LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

 Filhos e netos, de Araújo Figueredo


Texto-fonte:

 

Juvêncio de Araújo Figueredo, Poesias,

Florianópolis: ACL, 1966.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Filhos

 

Desdêmona

 

Smyrna

 

Elzebbad

 

Antônio

 

Florisbela

 

Debbora

 

Luiz

 

Conceptta

 

Dolorata

 

Maria Conceptta

 

Zarina

 

José

 

Samaritana

 

Paulo

 

Maria Cleofas

 

Cirineu

 

Pedro

 

Netos

 

Newton

 

Ondina

 

Lycurgo

 

Antônio

 

Juvêncio

 

Urânia

 

Nazarena

 

Clécio

 

Léa

 

Jandir

 

Maria Helena

 

Mário

 

Conceptta

 

Marília

 

Hércio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Filhos

 

 

Quem há que tenha filhos e não cante

E não chore também. Quando eles cantam

Noss'alma canta uma canção vibrante,

E os seus braços nos erguem, nos levantam.

 

Quando eles choram, num lugar distante.

Ou bem juntos de nós, nos alquebrantam...

E com eles choramos, todo o instante,

Prantos cruéis que o peito nos suplantam.

 

Com braços amparando os nossos filhos

Que são correntes fortes e cadilhos

Dos ansiosos corações paternos,

 

Rindo, iremos por eles aos espaços,

Sem tormentos, soluços e cansaços...

Chorando, desceremos aos infernos!...

 

 

 

Desdêmona

 

 

Por mais que nos amássemos, gozando

Do eterno amor os pomos sazonados,

Uma falta existia, em nossa casa. Eis quando

Vieste dum mundo dentre os mais sonhados.

 

Bem-vinda sejas! – Digo-te cantando...

E como uma ave, dos azuis banhados

De tanto luar, de luz me vais banhando

O peito, a alma e os braços fatigados.

 

E eu disse aos anjos: – Para a grande boda

Descei, ó anjos, todo o vinho, e toda

Essa luz que parece um trigo louro.

 

Pão asmo e vinho... E flores, as mais belas,

Na nossa mesa; e, no alto, as Sete Estrelas.

Lembrando sete candelabros de ouro!...

 

 

 

Smyrna

 

 

Tão simples e tão pobre a nossa casa,

Sem riqueza, a não ser a das roseiras

Que lhe dão as carícias mais fagueiras

Como os canários todo o afago d'asa.

 

Mas tu chegaste, e o teu olhar transvasa

Uma quentura como a das lareiras...

Trazes na boca a flor das romãzeiras;

E um sol nos olhos, que de amor me abrasa.

 

Por isso desde essa manhã de maio.

Eu nada vejo que não seja um raio

De esp'rança verde como o campo largo...

 

Chegaste, filha, para me amparares;

Chegaste, vinha, p'ra me transformares

Em vinho e aromas o que sinto amargo.

 

 

 

Elzebbad

 

 

Logo assim que nasceu, cobri-lhe o berço

De papoulas e rosas e boninas...

Pelas telhas as aves, em surdinas,

Tinham no aroma o coração imerso.

 

Sorrindo, dei-lhe a música de um verso,

A mais divina dentre as mais divinas.

Que brancuras as suas mãos franzinas.

Como as das velas no esplendor de um terço!

 

Vejo, porém, que os olhos do meu filho

Têm dos meus olhos o velado brilho:

Ambos são rios de revoltas águas...

 

Mas se o rapaz chegar ao ponto de homem,

Não no consumam, como me consomem,

Os vendavais tristíssimos das mágoas.

 

 

 

Antônio

 

 

Quando eu mais do que hei sido for lançado

Às calúnias horríveis, às intrigas,

Abre-me, filho, as tuas mãos amigas,

E eu me veja por elas amparado.

 

À luz do teu olhar seja eu guiado

Para os trigais do amor, de áureas espigas...

E que me sigas a cantar, me sigas

Se o caminho estiver abandonado!...

 

Como o Santo da Lenda, o meigo Santo

Que o próprio pai livrou da forca, enquanto

 No púlpito rezava uma oração,

 

Livra a minh'alma aflita, por piedade,

Das esponjas molhadas na crueldade...

E ande eu velhinho pela tua mão!

 

 

 

Florisbela

 

 

Numa choupana esburacada e triste,

É que nasceste, ó minha filha, numa

Choupana esburacada, que ainda existe

Perto do mar de tão florida espuma.

 

A dor que as almas langues averruma,

A dor à qual um peito não resiste,

Ao recordar-me disso tudo, em suma,

Sinto-a no peito, como lança em riste.

 

Mas nisso eu não devia estar pensando;

E sim no nome, que de luz te cobre,

Nesse nome feliz, d'astros brotando,

 

De quem da terra nos sombrios trilhos,

Tendo vivido sempre humilde e pobre,

Era rica demais junto dos filhos!...

 

 

 

Debbora

 

 

Da minha vida as lágrimas flagrantes,

E todos os seus gritos e tristezas,

Bem como os dos riachos soluçantes,

Em contínuas, profunda correntezas...

 

Da minha vida as ânsias palpitantes,

E os mais negros segredos e asperezas,

Como do mar as vagas, aos possantes

Encontros dos tufões das incertezas...

 

De tudo enfim que me atormenta a alma

Verás nas linhas augurais da palma

Da minha mão, a afirmação mais justa.

 

Verás o meu passado e o meu futuro:

Um entre rosas; e outro em ais, no escuro,

No tenebroso leito de Locusta!

 

 

 

Luiz

 

 

Chegaste envolto no esplendor de um dia Maravilhoso!

A luz cantava em tudo...

Cantava num riacho que descia,

E cantava no mar, que era um veludo.

 

De tão grande emoção, tanta alegria,

Que eu nessa hora senti, tornei-me mudo...

Só a minh'alma, aflita, repetia:

– De um pai o filho é o mais ousado escudo.

 

Eu tive, meu filhinho, essa lembrança

Pequena, mas excelsa na esperança,

Que no pó dos caminhos jamais cai,

 

Nem mesmo pelo espaço se consome...

E dei-te, filho, ó meu querido! um nome

Igual ao nome do meu pobre pai!

 

 

 

Conceptta

 

 

De onde vieste, minha filha amada?

De que estrela vieste, dessas tantas

Que do espaço na cúpula azulada

Florescem meigas, luminosas, santas?

 

Era um rosal florido a madrugada!

No azul que rosas, e na terra quantas,

Pela brancura límpida da estrada

Da qual neste momento me levantas.

 

Vieste por certo da formosa Estrela D'Alva,

que maio abriu; viste daquela

Toda prata e cristal, que no alto brilha.

 

Como um relógio que me chama à vida,

Principalmente agora, ó alma querida,

Que tenho mais uma formosa filha!...

 

 

 

Dolorata

 

 

Da dor tirei o seu bonito nome,

Da dor que há nove meses consumia

As entranhas do teu ventre, Maria,

E que inda agora mesmo te consome.

 

Ah! que por isso a nossa filha dorme

A quem na dor não vê um claro dia

De redenção. E, cheia de alegria,

Como um anjo do bem, aos céus assome.

 

Mas a nossa filhinha, de pequena

Que era, não pôde suportar a dor

Que lhe vazava o coração de pena.

 

E na verdade é tudo assim, querida:

Quem sofre, sofre, seja como for!

E o que é a dor senão a própria vida?

 

 

 

Maria Conceptta

 

 

Estrela de eucarística aparência,

Espiritualizada Estrela Maga,

Pela tua sagrada florescência,

Dize por onde a nossa filha vaga.

 

Pela bendita e misteriosa essência

Que o teu urnário de cristal alaga,

Abre por nós o manto de clemência,

E nos retira d'alma a noite aziaga.

 

Pelas tuas safiras e teu ouro,

Por esse rico e fúlgido tesouro

Que eternamente lá por cima brilha,

 

Dize, Estrela Ideal, se nos teus prados

Existem anjos bem-aventurados,

E se com eles vive a nossa filha.

 

 

 

Zarina

 

 

Ah! para todo o sempre minha amada,

Meu sol eterno, minha Estrela d'Alva,

A tua luz é a luz da madrugada,

A que dos mares lúgubres me salva.

 

Dos longes dessa abóbada azulada

Que às vezes é da cor da própria malva,

Desces serenamente, imaculada,

A minh'alma que tanta dor escalva.

 

Desces e ao mesmo tempo ao céu te elevas.

Porque no mundo me encontraste em trevas.

Porque no mundo me encontraste triste.

 

E como então me queres loucamente,

Entre o meu peito aflito e o céu clemente,

Uma piedade imorredoura existe.

 

 

 

José

 

 

Que nome iluminado escolheremos

P'ra o nosso filho que há de vir ao mundo?

Um nome branco como os crisântemos,

Ou como os astros desse céu profundo?

 

Pela nossa alma um lindo nome vemos;

Eu já de rosas e clarões inundo...

Será José. Nós bem nos compreendemos.

No nosso amor de doce paz fecundo...

 

Mas o nosso amantíssimo filhinho

Não quis viver; voltou ao áureo caminho,

Onde Nossa Senhora e São José,

 

Nunca sentiram dentro d'alma as ânsias

Dos caminhos de lúgubres distâncias...

Lá não existe uma outra Nazaré!

 

 

 

Samaritana

 

 

O lindo nome de Samaritana

Ela teria, mas que sorte a sua!

Veio e voltou na mesma caravana,

Sob o palor tristíssimo da lua.

 

De onde a luz, nesse espaço azul, emana

Ela veio, e p'ra lá voltou. A tua

Alma veste-se então de dor insana,

E a minh'alma na mesma dor flutua.

 

Ah! se a nossa filhinha se criasse

Dar-nos-ia o maior contentamento,

Cada vez mais alegre e mais vivace,

 

Quando, nos dias de calor violento,

Desse água fresca e pura a quem passasse

De cruz aos ombros, cheio de tormento.

 

 

 

Paulo

 

 

Paulo, na flórea estrada de Damasco

Foi convertido ao amor do Nazareno.

Deixou, portanto, deste mundo o asco,

Extinguindo-lhe todo o atroz veneno...

 

Pedro limpava, nessa tarde, o casco

Do seu barco que para o mar, sereno

Iria. E Paulo amou-o, do penhasco,

Da altura excelsa de um clarão ameno.

 

E se a nascer chegasse o nosso filho,

O meu amor, que misterioso brilho

Nos seus lábios dulcíssimos traria...

 

Talvez, amor, dentro de poucos anos,

Morressem para sempre os desenganos...

E o que o mundo na fé então seria?...

 

 

 

Maria Cleofas

 

 

Nasceste e apenas neste mundo um dia

Pairaste. Mas que mal te fez a vida?

E para que nasceste então, Maria,

Por essa tarde de rosais florida?!

 

Dum astro de dulcíssima harmonia,

Como se for a da mais branca ermida,

Não trouxeste no olhar toda a alegria?

De ânsias tu'alma não desceu despida?

 

Pairaste apenas um momento, o quanto

Necessário talvez para que o meu pranto

Fosse pelo teu lenço de piedade,

 

Neste Saara tenebroso, enxuto...

É o que as almas me dizem, se as perscruto,

Quando te lembro, cheio de saudade.

 

 

 

Cirineu

 

 

Vindo que seja, e se for homem, há de

O nosso lindo filho ter um nome lindo.

Conosco ele andará pela cidade

E pelos campos que se vão florindo...

 

Mas o nosso filhinho (Que impiedade!)

Deixou de vir do sol, ou se foi indo

Para mais longe, para a imensidade

Onde outros sóis no azul estão luzindo.

 

Chamar-se-ia Cirineu. Que belo

Se chegasse a nascer, e bem juntinho

De nós ambos, Maria, e com desvelo

 

Nos ajudasse, amor, esse filhinho,

A carregar a cruz, que é o pesadelo

Maior que temos neste atroz caminho!

 

 

 

Pedro

 

 

Pedro seria o nome predileto

Deste que, coitadinho, nasceu morto.

Ah! Pedro, não! o Galileu, absorto,

Não deu ao Mestre um coração correto.

 

Outro nome teria esse dileto

Filho do nosso amor, do nosso horto...

Nem mesmo o nosso coração é um porto

Com barco a vela, de saudoso aspecto.

 

Mas o que digo? Pois ninguém na terra

Que tanta lama de miséria encerra,

Jamais deixou, no fundo dos reveses,

 

Ou na alegria que na vida o açoite,

De negar, dia e noite, dia e noite,

Mais do que Pedro, bilhões de vezes?!

 

 

 

Netos

 

 

Quem há que tenha netos e não sinta

No peito, uns sentimentos de bondade,

Iguais aos que a nossa mocidade

Encheram de clarões de luz e tinta...

 

Nessa quadra feliz porém extinta,

Na nossa casa que felicidade!

Mas hoje é a mesma casa, na verdade:

Basta que tu consintas e eu consinta

 

Dos nossos netos toda a traquinagem...

Pois eles são a verdadeira imagem

Dos nossos filhos, pássaros divinos...

 

E assim iremos tendo a vida inteira

Cada vez mais alegre e alvissareira...

Ah! nós também já fomos pequeninos!...

 

 

 

Newton

 

 

Já tive o estio dentro do meu peito

E todo ele era um lindo roseiral.

Vivia alegre e muito satisfeito

Sem os venenos trágicos do mal.

 

Dos rapazes eu era o mais eleito,

E o mais querido como o próprio sal.

Hoje, friorento, vivo no meu leito...

Ah! como a vida é toda original!

 

Mas não sinto pesar de haver perdido

O sol do estio: – Um outro sol me veio,

E mais outros virão, do florescido

 

Estio da tu'alma, em pleno eflúvio;

Dessa tu'alma que é o mais belo seio

Do Arco-Íris nas águas do dilúvio!...

 

 

 

Ondina

 

 

Quando João andava no deserto,

Nutrindo-se de mel e gafanhotos,

Isso nos tristes séculos remotos,

Num tempo que do céu anda bem perto...

 

Ele que tinha o largo peito aberto,

E os pés descalços, dos espinhos rotos...

Da fé floriam os verdurosos brotos,

Do amor mostrava o nosso campo, certo.

 

Mas não andava só pelo degredo;

Talvez tivesse algum pavor e medo;

E por isso chamou, num claro dia,

 

Uma ovelhinha muito casta e doce.

E ela, nesse deserto, talvez fosse

A que hoje tenho em minha companhia.

 

 

 

Lycurgo

 

 

Filha, não chores pelo teu filhinho

Porque a gente peca quando chora...

Será melhor prender um passarinho,

Ou deixá-lo voar espaço em fora?

 

Quando eras pequenina, no caminho,

A luz branca e puríssima da aurora,

Não ias tu em busca de algum ninho?

E o que vias na luz branca e sonora?

 

Vias encantos. E contente, ouvias

As ladainhas de ouro, e as litanias,

Dos pintassilgos joviais, faceiros.

 

Saibas tu, meu amor, que eles voavam

Alegremente livres, e cantavam

Nas ermidas em flor dos espinheiros.

 

 

 

Antônio

 

 

Antônio, se me vires bem velhinho,

Com as passadas trêmulas, não deixa

O teu avô cair pelo caminho;

E ouve-lhe, neto, a sua triste queixa...

 

E eu velhinho já sou, tenho a madeixa

Toda tão branca como o próprio linho.

E quantas mágoas a minh'alma enfeixa,

Como o rosário azul de um capuchinho.

 

E se eu chegar a ter oitenta anos,

Nessa quadra terás apenas vinte,

E ainda por ti, meu neto, os desenganos

 

Passado não terão. Por isso, quando

Eu os anseios últimos te pinte,

Irás entre os teus braços me amparando.

 

 

 

Juvêncio

 

 

Se soubesses em que estou pensando

Com certeza a tu'alma choraria...

Olha, meu neto, quando chega um dia,

E atrás desse outros dias vão chegando...

 

E a gente vê as faces se enrugando,

E o coração aberto à nostalgia,

E à luz do olhar a estrada se acabando,

E muito ao longe a branca casaria...

 

Estou pensando nisso tudo, nisso

Que nos arranca da saúde o viço;

E nos conduz, nas asas do mistério,

 

Aos sete palmos de um buraco imundo,

Onde se acaba o orgulho deste mundo,

Na ironia fatal do cemitério.

 

 

 

Urânia

 

 

Eu creio nos que vão para as Esferas,

Para as Esferas límpidas do Espaço,

Despidos todos do augural cansaço,

Sem a eclosão das lágrimas austeras.

 

Sei que por lá existiram primaveras;

E em cada luz um túmido regaço,

Que ampara o braço aflito quando o braço

Chega de andar lutando contra as feras.

 

Sei que nos tristes túmulos sombrios

Não existe mais que o corpo inanimado

Dos que se viram nos dantescos rios...

 

E crendo que dos pântanos imundos,

Possa brotar um lírio imaculado,

Creio que virás por diversos mundos!...

 

 

 

Nazarena

 

 

Depois de fatigante caminhada

Hei de deitar-me à sombra de um cipreste.

Vestido como a noite então se veste,

Quando não brilha a lua imaculada.

 

De olhos sem luz e fronte congelada,

Hei de dormir nessa mansão agreste,

Como quem dorme na mansão celeste,

Lá nessa paz do azul, iluminada.

 

E quando isso acontecer, que estejas,

Tu, que tanto me queres e me beijas,

Que estejas junto ao derradeiro leito

 

Do teu avô, que morrerá contente,

Se lhe cruzares piedosamente

As suas mãos geladas sobre o peito.

 

 

 

Clécio

 

 

Acham-te todos muito parecido

Com o teu triste e desolado avô!

Mas como estou na vida tão vencido;

Como na vida tão velhinho estou.

 

Deste meu peito, outrora tão florido

(E foi a mocidade que o enflorou)

Cai para um fundo lúgubre um gemido;

E o sonho branco para além voou.

 

Eu não acho que os teus formosos olhos

Tenham, iguais aos meus, negros abrolhos;

Nem tuas faces liriais os selos

 

Da tristeza que há tempos me atormenta,

Nem seja a tua boca flor sangrenta,

Nem sejam neve eterna os teus cabelos.

 

 

 

Léa

 

 

Sei que existes porém não te conheço

Se não por um retrato pequenino.

Mas mesmo assim na vida não te esqueço;

Vem-me lembrança o teu melhor destino.

 

Peço a Jesus o sonho que careço,

Dentro do qual, no seu fulgor divino,

(Linda estátua de mármore ou de gesso)

Passe o teu corpo ideal, meigo e franzino.

 

E o sonho desce, quase sempre à noite...

Desce da luz da limpidez do espaço;

E antes que o tédio do viver me açoite.

 

Ouço-te a voz repleta de fragrância,

Que ao coração me fala do cansaço

Das asas que se perdem na distância...

 

 

 

Jandir

 

 

Meu neto, a infância é um botão de rosa

Que se esconde entre as folhas da roseira.

Numa linda manhã alvissareira

Embalada na brisa silenciosa.

 

Não o inquieta a abelha vaporosa,

Nem o zangão lhe dá fatal canseira...

Deixa-o ali estar a vida inteira,

A ave daninha, a mais ambiciosa.

 

Mas flor aberta à viva alacridade

Do céu azul, será a mocidade,

Cheia de seiva em dias de verão.

 

E quando desfolhada (Eu já to disse)

Será por certo o emblema da velhice,

No atro caminho da desilusão.

 

 

 

Maria Helena

 

 

Nem quatro palmos tem, Maria Helena,

E eu já lhe vejo uma alma de eleição,

Meiga, suave, límpida e serena,

Como a água sagrada do Jordão.

 

Chama as bonecas, como ao som da avena

Chama a pastora a ovelha, no sertão,

E lhes dá mantos lindos, de açucena,

No aprisco de ouro do seu coração.

 

Permita todo o céu estrelejado

Que a minha neta veja-me ao seu lado

Ainda algum tempo, embora bem velhinho,

 

Trêmulas as pernas, trêmulos os passos,

Trêmula a fronte, e ambos os meus braços,

Mas todo ungido pelo seu carinho.

 

 

 

Mário

 

 

Tão pequenino, apenas com dois anos,

Sabe de cor a carta do A-B-C.

Logo, em ficando grande, já se vê,

Conhecerá das Letras os arcanos.

 

Fará nas Letras os mais lindos planos

De luminosos ideais, porque

Nos olhos dele, tão espertos, sei

Haver labutas contra os desenganos.

 

E os vencerá (Deus o permita), como

Vence o soldado, num febril assomo,

As muralhas fantásticas de um forte.

 

Ah! seja sempre, o meu querido neto,

Um coração boníssimo, correto,

Para vencer a vida e a própria morte.

 

 

 

Isabel

 

 

Em novembro floresce o jasmineiro,

De tal maneira que dá gosto vê-lo,

E esse que está florindo, no terreiro

Da nossa casa, lembra o Sete-Estrelo.

 

Mas muito mais floresce o peito inteiro

De um pai no amor, no íntimo desvelo

Por uma filha cujo olhar fagueiro

Ter-lhe d'alma um fundo pesadelo.

 

E tu nasceste para nosso encanto

Pois nessa boca, um sorriso santo

Vimos um sonho que não é da terra.

 

Ah! meu amor, um pássaro risonho,

Nossa Senhora que te conte o sonho

Que ainda a tua alma encantadora encerra.

 

 

 

Conceptta

 

 

Vejo-a sorrindo, encantadora e bela

Como a ave que vem no meu telhado

Cantar de tarde, à hora em que uma estrela

Fulge como um turíbulo doirado.

 

Vejo-a sorrindo, e me aproximo dela,

Devagarinho, cheio de cuidado...

― Não te vá magoar a tagarela

Alma do teu avô, digo assustado.

 

Mas Conceptta me escuta, e ainda sorrindo

Se transfigura no luar mais lindo,

Que é todo a luz misericordiosa

 

Dos seus olhares límpidos e ternos,

Junto da qual apagam-se os infernos

E vibra a alma, translúcida e formosa.

 

 

 

Marília

 

 

Se as hortênsias falassem, se as hortênsias

Contar pudessem como se vestiram

De azul celeste, e como as resplandecências

Do sol nas suas ânforas caíram.

 

Se as hortênsias falassem, se as hortênsias

Dissessem tudo quanto são, e viram

Do céu na comunhão das florescências

Das quais os campos verdes se cobriram.

 

Se as hortênsias falassem, certamente,

Ó minha neta amada, alma inocente,

Saberíamos todos de que mundo.

 

Teriam vindo as cândidas pupilas,

Meigas, graciosas, doces e tranquilas

Dos teus olhos azuis, de olhar profundo!

 

 

 

Hércio

 

 

Quando vês o vovô, dás gargalhadas

Que parecem tilintos de ouro e prata,

Ou a música d'água da cascata

Que corta os campos verdes e as estradas.

 

E dás palmas então, muito engraçadas,

Nas quais tua alma virgem se arrebata

A mundos que nem sei! Talvez à cata

De quem possa aplaudi-la, horas contadas.

 

Mas fico, às vezes, bem desconfiado,

Que estejas, meu formoso neto amado,

Rindo da branquidão dos meus cabelos,

 

Que é a neve que cai das invernias

Cheias de tédio e de melancolias,

Nas estepes cruéis dos pesadelos.