

 

Mas direis, que uma tristeza

publica a sua desgraça,

porque o silêncio não faça

inútil sua fineza.

 

 

Direis bem, que o padecer

da beleza é pundonor,

e guardar segredo à dor

será agravar seu poder.

 

 

Eia, pois, coração louco,

suspirai, dai vento ao vento,

que tão grande sentimento

não periga com tão pouco.

 

 

Quem disser, que suspirais

por dar à dor desafogo,

dizei-lhe, que tanto fogo

ao vento se acende mais.

 

 

Não caleis, suspiros tristes,

que importa pouco o segredo

e jamais me vereis ledo,

como algum tempo me vistes.

 

 

 

 

EM CONTRAPOSIÇÃO DO QUE RESOLVEO, SE ENTREGA O POETA NOVAMENTE AO SILENCIO, RESPEYTANDO, A QUE OS SUSPIROS POSTO QUE CONSOLÃO, NÃO ALLIVIÃO POR MENOS NOBRES.

 

 

MOTE

 

Ay de ti, que en tus suspiros

has de lograr el consuelo,

no el alivio, que es culpar

la attencion del rendimiento.

 

 

1        Coraçon: siente tu anhelo,

          que quien gime en su tormento,

          no haze aggravio al sentimiento,

          si hallo en sentir consuelo:

          gime dentro en tu desvelo,

          que ni te oygan tus retiros,

          mas si la nota haze tiros,

          ay de ti, que en tus razones

          faltas a las submissiones?

         Ay de ti, que en tus suspiros!

 

 

2        Ay de ti, pobre cuydado,

          que en un suspiro sentido

          si ganas lo divertido

          no pierdes lo desdichado!

          ay de ti, que desahogado

          al ayre vital del cielo

          no creyo, que en tu desvelo

          algun alivio consigas,

          ni pienso, que en tus fadigas

          Has de lograr el consuelo.

 

 

3        Si el consuelo se quedó,

          en quien suspira, en quien llora,

          quede el consuelo en buen hora,

          mas el alívio esso nó:

          el consuelo podrè yo

          en un triste assegurar

          que el dar suspiros al viento

          es culpa del sentimiento

          No el alivio, que es culpar.

 

 

4        No se alivia, el que suspira,

          si gimiendo se consuela,

          que como el gimir anhela,

          del alivio se retira:

          ten pues, cuydado, la mira,

          en que no floxa el tormento,

          viva intacto el sentimiento,

          que bien el de coro observa,

          quien siente, calla, y reserva

           la attencion del rendimiento

 

 

 

 

PORFIA O POETA EM LOUVAR SEU NECESSARIO SIIENCIO, COMO QUEM FAZ VIRTUDE DA NECESSIDADE.

 

 

MOTE

 

Sentir por solo sentir

es el sentir verdadero,

que en saber sentir está

el premio del sentimiento.

 

 

1         Coraçon: suffre, y padece,

           que quien alivia el tormento

           el premio del suffrimiento

           nesciamente desmerece:

           siente, y en tus dolores cresce:

           suffre, que solo el suffrir

           sera el rnedio de luzir:

           calla, que la causa es tal,

           que está mandando a tu mal

           Sentir por solo sentir.

 

 

2         Sentir, suffrir, y callar

           medio será de salvar-te:

           pero no sientan llorar-te

           porque es arte de aliviar:

           el suffrimiento hade estar

           sugeto al arpon severo,

           evitando el ser grossero

           con silencio, o con rason,

           que sentir sin reflexion

           Es el sentir verdadero.

 

 

3         No suffras, por mas suffrir,

           que en suffrir por merecer,

           la attencion hecha a perder,

           quando llega a competir:

           nada intentes conseguir,

           que es vana gloria, y quisá

           que todo se perderá:

           la mudez no es meritoria?

           Sabe sentir por la gloria,

           Que en saber sentir está.

 

 

4         Sabe, que ay indignacion,

           en quien te puede ultrajar,

           que ay aborrecer, y amar,

           mas no sepas la razon:

           siente tu injusta passion,

           mas no sepa el suffrimiento

           la causa de tu tormento:

          discurre sin discurrir,

          que hallarás en tu sentir

          El premio del sentimiento.

 

 

 

 

PERTENDE AGORA PERSUADIR A HUM RIBEYRINHO A QUE NÃO CORRA,   TEMENDO, QUE SE PERCA: QUE HE MUY PROPRIO DE HUM LOUCO   ENAMORADO QUERER QUE TODOS SIGAM O SEU GAPRICHO. E RESOLVE A   COBIÇARLHE A LIBERDADE.

 

 

Como corres, arroio fugitivo?

Adverte, pára, pois precipitado

Corres soberbo, como o meu cuidado,

Que sempre a despenhar-se corre altivo.

 

 

Toma atrás, considera discursivo,

Que esse curso, que levas apressado,

No taminho. que emprendes despenhado

Te deixa morto, e me retrata ao vivo.

 

 

Porém corre, não pares, pois o intento,

Que teu desejo conseguir procura,

Logra o ditoso fim do pensamento.

 

 

Triste de um pensamento sem ventura!

Que tendo venturoso o nascimento,

Não acha assim ditosa a sepultura.

 

 

 

 

SOLITARIO EM SEU MESMO QUARTO A VISTA DA LUZ DO CANDIEYRO PORFIA O POETA PENSAMENTEAR EXEMPLOS DE SEU AMOR NA BARBOLETA.

 

 

Ó tu do meu amor fiel traslado

Mariposa entre as chamas consumida,

Pois se à força do ardor perdes a vida,

A violência do fogo me há prostrado.

 

 

Tu de amante o teu fim hás encontrado,

Essa flama girando apetecida;

Eu girando uma penha endurecida,

No fogo que exalou, morro abrasado.

 

 

Ambos de firmes anelando chamas,

Tu a vida deixas, eu a morte imploro

Nas constancias iguais, iguais nas chamas.

 

 

Mas ai! que a diferença entre nós choro,

Pois acabando tu ao fogo, que amas,

Eu morro, sem chegar à luz, que adoro.

 

 

 

 

RATIFICA SUA FIDALGA RESOLUÇÃO TIRANDO DENTRE SALAMANDRA E BARBOLETA O MAIS SEGURO DOCUMENTO PARA BEM AMAR.

 

 

Renasce Fênix quase amortecida.

Barboleta no incêndio desmaiada:

Porém se amando vives abrasada,

Ai como temo morras entendida!

 

 

Se te parece estar restituída,

No que te julgo já ressuscitada,

Quanto emprendes de vida renovada,

Te receio na morte envelhecida.

 

 

Mas se em fogo de amor ardendo nasces,

Barboleta, o contrário mal discorres,

Que para eterna pena redivives.

 

 

Reconcentra esse ardor, com que renasces,

Que se qual Barboleta em fogo morres,

É melhor, Salamandra, o de que vives.

 

 

 

 

AO RIO DE CAIPPE RECORRE QUEYXOSO O POETA DE QUE SUA SENHORA ADMITTE POR ESPOSO OUTRO SUJEITO

 

 

Suspende o curso, ó Rio, retrocido,

Tu, que vens a morrer, adonde eu morro,

Enquanto contra amor me dá socorro

Algum divertirmento, algum olvido.

 

 

Não corras lisonjeiro, e divertido.

Quando em fogo de amor a ti recorro

E quando o mesmo incêndio, em que me torro,

Teu vizinho cristal tem já vertido.

 

 

Pois já meu pranto inunda teus escolhos,

Não corras, não te alegres, não te rias,

Nem prateies verdores, cinge abrolhos.

 

 

Que não é bem, que tuas águas frias,

Sendo o pranto chorado dos meus olhos,

Tenham que rir em minhas agonias.

 

 

 

 

IMAGEM SINGULAR DE SUA DESESPERADA PAYXAO, VENDO QUE SUA SENHORA SEM EMBARGO DE RECEBERLHES SEUS AMOROSOS DIVERTIMENTOS, ACEYTAVA  EM CASAMENTO HUM SUGEYTO MUYTO DA VONTADEDE DE SEUS PAYS: MAS NEM ESTAS, NEM OUTRAS OBRAS OUSAVA ELLE A CONFIAR MAIS QUE DO SEU BAUL.

 

 

Enfim, pois vossa mercê

não ignora, que é forgoso

acomodar co'as desgraças,

e desbaratar ao gosto:

Ouça os últimos suspiros,

de quem no extrerno amoroso

fala com língua de mágoas,

sente com vozes de fogo.

Que nestas minhas ofensas,

e nestes termos suponho,

que fez dita o meu afeto,

do que você fez estorvo.

Pois adorando excessivo,

o que não logrou ditoso,

só da esperança fez caso,

sern dar ousadia ao logro.

Parecia-me, que nunca

chegasse a ser perigoso

venerar no pensamento

faisas idéias de um gosto.

Mas conhecendo mentiras,

quanto me disse o alvoroço,

repiro agora, o que quis

fazendo negaça ao gosto:

Que como em você conhego,

que lhe será mui custoso

sem fazer da pena opróbrio:

Vendo, que minha esperança

acha o bem dificultoso,

e se encontra coas desgraças

na observação do decoro.

Advirto a minha razão

nos extremos de queixoso

com a raiva da fineza

como refúgio do choro.

Porque limitando a pena

àquele afeto amoroso,

cuja firmeza eterniza,

por alívio o desafogo!

Quero, se é, que pode ser

querer, quem por tantos modos

nem para querer lhe deixa

ação tão tirano afogo!

Que veja você sepulta

a presunção do alvoroço,

que na esperança da posse

era o caminho do logro.

Para que em mudos suspiros

melhor segurem meus olhos,

que a influência de estrela

só neste estado me há posto.

E assim só dela. me queixo,

porque fora lance impróprio

clamar contra as divindades

nesta queixa, que a Amor formo.

Com que advertir-lhe é preciso,

que de tudo, o que me dôo,

na execução de agravo

as glórias julgo por sonho.

Pois se cheguei a adorar,

foi preciso tão notório

do destino, a que rendido

para este fim nasci logo,

E o pertender suspirando

com um desvelo, e com outro

foram protestos do incêndio,

foi do excessivo acordo.

Idolatrar um prodígio,

não foi prodígio, nem noto,

que o rendimento, e desvelo

ficassem acaso opostos:

Porque advertindo, que o céu,

e o Planeta Luminoso

jurararn pleito homenagem

na beleza desse rosto:

O conhecer Liberdade

à vista de tanto assombro

fora, perdendo os sentidos

ser indiscreto e ser louco.

 

 

 

 

CHORA O POETA A ULTIMA RESOLUÇÃO DE SEU IDOLATRADO IMPOSSIVEL TAM MERECEDORA DESTES DELICADOS VERSOS.

 

 

Alto: divino impossível,

de cuja dificuldade,

formosura, e discrição

qual é maior, não se sabe.

Se impossível pelo estado,

a dificuldade é grande,

pois casada, e a teu gosto

que força há de conquistar-te?

Se impossível na dureza,

a ser pedra incontrastável,

basta ser de lavradora,

para que nunca se lavre.

Se impossível pelo estorvo

da família vigilante

é o impossível maior,

que ao meu coração combate.

Mas se és, divino impossível,

de tão alta divindade,

creio, que esperanças mortas

ressurgirás a milagres.

Se és um milagre composto

de neve incendida em sangue,

e sempre o Céu de tou rosto,

mostra dois astros brilhantes:

As mãos umas maravilhas,

um par de jesmins as faces,

o corpo um garbo vivente.

os pés um vivo donaire:

Se são milagres divinos,

Francelinda, as tuas partes,

para viver, quem te adora,

que farás. senão milagres!

Dá-me por milagre a vida

na esperança de lograr-te,

verás ressurgir com glória

uma esperança cadáver.

E se és enigma escondido,

eu sou segredo inviolável,

pois ouves, e não percebes,

quem te diz, o que não sabes.

De que selve a discrição,

com que o teu nome ilustraste,

sendo a Palas destes tempos,

Minerva destas idades.

Discorre em tuas memórias

os dias, manhãs, e tardes,

que foste emprego de uns olhos,

que mudamente escutaste.

Porque uns olhos, que atrevidos

registam a divindade

são sempre d'alma rendida

emudecidas linguagens.

Lembra-te, que em tua casa,

onde cortês me hospedaste,

não me guardaste o seguro

das leis da hospitalidade.

Por que matando-me entonces

traidoramente suave

me calei eu, por guardar

essas leis, que tu violaste.

Se inda não cais, em quem sou,

porque me estrova explicar-me

de uma parte o teu decoro,

e o meu temor de outra parte.

Terei paciência por ora,

té que me tire os disfarces

Amor, que com se vendar,

me deu lições de vendar-me.

E se penetras, quem sou,

porque já o conjeturaste,

e escolhes de pura ingrata

não crer-me, por não pagar-me:

Recorre à tua beleza,

que sei, que ela há de obrigar-te

a crer, que em minhas finezas

corto por multas verdades.

E pois me toca pesar

as tuas dificuldades,

e a ti tua formosura

e discrição pesar cabe.

Julguemos ambos de dois,

qual dá cuidado mais grande,

formosura, e discrição,

ou tantas dificuldades.

 

 

 

 

CHORA O POETA DE HUMA VEZ PERDIDAS ESTAS ESPERANÇAS.

 

 

A Deus vão pensamento, a Deus cuidado,

Que eu te mando de casa despedido,

Porque sendo de uns olhos bem nascido

Foste com desapego mai criado.

 

 

Nasceste de um acaso não pensado,

E cresceu-te um olhar pouco advertido,

Criou-te o esperar de um entendido.

E às mãos morreste de um desesperado:

 

 

Ícaro foste, que atrevidamente

Te rernontaste à esfera da luz pura,

De donde te arroiou teu vôo ardente.

 

 

Fiar no sol, é irracional loucura,

Porque nesse brandão dos céus luzente

Falta a razão, se sobra a formosura.

 

 

 

 

VAGAVA O POETA POR AQUELLES RETIROS FILOSOFANDO EM SUA DESDITA SEM PODER DESAPEGAR AS HARPIAS DE SEU JUSTO SENTIMENTO.

 

 

Quem viu mal como o meu sem meio ativo!

Pois no que me sustenta, e me maltrata,

É fero, quando a morte me dilata,

Quando a vida me tira, é compassivo.

 

 

Oh do meu padecer alto motivo!

Mas oh do meu martírio pena ingrata!

Uma vez inconstante, pois me mata,

Muitas vezes ctuel, pois me tem vivo.

 

 

Já não há de remédio confiancas;

Que a morte a destruir não tem alentos,

Quando a vida empenar não tem mudanças.

 

 

E quer meu mal dobrando os meus tormentos,

Que esteja morto para as esperanças,

E que ande vivo para os sentimentos.

 

 

 

 

AO PÉ DAQUELLE PENHASCO LACRIMOSO QUE JA DICEMOS PERTENDE MODERAR SEU SENTIMENTO, E RESOLVE, QUE A SOLEDADE Ó NÃO ALIVIA.

 

 

Na parte da espessura mais sombria,

Onde uma fonte de um rochedo nasce,

Com os olhos na fonte, a mão na face,

Sentado o Pastor Sílvio assim dizia.

 

 

Ai como me mentiu a fantesia

Cuidando nesta estância repousasse!

Que muito a sede nunca mitigasse,

Se cresce da saudade a hidropisia.

 

 

Solte o Zéfiro brando os seus alentos,

E excite no meu peito amantes fráguas,

Que subam da corrente os movimentos.

 

 

Que é irana oficina para as mágoas

Ouvir nas folhas combater os ventos,

Por entre as pedras murmurar as águas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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