LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
História do gosto e outros poemas, de Ernani Rosas
Edição de base:
Ernani Salomão Rosas, História do gosto e outros poemas,
Florianópolis: Editora da Ufsc, 1997.
ÍNDICE(Plaquetes) História do gosto Todo prazer é um beijo mal roubado Gostar Tentação de Satã Os meus abrolhos Pés Soneto Canaã Pousa alto o teu espírito Ouvir! Os meus abrolhos – "À La Manière des Poètes d’Orfhée" Sino rude da capela Abrolhos! Morta outra vez, num sonho Te antevendo! Selva de sombra e sonhos dentre assomos Soneto Cismas da Noite Soneto Salomé O que é a vida? 'Strofes de um "Sonâmbulo" Príncipe Maria A hora em segredo Ária II Toda su’alma é uma oração de luar Sossega coração! Que a luz não tarda Era Sol-Posto, a paz que ali reinava Morrer por ela como um justo, orando... A Pereira da Silva 'Strofes de um Sonâmbulo Ignoto-Arcano? Para onde existe a síncope radiosa Soneto Depois divisarei esse duplo horizonte Sol-posto Senhora do Crepúsculo Tântalo de Las Quimeras Clarividência Amores da Lua O meu cachimbo! A Luz – é sombra d'um astro A Lua, o grande farolim argênteo entorna Rimas à Lua: Rimas: Desalento? ?Êxtase e tristeza? Deixei-Me anoitecer à sombra da ramada E o silêncio da hora e a ingratidão da Lua De Horas roxas da Lua chagado tédio vem Ai! de quem vem a esta vida Quanto mistério há na noite Tormento? Torre de David Soneto: Deus nos teus olhos Atrás de minha casa Rimas Versos Amor! Ao ouvir-te guitarra, embora Quando eu, estiver já prestes Eu quero, quando morrer: Maldição divina Torre de David Rimas "Trevas do Desconhecido" Por que criaste o fel, e o vinho da Ilusão? Versos Soneto Hora de insônia Nudez tentadora Tentação do ouro Última estrofe da desesperança Soneto Ilusão do além Soneto Tudo em farrapo, a alma combalida Spleen dominador Soneto Cancioneiro da noite (Torre de David) Soneto Soneto Outono de horas de Alma silenciosa... Rimanceiro da mágoa Violino da Saudade A Ideia Súplica das Ninfas Como sois doce nesse amargo transe? Monólogo das coisas O Que dizem as coisas Narciso (Espelho d’alma) Luar! Recado da lua aos lírios, Eco da Carta a além-túmulo Certo véu de sombra e olvido Onde irão minhas Naus? ter a recifes!? Soneto A gente na nossa lida Noite de ausência Pastor-astral "Litania à adolescência e outros versos" Noite de Valpurgis Soneto Os teus sapatos vermelhos! Que pé de Deusa ou Anfitrite Simples problema me assombra! Talvez, teu sentimento não me aqueça Enquanto os mais meditam Soneto Veneno que não cura Todo passado é um rápido segundo: Esperando... esperei a vida inteira Raiz do tédio Amor e lama Da minha janela aberta Errando teus lindos olhos Outono Nossa sentença [Plaquete sem título] Amor! Penumbra do luar Vontade oculta La Noche de Las Quimeras Mãos do destino Na vizinhança das estrelas Cantigas do povo! Soneto: Morte romântica Irmã do meu cismar e dissabor Poemas avulsos
Safo! Soneto Soneto Soneto Avozinha Balada Aldeia do luar Adeus! oh! fonte magoada... Alegria alheia Quando penso, que 'stou longe Elogio-da-humildade África Queixumes Torre de David Safo? Safo? O sonho das águas Perfil castilhista História do gosto Nas regiões do "Exílio" Soneto: Spleen Soneto impressionista Tu, que habitas a noite, o Universo Noite de Valpurgis A Ideia II III Fecunda o pólen no crisol dourado Da tristeza VII Súcubo "d’alma" Naufrágios II Sonetos II Nostalgia dos Cães Sonetos Eu? História do gosto 918 a 46 Rio N. Luzo Todo prazer é um beijo mal roubado, morre-me a boca para repeti-lo:entre o eflúvio de um sonho malogrado e p’la boca das rosas dividi-lo ... Como é bom esse amor, sendo metade ! curto instante à penumbra do jardim... ao partirmos levamos a vontade,p’ra que nos volte uma outra noite assim! Fui despertado p’lo Luar de impura noite de Lua e desleal Ledice... na embriaguez de lúbrica ventura! Fui pressentido, ó dura crueldade... Libertei-me do Amor, sem mais tolice, deixando o gozo todo na metade!... 946 Rio E. Rosas Gostar Chegamos a gostar de coisas repelentes... Charles Baudelaire Num antro de magia e rúbido mistério, onde a serpe, a coruja, o sapo têm poesia... seja negra ou real, a lúgubre magiaem prol da nossa fé em seu áureo hemisfério... A víbora e o morcego têm duplo poderio, a áspide produz filtros cruéis p’ra morte: e na ronda avernal desliza um negro rio... de líticas visões numa obscura coorte!... Gostando do que é velho e rude, amei-Te um dia... oh ! gasta barregã-ruiva, que a ironiasemoldura de Luz na sombra luxuriante ! Vejo, aquilo, que o olhar não vê e não namora! vejo, não a mulher – o anjo, que lá mora... a nevoenta visão da aurora inquietante ?... Tentação de Satã Contam, que um dia o demônio apareceu ao poeta e convidou-o a partir, a irem a um país ideal, onde havia homens leais e mulheres belas, o poeta ficara indeciso diante do convite do demônio por achar a proposta absurda; dentro da palestra amistosa há uma pausa e o demônio tirando de seus cuidados agarra e beija-o na boca e ele extasiado pelo beijo que lhe deu o demônio sente um mundo novo abrir-se-lhe n’alma e sente um sabor divino no beijo do Demônio !E conjecturando com ele mesmo agarra-o pelo queixo, dizendo consigo mesmo, que será que ele quer me pedir? E nisto, a máscara sai-lhe nas mãos e aparece-lhe um rosto encantador de mulher com um sorriso tentador e malicioso por haver vencido o coração do homem: dúbio diálogo l... Diálogo Infernal ou Tentação do Demônio ? Os Meus Abrolhos 945 a 52 "Rio" Ernani Rosas Pés Pés de martírios, pés chagados – Dores... que o chão trilharam numa Sexta-feira, Sete-Dores chagados p’la canseira do pó da Estrada p’ra quem tem amores! Sete-Dores de passos indecisosque Deus plasmara na amplidão silente... Sete-chagas de sóis rumo impreciso de errante estrada para a dor da gente... Pés descarnados, gélidos, feridos p’lo horror da vida de sofrer ingente, Pés de Jesus em sangue doloridos... Chagas do Tédio p’la existência amara Rasgando Selvas na distância, sente... ferir-lhe a carne os cordais do Saara!... N. Iguaçu 952 E. Rosas Soneto Tu, que habitas a noite do Universo,os mundos celestiais onde Alguém mora! Que juízo fará da Luz da aurora, Esse gênio, que vive em sombra imerso? Sentindo desfilar ante a piedosa Alma triste que tens de combalido, à sarcástica, lôbrega e andrajosa ironia dos lábios de um vencido... Sonharás transcender pela memória em saudade tua asa que assemelha um troféu de apoteose para a glória!... Ascenderás edênico e intangívelAnte o clangor, que a nossa pel’engelha Como de um lírio o fluido imperecível!... Rio 917 E. Rosas Canaã
Envio-Te notícias de meus males, Chagas da Alma... o vendaval da vida! a doença do corpo, a fé perdida, mais forte do que o fel da digitalis. Tudo em ruína: Crenças e aventuras! Rota do infindo Sonho, só por Deus... Quanto ao Brasil renego, é uma loucura alimentar quimeras sob os céus... Quando volver às selvas e à alegria? penetrar no segredo da alga umbria ouvir cantar as aves e sonhar... Então direi que recomeça a esperança... A floresta, onde escuto murmurar A voz de Deus no riso das crianças!... 946 Rio E. Rosas Pousa alto o teu espírito,olha bem para os meus olhos: verás que vida, que tenho não é a tua, sem abrolhos!... Põe o olhar nos astros, sonha assim com o meu! meu olhar, é a noite... sob o teu, o céu!... 946 Rio E. Rosas Ouvir! Ouvir... Só no silêncio das estrelas! o soluço das coisas e dos ares... Viver para a emoção das noites belas à lacrimosa mágoa dos Luares... Apodrecer à sombra de ermo cerro:ser um tojal, em sombra o meu anelo... Só, por amor da noite o seu desterro!... 911 Rio Boca da Noite E. Rosas Os Meus Abrolhos - "A La Manière des Poètes d’Orfhée" 915 946 N. Luzo (E. Rosas) Sino rude da capelade campanário silente:Sol me acordes voz singela, pelas Horas do poente!... Abrolhos! A nossa Vida é como um grande rio, sempre ansiando ser um dia oceano! ora revolto de brilho, insano...mostrando a areia e fundo d’ouro, frio... A púrpura do sol à noite, o invadeem tons frios de mármore e de gelo... Lembra um campo em declive aonde arde o arco d’ouro e astral do Sete-Estrelo!... O olhar abrindo pela imensa Estrada Cheia de sonolência e de Quimera, vê, ressurgir da terra embalsamada Todo um vergel, de um ósculo fecundo! o oceano em fúria a desfazer crateras...e Deus de um astro, transformá-lo em mundo! 932 Morta outra vez, num sonho Te antevendo! p’r’o meu viver ideal, porque Te almejo... esculpida em meu sonho, aurorecendo 932 Selva de sombra e sonhos dentre assomos trazeis ruínas, neles – longe – escombros de cidades de Luz e de harmonia primaveras com sol e alegrias... Outonos e verões! – invernos – sinas de Tristeza p’la neve e nostalgia...Tântalo e aurora eterna aos nossos olhos, Vergel de rosas para os meus abrolhos!... 932 Soneto Cismas da Noite Noite irmã da Tristeza e da ansiedade e das Almas, que ignoram a alegria... Sombra feita de assomo e claridade, Evocadora ideal da nostalgia!... Tua boca não canta uma Elegia! Calou-se a vibração da imensidade... como um soluço à frouxa luz do dia, ou, névoa, que velara a Eternidade! Não Te ouso contemplar a face escura e prossigo a cismar à luz dos Astros... Escondendo entre as mãos a fronte impura! Para ocultar-me a lúgubre presença do teu espectro, que ficou no rastroda Estrela, que lavrou minha sentença!... 918 Rio E. Rosas Soneto Ah! quando est’alma heroica e descontente Libertar-se da carne, que a reveste... Ela, há de adejar incertamenteàs paredes de um corpo, mais celeste... Como uma C’ruja às horas do sol-poente... entorno de uma torre esburacada,que será nosso ser, macabramente,nos assomos da carne desmanchada!... Não ter ficado Eu, entre as ruínas! expor à luz dos séculos hiantes... oculto sob as heras e boninas; E depois, percorrer meu próprio ser! em adejos inúteis e inconstantes...como a andorinha à "Torre-do-Não-Ser"!... 918 Rio E. Rosas Salomé Ó Bailarina, oh! mariposa inquieta!Aljofrada da gema de uma tarde.És nume, Salomé, ágil goleta...dentre o incenso da sombra que oura e arde... Espectro errante de um cometa absortoapós a bacanal "saturniana"!...(onde os nardos têm ócio do "Mar-Morto"!) e ergue-se a lua irial, sibariana... Chovem do céu os raios da nova aurora sobre seu corpo d’âmbar colmados da via Láctea que su’alma olora... Numa auréola de Luz e alegoria Esvaindo-Te em Sonho musicado, para a glória do "Mal" que a irradia... 918 Rio E. Rosas O que é a Vida? A Vida: É uma hora, um dia, a noite triste; E: – ("La chanson du jour"!) que a bailarina, interrompendo, diz com graça e chiste... numa expressão dramática e divina! Vida, é volúpia, tântalo e agonia!desgraças mil, letras vencidas, um homem que perdeu a razão por ironiada sorte, que os mil nada nos consomem... Vida: – aventura louca do destino...o jogo, a sorte... a ebriez d’ópio a Pérsia... o fausto e a bacana! por desatino! Vida, teu lábio de ludibrio infindo!O teu corpo de âmbar se exaurindo, em perfumes exóticos de inércia!... 946 ‘Strofes de um "Sonâmbulo" 916 a 45 Rio E. Rosas (N. Luzo) Príncipe Sonho tudo, que amei num crepúsculo extinto vago a convalescer por horas irreais!perdeu-se dentro em mim, como num labirinto raio extremo de luz de dias outonais... Vivo Morto num sonho! Embriaga-me o absintoda Ilusão dum sol-pôr, que as tardes não têm mais... sou a sombra ideal do Príncipe, que sintoviver a tua luz como vivem os Cristais!... Sou uma Ânsia de azul... por silente floresta ó Lua celestial das horas vesperais,tudo quanto sonhei à tua luz funesta erra longe de mim, como uma Nau partida! Vejo acenar dalém meus doidos ideais.E Náufrago a sonhar fiquei na minha vida!... 909 Maria Ô que lindo fêz-se MAIO, Ô que santa foi Maria!batizou-se n’água benta dos olhos da virgem Pia... É mais vivo o teu azul,do que a seda do seu manto... fulgem mais tuas estrelasdo que as gotas do seu pranto! À noite constelações, lembram fiavas sete-Espadasnum fulgente cintilar laceravam corações! Qual dos dois o mais brilhante, o mais rico em pedrarias: E o céu que está distante, ou o manto de Maria?!... (911) A hora em segredo Quando a certhora o luar é só doçura e com sigilo o nosso amor abriga eu me deixo levar nessa onda impura de volúpia e temor, Noite inimiga! E do céu atravesso a selva escura, sem que seu vulto divinal me siga; lua etérea visão, que se amargura pela Boêmia duma dor mendiga! Vou a ouvir o que dizem as nebulosas esculturas do sonho e do irreal,murmúrios de outras noites misteriosas que séculos de azul hão-de torná-las em formas tenebrosas do ideal,qual sol tocando a pedra das Opalas! (914) Ária Para o Sr. Mário de Sá Carneiro Como é longo o dia à tarde já num rumor devagar,para a Ogiva de teus olhos na reza do meu altar! Quanta mágoa vai no sino, quanta amargura a sarar! recorda o triste destinode quem nasceu para amar. Sino estranho da capela de remoto eremitério,Só! me acordas voz singela pelas horas de mistério! Quanta emoção traz-me esthora dentro de mimo se afundando, minh’alma se libertandopelas lágrimas, que chora... Como é triste ver-se a Lua por detrás do ermo cipreste recorda a brancura tuavestida de negra veste. II Ó Tarde pondo Ouvido às Folhas mortas, Insone de silêncio a orar baixinho!a água lembra vozes semi-mortasa umhora dessa a quem, vai a caminho!... O Outono verte cinza de saudade à voz do vento, minha herança antiga!Fui Príncipe d’Olvido e Soledade: Reinei ausência eterna, audaz amiga! Minha sombra infantil reza quimera, no Palácio de Dor da minha Raçade Sina e maldição, que assim tivera! Aos meus Olhos à luz boiando, cismo que sou Alma lusíada que passa...Sonho – Galera a resvalar no Abismo! 915 Toda su’alma é uma oração de luar quedou-se de Mãos-postas, reverente num penhasco de noite a recordar. 916 Sossega coração! Que a luz não tarda... espirar em seu leito de neblinascomo uma fonte a murmurar ardor!A Ânsia que nele vai em mim se atarda... como são lentas as horas vespertinas junto do coração... longe do amor!?... 912 Era Sol-Posto, a paz que ali reinava o coração de mágoa envelhecia e a luz crepuscular já declinava numa sentimental melancolia! Parecia do céu, que se exilavadescer chorando aos mundos da agonia e a essência da su’alma ali morava como doce, perdida nostalgia... E foi, assim na vida se extinguindo, como a pálida chama que amortece aquele olhar crepuscular fugindo!... Pra que eu ficasse amando da Saudade a Branquidão da paz de toda Aldeia, quando eu tornar à minha Soledade! 16-4-912 Morrer por ela como um justo, orando... como a tarde a morrer pelo Sol-Poente... como a sombra a morrer pelo silêncio! 912 A Pereira da Silva A Tristeza é um prenúncio d’Alegria, Alegria é um prenúncio de tristeza,cada ser que floresce é um’Alma presa a um ritmo de perfume que nos guia Por isso que te fiz névoa de dia a sombra de minh’alma, na purezadessa luz interior, que me alumia... e revela alguém pela incerteza! Quando em idílio romântico cintila o teu perjuro olhar emudecendo,ante o fulgor de lúcidas pupilas... Sinto, que vais de mim Te transmudando! para uma nova vida te ascendendo...candeia dos meus-Olhos se apagando! 910 ‘Strofes de um Sonâmbulo Rio 918 a B46 N. Luzo (E. Rosas) Ignoto-Arcano? Ó noite de espiritual Eternidade!ó silente segredo de Além-vida!Pra que eu sinta em tu’alma comovida, O tântalo da tua irrealidade!... Se a quimera é fatal à Humanidade, deixá-la num letargo adormecida... como em vaga beleza concebida, num voo de indizível ansiedade... Desola-me o luar de insônia friae as estrelas do céu, cristalizadas... são espelhos enublados de neblina! Que por azuis de ocasos de agonia iremos filhos, de Almas fatigadasouvir de Deus a prática divina!... (Rio – 8-8-912) E. Rosas Para onde existe a síncope radiosa rosas de Luz e estrelas em desmaios, Eu partirei irmãs misteriosaspara irisar-me nos seus flavos raios! É Lá! Que existe a aurora venturosa e o olor primaveril de tantos Maios!... Que se foram por áureas primorosas, Quando a Lua tem síncope e ensaios! Lá! Não teremos nem pesar, nem males! nem temor, porque tudo se faz prece... de um Luar que p’la abóbada ressumbra! São solitários, silenciosos vales,onde a luz de um crepúsculo anoitece... e a Lua traz recados à penumbra!... 8-8-912 E. Rosas Soneto Morre-Me a boca em lúbrico delírio por beijar e esculpir teu corpo, ó linda escultura do sonho e do martírio, ciliciando a palidez infinda... Martirizando o mármore da carne em cilícios cruéis como encantada estátua, cuja forma esculturadatem laivos de Afrodite em plúmbeo marne... Sonhe ou durma no aspecto por silente Que seja o céu que paira, entressonhando... rompe a clâmide fúlgida e aparente De branca perfeição na imperfeição! da carne em suas súplicas, colmando o azul de estrelas para a tentação!... Rio 946 E. Rosas Depois divisarei esse duplo horizonteQue há na Vida e na Luz da aurora do outro-Mundo, visivelmente azul sob um arco defronteà janela d’céu para espreitar o mundo!... Rio 948 Sol-posto Por M. Caspio1928 a 43 Senhora do crepúsculo Embuçada na noite do seu manto percorre a Via-Láctea silenciosa o areal da praia misteriosaonde aporta a falua do quebranto... Onde os passos incertos de uma sombra pisam leve e vagueiam na amplidão, onde é sonho e ressumbra toda alfombra à castália de luz do seu perdão... Onde é neblina e lua e por acaso,se é sol, um jalde espírito o enfumaça ante o espectral fenômeno do ocaso... Brilha um vislumbre d’olhos de criança! numa entrevista Luz de tarde baça... "Doce-mãe" piedosa da Esperança!... 943Ernani Rosas Tântalo de Las Quimeras por (A. Luzo) E. Rosas 918 a 45 Clarividência Vem comigo beber o vinho amargo dos nossos tenebrosos desenganos: Mensageira leal da flor dos anos, celeste, como a paz d’alma letargo... Deixa a nobreza dos brasões tiranose faz-Te à noite adusta do mar largo,consome-Te na fé dos teus enganosQue o mundo para o homem é um vil encargo!... Vens dos Infernos, das paixões adustas para os etéreos de ilusões venustas.... acarretado de nevrose e Spleen! Para irmanar-Te às nossas boas almas,Que são pujantes celestialmente, calmas... qual céu d’Amor, que Te concedo, enfim!... 16.8.912 E. Rosas Amores da Lua És a lua da minha-meia-noitee vou contar-Te a lenda merencória de uma Lua, que morta foi a glória do mar, do vento num funesto açoite: "Incendiou-se a nau da fria Lua, imergindo no mar adormecido...o mastro ao mergulhar na onda tressua na incerteza, que a lua haja morrido!" Temo a tua beleza e essa magia,que me enerva de astral melancolia... desse amavio de teu vil ressabio... Amo as glórias do Sol ao fim do dia!... e no libar o pomo de teu lábio, cendrava-se o sabor que me sabia... 932E. Rosas O meu cachimbo! E o fumo, que ele expele anseia aos ais! num abraço ensofrido de desejo, cuidando ver no íris desse adejoas tuas vagas formas senhoriais!... 948 Rio E. Rosas A Luz — é sombra dum astro, ou melhor de algum Titã: a Luz é filha da Sombra...(a luz nos vem de Satã!?...) A Lua, o grande farolim argênteo entorna lobregamente, pela abóbada as suas platinadas lágrimas... como eco azul e lácteo que se espargisse pela turmalina do céu... O Luar leve e fluido como um corpo denimbo d’uma Deusa engolfa-se em golcondasde nuvens, onda por onda, de onde escorre e corre pelo mar afora em estrelas de pérolas. Curva, é o círculo intérmino da Vida! Rimas à Lua: Dorme em lascivo leito, reclinada... repontado de Astros e fogueiras, ateias a coivara prateadados caminhos desertos, pegureira... Lua! da meia noite, solitária,Urna errante p’la nave do infinito... Cravas o lácteo incêndio funerária, às montanhas geladas de granito... Peregrinando em tua marcha hiante e exausta de fadiga em água amara buscas o mar, o oceano o teu amante... Artista, cuja tela, ao ver Te aclara! n’esse sonambulismo inebriante... em suas vagas verdes Te enlaçara... 932E. Rosas Rimas: Desalento? Circunscritas à órbita celesteas estrelas nas chamas se consomem na terra o labutar tem-se no homem o cativo do amor em val agreste... O eterno cativo, sem ventura, desalentado cavador que esperaem sombria região p’la noite escura encontrar o ouro finos da Quimera Encontrar a ventura de uma aurora, onde encontrá-la se ela agora dorme olvidada no pó de quem não ora... olvidada nesse val desconhecidoonde nunca alvorece e a paz é enormee o bem, perjuro "Amor", incompreendido!... 946E. Rosas ?Êxtase e tristeza? Por que choras Amor, quando a tarde declina? Se a treva vence o céu e o espaço se constela Se a tristeza do dia doura o nicho da estrela onde mora a ventura e a graça peregrina... Não chores, pois se amas a dúlcida alegria, alegria auroreal, quando a noite se olvida aos raios da manhã como um lilás sem vida, doce irmã da paixão, gérmen da nostalgia!... Rio 945 E. Rosas Deixei-Me anoitecer à sombra da ramada; Entardeci em sonho e em alma floresci... Entristece-me a paz da noite e a compassadacanção do grilo a rir na trama em que me vi! E o silêncio da hora e a ingratidão da Lua oculta em pardo céu, como visão divina, propicia-me do olvido um laivo que tressua num tântalo letal de angústia sibilina!... 946E. Rosas De Horas roxas da Lua chagado tédio vem Silente a envenenar a minh’alma serena: Sol chagado a rir e os astros também têm irradiações fatais de rútila gangrena!... Será o eflúvio em coral de cânticos que ensalmam, o argentino fulgor da Lua pelo [...]! Ai! de quem vem a esta vida pela estrada da ilusão:terá breve a fé perdidae velhinho o coração!... Terá muito, o que sofrer, os que vivem ceguinhos:à perfídia, que os espera... pelos sinistros caminhos... (Rio) 932E. Rosas Toda esperança contra o mal do Inferno!... 946E. Rosas Quanto mistério há na noite por entre o negro palmar? a lua aclara esse açoite,num cenário de Luar!... (Rio) 918 E. Rosas (Maldita a infausta febre d’ouro seja!) Tormento? Aqui, tudo termina: Ânsias da Vida, Sonhos – troféus, – vaidades mais reles de lacrimosa terra, a digitalisrubra da Dor esvai-se esmaecida... E um tântalo, essa ânsia apetecida! nunca, que aflora à boca de seu cálix... a água de seus olhos, por seus males aos lábios dessa sede ressequida!... O romântico amor em suas crises, desalentado pela vida afora...vai fazer "jus" à "seiva das raízes"!... Ante o "Aqui-jaz" e a placidez de um fulcro... a su’alma tantálica da Aurora,baixa ao festim dos vermes do Sepulcro!... 41 (Rio) Torre de David Em “Tântalo de Las Quimeras” e “Meus abrolhos" "Rimas da Noite e fonte de outono" por N. Luzo (E. Rosas) Soneto: Deus nos teus olhos Olho a curva infinita do Infinito, Teus olhos vejo, abóbada nublosa... Fonte perene, d’alva Luz radiosa refletindo vago espírito de um mito!... Não é, só, ela a causa do meu grito de espasmo doloroso e de agonia... mas sim, a expansão de alva alegria de quem fendeu o áspero granito!... Seja filha da terra, onde a minh’alma liberta-se transpondo a beata calma das franças de uma selva, que vivi! Espargindo-se em lôbrega distância de crepúsculo, a lânguida fragrância desse Deus, que eu adoro e nunca vi!... Rio 934E. Rosas (N. Luzo) Atrás de minha casa fica o áureo Levante, pra Lua que se apraza e surge irradiante!... Rio 947 E. Rosas Rimas Olhando o teu Olhar, eu, vejo o paraíso Cismando-Te, fitei e vi o teu cismar:auréola auroreal do laivo de um sorrisoque vem deixar a vida— esse soturno mar!... 947 Versos Possuo o êxtase de um Mago,vejo a visão d’alguém passar p’la minha Vida: farrapo em nimbo êxul na tarde adormecida, no eflúvio celestial do seu perfume vago!... Rio 947 E. Rosas Amor! És a ilusão da Luz, quando a casa se fecha... ao abri-la Te vais: falena da Quimera!Tens o mesmo palor de uma estrela na esfera, o fulgor de uma chama a voar numa flecha!... Rio 947 E. Rosas Ao ouvir-te guitarra, embora... Teus aís se comparem aos meus! eu vejo raiar a aurora...dentre a penumbra dos céus!.. Rio 947 E. Rosas Quando eu, estiver já prestes de chegar ao meu "Ocaso"! Desejo de ter um prazo,um prazer de ver-me a Leste... Dei-me a Lua por morada Se tudo acaso, é de Deus? Reza por mim minha amada. Roga por mim, pede aos céus... Que um dia por Lá Te encontreem lindo vergel bordando um véu de noiva defrontedo espelho do sol, Te olhando!... Rio 947 E. Rosas Eu quero, quando morrer: junto ao "Aqui-jaz"... olvidar! diga a voz do vento agreste fui pelo Além a rimar!... Rio 947E. Rosas (N. Luzo) Maldição Divina Do velho mundo – o tétrico cenário dramático, infernal pelo Demônio; Ei-lo, a arena de Dores, o estuáriode sangue rubro para um Pandemônio!... Lança caudal de fumo sobre a terra Letes sangrento e vivo torvelinho de vidas, que se vão pelo caminho turbilhonando num fragor de serra!... Escombros hirtos, que vincula uma era de fel e agruras, de tormenta prava?... devastando as florentes primaveras Da vida humana, para o caos profundo! Ante a Geena de uma noite cavaque há-de tragar a fúria deste mundo!... 945 Rio Torre de David Rio 945 a 50 E. Rosas Rimas "Trevas do Desconhecido"
Pela primeira vez eu senti bater mansinho, depois, mais forte ainda uma estranha emoção... Era o primeiro afeto que viera sozinho despertar em meu ser divina sensação... E acordando a minh’alma que sonhando vivia na sua ebúrnea Torre de inocência a sonhar arrebatou-me à Luz da aurora em que dormia Consigo levou-a para bem longe andar! Para os mundos da Luz e da clarividência Levou-me p’ra beber um vinho peregrino embriagado deixou-me em vaga sonolência ao despertar de mim senti-me mais menino... Saí beijando o Luar e as flores do jardim E nunca mais feriu com tanto ardor assim. Por que criaste o fel, e o vinho da Ilusão? porque criaste o amor, assim como Jesus... criara a luz do Luar em jorros de perdãoa refulgir no olhar dos astros sobre a cruz... Bebo à taça do ideal o vinho de Mefistosubo e desço e percorro as trevas deste mundo... Sou autômato, em vão busco a causa, o imprevisto! Volverei livremente às plagas do iracundo... Vou além, muito além nesse engano perdido. num sonho divinal de tântalos profanos a essa porta ideal fechada há tantos anos Abrindo para a luz do meu Desconhecido... Abrindo p’ro sol-pôr de vago acordamentode inocência e de carne à crua realidade,tenho a impressão que infância é uma rosa ao relento, e a juventude um céu de sonho e castidade!... Rio 946 E. Rosas Versos Passaste ao sol sob a ramada ingente, Vaga visão nimbal — Sonho incolor! Que brilha assim aos raios do poente, Caleidoscópio irial do meu amor! 945 Rio Soneto Âmbito torvo, originando a vida, tentação do prazer e da luxúria... para o amor dentre a linha indefinida da Beldade — obra lúbrica da incúria... Ventre de nívea e lânguida epiderme... escultura vampírica da carne:Que mão fascinadora de arte inerme Te plasmou na ilusão da neve ou marne Concepção de vetusta e egrégia graça ventre de ciência que sugere a ideia da noite sibariana, onde perpassa Todo delírio e lésbico desejoda linha ebúrnea e fria que o sobejo do meu burel não vence essa Sereia!... Rio 946 Hora de insônia Noite sem termo! A Lua erra em delírio, balbucio palavras sem querer...cismo no olor vernal d’alma de um lírio, e sou memória d’algo a transcender... Sofro-lhe a ausência. A carne é meu martírio, Ressurjo... amo a visão do meu Não-Ser! Todo meu corpo é amorfa névoa – círio... volúpia de um perfume a se perder. Cismo na errante estrela, que deslumbra o vaso de teu ser dentre o relento num murmúrio de fonte que ressumbra! Sou o olfato! Amo as horas de um jardim... Sou uma vaga sonora em pensamento: Eflúvio lirial que vens a mim!... Nudez tentadora Morre-me a boca em lúbrico delíriopor beijar Te e plasmar teu corpo, ó Linda! loira visão de sonho num martíriode imaculada palidez infinda... lnanimando o mármore da carne em cilícios cruéis como encantada estátua para o amor desacordadanum laivo de Afrodite dentre o mame... Sonhe ou durma no aspecto por silente que seja o céu que paira entressonhando, rompe a clâmide fúlgida e aparente... De viva perfeição na imperfeição da carne em suas súplicas colmando o azul de estrelas para a tentação! Rio 946 E. Rosas Tentação do Ouro A insânia d’ouro, a mórbida cegueira, o delírio de sólidas cabeças...Que leva o homem ao crime e à bebedeira do odiar a vida antes que envelheça... Talvez, que teu Mau-fado — ó vil Tenório! acarretas a sífilis nos ossos...dando hospedagem à lepra e mais destroços, como flagelo ao mundo merencório... Ó D. João, ó parva mascarada! rompe a grotesca máscara banal, mostra a fisionomia embriagada... Ante a loira e seráfica beldadefantasiaste o amor no fel carnal,como és um pulha dentro da vaidade?!... Rio 946 E. Rosas Última Estrofe da Desesperança 945 a 50 Rio E. Rosas Soneto Quando cessar o mórbido tormento das misérias do fado que nos resta? buscaremos os encantos da floresta, a blasfêmia da fonte contra o vento... A maldição da noite contra a vida,as injúrias dos astros contra a aurora; os soluços da alma arrependida ante a desesperança de quem chora! Porque tudo é agônico desejo,sôfrego e amargo em fuga p’la ironia do destino cruel que sempre vejo: Esfarrapado à porta das herdadesde crestados jardins com ramarias... Que me foram perjuros n’outra idade!... Rio 950 E. Rosas Ilusão do além Imponderável como a Luz da Lua fria São as nuvens do Ar à espreita do calvário o éter que se evola é quase uma agonia roxa, quase lilás igual a de um sudário Imponderável como a bolha que o ar levanta; ergue-se à luz e se desmancha inerte e morta, mais, um sonho infiel voando já me encanta embora a me trair bem junto a minha portal... 950 Rio Soneto Ó cabelos das ninfas desgrenhadas errando à noite em Lua no arvoredo... vagabundas visões da madrugada entrevistas à luz de algo segredo! Ó suplicantes formas de beleza,todas de rastos, de aneladas tranças... Eleitas vidas, que alimentam esp’ranças e erram de tarde em tarde na tristeza... O Tântalos de sonho do poente,corpos vagos de incenso... horas douradas... jardim lilás de orquídeas do ocidente... O imperdurável encarnação de Ninfas Lá! se vão sobre nuvens reclinadas! como sobre corcéis que cortam Linfas!... 916 Rio E. Rosas Tudo em farrapo, a alma combalida eu beberia o sangue, não saciado, Eu beberia a minha própria vida! Se fosses vinho ou dúlcido veneno eu beberia bêbedo sonhando, eu beberia impávido, sereno!... Spleen Dominador
O Tédio nos arrasta p’ra miséria em vampírica ânsia deletériap’ra tirarmos um sono no sepulcro... Fugimos a manhã, a vida bela, temos pavor do ósculo mais pulcro da estrela que apagou da dor o fulcro e aclarou os abrolhos da procela... Procuramos o abismo, o caos infame, as geenas cruéis do inferno humano o fel e o desespero, a goela enorme, para assim nos tragar: divino arcano... Por tudo que é perjuro e mentiroso procuramos o mal dentro de um gozo... e nunca a "Ti", ó monstro desumano! Ouro que és tentação à nossa glória,a primavera, os vinte cinco — a estrada aberta às aventuras que a memória floresce um pedestal pela alvorada... Nunca à costa de penas e naufrágiosde quem anda a correr de plaga em plaga entre as ondas e oceânicos adágiosque os nossos sonhos do viver apaga... Rio 945 E. Rosas Soneto Ante a volúpia do ouro fascinada e da carne viril que desabrochacomo rubra papoula enamoradaao sol que doura a formosura em roxa Madrugada de amor luxurianteQue propicia letárgicos venenose enerva de perfume extravagantea estuante maré de Ondina ou Vênus... Reflui e esplende o ouro da tu’alma, o aljôfar e a gema fulva da orvalhada pio vergel de teu corpo que me ensalma Temo essa hiena oculta do teu peito Que pode desfazer o bem perfeitodo ouro da Luz do Amor às alvoradas!... (Rio 946) Cancioneiro da Noite (Torre de David) (Rio 918 a 47) Soneto Ontem, quando voltei, viera d’alma enferma, por ver tanta miséria e tanta cobardia... frio estava o jardim, a praça um tanto erma, corria sob o Luar a queixa da agonia... A tarde teve sol, algumas nuvens densas,um vento glacial assim, como o abandono... fora a asa do Tédio, – o gérmen das doenças o presságio augurai do meu nevado Outono! A taça do Ideal – é um Tântalo dourado! talvez devaneando à cor de um lindo ocaso, onde as nuvens p’ra além, são centauros alados Mas, tudo passa e esquece – o amor os incendeia! escurece-se o azul à Luz da Lua-cheia,se a bruma acaricia as coisas por acaso!... Rio 916 E. Rosas Soneto Vai alta a lua lírica e silente,toda paisagem em sonho se embebeu! narra a si-mesmo o eco, vagamente... paira a auréola da luz dentre os céus... Parece madrugada! um galo canta... uivam de tédio os cães, não chega o dia! [pois] se o Luar turvou minha alegria... e a noite toda de uma mágoa santa! Outono! vão-se as horas... e lacrimosa é tão triste a vereda e a própria casa... traz saudades da vida religiosa! Cada vez mais o luar neva e cintila... seixos em pranto à flux o areal abrasa,e a água por ser ceguinha erra e vacila... Rio, 2-2-916 E. Rosas Outono de horas de Alma silenciosa... rola a última folha!rola a última lágrima saudosa!... Outono! Meu Outono que só molhaso campanário e as árvores, sem folhas... num rosário de pérolas algentes!... 949 Rio E. Rosas Rimanceiro da mágoa 915 a 945 A. Luzo (E. Rosas) Violino da Saudade... A Paul de Verlaine Encantado violino da Saudade, que desenterras o meu tempo azul; enlaivado da mágoa, que me invade pelo silêncio da minh’alma êxul... Choras... e o teu soluço se ilumina como Via-láctea que nest’alma mora sacode-o brutalmente, e se a domina põe suspiros de vento numa aurora... Eis a razão de tudo colorido:olfato, paladar, ouvido, olhar...rompe da sacada, assim como um gemido!... É uma forma de ser mais singular...que anseia muito além do meu sentido, Remotíssima’ orquestra a voz de um mar!... 918 Rio... E. Rosas A Ideia... ...ir ao fundo desse profundo e lúgubre oceano... Descesse a alma, como desce a vista ao tártaro da treva de um arcano; como um farol de estrela impressionista nesse profundo e lúgubre oceano... Por celestial, divina contingência,vejo descer às sirtes e às areiasa visão estelar, onde as sereias,vagam à lua p’la verde transparência... Por mal da noite em efêmera ledice: é galera, a esteira que predisse...À aurora, ser Dor, da minh’alma inglória!... Entre parcéis, recifes e amargores... naufragando no oceano da memória à Lua de perjurosos dissabores!... 945E. Rosas Súplica das Ninfas Ó cabelos das ninfas ouro a iriar-se!chorando à noite em lua no arvoredo: desgrenhadas visões do meu segredo, passando ao poente num espectral disfarce... Ó suplicantes formas de Beleza,todas de rastos, de aneladas tranças: Eleitas vidas, que alimentam esp’ranças... e erram de tarde em tarde na tristeza! Ó tântalo de sombra do sol-poente!... corpo aéreo de incenso... Horas rezadas... jardim lilás de orquídeas do ocidente! O imperdurável encarnação de Ninfas... Lá! se vão, sobre as nuvens reclinadas, como sobre corcéis, que cortam linfas... 916 Como sois doce nesse amargo transe?- igual a um lago que o ar da tarde franje... o espelho azul de superfície quieta... Vós sois iguais a neve aureolada,em róseos flocos ao romper da aurora: Tendes a linha ereta, como outrora tinha a palmeira de grácil estrada! Éreis a espuma loira da Esperança,o tule d’ouro, que enlacei minh’alma... essa expressão sonâmbula, que ensalma a eterna beleza, que não cansa!... Monólogo das coisas... Que vida religiosa, pareciasonhar na paz d’aquele cemitérioas plantas tinham alma e a voz dizia que falavam p’la boca do mistério!... Tudo revela, misteriosamente...As árvores eram numes, que falavam, e num vago silêncio do inconsciente... eram sonhos silentes, que rezavam?... Sobre a Asa de um sonho, quero tê-las! sim, oniricamente, comovidas...ver a noite passar sobre as estrelas!... E os Astros, repetir quase em segredo: num músico murmúrio... porque a vida:E um sussurro orquestral de vão degredo!... O que dizem as coisas... Que vida religiosa, pareciadormir na paz d’aquele cemitérioas plantas tinham voz e a voz dizia... Quê falavam p’la boca do mistério?!... Tudo revela, misteriosamente,as árvores eram numes, que falavam... e num vago silêncio do inconsciente, eram sombras silentes, que rezavam! Sobre a Asa de um Sono quero tê-las! Sim, noctivagamente comovidas, ver a noite passar sobre as estrelas... Espero a noite ao hálito do Além! perdeu-se pela estrada do Ignorado... (nesse eterno, monótono "-vai-vem"...) Narciso (Espelho d’Alma) Teu ser, além se aureola de Tristeza, meu sentido na abóbada distanteda tarde esvai-se em laivos, delirante... para encerrar na mágoa a natureza. Tua essência é memória transcendentee, mais surpresa de algo, que além mora: E um raio de lua transparente...no espelho dos lagos, lá, da aurora!... Vive em Ti por mim na imensa esfera, passas, como um meteoro, que arrebata; levando a alma para além-Quimera... Há Golcondas de Ofir nesse infinito e harmonias de um céu, que se desata... na superfície desse espelho invicto!... 936 Luar! Recado da Lua aos lírios, Eco da Lua pela garganta do clarim da abóbada a esvair-se como a vida em Quimera... Veias largas e extensas do nosso corpo – rios ou estradas onde corre capilarmente o carmim luminoso da Ideia, como faluas... Carta a além-túmulo Eu tive a conclusão de que isto é o nadae a alma é uma flor, que mesmo murcha odora... partir nada adianta, o mundo é a estrada, onde, já tateei e piso agora!... Todos os males, aqui vou sofrendo... partirei o mais breve, que puder:a mágoa, que alimento ela assim quer, crepúsculo profundo anoitecendo... Partir é uma ilusão de quem não vive!amo a tu’alma por sofrer comigo,E uma alquimia as horas, que não tive... Visão leda do Sol à Cor extinta!ausento-me. É tu’alma o meu jazigo... erro no ouro astral, que a tarde pinta! 916 Casal ao Luar E. Rosas Certo véu de sombra e olvido 914 a 1918 M. Cáspio Onde irão minhas Naus? ter a recifes!?... o ônix fundear em noite de ilhase a bordo ter cadáveres e esquifes?... Desengano voltar ao velho-mundo...e anoitecer sob um palmar de Antilhase ao longe a lua ver se erguer ao fundo!... 918E. Rosas Soneto Para além do que eu sou, oh! doida bizarria...E outro o azul, e não simples urna de ausência... São teus seios boiando à luz da lua friacolinas a dormir e o luar em sonolência!... Faz das rosas seu sonho o barco da Beleza... "Mãos à feição de concha" a embebê-las de Luar! Sonham olheiras cristãs as tintas da Tristeza, sois lágrimas da cor ficando por secar... Adormece em cetim os féminos odores, deslumbra e apaga a luz das pedras e das cores, igualando-se a noite em velas apagadas... Só! Teus olhos enevoaram a noite dos diamantes, guardam a mesma beleza dos olhos das violantesdos olhos ideais das Moiras encantadas!... 917E. Rosas A gente na nossa lidanão mede o tempo, que passa: passa aurora, passa a vida, Como um voo de fumaça! Noite de ausência
A ausência...É um longo inverno em torno do viver (A. Luzo) Quando alvorece o dia triste e lento, ou, vente e chova à noite sem parar... de manhã ouço opressa a voz do vento toda mágoa das horas a ritmar!... Tumulto estranho d’almas, num lamento entre o sonho e a demência a resvalar... são todas de minh’alma em desalento, num jardim de Além-Túmulo a vagar! Encarnação de voz numa só alma, manhã remota de horas a viver...que em gestas de arvoredo já se acalma... Acordarão num angelus de Outono entre a dúvida e as cinzas do Não-Ser... no mistério da morte e do meu Sono!... 26-11-914 E. Rosas Pastor-astralAs ave-Marias, matiz de matizes das flores dormentes à hora do poente na prata dos lagos que caí docemente... Fusão de matizes de pedras preciosas na minha ilusão,morrente nos olhos de alguma menina... Senhora do amanhãpassos perdidos pela imensa sombra...da igreja da noite...Pousam réstias de luz, clarões estranhos... desdobrados do manto das estrelasde espiritual claridadede olhos absortos para o infinitocomo quem sonhae comunga com Deus Senhora da Aurora da hora celeste!... 932 Litania à adolescência e outros versos (918 a 47) Ernani Rosas (N. Luzo) Noite de Valpurgis Náufrago brigue do Éter e do Sonho, derramando um clarão tíbio e suicida... O sol acena um áureo Adeus à Vida e doura a imensa estrada ante-sonho! Âmbito argivo em mármore de estranha visão de torres e cruzes brancas,onde passaram adejos de asas francas das aves, se o Luar neva à montanha... Gotas nitentes pela luz douradassão pérolas que um mar verteu um dia, junto às areias gris das alvoradas! Exaurindo-se à Luz dentre a agonia, difunde-se qual tule em nuvem alada... para voar a tua fantasia!... Rio (914) E.R. Soneto À memória de Ronald de Carvalho Alma, sobe ao teu cimo transcendente, na tua ânsia de indelével asa...e fulmina o destino impenitentee o Elo hercúleo, que teu sonho apraza! Não devemos a Dor nunca abrigá-la nesse âmbito êxul da fantasia,todo bordado a pérolas e a opala de uma tarde longínqua em agonia. Quando eu d’aqui me for, hei-de falar-Te... do teu saudoso Adeus à terra e ao mundo, nirvanizado p’lo fulgor de Marte!... Acenarás à frouxa luz da hora,de uma Estrela, do claro azul profundo... do hálito argivo de uma eterna aurora!... (935 Rio)E. Rosas Os teus sapatos vermelhos! Imóveis, como à espera da Dona para os calçar: quantos espinhos tivera neste mundo, que pisar... Talvez, em busca de um sonho,de ventura, meu Amor!de ventura, que suponho... morar à milhas da Dor! Amanhã, empoeirados... velho, encardido o cetim, ficarão abandonados... Os teus sapatos vermelhos, que cingiram os teus artelhos... olvidados, já por fim!... Rio 947 E. Rosas Que pé de Deusa ou Anfitrite, calça um sapato tão leve? pisando tufos de neve... tapetes de clematites... 947 Rio E. Rosas Simples problema me assombra! dentre a hipótese seduz:"Se a luz é filha da sombra,ou a sombra é filha da Luz!..." 947 Rio Talvez, teu sentimento não me aqueça, pela simples razão de ser tão puro... o afeto é fogo eterno que no escuro fulgura mais que o Lume da cabeça!... 953E. Rosas Enquanto os mais meditam Deito o olhar entre as trevas e vejo a noitedesdobrar o seu manto consteladoe a linha do horizonte enevoadodesdobrar-se p'la Dor de rude açoite... O vento e o mar dramáticos investem contra as fráguas: é a vida, a fúria humana!...e fecham o grande círculo da insanaluta dos elementos, com que vestem A órbita do mundo sem poesia,que decresce p'lo Tédio dia a dia...e, a gente sente indômita saudade!... De volta ao inerte e à frágua dura,diante da "Eterna Aurora" sem venturaque se resume em lama das vaidades!... Rio 947E. Rosas Soneto O meu pintor da Luz esboça tintasde pródiga nuance misteriosa,meus ideais desmaiam na radiosatrajetória banal de horas extintas... A trirreme das fúlgidas quimerassingra buscando pérolas e plagas...e os meus versos são lumes e galeras,sangrando as armas e tosões nas vagas... Uma epopeia atlântica revivena redenção do Sonho, que a minh'almamoldura em magia, e tempo que não vive! Repercutindo oceânica conquistaee amoroso mistério que nos salmao vitorioso ardor do meu artista. Veneno que não cura 949 E. Rosas Todo passado é um rápido segundo: sonhos e amores, tudo lá se vai!anelos e paixões que o pó do mundo apaga e encobre, quando a noite cai... Ilha de luz radiante a nossa estrela, namorada da esperança e da Quimera! voltando o dia fico à sua esperaà janela da noite para vê-la Bendita seja a luz, que assim me ilude... a beleza fugaz, que nunca pude... dominá-la e detê-la, longo instante! Louvados sejam a Vida e a terra toda e o noivado da luz em fulva boda que envolve de carícia o sol radiante Rio 949 Esperando... esperei a Vida inteira à janela fiquei té, que a fileirade estrelas pelo espaço repontasse... Eis o encanto do engano, sem ventura... o veneno que mata e que não curaou se cura enlouquece a quem tentasse... 949 Rio E. Rosas Raiz do tédio Vivendo, como vivo desoladoa lidar entre os homens venturosos tenho tédio por ser um condenado a mentir no viver entre ditosos... E a mentir morrerei divina Musa p’la ironia da vida e do meu fado porque eu não morri, quando fadado p’la sorte, para além da "terra Lusa"?! Fui um rebento verde que minguara vivi à sombra d’outrem por piedade... não de Dores com o [...] o aguardara Envelheci... ficara desfolhadopobre choupo no Inverno enregelado a bocejar ao vento e à Eternidade... 949 Rio Amor e lama Alma de cortesã, alma de lama, vestida de veludo e pedrariasatravés de tua pel’fulgura a flama dos germens da luxúria e da anemia. Planta exótica — cactus da esprísia na volúpia da lua e da agonia...p’la ambarina neblina dessa incúria que envolve estrelas e escurece o dia... Lama fulgente, patamar da Tarde eco vago de sino amortalhandoa envolvência violácea desse alaúde... Que vai morrendo com som rouco e aziago pelas quebradas teu corpo errandoem procura de amor que não foi pago!... Rio 949 E. Rosas Da minha janela aberta, vejo passar muita cousa! Toda amargura liberta, para a tristeza da lousa... Ao homem de sentimento, a vida não vale nada!a vida é nuvem, que o vento leva à luz da madrugada!... Ó homem desamparado, a tua vida sem guiaé a corda de um relógio que trabalha em agonia!... Marcando horas aflitas, instantes de desventura... Que sejam sempre benditas as tuas horas escuras!... Rio 949 E. Rosas Errando teus lindos olhos pela fronde da alameda: cisma o cisne de uma Leda p’la sirte de meus abrolhos!... E ao recair em repousotodo jardim no veludodo teu olhar, onde pouso... todo o sentido de um mundo!... 949 Rio E. Rosas Outono Outono, meu Outono nebuloso, choras por mim como gentil criança... o teu pranto meus sonhos embalança num ritmo de Saudade doloroso... Chora teu ser pela vereda branca,neva teu manto e as folhas caem frias, que cruel e letal melancoliavela a paisagem que a doçura estanca?... Só vejo ruínas, casarios ermos!há neve em meu caminho desolado, a dor tem ar de míseros enfermos... Sigo aos tombos já velho para a Lida Sou a cigarra que viveu no prado e não viu flores pela sua vida! Nossa sentença Sofri... chorei e o pranto deslizava,como um rio p’la noite sem luar...e as noites eram vãs e em mim queimava o fogo de um vulcão canicular!... Vi a noite passar! Seguir-se a aurora... e mais auroras vagas de Elegias,e a dor continuava, como a noraQue o choro nunca cessa p’la agonia... Para aonde iremos irmãos nesta jornada? entre a cega ambição por um ideal e o desalento d’alma fatigada... Iremos penetrar na alva floresta de lendas e crepúsculo, por esta... Estrada azul fugindo ao nosso mal!... 949 (Rio) E. Rosas [Plaquete sem título] Amor! Esperei-Te esta noite à margem do caminho, a aurora era silente e a névoa muito fria, Tinha sono e cansaço e longe do meu ninho senti desfalecer a minh’alma vazia... Olhava para além, pela estrada deserta nada avistava, que pudesse me alegrar: tinha minh’alma erma e o coração alerta,Só, noite entorno a mim, amor, a te esperar... Abalei-Me descrente e noivo da esperança, na ilusão de amanhã então nos encontrar... para irmos talvez de braço com a aliança do teu olhar azul amor a enfeitiçar!... 944E. Rosas Penumbra do luar Noite de lua e nevoeiro, argente difunde-se o luar pela folhagem...com a mesma languidez vaga e dormente da chuva, quando cai sobre a ramagem... Como música ao longe e som dolente recorda todo esse abandono... e a aragem que passa, agita o olor suave e florente vindo das messes, da vernal paisagem... E o luar cresce através de ermo arvoredo, noite chuvosa e triste a Lua ateia...fluida névoa de luz... sonho... segredo... Ao ressurgir das coisas na saudadeque o silêncio evocou... e à luz ondeia Erra na morta e fria claridade... 914 Vontade oculta Toda uma força oculta nos domina, entrechoca-se as ânsias com o desejo; nossos sonhos são nômadas no adejo de incontida vontade peregrina... Ao longe, muito longe em moribunda claridade de tarde sibilinaadejam as esperanças na neblina, que a natureza extática circunda... Há sempre um sonho a esvoaçar na mente, mas a força divina, que desmente,arsilada de todo o coração... Porque a aurora é uma pálida Quimera! Talvez, efeito de avernal craterada luxuriante chaga de um vulcão!... 943E. Rosas La Noche de Las Quimeras 918-945 (A. Luzo) E. Rosas Mãos do destino... Oh! jaspe com rubins.. d’aquelas mãos dormidas, indolentes, pendidas,que vi colher jasmins... e hão-de fechar doridas,no Sonho, o meu – Viver!... 918E. Rosas Na vizinhança das estrelas Moro com Baudelaire e mais um gato pretominha ardente paixão e doce companhia, aumenta-me o prazer e a linda bizarria... de ser possuidor de uns olhos de amuleto! É meu vizinho ao lado um jovem sapateiro, prazenteiro e feliz em calçados labora para a futilidade à luz de um dia inteiro, Ei-lo a cantarolar... liricamente à aurora! Cantarolando finda_ até que vença o dia! e o crepúsculo traga à longa face fria,uma lágrima em som de mágoa e solidão... Oh! bisonho Viver... que vontade me trazes!... Desejo de ir ao campo e aos esponsais do verão...ver a luz estiolar os ninhos e os lilases... 917E. Rosas Cantigas do povo! Dizer que as canções do povo não têm autoria certa:E negar, que a luz que entra... vem de uma janela aberta! A pedra, as ervas e as areias também tiveram princípio vieram do ventre das "cheias" do rio de um município Algumas milhas "d’aqui"!que vêm quebrando entre seixos aqui e ali, onde deixo...um sinal, onde esqueci Todo bem pelo Senhor! a vida do meu Amor!pra provar que tem começo Pai e mãe pelo Senhor! A cantiga, que a vizinha canta de manhã meu bem! Pode ser tua e ser minha ainda ser de mais alguém! Ela teve origem e berço, embalou-a o meu Amor! ela anda no meu terço de amarguras e pudor... Rio 941 Soneto: Morte romântica Se eu pudesse dormir mais cedo do que o vento acautelar a dor e o coração desfeitosonhar pelo o infinito e viajar no Eleitoe a arcada percorrer do astral em pensamento! Adormecer de vez à dor desse oceanoimplacável, sinistro, o monstro vagabundo...que anda errante em além-Hora, atravessando o mundo, ou, o universo-sem-par dos ideais e arcanos... Morar silêncio e pó... seria uma Utopia... – a riqueza maior de todas as Quimeras,Não ouvir estrugir o mundo da alegria!... O éter fluído transpor na angústia que o deplora ser noite e converter-Me em Lua de outras-eras... verter sobre o teu corpo as lágrimas da aurora. Rio 937 E. Rosas Irmã do meu cismar e dissaborVida, que és alma p'lo carmim das flores...em pleno outono recordais o Amor... Poemas avulsos Safo! Fascina-Te a beleza e a formosura langue, a juventude em flor ao vir da puberdade... quando alguém desabrocha em sentida vaidade o infrene furor da languidez do sangue... Preferes a mulher dentro da extravagância, és excêntrica e lésbica de forma voluptuosa... masturba-se teu ser na áurea langorosa,tensa instinto de hiena e capro na inconstância Liba da nuca ao ventre o corpo de uma ninfa... Enlaças-Te ao pescoço e num desejo ardente, Oscula os pés e o seio seu carícia de Linfa! Tens impulsos de Adônis em tua ruiva cegueira lncubo feminil, que sorves lentamente,o almíscar carnal de tão doce maneira! Nova Iguaçu 951Ernani Rosas Soneto Deixa as altas penumbras do teu mundo e desce apenas aos umbrais da vida: verás então a dor indefinida,a arte de satã gênio fecundo... Ouvindo desfilar ante a piedosaalma triste, que tens, de combalido... à sarcástica, lôbrega e andrajosa ironia dos lábios dum vencido... Sentirás transcender pela memória em relevo a tu’asa, que assemelhaum troféu de esperança para a glória... ressurgirás edênico e intangível! ante o mistério de uma noite velha,como dum gênio o espírito invisível... 917 Soneto Quando a luz em vislumbre me alucina e deste olhar a luz que o viu nascer esmorece na tela vespertina,como o fogo que ardeu e vai morrer... Unjo o olhar de ternura e est’alma reza tendo erguidas as mãos para o invisível, murmuro alguém, crepúsculo e tristeza, não da terra, do páramo impassível... Penso nas ermas causas do intangível, no mistério quimérico ilegível...e que à luz mal se dão a conhecer... São por certo visões, que no Ocidente agonizaram à luz amanhecente! e hoje jazem nas cinzas do Não-Ser... 917 Soneto Duas almas enfermas se casaramuma veio da terra outra do céua de Deus foram os anjos que a sonharam a outra a sombra não pura a concebeu. Uma teve o perdão pra agonia a outra a tentação que a adolesceue a fez cúmplice lúgubre de um dia desse crime que é vida, que a abateu... E fizeram este livro de incertezaque, a asa ancestral dum vento em noite escura deu-lho o batismo e mais minha tristeza... Efeito duma hora de EsperançaÚltimo eflúvio triste à luz d’alturaque, se perdeu por mim, quando criança. 917 Avozinha Ao luar do Quarto-Minguante O luar é uma avozinha do Outro-mundo que desce à terra em certas noites ermas é clarão que se espalha moribundo sobre leitos de lívidas enfermas. É uma luzinha, que atravessa a medo em certas horas o choupal deserto... e embuçada no xale a passo incerto a um triste albergue se recolhe cedo Meia noite, ela sai estrada aforavai ter a um campanário aos pés da cruze, só, de lá regressa com a aurora... O que ela à noite lá irá fazer!rezar?... ouvir o místico Jesus...que converte o descrente e o faz viver!... 917 Balada Minh’alma sonha caravelas, que hão de da luta regressar;lancei ao mar minhas galeras e nunca mais pude voltar. Parti p’ra vida em frota armada, fazia lua em teu olharera meu sonho essa jornada e a vida nunca realizar... Parti p‘ro sonho em frota armada, só! morto hei de regressar. Aldeia do luar... Aldeia branca da Lua, aldeia da nostalgia!É o Luar da meia-Noite a minha monotonia... Aldeia branca da Luapercorrida em serenada de nossa alma saudosa,quando do corpo afastada... Tenho saudade das tuas noites-minhas-Alegrias... memória das tuas-Luaserrantes, no céu de um dia... Tua presença saudosa brilha em minha nostalgia; como uma noite distante, oculta na fantasia!... 1932E. Rosas Adeus! oh! fonte magoada... fonte, que choras sem termo: quero ouvir-Te à madrugada, — voz de saudade do ermo... 914 Alegria alheia Eu gosto de andar alheio às alegrias d’mundo:porque na vida ando cheio da utopia do Além-mundo!... Eu tenho uma volúpia p’la tristeza um culto singular ante a alegriacontra o riso imbecil, contra a ironia, dos que nunca se encheram de beleza... Convalesço de um mal irremediável das dolências senis do coração, amo as tardes serenas do insondável sob as brumas de ideal cogitação Eu gosto de errar só, por noite fria por ruas ermas de silêncio inermelevado pela minha fantasia... Longe da boca rúbia e malfazeja de aveludada púrpura epiderme,que num sorriso irônico me beija!... 944 Quando penso, que ‘stou longe alheio do teu sorrir:vem de súbito a lembrança do modo de teu dormir!... Elogio-da-humildade Quando é longe-manhã e a luz esboça vaga insônia lunar-minha Saudade! Eu compreendo o sonho-irrealidade, que em cada ser distante se alvoroça... A árvore tem pejo de ocultarà noite de seu corpo enlanguecido, tanta mágoa e silêncio adormecidoem vozes, que a minh’alma faz sonhar!... São as pedras chorando à sombra — Olvido o seu amor em vagas de verduras, tornando-Me mais langue e comovido... Por muito amar e o Bem nunca encontrar, Sê! mesquinhas e tristes criaturas...e as pedras venturosas por amar! 912E. Rosas África Às areias do teu seio À estrada de um Oásis que o deserto margeia dormitam os areais à luz que inflama e doura; à viração coleiam os cômoros de areianum oceano auroreal que tormentoso agoura... Caminha e ondula a serpe em frêmitos de chama a revolta do areial tem ondas luminosas:E um súcubo a estorcer-se o ardor de fulva flama,A alhambra5 singular das tardes misteriosas... Passam p’lo seu olhar de pétrea indiferença a esfíngica beleza em roxa tinta morna a doçura do oásis e o ciclone da ofensa!... À superfície azul a abóbada se tinge...e a flor da sua boca em tântalo se torna,E seu divino olhar nos olhos de uma Esfinge!... 943E. Rosas Queixumes Para que tanto queixume meu violino da Saudade coração que a dor invade numa onda de perfume... Coração, que o amor esquece não Te vale o teu queixume, flor de lume...quando a noite do azul desce! Para que essa tristeza,violeta do jardim:Lis do campo, que a beleza lembra uma ânfora..., rubim!Lis do campo já saudoso, Pôr-do-sol-régio-marfim... Para que tanta Agoniamelancólica do Outono; refletindo à face friadum céu pálido absono!... Para que tanto queixume... ora a fonte a sua véspera, ouve! o Amor é pirilampo, anda em busca de negrume!... 932E. Rosas Torre de David Eu queria encontrar um saibro que fulgisse como a estrela a descer no azul crepuscular, o rubi; o diamante; a pérola que disse alguém ser encantada e andar à flor do mar! O ébano, o marfim, o jade e a madrepérola, translúcidos; brilhantes assim como o Luar!ou, mesmo, opacos, como os vitrais que flamejam se lhes bate de leve o raio irial, solar... Para eu assim, poder burilar no meu sonho a torre que eu almejo um dia construir! trarei comigo o Amor — o lírico arquiteto,ao reino da minh’alma — a misteriosa Ofir!... 941 Rio E. Rosas Safo? Coroada de pâmpanos e rosas à sesta de bucólica latadase debruça à piscina enamorada, pelo esplendor das horas radiosas. Cena-desnuda, banha-se na Linfa da fonte, que se azula de ansiedadee a luz crepuscular doura-a, qual ninfa roubando-lhe a alma, com vaidade... Aurora e poente do seu rosto lindo entrelaça o vergel do seu cabelo,que se desata em caracóis de infindo. Brilho soturno de noturno céu...onde a nudez de Estátua em sonho belo ergue-se em súplica ao poder de Zeus! Rio 952 E. Rosas Safo? Possuidora de plástica belezaAma as fontes e as flores e a harmonia; Vê nas flores sensuais a natureza estranha de seu Ser, ópio extasia... Perturba-se ao mirar água da fontejunto a uma jarra, a franja rendilhada e vê florir em sua linda frontea grácil expressão da madrugada É Ninfa! É Vênus! dentre a psicose permuta-se em desejo luxuriante tem carismas de Efebos e Afrodite masturba-se por atávica nevrose coleiam p’la su’alma de bacante as ondinas do reino de Anfitrite!... 945 Rio E. Rosas O sonho das águas! Pela noite o rumor das águas desce quebrado de saudade memorando, há paisagens ao fundo recordandoo seu drama espectral de sombra em prece. Sonham as águas ao luar: Mistério e origem! gênese e morte em sonho que passou... como que dentro delas uma virgem reza e ajoelha: é noite que baixou... Volúpia de ser dor — Água corrente!emboscada de sombras ao luarcom punhais a luzir n’água indolente,que à lua em tons de serpe andam a girar... O sonho d’águas claras palpitando, visionando ao luar longínqua fala;a noite em lírios d’astros se esfolhando, Como rosa que pálida se exala... Alta ponte de sonho e nevoeiros de crepúsculos místicos e friosque descerão por vales, por outeiros, ao prelúdio nostálgico dos rios. De quantas gotas se farão as águas, de que beijos de luz se faz o luar?... Eu fiz os meus sentidos do acordarduma manhã de inverno absorta em fráguas Fiz das ondas do vento, ondas de incenso, do sonho fiz crepúsculos distantes, quando o olhar é como um branco lenço acenando pras velas almirantes!... Águas do mar sonhai p’la noite nua,a espectrar longe de saudade e outono!... como quem desce ou sobe nalgum sono de sepulcrais aparições da Lua... Temores de soturno p’la alameda Como trêmula sombra de luar! alucinando, impressionando, leda, parecendo que a tentam a arrebatar... Águas que sois mistério e luar inquieto ondas que sois o Mar a tumultuar sonhai na graça aflita do irrequieto que o céu desceu e é todo céu e mar Acalmai o furor de estranho aflitovoz das águas, dos rios a girar,que as estrelas do azul e do infinito dormem ao fundo de vós, sem se apagar... E só se aquietarão à luz do diaComo do luar essa irial penumbra, que num bronze de sombra e nostalgia funde o Perfil da noite que o deslumbra!... 915 E. Novo E. R. Rosas Perfil castilhista Andava do vil Herodes para o pudico Pilatos:de castilhista a jagode, fez-se nobre maragato!... Deu sota e ás no partido, como chefe radical!teve brado de sentido, abafou o Integral!... Equilibrou as finanças,o Saltimbanco bancava...para o equilíbrio da Esp’rança! Há tempos, em hora preta passou-se para a aliança...(como ficha de Roleta!...) (932 a 42) E. Rosas História do gosto Não amo a ruína humanaamo a mulher que me amou:sou como um céu, que uma estrela não o pertence... rolou! Não vejo a ruína, vejoa aurora, a vida a romper:o encanto d’alma, um sobejo, do nosso Amor a viver!... Não há belas, nem há feias, apenas gozo e poesia:quantas não trazem por peias, no seu sorrir a magia... Eu quero ver mergulharno abismo da alma humana, o meu olhar que se irmana... ao raio da Luz solar!... Vejo à aparência obscura numa psíquica aurora:Jesus, que na noite escura aos corações traz boa hora... São irônicos, os aspectos! Muita vez linda mulher, tem fluídos secretossem multa vez se prever!... E de esquisita roupagem, o gosto da nossa alma:ama o luto, odeia a imagem... da nossa ilusão, que ensalma! Por isso eu amo uma pedra, por mais espessa que seja: mesmo que nela não luza... o ouro da luz, que beija!... A graça, a harmonia infinda, do teu olhar tateando...de mão estendida ao nada,aos tombos, desencontrando!... À f’licidade na vidade encontrar uma guarida:Vem comigo... há muito abrolho, A estrada é longa e comprida!... 946 Rio E. Rosa Nas regiões do "Exílio" Quem sonha, esquece o tártaro do abismo, do val da Vida para além da morte: tem-se a impressão de torvo cataclismo, quando a alma se eleva num transporte... Num cortejo de sombra dentre estrelas, perdemos de nós-próprios, o vão recorte... somos fluidez do ar, ao léu da sorte, difundidos na cósmica procela... Levamos a saudade dessa amantedos versos de uma noite, que passara... sob a Lua de Deus, que vai distante... Diante a benção de Deus, se merecemos... desfilamos, qual sombra que escapara, ao exílio da selva que tememos!... 945Rio E. Rosas Soneto: "Spleen" Causa-me espanto a mágoa da criança, tenho horror ao prazer desenfreado... à bacanal, à orgia, por pecado,à carne inerme, que nos gera e cansa!... A Luxúria brutal, a serpe infrene,que o veneno sutil nos alimenta...a ebriez singular do Ópio que alentae o olhar conduz a um âmbito perene!... Oculto-me no Antro do meu ópio,erro por mim, p’lo paraíso alado... de um perene florir de Heliotrópios! Vejo sorrir "formosa Primavera"! fria e aloirada do semblante amado, A Quadriga arrastando pela esfera!... Rio 947 E. Rosas Soneto impressionista de Antonio Luzo "Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes dos ventos, vivos, vãs, vulcanizadas." Cruz e Sousa Seduz, embriaga o pensamento, anula toda memória para além da vida, é um vinho sedutor, que me estimula! o coração de fibra envelhecida... Quando tudo é silêncio e a alma da Lua, Quando tudo se exulsa e os astros descem para melhor ouvir o que tressuanos bordões pelo ar, que se arrefecem... É quando já se vão... fica a lembrança da asa fluida do Longe e o último verso de porta em rua, p’ra desesperança... Guardo-o comigo, no meu coração, fica a adejar no ouvido o último terço... guardo a saudade da última canção! Rio 932L. Rosas Tu, que habitas a noite, o Universo,os mundos celestiais, onde, alguém mora... que juízo fará da Luz da auroraesse gênio, que vive em sombra imerso? Noite de Valpurgis Náufrago brigue do éter e do Sonho derramando um clarão tíbio e suicida, o sol acena um rubro adeus à vidae doura a imensa estrada, que ante-sonho! Âmbito vago em mármore de estranha visão de torre e de cruzes brancas,onde, em indolência adejam as asas francas das aves se o Luar neva a montanha!... Gotas sanguíneas pela luz dourada, são pérolas, um mar verteu um dia rente às areias gris das madrugadas... Esparzindo o crepúsculo a agonia, esfarrapa-se em tules de alvorada... para voar a tua fantasia! Rio 919 E. Rosas A Ideia Da Ideia ardera o espírito sagradooculta e original pelo idealei-lo a esvair-se no crisol dourado como centelha de desejo astral Veio da noite anímica e espectrale em fumo consumiu-se etéreo e airado teve anseios, dum mundo espiritual desespero d’uma asa em voo alado O fogo, que as paisagens do meu gosto devastou no passado, vai lavrando... por mim uma tristeza de sol-Posto. E ressurge dum mundo de surpresas,Como um anjo em minh’alma se esgarçando... Um oculto vislumbre de belezas!... II Dentre um dilúvio d’asas e de chamasergue-se a Ideia em lume estranho e fumo e das brasas o ouro que derrama– é um Mar de lavas, que se vai sem rumo... Lume oculto que à luz do sol presumo cegar de suave pelo que se inflama e o ardor interior chegou ao sumo, escrínio a confundir-Te sob a lama... Lume ignoto da Ideia constelada como astral ascendente nebulosa, que irradia no Além d’água parada... Aproxima-se-lhe as Horas espirituais, que percorreram a escala misteriosa, que, Deus desfolha em rosas Outonais! III Como um prenúncio oculto de luz n’água, de extático mistério inanimando: a Visão e a Beleza despertando, são Esfinges de lágrimas e frágua... Oculto encantamento que lavrando de ser em ser essa divina mágoa, vai em silêncio anímico acordando as figuras de mármore na água... Pelo Incêndio da Tarde inanimada, São profundas as figuras ao Sol-Poente que se gelam na paz marmorizada... São perfis vagos de crucificados!os chorões, no crepúsculo silente...Ouvindo a voz cristã dos céus magoados!... 917A. Luzo (E. Rosas)
Fecunda o pólen no crisol douradoEi-lo – o lírio do ideal, que assim Mora...e oculto esvai-se em sonhos como a aurorano frouxel da penumbra ao luar prateado... Da tristeza Eu busco os sítios, onde ninguém passaà luz macia dos noturnos...com pedrarias e cristais sem jaçacomo ocasos transidos e soturnos...Oh! sítios ermos onde ninguém passa...como sois sugestivos ao crepúsculo,com projeções e sombras de pinheirose manchas que desmaiam na penumbra,quase sombra de almas dolorosase ausência da sua alma...num nevoeiro turvo e misteriosoânsia crepusculada, nesse ângelus d’alma...Eu quero a hora extática,e a tristeza dum lírioque em mágoa e olor é outro lírio a abrir! Como eu amo a ausência de teu ser discretoe a presença da tua hora azul,que para mim tem a fisionomia triste e suave,de quem morre a um crepúsculo de outono!à meia luz de face acinzentada,pelo cair das folhas... Oh! círio do Sol-Posto!velhas a orar... Sombra a cerrar olheiras,pela boca da Noite. 915 VII Jardim dormindo som d’água corrente, guardando nas retinas de seus lagos...um quebrar de vitrais à luz morrente, dum convento encerrado em bosque aziago Remota voz de fontes retornando... a fontes mansas a um luar de Lis!Com reflexos fulvos, recordando... Hidras – platina – hierático matiz! Um rumor d’alma apura-lhe o sentido... cair de folhas tontas sobre o solo.A hora, quando o Outono põe o Ouvido! A um sopro d’Asas, flébil de cetim... recorda ess’hora azul em que me estiolo...Folha – Outono a rezar saudade em mim! 915 Súcubo "d’alma" O meu príncipe encantado E um alferes de polícia,que anda sempre embriagado do meu hálito em carícia! É alto, elegante e moçoesguio como um cipreste:Traz um número ao pescoço, Tem um ar sombrio e agreste... Dá-se muito com um rapaz, que tem por nome Barbosa: E bonito... e não loquaz,tem uma fama pouco airosa!... Se a sombra e as pedras falasseme os choupos desta cidadecontariam muita coisa,que andam à roda de uma fímbria Idade!... Rio 952 E. Rosas Naufrágios Ó Brasil da mentira e da Quimera O Terra cavalar de Vera-Cruz Terra de sol e Azul, profunda Esfera Terra da luz que nunca deste Luz Ó sombra amargurada de Utopia que respiras a calma de sossegos Caravelas de minha Nostalgia Onde todos marinheiros eram cegos Tendal de serras quem de fora olhar-Te não dirá que és a alma que deliraa Canaã de todo forasteiros Que és a morte do espírito a nevar-Te a foli de comédia que servirapara do sonho ser o meu coveiro!... II Em criança infelizmente me par’cias melhor que és; por respirares mansa à roda da minh’alma de utopia eras um horto d’alma e de esperança Mas sempre tive a vã desconfiança que me fosses fatal e à luz do dia quando os montes enublavam-se, jazia a alegria que tem toda criança... E com tristeza vi a nau que eu ia desviar-se do Ocidente desta vidae perder-se ao mar-largo da Agonia Que era um grito de horror da raça humana Pensei ao ver minh’alma-confrangidano naufrágio da gente Lusitana!... 917 Sonetos Tudo que é sempiterno anseia a altura fecunda e sofre e o amor de Deus revela O humor que anima as coisas e a criatura É um oculto poder que se irrevela... Presumo vir do ignoto que a natura ironiza e perfuma e em dor constela pelo silêncio extático de escuraencarnação sublime d’alma em estrela Sonho e verdade em carne panteístao perfume é uma flor de transformismo que o músico não sente e a mão não pinta. Só, o Poeta dá-lhe cor, forma; o alquimista desfaz essa ilusão, que há no ocultismo da flor que anseia olor após extinta. 917 II Tudo é revelação de alma clemente tudo é sombra e recorda um ser criador o perfume é uma saudade adolescente do jardim que o esparziu de morta flor Tudo é orgânica essência em riso e dor Argila e Deus! Amor convalescenteAlma segreda aos céus depois de ausente, Tudo que foi na terra esparsa em olor. Ó Versos de saudade e de Tristeza ditos ao vento... que serão de vós, do vosso verbo e luz na natureza!?... Soltos a esmo como um beijo etéreo... distância a diluir-se numa voz,que se perdeu nas raias do mistério... 917 Nostalgia dos Cães Para David Thomaz Silêncio. O Luar pias águas vai fugindo! Estagna-se de incerta a hora em azul. Fenece a noite-azul Melancolia,os Cães vão a sonhar, latindo à Lua... Monotonia. A noite é antigo Poema a rimas d’astros, versos de tristeza... Cega em farelo às pedras dum diadema a funesta ardentia das estrelas... Paralisa-se o vento ante o silêncio, todo rumor da aldeia enrouqueceu! um fluido anestesíaco correu pela su’alma luarizada em Fim... Nostalgia dos Cães sangra Saudadepelo Não-Ser da Sombra-Virgem ainda... (cães) (não latem) à lua, ao Inconsciente! Pois eles têm mais alma do que os homens. Dormir é bom, tendo as portas fechadas, fingir luar interiormente, o Sono...dormir ao luar é melhor, como dormia Leal guardando em mágoa a minha Aldeia! Os cães latem a saudade d’outras-Noites, choram as ricas misérias do seu fado: a alma dos cães é um lânguido aurevilGuitarra d’alma airada das quimeras... Contam o ruivo mistério d’Outras-Eras ao ritmo misterioso do luar,sua Tristeza é Água deslizante,Luar correndo aos silvos para o Mar! Crepúsculo nostálgico da Mágoa, nostalgia profunda do latir!o uivo é um delírio de remorso, Meu Interlúnio à lua, a prosseguir... Conto a melancolia em minha sombrae o cão é o Outro que me segue às vezes. quando eu vou a criar em noites brancas sob a boca dum sonho, os meus reveses! A Cânfora da mágoa anestesia-me lembra o vento da noite, no sossego... há no latir o amargor mais cego e a Dor imaterial de renascer Eu sinto em mim latir a alma dum cão... talvez eu tenha sido em outro Tempoum cão também... uma alma mais boêmia do que essa, no eterno divagar! por isso eu amo os cães e os animais e os seus olhos mais doces e azulados, onde há longínquos arcos d’altas pontes e muito sonho em velas iriais... onde o meu pensamento se ligando vai ter ao seu e somos um só corpo, corpo imaterial, alma incorpórea a diluir-se por haver vivido!... Angelus de Rosas (O Espírita) Sonetos I Nunca mais olhar quebrado nas olheiras cor de lírio bebi esse luar velado das pupilas do martírio. Foi numa tarde distante d’um crepúsculo sem-fim, que da banda do levante a tarde chorara assim!... Nunca mais olhos magoados vi nas místicas retinaschoverem lírios dobrados pelas horas vespertinas...nunca mais, ah! nunca mais... ouvirei suspiros d’Ais!... 917 II Dentro de Mim, um Outro urde negro destino, urde a lenda da raça em torre de ilusão!E é rival meu no sonho esse monstro divino, fez-nos Deus duplo ser, tendo um só coração... São dois gêmeos irmãos, que se beijam e se odeiam; Filhos da mesma Sina e do mesmo Infortúnioe erram sob um luar num distante Interlúniode saudade e veemência – ardores que a Lua anseiam... Sou um misto de Luz e Deus... deliro arcano! mistério e luar perdidos a seguir as Galerasque esculpem em sonho o Além desfeito no oceano... O ardor da carne anseia um outro ser, enfim! sou o fluxo-refluxo eterno das quimeras...que chora esse outro alguém, que já viveu por Mim. 917E. Rosas Eu? Eu não sou santo, nem milagres faço, em casa ninguém crê no meu poder: rimo versos, componho Estrofes e passo Horas inteiras alheio ao meu viver! A minha musa é uma ama desvelada, com incessantes cuidados para mim! não dorme, não sossega, já, coitada...mais, que uma mãe, com seu carinho, assim! Mora na minha ideia essa criança, Sem um só laivo rubro de paixão!a cantar e a embalar-Me na esperança... De um dia a minha "Torre" construir! toda de pedrarias e ilusão...constelada das pérolas de Ofir! Encantado 946 "Casal ao Luar" E. Rosas