LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Poesias líricas, de Luiz Delfino


Texto-fonte:

 

Luiz Delfino dos Santos, Poesia Completa, org. de Lauro Junkes,

Florianópolis: ACL, 2001, 2 v.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

O anjo de minha poesia (1852)

História de um amor (1854)

Origem das nuvens (1854)

Vingança (1855)

Amor e dever (1855)

Hino de morte (1855)

Página escura (1855)

Memória (1855)

Desejo de viver (1856)

Desilusões e morte (1856)

Gritos de um louco (1856)

Miosótis (1856)

A flor do vale (1857)

A sorte (1857)

A lâmpada eterna (1857)

Não rasgues teu nome (1857)

Cismando

A vida

A abelha

O nome

A ave do amor

Salve, ó livro

Aquela tarde

Crer e morrer

Palmas e loiros

Virtus

Pauperrima domus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O anjo da minha poesia

 

Je fus poète alors! Sur mon âme embrasée

L’imagination secoua sa rosée,

Et je reçus d´en haut le don intérieur

D’exprimer par des chants ce que j´ai dans le cœur!

 

Brizeux – Marie

 

 

Quando perco numa hora a essência de homem,

Vejo as asas roçar-me de um arcanjo,

Caídas pela dor;

Como pomba ferida pela seta,

Que as brancas asas roça pela relva,

Fugindo ao caçador.

 

Desponta sempre no horizonte da alma,

Como entre a noite e o dia a estrela d’Alva,

Que triste pranto sua;

Vem aclarar-me a morredoura chama

De uma vida mal gasta entre a desordem,

De óleo quase nua.

 

E o morrão a atiçar, sempre co’os olhos,

Como a lua do céu quando goteja:

Inda às franjas da tarde,

Uma gota insensível se desprende

Que cai sobre o brandão, que mais o apaga,

Que então apenas arde.

 

E as sombras de minha alma se debuxam

Tristes pelos meus lábios, como quadro

De lôbregos clarões;

E quais brisas casando aos sons do mocho

Seus ais na aba de um lago: assim tempero

Minhas tristes canções.

 

Perdem-se sempre pelo mar, que as leva,

Dormem sem vida no regaço ocultas

De um triste e ermo desvio;

Confundem-se co’as ramas de algum tronco,

Abraçam-se dormentes, mal ouvidas,

Co’as vagas de algum rio.

 

E o homem? — Pedis embalde à sorte o pranto,

Os soluços da vaga! — Se os escuta,

É nos lábios sem — ai!

Vagos sons, que o não movem, vão passando,

Como aura pelo seixo asas roçando

Lamentosa lá vai.

 

E embalde peço ao anjo dos meus sonhos,

E da minha poesia — alma afinada

Pelas fibras da minha,

Crendo que às vezes sobre um brejo infecto,

Paira a luz de uma estrela abandonada,

Da abóbada rainha.

 

Mas a esperança? — num mirrado peito,

O que pode sorrir? — em seus abismos,

Que luz há de raiar?

Nem a vejo indistinta, como a vela,

Quase sombra nas orlas do horizonte,

Começando a nadar.

 

Ah! se houvesse no mundo por descuidos

Uma alma de mulher que me entendesse,

Sempre cândida e pura!

É verdade: — talvez que inda algum dia,

Transportada minha alma à nossa esfera,

Me sorrisse a ventura.

 

Mas a taça esgotei de um jato enorme

Da desgraça fatal! descri do mundo:

Meu sonho abandonei:

Disse então: — quando o mar tornar-se em flores,

Em pérolas a terra, hei de no mundo

O anjo ver que sonhei.

 

Oh! inda bem, meu Deus, que me o escondeste

Deste mundo falaz! — talvez que louco

Por seus mimos gozar,

Me esquecesse de ti: — foi bom: stou salvo!

Ah! nunca dês que a virgem de meus sonhos

Me venha perturbar.

 

Então lá quando o véu a noite estenda

De seu rosto tisnado, — em ti cismando,

Urdirei teus louvores,

Como notas que uma ave aos céus entoa

De formoso rosal, — entrelaçadas

Com o incenso das flores.

 

Então quando amanhã o sol erguer-se,

Como do leito nupcial o esposo

A fronte levantando,

Em vez de ter nos braços apertada

A mulher, que encontrasse, — as tuas glórias

Levarei publicando.

 

E inda às abas da noite cismadora,

Sobre o leito da tarde adormecida

Entre sombras azuis,

Que vai à Eternidade caminhando,

Hei de enviar-te uma oração piedosa

Das plantas de uma cruz.

 

Bem sei: de mim há de zombar o mundo!

Deixá-lo entre ilusões! — Quando eu te adoro

Da terra respeitoso,

Tenho as horas mais plácidas de um sonho,

Da vida informe a parte mais formosa,

Da terra o maior gozo...

 

Entretanto minha alma espezinhada

Do mundo — se dilata, e se sublima,

Co’o cautério da dor;

Lâmpada exausta, cuja Luz parece

Que em fumo para os céus vai-se elevando

Ao templo do Senhor.

 

Não zombeis, homens, não! O Eterno é justo:

Vós ficareis na terra como tochas

Mal gastas do tufão,

E eu irei para os céus antes — que o vento

Da desgraça gastou, que a vós mais cedo

De minha alma o brandão.

 

Oh! como é belo já sem crer no mundo,

Puro como um aroma dos altares

Para os céus levantado,

Esperar o solene passamento,

Contra as portas a abrir-se do infinito,

Sem sustos arrimado.

 

E entanto eu canto; e as notas que derramo

Como sombras de lâmpada noturna

Num templo amortecida,

Tal do brandão vão-se escoando lôbregas

De minha alma já frouxa, já tombada

Aos extremos da vida.

 

E o meu anjo não falta; e sempre triste

Vem minha alma roçar co’as débeis asas,

Caídas pela dor,

Como pomba ferida pela seta,

Que as brancas asas roça pela relva,

Fugindo ao caçador!

 

 

 

História de um amor

 

 

Nesta página molhada

Com uma lágrima de dor,

P’ra sempre deixo lembrada

A história de nosso amor.

 

Que queres tu que te eu faça?

Achei-o em meu coração:

Podes chamá-lo desgraça:

Não erras, não mentes, não!

Este amor, que foi gerado

De um raio dos olhos teus,

Pelo destino embalado,

Talvez maldito de Deus,

Eu não queria. Não pude

Nunca a ideia conceber

De te manchar a virtude,

Auréola do teu viver.

Mas disse: — pode-se amá-la,

Sem ela mesmo o saber:

Vê-la em sonhos e beijá-la,

Cair aos seus pés prostrado,

Febril, louco, delirante;

Pois este amor ignorado,

Que a mim me fora bastante,

Que mal lhe pode fazer?

 

Cri eu, ser o mesmo, amá-la,

Bem como se ama a pintura

De um quadro, que por ventura

Caiu sob o nosso olhar.

Tão baixo estava a mirá-la

No céu tão alto em que a via,

Que eu a mim próprio dizia:

— Não há perigo em amar.

Há tanta cousa que amamos

Sobre este pobre planeta,

Há tanta cousa que olhamos

Sem que um crime se cometa,

Que a olhar mais docemente,

Mesmo com certa paixão,

Ser mesmo um pouco imprudente

Num terno aperto de mão,

Quando tinha em minha frente

Essa sublime visão,

Esse raio de alegria

Que dava em meu coração,

Que dentro da alma vibrava,

E de um mistério a inquietava,

De emoção a embebecia,

Que ante essa mulher sublime,

Ai! tudo ser bem podia,

Mas não podia ser crime

O que fosse admiração.

 

E pus-me a amá-la.— Gostava

De olhá-la profundamente:

Nessa fronte inteligente,

Que como o céu se encurvava,

Eu lhe procurava a história

Do que dentro se passava:

Minha fronte merencória,

Como vergasta pendida,

Bebia o calor da vida

Na vasta chama, em que toda

Parecia ela envolvida.

Era um perfume de roda

Na nuvem dos seus vestidos!

Dos seus cabelos compridos,

Negros, finos, luzidios,

Saíam como que rios

De luz cambiante e cheirosa,

E sobre a fronte orgulhosa

Enrolados lhe pousavam,

Como coroa cintilante;

Os seus pés escorregavam

Sobre o tapete da sala,

Como os silfos, que passavam

Sobre os seus lábios sem fala,

Mas onde se adivinhava

Na ligeira convulsão

O acumular-se da lava

Na cratera do vulcão.

 

Essa boca não falava!

Mas ai! dela o que eu ouvia!

Era uma eterna harmonia,

Que minha alma inebriava.

Já não tinha liberdade

De fugir ao encanto dela...

Era queimar-me à vontade

As asas em luz tão bela...

Envenenara-me a essência

Que seu corpo trescalava;

Louco já, sem consciência,

Preso ao meu cego desejo,

Pela morte procurava

No fundo abismo de um beijo.

Ai! eu já me deleitava

Não sei com que pensamento:

E depois? Que me importava

Esse importuno depois,

Que fora talvez mortalha

Que um mau destino só talha

Para pôr sobre nós dois.

 

Sobre nós dois? — Porém ela

Tão pura e casta e tão bela,

Não! amar-me não devia:

Nem mesmo amar-me queria...

Custava-lhe muito... tanto,

Que a revoltava... No entanto,

Quando eu aos seus pés chegava,

O seu olhar de rainha

Tão doce se aveludava,

Tão doce chama continha,

Que o rosto lhe iluminava;

Que não era ilusão minha,

Também ela se alegrava

De ver-me, como eu a via:

Ai! assim de dia em dia

Surdo incêndio se ateava.

 

Lavrou o fogo... A virtude

Quase estalava por fim:

E nesta batalha rude

Não sei dela, nem de mim.

Eu sou o mar que soluça

Na praia, em que se debruça,

Como esplêndida voragem

Espelhando a sua imagem;

Ela é a planta isolada

Que sobre a praia deixada

Do vento ao rijo fragor,

Sobre um árido rochedo

Nasce, vinga, e cresce a medo,

Dando solitária flor.

Se a tempestade passar

Na asa de um vento mais forte,

Pode ela encontrar a morte,

Rojada ao fundo do mar.

 

Nesta página molhada

Com uma lágrima de dor,

P’ra sempre aí fica lembrada

A história de nosso amor.

 

 

 

Origem das nuvens

 

 

I

 

 

A um filho das brenhas contando as saudades

Da taba que tinha deixado, a aprendi;

Que lenda formosa! Bem anos passaram,

Morreu o selvagem:— e eu nunca a esqueci...

 

 *

* *

 

Um nome soava: rompia um gemido,

As vagas se abriam, deixavam passar,

Tão linda!... tão linda!... coberta de aljôfares,

Calçando conchinhas, a Virgem do mar.

 

Trazia uma lira, que prata não era,

Que não era oiro, nem era marfim:

Mas era uma concha forrada de pérolas,

Nos céus encordoada, de preço sem fim.

 

Arregaça as roupas, as pernas diáfanas

Põe uma sobre outra, numa onda do mar:

Encosta a cabeça nas asas de um zéfiro,

À praia se chega; começa a cantar:

 

 *

* *

 

— Nasci nas neblinas das noites de outono,

Criei-me nas conchas das águas do mar;

As vagas me davam seu leite de espumas,

Os ventos me vinham no berço embalar.

 

Chamava os peixinhos das grutas algosas,

Miríades deles eis vinham de além:

Eu chamo as ondinas, dançando elas correm;

As vagas eu chamo, cantando elas vêm.

 

Os ventos trouxeram da lua estas roupas,

Os ventos trouxeram também este véu,

Tão branco!... tão branco!... da neve mais branca,

Colhida da neve que nasceu no céu.

 

E as vagas, e os ventos, e as castas ondinas,

E os peixes, que saltam, oh! tudo me diz:

— Princesa!... Princesa!... Deus salve a Princesa!

E eu sendo Princesa me sinto infeliz.

 

Duas lágrimas rolam depois pelas faces,

E os olhos da Virgem se viam pairar

Num vulto gigante, que a treva encobria,

Num monte inclinado p'ra as águas do mar.

 

  

II

 

 

Quem era o gigante do trono das rochas?

Vivia? ou cismava? Que faz ele ali?

Um dia, a desoras, cantando sem cuido,

Sem cuido, a desoras, cantando eu o vi...

 

— Nasci, branco orvalho, de um riso da aurora,

Criei-me saltando num seio de flor,

E as flores me davam bom leite em perfumes,

E as aves o sono num canto de amor.

 

As brisas, em bando, formando coreias,

Nos ombros de seda me vinham buscar,

Subindo as encostas das altas montanhas,

No topo das serras lá vão-me pousar.

 

No topo das serras de vez me deixavam,

Me deram uma lira de ferro e marfim:

Vesti-me de seda, coroei-me de névoas,

De aljofarezinhas calcei borzeguim.

 

Depois os perfumes subiam da terra,

As aves lá iam, lá mesmo cantar:

A voz das florestas tentava epinícios,

Cantava-me idílios a sombra do mar.

 

Firmado é meu trono nas rochas dos montes,

E as selvas e os montes aclamam-me rei:

— Feliz, bradam todos, feliz teu reinado!

Olhei para as águas cismando e chorei!...

 

 

III

 

 

E a turba descrida, que o via de longe

Na rocha, que entesta num céu nevoento,

Dizia: — É uma nuvem, que coroa o rochedo;

Os cantos, que ouvimos, são da asa do vento.­

 

E o Bardo dos Montes, no topo das serras,

Em cima das rochas cismando vivia:

Coitado! de uma harpa de cordas de ferro

Só mágoas tirava: só mágoas sabia.

 

 *

* *

 

E a Virgem das Águas nas praias boiava,

E os alvos vestidos rasgavam-se ao vento:

E os negros cabelos de pé sobre a fronte

Brincavam com as brisas de um céu pardacento.

 

E à vez encostada num leito de névoas,

Com a face tocada da poesia das águas,

Com os olhos banhados da luz das estrelas

Tocava... eram hinos; cantava... eram mágoas...

 

E a turba descrida, que a via sentada

Num leito de névoas, além a vagar,

Dizia: — É uma nuvem, que boia nas águas:

Os cantos, que ouvimos, vêm da água do mar.

 

 

 *

* *

 

E o Bardo dos Montes de pé sobre as rochas,

Cantando ou chorando, cismando vivia:

E a sombra gigante no trono das vagas,

Penhascos de prata, pairando se via.

 

E a Virgem das Águas tão louca!... tão louca!...

Vagava sem tino nas águas do mar;

E às vezes à praia chegava, e sorria,

Soltava uns soluços, tornava a chorar!...

 

E um dia, era cedo, e o sol não brilhava...

Do trono dos montes o Bardo saía,

Os troncos vergando da umbrosa montanha,

Com trêmulos passos à praia descia.

 

E os olhos ao longe, movendo piedade,

Pairavam nas águas de império sem fim,

E os dedos corriam nas cordas de uma harpa,

Que os ventos lhe deram de ferro e marfim.

 

 *

* *

 

E a turba descrida, que ao longe passava,

O Bardo dos Montes ouvindo cantar,

Dizia:— Que nuvem que boia na praia!

Que vagas que gemem na praia do mar!

 

 

IV

 

 

— Habito nos Montes, ó Virgem das Águas:

Em cima das rochas bem anos vivi:

Cismando, cantando, chorando, morrendo...

Morrendo... morrendo... morrendo por ti.

 

E o Bardo a procura, quer dar-lhe um abraço;

E a Virgem das Águas sorriu e chorou!

Tão louca! tão louca!... fugiu para os mares;

Correu sem sentidos: — cismou e voltou.

 

— Eu vim das montanhas, Princesa das Águas,

Por ter-me cansado de tanto te olhar:

Tem pena, não fujas do Bardo dos Montes;

Tem pena, Princesa das Águas do Mar!

 

Princesa, não fujas! Não vês? É tão frio

O vento da tarde! tão úmido o céu!

Tem pena do Bardo: sim! nega-lhe os risos,

Mas lança-lhe ao menos as pontas do véu.

 

Vem, sabe: em meu peito, lá dentro, há um vaso:

Na terra, que o enche, nasceu uma flor:

Se ao menos da morte, que morro, a salvasses?!

Ah! salva um raminho do ramo de amor!

 

Os ventos buscavam meu leito nos astros;

As flores me davam seu leite a beber:

As aves meu sono, cantando, embalavam...

Mas salva um raminho, que eu posso morrer.

 

E o Bardo dos Montes os braços estende:

E a Virgem das Águas sorriu e chorou:

Tão louca!... tão louca!... fugiu para os mares;

Correu sem sentidos: — cismou e voltou.

 

— Firmei o meu trono nas rochas dos Montes,

Sepulcro p’ra um morto na praia encontrei:

Sem ti, ó Princesa, viver não podia;

Sem ti, ó Princesa, sem ti morrerei.

 

Os ventos dos Montes buscar-me-ão às praias:

As flores às praias vir-me-ão perfumar...

As aves o sono da morte acalentam;

Chorando, soluçam as vagas do mar.

 

E o Bardo dos Montes os braços estende,

E a Virgem das Águas sorriu e chorou!

Tão louca!... tão louca!... fugiu para os mares...

Correu sem sentidos:— cismou e voltou.

 

— Os ventos buscavam meu leito nos astros,

As flores me davam seu leite a beber,

As aves meu sono, cantando, embalavam:

Contudo em meus reinos não pude viver...

 

Gemendo, cantando, chorando, morrendo,

Em cima das rochas bem anos vivi:

No leito das vagas me deixas chorando,

Cantando, gemendo, morrendo por ti...

 

E o Bardo dos Montes os braços estende,

O extremo suspiro da vida a exalar,

Lutando com as trevas nas vascas da morte,

Os seios encontra da Virgem do Mar.

 

— Não morres, ó Bardo do reino dos Montes,

Exclama a Princesa das Águas do Mar,

Teu peito é mais firme que as rochas das praias,

Vem pois em meus reinos comigo reinar.

 

E o Bardo dos Montes a aperta em seus braços,

E em leito de névoas deitados lá vão:

Tão loucos!... tão loucos!... chorando e sorrindo,

Chorando e sorrindo de louca paixão...

 

Estalos de beijos, saciar de desejos,

Esvoaçar de avezinhas por entre a espessura,

Que a virgem das Águas salvou uns raminhos,

E um bosque fez de alma de imensa ternura.

 

E o Bardo exclamava do trono das vagas:

— Foi morte por morte; do peito ao calor,

Não morro gelado do frio do vento,

Mas morro queimado do fogo do amor...

 

 

V

 

 

E o Gênio dos Ares um dia passando

Com roupas de neve deixadas ao vento,

Os olhos dois astros, radiando entre nuvens,

As tranças flutuando num céu sonolento;

 

Num carro de prata tirado a ginetes,

Que ao céu, invisíveis, passando a galope,

Levavam o Gênio à casa das fadas,

Que habitam das serras as selvas do tope,

 

A Virgem das Águas encontra... tão linda!

Lhe cai pela espádua seu cândido véu,

Tem roupas de noiva mais brancas que a neve:

Crê ver a Princesa das fadas do céu.

 

Enfreia os ginetes, que espumam raivosos,

Por cima das Águas, convulso, parou:

Trocou uns olhares de fogo com o Bardo:

Espada de raios do lado arrancou.

 

— Além das estrelas subi muitas vezes,

Perdi-me em caminhos dos reinos de além,

Em busca das fadas cansei meus ginetes:

Olhava... desertos! — Buscava... ninguém.

 

Com letras de fogo gravei nos meus paços,

Que bordam estradas, que conta não têm:

— Gentil peregrina, que vens de outros mundos,

Recebe poisada, — não passes além.

 

Bem-vinda! Bem-vinda! de além desses reinos,

As fadas ocultas só andam? — pois diz.

Formosa estrangeira, vem dar-me estas novas:

Gentil peregrina, onde é teu país?

 

E a Virgem das Águas sorrindo se volta:

No gesto e sorriso lhe esmaga a ilusão:

Nos lábios do Bardo pipitam sorrisos,

Que adejam, como aves, que más novas dão.

 

Contendo-se o Gênio, lhe torna sereno:

— Não tenhas receio; que mal eu te fiz?

Gentil viajora, vem dar-me boas novas:

Mimosa estrangeira, onde é teu país?

 

— Quem és tu? — De iroso, voltando-se o Bardo

Ao Gênio dos Ares, se exalta ao bradar:

— Eu tenho o meu trono nas rochas dos Montes:

E Ela? o seu trono nas vagas do mar.

 

E o Gênio dos Ares, tornou com desprezo:

— No trono o Coluro tão só me sustém:

O sol é meu leito; — meu paço as estrelas,

O reino, onde impero, limites não tem.

 

— E eu tenho o meu trono nas rochas das serras,

E Ela o seu trono nas vagas do mar:

Esposa e Princesa do Bardo dos Montes!

O Bardo dos Montes lhe torna a bradar.

 

Esbarra entre os dentes... tonteando esmagado

Mal roda sem asas um ai de improviso!

Estalam gemendo do peito as cavernas:

Nos lábios manqueia sinistro sorriso:

 

— Desprezo a um cobarde: vai, torna aos teus Montes,

Meu mais vil escravo mais reinos domina:

Voltemos à Pátria, graciosa estrangeira;

Os céus vos esperam, gentil peregrina.

 

As negras cortinas da noite se entreabrem,

Se funde o meu leito num mar de fulgor:

A voz de minha harpa dá voz às tormentas:

São meigos... são belos meus cantos de amor;

 

Ah! linda Rainha, vem; deixa as tuas Águas,

Escravas incautas sorrindo aos tufões:

Descalças ondinas, se as plantas de prata

Descuidam da areia, lá acham grilhões...

 

Além das Montanhas, que dormem na terra,

As águias se elevam, se eleva o condor:

Do céu, onde impero, só passa exaurido,

Algum pensamento de Deus e de Amor!

 

É tarde! voemos: as noites convidam:

À beira da estrada comigo amanhã

Terás o Deus salve da Aurora que passa,

À porta sentada da minha Aldebarã.

 

Ao verem-te as aves dos ares diziam:

— Andar, Peregrina; caminha, caminha:

Agora cantando, dirão, se te virem:

— Tão linda! Deus salve, Deus salve a Rainha.

 

As vagas chorando no fundo das Águas

Dirão de despeito: — Quem foi que a mandou?

A linda estrangeira, por ser muito linda,

Se foi peregrina, Rainha ficou.

 

Mas... brilham meus paços: as lâmpadas ardem;

É noite, estrangeira: partamos p’ra além:

Não temas espaços: é tarde! partamos:

Eu tiro das rédeas o teu palafrém.

 

 

 *

* *

 

E a Virgem das Águas, olhando o seu Bardo,

Montada bradava do seu palafrém:

— É noite, partamos, fujamos do Gênio:

É noite: fujamos p’ra as bandas de além.

 

Sus! Bardo: tal não penses: vinguemos espaços;

Não lutes: és Bardo, e ele é Paladim;

Tem ele uma espada forjada de raios,

Tu tens uma lira de ferro e marfim.

 

— Tem ele uma espada forjada de raios;

Eu tenho uma lira de ferro e marfim.

Não stás ao meu lado? — Que importa um cobarde?

Dão brenhas de loiros combates assim.

 

— Tu teimas levá-la, reizinho das Rochas?

Pois toma esta espada, se queres lutar,

Irmã desta minha, forjada de raios:

Mas... olha, que os Bardos só sabem cantar.

 

— Gigante soberbo, rei de altos impérios:

Eu sou um reizinho, não temas de mim:

Tu és orgulhoso e orgulhos eu tenho:

Dão brenhas de loiros combates assim.

 

— Sus! luta... urge o tempo... Gentil peregrina,

Por cima das Águas lá geme Alcion:

Ó Bardo dos Montes, as águas de Mergui,

Princesa, nem sempre tem junto um silong.

 

 

 *

* *

 

E o Bardo dos Montes com o Gênio dos Ares,

Olhares de fogo, raivando, trocou:

Espadas e liras encruzam nas trevas:

Os golpes troveja, o sangue jorrou...

 

E a Virgem das Águas, tão louca! tão louca!

Ao lado do Bardo procura um lugar:

Não tendo uma espada forjada de raios,

— Eu te amo, — dizia, mais para o animar.

  

 

VI

 

 

E o sol no outro dia doirava as montanhas;

Vagavam ginetes dispersos no ar,

E os restos de um carro perdidos nos montes,

E um corpo estendido nas águas do mar.

 

Um corpo diáfano, imenso flutuante,

Suspenso, impalpável, fantástico ser,

Que o vento ao seu grado num sopro arrastava,

Imbele, vazio, sem força ou poder.

 

E as turbas buscavam nos montes a espada

Dos céus esgarrada, de enorme extensão;

Só viram penhascos, quebrados, rolados,

Uns troncos queimados, e cinzas no chão.

 

E o Bardo dos Montes, e a Virgem das Águas

Num leito purpúreo dormiam no céu,

E os raios douravam, e as brisas brincavam

Com os lençóis de neve, e as neves do céu.

 

 

 *

* *

 

Vagavam sem tino depois vencedores

No céu sem limites, no reino do Ar,

No trono das rochas, em cima dos Montes,

No trono das vagas, em cima do Mar.

 

Talvez que morressem de muitas loucuras!

E as nuvens que sempre costumam boiar

No Monte e nas Águas são restos dispersos

Do Bardo dos Montes, da Virgem do Mar.

 

 

 *

* *

 

As cousas, que eu conto, contadas nas brenhas,

Contadas, cantadas por Bardos da Grei,

Em criança as ouvia, se não verdadeiras...

O Índio dizia, serão... eu não sei.

 

 

 

Vingança

 

 

I

 

 

Sentite de Domino in bonitate.

 

LIBER SAPIENTIAE

 

 

Trist! esperant lo be que desig veure.

 

Fra Rocamberti - Comedia de la gloria d’amor

 

 

Rústica choça de palmar coberta

Além na base da montanha vedes;

O musgo e a relva cobrem-lhe as paredes:

Crê-se que a choça o mesmo chão brotou:

Por cima dela ergue-se a montanha

De negras rochas fúnebres coroada;

E ali jaz como pedra derrocada

Que a procela do píncaro arrancou.

 

Parece a choça vegetar; — parece

Rocha de musgo e de ervaçal coberta.

Oh! é medonha esta mansão deserta,

Que um mar de bronze aos pés fervendo tem!

A longa praia de areal luzente

Em longas curvas por além se perde,

E pelas malhas da cortina verde,

Que estende o manto em flor, a custo a veem

 

Pelos buracos das paredes rotas

A débil luz, em gotas mil, transuda:

Tremem... vacilam... Cada gota muda

Daqui p’ra ali... e ainda... ainda outra vez:

Parecem um milhão de pirilampos

No giro eterno, pelo mato ardendo:

E o palhal, entre a relva se encolhendo,

Olha por entre a lôbrega mudez.

 

Um pano negro, fixo, estendido

Forra o céu, franja-o todo, e cai no oceano:

E além... como um buraco nesse pano,

Pálida a lua — quase imóvel — jaz.

Dragão de bronze de escamoso tergo

Meio encostado no seu leito enorme

Ruge... mas baixo: — ronca... sim!... mas dorme:

E ainda o sono seu terror nos faz.

 

De vez em quando agita-se a floresta:

O horror das trevas atravessa um grito...

E sentado na base de granito

Volta ao silêncio o bosque secular.

Mas outros gritos outra vez ressoam!...

E ainda outro mais agudo e horrendo?!...

— O vento passa, o bosque está mexendo,

E o brônzeo tronco está rolando o mar.

 

No galho verde — sob a rama e a copa —

Por entre as folhas encontrou-se um ninho:

Diz um ao outro... Eram dois: baixinho,

Não rumorejes, sairão de lá;

Vamos ver os mimosos passarinhos...

Pé num nó, outro em cima, a mão num galho,

Furtando a fronte ao gotejar do orvalho,

Consigo um deles sobre o tronco dá.

 

Afasta as folhas; quebra os galhos; rompe

Dedos e mãos na ponta dos espinhos;

E não encontra os lindos passarinhos,

Que ele julgou naquele ninho haver;

Assim mancebo de cabelos negros,

E olhos, que enchem de luz a tez morena,

À choça verde se chegou com pena

Que vinha o pai já velho à choça ver.

 

Bate: — ninguém responde. A porta quebra,

Entra e volta, e procura, e fala, e grita...

Somente a luz da alâmpada se agita,

Ante um pequeno nicho aberto — a arder.

Sai: vai longe... Voltou: mas nada — Torna;

Na curva praia precipita o passo:

E enquanto a voz plangente rasga o espaço,

Hirto, louco de dor voa a correr.

 

No entanto pelos rombos das paredes

A débil luz em gotas mil transuda;

Tremem... vacilam... Cada gota muda

Daqui p’ra ali... e ainda... inda outra vez.

Parecem um milhão de pirilampos

No giro eterno, pelo mato ardendo:

E o palhal, entre a relva se encolhendo,

Olha por entre a lôbrega mudez.

 

 

II

 

 

Este cadáver, que habla

Por la boca de una herida...

 

Calderón de La Barca La vida es sueño.

 

 

Cadáver hirto atravessando o espaço,

Crê-se que asas fantásticas distende!...

Mas quem no voo rápido o suspende,

Como uma seta, que num tronco entrou?

E como a seta, que vacila, dando

Na imóvel rocha, e quebra-se e recua,

Por que ele inclina ao chão a fronte nua,

Como uma seta que no chão tombou?

 

Disséreis — na carreira delirante,

Que o monte e o bosque e o mar ele atravessara,

Se o monte e o bosque e o mar ele encontrara,

Sob os pés, que engoliam céu e chão,

Que mão de ferro lhe agarrando a coma,

O transformou em súbito rochedo,

Talhado como um homem que tem medo,

Que curva o tronco, e ao espaço estende a mão?...

 

Como um despojo de naufrágio humano

Dos vagalhões à praia arremessado,

Imóvel, mudo, o lábio descerrado,

Como quem grita ainda a extrema vez

Jaz... eu tremo em dizer, treme ele em vê-lo!...

Porém a vaga, que até 'li volteia,

— Níveo lençol do morto, a branca areia

Levanta... É o pai!! e em hórrida nudez.

 

Mas as feridas com abertas bocas,

Por onde o sangue negro ferve e espuma...

Mas as feridas bradam cada uma

O que ele mesmo no morrer bradou...

Preso o espírito ao corpo, oscila e treme:

Mar grande — a eternidade — além se estende:

Frágil cadeia — a vida — à praia prende...

O vento passa... e no passar quebrou.

 

Por muito tempo imóvel o mancebo

— Anjo na lájea tumular plantado —

Marmóreo, mudo, feio, descorado,

Não vacilara em que tremesse o chão!

Não volve os olhos; não remexe os lábios!

Jaz transformado em súbito rochedo,

Talhado como um homem que tem medo,

Que curva o tronco, e ao espaço estende a mão.

 

 

III

 

 

Al pianto or s’abbandona.

 

G. Borghi — Inni.

 

 

Ruge... mais alto ruge...

Mais alto;... é já bramido!

Como dragão ferido,

Retorce a cauda o mar;

Açoita a praia, e volta

O corpo enorme e horrendo,

E o dorso destorcendo

As garras lança ao ar.

 

O corpo de serpente

Estende a tempestade:

E enche a imensidade

O enorme vulto seu;

As asas coruscantes

Do mar na face bate:

Horríssono combate

Começa o mar e o céu.

 

Na base de granito,

A mata além suspensa,

Desata a sombra imensa

Do vulto colossal:

E o ulular rouquenho

Dos troncos sacudidos

É um dos mil rugidos

Da voz do temporal.

 

Com os brados repetidos

Que o céu e o mar despenha,

No soco aquela penha

Começa a estremecer:

Dos olhos do mancebo

O pranto já flutua:

Com um doce raio a lua

Do leito o vem colher.

 

  

IV

 

 

Le preme il cor questo pensier...

 

Ariosto - Orlando furioso

 

 

Detrás desse falar é como estátua

Por entre raras folhas de arvoredo,

Onde um raio de luz do céu bem vindo

Bate... recua... torna, e fere a medo.

 

Assim o anjo da morte está rojando

A asa esplendente sobre o negro ossário,

E da luz um a um ferem-lhe os raios,

Enquanto o vento açouta o lampadário.

 

A noite entorna a sombra e nela o envolve;

Da fronte a lua quebra-lhe o negrume:

E a mortal palidez sorri das trevas

No mudo desespero de um queixume.

 

Molhada a face de marfim... rutila:

Véu de lágrimas foi; já não pranteia:

— Assim a vaga, que do mar não volta,

Deixa de água ensopada a branca areia.

 

Mas como a brisa, que passando toca

Com a ponta da asa o lago adormecido,

Ou como o vento, que a lanugem branca

Do cisne eriça... e ouve-se um gemido;

 

Ou como o aroma, que desata o incenso

No crepitar da chama, que o devora:

O moço treme e ao lábio o canto salta,

E o céu, e o mar, e a terra, e o bosque chora.

 

— Deus santo, três vezes santo,

Deus, que meu pai amou tanto,

Deus, que tudo podes só;

Este cordeiro imolado

Deve ser-te consagrado:

Ai! o sangue derramado

Lava da alma o lodo e o pó.

 

Deus, que guias do oriente

Em uma carreira ardente

O sol, que vibra tua mão,

Como a flecha despedida,

Que abre no céu a ferida,

Que escorre o sangue da vida

Nas veias da criação:

 

Deus, que misturas as tintas,

Em que as várias cenas pintas

Das obras da imensidão,

E que, à voz do passarinho,

Desces do céu a um raminho,

E o teces no próprio ninho,

Como o oiro o tecelão:

 

Ó Deus, que um rude madeiro

Ergueste de medianeiro

Entre ti e o pecador...

Salva a tua criatura:

Do crisol da sepultura

Tira esta alma limpa e pura

Ao fogo do teu amor.

 

Deus, no Gólgota cordeiro,

Que as santas iras primeiro

Trovejaste do Sinai...

Deus, fé, clarão, esperança!...

Eu tenho em ti confiança;

Brada este sangue vingança:

Dá-me vingar o meu pai.

 

Deus, sobre a vítima embora

Caia então a mesma hora!...

Mesmo aos pés do tremedal.

Um riso na boca airosa

— Orvalho em botão de rosa —

Tem inda a estátua mimosa

Caída do pedestal.

 

  

V

 

 

Oh! andai; quem vos detém?

 

Gil Vicente - Auto da Alma

 

 

Depois sereno o moço sobre a praia

— A um raio do luar —

Cavou a areia e o pai deitou na cama,

Mesmo à beira do mar.

 

E ululante, terrível, passa ao longe

Rugindo o furacão!

Como as cordas de uma harpa dedilhada,

Cada vaga estalava repuxada

Do vento à férrea mão.

 

Oh! que é sublime o quadro em que a tormenta

Por em torno moldura:

Brame o mar, brame o vento, brame o bosque,

Brame o céu, que fulgura.

 

Somente a lua, um raio atravessando

Por nuvem negra e basta,

Vem feri-lo no úmido semblante,

Na fronte sobre o peito vacilante,

Como débil vergasta.

 

E ao longe pelos rombos das paredes

A débil luz em gotas mil transuda:

Tremem... vacilam... Cada gota muda

Daqui p’ra ali... e ainda... inda outra vez...

Parecem um milhão de pirilampos

No giro eterno pelo mato ardendo:

E o palhal, entre a relva se encolhendo,

Olha por entre a lôbrega mudez.

 

Vai lento e lento procurando a choça

O mancebo... Parou:

Humana voz de moribundo náufrago

O espaço povoou!...

 

 

VI

 

 

............ golfos de água

Han de ser tu sepultura

En monumentos de plata;

Mal hiciera en darse al mar,

Quando soberbio levanta

Rizados montes de nieve,

De cristal crespas montañas.

 

Calderón de La Barca La vida es sueño.

 

 

Socorro!... E o mar revoltoso,

Negro!... negro!... a horripilar!...

Dragão que ousa com as asas

Do céu a face açoutar:

Vem apenas um gemido,

Como um queixume perdido,

Entre as vagas confundido,

Gemer às praias do mar.

 

Socorro!... e a voz delirante

Nas costas das ondas vem:

Quebram-se as ondas na praia,

E a voz quebra-se também.

Vento rijo: mar fremente,

Onde a morte mostra um dente

Branco em cada vaga algente...

Quem vai tentá-lo? — Ninguém.

 

Fora uma luta de loucos,

Sem uma luz de esperança...

Ninguém... ninguém se abalança...

Ninguém salvá-lo ousará.

Mas se for... será vencido

Sem combate, sem ruído:

Um grão de areia caído

No fundo do mar será.

 

As ondas quebram-se, franjem

Com grande horror ao cair;

E como as fronte da hidra,

Tornam de novo a surgir:

Os raios precipitados

Reúnem brados aos brados!...

Nesta noite aos naufragados

Deus... Deus só pode acudir.

 

Socorro!... E a vaga esmagada,

Como que soluça um ai!...

Sobre a praia as roupas deixa,

Sobre o mar um corpo cai.

Quem?... O órfão!! — Desgraçado!...

Vai mancebo condenado:

Teu juramento é quebrado:

Não vingaste inda o teu pai.

 

Vai morrer... vai, louco, morre!

Tens bem grande sepultura:

Teu sudário é treva escura,

É teu coveiro o bulcão.

E a sombra de um pai ferido,

Há de ir bradando-te ao ouvido:

— Maldição, filho esquecido!

Oh! maldição! maldição!? —

 

  

VII

 

 

......... quum littora fervere late

Prospiceres........

 

Virgílio Eneida

 

 

Silêncio!... O mar de ferro derretido

Na amplíssima caldeira

Chiar parece, e fumegar ao fogo

De imprevista fogueira.

 

Calmou-se o vento. Aos mil e mil os raios

A trovoada ateia:

E cada vaga em surdo e horrendo grito,

Como um muro de bronze, ou de granito,

Derroca-se na areia.

 

 

VIII

 

 

In conspectu suo.

 

Regum Liber

 

 

Velho Titã formidável,

Ao clarão da tempestade

Tens escrita a eternidade

Nas rugas da fronte audaz:

As vagas, em que te enleias,

São como as grossas cadeias,

Que sacodes nas areias,

E que não quebram jamais!

 

É belo de ver, e horrível,

Velho leão prisioneiro,

Cavado o teu corpo inteiro

De profundas cicatrizes:

E quando as iras derramas,

Voltando as negras escamas,

Tu muges, roncas e bramas,

E o que tu queres não dizes.

 

Às vezes paras na grita,

E o teu corpo se aquebranta;

E em tua enorme garganta

Prendes a horríssona voz:

Cessam então teus mugidos,

Como ferros sacudidos,

Lançados, mas não partidos,

Até a terra, até nós.

 

Mas lá no polo Deus mesmo

Os teus membros amarrados,

Contidos, assujeitados

A montes de gelo — quis.

Lá em vão tu remordes;

Como Encélado sacodes

O corpo enorme, não podes

Erguer a crespa cerviz.

 

Mas eu me horrorizo e tremo

Ante tua majestade,

Se te dessem liberdade

Nessas frias regiões:

Que grande fora o teu brado,

Se do corpo lacerado

Quebrassem-te o cadeado

Que te prende aos teus grilhões.

 

O baque dessas montanhas

Caindo despedaçadas,

Como cadeias quebradas,

Que horrível não fora ouvir!

Mas fora belo!... Eu queria

Ver de então a noite e o dia,

Que tua fronte devia

De cinza e de oiro cobrir.

 

Oh! fora belo! Assentado

Sobre o monte mais erguido,

Ouvir teu grande bramido

Em paz — sereno... a sorrir!

Talvez... o hino à liberdade

Nessa horrível majestade...

Dos flancos da tempestade

Surgisse Deus, para ouvir!...

 

 

 

IX

 

 

Eso es pagarlo por mi

La vida, que le debí.

 

Calderón de la Barca Las armas de la hermosura

 

 

Mas quem surge lá da praia,

Como um fantasma do mar?

É o mancebo! — Da morte

Pôde o náufrago salvar.

Não perdeste inda a esperança!

Cheira sangue essa lembrança!

E o sangue brada vingança;

E inda te podes vingar!

 

Ei-lo... o náufrago estremece...

Ei-lo arquejando já vai...

Passa a lua... fere-o... O moço

Treme... oscila... quase cai:

É o assassino estendido,

Co’as roupas do pai vestido!...

Levanta o ferro buído,

Vinga, mancebo, o teu pai.

 

Do leão entras a jaula

Coberto de espuma e pó,

E arrancas da garra a presa,

Que devorava sem dó;

Sim! lá teria morrido:

Mas não ficara punido,

Que a vingança é do ofendido,

A vingança é tua só.

 

Homens, céus, estrelas, anjos,

Florestas, rios, oceanos...

Vinde ver um fraco humano,

Como se vinga... Chegai.

Oh! que placidez imprime

Naquela fronte sublime

A ideia que vinga um crime,

E vinga no crime um pai!...

 

Ajoelha o moço e murmura:

— Deus, cumpriste o meu destino:

Deste salvar o assassino...

Meu Pai! fui teu vingador.

E, como cansado, inclina

A fronte — quase divina,

Como cegada bonina

Para as mãos do cegador.

 

Ei-lo, a inocência no seio,

No perdão o seu punhal,

Morto aos pés do homem de lodo

Como estátua em tremedal.

Um riso na boca airosa

— Orvalho em botão de rosa —

Tem inda a estátua mimosa

Caída do pedestal.

 

 

X

 

 

Qual lodoletta che in aere si spazia

Prima cantando, e poi tace contenta

Dell’ultima dolcezza che la sazia...

 

Dante - Paradiso

 

 

E no outro dia à beira-mar deixado

Um cadáver jazia:

E sobre o véu da morte um véu mais lindo

De luz o corpo todo o está cobrindo...

Tão belo resplendia!

 

Beleza estranha, que sorri de leve

Na palidez da face.

Como se a morte — o riso de bondade

Desencravar julgara uma impiedade,

E inteiro lho deixasse.

 

E de longe o palhal, que verdejava,

Mas já meio inclinado,

Pendendo para a beira do caminho,

Era como vazio e verde ninho

De um galho pendurado!

 

 

 

Amor e dever

 

 

Eu que quisera os meus olhos

Fixos em ti noite e dia,

Eu sofro a lenta agonia

De não te poder olhar!

Toda esta gente espiona

A nossa pobre ventura;

No olhar, no Gesto procura

Nosso segredo encontrar.

 

O amor que dentro em nós ferve,

É como o perfume acaso

Que pelas fendas do vaso

Se faz a todos sentir?

Que por mais oculto e envolto,

Que o ter em si se procura,

Em vão é, não se segura,

Por força que há de trair ?

 

Trai — Embebe o ambiente todo:

E cada qual que o respira,

Procura donde sairá,

Que vaso o entornando está:

Agitam-se todos: querem,

Com inquietação manifesta,

Ver pelo aroma que resta

Donde veio e o que inda há.

 

Assim um dia e outro dia

Estando de ti tão perto,

Sabendo, tendo bem certo

Ser meu o teu coração...

Eu que morro por olhar-te,

Ai! nem mesmo olhar-te ensaio;

Chego e entro, e falo, e saio,

Sem quase apertar-te a mão.

 

Mas esta mesma frieza

Que junto a ti sempre tenho,

Já nos faz mal, eu convenho;

Todos anseiam saber

Por que sendo tu formosa,

E eu sendo moço, não há de

Reinar maior amizade,

Maior alegria haver?

 

Porque esses mesmos que tremem

Pela virtude ultrajada,

Buscando e não vendo nada,

Não sabem compreender

Como é possível que um anjo

Que eles têm sempre admirado,

Não possa ser desejado,

Por quem é crime o querer.

 

E a nossa melancolia,

Nossa mudez, nosso medo,

Ai! se desvenda o segredo

Que nós devemos guardar?

Branca pérola metida

Em concha de rósea alvura

Deve estar menos segura

Dentro no fundo do mar.

 

Ai! a ninguém o entreguemos,

Nem num olhar indiscreto,

Porque o nosso puro afeto

Deus só o possa saber.

Que seja como um tesoiro

Dentro de um cofre guardado,

Que fora melhor gozado,

Mas que é melhor não perder...

 

 

 

Hino de morte

 

 

Na morte do colega, aluno do 4º ano de Medicina, Antonio José Gonçalves Júnior.

 

 

Da sacro cineri flores.

 

Do túmulo de Sannazaro

 

 

I

 

 

Omnis gloria ejus...

 

Psalmus

 

 

Um século de glórias e esperanças

Naquela fronte, como um régio almafre,

Imenso balouçava;

E sob a selva dos cabelos densos,

Como um rio escondido nas florestas

A ideia borbulhava.

 

Homens, vós não sabíeis quem ele era!

Da noite à boca do mancebo inglório

Parásseis um momento:

Detrás da escura selva desse crânio

Se erguera um dia, em trono chamejante,

Do seio nebulento.

 

Como inunda de fogo a flor do oceano

O sol, — ele inundava o seu futuro

De claridão tamanha.

Eram rastos de chama os dias dele!

Dos loureiros à sombra um sol dormia

Atrás de uma montanha

 

Era um nimbo de esfera vaporosa

Embaciando as lâmpadas celestes,

Que pesava no mundo!

Seu pensamento: — um dia condensado

De cima do seu crânio cairia,

Como oceano profundo!

 

Amanhã rangeria aquela porta!

E ao entreabrir-se aquela língua de oiro,

Do céu, onde alma voara,

Aerólito, como um anjo em fogo,

Embuçado nas roupas de mil anos,

Numa ideia rolara.

 

Assim de chofre o espaço engole um mundo:

Cem cidades assim desaparecem

Nos campos de Senaar;

E como a cruz de um morto, uma coluna

Lá fica apenas sobre a cova delas

Seus ossos a apontar!

 

 

II

 

 

Nulli flebilior, quam tibi...

 

Horácio - Odes

 

 

Que vistes dele? — Nada. Descansava

Sobre os seus loiros, à manhã da vida.

O jovem sonhador!

Sobre o feixe, que abate das florestas,

Também, antes de o erguer, por um momento

Descansa o lenhador.

 

Tinha afiada a adaga. A hora do alarma

Parecia estalar; sob a armadura

Do combate parou:

Viu o campo: estendeu à larga as rédeas:

Mas da vida o corcel, que ele montava,

Caiu e tropeçou.

 

Ó meu amigo!... E o que perdeste, ó Pátria!....

Que pedra das abóbadas da glória

Rolou, se espedaçando!

Escárnio dessa turba de mancebos,

— Raça de vermes! — sobre o pó da terra

Esmagava-os, passando.

 

Se assoberba o ginete relinchando,

Quando a escarpa do Abila o árabe arrasa

Após a hiena e o leão:

A vida dele era um corcel fogoso:

E o corcel, que engolia abismo e escarpa,

Caiu: mas ele não.

 

No Cusistão daquele peito em brasa

Da liberdade a rosa florescia

Fechada em botão lindo,

Era no meio do mais belo fogo

Que vingava a roseira, onde orvalhada

Cada flor ia abrindo.

 

Que naufrágio espantoso! Eram só de oiro

Os sonhos que essa mente carregava

Aos vagalhões da vida:

Que nau perdida sobre o mar tormenta

Esperdiçou os loiros do poeta,

Em noite desabrida!

 

Pátria, curva-te ao céspede de um filho:

Ontem por ti morreu: hoje ao seu túmulo,

Não te pejes, baixando:

Cristo era a pátria do universo inteiro

E, sobre a cova de um amigo, Cristo

Se prosternou, chorando.

 

 

 

III

 

 

... ore tremente....

 

Ovídio — Tristium

 

 

E como o rosto é pálido, e fanadas

Rosas, que um dia abriram purpurinas

À doce luz da vida!

Assim a ruína de cidade morta

Em noite de luar, por entre a relva,

Dorme meio escondida.

 

O meu coração não pulsa! Entre ruínas

Para o viajor. Pompeia está dormindo...

Dorme, sem ressonar!

Seu coração — o povo que palpita, —

Caído sob as carnes das cidades,

Não... não pode pulsar!

 

Morto, que vale a vida? O diga Homero,

O cego Homero, que esmolou, trocando,

De cidade em cidade,

Por um alpendre e por um pão, os cantos

Que à Grécia antiga e antigos povos davam

História e eternidade.

 

A vida é isso: é vaga, que arremessa

Colombo ardente à entrada do oceano,

Donde surge com um mundo,

E torna a arremessá-lo a mesma vaga,

E ele encontra o grilhão, a treva, a morte

Do ergástulo no fundo.

 

E que há pois do outro lado do sepulcro?

A pedra tumular que arcano esconde?

Que segredo ali jaz?

Quando o alvião a rasga, a ossada alveja:

Silenciosamente o verme mexe,

Eis tudo... e nada mais!...

 

Mudo o vento da morte entorna as ruínas

Sobre o corpo, e o movimento que mutila,

Por grandioso que seja,

Prostra-se aos séculos, que vão vindo, e passam:

Parte-se a lousa e em um riso alvar o crânio

Parece que graceja....

 

Ó meu amigo, irmão nos mesmos sonhos,

Já me arrependo de acordar-te ao leito,

Para dar-te estas flores:

As lâmpadas do céu velam-te as noites:

Chora-te, e sempre, à madrugada, à cova

A estrela dos amores.

 

Amanhã o teu pai sorri, mancebo:

Amanhã tua mãe beija outro filho:

Amanhã entra o mundo!

E as estrelas do céu, da aurora o orvalho

Amanhã velarão a sós no berço

O teu sono profundo.

 

 

IV

 

 

..... flentem flens...

 

Ovídio - Tristium

 

 

Perdão, ó pais, perdão: a frase gela:

Mas há cá dentro o horror de um cataclisma,

Que me fez desumano;

E arrebentou-me a estrofe à flor dos lábios,

Como os vulcões nas asas alevantam

Uma ilha no oceano.

 

 

Vós não o esquecereis, não! Infelizes!

A eternidade de uma dor paterna,

Quem a pode sondar?

Ártico polo, que aglomera o gelo,

Quem por cima de lágrimas tão densas

Vai-lhe os seios prumar?

 

A glória me há de aureolar a fronte:

Apesar de homens vis, que tudo arrancam

Vingai, louros, vingai:

Minha mãe, ó Brasil, ó pátria, é dele

Este loureiro; é dele: — ide ao seu túmulo

De joelho o plantai...

 

 

V

 

 

Vox ferrea.

 

Virgílio - Eneida

 

 

Homens, é tempo: agora eu me levanto:

Limpei o rosto; — as lágrimas secaram:

Glória, que nos vens dar?

Reis, lá stão os lauréis da vida bela!

Jovens, as rosas caem das roseiras,

Sem o tempo as murchar.

 

De tanta vida que o inundou, que resta?

A noite sem estrelas do sepulcro!

A luz do lampadário

Da vida, ainda transbordando a enchente

Do óleo, que a seiva aviventou, não arde

No leito mortuário.

 

Pálida cruz, que os braços seus distende,

Como um soldado de além-mundo vela

Imbele e desarmado:

Roem-lhe os vermes a terrosa planta,

E não retira o pé, único ele,

Do arraial desprezado.

 

Ecbatana, — a princesa, — se coroava

Com o sol do Oriente, recostada às selvas,

Sobre o almatrá do Oronte:

Seu penacho de templos grimpejava,

Como um cocar de variadas plumas,

Na cimeira da fronte....

 

Ontem. De sobre escombros de ossos hoje,

No meio de pireus cinereados,

Sobre um roto divã,

Como enrolada em faixas de uma múmia,

Sem trono, a fronte sem cocar de plumas,

Rói-lhe a entranha Hamadã...

 

 

 

 

Página escura

 

Num livro íntimo de Teixeira de Mello

 

 

É o teu rosto a pérola das luzes,

E a luz foi sempre um tálamo celeste:

Guarda, homem-menino, no teu rosto,

Guarda o beijo de amigo que me deste:

 

Deixa-o dormir na mesma cama, ao lado

Do beijo que te deu amor primeiro,

Por seus cândidos velos branca ovelha

Dorme assim junto à esposa do ovelheiro.

 

Nascemos na estação das mesmas flores;

O mesmo sol luziu ao nosso leito;

A mesma pátria nos colheu aos braços;

Só não bebemos leite ao mesmo peito.

 

Mas... minha mãe ao ter-te no seu colo,

Por meu amor ao menos te embalava;

E chamando-me — filho — sobre a fronte

Um beijo meu... só meu, em ti guardava.

 

Mas... tua mãe ao ter-me no seu colo,

Por teu amor ao menos me sorrira;

E, chamando-te — filho — sobre a fronte

Um beijo teu... só teu, em mim sentira.

 

Meu irmão, junto à minha a tua estrela

Como uma flor de fogo abrindo vinha,

E a rosa, que plantou no céu meu anjo,

O teu anjo plantou junto da minha.

 

A tua inda floresce arregoada,

Vive entre os anjos numa eterna aurora;

A minha desfolhou-se, e na haste curva

Cinórrodo mirrado apenas mora.

 

A Bíblia do cristão eu não profano,

Mas a vida além-túmulo desvaira;

Tenho medo ante as trevas do infinito

Onde a mente não chega e a razão paira.

 

A fé de Deus no meio dos meus sonhos

Tem uma fonte, que abebera, é certo,

Matariéh formosa adormecida,

Como a verde esmeralda do deserto.

 

Mata-me a sede, sim! a fé, eu creio;

Entanto o vácuo do sepulcro espanta:

Cristo, o Homem-Deus, implora o Pai, tem medo,

Cristo, Lázaro ao túmulo, levanta.

 

Tu vês: o peco fruto da roseira,

Pende seco, ante o sol, desorvalhado:

Assim ante uma vida de esperanças

Pende sobre o sepulcro debruçado.

 

Cedo cai: pegarei no sono em breve:

Anjo, lembra-te então desta aliança:

Vai desfolhar-me um cântico medroso,

Como um tímido beijo de criança.

 

Anjo, irmão, criatura de outras eras,

Por milagre de amor inda inocente,

Branco, ingênuo, no fundo deste século,

Como a pérola em fundos da corrente...

 

Anjo, irmão, tua mãe leva ao meu túmulo,

Fá-la chorar com a minha... a desgraçada!

Pobre mãe! que saudades lhe não deixo...

Mães, que os filhos perdeis, chorais... mais nada...

 

 

 

Memória

 

Num álbum

 

Memoria de mi memoria!

 

Gil Vicente - Amadis de Gaula

 

 

Ia em mudez romagem do sepulcro,

— Lugar do meu destino —

Sacola de mendigo, pão sem leiva,

Bordão de peregrino:

 

Não quisera deixar outro vestígio

Mais do que deixa a flor,

Mais do que deixa a vaga: um leve aroma,

Um lânguido rumor.

 

Deixarei entretanto em meu caminho,

Além da branca ossada,

Das pegadas além, que à areia imprimo,

Uma lenda sagrada:

 

Seja em teu livro; leia-se esculpida:

— Respeito e simpatia —

Como num tronco, que há de viver séculos,

P’ra memória de um dia!

 

 *

* *

 

Mulher! não sabes, não, quanto há de aziago,

O que levo comigo...

Bordão de peregrino é a harpa do poeta,

E o saco do mendigo:

 

A marca informe, que o proscreve ao mundo,

Que ao mundo o não levanta;

Porque bem como a flor só tem perfume,

Como as aves só canta.

 

Eu, bom grado, de vez dependurava-a,

De algum tronco qualquer,

Sobre o altar, para Deus, sobre o teu seio,

Para o amor da mulher.

 

Como armadura druídica pendida

Na brenha das sainas,

Deixara ao vento o dedilhar-lhe as cordas,

O ouvi-lo às campinas.

 

Porém, não: Deus ma deu, inda em que pese

Carregarei meu fardo:

Que val’ por ela a vida de miséria,

E o nome vil de bardo?

 

Assim pintam arcanjos abraçando

Harpas, que vão vibrando

Entre o esplendor da Virgem sobre nuvens,

Lua em arco pisando.

 

Inda hei forças: de seiva e mocidade

O coração transborda:

E em paz não morre o poeta enquanto da harpa

Não quebra a última corda.

 

Irei cantando pois em meu caminho...

Cantarei... cantarei

O belo, o grande, o justo, o bom, o eterno:

E até quando não sei...

 

 *

* *

 

É teu livro um pomar, onde algum tempo,

À sombra abandonada,

Sentar-te-ás a colher os frutos de oiro

De uma árvore enflorada.

 

Dá pois espaço à minha pobre planta

Em tão fértil terreno,

Em que terão de erguer-se os novos cedros

Deste Líbano ameno.

 

Tiro-a do arneiro amplíssimo do mundo,

Minha planta querida:

Possa em teu livro, mais estreito campo,

Viver mais longa vida.

 

Deu flores? Nunca! A pobre, nivelada

Ao musgo mais rasteiro,

Viveu assim em meio do mistério,

No centro do pradeiro.

 

Nunca!... Mata o cacim nopal deserto,

E o suão nevado e forte

Passa sobre o delubro das florestas,

Como um canto de morte.

 

Oh! nunca!... Mas se um dia aqui passares,

À sombra deste arbusto,

Quando um fantasma murmurar: — tem flores...

Sou eu: não tenhas susto:

 

Que o cinórrodo da roseira agreste

Nunca... nunca aparece,

Senão sob os acenos da ruína

Da rosa que emurchece.

 

 

 

Desejo de viver

 

 

Oh! fora o sol um anjo em voo ardente

Surgindo na amplidão,

Deixando o novo Isaac ensanguilento

Sob o ferro de Abraão!...

 

Sinto que morrerei! Ajoelhado

Na minha própria dor,

Sinto o frio da boca do cutelo

Cair do cegador!

 

Eu era a espiga lanceolada e linda,

Sem inda lourejar:

Anjo da morte, espera: é cedo: espera!

Deixa: eu hei de murchar.

 

Meu Deus, se o sol surgisse inda mais dias

Sobre o meu horizonte,

E com seus raios quentes, deslumbrantes

Me enchesse de oiro a fronte!...

 

Se inda mais cenas sobre as suas flores,

Sorrindo a natureza,

Me surgisse embalada, como a índia

Na rede da devesa!...

 

Tenho vontade de viver por ela,

Tão cândida menina,

Lírio do vale, aurora da montanha,

Estrela da colina!

 

Gota de leite em lábios de inocente

Me fora o seu carinho;

Me fora a flor, que atravessando ao bico,

Leva o pássaro ao ninho.

 

Dá, meu Deus, acender meus lábios frios

Nesse raio de amor:

Dá, meu Deus, perfumar minha alma impura

Nessa essência de flor.

 

Dá-me viver e amar: minha harpa interna

Murmurando acordou:

Meu coração estremeceu... foi ela...

Foi ela que o vibrou...

 

E como o vento sopra as rosas belas

Do seio do suão,

E elas se vão cheirosas embalando

Nas águas do Jordão...

 

Ela soprou-me da alma as lindas rosas

Dos rosais da poesia,

Que vão ao céu boiando em grupo, e em cima

De vagas de harmonia.

 

Dá-me viver e amar, meu Deus: — Esse anjo

Viu-me, e me despertou:

E a morte, que eu sem medo olhava, agora

De susto me gelou!

 

Mas este pensamento, esta dor viva

A entranha me corrói:

Este verme, que as carnes me lacera,

Sinto que me destrói.

 

Meu Deus, eu sou o lírio inda crescendo,

A flor que não abriu:

Eu sou a aurora tímida e orvalhosa

De um sol, que não surgiu...

 

Eu sou a folha verde do arvoredo,

Eu sou inda a esperança:

Para a fouce, que inclina ao chão uma haste,

Sou inda tão criança!...

 

Meu Deus! a vida para amar com ela

De um amor infinito,

E nossos lábios confundir num hino,

Numa oração, num grito...

 

Num qualquer som, que traduzisse o abalo,

Que dentro em mim senti:

É a alma já, que em hinos se desprende

A ti, meu Deus, a ti...

 

Lázaro, suspendeu ela do túmulo,

Meu morto coração:

Jó blasfemo, hoje volvo a ti meus olhos

No arroubo da oração.

 

Já sei amar: ela ensinou-me. Agora

Eu não quero morrer;

Quero adorar-te, ó Deus, orar com ela;

Quero amar e viver.

 

 

 

Desilusões e morte

  

... carmina tantum

Nostra valent...quantum

Chaonias dicunt, aquila veniente, columbas.

 

Virgílio - Bucólicas.

 

 

Eu amo ver no céu sempre uma nuvem,

Um grito na devesa,

Um soluço no mar: amo o que é triste

Em toda a natureza.

 

Não vês a nuvem que lá passa agora,

E corre para o ocidente?

Será meu berço: — ali da morte nos braços

Dormirei molemente,

 

Bem como um cisne dorme à flor de um lago,

Que à luz do sol iria,

E a brisa, que lhe lambe o flanco, as penas

Das asas arrepia.

 

E que frio há de ser ali meu leito

Ficarei ao relento;

Dormirei ao clarão da lua pálida

Aos sons da harpa do vento.

 

Passei por este mundo, o meu deserto;

Foi-me a terra madrasta;

Pisei os espinhais de arneiro ingrato;

Sofri: — é tempo: basta.

 

Ninguém doeu-se do infeliz na vida:

Foi-me pranto a loucura:

Foi meu gemer um grito sem sentido,

Perdido na espessura.

 

Quando a plumagem lhe adornou as asas,

A borda do seu ninho,

Os seus primeiros voos experimenta,

Piando o passarinho:

 

Eu que vejo ante mim desenrolar-se

O espaço do infinito,

Quero ensaiar o meu primeiro voo,

Com o meu último grito.

 

Adeus. Como passais, gemendo, agora,

Ventanias do sul!

Faz-me bem vossa voz: passai: bem cedo

Serei no mesmo azul.

 

Eu da vida o que deixo? — Amor é tudo:

E eu nunca amei, — meus Deus!

Nunca vi para mim cândida virgem

Volver os olhos seus.

 

Inda estou branco, como a flor que nasce

Em cava entristecida,

Onde o sol pendurar não vem à fronte

O oiro quente da vida.

 

Meu pai, um dia me surgiu radiando

Um anjo, era uma aurora,

Mas por ele passei, qual sobre chamas

Vai um pássaro embora.

 

Já viste a estrela que se banha ao longe

Nas águas de algum rio,

E após no outeiro parecer que treme,

Gelada pelo frio?

 

Vacila incerta, e tímido lhe brilha

O olhar úmido e morno;

E a langorenta pálpebra da noite

Estremece-lhe em torno.

 

Parece um anjo a meditar saudades

Em pé sobre a colina,

Em cujo seio um coração de fogo

Merencório imagina:

 

Na ciclóide dos astros mergulhada

Se perde de repente:

Como a folha que o vento arranca ao tronco,

E atira na corrente.

 

Assim ela surgiu-me: assim perdi-a...

Assim a perderei;

E dentro o turbilhão em que volteia

Não mais a buscarei...

 

Fora o meu coração uma harpa eólia,

Meu lábio um hino infindo,

Fora uma prece a minha vida inteira,

A ti, meu anjo lindo.

 

Como o sol, teu sorriso me aquecera

O coração algente;

Como o luar da noite, o teu afago

Me prateara a mente.

 

Mas eu não cri no brilho da miragem,

Tão falso e sedutor:

Ninguém pode engastar no meu deserto

A esmeralda do amor.

 

Que o dedo seco do infortúnio afasta

Tudo o que me sorri:

Passava sob um céu sem sol nem lua,

Passando sob ti.

 

E em bem, meu Deus! A virgem dos meus sonhos

Não morrerá de fome:

E eu não lhe infiltrarei na entranha a febre,

Que os dias me consome.

 

Pomba do céu, não pises um cadáver:

Viva flor cor de neve,

Passa-lhe em cima, no teu voo aéreo,

Sem tocá-lo de leve.

 

E enquanto vais buscar outros amores...

Vai, eu quero esquecer-te:

Amanhã hei de dar, no areal da praia,

Aos corvos um banquete.

 

Eu sou tão infeliz!... Se to dissesses:

— Jovem, tenho-te amor:

Tu morrerias... morrerias cedo,

Meu anjo, minha flor.

 

Que eu nunca vi a rosa em meu caminho

A desbrochar louçã,

Que eu lhe dissesse: — adeus, flor da campina

Vir-te-ei ver amanha...

 

Misera! o vento lhe imprimira a fronte

Um mórbido palor:

A noite lhe negara os seus orvalhos,

O dia o seu calor.

 

Meu triste olhar, como astro moribundo

Nas abas do horizonte,

Errante sob a noite dos cabelos,

Se estremece da fronte.

 

E como a gotejar de sons chorosos

De um sino vacilante...

Parece que eles vibram na agonia

De uma alma agonizante.

 

Sou... eu sou infeliz: ninguém o pensa:

E a noite, se me deito,

Só eu sei que de atrozes desesperos

Me acolhem no meu leito.

 

E sob o cris do próprio pensamento

Eu caio de rolão,

E as carnes com a dor de um ferro em brasa

Me rasga o coração.

 

Perdão, meu pai, perdão, se inda algum dia

Amanhecer deitado,

Pálido e frio, como estátua ebúrnea

Em campo desolado.

 

A dor é um veneno que corrompe

A entranha pouco e pouco,

Que lacera, apunhala, rói, mastiga,

Que torna o homem louco.

 

Como a palmeira em pé sobre um rochedo

Meneia o leque ao vento,

Em pé, estéril, me espedaça o mundo,

E eu pendo e desalento.

 

Eu morrerei: eu morro... ó mocidade,

Raio de luz divina,

Já não madrugas trêfega em meu rosto,

Em nuvem purpurina.

 

Eu amorteço, como a luz que pende

Por abismo profundo,

Como a estrela da noite em céu de trevas

Passo inglório no mundo.

 

Mas não virão, velhice, os teus invernos

Meus sonhos desfolhando,

Por entre as verdes crenças de mancebo

Morro ao menos cantando!

 

Ó minha branca túnica da vida,

Ao luar te lavei,

Eu te sequei ao sol das esperanças,

De amor te perfumei,

 

Pus-te aos ombros: soberbo do teu peso,

Eu cego caminhava;

E aos meus pés a poeira, que se erguia,

Teu brilho profanava.

 

Ai! e as aleias dos jardins da terra

Tem tanto espinheiral!

E quem pensa dormir em frouxel brando,

Acorda em tremedal.

 

Rasguei, pois, minha túnica alvacenta;

O lodo a profanou:

Choro, não os meus dias, que passaram,

Mas a dor, que ficou.

 

Como me acolhes bem, ó desengano!

Procurei-te algum dia?

Por que passas a mão em meus cabelos?

Tua mão é tão fria!

 

Mas não importa... Agora em teu regaço

Procurarei o sono.

Ai! minha vida foi, como o teu seio,

Um feio e eterno outono.

 

Minha mãe, me olerente a morte ao menos

Teu perfume de amor;

Morro; e sinto deixar-te, ó minha amiga!

Morro! morro de dor.

 

Não vês a nuvem, que lá passa agora,

E corre para o ocidente?

E teu berço, ó minha alma: ali bem cedo

Dormirás molemente...

 

 

 

Gritos de um louco

 

L´aura soave e l´alba rugiadosa,

L´acqua la terra ao suo favor s´inclina

 

Ariosto - Orlando furioso

 

 

Lembra-te, ó anjo, que eu te amei um dia,

Lembra-te, ó anjo, que eu por ti chorei.

Eu, que nos teus pés ajoelhei-me escravo,

Com o mesmo orgulho com que se ergue um rei!

 

Adeus!... Vai pois além, no azul dos mares,

Curvar as vagas aos sorrisos teus!

Adeus!... Tu podes tudo em toda parte:

Fez-te rainha a formosura: — Adeus.

 

Que diz o mar à praia em que brincavas,

No proceloso, túrbido escarcéu?

Que diz a praia ao vale? O vale ao campo?

Que diz o campo ao monte? e o monte ao céu?

 

Que dizeis, larga fila de colinas,

Deitadas lá ao longe em leito azul,

Em cujo seio as asas perfumara

Macia brisa a sussurrar do sul?

 

As pudibundas, tímidas estrelas

Hoje em teu colo poisarão também:

O que dirão os langorentos olhos,

Quando estenderem na planície além?

 

O mar, a praia, o vale, o campo, o monte,

Céus, estrelas, colinas, — sei, — dirão:

— Ela vai: vamos nós: — e o mar, e a praia,

Campo, montes e céus... contigo irão.

 

E eu ficarei na vida como um homem,

A quem roubaram de repente a luz,

Que enterrado em seu túmulo de trevas,

Deixam sozinho, — que ninguém conduz.

 

E o amor há de falar aos meus ouvidos,

Como o som dos grilhões fala ao galé,

Com as sombras do cárcere além-torno,

Com as lembranças do passado ao pé!

 

Nas pedras soltas do palácio de oiro,

Que ao céu rojei e desabou no chão,

Nas pedras soltas, — nestas pedras mesmo —

Deixem-me agora perpassar a mão.

 

Não quero muito: destas folhas rotas,

Destas colunas que aí estão em mó,

Deste poema que caiu, eu quero

Salvar os restos de uma pedra só.

 

Vamos... palpemos... Tudo é pó! Mais longe

Eis uma enfim!... Oh! como sou feliz!...

É uma pedra do palácio de oiro!

Vamos ver o que esta pedra diz.

 

— Da virgindade a pérola alvejava

E a coroa de oiro, não, não de rubis...

Na fronte dela a coroa era a beleza...

Vamos ver mais... Oh! como sou feliz!

 

Tu me sorriste; mas teu riso frio,

Hirto, sem vida então me fez gelar:

Boiava à tona do teu lábio calmo,

Como um cadáver sobre quieto mar.

 

Maldita pedra!... Em tão confuso acervo

Só tu ficaste sem fazer-te pó!

Vai-te, maldita: és como o cão do cego,

Que o não conduz e que lhe late só.

 

Gritos de um louco!... sinto-o bem: doudejo!

Esforço-me amarrado aos dias meus,

Cuja corrente em vão quebrar procuro,

E aos pés rojar-te, como extremo adeus.

 

Adeus! — As vagas já o colo inclinam:

As moles brisas farfalhando estão;

E nas asas azuis que se desdobram,

Vejo erguer-se o teu pé, bela visão!

 

Adeus!... O gênio informe das tormentas

Desruga a fronte pálida e senil,

E, sentado nas fragas das montanhas,

Stá o céu a enfeitar de oiro e de anil.

 

Vai!... Mas ouve: talvez não vás ainda,

Suavíssima visão dos sonhos meus:

Adeus!... o lábio te repete sempre:

Mas ai! o coração não diz: — adeus.

 

Ondas uma após outra a pedra batem:

Dentre as vagas a lua olha através:

Lá ergue a rocha sobre a praia o colo,

Dizendo a todos: — Eu não sei quem és.

 

Tu te ergues, anjo, sobre minha praia,

Toda de branco, criação de luz:

E eu, como a lua, te enamoro, e vaga,

Sou todo flores dos teus pés a flux.

 

Ah! tu passavas como um lindo cisne,

Que as níveas asas pelo céu abriu,

E na torrente dos meus brancos dias,

Delas a sombra... a sombra só caiu.

 

Ó cisne, uma lanugem do teu colo;

Um só perfume do teu seio, ó flor;

Um beijo... um só dos beijos teus, ó virgem...

Como pagaras tu tão louco amor...

 

Nas verdes margens, sim! talvez parasses,

A desfolhar os trêmulos rosais,

Lançando rosas à torrente branca

Dos dias meus, puríssimos cristais,

 

Talvez deitando ao longe as alvas roupas,

Metesses nela a ponta dos teus pés:

Depois o corpo... Oh! podes vir: as margens

Desta torrente escondem-se em vergéis...

 

Oh! podes vir!... As pérolas dos seios

Nítidas mãos e trêmulas contêm.

Como conchas que estão quase entreabrindo...

Mostrando apenas que tesouro têm.

 

Oh! vem!... Já vejo que te rola a trança

— Rio em ondas de treva — ao dorso nu:

O teu pé escorrega... aí vem: ó anjo,

As brancas asas por que estendes tu?...

 

No mar de esperanças, que referve e canta,

Há grandes ilhas e jardins também:

Ricas cidades, que as marmóreas frontes

Erguem soberbas pelo céu além:

 

Altas torres que o manto azul retalham

Do céu, e delas saem profundos sons,

Que voam, como pássaros de bronze,

Que as asas mexem como vagalhões.

 

Não abras tanto os teus rasgados olhos...

No fundo desses dois lagos azuis

Vejo tua alma estremecer de medo,

Como o oceano ferido pelos suis.

 

Não tremas, virgem, se nas altas torres

Inquietos sons nos brônzeos ninhos seus

Voam, revoam, bramam, fremem, fogem

Buscando o seio do porvir... e Deus.

 

Por que não vens às minhas ilhas de oiro?

Vem ver impérios; vem somente ver,

Olha que as margens se abrirão, ao ter-te,

Como à luz a romã, no alvorecer.

 

Oh! que tesouros neste mar de esperanças...

Dos reis da terra tenho pena e dó!...

Vem, ó meu anjo, de tão vastos mundos

Ser tu rainha... ser rainha só...

 

Sim! eu bem vejo, aéreo cisne, voas:

Queres ser minha, desces até mim:

Mas que tristeza vem toldar-me a fronte

Quando o prazer aí vem, sorrindo enfim?

 

E eu sei que Deus nas frontes langorentas

Luz às mãos cheias lá do céu lançou;

Como na fronte de ébano da noite

O diadema de estrelas colocou.

 

Minha tristeza é filha do infinito,

Que palpo e quero e foge-me no ar;

Respiro-a em tua fronte de donzela,

No céu azul, no verdejante mar.

 

Sabes? — Meu lábio agita muitas vezes

Esta sombra que Deus em mim deitou,

Como de noite na floresta imensa

Hinos espalha o vento que passou.

 

— Meu lábio vai cantar agora!...

Leio em mim, leio em ti: vou ser feliz!

A terra, o mar, o céu, teus olhos, tudo

Até a folha do arvoredo o diz.

 

Ai! tudo é belo!... As brisas que respiro

Cheirosas vêm dos matagais do sul:

O horizonte é diáfano e profundo:

A terra é de oiro; o céu é de oiro e azul!

 

Oh! como acorda a natureza! — é noiva

No tálamo inda puro a estremecer:

E na espuma de renda, em que mergulha,

Ora o pejo a convulsa, ora o prazer.

 

Tudo mexe e palpita, e freme e vive:

Tudo cintila, tudo é luz e vez!...

Oh! que prodígio vai passar-se agora?

O que vai ser de mim, de ti, de nós?

 

Eia, meu anjo, fala, acorda... é tempo:

Meu lábio agora sepultar-se vai

No fragor de epinício cintilante,

Ou no sussurro trêmulo de um ai.

 

Porém que vejo? — As asas te arrebatam?

Oh! por que vais a me fugir assim?

— Escuta, cisne, leva-me nas asas:

Anjo, não busques novo céu sem mim.

 

Adeus! escuta: rápida me foges!...

Quem pudera seguir os voos teus!

Adeus! eu quero ouvir-te a voz ainda!

Adeus! ao menos vem dizer-me adeus!

 

É tarde! É tarde! Eu doudejo agora.

Volta: ofendi-te! Tens no rosto a dor:

Ai! volta: escuta: — Adoração, meu anjo:

Não me entendias, porque eu disse: Amor.

 

Mas foi tão tarde! Não me ouviste: foste!

Lembra-me agora que por ti chorei!

Lembra-me agora que por ti fui louco!

Lembra-me... ai! lembra-me... Eu te amei! amei!

 

Agora, como um cego, a mão estendo

Entre as ruínas do passado só:

Nem uma pedra do palácio de ouro!

Desse poema só me resta o pó.

 

 

 

Miosótis

 

 

Oh! tu queres que entenda estas flores,

Cuja terna e mimosa linguagem

Traz-me o encanto, a doçura da aragem,

Que atravessa os teus lábios gentis,

Cuja voz tem um eco partido

Tão do fundo de tua existência,

Que antes é triste adeus de uma ausência

De andorinha que deixa o país!

 

Não foi obra do acaso? Trazia

Dentro delas o teu pensamento?

Era como um queixume, um lamento,

Que partia do teu coração?

Ai! tu mesma os vestidos erguendo

Da orvalhada, que a relva molhava,

Enquanto eu junto à casa ficava,

Colher foste-as com rápida mão.

 

E voltaste contente, animada,

Com mais cor, que na face não tinhas.

E ao entregar-me as mimosas florinhas,

Tua mão tinha um certo tremor:

— Não conhece? na pátria de Werther,

Lá na terra da triste Alemanha,

Vale, outeiro, campina, montanha,

Rico e pobre conhece esta flor.

 

A princesa que vive em castelos,

Camponesa em tugúrio de palha,

A mão cheia as florinhas espalha

Dos canteiros, que estão ao sopé:

Quem se não serve delas um dia,

Quando a dor de uma ausência nos chega,

Quem não pede à florinha tão meiga

Sua voz, seus segredos... quem é?

 

Quem não tem um parente, um amigo,

Que abra em torno de si um vazio?

Quem não teve um momento sombrio

Para um pai, para um filho chorar

Quando deixam seu lar e seus campos,

E vão longe, por outros países

Ver se podem fazer-se felizes,

Noutro céu outra estrela encontrar?

 

Ai! então entre lágrimas fala,

O que o lábio dizer nunca soube,

É um mundo de cousas que coube

Dentro dessas florinhas azuis,

Que lhe entregam, que levam consigo,

Como o aroma da terra deixada:

Como flor e não sendo mais nada,

Vale mais do que um mundo de luz... −

 

Tu falavas, gentil amiguinha,

Como o mel, que de um favo goteja,

E minha alma era abelha, que adeja

Louca e tonta a beber desse mel:

E eu bebia esse aroma divino,

Eu bebia o licor destilado

Pelo cálix da rosa, mau grado

Ter o quer que de vago e cruel.

 

Ai! não era o que nela buscava

O meu louco desejo, não era:

Nem que a flor as estrelas trouxera

Enfeixadas consigo também;

Tu falavas da flor e cerravas

A tua alma em profundo sigilo:

Escutei-te, sereno e tranquilo,

E tornei: — Amiguinha, pois bem,

 

Mas quando ela é deveras sublime,

Quando tem o valor de um poema,

É, se é dada por mão que trema

Entre as mãos, ao ser dada essa flor,

Quando os olhos se empanam na nuvem

De um orvalho de lágrima pura,

Quando a mão sente a mão que a segura

Fria e o rosto expressivo de dor.

 

Quando a amada mulher em segredo,

Não podendo falar, no-la entrega,

Mas depois que de lágrimas rega,

Mas depois de beijá-las sem fim:

Como fala a mimosa tão triste,

Vestidinha de azul orvalhado:

— Mas não tardes... não tardes, amado;

Vai, adeus, não te esqueças de mim...

 

Não te esqueças de mim, é seu nome,

É o nome da flor que me deste.

Foi acaso? Sabias? — Quiseste

O que a flor dentro em mim levantou?

Que esperanças! que loucas quimeras!

Que desejos! que anseios! que ardores!

Leva, leva contigo estas flores,

Nelas nunca a tua alma falou.

 

Ai! em vão tua mão te tremia.

Muito em vão, sim! tu tinhas no rosto

A sublime expressão do desgosto

De um amor impossível talvez!

Ai! em vão em tua voz procurava,

No volver dos teus olhos, no gesto,

No cansaço, no riso, num resto

Da marmórea, eternal palidez...

 

Ai! em vão! ai! em vão! eu buscava

Ler tua alma, entender-lhe o segredo;

Ou astúcia, ou finura, ou já medo,

Ou indiferença, o mais certo, encontrei.

Tu que sabes do amor com que te amo,

Tu tremias do gosto que tinhas

De enganar-me com essas florinhas,

De me ver ébrio e louco: — bem sei.

 

Só quiseste falar da Alemanha,

Da miosótis tomando o motivo;

Ai! mas nesse momento aflitivo,

Ler buscava no mudo palor

Do teu rosto, um pouquinho animado,

A expressão dessa doce ebriedade

De mostrar-me com tanta crueldade

Luminosas miragens de amor!

 

Não te esqueças de mim, me dizias?

Não te esqueças de mim... Impossível!

Eu que sempre te vi inflexível

Aos extremos do meu coração:

Que este amor só transluz nos meus olhos,

Na tristeza em que sempre me vias:

E ai! tu só! ai! tu só! me dizias:

— Não te esqueças de mim, como irmão:

 

Toma, toma as miosótis que deste,

Guarda-as bem no teu seio, querida:

Mas quando elas te encherem a vida

De uma longa saudade sem fim,

Quando fores cansada de ver-me,

De sofrer quase morto me notes,

Manda então outra vez as miosótis:

Diz-me então: — Não te esqueças de mim.

 

Oh! então erguerei com Cristo

Do sepulcro o lajedo pesado,

E de novo ao teu sol deslumbrado,

Céus e terra verei aos meus pés:

Beberei vida nova em teus lábios,

Beberei em teus beijos alento...

Vem, Amor, é a vida um momento:

Ó ventura, eu já sinto o que és...

 

 

 

A flor do vale

 

 

Adeus, ó linda flor, em que tão pálida:

Eu vou partir: mas tu fica-te embora:

Caia o orvalho do céu, como os meus prantos,

Sobre o teu seio que languesce agora.

 

Poise em teu cálix, transmudado em riso,

Cada raio que a aurora desentrança:

Cada avezinha, que do céu te venha,

Do céu traga-te um canto de esperança.

 

Cada sol te renove um doce encanto;

Mas que não venha o vento lisonjeiro

Na asa, que arrasta noites delirantes,

Dormir contigo ao mesmo travesseiro.

 

Quero-te tanto assim, pálida virgem,

Nesse vago cismar, no olhar tão triste,

Que parece que a morte inda agorinha,

A dois passos de ti brincando viste.

 

Amo-te tanto assim... Oh!... muito!... És bela,

Como o tímido olhar de uma criança:

Tu vacilas fantástica em meus sonhos,

Como a mórbida luz de uma esperança.

 

Ó nunca, meu amor, à borboleta,

Abrindo as asas matizadas de oiro,

Abras o seio de cetim tão branco,

Teu bem melhor, meu único tesoiro.

 

Eu quero à tarde, no cair das sombras,

A fronte reclinar em teus joelhos;

E como fala nos sons da harpa um anjo,

Um anjo ouvir falar nos teus conselhos.

 

Ó meu amor, só tens as asas brancas,

Só tens o facho, etérea formosura:

É quanto quero: as asas p’ra minha alma,

E o facho para minha noite escura.

 

Oxalá que na treva em que me escondo,

Esta linda miragem me não minta:

E que inda possa te cerrar nos braços,

Tão pura como o canto meu te pinta.

 

Cedo volto, alva flor, e se no vale

Inda encontrar-te perfumosa e linda,

Quero sob o teu hálito odoroso

Moles noites de amor dormir ainda;

 

E saber que é por ti que aspiro e vivo,

E no fogo em que esta alma se evapora,

Dormir contigo como um monte acorda

No seio em brasa de uma linda aurora.

 

Vênus boiando nas espumas de oiro,

Que oceanos de luz nos montes deixa,

Vacila, como lágrima na pálpebra,

Após o desabafo de uma queixa.

 

Olha: ei-la que vem trêmula e envolta

De raios de oiro lânguidos, serenos:

É a estrela do amor. Olhando-a à tarde,

Não te esqueças de mim... nessa hora ao menos.

 

Flor, como uma harpa em vibração tremendo,

Eu bem cedo, outra vez, serei contigo,

Na fronte a chama, no meu lábio o hino,

E no meu peito o meu amor antigo...

 

 

 

A sorte

 

Amore, amore, grida tuto il mondo.

 

S. Francisco de Assis

 

 

— Por que vou ver das colinas

A manhã que nos sorri?

— Eu, se lá subo, imaginas?

Acaso vou eu sem ti?

 

— Queres saber por que cismo?

Não sabes, mimosa flor?

— E tu, por que cismas tanto

Às horas do sol se pôr?

 

— Queres saber o que fazem

Meus olhos por céus além?

— E os teus, que fazem? não erram

Perdidos por lá também?

 

— Por que suspiro, abaixando

A fronte pálida ao chão?

— E tu, por que a fronte inclinas,

Por que suspiras então?

 

— O que procuro — alta noite —

Lá dentro nos olhos teus?

E tu, mulher, o que queres,

O que procuras nos meus?

 

Que doce mistério é este?

Eu quem sou, e tu quem és?

Tu... toda a luz de minha alma:

Eu a sombra dos teus pés.

 

Eu sou a noite que doira

Da tua estrela o fulgor:

Eu sou o vale profundo,

Tu és a pálida flor.

 

Eu sou a vaga sombria,

Que soluçando correu:

Tu és o raio perdido,

Que em suas águas bateu.

 

Eu sou a árvore agreste,

Que nos rochedos brotou:

Tu és o pássaro lindo,

Que nos seus ramos pousou.

 

Eu sou as folhas do livro,

Tu és a lenda de amor;

Eu sou o vaso, e tu, virgem,

Tu és o suave odor.

 

Da vida às margens risonhas,

Onde há só mudez e paz,

Eu rosas estou colhendo,

Tu rosas colhendo estás.

 

Ai! embalemos as almas

Num berço de amor sem fim:

Eu não quero... tu não queres...

Mas a sorte o quer assim!...

 

 

 

A lâmpada eterna

 

 

Agora quando o sol surgir de novo

Entre a pálpebra imensa do horizonte,

A dor madrugará também com ele,

Longos sulcos cavando em minha fronte.

 

Esqueleto de um riso há tempos morto

Jaz aqui no meu peito em cava escura,

Onde a luz fria de minha alma bate

Como um raio de lua em sepultura.

 

Pálida estrela, tu passaste errante,

Nua e sem raios pelo meu deserto;

Quero ao menos amar-te, em que bem longe,

Já que não posso ter-te aqui bem perto.

 

Quando as flores murcharem pelas jarras,

Nem luz de festa houver no altar poento,

E pela nave do meu templo escuro

Passar apenas sussurrando o vento...

 

Como uma flor de fogo desbrochada

Num solo merencório e solitário,

A tua imagem pura e irradiante

Dará luz no interior do meu sacrário.

 

E, que me importa a luz de cem mil círios,

Sendo tu uma alâmpada sagrada,

Que sobrevive do esplendor da festa,

Sempre a arder na capela abandonada?...

 

 

 

Não rasgues teu nome

 

Numa página de livro de E. Pelletan

 

 

Que anjo do desespero,

Encarnado em grito horrendo,

Me atravessa o lábio e o fere

Como espada em chama ardendo?

 

Que quer dizer este brado

Nos lábios meus a ulular,

Como quem sai dos abismos

À superfície do mar?

 

Que fazes? que profanaste?

Aonde atreveste a mão?

Quem vê o sol, basta um dia,

Nunca mais deslembra-o, não.

 

Monta o pálido ginete,

Sobe a colina de além,

Viaja o vale da morte,

Quem te há de esquecer? Ninguém.

 

Elias do pensamento,

Sacode o pó dos teus pés,

Monta o teu carro de fogo,

Sobe: — sabemos quem és.

 

Teu nome não te pertence:

Não to podes mais roubar:

O vento escreveu-o nas folhas

Do seu livro secular.

 

O tempo vinga esta injúria:

É um cofre de oiro a história,

Onde há de soar teu nome,

Lançado por mão da glória.

 

Oh! teu futuro é bem lindo,

Como o meu é feio e agreste,

Como vinga o teu loureiro!

Como cresce o meu cipreste!

 

 

Nota no livro:

Logo que apareceu “Le Monde Marche” de E. Pelletan, esgotaram-se os exemplares nas livrarias. Teixeira de Mello, o poeta de “Sombras e Sonhos”, emprestou o seu exemplar a Luiz Delfino, rasgando a parte da página em que lançara o nome. Na mesma página foram escritos estes versos.

 

 

 

Cismando

 

 

I

 

 

Em baixo o mar, que se desfranja imenso,

E em cima o céu a arder,

E o sol, ossada de real cadáver,

No túmulo a descer.

 

E no oriente, num coxim de prata,

A estrela se reclina.

Olhar da noite vigiando o dia,

Por detrás da cortina.

 

E a brisa com os azuis cabelos soltos

Brincando pelo bosque,

Batendo as leves, perfumadas asas

Nos vidros do quiosque.

 

E o batel preso à margem da corrente,

Ondulando ao seu grado,

Como minha alma ao corpo, oscila e treme,

Batel à praia atado.

 

Lembras-te, ó Virgem, deste quadro belo,

Que ontem vimos dali,

Tu sentada na relva da colina,

E eu ao pé de ti?

 

  

II

 

 

Sonhemos juntos, na estação das flores,

Sonhemos em mudez:

Eu na fronte o vulcão, o incêndio, a lava,

E tu a palidez:

 

Eu a rosa em que o sol perfuma as tranças,

Eu a rosa de amor:

Tu o lírio, que a tarde traz no seio,

O lírio do pudor.

 

Oh! nestes sonhos que vaporam da alma,

Como um doce perfume,

Nestes delíquios, nestes longos êxtases

A vida se resume.

 

A vida bela, que sacode aos ares

O seu manto odorento,

Como a palmeira da Ásia o véu de amores

Na passagem do vento,

 

A vida bela na celeste idade,

Em que tudo a cismar,

Pela escada de seda da esperança

Despenha-se no ar.

 

Ai! sonhemos, ó Virgem de olhar doce,

De lânguido palor,

Tu os sonhos de Deus na fronte bela,

Eu os sonhos de amor...

 

 

 

A vida

 

Num álbum

 

 

A vida é taça de oiro, ou prata, ou argila,

E sempre a quer a mocidade cheia:

Doiradas ilusões fervem-lhe dentro,

Como orvalhos em páramos de areia.

 

A vida é rio, que murmura, ou brada,

Ora na mata à sombra de arvoredo,

Ora em deserto, em leito nu, sem flores,

Que vai em mar sem fim morrer bem cedo.

 

A vida é flor em cima de uma vaga,

Que em moles asas leva à praia o vento:

Mas essa praia é o colo de uma virgem,

Um loiro, um goivo, o espinho de um tormento.

 

Desata a vida por serenos vales;

Não te despenhes de alcantil sombrio;

Paga-te a queda o estrépido ululoso,

Que não vale a mudez de um claro rio;

 

De um claro, rio, espelho transparente,

Que entre as rosas da aurora o céu afaga,

Que embala a tarde, nos seus véus doirados

Pondo uma estrela à flor de cada vaga.

 

Assim sereno, assim suave e calmo

Passa silente à sombra da colina;

E a própria relva, que lhe enfeita as margens

A dar flores gentis o rio ensina.

 

Na taça de oiro de inocentes crianças

Enche a existência, que tão branda corre;

Sem nome, mas também sem longas mágoas,

Ama a mulher, a Deus, a Pátria... e morre.

 

Não vás aos cimos desnichar as águias;

Não vás aos bosques perseguir as feras:

Deixa que o sol de luz os pés te banhe,

Vê à noite a brilhar milhões de esferas.

 

Lutar com mares não sabidos para

Novos mundos achar, é só de poucos:

Esses vivem a glória, e sombra, e sonhos,

Esses são sempre mártires e loucos.

 

Ai! as visões! essas visões eternas,

Esses fantasmas de oiro, a que passado

Arrastam após si uma existência...

Não sigas... Foge ao abismo inda ignorado.

Ninguém é Prometeu sem ter dos deuses

Ferros, torturas, quedas desastrosas:

Melhor vida é viver indo entre lírios,

E dormir, acabando, em chão de rosas...

 

 

 

A abelha

 

Soyez bien réveillée!...

 

Cazotte

 

 

Que vens tu fazer, abelha,

Lindo inseto zumbidor?

Que vens tu zumbir ao vento?

Que vens tu zumbir à flor?

 

Eu sei, inseto inocente,

Que para teres teu mel,

Matas a flor, em que pousas,

A lindo flor do vergel.

 

Encostas teus beiços de oiro,

Teus lindos, doirados pés

No colo rubro das rosas:

Se elas não sabem quem és!

 

Porque sua irmã te julgam;

E julgam, quando te veem,

Que és uma flor sem raízes,

Ou uma flor que asas tem.

 

E depois teu beiço é doce;

Sabe tanto o teu zumbir!

E a flor inclina a cabeça,

E pensa que vai dormir.

 

E pensa que o sono é belo,

Que noutro dia hão de vir

Com a aurora os mesmos orvalhos,

Com o sol o mesmo sorrir:

 

Que nos teus braços, abelha,

Ai! nos teus braços de irmã,

Há de embalá-las a noite,

Achá-las há de a manhã.

 

Eu sei, abelha doirada,

Eu sei qual é teu ardil:

És como a aranha; a teu modo

Urdes a rede sutil.

 

Mas essa rede é mortalha:

Mesmo assim fina, como é,

Ai! quem tocar a mão nela!

Ai! quem deitar nela o pé!...

 

Ó linda flor, foge dela,

Foge dela, ó linda flor.

Esse inseto de asas de oiro

Canta, mas olha, é traidor.

 

Há de dizer-te: — és a joia

Do esmeraldino roupão,

Que cai dos ombros dos montes,

E tolda em pregas o chão:

 

Há de chamar-te: princesa;

E o teu sólio há de beijar:

E há de dizer: — tem bem pouco,

Quem ter merece um altar:

 

Que há de salvar-te à tormenta,

Se a fria chuva cair:

Mas de uma coroa de orvalho

A fronte te há de cingir.

 

Da noite o orvalho é diamante,

É sem rival seu fulgor;

E acorda assim enfeitada,

Mais linda a mais linda flor.

 

E há de dizer-te inda a abelha,

Que durmas, sem te afligir;

Que nem as mesmas estrelas

Ao teu poisal hão de vir.

 

Que na tua mole cama,

(Que cheiro os lençóis não têm!)

Que nas cortinas, no berço,

Ninguém bolirá... ninguém...

 

Que as tranças de oiro, ligeiras,

Que em ondas vêm a rolar

Da espádua negra da noite,

Que tem a fronte a estrelar...

 

Com os pés calçados de sombra

Sobre a terra a caminhar,

Não hão de em teu seio puro

Não hão de se perfumar.

 

Flor, ficarás encantada,

Tu te hás de julgar feliz.

De teres, quem te ama tanto,

Quem tantas cousas te diz.

 

Que extremos!!... Ter amplo o espaço!

Livre o céu, bem amplo o ar!

Ter asas, e não deixar-me!

Oh! ela é quem sabe amar.

 

Sim! eu decerto amaria

Tão boa amiga; sei bem:

É linda: e além de linda

Quase é minha irmã também.

 

Mas eu furtara um momento,

A tão extremo amor,

E fora ao vale vizinho,

Saíra a ver outra flor:

 

Subira ao céu: minhas asas

Molhara-as em seu clarão;

E até em pensá-lo, o juro,

Sinto-me humilde no chão,

 

Pelos pés acorrentado,

Presa enfim pela raiz,

Embora me veja amada,

Sinto-me sempre infeliz.

 

Ó abelha, abelha, abelha,

Abelha gentil irmã;

Deves pois amar-me muito!

És boa, quanto és louçã.

 

Dorme comigo em meu berço:

A noite vem, a chegar,

E a brisa que há de embalar-nos,

Vem lá dos lados do mar —

 

E abrirás o teu berço

De seda, de oiro, e cetim,

Flor boa, — Abel das campinas, —

À abelha, — seu mau Caim.

 

E penderás a cabeça:

E quando a fores pender,

Conhecerás, mas já tarde,

Ir nesse sono morrer.

 

E hão de encontrar noutro dia,

Já sem perfumes, sem cor,

No teu berço mutilado

O teu cadáver de flor.

 

Maldita, maldita abelha,

Que para fazer teu mel,

Matas a flor em que poisas,

A linda flor do vergel.

 

 

 

O nome

 

No álbum de minha irmã

 

 

Do nome a lembrança ao menos

No teu álbum queres tu:

Nem como o filho de Vênus,

Tem asas, sendo ele nu...

 

Nu, sem asas, sem história,

Junto a um ossário sem cruz,

Não há de o anjo da glória

Dar-lhe em torno branda luz;

 

Alumiá-lo aos vindoiros,

Vê-lo na campa surgir

No meio desses tesoiros

Com que se paga ao porvir.

 

Mas abençoado seja,

Quem o loureiro criou,

E o espinhal, que viceja,

E o pé que um dia o pisou.

 

Vá, pois, minha irmã querida,

Meu nome e o meu coração,

O nome, e a fonte da vida,

Flor seca, e extinto vulcão.

 

Irmã, modesto regato,

Sem ondas e sem fragor,

Nas margens virente mato,

No mato inocente flor.

 

Flor de candura, cheirosa

De perfumes matinais,

Se mais bela ou se odorosa,

Não se sabe o que ela é mais.

 

Recebe o meu triste nome,

E guarda-o em teu seio bem,

Que de ti ninguém o tome,

Que não o saiba ninguém...

 

O meu nome sem ruído,

E o meu mudo coração,

Como um som esvaecido

Sobre as cinzas de um vulcão.

 

Como a folha que segura

A um galhinho inda está,

Nas ondas dessa água pura,

Que é tua vida, que vá...

 

E enquanto ele vai... enquanto

Teu santo bálsamo cai,

Faz-me o teu bálsamo santo

Erguer da campa meu pai...

 

O nosso pai, irmã boa,

Que vendo a nossa união,

Com uma mão nos abençoa,

Sobre nós põe outra mão...

 

 

 

A ave do amor

 

Lasciate ogni speranza...

 

Dante - Inferno

 

 

Que ave de paz lá vem, trazendo em cuidos

No tenro bico tão mimosas flores,

— Talvez colhidas de rosais de sonhos,

— Talvez medradas em vergéis de amores?

 

Que encantadora que é! voga no espaço

Como na mente a ideia de ventura,

Como um sorriso a espreguiçar-se lânguido

À flor dos lábios de uma virgem pura.

 

Vem mais serena que a canção que passa

Do coração ao lábio, onde flutua

Sustentada nas asas da harmonia,

num céu de outono a lua.

 

Avezinha do amor, vai com teus ramos

Fazer teu ninho; veio a primavera:

Adeus! vai ser feliz. Adeus! sê livre!

Oh! tão livre e feliz quem ser pudera.

 

Vai: não pares aqui. Mas ai! mau fado...

Mau fado teu, onde poisar vieste?

Não havia algum campo mais viçoso?

Há por aí vergel menos agreste.

 

Que queres tu de mim? — Ai! desgraçada!

Sabe-o Deus, para mim já que assim corres,

Se desejo asilar-te!... Mas não posso:

Vais morrer, infeliz! — Coitada, morres!...

 

Ó não venhas, por Deus, ave, não venhas

Fazer teu ninho, e assim morrer tão cedo

Num fundo abismo, namorando a grimpa,

Que ao pé se eleva de alcantil penedo.

 

Minha alma hoje é um sepulcro escuro e feio,

Meu coração terreno montezinho,

Inda que se ergue pelo mundo, altivo...

Ai! da avezinha que aí fizer seu ninho!

 

Pobre infeliz! Nem sabes que tormenta

Anda num céu de pavoroso inverno,

Aonde o sol das ilusões é frio,

Onde a descrença é um pegão do inferno.

 

Degradado do Éden dos meus sonhos,

Vou às vezes à porta proibida

Chorando, como Adão, e inda ouço ao longe

Dulias de anjos da mansão perdida...

 

Mas ai! o desengano é gelo, é morte,

P'ra as flores da alma um furacão eterno!...

Pobre infeliz! nem sabes que tormenta

Anda num céu de pavoroso inverno!

 

Quando se encara o nada desta vida,

E a fofa pompa a que este mundo aspira,

E só se encontra no pequeno e grande

Vaidade, orgulho, estupidez, mentira:

 

Quando se tem de manejar a intriga,

A adulação vestir com frases de oiro,

Como um verme asqueroso andar de rastos,

Para depois se haver um vão tesoiro:

 

Tropeçar na miséria a cada passo,

Ver que a fome ao seu lado a voar ande,

P'ra matá-la manchar as mãos de sangue,

Depois na rua blasonar: sou grande!...

 

Roubar ao órfão o pão, e à viúva triste,

Fazer suar a esquálida pobreza:

Subir pelos degraus do crime a passo,

Até chegar às salas da grandeza!...

 

Olhar lá do alto a mesquinhez dos outros,

Vê-los vergar; pisar-lhes sobre o colo,

Julgar que deles os separa um mundo,

Quando é só a traição, o crime, o dolo!...

 

E nós pensamos que nossa alma é um templo,

Que tem por tochas grandes pensamentos,

Ardendo ante o altar de sãs ideias,

Mas nunca em aras de ídolos poentos!

 

Que este crânio é uma alâmpada eviterna,

Pendendo acesa desse teto imenso,

A destilar suavíssimos perfumes

De âmbar e aloés e mirra e nardo e incenso!

 

Mas qual!... É uma taberna e pobre, e suja,

Onde a plebe se ebria, onde vomita,

Onde faz dissensões, onde blasfema,

Onde ulula e pragueja, e ri-se e grita.

 

Tais são as sensações mais austeras,

Que à alma vão por qualquer das cinco portas;

Lá se ebriam, lá brigam, lá se rompem,

Lá se enervam, por fim lá ficam mortas.

 

E o crânio? Isso é um covil meio encoberto

Por esta grenha de cabelos densos:

Rasgado corucheio, que as ervas cosem,

E em que andam bandos de aves más suspensos.

 

E quem dirá, que ocultos não voltejam,

Sinistros, como sombra em corredores

Projetada por lâmpada mortiça,

Na mente afãs, e ânsias, e amargores?

 

E o que tem alagado o rosto em luzes

De um riso, que do lábio está pendente,

Como lustre do pórtico de um paço,

Cheio de festa, de prazer, de gente?

 

E dentro? Não passeis daquelas portas:

Vos mente o coração; é chagas todo:

Fruto, — oiro por fora, e a massa vermes;

Lago, — prata na flor, no álveo lodo.

 

Homens, quereis saber quem sois? Um dia

Ide sós, ermos, longe da cidade

Ver roçar pela face azul do oceano

As asas do dragão da tempestade:

 

Ide às florestas nos festins das brumas,

Negro o céu, densa a noite, o vento forte,

Rugindo aos sons do cedro, que desaba

Como um riso de escárnio aos ais da morte:

 

Ide... e ouvindo o estalar dos galhos secos,

Que imita de um cadáver as passadas,

Que entre as brenhas, ao entrechocar dos ossos,

Bate palmas ao raio, em gargalhadas!

 

Meus amigos, trazei as vossas taças,

Enchei-as neste oceano de luz pura:

Barca de oiro é uma nota de harpa jovem,

Que erguendo ondas de um mar de luz, murmura,

 

Desfralda as velas como um cisne as asas,

Cortando um mundo imenso da harmonia,

Traz cada vaga um pensamento de oiro,

Um ramo de coral da fantasia.

 

Meus amigos, trazei as vossas taças,

Ide enchendo-as da luz que um canto escorre:

Hoje eu canto: amanhã? não sei: quem sabe?

O cisne canta, e quando canta, morre...

 

Meus amigos, gravai bem na memória:

Um tesoiro não vale uma impostura;

Uma ação vil macula a vida inteira;

Uma virtude vale a sepultura.

 

Abri... abri caminho a vis escravos,

Olhos torvos, copando a fronte o loiro:

Do que arrasta a zombar grilhões de ferro,

E a arrastar — vis! — os seus, por serem de oiro.

 

Deixai-os, sim! — As aves, que de noite

Dando daqui, dali um curto salto,

Como não veem de dia o voo da águia,

Não creem que possam céu pisar mais alto.

 

Eu não: eu triste, que só tenho uma harpa,

Abordoado e mudo peregrino,

Como um cisne batendo as asas brancas,

Sem deixar rasto, sigo o meu caminho...

 

Também às vezes sobre a estrada pairo:

Olho o mundo a soslaio, e vejo o espaço

Pejando gralhas, cujas ricas penas

Roubaram dos pavões: ergo-me e passo.

 

Pairo além: olho; e então dou fé que o homem,

— Rei destronado, — ensaia um voo ainda

Ao reino, donde foi por Deus lançado:

Delira; — mas o arrojo seu não finda.

 

É verdade: nossa alma, — essa águia imensa —

Abre as asas vaidosa, e aos céus remonta:

Ei-la quase a empolgar um astro... empolga...

Quase... Mas lá naufraga em luz, de tonta.

 

Tantos mundos, que em chamas arrebentam,

Tanta glória no azul do céu traçada!

Que não dê um rasgão em tanto arcano!

Que veja tanto! que não saiba nada!

 

É grande só quem não levanta os olhos,

Para acima de si ver cousas belas.

Quem tem aos pés milhões de sóis, de mundos,

E muito abaixo as nuvens e as procelas.

 

É grande quem não volta a frente ao vento,

Que lhe sacode o pó da terra à cara;

Quem os olhos não fecha à luz do raio,

Que faz tremer de medo o vil que a olhara.

 

É rico só quem com um desejo apenas

Do nada um céu tão lindo desencanta,

Quem pode só com um pé erguer mais astros,

Que o pó dos campos, que o tufão levanta.

 

É sábio só quem pode a tantos mundos

Dar leis e ser o único monarca,

Conduzindo-os mais calmo que um remeiro

Conduz, cantando amor, num lago a barca.

 

É bom somente quem podendo tudo,

Vendo o homem que quer ser rei, ser forte,

Não despenha torrentes de coriscos,

Chuvas de fogo, furacões de morte.

 

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E o que é o amor? Um sonho inebriante,

Que aos braços da mulher num beijo passa:

Sombra a amizade que acompanha o fausto,

Que se apaga, que foge ante a desgraça.

 

Ah! que as rijas lufadas das descrenças

Varreram-me as ilusões! Conheço o nada

Dos gozos deste mundo; e que má sina,

Quem não tem de ilusões alma enflorada.

 

Não há mais para mim auroras lindas,

Nem sol de encantos, nem cismar profundo;

Só ouço os passos de uma turba louca,

Só vejo trevas a reinar no mundo.

 

Ah! e o que é um coração de poeta,

Onde a desgraça em rijos tufões brama?

O que aí pode florejar? Nem cardos,

Nem pobre relva, nem rasteira grama.

 

É como a rocha à beira mar, sem viço,

Onde o mar vai quebrar iroso a sanha!

É como a lança, que branqueja a neve,

De estéril coroa de brutal montanha.

 

E então lá quando as aves de almos sonhos,

Namoradas, como águias, pela altura

Desse alcantil, aí em flores voam,

Poisam na lájea de uma sepultura;

 

Qualquer rugir do coração as deita

Ao abismo da alma!... Ai! teu adejo corta;

Avezinha de amor, se queres vida,

Não poises, não, aqui: poisando és morta.

 

Minha crença é não crer em cousa alguma,

Menos em Deus, menos nas dores, menos

No fim de tudo, nas sombrias cousas,

Que nos pedem, chorando, uns vagos trenos.

 

Vai buscar algum campo mais florido,

Um vergel para ti menos agreste,

Um coração, onde ilusões vicejam:

Para que a um calvo coração viste?

 

Mulher, se prezas tua felicidade,

Quando me vires a sorrir um dia,

Não creias, não, em mim: — é falso o riso:

Oh! não queiras amar estátua fria.

 

Se, no meu coração, fazer tentares

Com penas de ilusões de amor o ninho,

Vê: se queres viver, lembra o meu canto:

Corta teu voo e deixa-me sozinho.

 

Deixa, na brenha do sofrer oculto

Rochedo, o coração como atalaia

Do abismo de minh’alma, até que um dia

Raio de morte o despedace e caia.

 

Goivos, então, que hoje bordais meu bosque,

Livre estrada abrireis de galho em galho,

Por onde passe à areia ressequida

O rocio da manhã, da noite o orvalho.

 

Porém, lá quando o sol quiser seus raios

Calar, goivos, fechai, não quero flores

Num granizo esquecido, que não pôde,

Enquanto coração, ser para amores.

 

E onde irás tu, meu pobre canto? És folha,

Que aos sóis da existência entregue, corre;

Caída já de uma árvore esgalhada,

Inda que nova, mas que pende e morre.

 

Passarás pelo mundo, como passa

Um suspiro de um peito desgraçado,

Como uma gota solta no oceano,

No tumulto da vida abandonado.

 

Homens, porém, se algum de vós moteja,

Se algum de vós em mim não crê tão pouco,

Entregai-me aos baldões, passai felizes,

Que eu irei só, como caminha um louco.

 

 

 

Salve, ó livro

 

Num álbum

 

 

À sombra do vergel coberto de loureiros,

Onde os cisnes da Lísia e do Brasil rivais

Roubam à abelha o mel e o clarão aos luzeiros,

Em melódicos sons, em cantos divinais,

 

Vim sentar-me, conviva estranho, humilde, ignoto,

Entre a turba de reis, que é cada um pensador,

E erguer a voz também, também fazer meu voto,

Mesclando aos seus lauréis a minha pobre flor.

 

Sonhei: — Vi do horizonte erguer-se um vulto armado,

Com gesto de guerreiro antigo e colossal,

E abraçar um mancebo a erguer-se do outro lado

Tão grande que o cabelo era-lhe um florestal.

 

Tinha um rio enroscado à floresta; — era o casco,

Como serpente argêntea em troncos a silvar:

Na boca enorme traz um enorme penhasco,

Que, disséreis, ser ilha em verde e pleno mar.

 

Os pés punha-os também sobre outra igual serpente,

Estendendo a lamber ubérrimos vergéis:

A imagem cri eu ver do meu Brasil ingente,

Que à fronte tem um rio e outro rio nos pés.

 

Levando aos ombros nus as vagas espumosas,

Entre eles o oceano estortegava em vão:

Fronte a fronte no ar, ali os dois gigantes

Firmavam num amplexo uma eterna união.

 

Enquanto à mente o quadro em sonhos me apresenta,

E eu quero e aspiro vê-lo eternamente assim,

De um e de outro país o gênio aqui se assenta

No mesmo livro como à mesa de um festim.

 

O livro então parece o braço destinado

A ter a humanidade em senda mais feliz,

A ligar o Cruzeiro ao Tejo decantado

E os montes de um país ao mar de outro país.

 

O livro é como o sol, águia da imensidade

Nos páramos do céu em voo perenal,

O facho que ilumina o passo à humanidade,

A espada que fulmina o anjo torvo do mal.

 

O raio que derruba as raias dos impérios,

E nivela as nações e une povos e reis,

Que faz o poeta ver nos espaços etéreos

Junto ao jovem Brasil o ancião português,

 

Caldeira refervente em que cai a pedaços

A vida e o coração e a alma do pensador,

Donde sai, pé em terra e a fronte nos espaços,

Feita de sons e luz a figura do amor,

 

Elo santo que prende o mar grande ao vil lenho

E às divinas canções um tênue som de mais:

Salve, ó livro, arca de oiro em que guardar eu venho

Meu pobre nome e uni-lo aos nomes imortais.

 

 

 

Aquela tarde!...

 

 

Quisera atirá-la ao espaço,

Dar-lhe inteira liberdade...

Cantar minha felicidade

Aos montes, aos céus, ao mar:

Quisera sentir o abalo,

Que percorrera por tudo:

Mas ai! devo ficar mudo;

Mas ai! não devo falar.

 

Custa guardar um segredo!

Custa saber que astro ignoto,

Não sabido, em céu remoto

Visto por mim a luzir,

Deve ficar sepultado

No seu ninho resplendente...

E que hei de eu só... eu somente,

Vê-lo, amá-lo, e o não trair.

 

Que há de ser como um abismo,

Como entranha que devora

O resplendor de uma aurora,

Sem ter poder de a mostrar:

Contê-la por que não saia!

Foi grande o meu fatalismo:

Caiu a pérola no abismo,

E eu fui o abismo do mar.

 

Agora sei o que custa

O esconder a ventura!

É tão fraca a criatura!

É tão constante o sofrer,

Que quando chega o momento

Da menor felicidade

Quer contá-la à imensidade,

Quer dá-la a todos saber.

 

Não cabe um argueiro destes

Dentro de suas entranhas,

Ele que engole montanhas

De obscuros dramas de dor,

Que cala todos os gritos

De suas misérias brutas,

Com as pálpebras enxutas,

Limpa a fronte de suor!

 

Chega o instante radioso,

Morde no fruto doirado,

Fica-lhe o lábio banhado

Do doce mel a luzir;

Quer esconder a ventura:

Mas o gozo é tão profundo

Que aos vesgos olhos do mundo

Quer e não pode mentir.

 

Argila que estala, e deixa

Pelas fendas entreabertas

As essências mais secretas

Fugir... perder-se no ar.

E a inveja que enruga a fronte,

Por toda parte procura,

Quem pôde o olor da ventura

Deixar do vaso escapar.

 

Ai! desta fraqueza humana,

Ou desta humana vaidade,

Que esconder a felicidade

Quer, e sucumbe no afã!

Miséria!... cobarde infâmia

Os nossos brios consomem,

Mas o homem é sempre o homem

Ontem, e hoje, e amanhã!...

 

Assim dentro de mim gira

O ignoto astro, que veio

Meter-se dentro em meu seio,

Encher-me de estranha luz!...

Ai! se o descobrem acaso!

Qualquer grito traiçoeiro

Fará secar meu loureiro,

Fará nascer minha cruz.

 

Não! não o mostro; não posso:

Bom grado o mostrava! E embora

As flores, a selva, a aurora,

Astros, sol e dia, e luz,

O mar, as nuvens, os montes,

Noite, orvalho, primavera

Me dissessem que não era

Um astro, como supus!

 

Podiam negá-lo todos,

Negá-lo podia tudo;

Ficara estático e mudo,

Ouvindo todos negar,

Enquanto o astro rolando

No seu leito chamejante,

Vinha com seu beijo amante

Minha fronte iluminar.

 

Aquela tarde!... Quem dera

Poder bem contar os anos,

Que depois de tantos danos,

Ela então viver me fez!

Aquela tarde!... foi séculos...

Foi talvez a eternidade...

Na taça da felicidade

Bebi por primeira vez!

 

É meu segredo!... Não digo;

Quase não posso contê-lo;

Mas ai! não devo dizê-lo...

Ninguém o deve saber!

No dia em que alguém soubesse,

Ao pé da minha ventura

Abrira-se a sepultura,

E só restava o morrer...

 

Assim límpido regato,

Nítido fio de prata,

Cintilante se desata

À sombra das palmeiras:

Mas se cortam as palmeiras,

Onde a fonte se escondia,

Foi o seu último dia,

A fonte não corre mais.

 

 

 

Crer e morrer

 

 

Meu Deus, que mal te fez a criatura

Antes de ser criada?

Para a fazer sofrer, ó Deus, somente

A tiraste do nada?

 

Não vês? — Passar a escala das torturas,

Chorar desde o nascer...

Beber a dor no cálice da vida,

Bebê-la até morrer!...

 

Lançaste o homem, como o vento a folha

Que arrasta pelo pó:

Teve a esperança, a dúvida lhe deste;

Mas certo o sofrer só.

 

Em cada ruga a cicatriz do raio,

Que o anjo fulminou,

Palpa na fronte bela e em cada pulso

O ferro, que o manietou.

 

Encelado caído sob as ruínas

De tudo que elevou;

Prometeu amarrado ao eterno Cáucaso,

Em que a dor o deitou...

 

Ei-lo mísero! E é isto o homem!... Isto

É tua obra, Senhor!...

E com que fim fizeste esta obra hedionda,

Mescla de barro e de dor?

 

Fizeste o mar: pois bem, o mar é grande:

Fizeste o céu; pois sim!

O céu inda é maior: e o homem fizeste

Também: mas com que fim?

 

Quem do criado se ergue ao que tu podes,

Podes muito, Senhor!

O mar o diz, o céu o atesta: o criado

Proclama o criador!

 

Para que a dor, a podridão, as fezes?

Para te compreender,

Para louvar-te, era preciso o homem

Na dor nascer, morrer?

 

A dor! A dor!!... Foi o primeiro leite,

Que o homem amamentou.

Para sofrer e compreender-te as obras,

E louvar-te, aqui stou...

 

Só?... É enorme!... Só?... É crime... Escravo

Fizeste-me da dor!

Ai! desvenda-te aos olhos de minha alma,

Senhor! Senhor! Senhor!

 

Eu não te compreendi: eu não te entendo:

Luz... luz ao pobre cego:

Vou à mercê dos ventos, como a tábua

Do naufrágio no pego...

 

Vou, porque vou: a onda me arrebata,

O vento me conduz:

Ouço-te a voz talvez, mas te não vejo...

Luz, para ver-te, luz.

 

Fugiste, ó Deus, à nossa natureza

Para céus mais distantes:

Sê dela e as mesmas leis hão de prender-te

Nas malhas cruciantes...

 

Rojar no pó do templo a fronte imbele,

Cantar em teu louvor,

O peito lacerar com mãos convulsas,

É fácil, meu Senhor:

 

Vão holocausto, com que tu não folgas,

Que a pobre humanidade

Faz por terror; onde há somente o uso,

Não amor, não piedade.

 

Ao que pensa, ao que quer estar contigo,

A ver-te te não dás:

Lá dentro do infinito e tu com ele,

Lá muito longe estás...

 

Meu Deus, Senhor meu Deus, se um dia ao menos

Não se dormir sem dor,

Na pedra tumular poisada a fronte

Sob o véu do palor...

 

Se em nós se enroscam, inda ali, as serpes

De lentas agonias,

Que envenenaram toda a nossa vida,

Todos os nossos dias...

 

Então, Senhor, bendiga-te a existência

Outro feliz, não eu:

Quem à sombra da tua providência

Nasceu, viveu, morreu:

 

Que eu farto de sofrer, sinto a blasfêmia

Os meus lábios queimar:

Deus, ao menos de fé colma minh’alma;

Ensina-me a esperar...

 

Oh! a esperar em ti, a crer que em breve,

Além da sepultura,

Não há dor, nem sofrer, que em paz repousa

A pobre criatura.

 

Feliz! feliz quem perpassou na terra,

O olhar em ti só fito,

E, sem tocar as asas na planície,

Voou para o infinito.

 

Feliz quem creu, amou, viveu, só tendo

No céu seu rumo e norte:

E que diz: vejo o porto: e morre, e encontra

Enfim a paz na morte.

 

 

 

Palmas e loiros

 

 

I

 

... con le più dolce e più soavi

Parole che sa dir: con quel più amore

Che può mostrar, gli dice...

 

Ariosto - Orlando furioso

 

Como na idade homérica nós vemos

Um rei crer Deus um hóspede que vem.

Deste-me palma, loiros, coroas, festas,

O pobre estranho creste um Deus também.

 

Eu as levanto: tuas são, poeta:

Deste o que tinha: teu real crisol

Oiro só tinha e esse oiro derramaste:

É luz, é oiro, o que só vem do sol.

 

Porém o oiro do sol que a terra inunda

E lança ao mar o seu purpúreo véu,

Pendurando-o na coma da floresta,

E as asas doira aos pássaros do céu.

 

Não é da terra, não; não é dos bosques,

Não do mar, não das aves; de ninguém;

E quando o sol refoge além-montanha,

Leva consigo esse oiro todo além.

 

A concha enorme da turquesa aérea

Entorna a sombra tétrica e feral,

Boceja o sono entre as estrelas, dorme

Cheio de vagos sons o florestal.

 

Uma gota no musgo de uma rosa,

Fonte sem nome em cava de alcantil,

Que o pássaro conhece e onde ele bebe,

Tênue ruído entre harmonias mil.

 

Eis o que sou... Porém se o sol um dia

Inclina o régio diadema ao val,

E um raio fulvo vibra-lhe da fronte,

Parece a gota um mundo colossal.

 

  

II

 

 ... dum adhuc infans...

 

Apolônio de Rodes – Argonauta

 

 

No meu primeiro despertar, na infância,

Quando a palavra era um murmúrio apenas,

Como uma ave que o espaço não calcule,

Ao sol da glória eu sacudia as penas.

 

Chorei cantando na manhã da vida,

— No céu ridente da alma sombra alguma, —

Como o aroma de um tronco não ferido

Que chora e o ar nas lágrimas perfuma.

 

Eu nesse tempo modulava às brisas,

Ao sorrir da mulher tecia endechas,

E adormecendo molemente os ventos,

O ambiente enchia de amorosas queixas.

 

Cantava as nuvens que nos céus erravam,

Como um bando de pombas fugidias,

E as vagas, que correndo à flor dos mares,

Vinham morrer a rir nas penedias.

 

Voz profética a vir dos quatro ventos,

Parecia dizer-me: — Espera.... Espera...

— Espero!... aos ventos respondia: e eflúvios

Cria beber de eterna primavera...

 

Esperar pelo quê? — Qual o meu sonho?

A profética voz me não dizia;

Contudo o que era grande me enlevava,

E o que era belo aos olhos me sorria.

 

Que há de esperar por fim quem tudo espera?

A infância mede o seu porvir distante:

E olha p’ra o Homero, e ri-se, e diz: — quem sabe?

E diz: — talvez!... ao temeroso Dante!

 

Está tão alta em suas esperanças!

Próximo ao berço tanta luz radia!

Ai! mais um passo e está perdido o Éden,

E o tanger dessas músicas que ouvia...

 

Como a lagoa transparente embala

O céu que a cobre, e o bosque que a rodeia,

E o céu, e o bosque, e o azul, e o oiro, e enfim tudo

Perde a lagoa com um só grão de areia.

 

  

III

  

I’vo piangendo i miei passati tempi...

 

Petrarca - Rime

 

 

Eu morrerei da tarde entre os perfumes,

Num vale escuso a rir-se todo em flores,

Vendo passar por mim estranhos numes,

Quase a rir-me também das próprias dores...

 

Sobre que pó, sobre que lodo impuro

Caiu-me quase em pranto e quase a medo

Da árvore bela dos meus grandes sonhos

Uma das flores que murchava cedo...

 

Do tempo vão na lutulenta vaga

Vês este povo que se arrasta agora?

Vasos podres de argila, o oiro da glória

Bate lá dentro, e não retine fora.

 

Não os maldigo, não. Não foram deles

Minhas tristezas, minhas alegrias;

Quando semeava a noite o céu de estrelas,

Eu também povoava-o de harmonias.

 

Cantava, como canta o passarinho,

Como soluça a juriti queixosa,

E minha dor desabrochava em cantos,

Como entre espinhos desabrocha a rosa.

 

A glória... o tempo... a eternidade!... ruído,

Que sempre ao mesmo esquecimento corre:

Aqui, ali, mais perto ou mais distante

A vaga cresce, rola, arqueja e morre.

 

Oh! porque é bom cantar, eu canto às vezes;

E porque é bom gemer, eu gemo: eis tudo;

E lanço as minhas flores sobre o tempo,

Como quem as desfolha em lago mudo.

 

É da noite na máscara sombria

Que escondo a face quando o lábio chora:

E ainda os olhos úmidos enxugo

No véu de rosas, quando volta a aurora.

 

Só quero hoje o silêncio, o amor, a calma,

Todo o casal bem festejado de heras,

Na porta sempre o sol e dentro da alma

Ai! o perfume bom das primaveras.

 

Glória... ambições... procelas rugidoras

Em oceanos de vagas agitadas!

O enorme, o colossal!... nada. A paz antes

Que esse montão de fúlgidas ossadas.

 

Depois, ó poeta, a pálpebra descendo,

A mais... a mais... ao sono conduzida,

Como o último acorde do instrumento,

Que a tarda noite a repoisar convida...

 

Algumas flores do jardim, colhidas

Por mãos dos que têm lágrimas no rosto;

Céspede escusa em qualquer canto e adeuses

De poucos... e o que for do lado oposto.

 

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IV

 

 

Eia, poeta, inunda-me de palmas,

Lança-me coroas, como um rei, que és:

Tudo isso é teu: levanto-as para dar-tas:

São tuas: pisa-as com teus régios pés...

 

 

 

Virtus

 

 

Alta, branca, emoldado o rosto longo

Em bastas ondas de cabelos negros,

Triste o sorriso, o olhar nos céus perdidos,

Como em vago desejo e em vago enleio,

De luz e aroma enchia o ambiente todo.

 

Tinha nas largas dobras do vestido

Stremecimentos de asas; sussurravam

Vagas moles de um mar nos movimentos

Dos seus pés: ondulava o corpo todo

Suavemente, como no infinito

Do mar a vaga rumorando rola,

Mal tocada do vento: uns longes toques

De nuvens não rosadas, mas de um doce

E diáfano azul, meio esbatido

Em gaza branca, a fronte lhe envolviam.

Era a tristeza angélica não vinda

De desesperos, de agonias fundas,

Mas de um doce cismar...

 

Eu vi-a erguer-se,

Como a divina estátua da harmonia,

Levantada a cinzel por mão de artista,

E depois inclinando-se, qual dobra

A vaga ao vento, a relva aos pés da deusa,

Que outrora andou errante pelos bosques,

As longas mãos branquíssimas soltando

Sobre o piano, a alma enamorada,

Cândida e triste, esperançosa e bela,

Lançar aí toda ao músico instrumento...

 

Alma branca de um mármore aquecido

A sol estranho, ao ideal, em Deus, andavas

Como uma sombra pálida e palpável,

E quente, como o bafo dos teus lábios,

Fazendo o ar enlouquecer de ouvir-te,

Porque não sei, se ao ouvir-te, o ar sorria,

Porque não sei, se ao ouvir-te, o ar chorava.

E eu sentia-me triste e ao mesmo tempo

A alma em festa corria-me por dentro,

Asas batendo em turbilhões de sonhos...

 

Vaporosas imagens passam, voltam

O luminoso rosto e as brandas músicas,

E as estreladas cítaras sussurram

Queixas, que quase irmãs são de um sorriso,

Tão vagamente se aparecem ambos,

Sussurro doce, anônimo, que embebe

O ar de aromas, de dulias tênues,

Como se as violetas, desdobrando

O perfume tenuíssimo, com ele

Também mesclassem sons inda mais ternos.

 

Amo-te. A ti me prende uma indizível

Misteriosa corrente: amo-te: és bela:

Nem sei mesmo se és bela: em ti há tudo

Da formosura mãe: como sou doudo

Pelo luar, como amo o céu profundo

Cheio de dia e sol, de noite e estrelas,

E é minha cada estrela de oiro ou prata

Para beijá-la em cada raio, como

Amo o mar, quer em calma ou proceloso.

 

Como na hora apraz a Deus — e o santo,

E o grande e o nobre me arrebata e prende,

Me faz morrer de amor, me enleva e arrouba:

Amo-te assim. A nuvem de um remorso

Não sulca a minha fronte: um violento

Tremor não toma o coração de assalto...

Ai! quando penso em ti...

 

Pudessem todos

Rasgar minha alma, e ver espadanando

Dela, como espadana o sangue a jorro

Do seio, cujos lírios arroxeiam,

Ferro, que ousou tocá-lo, e ver pudessem

Pedaços do meu céu cair rolando

Ainda as luzes trêmulas de sonhos

Em turbilhões que fervem, sóis errantes

De indefinidas cismas; nebulosas

De ideias mal formadas, que tomavam

Vulto agora lá dentro; e esses retalhos

De um céu de imagens belas e estreladas,

Mundos a palpitar, mundos já mortos

Que foram todavia da esperança,

Mundos cheios de luz, sóis formosíssimos...

Pudessem vê-lo enfim todo entornado,

Já sereno, já céu tempestuoso,

Todo o céu de minha alma e ao abismo dela

Apanhar cada sensação ainda

Não feita sentimento... eu não teria

De ali corar; as conjunturas lúbricas

Em palpáveis visões não toldam nunca

O meu amor por ti... O etéreo encanto,

O misterioso impalpável, o infinito,

Talvez a imagem do meu Deus mais pura,

É o que amo em ti!...

 

Eu posso amar-te,

Calçar de beijos, luminosa estrela,

O teu caminho: a minha vida inteira

Estender-ta no chão, qual branda relva

Em que possas calcar teus pés mimosos;

Queimar dia por dia em éreo vaso

Toda a existência para aromar-te o ambiente,

Em que lançares teu olhar angélico...

Posso morrer por ti...

 

Quando apontares

Com teu marmóreo dedo cor de rosa

O caminho da morte, esse caminho

É o da honra; — hei de morrer sem medo,

Sem vacilar, sem resistir, sem único

Suspiro por quanto há mais caro à vida,

Porque tu vales mais, formosa. Foste,

És o meu amor; quero morrer à sombra

Do meigo olhar dos teus suaves olhos,

Ó tu, beleza, encanto, amor, Virtude.

 

 

 

Pauperrima domus

 

 

Eu fui hoje espiar a tua casa

Por entre as folhas verdes do jardim;

Dous infinitos tinha ante os meus olhos:

Era a tua casinha e o mar sem fim.

 

Volvi de tua casa ao mar meus olhos;

Volvi do mar ao céu, que então brilhava;

Douda andorinha à cata de um galhinho,

Minha alma errante as asas fatigava.

 

Como uma taça azul e transparente,

O céu estrelas aos milhões continha;

O mar, que as refletia, era formoso:

Nenhum encanto a tua casa tinha.

 

Entre velhas irmãs, irmã mais velha,

Sobre as muletas dos portais se erguia;

Nada de outras tão pobres como a tua,

Nada artístico e belo a distinguia.

 

Do tempo estava gasta e já sem brilho

A cal branca que a frente lhe vestia

E, como acocorada sobre os membros,

Parecia tremer à ventania.

 

Não é de outra maneira um ninho: serve

Um ramo seco, um musgo, e qualquer palha,

E está lá dentro a pérola do bosque...

Stá quem no bosque hinos do céu espalha.

 

Uma tépida brisa de Dezembro

Vinha a intervalos murmurosa e olente,

Carregando o ruído das crianças

Que brincavam contigo alegremente.

 

Guarda-joias de amor e de esperanças,

Ninho quente onde tu, pomba, dormias,

Céu mais céu do que o céu num canto apenas,

Em que teus passos a voar volvias;

 

Era essa casa... a tua pobre casa,

Esquecida na beira do caminho,

Como uma estrela além no fim da estrada,

Como na extrema da palmeira um ninho.

 

Meus olhos, onde andava então minh’alma,

Pregam-se à tua porta: eu esperava

Que sairia dela alguma cousa

Mais brilhante que a luz que a iluminava.

 

Eras tu? — Não sei eu. O bando loiro

Das crianças? Também não sei: mas era

Alguma cousa assim como uma estrela,

Cheirosa e alegre, como a primavera:

 

E também melancólica, assim como

O céu e o mar de sombra e luz vestidos...

Talvez uma mulher, em cujas veias

Girassem céus de amores derretidos!

 

Sei lá... Porém o mar não tinha encantos,

O céu noturno e esplêndido os não tinha,

Nem o jardim... nem nada em torno ou longe...

Era o meu ramo verde essa casinha.

 

Saí. Os guardas do jardim faziam

Sair o povo alegre e amotinado;

Dez horas dera o próximo mosteiro;

Rangeu nos gonzos o portão pesado:

 

Notei que os pés pesavam-me, que os olhos

Iam, num movimento irresistível,

Por dois mudos grilhões quase arrastados...

Quis ficar: era tarde: era impossível.

 

Saí pensando que amanhã viria

No meio da indiferença desse povo,

Ao céu, ao mar, às flores, ao universo

Tua casinha preferir de novo.

 

Tua casinha... um pardieiro em ruínas,

Grãos de areia sobre outros grãos de areia;

Mas nela havia o que em ninguém havia:

Da minha felicidade estava cheia...

 

Parei no meio do caminho ansiado;

— Não a vi hoje... e suspirei! — Embora:

Tornarei. Para mim aquela porta

Tinha o deslumbramento de uma aurora...

 

Último enfim saí. Entre as mãos rijas

Puxa um guarda o portão: era preciso

Sair; saí: — as grades estrugiram:

Pareceu-me esboroar-se o paraíso.

 

Tu morrerás um dia; e hás de espantada

Ouvir dos anjos a loucura minha,

Que eu ia às noites espreitar de longe

Tua velha e misérrima casinha!...