LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Gupeva, de Maria Firmina


Edição de Base

Biblioteca Virtual Brasileira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

I

II

III

IV

V

 

 

 

I

 

    Era uma bela tarde: o sol de agosto animador e grato declinava já seus fúlgidos raios; no ocaso ele derramava um derradeiro olhar sobre a terra e sobre o mar que, a essa hora mágica do crepúsculo, estava calmo e bonançoso, como uma criança adormecida nos braços de sua mãe.

 

    Seus raios desenhavam no horizonte as cores cambiantes do prisma, e desciam com melancólico sorriso as planuras da terra, e a superfície do mar. Uma tarde de agosto nas nossas terras do norte tem um encanto particular: quem ainda as não gozou, não conhece na vida o que há de mais belo, mais poético, não conhece a hora do dia que o Criador nos deu para esquecermos todas as ambições da vida, para folhearmos o livro do nosso passado, buscarmos nela a melhor página, a única dourada que nela existe, e aí nos deleitarmos na recordação saudável da hora feliz da nossa existência: aquele que ainda a não gozou é como se seus olhos vivessem cerrados à luz; é como se seu coração empedernido nunca houvera sentido uma doce emoção, é como se à voz da sua alma nunca uma voz amiga houvera respondido.

 

    O que a gozou, sim; o que a goza, esse adivinha os prazeres do paraíso, sonha as poesias do céu, escuta a voz dos anjos na morada celeste; esquece as dores da existência e embala-se na esperança duma eternidade risonha, ama o seu Deus e lhe dispensa afetos; porque nessa hora como que a face do Senhor se nos patenteia nos desmaiados raios do sol, no manso gemer da brisa, o saudoso murmúrio das matas, na vasta superfície das águas, na ondulação mimosa dos palmares, no perfume odorífero das flores, no canto suavíssimo das aves, na voz reconhecida da nossa alma!

 

    Era pois como dissemos, uma bela tarde de agosto, e dessa encantadora tarde gozavam com delícia os habitantes da Bahia, nessa época bem raros, e ainda incultos, ou quase selvagens. O disco do sol amortecido em seu último alento beijava as enxárcias dum navio ancorado na Baía de Todos os Santos, a cuja frente eleva-se hoje a bela cidade de S. Salvador, e afagava mansamente as faces pálidas dum jovem oficial, que à hora do crepúsculo, com os olhos fitos em terra parecia devorado por um ardentíssimo desejo, por um querer que a seu pesar lhe atraía para onde quer que fosse todos os sentimentos da sua alma.

 

     Sonhava acordado; mas era esse sonhar desesperado, ansioso, frenético como o sonhar dum louco: era um sonhar doído, cansado, incômodo, como o sonhar do homem que já não tem uma esperança; era o sonhar frenético de Napoleão, nas solidões de Santa Helena, era o sonhar doído de Luís XVI na véspera do suplício. Encostado ao castelo da popa, o mancebo parecia nada ver do que lhe ia em torno, nem mesmo o sol, que dava-lhe então seu derradeiro e melancólico adeus, escondendo seu disco nas regiões do oceano.

 

    Patética, sublime, e quase misteriosa era a despedida desse sol, brincando tristemente nos cabelos acetinados do moço oficial, e fugindo vaga- roso, e de novo voltando, envolvendo-o pelas espáduas, como em um último abraço, e depois mergulhando-se pressuroso nas trevas, como um amigo que junto do sepulcro beija as faces geladas e lívidas do amigo, e corre com a saudade no coração a cobrir seus membros de lutuosas vestes.

 

    O navio em que acabamos de ver esse moço, que ainda mal conhecemos, era O Infante de Portugal, vaso de guerra, que havia trazido à Bahia Francisco Pereira Coutinho, donatário daquela capitania, depois que a célebre Paraguaçu, princesa do Brasil, cedera seus direitos em favor da coroa de Portugal. O infante acabava de receber as últimas ordens de Coutinho, e velejava no dia seguinte em demanda do Tejó.

 

    Voltemos pois ao mancebo que, conquanto fosse noite, permanecia ainda no mesmo lugar em que o encontramos. Em seus grandes olhos negros transparecia todo desassossego dum coração agitado. Sua idade não podia exceder a vinte e um anos. Era jovem e belo; o uniforme de marinha fazia sobressair as delicadas formas do seu talhe esbelto e juvenil.

 

Mas as trevas eram já mais densas e o coração do moço confrangia-se e redobrava de ansiedade. Seus olhos ardentes pareciam querer divisar através dessas matas ainda quase virgens um objeto qualquer. Sem dúvida nesse lugar outrora solitário, hoje populoso e civilizado, havia alguma coisa que o mancebo amava mais que a vida, em que fazia consistir toda a sua felicidade, resumia todo o seu querer, todas as suas ambições, toda a sua ventura. Havia aí algum ente extremamente amado; alguém que atraía para si todas as faculdades, toda a alma do mancebo europeu.

 

    — Que tens tu, meu querido Gastão? interpelou-lhe um outro jovem oficial, tocando-lhe amigavelmente no ombro. — O que te aflige? Estás triste!...

 

O moço interrogado estremeceu ligeiramente, como quem desperta de um profundo sono; e fitando o seu interlocutor, com pungente sorriso, disse:

 

— Triste... sim, Alberto, contrariado, meu caro amigo.

 

— Tu, meu caro? E por quê? Tornou-lhe aquele a quem este designara Alberto. O que te aconteceu, caro Gastão?

 

     — Sairemos amanhã!... respondeu Gastão. Nestas duas únicas palavras encerrava-se tudo quanto o homem pode sofrer de mais doloroso, amargo, e acerbo na carreira da vida; e por isso o acento com que as proferia calou n’alma de Alberto. Este contemplou-o por algum tempo com uma curiosidade travada de surpresa, e sem poder compreender o acento de tais palavras, nem qual a causa de tão grande amargura, disse-lhe:

 

— É isso o que te contraria, e te aflige?...

 

    Gastão ergueu a fronte até então abatida, e deixando cair suas vistas sobre seu amigo, murmurou:

 

    — Alberto, para que me interrogas? Podes acaso compreender o martírio do meu coração?!

 

    — Ah! Pensas nela?!... exclamou sorrindo-se o jovem Alberto. — Ora, Gastão, pelo céu! Meu amigo, creio que estás louco.

 

Gastão abaixou novamente a cabeça, e balbuciou:

 

    — Embora... mas... era um delírio, que poderia ter suas consequências. Alberto pensou nisso e procurou dissuadi-lo. — Gastão, – disse pro- curando tomar-lhe entre as suas mãos, – que loucura meu amigo, que loucura a tua apaixonares-te por uma indígena do Brasil; por uma mulher selvagem, por uma mulher sem nascimento, sem prestígio; ora, Gastão sê mais prudente; esquece-a.

 

— Esquecê-la! – exclamou o moço apaixonado, – nunca!

 

— Tanto pior, – lhe tornou o outro, – será para ti um constante martírio.

 

— E por quê?

 

    — E por quê?! Porque ela não pode ser tua mulher, visto que é muito inferior a ti; porque tu não poderás viver junto dela a menos que intentasses cortar a tua carreira na marinha, a menos que desprezando a sociedade te quisesses concentrar com ela nestas matas. Gastão, em nome da nossa amizade, esquece-a.

 

    — Pede à terra que esqueça seu constante movimento, ao vento que cesse o seu girar contínuo, às flores que transformem seus odores em pestilentos cheiros, às aves que emudeçam as galas da madrugada, – murmurou Gastão, com melancolia.

 

Alberto guardou silêncio por alguns minutos, e de novo disse:

 

    — Louco! Louco! Gastão, meu amigo, traga até as fezes do teu cálice de amargura; mas faze o sacrifício do teu amor em atenção a ti mesmo, ao teu futuro...

 

    — O meu futuro é ela... replicou Gastão, interrompendo seu jovem amigo.

 

— Primeiro-tenente de marinha hoje, meu querido Gastão, breve terás uma patente superior que...

 

    — Que me importa a mim tudo isso, Alberto, acaso isso pode indenizar-me da dor de perdê-la? Alberto, tu não és francês, o teu clima cria almas intrépidas, corações fortes, ou rudes ardendo sempre, mas em fogo belicoso: o sangue que herdaste de teus avós gira em teu peito com ambição de glória, de renome; são nobres as tuas ambições, eu as respeito; porém as minhas são destruídas de toda a vaidade... As minhas ambições, o meu querer, meu desejo resume-se todo nela. Para que me falas das grandezas deste mundo? Alberto, eu as desprezo, se não forem para repartir com ela.

 

    — Todos nós, – lhe disse Alberto, – temos a nossa hora de loucura; também o português, meu caro, a experimenta às vezes, não obstante como dizes, o nosso clima gera corações mais rudes; mas, Gastão teus pais! Queres acaso afrontar a maldição paterna?

 

    — Sim, tornou o jovem francês, ainda quando ela houvesse de cair sobre minha cabeça, eu não poderia esquecer a mulher a quem dedico todo o meu coração.

 

     — Decididamente perdeste o juízo, meu caro amigo, disse Alberto comovido. Que pretendes, Gastão, fazer dessa mulher?

 

— Amá-la, meu Alberto, como nunca se amou mulher alguma.

 

    — O amor, Gastão, é como um meteoro luminoso, é uma aurora boreal dos trópicos, sua duração é de momento.

 

    — Não, redarguiu-o triste, sinto que hei de amá-la enquanto me animar um átomo de vida, sinto que seu nome será o derradeiro que hei de pronunciar à hora da morte, sinto que...

 

— Cala-te, Gastão, cala-te! Lhe retorquiu o jovem português; teus desvarios me causam um pungente sofrer.

 

    E que me importa isso? disse friamente o moço francês, sabes acaso a grandeza do meu sofrimento? Sabes, bem conheces e não te apiedas de mim.

    — Ingrato! Exclamou comovido o jovem oficial português. Gastão, em nome do céu, recompõe o teu juízo, não penses mais nessa mulher. Eia, promete-me, e eu...

 

    — É impossível, Alberto. Impossível, meu amigo. Oh! Se soubesses... Alberto, eu a tenho aqui no coração. É ela a mulher dos meus sonhos de adolescência, é a visão celeste, e arrebatadora da minha infância, é o anjo que presidiu o meu nascimento. Alberto, quem a poderá resistir? Louco o que a vendo possa deixar de amá-la; louco o que a conhecendo não lhe render eterna vassalagem. Anjo na beleza, e na inocência, anjo na voz, nas maneiras, é ela superior às filhas vaporosas da nossa velha Europa. Épica é seu nome. No seu rosto, Alberto, se revela toda a candura da sua alma, e toda a singeleza dos costumes inda tão virgens da inculta América. Onde está pois o meu crime em adorá-la? Seus grandes olhos negros de doçura inexprimível falam à alma com suavíssima poesia: são harpejos da lira harmoniosa, ou notas de anjos em torno do Senhor. E esse olhar seu exprime um quê de indizível pureza que obriga a adorá-la, como se adora a Deus. Alberto, de joelhos suplicarias a essa mulher angélica, se a visses, perdão de a não teres amado mesmo sem conhecê-la, desde o dia em que começou a tua existência.

 

     Alberto suspirou com desalento: sentia-se fraco para lutar com o coração de seu amigo. Gastão compreendeu o pesar, que malgrado seu causava ao moço português, e disse:

 

— Perdoa-me, meu caro amigo, perdoa-me, se te hei magoado, sofro... tanto.

 

    Alberto não achava uma palavra para exprimir sua angústia, tomou então as mãos a seu amigo, apertou-as com efusão, e depois, apertando-o contra o seu coração, a custo exclamou:

 

    — Meu amigo, meu irmão, fizeste bem em confiar-me tuas mágoas, eu te ajudarei no caminho espinhoso, e direi do que tens a percorrer de ora em diante. Eia, coragem, serei o teu cireneu.

 

    Mas, o moço francês não compreendeu uma só das palavras de Alberto, e julgando que este mais compadecido lhe aplainava a senda de seus amores, ergue para ele uns olhos, onde havia gratidão, e amizade, e disse-lhe:

 

— Então é verdade, Alberto, que tens um coração?

 

— E não adivinhavas tu nos transportes de nossa amizade?

 

    — Obrigado! – exclamou com efusão o jovem francês. – Alberto, meu Alberto, faze-me hoje um favor, um único; prometo-te que será o último que te peço.

 

— Fala, mas não peças coisa que se assemelhe a uma loucura.

 

     — Cruel! Chamas loucura ao sentimento mais santo, que Deus implantou no coração do homem!...

 

— Fala – vejamos o que exiges de mim.

 

— Bem sabes, Alberto, que devo entrar hoje de quarto...

 

— Queres que entre eu em teu lugar?

 

— Sim, quero que entres em meu lugar.

 

— Pois não, meu caro.

 

    Gastão envolveu o amigo entre seus braços; era a expressão sincera da sua gratidão. Guardam um momento de silêncio, só interrompido pelo murmúrio das vagas que se chocavam, e pelo sibilar do vento nas enxárcias.

 

— Que pretendes fazer desta noite, Gastão? – interrogou o jovem português.

 

— Não o adivinhaste já, meu querido Alberto? Ah! Ela espera-me; eu lhe prometi.

 

    — Compreendo-te! Gastão, o teu delírio, meu caro amigo, te faz ingrato. És surdo a minha voz, sensível aos extremos da amizade... Vai, Gastão, vê essa mulher que te fascinou, como fascinam as cobras do seu país a míseros pássaros. Tu também és um pássaro, nascido em regiões estranhas, que alevantaste o teu voo, atravessaste os mares, e pousaste amoroso nas franças do pau d’arco americano; Gastão, não te deixes atrair da serpente venenosa: goza um momento disso, a que chamas a tua felicidade; mas desprende novamente o voo. Gastão, eu te aguardo só antes do romper da alva. Jura-me pela honra.

 

— Juro-o – exclamou o moço francês, com indefinível expressão.

 

    O comandante estava em terra. Alberto acenou para Gastão de uma lancha.

 

    Então os dois mancebos, como se naquela despedida se dissessem um adeus eterno, de novo em um fraterno amplexo uniram seus jovens corações, onde tão diversos sentimentos se cruzavam.

 

    E a lancha, cortando vagarosamente as águas, deixava após si estreito, e espumoso rasteiro. Cinco minutos depois abicou em terra.

 

Alberto seguiu-a com o coração: depois um profundo suspiro lhe fugiu do peito, que malgrado seu gotejava sangue.

 

 

 

II

 

    E àquela bela tarde sucedeu uma noite escura e feia. A atmosfera estava baixa e carregada, as nuvens ameaçavam tempestade. O mar quebrava-se raivoso nas praias, e o vento gemia nas solidões das matas. Entanto Gastão, ébrio de prazer, acabava de transpor o pequeno lençol movediço que o separava da terra, dessa terra querida, onde ia encontrar em breve a mulher de suas doidas afeições. As nuvens arqueavam-se negras sobre os outeiros, por entre os quais insinuava-se, louco de esperanças, o jovem adorador da filha dos palmares.

 

    Corria o moço afadigado por entre as árvores copadas da velha América; arfava-lhe o peito, as artérias latejavam-lhe, o sangue afluía-lhe para o rosto, o suor caía-lhe em bagas, da fronte para o peito. Com que rapidez, com que afã devorava ele o espaço que o separava ainda do lugar da entrevista... Tardava-lhe a hora da ventura.

 

    Por essas sendas tortuosas, por essas brenhas quase virgens de uma habitação do homem civilizado, por esses lugares, que já não tendo aqui e ali a selvagem beleza de uma mata virgem, não tinha em parte alguma o caráter duma povoação, corria loucamente o jovem colega de Alberto, sem outro pensamento mais que o de rever sua idolatrada Épica. Se havia ainda um mundo além do lugar dos seus sonhos, Gastão havia-o inteiramente esquecido: o amor do seu coração absorvia-lhe todas as faculdades. Aos vinte e um anos o homem não tem o coração embotado; – o excesso de paixões mal sofreadas, ainda nessa idade juvenil, não o tem aviltado, e enegrecido. O amor que abrasa o coração nessa idade, a mais bela talvez da nossa vida, é um amor puro como os afetos de uma criança, é o amor sincero como o beijo de um irmão querido, é um amor santo como um hino sacro entoado pelos anjos do Senhor.

 

    O amor, nessa idade é uma emanação do céu, é um concerto divino noite e dia a vibrar no coração do homem; e ao som desse dulcíssimo concerto, a mente exalta-se, e vai tocar ao infinito, bebe deleites, que purificam a alma; sonha enlevos virtuosos; goza mimos de um sentir indefinível, desses que o mundo só concede uma vez, desses que só no viver dos anjos se goza eternamente. Ah! Se o homem pudesse em toda a sua vida amar assim tão pura e santamente, com esse amor que então animava o coração do jovem Gastão, para que havia Deus, criar um outro céu, criar outras delícias para os seus escolhidos?! O céu seria o mundo, e nós os bem-aventurados. Mas, mesquinhos, e míseros filhos de Adão, essa hora de mágicos enlevos, não a tornareis achar!... Esse oásis que vos deleitou desapareceu para sempre.

 

    Foi um bafejo divino na hora da tormenta; foi uma gota de orvalho sobre a erva emurchecida pela calma. Agora segui o vosso deserto; árida e espinhosa será a vossa senda. Abrasar-vos-á o simum, e uma só fonte d’água fresca não encontrareis em vossa peregrinação, que vos suavize o requeimar do sangue. E depois deste afã, deste doloroso caminhar, no extremo já, vereis por desafogo e tantas dores o antro escuro, e úmido de uma sepultura. Não recueis, oh! Não: aí está o esquecimento de uma existência amargurada, aí o descanso, o repouso, a felicidade.

 

    Ao cabo de algumas horas, o jovem oficial se havia entranhado num bosque solitário e ermo. À direita, a uns cem passos de distância, avultava uma cabana, cujo teto coberto de pindoba era sombreado por palmeiras simultâneas, que lhe davam um aspecto poético, e melancólico; à esquerda erguia-se um pequeno rochedo. À sua base serpeava uma ligeira corrente, deslizando suas mansas águas por sobre a areia, e pedrinhas; espreguiçando-se como uma criança no seu leito, sumia-se, murmurando no meio do bosque. Havia aí um quê de indefinível doçura, uma melancolia meiga, e suave, que se assemelhava, se harmonizava, se casava com o coração de Gastão, onde havia sensações deleitáveis, como os sons longínquos duma harpa que geme na solidão. O mancebo galgou a eminência com presteza.

 

Dali seus olhos poderiam descobrir Alberto, ainda pensativo e desgostoso, se nessa hora ele se lembrasse de alguém que não fosse a mulher por quem esperava, e se a escuridão da noite o permitisse.

 

Havia um negrume espantoso, porém a natureza ainda estava calma; a tempestade que ameaçava não prometia ser breve.

 

    Gastão contava os minutos pelas palpitações do seu coração. Era a primeira vez que ia encontrar-se com Épica face a face na escuridão da noite; era a primeira vez que ia achar-se com ela só, no cimo dum outeiro, entre o céu e a terra, longe das vistas indiscretas do homem, longe das admoestações de Alberto, tendo por conselheiro só seu coração, por testemunha só Deus! Gastão bebia as delícias do paraíso. Esperou, e esperando cedeu à meditação.

 

    Não haveria aí um só homem, que tenha sentido em seu coração o fogo dum primeiro amor, que não adivinhe o doce meditar desse mancebo de coração ardente, e alma apaixonada. Gastão aspirava os perfumes do céu, embalava-se nas fagueiras esperanças dum amor sem limites.

 

    Depois de tudo isso a morte; porque o único gozo, que semelha aos dos anjos, teria então passado. Assim pensava o moço francês, e esse pensa- mento não podia ser um erro. Errar por muito tempo, entre o amor e a sepultura, é um tormento inqualificável, é morrer sem esperança de salvação da alma, é a tortura da Idade Média não adoçada pelo cutelo do algoz. Gastão pois pensava bem; e qualquer outro em idênticas circunstâncias pensaria como ele. Do mundo o moço só almejava uma coisa, uma somente, do mundo ele só queria aquela mulher, que ele aguardava com frenesi, aquela mulher, que ele amava com delírio, que idolatrava loucamente. Por ela Gastão daria toda a sua vida, todo o seu sangue, sua alma, seu sossego, toda a felicidade de um futuro, que se lhe antolhava risonho.

 

     — Sim, exclamou ele, acordando do seu sonho mentiroso, respondendo ao seu próprio pensamento – viver ou morrer com ela. Que me importa a mim os prejuízos do mundo? Haverá acaso no mundo mulher mais digna do meu amor?!... Épica! Épica! Eu te adoro. Épica, anjo dos meus sonhos, visão encantadora, que afaga, e adoça o amargor dos meus dias... Serás acaso uma ilusão?!... Um leve murmúrio, um rumor vago, como a bulha sutil de passos cautelosos, interrompeu-o: ele julgou esse leve ruído a aproximação da mulher amada; estremeceu de amor, e correu ao encontro dessa visão angélica.

 

    E encontrou-se face a face com um homem. Gastão recuou um passo e levou a mão à sua espada.

— Quem sois? Perguntou-lhe em português, com acento de cólera mal reprimida.

 

    A noite era tão escura, que Gastão mal poderia reconhecer este homem, inda que fosse ele o seu melhor amigo.

 

    — Quem sois? – repetiu o moço estrangeiro, – Pelo céu, ou pelo inferno, dizei-o.

 

    — Quem sou? – respondeu o recém-chegado com voz grave, magoada e horripilante. — Desejais conhecer-me? Breve sabereis quem sou.

 

— Depressa, senhor, depressa, – lhe tornou Gastão, ou livrai-me da vossa presença.

 

    — Conheço, mancebo, quanto vos deve ser importuna a minha presença neste lugar; mais tarde, porém, reconhecereis que não sou aqui o mais importuno.

Gastão julgou-se em face dum rival, e a sua cólera redobrou.

 

— E insistes em não dizer quem sois, nem a que vindes.

 

    — Não insisto, não, senhor, quero responder pontualmente às vossas perguntas não obstante ser quem devia interrogar-vos.

 

— Vós!... E com que direito?

 

— Com o mesmo, mancebo, com que me interrogais.

 

— Zombais acaso de mim? disse Gastão no auge de desesperação, ponde-vos em guarda; não quero ser um assassino.

 

    — Esperai, senhor, esperai, – replicou o desconhecido, – com calma, escutai-me:

 

    — Eu sou tupinambá, continuou, sou o cacique desta tribo, sou finalmente o pai de Épica. Isto espanta-vos?

 

— Traição! – exclamou Gastão, desembainhando a espada, que cintilou na escuridão da noite.

 

— Enganai-vos, senhor, ninguém vos traiu. Eu sei tudo: vossas palavras eu as tenho escutado.

 

— Mentis, maldito tupinambá.

 

    — Não minto, não: dia por dia hei seguido vossos passos, e ouvido vossa conversação com minha pobre Épica. Ainda ontem lhe dizias ao pé da cabana de seu velho pai: Amanhã, quando a lua estiver em meio giro, eu te aguar- darei no cume do outeiro.

 

— Espião infame! – exclamou o moço desatinado, arremessando-se contra o cacique.

 

    — Esperai, mancebo, esperai, lhe disse o índio, juro-vos por Tupã que hei de matar-vos ou morrer às vossas mãos, e isso antes do meio giro da lua; porque a essa hora Épica, a inocente Épica, virá louca, correndo ao vosso apelo, e só um de nós a deve receber. Se fordes vós, ao menos eu não testemunharei semelhante aviltamento.

 

— Calai-vos, – disse Gastão, puxando novamente pela espada.

 

O índio porém, como se não reparasse naquele movimento do jovem oficial, continuou:

 

— Vossa entrevista será ao meio giro da lua; mancebo, vos antecipastes; ainda me resta pois uma hora, peço que me escuteis.

 

    Havia um não sei quê de profundo, de solene, no acento dessas palavras que revelavam inabalável resolução.

 

A seu pesar Gastão sentiu-se comovido, e respondeu:

 

— Eu vos escuto.

 

 

 

III

 

    — Muitas luas se hão passado, mancebo, – continuou o cacique, em voz magoada, – muitas luas já, e tantas que nem vos sei dizer. Era uma tarde, bela como foi a de hoje; mais bela talvez, porque era então a lua das flores, e eu dela me recordo como se fora hoje...

 

    Sim, era uma tarde de enlevadora beleza; nela havia sedução, e poesia, nela havia amor, e saudade. Sabeis vós o que nós outros chamamos – lua das flores? É aquela em que um sol brando, e animador, rompendo as nuvens já menos densas, vem beijar os prados, que se aveludam, enamorar a flor, que se adorna de louçanias, vivificar os campos, que se revestem de primoroso ornato, afagar o homem, que se deleita com a beleza da natureza. É a lua em que os pássaros afinam seus cantos melodiosos, é a lua em que a cecém mimosa embalsama as margens dos nossos rios, em que as campinas se esmaltam de flores odorosas, em que o coração ama, em que a vida é mais suave, em que o homem é mais reconhecido ao seu Criador...

 

Ele fez uma pequena pausa e continuou:

 

    — Era pois na lua das flores, que à tarde um velho cacique e um mancebo índio, do cume deste mesmo outeiro, lançavam um olhar de saudosa despedida, sobre o navio normando, que levava destas praias uma formosa donzela. Era ela filha desse velho cacique, que com mágoa a via partir para as terras da Europa; mas a formosa Paraguaçu de há muito a havia distinguido entre as demais filhas de caciques; e sua afeição por ela era sincera, e imensa. Paraguaçu seguia para a França, onde devia receber o batismo, tomando por sua madrinha a célebre italiana, Catarina de Médicis, cujo nome tomou na pia batismal, e não podendo separar-se da amiga querida, levava-a consigo, arrancando-a dessarte ao coração de seu pai, e aos sonhos deleitosos do moço índio, que magoado via fugir-lhe a mulher de suas afeições. Épica, Sr., chamava-se essa jovem índia. Épica era o seu nome. A sua ausência não seria prolongada, o velho e o moço não o ignoravam; mas eles a amavam tanto, que foi-lhes preciso chorar. Seria um pressentimento a dor que os afligia? Foi talvez... choraram ambos: entretanto, o velho era um bravo, e o moço já um valente guerreiro.

 

    Ela, entanto, só concebia a dor do velho, as saudades paternas agravavam mais a mágoa. Seu coração ainda virgem desconhecia as delícias e as torturas do amor. O índio, pois, era-lhe indiferente, se é que indiferente se pode entender um homem que estava sempre a seu lado, e que tinha em suas veias o sangue de seu pai. Este mancebo índio era filho de um irmão do velho cacique, e seu íntimo amigo. Destinado desde a infância para esposo de Paraguaçu, este mancebo nunca pôde amar, nem tampouco inspirar-lhe amor. Entretanto Paraguaçu era bela! Ele amava perdidamente sua jovem parenta: Épica era mulher de suas doidas afeições, porém esse amor puro como a luz da estrela da manhã estava todo cuidadosamente guardado no santuário do seu coração; uma palavra, um gesto, não havia maculado ainda a pureza desse sentir mágico, e deleitoso. Épica era pura e inocente como a pomba que geme na floresta, seu coração conservava ainda o descuido enlevador dos dias da infância. Oh! Ela era como a açucena à margem do regato... O velho cacique atentou nas lágrimas do guerreiro jovem; e num transporte afetuoso, apertando-o contra seu coração, apontando para o extremo do horizonte, onde se perdia já o navio, disse-lhe:

 

— Sê sempre digno de mim, e de teu pai: quando ela voltar será tua.

 

Oh! O juro.

 

O moço ajoelhou-se aos pés do irmão de seu pai, e beijou-lhe as mãos com o entusiasmo do reconhecimento...

 

     — França! França!... – exclamou o tupinambá depois de alguns momentos de amargurado silêncio – pudera eu esmagar-te em meus braços!!!

 

— Passaram vinte e quatro luas, – continuou serenando-se um pouco, – o mancebo as contara por séculos. Ao fim de cada dia vinha ele ao cimo deste outeiro, e daqui perscrutava os mares nus duma vela que viesse lá das partes do ocidente e, quando caía a noite, volvia triste e desconsolado aos lares do velho cacique. O mísero velho tinha cegado nesse curto espaço, e só da boca do mancebo esperava cada dia a nova feliz que o havia de lançar do fundo das suas trevas, no gozo da felicidade. Assim se passaram muitos dias... mais uma vez a lua veio estender seu lençol de prata sobre a superfície desta imensa baía, e confundir suas saudades às saudades do moço, que a contemplava com melancolia, e ainda assim a suspirada Épica não voltara às praias do seu país. A desesperança começava a lavrar no coração do moço guerreiro. O velho sentia maiores saudades; porém esperava com mais paciência.

 

    Um dia, porém, um navio alvejou ao longe; era ela; seu coração estremeceu de íntima satisfação; no coração do velho cacique o transporte não foi mais vivo. Seus olhos a viram ainda assim; ele mal podia acreditar em tanta ventura. Esse navio tão ansiosamente esperado chegara enfim, e com ele a vida, a felicidade do mancebo. Ao menos assim o acreditava ele, louco de alegria. O anjo dos seus sonhos, o encanto dos seus dias, o ídolo do seu coração, esse navio lhe acaba de restituir. O velho, tateando as trevas de sua noite eterna, correu pela mão do mancebo ao encontro da filha. Era um espetáculo bem tocante ver esse velho guerreiro chorar, e rir de prazer, com a ideia de tornar a abraçar aquela filha mimosa, que tocando-a, jamais a tornaria a ver. Épica, a jovem índia, trajava ricos vestidos à europeia. Apertava-lhe a cintura delgada, e flexível, como a palmeira do deserto, um cinto negro de veludo, e as amplas dobras do seu vestido branco envolviam-lhe o corpo mimoso, delgado, como a haste da açucena à beira-rio. As tranças negras do azeviche, que lhe molduravam as faces aveludadas, eram aqui e ali entremeadas de flores artificiais. Era todo artifício aquele trajar até então desconhecido do moço índio; ele sentiu repugnância em ver aquela, que era tão simples no meio da solidão, ornar-se agora de trajes, que faziam desmerecer sua beleza, e seus encantos...

 

    — Paraguaçu, de volta a sua pátria, – continuou o cacique após breve pausa, – parecia sentir na alma os efeitos desse inexprimível sentimento de suprema felicidade, que deleita, e enlouquece o infeliz proscrito, no dia em que, inda que com as vestes despedaçadas, e a fronte cuspida pelas vagas, uma delas, mais benéfica, o arremessa à praia, onde seus olhos viram a primeira vez a luz. Trazia nos lábios um sorriso, que levava facilmente a compreender o prazer que lhe enchia o coração. Pela mão dessa bela princesa, seguia, débil e abatida, melancólica e desconsolada, a jovem donzela brasiliense. Semelhava ela o lírio, crestado pela ardentia da calma; borboleta, que a luz da vela emurcheceu as asas.

 

    Contraste doloroso havia entre a fronte pálida e abatida da moça índia, e a fronte altiva, e risonha da jovem esposa de Caramuru.

 

     — Perdoai-me, continuou o cacique, se insisto nestas particularidades; o que me resta a contar provar-vos-á que elas não são aqui inúteis.

 

     Um vago, mas doído pensamento, magoou o coração do moço guerreiro, à hora em que essa mulher, que há muito ele criara seu ídolo, lhe aparecia assim melancólica, e triste como a estátua do sofrimento. Que terá ela? Interrogava ele a si mesmo. Terá saudades desse país longínquo, que apenas viu, onde não pode contar um amigo, onde tudo lhe é estranho, linguagem, costumes, rostos e religião?!...

 

    Enquanto ele assim discorria, a moça aproximou-se de seu pai, e sorrindo-se por entre lágrimas, estreitou-o com ternura filial contra o coração. Foi um prolongado abraço: um profundo suspiro lhe rasgou o peito; e uma só palavra ela não proferiu. E tornava a apertar o velho; e as lágrimas lhe corriam pelas faces; e a moça parecia não se poder separar do pai, que chorava de alegria, sentindo-se abraçar por sua filha querida.

 

    Com indizível ansiedade aguardava o mancebo por uma só palavra da sua querida Épica; mas embalde. Ela parecia toda abstrata, não na contemplação de seu pai, mas numa ideia oculta, que dir-se-ia lhe amargurava a alma. Mas ele, vencendo o pensamento doloroso, que lhe atravessara a mente, aproximando-se dela, em voz de súplica, disse-lhe:

 

     — Épica! Épica, nem uma palavra para o vosso irmão?... – Errou-lhe então nos lábios um mimoso sorriso, duas lágrimas ressaltaram-lhe dos olhos, e rolaram sobre as faces, e ela estendeu-lhe a mão amiga, que o moço beijou com reconhecimento. Essa mão, esse beijo, desfizeram o ponto negro, que assomara de improviso na alma do guerreiro brasiliense, como desfaz o vento a nuvem carregada à hora do meio-dia. Só o extremo do seu amor lhe representara Épica triste, pálida, e desconcertada. Épica era a mesma virgem das florestas, com a diferença única de uma inteligência cultivada pelo trato europeu. Esses trajes, que tanto haviam afligido ao mancebo, davam agora maior realce à beleza daquela que lhe sorria. Sua voz era mais melodiosa, mais doce, pareceu-lhe, ouvindo-a, melhor que a do sabiá, melhor que as notas da perdiz mimosa, que a própria pecuapá gemendo à noite. Ele acreditou que Tupã lhe havia arrebatado um instante para lhe restituir mais sedutora, mais bela, que os próprios anjos que lhe entoam hinos. O índio escutava com enlevo; e cada uma de suas palavras causava-lhe suavíssima impressão. Como Paraguaçu, Épica havia recebido o batismo. Conquanto a jovem princesa do Brasil não poupasse esforços em chamar os homens do seu país ao grêmio da igreja; conquanto sua voz fosse persuasiva, suas palavras insinuantes; todavia foi a voz de Épica que rendeu o moço índio. Ele abraçou o cristianismo, quando soube que Épica era cristã. Oh! Mancebo, – murmurou o tupinambá, – quanto pode o amor, quando ele é santo, como o que há no céu!...

 

    Raiou enfim o dia, em que a donzela brasiliense devia pertencer pelo matrimônio ao homem, que a idolatrava; e ele a levou pela mão aos pés do altar; e um sacerdote cristão abençoou os noivos que estavam ajoelhados, à face de grande multidão. À hora, porém em que Épica pronunciava os votos, a voz alterou-se-lhe; sua mão resfriada estremeceu convulsa na mão do esposo. Ele olhou-a surpreso. Épica era pálida como um cadáver. À última palavra do sacerdote, a moça caiu desalentada.

 

    O tupinambá levantou-se, deu alguns passos rápidos, e incertos. Fulguram-lhe os olhos na escuridão da noite, e um tremor convulso lhe agitou os beiços. Depois foi pouco, e pouco serenando, e reatou o fio de sua narração.

 

 

 

IV

 

    — Era alta noite, – prosseguiu ele, com uma voz cavernosa, – o vento ciciava entre os palmares, e a lua, prateando a superfície das águas, passava melancólica por cima destas árvores anosas. A sururina desprendia o seu canto harmonioso; na mata ondulava um vento gemedor, e o mar quebrava-se nas solidões da praia. Sobre o cume deste mesmo rochedo, mancebo, a essa hora da noite, silenciosa, e erma, um jovem índio, e uma donzela americana, que o céu, ou o inferno havia unido em matrimônio, naquele mesmo dia, em confidência dolorosa, tragava até as fezes o amargor da desonra, e da ignomínia. De joelho a mulher fazia a mais custosa, e triste confissão, que jamais caiu dos lábios de uma mulher.

 

    — Gupeva! Meu Gupeva – exclamava ela. – Assim se chamava, senhor, o jovem esposo. — Meu irmão, meu amigo, poderás perdoar-me?

 

— Fala! – disse-lhe Gupeva, tremendo de furor.

 

    — Vou merecer o teu desprezo, o teu abandono; mas ao menos peço que meu pobre pai ignore tudo. Gupeva, confiei em ti; talvez minha confiança te ofenda; mas tu conheces a meu pai... ele não poderia sobreviver à minha...

 

— Cala-te! Cala-te, mulher, – exclamou com desespero assustador o desgraçado esposo.

 

    — Não, – continuou ela sem se perturbar. Tens sobre mim direito de vida, ou morte, mata-me Gupeva; mas ouve-me primeiro.

 

— Épica! Épica, oh! Se isto fora um sonho!

 

— Amei, – continuou ela, – amei com esse amor ardente, e apaixonado que só o nosso clima sabe inspirar, com essa dedicação de que só é capaz a mulher americana, com essa ternura, que o homem nunca soube compreender. E sabes tu que homem era esse?

 

— Basta!

 

— Oh! É preciso que me escutes até o fim, depois mata-me.

 

    Esquecida, prosseguiu Épica, de que o homem de suas afeições chamava-se o conde de..., — Gupeva, eu cometi uma falta, que mais tarde devia cobrir de opróbrio o homem que me recebesse por esposa. O amor não prendeu o coração do conde, ele esqueceu os extremos de meus afetos, e desposou uma donzela nobre de sua nação, sem sequer comover-se das minhas lágrimas.

 

    Ah! bem tarde conheci eu a grandeza do meu sacrifício; bem tarde reconheci a perfídia, e a indignidade no coração daquele que era até então o meu ídolo. A pequenez da minha origem apagou-lhe o amor no coração... O conde de..., Gupeva, era já esposo, e eu... eu trazia em meu seio um filho, que há de envergonhar-se do seu nascimento!...

 

    Ao nome do conde de..., proferido pelo tupinambá, um calafrio mortal percorreu os membros do jovem Gastão, que submergido em longas cogitações, ouvia a narração do índio: no fundo do coração despontava-lhe um tormento inqualificável.

 

     O índio prosseguiu: — Ela estorcia-se convulsa no leito de relva a meus pés; porque, senhor, esse esposo desventurado, que na primeira noite do seu casamento, ouvia semelhante confissão, esse homem que acabara de receber a mulher impura, e maculada pelo filho da Europa, esse homem enfim que devorado por um amor louco, e apaixonado, estampada em sua fronte o ferrete da ignomínia, o cunho do opróbrio, era eu.

— Vós! – exclamou Gastão, com um sentimento indizível.

 

— Sim eu!... Eu mesmo, – respondeu o cacique, com voz de trovão.

 

     E prosseguiu: — O que se passou porém nessa noite de tão amargurada recordação, só Deus e eu sabemos. O sedutor de Épica, mancebo, era um francês, um francês é um cristão; bem, desde essa hora eu deixei de o ser. Tupã não abandona seus filhos... mancebo, eu não amo o Deus dos Cristãos. O conde de... era filho da Igreja.

 

Gastão tentou interrompê-lo; mas ele continuou:

 

     A vergonha, a dor, bem depressa levaram ao sepulcro a desgraçada Épica. Não segui de perto essa mulher por quem houvera dado todo o meu sangue, se disso dependesse a sua ventura, porque restavam-me penosas missões a cumprir. Penosas, mancebo, e bem árduas: vivi para cumpri-las; ouvis?

 

    Restava-me o dever de velar por essa menina, que tem em suas veias o sangue francês, velar pela filha do conde de..., velar finalmente por Épica, essa jovem donzela a quem pretendeis seduzir.

 

    — Oh! – Exclamou Gastão, pálido como o sudário dum morto. – Meu Deus! Meu Deus, onde estou eu!...

 

— Inda uma outra missão me reteve a vida, continuou Gupeva, – a vingança...

 

    No momento em que no seio da sepultura se escondia para sempre os restos daquela a quem eu tanto amei, de joelhos, senhor, de joelhos jurei que havia de vingá-la. Anhangá escutava os protestos da minha alma. Um guerreiro amanhã desposará a minha Épica, e hoje, daqui a um minuto, eu terei vingado a mulher que lhe deu a vida. Agora, mancebo, estás em meu poder; eu podia prender-te; aqui está a suçurrama, podia apresentar-te a minha tribo, e fazer-te morrer como meu prisioneiro, mas não quero; duas razões que me obrigam a proceder ao contrário. Para dar-te essa morte honrosa era preciso dar a causa dela; minha desonra se tornaria manifesta; e por outra: tu, covarde europeu, hás de empalidecer em face da morte: quero poupar-me a vergonha de uma confissão, quero poupar a meus irmãos o espetáculo de um covarde. Prepara-te para morrer; ou mata-me...

 

    O que então se passava na alma do infeliz mancebo, a quem eram dirigidas tais palavras, não pôde a pena descrever. O mais doloroso golpe acabava de traspassar-lhe o coração; golpe o mais profundo, mais dilacerante, que jamais feriu o coração de um homem. Gastão não amaldiçoou a hora do seu nascimento; mas pediu a Deus a morte, o esquecimento. Todas as suas ilusões estavam dissipadas; desfeitos todos os seus sonhos. Já não era Gupeva que se interpunha entre ele e o seu amor, era Deus, era a natureza, era a sua própria consciência. Depois do amor, a morte... ele havia dito... Seria acaso um erro?

 

     — Da minha vingança serás tu a primeira vítima, continuou o cacique: mais tarde o conde de...

 

    — Eis-me, – disse Gastão, interrompendo. — Gupeva, eu sou filho do conde de... não me reconheceste então? Oh! Eu sou francês, sou o filho do sedutor da vossa esposa, sou irmão de Épica...

 

    — Infame! – rugiu o velho tupinambá. — Infame filho do conde de..., não terei compaixão de ti. E brandindo o seu tacape, o cravou com fúria no peito do jovem oficial. E batia com os pés na terra; e fazia com gritos um alarido infernal.

 

    Gastão, levando a mão à ferida, obrigou-o por um instante a calar-se, e disse-lhe:

 

— Obrigado, Gupeva, eu queria a morte.

 

— Covarde! – exclamou o índio.

 

    — Não me insultes na hora do passamento, – tornou-lhe o moço empalidecendo. — Cacique, eu podia matar-te; mas para que quereria eu a vida depois do que me acabaste de narrar?...

 

    Nessa hora, a lua rompendo o negrume das nuvens aclarou com sua face pálida o cimo do outeiro. Era o meio giro da lua: a hora da entrevista tinha soado.

 

    E uma visão angélica, uma mulher vaporosa, apareceu no cume do outeiro, como um anjo mandado pelo Senhor para receber a alma do mancebo cristão, que ia partir. Era Épica.

 

    Ela soltou um grito de angústia à vista da cena, que mercê da lua, se apresentou a seus olhos. Esse grito, essa voz tão conhecida, tão amada, atraindo a atenção do moribundo, fez calar o guerreiro índio, que apupava a sua vítima.

 

Ela avançou alguns passos, e olhando fixamente para seu pai, disse-lhe:

 

— Gupeva, por que o mataste? Cruel! Sabes acaso, que este é o homem a quem adoro?

 

    Gupeva, esse feroz Gupeva, esse bárbaro que se ufanava da sua vingança até na presença da morte, à voz da moça, cruzou os braços sobre o peito, e com um olhar que queria dizer: Perdão, exclamou com aflição:

 

— Épica!...

 

    Ela pareceu não ouvir essa única palavra, que em si resumia quanta ternura há no coração dum homem, seus grandes olhos negros como o azeviche fitavam-se desvairados no mancebo agonizante. Ondulavam à mercê do vento suas madeixas acetinadas: e seu corpo flexível, e mimoso como o leque da palmeira, cedendo a um vertiginoso ondular, caiu inerte sobre o jovem Gastão.

 

Ele olhou-a com assombro, e disse-lhe:

 

— É um crime.

 

    — Monstro! – tornou ela para Gupeva, que, com os olhos fitos no chão, não se atrevia a encarar a donzela. — Monstro! Foi para me rasgares o coração que me criaste em teus braços!... E voltando-se para o jovem francês, disse-lhe:

 

— Gastão, meu querido Gastão, vive para a tua Épica.

 

    Nesses olhos em que já se estampava a morte, um átomo de vida reapareceu.

 

    — Épica, – disse ele, – o nosso amor era um crime... Épica, eu sou teu irmão!...

 

 

 

V

 

    Ao alvorecer do dia rebentou a tempestade há tanto ameaçada. O mar rugia com assustadora fúria, o vento raivoso sibilava por entre as enxárcias do infante de Portugal que, não obstante as ordens recebidas, não podia levantar âncora sem grande perigo de despedaçar-se todo de encontro a algum arrecife. Abrigado no ancoradouro ainda o comandante temia o furor da tempestade. O navio arfava inquieto: joguete das ondas, ele estalava como se houvera de desjuntar-se todo. Um sopro mais violento da tempestade e o pobre lenho seria aniquilado. A chuva desprendia-se em torrentes; o raio sibilava ameaçador; o mar era um lençol negro, e de sinistro aspecto. O mais corajoso tremia; só Alberto parecia insensível à voz do temporal. Sua fronte ardente, seus olhos requeimados pela vigília da noite, seu coração opresso pelo pressentimento de terrível sucesso, inquieto pelo temor de alguma desgraça irremediável, abatido, angustiado pela não aparição de seu louco e infeliz amigo, parecia não compreender a grandeza do perigo que os ameaçava. O mar cuspia-lhe, irritando as faces, o vento insinuava-se, rumorejando, por entre as madeixas de seus negros cabelos, e ele não atendia, nem aos insultos do mar, nem o raivoso perpassar do vento.

 

     Alberto pensava em Gastão. Tinha visto amanhecer sem que Gastão voltasse ao navio: era preciso que já não existisse para assim deixar de cumprir sua promessa!

 

    Alberto comunicou ao comandante seus receios, e o desassossego da sua alma: toda a oficialidade, e toda a marinhagem sentiram interesse pelo jovem francês.

 

    Ao meio-dia a tempestade serenou: o mar tornou-se calmo e pacífico, o vento conteve-se nos seus limites. Agora o azul das nuvens refletia-se nas águas da imensa baía, e as vagas se moviam mansamente, aniladas, e risonhas, como um ligeiro sorriso. Então o comandante deu suas ordens; um escaler bem tripulado recebeu o oficial português, que um momento depois pesquisava ansioso vestígios do seu infeliz colega. Incansável, devassava o moço todos os subúrbios da pequena habitação, incansável, percorria ele todas as sendas, todas as devesas, todos os recônditos lugares daquele vasto terreno; era embalde. Extenuaram de cansaço, ele e um velho marinheiro, que o seguia; enquanto outros investigavam outros lugares. Alberto chegou ao alto do outeiro, onde na noite antecedente deu-se a cena que acabamos de narrar.

 

Oh! Que doloroso espetáculo!

 

    Sentado no tronco de uma árvore estava um velho tupinambá; brandia em suas mãos um tacape ensanguentado: a seus pés estavam dois cadáveres!... Reclinadas as faces ambas para a terra, Alberto não pôde reconhecer seu amigo, senão pelo uniforme de Marinha, que o sangue tingira, e que as águas, que se desprenderam à noite, haviam ensopado, e enxovalhado. O outro cadáver era o de uma mulher... Bela devia ser ela; porque seus cabelos longos, e ondeados, fáceis aos beijos da viração da tarde, esparsos assim sobre o seu corpo, davam-lhe o aspecto de uma Madalena.

 

Alberto exclamou: — que horror! e cobriu o rosto com as mãos, caiu por terra.

 

     Depois erguendo-se com ímpeto raivoso e aproximando-se do índio, que imóvel parecia aguardá-lo, disse-lhe, apontando para o seu infeliz amigo:

 

— Bárbaro!... Por que o assassinaste?

 

     Gupeva, pois era ele, soltou uma gargalhada, estridente, e descomposta, que lhe tornou o aspecto sinistro, e medonho, e disse:

 

— Ah! Minha filha... não a vedes? – E de novo pôs-se a brincar com o tacape.

 

— Louco! – murmurou Alberto, – a minha vingança seria um crime.

 

    Os seus companheiros de pesquisa foram-se pouco e pouco reunindo, ele voltou pálido, e com a mágoa no coração para junto do cadáver do desditoso Gastão.

 

Ninguém curou mais do louco.

 

    Quando iam porém deitar os cadáveres nas sepulturas, e viram o rosto da mulher adormecida ao lado do jovem oficial, voltaram para cima, todos os circunstantes agruparam-se, e curiosos procuravam ver tanta formosura. Alberto, surpreso, exclamou:

 

— Que extraordinária semelhança!

 

— Eles não podiam deixar de ser irmãos, – exclamaram unanimemente os companheiros de Alberto.

 

    Ah! Era Épica, era a virgem das florestas, era o anjo dos sonhos mentirosos de Gastão; era ela que acabava de conduzi-lo a Deus, e que ia descer com ele à sepultura. Formosa ainda na palidez de morte, Épica levou Alberto a perdoar os extremos de seu infeliz amigo.

 

    Alberto ajoelhou-se à orla da sepultura, e orou; todos imitaram, e aquelas regiões selvagens guardaram respeitoso silêncio enquanto durou o ato religioso, enquanto a oração subiu da terra ao trono do Senhor.

 

    E quando eles deixaram no sepulcro aqueles que tão extremamente se adoravam, e quando lembraram-se novamente do velho tupinambá, e o olharam, ele tinha a face em terra, e o tacape lhe havia escapado das mãos. Então um velho marinheiro, tocando-o com a ponta do pé, e voltando-lhe o corpo para o lado, disse:

— Está morto!