LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Poesia reunida e outros textos, de Maura de Senna Pereira

___________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

Edição de base:

Poesia reunida e outros textos. Org. de Lauro Junkes.

Florianópolis: Academia Catarinense de Letras, 2004.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Cântaro de ternura

 

Poemas do meio-dia

 

Círculo sexto

 

País de Rosamor

 

A dríade e os dardos

 

Busco a palavra

 

Despoemas   

 

Cantiga de amiga

 

Poemas-estórias

 

Poema do pré-retorno

 

Os adereços

 

Demonstração: como evoluiu um poema

 

Entrevistas e textos para conhecer Maura

 

1. Discursos e entrevistas

 

2. Poemas (verso e prosa)

 

3. Textos sobre pais e familiares

 

4. Sobre a mulher e o feminismo

 

5. Textos de catarinensismo

 

6. Outros textos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POEMA DO PRÉ-RETORNO

 

 

Vento da noite, ainda é cedo!

E nem lavrei a terra agreste

 

Helena Kolody

 

 

... e nem sequer plantei as campânulas vermelhas

para doá-las em festa aos que deixam as prisões!

quanto mais quanto mais as magnólias acesas

para iluminar as multidões!

 

e eu que vivo clamando

liberdade! liberdade! para todas as gentes

nem sequer a mim própria libertei

(que heranças são estas que vincaram estas manchas

de algemas nos pulsos

e correntes nos pés

não me deixando derrubar com os companheiros

as barreiras que impedem

a ventura

aventura

de viver?)

 

desatados atos, adversos gestos,

impossíveis passos, malogrados feitos

e eis a não liberta e não conspurcada

e também a mãe gorada

pois nenhuma semente germinou em meu ventre

e assim não pude legar a nenhum ser

(que talvez me levasse viva a outras eras

onde já serão verdades o que são quimeras)

e ardor de minha carne e minha mente

 

em verso novo como um jacinto abrindo

pudesse eu estas coisas dizer

agora que me sinto cada vez mais perto

do nada que era antes de nascer

 

 

 

 

 

OS ADEREÇOS (Último Poema de Maura)

 

 

No meu simples ofício de cantar

tenho recebido flores em profusão

e a flor é vida

e o ofertante um irmão.

 

Alguns poucos preferem mandar-me

pedras malignas

que eu nunca cheguei a ver

pois não atingem o alvo

e se estilhaçam no chão.

 

Mas há que também falar nos silêncios

que o silêncio é nada

porém eis que agradeço

pois cada um deles deixa em meu peito

um inexistente adereço.

inexistente

mas que eu vou usando

para me acostumar

 

 

 

 

 

DEMONSTRAÇÃO: COMO EVOLUIU UM POEMA

 

 

1a. Versão do Correio do Povo (década 1930)

 

Título: Jurerê-mirim

 

 

Ilha donosa onde eu nasci,

De praias claras e de curvas esbeltas

Amorosa e selvagem como eu,

Mulher como eu!

 

Parece que sou feita do teu barro,

Que tenho em mim pedaços dos teus seios verdes!

Meu sonho se impregnou da tua poesia,

Meu espírito da tua rebelião

E, um dia, quero que a tua fecundidade

pouse também em minha carne

 

 

2a. Versão de Poemas do meio-dia (1949)

 

Título: Ilha e Mulher

 

 

Quando me deito nos teus canteiros mornos,

não me basta o pensamento quase bíblico

de que sou feita do teu barro.

 

Meu corpo é o teu imenso corpo de ilha

e minha alma invade as tuas entranhas,

participando da tua febre criadora.

Meu sangue é o rasgão líquido dos teus rios,

a linfa nervosa das tuas cachoeiras,

a água matuta das tuas lagoas.

Plantas rebentam de tuas carnes, de meus chãos,

e sinto-me carregada da tua seiva e do teu pólen.

 

Quando me levanto, a sacudir a tua poeira morena

e ungida com o perfume de vinte lírios novos,

e mulher e terra deixam de ser uma unidade pagã,

ainda sinto me prender e me abraçar

e envolver, implacável, a tua existência cósmica

o abraço varonil do mar.

 

 

3a. Versão — de Busco a Palavra (1985)

 

Título: Consubstanciação

 

 

Quando me deito nos teus canteiros mornos,

Jurerê-mirim, Isla de los Patos, Santa Catarina,

não me basta a alegria telúrica

de ter nascido em ti

nem o pensamento quase bíblico

de que sou feita do teu barro.

 

Meu corpo é o teu imenso corpo de ilha

e meu sangue o rasgão líquido dos teus rios

a linfa nervosa das tuas cachoeiras

a água matuta das tuas lagoas.

Plantas rebentam de tuas carnes, de meus chãos

e sinto-me carregada da tua seiva e do teu pólen

 

Quando me levanto

a sacudir a tua poeira morena

e ungida com o perfume de vinte lírios novos

e mulher e ilha deixam de ser uma unidade pagã

ainda sinto me prender e me abraçar

e envolver, implacável, a tua existência cósmica

o abraço varonil do mar.

 

 

 

 

 

 

ENTREVISTAS E TEXTOS PARA CONHECER MAURA

 

 

 

1. DISCURSOS E ENTREVISTAS

 

 

DISCURSO DE POSSE NA ACL —  1930

 

Acadêmicos:

 

 

Um dia — faz três anos — quando a primavera celebrava a aleluia panteísta dos seus esplendores e o esplendor máximo das suas rosas, a vossa voz ilustre, com inflexões inéditas, chegou até ao meu lar e até à minha sensibilidade:

 

— Vem para o parque das nossas reflexões, assim como és, enamorada das estrelas, trazendo, sobre o ombro o cântaro moreno do seu sonho de arte!

 

E eu venho para vós com as mãos escorrendo a  emoção fraterna que transborda da taça da minha alma e com os olhos sorrindo um poema de vaidade — a minha vaidade tímida de ser a primeira mulher que vem sonhar convosco, o deslumbramento do vosso sonho.

 

Venho para vós sentindo bem junto aos sábios a mentira deliciosa da glória, sentindo bem junto aos meus cabelos a ilusão efêmera de uma coroa, numa comoção tanto maior quanto é certo que, pequena criatura (perdoai-me essa revelação de orgulho e de mágoa) tenho saboreado o pão e o vinho das amarguras e dos sacrifícios, com a fronte sempre iluminada pelas hosanas do meu anseio de perfeição — desde que o destino me deu o presente irônico da orfandade numa noite bárbara de fevereiro, quando eu era menina e moça, mais criança do que mulher, e vivia as mais belas horas de esperança ingênua e de alegria garota, nesta mesma Florianópolis de cuja silhueta elegante e tranquila a minha alma é tão grande amorosa. Nesta mesma Florianópolis, que ouviu o canto enternecido de minha mãe quando me embalava o berço e onde o meu espírito foi palpando as guirlandas da luz e da beleza, todo feito de vivezas e de passividades e cheio até às bordas da tortura faceira de viver.

 

Mas a emoção fraterna que escorre nas minhas mãos e a vaidade tímida que sorri nos meus olhos — não impedem que, lembrando uma formosa imagem do divino Rabindranath Tagore, eu vos conte esta verdade simples, esta pequenina legenda da minha garganta e do meu espírito diante dos valores vossos: eu sou a hera frágil e sonhadora que se recorta, para o mesmo gesto verde de esperança e de ascensão, ao carvalho robusto da vossa cultura e do vosso pensamento.

 

Deixai-me agora sonhar:

 

Eu edifiquei a minha senda sobre um pedaço de serra ensolarada. Estou sozinha com a minha arte que é simples como eu própria, cheia de falas de crianças, poemas de amor, espumas de pensamento. E a minha senda é de rosas. E o meu sonho é de fogo e mel e arde na minha testa e canta na minha boca. Mas em torno de mim vela uma multidão de lanças e de escudos, de elmos e de broquéis. São os grandes méritos varonis do meu patrono: é a sua vontade construtora de homem, é o seu garbo altaneiro de soldado, é a sua erudição profunda de cientista, é o seu apostolado sereno de mestre.

 

Aquele que se chamou Roberto Trompowsky e galgou o posto supremo no exército e também o marechalato dos conhecimentos matemáticos na geração contemporânea, levou, por certo, do sub-consciente desta ilha verde apelos mágicos para mágicos triunfos.

 

Ah! não são os nossos montes tão altos e tão imponentes, ao mesmo tempo, na sua altura? Ele seria assim.

 

Não são as nossas paisagens e as nossas praias donas de um sortilégio tão altruísta e de uma beleza tão enfeitiçante? Assim encantadora havia de ser a sua sabedoria.

 

Mas o talento e a vontade completariam o milagre egrégio. O talento que recebeu a lição batismal de Augusto Comte e que teve o culto apaixonado de Rui Barbosa. E a vontade, aquela assombrosa vontade de subir, de subir sempre, levando pelo braço robusto o tesouro da sua ciência, a olhar desassombradamente para o céu.

 

Esse gesto nobre e atrevido de afirmar a vitória foi realizado, claro, sem rebuços, ao começar para ele a adolescência. Nos seus olhos corria a ânsia arrogante de desvendar. O seu tórax se dilatava, nervoso e forte, enquanto pela ideia lhe dançavam alvoroços precoces de condor e de leão. E ele contemplava a sua cidade meiga e quieta, onde brincara e correra na sua bela inconsciência de rapaz e onde sentira, no cérebro eleito, as primeiras alegrias e as primeiras inquietações. Agora ia partir. Diante dele estava o seu mestre devotado das primeiras letras, a quem disse: "Só voltarei a nossa Desterro com os bordados de general".

 

Lá longe, na vertigem da serra carioca, o seu coração era bem uma arca de saudades. Mas só com os bordados de general ele tomou em visita, ao aconchego macio da idolatrada Jurerê-Mirim.

 

Depois de ter traçado, com a pena fria e grave, os festejados compêndios da sua didática e de os ter oferecido, como um nababo generoso, aos estudantes e aos estudiosos. Depois de ter enchido de artigos e conselhos técnicos as colunas das grandes folhas americanas. Depois de ser uma glória da pátria e do mundo e de ser honrado na Europa, através da sua polimorfa cultura, que revestia de forma altíssima o cumprimento de altíssimas delegações, o nome do Brasil.

 

Mas depois ainda de ter cumprido o ousado vaticínio, confirmou, na grande cidade de São Sebastião, da qual fizera o centro irradiador do seu peregrino engenho, na rota de sábio que escreve e que ensina, que medita e que norteia, venerando e útil na sua ansiedade, até que a morte o fez repousar no seu incognoscível regaço.

 

Eu o imagino um titã bronzeado e forte, trazendo no peito a audácia de um farroupilha e a maneira de um beneditino. Um titã bronzeado e santo que saiu pelo mundo afora. Antes, entrava num templo pagão e era ungido pela mão invisível dos deuses. E começou a pisar o solo com os passos da sua bravura. E começou a nutrir, iluminando. E para todos os caminheiros sedentos e famintos que se acercavam, dele erguia o púcaro cheio e dava a beber a água da sua enorme fé positivista; erguia o farnel repleto e dava a gustar as frutas bravas e maduras das suas meditações. Um dia ele tombou como um jequitibá ancião e frondejante; mas, nos seus olhos, na hora última, devia brilhar, posto que morrente, o consolo de ter envaidecido, pela fama que soubera conquistar, a terra pequenina e radiosa em que o seu berço balançara e a glória esbelta da sua raça. E, perto dele, inesgotáveis, estavam o farnel glorioso e o púcaro imortal.

 

Assim eu o proclamo um idealista.

 

Não o idealista que, anunciando a renúncia e querendo a perfeição, tem os olhos postos numa vida além do mármore frio dos sepulcros e da integração da carne morta na terra frutificante.

 

Não o idealista que, na expansão fascinante dos seus postulados sociológicos, profetiza a felicidade das agremiações humanas.

 

Não o idealista — trovador que estampa os seus sonhos múltipios em versos de renda e gaze ou que sonoriza, num canto ardente, gritos nômades, aflições coletivas, festas patrióticas ou trombetas de guerra.

 

Mas um idealista diferente, que se debruçou para a vida feia e decepcionante mas também maravilhosa e marcou-a com a beleza das especulações científicas e com o aprumo das suas conclusões exatas.

 

Um idealista assim: pastor dos números, gineiro dos moços e poeta que, no soneto do seu árido trabalho mental, escreveu os hemistíquios de gênio.

 

Deixai-me ainda sonhar:

 

Eu edifiquei a minha senda sobre um pedaço de serra ensolarada. Estou sozinha com a minha arte, que é simples como eu própria, cheia de falas de crianças, poemas de amor, espumas de pensamento. E a minha tenda é de rosas. E o meu sonho é de fogo e mel e arde na minha testa e canta na minha boca. Mas em torno de mim vela uma multidão de lanças e de escudos, de elmos e de broquéis. São os grandes méritos varonis do meu patrono: é a sua vontade construtora de homem, é o seu garbo altaneiro de soldado, é a sua erudição profunda de cientista, é o seu apostolado sereno de mestre.

 

Antes de me virdes saudar pela palavra cintilante e generosa do acadêmico José Boiteux, permiti que eu vos faça uma confissão:

 

Quando a paixão pelas artes começou a florir na minha alma em flor de adolescente, eu sonhei, com a fantasia a galopar, percorrendo num minuto os anos e os lustros, feita uma princesa louca, de tranças orgulhosas desmanchando-se aos ímpetos do vento; eu sonhei que havia ainda de entrar para a vossa assembléia, numa noite assim, abençoada pelas hóstias de ouro das estrelas, com a minha cabeça toda branca e toda gloriosa.

 

Deixai-me recordar esse sonho, que eu repeli como um pecado e que vejo realizado agora de um modo diverso: porque, se trago a lembrança vazia de louros fartos a tombarem-me pelo vestido, trago, no entanto, a minha mocidade. E, sentindo-a palpitar no meu sangue e no meu coração de mulher, eu prometo, eu juro — aqui, na companhia aristocrática dos vossos espíritos — que, dominando a formiguinha que tenho sido, ah! hei de ser, mais do que nunca, a cigarra ignorante e alada a cantar, para a alma da minha terra e para a ilusão da minha vida; e cantar, escrava de uma dor obsidiante ou castelã de uma alegria jovem; e cantar, no encontro de mim mesma na simplicidade de um ritmo novo — o velho sonho da beleza eterna!

 

 

 

Oração da Snha. Maura de Senna Pereira

 

 

(República 26 de março de 1930 —  oração pronunciada no dia 24 de março, domingo, em Florianópolis, no Trapiche Municipal, na cerimônia de entrega da Bandeira confeccionada pela mulher catarinense, ao Destroyer Santa Catarina.)

 

O Berço Histórico dos barrigas-verdes, que tem dado à marinha de guerra tão altas expressões de erudição e bravura, sente hoje a alegria embebedante da vossa visita, porque vos abençoa o seu nome sagrado e foi das mãos suaves das suas mulheres que recebestes a vossa primeira bandeira —  para os arrojos e para os surtos que a sua visão inspira num egrégio e continuado domingo.

 

O berço histórico dos barrigas-verdes, em que Anita Garibaldi sonhou, como mulher e como heroína, o seu sonho de amor e o seu sonho de epopéia, sente hoje também o orgulho encantado de prolongar o gesto que batizou a sua fraternidade convosco.

 

Aqui, na cidade-menina de Dias Velho, eu, pois, vos ofereço uma nova bandeira em nome da mulher catarinense, em nome daquela que, seja na nossa Jurerê-mirim, adorada e bonita, ingênua e gloriosa, ilha enfeitada de espiritualidades quietas, ou nas outras ilhas catarinenses na terra esplêndida do nosso litoral ou na nossa esplêndida terra serrana, seja cumprindo destinos singelos ou opulentos, tem sempre a mesma voz de todas as suas irmãs pela raça e pela esperança, a mesma voz enternecida e milagrosa que plasma o coração dos homens, tece a virtude dos lares e, no sentido da sua glória suprema, canta junto dos berços...

 

E eu, a representante da mulher catarinense nesta hora, trazendo na minha alma a tertúlia das suas emoções cívicas, a inteireza da sua sinceridade no meu gesto, na minha voz a expressão da sua crença comovida na beleza do nosso devotamento à beleza integral da pátria, oferecendo-vos esta bandeira, em seu nome, bordada por mãos de renúncia e de piedade que vivem postas diante de Nossa Senhora —  sinto que a recebereis com todos os cânticos no coração.

 

Na sua altanaria sugestiva e no seu tamanho simbolismo tropical, vejo-a desde já entre as águas serenas ou revoltas e as bênçãos profundas do sol ou os acenos de ouro das estrelas, alongando as vossas energias, aformoseando as vossas esperanças, sendo a grande musa dos vossos poemas de trabalho e de força, ó nobres marinheiros do Brasil!

 

Confiando-a, portanto, à vossa guarda e à vossa defesa, evelo o sentimento coletivo da feminilidade de Santa Catarina: servos do seu encanto, haveis de endeusá-la num culto de devoções perenes. Ela, a bandeira generosa, dar-vos-á, como a sua melhor graça, como dá a todos os brasileiros de boa-vontade, através das glórias que recorda e dos apelos que encerra, o ânimo para aquelas dinamizações vitoriosas e puras que devem consolidar o esplendor nacional e corresponder, numa lealdade faceira, aos uivos de luz que vivem na extensão morena e poderosa do Brasil.

 

 

Uma poeta em corpo a corpo com a vida

 

(Entrevista concedida por Maura, no Rio de Janeiro, a Colaca Grangeiro e Silveira de Souza. Publicada em Cultura, Florianópolis: FCC, julho/1990)

 

Maura de Senna Pereira é a maior expressão feminina da poesia catarinense. Talento reconhecido por todos que acompanham a produção literária no Estado, ela ocupa essa posição há mais de seis décadas, levada pela força de sua poesia, pelo brilhantismo na atuação como jornalista, pela gana e coragem com que rompeu as barreiras conservadoras da sociedade da época em que viveu em Florianópolis. Poderíamos apontar Maura, também, como uma das pioneiras do feminismo em Florianópolis, na década de 20. Quando era possível às mulheres ainda um inexpressivo e subalterno lugar na sociedade, Maura, impulsionada pela precocidade de seu talento e também pelas necessidades econômicas da família, era uma mulher que tinha vez e voz.

 

"Fui uma moça rebelde e uma menina sofredora", assim ela sintetiza sua biografia. O sofrimento e a inquietação plasmaram e continuam ainda a marcar a personalidade dessa que foi a primeira mulher a ingressar na Academia Catarinense de Letras e uma das acadêmicas pioneiras na América do Sul.

 

Quando mudou-se para o Rio, Maura soube e pôde conduzir-se com destemor e sabedoria, sendo uma catarinense que se destacou nos meios intelectuais da antiga Capital Federal, pela beleza e densidade de sua poesia e pela força marcante das reportagens e colunas que publicava nos jornais cariocas, como Gazeta de Notícias, A Noite, Manhã e outros. Contemporânea de Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade e outros expoentes do jornalismo e da literatura.

 

Devotada infinitamente àquele que elegeu como grande amor de sua vida —  o professor e escritor Almeida Cousin —, Maura não teve filhos e permanece morando no Rio, num apartamento localizado no Leblon. "Hoje eu não tenho mais preocupações econômicas, mas a nossa vida mudou totalmente depois que ele sofreu o acidente". Maura se refere com angústia às dificuldades

 

que ela e seu amado enfrentam desde 1978, quando Cousin foi acidentado e, em consequência disso, sofreu um derrame cerebral. São outras temíveis contendas que a nossa valorosa escritora continua a travar. Com bravura. Ela não recua. E foi com muita simpatia que ela e o professor Cousin receberam o escritor Silveira de Souza e a jornalista Colaca Grangeiro em sua casa. Eles passaram quatro horas juntos, pois foram também convidados para um jantar no Real Astória, restaurante familiar do casal e que fica próximo do prédio onde moram. Aliás, junto dali está também a livraria e editora Taurus, onde Maura convive há muito tempo. É lá que ela edita seus livros e também, com frequência, expõe nas vitrines os livros dos autores catarinenses que recebe.

 

Participante, ativa, mulher bela e brilhante, Maura de Senna Pereira construiu uma vida de amor; uma vida que é, sem dúvida, uma rara peça da poesia brasileira.

 

C —  No livro do Lauro Junkes ele fala que "desde criança a Maura manifestou, mesmo antes de saber ler, gosto pelas estórias que sua mãe sabia tão bem contar. E já no curso primário suas composições despertaram a atenção, revelando sempre talento esclarecido. Cursou a Escola Normal Catarinense e em seguida iniciou dupla carreira: do magistério e do jornalismo. Obteve com destaque, por concurso, as cadeiras de Português e História na Escola Complementar de Florianópolis". Então, nós gostaríamos de voltar a esse período e que você falasse sobre ele.

 

M —  Ele acentua ali que minha mãe sabia contar estórias. É verdade, mas isso não influiu na minha parte literária. Isso me encantou como criança. Eu achava que ela, a minha mãe, sabia empolgar e encantar qualquer criança, porque não só ela repetia esses contos universais de Grimm e outros contos universais. Ela inventava também. Ela sabia manejar com crianças, também com cantigas. Mas era só nessa parte. Minha mãe sabia encantar o cérebro infantil. Tanto que eu a chamava de minha adorável e querida Sheherazade. Passou daí, nem ela nem meu pai tiveram influência.

 

Eu aprendi a ler em 15 dias e um dia uma colega chegou e disse: "mamãe falou que tu tens o diabo no corpo". Gente da Igreja presbiteriana, onde eu lastimo ter sido criada. Eu aprendi a ler numa escola americana, que funcionava junto à igreja. Eram mulheres sádicas, as professoras. A diretora era uma americana nata e as professoras —  uma, a senhora do Laércio, D. Josefina. Vi muita coisa que ela fez com as crianças que não pagavam. Como eu pagava, era diferente...

 

C — Tinha outro tratamento?

 

M —  É. Bom, porque em dois anos que eu passei lá eu fiz quatro. Tanto que eu digo que fui marcada e esta marca não me favoreceu. A educação era rigorosa como já foi, como às vezes ainda é, mas sem aquelas coisas da antiguidade, de palmatória, isso não havia lá. Não havia mas machucavam bastante as crianças quando pegavam as crianças... Eu sei que eu entrei, o meu pai me matriculou lá e tudo isso. E o que era para comprar ele comprou e eu levei. Me ensinavam com brinquedos, pauzinhos, a gente aprendia matemática assim. E olha, se aprendia muito bem matemática!

 

Isso no começo, não é? Depois eram aqueles cadernos. Havia dez cadernos com problemas que só engenheiros muitas vezes podiam fazer. Era muito bom. Parece que elas tinham lá um curso no Mackenzie. Havia uma professora que eu achava inteligente, que era essa dona Josefina. Ela que ensinava a ler. A gente se reunia e ela ia para a pedra e fazia com letras de forma as letras —  primeiro as vogais, depois as consoantes, assim, as mais fáceis, as labiais... Não sei qual era o método, mas eu aprendi com facilidade. Meu pai costumava trazer as revistas para casa e reunir a gente para ler as histórias de Chiquinho e tudo isso...

 

"Eu me sentia muito ligada à terra,

com os elementos da Ilha.

Era com eles que eu queria navegar".

 

C —  Mas as composições despertaram a atenção. Já no curso primário, não é?

 

M — Sim. Já no curso primário.

 

C —  Como é que era Florianópolis no seu tempo de aluna da Escola Normal?

 

M —  Era uma mentalidade lamentável! Professores não, tanto que eu posso me orgulhar quando me perguntam quantos cursos de doutorado eu tenho. E eu digo assim: não, eu não tenho nenhum doutorado, mas eu fui aluna de Barreiros Filho, de Altino Flores, de Henrique Fontes e eles me ensinaram muito bem como ensinaram a toda a classe. Agora eu tinha essa inteligência aberta, esta precocidade que eu tenho que reconhecer. Eu era muito nova e já tinha pensamentos que ninguém sabia que pensamentos eram. Eu não tinha coragem de dizer na frente do meu pai, da minha mãe... O conservadorismo era total. Eu me sentia muito ligada à terra, parecia assim que os elementos da ilha, era com eles que eu queria navegar. Os humos, o esperma dos bosques, a força do sol, tudo isso. Eu tenho até um poema que eu nem sei se publiquei, porque era um pouco ousado. Em todo caso...

 

C —  E a Maura era então mulher liberada, que vivia além daquela época?

 

M —  Eu fui liberada e fui além da época. Acontece que, apesar de tudo isso, eu fui, por exemplo, escolhida para a Academia Catarinense de Letras, pela totalidade dos membros. Não havia ainda mulher na Academia e eles me escolheram. Eu não gosto de academias. Academia para mim é coisa liquidada. Academia não existe. Eu te disse logo, não foi? (Dirigindo-se para Silveira de Souza).

 

C —  É, foi sim. Eu recebi até um puxão de orelhas quando fui candidato.

 

M: Não, absolutamente! Isso não. Até agora você está bem, compreende? Agora, para o Hugo Mund Júnior, eu disse a ele: se você quer, eu mando o voto, porque se trata de Hugo Mund Júnior. Mas você está pleiteando um cargo que você já ultrapassou com os seus livros. Eu ia até mandar para ele uma coisa que eu li contra a Academia Brasileira de Letras. Que é outra coisa! Agora, uma grande amiga, Nélida Pinon, entrou para a Academia, a terceira mulher a ingressar. E eu recebi de um fã, um critico que é cearense mas está em Nilópolis, uma coisa bonita. Todo enfeitado, dizendo: "A terceira mulher na Academia depois da Raquel e da Lygia". Ele queria que eu me candidatasse. Então, quando eu digo que sou contra a Academia, eles dizem: "mas você é da Academia Catarinense"... Mas eu não era gente, eu não era gente quando entrei lá.

 

C —  Por quê?

 

M —  Eu era muito nova. Tinha 18 anos quando fui eleita.

 

C —  Mas por que a Academia resolveu escolher a Maura?

 

M —  Resolveu escolher como uma glória. Não tinha mulher nenhuma lá.

 

C: Ela não pleiteou. O convite veio de lá.

 

M: Eu não pleiteei. Nessa ocasião eu ainda não tinha livro publicado. Eu já escrevia nos jornais, porque começou com composição no Grupo. Muito bonita, muito bonita! Foi pra mão do Diretor. Dizem até que chegou às mãos do Governador. Depois um tio meu, irmão de minha mãe, Júlio Régis, começou a publicar muitas coisas minhas, até cartas. E outros fatores, por exemplo, começaram a sair coisas que eu escrevia, em prosa, até na revista Fon-Fon. Sabe como? o Mário Pope, um dos diretores da revista, era alto funcionário de um Ministério, foi pra Florianópolis a serviço e conheceu o que eu escrevia todos os dias —  uma espécie de soneto —, assinado na República, jornal do Adolfo Konder. Ih, meu Deus, aí eu era criança à beça, nessa época do Adolfo!

 

C —  Seu primeiro livro foi o Cântaro de Ternura?

 

M —  Cântaro de Ternura, com capa do primeiro marido da Cecília Meirelles. Foi, aliás, muito doloroso. Duas coisas que para mim me trouxeram a maior dor —  a morte de meu irmão Carlos. Um rapaz belíssimo, másculo, que morreu no mar. A partir daí o mar, para mim, perdeu o encanto. Isso não foi na nossa Ilha, mas ao norte do Estado. E outra, uma conversa que ouvi de meu pai. Eu era menina e estava gripada e ele falava de uma coisa que herdamos na família —  muita gente tuberculosa. Isso me entristecia muito porque, quando a gente tinha qualquer doença, já chamavam o médico e pensavam que a gente ia morrer. E houve muitas mortes na família, causadas por essa doença. Minha mãe morreu de pneumonia, meu irmão Roberto, meu tio. Quando eu tenho uma gripe eu tenho medo.

 

C —  Você teve uma formação religiosa?

 

M —  Eu não quero mais frisar esta história do nada. Porque eu digo que sei que volto para o nada, onde eu existia antes de nascer. Ninguém é nada. Ninguém é... NADA. Nasce, é uma criatura, e quando morre, volta a ser aquilo que era antes de nascer. No meu poema do "Pré-Retorno", que está no Busco a Palavra, eu falo sobre isso. Aí também é religião. Agora eu sempre digo que o Deus protestante é pior do que o Deus católico, porque, meu Deus, que Deus ruim! Aliás, eu também falo da Bíblia nos Poemas-Estórias: Nascida em Santa Catarina nela estou plantada / E tenho ainda a glória de amar e ser amada / Porque a quem eu amo mais quero ainda.../ Extremosos, mas infância triste / com irmãozinhos mortos e a Bíblia sempre em riste / Aprendi a ler quase brincando / e logo me puseram numa classe, num concurso!...

 

C —  E o que levou você a sair de Florianópolis?

 

M —  É que houve um erro. A gente é mulher, não é? E tem dessas coisas... Coração... Eu casei. E não foi um grande amor, mas eu casei. Erro maior do que casar foi ter ido para Porto Alegre.

 

C —  Então, primeiro tu foste para Porto Alegre?

 

M —  Eu fui para Porto Alegre, em virtude do casamento. Ele era um sujeito que não prestava. Mas, de qualquer forma, eu nem queria casar com ele e nem ir para Porto Alegre, mas... pensava... também levada pelo sexo...

 

C —  Ele chegou a Florianópolis com a Revolução de 30?

 

M —  Não, depois. Ele se dizia amigo do general Ptolomeu e estava de passagem. Ele já faleceu. Ele não prestava e prejudicou a minha família porque eu trabalhava para a família. Criança, e eu já trabalhava para a minha família. Ele estava longe de ser o meu tipo. Longe! Depois ele me contou que por ocasião de uma manifestação no 5 de julho, onde eu ia falar —  também porque eu sempre falava —, presidida pelo Nereu Ramos, ele leu o que escrevi. E comentou: "mas esta senhora aqui, como escreve bem!". E responderam: não, não é uma senhora, é uma moça, olha ela vai passando lá"... Eu não dava a menor bola, mas começou assim. Ele olhou, gostou do tipo, procurou saber onde eu morava e começou a levar flores. Eu casei e não quis ir com ele para Porto Alegre. Ele teve que assumir um cargo lá. Eu fui depois, para atender a minha mãe que dizia: "minha filha, eu não quero ter uma filha apartada" (era como chamavam a mulher que se separava). Agora, aquele homem era um hipócrita, um demônio de ciumento. Eu acho que era doença. Ele funcionava com dois revólveres. Sim, os revólveres estiveram apontados para mim muitas vezes. Sabe que quando eu fui para lá eu percebia qualquer coisa, acho que algo profético (eu tenho dessas coisas) e não pedi exoneração. Eu era lente de português e história na Escola Complementar, fiz concurso e não queria deixar um cargo que me custou muito estudo. Mas ele fez tudo para me tirar de lá e eu disse não, exoneração não.

 

C —  Quantos anos você ficou casada?

 

M —  Ah, muito pouco tempo! Eu aproveitei a ausência dele e daí... O Rio de Janeiro me fez mudar por completo do que eu era em Santa Catarina.

 

C —  Quando foi o primeiro contato com o Cousin?

 

M —  Foi ainda em Florianópolis. O Cousin era amigo de um parente desse governador que morreu, o Pedro Ivo. Ligado aí a um jornal, tudo isso... Então ele me mandou o Anacreonte por esse rapaz e eu dei uma nota no jornal, que o Nereu Ramos me dava esse espaço aí. Todo domingo eu publicava literatura. Então dei também uma notícia do livro com um elogio merecido. Depois eu mandei a ele o Cântaro de Ternura. Ele aí elogia e me diz assim: "Me mande o seu retrato". E publicou na capa da revista Vida Capixaba, que ele dirigia. Era uma revista social, muito bonita, lá de Vitória. Aí quando eu recebi a revista, ele me convidou para publicar trabalhos e eu sempre digo que foi a página mais bonita que ele já escreveu. Sobre a minha literatura, dizendo: "Tu que escreves, excitas os homens e estudos"...

 

O primeiro encontro foram os dois retratos. No Rio nós nos encontramos na Livraria José Olympio, quando eu vim morar aqui. Nesse dia ele ficou tão contente de me encontrar, porque ele tinha gostado muito do livro —  gostou mais do retrato, este dormia com ele, em cima da cabeça dele. Então ele gostou muito do encontro e convidou-me para jantar. De vez em quando eu percebia que ele estava me olhando. Por que me olhas? Eu perguntei. "É enlevo, surpresa". Eu disse: não há mais surpresa, porque você já sabia quem eu era. "Eu sabia que eras lindíssima como tu és, mas não sabia que eras uma menina". Menina? Eu, menina, trabalhei para meninos. Me olha bem. "Não, mas tu és muito criança e tens um jeito de falar... Eu que não sou comunicativo, que não sou conversador, como tu tens graça.,." Diz ele, eu não lembro —  eu guardei um pedaço do vestido que eu usava na ocasião, como lembrança daquele encontro —  que eu estava com um chapeuzinho que me deixava com cara de boneca. Eu já estava trabalhando, fazendo reportagens quando nos encontramos. Eu sempre quis ser independente.

 

"Não gosto da subliteratura. É preciso que haja a seiva da boa literatura para eu aguentar".

 

C —  E como você teve coragem de casar de novo?

 

M —  Casar de novo? Unindo-me. Sem formalidade, Ele estava livre, desquitado, eu não. 0 Nelson Carneiro sempre com muito medo dos padres e das damas que têm dez, vinte amantes, mas não querem o divórcio, porque assim tá tão bom pra elas...Cousin: Só muito depois é que veio aí o divórcio, muito malfeito, não olhando para essas circunstâncias todas.

 

Maura: Foi sempre uma parte muito política. De qualquer forma, precisa muita coragem. Mas todo mundo respeitou. As minhas irmãs diziam que eu tinha casado na Embaixada e eu achava graça.

 

C —  Quando chegou, você logo se integrou na vida intelectual do Rio, ou foi gradativamente?

 

M —  Foi gradativamente, mas primeiro no meio jornalístico. Por exemplo, meu conhecimento com o Jorge de Lima foi jornalístico. Eu tive idolatria pela poesia do Jorge de Lima. Ele foi diretor da Assembleia Legislativa e houve exposição de livros femininos. Eu tinha feito o meu primeiro Poemas do Meio-Dia e levei para lá. Eu levei fotógrafo, tirei uma fotografia dele e de aspectos da exposição e ele pegou o meu livro, que tinha uma forma diferente —  reproduzia a letra da gente. E quando ele viu o meu livro, viu que era poesia moderna. O Jorge de Lima quis ficar. Isto foi uma honra para mim. Então, eu o conheci assim, nessas reuniões literárias, porque a gente aqui no Rio tem reuniões literárias boas, altas e tem também da subliteratura —  são os que mais trabalham. .. Eu não gosto. Me sinto mal.

 

É preciso que haja aquela seiva da boa literatura para eu aguentar, Tem gente à beça aí, É a Academia de Letras do Modesto Abreu, do Estado do Rio de Janeiro. Ele fez o que podia, não é? Ele me botou como sócia honorária, o Cousin também. Agora de vez em quando ele fazia assim... me botou como efetiva. Eu disse: não, Modesto, eu pertenço à Academia Catarinense de Letras. Não farei como Oliveira e Silva —  porque eu nunca vi um sujeito mais descarado. Eu, pessoalmente, me dou muito bem com ele, mas houve uma exposição de livros de autores juristas e literatos —  "Entre a Toga e a Lenda" —, e eu recebi o livro dele. Olha, que ele entrou para a Academia Catarinense de Letras, publicou livros lá, casou com uma catarinense e não tinha uma palavra na biografia dele, feita por ele, a respeito de Santa Catarina. E eu sempre o achei medíocre. Aliás, lendo numa ocasião um estudo, ele está catalogado como medíocre e está muito bem.

 

C —  Maura, você sempre foi uma mulher assim, sem meias-palavras?

 

M —  Bom, procurava ser.

 

C —  Isso dificulta as relações?

 

M —  Ah! Dificulta e como dificulta! Tinha mulheres pavorosas, muitas minhas amigas...

 

C —  Você sentia o preconceito, no seu meio em Florianópolis, mais por parte das mulheres?

 

M —  Das mulheres, mais. Desde os tempos da Escola Normal. A respeito de quem se sobressaía. Porque eu fiz o curso todo com distinção.

 

C —  E aqui no Rio?...

 

M —  Aqui no Rio foi tudo muito bem. Eu fiz aquilo que eu quis. Porque a época já era outra, não é? Foi tudo muito bem. Aliás, eu não pleiteei nada. Eu era convidada para fazer parte das sociedades. Eu sempre falei muito também, muito discurso, muita palestra, muita iniciativa. Fiz muita coisa. Através do Centro Catarinense e através mesmo da literatura no Pen-Club e tudo isso. O Pen-Club foi um dos meus palcos. Quando cheguei aqui, um grupo de escritores me ofereceu um almoço e me convidou para ser secretária da revista Esfera. Era uma revista de cultura e arte muito bem feita. E eu fiquei trabalhando ali e me dando com muita gente. E, nesta revista, eu escrevi o poema "Quero ajudar a construir", que era um poema que o Drummond gostava muito.

 

Este foi o poema que me abriu as portas, porque o Drummond ficou entusiasmado, quando ele viu o poema na Revista. E o Drummond quis me conhecer. Então ele me disse: "Olha, Maura, foi uma das coisas que me agradaram imensamente. Seu poema "Quero ajudar". Eu quero ver se encontro poemas desse nível que eu quero fazer uma antologia sobre poesia social boa". Eu acho que ele não era fanático. Ele entrou lá no Partido Comunista e depois se decepcionou, porque tem que se decepcionar. Eles aqui foram uma coisa! Agora este que estava disputando eleições, o Roberto Freire, tem sido maravilhoso, mas eu não quero participar mais da política.

 

"O amor começou com ele, Cousin. Porque ele é o grande amor na minha vida, na nossa vida".

 

C -Você chegou a pertencer ao Partido Comunista?

 

M —  Cheguei. Depois eles erraram de tal forma que a gente descobriu que o Stálin foi um tirano, um dos piores... Ah! os anarquistas, isto é, uma ala muito boa, muito boa. Mas acabou porque aquilo vinha da Espanha, da Itália. Eu li muitos livros socialistas. A literatura toda.

 

C —  Você se desligou quando do Partido?

 

M —  Não, eu não cheguei a me desligar. Foi assim, suavemente, acabando. Começou depois da gente saber daquelas denúncias todas a respeito da tirania do Stálin. Numa ocasião, um poeta que é critico, e estava lá no Partido, disse: "Maura, há uma tarefa: escrever sobre Stálin". Eu ouvi. É tarefa... Ele até parece que não falou mais nesta coisa. Mas eu não escrevi. E sei que, se eu escrevesse —  era para um concurso —  o meu poema ganhava. Um poema a que dei o título de "Morte e Eternidade". Não tem nada de Stálin, está claro? Porque aquilo foi um monstro. E ainda hoje estão descobrindo coisas. De modo que eu tive uma passagem que foi desagradável. Mas é a experiência na vida, sabe? Porque eu não tenho nada do que me envergonhar. Eu perdi um livro —  A Socialização da medicina —  que foram reportagens publicadas no Correio do Povo, em Porto Alegre. Esse livro estava quase pronto e foi apreendido por problemas políticos, durante o Estado Novo. Olha, eram reportagens tão apreciadas que me chamavam de doutora.

 

C —  O Parto sem dor é um livro de reportagem também?

 

M —  Foram seis reportagens que eu fiz quando a Maternidade Clara Basbaum começou a adotar. Aí eu assisti tudo, vi uma moça entrar para a sala de parto e voltar sorrindo. Tirei uma fotografia dela. As reportagens foram feitas aqui no Rio, na Noite.

 

C —  Em 64 você estava atuante no jornalismo aqui no Rio?

 

M —  E Cousin também. Ele foi cassado, mas teve muita coragem.

 

Cousin: Foi uma das minhas glórias, maior de todas. Não que eu me metesse muito não. Eu ficava mais com os comunistas. Lá um tempo, me deram uma tarefa e eu não concordei com aquilo e não fiz. Maura: O Partido aqui foi uma coisa tremenda. Quem participava, via. Não servia. Eu não aguentava.

 

C —  Uma estrutura autoritária, você achava?

 

M — Não era só autoritária, era desorientada, gente boba, muita coisa. As mulheres piores, mas os homens também. Por exemplo, assim: há uma tarefa. "Hoje eu não posso, eu vou jantar". "Ah! Você janta?" Um cinismo! Antes mesmo de saber de Stálin, eu já estava decepcionada pela atuação dos comunistas. Na hierarquia, cheguei ao distrital.

 

C —  Maura, e a questão do amor, que é fortíssima na sua poesia. Fale um pouco dela.

 

M — O amor sempre entrou em prosa de uma forma limitada. Era uma mocinha catarinense que tem um namorado —  a linha romântica —, não propriamente romântica, mais pra moderna, mas sem ser poesia. Começou com ele, Cousin, porque ele é o grande amor na minha vida, na nossa vida. Cousin: O primeiro encontro foram os dois retratos...

 

Maura: O paizola (N.R.: referindo-se a Cousin) me achou tão menininha, tão criancinha. Eu, que tinha sustentado uma família, ser criancinha? Ele sempre tem pena disso e diz que esta é a origem das minhas ideias  atribuladas, socialistas... Eu, com 17 anos, fui chefe de família. Imagine que eu era mocinha quando meu pai morreu antes de eu fazer a prática —  era uma etapa pedagógica, após o término do Curso Normal. Estava fazendo isso quando ocorreu a morte dele. Súbita. De um furúnculo que o médico operou e infeccionou. E perdemos o pai de um momento para outro. Minha mãe ia ter o nono filho. Ela tinha um filho por ano. E assim...

 

C —  Você era a filha mais velha?

 

M —  Não. Eu não fui a mais velha, eu fui a quinta.

 

C — E você se sentiu então na responsabilidade de assumir a casa?

 

M —  Não, não é que eu me sentisse, todos sentiam isso, compreendeu? Não havia a menor consideração para com o coração de uma criança. Eu era uma criança! Não digo que fossem os pais, a família, que quisesse isso. E havia como que um riso satisfeito da parte da sociedade com o meu caso. Trabalhando para uma família. Eu lecionava muito. Era professora de manhã, à tarde e à noite, no Instituto Comercial de Florianópolis, que meu pai tinha fundado. Ganhava por aula e tinha que dar aquele dinheiro à minha mãe. Lecionava também na Escola Complementar.

 

Agora, na Academia eu nunca trabalhei. Só uma vez. Uma única vez. Eles me botaram lá. E eu tinha dito que trabalhava, passava noites, sessões penosas de estudo, que eu não podia estar frequentando, não tinha vestidos bonitos para ir às reuniões: que eu andava até muito mal vestida. O Adolfo Konder, quando me conheceu disse para D. Isaura Lobo: "É uma garota extraordinária, mas tão mal-vestidinha..." E ela disse: "Ela trabalha para a família. Quando retarda aqui o pagamento, ela vai, aquela moça vai com os homens para receber um dinheiro. Ela fica na miséria". Até havia mulheres que diziam: "Mas todo mundo precisa..." Era assim. Mas eu lembrava dos meus irmãos, tanto que tenho ali "Arcanjo com Fome", que foi algo que me ficou daqueles tempos, sabe? A gente não esquece. E, por isso, esta foi a causa de eu ter simpatias pelo comunismo. Antes, quando eu li a primeira vez um livro socialista, foi na época antes de casar...

 

C —  O que aconteceu quando você leu?

 

M —  Quando eu li "errado o homem que diante de um palmo de terra disse pela primeira vez: isto é meu". Eu me senti assim como que batizada. E desde essa época eu me tornei participante. Quanto à Academia, eu respeito aquilo, estou lá, mas nunca trabalhei pela Academia. Diz aí o Lauro Junkes (N.R.: aponta para o Busco a Palavra), levado por uma informação do Theobaldo (N .R.: Theobaldo Jamundá), que eu trabalhei muito pela Academia. Jamais, jamais. Nunca! Eu entrei lá, muitas flores, muito elogio, muita coisa levaram a publicar aqueles discursos. Muito bem. Mas os discursos foram lidos, não é? Eu falava até no meu pai. Na noite bárbara de fevereiro. Sim, porque eu estava com uma angústia enorme.

 

De repente, entrou a dor e aflições de todo o jeito na minha casa. Eu não podia esquecer. Nesse próximo livro, Arcanjo com Fome, eu faço uma pequena história de Ondina, pois eu gosto muito do nome de Ondina, que eu queria para Florianópolis, como quis o nosso grande escritor... aquele de Canasvieiras... o Virgílio Várzea. Ele queria, até datou para Cruz e Sousa: Ondina, data. Depois foi para Hercílio Luz, etc. Que eu também não gosto dele. Carmem Luz foi a mulher mais linda que eu já vi. E a família, aqueles rapazes todos foram muito atenciosos comigo, sabe? Mas o pai, o pai... Até um cunhado dele —  o marido da irmã —  cortou as relações com ele (Hercílio Luz). Ele pedia que ela, D. Sinhá Pequena, o perdoasse e ela nunca perdoou, porque o marido dela havia sido fuzilado. Fez ela muito bem. Porque foi Hercílio Luz, foi aquela política que venceu com Hercílio Luz que deu o nome de Florianópolis, justamente do ditador que mandou Moreira César para lá liquidar os catarinenses. Eu como conheci morreram fuzilados! O pai da Dona Gillette…

 

C —  E você tinha essa consciência política, no momento em que vivia em Florianópolis?

 

M —  Eu tinha imprecisa.

 

C —  Mas tinha uma inquietação?

 

M —  Ah! Inquietação eu tive sempre. Uma inquietação que me levava a escrever, etc. Então, os homens em geral e importantes —  eram aqueles homens que formavam a Academia, eram os mais intelectualizados da época —, eles é que me escolheram porque liam as coisas minhas e elas não se limitavam a Santa Catarina. Os grandes de Santa Catarina sempre foram meus amigos. Tanto que eles é que tiveram a iniciativa. Eram homens. A Academia era de homens. Eu conto isso também num poema que aquela moça da Universidade, a Zahidé (N.R: Zahidé Muzart) que me pediu um trabalho que fosse um depoimento e eu mandei em forma de versos: "Entre Jerônimos ilustres". Jerônimo Coelho, a rua onde eu nasci e Jerônimo Monteiro, que eu acho que aqui eu vou morrer.

 

"Eu sonhava porque eu era perseguida. Ah! Eu era perseguida lá".

 

C —  Maura, você nunca tentou outras formas de escrever? A ficção, por exemplo?

 

M —  A ficção. Pois é, nesse próximo livro —  não é ficção, mas não é só poesia —, é prosa e verso, tem a Andarilha da Noite. Foi um sonho que eu tive r-e-a-l. Eu conto o sonho como eu tive. Esse sonho vinha me perseguindo desde Florianópolis. Sabe, Florianópolis tem aquelas ruas bem estreitinhas e eu sonhava porque eu era perseguida. Ah! Eu era perseguida lá. Era, sem dúvida. Mas então vinha em forma de sonho. Eu percebia que era uma interpretação da minha vida. Era sempre noite, eu não sabia quem era e andava por aquelas ruas e virava esquinas e não sabia que lugar era aquele. Era assim. Começou ali. Depois acordava e não pensava mais naquilo.

 

Agora este sonho que eu tive há dois anos originou a Andarilha da Noite. Eram aquelas ruas, as casas fechadas, ligadas umas nas outras, casas dos dois lados da rua estreita. Eu andava, virava, era outra rua; as casas a mesma coisa. E não encontrava ninguém e nem era possível, porque eu não sabia quem eu era, não tinha identidade. E também não levava nada nas mãos e tinha a sensação de toneladas. Este sonho explica muito a minha vida. E, de repente, me vejo numa praia extensa e o mar, assim, da minha altura, e eu fiquei com tanto medo e disse: ah!, se eu pudesse voltar para perto daquelas ruas, pra andar naquelas ruas! Eu já estava com saudades daquelas ruas e elas não podiam fazer nada por mim.

 

E assim eu estava e dizia: o mar vai me acabar. Isto era porque meu irmão morreu no mar e esta é minha maior dor na vida. Esse foi nosso segundo luto; eu tive um desgosto muito grande e ele produziu o Cântaro de Ternura. Um vizinho nosso, muito nosso amigo, chamado Ênio, ficou muito impressionado porque eu tive nesse momento meus primeiros arroubos de revolta. O que eu dizia de Deus, da religião e da dor que eu sofri! Eu não me conformava, principalmente porque ele pediu socorro. Então este rapaz —  foi o rapaz de maior cultura de línguas que eu já conheci —  ficou compadecido e disse: "Maura, eu agora vou procurar te visitar e levar alguma coisa que te ajude porque você está de uma forma que eu estou compadecido, não sei o que fazer". E daí houve aquele namoro, eu comecei a me sentir fascinada por aquele rapaz inteligente e fraterno. Foi justamente inspirada nele que saiu o Cântaro de Ternura.

 

C -Maura, você colaborou no jornal de Crispim Mira? Como ficou Florianópolis depois da morte dele?

 

M —  A morte de Crispim Mira dividiu a cidade. Ele era um homem, um jornalista do qual eu só posso dizer que me abriu as portas do jornal dele. Me dava uma seção. Primeiro a seção —  "La Garçonne" —  de mulheres. Ele procurou abrir um caminho. Falavam até muito dele, mas como ele foi lá em casa me visitar com a senhora dele... depois até quis que eu lecionasse. A sociedade ficou dividida. Eu me correspondia com Dona Si, mãe daquele Coelhinho —  um dos que mataram Crispim Mira —, ela até foi muito nobre comigo, porque finalmente era mãe, não é? E eu fiquei do lado... A sociedade ficou dividida. Você não podia imaginar o que faziam.

 

Eu fiz um concurso de história e português para a Escola Complementar. O Barreiros Filho foi o meu professor de português e sabia, tinha certeza em tudo o que eu ia responder. Havia muita gente para assistir porque começaram a dizer que ninguém se inscrevesse porque a cadeira ia ser minha, que o Adolfo Konder ia me nomear e não foi nada disso. Foi de acordo com as provas. Diziam assim aquelas mulheres que pensavam que eram alguma coisa e hoje eu nem sei se lembram delas. Acredito que muita gente foi para torcer contra. O Aquiles Gallotti, que era o presidente da banca e o Barreiros Filho me disse umas três ou quatro vezes "bravo" nas respostas da prova oral e ao final falou: "considero esta prova ótima e lhe dou distinção na prova escrita", que ele chamou de tratado de pontuação.

 

C —  Você nunca se preocupou com a técnica da poesia?

 

M —  Sempre foi moderna, não é? Numa entrevista ao Miguel Jorge, de Goiás, onde ele me perguntou qual era a melhor hora de eu escrever um poema eu disse que não havia hora. Meu processo é mental. Eu penso, é assim, uma perseguição. O cérebro sofre uma perseguição. Ele é que trabalha. Às vezes, muitas vezes até modifica o título e tudo, mas em geral quando eu escrevo um poema ele estava pronto. Isso é de técnica. Quando no meu primeiro poema em prosa, todo mundo achou poesia. Eu tenho agora o Sonho de Laísa Acordada, que é prosa com rima. Rima sem querer, mas em rima. E as rimas caem bem, sabe?

 

"Em geral quando eu escrevo um poema ele estava pronto".

 

C —  Vamos falar um pouco desta sua também precoce consciência ecológica. Seria um amor à terra, mas também com uma visão da preservação ambiental. Seria algo mais intuitivo ou este amor pela natureza te levou mesmo a pensar nestas questões, num tempo em que isso não era uma preocupação?

 

M —  Este meu amor à natureza foi o meu amor a Santa Catarina. Nas suas formas, na parte física de Santa Catarina, nos sumos, na seiva, naquilo tudo que corre em Santa Catarina. Nos ventos, no sol que brilha, que passa, foi o que me deu isto.

 

Cousin: Sem dúvida, essa civilização nossa em 200 anos é capaz de acabar com as reservas do planeta. Estivemos muito perto de acabar com a Terra, com aquele cavalinho lá do Norte —  o Reagan.

 

Maura: A guerra nas estrelas? Meu tema é outro: a paz entre os homens e as estrelas. Isso era derrogando com o Reagan. Guerra nas estrelas.

 

C —  Você poderia mencionar as suas preferências entre os poetas?

 

M —  Eu ponho Jorge de Lima em primeiro lugar e no presente Francisco Carvalho, o grande cearense. Quando eu li eu disse: Cousin, temos um poeta ao Norte. Foi num Suplemento Literário de Minas que li Francisco Carvalho.

 

Cousin: Jorge de Lima foi um grande amigo nosso.

 

C —  Lorca, por exemplo, ou Pound, que você cita uma epígrafe...

 

M —  E uma obra notável aquele trabalho dele ABC da Poesia. Era um homem muito interessante. Falando na literatura, biografia, tudo isso ele diz: os teus poemas de um escritor são a sua biografia. Não é preciso mais nada. Mais nada. O resto, quando dizem o resto não há sentido. Porque eu acho que tenho contado a minha vida nos poemas, nas coisas em prosa, em verso, coisas que mostram a tendência para o sonho. (Dirigindo-se para Silveira de Souza:) Uma coisa que eu agora estou ouvindo, você está falando e me ocorre que pela primeira vez nós conversamos assim. A nossa relação tem sido, no máximo, pela abertura dos trabalhos e o mais é assim, superficial. Não assim tão profunda como hoje, tanto que para mim é uma festa. Essas coisas, esses momentos a gente deve saber valorizar. O entendimento, a comunicação, essa simpatia. E como se a gente bebesse um vinho da simpatia humana, do entendimento...

 

 

 

 

 

A Saga de Maura

 

(Sobre um questionário / entrevista do Prof. Giovanni Ricciardi, da Universidade de Bari, Itália, Maura de Senna Pereira presta um depoimento nem sempre muito confortante sobre sua formação e seus caminhos pela poesia.)

 

 

Respondendo ao excelente questionário que me enviou o professor Giovanni Ricciardi, mestre de literatura brasileira na Universidade de Bari, na Itália, o que, antes de tudo, me cumpre expandir é a alegria de ver o mesmo demonstrar que literatura é coisa séria. Por outro lado, releio, medrosa, perguntas que me farão mergulhar na minha dolorosa formação.

 

Membro de uma família numerosa da classe média pobre, com irmãozinhos mortos, e uma irmã nascida defeituosa e falecida aos dez anos, depois que, para seu tratamento, meu pai houvesse lançado mão de pequena reserva, com a qual sonhou construir uma casa. Não posso, pois, regozijar-me de uma infância feliz. Frisarei ainda o domínio completo da Bíblia na educação da família, pois meu pai, antes do casamento, se convertera ao protestantismo, seguido de minha mãe, então sua noiva, e vários membros da família marcada pela tuberculose. Nossa mesa, porém, durante a vida de meu saudoso pai, foi sempre farta, graças ao duro trabalho dele, exímio contador, ou guarda-livros, como então se dizia, e, mais tarde, nos últimos anos de sua vida, também mestre pioneiro das ciências contábeis em Florianópolis.

 

Numa carta que me encantou, enviada de Roma a 20 de abril, o prof. Giovanni Ricciardi afirma que meu livro Busco a Palavra lhe proporcionou a descoberta que fizera em 1989/90: "Uma grande, extraordinária poetisa". Palavras que tiveram o significado de um prêmio. Devo, pois, fazer emergir das origens o meu perfil, os meus verdes anos e as influências que marcaram meus primeiros exercícios de escritora.

 

Creio que, nesta altura, posso afirmar que aprendi a ler em quinze dias numa escola americana, que funcionava em salas da Igreja Protestante e que estava em vésperas de encerrar suas atividades em Santa Catarina. Quando meu pai me ouviu ler para os irmãos menores a revista que ele trazia para casa todas as semanas e lia para nós — Tico-Tico —  foi uma surpresa. Foi então que eu soube que sabia ler. O meu aproveitamento era prodigioso. Em quatro ou cinco meses subia um ano. Nos boletins mensais, foi várias vezes registrado 1° lugar na classe e na escola. É, mas o ensino era principalmente de matemática.

 

Não me lembro de ter redigido nada nessa época. E, desde que aprendi a ler, comecei a escrever umas linhas para mim. Fiquei sem aulas algum tempo e, nesse tempo, a leitura diária da Bíblia foi mais intensa. Certo domingo, um presbítero protestante que chegara de São Paulo para ser diretor de grupo escolar em Florianópolis, professor Gustavo, ao ver meu desembaraço na escola dominical (interpretações bíblicas) me perguntou onde eu estudava. Ao saber que estava sem aulas, pois meu pai esperava a volta da escola, cujos métodos achava ótimos, foi falar com ele e aconselhou-o a procurar um grupo escolar. O mais perto de nossa casa era o G.E. Lauro Muller, que ele dirigia.

 

Fui examinada, acharam-me adiantadíssima e fui matriculada no terceiro ano. Integrei-me num instante. Poucos dias depois D. Rosa mandou a classe fazer urna composição. Tema: Uma boa ação. A boa ação que louvei não foi uma esmola, não foi uma obediência bonita. Foi realizada por um soldado aliado que, ao ver um camarada tombar, correu para o companheiro caído e, enfrentando as balas, suspendeu-o nas costas fortes e conseguiu livrá-lo do ataque tremendo dos "boches". Aproveitei uma narração que ouvira em casa de meu pai e seus amigos, lembrando episódios da primeira guerra mundial, em que haviam torcido contra a Alemanha. O importante foi o sucesso.

 

A professora levou meu trabalho ao professor Arlindo. Este me chamou ao gabinete e me fez perguntas. "Não, não sei de nenhum escritor na minha família. Mas meus pais são muito inteligentes. Meu pai lê muito, tem livros, estuda e minha mãe sabe contar estórias lindas". Ele me elogiou muito.

 

Depois eu soube que a composição tinha chegado às mãos do governador. Meu tio Júlio Régis, orador em mais de uma Sociedade Cultural e Recreativa no Sul do Estado, vibrou com o sucesso e quando voltou para casa me escrevia, eu respondia. Logo ele começou a publicar minhas cartinhas nos jornais do Sul, e depois, os trabalhos redigidos na escola. Assim, os "Textos Matinais", como os chamei mais tarde num poema, começaram a aparecer também em Florianópolis.

 

Mas, nascida em 1909 na ilha de Santa Catarina, não posso gabar-me de ter um "mestre", alguém que me tivesse influenciado. Tio Júlio descobriu a expansão de uma inteligência que irrompia precoce. Meu pai também gostava, mas o que ele desejava era minha formatura de professora. A respeito de escritos meus publicados, nada dizia. Em entrevista ao "Jornal de Letras" eu disse, há poucos anos, que aquele pequeno trabalho era para mim algo profético.

 

Devo agora apontar um mestre? Uma mestra? Ei-la: a Bíblia. De fato, ela imperava. Em casa, na educação rigorosa. No dever de lê-la cada dia, estudá-la na escola dominical e, para os mais crescidos, à tarde dos domingos, nas sessões da Sociedade Juvenil, a Bíblia! Uma inegável influência, sim, mas não nas primeiras redações. Ainda me recordo de quando tirei o primeiro lugar num concurso infantil de versículos de cor. No poema "Fragmento de Autobiografia", do livro Poemas-Estórias, eu lembro: "Disse-os tantos que me mandaram parar e deram-me, os pastores, o primeiro lugar. Prêmio maior e primeira decepção, outra Bíblia preta com a mesma história do povo Hebreu e seu Deus dos exércitos, onde havia, é certo, a poesia (que ninguém mata) e grandiosa figura do Cristo.

 

Mas a este eles mataram.

 

Bem; a poesia que ninguém mata é a grandiosa figura do Cristo! Eram os pináculos. A transcrição acima mostra que a fé se acabara ou, até, nunca existira a não ser nas palavras. Antes lembrarei que, na adolescência, meu nome já se expandira muito não só nos jornais da terra, mas em publicações dos estados próximos e em revistas cariocas. Os expoentes intelectuais da terra eram meus admiradores e mandaram-me parabéns. E, numa noite do ano de 1927 (eles integravam a Academia Catarinense de Letras, que era só de homens) propuseram para sócia efetiva a senhorita Maura de Senna Pereira, autora de trabalhos literários de grande valia.

 

A cerimônia da posse foi a 30 de novembro de 1930. Eu escrevia para algumas revistas do Rio e recebia muitos convites. A querida amiga escritora D. Acy Coelho, que morara em Florianópolis e lera meus primeiros trabalhos com estima e admiração, convidou-me para hospedar-me em sua casa no Rio de Janeiro. Tratei de ir durante as férias. Foi um sucesso. Eu já tinha muitos admiradores e a grande escritora que me hospedou ajudou-me muito. Lá recebi um convite lindo: fazer um recital no Estúdio Nicolas. Eu ainda não escrevia versos, mas tinha cem poemas em prosa para um ainda sonhado livro. Tive como patronos: Pascoal Carlos Magno, Mário Poppe, um dos diretores da revista Fon-Fon, embaixador e jornalista Diniz Júnior, escritoras Maria Eugênia Celso e Acy Coelho e a poetisa Henriqueta Lisboa.

 

Foi uma noite linda. Muita gente, muitas flores, crônica de Maria Eugênia, publicada em sua coluna diária e por ela lida apresentando a "jovem e bela escritora catarinense", entrevista a vários jornais e fotos nas principais revistas, sendo que Revista da Semana intitulou o texto-legenda da foto apresentada: "A princesinha das letras catarinenses". Antes do meu regresso (minha ausência foi de apenas 22 dias), o jornal do governador Nereu Ramos, que pouco antes, em discursos, agradecera "a mulher catarinense, que falou pela boca peregrina desse talento pagão que é Maura de Senna Pereira, cujas mãos eu beijo". Me convidou para dar impressões sobre meu trabalho. Eu as dei e concluí: se alguma glória eu consegui para o meu nome, ela não é minha e, sim, da minha estremecida terra. A luta começou naquela fase encantada no Rio de janeiro. Falei no recital no estúdio Nicolau, em que declamei cerca de vinte dos meus poemas em prosa. Muitos aplausos e, logo, votos, sugestões de um livro.

 

A grande poetisa Henriqueta Lisboa, que também patrocinava a "festa" e gostara dos meus poemas, acompanhou-me numa visita a editoras. Concluí logo a impossibilidade de qualquer contrato: os preços eram altos para mim. Então, Maura, vamos ver o que se pode conseguir na terra. Henriqueta ficou com os vinte poemas. A vida era de muito trabalho, mas Henriqueta enviou a bela ilustração que o pintor Correalin fez para o meu então sonhado livro Cântaro de Ternura, onde não pude incluir os cem poemas em prosa, mas uma parte deles apenas, e com muito sacrifício, que saiu pela Editora Livraria Moderna —  já entrávamos em 1931 e, no ano anterior, eu fora empossada na Academia Catarinense, sem livro publicado, mas os poemas em prosa já mencionados no discurso.

 

Depois de Julho de 31, eu ficara noiva de um gaúcho que estava de passagem na ilha. Depois de ler um trabalho meu no Jornal Oficial, aguardou uma comemoração programada para 3 de Julho, em que falei, presidida pelo ilustre Nereu Ramos. Pediu a palavra, dirigiu-se a mim em primeiro lugar e falou muito bem. —  Parece que era o único mérito dele. E houve o grande erro. Visita, flores, mentiras. O noivado não demorou, o Cântaro de Ternura estava para sair. E saiu antes do casamento em 12 de dezembro de 1931. Casamento desastrado, mas o livro pingando seiva, tocado pela exuberante natureza de Jurerê-Mirim. Alegro-me em confessar que a minha terra catarinense, engravida as páginas do livro.

 

O lançamento foi simples. Os Cântaros nas livrarias e nos jornais com um novo retrato da autora. E viajando para as mãos dos amigos e colegas. Não havia ainda "tardes de autógrafos", criadas pelo querido "mercador de livros" Carlos Ribeiro, que tanto me iria distinguir. Foi um primeiro livro muito festejado.

 

A curta estadia em Porto Alegre, onde fui morar, em virtude do casamento, produziu o segundo e terceiro livros: Discursos e A Socialização da Medicina. A fase conjugal já estava no fim, pois não pude mais prosseguir ao lado de um marido errado. Deixei-o e vim um tempo para Santa Catarina. A solução, porém, seria outra. Abri um pequeno curso e dei aulas para turmas que iam fazer concurso. Nessa época, despontaram os versos, que publiquei em revistas e suplementos.

 

Logo que foi possível, viajei para o Rio a bordo do saudoso "Cari Hoepke". Lá me alojei numa excelente pensão familiar e comecei a procurar trabalho como jornalista. Não demorou muito e comecei a entrevistar para A Manhã e trabalhei na revista Vida, além de ser secretária da revista Esfera, mensário de cultura e arte. Uma tarde mágica: encontrei um ilustre amigo na livraria José Olimpio: sr. Almeida Cousin, que me enviara para Florianópolis seu grandioso livro Itamonte.

 

Mandei-lhe o meu pequeno Cântaro. Ele pediu meu retrato e estampou-o na capa da revista que dirigia em Vitória: Vida Capixaba. Identidades descobertas, convidou-me logo para jantar. Novos encontros e, para resumir, tomou-se meu marido.

 

Ele trabalhava muito e acabara de fazer um concurso magistral de História e Literatura para o Instituto de Educação do Rio. Passei a morar no apartamento dele. Eram as noites "amantes". O trabalho literário prosseguiu. Agora, a poesia estava desatada, com o tema amor e a poesia social que surgia. Publiquei Poemas do Meio-Dia, pelo editor V.P Brumlich, numa original apresentação gráfica iniciando a coleção.

 

Logo depois, publiquei o livro de poesia Círculo Sexto também pelo Simões. Este  teve concorrida noite de autógrafos. Foi o meu grande lançamento. Filas e filas de escritores e amigos catarinenses e cariocas. Flores e flores, orquídeas de meu amor, que chegou correndo das aulas em Niterói. Telefonemas de gente importante que não podia comparecer. E, ainda, o gesto que tanto me comoveu do ex-professor e desembargador Henrique Fontes, ao meu lado, à mesa, sendo saudado pelo escritor e dono da livraria S. José, o querido Carlos Ribeiro. Registro nas colunas literárias e foto expressiva em Gazeta de Notícias, onde eu já trabalhava, e a trabalhar continuei: jornalismo entremeado de poesia.

 

Em 1962, em Florianópolis, pelas edições do livro de arte, dirigidos pelos queridos, Silveira de Souza e Hugo Mund Júnior, saiu meu cancioneiro País de Rosamor: Edição de luxo, um primor a vida nesse reino que apresento desde a minha chegada a esse país de sonho e amor. Não fiz lançamento. Tinha perdido a minha maior amiga, minha mãe, mas, embora de luto, integrei uma exposição de escritores aqui no Rio.

 

Na década de 70, lancei Nós e o mundo, em 1971, crônicas, resenhas e artigos publicados em minha coluna da Gazeta de Notícias, e A dríade e os dardos, que ampliou o nome da poetisa e foi tornado pelo escritor e professor Glauco Rodrigues Corrêa "livro texto para o estudo da poesia na UFSC". Quanto aos últimos livros (década de 80) são os seguintes: Despoemas —  Rio, 1980; Cantiga de Amiga —  Rio, 1981, traduzido para o inglês; Verbo Solto (palestras) —  1984; Poemas-Estórias, 1984 —  capa de Márcia Cardeal; Sete Poemas de Amor —  Florianópolis, 1985; Busco a Palavra —  Fundação Catarinense de Cultura, prefácio de Lauro Junkes, 1985 —  livro com o qual a autora conquistou a medalha Anita Garibaldi e altos elogios da crítica. Capa de Márcia Cardeal.

 

No próximo livro, a sair talvez em 1990, A Andarilha da Noite —  prosa e verso — serão transcritos alguns artigos da crítica e opiniões importantes de dois mestres da literatura brasileira nos Estados Unidos e Itália: profa. Terezinha Pereira, então professora na Universidade de Colorado, USA. e prof. Giovanni Ricciardi, professor na Universidade de Bari, na Itália. A autora faz parte de várias autografias nacionais e participa de três internacionais.

 

 

 

 

 

 

 

ENTREVISTA CONCEDIDA A MIGUEL JORGE

 

SUPLEMENTO CULTURAL de O Popular —  Goiânia 31/12/1978

 

 

M.J. —  Para você o que é poesia?

 

M.S.P —  Para mim poesia é pensamento ou emoção ou ambos (um centauro, como disse Ezra Pound?) expressos com musicalidade.

 

M.J. —  De quais temas ou problemas se alimenta a poeta Maura de Senna?

 

M.S.P. — Principalmente de temas sociais e existenciais.

 

M.J. —  O mundo está sendo envolvido por uma capa de vinil, se materializando dia a dia, e muitos poetas andam descrentes da poesia. Você se filia a esta corrente?

 

M.S.P. —  Já pensei assim, não só pelos motivos que você lembra, mas também por ver a supervalorização da prosa, principalmente da ficção —  e a poesia cada vez mais alienada, hermética, sem vínculos com o povo. Cheguei até a solidarizar-me com um editorial nesse sentido, estampado num jornal sulista. Hoje não: a poesia começa a retornar às suas fontes e de novo acredito na sua sobrevivência.

 

M.J. —  A Maura jornalista é diferente da Maura poeta?

 

M.S.P. —  Sim, é diferente. Jornalismo é profissão, que comecei a exercer concomitantemente com o magistério na Ilha de Santa Catarina. Tempo dos verdes anos. No Rio tenho sido só jornalista, trabalhando em vários jornais e escrevendo o que me mandam e, às vezes, sugiro: crônicas, reportagens, artigos, tópicos, pesquisas, comentários —  ligados ao fato, ao dia-a-dia. Fui secretária de revista e entrevistei muita gente, principalmente educadores médicos e cientistas. Três livros saíram dessa militância diária. No exercido do jornalismo cheguei ao colunismo literário e hoje faço apenas resenhas de livros recebidos.

 

M.J. —  Seus poemas nascem em algum momento especial, ou em qualquer resto de tempo que lhe sobra das atividades jornalísticas?

 

M-P. —  Meus poemas nascem quando um pensamento quer ser canto. Eu tenho de ter algo para dizer e, se a palavra não estivesse tão desacreditada, eu diria: mensagem. Meu processo de criação é totalmente mental. Quando ele aparece escruto, já estava pronto. Não há propriamente momento especial. Há períodos de explosão, outros de esterilidade. E há os cadernos e cadernos perdidos, já que só existiram em meu cérebro. Não grito e calo, não calo e grito? —  assim inicio meu poema "Escolha"; Ao final, optei pelo grito, mas o silêncio, às vezes, pode ser contundente como um libelo.

 

M.J. —  Quanto tempo levou escrevendo A Dríade e os Dardos?

 

M.S.P. —  Em vários períodos, pois resultou da seleção de poemas de livros publicados e de outros que apareceram em antologias —  além dos inéditos.

 

M.J. —  De onde surgiu a ideia desse livro? E desse título?

 

M.S.P. —  Eu anunciara Novos Poemas, inéditos. Mas os demais livros estavam esgotados e há, neles, alguns poemas que ilustres colegas me dão a honra de não esquecer. O crítico Fernando Góes, por exemplo, me escreve que ficou feliz ao encontrá-los em A Dríade e os Dardos. Quanto ao título: a Dríade é uma evocação de Maura em flor solta nos bosques natais. Teresinka Pereira, professora de literatura brasileira na Universidade de Colorado, chama-a "dádiva erótica". Em outro ponto do artigo, ela diz: "Descobrimos a poeta libertando-se da sensação corporal e alcançando o nível cósmico do pensamento ultra-universal . E descobrimos mais, achamos a companheira que canta de mãos dadas com o povo na rua buscando o pensamento do mundo". É quando, talvez, começam os Dardos...

 

M.J. —  A poesia encontra seu caminho novamente? Existem pessoas interessadas em descobrir o mundo do poeta?

 

M.S.P. —  Sim, encontra. Seu livro Inhumas é um exemplo. Sou uma pessoa presa à minha terra como uma planta e já abri uma coletânea dedicada à Ilha de Santa Catarina com este dístico: Abraçada ao universo / tendo as raízes em ti. Por isso posso saudar o canto belíssimo que você dedicou à cidade natal. "Todos cantam sua terra". Não, se todos cantassem sua terra —  de tal forma o regional o universal se tocam —  haveria um coro de paz. Quanto à segunda pergunta: Não sei se há pessoas interessadas em descobrir o mundo do poeta, mas há poetas interessados em descobrir o mundo que há de surgir —  com amor, liberdade e chances iguais para todos os seres humanos.

 

M.J. —  Seu livro está tendo mercado?

 

M.S.P. —  Bem, a distribuição é sempre precária, como se sabe. Mas ele começa a aparecer nas livrarias do Rio e de Florianópolis. E a ser procurado. Agora, o lançamento (27 de julho) foi uma grande tarde, promovida pela Associação Brasileira de Imprensa, tendo eu autografado por mais de três horas e vendido muito.

 

M.J. —  A crítica tem-se manifestado?

 

M.S.P. — Posso dizer que me sinto satisfeita, e até emocionada, com as manifestações que tenho recebido —  em artigos, notas, cartas, referências.

 

M.J. —  Quais são seus planos para o futuro?

 

M.S.P. —  Continuar autêntica.

 

M.J. —  Para você o que é mais importante num poema?

 

M.S.P. —  Seus dois elementos: a forma e o conteúdo.

 

M. J. —  Finalmente , você está ligada de alguma maneira à literatura feita em Goiás?

 

M.S.P. —  Há muito tempo estou ligada à literatura de Goiás e admiro a força gregária do povo goiano, que se reflete nos seus escritores. Conheci alguns em congressos nacionais da classe em Belo Horizonte e Porto Alegre. Entre eles, o grande Bernardo Élis e minha fraterna amiga Amália Hermano Teixeira. Livros fui recebendo e minha admiração aumentando. Ultimamente a ponte é o Suplemento Cultural que você edita, proporcionando cada semana ao Brasil —  nas suas páginas altas onde brilham as estrelas goianas — uma festa de poemas e contos, artigos, estudos. Devo essa aproximação ao ensaísta Nelson de Alcântara, pernambucano que adora Goiás e curte os amigos. O Suplemento Cultural é um exemplo de trabalho sério e um curso permanente, que muito me tem ensinado, merecendo de todos nós, leitores, aplausos e agradecimentos.

 

 

 

 

MAURA DE SENNA PEREIRA entrevistada por A Ponte (Florianópolis, 3a semana de março de 1980)

 

 

AP —  De que forma você participa da Literatura Catarinense?

 

MSP — Eu participo da Literatura Catarinense pela minha permanente ligação com a torra natal e pela divulgação que tenho feito dos seus valores. Ainda pela seiva que corre em mim como em uma planta, o que já me fez explodir naquele canto-epígrafe de catarinense o cósmica: "abraçada ao universo / tendo as raízes em ti".

 

AP — Quais as obras que você já publicou e como o público recebeu esses trabalhos?

 

MSP — Publiquei cinco livros de poesia, um de discursos, outro de crônicas e dois de reportagens, um dos quais, O Parte Sem Dor foi best-seller — e tenho motivos para me sentir satisfeita com a acolhida da crítica e do público. Devo mencionar o cancioneiro "Jurerê-Mirim" (cujos originais perdi em fase — hélas — em fase lutuosa de minha vida) e os vários volumes que podiam formar as centenas de trabalhos publicados na imprensa. Além, naturalmente, dos livros que não saíram do meu cérebro —  já ficando no protesto do silêncio.

 

AP — Qual a situação da crítica local diante de seu trabalhe?

 

MSP —  Muito boa.

 

AP — Você achou válida a experiência?

 

MSP —  Ser autêntico é sempre válido.

 

AP —  Como escritor você tenciona continuar trabalhando?

 

MSP — Vou responder com uma frase do Maeterlinck: "Pour reposer nous avons l' éternité".

 

AP —  Qual o principal objetivo do autor quando edita sua obra?

 

MSP —  Eu diria que necessidade de comunicação — um truísmo, portanto.

 

AP — Seus trabalhos receberam influência de alguma corrente crítica propriamente dita?

 

MSP — Devem ter recebido, mas inconscientemente.

 

AP —  Quanto tempo você vem atuando dentro da literatura?

 

MSP — O tempo em que publiquei meus livros e em que forjei os muitos não publicados.

 

AP — Você acha mais satisfatório editar sua obra aqui ou fora do Estado?

 

MSP —  Eu gostaria que todos os meus livros tivessem o timbro, a chancela catarinense. Mas tal só ocorreu com dois: o de estreia o cancioneiro País do Rosamor.

 

AP —  Na sua opinião, a literatura catarinense que se consome é igual, inferior ou superior à literatura feita nos maiores centros do País?

 

MSP — A atual literatura catarinense tem pontos altos em todos os territórios — na ficção, no ensaio, na poesia, na crítica —  que a tornam merecedora do respeito nacional. Inclui ainda a safra dos novíssimos, que eu coloco entre os melhores do Brasil.

 

AP —  Como você está sentindo o movimento editorial catarinense de agora?

 

MSP- Como um movimento que se está impondo e que só precisa ser melhor conhecido. Vemos as numerosas obras publicadas pelo Governo do Estado e vemos o dinamismo (assombroso), a coragem, a abrir caminhos de Odilon Lunardelli —  com seus palácios de livros, seus êxitos editoriais, suas vitoriosas promoções em favor dos autores catarinenses. E surge, agora, em Blumenau, a Editora Acadêmica, que tem à frente o jovem poeta Oldemar Olsens Jr. E que acaba de lançar a belíssima antologia Outros catarinenses escrevem assim.

 

AP —  Aponte os valores mais expressivos da nossa literatura.

 

MSP —  Vou pedir licença para endossar o "comercial" do Celestino Sachet: Leiam sua notável obra de pesquisa e história A Literatura de Santa Catarina, que tem magistral prefácio de Nereu Corrêa e primorosa apresentação da Editora Lunardelli. Nela desfilam aqueles a quem, em artigos e resenha no meu longo período de colunista literária, e verbal eu epistolarmente tenho expressado minha admiração. Não é preciso, pois, citá-los. Eles sabem.

 

AP —  Como você define o seu último trabalho?

 

MSP —  Meu último trabalho é A Dríade e os Dardos, que resultou da seleção de três livros de poesia e de inéditos. É, pois, uma antologia, que me trouxe referências e artigos elogiosos —  no Rio, São Paulo, Santa Catarina, outros estados e no estrangeiro. O professor Glauco Rodrigues Corrêa escolheu-o como livro-texto para o estudo da poesia em suas aulas na Universidade Federal de Santa Catarina durante o ano de 1979 e recebi a homenagem de uma plaquete em que aparecem as "Primeiras opiniões". Como não costumo concorrer a prêmios, tendo embora troféus, diplomas, distinções, medalhas —  tais fatos têm para mim um alto significado, sendo que, no primeiro caso, ainda maior, por me vir o "Prêmio" da terra natal.

 

AP —  Seu depoimento rápido e objetivo sobre o ofício de escrever.

 

MSP —  Escrever para mim é algo angustiante e voluptuoso. Escrever é criar e não concebo criar o vazio. A forma e o conteúdo são igualmente importantes e, como escriba, meu maior alvo (que decerto jamais atingirei) seria, num dizer novo, fazer soar a voz do nosso tempo.

 

AP —  Como você vê o atual movimento literário que renasce em Santa Catarina?

 

MSP —  Com euforia completa. Não só por ver nomes consagrados aumentarem sua bagagem e seu prestígio como ante a garra da nova geração que, valentemente comandada por ela mesma, dá seu recado (brilhante) até mesmo em publicações mimeografadas a álcool.

 

AP —  As universidades de Santa Catarina insistem em prestigiar autores de outros Estados em seus concursos vestibulares, enquanto nós achamos que elas deveriam dar uma força total para os nossos escritores. Como você se posicionaria, sendo reitor de uma das nossas universidades?

 

MSP —  Eu, reitor? Ah, chamaria Santa Catarina —  e ela viria de papoulas nos cabelos e mãos muito lindas abrindo, sobre as carteiras, livros de autores catarinenses.

 

 

 

 

ENTREVISTA do Jornal de Letras

(1° Caderno, Rio, Novembro de 1976, p. 3)

 

 

Maura de Senna Pereira nasceu sob o signo de Peixe, na Ilha de Santa Catarina. Uma composição no curso primário, aos onze anos, marcou sua iniciação literária. Louvada pelas professoras e lida em tom de discurso pelo seu tio Júlio Régis, foi por este publicada. Dizia respeito a um combatente que, em plena batalha, vendo cair um companheiro, arrastou-se e conseguiu resgatá-lo.

 

— Não deixou de ser uma profecia —  diz Maura. Gesto semelhante ao de meu irmão Samuel.

 

Componente da FEB, na dura conquista de Montese (tinha ele vinte anos) ao ver tombar ferido um esclarecedor do seu grupo "penosamente rastejou até o ponto onde havia caído o seu camarada, o qual verificou já ser cadáver. Mesmo assim, arrastou o corpo até um local abrigado, indiferente à chuva de projéteis que caía em torno de si" —  como reza o diploma que recebeu pelo seu ato heroico, juntamente com a Cruz de Combate de 1a classe.

 

Outros trabalhos da menina-e-moça foram aparecendo na imprensa e, muito jovem, Maura viu publicado seu primeiro livro: Cântaro de Ternura, poemas em prosa. Professora (formada pela Escola Normal Catarinense, com vários cursos especializados, e lente, por concurso, das cadeiras de português e que iria também ser a sua em Porto Alegre e, depois, aqui no Rio, onde reside há vários anos. Publicações: além de opúsculos, participações em antologias, dois livros de reportagens, um de discursos, outro de crônicas (o recente Nós e o mundo), publicou mais três livros de poemas: Poemas do Meio-Dia, Círculo Sexto, País de Rosamor.

 

— Lembro até, Maura, de uns versos que fiz pra eles:

 

Maura de Senna Pereira,

voz "Canto da companheira"

gesto de pão, rosa e paz:

quanto dás!

 

Redondilha de ternura

humaníssima frescura

tua "Rosa no caminho".

 

Teu grito "Circulo Sexto"

parábola de alma, texto

gosto de trigo e de vinho.

 

Em Terra Catarinense

Poesia perfil de Anita

infinita

te pertence.

 

— Meu próximo livro será A dríade e os dardos, titulo de uma de minhas coletâneas de poemas, depois do que pretendo escrever somente em prosa.

 

— E prêmios, medalhas, Maura?

 

— Não concorrer a prêmios é um princípio meu. Entretanto, eu me considero magnificamente premiada com expressivas homenagens que tenho recebido. Meu poema "Retrato de Anita", por exemplo, eu o disse por ocasião do inauguração da estátua da heroína na cidade catarinense de Laguna, a convite da Comissão Organizadora e do Governo Celso Ramos. Foi um dos momentos mais belos da minha vida. Tenho, também, muitas medalhas, entre as quais a que, em solenidade do PEN Clube, me entregou a Academia Catarinense de Letras, onde ingressei na extrema juventude e por iniciativa da entidade. Todas me são caras, mas a que mais me envaidece é a medalha comemorativa dó centenário da Gazeta de Notícias, porque idêntica e ao mesmo tempo a recebeu Cousin — precisamente na tarde de autógrafos de Nós e mundo, quando mais de cem amigos nos rodeavam na Livraria São José.

 

— Não quer contar sobre seu novo livro?

 

— Nós e o mundo inclui pequena parte das crônicas, resenhas e artigos que publiquei na coluna com o mesmo título, em Gazeta de Notícias. Tratando de figuras, livros e fatos, cuidei, na seleção, de não repetir os temas. "Cosmorama variado e policromo" — diz o ilustre jornalista Barbosa Gonçalves, na apresentação do livro, que tem capa do pintor abstrato Ely Braga. Nas orelhas e nas últimas páginas, transcrevi alguns dos valiosos louvores que tenho recebido.

 

Sei, como um agradecimento aos que a têm estimulado, e não por ostentação. Em Nós e o mundo, como já foi dito, não há egocentrismo algum. E depois, me inteirei de que está sendo muito bem recebido.

 

— Neste momento me é grato lembrar as palavras do Presidente Juscelino Kubischek na carta que me enviou a 19 de julho: "O seu mundo se compõe do mundo dos outros e neste você se mostrou inteligente, hábil e mais do que tudo com uma rara capacidade de criar e de escrever".

 

Maura sorri:

 

— Palavras que conservo como um prêmio.

 

 

 

 

 

2. POEMAS

(Verso e Prosa)

 

 

 

Sobre os Cardos

 

 

Pequenino, meu pequenino,

não te debruces sobre os cardos.

Vês, eu bem sei, acima dos louros cabelos,

uma porção de gabirobas louras.

Para alcançá-las

e sugar-lhes a doçura,

tens que te apoiar nos cardos duros

que circundam a árvore esguia,

cujos frutos de ouro

atiçam, meu menino, a tua gula

nesta hora dourada do meio-dia.

 

Pequenino, meu pequenino,

não te debruces sobre os cardos.

Eles são maus, têm espinhos

e irão ferir-te os membros tenrinhos

e machucar teu peitinho branco..

Pequenino, meu pequenino,

não te debruces sobre os cardos.

Assim selvagens e belos,

amparando teu fardo gentil,

lembram esses amigos da gente grande

em quem a gente não cansa de confiar,

em suas almas descansando,

inteiramente, a alma,

mas que, no entanto, nos ferem

com os espinhos terríveis da sua traição,

fazendo destilar a flux

o sangue sentido das nossas lágrimas.

Pequenino, meu pequenino,

não te debruces sobre os cardos.

Com os seus espinhos traiçoeiros,

far-te-ão chorar.

Lembram esses amigos da gente grande

em quem a gente não cansa de confiar,

mas que, no entanto, sem dó,

nossa pobre alma confiante

vêm um dia atraiçoar.

 

(de Sup. d'0 Malho, sem data —  Acervo ACL)

 

 

 

Eternidade

 

 

Debruçada no balcão ingênuo

da minha fraternidade,

tenho palpado a alma das criaturas

com a curiosa comoção dos simples.

 

Tenho mergulhado

em sua pouca ou imensa profundidade

a minha mão trêmula e morna.

E os meus dedos,

tantas vezes que nem sei,

se encolhem arrepiados

com o frio desse contato,

parecido com o frio do campo-santo,

com a algidez das cruzes

e dos carneiros brancos.

 

Toda eu então,

no corpo e no espírito,

vibro de lástima,

ó amigo, ó irmão,

ao pensar que tenho de morrer um dia

e que não poderei deixar como herança

esta minha incrível vibratilidade

repartida

por todas as criaturas vivas

que não têm alma.

 

Oh! eu bem sei

que a minha carne

se misturará à terra brava,

e gostosamente,

e infantilmente,

toda eu palpito

numa pletora inquieta de júbilo e de orgulho,

ao idear que nutrirei raízes,

que subirei pelos troncos molhada de seiva,

e, insinuando-me aos rebentos, nos botões,

nas flores tropicais ou nos frutos ácidos,

virei espirar

o grande sol da minha terra.

 

Para uma sementeira ardente

para um trabalho de amor,

eu queria que também ficasse

eterna no mundo,

benfazeja, entusiasta, repartida,

a minha alma que ama e que sonha.

 

Para onde irá ela? para o infinito? para o nada?

Nada sei! Nada sei!

Sou uma cigarra ignorante e uma leoa rebelde.

O que sei, o que sinto, o que canto

é a minha pena, a minha compaixão

de todos que não vibram como eu,

que tenho o peito a bater pela própria renúncia,

de todos que não conhecem a purificação

no belo fogaréu de um ideal...

 

Minha alma irá desperdiçar-se

quando eu morrer

numa extinção total?

 

Escuta, ó meu amigo, ó meu irmão,

Eu gostaria de ficar para sempre

na terra,

vendo os rosais que sorrirem

nos jardins floridos da minha psique

florindo em todos os corações

que são caminhos sem vegetação.

Eu gostaria de ficar para sempre

na terra,

para uma metempsicose coletiva,

não registrada nunca em lendas nem em dogmas,

animando pelos séculos fora,

com o meu generoso calor,

todas as almas polares, estéreis, geladas...

 

(Ai! pudesse eu em todas elas saltar de amor!)

 

 

(Recorte de jornal sem identificação —  Acervo ACL)

 

 

 

Vovô Índio

 

 

Vovô índio, hoje é Natal,

tenho um pedido para você

(Agora, sim, estou à vontade)

 

Papá Noel não me entendia,

vinha de longe, cansado, friorento,

enquanto eu gozava o verão do Brasil.

 

Por mais irmã que eu seja de toda gente,

teria que tratá-lo de senhor.

Que cerimônia, não acha?

Uf! não tenho jeito!

A você, amigo velho,

eu trato simplesmente de você.

Não faço graça, Vovô Índio

de tanga colorida e cocar esvoaçante,

abro-lhe aqui o meu peito, nômade dos brasis,

primeiro bandeirante!

 

Borbulha no meu corpo o seu sangue selvagem

e minha alma está cheia

do seu ingênuo panteísmo.

 

Planta tropical que Guaraci abençoa,

minha raça possui a seiva dos tupis,

dos que receberam, fraternos, os marujos brancos

e viveram deliciados do pindorama.

 

Compreendo toda o seu entusiasmo

rude, místico e pagão

(Pudera não!)

A nossa natureza

inspira os meus pensamentos

e alegra os meus sentidos.

 

Amo como você a liberdade,

ó velho caçador, ó sábio pajé!

Até parece que você deixou o maior quinhão dessa

herança

à sua neta rebelde do século vinte!

Por tudo isso, eu, brasileirinha

que traz na pele

a quentura do sol da manhã

e o perfume das frutas do mato,

eu, filha de Jurerê-mirim,

quero, no Natal,

Você!

 

Vovô Índio, quando andar pelas terras do sul,

distribuindo presentes.

Não faça como Papá Noel,

não se esqueça de mim!

 

 

(Especial para o Correio do Povo sem data, acervo da ACL)

 

 

Ilha Verde

 

Porque nasci numa ilha cheia de matas e de frutas,

de pássaros que são deuses

e que cantam

como si a velha alma de Orfeu

estivesse repartida em suas gargantas,

é que eu tenho o gosto alucinado da poesia

e o rito selvagem do panteísmo.

 

Porque venho de uma terra

toda orlada de praias e de conchas,

onde as espumas se esparralham

numa ânsia de conquista

e donde os olhos da gente se mergulham lá bem longe

é que eu tenho esta vontade

de alcançar toda a beleza,

de devassar todo o infinito!

 

Porque pertenço a uma raça de ilhéus sonhadores,

que revelam, no sangue misturado,

a ascendência nativa dos guaranis

continuada

pela dos marujos conquistadores

e pela dos que também plasmaram a raça,

com saudade talvez das paisagens africanas,

é que eu tenho este nomadismo aflito do pensamento

e, dentro da alma,

como uma flor exótica num jardim igual,

esta esquisita nostalgia...

 

Porque venho de uma terra

que não quis integrar-se a nenhuma outra,

num gesto rebelado de independência,

é que sempre tenho os olhos

dilatados de entusiasmo

quando vejo qualquer pátria

ou qualquer povo

querer ser livre!

 

Porque nasci numa ilha cheia de matas e de frutas,

é que você encontrou na minha arte e na minha boca

o sabor dos butiás

e o cheiro das trepadeiras em flor...

 

Porque nasci numa terra

sempre rodeada pelo abraço verde do mar,

é que eu gosto tanto

desse amor ciumento de você

 

(do jornal República —  DOMINGO LITERÁRIO, 7 de agosto de 1932, p. 3 Não faço graça, Vovô Índio de tanga colorida e cocar esvoaçante abro-lhe aqui o meu peito, nômade dos brasis, primeiro bandeirante!)

 

 

 

Fada Madrinha

 

 

 

Eu

te quero

bem, minha

dourada imagi-

nação, porque,

dona de opulências e

de requintes, tu me tens

feito conhecer, palpáveis e

gloriosos, todos os minutos

bons que a realidade avaramente

me negou. A saudade dolorosa e

sagrada que me deixaram os meus dias

inconscientes de criança, a ironia e o de-

desencanto que estão enchendo os meus dias

sofredores de rapariga —  caem no olvido efe-

mero quando eu obedeço à tua voz azul e visito

— feita uma rainha, com o vestido de cauda da i-

lusão, arrastando um séquito galhardo de paladinos

(todos os meus sonhos de beleza realizados sob as

bênçãos do sol), ouvindo, poderosa, a trombeta da

vitória, ouvindo, escrava, a cítara da felicidade

— e visito as tuas cidades e os teus jardins, os

teus parques e as tuas grutas (tu és tão faus-

tosa e tão boa!) Ah! eu bem sei que nun-

ca ninguém na terra possui o triunfo

e a ternura que tu me sabes dar e,

amparada pelo teu feitiço, sugestio-

bada pela tua mentira, eu me vou

vingando da verdade perversa

das minhas horas... Eu te

quero bem, minha dour-

rada imaginação, por-

que tu é a minha

fada —  madrinha

e tão naba-

besca e

tão ir-

requieta! E tão generosa! Que a ti eu devo todos

os deliciosos prêmios que a realidade avara-

mente me negou!

 

(A Semana, 18 de setembro de 1930, p.1)

 

 

 

Canoinhas

 

 

Bendita Sejas tu, Santa Cruz de Canoinhas,

pequena cidade setentrional da minha terra,

assim toda cheinha de rosas,

assim toda rodeada de pinheirais.

 

Eu cheguei até a tua beleza perfumada,

até os teus ares frescos,

depois de haver contemplado

enternecidamente

uma porção verde da terra catarinense,

ainda virgem para os meus olhos,

que a foram acariciando

com a delícia de dois sátiros felizes.

 

Ora o meu sonho era alto como as serras do caminho,

ora a minha alma se esticava, hipnotizada,

pelo rasgão líquido dos rios.

Aqui, a mancha negra das queimadas,

lá adiante, os milharais prometendo as socas douradas.

Mas sempre o verde faustoso

Dominando tudo com os seus tons múltiplos.

Ah! na mata seivosa

que o ventre da terra nos ofertou,

para nossa riqueza e para nossa alegria,

eu revi, surpreendida,

entre as outras variações da cor predestinada,

aquele verde suave do meu colar

e também o verde carregado, pastoso, colérico,

que já vi lá longe, no mar.

 

Quando cheguei até a tua beleza perfumada,

até os teus ares frescos,

eu vinha orgulhosa

da grandeza panteísta do meu torrão.

 

Tu prolongaste o meu orgulho,

ó bela milionária do ouro verde,

ó toda jovem,

apertando-me num grande abraço comovido

bem junto ao teu coração.

E, a seguir, ofereceste-te a meus olhos,

que continuaram na sua orgia amorosa

de sátiros felizes.

 

Vi-te cheirinha de flores...

Vi-te rodeada de pinheiros...

Flores, sorrisos policromos,

que representam

a candura sorridente das tuas mulheres gentis!

Pinheiros, lanças coroadas,

que simbolizam

a altivez vitoriosa dos teus caboclos bravos!

 

Bendita seja tu, Santa Cruz de Canoinhas,

pequena cidade setentrional da minha terra,

assim toda cheirinha de rosas,

assim toda rodeada de pinheirais!

 

 

(do jornal República —  DOMINGO LITERÁRIO, 13 DE NOVEMBRO DE 1932. Também publicado em Brasil Feminino, Rio, n. 12, maio de 1933 e assinado Maura de Sena Pereira Lamotte)

 

 

 

Canção de Guerra

 

 

Tu, que tens a volúpia da combatividade.

num grau que ninguém nunca ultrapassará,

de tão candente e límpida,

é meu feroz lutador!

 

Tu, que possuis labaredas encarnadas na voz,

línguas de fogo na palavra,

como si pudesses com elas

incinerar depressa o erro dos homens,

desde as intenções que ressumam veneno

até a seta envenenada

que se atira à inocência e à justiça,

ó meu louco sonhador!

 

Tu, que tens dardos certeiros

nas frases tuas que tanto querem a perfeição,

como si tivessem reencarnadas em si

antigas figuras bíblicas,

dardos contra o sorriso dos estultos e dos ímpios,

contra os líderes da opressão e os bastardos do

idealismo,

contra todas as falsas bandeiras,

ó meu audacioso pastor!

 

Fere também,

magoa, estraçalha, queima,

fere sem piedade

a hidra da minha inércia

e o monstro de cem cabeças do meu medo,

para que eu, dinâmica e audaz,

comece a combater também,

pela palavra mais meiga e mais convincente,

tudo quanto não tenha a verdade da beleza

e a beleza da verdade;

a combater, sim, a combater,

em nome da religião do bem

e do arrogante pendão da liberdade!

 

Maura de Sena Pereira Lamotte

 

(do jornal República —  DOMINGO LITERÁRIO, 18 de dezembro de 1932)

 

 

 

Três Poemas em Prosa

 

 

 

Espera

 

  

Nada conheço, no amor, que faça a gente padecer como a ansiedade da espera.

 

Ah! si soubesses quanto eu sofro quando te espero!

 

Faz poucos dias, ao folhearmos uma revista elegante, sentados sob o caramanchão todo florido de ipomeias, os nossos olhos — os meus quasi negros e os teus verdes como nunca -- pousaram numa ilustração que te pareceu brejeira e a mim profunda: uma encantadora mulherzinha toda de cor-de-rosa esperava o noivo a olhar o relógio com uma expressão de dívida e de ânsia.

 

Sorriste e viraste a página, mas eu fiquei a pensar ainda muito tempo na bela noivinha toda de cor-de-rosa.

 

Ah! si soubesses quanto eu sofro quando te espero! quando te espero e já vais tardando!

 

A minha imaginação louca e rica vai logo tecendo, como uma aranha nervosa, a teia das minhas derrotas: Imagino-te mentiroso nas horas em que tu dizes que eu sou a ânfora ideal da tua esperança e da tua felicidade. Imagino-te perjuro e sonho com traições tuas, com a morte do teu carinho, com o advento do teu olvido.

 

Traço então programas de alto orgulho e de tática feminina, para te atrair novamente com a meiguice luminosa dos meus olhos e entregar-te depois a aliança num gesto vingativo e mau.

 

Mas chegas, meu infinito bem, e as tuas risadas e as tuas juras sufocam, de tão poderosas, todos os meus ressentimentos e todos os meus devaneios despeitados. Tão bom quando te chegas, mas tão horrível quando eu te espero e já vais tardando, meu amor!

 

 

 

Repto da Minha Vaidade

 

  

Neste mesmo caminho, em que vamos os dois, apadrinhados pela luz dourada desta manhã catarinense, tu, a falares-me como um irmão mais velho na tua vida áspera e ilustre; eu, sorridente, no meu grande chapéu de verão —  neste mesmo caminho, que importa que já tivesses andado ao lado de outras namoradas!

 

Eu sei que o meu riso jovem e a minha compreensiva atenção à consciência dos teus sonhos e das tuas lutas, abafam a lembrança enternecida que porventura guardes de passadas entrevistas.

 

Nesse mesmo caminho, em que vamos os dois, felizes pelo nosso encontro e pela afinidade sutil das nossas inteligências, que nos está a parecer agora tão clara e tão verdadeira —  neste mesmo caminho, que importa que ainda venhas a andar ao lado de outras namoradas!

 

Eu sei que a minha pequena figura de mulher será sempre maior que o encanto e a beleza de vindouras entrevistas.

 

Olhando e ouvindo aquelas com quem passearás depois de mim, uma tristeza funda se espalmará pela tua alma e virá debruçar-se nas janelas verdes dos teus olhos...

 

É que em nenhuma encontrarás a inflexão humilde de minha voz —  tão soberana que te guia para o triunfo! Tão soberana que te rouba o coração.

 

 

 

Delírio

 

 

O Eu sei que tu estás passando diante do muro verde-malva da minha casa.

 

Mas não posso ir hoje encontrar contigo. Não me deixam. Estou doente!

 

Mas não posso ir hoje encontrar contigo. Não me deixam. Estou doente!

 

No meu leito, debato-me febril. E, perto de mim, o médico desvelado prescreve repouso e as enfermeiras carinhosas do meu lar cercam-me de solicitude e convencem-me de que devo ingerir um remédio muito amargo para ficar boa depressa.

 

Eu choro e quero sentar-me na cama e quero erguer-e como um neném que não compreendesse a lógica de todas as palavras que dizem para seu bem. Eu sei que tu estás passando diante do muro verde-malva da minha casa.

 

E rebelo-me outra vez contra tanto cuidado. Tenho quase ódio de toda esta gente que assim me está contrariando. Decididamente são todos meus inimigos e o que querem é o meu mal.

 

Pois não veem mesmo que eu estaria logo curada se pusesse depressa sobre mim urna grande capa, se calçasse minhas pequeninas sandálias e fosse correndo, a machucar as flores do jardim, para chegar mais depressa até o muro verde-malva? Pois não veem mesmo!

 

Mas qual! Não me deixam. Vou, pois, vingar-me: vou fechar meus olhos e me fingir de morta...

 

 

 

(Especial para Revista do Globo) —  sem data —  Acervo ACL

 

 

 

Miragem

 

 

Vesti a minha alma de esperança, pus ao ombro um cântaro dourado, correndo, com aquela ansiedade com que em pequena eu perseguia as borboletas, até a fonte em que cantava a água da alegria.

 

Fui correndo, correndo, como uma doida.

 

Meus cabelos escuros sentiam as carícias do ar perfumado da manhã e meus olhos estavam luminosos de esperança.

 

Tinham-me falado na fonte da alegria e eu tinha pressa de encher o meu cântaro.

 

Abençoei a vida quando cheguei ao meu destino e vi correr, entre flores do mato, a água por que eu suspirava.

 

Cheguei até a fonte a minha boca vermelha e bela com sofreguidão. Depois, com os olhos luminosos de esperança e meus cabelos escuros sentindo as carícias do ar perfumado da manhã, enchi alegremente o cântaro dourado.

 

Voltei, então, para minha casa, querendo cantar...

 

Mas a minha boca só disse amarguras e os meus olhos se encheram de lágrimas. Meus pés pisados e meus sonhos bonitos estavam tintos de sangue...

 

Foi então que eu compreendi que havia enchido o meu cântaro de dor...

 

 

 

(Recorte de Fon-Fon, sem maior identificação Acervo ACL)

 

 

 

Cântico dos Cânticos

 

 

Um dia, na alvorada da vida, eu ergui a fronte para o céu. Pássaros cantadores roçavam a seda escura dos meus cabelos. Eu estava vestida de sonho e, com a fronte, alcei também os braços e quis, num assomo de egoísmo, possuir todas as felicidades.

 

Os dias depois se foram soltando do tempo, azuis ou incolores, rubros ou lilases.

 

Hoje, ainda antes do meio-dia, minha fronte está também erguida para o céu. Ela é como um grito de vitória e os meus braços erguidos também são um sorriso de gratidão e de bem-aventurança.

 

Entretanto eu sonhara com a glória... E a minha glória é tão pequenina que não chegaria para fazer uma só folha de louro que enfeitasse a minha cabeça.

 

Entretanto, eu sonhara com a ciência... E a ciência aqui está nestas gotas míseras que eu guardo na choncha das minhas mãos, sob o desdém dos meus olhos e dos meus lábios.

 

Entretanto eu sonhara com o ouro... E o ouro vive a fugir do alcance dos meus dedos, rolando para as outras vidas, rindo de mim ao longe.

 

Mas a minha fronte levanta-se agradecida ante as bênçãos douradas do sol e os meus braços estão erguidos em ações de graças rumando para lá das nuvens... É que eu sonhara também com o amor e ele veio ainda maior do que o reclamo do meu sonho louco. Ainda maior que toda a glória, que toda a ciência, que todo o ouro do mundo. E as outras felicidades da terra me parecem mesquinhas diante da felicidade desvairada do meu amor.

 

O meu amor ultrapassa a altura atrevida das torres.

 

O meu amor me protege como uma árvore de fronde recurvada e densa.

 

O meu amor vive badalando, badalando, badalando, como uma imensa campânula que quisesse eternizar os ritos da alegria.

 

O meu amor é tão meu como um nenê que eu ninasse no meu regaço dentro de um êxtase maternal.

 

O meu amor é tão orgulhoso que eu me imagino abraçada ao ápice de uma montanha desprezando lá de cima todas as ambições e todas as misérias da humanidade.

 

Muito maior do que o amor visionado no sonho tagarela que eu sonhei na alvorada da vida é este amor quase incrível que há de viver até mesmo quando baixar a noite e brilhar a lua nova.

 

Por isso eu canto antes do meio-dia.

 

 

Maura de Sena Pereira Lamotte

 

(do jornal República —  DOMINGO LITERÁRIO, 3 DE ABRIL DE 1932 R. 3)

 

 

 

Fonte de Castália

 

 

A tarde estava triste como o meu coração e meus olhos enlanguesciam como cisnes doentes.

 

Mas, de repente, eu vi, eu escutei, eu tactei: uma sugestão encantada.

 

Toda a minha adolescência se encolheu num espanto gostoso.

 

E perguntava se aquela grande insinuação vinha das campânulas coloridas que até aí olhara com desamor. Das campânulas coloridas ou das nuvens vermelhas. Do aroma da terra, bárbaro, pagão, verde, que não a houvera nunca impressionado. Do aroma da terra ou da minha própria imortalidade. A verdade é que havia um letreiro diante da minha alma:

 

"Passa com a fronte alteada de sonhos. Sonhos de beleza. E deles torna vassalos tua garganta, teus lábios, teus dedos. Finge não compreender o egoísmo do mundo e a ironia do céu. Mas sorri para ti mesma, pequenina e altaneira. As poucas doçuras com que o destino te brindar e as violentas tempestades que ele fizer cair sobre essa alma simples de criança, que carregarás sempre —  nunca te façam esquecer tua orgulhosa tarefa de entoar a melodia mais humilde. Espalha a ilusão. Mas, quando não fores deusa até o ponto de enganares a ti e a todos com a ebriez divina da alegria —  arranca ensinamentos à tua mágoa, para depois ser menos imperfeito o teu caminho.

 

A tarde estava alegre como o meu coração e meus olhos dançavam como libélulas.

 

................................

 

Foi quando comecei a cantar.

 

 

 

(do DOMINGO LITERÁRIO —  República 14 de junho de 1931)

 

 

 

 

Legenda da Minha Alma

 

 

Vivem dentro de mim duas psiques, que eu carreguei sempre: ontem com inconsciência, hoje com uma alegria triste, com um ódio feliz.

 

São assim as minhas duas psiques:

 

Uma é simples e mística, é resignada e quieta; a outra tem revoltas e ceticismos, tem jeitos nervosos e alados.

 

Uma é feita de doçuras evangélicas e aceita a dor como uma realidade que purifica e que ilumina; a outra é feita de bravezas iconoclastas e não compreende o martírio agigantado que me coube.

 

Uma se mostra quando os meus olhos ficam amortecidos e tristonhos e lembram a mansidão bíblica das ovelhas; a outra aparece quando os meus olhos ganham vivacidade de sol e lembram destinos coroados de rosas.

 

São assim as minhas duas psiques:

 

Uma esculpe nos meus lábios o grande sorriso doloroso de quem nobremente renuncia; a outra desenha palavras gulosas na minha boca.

 

Urna vive recolhida em timidez, adora a sombra e o silêncio; a outra, louca e insatisfeita, adora os ambientes festivos e as glorificações alucinadas.

 

Urna obriga as minhas mãos a traçarem o supremo feitiço do perdão; a outra as deseja com realizações altaneiras de orgulho e de vingança.

 

São assim as minhas duas psiques:

 

Uma sugere tristezas de campo-santo, a outra alegrias de criança.

 

Uma tem atitudes de monja, a outra vaidades de rainha.

 

Uma quer ser humilde como uma pastora, a outra poderosa como uma deusa.

 

Mas escuta bem e eterniza na tua lembrança esta verdade boa: ambas amam e sonham e se completam no paradoxo harmonioso do meu ser.

 

Eu as ofereço a ti, ao culto do teu coração, à glória da tua vida!

 

 

 

(República, 19 de julho de 1931 DOMINGO LITERÁRIO P. 3, também Fon-Fon)

 

 

 

 

 

3. TEXTOS SOBRE PAIS E FAMILIARES

 

 

 

Minhas Avós

 

 

Mal conheci minha bisavó Maria Inês, a quem sempre chamei de avó da Praia de Fora, pois era naquele bairro florianopolitano que tinha ela a sua mansão. Dirigida já então pelas netas que criara, primas-irmãs de minha mãe. Fora uma matriarca, cuja autoridade não se discutia, mas que não se manifestava, no entanto, senão por meios sutis. Lembro suas batas brancas, suas feições eclesiásticas, seus olhos fechados pelas cataratas. E quando acariciava minha mão e, nela segura, me levava para os manjares de sua mesa.

 

Angélica, a avó que tinha nome de flor, morreu aos vinte e poucos anos. Meu pai jamais a esqueceu. Além de a idolatrar, aquela morte arrebatou-lhe a infância. Certo dia — andava eu pelos treze anos — o surpreendi me fixando imensamente comovido. Ao ver meu rosto interrogativo, disse logo: Eu estou achando minha filha muito parecida com a mãe do papai. (Era como a denominávamos). Carrego, pois, Angélica, a avó que tinha nome de flor.

 

Mas eis vovó, a que sempre assim foi chamada e que era mais doce que os sumos ao seu pomar biguaçuense. Filha de donos de escravos, donos cruéis, tinha o apelido de Yayá e os negros a chamavam de anjo. Que anjo ela foi sempre. Nunca admitiu a violência e era toda mansuetude e perdão. Conheci-a ainda com fios de ouro nos cabelos e os grandes olhos azuis na plenitude do outono. (Aqueles olhos que tanto choraram). Viu morrer tísico o amado marido de trinta e sete anos, enviuvou grávida e criou os filhos em Florianópolis e depois em Biguaçu. Quando missionários americanos estiveram por lá, foi um dos que se converteram ao protestantismo. E membro da Igreja Presbiteriana permaneceu até morrer, indo aos cultos sempre de preto, chapéu e saltos altos, mui cuidada sempre, dando a todos uma agradável impressão de trato e finura. Lia a Bíblia todos os dias e quando eu, que entre aqueles versículos me criei, mas que cedo comecei a rebelar-me, quando eu lhe dizia qualquer palavra irreligiosa, sua máxima reação era olhar-me com aquelas puras safiras atravessadas, exclamando: ó Maura!

 

Sofreu tremendos golpes vendo morrer filhos e netos, mas a lâmpada de sua fé jamais deixou de arder. ("O Senhor o deu, o Senhor o tirou. Bendito seja o nome do Senhor".) Fazia tudo com perfeição e milagres fazia com sua pequenina renda para nos alegrar. Nunca esquecerei minha aflição adolescente por não ter vestido novo para dizer meu discurso de oradora da turma na cerimônia de formatura da Escola Normal. Foi quando uma fada chamada Vovó me entregou aquele divino corte cor-de-rosa. Nos últimos anos parecia uma velhinha alemã a mãe de minha mãe. Que se chamava Benvinda — tão condizente com as ternas auras que derramava — de Azevedo Régis. Oh, quantas vezes a vi colocar os óculos para assinar seu nome querido. E inesquecível. Porque sua lembrança será sempre bem vinda.

 

 

 

(de Gazeta de Notícias / Nós e o Mundo, Rio, 9-10/7/1972, reproduzido no livro Nós e o mundo, 1978, p. 124-125)

 

 

 

Uma Data, Dois Cultos

 

 

Como poderia eu, nesta data, não evocar aqueles de cujo amor nasci? Ele, que desapareceu com a metade da idade que completaria hoje. E a que há cinco anos partiu neste mesmo dia outrora festivo, como se tivesse sido fechado um ciclo. Assim, de ambos falarei com a saudade e o orgulho de filha. Do homem belo, íntegro e humano, que teve sempre a palavra acatada mesmo pelos mais velhos — desde os seus verdes anos até à aurora da maturidade, quando morreu. Do erudito e modesto autodidata e do mestre que tem seu nome numa escola técnica, homenagem que ex-discípulos prestaram à sua memória. Daquele que jamais mentiu, que nos deu toda a sua ternura e oh, a quem não tive tempo de dizer as cálidas palavras da minha gratidão. Muito cedo o perdemos; mas havia a presença daquela que fora a sua bem-amada — como que em parte suprindo a ausência dele. Lembrando-o desde os tempos em que nasceu o lindo amor que duraria sempre e apontando todos os dias seu exemplo como um legado, a mãe heroica realizava o milagre de não parecer ele jamais um pai morto. Mãe heroica — e de uma grandeza que culminou na luta áspera da viuvez, diante da perda trágica de dois filhos em flor e, mais tarde, quando não mais puderam ver os olhos mais belos que já vi (ó heroína, ó estrela, como podias não enxergar se iluminavas?) 30-4-67

 

 

 

(de Gazeta de Notícias / Nós e o Mundo, Rio 01/05/1972, reproduzido no livro Nós e o mundo p. 115)

 

 

 

Meu Pai

 

 

Dia do Papa!... E eu lembro aquela noite distante de fevereiro, em que o luto marcou a minha juventude nascente. Ah, não pudera retribuir a mínima parcela do que recebera em sacrifício e amor. Não pudera conversar longamente com aquele espírito lúcido e reto. Nem sequer pudera mostrar-lhe completamente o meu coração. Uma infecção no rosto másculo e belo — arrebatou-lhe a vida. Muitas lágrimas, muitas, mas as lutas foram ainda mais abundantes, pois era cheia de meninos a casa órfã.

 

Houve, no entanto, uma heroína: tua bem-amada, ó pai. Sob a asa do seu insuperável amor materno, teu filhos cresceram honrando teu nome. E não parecias um pai morto, tanto eras evocado com aquelas palavras mágicas: teu pai. Elas traziam de novo a infância e a ilusão da tua presença. Teu pai... Elas contavam a história daquele amor lindo de crianças que prosseguira no noivado e nas bodas e que, depois, se abrira em flor e fruto nos poucos lustros do moribundo. Teu pai...

 

E, como por encanto, revivia o homem íntegro e humano para nos unir, inspirar e proteger com o seu exemplo.

 

Um dia, porém, no seu leito de agonia, a mãe heroica perguntou: "Quantos dias faltam para o aniversário de teu pai?" Faltavam poucos e quando chegou a data outrora festiva, ela partiu, como se tivesse sido fechado um ciclo. Foi quando acabei de te perder, meu pai.

 

Não sei se será por isso (pela força extraordinária de seu amor, de certo modo não morreste enquanto ela viveu) que a saudade que tenho de tua face é, agora, maior. Maior a dor de não ter tido tempo de ajudar-te. Maior a gratidão. E, no dia de hoje, mais viva a lembrança dos meus verdes anos, mesclada ao pesar de não teres ouvido dos lábios da menina as palavras maduras da minha admiração e do meu culto.

 

 

 

(Gazeta de Notícias / Nós e o Mundo, Rio, 10/08/1069)

 

 

 

As Mil e Uma Noites (Minha Mãe)

 

 

Minha mãe foi uma Sheherazade. Tinha ela o dom de inventar atraentes enredos, que deveriam ter sido coligidos e onde apareciam bichos e plantas, pessoas e símbolos, suas geniais criações de Anabela e Micaela, suas fadas boas e más, a realidade e a fantasia numa sábia combinação. Além da capacidade de transmitir as coisas mais vivas do nosso folclore, incluindo jogos e cantigas, e de narrar como ninguém os contos de Grimm, Andersen, Perrault, deixando os pequenos ouvintes presos ao fascínio da voz e do gesto e, ainda, ao movimento dos rasgados e lindíssimos olhos. Minha mãe foi uma Sheherazade.

 

 

(de Folhetim do Jornal do Comércio, Rio, 29/10/1969, reproduzido no livro Nós e o mundo, p. 135)

 

 

 

José de Senna Pereira, Meu Pai

 

 

O professor José de Senna Pereira, filho de Angélica (Bousfield) e Joaquim de Senna Pereira, pequenos fazendeiros em São Miguel, nasceu no Desterro a 30 de abril de 1877. Era menino quando perdeu sua mãe, a quem idolatrava e cuja memória reverenciou sempre. Logo depois, seu pai o levava para a casa de um tio, no Desterro, o comerciante e político João Francisco Régis Junior. Teve uma infância amargurada. Maior, porém, que o volume das provações sofridas era o valor excepcional da sua inteligência e do seu caráter, marcando desde cedo a personalidade de José de Senna Pereira. Trabalhava e estudava quanto podia, tendo prestado brilhantes exames no Liceu de Artes e Ofícios, ocasionalmente assistidos por um oficial da Marinha de Guerra, que declarou merecer aquele pequeno gênio continuar seus estudos na Corte. Por outro lado, um dos examinadores, adversário político do seu tio, atravessou a rua para felicitá-lo calorosamente. Foi quando surgiu a ideia de proporcionar ao adolescente a escolha de uma carreira. Ele, porém, num gesto inexcedível de generosidade e dedicação (mesclado talvez ao orgulho), respondeu que preferia continuar a serviço de seu tio, tendo assumido aos quinze anos a responsabilidade do escritório da firma Régis & Cia. Tal opção ele a cumpriu tão séria e fielmente que, mesmo durante vários anos após o falecimento do tio, prestou assistência à família deste, o que lhe custou lutas e sacrifícios sem conta e o obrigou a prolongar o seu noivado com a formosa prima Amélia Régis.

 

Autodidata e ledor assíduo de tudo o que aparecia de melhor, estudou línguas e adquiriu sólida cultura. Escrevia com elegância e correção (naquela caligrafia primorosa e firme que teria, mais tarde, seu filho Roberto), sendo, em sua juventude, colaborador de várias publicações e redator de "O Mercantil", cuja coleção deve existir em nossa Biblioteca Pública. O cimo, porém, do seu saber e dos seus talentos estava no conhecimento das ciências contábeis, que lhe vinha do magistral exercício da profissão e da atualização que procurava ter da árida disciplina em que se tornou especialista e autoridade máxima. Outro ponto que não pode ser omitido: a facilidade assombrosa de realizar operações mentais, como se possuísse um cérebroeletrônico. Via-se por isso constantemente cercado de consulentes e discípulos, tendo sido um dos fundadores e diretores do Curso Prático de Comércio, que mantinha um jornalzinho, e, depois, do Instituto Comercial de Florianópolis, oficialmente reconhecido. Entre seus alunos diletos figuram dois irmãos: o professor José Joaquim Brasil — fundador da Escola Técnica de Comércio, à qual deu o nome do mestre inesquecível, eficientemente dirigida pelo Dr. Rubens Victor da Silva e sua excelente equipe — e o ex-deputado federal Orlando Brasil, que atribui todos os seus êxitos ao fato de ter tido como orientador dos seus primeiros passos ao professor Senna Pereira.

 

Não é possível também deixar de mencionar sua conversão ao protestantismo quando muito jovem. Foi um dos fundadores da Igreja Presbiteriana de Florianópolis, da qual se tornou um dos mais acatados membros e oficiais.

 

Seu casamento com Amélia Régis de Senna Pereira, nascida no Desterro a 1 de outubro de 1885, filha de Francisco Carlos Ferreira Régis, funcionário da Alfândega, cedo falecido, e Benvinda de Azevedo Régis (ela, minha mãe, rosa íntegra, iria morrer em Florianópolis no ano de 1962 e na mesma data natalícia do bem-amado companheiro) foi um exemplo e um hino de permanente amor. Em pouco mais de 15 anos de matrimônio, tiveram doze filhos, sem que lhe coubesse a alegria de conhecer o mais novo (Samuel), nascido cinco meses após seu falecimento prematuro. Este ocorreu a 9 de fevereiro de 1923, em consequência de um furúnculo no rosto, desastrosamente operado pelo Dr. Fritz Goffergé. Pai extremoso, passaria pelo desgosto de ver morrer três dos seus filhos em tenra idade. Quatro outros faleceram depois de sua morte — dois em flor e tragicamente: Carlos, telegrafista, braço direito da mãe viúva, rapaz belíssimo, e Carmen, um botão de graça e inteligência. Mais tarde, no ano de 1963, em Porto Alegre, desaparecia Roberto, jornalista profissional e redator dos anais da Assembleia Legislativa do Estado, e, em 1969, no Rio de Janeiro, José de Senna Pereira Filho, oficial da Marinha Mercante, que recebeu o Diploma da Medalha de Serviços de Guerra "pelos valiosos serviços prestados ao País". Estão vivos: Samuel, major do Exército, que se distinguiu na FEB por seus atos de bravura, tendo recebido a Cruz de Combate de 1a. Classe; Ruth, viúva do comerciante e proprietário Álvaro de Campos Lobo; Ilka, viúva do engenheiro civil Newton Valente Costa; Zaura, casada com o Dr. Octavio Dupont, cientista de renome internacional, e Maura, casada com o Dr. José Coelho de Almeida Cousin. O casal Senna Pereira teria uma bela floração de nove netos — dos quais o mais velho é Mauro, engenheiro civil, filho de Roberto e sua esposa Olivia — e 21 bisnetos, que vão de recém-nascidos a universitários.

 

Quanto aos seus alunos, foram merecidamente destacados os irmãos Brasil, que têm dado à sua memória décadas de fidelidade. Mas é justo reconhecer que todos reverenciavam o grande mestre e que, sob o impacto de sua morte, tiveram dois gestos singularmente tocantes. Da casa em que morávamos, à Rua 24 de Dezembro, depois Crispim Mira, ao velho cemitério de então, localizado onde hoje se situa a cabeceira da Ponte, longo era o trajeto, em que se incluíam ruas íngremes e escorregadios morros. Mas os comovidos alunos fizeram questão de, revezando-se, carregarem eles mesmos o mestre morto, sem que, em nenhum momento, houvesse o auxílio do carro fúnebre que acompanhava o cortejo. Depois, cotizaram-se para lhe darem um túmulo.

 

Lembrarei também que sentidas orações foram pronunciadas. Que muitos foram os amigos — humildes e eminentes — que choraram conosco. E, entre as numerosas personalidades — atônitas ante o súbito desaparecimento daquele que foi chamado "cidadão exemplaríssimo", "prodigioso cérebro", "expressão de dignidade humana" — não devo deixar de citar o Dr. José Boiteux, que afirmou ter sido o morto insigne "um homem para quem os números não tinham segredos". Devo citá-lo em virtude da notável coincidência de funcionar a Escola Técnica de Comércio Senna Pereira no mesmo prédio da Escola Básica José Boiteux, vinculando num só edifício os nomes de dois ilustres catarinenses.

 

O centenário do nascimento do professor José de Senna Pereira é, pois, uma data que extrapola o âmbito familiar, merecendo ser lembrada não só pelos seus descendentes, mas também pelos seus discípulos, pela Escola de que é o patrono, pelos seus conterrâneos, pelo Estado, em honra de quem foi o modelar e incontestável pioneiro do ensino sistemático das ciências contábeis em Santa Catarina.

 

Quanto a mim, tenho a alegria de estar viva para exaltar seu centenário. E a dor de não ter tido tempo de lhe dizer quanto o amei — e não ter ouvido meu pai dos lábios da menina as palavras maduras da minha gratidão e do meu culto.

 

 

 

(de Centenário do Professor José de Senna Pereira. Rio de Janeiro: Editora Itambé, 1977, p. 5

 

 

 

 

Discurso de Maura de Senna Pereira

 

 

Cumpre-me, antes de tudo, agradecer ou — melhor —congratular-me com a Escola Técnica de Comércio Senna Pereira pela iniciativa de comemorar o centenário de nascimento de seu Patrono. Agradecer ao brilhante corpo docente, destacando os gestos inexcedíveis do diretor Rubens Victor da Silva, do padre Aquilino dos Santos e do vereador lçuriti Pereira da Silva. E louvar a participação dos alunos: o belíssimo discurso de Mário José Merizio na noite comemorativa do centenário e o convite com que me honraram os diplomandos de 77 para paraninfar a solenidade da sua formatura. Sim, louvar a juventude, sem deixar de dizer que ela, a juventude, não é nenhum mérito: é, sim, um tesouro, que o homem tem e perde. Mas, enquanto o tem, ele é inestimável, porque representa a vitalidade máxima do ser humano e é a fase das realizações, das conquistas, das empolgações, das contestações, do desejo de rasgar caminhos e até de ascender às estrelas. Só é, entretanto, verdadeiramente luminosa e sadia quando sabe também valorizar o legado recebido das gerações anteriores. É o que está demonstrando a turma dos formandos da Escola Técnica de Comércio Senna Pereira —  no ano do centenário do seu Patrono. Como o convite a mim dirigido tem o objetivo de homenageá-lo, será ele o meu tema.

 

Direi, pois, que, sem pensar em brilho literário, mas apenas inflamada de verdade e amor, tal como aconteceu ao traçar a biografia de meu Pai, vou refrisar, jovens afilhados, o que, naquela pequena página que dediquei à grande vida do professor José de Senna Pereira, deixei apenas entrever: sua dolorosa iniciação. Esta começou ao perder sua mãe, que morreu muito moça e a quem ele jamais esqueceu. Lembro que, certa vez, o vi fixar-me demoradamente enquanto seus olhos verde-escuros se enchiam de lágrimas. Ao perceber a interrogação no meu rosto quase aflito, explicou com a voz embargada: "É que estou achando minha filha muito parecida com a mãe do papai". Eu escreveria mais tarde: "Carrego, pois, Angélica, a avó, que tinha nome de flor".

 

Penso que o amor à terra do nascimento, nossa terra, vinculava-se de certa forma àquele imenso amor filial. Apesar de sua infinita modéstia, o renome que conquistou mais tarde como a maior autoridade no árido território das ciências contábeis — repercutiu. Ele recebeu de poderosas firmas tentadoras propostas para trabalhar em São Paulo. Porém jamais aceitou. É que não deixaria nunca a terra catarinense, como se a ela, sagrada como o útero materno, estivesse preso por um invisível cordão umbilical. O fato é que a perda da jovem mãe idolatrada arrebatou-lhe também as alegrias da infância. Levado pelo pai para casa alheia, embora de parentes muito próximos, teve de pagar o pão e ó teto com o trabalho duro de cada dia. Era apenas uma criança — e trabalhava e estudava, e estudava e trabalhava. Entretanto, ao prestar exames no Liceu de Artes e Ofícios, foi aquele assombro: distinções com louvor em todas as disciplinas. Houve, até, um dos examinadores que afirmou "não mais perguntar porque mais não sabia". (Foram testemunhas dessa vitória paterna que a narraram a seus filhos). Então por que não o mandaram fazer um curso superior, como os mestres deslumbrados propuseram? Ao que eu sei, deixaram a opção com ele. E, segundo penso, levado pela altivez sem, dúvida, tomada esta no seu mais alto sentido, escolheu continuar a serviço dos parentes, pagando o que lhe parecia dever com juros talmúdicos e passando do trabalho em casa para o trabalho no escritório da firma do tio, aí substituindo, aos 15 anos, a um velho guarda-livros.

 

Assim como a adversidade não o impediu de demonstrar seu incomum talento, não o impediu também de se impor ao longo da vida pela insuperável integridade.

 

Apreciando a moral humana, acho que temos de destacar o que é mutável do que é intangível. No primeiro caso, os conceitos diferem no tempo e no espaço, aceitos pelas comunidades como parte de sua estrutura. E, quando no mesmo lugar mudam, são quase sempre resultantes da queda de teorias caducas e, portanto, imperativos do próprio progresso. Há, porém, um substrato eterno, um padrão intocável, que, em qualquer época e lugar, não poderá ser infringido. Não sei como meu Pai, que seguia as normas rígidas do seu tempo, veria as mudanças que se têm operado ultimamente. Era conservador e austero, sim, mas também profundamente humano. Sei mesmo que, para certa moça amiga, que teve todas as portas fechadas, ele abriu as nossas. Estais vendo que coloco fatos assim no plano das coisas mutáveis de que já falei.

 

De uma coisa, porém, estou certa: ele jamais transigiria com qualquer infração às virtudes que, em qualquer tempo, constituem a dignidade da pessoa humana. Como, aliás, jamais transigiu e autoridade tinha para assim proceder, pois foi um exemplo vivo de grandeza moral. Uma das faces dessa grandeza é a palavra, é o jamais faltar à verdade.

 

Um dia, conversando, no Rio, com o eminente e saudoso almirante Arnaldo Pinto da Luz, que foi seu amigo, ele me disse: "Você sabe que seu Pai não mentia? Ele era um rapazinho e já os mais velhos o respeitavam, porque tinham certeza de que dos seus lábios só saía a verdade".

 

Ah, se eu sabia! Quantas vezes nos reuniu para contar a história da machadinha de Washington!

 

E certa noite... (Eu imagino quanto lhe custou violentar sua inata fidalguia e sua desmedida modéstia — mas compactuar com o erro, aplaudir o que não era exato, omitir-se num silêncio cúmplice — isso nunca!) Certa noite, apareceu, no Instituto Comercial, alguém que hoje seria mostrado nas tevês. A sala estava cheia de alunos, mestres, convidados, curiosos — para apreciarem o fenômeno. Depois de algumas respostas demonstrativas de agilidade mental, o teste maior: um dos apresentadores convidou um assistente qualquer para encher o amplo quadro negro de parcelas, a fim de que, instantaneamente, fosse efetuada a soma, O que foi feito. Mas também, no mesmíssimo instante, meu Pai mostrou que tinha havido um "engano", como disse delicadamente, e deu o algarismo certo. O grande homem reconheceu o erro e fez a emenda. A sessão estava encerrada. E todos puderam verificar que não era preciso vir o gênio de fora, porque o gênio estava, na terra, na sala, na hora.

 

As vicissitudes por que meu Pai passou, não se limitaram, porém, infelizmente, à fase larval da sua existência. Casado com a menina que viu crescer, que adorou sempre, que foi a sua única namorada, teve uma vida conjugal imensamente feliz. Eu e meus irmãos podemos dizer com orgulho que somos filhos do amor, de um grande amor. Mas, aí, a companheirinha da minha infância, Zaura, (minha irmã mais nova tem o mesmo nome) esteve doente vários anos, em consequência de uma queda, em pequenina. A morte do seu anjo enfermo e a dos dois louros arcanjos (ambos com o mesmo nome bíblico de Saul) o arrasaram. Ficou mais melancólico, mais esquivo, mais fechado, o rosto belo e másculo precocemente envelhecido, mais desencantado, embora, na sua ardente fé, dizendo que se submetia ao que ele chamava de vontade de Deus.

 

Dedicado apenas ao trabalho e ao lar e aos seus cultos de presbiteriano convicto — ele já era, nessa altura, malgrado os golpes recebidos, um gigante, a figura indispensável para que algo fosse criado na sua seara. Nossa casa vivia cheia de consulentes, ele rodeado de alunos nas poucas horas de repouso, de pedidos para resolver difíceis problemas de matemática, de insistentes solicitações...

 

Desse modo, dois cursos comerciais surgiram: o Curso Prático de Comércio e, depois, o Instituto Comercial de Florianópolis, dos quais foi um dos fundadores e diretores. Estava completamente atualizado, pois, em sua pequena e seccionada biblioteca, havia Camões, Victor Hugo, Shakespeare, autores latinos, mas principalmente obras modernas de contabilidade em vários idiomas. Começou, pois, a ensinar de modo sistemático as ciências contábeis, formando alunos que se tornaram mestres, mestres que criaram cursos. E ele, o pioneiro, recebia por vezes sugestões no sentido de escrever um tratado. Sorria (o mesmo sorriso lindo de Samuel) e havia uma tácita aceitação da idéia, que as provações mencionadas e a morte prematura não permitiram realizar.

 

Mas espalhou sementes e é o arquiteto — através dos seus alunos mais chegados — do que existe em Florianópolis na sua especialidade. Eis que Orlando Brasil fundou a Escola de Comércio de Santa Catarina, que já teve uma fase oficial, e José Joaquim Brasil, com vários amigos idealistas, entre os quais o diretor Rubens Victor da Silva, fundou esta Casa, cujo nome é uma homenagem ao seu incontestável pioneirismo.

 

Casa que é a Escola Técnica de Comércio Senna Pereira e que podemos considerar o tratado que ele não escreveu. Que vai completar um quarto de século no ano próximo e está, pois, consolidada. É uma árvore esplendidamente carregada de mil frutos, em que flui o suor fecundo do professor José de Senna Pereira.

 

Vós sois, queridos afilhados, alguns desses frutos. Ide e frutificai também. E aceitai os meus comovidos agradecimentos e parabéns por estardes cultuando um verdadeiro homem e um mestre extraordinário que, em sua sofrida e curta existência, deu um luminoso passo à frente. E que, tal como São Paulo, cujas epístolas amava e cujos ensinamentos seguia, "combateu o bom combate, encerrou a carreira, guardou a fé". E a "coroa da justiça" — recebe-a também no reconhecimento da posteridade.

 

 

 

(de Centenário do Professor José de Senna Pereira. Rio de Janeiro: Editora Itambé, 1977, p. 44-48. Parte foi reproduzida na crônica "Retrato de meu pai" na Gazeta de Notícias / Nós e o Mundo, Rio, 13-14/8/1978 como trecho do meu discurso de paraninfa, em dezembro do ano passado, na Escola Técnica de Comércio, de Florianópolis, que tem o nome de meu Pai").

 

 

 

 

 

 

 

4. SOBRE A MULHER E O FEMINISMO

 

 

 

LIBERTAS MULIERIS

 

 

Neste dia em que no coração nacional há a exultação fremente da Liberdade, ergo a minha voz, que é toda feita de esperança e sonho, dirigindo-a às patrícias minhas e falando-lhes um pouco da independência que a parte feminina da humanidade precisa usufruir.

 

Não prego a emancipação absoluta da mulher. Jamais figurou nas minhas aspirações feministas princípio algum que fuja dos limites do possível. Combate merecem as correntes das que exageram, das que exigem demasiado.

 

Precisamos concordar em que incontáveis conquistas obtivemos após a Conflagração Européia, na qual nossas heroicas irmãs se distinguiram pela coragem, pelo patriotismo, pelo sacrifício.

 

Empolgou o mundo o exemplo de valor extraordinário que mostraram possuir as heroínas da guerra, e cresceu assim em todos os meios a influição da mulher.

 

E hoje se multiplicam as ligas feministas e femininas nas nações mais prósperas e civilizadas. E as mulheres gozam direitos políticos, têm interferência nos negócios públicos, tratam cuidadosamente de dispensar proteção e carinho à mulher proletária...

 

E "a mais casta e a mais sacrificada metade do gênero humano" desperta da sonolência milenária, soerguendo-se com inteligência e nobreza, contrariando da mais eloquente forma o conceito iníquo de inferioridade intelectual que lhe atiraram à face Schopenhauer e a coorte numerosa e injusta formada por representantes do sexo oposto (o homem sempre nos temeu a emulação...).

 

E a mulher em todo o mundo se agita na febre do trabalho mais intenso, querendo somente cumprir fiel e dignamente o destino que lhe deu o Criador: o de ser a companheira do homem, amorosa e infatigável.

 

No Brasil há também um grande movimento em prol dos magnos interesses nossos. A independência pelo trabalho já nos está sendo assegurada. Não temos agora ingresso nas casas de ensino superior? Não se nos abrem as repartições públicas, mau grado o escândalo que tal fugida do (ar causa aos espíritos estacionários, impenitentes tradicionalistas?

 

Mas convenhamos: No comércio, no magistério, nas fábricas, não é verdade que a mulher obtém remuneração material inferior à que recebe o homem? Não é verdade que as leis sociais, estabelecidas e elaboradas pelos homens, exigem muito da mulher (cumpri-las com orgulho, espontaneamente, é o nosso dever) enquanto concedem ao homem a maior e mais ampla liberdade?

 

E as leis do país, às quais a mulher se tem que submeter, quem as faz? E no lar? Existe por acaso reciprocidade nos deveres conjugais?

 

Observa-se ou não, pelo menos aqui no Brasil, o triste retrocesso criado pelo fato de, na prática, terem os homens sobre as mulheres direitos de vida e de morte? E os assassinos de mulheres não são, invariavelmente, absolvidos?

 

Será que nos não ferem e nos não magoam tantas e tamanhas injustiças? Penso, pois, que forçoso é sejam incansáveis nossos esforços no sentido de um dia, unidos homens e mulheres na solidariedade mais afetuosa e cordial, terem ambos deveres, mas também ambos terem direitos.

 

Encorajo-me, então, e digo que, considerando muitas vezes os empecilhos que estorvam a marcha natural das atividades femininas, em busca dos direitos igualitários dos sexos, acho-os, infelizmente, representados por inúmeros defeitos nossos.

 

Os trajes imorais que estão sendo preferidos pelas mulheres, encontrando guarida em toda a parte, constituem nota evidente em nosso desfavor... Abusos e excessos de maquillage, tornando-nos máscaras... Mais preocupação com o luxo que com a instrução.... Mais egoísmo que altruísmo...

 

E o obstáculo máximo, a meu ver: o de as mães não desviarem as filhas do abismo das frivolidades e apontarem a superioridade dos filhos. Verdade amarga! É que não triunfaremos sem que, no recesso dos lares, as que têm as frontes aureoladas com a coroa augusta da maternidade encetem nobremente a verdadeira campanha feminista, que deve ser feminina antes de tudo.

 

Dos nossos arraiais, patrícias minhas, urge que desapareçam estes grande e sérios defeitos.

 

Emancipemo-nos deles, buscando a felicidade nossa e a de nossos irmãos.

 

Soou, no Brasil, para a mulher, a hora que proclama a Liberdade, mas a Liberdade que nos oferece a compreensão do nosso valor, do nosso dever, do nosso direito, e que nos ergue do atraso que nos prostrou durante séculos e das vidas consagradas exclusivamente a futilidades mil, para a reivindicação dos ideais mais sãos e mais nobres, pelos quais sempre devemos propugnar.

 

Independer da ignorância, da injustiça, do egoísmo —  deve ser a suprema divisa do nosso sonho, contemplando o porvir. Libertas!

 

 

 

Revista do centro catarinense de letras, ano 1, n.° 3 Florianópolis, Setembro de 1925 (não tem paginação numerada).

 

 

 

PREPAREMO-NOS!

 

 

"Toda gente sabe avaliar o poder, a influência benéfica que uma mulher pura de talento exerce num círculo proporcional ao seu exemplo, aos seus prejudicados".

 

Nos tempos hodiernos em que tanto se há submetido à crítica, à análise e ao estudo o fato de se querer o engrandecimento da mulher pela compreensão cada vez mais nítida e mais cabal do seu doce e alto destino e pela conquista dos direitos egoisticamente usurpados pelo mais forte —  não admira que de quando em quando, articulistas citem a frase agora tão divulgada e sempre tão bela de Napoleão, frase que é desejo preparação de mães para a glória da França.

 

É que todos os que anelam uma sociedade menos corrompida, costumes mais sãos, a pureza do lar e a grandeza da Pátria —  sabem conscientemente que a resolução do problema reside, em grande parte, nas mãos da mulher, pertence às mães —  e daí o invocarem, com olhos cheios de fé na majestade e no poder de Eva, o apelo do grande general sonhador, atualizando-o, adaptando-o ao Brasil querido,

 

Eu quando digo mães, refiro-me a todos os seres femininos, por isso que a mulher tem dentro de Si, inato", como disse o escritor, o instinto maternal. "Mães espirituais", "mães de corações" —  é o grito sincero que desferem as gargantas das feministas brasileiras, mulheres, de eleição, ousadas, que merecem todo o apoio das suas patrícias pelo devotamento e desassombro com que idealizam melhores dias para o Brasil, querendo esse triunfo alcançado, num surto esplêndido de corações e de inteligências, de amor e de sonho, pela coesão do esforço feminino, pelo extravasamento do afeto da cultura, da bondade infinita da Mulher.

 

Quando se agigantar o número das mulheres virtuosas, cristãs, puras, eruditas, inquebrantavelmente abnegadas e heroínas na "maternidade espiritual" e afetiva, mães pelo amor incomensurável, modelos pela vida incorruptível —  decrescerá, é lógico, o número considerável das mulheres frívolas, superficiais, mascaradas, sem princípios, sem aspirações altruístas e grandes, sem consciência de personalidade, mulheres que se sujeitam — quantas vezes e com que deplorável e ridículo servilismo! —  à exibição de trajos amorais, espalhafatosos, indecorosos, —  e então as sociedades se purificarão no crisol do salutar influxo moral e intelectual do coração da Mulher, e para a Pátria deslizarão os sonhados dias de mais fraternidade, de mais progresso, de mais elevação, de mais paz!

 

Incendeia-me a alma a perspectiva de um futuro de luz, radiante e a cooperar, voluntária e diretamente, para a chegada da grande época de uma sociedade mais perfeita, unida no amor fraternal, cheia de Cristianismo —  eu vejo, sublime, doce, independente, a Mulher.

 

Sonhemos um pouco, irmãs e companheiras minhas, com um Brasil de homens aptos e honestos, de mulheres amorosas e sábias, e pensemos que o nosso contingente, por menor que seja, não será inútil, não será posto de lado e o seu valor se cristalizará em frutos opimos, deliciosos, magníficos.

 

Mas não esqueçamos que a auto-preparação da Mulher é imprescindível; e, preparadas, educadas, livres das peias que só cultivam a ignorância; divorciadas de quaisquer frivolidades que tanto depõem contra a Mulher, aumentando o sorriso dos ironistas, dos céticos, dos indivíduos que não creem em nós; formando e consolidando uma forte cadeia com os nossos esforços pela moralidade, pela luz intelectual, com os ideais que nos fraternizam e nos exaltam —  impor-nos-emos e venceremos e os nossos irmãos aceitarão não com a má vontade atual, mas satisfeitos, reconhecidos, o concurso que lhes oferecemos para a felicidade do gênero humano e, falando mais particularmente, para a prosperidade dos brasileiros.

 

E não haveremos nós, ó Mulheres catarinenses, não nos haveremos de enfileirar também, formando ao lado da nobre e pequena cruzada de brasileiras que surge no nosso Brasil, alçando a bandeira de um feminismo que suplica justiça e equidade, que quer e deseja beneficiar, com divisas que elevam e dignificam os corações, as famílias, a Pátria?Não participaremos, ó irmãs, do tão grande sonho?

 

 

Maura de Senna Pereira

 (Da comissão censora do C. C. de Letras)

 

 

 

(da Revista do Centro Catarinense de Letras n. 2 —  Florianópolis, Agosto MCXXV, p. 2.

 

 

 

 

 

OS SURTOS DO FEMINISMO EM SANTA CATARINA

 

 

 

Fala ao Dia a brilhante escritora catarinense MAURA DE SENNA PEREIRA

 

  

Dentre as organizações artístico-literárias que constituem a moderna geração intelectual catarinense, fulgura como astro da primeira grandeza a inteligência varonil da maviosa poetisa e vibrante escritora Maura de Senna Pereira.

 

Quando de nossa estadia na risonha capital do Estado vizinho, tivemos a feliz oportunidade de manter por momentos interessante palestra com a ilustre patrícia. É essa palestra que a seguir reproduzimos, certos de que proporcionamos assim um grato prazer às nossas gentis leitoras.

 

Que diz do feminismo em Santa Catarina?

 

Compreendedoras das nossas aspirações e direitos, da nossa ânsia indômita de emancipação integral, infelizmente, temos poucas, pouquíssimas, e, além disso, sem que hajam erguido altivamente a sua bandeira de centralização e direção. Mas o fato é que a mulher catarinense, consciente ou inconscientemente, avança, mormente sob o ponto de vista da emancipação econômica. Uma parte considerável das novas gerações femininas já se preocupa com a aquisição libertadora de um meio de vida, evitando assim o amargor do parasitismo por ocasião das eventualidades. E isso, afirmo com esperança e orgulho, já é alentador e nos dá direito de forjarmos sonhos mais altos...

 

Quer então que a mulher se baste a si mesma?

 

Oh! Sim. Este é o desiderato máximo da nossa campanha. Em o atingindo, a mulher se terá reintegrado no seu próprio valor e, a influição benéfica dessa conluista, ela a conduzirá, generosa e serena, até a primeira instituição social, o casamento, que se fará então pela necessidade da alma, do Amor verdadeiro, e não por interesses comerciais, que o aviltam e degradam.

 

E nas diversas profissões, poderá falar-nos algo da ação feminina em sua terra?

 

Na palestra que fiz a 27 do corrente, no Teatro Álvaro de Carvalho, e que antes de 15 de outubro será, na integrada, estampada na República, gizei um ligeiro histórico dos progressos femininos nossos em vários ramos de trabalho intelectual. Tive então a oportunidade de citar alguns nomes mais salientes no magistério, no funcionalismo, nas artes, nos estudos, e, por último, no comércio. É a elite precursora —  pequena e vitoriosa —  que derrama abundantes ondas de estímulo na alma de todas as mulheres de boa vontade.

 

Está satisfeita com a remuneração que aqui se dá ao trabalho da mulher?

 

Não, por isso que, na quase totalidade de profissões em que homens e mulheres exercem a mesma atividade, não há nivelamento nos ordenados que uns e outros recebem. Que preconceito difícil de sepultar este que considera inferior o trabalho, quando é o nosso sexo quem o faz! Infelizmente, esta verdade ainda está de pé; continuamos a ser exploradas, pois parece estarmos longe de atingir um dos pontos fundamentais do nosso programa: "a trabalho igual, igual salário". A mulher cozinheira, a mulher operária, a mulher empregada de comércio e —  e que formidável injustiça precisa de ser vergastada no nosso magistério! —  a mulher professora —  percebem menor remuneração que o homem pelas mesmas horas de trabalho idêntico. E as lavadeiras, as engomadeiras e as nossas rendeiras artistas —  como são exploradas! Si não fora uma tarefa superior às minhas forças, eu há muito teria acendido a greve no meio dessas classes laboriosas e escravizadas do meu sexo!

 

Dir-nos-á alguma cousa sobre a mulher catarinense na literatura?

 

Referi-me também a este ponto capital na minha palestra. Delminda Silveira era a nossa criadora única de páginas de arte e de emoção.. Algumas organizações, porém, há poucos anos, estrearam na literatura, animadas do incentivo que lhes não regatearam os nossos intelectuais. E quero fazer justiça ao Centro Catarinense de Letras, aplaudindo, mais uma vez, o ingresso franco que concedeu a estas poucas torturadas do pensamento e sensitivas da Beleza Eterna.

 

Bate-se também pela concessão do voto à mulher?

 

Sou fervorosa adepta dessa concessão, porque penso como o senador Moniz Sodré, que escreveu:

 

"As mulheres constituem a metade, pelo menos, da população de um país. Se lhes impõem o dever de obediência aos governantes e lhes negam o direito de influírem na sua escolha, elas são vítimas de odiosa prepotência, porque é da essência do próprio regime democrático e representativo o princípio elementar e que as leis devem ser feitas pelos delegados dos indivíduos a quem elas vão ser aplicadas.

 

"Mas a elevação cultural é a base para todas as reivindicações sociais, civis e políticas, e, por isso, é por ela que principalmente me bato. Tanto é assim que pretendo fazer alguma coisa de útil neste sentido, na minha querida Florianópolis. Permitam, já agora, lhe declare o projeto de criação de um Club, para a educação intelectual e artística da mulher. Comunicando a ideia de realizar este árduo tentâmen a Maria Lacerda de Moura, a maior defensora no Brasil dos interesses sagrados da mulher e da criança —  tive o grande e doce conforto moral de receber para o meu sonho um tanto audacioso o lindo ritmo do seu admirável coração e o beijo comovido da sua alma generosa. E daqui a alguns meses —  quem sabe? —  possa comunicar aos meus brilhantes colegas e amigos ilustres da causa que eu defendo imperfeita e zelosamente, a realização desta minha esperança: a ereção de um estandarte verde e magnífico, santificado pelo batismo dos objetivos luminosos —  amparadas no qual venham sonhar as moças catarinenses... Não me falta otimismo, e "otimismo", como disse Marden, "é o artífice do êxito".

 

  

(de República, 12/11/26 p. 4)

 

 

 

SEM TÍTULO

 

 

Agora que aguardamos a discussão, no Senado, do projeto que concede o direito do voto à mulher brasileira, nesta hora em que as entrevistas às folhas do país se sucedem e em que lemos opiniões favoráveis ou tradicionais, que o encaram sob uma forma séria e outras sob um sarcasmo velado, muitas vezes imbecil, pois não é verdade? —  não neguemos a significação e o valor que, para todos os espírito partidários do ingresso do elemento feminino no ambiente político, representa a publicidade da carta que o dr. Clovis Bevilacqua escreveu ao dr. Juvenal Lamartine.

 

O jurisconsulto ilustre, consultado sobre o assunto, "que está na ordem do dia", diz, na sua epístola ao ilustre presidente do Rio Grande do Norte, que, perante a Constituição brasileira, não há defesa para o raciocínio que procura profligar a legítima aspiração feminina em nossa Pátria: de eleger e de elegibilidade. Frisa ainda a inteireza de cidadania, garantida à mulher, na carta constitucional, e que, na qualidade de cidadã, devera, pelo art. 70, ter o direito de se alistar, completa a maioridade.

 

Sempre surgem os sofismas, não podemos negar, mas já tem sido dito muitas vezes que, na vida histórica dos povos, os grande ideais e conquistas sofreram ápodos... e depois, muito naturalmente, entraram para o mundo das coisas consuetudinárias. Será assim, sem dúvida, com o concurso da mulher no largo âmbito intelectual e com o reconhecimento da sua idoneidade política, sobre a qual acaba de expender o seu voto o consagrado mestre, nessa valiosa carta ao grande pioneiro do feminismo político do Brasil, que falou recentemente: "Não podemos mais adiar a hora da participação feminina em todas as questões de interesse coletivo".

 

 

 

SEM TÍTULO

 

 

Chegou, há dias, à capital da República a primeira eleitora do Brasil, senhorita Júlia Barbosa, professora de matemática da Escola Normal do Rio Grande do Norte. Logo que, na terra da extraordinária Nísia Floresta Brasileira Augusta, foi sancionada a lei que concedia à mulher o direito do voto, Juba Barbosa, que pertence à elite mental do seu pequeno e glorioso Estado, requereu fosse o seu nome incluído no alistamento eleitoral do município de Natal. O despacho, que deferiu a petição, firmado pelo dr. Xavier Montenegro, juiz de direito da 1a. vara, é um estudo precioso, com argumentação irregrafável a favor da capacidade política da mulher brasileira em face da Constituição Republicana. Na sua, por todos os títulos, altíssima sentença, o dr. Xavier Montenegro (e basta-nos comentar esse único ponto) lembra a opinião dos constitucionalistas Barbalho, Milton e Carlos Maximiliano, que não admite seja estendido à mulher o direito do sufrágio, devido ao fato de, na Assembleia Constituinte, não passarem as emendas que o concediam. Lembra, porém, igualmente, o autorizado parecer do muito ilustre dr. Araújo Castro, que aponta como causa de tal conclusão a tácita concessão de prerrogativas políticas ao elemento feminino, na carta constitucional. Tal fato, que, seriamente, não mais se pode negar, teve, há pouco, no Senado, em palavra memorável, uma confirmação sem rebuços e sem peias, de um constituinte que assistiu às discussões das aludidas emendas: o senador Adolfo Gordo.

 

Falávamos, porém, na chegada ao Rio da primeira eleitora brasileira. Os elementos mais representativos do feminismo carioca fizeram-lhe honrosas homenagens, foi-lhe oferecido um almoço, saudando-a nessa ocasião a conhecida escritora e poeta Ester Ferreira Vianna, uma das mais bravas auxiliares de Bertha Luiz na grande obra da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.

 

 

(de República, 4/7/28)

 

 

 

 

SEM TÍTULO

 

 

Revista Feminina... Citemo-la como um puro e clarividente veículo das grandes aspirações da mulher brasileira, não só das hodiernas, relativamente à posse da emancipação econômica e à outorga dos direitos de cidadã, sendo também das doces e perenes, relativamente aos trabalhos domésticos, ao encanto de reinar, plenificando-a de virtude e beleza, na igreja toda branca do amor —  que é o lar.

 

Revista Feminina... E, citando-a, não esquecemos nem podemos esquecer o nome aureolado de Virgilina de Sousa Salles, irmã do comediógrafo ilustre Cláudio de Sousa, que a fundou em 1914, obedecendo ao impulso generoso e lúcido da sua individualidade, nascida para os sonhos bravos e para as onipotentes virtudes.

 

Morta essa conspícua senhora quando tão alto e vitoriosamente erguera a bandeira nova no ambiente de penumbra e de miopia do feminismo pátrio, uma continuadora surgiu na pessoa de Avelina Saltes, que o seu próprio sangue, o seu exemplo e o seu amor nos deram.

 

Revista Feminina.. Leiam-na todas aquelas que amam e prezam a sua cultura e a sua feminilidade.

 

  

(de República, 24/7/1928)

 

 

 

SEM TÍTULO

 

 

Feminismo é hoje uma palavra muito explorada e muito adulterada e de tal forma que, para algumas visões, significa um movimento que vem tirar à mulher o encanto máximo da sua feminilidade(!) e a consciência dos seus sagrados deveres no templo sagrado do lar.

 

Isso seria um monstruoso pecado.... melhor: uma impossibilidade!

 

Mas para tanto talvez concorressem aqueles excessos e aquelas violências (nada dignas de imitação) das primeiras sufragistas inglesas, lideradas pelo espírito agitado de miss Panckurst, que foi aliás um grande espírito.

 

As ideias, porém, se foram depurando e atingiram o seu ambiente de equilíbrio e serenidade; e existam embora mulheres que acaso professem à entrance o seu credo de emancipação, estadeando atitudes ridículas, a verdade é que o programa feminino tem esta formosa síntese: Bastar-se a mulher a si mesma, com o conhecimento de uma profissão compatível com a sua natureza, para evitar os desgostos e as humilhações da vida parasitária, mas com o escudo de ser sempre mulher e a glória altíssima de amar sempre o seu lar.

 

Eis o que é infinitamente elevado e que merece, por isso mesmo, o respeito das almas superiores.

 

 

(de República, 5/9/1928)

 

 

 

BENDITO TRABALHO DE MÃES E DE PROFESSORAS

 

 

É a vós, alunos desta escola que se destinam minhas palavras de hoje.

 

É a vossa inteligência e ao vosso coração de crianças, que as professoras desta casa andam enriquecendo e embelezando dia a dia com a lição e com o conselho, fazendo a um tempo trabalhos de mães e de apóstolos —  que se destinam as palavras que vos direi neste dia que é o dia da escola.

 

Dentro dos desencantos da vida eu vos quero contar —  aparecem os traços fortes da Beleza, enternecendo as criaturas: porque Deus é o próprio seio da Beleza e assim ela está destinada a viver sempre, dourando os carinhos da terra e enfeitando as horas do homem.

 

E eu considero um traço forte de Beleza e idealismo que fixou, entre outros dias destacados por uma significação, para o culto comovido de nós outros —  o dia louro da criança, o dia abençoado do trabalho, o dia divino das mães.

 

E abençôo, por isso, igualmente, fervorosamente o que estamos celebrando por entre os encantos desta radiosa manhã barriga-verde o dia da escola!

 

Porque nele se exalta o trabalho silencioso e eloquente, porque é simples e fecundo, daqueles que trabalham a alma de borboleta da infância com a religiosidade dos artistas, dirigindo-a para as rotas felizes do alfabeto e para os grandes sentimentos da humanidade e do patriotismo. Porque nele se exalta a casa que é o vosso segundo lar e onde vos iniciais nas trabalhas à terra, nas adorações à luz, e que vos quer a todos criaturas que honrem a terra farta e generosa sobre que caminhais com um sonho na vossa fronte altaneira de brasileiros.

 

Louvado seja, pois, o grande dia da escola, da escola que vos ensina todos os ritos do civismo e todos os cânticos à Bandeira.

 

A esta que acaba de ser hasteada, feita o alvo acarinhado dos nossos olhares, repousando trêmula e ofegante no azul do céu e inspirando-nos lá da altura!

 

A esta em que devemos ver o Brasil inteiro, abençoando-nos e recebendo as bênçãos claras do nosso amor ágil, nervoso, leal, puro como nasceu, que tem na sua arca o ouro do seu tesouro e tem no seu cavalo a asa que Deus lhe deu.

 

 

(Discurso — Florianópolis, A SEMANA, 31 de outubro de 1929, p. 1)

 

 

 

BRASIL FEMININO

 

 

Acaba de aparecer o primeiro número de Brasil Feminino. Tal acontecimento foi por certo a nota mais espiritual do verão brasileiro. Nascendo no Rio, a nova revista se destina a todos os lares de nossa magnífica pátria tropical.

 

Sua diretora é a conhecida escritora e poetisa senhora Iveta Ribeiro, um singular coração sempre aberto em flor, a abraçar, comovida, e a beijar, incansável, todas as nobres causas e todas as iniciativas que, por sua natureza, exigem os coeficientes da coragem, da bondade e da inteligência.

 

Por certo, como muito bem, sem pingos de vaidade e com a sua gentil franqueza, dona lveta assegura no pórtico da sua e nossa revista, não cabe a ela a glória de ser a primeira senhora brasileira a fundar um magazine exclusivamente devotado aos interesses literários, artísticos, domésticos e sociais da mulher.

 

Sempre que se exalta a obra de uma mulher que se acha à frente de algum órgão jornalístico em nosso imenso país, isto me parece lembrar o nome da baiana Violante de Bivar, findadora no século passado do Jornal das Se horas, iniciadora por isso do periodismo feminino no Brasil e sobre a qual acaba de publicar um reparador e formoso estudo bio-literário o ilustre Afonso Costa no seu livro Poetas de outro sexo.

 

Mas a primeira revista dirigida por mulher sob o cuidado do sol ardente do brasileiro foi aquela que deve existir ainda hoje na metrópole paulista e a que, depois de fundá-la, a grande irmã do acadêmico Cláudio de Sousa deu até a morte todo o calor do seu coração intrépido, cheio das diretrizes que lhe comunicou o grande instante pós-guerra e cheio também do patriotismo atávico de suas irmãs bandeirantes. Falo na Revista Feminina.

 

Lembro depois Renascença que, no mesmo glorioso S. Paulo, a muito culta Maria Lacerda de Moura fundou há dois lustros, com o intuito largo de não só agasalhar a pena das Evas ilustres, mas também debaixo de uma bandeira de emancipação de classes e de sexos, realizar a confraternização espiritual americana. Vítima talvez do seu arrojado programa, Renascença teve uma vida de poucos meses.

 

No Rio, "nesta imensa cidade fútil", como escreve Mário Poppe, a escritora Francisca de Basto Cordeiro, que agora ocupa na Academia Carioca de Letras a cadeira patrocinada por Raul Pompéia, fundou Única, já com um luzido corpo de colaboradores e ilustradores inteiramente feminino.

 

Morrera essa linda revista como uma cigarra cansada do seu lindo canto e eis que dona lveta Ribeiro, sem medo das curvas e das pedras do caminho, aparece agora, iluminada e generosa, com caravana das suas companheiras de sonho, a irradiar o seu entusiasmo e a bravura simpática de sua iniciativa.

 

A ilustre senhora visitou há pouco a Europa e animou-se com o exemplo de idênticas realizações naquelas plagas que são ainda o feitiço para a gente de espírito em todo o mundo.

 

Dá-nos agora Brasil Feminino.

 

Não é uma fanfarra de guerra. Não quer a de resto impossível odiosidade entre dois sexos que foram feitos para se amarem e compreenderem.

 

É uma obra serena de amor e de civismo. Quer o intercâmbio das mulheres cultas. Foi criada para que se tenha no Brasil uma vitrine mensal das possibilidades mentais e realizações práticas da mulher, na arte e no pensamento, no lar e na sociedade. Será, como o primeiro número demonstra, um encanto aromal para as moças e para as donas de casa e um delicado encantamento para as garotas de escola. E, para sua maior glória, em todas as suas páginas flutuará o perfume do "eterno feminino", indispensável à felicidade do homem e à poesia da vida.

 

 

 

(Recorte não identificado —  Acervo da ABL)

 

NOTA: Num comentário sobre a revista, o jornal República destacou: A diretora da revista acaba de convidar a escritora sra. Maura de Sena Pereira Lamote para ser a representante de Brasil Feminino no Estado de Santa Catarina.

 

 

AINDA REVISTA BRASILEIRA

 

 

A vitoriosa revista Brasil Feminino, que já está no seu sexto número, o que eloquentemente atesta o valor intelectual e a fecunda teimosia da simpática jornalista patrícia d. Iveta Ribeiro, tomou a iniciativa de um concurso interessantíssimo e que está despertando na imprensa do país comentários tais que valem por um anúncio unânime de vitória.

 

Trata-se da eleição do maior poeta moço do Brasil. As bases do concurso estão já lançadas e, segundo elas, não poderão ser votados os aedos que hajam atingido os quarenta anos... Mensalmente se têm realizado as apurações, sendo que a final e decisiva ocorrerá a trinta de setembro próximo.

 

O Eleito do Verso terá muitas consagrações. As duas mais bonitas, porém, serão os prêmios que lhe oferecerá Brasil Feminino: a edição luxuosa de uma obra inédita e o título de maior poeta moço do Brasil", em pergaminho, executado por uma artista de renome. Além de todos esses lauréis, lhe será dedicada uma festa suntuosa e lhe será aumentada, para glória sua, a ronda surda da inveja...

 

A bela revista, que é aqui vendida na Livraria Pascoal Simone, tem recebido votos de todas as partes do Brasil: da terra castigada das carnaúbas, das montanhas mineiras, do sul cheio de lendas e de bravuras, da pátria dos bandeirantes, do norte dos botos e das iaras...

 

As nossas conterrâneas, e só elas, têm assim oportunidade de mandar também o nome do seu poeta mais lido e admirado (e bem pode ser um catarinense), pois o originalíssimo concurso só aceita, o que o torna ainda mais interessante e discutido, o voto feminino.

 

 

Maura de Sena Pereira Lamott

 

(Recorte não identificado, sem título —  Acervo ACL)

 

 

 

A NOVA MULHER

 

 

"Trabalhe, peça ao homem o amor e não o pão cotidiano" —  aconselhava Eleonora Duse. E, quer queira ou não, a mulher moderna estuda, trabalha, luta. Há que firmar-se como pessoa humana, tornar-se uma unidade econômica, um ser participante. Quantas vezes, porém, a mais áspera de suas lutas não é a que trava pela sobrevivência, por um lugar ao sol, um posto, um diploma, urna carreira: é a que se processa dentro de si mesma. Este apelo atávico, este coro das avós-rainhas-do-lar, esta fala de sereia que vem dos recessos do seu próprio coração, este drama de não estar desatada do passado e ter de jogar-se na luta áspera dos dias presentes — confio que ninguém analisou melhor do que Alexandra Kolontai em seu livro "A Nova Mulher e a Moral Sexual". Nessa abordagem e dentro da faixa do meu conhecimento, penso que nem mesmo a alcança Maria Lacerda de Moura, que tanto marcou, empolgou, tumultuou com seus livros a minha adolescência (ao ponto de eu levar para o culto, em desafio, a "Religião do Amor e da Beleza" em vez da Bíblia) e que foi, afinal, embora injustamente esquecida, a mais corajosa escritora brasileira a tratar, até hoje, da condição feminina.

 

Já li que a expressão nova mulher nasceu dos movimentos do Women's Lib. Não. Ela é talvez contemporânea do término da Primeira Guerra Mundial, época de que me parece datar o livro da Kolontai, que somente duas décadas depois chegou ao Brasil. Foi quando o li.

 

Quanto àquelas vozes ancestrais, chamando para o comodismo e a dependência, não há dúvida que de mãe para filha se vão atenuando e que a geração atual, a esse respeito, já se encontra quase ou totalmente libertada. Agora, a menina-e-moça já pode curtir o seu preparo para a vida com a mesma naturalidade de um rapaz. Adquirir o "fluido imponderável que nutre o espírito e se chama cultura" (segundo Rose Marie Muraro, em vinte anos, a partir da década de cinquenta, o número de universitárias cresceu dez vezes no Brasil) e saber que nasceu também para exercer uma profissão — tal como o companheiro homem. Poderá encontrar contestações fora, mas não dentro de si mesma. Nova mulher? Novíssima.

 

 

 

MATERNIDADE

 

 

Enquanto embalas teu pequenino, esse baby rechonchudinho que é a realização do velho sonho que alimentaste a servir, embalando teus filhinhos de brinquedo, as bruxas de pano e as bonecas de louça; enquanto embalas teu filho de verdade, teu bonequinho de carne e osso —  pensas acaso, mãezinha jovem, para onde vais dirigir seus passos, quando ele começar a compreender?

 

Teu amor de mãe ultrapassa com certeza o vaidoso amor de embalar um bebê de verdade, que se gerou em teu ventre moço e suga o leite em teus seios de rosa, formosos e fatos.

 

Teu amor de mãe vai até essa almazinha que verás desabrochar, entre surpresas e, quiçá, apreensões.

 

Um dia a vida to arrebatará, ao nenê rechonchudinho de agora, que nasceu da primavera da tua carne, enquanto a primavera lá fora intumescia de seiva os canteiros...

 

Precisas pensar em tudo isso e não somente no canto lindo com que embalas hoje teu bonequinho de verdade.

 

Terás de orientar seus passos por um caminho certo. Como irás fazê-lo? Pensa bem...

 

Hoje todas as mães conscientes têm seus queridos rebentos ante uma encruzilhada séria: ou criá-los dentro da mentalidade viciada da época ou ensinar-lhes "a verdade nova da vida"...

 

Não terás remorso se o levares pela primeira estrada? Não serás covarde para o encaminhares na segunda?

 

Lembra-te também que nos nossos dias falta trabalho e a fome uiva e a opressão cresce e muitos, infinitos seres ficam sem resposta para os reclamos imperiosos da sua carne e do seu espírito. Daí, quem sabe, a "greve dos ventres"? O paradoxo de muitas mulheres, que seriam mães admiráveis, renunciarem conscientemente à maternidade!

 

Mas por que estou eu com tanta frase para teus ouvidos virgens de tais palavras?

 

Além de tudo, devo estar a falar-te uma língua difícil e estranha: não me entendes.

 

Criarás o teu filhinho como te criaram a ti, sem que a tua consciência doa, sem o menor protesto do teu eu, pobre eco desta civilização que está nos seus últimos bruxuleios.

 

Todavia és feliz e, cansada de ouvir-me, sorris novamente para teu nenezinho, cantando...

 

E eu invejo-te, porque penso em como seria preocupada a minha glória imensa se eu tivesse um filhinho!

 

 

 

IRMÃZINHA

 

 

Chegas ao quarto em que eu sofro e vens consolar-me, irmãzinha. Tua mão pequena, ativa e magra de operária pousa em minha testa ardente.

 

Que instante milagroso de frescura!

 

Irmãzinha... Deixa-me chamar-te assim, com esta fraternidade que salta espontânea dos meus lábios, pois, como as adoradas irmãzinhas da minha carne, compreendeste a minha ternura humana.

 

E vens agora oferecer-me a água pura do teu sorriso, o contato fresco da tua mão e, pingando ainda os diamantes líquidos da fonte, este cacho agreste de flores novas. Que cheiro bom de amor a tua visita me trouxe!

 

Mas não te aflijas com o meu novo martírio. Si a vida fosse mais simples e mais justa, eu não estaria aqui a suportá-lo, mas não te aflijas. Sofrendo-o, esquecer-me-ei um pouco da angústia máxima que ensombreceu para sempre a minha alma de mulher. Entretanto, irmãzinha, retém a minha pergunta na concha dos teus ouvidos e transmite-a aos nossos irmãos que encontrares na fábrica e na rua: Eu precisaria sofrer esta angústia máxima, bárbara e crua e desapiedada, si a vida fosse mais simples e mais justa!

 

 

(Recorte não identificado —  República? —  Acervo da AC)

 

 

 

DIVÓRCIO E AMOR

 

 

Não é que eu queira ser atrevida, mas a verdade é que não posso acreditar que os antidivorcistas se incomodem com a espantosa quantidade de uniões ilegais que se verificam em nossa metrópole descontentes da não existência do instituto do divórcio.

 

O vínculo conjugal permanece, só a morte opõe abaixo. Não obstante essa permanência, o casal que não é feliz, que compreende que seu matrimônio foi um erro —  nem sempre se conforma, em nossos dias, em permanecer unido. As estatísticas estão aí mostrando quão grande o número de processos de desquite, e há ainda —  e, sem dúvida, estes constituem o maior número —  os que não buscam a separação legal e  os que não conseguem pelo fato muito comum de um dos cônjuges não concordar com o desquite e, não sendo possível a obtenção do amigável, a outra parte preferir não pleitear o litigioso e contentar-se com a simples separação. Porque a verdade é que, de qualquer maneira, com desquite ou sem ele, é sempre impossível o novo matrimônio.

 

Mas o caso é que este se processa assim mesmo, se não de direito, pelo menos de fato, e como tal vai sendo aos poucos reconhecido —  não pela lei, está claro, mas pela família e pela sociedade. Já não há mais necessidade, por exemplo, de ir a mulher com seu novo marido até Niterói ou até São Paulo e, depois, dizer aos parentes e amigos que foram casar no Uruguai. É que começa a bastar a pequena e natural participação: "Sabe que me casei de novo". E está muito certo o verbo, muito bem empregado; não é nenhum eufemismo, nenhuma apropriação indébita, já que não se trata de uma aventura, de uma prevaricação, mas de uma união firmada pelos sentimentos em que se devem basear os matrimônios. De outra maneira, este se vê na contingência de tomá-lo. E não há direito mais justo, mais digno, mais sagrado do que o que temos à felicidade e ao amor.

 

Entretanto, a maior parte dos casais em apreço procurariam, se lhes fosse possível, a solução legal. A ausência do divórcio, vejam bem os que são contrários à medida, não representa, porém, um obstáculo a que se unam e procriem. Hoje não existe mais o estigma da filha natural e os frutos das novas uniões são, muitas vezes, filhos do amor, do grande amor, como deveriam ser todos os seres humanos.

 

 

(de Diário de Notícias / Nós e o Mundo, Rio 5/5/1959)

 

 

 

 

 

5. TEXTOS DE CATARINENSISMO

 

 

 

Santa Catarina minha terra

 

 

Estar no verdor dos anos, trazendo ainda a franja da adolescência; passear os primeiros sonhos pelas mesmas ruas estreitas e líricas que haviam conhecido os passos de Cruz e Sousa; publicar os primeiros escritos nas pequenas folhas da terra; não ter outro valor senão o da autenticidade e ser de chofre visitada pela notícia de que tivera o nome apresentado e unanimemente aceito na Academia Catarinense de Letras — eis o que me cumpre desde logo evocar, pois tais fatos constituem a gênese desta tarde. Enfatizo a iniciativa da entidade barriga-verde; e o ter ela, que congregava os valores estaduais, buscado pela primeira vez uma pessoa do "segundo sexo" — logrou na época enorme repercussão. Lembrarei, pois, aquela noite em que, de cabelos longos soltos e longo vestido branco, pelo braço de Nereu Ramos e com flores ilhoas na mão, penetrei no salão repleto do Palácio da Assembleia Legislativa. Lá me aguardava o verbo de José Artur Boiteux (que fora grande amigo de meu pai), inflamado como o de um cavaleiro andante, e lá tentei o elogio do patrono que para mim escolheram, inteiramente destoante da pequena recipiendária: o grande Roberto Trompowsky, marechal, "scholar", matemático. Foi uma bela noite sem dúvida, mas, se a estou evocando, é porque a ela se limitou a minha vida acadêmica.

 

Muito cedo me voltei para sonhos e rumos que empolgaram minha juventude ardente e, em breve, se esvaziava de élan o título que em verdade não cheguei a ostentar. Minhas ausências da terra e os prolongados recessos do cenáculo contribuíram para que aquele meu posto não tivesse exercício. Mas, nesta espécie de catarse, devo acrescentar que, sendo tão gregária e colocando acima de tudo no contexto da existência a criatura humana, não está para mim no mesmo plano de estima a forma associativa habitual — com estatutos, atas, compromissos. Eis por que, embora admirando a pertinácia que mantém esta casa, apesar dos gentis convites que recebi de vários dos seus dirigentes, embora aqui tenha amigos diletos e esteja aqui o meu bem-amado, permaneci afastada deste preclaro enlaçamento de academias estaduais.

 

Tal comportamento iria alterar-se quando Othon d'Eça, o alto prosador-poeta de Homens e Algas, hoje desaparecido e então presidente e restaurador da Academia Catarinense de Letras, ao insistir para que fizesse eu parte da delegação — onde já se encontravam ilustres conterrâneos — junto à Federação das Academias de Letras do Brasil, apelou para o meu amor à nossa terra catarinense. Oh, a terra na qual me integrava, em versos dos tempos jovens, a ponto de, num ato de consubstanciação, me sentir carregada da sua seiva e do seu pólen; de em suas carnes (ou em meus chãos) nascerem as grumixamas que eu devorava e os brincos-de-princesa que pendiam das minhas orelhas. E em cujo peito joguei este dístico dos tempos maduros: abraçada ao universo / tendo as raízes em ti. Amor naturalmente centrado na Jurerê-Mirim natal com seu halo de praias e de conchas. Lá onde o sol nasce nas águas da Lagoa da Conceição, bíblicas como as de Genesareth, parecendo um deus resplandecente no primeiro dia da criação. E onde, ao fim da jornada, nos é dado o luminoso salário de ver os tesouros do rei Salomão entornados nos nossos poentes e estriados com aqueles fúlgidos lilases que fui buscar para os meus crepúsculos no País de Rosamor.

 

Não é, no entanto, em virtude apenas das belezas daquela terra e daquele céu que pulsa o meu amor a Santa Catarina. Também de atos, vozes, ritmos, gestos que irromperam de tantos de seus filhos, forjando a maior porção de sua glória. Também de símbolos, eventos, nomes destinados à perenidade. Alguns citarei: Virgílio Várzea e Victor Meireles; Cruz e Sousa e Luiz Delfino; Lacerda Coutinho e Araújo Figueiredo; Jerônimo Coelho, que nos deu o primeiro jornal, e, na mesma importante faixa, os nomes exponenciais de Gustavo Lacerda, fundador da Associação Brasileira de Imprensa, de Oscar Rosas, Lucas Bainha, José Johanny, Martinho Calado, Joe Collaço, Crispim Mira, Diniz Júnior, Rubens de Arruda Ramos; os historiadores Almeida Coelho, Paulo José Miguel de Brito, Afonso de Taunay, general José Vieira da Rosa e os laboriosos e íntegros irmãos Boiteux; a sábia jurisprudência do conselheiro Manoel da Silva Mafra; as vozes humildes de Marcelino Antônio Dutra, o poeta do brejo, e João Rosa Júnior, o poeta cego; o verbo do Arcipreste Paiva, de Edmundo da Luz Pinto e, entre outras incomuns eloquências, a de um rapaz genial chamado Helio Régis, que morreu aos vinte anos; o polígrafo Henrique Fontes, para quem eu gostava de me firmar como a sempre discípula; o regionalista Tito Carvalho, que foi ao mesmo tempo um dos nossos mais completos homens de imprensa; os eminentes estadistas, entre os quais Adolfo Konder, que trouxe um sopro renovador ao assumir o governo do Estado, prestigiando os valores que surgiam e erguendo a bandeira do catarinensismo; Lauro Muller, que se projetou no cenário político nacional durante as primeiras décadas republicanas, e Nereu Ramos, que iniciou, em 1930, a ascensão que o levaria, em hora histórica do Brasil, à presidência da República; todos os que lutaram e sofreram pela justiça e pela liberdade e — ai! — o sangue de duzentos fuzilados pingando na ilha de Anhatomirim.

 

Lista-síntese que poderia bastar pela força dos nomes e dos significados. Contudo, não posso esquecer os não catarinenses que o foram entranhadamente, a todos reverenciando nos que Santa Catarina ainda pranteia — o arcebispo Joaquim Domingues de Oliveira, que durante meio século escreveu e pregou em língua clássica, e o governador Jorge Lacerda, que teve nos atos e nas palavras a marca dos tempos novos — e Horácio Nunes Pires e José Brazilício de Souza, que compuseram o Hino do Estado, cálido e humanista, exprimindo os melhores arroubos da alma do nosso povo em estrofes como esta:

 

Não mais diferenças de sangues e raças

Não mais regalias sem termo, fatais.

A força está toda do povo nas massas.

Irmãos somos todos e todos iguais!

 

Impossível tampouco esquecer os vultos femininos, tanto mais que, ao recordá-los, surge logo a maior figura da história barriga-verde, Anita Garibaldi, que há pouco voltou à Laguna do seu berço no bronze de Antônio Caringi e lá está bela e jovem como era há mais de cem anos, quando partiu para a luta e para o amor. Surge, em seguida, Amélia Bainha, a heroína do mar, enquanto no território da poesia se derramam os versos de Delminda Silveira, que foi também uma espécie de heroína na aquisição de sua cultura, no dedilhar de sua lira. Delminda, a dos Lises e Martírios e Passos Dolorosos, a quem conheci nos últimos anos de sua vida e que teve para mim ternuras de fada. Sua voz e a da misteriosa Semíramis com seus cantos assíduos nas páginas ilustres do Sul-Americano. Quem era ela? Foi só quando a fonte silenciou que tiveram todos a resposta. Era Maria Carolina Corcoroca de Souza, esposa daquele mesmo José Brazilício, o dos muitos talentos, que musicou nosso vibrante "hino de estrelas e flores" e foi mestre da mais adorável e adorada Scheherazade, minha mãe, e daquele que seria o exemplaríssimo professor Senna Pereira, meu pai.

 

Chego, assim, aos vivos de várias gerações — desde a de meus fulgurantes mestres até à novíssima. Chego aos valores que lá pontificam e aos tantos que transpuseram as fronteiras e estão brilhando na literatura, e nas artes nacionais, no mundo jurídico, na esfera das pesquisas, no púlpito e na cátedra ou, em setores vários, participando das lutas e das esperanças do Brasil.

 

Certo é que a estas facetas devo restringir-me, não me cabendo, aqui, ressaltar as mãos que impulsionam o estadual progresso — no fundo das minas, no alto das serras, em planuras e vales, em glebas e mares. Mas como excluir aquelas cujo labor desfolha poesia, borbulha folclore? Comparecem, por isso, as que modelam os lindos e rústicos objetos de palha e de cerâmica, vendo-se, entre os últimos, os que reconstituem, na magia do barro trabalhado, as figuras todas do nosso boi-de-mamão, um dos autos populares mais ricos e movimentados de todo o País. E as prodigiosas mãos femininas que, de fios e de bilros, fazem surgir o claro poema que as avós açorianas ensinaram a tecer. Beleza de margaridas, estrelas, favos, trepadeiras, de múltiplos desenhos, de entrelaçados pontos — naquelas alvas peças, naquele tesouro branco. Que elas criam — cada vez mais pobres e cantando as trovas mais ternas do nosso litoral. Eis uma delas:

 

Inveja só posso ter

Da luz clara do luar

Que faz rendas tão bonitas

Com a branca espuma do mar.

 

Neste apenas esguio recorte, eu quero, como as rendeiras, exaltar o grandioso e saúdo o mural que em breve começaremos a apreciar no primeiro volume da Enciclopédia Catarinense, trabalho gigantesco que está realizando o almirante Carlos da Silveira Carneiro. Beirando a pré-história e o porvir, abarcará ele Santa Catarina na sua totalidade.

 

Santa Catarina, minha terra, em que estou presa como uma planta e à qual devo a honra desta hora. Não importa que, depois de vários anos meu nome aqui figurar, só hoje eu viesse tomar posse. O que importa é vermos a Academia Catarinense, presidida pelo admirável ensaísta Nereu Corrêa, entrar numa fase rasgadamente moderna — promovendo concursos, realizando currículos, acendendo debates, publicando cadernos. O que importa é sabermos que tal espírito renovador coincide com os propósitos do nosso fidalgo e ilustre presidente Cumplido Sant'Anna. O que importa é estar sendo tão eu mesma em ambiente acadêmico.

 

Tempo de agradecer, agora, à Federação das Academias de Letras do Brasil a oração que vai proferir o acadêmico Pizarro Drummond. Suas palavras ainda mais me desvanecem porque, sobre serem a voz desta casa, partem de alguém que, entre outros títulos, é autor de livros primorosos pelo estilo, pela temática, pela interpretação e que, jovem juiz, está honrando a carreira que tem como ápice, no Brasil deste momento, um grande catarinense, o ministro Luiz Gallotti, presidente do Supremo Tribunal Federal.

 

Tempo de agradecer a homenagem do belíssimo curso de Regina Lúcia Pimentel através de várias de suas alunas. Alunas radiosas que vão emprestar beleza a versos meus de vários períodos.

 

Tempo de agradecer esta esplêndida medalha, atada nas cores da bandeira catarinense, que deixou para entregar neste ato o representante oficial da nossa Academia, escritor Almiro Caldeira. Escritor, quero frisar, que está utilizando com brilho, na sua excelente obra ficcional, episódios da nossa história ilhoa. Estas insígnias e as expressões com que as entregou o autor de Ao Encontro da Manhã — revigoram minha posição de delegada de Santa Catarina e meu intento de bem e sempre projetá-la. Que eu evoque, pois, neste momento, suas glórias mais inspiradoras: um cisne negro e uma rosa matuta — o poeta emparedado e a musa da liberdade. Aquele cujos Broquéis, Faróis, Evocações, Últimos Sonetos deram ao mundo um dos seus maiores simbolistas. E aquela cujo próximo sesquicentenário eu quisera que trouxesse o frêmito dos seus ideais ao coração de todas as gentes. Um negro e uma matuta, repito, para concluir com os nomes altíssimos de Cruz e Sousa e de Anita Garibaldi.

 

(Discurso pronunciado a 2 de dezembro de 1967 — em sessão realizada no auditório do PEN Club, à Avenida Nilo Peçanha 26, 13o andar —  Publicado no Jornal do Comércio de 31/12/ 1967 —  republicado em Verbo solto p. 19-27)

 

 

 

Santa Catarina, minha terra

 

 

Depois de algum tempo de ausência, volto a Florianópolis precisamente neste ano do tricentenário de sua fundação e do sesquicentenário de sua vida de cidade. Talvez fosse por isso que novos arranha-céus me pareceram um halo comemorativo. O crescimento vertical que eles significam e as avenidas que se abrem, formando um apreciável binômio de expansão, alteram sem dúvida — sem lhe deformar a beleza, no entanto — a face terna e plácida que teve até há pouco a cidade onde nasci. E o coração algo se aperta, mas só um momento. O seguinte é para compreender e saudar, pois era apenas esse tônus de urbe moderna que estava faltando para que Florianópolis — localizada na maravilhosa Ilha de Santa Catarina e culta capital de um Estado adiantadíssimo — pudesse assumir, em toda a plenitude, a sua destinação de metrópole.

 

Se, nos meus verdes anos, lá residindo e trabalhando, pude colaborar no progresso intelectual da terra catarinense, longe dela, mas nela presa como uma planta (assim me defini num velho poema) não tenho cessado de cantar-lhe o meu amor É a minha glória simples a não alienação, a participação contínua embora ausente. Por isso quando, na Academia Catarinense de Letras, fui saudada pelos eminentes confrades Nereu Corrêa, que a renovou, e Thebaldo Costa Jamundá, seu secretário-geral e presidente do Conselho Estadual de Cultura, não sei o que mais me comoveu: se as pétalas (azuis?) que ambos jogaram sobre a Maura em flor do Cântaro de Ternura ou se o haverem ressaltado a minha humilde fidelidade à terra natal. (A respeito daquele primeiro livro, Almeida Cousin, na mesma tarde saudado pelo admirável contista Holdemar de Menezes, presidente em exercício da Academia —  revelou que, por ocasião de seu aparecimento, estreava ele, em Vitória, com a epopeia Itamonte e que, trocados os livros, vieram as primeiras cartas ligando em ponte lírica as duas ilhas. Publicando nota sobre o fato, Jornal de Letras intitulou-a "A ponte".)

 

Emoção semelhante eu teria ao ver transmitida a entrevista que concedi à TV Cultura, a convite de Darcy Lopes, seu dinâmico diretor-presidente e seu fundador após muitos anos de sonho tenaz, pertinácia, sacrifício. E catarinensismo, para usar a feliz expressão que me parece criada pelo grande e saudoso estadista Adolfo Konder. Durante a entrevista, a oportunidade de conhecer os dignos companheiros de Darcy Lopes na direção da TV Cultura, os ágeis repórteres e apresentadores e as magníficas instalações na rua Bocaiuva e no morro da Cruz —  e, lá do alto, contemplarem todo o seu esplendor aquela que é três vezes centenária.

 

Florianópolis. Que poderia ser Ondina, como queria o nosso inolvidável marinhista Virgílio Várzea, e que —  desde sua fundação pelo paulista Dias Velho até os primeiros anos da República, quando meus pais eram crianças e meu bisavô Régis estava escondido em consequência da revolta de 93 —  se chamou Nossa Senhora do Desterro.

 

Sob o antigo nome, ganhou ela monumento através da recente e notável obra do Dr. Oswaldo Rodrigues Cabral. Na residência do historiador e sua esposa (e inteligente colaboradora em muitas pesquisas), rodeada de jardins e bosques onde vimos correr o pequeno e encantador Alexandre, a quem a obra é dedicada, eu e meu marido fomos brindados com os quatro volumes de Nossa Senhora de Desterro. E o receber tal presente em 73 — embora a data do lançamento seja anterior — teve para mim um sentido de celebração. Neles, cada capítulo abordando um assunto, flui a história da ilhoa vida, fixando costumes e fatos, estabelecendo situações e cotejos, ressuscitando gente, pingando autenticidade. Resultado de profunda erudição e de trinta anos de minuciosas pesquisas para que tivéssemos retratos desterrenses de todos os tempos, o novo trabalho de Oswaldo Cabral enriquece a vasta bibliografia de autor, a literatura catarinense e a cultura brasileira. É história e é crônica. Crônica lúdica, pitoresca, harmoniosa. Aliás, o longo título barroco e a declaração, na capa, de que fora a obra publicada "com todas as licenças necessárias, isto é: nenhumas", até às últimas páginas, que fixam os últimos dias em que a depois Florianópolis se chamou Desterro, o ilustre mestre é sempre o humanista jovial que todos admiram.

 

Lembro que, ao final da tarde inesquecível, quando deixamos a bela casa da rua Esteves Júnior, não vimos o inigualável poente Ilhéu, onde mil pedrarias se derramam. Em compensação, carregávamos um tesouro concentrado em mil páginas — que estou saudando já em tempo de natal, mas ainda dentro deste ano comemorativo.

 

 

(de Tribuna da Imprensa. Rio, 19/12/1973)

 

 

Anita: primeiros passos de sua glória

 

 

Nascida a 30 de agosto de 1819 no lugar denominado Morrinhos, em Santa Catarina, foi aos 20 anos que Ana Maria de Jesus Ribeiro, filha de Bento Ribeiro da Silva, natural de Lajes, e da paulista Maria Antônia de Jesus, e mulher do sapateiro Manuel Duarte de Aguiar — tomou o nome sonoro e eterno de Anita Garibaldi. Foi aos vinte anos que entrou para a história, dando início ao último decênio de sua vida, marcado de heroísmo e amor. E essa fase inaugural — ela a viveu em Santa Catarina. Passaria ao Rio Grande, onde conheceu as longas e penosas caminhadas pela coxilha em guerra e onde nasceu Menotti, seu primeiro filho. (Menotti a quem ela, enregelada e puérpera, refugiando-se na mata, a cavalo, com a sua fabulosa rapidez, salvou do ataque bestial dos legalistas). Passaria ao Uruguai, onde teve a dor de não poder lutar ao lado do marido contra o tirano Rosas e, ao mesmo tempo, a alegria de ninar seus quatro filhos do amor. Passaria a Itália, onde atuou sempre como o primeiro legionário de Garibaldi e onde foi chamada "a santa da independência italiana, a mártir de Ravena" — e não voltaria à terra natal. Mas foi na terra natal, nos mares e nos chãos catarinenses, que ofereceu ao mundo os primeiros lances do seu heroísmo, quando contava vinte anos.

 

Para apreciá-los, é mister evocar a República Catarinense, proclamada a 29 de julho de 1839 ,na Câmara Municipal da Laguna, a cidade Juliana. Em artigo intitulado "Anita e a República", que escrevi há vários anos em A Gazeta, de Florianópolis, frisei eu no tópico final: "Se outros fatores, portanto, não houvesse para que a República Catarinense fosse festejada como um dos nossos maiores acontecimentos históricos, bastaria este, pelo colorido romântico e pela expressão revolucionária: Ana de Jesus Ribeiro seguindo o belo corsário mazzinista, integrando-se nos seus ideais e a seu lado participando de lutas que foram etapas do "pugilato milenar entre o cativeiro e a liberdade".

 

O encontro

 

O belo corsário era Giuseppe Garibaldi, partidário de Mazzini, o teórico do liberalismo italiano; era Garibaldi, condenado a morte em sua terra, proscrito cheio de bravura e élan que, refugiando-se no Brasil, se tornara o chefe da esquadra farroupilha. Descrevendo-o, diz Brasil Gerson: "Era belo e forte como um atleta e as melenas alouradas, caindo-lhe até os ombros, davam-lhe a mais romântica das aparências".

 

Vitorioso em águas lagunenses, ei-lo agora, no barco capitânea, observando com um óculo de alcance assestado para uma elevação chamada Barra, o vulto airoso e jovem de uma filha da terra. Encantado, toma um bote e tenta aproximar-se. E o primeiro encontro acontece na própria casa da moça encantadora: por sua vez, casada sem amor havia quatro anos, vivia constantemente pensando no marujo carregado de magnetismo que, a bordo do pequeno Seival, combatera e derrotara os navios imperiais.

 

"Estáticos e silenciosos nos olhávamos mutuamente, como se já nos tivéssemos conhecido antes... Cumprimentando-a por fim, dizia-lhe: Tu devi esser mia" — conta Garibaldi em suas Memórias. Anita trazia então os pés morenos descalços e vestido de ganga azul, numa visão comovedora de pobreza e de poesia. E aquelas palavras ousadas, longe de a ofenderem, deslumbraram-na, pois foi só então que se sentiu noiva, pedida em casamento, convidada para as verdadeiras núpcias de sua vida. Ninguém sabe como se desenrolou o romance após aquela súbita e mútua constatação de que um achara no outro o seu par na terra. O que se sabe é que, rompendo laços sem sentido para seu bravo e digno coração, Anita manifestou a força de sua personalidade e, desafiando preconceitos que deveriam ser ferozes há cento e tantos anos, realizou o seu primeiro heroísmo. E, a 14 de outubro, deixava a sua casa sem crianças, o marido ébrio, o burgo atônito e, ao lado do seu herói, chegava a bordo do Rio Pardo. Eram os primeiros passos na grandiosa carreira de Anita Garibaldi.

 

O marinheiro

 

Esse mesmo Rio Pardo (capitânea), o histórico Seival e o Caçapava rumaram a 20 de outubro para Santos, pois o almirante farrapo recebera ordem de fazer o corso aos barcos de cabotagem. Estranho cruzeiro em que Anita, no entanto, era uma desposada feliz vendo seu bravo marujo fazer presas e, ao mesmo tempo, sofrer a implacável perseguição dos barcos imperiais. Perseguição que leva Garibaldi a buscar abrigo na enseada de Imbituba, onde se prepara para o combate, construindo, também em terra, uma trincheira.

 

De carabina em punho, ao lado do marido, Anita inaugura a sua vida de guerreira. "No mais aceso dos combates — narra o historiador Henrique Boiteux na sua primorosa biografia "Anita Garibaldi" — eis que, de repente, certeira bala, dando de encontro à amurada do Rio Pardo, fá-la em estilhaços, um dos quais arroja Anita ao convés e com ela dois marinheiros que ficaram estendidos mortos. Ouviu-se um grito geral, precipitando-se todos para erguê-la; antes, porém, que a acudissem, lépida levantou-se tinta de sangue dos seus companheiros e seu único pensamento foi o de fazer novo apelo à bravura dos combatentes. Instada por todos e muito principalmente por Garibaldi para que se recolhesse à coberta, respondeu: "Sim, descerei, mas para buscar os covardes que lá se foram esconder." Diante de tanto desprendimento, de tanto heroísmo, não mais insistiu Garibaldi: entregou-a a seu destino".

 

E o seu destino de marinheiro da República foi lutar durante todo aquele dia tremendo, 4 de novembro de 1839, até à retirada dos navios atacantes e prosseguir lutando na histórica batalha naval da Laguna, a 15 de novembro, que terminou com a derrota da esquadrilha farrapa e da República Juliana, precisamente cinquenta anos antes da proclamação da República no Brasil.

 

Como vou, apenas, situar Anita e apresentar em síntese os lances de sua bravura, recordarei que, para enfrentar os treze navios fortemente guarnecidos do capitão-de-mar-e-guerra Frederico Mariath, Garibaldi colocara em semicírculo seus poucos barcos e lanchas. E preparou-se para o combate desigual em que se bateram com tanto heroísmo os defensores da República Catarinense, a começar por Anita. Esta, antes de ter início a grande batalha, deixara-a Garibaldi como comandante do Rio Pardo, enquanto ia ele inspecionar as baterias de terra e observar os movimentos da esquadra inimiga. E a batalha se inicia antes de seu regresso ao barco. E é Anita quem responde ao fogo do inimigo, para ele voltando, com sua admirável presença de espírito e seu destemor, o canhão do Rio Pardo.

 

Naquele aceso combate, Garibaldi procura salvar a companheira e, no intuito de afastá-la da luta, manda-a a Canabarro, pedindo reforços e ordenando-lhe que ficasse em terra. Com aquela ligeireza de gazela, de que fala Garibaldi em suas Memórias, tomou Anita um bote e foi cumprir sua missão. Mas não ficou em terra. Não mandou nenhum mensageiro com a resposta do general. Levou-a ela em pessoa. E a resposta era uma negativa: não havia reforços. E uma ordem: a retirada, salvando armamentos e munições. E, como todos os oficiais, com exceção do comandante-­em-chefe, haviam sido mortos na sangrenta batalha, coube a Anita realizar o transporte, enquanto Garibaldi incendiava os navios.

 

"Quando acabei a minha obra de destruição — recorda ele — Anita havia também concluído a sua de salvação. Porém de que maneira, ó meu Deus! Ela não fez menos de vinte viagens, passando constantemente sob o fogo do inimigo. Em pé, à popa, no meio da metralha, aparecia firme, calma e altiva como uma estátua de Palas e Deus, que estendia uma sua mão sobre mim, a protegia ao mesmo tempo com a sombra dessa mão."

 

A fuga

 

Após a derrota, a retirada. A coluna a que pertencia Garibaldi empreende a áspera subida da serra com o propósito de alcançar Lajes, que caíra de novo em poder dos republicanos. Dois combates se travam com as forças legais. No de Santa Vitória, a 14 de dezembro, ganharam os revolucionários. Dele Anita não participou como combatente. Foi enfermeira, anjo, bálsamo, inspiração, cuidando dos feridos, animando em seus rudes combates aqueles bravios centauros serranos. O segundo ocorreu no Campo das Forquilhas, já a 12 de janeiro de 1840, e nele os rebeldes foram derrotados. Anita comandava uma guarda conduzindo munições, quando é cercada de surpresa por um esquadrão inimigo. Não se rende, porém, nem tampouco foge à luta. Uma bala atravessa-lhe o chapéu e leva um cacho dos seus belos cabelos. Outra bala abate-lhe o cavalo. E só aí ela cai prisioneira. Mas nunca subiu tão alto.

 

Corria, no acampamento, a notícia de que Garibaldi morrera em combate. Então, a altiva prisioneira pede permissão para ir ao campo de batalha, juncado de cadáveres. Era noite e ei-la com uma tocha na mão, espiando um a um o rosto dos mortos. Devia ter a face transtornada, parecer uma figura de tragédia grega, lembrar Antígone à procura do cadáver do irmão. E, após a busca macabra, uma certeza: seu guerreiro louro havia escapado. E um pensamento: ir-lhe ao encontro.

 

Anita empreendeu então sua fuga epopeica, forjando um dos momentos mais altos do heroísmo humano. Depois de rastejar, de colar-se como uma sombra ao tronco dos pinheiros, descobre uma casa onde é acolhida e onde consegue um cavalo para sua marcha de vinte léguas, que tal foi a distância percorrida de Curitibanos a Lajes, entre perigos e tempestades, com o primeiro filho do amor lhe palpitando nas entranhas, pela extraordinária valquíria catarinense.

 

Mulher e presença

 

Tendo tido sempre o encanto supremo da juventude, pois que morreu aos trinta anos incompletos, teve também Anita os encantos todos da feminilidade: foi mulher ardentemente apaixonada, verdadeira mãe, dona de grandes olhos luminosos, de um talhe delicado e harmonioso, de uma graça agreste de bonina e de negras madeixas que, desatando-se no ardor dos combates, fascinavam o próprio inimigo. Tudo isso, além de completas prendas domésticas. Quanto a estas, em companhia de Garibaldi só lhe foi dado manifestar totalmente nos tempos de Montevidéu, no lar da Rua do Portão, onde criou seus meninos, cozinhou e varreu e onde, para ajudar a manter uma casa em que tantas vezes faltou lume — fez rendas e crivos, claros poemas de fios de luar, magos e brancos como os sabem tecer as mãos de fada das rendeiras catarinenses.

 

É, portanto, um ser maravilhosamente feminino que vemos manifestar uma coragem de que só é capaz o mais bravo dos homens e, ao mesmo tempo, vemos a coragem de Anita irromper do amor e voltar-se contra a tirania nos dois hemisférios, tornando-se fonte perene de inspiração.

 

Por isso não posso imaginar a heroína parada no tempo em toda a sua glória, mas estendendo pelas idades a sua poderosa presença, sempre ao lado, sempre companheira de todo aquele que, em qualquer lugar e em qualquer época, luta e sofre pela justiça, pelo humanismo e pela liberdade.

 

 

(Uma das várias palestras que a autora proferiu no Centro Catarinense. "Anita: primeiros passos de sua glória" foi repetida, a pedido, na Associação Brasileira de Relações Humanas).

 

(de Verbo Solto)

 

 

 

 

6. OUTROS TEXTOS

 

 

 

Símbolos perfeitos

 

Ao formoso coração de minha Mãe

 

 

É o segundo domingo do mês de maio — consagrado à veneração das Mães. Nasceu essa resolução tão sábia e tão justa da forte saudade de uma extremosa filha, quando lhe morreu a Mãe querida.

 

Miss Anna Jarvys perdera o afago precioso, o olhar doce, o conselho sábio, a ternura valiosa —  todas as atrações, enfim, que circundavam o coração e a fronte de sua boa Mãe e que a prendiam, que a enlaçavam, suavemente, luminosamente, perfumando-lhe a vida, dourando-lhe as esperanças, embalando-lhe os sonhos.

 

Seu coração padecia a agridoce emoção da saudade... saudade da convivência amiga deste ente amoroso e bom, que "Sofre do mal se o mal nos transfigura, Mas é luz quando feliz vivemos"

 

Suas amigas, sensibilizadas ante a sinceridade da sua dor e a pureza melancólica da sua saudade, idealizaram homenagear a memória perene de sua extremosa Mãe.

 

Mas, aquela pobre filha, ferida pelo acúleo impiedoso da dor, sentiu crescer e espraiar-se no seu peito a admiração por todas as Mães e, num assomo de ternura, de respeito, de amor por todas elas, exprimiu o anelo de as ver partilhar também da justa homenagem que à sua extremosa Progenitora ia ser tributada.

 

Então foi consagrado o segundo domingo do mês de maio à veneração das Mães —  veneração que é como que uma coroa espiritual com que, nesse dia, se lhes aureolam as frontes, as quais a maternidade superioriza e santifica, nimbando-as de fulgor maravilhoso.

 

Flores brancas e rubras foram escolhidas para símbolos...

 

E nesse domingo de maio, trazem ao peito uma flor de pétalas tristes, de brancura simbólica, aquelas cujas mães já partiram para o Além, deixando-lhes, inapagável, a lembrança da sua solicitude, do seu carinho, do seu amor...

 

Usam, no peito, uma expressiva e álacre flor vermelha os que ainda possuem o regaço agasalhador de suas Mães muito amadas e o amparo firme do grande coração materno, que os ilumina e os orienta através da vida, cingindo-os com o ambiente puro do seu amor santificado.

 

Assim, no dia das Mães, a ventura de uns e a saudade de outros se concretizam e se estampam nos matizes das flores simbólicas...

 

A flor branca, nesse dia, guarda uma força latente, recôndita, misteriosa, que comove o secreto íntimo da alma... é bem a revelação fiel de um coração maternal que não mais pulsa, de um coração sepultado que deixou na terra a sombra triste da saudade!

 

E todos nós que podemos ostentar, no peito, flores vermelhas, pois que ainda temos, ao nosso lado, com os meigos olhos consoladores, com o coração e a alma ressoantes de carícias —  as nossas boas Mães —  em cujo seio dormem os segredos miríficos de um amor sublime e brilham os vislumbres definidos dos sacrifícios inauditos, —  tributemos sempre ao sagrado ente que tanto amor nos vota a justa veneração de um desmedido afeto porque

 

"Conosco sofre e se gozamos , goza,

Com mágoa chora quando nós choramos,

Sorri contente quando nós sorrimos".

 

 

(de O Atalaia —  Mensário da Mocidade da Igreja Presbiteriana de Florianópolis e órgão da Classe Organizada  "Atalaia”, Ano I, n. 3, maio de 1924)

 

 

 

Salve!

 

Aos "Atalaias"

 

 

O dia 14 de julho que, para o mundo civilizado, é o dia em que se comemora e se festeja a Liberdade dos Povos, para vós, em cada ano que passa, é o mensageiro de um júbilo íntimo causado por mais uma luta que se vence, por mais um triunfo que se alcança, por mais uma vitória que se conquista.

 

E neste 14 de julho pela primeira vez, experimentais o grato sabor da vitória...

 

Nele comemorais o primeiro aniversário da feliz organização da vossa Classe e realizais, por isso, uma festa coletiva, em regozijo a esta festiva data realizando, também nos recolhos do coração, uma festa individual, que é o símbolo da vossa unção pessoal e o símbolo da vossa gratidão a Deus!

 

A seara, em que labutais tão valorosamente, é ampla e grande, mas também amplos e grandes são os vossos horizontes, são os vossos desejos, são os vossos ideais.

 

Continuamente se ventilam nobres planos e alevantadas ideias no simpático arraial da vossa Classe e certo vereis, no efetivar-se a pouco e pouco das aspirações que vos enchem de vida e entusiasmo, o sinal da assistência amparadora de Cristo e do soerguimento espiritual da Pátria, pois, por Cristo e pela Pátria, é que vos bateis com denodo e firmeza, é que lutais com ânimo e confiança, visando demolir a torre dos vícios, dos erros e dos preconceitos, com a emancipação da mente pela pureza do Cristianismo e com o despertamento das consciências e das almas pelas verdades claras e simples do evangelho.

 

Congratula-se fraternalmente o meu coração com o vosso primeiro ano de trabalho continuado e de gloriosa vida organizada e a minha modesta e obscura pena, para o vosso 14 de julho, traça, em festas e aplausos, um sincero e vibrante —  Salve!

 

 

(de O Atalaia, julho 1924)

 

 

 

 

Divino Crucificado

 

 

Aí estás, nessa grande e injustíssima cruz, sofrendo o castigo que te deram pelo crime do teu amor.

 

Puseram-te aí, de braços abertos sobre os braços trevosos do madeiro, com uma irônica e pérfida coroa de espinhos sobre a tua santa cabeça cacheada, com cinco chagas ressumando o mais inocente e o mais generosos dos sangues —  puseram-te aí para castigarem o crime do teu amor.

 

Mas que estranho crime esse que é assim punido com a pena mais tirânica da época?

 

O teu crime, ó Profeta de Nazaré, foi o de teres amado extraordinariamente os homens.

 

Sim! Foste médico: curaste cegos e paralíticos e leprosos com a só poderosa magia da tua sobrenatural misericórdia.

 

Sim! Foste pastor: contaste as verdades mais santas por meio das mais formosas parábolas.

 

Sim! Foste mestre: ensinaste a bela utopia da fraternidade humana, ensinaste o perdão, a humildade, a doçura.

 

Sim! Foste milagre: andaste por sobre o mar e multiplicaste os pães e transformaste a água em vinho.

 

Sim! Foste bálsamo: e derramaste nos corações o teu formidável sermão da montanha.

 

Sim! Foste bênção: e acarinhaste as criancinhas com palavras que deveriam ser esculpidas na parede de todas as escolas.

 

Sim! Foste tolerância suave: e bebeste do cântaro estrangeiro da mulher Samaritana.

 

Sim! Foste pão e foste luz e foste renúncia e tiveste o gracioso nimbo de todas as virtudes e ofereceste a água da vida e a vida eterna e, por isso, os homens apedrejaram-te e condenaram-te.

 

Aí estás, grande e venerado mártir, sofrendo pelo divino pecado de muito teres amado os pecadores.

 

Mas tu és hoje, no dia em que os homens relembram o sagrado dia da tua paixão, tu és hoje o mesmo Jesus de há dois mil anos: tu és o sumo Amor!

 

Vem, pois, ó divino crucificado, purificar com o teu perdão e proteger com a tua luz o homem de hoje que é o homem de sempre: escravo das intemperanças e dos ódios, fraco e mesquinho, dando-te por certo a renovação da dor, que te proporcionaram os teus irmãos de outrora.

 

Vem, pois, abençoá-lo com o teu doce olhar e permite que todos vejamos nessa desumana cruz, passem quantos séculos passarem, entre o digladiar das religiões e dos egoísmos, o símbolo do teu augusto martírio. Todos vejamos em ti, Senhor, com a cabeça a dominar profanas exegeses, aquele que mais nos amou, aquele que foi o maior dos semeadores do bem, aquele que trouxe na boca e no coração o mais veemente sonho de que a humanidade renasça em fé e amor para a glória de Deus!

 

 

(de recorte de jornal não identificado, provavelmente da década de 1920 —  Acervo da ACL)

 

 

 

Sem título

 

 

Neste violento choque de interesses, nesta infindável marcha de ambições e indefectível manancial de fundas amarguras, que é a Vida na sua nudez monstruosa e vetusta —  para aquele que sofre a tortura amorosa de pensar e possui o sonho como um presente irônico ou ingênuo do céu, deve ser mil vezes bendito o encontro de uma inteligência irmã, que beije a sua inteligência em evolução, na volúpia admirável da fraternidade, expressando pela mesma hermenêutica as leis perpétuas do destino humano e cantando pelo mesmo ideal a graça loura que vive exilada no seio das almas...

 

Mil vezes bendito! Porque recompensará, como um oásis encantado de estranhos frutos, os seus passos desamparados e heroicos, que pisaram, sozinhos, um solo misericordioso...

 

 

(República, 9 de outubro de 1928 —  p. 1)

 

 

 

O medo da saudade

 

 

Acredita, sim, Ruth, que ontem pelas ave-marias, eu queimava o belo álbum da minha meninice. Todo aquele volumoso tesouro de rimas e de lembranças, com a capa enfeitada pelo meu nome em caracteres de ouro e as páginas cor-de-creme cheias de letras amigas e votivas, encabeçadas de cromos e de silhuetas,

 

todo aquele vivo e quase humano evangelho de saudades eu fiz morrer, ontem à tarde, por entre a beleza perversa das línguas vermelhas do fogo Vi arderem, loucas e submissas, todas aquelas folhas irmãs, que eu tantas vezes beijei e que estrelavam as maiores amizades e os melhores momentos da minha alma e da minha vida de menina.

 

Vejo teus grandes olhos me recriminarem. Oh! Eu sinto que foi mesmo um sacrilégio que cometi, queimando aquelas velhas páginas de sonho e de ventura, apressadamente, alucinadamente, —  para fugir à saudade à violenta saudade que vinha repousar sempre no meu coração, todas as vezes que eu folheava, com os olhos trêmulos de lágrimas, o meu álbum verde de menina.

 

E, ontem, quando a tarde caía, eu o tinha, aberto, sobre os meus joelhos. A nossa salinha estava cheia de perfume forte dos jasmins-do-cabo que dormiam, serenos e brancos, na jardineira. Ah! o perfume já é um estranho, despertamento de saudade, só comparável, nesse destino, à música... E eu folheava, triste, o meu estremecido missal de recordações... Numa página, o retrato de uma amiguinha morta... Noutra, o bonito desenho que um dos nossos irmãos traçara, cercado pelo aplauso trocista de nós duas —  lembras-te? —  num serão de primavera... Ainda que outra, a poesia que eu própria copiara numa tarde de Natal, quando a nossa casa, cheia de ruído, festejava o dia extraordinário do "bebê divino de Nazaré"... Ah! que recordação viva, minha Ruth. Cheguei a ouvir o barulho festivo que enchia o nosso lar, o riso feliz das crianças, alegres com os presentes que o Papai Noel, o bom velhinho do Natal, lhes pusera pela manhã nos sapatinhos, a voz saudosa de nosso pai conversando com os pequenos, e a voz meiga de mamãe, chamando-nos a todos para nos dar bombons... E fui folheando, e fui revendo, cada vez mais triste... Adiante, encontrei as tuas letras indecisas e já simpáticas, com uma dedicatória em que me deixavas beijos e um cromo representando um açafate de rosas... Nossos irmãos e primos, nossos vizinhos e colegas, todos aqueles que meu coração elegera para o afeto, ali deixaram uma lembrança comovida...

 

E eu, minha Ruth, não pude mais... As lágrimas que pingavam abundantes dos meus olhos eram bem a canção líquida da saudade que aquelas páginas despertavam, porque me vinham falar de dias despreocupados, de rostos desaparecidos, de corações que cresceram, de almas que mudaram... Fui então sacrílega! Queimei, chorando, inteiramente, aquele álbum garoto e querido do meu passado —  para fugir à saudade, com medo da saudade, dessa espiritual visitante, toda embrulhada numa doçura que flagela....

 

 

(de República, 23/10/1929)

 

 

 

Algumas atitudes da dor (Estudo)

 

 

— Quando eu sofro, abraço, cantando, a minha cruz. Sofro com a resignação bíblica dos santos e dos heróis. Sofro, amesquinhado, crente, humilde, com o coração cheio do pensamento evangélico de que Deus quer que eu sofra para meu bem e minha perfeição. Sofro com a garganta afogada em ações de graças. Sofro com as mãos postas, bendizendo a sabedoria do céu. E a minha alma tem quasi a unção dos tabernáculos. E o meu coração é bem um órgão místico e regozijante porque a minha dor submissa é a minha glória e a minha vitória está na coroa de espinhos do meu martírio apostólico. E a religiosidade da minha atitude vai balsamizando as minhas feridas encarnadas e a minha dor já é alegria e paz.

 

— Quando eu sofro, a minha boca logo se escancara para o grito negro da maldição. E descreio e nego porque a minha vingança mísera é descrer e negar; Como um índio ferido em pleno tórax bronzeado e desnudo, eu sinto nos meus olhos a dança da cólera selvagem e o tacape rude da minha religião se apruma logo para ferir a fronte invisível ou humana que criou a minha agonia. E no meu blasfemo clamor pareço encarnar todos os clamores abafados de infinitas gerações de sofredores. A alegria que me cerca fica parecendo aos meus olhos uma ronda satânica que se apraz em festejar a inferioridade da minha desgraça e a dor que me cerca me parece pequenina, quasi imperceptível, ante as arquitetônicas dimensões do que eu padeço, seja na carne, na inteligência ou no coração.

 

— Quando eu sofro, conto a todos, chorando, a minha dor. Rogo a misericórdia dos homens para a minha tristeza ou a minha miséria e não creio que, só raramente, ela seja sincera e desinteressada. Rogo para a minha angústia a atenção das criaturas e não creio que, num olhar de amor ao próximo, quasi sempre as criaturas mascarem a ávida volúpia de ver o próximo sofrer. E soluço, e soluço... Corro até o gozo dos felizes, rojo-me aos seus pés, imploro as migalhas da sua compaixão. Não tenho pejo de inspirar piedade. Não tenho vergonha de exibir as minhas chagas sangrantes. E soluço, e soluço...

 

— Quando eu sofro, finjo, diante dos homens que me espiam e das estrelas que me observam, finjo a calma dos fortes. Sofro com orgulho. Nem a passividade dos crentes, nem a blasfêmia dos rebeldes, nem o pranto dos simples. Sofro com orgulho. Escondo avaramente as minhas dores menores. E, quando elas vêm, grandes e doídas como os vendavais, eu as enfrento, bravo e estoico, numa sobranceria quasi desafiante. Quando a maldade humana. Ilimitada como os recursos da minha mentira orgulhosa, se faz a espiã dos meus sofrimentos, a áspera e terrível espiã falsamente vestida de bondade, ah! encontra-me, quieto, quieto, sem lágrimas e sem gritos, e a minha calma desconcerta-a e afugenta-a. E, para os que me acreditavam um pobre derrotado, eu fico parecendo nada menos que um elegante sofredor ou um mortal venturosamente insensível às desventuras que o visitam...

 

 

(de recorte de jornal não identificado —  Acervo da ACL)

 

 

 

Tarde de Natal

 

 

A fixar, romântica, o ocaso de púrpura e de ouro, Albemah espera... Debruçada sobre o peitoril da janela ampla, enrola a alma de amorosa num longo soluço em que borboleteiam esperanças: nos seios trêmulos agita-se dolorosa ansiedade; relâmpagos de angústia correm-lhe nos olhos de negro esquisito, que os sonhos ígneos agitam: é a noiva que crê na palavra do Amor... A tarde de Natal, estranhamente formosa, desmaia enrolada numa clâmide egrégia de ouro e de púrpura...

 

Albemah desce ao jardim, porque foi nele, no meio da sua orgia de cores e de perfumes, que Aurto lhe dissera adeus e a tristeza alegre destas palavras:

 

— Ama-me, Querida. Na tarde iluminada do Natal, voltarei. Trarei comigo glória e carinho e encontrarei em ti carinho e beleza. Voltarei na iluminada tarde de Natal. As nossas mocidades se reunirão para sempre e o nosso amor riscando de emoção as nossas existências, de sinceridade as nossas buscas, de luz as nossas almas, ultrapassará os dias, os meses, os anos; será a vaidade das nossas vidas morenas e o orgulho dos nossos cabelos brancos, quando chegarmos ao nosso aquecido inverno com o coração a cantar... Ouves, Querida? Sê inteiramente minha, gloriosamente minha: no teu pensamento, no teu sorriso, na tua saudade da minha voz, na comunhão com a minha arte! Eu te levo inteira, dentro em o hostiário egoístico e pagão das minhas esperanças!

 

Fremindo, transfigurada, ela ouvira tudo ao seu poeta-deus, que muitas vezes lhe abanou o lenço branco, até que desapareceu de todo na curva da estrada beira de sol, montado num cavalo magnífico...

 

Desde esse instante de despedida e de promessas, a vida de Albemah foi a vida sacrílega da religiosa do amor: enquanto suas irmãs, de joelhos, pediam graças ao céu, ela, divinizada, murmurava a oração divina —  as rimas excelsas que o seu artista plasticizara, cantando a alegria e o universo...

 

No entanto, o afeto que a vivificava, de estatura ciclópica na lealdade e no vigor, resultara do encontro com Aurto na festa deliciosa em que o viu pela primeira vez, realizada num lar amigo, próximo do bairro solitário em que ficava a sua casa e sorriam as suas rosas e fora marcado por bem poucas entrevistas...

 

Garimpeiro de beijos e de ritmos, num relance, Aurto estudara aquela esquisita psicologia de mulher e na vida de Albemah, em que o sonho boiava como um nenúfar de luz, acendra a primeira chama de amor, grande e pura. As palavras ardentes do adeus encheram de lirismos fortes a alma carinhosa da moça e, de dia e de noite, mais Albemah se encadeava no culto do seu poeta e ao seu senhor, de beleza selvagem, gloriosa.

 

Chegou o Natal com o seu cortejo de festins.

 

Na casa de Albemah, o mulherio esfalfa-se em revestir de adornos a árvore-símbolo, no preparo dos manjares, na compra dos frutos e dos presente. O velho pai, rejuvenescido com a algazarra juvenil que lhe fazem em torno, revê a companheira morta nos gestos vivos e na voz e no riso de cristal das filhas... Só Albemah procura alhear-se da festa de Jesus e festeja o Amor que lhe vem ao encontro...

 

A tarde chega, iluminada... Albemah veste o vestido maravilhoso em que as suas mãos trabalharam dias a fio e, a arfar, sorrindo com lágrimas nos olhos, chega à janela florida de amores perfeitos, verga o busto esplêndido e a sua cabeça bonita de linhas gregas tem cintilações de um lume imaterial. E espera, e espera... A tarde desmaia, estranhamente formosa, enrolada numa clâmide egrégia de ouro e de púrpura e o poeta amado não vem... Desce ao jardim, ofegante, como para sentir a ilusão de que está mais perto dele. Debruça-se sobre o muro verde e espia. A estrada mostra-se arrepiantemente nua, e melancolizam-na os últimos revérberos do poente extraordinário... Ninguém... Apoia então ambas as mãos à radiosa fronte, semicerra os olhos úmidos de pranto e longe de ser açoitada pela desconfiança e pelo ciúme, palpa visões trágicas: ora imagina Aurto, mais bravo e mais belo que nunca, dentro de um cárcere, levado pela revolta sagrada das suas ideias; ora o imagina ao lado do leito materno, recebendo da anciã moribunda o último beijo e o último conselho...

 

Mas o tropel vigoroso de dois corcéis, em que vinha um par elegante e moço, arrancou-a da sua torturada abstração. E, na tarde iluminada do Natal, sem ser olhada uma vez sequer, Albemah pôde ainda reconhecer Aurto, que envolvia em olhares amorosos a amazona, uma linda mulher...

 

 

(República, 25 de dezembro de 1928, p. 1)

 

 

 

Dia de Finados

 

 

Urna sagrada, que me lembras um berço e guardas o grande sono dos meus mortos; urna sagrada, deixa que eu te enfeite com este punhado de flores tristes, deixa que eu te faça bonita neste dia do rito da saudade...

 

És tão pequena e, no entanto, dentro de ti, dormem aconchegados quatro dos meus máximos queridos:

 

Tu, companheira loura da minha infância, princesinha mártir, que sofreste heroica nos teus dez anos de vida, sempre a sorrir, como um anjo que desse aos homens a lição da renúncia silenciosa, da dor quieta, do sacrifício tranquilo!

 

Vocês dois, que tantas vezes embalei num grande desvelo de irmã mais velha e com quem eu brincava, carinhosa e faceira, ó meus bonequinhos humanos!

 

Meu Pai, tu que a morte veio buscar numa noite bárbara de fevereiro, quando eu era menina-moça, mais criança do que mulher, e vivia as mais belas horas de esperança ingênua e de alegria garota! Meu Pai, tu cujos lábios sinceros falaram para que eu acreditasse no bem e cujas mãos benditas trabalharam para que eu tivesse pão!

 

Urna sagrada, que me lembras um berço e guardas o grande sono dos meus mortos, urna sagrada, deixa que eu te enfeite com este punhado de flores tristes, deixa que eu te faça bonita, neste dia do rito da saudade.

 

 

(República, 2 de novembro de 1929 p. 1)

 

 

 

Carta de uma artista

 

 

Agradeço-lhe, meu amigo, o lindo ramo de violetas que você me enviou para que eu com ele enfeite os meus cabelos. E agradeço-lhe com o meu olhar mais doce e com o meu sorriso mais emocionado, porque o seu gesto e todos os cavalheirosos gestos que você tem usado comigo revelam não homenagens à artista, mas à mulher, não àquela que passeia festejada entre os seus mármores e as suas idealizações, mas à que tem coração, graça, faceirice, juventude, fragilidade, todos os defeitos gentis e todos os encantos vencedores do seu sexo.

 

Você há de estranhar as revelações sinceras desta carta. E, já agora, dir-lhe-ei também que todas as rosas e todos as homenagens que uma fiandeira de beleza possa ambicionar, eu tenho recebido na minha fronte e na minha alma.

 

A glória é uma mentira que consola e ela está entrelaçada à minha arte e, augusta, forte, pomposa, vive beijando as minhas estesias e os meus minutos. Você bem sabe que eu não exagero, afirmando-lhe que me sinto bem satisfeita relativamente ao prestígio do meu nome e à fascinação da minha espiritualidade. Mas, no meu "atelier" de escultora celebrada, eu sinto que a mulher vive a invejar a artista.

 

Minha mãe, que é uma santa e a minha maior admiradora, disse-me um diz, porque com certeza sentiu solidão idealista da minha alma, ela que tanto compreende e adivinha a sua filhinha: —  Tuas criações são tão formosas que te ultrapassaram e todos vivem a Admirá-las, esquecendo a criadora".

 

E eu sou infinitamente mulher. Mais mulher do que tudo. Por isso me confesso infinitamente agradecida a você, que descobriu o universo de ternuras que trago no veludo dos meus olhos negros. Outros talvez o descobrissem também, mas penso que só você, como frequentador da minha casa desde que se tornou tão grande amigo do meu irmão mais velho, pôde descobri-lo em toda a intensidade e em todo o colorido. E só você me comunicou a sua comovida impressão num galanteio nobre e audaz.

 

Obrigada, sim, meu amigo, porque para a artista você teve frases curtas de admiração. O verbalismo ardente, a palavra consagradora, o pensamento apaixonado você os reservou para a mulher. Para a meridional esguia e morena, que você tem visto longe dos salões, na simplicidade de "toilettes" domésticas, regando as dálias vermelhas do seu jardim ou servindo-lhe o chá com as suas mãos perfumadas.

 

Numa das últimas tardes, junto ao piano, que eu dedilhava distraída, você falou-me francamente do seu amor. Ouvindo-o, renovou-se-me a certeza das afinidades que já descobrimos nos nossos temperamentos e você me fez pensar no encanto com que amavam os amorosos, de outrora, dando-me a ilusão faceira de que era com os joelhos em terra que me jurava as suas adorações de homem superior.

 

Nada lhe respondi então. Eu não sei falar nessas ocasiões extremas, Meus olhos negros se mergulharam na contemplação das glicínias encantadoras que nos espiavam da janela. Mas meu coração batia descompassadamente e eu creio que você não duvidou, nem um instante, que ele pertencesse já ao seu domínio vitorioso e apaixonado.

 

Venha ver-me hoje à tarde com as suas violetas maravilhosas entre os meus cabelos e aceite o sorriso mais lindo e o coração inteiro da

 

YARA

 

(da Revista do Globo)

 

(A SEMANA, 21 de agosto de 1930, p. 1.)

 

 

 

Conversa com o Ano Bom

 

 

Bom dia, Ano Bom! Você está olhando mesmo para mim? Tanta gente a cumprimentá-lo, a pedir-lhe felicidades e proteções, que eu estou com medo de que você não repare em mim, um pobre rapazinho, esfarrapado e descalço, que não tem pai nem mãe. Você está olhando mesmo para mim? Escute, eu também lhe peço que me ajude, porque não sou preguiçoso, não! E tenho, neste coraçãozinho, que aqui está batendo, aconchegado à minha camisinha rota, um grande sonho de trabalhar de progredir, de vencer... Faça o que lhe estou pedindo, sim? O que lhe estou pedindo, descoberto diante de você, segurando a tremer o meu velho chapéu nas minhas pobres mãos calejadas! O outro Ano Bom foi tão mau para mim! Oh! Você não imagina quanto chorei... Ele bem enxergava que meu pai já havia morrido e ainda se lembrou de carregar a minha mãezinha, que tinha uns cabelos louros e compridos, tão lindos que você não tem ideia!

 

Fiquei no mundo com meu irmão, um gurizinho menor ainda do que eu, franzino e doente. Nós dois moramos em casa de nossa avozinha, na subida daquele morro, uma casa miserável porque ela não tem dinheiro nem tem ninguém por si. Mas repare, Ano Bom, que eu não sou um guri preguiçoso, nem travesso, nem perverso! Está reparando, não é? Pois eu trabalho, ali, naquela casa bonita, de janelas altas, de manhã à noite. Faço tudo quanto me mandam. Mas ganho tão pouquinho! Ouça, Ano Bom, eu queria que você fosse meu camarada, que me ajudasse no meu sonho... Porque eu desejo tanto que o meu patrão me pague mais... Sabe para quê? Para que, todos os dias, na nossa casa, haja uma sopinha gostosa e, todos os domingos, eu possa levar um cartucho de bombons ao meu irmãozinho. Ele gosta tanto de bombons! Você promete ser mais camarada, Ano Bom? Promete mesmo?

 

 

(República, 1 de janeiro de 1931, p. 1)

 

 

 

Salmo bárbaro

 

 

Terra, desde há muito, desde sempre, eu te amo.

 

Dantes, era sem entender que eu te estremecia e te gozava; mas, depois, uma ternura fogosa e consciente começou a saltar em meu peito toda vez que eu, pelo sentido ou pelo sonho, me deliciava em ti, nos teus panoramas múltiplos, nas tuas curvas insolentes, nos teus espreguiçamentos lúbricos, na oferenda das tuas entranhas, na tua pele negra, ríspida e nua ou na túnica soberba das tuas esmeraldas florais.

 

Hoje ninguém te ama com um amor maior que o meu!

 

Gosto de pisar-te com pés descalços, naquele gosto simples e primitivo, naquele gosto inocente e bárbaro com que sentiam o teu contato em suas plantas bronzeadas os meus avós guaranis.

 

Palmilhando-te deleitosa e pagã, a dizer estrofes desvairadas ao vento, busco as flores que irrompem do teu seio crioulo, quotidianamente, e que ofereces, no orgulho materno da tua fecundidade, às minhas narinas, aos meus lábios e aos meus olhos, que são dois faunos escuros e insaciáveis. Mordo-as, cheiro-as, embriago-me no perfume nervoso dos cravos, sonho à beleza olímpica das magnólias, sorrio à vaidade feminina das rosas, saúdo o destino helênico dos girassóis e louca, louca de paixão, enfeito-me toda como uma noiva para o venturoso tormento do himeneu com os mais belos cachos dos botões de maio.

 

Outras vezes, com a desenvoltura de uma bugra nova, procuro o manjar silvestre das tuas raízes e das tuas frutas. Com minhas mão repletas, vou savorear o selvagem almoço perto das águas brilhantes de uma cachoeira, enquanto toda te aquece com seus olhares sádicos de fogo o teu namorado, o sol!

 

É ainda à sombra de tuas ramagens sivosas que eu, solitária e verdadeira, vibro na poesia mais espontânea do meu coração e grito no pensamento mais audacioso do meu cérebro: pareço-me à cigarra que salmeia nos teus jasmins cheirosos, pareço-me à leoa que uiva na tua selva rude.

 

Como não querer-te, amiga, se a tua epiderme sonegada e heroica se oferece a todos os homens para que sobre ela todos tenham um lar?

 

És convidativa, generosa, fraterna. Não te escondes para ninguém, não negas a ninguém os teus tesouros, numa lição cósmica de solidariedade.

 

Também és mestra e és doutora! Da cátedra azulada das tuas montanhas vem um convite pastoral a todas as raças para que subam, até os píncaros do amor, da luz e da beleza.

 

Meu rito glorioso, ah!, não tem limites. Surpreendo-me até a semelhar contigo: tenho a submissão das tuas praias, a rebeldia das tuas ilhas, o ardor dos teus vulcões, o perfume das tuas searas, a suavidade das tuas areias e o anseio até pelos teus desertos e pelos teus precipícios, quando, no meio da multidão, eu me encontro sozinha ou tenho à frente os abismos negros da maldade humana!

 

 

(de um recorte de Correio do Povo, sem data —  Acervo da ACL)

 

 

 

Rústica

 

 

Quanta inveja me estás inspirando, pobre rapariga, que assim acolhes —  a sorrir embaraçadamente —  o grupo cigarreante e alegre que passeia pelos teus sítios verdes.

 

Olhando-te a figura simples de lavadeira jovem do sertão, com a tua saia de chita esmaecida e a blusa amorongada com rasgões no ombro, eu adivinho a tua história, a tua vida, o teu sonho.

 

Nasceste aqui mesmo, por estas terras de costumes primitivos. Sobre uma esteira de palha, à sombra das amoreiras frondejantes, brincaste em pequenina, enquanto as virações puras agitavam a bela folhagem bravia do teu torrão.

 

Já crescidinha, corrias entre os canaviais e ias espiar as queimadas com as faces vermelhas de alegria e um alegre brilho nos teus olhos pretos. Na concha das tuas mãos matutas, bebeste a água boa das cachoeiras e, muitas vezes, chegaste até ela tua boca rosada e saída como a polpa granulosa das romãs.

 

Depois o tempo te fez rapariga e, desde então, ao lado de tua mãe e de tua irmã, entre pedras cinzentas e flores silvestres, lavas... lavas... E a fonte vai correndo e a tua garganta vai cantando as cantigas ingênuas do teu repertório sertanejo. E cantas, sonhando... Mas é quando a noite baixa e o luar namora a paisagem roceira, ao som romântico dos violões, que mais se encastela, no teu coração de mulher, a esperança do príncipe encantado... E ele virá um dia, completando a tua sina modesta, ele virá um dia na figura de um vigoroso trabalhador do arado ou de um tropeiro amoroso e forte.

 

Sim, minha selvagem amiguinha, eu penso que adivinhei num relance a tua existência inteira.

 

Forço-te agora a conversar, com perguntas meigas, e, ouvindo a tua linguagem errada, eu imagino como não deves ser feliz, se vives sem a volúpia de dizer frases bonitas e paradoxos brilhantes. Sem a menor tortura no teu cérebro inculto e satisfeito. Sem a angústia das grandes ambições. Vivendo quase como uma planta ou como uma rosa. Menos, infinitamente menos sujeita ao egoísmo brutal das criaturas. Longe, venturosamente longe da elegante hipocrisia dos salões. Vivendo quase como uma índia ou como uma corça.

 

Agora vou dizer-te adeus e vou regressar com o meu grupo cigarreante e alegre. Adeus, pequena lavadeira feliz! Eu compreendi toda a beleza da tua vida rústica. Mas o que não posso compreender são esses olhos espantados —  que me parecem agora cheios de inveja —  com que estás olhando a minha civilização.

 

 

(República, 22 de março de 1931 p. 2)

 

 

 

Privilégios

 

 

Quando deres do teu farnel farto e do teu púcaro cheio, nunca esperes a paga, não calunies nunca a quem te não foi grato...

 

Também não te lembres do "dai e dar-se-vos-á" da promessa daquele sonhador lírico das terras judaicas. Não mova o teu gesto de dar nenhuma esperança de galardão terreno, nem certeza da bem-aventurança celeste.

 

Olha com mágoa a desigualdade das riquezas e, quando deres aos pobres os teus excessos, vê que é um privilégio dar...

 

Dá então sem alarde, sem publicidade; dá, aproveitando o teu privilégio, silenciosamente, com alegria humilhada...

 

 

(de recorte de jornal não identificado —  Acervo da ACL)

 

 

 

Bandeira

 

 

Só aceito a bandeira do meu ideal: ela tem o verde de todas as matas da Serra; tem o amarelo do ouro que pertencerá a todos os que trabalham; tem o azul de um céu que sorrirá para todos os homens e tem o branco inspirador da paz que reinará numa nova era. Estrelas? Ela não pode caber todas (a terra é tão grande!) mas, na cidade ou no campo, todos a saudarão quando ela drapejar aos ventos como um símbolo de fraternidade. Corta-la-á um novo dístico, um versinho novo criado no templo do coração renovado da humanidade. Por falar em coração, não será mesmo no coração de uma nova humanidade que a linda bandeira existirá? Na seda valida da harmonia que há de vir!

 

 

(de recorte de jornal não identificado —  Acervo da ACL)

 

 

 

Ritmos e ideias

 

 

Um dos grandes sofrimentos humanos é compreender que não somos compreendidos. É ver erradamente interpretada uma palavra, uma atitude, uma estética, uma doutrina, uma consagração, e até, às vezes, uma vida, e até, às vezes, uma morte.

 

Falemos, porém, aqui, tão somente nessa angústia, quando atinge os artistas e os pensadores, aqueles que vivem para a beleza e aqueles que vivem para a verdade.

 

E, sem dúvida, o seu sofrimento maior dentro da arte ou dentro do pensamento.

 

Quando essa falsa interpretação fere unicamente o detalhe, a minúcia, a pequena curva ou a colunazinha branca de nosso edifício espiritual —  poderemos ainda dar-nos por felizes, pois que são raros os eleitos que se veem totalmente compreendidos até mesmo por aqueles que mais frequentemente os observam e que são os a quem estão ligados —  pelo sangue anímico da inspiração.

 

Mas, quando a incompreensão vem, de cheio, atingir o trabalho arquitetural desde os alicerces —  nossa dor é a dor maior de nossa vida intelectiva pois que vemos deformados aos olhos alheios o labor que custa às vezes o preço das mais extraordinárias renúncias.

 

E são pouquíssimos os que, diante de tanta dor, não desertam, levando na boca o berro viril da revolta ou aninhando no peito o pássaro solitário do tédio. Pouquíssimos os que não se perturbam com incompreensão alguma e continuam a trabalhar, a construir como templários iluminados do amanhã. Pouquíssimos os que vão até a morte, artistas ou pensadores que criaram algo de novo, de revolucionário, de audaz —  numa atitude vitriz de quem sabe que as pedras involuntárias ou perversas da falsa interpretação não chegam à beleza da verdade nem à verdade da beleza.

 

(Especial para o "Jornal da Noite")

 

(de recorte de jornal não identificado – Acervo da ACL)

 

 

 

Quasi do outro lado

 

 

Era assim a carta daquele que ia voluntariamente para a morte:

 

"Meu amigo, eu resolvi morrer! Cerrar os olhos à realidade negra, à realidade malvada que os fados e os homens me têm feito palpar todos os dias — e morrer! Cerrar os olhos à alegria gloriosa e honesta que só tenho conhecido através do milagre incompleto e torturante do sonho — e morrer!

 

Imagino as interpretações que hão de cair da boca miserável de todos quantos me fizeram mal e da boca estulta dos que se regalam com os acontecimentos mais ou menos sensacionais que vêm aflorar ao seu âmbito.

 

Tresloucado eu serei para a cômoda observação de uns tantos e serei um covarde para os que ignoram as esbeltas acrobacias da minha coragem ante as perfídias mais covardes, ante os assaltos da fome na minha pobre tenda, ante os assaltos da fome na minha pobre alma.

 

Um tresloucado e um covarde... Que importa se a mim mesmo, conscientemente, atrevidamente, dou um rótulo oposto? Que importa?

 

Meu amigo eu resolvi morrer! Ao defrontar, – o que mesmo eu irei defrontar daqui a alguns instantes? – ao defrontar o nada ou a eternidade, devo levar no rosto a marca pronunciada de todas as decepções. Mas ao meu olhar sem vida é impossível que não fique vivendo a pena enorme de desconhecer os encantos da vida..

 

Chego, pois, agora à razão precisa e verdadeira do meu gesto vitorioso de suicida: não é só a revolta de minhas dores inauditas que me leva à morte; é mais, muito mais, é infinitamente mais a revolta de me terem sido negadas as belas delícias compensadoras, das quais me tornei digno, mais talvez que qualquer outro – gritam-me todas as células, todas as energias, as bravuras todas do meu pensamento e do meu coração!

 

Sim! Coube-me apenas a taça do absinto. Os favos de mel, como forças vivas e perversas, fugiam ao reclamo de meus lábios amargos para se enfileirarem mais apetecíveis ante a carícia longínqua do meu olhar... Esperar ainda? Mas eu sinto que se me aniquilaram as possibilidades de resistência e os clarões humanos da esperança. E amo demasiado a beleza do meu heroísmo anônimo para não querer manchá-lo de lamentações ou de fraquezas e, por isso, a essa covardia ou a essa loucura, preferi a beleza da renúncia total.

 

Adeus, meu amigo! Vem tu ao menos velar com fraterna compreensão a minha carne ensanguentada e deixa que, para consolo único nesta hora final da minha existência exilada da alegria, eu possa repetir: meu amigo !"

 

 

(da REVISTA DO GLOBO —  Acervo ACL)

 

 

 

 

Cântaro de reflexões:

 

 

 

Renúncia

 

Que ironia tremenda à ronda covarde do mal está nas mãos que tecem o bem, a misericórdia, a abnegação, a ternura, a coorte toda de perfeições que entremeiam de poesia o grande significado da vida!

 

Mas há existências devotadas na expressão absoluta e que tiveram a vontade tocada pela luz das estrelas...

 

Essas... Oh! sem perscrutarmos razões metafísicas, unicamente impressionadas pela estatura moral desses valores de renúncia – sim, por que não seremos fascinados impenitentes de todos os heroísmos? – adoremos o alto e o tocante e o envolvente destino dessas criaturas que despregaram os lábios da taça que lhes poderia ter dado gotas de felicidade, enchendo outras taças com mel dos seus dons sagrados, para o riso, o consolo e a bênção de outros lábios...

 

Porque vidas puras assim, cheias da paixão do bem e da harmonia marcante da perfeição, formidáveis e multiformes na sua glória útil, divinas no segredo de aliviar a tortura alheia – devem ser para os homens lições vivas de fraternidade, retentoras do grande sonho de Deus...

 

 

 

A dor, certamente, paira em todos os cantos da terra e agasalha-se na clâmide viva da carne e esconde-se no vaso misterioso das almas...

 

No entanto, ela tem mil aspectos e castas: é aparente ou sincera, é frágil ou robusta, é plebeia ou ascende a heráldicas transcendentais...

 

E as de existência mais admirável e bela são as doces nobilíssimas, as que se afidalgaram, as que se invulgarizaram, presas, e contudo livres para evolucionar em força e luz, à concha de um coração que conhece a gama de todas as angústias.

 

Admirável, sim, é a dor orgulhosa e grande, que se não mostra, recolhida em pudor, e que não chora, alteada em redenção. Colorida de beleza, sim, é a dor, resignada, serena e forte como a alma dos antigos mártires cristãos —  menos para obedecer às filosofias desencontradas dos humanos do que por ter escutado, em minutos perfeitos, como que a voz sobrenatural da própria perfeição: "Vence a geena do teu caminho".

 

E não será, acaso, muitas vezes, numa dor assim, altiva e pura, que o homem encontra o grande segredo das suas máximas vitórias?

 

 

Beleza

 

Está toda salpicada de luzes dinâmicas a ambição daquele que somente quer dizer a beleza: de tudo e de si, da terra que pisa e da alma que retém, de todos os deslumbramentos que palpou na virtude e no espasmo do sonho...

 

Correm tão depressa os instantes, mas cada um, na sua passagem, deixa novas visões e polens novos à arte idolatrada do verdadeiro artista! E a aspiração deste, enroscada em sua alma como uma serpente, vive lá com a delícia de quem tivera vencido deuses e astros...

 

E o que sonha, é tão puro e tão belo: levar à alma dos homens o gesto e a mensagem das suas criações de iluminado — ideias que sejam cântaros de verdade e ritmos que lembrem bocas de beleza selvagem e gargantas de voz imaculada... Levar à alma dos homens cálices cheios do sonho coletivo das raças e do frêmito individualista das consciências, sonorizando-lhe todas as glórias perfeitas e também as imperfeições bonitas ou perversas que o eu e a vida possuem.

 

 

Arrependimento

 

Como deve atravessar a alma do homem, vezes muitas na hora fria e matemática da reflexão, a sua própria crítica pelo que já realizou: pelo pensamento que despontou afoito, pela voz que profetizou nervosa ou macia, pelo sonho que tontamente sonhou finalidades tontas e cambaleantes.

 

Oh! Sim! E o corolário fatal encastela-se então na sua mente de apóstolo arrependido, desolado do seu velho sonho: o desejo de palmilhar novamente a estrada que seus passos inexpertos violaram e de cancionar outra esperança mais linda diante das paisagens e das águas e dos corações.

 

Sofrer outra vez a tortura dos dias que foram? Embora! O passado morto persegue-o com fúria e sarcasmo, berrando aos seus ouvidos o erro da crença que nutriu ou a derrota que finalizou o seu trabalho sem clarividência e sem encanto.

 

Viver novamente, sim (pudesse ele!) eis a ambição que lhe possui a inteligência quando, nas horas que passaram, cantou os sonhos e os pensamentos que já o não atraem, ambição que tanto mais o vence quanto mais o vence a certeza de que, cantando-os, teve mais entusiasmo do que convicção, obedeceu mais às influências que o mentorizaram do que à determinação e à natureza da sua própria índole.

 

 

Mentira

 

A resignação é uma bela cousa que os homens aconselham uns aos outros como pregadores rotineiros ou conscientes nas grandes horas trágicas e até nos pequeninos desapontamentos da vida ...

 

Há, no entanto, no número dos resignados, uma casta paradoxal: são os que exteriorizam a linda felicidade dos vitoriosos e mostram na boca, que devera cantar o sonho negro da morte —  tanto há provado a dor! —  e mostram na boca a vitória irônica de um sorriso... Mas que, dentro da alma, na razão de orgulhosos, no carinho de ciumentos, guardam a sua insatisfação, a sua desesperança, a sua violenta tortura de viver que, embora inisentadas, embora invisas gritam como as gargantas em desespero e ardem como as línguas vermelhas do fogo.

 

E, enquanto passam no mundo os verdadeiros resignados, estes passeiam entre os homens a grande mentira na sua resignação de rebeldes máximos...

 

Maura de Sena Pereira Lamotte

 

(Esp. para a Revista do Globo)

 

 

 

Rezar...

 

 

Que poderia você, meu amigo, dizer-me de mais confortador, na hora inédita do nosso adeus, do que a promessa, grave e encantadora a um tempo, de que havia de rezar sempre por mim?

 

Meu príncipe dos olhos verdes, meu pastor!

 

Você bem sabe que o nosso amor, o nosso amor, cheio de ironia e de sofrimento, é, mau grado tudo, uma grande rosa de macieza, que eu, machucada e aflita, contemplo e conservo com o sagrado enlevo da minha feminilidade.

 

Mas você, igualmente, sabe que, para suportar a dor dos espinhos que me ferem e as berrantes ironias do nosso maravilhoso amor, preciso seria possuir uma fé muito grande, grande mesmo como as montanhas da minha terra, e que a que palpita entre as dúvidas de treva do meu insatisfeito coração é ainda menor do que as conchas das minhas mãos... Destas mãos cetinosas que você adora, destas mãos que sonham, destas mãos que dormem e que você quer evangelicamente unidas na atitude religiosa da prece, para que eu sofra com mais doçura.

 

E foi, com certeza, para firmar na minha alma, que tinha feito de você o seu deus, a convicção dulcíssima da existência de um Senhor que escuta, para lá das nuvens, os rogos de todos os pecadores, que você me afirmou, no instante amoroso da nossa despedida, que havia de rezar sempre por mim...

 

Nesta hora, meu saudoso amigo, meu príncipe de sorriso fidalgo, em que eu sofro tanto, sozinha e heroica, lembrei-me, pois, da sua luminosa promessa, e uma grande paz encheu o meu pobre coração de mulher. Olhei, sim, o céu tão azul como nos mais lindos dias desta incomparável primavera em que nos amamos, e tive a faceira e repousante ilusão de que você estava rezando por mim e de que a sua reza estava subindo ao céu e recebendo a misericordiosa resposta da boca misericordiosa de Deus...

 

 

(de Fon-Fon, 07/02/1931)

 

 

 

Vi a casa onde tu nasceste

 

 

Vi a casa onde tu nasceste, vi a casa onde tu crescente. Meus olhos, muito enternecidos e muito abertos passearam desde o portão até o fundo do quintal.

 

Tu estavas ao meu lado, guiando-me, contando-me os contos verdadeiros da tua infância, dos quais aquela casa e aquele quintal foram os cenários mais importantes.

 

Vi-te pequenino no berço. Sonhei contigo de touca e sapatinhos de lã, chorando nos joelhos maternos. Vi-te crescidinho a correr, a jogar bola e pião, a brigar e a sorrir. Sonho contigo de calça curta e cabecinha exposta ao vento e ao sol, trepando em árvores à procura de ninhos ou fazendo pandorgas de cores berrantes. Vi-te na bela idade iniciadora em que entraste para a primeira escola. Sonhei contigo de lousa sobre a mesa, traçando algarismos e letras, copiando devagarinho as lições.

 

Eu via tudo isso, eu sonhava tudo isso, quando me deste aquele beijo lindo e cheio que eu não retribuí.

 

Naquele instante eu preferi beijar, com os olhos molhados, os teus pretos cabelos.

 

Naquele instante eu te adorei como si foras o próprio garotinho com que eu sonho tanto, o filho do meu amor, nosso amor!

 

 

(de recorte de jornal não identificado, assinado por Maura de Sena Pereira Lamotte —  Acervo da ACL)

 

 

 

Rosas coletivas

 

 

Não corte as rosas, vizinha, mão corte as nossas rosas. Olhando para todos os lados, com medo de que alguém a surpreenda, uma tesoura na mão trêmula, tenta colher as rosas, as nossas rosas. Oh, mas aqui estou eu, à janela, namorando o jardim minúsculo, deslumbrada com estas belas flores vermelhas, que são a sua primeira oferenda. Tenta colher. Será lindo, sim, mergulhar estas estrelas de veludo e sangue na sua jarra de cristal da Boêmia, dourada e faiscante como um cálice real. Mas, depois, quando fechar a porta do apartamento, descer a escada e voltar ao jardim, que é de todos nós, vizinha, não sentirá um aperto no coração, ao ver a nossa roseira sem flores, verde e mutilada, verde e despovoada da dádiva escarlate com que recompensou a nossa espera de tantos meses? Não pensará que roubou a si mesma também?

 

Pense que nenhum de nós pode ter um jardim. Podemos, apenas, possuir nossos verdes precários, descendo do jarro da parede ou crescendo no jarro da janela. Motivo pelo qual nos reunimos um dia, cheios de saudades daqueles jardins fabulosos que rodeavam as casas da nossa infância: e depois da reunião, veio o jardineiro, traçou como um geômetra e como um taumaturgo estes canteiros na terra escassa e começamos, desde então, a possuir em comum um canteiro. Oh, deveríamos ter dado uma festa quando abriram estas primeiras rosas. Contudo, não cessamos de olhá-las com gratidão e amor: são nossas, pertencem a todos nós. Mas a nenhum de nós em particular, vizinha. Por isso, vou dizer-lhe, agora mesmo, que não me canso de admirar as nossas rosas. Deterei, assim, o seu gesto condenável. E ninguém será lesado. E as rosas continuarão vivas no pé, em toda a sua beleza, para regalo dos seus vinte donos.

 

 

(de Gazeta de Notícias / Nós e o Mundo, Rio, 27/4/1955)

 

 

 

Nós e o tempo

 

 

Quando ouvirem uma criança, um adolescente, uma criatura muito nova dizer que o ano passou depressa, desconfiem. Não pode sentir que o tempo corre quem está crescendo, desabrochando, em plena faixa da expansão. Fala assim numa inconsciente insinceridade, por um natural espírito de imitação, para impressionar, porque ouve os mais velhos dizerem.

 

Estes, sim, estão sendo sinceros, pois sentem realmente que os natais e anos novos se sucedem com rapidez. E essa sensação é um sinal (do grupo dos que chegam na hora devida) de que já não é mais primavera, embora em muitos pontos — o rosto jovem, o corpo esbelto, o coração arrebatado — possa prolongar-se o seu brilho. Assim, o tempo é implacável, as belas estações passam e, após terem chegado e desaparecido as cores ainda soberbas do outono, virá o inverno, o declínio, o fim.

 

Há um sentido dramático em tudo isso, marcado, porém, de uma tal equidade o efêmero atingindo a todos inexoravelmente — que a atitude sábia será a aceitação. Equidade sem dúvida, porque não tem cabimento, por exemplo, alguém dizer que não teve juventude. Correndo a vida, todo ser humano tem, teve ou terá juventude. Agora, se esta é triste ou alegre, apagada ou gloriosa, dura ou feliz — isso não é com o tempo: é com o homem.

 

 

(Gazeta de Notícias / Nós e o mundo, Rio, 4-5/1/1976 —  republicado em Nós e o Mundo p.17)