LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Contos de amor, de Virgílio Várzea


Texto-fonte:

 

Virgílio dos Reis Várzea, Contos Completos, org. de Lauro Junkes,

Florianópolis: ACL, 2003, 2 v.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

Marinaro

Supremo adeus

Painel medieval

O velho couraçado

Natal no mar

Galáxia

Poente

O palácio do rei Luís

A gaivota azul

A sonata do luar

Natal

A primeira entrevista

Tirunal

Abandonado

A héctica

Velada

Última lembrança

Nerah

A chuva

Idílio no mar

História duma gaivota

O mar

Galé da dor

Tzar

Em viagem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marinaro

 

 

Magnífica essa noite transparente de junho no palacete da Estrela, que flamejava todo aceso com os seus altos torreões rendilhados, como um antigo castelo da média idade, destacando num viso de colina, ao centro dum vasto parque florido e cheio de árvores seculares.

 

Celebrava-se o aniversário nupcial dos viscondes de Vilar. E no vasto salão, todo em pompas de veludo e brocado, entre jarras lavoradas da China e as preciosidades custosas de uma opulenta coleção de arte, os perfis excelsos, ebúrneos ou de um moreno ambarado de vaporosas criaturas ideais, emergindo delicadamente, num conjunto de esplendor e de graça, da leveza cetinosa das toaletes fidalgas.

 

A sra. Viscondessa, muito alegre e elegante no seu belo vestido de faille cor de musgo outonal, impressionava como sempre, os convivas, com a sua pele de jambo, o seu rosto largo de assíria e a sua alta estatura de beleza bárbara, que fazia evocar de repente a linha dominadora que tem, nas gravuras bíblicas, a rainha de Sabá.

 

Todos, em volta, a festejavam com frases e gestos aristocráticos, em pequenos grupos zumbidores, dispostos, aqui e ali, pela sala. Ela sorria jovialmente, numa expansão e alvoroço adoráveis, correspondendo com o seu espírito borbulhante a todas essas homenagens.

 

E de roda em roda, por entre os grupos festivos que a aclamavam, entornando sorrisos e olhares, numa auréola de perfumes e brilhos e num rumor de sedas caras, a srª. Viscondessa dirigiu-se para um recanto afastado de janelas, por onde entravam frescura e aromas, e trêmulas, invasoras ramagens, enlaçando caprichosamente, com as volutas elásticas, os balaústres artísticos dos balcões de mármore.

 

Aí esperava-a, há muito, num silêncio e meditação de exilado, um belo rapaz vigoroso, de grandes olhos melancólicos e negros cabelos ondeados, a quem ela acenou docemente com os seus dedos claros onde os anéis faiscavam, murmurando numa voz rouca e vaga, muito límpida e sonora, como de ouro e luar:

 

— Venha agora, Carlos. Vamos para aquela outra sala, ali onde está o piano... Vai ouvir as nossas músicas de outrora, aquelas romanzas que amava... Lembra-se?... Há que anos foi isso!.. E que paraíso antes da sua primeira viagem! Mas depois... que de tristezas e lágrimas!

 

Ele, sorrindo com os seus dentes muito alvos, uma radiação de alegria no semblante queimado, externando a máscula profissão aventurosa dos que levam a existência embalada no mar, deixou imediatamente os balaústres de mármore, seguindo submissamente a srª. Viscondessa, ao mesmo tempo que lhe dizia de manso, ereto e alto ao seu lado:

 

— É verdade, Tilinha, quanta saudade! Que de esplendor já extinto! E como os anos passam rápidos!...

 

E lentamente atravessaram o salão, entrando na outra sala.

 

A srª. Viscondessa encaminhou-se para o lado do piano e, antes de sentar-se à banquinha, parou um momento em frente à pequena estante Renascença de ébano incrustado, que ostentava profusamente, por entre cadernos dispersos, grossos álbuns de músicas e libretos de óperas escolhidas, em ricas encadernações douradas. Toda inclinada, com o seu lindo torso robusto estalando o corpete magnífico cor de musgo outonal, que a envolvia majestosamente como uma couraça, ia dizendo ao rapaz, num cicio amoroso, a voz meio comprimida pela postura curvada:

 

— Então, esperou muito? Não. Por que, pois, há de ser sempre o impaciente de outrora? Que organismo, que não muda nunca! Estava a dizer que eu me demoraria uma eternidade... Não foi assim. Aqui estou, pertenço-lhe toda, sou sua... Pode falar, desatar-se todo em queixumes, como dantes... Vá!... Também há talvez doze anos que nos não vemos, não há?... Que horror! que imensa ausência fatal. E ainda me está bem viva na memória a sua despedida, numa noite de Natal... O que eu não sofri, nos primeiros dois anos! Você viu pelas minhas cartas... Mas como eu era tola! E você a divertir-se muito bem lá pelo sul da Itália. Mas acabou-se, não lhe recrimino, hoje sou outra... E o passado está passado...

 

Ergueu-se, com um dos álbuns de músicas que tinham gravadas a ouro na capa as suas iniciais, e dando alguns passos sentou-se à banquinha, folheando rapidamente o livro com os seus dedos brancos, onde os anéis faiscavam. De repente estacou numa página azulada, representando, em fino esquisso romano, uma “marinha” luarenta e saudosa no golfo de Nápoles. Voltou a folha, que estava coroada no alto por esta palavra nostálgica — MARINARO: aquietou-a com um movimento da mão espalmada, e prorrompeu a solfejar baixo pianotando uns compassos. Depois virou-se para o rapaz, que se inclinara de leve sobre o grande móvel de cauda, e ciciou com os olhos cheios de uma luz de ternura, num suspiro de saudade:

 

— Preste bem atenção, Carlos... Veja se se recorda... Esta romanza, que eu vou cantar, era a sua predileta... Lá no sul, pelo menos, você não queria outra... Era a “inspirada", como você dizia, que evocava tão bem as melancolias de bordo, a solidão do oceano e a espiritualidade ideal das viagens...

 

E atacou o teclado, com um movimento adorável dos braços roliços, curvos em arco, que corriam e se curvavam continuamente sobre a vasta barra flexível de marfim alvo. Com os belos olhos escuros, de longos cílios bastos, começou a passar os hieróglifos das pautas ao mesmo tempo que seus dedos artísticos turbilhonavam sobre as teclas, e, balançando a cabeça graciosa num vaivém ritmado, lançou a sua voz de soprano, vaga e celestial, que entrou a ondular na sala:

 

Guarda... le nuvole dh’alte biancheggiano

Lassú nel ciel...

Son l’alme amabile que si rincontrano

Nel Glauco vel...

 

Ele então, num enlevo, sentindo o canto penetrar-lhe o coração, acordando-lhe antigas saudades de um alegre tempo passado, que lhe aparecia agora numa radiação inatingível de passagem eteral, fixava-a docemente, e, ao terminar da estrofe primeira, murmurou numa acentuação sussurrada:

 

— Que lindo, Tilinha! Que lindo este Marinaro!  Se me não hei de lembrar!...

 

Ela ergueu para ele, sorrindo, os seus grandes olhos negros, umedecidos num longo fluído lânguido que arrebatava a alma, e, com a bela garganta escultural, de um contorno unido e forte, túmida outra vez de gorjeios, soltou de novo a voz maviosa, movendo, ao compasso lento da música, a encantadora cabeça de columbina ideal. E a segunda estrofe marulhosa da romanza adejou no ar, pondo um vivo frêmito tremulante de arrebatamento e de amor na mornidão do ambiente suave:

 

Laggiú piú libere l’onde si baciano,

Ninfe dei mar!

La notte é esplendida, le stelle brilano:

Vivere é amar!...

 

E prosseguia, com grande execução, desfiando artisticamente as estâncias melancólicas daquela balada de mar.

 

Arrebatado, o apaixonado sonhador do oceano, juntamente com a música inefável, sentia desfilarem-lhe n’alma, cantando, como um tropel de visões que vão levadas para o Nada, lembranças vívidas e fúlgidas daquela época brilhante, agora morta para sempre, em que ele amava a Tilinha — ora exultando a seu lado, nos vagares de terra, sob dias dourados; ora gemendo de amor, nas viagens longínquas, pelas noites consteladas ou torvas, à borda oscilante das naves. Não tirava os olhos de sobre o busto dela, contornado esculturalmente pelo corpete magnífico cor de musgo outonal, detendo-os, nesse instante, na formosíssima cabeça elevada, que se movia, com o canto, num boleio ritmado. Os seus cabelos espessos, de um lindo negro de amora dantes, e que lhe pendiam às vezes esparsos descuidadamente sobre as largas espáduas, estavam agora precocemente tingindo-se, aqui e ali, de leves malhas nevadas. E o seu rosto florente, onde os grandes olhos fulgiam com uma negrura de conta negra molhada, subia de gracilidade e encanto, assim prendendo e deslumbrando, na fascinação irresistível de uma evocação do passado, à maneira de uma dessas marquesas antigas, que viesse deslizando do fundo do grande século, numa espiral de minuete, com ondulações ronronantes de seda e os cabelos polvilhados...

 

Embalado pelas notas, ia revendo, em fugidias notações de saudade, as paragens luminosas de uma estância volvida: tudo lhe vogava no espírito lentamente, em laivos preciosos e saudosos, mas esvaídos de coloração e aroma, como velhas pétalas emurchadas. E o que lhe pontilhava de luz dolorosa e irônica os filões emocionais, era o eletrismo de certas células, avivando-lhe, em mágoa íntima, aquela falta irremediável do seu desprendimento por ela, que o levara, num delírio por outra, a destronar de repente do coração a sua imagem sagrada, fazendo-o derribar, num instante, como numa rajada, a sua torre de afeições — quando byronianamente vagava, numa viagem romanesca, pelas costas da Dalmácia. Pungia-lhe aquela situação, vazia e deserta como uma estepe gelada, onde mal se mantinha ainda uma derradeira floração de afetos, que lhe brotava do peito, numa ânsia de ilusões e sonhos, em esforços desesperados para a Felicidade e para a Glória, no seio estéril de uma quadra já morta — campo santo dos seus vinte anos, povoado de desejos e beijos que não cantaram jamais, afogados na infinita vastidão oceânica e na melancolia brumal das viagens...

 

Mas a romanza findava por um apelo implorativo e gemente, em que a voz rouca e triste de um nauta apaixonado, tremulando em smorzandos suaves, ondulava e fugia por sobre o mar espumoso, velado de um filó de luar, para longe, para longe, onde um perfil de Visão se afundava entre a escumilha nevoenta de uma alvura de praia:

 

 

Sorgi ed ascoltami el prego fervido

Del marinar...

Viene sul mare, viene, accompagnami:

Vivere é amar!...

 

Palmas e bravos ruidosos romperam no salão, em prolongados aplausos.

 

Ele correu então para ela que findou num stacato admirável, toda risonha e alegre, envolvendo-o no clarão veludoso e bendito dos seus olhos nanquinados — e, tomando-lhe as mãos com ardor, cobriu-as de beijos rápidos, segredando-lhe melancolicamente, numa voz trêmula e rouca, que chorava:

 

— Ah! Tilinha, que dolorosas saudades de outrora à tua voz despertaram em minha alma! Quanto me sinto agora desventuroso! E como tudo está mudado!...

 

Ela ergueu-se e deu uns passos para fora do piano, enternecida e numa idealidade, porque ainda o amava; e, com as mãos nas mãos dele, numa arrebatação, balbuciou meigamente:

 

— Mas eu te amo ainda, Carlos! Eu te amo, querido Marinaro!...

 

E suspendeu-se, porque uma multidão de convivas alastrou de repente a sala, repetindo-se os aplausos:

 

— Bravos! bravos! Sra. Viscondessa. Que romanza admirável!...

 

 

*  *

 

 

Horas depois, quando a festa acabou e ele descia a escadaria de mármore sob o esplendor delicioso do céu estrelado, ia pensando desoladamente na sua vida atual, tão vazia e monótona como a vastidão infinita do oceano onde andava. E numa palpitação e numa nostalgia que lhe oprimiam a alma, sentia ainda cantar-lhe no cérebro, como um estribilho de dolorosa verdade, este belo verso final da romanza:

 

Vivere é amar!...”

 

 

Rio — 1894.

 

 

 

Supremo adeus

 

 

À senhorita Elvira Remédios Monteiro

 

 

Desde que pisara o paneiro do bote, que a devia conduzir ao steamer fumegante que esperava lá embaixo na barra, Sofia Prevalsky, sentada à popa, ao lado de seu pai, velho conde da alta nobreza polaca, não cessara um instante de fitar mudamente a linha afastada do cais, onde o bando das amigas queridas ficara a olhar tristemente, agitando os lenços claros.

 

Vivera ali oito anos de bela e doce tranquilidade, numa risonha vivenda campestre, naquela florida cidade da América Meridional, no seio da terra catarinense, sob o encanto do céu azul, neste Brasil bem-amado. E fora tal a afeição que a cercara nesse exílio suave, que o pai voluntariamente escolhera, que, apenas uma ou outra vez, vagamente, sentira gemer o coração na nostalgia da pátria. Depois, fora ali igualmente que a sua meninice enflorara, desabrochando em corolas de beleza que eram a magnificência de sua mocidade. Franzina e triste que viera, sob o luto lacrimoso de uma desolada orfandade de mãe, trazendo n’alma infantil a impressão aterradora das cenas sangrentas dessa revolução temerosa que os arrojara àquelas plagas — voltava agora forte e moça, no esplendor dos seus vinte anos dourados.

 

Por isso, abatida e soluçante, sob a vela branca enfunada, descendo as águas mansas do rio cercado de altas ervagens, fixava ainda vivamente, e pela vez derradeira, a curva larga do cais, cumulada de telhados vermelhos e torres alvas faiscantes, marcando além, com tristeza, entre renques de eucaliptos verdes, a fugidia cidade.

 

Mas, em pouco, os telhados e torres desapareceram para sempre na espessura das árvores. Pelas faces de Sofia as lágrimas corriam, fluindo seguidamente de seus olhos azulados; e só cessaram um momento, quando a embarcação, ajudada pelo vento da tarde, caiu no imenso estuário que ia dar ao oceano, cujas ilhas rendilhadas começaram a destacar, graciosas na sua cinta de espuma, sobre a planície ondulada.

 

O panorama da baía, no entanto, não conseguiu dissipar-lhe os pesares: o novo fluxo de pranto tomou-a, fazendo-a sofrer mais fortemente, agora, abraçada ao velho pai. E Sofia soluçava como nunca, porque, nesse instante, seu espírito se voltava totalmente para a sua paixão, abalando-a e torturando-a como numa desgraça. Amava, mas amava loucamente, com todo o ardor dos seus vinte anos, a um desses rapazes vigorosos do sul, de tez queimada e suave, os olhos negros e lânguidos, os cabelos anelados, cujas linhas esculturais e cuja virilidade soberba fazem a atração e o encanto dessas louras raparigas do norte, filhas das raças fortes do Báltico.

 

Ele idolatrava-a também com fervor, num afeto austero e másculo. E desde o primeiro encontro que tiveram, numa igreja católica, jamais a deixara, seguindo-a sempre devotadamente, e com fidelidade amorosa, quando os vagares da sua vida marítima lhe permitiam errar docemente pela terra natal. Um embaraço surgira, porém, entre ambos: a oposição do velho emigrado polaco, que, havia dois anos, ao perceber aquela grande paixão, entrara a retrair-se com a filha, ameaçando a todo o momento regressar à Polônia — agora que o tzar Alexandre os anistiara.

 

Apesar disso, o velho não partia e lá ia gozando alegremente, no sul, as delícias do seu chalé entre árvores, quando a morte de um irmão, rico industrial na Alemanha, o levara de repente à viagem. E como estava a chegar a S. Francisco um paquete da linha de Hamburgo, preparara tudo, e, fretada uma embarcação, depois de longas despedidas, nas vésperas, embarcara com a filha, nessa manhã radiosa.

 

Mas Sofia, alguns dias antes, sem que o pai sequer de leve suspeitasse, e auxiliada pelas amigas, passara um telegrama ao noivo, então comandante de um pequeno cruzador, estacionado em Santos. O rapaz não mandara resposta, e ela, acreditando-se já abandonada, caíra numa grande tristeza. E ali, sobre o bote, na planura radiante, desfazia-se em lágrimas, o coração despedaçado, só entregue ao seu amor e àquele desamparo...

 

Entretanto, quando o escaler ia atracar ao vapor, no meio da balbúrdia de muitas embarcações, a adorável rapariga polaca teve um doce grito de júbilo, ao descobrir, de repente, na água azul cheia de sol, o pequeno cutter de Afonso, o noivo querido, que demandava o steamer, velejando a todo o pano.

 

Momentos após, num enleio, sob o toldo fresco de popa, no vasto convés asseado do Golden Kaiser se encontraram os dois amantes — o coração aos saltos, os olhos úmidos de emoção, numa dessas horas de alada mas contraditória ventura, em que a alegria da boa vinda é ao mesmo tempo empanada pela amargura do adeus!

 

Longo tempo então, num recanto isolado da borda, se fizeram confidencias, desfiando tristemente recordações e saudades, onde doces cenas passadas reviviam vagamente de envolta à irradiação inolvidável dos dias felizes em que se tinham dado. E a voz de ambos, fugindo em murmúrio nas azas do vento do mar, nessa funda expansão íntima — talvez a última que trocavam — tornava, por vezes, uma inflexão ansiosa, como sob um peso de lágrimas...

 

O velho conde, no entanto, magro e alto, no seu luto perpétuo de viúvo e de conjurado, com as bastas suíças alvíssimas moldurando-lhe o rosto fidalgo, de nobres linhas augustas, onde se desenhava firmemente o cunho superior de uma raça — vigilante e severo, não cessava de os olhar fixamente com os seus vivos olhos septuagenários, que pareciam dois miosótis inquietos, na sua face de pergaminho rosado.

 

Mas a hora da partida chegava. Por todo o vapor, no convés, passageiros afamados cruzavam, por entre grandes rumas de caixotes e malas, que marinheiros hercúleos e louros, os largos peitos descobertos pela aberta da camisa azulada, moviam de uni pata outro bordo com enorme atividade.

 

Na baía, em redor, coalhava já a superfície cerúlea a imensa frota graciosa dos escaleres do tráfego, rumando, numa alvura de velas, em direção à cidade.

 

Subitamente, nesse instante, um silvo grosso de basso rasgou o ar, para a proa, a bordo do Golden Kaiser. As raras embarcações retardadas, que ainda cercavam o costado, largaram logo, às remadas. E os primeiros movimentos das hélices bateram a água, fazendo trepidar o colosso e retesando as amarras.

 

Afonso então apressou-se. Correu para o velho conde polaco e deu-lhe um forte shake-hands. Depois, voltando-se para Sofia, que chorava já loucamente, quase desfalecida contra a balaustrada, o rosto afogado no seu lenço branco lavorado, onde buscava abafar os soluços — tomou-lhe as mãos, muito pálido, cobriu-as de beijos ardentes, e, com os olhos marejados de lágrimas, abraçou-a longamente, sem uma palavra.

 

Em seguida, deixando-a quase desmaiada entre os braços carinhosos do pai, dirigiu-se para a escada, em demanda do cutter, que já arfava lá em baixo, nas ondas, preso aos croques reluzentes, o alto latino caçado.

 

O transatlântico poderoso entrou então a virar, barrando de giz a baía buscando as vagas da barra.

 

E como a marcha era lenta pelo extenso canal, que altos bancos ladeavam, o jovem oficial de marinha resolveu acompanhar o paquete, no seu cutter velejante, até a linha do mar alto. Emparelhou-se com o steamer e começou a voar ao seu lado à aragem fresca do largo, enquanto a amada querida, debruçada tristemente à borda do Golden Kaiser, agitava para ele, em adeuses repetidos, o seu lenço de cambraia.

 

Seguiu assim muito tempo, e só volveu para terra, quando o enorme casco fumegante se sumiu pela proa, perdido na noite densa e nos grandes balanços do mar alto mar...

 

 

 

 

 

Painel medieval

 

 

De pé, junto às pedras das ameias, num recanto isolado do velho castelo gaulês, erguido sobre a ponta penhascosa de uma enseada da Armórica cheia tradições e legendas, uma dessas princesas venetas, vaporosas e albentes, que eram o encanto dos Bardos e dos Cavaleiros, fixava longamente, com os olhos úmidos de saudade, as águas mansas de Quiberon, desdobrando-se para além, cobertas de frisos de ouro sob a iluminação do poente.

 

A pequenina cabeça alourada, de um contorno rafaelesco, estava inclinada sobre a planura azulada do golpo como ao peso dos seus sonhos ou da sua cabeleira, premida artisticamente sob a alta touca frouxelada de rendas, de onde jorravam para a testa, por cima das sobrancelhas escuras, leves madeixas cor de feno. E seu rosto formosíssimo, de um rosado penugento, apoiava-se a uma das mãos firmada numa aberta das ameias, enquanto a outra, suspensa no ar, agitava um lenço claro, que ondulava ao vento.

 

A dois passos, para trás, aprumado e elegante nas suas vestes estreitas, a listras escarlates e pretas, o espadim de prata pendendo ao talim de seda, o belo Pajem favorito, segurando às mãos, numa atitude de respeito, a longa cauda opulenta do seu vestido de veludo azul, guarnecido de barras de arminhos e bordaduras de ouro reluzentes. Olhava também o mar, mas o seu olhar amoroso, de um brilho meigo, sorria como numa vaga alegria, em que a sua alma exultava intimamente incendida num clarão de esperança que lhe inflava o forte peito, sempre abatido e opresso, no seu amor obscuro, pelo alto desdém da Princesa.

 

E agora, que o Duque partia na cruzada aventureira para as batalhas da Religião em terras remotas do Oriente, surgia-lhe a vaga esperança de que ela viesse, um dia, movida de compaixão ou afeto, suavizar, com um sorriso de graça, as amarguras da sua existência. E sentia-se que o seu grande desejo, nesse supremo momento, era que a frota aventureira, ali singrando lentamente, desaparecesse, de uma vez e para sempre, arrastada pelas ondas, no seio da bruma argêntea...

 

Mas a loura castelã, na dor desse apartamento, indiferente e chorosa, nem sequer observava de leve o júbilo do jovem Pajem, imersa como estava na contemplação dolorosa das velas queridas que fugiam para além.

 

A galé do Duque panejava ainda entre pontas, em meio às águas dormentes. A alta popa vogadora, toda coberta de incrustações e ornatos onde corriam grossos verdugos de prata sobre largos quadrados de marfim e pérola, destacando no coral do poente, fazia como o relevo risonho dessas ilhas encantadas que apareciam e desapareciam, outrora, tentadoramente, pelos ocasos ou madrugadas do norte, na limpidez sonhadora das lendas. E as outras naves menores, com as suas asas de lona diminuídas  à distância, deslizavam para o sul, como um bando de alcíones albentes.

 

A formosa princesa, nesse momento de mágoas, esquecia-se, a olhar as fugidias velas boiantes, evocando tristemente a sua vida de outrora, desde o dia glorioso em que o amado Paladino germânio chegara ao seu castelo bretão. Fora ao tempo dessas batalhas memoráveis da Escócia, em que Wallace, à frente dos seus altivos highlands, batia-se leoninamente contra as hostes de Eduardo I. Os ruídos da derrota final desses celtas insubmissos mas desventurosos tinham chegado à Bretanha com os primeiros nevoeiros de inverno. Dezembro, com os seus furores e os seus ventos glaciais, fustigava toda a costa, sublevada numa tempestade tremenda. Uma noite, em que o noroeste parecia querer arrancar os carvalhos nas florestas e despedaçar as cabanas nas landes e montanhas brumosas, a sentinela do Farol das Rochas dera para o castelo o sinal de um naufrágio sobre os altos cabeços. E logo a guarnição despertara ao estrídulo clangor das buzinas, rompendo dentre as ameias. A Princesa acordara também, na sua câmara vermelha, iluminada nebulosamente pelo clarão da veilleuse; e, envolta no seu manto de peles, correra através das salas silenciosas até ao Torreão do Ocidente, para ver o que ocorria sob a borrasca inclemente. Das janelas ogivais pôde divisar vagamente, como na alucinação de um pesadelo, a cena agitada de uma nave ao longe, despedaçando-se por sobre os penedos. Acometeu-a uma emoção e seus olhos marcaram-se de lágrimas, quando as rajadas tumultuosas do vento lhe trouxeram aos ouvidos gritos roucos e aflitivos de náufragos morrendo. Sentia-se inquieta e queria descer aos pavimentos térreos para dar ordens aos marinheiros. Mas sossegara logo, porque descobrira à claridade dos fuzis, que abriam por vezes através da noite densa, a sua brava gente marítima já às voltas com o barco, nas rochas ou sobre os vagalhões desfeitos. Não parara, porém, toda a noite, e ao outro dia, erguendo-se muito cedo, dirigia-se para o Salão dos Troféus, quando o Pajem surgira, narrando-lhe tudo minuciosamente. “A nau se desfizera totalmente, perecendo a tripulação, e só se salvando um homem que parecia o almirante, um príncipe talvez, pelas suas vestes e o seu nobre aspecto guerreiro. Fora recolhido sem sentidos, com a fronte ferida e as vestes despedaçadas; e assim se achava ainda fora das muralhas, no alpendre das galés e das redes...” 

 

Ela ouvira a narração num desassossego e numa palidez, e dera ordem para que acomodassem o náufrago no Torreão do Oriente. À noite, fora ela própria velar o enfermo, que repousava sobre um vasto leito de acaju, todo esmaltado de chaparias de prata e finas ramagens em relevo. A luz de uma lâmpada fosca, feita de vidro verde, suspensa do alto teto de carvalho entalhado por delgadas correntes de bronze saindo de um fofo de seda e oscilando brandamente, se destacava, sobre o veludo amarelo dos grossos travesseiros, o seu rosto belo e forte, aureolado por leve barba loura e longas madeixas à nazarena. Tinha o encanto marcial de um herói e a enformatura máscula de um deus. Por isso ela se lhe rendera logo, tomada de uma forte paixão de gaulesa. Mas, só alguns dias depois, já convalescente, é que ele pode bem observá-la, encantar-se também pela sua feitura soberba. E, numa mesma fascinação e magia, ficaram-se amando loucamente.

 

Ele disse-lhe então o seu nome, a sua vida, o seu reino. Era Ludovico, da Germânia. Possuía terras, castelos e inúmeras legiões guerreiras. Reinava sozinho, e respeitado pelas outras nações, sobre um povo poderoso e valente, para quem ele era a suprema felicidade e o supremo bem. Mas um emissário da Escócia chegara um dia. E logo abandonara as suas terras, o seu trono, e atravessara o mar com o melhor dos seus guerreiros... Batera-se pelos escoceses, tivera vitórias, fora cantado nos hinos caledônios pelos bardos cavaleiros. De uma feita, porém, num encontro terrível em que houvera traição, perdera-se a batalha, ao mesmo tempo que outros revezes sucediam em todo o campo, coroando as armas inglesas. A Escócia submetera-se; Wallace, ferido, fora feito prisioneiro.  E como ele, Ludovico, escapasse ao desastre com um grupo de guerreiros, resolvera partir, tornar às suas terras do Reno. Após alguns dias de viagem, uma tempestade caiu de repente: a frota então dispersara, sob a ira dos ventos; e a sua galé, desmantelada e perdida, rolara para o sul, sem governo. Depois fora o naufrágio sobre aqueles cabeços.

 

Ela, ainda mais apaixonada e impressionada por aquela história aventurosa e heroica, decidira imediatamente esposá-lo, encantada e num deslumbramento. E foi por uma noite luarenta da Armórica, cheia de cânticos druídicos e da espiritualidade das lendas, que os esponsais se celebraram, no castelo em festa, cujas janelas flamantes iluminavam fantasticamente as planícies e as águas, despertando a sonolência das landes e agitando as velhas almas sagradas que rondam à noite, os menhirs... Por fim, vieram os dias gloriosos da tumultuosa jornada ao Sequana: o inimigo submetido, em meio aos vivas guerreiros, riquezas adquiridas, troféus conquistados, e alargadas as terras do castelo em novos e poderosos domínios. E agora? O apartamento tristíssimo, a saudade dolorosa e atroz. E ainda aquela jornada sobre o mar infinito... Voltaria? Quando?... Ah! sorte enigmática, insondável e misterioso destino!..

 

E junto às pedras das ameias, recortadas em silhueta de coroa, a Princesa cismava, e de seus olhos transparentes e azuis as lágrimas corriam, enquanto ao lado, ocultamente, o Pagem exultava e a galé velejante do Duque desaparecia além, sob o poente dourado, numa esteira sinuosa de espuma...

 

Rio  —  1894.

 

 

 

O velho couraçado

 

A Júlio Brito

 

 

Abril chegara com os seus dias frescos e suaves. O sol tinha já na sua luz profusa e de ouro um empalidecimento hibernal. As madrugadas mostravam-se agora, pelas encostas das serras ou sobre os planos do mar, envoltas em vastas faixas de gaze, de uma brancura ideal. As tardes, muito límpidas e despidas de nuvens, expiravam lirialmente em rosados esmaecidos ou em leves barras douradas. Os ocasos não tinham mais as galas pomposas do estio, mas nuances esbatidas de aqua-marina ou de nácar. E a cada Ave-Maria, no alto azul do firmamento, corria um bafejo álgido.

 

Havia quase um mês que o desolado ecoar dos bombardeios tinha cessado de todo, trazendo a paz e o esplendor dos dias felizes à grande capital, tão longamente agitada durante os meses lutuosos da guerra civil. Mas a tempestade tremenda rugia ainda para o sul, juntando o furor dos seus raios ao dos ciclones austrais, estourando já sobre os mares em torvelinhos de espuma. Em breve, talvez, esmagado pela fatalidade, um dos dois adversários pujantes ia rolar para sempre, vencido, numa medonha hecatombe...

 

À maneira da capital, Niterói, que durante os seis meses da luta sofrera os mais vivos tiroteios, tornava agora à tranquilidade primitiva. Já na sua maior parte, como uma tribo de andorinhas felizes, vinham chegando alegremente aos seus ninhos as famílias que, atemorizadas com os horrores da guerra, se haviam asilado em tumulto pelos sítios interiores. Pelas ruas restabelecia-se pouco a pouco o movimento de uma cidade, que, abandonada por instantes, se repovoa de repente, reentrando na sua atividade pacífica. E por tudo pairava como que o alvoroço triunfal de uma nova vida.

 

Naquele dia, entre as últimas famílias que voltavam, contava-se a do barão de Sant’Ana, antigo e abastado fazendeiro, cujo palacete ficava situado num arrabalde litoral, de onde se dominava a baía. Colocado para os lados da Armação, o belo solar tivera por vezes o vasto terraço da frente e as altas cimalhas rendilhadas ameaçados de ruína pelos disparos dos navios e lanchas nos pequenos desembarques da arrojada marinhagem. Mas os pontos atingidos já haviam sido reparados e a magnífica habitação parecia mais nova que nunca nas suas brancas colunatas de mármore e nos seus ricos ornatos, vazados em estilo coríntio.

 

A tarde, na alegria daquela reinstalação sossegada e na plena posse de seus domínios, as filhas do Sr. Barão, um bando de moças adoráveis, ao receberem as primeiras visitas das amigas da vizinhança, que há tanto tempo não viam, irromperam pelo jardim e o pomar em grazinada festiva. Foram então brinquedos e correrias, álacres ao longo dos canteiros floridos e pelas sinuosas áleas areadas, pitorescamente ensombradas pelas altas frondes ramalhosas das árvores frutíferas.

 

À noite, após o jantar, reuniram-se todos nos grandes salões iluminados, cujas largas janelas de mármore abriam sobre a baía. O rico piano de cauda foi desde logo assaltado pelas moças que, no seu constante alvoroço de júbilo, sucediam-se na execução de variadas peças comuns, em geral valsas e polcas brasileiras, muito dançantes, de um ritmo e graça característicos. De vez em quando, porém, os ritornellos simples dessas músicas ligeiras cessavam. Havia uma pausa, em que se ouvia somente o doce gorjear amoroso das vozes femininas.

 

Aproveitando um desses fugidios instantes, uma das moças vizinhas destacou-se do grupo das outras, e, muito alegre, numa pressa galante, dirigiu-se à Sra. Baronesa, pedindo-lhe para se fazer ouvir num dos trechos da Gioconda, que ela cantava tão bem. A Sra. Baronesa, que apesar dos seus cinquenta e três anos conservava ainda muito viva a sua antiga paixão pelo canto, um dos triunfos maiores da sua encantada mocidade pelos salões aristocráticos de então, ergueu-se logo a sorrir, e, atravessando rapidamente a sala, foi sentar-se ao piano.

 

As meninas correram imediatamente para as estantes de música, a procurar a ópera. Álbuns e libretos de ricas capas douradas foram então folheados febrilmente por mãos delicadas e brancas, em cujos dedos faiscavam anéis. Mas o livro onde estava a Gioconda ninguém atinava com ele. E na impaciência da procura, fez-se uma alegre confusão, em que as folhas se voltavam tumultuosamente, por entre exclamações e risadas.

 

De repente, uma das moças, erguendo às mãos um livro de capa de veludo azul, saiu a correr em direção ao piano, com gritinhos alvissareiros:

 

— Achei, Sra. Baronesa! Está aqui a Gioconda!

 

E colocando o livro sobre a pequena estante do teclado, abriu-o na ária que canta o tenor, um príncipe genovês disfarçado em marinheiro dálmata, a bordo do seu bergantim romanesco, onde se improvisara corsário.

 

Então a bela voz de soprano da Sra. Baronesa começou a ondular na sala, em notas de uma encantadora melodia saudosa, que exprimiam vivamente as incertezas e as interrogações amorosas que Enzo, enlouquecido da paixão pela divina Laura, lançava desoladamente à imensidade e ao vago, de pé, à tolda balouçante do Hecate, singrando o mar de Fusina ao clarão triste da lua:

 

Cielo e mar! L’etereo velo

Splende come un Santo altare ...

L’angiol mio verra dal cielo?!

L’angiol mio verra dal mare?!...

 

E a ária findou pelo alvoroço de uma atracação em pleno mar. Era uma galeota iluminada, que surgira de repente à popa, vindo de terra a toda a força, ao cantar ritmado dos remos, em demanda do navio. Enzo depara com o vulto da amante adorada, vaporoso e feérico como uma visão edênica, à luz vermelhante dos archotes ensanguentando estranhamente as águas. Emocionado e ansioso por apertá-la em seus braços, corre para o espelho de ré e joga um cabo à galeota, num tumulto febril de palavras

 

Qua la fune... aggrappa... annoda

Le tue mani... un passo ancor...

Non cadere! approda! approda!..

 

As moças, entusiasmadas pelo canto e a magistral execução, aplaudiam alegremente. Mas Cecília, uma das filhas mais novas da Sra. Baronesa, tinha os seus negros olhos cismadores cobertos de um véu de lágrimas. Aquela música melancólica, que há tanto tempo não ouvia, avivara-lhe subitamente no espírito a dolorosa saudade daquele a quem de muito votara a sua alma. Desde que rebentara a revolta que nunca mais o pudera ver, porque ele, seguindo os seus companheiros de armas, se fora enfileirar entre as suas falanges guerreiras, em o navio onde se achava... Uma semana depois, no receio daquela luta terrível, ela partia com a família para um sítio do interior, e não tivera mais notícias dele, nem mais soubera o destino que levara! Dizia-lhe, porém, o coração que ele vivia ainda, e pelejava lá pelos mares do sul, de onde certamente deveria em breve voltar...

 

E sob o pungir destas recordações, a moça encaminhou-se para o amplo terraço que ditas grandes lâmpadas verdes alumiavam com um vago e fosco clarão de esmeralda. Aí, para não ser perturbada pela alacridade buliçosa das irmãs ou das amigas, que a não deixavam um instante quando a viam imersa nas profundezas daqueles cismares, foi acomodar-se num recanto escuso, entre a folhagem rendilhada de alguns arbustos e de pequenas palmeiras, que ali cresciam prisioneiros em grandes tinas pintadas.

 

A noite arrastava-se serenamente no espaço azulado, que estrelas rareadas picavam com a sua pontilhação tremeluzente e dourada. Para um lado a cidade estadeava-se na sua casaria branca toda cortada pelas infindáveis linhas flamantes dos  combustores de gás, aqui e ali empalidecidos pelo clarão astral de uma ou outra lâmpada elétrica; para o outro, eram as pequenas cordas em sombra das colunas da Armação; e, defronte, estendendo-se entre o bordado em relevo das pontas litorais, as águas escuras da baía ondulando vastamente para além até as enfiadas de luzes infinitas dos planos e montes da capital, desdobrando-se depois para a barra até aos páramos indecisos e empastados de treva das vastidões do mar alto.

 

Com o pensamento no amado, e tão somente nele, numa vaga palpitação que a fazia suspirar, Cecília investigava com um olhar melancólico a superfície imensa das vagas, buscando distinguir entre a leve mancha negra dos numerosos cascos flutuantes o perfil querido dos navios da esquadra, que ela conhecia por ele lhos haver mostrado muitas vezes, quando, nas frequentes idas à capital, atravessavam juntos na barca. Mas, em meio à multidão das frotas estrangeiras fundeadas no porto, desconhecendo totalmente a posição em que teria ficado a armada revoltosa ao ser abandonada, embalde procurava descobrir os seus navios, que a legalidade vencedora dispersara para o fundo da rade, e que, além de tudo, a escuridão da noite cruelmente lhe ocultava.

 

E nessa ânsia de incerteza e desejo insatisfeito, lembrou-se de repente do Sete de Setembro, o belo e velho couraçado, que, segundo lhe constara lá no interior, onde se achava; os revolucionários haviam propositalmente afundado ali, em frente à cidade, a poucas braças do cais. Quando recebera essa notícia experimentara uma grande tristeza e derramara mesmo algumas lágrimas, porque amava esse navio como a um velho símbolo sagrado, que entrara acidental mas significativamente na sua existência, pois fora a bordo dele que pela primeira vez vira o Álvaro, o seu noivo adorado, quando, ainda segundo tenente, chegara de uma viagem ao Prata. Já lá se iam dez anos, tinha ela apenas treze! Mas lembrava-se tão bem do velho couraçado como se ainda o houvesse visto na véspera!

 

Nesse tempo conservava o couraçado a sua alta e magnífica mastreação de fragata. O seu longo costado de aço, onde a proa se desenhava na linha característica dos navios de aríete, erguia-se a meio numa grande casamata, onde os temerosos canhões espreitavam sinistramente para um e outro lado do mar, por quatro grossas portinholas abertas. Percorrera esse compartimento com toda a família, ao lado de Álvaro, que lhes mostrava tudo minuciosamente. Vira de perto esses canhões, tão limpos e polidos que pareciam de prata. E o camarote do comandante? e a praça de armas?... Parecia que os estava ainda a ver, esses departamentos, com as suas pequenas salas ouro e branco, os seus espelhos, os seus tapetes, os seus aparelhos e instrumentos de guerra, os seus quadros de batalhas navais. A praça de armas a encantara sobretudo, porque era nela que o Álvaro tinha o seu camarotes um quartinho quase de bonecas, com um beliche esguio, tão estreito e tão baixo que ela não sabia conto unta pessoa podia ali dormir sem morrer sufocada! Recordava-se também do tombadilho, um lugar muito vasto, tão bem assoalhado e asseado como um grande salão. O que, porém, aí mais a impressionara tinha sido o largo pano claro que tremia ao vento, esticado horizontalmente em grandes varões de ferro, e que dava uma tão doce frescura ao navio, protegendo-o contra o sol da tarde. E fora à sombra deliciosa dessa espécie de teto de tenda marinha que o Álvaro, de pé ao seu lado, num recanto da borda, aproveitando um rápido instante de isolamento, lhe dissera, num vago enleio, as suas primeiras, inolvidáveis palavras de amor...

 

E neste triste desfiar de saudades, Cecília percorria a baía com os seus olhos lacrimosos, buscando, por todos os pontos, o vulto do velho couraçado, ou a sua mastreação, que deveria plainar ainda acima das ondas bravas. A escuridão sobre as águas era, porém, naquela altura, de uma grande intensidade, devido ao forte contraste das luzes vivas do cais; de sorte que ela só podia descobrir os cascos altos das barcas, que chegavam ou que partiam, num grande silvo metálico...

 

No entanto, uma vaga claridade láctea apontou saudosamente por sobre os montes de leste. Malhas rútilas de vidrilhos acenderam-se sobre o mar, lá contra a costa fronteira. Então, a meio do golfo, os navios entraram a destacar-se pouco a pouco, em vagos debruns de alvaiade, sobre um fundo de fusain. E por fim a lua surgiu, triunfal, abrindo um leque de prata sobre a negrura das águas.

 

Nesse instante, justamente, o olhar triste da moça pairava num ponto das vagas onde havia um casco negro. Era o velho couraçado. Estava já desmastreado e sem cabos, as bordas despedaçadas. Ela julgou a princípio que não fosse ele, mas alguma velha barcaça que ali se houvesse afundado.

 

− Não, não é possível! dizia de si para si. O belo navio não pode estar assim tão desfeito, tão desmantelado...

 

E esquadrinhava todo o porto, a ver se algum outro casco seria o belo vaso de guerra, onde encontrara o seu noivo e lhe falara pela primeira vez, numa emoção que constituíra para sempre a sua maior felicidade. Mas nenhuma outra embarcação grande se via ali que pudesse ser o Sete de Setembro. Era ele portanto aquele casco informe e negro, que as ondas amavam e iam esconder para sempre, decerto, no seu seio de esmeralda...

 

E enquanto no vasto salão iluminado o canto e a música prosseguiam festivamente, ela, numa infinita saudade do noivo, contemplava sem cessar os últimos destroços perdidos do velho couraçado, que a lua, galgando agora o zênite, fazia destacar mais e mais sob o seu clarão nostálgico.

 

Rio— 1899.

 

 

 

Natal no mar

 

A Eliseu Guilherme

 

 

O capitão tinha dito na véspera que se o tempo se aguentasse e o vento fosse favorável, por aquela semana, e Nossa Senhora os não desamparasse, iriam passar o Natal na sua freguesia, no descanso da viagem. Os marinheiros, ocupados, ao momento, em remendar as velas, à proa, sobre o castelo abaulado, sorriram, por instantes, na doçura daquelas palavras, que lhes alegrava a alma, como um prenúncio suave.

 

E um rapaz moreno, de vinte anos mais ou menos, que estava sentado à gaiúta, as pernas cruzadas, a fronte pendida sob o boné de pala larga, afagado pelas densas madeixas escuras do seu cabelo anelado, tendo sobre os joelhos uma lousa, onde fazia o cálculo da última singradura andada, ergueu docemente os grandes olhos negros, cheios de um brilho nostálgico, fixou rápido o capitão, o timoneiro robusto, pousando-os longamente, em seguida, sobre o mar azulado. Depois, inclinando outra vez a cabeça, prosseguiu mudamente no cálculo, embranquecendo a pedra de números, que o lápis abria em bordados. Absorvido na tarefa, só se interrompia algumas vezes para folhear as tábuas náuticas. Suspirava então, de leve, como numa abafada saudade.

 

Levou assim muito tempo, até que o capitão, voltando da popa, onde estivera a deitar a barquinha, perguntou-lhe com a sua voz grossa e áspera:

 

− Então, quantas milhas andou o patacho?

 

− Noventa, fez ele de pronto, erguendo o rosto queimado, onde os olhos fulgiam, acesos ainda num clarão de saudade.

 

A face carregada do velho marujo iluminou-se então duma expansão de bondade, e sua boca alentada, de finos lábios enérgicos, descerrou-se num sorriso de júbilo, sobre os belos dentes alvos. Achegando-se da gaiúta, onde o rapaz, já de pé, pegava as Tábuas e a pedra para descer para a câmara, pousou-lhe a mão sobre o ombro, e, fitando-o muito com os seus olhos claros, raiados de sangue nos cantos pela idade e pela refração do sol no mar, disse-lhe, enternecido, num vago ar paternal:

 

− Assim, meu rapaz! É puxar pelo casco, é puxar pelo casco! E deixa-te lá de casórios, que tu não tens idade! A Luíza que espere. Faz-te homem, primeiro... A tua mãe, coitada, precisa de ti... Bota pra fora as tristezas! E alegra-te, que vais ainda passar com dia o Natal!...

 

Enleado de repente por aquelas palavras, a cabeça baixa, os olhos fisgados na tolda, o Venâncio, colhido assim no seu segredo íntimo, nem sabia o que dizer. Mas como o velho Soeiro, que ele tanto respeitava e temia pela sua severidade e rigor em viagem, lhe falasse desta vez com tanta bonomia, ousou responder vagamente, todo rubro, numa titubeação de palavras:

 

− Não, senhor... não, senhor... eu não penso em casar...

 

E desceu para a câmara, carregando os objetos, numa pressa de se libertar do aperto” em que o pusera o velho náutico. Entrou no camarote, e sob o júbilo que o tomava, naquela doce esperança de ir passar o Natal no seu arraial, abriu a caixa da roupa, sacou de dentro um pequeno registro colorido do Senhor do Bonfim, que era o padroeiro do lugar, e beijou-o longamente, pensando na mãe o na amada...

 

Mas um pampeiro do sul caiu inopinadamente, uma tarde, na antevéspera do dia almejado. E o navio, com o litoral já à vista, pela proa, foi obrigado a fazer-se ao mar. Desde essa hora até ao dia seguinte, ninguém a bordo parara, numa faina contínua, quando o vento começou a amainar e o patacho meteu de novo na bordada de terra. Até à tarde, porém, não se avistou a costa; e a tripulação, agastada com aquele demônio de tempo, praguejava rudemente, perdida agora a esperança de ir passar o Natal em seus lares.

 

O próprio capitão, de pé ao cata-vento, junto ao homem do leme, mostrava, nesse instante, o rosto carregado como numa contrariedade. No entanto, durante o vendaval, a sua larga fisionomia de leão do oceano se conservara plácida e animada, nessa serenidade incomparável de espírito e de alma, que é a superioridade do marujo ante esse temível adversário — o mar. É que o velho Soeiro tinha também esposa e filhos a quem idolatrava, e mais do que todos, a bordo, sentia o desejo insaciável de mergulhar o coração sequioso de afetos nas carícias e bênçãos do lar, onde todos os que vogam nas ondas encontram sempre um asilo remansoso e sagrado.

 

Num recanto da popa, entretanto, o Venâncio, a quem o velho afagara nas vésperas, junto à gaiúta alta, satisfeito e feliz por encontrar nele um discípulo digno e que não temia bater-se com as vagas, prometendo dar de si um marinheiro que o saberia honrar; num recanto da popa, o rapaz não cessava de olhar, um momento, o horizonte além, onde lhe parecia ainda ir surgir de repente, sob a névoa dourada do poente, a curva branca e saudosa do seu golfo natal. Ali ficou muito tempo, até que a sineta de bordo o despertou para o quarto.

 

Já então, para leste, uma cinza sutilíssima se alastrava nas águas. Descia a noite lentamente; na barra verde do ocaso, onde brilhos vagos morriam, na glória do sol que findava, um ponto fulvo pequenino, Vésper, a estrela da tarde, numa cintilação tremulante e faustosa, que convidava a amar, rolava no côncavo azul do firmamento, como uma camândula dourada.

 

Nas amuradas, à proa, e sobre o castelo arqueado, os marinheiros em grupo, esquecidos já do pampeiro, numa resignação invejável de almas sãs e amoráveis, que não dão nunca abrigo e guarida a ódios mas a amores e mágoas, cantavam saudosamente e em coro essas belas cantigas do sul, que sonorizam as estradas e praias alvas dos sítios pelo tempo do Natal.

 

Embaixo, na câmara, o capitão, vendo que não chegariam à barra senão ao outro dia, pela tarde, pois estavam ainda a mais de dois graus ao mar, abrira os mapas sobre a mesa para traçar os rumos andados e pôr o ponto na carta. Mas a saudade da família trabalhava-lhe a alma. E, às vezes, quando o canto da maruja estalava mais forte, à proa, sob o ranger surdo dos mastros, ele, subitamente enternecido, os olhos arrasados de lágrimas, erguia a cabeça leonina, branqueada pelos anos, e punha-se a olhar tristemente a luz amarela e saudosa do farolim, pendendo osciladoramente do teto, na sua manga de vidro cercada de um gradil de metal.

 

Em cima, ao pé do leme, sentado em frente à bússola, na gaiúta fechada, o Venâncio enlevava-se também longamente naquelas cantigas nostálgicas. Conhecia-as bem, pois a sua infância dourada havia deslizado entre elas, num embalamento de júbilo, na sua aldeia adorada. E quantas vezes as cantara, em menino, no bando alegre dos amigos, em noites assim de festa, seguindo, com a lua no céu, de presepe em presepe, os ranchos palreiros das raparigas amadas!

 

Assim cismava tristemente, quando o coro dos marinheiros, avante, cessou de súbito, num profundo stacato. Fez-se um momento de silêncio, em que só se ouvia o murmúrio saudoso das ondas batendo nas amuradas. Era meia noite, uma dessas meias noites soturnas e quase trágicas do mar.

 

Então, sob os quadrados alvos das velas nevando o espaço no alto, vozes roucas e másculas gritaram, à uma, do castelo:

 

− Tocar a Natal! Tocar a Natal!

 

E logo a sineta de bordo, em repiques vibrantíssimos, de uma consoladora alegria de alvorada de calma, cantou o nascimento divino do Menino Jesus, que docemente ecoou pelas águas, rolando ali, marchetadas de estrias de luz, sob a rede de ouro dos astros.

 

O capitão, num enlevo, subiu à pressa ao tombadilho, chamando os marujos à ré. E todos, num forte uníssono festivo, que arrebatava a alma, entoaram vigorosamente, na tolda, entre aquelas velas felizes dominando o oceano, este estribilho devoto de um velho hino cristão:

 

“Salve! ó divino Jesus!

Luz do nosso coração,

Que vieste hoje ao mundo

Para nossa salvação!”

 

 

 

Rio— 1896.

 

 

 

Galáxia

 

 

No varandim colunado de um antigo palácio, inclinada sobre a balaustrada branca toda de mármore de Paros e entrelaçada de rosas, ela olhava melancolicamente as águas mansas do Pireu, onde o luar despontava cobrindo o golfo com o seu imenso zaimf de prata. Havia horas, longas horas de placidez e silêncio, arrastadas lentamente sob o azul magnificente da noite sarônica, que o seu olhar não parava, sondando incessantemente a amplidão reluzente do mar.

 

Para leste e para o largo, perdendo-se na limpidez espelhada do horizonte sem raias, por onde a lua subia na sua olímpica iluminação eteral, desdobrava-se vagamente um cenário de ilhotes e ilhas, em silhuetas de renda sobre a ondulação azulada. Pela costa, correndo de norte a sul, trechos curvos de praias alvas, faiscando idealmente, numa vasta pulverização de alvaiade, por entre os grossos cabeços abruptos das rochas basálticas, em altos relevos fantásticos. Manchas negras de sombra, em largas pastas angulosas malhavam retintamente as águas, ao longo de dorsos dentados de penínsulas e cabos, cortados apenas, em um ou outro ponto longínquo, por algum saudoso, tremulante debrum de luar. E só além, ao longe, onde o Mediterrâneo ia alto, num afastamento confuso e nostálgico, em que errava nebulosamente a espiritualidade sem fim das viagens, o grande véu de Diana, suspenso e aberto no ar, iluminando a rota escura das velas, numa pompa nupcial.

 

Um silêncio elegíaco e dolente, cheio de infinita saudade, evocativo de luminosas estâncias passadas — episódios romanescos, aventuras amorosas — palpitando, outrora, tumultuosamente sobre aquelas águas lendárias, pesava, sob o lácteo velário do céu, nessas plagas da Hélade. Nenhum som se abria na noite além do meigo ciciar da aragem, errando queixosamente pelas penedias e areias faiscantes, afogadas na carícia espumosa das vagas. E pelo vasto litoral rendilhado, o soturno adormecimento solene das horas altas, em que a própria Natureza onipotente parecia repousar longamente, na suavíssima exaustão de um letargo.

 

E ela, a Visão láctea e bendita das noites claras, agitava-se pouco e pouco, no largo varandim branquejante de mármore de Paros. Uma vaga inquietação invadia-a, aumentando de instante a instante; e seus olhos radiosos, cada vez mais incertos, investigavam incessantemente os ilhotes, os promontórios e penínsulas, correndo com sofreguidão amorosa, todos os recantos escusos da planura ondulada...

 

De repente, uma vela esguia e alta alvejou ao longe melancolicamente, na esparsa caiação do luar, e lentamente, numa amura alada e larga, inclinado à brisa, na altura esfuminhada de sombras de uma ilha isolada, nanquinada densamente no horizonte pelo vivo contraste violento de um chamalote de prata, ardendo suntuosamente nas águas — o seu bojo avançava numa fina esteira de espuma, em direção à faixa curva da praia. O seu vulto voador de asa clara ora singrava em cheio na bruma luminosa do largo, ora esbatia-se tristemente, quase extinto e sem forma, no seio negro das abras.

 

Então ela, a flor linda do Pireu, no varandim magnífico de mármore de Paros entrelaçado de rosas, corria já, em pequeninos passos nervosos, de um para outro lado, alvoroçada e alegre, a seguir, com o olhar radiante, as bordadas alvacentas da barca.

 

Em pouco, libertada de todo dos numerosos recortes salientes das rochas basálticas, a vela alta vogadora começou a plainar, como um guião de escumilha, no seio da enseada. Ao abordar a praia, bem em frente às largas portas chapeadas do velho palácio, faiscando agora feericamente sob os aljôfares pulverizados do luar que encantava — rasgou o silêncio luminoso da noite a sonoridade arrebatadora e saudosa de uma balada de mar...

 

Então, dentre as colunas branquejantes, todas de mármore de Paros entrelaçado de rosas, a voz dela se elevou, veludosa e dolente, fugindo toda para o alto, para a lua, numa tremulina de ais!... E logo outro canto nostálgico, mas vigoroso e viril, rompeu de baixo, da amura alvacenta da vela, suplicante e gemente, como num chamamento sagrado:

 

− Ó Galáxia!...  Ó Galáxia!...

 

A grande porta do palácio se abriu num rumor abafado, e um vulto olímpico de mulher assomou, deslizou, sob a lua, em direitura à praia, envolta misteriosamente em longa túnica alva.

 

A vela largou de súbito, afastando-se lentamente para além, para além, no Mediterrâneo azulado...

 

Rio — 1895.

 

 

 

Poente

 

 

Dezembro, de tarde.

 

Do alto e fresco varandim do palácio, dominando amplamente a paisagem em redor e o porto, ao longe, com as suas águas serenas e azuladas, manchadas aqui e além pelos cascos dos navios, os altos e finos perfis das mastreações e por pequeninas brancuras de velas, como asas, docemente roçando aquela superfície polida — contemplávamos tranquilamente e sorrindo, sobre o poente em chamas, um estranho amontoamento de espessas nuvens pardacentas, que, em lentas movimentações periféricas, se franjavam de repente de ouro vivíssimo, fazendo desenhos excêntricos, alados, originais e felposos como trabalhos de lã, em proporções ciclópicas, sobre um fundo de talagarça.

 

E à maneira que o monstruoso cúmulos se distendia, especado como um cabrestante em faina por faíscas de luz ao alto, semelhantes aos braços espaçados de um moinho gigantesco — distinguiam-se fugidiamente, empastados e extravagantes perfis de coisas, objetos e animais pré-históricos, predominando sobretudo, abundantemente, sucessivamente, como num apoucado recurso de artista estéril e rude, estampas de ursos descomunais e de adamastores titâneos.

 

E tu, então, adorada e carinhosa Amada, com os teus belos olhos embebidos na saudosa iluminação do crepúsculo, admirativamente, numa vivacidade alegre, rompias de vez em quando ao meu lado:

 

− Olha! Olha! — e apontavas com o teu dedo rosado — Vês aquela nuvem lá, do outro lado, solta no céu e só?... Parece uma cegonha voando...

 

E eu te olhava, e olhava a nuvem, enlevado na tua formosura e no encanto e na serenidade da hora.

 

− E aquela... esta de cá... meio clara... que está junto àquela outra, de um cinzento intenso... assemelha-se tanto ao Leão, o nosso bom e velho terra-nova... E essa outra... ali... bem ao centro, onde há um pequeno ponto de luz rubra, dir-se-ia como uma grande águia, de olhar em sangue, asa aberta no espaço, espreitando a presa... E lá no alto... aquele filete de algodão, como a torre de um farol que esmorece à distância, perpendicular e só naquele canto azul aberto... E ainda mais lá... além... dois imensos flocos de arminho, como dois corações... E movem-se ao mesmo tempo, e ligam-se, e fundem-se na luz radiosa do céu...

 

Arrebatado, e tomando-te as mãos rosibrancas, murmurei então:

 

− Sim, amor! São os nossos corações!...

 

E ficamos a olhar longas horas, docemente enlaçados, unidos e num embevecimento, aquele espetáculo encantador, onde as nuvens, em mutações caleidoscópicas, punham uma série infinita de visões na luminosa e opulenta vermelhidão do ocaso.

 

 

Desterro — 1888.

 

 

 

O palácio do rei Luís

 

A Alcides Cruz

 

 

Bela tarde de outubro, aquela em que eu, já há anos, transpunha, alegre e descuidado nas minhas habituais caminhadas, as pequenas colinas do Estreito em direção à Praia de Fora. Depois de cruzar várias trilhas e atalhos, por entre ervagens espessas e sebes de arbustos floridos, nessa península pitoresca em que assenta o Desterro pelo norte, descia lentamente a larga rua do Soeiro, correndo a cem metros do mar, sobre uma espalda curva de outeiro, e seguia, enlevado e saudoso, as velas brancas de um brigue fugindo airosas além, quando uma voz, acolhedora e amiga, inesperadamente rompeu, baixando do alto sobre mim, dentre um maciço de verdura que ficava à direita:

 

− Olá! por aqui? Há que tempo o não vejo! Surpreendido, estaquei, procurando descobrir quem me falava numa voz não estranha, mas cuja identidade eu não podia bem conhecer ao momento. E, sem avistar ninguém, passeava embalde os olhos curiosos e ávidos pela folhagem densa, nessa parte agreste da rua em que a vegetação crescia à lei da Natureza e onde se erguia a prumo o corte áspero do terreno, à maneira de um velho muro todo coberto de musgo e lianas, entrelaçando-se em delicada urdidura verde.

 

A voz estalou de novo, forte e meiga:

 

− Então, goza-se a vida e passeia-se?

 

E a figura esguia e alta do meu amigo Trompowsky apareceu, num talude ao lado, caminhando ao meu encontro, atacada num leve e claro costume de verão, o rosto fino e rosado, os lábios vagamente sorrindo, barbicha loura ao queixo e uma radiação carinhosa de afeto nos belos olhos glaucos.

 

Feito o costumado cumprimento e trocadas algumas palavras sobre o sítio que ele escolhera para passar a calma estival daqueles meses, fomos descendo vagarosamente para a Chácara Garcia, onde a Praia de Fora começa, alva e recortada, contornando a água azul com o seu crescente de areias. Palrávamos cordialmente, de tudo, parando, de momento a momento, para admirar a paisagem e o litoral esplêndido, quando, de uma vez, avistei, a pequena distância, para o lado de baixo, por sobre a cerca de espinheiros, recentemente roçada, uma espécie de alicerce em ruínas, num vasto terrapleno quadrado, aberto sobre um dorso alto de outeiro, que entrava mar a dentro como um pequeno promontório, cujo extremo findava num monte de rochas agrupadas em cabeços.

 

Interessado e curioso, perguntei ao meu amigo, se sabia a origem daquelas bases de construção, que tinham ficado apenas em início nesse viso de colina marítima, que era talvez o mais belo ponto paisagista da costa, revelando assim um fino gosto aristocrático de artista em quem o escolhera para nele levantar o seu ninho. E, atraído por aquilo, examinava com afã toda a sebe, em busca de uma passagem que me levasse até lá, enquanto o amável Trompowsky, fixando-me com um sorriso, ajuntava fleumaticamente a meu lado, procurando acalmar a minha curiosidade febril:

 

− Espere, homem, eu lhe explico. Aquilo tem uma história interessante. Não é preciso romper assim tão loucamente os espinhos! Olhe, ali está um atalho que lá vai ter direitinho.

 

E mostrava-me, adiante, uma curva reentrante da cerca, onde havia uma porteira.

 

Era já no suave, verdejante pendor arborizado da Chácara Garcia. A rua perdia-se aí sob as frondes amplas e altas das nogueiras e dos camboins, estendendo-se sinuosamente para longe, mosqueada aqui e além pela alvura das casas, surgindo entre moitas tremulantes de bambuais verdíssimos.

 

Apressando o passo, transpusemos a cancela, e, em pouco, pela fita rubra da vereda que se torcia em meio a grama, chegamos ao terrapleno que se via do caminho. Este lugar aprazível, fechado do lado de fora pelo semicírculo de rochas erguendo-se em recorte cinzento, era totalmente descampado e coberto de ervas rasteiras, formando justamente a ponta sul do crescente em que se talhava a baía. Daí o panorama litoral se desenrolava aos meus olhos num relevo impressionista.

 

A essa hora, o sol ia caindo lentamente por trás da linha ondulosa dos cerros das Tijuquinhas. Toda a costa do continente e da ilha desenhava-se nitidamente, a uma e outra banda do golfo, nas rendas alvas das praias curvas, na tumidez verde dos outeiros viçosos e no declive majestoso de espaldas esmeraldinas. As casas da Praia de Fora, pousadas à beira d’água, a frontaria batida do sol, num côncavo de areias límpidas, fulguravam pela vidraçaria radiante num incêndio purpurino. À direita era a ponta do Recife, Cacupé, Santo Antônio, Sambaqui, o Rapa e o Arvoredo, com os seus topos solientes de ervagens, perdiam-se além pelo mar, sob um véu de ouro sutil. À esquerda a brancura dos arraiais e freguesias marítimas, espiando do alto dos cabos, ou sobre a encosta dos montes, as velas claras que singram. E no estofo infindo da vaga, malhado de frisos de espuma, a tumidez graciosa de pequenas ilhas, boiando, como cabazes floridos, sobre a planura infinita.

 

Depois de olharmos um instante o ocaso admirável, entrei a examinar detidamente o vasto terrapleno quadrado, onde se erguiam os alicerces de pedra, que mostravam, em certos pontos, fendas e desmoronamentos, cobertos já pelas ervas, dourando sempre as ruínas de uma eterna primavera. E calculava, admirado, as proporções ciclópicas que não viria a ter o edifício ali projetado, se fosse levado a efeito — quando o meu amigo, convidando-me a sentar ao pé dele, sobre umas pedras altas, começou a narrar a história daquelas ruínas, que, segundo me disse, eram de construção recente, pois vira ele preparar-se o terreno para os primeiros trabalhos.

 

O rei da Baviera, Ludovico II, que era um verdadeiro doudo (o Trompowsky, com o seu espírito equilibrado e terra a terra de homem prático, posto que inteligente, não admitia paixões artísticas, fantasias, idealidades), tivera a ideia, uma ocasião, de mandar à América, por sua conta, o seu secretário particular, com o fim único de escolher um sítio para a edificação de um palácio que ele viria habitar, um dia, quando cansasse de reinar (o Trompowsky acentuava este cansasse com um riso irônico e cáustico). O homem recebera para essa comissão instruções especiais, entre as quais figurava a condição principal da aprazibilidade e encanto do lugar, seguindo-se, na hipótese da escolha, a remessa para Munique de fotografias, plantas e quadros. O primeiro país onde aportara fora os Estados Unidos, seguindo-se a Nova Bretanha ou Canadá, o México, todas as Repúblicas da América Central e as Antilhas. Depois descera pela Colômbia, Venezuela, as Guianas até o Oiapoque, atravessando pelo interior para o Equador, o Peru, a Bolívia, o Chile, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o Brasil, que correu desde o Rio Grande do Sul, cortando pelos Estados do centro, até ao Amazonas, tomando após o litoral e visitando tudo até Santa Catarina, onde parara alguns meses em contínuas excursões pelas colônias alemãs, desde Angelina a S. Pedro de Alcântara, no sul, a Joinville, Brusque e Blumenau no norte. Por fim, chegara ao Desterro... E tinha sido aquele alto de colina, acabando pitorescamente num cabo sobre o mar azulado, no meio de uma paisagem deliciosa e das mais originais do mundo, o local escolhido pelo emissário do rei Ludovico para o seu novo palácio. Tiradas vastas e numerosas fotografias, arranjados mapas e planos minuciosos de toda a ordem, e remetidos para a Baviera — um ano depois voltavam, com a aprovação soberana, em cópias nítidas e exatas, às mãos do solícito mordomo imperial, ao mesmo tempo que chegava uma turma de arquitetos, pintores, decoradores, estofadores, carpinteiros e pedreiros bávaros para as obras do grande castelo ideal...

 

Eu ouvia tudo isto, que me parecia quase inverossímil e fantástico, numa arrebatação íntima, gozando mais fundamente então, na minha nevrose patológica de artista, a irresistível simpatia desde muito votada a esse rei encantador, estranho esteta coroado que o mundo já vira um dia. E as suas grandes coleções artísticas, de uma riqueza  “feita para desorientar a gente”, como disse Oliveira Martins, composta do célebre lustre que a fábrica de Meissen levou quatro anos a fazer, de uma toalete de Saxe que jamais alguém possuíra igual, de um leito todo incrustado de ouro e de uma colcha da China que era uma maravilha, — bailavam-me na ideia num torvelinho rutilante de pedrarias e cousas preciosas e raras. Pensava nos seus palácios da Baviera “que eram de fadas, nos recessos mais agrestes das montanhas, sobre píncaros inacessíveis, ou em ilhas banhadas pelas águas dos lagos alpestres”. Via, claramente via pela imaginação superexcitada, a sua figura loura e colossal, “de noite, ao luar, na sua barca, fazendo de Cisne — o cisne da lenda, o Lohengrin da fantasia germânica!” E encantava-me, sobretudo, a paixão extraordinária e mental que ele tivera por Wagner, dando-lhe especialmente um teatro para as óperas geniais e construindo-lhe outro em Beyruth, sob a única condição, como diz ainda o egrégio pensador português, de “ir ouvir, sozinho, às escuras, a Tetralogia épica em que os seus sonhos tomavam realidade, e em que o mundo lhe parecia um só, o da cena e o dos homens, o das visões e o dos fatos, interpretados em sinfonias de uma alucinação atroadora...”

 

Mas o Trompowsky prosseguia:

 

Mal as obras começaram, o rei Ludovico, consumido pelas dívidas e dado por doudo pelos médicos, deixara o trono da Baviera, sendo aclamado, em seu lugar um irmão — outro doudo! O emissário, que dirigia os trabalhos, suspendeu tudo, e, reunindo toda a gente, partiu... Daí a meses chegava ao Brasil a notícia trágica de que o pobre Ludovico II, uma manhã do ano de 86, por um junho azul e suave, em Munique, andando a passear pelas margens floridas do Sternberg, atirara-se ao lago onde perecera afogado.

 

O Trompowsky calara-se um instante; depois, pousando os olhos no mar, que se ensombrava já lentamente à última claridade do ocaso, concluiu:

 

Aqui tem, meu amigo, a história verdadeira, mas que poucos conhecem, destes alicerces carcomidos que tanto o impressionaram.

 

E, levantando-se, desceu para o recorte de rochas onde o cabo findava.

 

Eu, sentado ainda sobre aquelas ruínas, embevecido com o que ele narrara, numa impressão extraordinária, olhando vagamente as primeiras estrelas que radiavam a leste com uma luz eteral, evocava intimamente, no espírito, o verdadeiro perfil desse bávaro inefável, que, rei e artista, só vivera para a Fantasia e para a Arte, figura impressionante e olímpica, que eu vira, uma vez, havia anos, num belo quadro alemão em Joinville, no grande palacete do príncipe deste nome: um rapaz de trinta anos, fronte ampla e expressiva, cabelos de ouro anelados e uns olhos rasgados e vagos, de um azul de faiança, voltados sonambulamente para o céu, como os de um místico ou de um iluminado.

 

 

Rio — 1896.

 

 

 

A gaivota azul

 

 

O encanto de Miss Anne a bordo era uma dessas lindas gaivotas do polo, de alto pescoço gracioso e de uma alvura radiante, tocada levemente, nas asas, de uma nuança de azul.

 

Possuía-a havia um ano. Dera-lha o praticante da galera, uma manhã de julho, na costa da Groenlândia. Fora após uma grande luta com duas baleias, que tinham sido arpoadas pela meia noite no paralelo 70, junto à ilha de Hooker, sob esse clarão nebuloso e perene das noites polares. As lanchas as perseguiram durante seis horas, numa faina contínua, finda a qual os arpões as venceram. Mas antes disso a embarcação que o rapaz patroava tivera algumas tábuas arrancadas ao fundo pela terrível rabanada de um dos cetáceos, que a levara a encalhar num iceberg próximo, em cujas finas agulhas de gelo pousavam bandos e bandos de pássaros marinhos. Enquanto os tripulantes da baleeira tomavam os rombos com lonas alcatroadas, o George Dinger, com a sua espingarda inglesa, percorria a grande massa gelada, derrubando algumas aves, entre as quais uma bela gaivota azul, que, viva e mal ferida numa asa, debatia-se, aos gritos, sobre um cabeço alto. Apanhada a laurus glaucus, ao voltar para bordo da galera, oferecera-a a Miss Anne, que era louca pelas aves do mar.

 

A graciosa menina irlandesa nunca mais a deixara, tratando-a como uma boneca, fazendo dela o seu encanto. Pusera-lhe o nome de Hope, esperança, e trazia-a continuamente ao colo, cobrindo-a de mimos e beijos, repetindo-lhe de instante a instante, na sua adorável ingenuidade, como a uma companheira querida, palavras de doçura e meiguice — oh my dear! oh, my darling!

 

Pela manhã, quando deixava o camarote, surgia no salão da câmara já com a gaivota nos braços, a dar-lhe pedacinhos de biscoutos, miolo de nozes e passas. E mesmo às horas de leitura, das longas leituras britânicas, muito fundas e cismadas, com um grosso volume de Cooper sobre o regaço, nos vastos sofás das anteparas da câmara ou no seu camarim sobre os estreitos beliches envernizados, junto ao vidro das vigias, afagava-a ternamente, envolta nas suas vestes de peles sob o frio boreal. A tarde, nas latitudes mais quentes, enquanto a galera bordejava, com os grandes corpos dos cetáceos amarrados às bordas, na extração desse óleo utilíssimo que faz a riqueza dos armadores baleeiros de Mugford e do Donegal, vinha brincar para o tombadilho, empoleirando a gaivota nas enxárcias de ré, ou fazendo-a esvoaçar pela borda, presa de uma fita escarlate.

 

E era essa, agora, a diversão predilecta da filha do capitão Thomas Reider, um valente marinheiro, de tez lisa e cor de lacre, apesar dos seus quarenta anos de lida no mar. Cruzando os oceanos polares durante o verão, quer nas regiões boreais, quer nas austrais, esse gigante das vagas, desde que casara, na primeira metade da sua mocidade, ativo e ambicioso, encetara o comando de navios baleeiros, de onde se tiravam então riquezas incalculáveis. As suas primeiras viagens foram em navios do Canadá, e com tal êxito se acentuaram para ele, que, dentro de seis anos, passara a armar por sua conta, em Foyle, na Irlanda, de onde era a mulher, formosa loura do Donegal, de forte descendência marítima, cujos antepassados haviam perecido heroicamente nas grandes expedições árticas. A morte desta, porém, numa invernação dolorosa no polo, onde todos estiveram quase perdidos, logo após o nascimento de Anne, na sua esplendida galera Mermayd, desgostara-o de tal modo que vendera os seus navios e bens, e, voltando ao Canadá, passara alguns anos em terra, com um Ship-chandler, para educar a filha e descansar um pouco dos labores do mar. Mas o negócio fora para trás, durante uma grave pneumonia que quase o matara, e, perdido tudo, apenas se restabelecera, embarcara outra vez para a pesca polar. E ali ia, agora, aos sessenta anos e pobre, só com aquela filha adorada, no alto casco da Farewell, para as águas austrais.

 

Miss Anne era uma menina de quinze anos, alta e cheia, de um busto de giganta das Sagas, robusta, setentrional. Tinha os cabelos crespos e cor das praganas dos milhos, a pele fina e rosada, os olhos de um verde de onda do largo. A boca fresca e polpuda, vagamente recortada em flecha, abria-se, sobre os dentes de neve, como um traço carminado. E do seu talhe alto e forte de deusa britânica, dourada pelo sol do mar, um resplendor saía, nimbando-a de tal graça e beleza, que se diria uma aparição dos Edas, surgindo, loura, das vagas.

 

George Dinger, que era um rapaz brasileiro, de cabelos castanhos e olhos negros inflamados, posto que filho de yankee, mal pisara o convés da galera impressionara-se por Miss Anne. E no espaço de quase três anos em que ali andava, cruzando as zonas polares, o seu coração enamorado não cessara um só instante de palpitar e gemer por aquela rapariga divina, que lhe arrebatara a alma. Mas a visão loura das Sagas, na sua ingenuidade saxônia, durante muito tempo não lhe dera a menor atenção. E era embalde, e timidamente, que ele, às vezes, à mesa, lhe dirigia a palavra, amoroso e tartarmudeante; ou que, pelas tardes veladas do polo, ou sob os luares idealizadores dos céus tropicais, a envolvia em seus cantares, fitando-a meigamente da borda, sob as velas enfunadas.

 

Miss Anne não passava de uma verdadeira criança com um porte colossal. Um dos seus entretenimentos mais queridos eram os jogos que, nos dias de calma e boa monção, lhe arranjava o piloto na tolda. Esse bom velho hércules, rosado e de barbas grisalhas, que, apesar de solteirão amava as crianças com um enternecimento paternal, fazia consistir, de algumas vezes, as suas brincadeiras em correrias loucas atrás da menina, como se brincassem ambos o Tempo será; de outras, em agarrá-la pelos braços e balouçá-la da borda sobre as ondas espumantes — tudo isso por entre um alegre tumultuar de exclamações e risadas...

 

É o pobre George Dinger, debruçado da borda, ou de pé junto ao leme quando estava de quarto, vendo-a tão indiferente ao seu amor, suspirava baixo, num despeito e com um vago ar magoado.

 

Mas na ocasião em que estivera quase a morrer contra a ilha de Hooker, na perigosa arpoagem daquela manhã de julho — o pior dia de pesca que experimentara depois que andava na Farewell — uma esperança de que a rapariga viesse a perceber o seu grande afeto por ela nasceu-lhe subitamente na alma ao apanhar a linda gaivota azul. Desde então, com efeito, Miss Anne se lhe tornara mais amiga, e, com a ave sempre ao colo, no tombadilho ou na câmara, quando se encontravam, falava-lhe com certa meiguice, envolvendo-o na doce luz dos seus olhos.

 

Com o pretexto de afagar a gaivota, ele jamais se descuidava de se aproximar dela, dirigindo-lhe de contínuo elogios e graças. Assim, dentro em pouco, começou a nascer entre ambos uma certa intimidade. Horas e horas, então, pelas manhãs transparentes e pelas tardes suaves, sentados alegremente na tolda ou junto das amuradas, apreciavam a aurora ou o crepúsculo fulgindo em chamas de nácar sobre a vastidão do oceano, ao mesmo tempo que carícias langues de amor voavam de lábio a lábio, no murmúrio vago das ondas quebrando contra o costado. E a gaivota azul entre ambos como um talismã sagrado!

 

Um dia, porém, ao deixarem o hemisfério do norte, a linda ave fugira. Miss Anne, inconsolável e num pranto, fechada no camarim, não quisera falar ao namorado, nem subira ao tombadilho. Ele também, por seu lado, triste e suspiroso, corria todo o navio, à procura da gaivota, que era a sua felicidade na vida.

 

Mas a gaivota do polo lá ia por esses mares, em busca das terras árticas...

 

E o capitão, indiferente, ria alegre com o piloto, enquanto a galera veleira singrava, airosa, à bolina.

 

 

 

Rio — 1897.

 

 

 

A sonata do luar

 

 

Anoitecia, quando, pela varanda do lado dando para o jardim, nos encaminhamos para o grande terraço balaustrado da frente, deixando a vasta e confortável sala de jantar, onde agora duas robustas criadas alemãs, muito louras, a pele fresca e rosada, os braços saindo nus e roliços das mangas dos seus corpetes alvos, se agitavam apressadamente, arranjando e pondo em ordem a bela mesa cheia de flores onde, havia momentos, festejáramos com jubilosa cordialidade, tocando as taças de Joannisberg, o aniversário de uma dessas pessoas queridas que são a graça e a bênção de um lar.

 

Longe, no horizonte, sobre a negra muralha recortada da serra da Boa  Vista, a lua subia, abrindo deliciosamente no espaço o seu imenso sendal luminoso. Através o crivo escuro das trepadeiras, cujas folhas tremiam à aragem ciciando-lhes misteriosas carícias, pequenos discos de claridade láctea desciam até os recantos mais escuros, batendo o mármore do terraço. Mas os balaústres do centro rasgavam como uma larga janela para o campo, para a amplíssima paisagem enoitada.

 

Aí sentamo-nos todos, embevecidos no panorama do rio, estadeando-se nas voltas flexuosas como uma estranha via láctea, ao longo da grande avenida do cais. No fio da corrente, onde parecia que ferviam raios de prata em fusão, barcas a vapor, pequenos lanchões e iates erguiam no ar vagamente a trama fina das mastreações debruadas de luar. Nos planos da outra margem, terminando em colinas longínquas, que se esbatiam na sombra difusa, as culturas adormeciam no silêncio do céu nevoso. Pela barranca cortada a prumo, aqui e além, na sebe rasa dos arbustos, árvores moças e pujantes, um ou outro tronco decrépito, torcido já pelos anos e só coroado no alto por um penacho de folhas, inclinavam as suas franças rendadas, como para ouvir as ondinas que lhes passavam junto às raízes, cantando.

 

O maior encanto do quadro era, entretanto, uma pequena ilha fronteira, de cuja profusa vegetação uma casinha surgia, tendo a um dos extremos uma gigantesca palmeira, que, semelhante a um mastro, lhe dava o aspecto de uma velha barca de pastoral de outras épocas, apodrecida à margem de algum canal esquecido e invadida por uma inundação de verdura. As águas, descendo com violência, abriam à sua proa de ervagens longos florões prateados, que ondulavam e fugiam...

 

Mas, de repente, fraulein Elsa, a filha do dono da casa, em cuja honra era aquela festa, à frente de um bando alegre de amigas, apareceu, atravessando o grande salão iluminado, em direção ao terraço.

 

As graciosas valquírias chegaram numa grazinada festiva, e, tomando o lugar em que estávamos, debruçaram-se aos balaústres, a contemplar o esplendor do luar que nevava todo o céu, a casaria de Blumenau, os cimos altos das colinas, das árvores, e a longa faixa flexuosa do rio. E de suas bocas mimosas, exclamações vivas fluíam pela noite admirável.  Nisto aproximou-se do grupo o velho Carlos Schneider, padrinho da festejada, que, dirigindo-se a ela, pediu-lhe que fosse tocar uma das suas músicas amadas.

 

Então, um rapaz imberbe e louro, a estatura gigantesca, atlético e virilmente belo, que estava de pé a meu lado, meio curvo na sua linha de gentleman, voltou-se todo para a moça e disse-lhe em alemão, numa acentuação muito íntima:

 

− Beethoven, Elsa, Beethoven! A Sonata ao luar...

 

Elsa, muito alta e airosa no seu vestido claro de crepe, ergueu vivamente o lindo rosto oval, de uma louçania celeste de corola que se abre, e, com os grandes olhos azuis, de uma transparência e candidez inefáveis, um sorriso nos breves lábios rosados, murmurou uma recusa. Mas logo todos repetiram o pedido num coro solicitante e álacre:

 

− A Sonata ao luar! A Sonata ao  luar!

 

Não houve então mais escusa possível. O bando chalrante enveredou para o salão como uma revoada de andorinhas voltando ao beiral de um castelo do Reno por uma tarde primaveral — e Elsa foi sentar-se ao piano.

 

O rapaz louro e atlético seguiu o bando adorável, indo acomodar-se em um divã, o rosto muito rosado agora à luz profusa dos lustres e uma radiação amorosa nos seus olhos de faiança.

 

O velho Schneider e os demais cavalheiros foram colocar-se às portas, numa atitude de profunda atenção. Leopoldo Schwarz e a esposa, os bons pais de Elsa, ficaram comigo no terraço, sob o crivo das trepadeiras onde o luar peneirava a sua luz fosca e alva.

 

E logo as primeiras notas da sonata saltaram do teclado, voando a todos os ângulos do salão. Os acordes suaves, de uma sinfonia arrebatadora, ondulavam e fugiam, deixando no ar como um frêmito de emoções. Envolvia tudo a nevoenta espiritualidade de um sentimento recôndito, passado em almas que vivem perpetuamente na adoração do indefinido e do vago, ansiando pela realização de um amor que se livra nos páramos ilimitados de uma criação transcendente, na esfera subjetiva das ilusões e dos sonhos.

 

Mas nessa animosidade nebulosa de afetos idealizados e aspirações levadas para além da terra até as raias da abstração, havia toda a palpitação e embevecimento de uma paixão desvairada. E através dessas volutas sutilíssimas de sons, envolvendo como um fio de melodia dois corações que, polarizados pelo mesmo impulso, se atraem e se fundem num só anseio de ideal, sem conseguirem entretanto a desejada ascensão ao seu Éden sonhado, se desenhava vagamente a iniludível realidade da estância mais notável, talvez, da vida do grande artista, que concebera, num arroubo divino, aquela sonata genial.

 

Sob a grande execução, eu sentia debuxar-se, em meu espírito, o esquisso desse lied germânico. Era num velho solar palatino, por uma noite clara do norte. Um cavaleiro enamorado estaca subitamente o corcel sob as ramas das carvalheiras junto de um torreão rendilhado. A lua, com a sua luz misteriosa e vaga, banha docemente os vitrais coloridos da janela gótica. Vibrando o seu alaúde, o paladino amante solta as primeiras estrofes sonoras de um meigo e velho rimance. Então a ogiva rútila estremece e um perfil louro de visão se debruça, arrebatado pelo canto. Depois o trovador emudece. E as horas voam no silêncio da noite nevada. Por fim, um cicio de frases e beijos de amor passa de uma à outra boca, de um a outro coração. É o momento da partida. Adeus, meu sol, meu tesouro! Adeus, adorado amor! E o cavaleiro galopa, fugindo na estrada branca.

 

Quando a última nota da sonata findou, Elsa ergueu-se, risonha e cheia de graça, com o seu alto porte de valquíria e a sua bela cabeleira loura. Todos correram a saudá-la, as moças como os rapazes, num alvoroço festivo.

 

O último, porém, que a saudou foi o jovem Apolo germânico, que se sentara ao divã. Mas a sua galanteria merecera tal acolhimento da moça que eu, vendo-os assim tão unidos, as mãos enlaçadas como num enlevo feliz, fiquei a pensar, por instantes, nos personagens ideais daquela sonata mágica.

 

 

Rio— 1899.

 

 

 

Natal

 

À ilustre escritora portuguesa D. Maria Amália Vaz de Carvalho

 

 

Era véspera de Natal em Joinville, a formosa cidade teuto-brasileira do extremo norte, no estado de Santa Catarina. As derradeiras claridades rosadas do crepúsculo esmaiavam pouco a pouco a oeste sobre as planuras que margeiam o Cachoeira, onde se recortavam pitorescamente, em maciços de folhagem, os extensos mangais verdes, de cujo seio se erguiam, aqui e além, para os planos afastados, frondes de árvores ramalhosas e troncos torcidos e esguios de eucaliptos, abrindo no céu pálido da tarde os seus penachos de folhas embalados pelo vento.

 

O pequeno vapor em que eu ia, o D. Francisca, contornara já uma das amplas voltas do rio, de onde se começa a avistar, pelos rasgões da verdura, os telhados de ardósia vermelha das primeiras casas de paredes alvíssimas da cidade do Príncipe. E daí a instantes as sebes densas de mangue, que cercavam a espiégle lanchinha singrando águas acima, findaram de repente, surgindo então a meus olhos o cais principal de Joinville — uma linha cinzenta de cantaria, coroada por um renque de armazéns que são depósitos de mercadorias.

 

Marinhei apressado, com uma maleta de viagem na mão, uma das escadas de pedra, por entre um bando rumoroso e festivo de pessoas da cidade, mulheres e homens, que vozeiravam e riam, num português cheio de rr e em sílabas ásperas, guturais de alemão. Eram famílias e outros que vinham receber os conhecidos e amigos de S. Francisco e do Desterro em excursão de Natal à pequenina e nova Colônia daquém Atlântico, que é talvez a mais bela cidade do Brasil.

 

Uma trapalhada de carros tomava toda a praça que se estende por detrás dos armazéns — carros de passeio e de carga, uns parados a receber volumes, outros a rodar, atulhados de gente, num movimento de chegada e partida, puxados por parelhas possantes ao vivo estalar dos chicotes. Retido entre o burburinho, procurava eu um carro de aluguel ou alguém que me guiasse até a rua dos Lírios, onde me esperava um nobre lar germano-brasileiro de família querida, quando me achei subitamente arrebatado por dois braços robustos, a amplexarem-me com afeição e carinho:

 

— Ó senhorrr amiga! Ó senhorrr amiga!

 

Era Paulo Rosemberg, um hércules de dezoito anos, inteiramente imberbe, de olhos azuis e muito louro, meu dedicado camarada e filho mais moço da família que me aguardava à bela rua dos Lírios. O rapaz, agarrando a minha mala, uma das mãos no meu ombro, carregou-me logo para o seu carro, no meio da balbúrdia que ainda reinava no largo, aumentada agora pela escuridão da noite envolvendo Joinville.

 

Galgado o estribo, e bem acomodados nas almofadas de marroquim, o cocheiro fustigou os cavalos e entramos a rolar pela rua do Porto, onde as primeiras habitações se mostravam já profusamente iluminadas, malhando fora os jardins e o macadame alvacento com grandes faixas douradas. Pelas janelas e portas, abertas de par em par, ao centro desses recessos sagrados de serenidade e de amor, as lindas árvores tradicionais de Natal destacavam-se num buquê de verdura, estreladas vivamente pelas chamazinhas fumarentas das microscópicas velas de cera colorida, ardendo em todos os ramos no meio de bibelôs variados e doces de mil feitios. Revoadas de crianças, todas de cabelos cor de ouro, em leves vestes cheias de fitas, brincavam alegremente em torno de cada árvore, numa grazinada festiva. Sob as trepadeiras floridas que revestiam as varandas e cujas folhas miudinhas recortavam-se em fina trama de bronze num fundo fulvo de luzes, homens e matronas, com rapazes e moças de lieder, as cabeças de um tom doce de trigo ou feno em plena maturidade, em volta de longas mesas atoalhadas, cobertas de grandes bolos tostados e de copos e pelotões de garrafas, palravam e riam alacremente, bebendo fresca cerveja espumosa ou esses puros vinhos do Reno que vêm de vinhedos lendários...

 

Para alcançarmos a casa tínhamos de percorrer todo o coração da cidade — a rua do Meio, a do Príncipe, a de Ludovico, a da Cachoeira e a do Norte, todas amplas, muito limpas, pautadas ao longo das casas por orlas de grama curta e por sebes de roseiras.

 

O nosso carro voava, cruzando dezenas de outros, através as ruas em festa, em meio à correnteza dos prédios, que, ornados e cheios de luzes, povoados de risos e cantos, com balões venezianos brilhando entre ramagens, a árvore amada das crianças erguida ao centro das salas, faziam esquecer por momentos a materialidade de sua estrutura, para tomarem à vista deslumbrada a arquitetura luminosa e rendada de castelos fantásticos, desses que rezam as sagas fulgiam à noite pelos feudos, nos grandes festins reais. E o magnífico veículo só diminuía a marcha ou estacava por vezes para dar passagem aos numerosos grupos de raparigas e moços que, aqui e além, tomavam as esquinas das ruas, vagando em todos os rumos, numa grande cantoria coral, em que as notas graves dos bassos abafavam, a espaço, o uníssono delicado das gargantas femininas.

 

Em vários pontos e quadras, edifícios colossais, com largos pórticos e parques interiores, como imensos politeamas, destacavam-se feericamente pelo extraordinário clarão de sua alta frontaria pejada de luminárias: eram os “bailes públicos”, onde se reúne a gente do povo, operários e criadas para celebrar o Natal. Bandas musicais de cem figuras e mais estrugiam dentro, em execuções vertiginosas mas de uma afinação impecável, desenrolando o infinito repertório das polcas, xotes  e valsas, ao som das quais se moviam jubilosamente multidões inumeráveis de pares, nesses zumbs delirantes que começam com as primeiras estrelas e só findam à madrugada.

 

Durante meia hora talvez carruajamos assim, em meio à expansão coletiva e geral de toda a cidade, onde decerto poucas almas haveria que não palpitassem e gozassem no triunfo do Natal, essa festa característica e eterna das nações setentrionais. E foi justamente ao apontar suntuoso da lua sobre as colinas de leste, onde o rio serpenteia por cachoeiras de prata, que nós entramos, muito alegres, a linda rua dos Lírios, cintilando toda acesa pela fachada das casas.

 

Alguns momentos depois apeávamos, sob palavras de boa acolhida, à entrada da ampla varanda entre ramagens do palacete Rosemberg, onde o bom velho Wilhelm, o dono da casa, deixando a multidão dos convivas que lhe inundavam as salas, com a esposa e as meninas, um grupo inefável de valquírias louras — me veio cercar para logo afetuosamente, ordenando a Paulo que me conduzisse lá acima, aos aposentos que me destinara. Subimos, então, em seguida, e, demorando-me apenas o tempo indispensável para sacudir a poeira de carvão da viagem, delongada de quase seis horas desde S. Francisco até ao cais de desembarque — desci radiante com Paulo, para a apresentação aos amigos da família e a primeira visita à árvore de Natal, no salão nobre, onde as crianças traquinavam em deliciosa algazarra.

 

Na larga varanda balaustrada, abrindo para o jardim da frente, sob o denso crivo de trepadeiras e as luzes que o douravam, corria a imensa mesa do festim de Weihnachten, totalmente ocupada por cavalheiros e damas, e  à cabeceira da qual Wilhelm Rosemberg e a esposa, repousados e felizes, nessa alta sinceridade de afetos que é o encanto da raça saxônia — faziam as delícias de todos, entretendo e animando a confabulação geral na mais doce intimidade. Cada um dos convivas, sentado familiarmente ao seu lugar, servia-se por suas mãos, pois nessa noite não há um só lar alemão que não dê folga aos criados — e esta é a folga sagrada do Natal, que ninguém ousa de leve afrontar, ainda em casos excepcionais. Os homens e rapazes tinham diante de si altos copos de litro, de porcelana ou cristal, com as finas tampas de metal branco reluzente erguidas para trás sobre a asa: dentro de cada copo a cerveja fervia, coroada de espuma, translúcida, cor de topázio. As matronas e fräulein debicavam iguarias e doces, acompanhando os saborosos bocados com pequenos goles de Kocheim e Jahannisberg, os famosos e finos vinhos capitosos do Reno.

 

Assim que apareci com Paulo, o velho Wilhelm, empoltronado como estava, sem se mover, mas risonho e afável, com os seus olhos vivos de sable cheios de uma grande ternura, a barba longa e grisalha, gritou o meu nome a todos, apresentando-me descerimoniosamente, e chamou-me para o seu lado, onde sentei-me, depois de corresponder às cortesias, na cadeira deixada nesse momento mesmo por uma de suas filhas, a encantadora Bertha, que saía com dois pratos cheios de bolo e uma garrafa clara, em direção à outra sala.

 

Passando-me a mão pelo ombro e afagando-me, depois de me perguntar delicadamente como passara na viagem e como deixara a família, que ele conhecera de uma vez em que fora ao Desterro, o bom germano dizia-me:

 

− Berthe foi levarr algume coise aos velhas que está na outrre sale com as menines.

 

Os “velhas” eram os nonagenários Rosemberg, marido e mulher, os nobres pais de Wilhelm, que também já contava sessenta e cinco anos. Como todos os anos, os dous velhos, apesar de alquebrados e trêmulos pela idade, não queriam deixar o seu trono” no salão nobre onde estavam os netos e bisnetos com a sua “árvore”, sem que batesse a meia noite, hora em que devia chegar o fantástico S. Silvestre, der Sylvesterabend, com o pesado embornal de couro para a distribuição às crianças dos presentes de Natal.

 

E conversávamos, enquanto Paulo, em frente a mim, do outro lado, servia-me cerveja e servia-se, partindo ao mesmo tempo queijo e fatias de bolo tostado. Por toda a mesa, para mais de quarenta convivas de ambos os sexos bebiam e riam, alegremente e com sobriedade. Do salão grande, colocado ao centro, com interposição de uma sala e tomado às portas por belos reposteiros de cassa, vinha-nos de vez em quando, em rajada, a gritaria sonora das crianças, forte e viva como uma girândola de foguetes que de repente se desprendesse e espocasse no ar.

 

Depois de algumas horas eu quis ir ver com Paulo a árvore de Natal, saber de que proporções era, como a tinham armado naquele ano e que surpresas guardava; mas o bom Wilhelm correu-me paternalmente a mão pelo ombro, dizendo-me que não, que esperasse para a ver quando estivesse a entrar S. Silvestre, que não tardava, pois já eram onze e meia.

 

Continuamos a cervejar e a confabular cordialmente, quando de súbito uma campainha retiniu lá fora, ao fundo do palacete, para os lados do pomar. As crianças, no salão, romperam em colossal matinada, como se ali se tivesse soltado inesperadamente um grande bando de gralhas. Alvoroçaram-se as salas. E todos da mesa, a começar por Wilhelm e a esposa, ergueram-se, gritando com estardalhaço:

 

— Der Sylvesterabend! Der Sylvesterabend! E precipitaram-se todos para o salão da árvore. Eu, levado pela mão de Wilhelm, lá fui também no torvelinho, palpitando de curiosidade.

 

No salão profusamente iluminado pelo grande candelabro e por arandelas douradas saindo de cada portal, estavam ainda somente os dois nonagenários e as crianças, que, caladas agora e sentadas numa linha de ricas cadeiras de carvalho esculpido, não tiravam os olhinhos azuis esbugalhados da cortina de damasco escarlate fechando o umbral do corredor ao fundo, que levava à varanda do pomar.

 

Enquanto o “santo” não surgia, pois que não dera ainda a tilintada final, formamos todos em dois grupos — um a cada lado da sala. Os grupos partiam em direção à fileira das crianças vindo do pequeno estrado recoberto de veludo vermelho, onde, sobre duas poltronas imperiais, de alto espaldar floreado e marchetado de ouro, estilo Frederico o Grande, se achavam sentados os avós Rosemberg, com vestimentas características de outras épocas, traduzindo costumes obsoletos — magrinhos ambos, mas de ossada poderosa, fronte ampla e inteligente, o tórax alto e bem feito dos povos louros do Báltico. Tinham a larga face expressiva, engelhada pelas emoções de uma existência quase secular, como de pergaminho rosado, onde luziam docemente os pequeninos olhos verdes, já vazios de esperanças e sonhos, é certo, mas umedecidos ainda de vaga ternura e saudade. Os cabelos inteiramente nevados davam-lhes um grande ar venerável.

 

Ao centro das alas, entre o “trono” e a criançada, erguia-se a árvore, feita do cimo tenro de um pinheiro novo, desses que, quando em pleno desenvolvimento, coalham em florestas colossais os planaltos de S. Bento e da Serra do Mar. Era a maior de todas as árvores de Natal apresentadas até ali pelo velho Wilhelm aos seus filhos amados: tinha cerca de quatro metros de altura, da peanha que a sustinha aos artesãos do teto afundado. Toda coberta de luzes, como um recanto de céu estrelado, com bibelôs variadíssimos das célebres fábricas de Hamburgo e de Meissen, com uma multidão de pequenas massas e doces secos representando uma série zoológica e as cousas mais singulares — a sbaum queridíssima da infância norte-europeia atraía e deslumbrava, num esplendor quase fantástico.

 

Eu, no meu grupo com Paulo, já cansado da demora e com os olhos deslumbrados daquela maravilha de árvore, perdia-me enlevadamente a contemplar o rosto divino e casto de Bertha, que, postada em frente no outro grupo, me fitava ingenuamente, com os seus mágicos olhos celestes, de um azul transparente de lago. E sonhava, acastelava deliciosamente no espírito as ilusões embaladoras de um profunda amor de Germana, num lar cheio de pureza e de afeto, cheio de ordem e de paz — quando a campainha me despertou de súbito, com vibrante tilintada.

 

Fez-se pesado silêncio: e todos olharam a porta recoberta de damasco vermelho, com ansiedade. De repente a cortina correu, colhida em pregas ao lado; as crianças ergueram-se numa matinada; e um grito uníssono e alegre partiu todas as bocas:

 

Der Sylvesterabend! Der Sylvesterabend! Um velho gigantesco mostrou-se então no umbral, com uma grossa peliça cinzenta, um grande barrete de marta e um alto bordão de jornada. Os seus cabelos e barbas cobriam-lhe os ombros e o peito em largas pastas nevadas, as quais lhe enquadravam o rosto venerável, onde os olhos reluziam como duas turquesas molhadas. A orla da peliça viam-se-lhe as pernas cheias e fortes, calçadas em grossas botas amarelas, enrugadas e como úmidas ainda do chapinhar nos gelos, decerto por alguma planície da Prússia, de onde ele viera subitamente até ali como por milagre. Trazia um grande embornal de couro a tiracolo, tão grande que tinha a boca oculta sob umas axilas, enquanto o fundo, cheio e túmido como um odre, quase tocava o soalho.

 

Com um gesto militar e sem proferir palavra, o santo protetor das crianças e enterrador dos anos velhos”, que se precipitam no abismo a cada giro de translação do globo — marchou, circunspecto e severo, sem um sorriso que fosse, em direção ao  “trono”, onde já o esperavam de pé, na sua tremura senil, os bons avós Rosemberg, que, mudamente também, mas sorrindo, lhe oscularam a larga mão. Depois o “mensageiro do céu” estacou em frente à árvore, onde logo o cercaram as crianças, que após lhe beijarem o cajado, entraram a gritar vivamente reclamando, as suas “festas”.

 

S. Silvestre sorriu-se então vagamente, contraindo as longas barbas, e muito meigo e carinhoso, curvando-se um pouco na sua estatura gigante, abriu o bornal de couro, repartindo pelas crianças uma série variadíssima de encantadores brinquedos e caixas rútilas de bombons.

 

Os grupos romperam em palmas, num fervor de aclamação e em altos vivas ao “santo”.

 

E neste rumor de alegria, S. Silvestre foi recuando mansamente para o fundo da sala, sempre voltado para todos, até galgar o umbral do corredor, onde a cortina de damasco vermelho, ao som da campainha ressoando de novo, o ocultou por mais um ano, nesse infantil e conhecido “mistério” que faz a great attraction deliciosa do natal alemão.

 

Em seguida, na vasta sala contígua, começaram as danças, que se despenharam em sucessivas xotes  e valsas até os primeiros clarões da alvorada.

 

Rio — 1897.

 

 

 

A primeira entrevista

 

 

Às ave-marias, arrumada a vaca e picada a ração para o cavalo numa espécie de estrebaria improvisada sob as ramagens bastas dos cafeeiros, cercando ao fundo a cozinha, o João Valente entrou em casa, a tomar o seu casaco de brim e o seu bordão de camboatá para as costumadas excursões noturnas pela freguesia.

 

Estrelava, quando desceu o terreiro e os seus grossos tamancos de couro começaram a estalar em cadência sobre o arcão da vereda que ia dar à estrada. Caminhava cantando, sob o esplendor da noite transparente, na doçura daquele descanso bem ganho à labuta do campo. E a sua alma exultava, feliz, por entre as sebes do atalho, onde os grilos veladores soltavam já, pelas moitas, os seus piqueniques metálicos.

 

À porteira parou, porque ouviu de repente, para os lados de cima, uma algazarra de rapazes. Esperou um instante, para ver se era gente das redes ou alguns dos companheiros de andadas. Tirou o isqueiro do bolso e, acendendo o grosso cigarro de palha que trazia à orelha, pôs-se a escutar. Na volta do caminho as vozes se tornaram mais claras. Reconheceu, então, o bando costumado — o Lino, o Honório e o Cosme, com a troçada tiririca — que lá vinha, nas habituais correrias dos sábados, para os fandangos da Baixada. Recolheu logo à porteira, correndo-lhe precipitadamente as varas, e agachou-se em seguida, escondendo o cigarro na escuridão das ramagens.

 

Não queria ser visto para poder escapar ao grupo que, constantemente nesses dias assim, o arrastava para aquelas folias noturnas. Já estava cansado das longas caminhadas e festas por essas paragens distantes. Depois, naquela noite, não se pertencia, pois tinha de ir à rua Velha, onde o seu coração achara agora um encanto. E na ânsia de se ocultar, com medo de que o menor ruído o revelasse, comprimia o peito, sofreando a respiração, para não faltar — louvado fosse Deus! — ao primeiro encontro que ia ter com a Rosinha, pela volta das oito, conforme haviam tratado em casa da tia Marciana.

 

Mas o bando passou num estrépito, numa alegre correria, em direção à Figueira Grande, onde a estrada real se bifurcava na da Baixada e na da Ponta das Canas. E durante muito tempo o rumor dos passos e vozes ecoou no caminho, afastando-se para longe...

 

Quando o silêncio voltou, só interrompido vagamente pelo saudoso perpassar do vento na folhagem sussurrante, o João Valente ergueu-se e sacudindo a roupa meio irrorada pela umidade da grama, com o cigarro fumegando nos beiços, transpôs a porteira rompendo o caminhar à tola. Num outeiro próximo, por onde a estrada subia para cair outra vez na planície, entrou a moderar a marcha, porque sentiu novamente a barulhada dos rapazes estalar adiante. Já um pouco nervoso, desesperava-se, no temor de que as horas passassem e não pudesse chegar mais a tempo à casa da tia Marciana. Na descida parou à sombra de um vasto cafezal que margeava o caminho, e, enquanto o bando se perdia além, na zoada que esmorecia para os lados da Baixada, impaciente e inquieto, ora batia freneticamente com o porrete no chão, ora fixava as estrelas vivíssimas, abrindo no alto um sendal de ouro flamante.

 

Em pouco, porém, a matinada se escoou ao longe e ele volveu a caminhar a passadas gigantes. Pelo engenho do Silvano, situado antes da encruzilhada, encontrou o Rufino, um camarada de infância, que corria para casa do vigário a buscar remédio para a mãe, agonizante de repente com uma sufocação. Fê-lo estacar por momentos; e após algumas perguntas tumultuosas a que o outro respondia arfando, quase a chorar, com umas garrafas na mão, inquiriu ainda:

 

− E uma coisa: não esbarraste com o bando do Lino numa balbúrdia por aí fora?...

 

O Rufino gritou-lhe, já numa andada de gamo pela ladeira acima, a cabeça voltada, a voz contrafeita pelo esforço da marcha:

 

−  Não! Só se embarafustaram pela Figueira Grande...

 

Daí a instantes, o João Valente, passado o sítio da grota, onde havia uma pequena ponte arruinada sobre um córrego murmurante, cujo fio de água prateada se perdia entre as ervagens do campo, entrou a demorar o passo, pois avistara lá no alto, contra o maciço escuro do pomar, a casa da tia Marciana.

 

Antes de tomar a vereda que levava até lá, cumpria evitar a cancela do velho Estêvão Santos, cuja casa era logo adiante. O abastado lavrador, ou alguém do seu lar, se o visse passar, inutilizava-lhe imediatamente o “plano” e ele perderia, desta vez, a primeira entrevista com a amada.

 

Conhecia quanto aquela gente o malqueria e do que o velho era capaz, se viesse a saber um dia do seu amor pela filha, que idolatrava. Por isso, desde que o seu afeto nascera — havia um ano — guardava o maior sigilo, não o narrando mesmo à sua mãe, para que ele se não divulgasse até que fizesse o casamento. E era por essa razão que, a muito custo, depois de enorme relutância da parte da Rosinha, obtivera dela, para aquela noite, uma entrevista em casa da tia Marciana, que protegia solicitamente o namoro de ambos. Não queria, pois, por coisa alguma do mundo, perder a oportunidade de assentar, de uma vez, as bases da única felicidade que aspirava o seu coração.

 

Meteu-se, então, por um canavial que acompanhava aí a estrada até a porteira do campo, e foi sair do atalho, bem em frente à casa da tia da Rosinha, que tinha luz na varanda. Botou-se à pressa pela vereda acima, muito alegre na sua paixão, e feita a volta da fonte, caiu em cheio no terreiro, na empena para onde dava a porta. A Rosinha e a tia, ao avistarem-no, ergueram-se logo do degrau onde estavam sentadas e correram para ele, exclamando:

 

− Boas horas! Estamos aqui há que tempo... Que demora, Virgem Santa!...

 

O Valente, apertando-lhes as mãos, ainda meio cansado da corrida, começou a contar-lhes, miudamente, as contrariedades que sofrera, desde a saída da casa até aquele instante. E ia para entrar, a pilheriar no meio de ambas, que se desfaziam em risos, quando, lá embaixo, no caminho, uma voz grossa e forte estrugiu de repente:

 

− Ó comadre! Ó comadre! Olhe, a Rosinha que ande!... Eu cá estou à porteira...

 

Os três estacaram, atônitos, ao som da voz tão conhecida e temida do velho Estêvão Santos. E tia e sobrinha, assustadas e trêmulas, correram para a varanda, dizendo apenas ao rapaz:

 

− Esconda-se, por Nossa Senhora, senão o velho o apanha...

 

O Valente, atarantado e indeciso, nos apuros do momento, procurava onde ocultar-se, quando ouviu os passos do velho, que subia já em direção ao terreiro. Desorientado, atirou-se à vereda, a fim de alcançar um algodoeiro ao pé e galgar a estrada no outro extremo do terreno; mas, na cegueira em que ia, esbarrou, sem esperar e tão violentamente, com o velho, que o derribou contra a sebe, na escuridão das ramagens espessas.

 

O homem soltou um rugido abafado, em meio à terrível surpresa, e, levantando-se logo, muito rijo e possante no seu todo hercúleo de lavrador, desceu ao caminho, brandindo o seu grosso cajado de laranjeira, trovejando, indignado e colérico:

 

− Ah! canalha! Se te apanho, sacudia-te o pelo!...

 

O Valente, na disparada, saltara a cerca do outro lado, e, varando um mandiocal à esquerda, agachou-se entre as ramas, a espreitar o caminho, o coração aos saltos, com medo do velho Estêvão. Só pode respirar livremente quando o perfil gigantesco do homem se sumiu no atalho. Saiu, então, para a estrada e deu de andar para a casa, murmurando de si para si, entre desapontado e satisfeito:

 

Felizmente, o demônio não me conheceu!...

 

 

Outubro de 1896.

 

 

 

Tirunal

 

A Luís Murat

 

 

Maktu, o brâmane, voltava agora à sua terra natal, após haver sofrido longamente, com resignação e humildade infinita, sobre as águas desertas do oceano, no solo estranho de uma ilha longínqua, as nostalgias e amarguras pungentes dos seus doze anos de exílio.

 

À borda curva do junco velejando em demanda de Benares a bendita, que já vinha apontando além, pela proa, entre os penachos tremulantes dos bambuais verdíssimos, nessa manhã radiante de junho, em que o Ganges marulhava docemente, rolando as suas vagas sagradas numa magnificência de ouro e rubis — cismava ele melancolicamente numa outra manhã, também suntuosa e resplandecente assim e que já se ia apagando no fundo escuro e remoto de outros dias volvidos, na estância tumultuosa e sombria dos seus vinte anos, quando, agitado por uma alucinação e as impulsões de um delírio, com o coração despedaçado, perdido para a esposa e para a família, como um bandido sinistro, descera chorando aquelas águas, sob um clamor de maldição, esmagado por um crime.

 

Todo o seu ser parecia experimentar ainda, nesse instante, os estremeções e arrebatamentos que o acometeram violentamente, na tragédia horrorosa em que se ensanguentava a sua vida. Fora após uma noite tempestuosa e terrível. Desde meses que a sua alma, ferida, se comburia à chama oculta e crescente de um grande desejo de vingança. Conselheiro e confidente do Rajá, surpreendera-o um dia, voltando do Templo, num recanto isolado do paço, de joelhos e súplice aos pés da esposa adorada, a sua Damayanti florida... Com uma onda de sangue à cabeça, entontecido, vendo tudo em redor escarlate, lembrou-se logo de agarrar ali mesmo o príncipe e rebentar-lhe o crânio contra as muralhas de pedra. Mas lá estava a sentinela para impedir-lhe o plano, e, sem poder vingar-se talvez, seria preso e encerrado para sempre nos subterrâneos sombrios. Resolvera, pois, calar, sepultar tudo no fundo do seu peito ofendido, e resignadamente, sem revelar a sua grande tortura, aguardar a hora e momento para a desforra temível. Sofrera angustiosamente durante alguns dias, até que uma vez chegou em que tudo ocorreu como queria. O Rajá tinha de sair, só com ele, uma madrugada, para as Águas Sagradas, numa consagração especial do Rito. Partiram ao alvorar nevoento de um dia tristíssimo. O coração saltava-lhe no peito  como num delírio. Ao sair da floresta, quando a faixa líquida das Águas Sagradas reluziu diante deles, límpida e azulada, num murmúrio cristalino, um sorriso de sangrenta alegria aflorou-lhe aos lábios febris... Daí a instantes, o Rajá desaparecia para sempre nas ondas... Sentira, então, tudo escurecer e enovelar-se-lhe em roda, e vozes estranhas, erguendo-se de súbito do nevoeiro das águas, invocarem Varuna, clamando contra a sua cabeça assassina. Deitara  logo a fugir, como um louco, pela margem do  rio, ao longo da imensa floresta, que farfalhava lugubremente ao vento, perseguindo-o com a  zoada atroadora de infindáveis gemidos. Afinal, ao passar um arrozal vastíssimo, que se lhe afigurou fantasticamente como feito de sangue, caiu pesadamente por terra, numa exaustão de fadiga... Ao voltar a si, encontrara-se estendido sobre o convés amarelo dum grande barco, toldado de seda, que descia à vela na brisa fresca do rio, sob a manhã rutilante, de sol de ouro vivíssimo, em direção a Akiab e Puri. Os de bordo, que eram vaiscias, reconhecendo nele um brâmane, instruído nos Vedas e meditador das cousas divinas, o tinham carregado para o seu navio, certos assim de se tornarem mais gratos às boas graças de Shiva. Aí, salvo da justiça dos homens, mas sob a ira implacável de Savitar e de Mitra, pensara logo exilar-se, por doze anos, à maneira do glorioso e divino Kaunaka, que fizera sacrifício semelhante na floresta de Neimasáa, e longe de todas as festas e gozos, na viuvez da alegria, faria a sua “reabilitação de pureza”, numa ilha solitária e inóspita, no meio do mar bravio. Depois quando Varuna abrandasse, e todas as forças divinas, por essa sua humilhação voluntária e absoluto desprendimento dos humanos ruídos, vivendo só na mortificação, resignado e humilde, voltaria então à terra natal, ao remanso da família. Decerto, todos o perdoariam porque fora o primeiro a punir-se, a cumprir a sua longa expiação de martírio. Um mês após ao delito, chegara às negras ilhas de Andaman, onde os homens o deixaram, sobre um alto costão pedregoso, batido do mar hostil. Todos os castigos desceram então sobre ele, numa sucessão de inenarráveis angústias. E ali ia agora, triste e alquebrado, em demanda de Benares a bendita.

 

Assim cismava Maktu, o brâmane, à borda curva do junco, vendo desenhar-se vagamente, ao longe, por entre a basta verdura, as cúpulas altas dos templos, recortando a rendilhada brancura na pureza gloriosa do céu azul da Índia. A vela larga e redonda bojava vitoriosa à brisa, que aromava o ar, impregnada ainda de um vago perfume de canela e sândalo, trazido dos bosques vigorosos que cobrem os planaltos extensos e as encostas verdejantes de Monghir. Toda a planura azulada do rio, em volta ao casco esguio do junco, estava cheia de apanhados de espuma, que balançavam, ondulando e quebrando-se uns sobre os outros, em murmúrios cristalinos. E pelas margens, ao longe, o reflexo sereno dos recantos de águas remansosas, onde a aragem do largo não levava um arrepio, deixando ressaltar aos olhos esses espelhamentos de vidro das grandes toalhas líquidas, que retratam magicamente as paisagens e os céus, com a nitidez e o encanto dos esmaltes de Kingtetchin. Ao dobrar dum pontal arenoso, onde a maré não subira ainda e onde os crocodilos dormiam estendidos ao sol, o grande templo de Jagrenat apareceu, de repente, num alto, faiscando sobre as águas trêmulas do rio.

 

Em volta de Maktu, então, no convés boleado de junco, coalhado de peregrinos, vindos de todos os pontos do litoral de Bengala e do Bramaputra, para a festa de Tirunal, que se realizava naquela tarde, em Benares a bendita — um coro imenso de vozes irrompeu do espaço, implorativo e gemente, entoando o misterioso oum. Ante esse cântico tristíssimo da liturgia védica, que diz tão serena e nebulosamente toda a resignação e doçura das almas que findam no traspasse imaterial e sutil para a Essência Infinita — o brâmane voltou-se de repente, como arrancado, de um golpe, ao seu vago sonambulismo; e, de joelhos contra a amurada, em silêncio mas fervorosamente, como se estivesse prostrado aos pés do grande Ídolo, os seus lábios longamente tremeram, a desfiar as orações do rito...

 

Quando tudo cessou, Maktu ergueu-se vagarosamente e de novo caiu em meditação, sob a vela, na borda, junto às enxárcias esguias.

 

Agora, o seu pensamento se embrenhava pelos dias dourados e límpidos de sua infância, de sua mocidade feliz. Nascera em Bohar e, aos cinco anos, logo que tomara mekala, o cordão misterioso que os brâmanes cingem para nunca mais o deixarem, conforme o ritual, fora, em companhia de um dos gurus que iniciam nos Vedas, para uma aldeia branca do Djennah, aninhada numa encosta florida, junto às terras de Dehli. A casa que habitavam, toda cercada de rosas em meio às emanações das florestas em torno, era alegre como um ninho sob o esplendor do Azul. Aí é que entrara a instruir-se nos Livros Sagrados, praticando as orações do oum, as oblações, as libações e os hinos. Esse tempo, porém, ficara-lhe vagamente no espírito, sem emoções quase e sem cor, como envolto numa remota manhã de neblina.  Só pelos nove anos, quando já estava para voltar à família, é que tudo começou a surgir a seus olhos, sensacionalmente, com certa nitidez e com brilho. O que mais o encantara então em Djennah, nessa quadra fugitiva, fora a magnificência incomparável da imensa paisagem. E jamais se lhe apagara da memória o espetáculo admirável das neves perpétuas do Kaltchin, rutilando inefavelmente à tarde sob o ouro do crepúsculo, e os roseirais infinitos, de inebriante fragrância, manchando de ocre as colinas, tão iluminadas nos poentes como nas manhãs de sol vivo! Completara os dez anos em caminho do lar, numa barca, em plenas águas marulhosas do rio. À noite, sob uma lua de lírio, na barranca, os marinheiros fizeram uma fogueira, e colocando-o sobre um tronco caído, queimando aromas do Indo, romperam em cânticos, correndo e saltando as altas chamas vermelhas, que o vento torcia.  Na casa paterna, ao chegar, foi uma festa ruidosa de rezas com fogos de artifício. Passado um ano, teve de partir de novo para longe dos seus, cruzando desertos e montes, a fim de completar as instruções do culto com os sábios Maharkis. Quando regressou, já iniciado e conhecedor dos Vedas, fixou-se em Benares a bendita, onde, conforme os usos, lhe ordenaram o casamento. Este realizou-se por um grande amor, com uma virgem lindíssima e de olhos cor de amora, Damayanti, a das tranças magníficas. À cerimônia nupcial sentira-se como numa imensa alegria e quase não pudera conter o coração, cheio de graça divina, ao receber a benção, quando o sacerdote lançou sobre eles, cobrindo-os, o largo pano de ouro do culto, e ambos trocaram, com os olhos em choro, numa só emoção, em folhas verdes de palmeira, o juramento sagrado da fidelidade infinita.  Como fora venturoso então! Mas depois, com o decorrer dos anos... Ah! a desventura e o abandono das boas graças de Rama! E tudo por causa daquele Rajá maldito!...

 

Um momento, a fronte serena e ampla de Maktu enturvou-se, cobrindo-se de dolorosos ríctus, e de seus olhos tristes, cheios de uma luz de saudade, as lágrimas rolaram numa onda silenciosa de angústias.

 

Nesse instante, a embarcação ia entrando a grande curva do Ganges, onde se estadeava Benares a bendita, resplandecendo pelos seus templos e pela sua vasta casaria. Outra vez, então, os peregrinos e a marinhagem alegre do junco entoaram, em coro, as plangentes orações rituais a divino Jagrenat.

 

Quando todos saltaram, aos primeiros desbotamentos saudosos da tarde, a vetusta cidade indiana, toda em júbilo, apertava-se já nos ruidosos vaivens de uma enorme multidão. Desde o longo cais de pedra as casas estavam todas enfeitadas, pelas cimalhas e janelas, com largos cobrejões de listas, cujas franjas de ouro tremulavam ao vento. As ruas, inundadas de folhagens e arcos triunfais de flores e bambus, por onde deslizava e chocava-se, continuamente, com um rumor de rio cheio, aquela densa população do Oriente, nas suas roupagens faustosas — davam a ideia hilariante e festiva de um imenso carnaval. E, a espaços, uma gritaria infrene de devoção ingente, atroava os ares, contrastando vivamente com a serenidade luminosa que pairava no alto, lá acima, naquele céu doce o aveludado da Índia.

 

Cabisbaixo, o coração dilacerado, o espírito oprimido, numa desolação sob o tumulto doloroso das recordações que o pungiam, Maktu enfiou, ao acaso, na primeira rua que encontrou, aos empurrões, às guinadas, por entre as vagas colossais da multidão. De repente, quase sem saber como, no desembocar da rua, apresentou-se-lhe aos olhos, deslumbradoramente, a vasta praça de Chah-Limar, a dos grandes jardins. Todo o âmbito, que é enorme, em redor das corbelhas de folhas e dos espessos maciços floridos, estava acunhado de povo, que, voltado para um alto onde reluzia o grande templo de Jagrenat, tomando todo um lado do Céu com a sua grande cúpula de esmalte — rompia, de instante a instante, numa explosão de gritos! No perímetro do templo, contornando um elevado pavilhão quadrado, que se erguia a um flanco entre palmeiras reais — os peregrinos e devotos apertavam-se numa massa compacta, sobre o enorme átrio, às escaleiras de pedra e pelos mirantes, terraços e cimalhas da casaria próxima, cujas paredes desapareciam de todo debaixo dos tufos multicores dos cobrejões de seda. Era o santuário de Tirunal, a Coluna de Luz, em cujo ápice de pedraria se entronava já, poderosamente, para o giro procissional, formidável e fantástico, o terrível Jagrenat. E de toda a parte, ainda, a multidão fluía, rumorosamente, sobre Chah-Limar...

 

À sombra duma corbelha que olhava o Templo, Maktu estacou, ofegante, e erguendo humildemente os olhos, os braços cruzados no peito, em êxtase e adoração, ficou a rezar mentalmente, com profundo recolhimento, a litania védica dos que vêm de muito longe, do exílio, depois de uma ausência de anos, e que tem a plangência duma prece e a doçura duma saudação. Depois recaiu mudamente na espiritualidade melancólica das recordações, sob cuja claridade interior pouco a pouco surgia um perfil delicado e saudoso de mulher, que se ia acentuando docemente na imagem querida de Damayanti, a esposa adorada, que o Rajá tentara poluir, um dia, nos jardins do seu palácio. E, num desfalecimento, os lábios brancos, os olhos mareados de pranto, pregados no frontal radiante do Templo, deixou sair de seu peito oprimido esta queixa dolorosa:

 

− Oh Varuna, escuta as minhas preces, compadece-te das minhas dores! Que te fiz eu, servo humilde e obscuro, para merecer tamanho castigo?... É verdade que o meu crime foi grande, porém maior é a chaga da minh’alma que sangra!... Maior é esta cruel expiação!... Socorre-me e ampara-me, na tua onipotente e infinita bondade, ó celeste, ó poderoso e sacrossanto Varuna!...

 

Enquanto assim falava, despercebido e anônimo em meio à multidão, um clamor mais forte e maior, como o de um mar em tormenta, elevou-se, de envolta com inúmeros assobios silvantes, evocando o tumulto reboante dessas antigas, remotíssimas migrações arianas, que atravessavam outrora, em busca de outros rumos e de outros destinos, os desertos adustos e as florestas seculares do Irã.

 

Era o carro colossal de Jagrenat, que apontava à porta do imenso pavilhão quadrado.

 

O seio denso do povo fendeu-se logo em abertas que descobriam o chão, e grossas cordas estenderam-se, cobertas de seda vermelha e fios de ouro luminosos, para o tiro glorioso do deus triunfante. E a pesada torre extraordinária entrou a rolar para a praça, aos solavancos, vagarosamente, ao som mavioso dum coro de baiadeiras, que dançavam e rodavam em rápidas deslocações, onde os corpos flexíveis desapareciam quase, deixando no ar, vagamente, o disco alígero e sutil das saias esvoaçantes.

 

A multidão, agora, apertava-se para todos os lados, abrindo alas à marcha vitoriosa do Ídolo, rodando por entre gritos silvantes sobre a folhagem do solo, de onde se desprendia, aromando o ambiente, um cheiro acre à canela, à laranjeira e a sândalo.

 

À sombra da corbelha, de pé, no mesmo lugar onde parara a orar, Maktu olhava melancolicamente o imenso desfilar, e de seus lábios descorados e mudos nova prece fluiu docemente...

 

Nesse instante, a alta torre fulgurante estacara. As quatro faces amplíssimas, elevando-se a muitos metros de altura, estavam crivadas de incrustações e baixos relevos, representando na maior parte figuras grosseiras e brutas de elefantes, por entre versículos complicados de inscrições rituais, talhados em caracteres estranhos e indecifráveis. E acima do largo capitel em ornatos, o horrível Jagrenat, sentado sobre as pernas raquíticas e olhando o umbigo, com um manto de seda escarlate ondulando-lhe às costas, os longos braços dourados, cobertos de ramos de lótus, a vasta cara rugosa toda pintada a nanquim e a larga boca vermelha, de beiços revirados, sinistramente aberta na exibição dos dentes formidáveis.

 

Quando a marcha recomeçou, ao rouco estalar dos hinos que os sacerdotes cantavam, por entre os apertos da multidão fanática, apinhando-se ruidosamente por detrás de Jagrenat, Maktu avançou desfiando ainda mentalmente as orações cultuais.

 

À frente do carro, onde se acumulavam os devotos da Guarda Sagrada que vão agitando os frescos ramos de flores e as verdes palmas triunfais, irrompeu então a orquestração alucinadora dos gritos e ais dessa pobre gente da Índia, que tem a adoração do Nirvana, e que, para agradar ao seu Ídolo, num furor de devoção heroica, busca a morte loucamente sob as rodas esmagadoras da coluna sagrada.

 

Todos, no préstito, iam pisando num charco morno de sangue, a que se misturavam esquírolas de ossos partidos e postas de carne triturada, no imenso lamaçal horroroso da hecatombe humana. E quem olhasse para trás, para os lados do Templo, agora vazio e deserto, num silêncio de abandono, veria desoladamente, como através de um pesadelo, descendo o átrio e prolongando-se por Chah-Limar e ruas adjacentes, sobre o chão cheio de folhas, uma sinistra, tortuosa via láctea de sangue...

 

Ao dobrar uma rua longínqua, de onde se avistava uma volta azulada do Ganges, resplandecendo já friamente sob o esmorecer do crepúsculo, Maktu, que tomara a frente do cortejo, cada vez mais soturno e sombrio teve de repente um grito de espanto, ao divisar, adiante, caminhando impetuosamente para o carro, um vulto triste de mulher, em cujo rosto macerado reconheceu Damayante. E, num relance, vendo que ela se ia precipitar sob as rodas, animado subitamente pela mesma ideia atravessando-lhe o espírito como um relâmpago, atirou-se ao seu encontro, apertando o coração.

 

Ela o reconheceu, num terror, toda trêmula, como diante de uma aparição, e balbuciando o salve! acolhedor e bendito de um cântico, caiu-lhe entre os braços, bradando:

 

− Maktu! Maktu! de onde vens?... Ah! que longa e dolorosa ausência! Como eu sinto bater-me o coração!... Vamos, enlacemo-nos para sempre, agora, aos pés de Jagrenat triunfante... Morramos juntos... Eu já vejo para além ir-se abrindo o Nirvana... Morramos... Prolonguemos até Varuna a delícia incomparável deste supremo instante!...

 

Ele, desvairado, numa estranha emoção, apertava-a, apertava-a docemente, e, com os tristes olhos afogados em pranto, os lábios a tremerem, ia murmurando atordoadamente as gloriosas orações do oum. Depois, prorrompeu com ânsia:

 

− Sim, adorada Damayanti! Morramos! Acabemos de uma vez com esta desventura, tamanha... Entoemos a Varuna nosso cântico derradeiro... E voemos para além, para o silêncio infinito do supremo descanso!...

 

E, loucamente, numa extraordinária sofreguidão de morrer, arrebatou Damayanti, atirando-se vertiginosamente com ela sob as rodas esmagantes...

 

Tirunal, então, a torre sagrada dos brâmanes, teve um forte solavanco. E continuou a rolar, lenta e esmagadoramente, enchendo com o seu vulto colossal e sinistro todo um lado do céu, manchado agora, a oeste, de longas barras de sangue.

 

 

Rio —1895.

 

 

 

Abandonado

 

 

L’amiral dit: - Timonier?

Fait’s moi vit’ monter l’aumônier!

L’aumônier n’ fut pas long à v’nir

Avec tout c’ qui faut pour bénir

I’ nous dit face au pauvre mourant

La prière des agonisants!

 

Yann Nibor – Les Albatros

 

 

Homem ao mar! Homem ao mar!

 

E o grito doloroso, partindo da proa, ecoava desoladamente sobre a tolda do couraçado, que as ondas sacudiam, em vaivens, no seu dorso espumoso. Bátegas d’água consecutivas caíam em cordas, em meio às rajadas indômitas, assobiando pelos cabos furiosamente. Uma névoa muito densa encobria o convés, as amuradas, os mastros, rolando em grandes pastas pardacentas. Do mar em desordem, só se viam os rendados gigantescos de espuma, que alagavam o costado quando embatiam os vagalhões, desfeitos. E uma sinfonia atroadora dominava tudo, silvando e reboando, num estranho concerto.

 

Mas o grito explodia em direção à ré, afogado, despaçado pelo fragor da tormenta.

 

E só quando toda a guarnição, já em cima, repetiu o mesmo brado, num coro de trezentas vozes aflitas, é que o oficial de quarto, de pé no passadiço, junto ao homem do leme, ouviu, como um débil som esmorecido, o eco lastimoso que o ciclone abafava ainda no seu clamor tremendo.

 

Nesse instante, o guardião e outros marinheiros subiam precipitadamente a escada, a dar parte do sinistro.

 

Fora um cabo marinheiro que o mar levara do gurupés, numa caturrada terrível. Estava a ferrar as velas de proa com seis camaradas, e ia galgar o estribo da giba, para fugir à montanha d’água que vinha sobre o beque na ocasião em que o navio descia no jazigo da vaga, quando aquela rebentou de repente. Os seis homens tinham sido impelidos contra o molinete, ficando todos feridos. Mas o cabo marinheiro ninguém o vira mais, arrebatado pelo torvelinho...

 

O oficial, inquieto, foi até a amurada, investigando o mar em volta, sob o nevoeiro; e tornando após, agarrado aos varões grossos de metal por causa dos balanços contínuos, ordenou que safassem prontamente os escaleres e os salva-vidas, ao mesmo tempo que expedia o guardião a dar parte ao comandante de todo o ocorrido.

 

Os marinheiros desceram logo e, momentos depois, o comandante e demais oficiais subiam ao passadiço. Novas ordens soaram, de envolta com apitos silvantes, cruzando a coberta, sob o ciclone bravio.

 

E como o casco pesado não podia manobrar debaixo da capa em que ia, a uma voz do comando, foram lançados ao mar, presos de longos cabos de Cairo, os grandes discos salva-vidas.

 

Marinheiros, às bordas, investigavam as ondas em roda, a ver se deparavam o náufrago ou se ouviam algum grito, enquanto outros, à proa, preparavam os escaleres, numa faina vivíssima.

 

As vagas, porém, não cessavam de alagar o navio, rolando contra ele serras de vagalhões, que interrompiam as manobras, desfaziam tudo, com a sua cólera impassível. O primeiro escaler que boiou, uma volta de mar carregou-o, numa coroa de espumas. Isto desesperou a rude marinhagem que, furiosa, na labuta incessante, praguejava e maldizia-se, ao mesmo tempo que invocava o céu com fervor, fazendo promessas piedosas à Senhora da Bonança.

 

Valerosamente, de novo, à voz do oficial, a guarnição atirou-se ao outro bordo, onde as ondas quebravam com menor impulsão. E, acautelado tudo, um segundo escaler arriou-se, tripulado por dez homens. Mas apenas se afastara umas braças, atravessou às vagas quase soçobrando. Os marinheiros aproaram então ao navio, onde, em confusão tumultuosa, no meio da atracação dificílima se lhes jogaram cabos, para salvar-lhes a vida. E mais este escaler foi levado na crista espumosa das vagas... Agora, todos, a bordo, permaneciam hesitantes. Oficiais e guarnição não sabiam o que fazer ante o furor do oceano. O comandante, no entanto, velho marujo bretão, não trepidava um momento, e, mandando safar com presteza vergas e mastaréus sobressalentes que vinham no porão, ordenou se fizesse uma jangada e se lançasse às ondas. E voltando-se para os oficiais, dizia, referindo-se ao pobre cabo marinheiro:

 

− Se ele ainda vive, terá ao menos um pedaço de tábua para se agarrar até que o tempo amaine...

 

E cada qual voltou ao seu posto, ficando apenas de vigia os grumetes e marinheiros de ronda.

 

Quando a jangada foi jogada da borda, suspendia o nevoeiro. As bátegas d’água diminuíam e já se via em redor o desdobrar ritmado dos vagalhões. Pouco a pouco também, a planura do mar começou a desnudar-se, na sua deserta, infinita amplidão. E à claridade frouxa do sol, já descendo no poente, de bordo do couraçado, todos puderam ver com profunda tristeza, boiando além, pela popa, sob uma nuvem de albatrozes voejando em torno, um pequeno ponto negro.

 

Era o infortunado marujo, que lá se debatia no esforço derradeiro.

 

Mas o navio corria ainda à capa e todo o socorro era baldado.

 

O comandante, outra vez no passadiço com toda a oficialidade, mandou arvorar na enxárcia uma grande bandeira branca, como um triste sinal de despedida ao infeliz companheiro, ao mesmo tempo que no mastaréu da gávea, pendia, à meia haste, funerariamente, o glorioso pavilhão francês.

 

Em seguida, a guarnição formou às amuradas, na tolda e pelo tombadilho, voltados os rostos abatidos de dor para o ponto negro longínquo, que os albatrozes cercavam corvejando em torno.

 

Chamado o capelão, que tomou lugar no passadiço, ao lado do comandante, paramentado com as insígnias sagradas e tendo um grande Cristo de prata suspenso bem alto nas mãos, como para ser visto pelo náufrago — entrou a rolar sobre as vagas, de envolta com os uivos do vento, numa tristeza inexprimível, a prece dos agonizantes.

 

Uma desolação plangentíssima pesou, de repente, mais forte, sobre aqueles corações varonis, afogando-os numa ânsia. Alguns marinheiros soluçavam, outros tapavam o rosto com as mãos, enquanto em cima, no passadiço, comandante e oficiais, cercando em silêncio o sacerdote, tinham os olhos arrasados de pranto.

 

Por momentos, então, muito alto e solene, nos dedos trêmulos do padre, o grande Cristo de prata dominou o oceano, sob o murmúrio da oração santíssima, por entre o silvar rijo do vento e o desdobrar marulhoso das ondas.

 

No entanto, muito longe, pela popa, no crepúsculo cinzeiro da tarde em tormenta, acompanhado dos albatrozes grasnantes, o ponto negro fugia, a boiar sobre as águas, como um estranho enterro...

 

Rio — 1897.

 

 

 

A héctica

 

 

Ela costumava passear todas as manhãs, à sombra das altas árvores copadas, na larga rua arenosa e agreste daquele arrabalde.

 

Eu via-a passar muito pálida, de uma fragilidade de lírio, vagarosa e ofegante, com esse ar indiferente e desolado das moléstias crônicas, que sugam pausadamente, sorrateiramente a vida. Tinha o olhar lânguido, frio e saudoso das pessoas exaustas, perdidas, que se sentem desmoronar aos poucos.

 

Trazia sempre um waterproof azul-marinho, com uma fita de seda preta envolvendo-lhe a cintura delgada, e cujas pontas esvoaçantes caíam-lhe, por detrás, em laço. Nos seus ombros curvados, e pelas espáduas deformadas e ósseas, o grosso tecido de lã murchava desoladoramente, em pregas longas e tristes.

 

O pai, um velho magro, de fisionomia agradável e respeitosa, ainda ereto de robustez, os cabelos algodoados pelos anos, o ar gentleman, dava-lhe com segurança o braço e a envolvia, muito carinhoso, em animações tão meigas e consoladoras, pronunciadas a voz forte, que ela chegava a sentir, por momentos, alagar-lhe o coração ondas de saúde, de envolta com essas palavras!

 

Achava-se até melhor, mais rija, naquela grande esperança que acompanha intimamente os tísicos, e vinham-lhe sorrisos rápidos, que lhe faziam contrair levemente os lábios desmaiados, deixando a descoberto a claridade alinhada dos dentes sãos; fitava o velho com alegria, com ternura: era a sua saúde!

 

Mas logo depois, o nervosismo, o histerismo faziam-na cair numa nostalgia funda, de todas as horas, num pressentimento vago e fatal de túmulo próximo; e então desatava a chorar perdidamente, aparecendo-lhe, com mais violência, uma tosse seca e tilintante, acompanhada de ruídos soturnos na caverna do peito e borbotões quentes de sangue vivo...

 

Uma manhã, deixou de dar o seu passeio costumado. O Azul estava fresco e cintilante, alastrado de luz, cheio de aromas e cantos, cortado da alegria da terra. O sol surgia claro e magnífico, confortador e bom.

 

Passei todo o dia com a imaginação cheia da lembrança dela, preocupado, temeroso, na incerteza do que lhe teria acontecido. À tarde, um tropel de gente, no rumor discreto e pacato daquele arrabalde provinciano, fez-me chegar repentinamente à janela.

 

E deparou-se-me a cena lutuosa de um cortejo fúnebre: um esguio féretro azul balouçava, carregado por seis homens, das alças finas de veludo. Acompanhava-o um grande séquito de luto. E um velho alto, descoberto, a figura espectral, a cabeça alvíssima inclinada sobre o peito, como ao peso de uma desgraça, seguia, com passos incertos, à cabeceira do caixão. Tinha os olhos arrasados de pranto e soluçava alto como uma criança. Reconheci-o num ah! de dolorosa surpresa...

 

Era ela, a triste e desventurosa criatura que eu via passar todas as manhãs, que partia agora para além, e que nunca mais, nunca mais voltaria!...

 

 

Desterro — 1885.

 

 

 

Velada

 

A Leopoldo de Freitas

 

 

Em frente ao Rio Grande, o Itaoca bramia surdamente pelas grossas chaminés desprendendo fumaça. O longo casco asseteado, que varava as ondas, engolindo as distâncias a milhas, na sua velocidade de expresso, retesava, à proa, a forte amarra inglesa, oscilando levemente, mergulhada já a faixa rubra do fundo, na planície das águas. Pronto e carregado, estava a largar nesse instante para o Rio de Janeiro. E como um cavalo de raça, todo ele fremia, impaciente da demora arfando, dando golpes de hélice, abrindo a rade em frisos trêmulos de espuma.

 

Escaleres e lanchas, vindos de terra a toda a força de remos, manobravam e davam à popa, junto ao leme, abalroando-se às vezes na pressa da atracação. Catraieiros aos gritos, num tumulto, xingavam-se mutuamente, em protestos hostis — uns, de pé, brandindo os croques contra o patamar da escada, ou sobraçando malas e bagagens; outros, debruçados da borda os braços estendidos, amparando as embarcações. Passageiros retardados, da última hora, ansiavam, mudos em meio à balbúrdia, pelo portaló do paquete. E escada acima, um fervilhar de corpos e volumes, em demanda do convés.

 

No alto, à balaustrada, o imediato, a tez queimada e cor de papoula, berrava para os botes, ordenando que atracassem também pelo outro lado. Dizia mesmo palavras ásperas aos boteleiros recalcitrantes, tratando rudemente a todos, na azafama da partida, indignado por deixarem tudo para os últimos momentos. Inflava-se tanto que o comandante julgou dever intervir:

 

− Mas, para que essa rascada? Temos tempo... O navio não precisa disso; em chegando lá fora come léguas...

 

E voltando-se para os passageiros, que curiosamente olhavam tudo aquilo, acrescentou:

 

− Quatro ou cinco dias levam os outros vapores até ao Rio de Janeiro; para o Itaoca tal viagem é questão de quarenta e oito horas...

 

E, mãos nos bolsos do grosso jaquetão de pano piloto, atacado de alto a baixo e contornando-lhe densamente as formas robustas, subiu para o passadiço correndo sob os toldos brancos.

 

À ré, num recanto isolado, junto às gaiútas da câmara, sentada em uma cadeira de viagem, uma moça, espécie de miss, envolta em custosa pelica, parecia alheada de tudo. A fisionomia, bela e triste, túmida de lágrimas, mostrava através o véu espesso que a cobria, as equimoses de uma longa amargura. Os cabelos, ondulados e bastos, caíam-lhe pelas costas em madeixas escuras da maciez do cetim. E seus olhos formosíssimos reluziam vagamente, num encanto doloroso, sob o pranto que fluía.

 

Ao seu lado, uma figura de governanta, esgrouviada e velha, lembrando, na face, o perfil de uma avestruz, procurava consolá-la, dizendo-lhe de instante a instante:

 

− Não se aflija mais, Dora! Procure distrair-se. Olhe que a senhora assim se está matando...

 

E permaneciam ambas indiferentes às manobras e ruídos em torno, voltadas para os lados de terra, olhando saudosamente a cidade e o recorte meridional arenoso da Lagoa dos Patos. Aí a planície infindável corria longinquamente até o horizonte, tendo apenas, de espaço a espaço, grossas intumescências ou traços fugidios de arvoredo, nas margens rasas dos rios. Para oeste, longe, nuvens densas de inverno, faziam como o vago desenho de serras, ondulando em recortadas silhuetas. E para leste, entre as duas pontas aguçadas da costa, o rasgão azulado da barra, espumando em gigantescos velos de prata...

 

Afinal, o paquete zarpou em direção ao pontal do sul, onde se ergue a torre esguia do farol, semelhando à distância o chifre colossal de algum rinoceronte fantástico, cujo focinho monstruoso mergulhasse no mar; e, em pouco, entrou a cabriolar na tumidez bramante das ondas, rolando em vagalhões alterosos e cobrindo de largas rendas de espuma a vastidão curva das praias. Nos bancos de areia a água torvelinhava, enovelava-se em fofos alvacentos de arrebentação, dando um sinal e um aviso de lugar temeroso aos transeuntes da barra. A um lado, os cômoros de S. José do Norte, de uma alvura imaculada, pareciam colinas de gelo. O oceano bramia furiosamente, numa perpétua revolta de costa indomável, recordando os mares bravios do norte da Europa, onde a vaga jamais dorme na sua ronda infernal.

 

Os passageiros, amedrontados com os balanços do vapor, nas vagas curtas do canal, num temor de morte ou na repugnância do enjoo, recolheram-se logo às cabines. E foi só quando os vagalhões amainaram, em pleno mar largo, por ocasião do chá à noite, que de novo se reuniram, numa algazarra alegre e na camaradagem íntima das viagens, deixando as profundezas das celas de bordo.

 

Os olhos baixos e tristes, as lágrimas mal contidas da moça passageira, o véu espesso ocultando o rosto, a estranheza da face excêntrica da governanta, tinham lançado a bordo uma curiosidade intensa. Na desocupação da viagem, todos estavam curiosos por saber a história da triste criatura e a origem do seu pranto, que jamais estancava, teimando em fluir involuntariamente daqueles olhos de miss. Indagavam insistentemente, num zumbido segredeiro correndo de lábio a lábio o salão do paquete; e, por fim, se soube todo o caso misterioso por um velho estancieiro de Bagé, que vinha num camarote, muito prostrado pelo enjoo.

 

De Bajé era também a moça, e na cenografia pitoresca dos arredores dessa cidade de campanha, se tinha passado um nobre romance a dois. Um filho de fazendeiro, instruído e opulento, com um porte fidalgo e o dandismo característico dos rio-grandenses, e que se educara na Europa, fora o galã dessa história de amor. Quando voltara definitivamente à sua terra, mais fidalgo e mais dândi que dantes, fascinara irresistivelmente a adorável timidez de uma das filhas de um tio estancieiro, uma prima formosíssima, chamada Dora, e que tinha sido educada nas irmãs de S. José, em Porto Alegre. A jovem, após seis anos de colégio, tornou a Bagé, justamente por aquele tempo da chegada do primo. Toda ela era uma beleza seráfica, com a diafaneidade de uma Virgem de missal. Jamais namorara, e era um lírio. A sua prece, no rosto lindo, dava-lhe a atitude ideal da figura de um quadro célebre, A oração, que a reprodução oleográfica, abastardando a genialidade do grande artista que o fizera, espalhou por todo o mundo. O seu perfil de santa medieval, tocado de uma auréola mística, dava-lhe a placidez, a humildade e a resignação das Horas Marianas e da Imitação de Cristo. Mas a natureza, colocando-a frente a frente ao belo guasca elegante, traspassou-a vivamente com a espada das paixões, flamejando-lhe o ser na faísca dos afetos supremos. Amou violentamente, arrebatadamente, a celeste criatura, na intensidade de um único amor triunfante...

 

Entretanto, o robusto rapaz, fidalgo e dândi, que suscitara as flamas daquele sentimento, caiu de repente aniquilado por um tifo dos campos, durante os calores candentes do verão, nas imprudências de cavalgatas e caçadas ao sol brutal, escaldante. O rude golpe prostrou Dora para sempre...

 

A mesma violência que mostrara ao amor, votava agora à viuvez ou a orfandade de seu coração. E, dentro em pouco, a Heloísa que existia nela feneceu, e em seu lugar reapareceu a freira de outrora, de espessos véus e fronte mística de anjo, a velada do Senhor, a noiva viúva, aquela que as irmãs de S. José tinham feito nascer para a Crença e para o Sonho...

 

E agora, após uma prostração de meses, lá ia ela, num apartamento ordenado pelos médicos, em demanda do Rio de Janeiro, para a companhia de uma tia, na esperança de toda a família de que a imensa capital, rumorosa e álacre, conseguisse dissipar aqueles véus espessos, afogando em esquecimento a funerária lembrança assoladora da existência de Dora, e aguardando ela volvesse liberta para sempre de dores passadas, abrindo outra vez, à alegria e à vida, a sua alma de vinte anos...

 

Talvez que semelhante cousa viesse a suceder mais tarde.

 

Mas, toda a viagem, a viúva e noiva triste, conservou inclinada languidamente, sob a tule espessa do véu, a face empalidecida, imaculada e virginal de monja.

 

 

Rio— 1895.

 

 

 

 

 

Última lembrança

 

 

Ia partir.

 

De pé, à popa, junto à amurada, num recanto isolado do tombadilho do steamer, o seu vestido de viagem atacado até o queixo, triste e soluçante, ela me disse, tirando da sua bolsa preta de couro da Rússia um pequenino envelope branco:

 

− Olha, toma esta lembrança... É uma porção de mim mesma que aí te fica, e que te acompanhará durante toda esta ausência... Nunca a abandones, pois, traze-a contigo sempre, sempre...

 

E tinha a voz presa, velada, sacudida pelos soluços, enquanto as lágrimas jorravam-lhe dos belos olhos glaucos, agora raiados de sangue, duas a duas, rolando-lhe pelas faces rosadas e caindo, ainda quentes, sobre as minhas mãos trêmulas que enlaçavam demoradamente as suas.

 

Guardei, comovido, a encantadora lembrança, que era uma pequena madeixa da sua amada cabeleira de ouro, que em noites venturosas tanta vez se desmanchara e rolara, em ondas, sobre as brunidas espáduas de alabastro, ao assalto dos meus dedos febris.

 

E nervosamente, em silêncio, beijei-lhe as mãos, que tremiam, estreitando-a longamente contra o meu coração...

 

Já o vapor soltava um longo silvo metálico, dando o sinal da partida.

 

Então, trocado o adeus derradeiro, afastei-me tristemente para o portaló, vendo-a amparar-se de repente, muito pálida e pendida de dor a radiosa cabeça sonhadora, sobre a balaustrada branca.

 

O steamer arrancou.

 

E eu, ainda sobre o cais, sozinho, alheado de tudo, seguia, de olhar fixo, obstinadamente, esse casco negro que a levava para outros destinos; e acenava sempre um adeus em direção ao seu vulto gracioso, destacando-se ainda à popa alta do vapor, que deslizava já numa esteira de espumas, cuja alvura ondulosa parecia-me a torrente virginal dos acenos do seu lenço tremulante, que procurava chegar até mim...

 

Permaneci assim por instantes, chumbado ao solo, numa nostalgia imensa.

 

Lentamente, porém, a poeira negra do crepúsculo alastrou-se no ar, apagando além o recorte azulado das montanhas, envolvendo-me na treva espessa, quando o brilho sanguíneo e vivo de uma queimada ao longe arrancou-me desse abatimento, abrindo-se, como uma chaga inflamada, no seio da noite densa.

 

Veio-me então uma superstição, uma fé mística e profunda, e, seguindo com o olhar a fogueira longínqua e saudosa, beijei doidamente, como numa consagração propiciatória, aquela adorada lembrança que ia ficar para sempre iluminando e guardando, como uma lâmpada sagrada, o santuário vazio do meu coração!...

 

 

Desterro— 1887.

 

 

 

Nerah

 

O gracieux fantôme,  enveloppe-moi de tes bras. 

Plus ferme, plus ferme encore!

Presse ta bouche  sur ma bouche;

adoucis l’amertume de la dernière heure.

 

Henri Heine

 

 

Conhecia-a numa pitoresca cidade do sul. Era alta e alourada, um desses ideais e esguios onde as linhas triunfam em esplendores de beleza rara, lembrando o perfil níveo e franzino dessas virgens de balada, que passavam outrora numa fascinação eteral, através das estrofes plangentes dos lieder, entre sons melancólicos de harpas edênicas, tangidas por obscuros artistas idealizados, sob o velário nebuloso duma lua de lenda, debaixo das ameias dos castelos adormecidos à margem de rios e lagos, ou à beira das estradas silentes, enflorescidas, da média idade.

 

O seu pescoço alvo, de uma pureza de alabastro, por onde desciam os longos cabelos esparsos em ondulações de ouro ardente, como uma esteira de astros, tinha a contornação pura, a veludez seráfica, a doçura açucenal e celeste do das virgens de Velasquez. Seus olhos azuis, grandes, magníficos, de uma candidez espiritual, imersos sempre numa umidez de langor e numa ternura inefável, tentavam com atração irresistível, venciam e algemavam as almas. Notava-se neles como que o desejo acariciador e sutil de um aconchego ou de um enlace.

 

Sua existência, embalada pela harmonia e os brilhos de uma vida ideal, em que as esperanças e sonhos passavam e repassavam em faiscante e dourada parábola, como um rosário de estrelas, se expandia suntuosa, numa alta paragem de seleção e nobreza que não permitia quase a escalada das paixões humanas. Parecia viver de abstratas alegrias aladas numa imaterial transcendência, conduzindo luminosamente a sua aspiração e sonhares pelos vagos céus azulados, onde o seu espírito fantasioso e místico se fora amorosamente aninhar. Mas, por vezes, no seu olhar quente e transparente, flutuava uma langorosidade meridional de morena, que anseia e freme nas palpitações de uma paixão mundanal, e então, em sua face nevada e límpida de remota origem escandinava, acendia-se a carminação ardente dos frutos tropicais.

 

Era inteligente e nervosa e tinha a vesânia artística dos poentes engalanados, em que a sua alma se inebriava numa saudade estranha do Infinito, onde o seu sonho constelara ilusões na explosão luminosa e sangrenta da agonia solar. Em sua imaginação nevrosada, de arrebatamentos súbitos e irradiações impersistentes, surgiam, às vezes, como desenhos caleidoscópicos, idealidades errantes, com intensidade de alucinações e coisas sem fundamento, ilógicas.

 

A sua vida era como uma orquestra de violinos e órgãos, cheia, umas vezes, de surdinas aéreas, muito altas, arrebatadoras como hinos religiosos de catedrais saxônias, que enterram as flechas no céu; e outras de turbilhões convulsos, fantásticos, como coruscações de relâmpagos cortando o escuro molhado das noites invernosas.

 

A primeira vez que a ouvi falar, senti a maviosidade saudosa de uma canção distante, no azul luminoso e fresco de uma tarde americana: a sua voz dulcíssima, como cordas tremulantes de cítaras vibrando sob as abóbadas de um claustro, ficou-me a cantar longamente nas células rútilas de meu espírito e nas paredes vazias da minh’alma. E quando, horas inteiras, fixava os seus olhos castos, de uma doçura e brilho de sacrário iluminado, vertendo angelicamente nos meus a sua luz de turquesa ideal, o meu triste coração de solitário, tão cheio de desilusões e saudades, calmava de repente o seu pulsar inquieto, para cair docemente na imobilidade de um êxtase ou de um sonho constelar.

 

Por fim, uma vez, à bendita claridade nevosa de uma noite enluarada, atirei-me genuflexamente ante a sua aparição tentadora, numa adoração prosternada; e longamente, inigualavelmente, por semanas incontáveis, em que todas as delícias humanas se idealizaram como em um vasto ninho eteral, suspenso do céu no meio de uma clareira de astros, o meu ser arrebatado incessantemente se expandiu e rolou nas alucinações de um delírio divino e de um bem incomparável!...

 

Um dia, porém, inquietante dia nebuloso de desespero e cuidados, empastado tenebrosamente no alto de carbonosas tintas tumultuárias, que um grande vento de inverno intumescia e agitava fazendo chorar, a espaços, em aguaceiros nostálgicos o triste azul enlutado na viuvez desoladora da luz, morta de repente no seio incinerador das lestadas — ela, a radiante criatura estelar, a Astarte alvinitente, a Diana boreal, a minha glória, o meu amor, o meu Caminho de S. Tiago, começou a esmaiar pouco a pouco em sua irradiação sideral.

 

Lentamente então a sua fina estrutura de mármore, animada pelo sangue nobilíssimo de uma antiga descendência fidalga, entrou a perder as suas linhas recurvas, de uma modelação sonhadora de estátua, caindo dia a dia numa progressiva consumpção nevoenta, de dolorida poesia funérea, que lembrava um perfil de valquíria, passeando o seu mal ideal entre grutas de pedraria, no fundo de águas lendárias. E este definhar contínuo, que lhe dava às formas uma diafaneidade sutil, tornando-a como uma dessas visões nebulosas que flutuavam outrora em legiões alvíssimas na imaginação evocativa dos místicos, à meia luz esfuminhada das celas e cárceres, fazia com que o seu talhe delicado adquirisse mais e mais a doçura sofredora e angélica, a contornação leve e vaga, a divinização inefável que exornavam de graça sagrada as monjas medievais.

 

Os dias, as semanas e os meses passavam, com tintas de ouro ou de sombra, numa lentidão inquisitorial, estendendo-lhe sendais de saudades que afogavam aqui e ali as últimas florescências dos júbilos passados, dentro do seu coração já vencido na dilaceração angustiosa de antigas e santas imagens...

 

Percebia claramente, iniludivelmente, que tudo ia em breve findar e que dentro em si alguma coisa — o espírito? a alma? — já vagamente se debatia, em ânsia, para o transe convulsivo do Derradeiro Suspiro. Antevia, pelo pensamento, quase sorrindo e com serena resignação, as paragens sombrias da Pátria Sepulcral... Mas nunca, um só momento, mesmo nas mais agudas e despedaçadoras crises, seus lábios desbotados e tristes deixavam passar de leve, como tão comumente acontece, um ai de blasfêmia ou queixume. Só apenas, um ou outro dia de mais carregada névoa e spleen, em que a terra e o Azul se despojavam da alada alegria dos brilhos no seio denso e revolto das invernias bravas, e pairava no ar gotejante um gemer plangentíssimo de pétalas e ninhos perdidos, a afetuosa criatura amada voltava para mim as esferas azuis dos seus olhos radiantes, e, apertando-me vivamente as mãos, que eu trazia sempre envolvendo docemente as suas, tomada de súbito de uma certa melancolia e saudade, me dizia lentamente na sua voz casta e velada:

 

− Como é desesperador e terrível, meu amigo, este lento desmanchar de uma vida! E isto na gloriosa plenitude da mocidade e do amor! Se ao menos, quando os males nos tocassem, fosse subitamente e de uma vez, no esmagamento completo de todo o nosso ser, em instantes tão rápidos que não pudéssemos sequer ouvir, dentro em nós, o fúnebre prantear ofegante das quimeras e dos sonhos... Mas não! E um moroso sangrar inclemente, uma tortura sem nome, que parece infligida pelas mãos assassinas de um inquisidor, que possuísse nos seus nervos sinistros o segredo tenebroso dos suplícios inéditos... Ah! se pudesses imaginar o que sofro!...

 

E a sua cabeça tão loura, de uma sedução imortal, tombava ansiosamente sobre o macio espaldar do divã de Smirna, lívida e sublime, cheia de dor e de sonho, como a de Jesus no Calvário...

 

Uma tarde, em que maio floria nas planícies e vales e pelas montanhas verdes, ao cantar cristalino de fios d’água correndo em plissés de prata sob o meigo gemer das ramagens, ela, como de costume, pediu-me carinhosamente que a levasse para o grande salão dos damascos e que lhe abrisse os amplos vitrais do ocidente, porque sentia, nesse instante, sangrar-lhe intensamente no espírito a nostalgia plangente dos seus queridos ocasos. Aí, junto aos grandes portais ogivais, longamente amparada em meus braços, alheada de tudo, inerte e como magnetizada, ficou saudosamente a olhar a extraordinária iluminação do poente, poente que eu jamais vira, e que me deixou, no seu esplendor incomparável, esta nevrose singular pelas cores que tanto flameja em minha alma.

 

Era um desses recantos encantados de mar, que visionam profundamente, em irisações feéricas, a retina extasiada dos paisagistas. Uma sanguínea imensa começara a alastrar o horizonte e se espalhara sobre as águas em gigantescas brochadas rútilas, que inflamavam os longes neblinosos e vagos. Pinceladas de ouro riscavam, com grandes franjas luminosas, esta tela colossal abrindo-se, aqui e além, como uma velha clâmide gloriosa, em rasgões violentos de andrajos, por onde surgia serenamente um fundo leve e saudoso de diluída esmeralda. Veios brancos suavíssimos alternavam com toda esta bizarra fileteação de amarelo e sangue, que esmaiava para o ar, em gradações nacarinas de conchas. Em cima, todo o céu se vestira de uma tenuíssima floração de lilases, tremendo brandamente às badaladas plangentes do Angelus. Uma paz messiânica, que encantava a alma numa contemplatividade sem fim, estagnava-se religiosamente por toda a amplidão. E uma vaga espiritualidade de aventuras e viagens longínquas, sob os céus de outros países, pairava nostalgicamente, além, na linha fugidia do horizonte...

 

Mas densos véus de nanquim entraram a rolar mortuariamente do alto, e tudo se envolveu em suas dobras sombrias que vestiam os corações em crepes negros de angústias. Ela então, numa súbita agonia, lívida e estertorosa, murmurou toda fria:

 

− Ampara-me, leva-me daqui... Eu já não posso mais, eu morro...

 

E, estendida sobre um amplo divã, não fez mais um movimento, no seu belo roupão de cetim, cujas pregas ondulosas rojavam agora no chão, esquecidas. Os longos cílios escuros, outrora palpitantes e vivos, ficaram para sempre cerrados, como as franjas de um sudário tristíssimo. O rosto, opalescente e esguio, cobrira-se de absoluta serenidade, numa etérea castidade de lírio. E as suas mãos afiladas e brancas, parecendo cinzeladas em blocos de marfim velho, fundamente evocavam à lembrança essas santas mãos de promessas, que se veem alvejar nas procissões, levadas piedosamente por virgens descalças, em penitenciações fervorosas e místicas.

 

Dilacerado e aflito, numa angústia tumultuosa em que a razão se me abismava, atirei-me para a rua, e, horas e horas, numa precipitação de perseguido, vaguei sem parar, iluminado dantescamente pela minha dor, sob o velário agourento da noite que negrejava no alto toda crivada de círios!...

 

 

Rio — 1895.

 

 

 

A chuva

 

 

Há seguramente três dias que não vivo, que não vejo o sol, nem falo. E ela, a minha adorada Everalda, não veio, não virá mais, decerto. E no entanto, dizia-me na sua carta de uma letra fina e miúda: “Amanhã, quinta-feira, vou. Estou louca por abraçar-te... saudades... não imaginas...”

 

A chuva tem caído e cai incessante, desventurosamente. O céu, pardacento, de uma claridade esmaecida e igual, jorra a água em fios, como se a passasse por uma peneira gigante.

 

Um arrepio de sezões anda-me nas carnes e o negro e fundo spleen aristocrático e mylord ataca-me com fúria o coração, onde o fel rebenta em ondas. Tenho as unhas roxas e a pele engelhada, como um cadáver. Sentado, o busto inclinado sobre a mesa da escrita, o braço direito em ângulo, apoiando o rosto, voltado para a janela, os olhos cravados longe, através dos vidros açoutados pelas rijas e sonoras bátegas — aqui estou, mudo e tempestuoso, numa formidanda excitação de nervos e penso profundamente na mais amada das mulheres, sentindo, na sofreguidão imensa de a possuir, uma elétrica nevrose de ferocidade animal, que me incendeia delirantemente.

 

Debalde intento ler. O meu livro mais querido, O Primo Basílio, o livro extraordinário, que está aberto diante de mim, não me glorifica, nem me atira para o alto.

 

E quando subitamente me acode ao cérebro, como uma desolação, a ideia de que talvez mentisse a mais amada das mulheres, inflama-me o sangue um furor nefasto e ruge no antro o coração indomado.

 

Mas não! ouço na escada um fru-fru roçagante, um passo nervoso e miúdo... E os meus lábios, por muito tempo, ficaram colados aos lábios dela.

 

 

 

Idílio no mar

 

À senhorita Mercedes Pagés

 

 

Impressões de uma tarde saudosa à bordo da polaca espanhola Mercedes, do comando do velho “caballero” catalão D.Francisco Pagés, de Masnau.

 

 

Aquela tarde esmorecida de outubro, de uma suave iluminação eteral, deixou-lhe para sempre no espírito uma saudosa impressão de marinha sonhada, em alguma tela encantadora de Bury ou num desses romances nebulosos de mar, em que os artistas da Britânia põem, com o seu alado idealismo abstrato, noivados festivos e louros singrando enseadas em calma, dentro de iates veleiros, com galhardetes de flores coroando latinos dourados.

 

Era uma vela vogadora de cutter, que andava ao longe a errar em contínuas bordadas inquietas, numa brancura idealizante de ave polar, aparecendo, desaparecendo às vezes, por entre a imensa, flutuante floresta nua dos mastros. Pelas águas marulhosas, riscadas de rendas de espuma, pairava um doce frêmito viajeiro de viração austral, mansa aragem bonançosa, amiga acariciadora das pequeninas velas albentes que cruzam o seio das rades. E no ar morno e macio, de uma doçura tropical, por entre a vespertina transparência dos brilhos, o encanto delicioso do céu alto e arqueado, com um leve desbotamento sidéreo de velho velário cerúleo.

 

Debruçado da borda, no tombadilho da polaca, ele olhava melancolicamente aquela mancha singradora de latino alvo, sentindo desfilar no espírito um tropel de recordações amadas... A plangência das longas noites do oceano, em que o seu coração ansiara e chorara, órfão de afetos, em meio à solidão sem raias, vibrava ainda as visões rútilas do seu sonho e as cordas vivas da sua alma. E, pensativo e dolente, na ebriedade colorida de um silforama de imagens, desenrolado em efervescentes cismares, quedara-se a olhar sonambulamente para a singradura vaporosa daquela vela alada, que a enlanguescia ali, no poente daquela rutilosa viagem, em que toda uma porção do seu ser, na atração de uma beleza divina, ficara a boiar sobre as águas, longe, na magnificência de uma cidade bendita, numa ilha de balada...

 

Mas o alto pano nesgado se aproximava lentamente, na sua alvura enfunada, em pairos de asa serena levada numa rajada, por entre os cascos adormecidos das naves, sonhando nebulosamente — quem sabe! — num estado de quase espiritualidade, com a agitação marulhosa das viagens ao largo, fecundas dos inauditismos de um mar que não finda e da magia cenográfica dos espetáculos solares.

 

Naquele navegar para ele, num murmúrio longínquo de aquosa cristanilidade, a rasgar vitoriosamente o vitral da planura infindável, como demandando a polaca, a vela clara aviva-lhe aos poucos, nas células em que fulgia o clarão de uma saudade inefável, o esquisso imaterial e celeste de uma estância enluarada, que lhe estava a bailar desde instantes, incompleto e esparso, na gestação incuriosa e dormente da sua imaginação de nostálgico. E, de olhos em êxtase, com uma luz espiritual insuflando cor e vida à sua Visão constelar, sob o brilho aureolante de uma claridade mágica, já lhe tremia na emoção, suprassensivelmente, como o frisson psicológico de uma surpresa que raia.

 

Com efeito, repentinamente, o branco latino encantado desenhou-se inteiro numa aberta resplandescente das águas, como se fosse a alma errante do Mar, um sonho albente das ondas, o símbolo rútilo das Rotas — guia bom das singraduras, bênção augusta da bonança, bandeira dos ventos, pregoeiro das viagens! E o lento aproximar desta embarcação velejada sob o entardecer tropical, tão repassado de nostalgia e sonhares à sombra silenciosa que ia alastrando lentamente as etéreas paragens — abria-lhe agora, com nitidez, na memória, a fúlgida cadência sonora daquela estrofe de poema d’alma, que lhe nascera, uma tarde, por um crepúsculo oceânico de lenda, ao abordar o litoral pinturesco dessa ilha querida, onde o seu amor torreara ilusões, como uma Eiffel rutilante em demanda do infinito sonhado...

 

À medida que o cutter avançava, num vasto sulco onduloso, em direção à polaca, todo o seu casco esguio e alvo se detalhava nas vagas, em linhas finas e artísticas de requintada construção naval, desde os vivos frisos das bordas ao tope do mastaréu triunfante, erguido no ar como a ponta de um gigantesco florete embolado, ferindo verticalmente o Azul, que se diria sangrar sobre o mastro, na golfada de sangue tremulante de um galhardete encarnado.

 

Mas de repente, e a pequena distância, a esguia embarcação começou a panejar, atravessada ao vento, num embalo ritmado, sobre a ondulação inquieta, e ele pode ver, através das irradiações do seu sonho e da vaga luz interior da sua nebulose mental, a silhueta inefável de dois seres amantes, destacando à balaustrada oscilante da popa, na líquida toalha de espuma, como um casal divino de deuses saído de um mito da Hélade. Banhava-o idealmente a claridade cendrada do alto, descendo em desmaio de tons sobre as ondas e rolando etereamente por entre a cordoalha e os mastros. E ali a boiar, como num fundo azulado de ópera marinha, aquele idílio de costa europeia setentrional cortava de um encanto fidalgo, de velhas civilizações cheias de arte, as águas de Guanabara.

 

Na frouxidão alvacenta do pano murcho e rugoso, a estalar contra os cabos nessa virada de bordo, e erguendo ao ar osciladoramente como uma teia de aranha fantástica, o cutter caía, caía na corrente, em busca do beijo cheio da aragem. A pequena coberta recurva aparecia agora amplamente, em linda modelação quase oval, reluzindo artisticamente na variada coleção dos objetos náuticos, que se exibiam aí em singular exposição flutuante de alfaias estranhas ou de bric-à-brac. E o que mais sobressaía, no meio desse luxo naval, eram as altas amuradas corridas onde se erguiam as enxárcias, a gaiúta envidraçada, as malaquetas de metal e de aço, o bordado trincaniz amarelo, o pequeno castelo inclinado, os turcos curvos e em gancho como antigas armas de abordagem, o cintado cabrestante encapado, as pequenas âncoras pesadas, os finos croques reluzentes e o molinete rodante onde se prendem as amarras...

 

Nesse instante, porém, nada disso impressionava já a sua imaginação visionada, arrebatada num enlevo ante o formoso e louro par, vogando inefavelmente sob a luz fugidia do ocaso em meio à berceuse da vaga. Sutilmente, todo o seu ser vibrava, na doçura dessa contemplação, aclarada interiormente pelos afetos passados, no enternecimento de uma grande simpatia por essas almas aladas, noivando, na tolda da bela embarcação adejante, sob o encanto do céu vesperal...

 

Mas a alta vela nevada fugia, batida de uma rajada — e o gracioso casco vogador retomava a primitiva bordada, numa faixa meandrosa de espuma que esfervia e ondulava. Agora, à balaustrada branca, tombada para a borda roladora, o belo casal olhava o mar, invadido de ternura, algemados os olhares em fundos êxtases de amor.

 

A tarde fenecia nos páramos azulados do espaço, desolado já num esmorecimento saudoso. Longe, muito longe, na amplidão curva do horizonte, onde as vagas tremiam em longos frisos de esmeralda, uma branda mancha de sol vermelhava, sobre as brumas do ocidente, como um esbatido de nácar. E o belo cutter sumia-se no estofo cerúleo das vagas. Mas por muito tempo ainda a láctea brancura nevoenta do seu alto latino, sugestiva de lembranças passadas, numa alegre estância vivida, ficou a boiar além, numa névoa de saudade...

 

 

Rio— 1894.

 

 

 

História duma gaivota

 

No álbum da senhorita Emília Schuttel

 

 

Conheci, uma vez, uma menina inglesa, de cinco anos, galantíssima e loura, que não sabia ainda gorjear, trinar a linguagem cantante e musical de v. exa., e que cantava com graciosidade infinita e interessante dificuldade de expressão, a um grupozinho encantador de crianças, a história adorável de uma gaivota que possuíra.

 

Era a beira-mar, numa dourada tarde de setembro.

 

A história, que pude recolher com fidelidade no meu espírito, pela galanteria e ingenuidade, repassadas de afeição e tristeza com que saiu daqueles lábios de boneca — foi a seguinte:

 

“Eu tive uma gaivota... Era mansa, muito mansinha... Já cantava e voava... Depois... depois moriu!...”

 

* *

 

Senhora! – foi o que sucedeu à minha Musa.

 

Santa Catarina - 1885

 

 

 

O mar

 

A Alfredo Soares

 

 

Todas as tardes, agora, depois que os seus olhos luminosos deixaram de arder, extintos e gelados para sempre; que a sua boca límpida e sonora, favo de mel que secou, não pode mais vibrar a cristalina melodia dos beijos; que a sua espessa juba loura revolta, de um fulgor de estrelas, deixou de agitar-se, quente e crespa, por sobre a alta cabeça encantadora e as brunidas espáduas de mármore; que o seu corpo formoso, ereto e sem defeito, de um glorioso conjunto de inauditas linhas, não se erguerá mais para o Amor, nem para as conquistas triunfais da Beleza, fechado, como está, em uma cova estreita e florida do cemitério do sítio; — todas as tardes, agora, eu vou sentar-me no alcantilado promontório da ilha, sobre as penedias tão amigas das ondas, para saciar no sombrio encanto da monotonia e do vago a lancinante e intensa mágoa que toda aquela paixão legou-me e que só o vasto Mar ululante poderá bem compreender e amenizar.

 

Aí me vem envolver, quase sempre, uma mortalha de crepe, a cinza densa e funerária da noite que desce, quando estou quase a surpreender, numa nevrose da visão, obcecado por sentimentos agudos, através das brancas espumas ferventes, a alma azul do Oceano, que ama e envia no estrondo incessante das vagas a sua dor ao Infinito!

 

Então, imagino fantasticamente qual o ideal capaz de amparar aquele sedento e largo coração de leão. E avalio bem, por fim, que nenhum sentimento satisfará, nunca, o Titã eterno!

 

A Imensidade etérea e longínqua que ele constantemente busca e fita com o seu imenso olhar de esmeralda, e para onde joga os soluços bramantes de apaixonado Ciclope — permanecerá sempre, ante o seu profundo e tempestuoso amor, enigmática, fria, silenciosa e imóvel...

 

*  *

 

Ó Mar! Ó velho Mar gigante! tentas embalde o gozo, a alegria e a paz suprema: no meu coração, como nas tuas águas, onde tanta vez se refletem a azul serenidade do Céu, as setas de ouro do Sol e as lágrimas prateadas das Estrelas, há uma doença secreta, um amargor terrível, um rolar de vagalhões contínuos em perpétua desolação!...

 

Santa Catarina — 1887

 

 

 

Galé da dor

 

Ao Dr. Fábio Luz

 

 

O Maurício, um belo rapaz, fino, inteligente, elegante, estava agora perdido para sempre. Aparecera-lhe inopinadamente a “moléstia maldita”, a cuja lembrança tanta vez a sua alma gemera e gelara, porque sentia rolar no seu sangue aquele vírus horrível, que desde os seus antepassados — havia um século decepava cruelmente os melhores varões da família.

 

Muito rubro, com todos os germens daquele “mal” hereditário, tinha um grande cuidado consigo; mas nesse dia de sol escaldante, em que uma viva combustão estival pairava nas camadas aéreas, entrara da rua fatigado e metera-se num banho frio.

 

Tigrou-se-lhe a pele de roxo, engrossaram-se-lhe os tecidos. O rosto, maculado, ingurgitou-se, tomando um aspecto duro, túrgido. As orelhas encorparam-se prodigiosamente, e o nariz, violáceo, intumesceu de maneira brutal, dilatando as narinas. As conchas das pálpebras espessaram-se, reviraram-se, numa tumidez enorme, conservando os olhos uma umidade mucosa, pelados de sobrancelhas. A boca tumefacta contorcera-se em tromba, de onde manava uma saliva chorosa, torpe, pútrida. A pele gretara-se, dessorando pus.

 

Tornara-se medonho, repelente; sentia vergonha de si próprio; não aparecia a ninguém. Só furtivamente, de um modo tímido, nos dias alegres, a cabeça envolta num plaid, deixando ver apenas os olhos sem cílios e debruados de vermelho, chegava à janela de um torreão da casa que deitava para o mar.

 

Era às vezes pela tarde. Seguia, então, horas e horas, as velas cruzando a larga superfície verde. Contemplava o casco dormente dos navios ancorados, o alto perfil das mastreações, as montanhas do continente, desenhando-se saudosamente sobre a tela esmaiada do firmamento, os belos ocasos de estio, acesos num alastramento de flamboyants em flor...

 

E enclausurado nessa vida de túmulo, contemplando a natureza como quem já não pertence ao mundo, abalado por uma plangência sem nome, abandonava a janela, nervoso, trêmulo, soluçando. A nostalgia enterrava-lhe no coração os seus bisturis.

 

E nesses instantes amargos, a imagem rútila da Amada, evocada intensamente pela imaginação, aparecia-lhe nimbada de luz, por uma aberta de nuvens, no céu sereno de seu espírito, como uma Nossa Senhora que acudisse piedosamente à súplica fervorosa de um místico, por entre os murmúrios de uma oração.

 

Amava, com todas as veemências febris da paixão com todo o ardor tropical da sua alma, de vinte anos, a uma virgem ideal, branca como uma estátua de mármore, pura como as estrelas, olhos azuis e castos como os miosótis, luminosos e lindos como as nossas manhãs. Era uma menina angelical, que fora a companheira querida de sua irmã, nos bons tempos do colégio, que costumava conversar com ele, outrora, nos dias felizes. E a não via, já lá iam dois anos. Que dor, que imensa saudade, saber que ela ali estava, defronte, naquele mesmo bairro pitoresco de litoral florido, e nem ao menos a poder contemplar um instante, temendo ser visto!...

 

Vinham-lhe, então, desesperações formidáveis, blasfêmias, gritos de desgraçado contra Deus, irritações de ateu, e, após tudo isso, um certo temor religioso, um remorso aflitivo, uma ideia muito viva da Providência, que fazia o seu pobre coração torturado cair de repente em contrita adoração, murmurando: “Eu creio em ti, ó Deus!...”

 

E quedava-se demoradamente numa imobilidade de magnetizado, enterrado numa cadeira de braços, perdido num cismar profundo, o rosto tombado sobre a mão, num arrepanhamento de feições que lhe torcia a boca, tornando-o horrível, com o olhar fisgado no chão, sem movimento, inerte. Permanecia assim até alta noite, até a madrugada, em insônias esmagadoras. E todos os dias a mesma vida, vazia, deserta, negra, tumular, até que caísse por fim na augusta pacificação do Nirvana...

 

Mas à maneira que a moléstia avançava, implacável, sentia crescer, deitar mais fundas raízes no seu peito, aquele amor indomável, desalentante e descorrespondido agora, que nunca o vencera e torturara tanto.

 

Um sábado, quando as sugestões do desespero e da dúvida, como um bando de lavras estranhas, surgiam-lhe no cérebro, a devorar-lhe os filões do discernimento — ruídos espalhafatosos de carros que se aproximavam, sublevando a costumada quietude do bairro e fazendo estremecer os prédios, trouxeram lhe de repente ao espírito uma lembrança terrível dela, da radiante criatura que o fazia viver ainda e por quem e para quem era perdido, perdido...

 

Então, arrastado por um pressentimento extraordinário, atirou-se audazmente à janela ante os olhares espantados de todos, e, aí, aparvalhado, trêmulo, estrangulado quase por um aperto de dor na garganta, viu-a passar, num cupê, ao lado de um belo rapaz — magnífica, a grinalda de flores de laranjeira cingindo-lhe a cabeça de virgem, o longo véu de tule caindo-lhe pelas costas, sobre as nuas espáduas brunidas, num tecido tênue de bruma.

 

Como um animal apunhalado de repente, em pleno coração, o Maurício teve um grito sinistro. Depois retirou-se mudo, tonto, tresvairado, indo cair de bruços sobre a cama, numa dor onipotente e sobre-humana, num traspassamento de mágoas  supremas e infinitas!...

 

 

Desterro — 1886.

 

 

 

Tzar

 

Ao Dr. Gama Rosa

 

 

Ele era o inacessível, supremo. A sua vontade trazia trêmulos e angustiados noventa milhões de súditos. Os pensamentos destes homens morriam inexpressos, temerosos da onipotência fatal do gigante autocrata. Uma palavra, uma suspeita faziam voar em trens expressos para a Sibéria os delinquentes, num degredo tumular.

 

Nas grandes revistas de cem mil homens os estandartes da Nação, coroados pela águia de ouro, com o insígnias fracas, abatiam-se à sua presença real, num Te-Deum de aclamação. Quando passava nas ruas, augusto e refulgente, envolvido no estrépito, nos brilhos metálicos do seu séquito ostentoso e guerreiro, deixava, por sobre as multidões aglomeradas, o deslumbramento e o assombro que assinalam a passagem dum trovão.

 

Havia em torno deste homem como que uma atmosfera de força brutal, junto à sobrenaturalidade dum monstro fantástico, cuja proximidade dava morte. Mesmo no seio do seu palácio, os seus validos, a sua família, tornavam-se gélidos trêmulos à aproximação soberana, porque havia nele a ferocidade rija das máquinas, das engrenagens e a crueldade sutil e alucinante do cholera-morbus. Achava-se ali, no meio daquela imensa Nação, como um formidável animal pré-histórico. O monstro tinha a intuição do seu valor e da sua força: e nunca os seus lábios sorriam para ninguém, porque não considerava semelhante ninguém!

 

Nas solenidades babilônicas da grande corte do Neva, cercado do grupo dourado dos generais do Império, numa sala feérica de decorações e constelada pela beleza exuberante e olímpica das altas damas palacianas, colocadas ali às centenas, como os nobres dignitários da Nação, em presença dos embaixadores de todas as potências do mundo, o grande monarca, postado no meio das suntuosidades daquela quermesse oficial, no cachoeirar estridente das orquestrações guerreiras, alheado de tudo, prodigioso, sobre-humano — fugia para longe dessas glórias que detestava, e, de olhar amortecido, sem uma palavra, sem um gesto, transportava-se para além, para o ménage querido, onde estava a sua Amada, a deliciosa criatura pela qual se sentia menino, gostando de chorar no seu seio.

 

Imaginava-a deitada sobre a alvura flácida das peles de ursos brancos do polo, num pequeno divã, o corpo docemente premido no seu roupão de veludo negro bordado de filigranas, o pescoço e os pulsos envoltos na mornidão suavíssima dos arminhos da raposa azul, feliz, à espera dele com sorrisos adoráveis e umas carícias que lhe faziam tão bem!...

 

Sentia um enternecimento em pensar nela e aspirava por chegar ao ninho tépido e perfumado onde era tratado como um bebê, repreendido cristalinamente pelas suas faltas e castigado por aquela mão rósea e cetinosa, que sabia, muito justa, distribuir a pena e a recompensa. Queria inefavelmente mergulhar o seu rosto nos flocos de ouro daqueles cabelos eslavos, para fugir ao perigo da sua onipotência, num remanso carinhoso e sagrado. Dominava-o um desejo irresistível de humanizar-se, de perder-se nas suavidades do sentimento. E tanto gozava daquela criatura divina, que experimentava já a invasão deliciosa das ardentes meiguices de amor. Votava lhe tal adoração que se enternecia e sofria saudades nas horas que não passava a seu lado. E mudamente, em seu cérebro, durante a grande recepção, revolvia-se convulsamente esta exclamação torturante: “Ah! como as suas funções de monarca o privavam cruelmente daqueles sagrados encantos!...”

 

Então, ainda mais alheado de tudo, o seu espírito fugia, internando-se pelo lar, numa ânsia de afeições.

 

O mundo que o cercava, esse mundo ali prostrado a seus pés em contínuas oblações, desaparecia então por momentos, como sob o nevoeiro dum sonho, e ele via-se já, o grande Imperador, entre os gorjeios doces do ninho, cercado das crianças louras, os filhos do seu amor, sentindo-lhes as mãozinhas carnudas baterem-lhe o rosto, revolucionando-lhe a barba, sem brutalidade, sem cólera. Amava todas essas ternuras, enlevado e comovido, aconchegando ao peito e beijando os celestes querubins. Depois ia cair inebriado nos braços da sua Niwaia, que o enlaçava na sua eterna paixão...

 

Em pouco a solenidade terminaria e ele retomaria a sua feição humana, subindo, com o coração palpitante, a escadaria dourada do seu castelo de amor...

 

Mas, de repente, fez-se um palor no rosto do Tzar: seus olhos amorteceram, extinguiram-se, e ele viu ao longe, no horizonte imenso das estepes nevadas, uma multidão de homens vestidos de luto, que se aproximada com a rapidez de uma Visão, e sentiu que uma bomba enorme de dinamite, abatendo-se a seus pés, explodia, afogando-o em ondas de lava.

 

 

Desterro — 1884.

 

 

 

Em viagem

 

(À minha Mãe)

 

 

Esta novela, como em geral todos os trabalhos do autor, tem muito da vida real, ou melhor, é formada de cenas ou episódios vividos e longamente observados. Representa mesmo, e com cores as mais verdadeiras, uma boa parte da sua infância. Foi com saudosos trechos de reminiscências da longa e bela viagem feita a Havana e ao Rio da Prata, depois de ter deixado o Colégio Naval, em 1879, que todo este livro se compôs, desde o conjunto aos mínimos detalhes. — Mas é impossível que não haja nestas páginas alguma criação da fantasia, dirá o leitor. Perfeitamente. Entretanto, a psicologia, o sentimento, os encantos, as alegrias, como os sobressaltos e as amarguras da vida de bordo, acham-se aqui, por assim dizer, fotografados. E talvez o único mérito desta novela que, além de tudo, foi escrita com verdadeiro amor por quem, descendendo de marítimos brasileiros e portugueses, pelo lado paterno e pelo materno, e criado de menino a bordo e no pitoresco litoral de Santa Catarina, adora os navios e tem uma profunda paixão pelo mar.

 

Rio de Janeiro – Dezembro de 1900.

 

 

I

 

 

Nessa manhã, a bordo, todos irromperam alegres no tombadilho: era a bonança, o bom tempo, o sol. Havia seis dias que ninguém punha o nariz fora da cabine, por causa da borrasca. Começara por aguaceiros ao sul, numa madrugada, depois de muitos dias claros de norte. Mas o vento, que caíra pelo sueste, rondara para leste, e o temporal se desfez intensamente sobre o mar. O navio metera logo à capa para aguentar: gáveas em terceiros, velacho baixo e bujarrona, alagado de proa à popa pelos vagalhões. No alto, o céu torvo e revolto, em pastas dum cinzento molhado, vertia cordas d’água incessantes. Sobre as escotilhas fechadas e o convés raso invadido constantemente pelas ondas em fúria, que torvelinhavam e varriam tudo despedaçando-se em altos rolos de espuma, como contra um cachopo isolado, a mastreação e os cabos dançavam e assobiavam sinistramente, num sabbat formidável. E à sinfonia disparatada e louca da torrente infrene, o brigue rolara, dia e noite, aos boléus, sobre as vagas rugidoras. Tudo cessara, porém, na véspera à noite, em que o céu festinara cheio de estrelas. E o oceano agora, sob a imensa curva azul transparente, branco e espumoso ainda do colérico vergastar dos ventos, estendia-se em redor, profundo, amplo e montanhoso, na vastidão solene. A luz jorrava do alto cor de gema de ovo, acendendo na planura líquida placas infinitas e rútilas. Nos longes alvíssimos, fechados, brumosos, nem a mancha clara de uma vela — apenas o isolamento, o deserto.

 

À ré, sentados sobre a meia laranja, à sombra do mastro grande, alguns passageiros, num grupo, faziam enorme algazarra. Uma brisa de nordeste, muito doce, bojava as velas, deitadas a um bordo. Panos de sol, como um estofo amarelo, riscado das sombras dos cabos, estendiam-se no convés, a correr, nos balanços, de bombordo a boreste, por debaixo das amuras. Havia ainda um grande jogo. De vez em quando, um ou outro vagalhão mais alto borrifava a tolda, à meia nau, por cima da borda.

 

O capitão, um homem hercúleo e grosso, era muito louro, de origem dinamarquesa, carregando uns quarenta anos robustos. De pé, junto aos passageiros, o boné sobre os olhos, ria com os seus belos dentes sãos, contando o que eram os temporais de inverno em toda a costa sul do Brasil.

 

— Estavam agora mesmo — dizia apontando com o braço estendido o horizonte ao largo — na altura do cabo de Santa Marta, a um grau de terra, num dos pontos mais perigosos da costa. Ali constantemente ocorriam naufrágios, porque o carpinteiro, todos os ventos rijos do quadrante do sul, e os ciclones, nessa quadra do ano, trabalhavam dia e noite o vasto litoral desabrigado. Sempre para baixo, desse ponto em diante, a costa aumentava de perigo até ao Albardão.

 

Mas à popa, vestida de azul-marinho, uma miss loura e forte estirava-se sobre uma larga cadeira de lona. Tinha uma grossa brochura amarela sobre o regaço; e uma das mãos, muito branca, marcava a continuação da leitura, mergulhada nas páginas, enquanto a outra, pousada no espaldar de verniz, junto às tranças de ouro, fazia repuxar o corpete na manga, desenhar-se amplamente a linha escultural da cinta, e, sob a fazenda demasiado tensa, num contorno de couraça, o esplendor dos seios túmidos. Parecia indiferente à conversa e seus olhos garços, límpidos, virginais, cheios de desejos e preocupados, ora fixavam os mastaréus oscilantes, as costuras simétricas do pano, as tábuas estreitas do convés, ora o céu de azul e seda e o mar ressonante para além das amuradas.

 

Às vezes, quando o navio caturrava mais violentamente na vaga, uma faixa de sol banhava-a, dourava-a toda, caindo por entre as velas. Batiam-lhe então as pálpebras, os longos cílios escuros, sob a luz intensíssima. Mas era só um segundo, porque a sombra volvia logo, e ela reabria, sorrindo, os olhos deslumbrados.

 

A seus pés, dormitava, estendido, guardando-a, um esplêndido terra nova, todo negro e de longos felpos reluzentes. Era o vigia de bordo, que velava, à noite, durante os dias de descarga nos portos, sendo também um recurso de primeira força na salvação, quando algum homem ia ao mar, em viagem. Com um ano de idade, já tinha o tamanho de um bezerro. O capitão trouxera-o pequenino da América do Norte a última vez que lá estivera, e como o cão nadava prodigiosamente desde muito novo pusera-lhe o nome de Golfinho.

 

Os passageiros continuavam a tagarelar, na doce cordialidade de bordo, ouvindo dos lábios do capitão o claro desfiar das tormentosas histórias do oceano. Mas a sineta, embaixo à porta da câmara, bateu as sonoras tilintadas do almoço e todos desceram apressados.

 

 

II

 

 

O brigue tinha duas câmaras magníficas — uma em cima, na tolda; a outra embaixo, na coberta. A primeira, muito vasta, com embutidos de palissandra, incrustações e dourados, era como um salão de steamer: um piano de meio armário, coberto de um pano verde bordado, jazia à entrada, junto ao mastro grande, para alegrar os passageiros em viagem; duas amplas mesas, forradas de um tecido cor de cereja, corriam a um lado e outro; por cima, glassrak’s de madeira negra envernizada, guarnecidos de metal, pendiam do teto branco; grandes espelhos de Inglaterra, cercados de douraduras, abriam-se às anteparas; um largo corte no centro, quase em oval, coincidia com a meia laranja, deixando jorrar para o interior toda a luz do alto; próximo, mas a ré, uma descida comunicava as duas câmaras. A segunda era um compartimento corrido, com camarotes às amuradas e um pequeno salão à popa para senhoras, todo estofado a veludo cor de vinho e cheio de quadros, representando trechos risonhos de campos e praias europeias, dentre os quais sobressaía, ao fundo, uma bela tela de mar alto, assinada por Joseph Bury.

 

Tais acomodações, luxuosas e raras nas embarcações à vela, davam uma singularidade ao navio, que havia sido paquete nas viagens da Oceania, carreira da Austrália, para que fora construído especialmente por um rico armador de Londres, ex-embarcadiço, cuja fortuna colossal tornou-se, em poucos anos, das mais consideráveis da Grã-Bretanha, o que o levou, logo após, a abandonar o comércio e os navios, e entrar na política, liquidando a casa ao ser eleito deputado, isto aos cinquenta anos de idade.

 

O brigue, que se denominara outrora Rose of England, fora casualmente vendido para o Porto, sendo o seu novo proprietário um velho português do Douro, atarracado e sanguíneo, perfeito tipo do master, rude marinheiro, trabalhador e tenaz, que possuía uma enorme ambição e uma sede incomparável de riqueza. Mal se arranjara nas trabalhosas viagens da Índia, começou logo a comprar navios, mandando também construí-los nos estaleiros de Vila do Conde. E como por esse tempo um movimento enorme de Portugueses para o Brasil inundasse o convés dos navios de vela, por serem raros os vapores e muito alto o preço das passagens, tratou imediatamente de encarreirar a sua frota para o Rio de Janeiro. Posto que rico e já idoso, com toda uma descendência em Viana, terra em que casara e estabelecera o lar, o seu entranhado amor ao oceano, onde rolara por espaço de quarenta anos de alegria e saúde, junto ao entusiasmo da excelente compra do barco, levara-o de novo às ondas, fazendo-o tomar o comando do brigue, a que, com enfatuação plebeia e maruja, denominara — Sem Par. Mas o pobre lobo do mar, logo à primeira viagem, uma manhã de verão, num dia de chegada ao Rio, ao ir para terra, caiu ao portaló, com uma apoplexia.

 

O navio então fora à praça. Comprara-o um valente marinheiro catarinense, o capitão Roberto Nielsen, homem de longas viagens à América do Norte, ao Rio da Prata e ao Pacífico. O brigue passou-se a denominar Ondina, uma doce e velha reminiscência da mitologia escandinava, que fizera deliciosa impressão no espírito do Nielsen quando, em menino, à noite, nos serões de inverno, agasalhado ao colo da mãe, junto à chama amarela do candeeiro, ouvia ao velho Roberto, seu pai, as lendas poéticas e nevoentas do Báltico, que este, por vezes, aplicava à terra catarinense e à sua bela capital. Depois fora também em honra à sua filha mais velha que o navio tomara esse nome.

 

No Ondina, em duas ou três viagens aos Estados Unidos e ao Chile, o Nielsen levantara um pequeno capital para carregar por sua conta; e, muito feliz nos primeiros carregamentos dando-lhe grandes resultados, resolveu encetar imediatamente o negócio da erva-mate, viajando entre Santa Catarina e as fortes praças comerciais de Buenos Aires e Valparaíso, esta última já muito conhecida das antigas viagens. Na impossibilidade de uma longa demora em terra, e principalmente no Desterro, onde quase não tocava ao volver das grandes travessias no mar, instalara a bordo a família, e, como o navio tinha acomodações de paquete, recebia também passageiros para aqueles portos. As passagens eram muito em conta — uma terça parte das dos vapores estrangeiros ou nacionais — o que fazia com que os catarinenses e outros com negócios naquelas cidades, bem como os comerciantes de lá com interesses nesse Estado do sul, procurassem sempre o Ondina para as suas viagens.

 

E por isso ali singrava o brigue, cheio de passageiros, na altura do cabo Santa Marta, num dos seus costumados percursos ao Pacífico com escala pelo Prata. Jamais porém o colhera, nessa latitude, tamanho temporal. Felizmente, o navio era como um pássaro nas vagas, e apesar da tormenta desfeita não recebera a menor avaria. Satisfeito com tal felicidade e com a segurança quase invencível do barco, o Nielsen, excessivamente jovial e sem cansaços, respirava agora livremente, a rir e a palrar no meio dos passageiros, o coração em festa na manhã dourada.

 

Todos tomaram lugar à mesa. Só a filha do capitão, a moça loura que olhava os mastaréus e o  Azul no tombadilho, desceu primeiro à outra câmara, à cabine, onde deixou a brochura amarela, voltando daí a instantes, a sorrir levemente com os seus lindos dentes claros. Mas em seus olhos glaucos havia uma inquietação e melancolia. Ao sentar-se lançou em volta um olhar que procurava vagamente alguém ou alguma coisa, e que se cobriu de repente de uma leve umidade de lágrimas. Depois, reclinando-se um pouco no banco, pôs-se a fixar o convés, lá fora, onde o pano se encurvava pardacento e em bojo. E ficou como perturbada, a fisionomia um momento hesitante, uma contração nos lábios, que empalideceram vagamente.

 

Um dos passageiros, ao lado, inquiriu-a então:

 

− Mas o que era aquilo? Ondina estava tão triste, tão silenciosa.

 

− Oh! não! ela era sempre assim; murmurou, escarlate.

 

Os outros protestaram: “que não, Ondina não era assim, ninguém melhor do que ela para brincar, gracejar...”.

 

Mas o capitão, que se demorava ainda lá em cima, a dar ordens, apareceu, muito preocupado, como sob um peso íntimo.

 

Os passageiros perguntaram-lhe então assustados:

 

− Alguma novidade, comandante? Mudança de tempo? nova borrasca?

 

− Não, era o piloto. Adoecera, o valente rapaz, que vinha de dar a melhor prova de marinheiro às direitas naquela viagem. Durante a borrasca secundara-o, a ele capitão, nas manobras com um sangue-frio e coragem admiráveis. Sozinho, uma noite, na maior intensidade do vento, a equipagem já exausta, fizera seis horas de leme sem fraquear! A ele se devia, talvez, o estarem todos ali nesse instante...

 

E tomou a cabeceira da mesa com um encolhimento de resignação nos ombros hercúleos, tordada agora a larga face cheia de sol, de pele lisa e fina, onde o sangue afluía, cor de boa noite, num jorro incessante de vida.

 

A moça, que o escutava, preocupada, teve um tremor: e seu rosto rosado e límpido, no alto do vestido azul-marinho, banhou-se de uns tons frios de lua em céu varrido por vendavais.

 

 

III

 

 

Na véspera o piloto recolhera-se ao camarote pela madrugada, quando o nordeste se declarou trazendo o bom tempo. Estendera-se no beliche extenuado, quase morto de seis dias e seis noites de faina infernal, mal comido e mal dormido, como toda a campanha, sobre o mar desmontado, no torvelinho da borrasca. Dormira um sono profundo, um desses sonos que vêm após as grandes fadigas, mas acordara como se tivesse a cabeça atulhada de pedras, volumosa, colossal. Não a podia erguer quase. Tinha os beiços ressequidos, queimados por um calor interno, uma sede insaciável.

 

Um dos moços de câmara, ao vê-lo assim abatido, correra logo a chamar o capitão. E como vinha a bordo um médico, o Dr. Barroso, naquele dia muito prostrado no camarim com o enjoo, o Nielsen desceu imediatamente a consultá-lo. O médico não se podia erguer, com tonturas; mas inquiriu se havia acônito, mostarda, e receitou sinapismos, um suadouro.

 

− Depois, ver-se-ia...  disse penosamente, numa angústia, tomado por uma ansiedade de vômito.

 

O capitão subiu, apressado, para aplicar os remédios, e após o almoço voltou a ver o doente, acompanhado por alguns passageiros: ia bem, mais calmo, suando muito, sob um grosso cobertor de Montevidéu.

 

A esposa do Nielsen, boa e solícita sempre, com uma imensa piedade pelos sofrimentos alheios, uma senhora robusta e bela apesar dos seus quarenta anos e dos seis filhos sãos que criara, com os quadris amplos e fecundos de onde saíam titãs — lá estava já, com a Ondina, a fazer quarto ao enfermo. Sentada num banco de lona, aconchegava a roupa ao pescoço do rapaz, que, muito pálido, em suores, rolava a cabeça sobre o travesseiro, sem poder abrir os olhos. Ao lado, por detrás dela, a filha, que há pouco quase desmaiara na câmara, de pé, apoiada ao lavatório o fixava afetuosamente com os seus olhos garços, que reluziam melancólicos. Desde manhã andava com o coração  opresso, porque ao subir para a tolda, depois do temporal, o piloto não lhe aparecera como costumava. Sabia bem quanto ele a amava, mas ficara aborrecida temendo lhe houvesse ocorrido alguma contrariedade.

 

Esse afeto de ambos procedia da infância, dos últimos tempos do Colégio Willington, onde tinham andado. Fora no Desterro. Tinha ela nove anos, ele doze. Viam-se todos os dias, apertavam-se as mãos, estavam juntos horas, porque ia sempre para as aulas com a irmã dele, a Ritinha, íntima camarada e confidente, uma menina da sua idade, morena e de grandes olhos negros, com longos cabelos cacheados. O rapaz era já robusto nessa época, o Ioiô, como então o chamavam; mas o seu verdadeiro nome era Carlos Vale. Alto, os olhos castanhos, os dentes alvos, um rosto grande e redondo, a pele muito clara, impressionava as meninas, dando-lhes uma emoção. Nesse tempo andava a tirar preparatórios para a marinha — e, um dia, pela tarde, acompanhado do pai, do velho Guilherme Willington e de alguns camaradas de estudo, lá embarcou para o Rio. Toda a família chorara desesperadamente, e ela que estivera em casa dele, nesse dia, sentira então a sua primeira mágoa: à noite chorara muito e só conseguira dormir muito tarde... Passados dois anos, deixando a marinha de guerra, Carlos voltara à província, já quase um homem, bonito e com um buço forte. Na sua grande paixão pelo mar, uma enorme vocação, só falava em viajar, correr oceanos, terras longínquas — a Europa, a Ásia... O pai embarcou-o, então, com muitas recomendações, em um navio espanhol que se destinava às Antilhas, e daí a Barcelona. Partiu por uma manhã rumorosa de abril, num fresco sueste que carregou a polaca. Voltou daí a seis anos, depois de percorrer todo o Antigo Continente em numerosas viagens... A sua chegada ao Desterro foi um acontecimento: não se falou noutra coisa durante dias, como sói suceder em terras onde as notícias escasseiam. O clube Doze de Agosto deu uma partida em sua honra, e o velho José Maria do Vale levou uma semana de festa na sua chácara do Mato Grosso. Permaneceu em terra muito tempo, porque o pai, homem de influência e chefe político do lugar, andava a arranjar-lhe um comando de paquete na Companhia Nacional. Mas como isso tardasse, o rapaz, sôfrego de novo pelo mar, apenas entrou o Ondina, tomou lugar de piloto a bordo. O Nielsen chegava então do Prata, e o acolheu com efusão, fazendo-lhe todas as vantagens. A família, que estimava o Carlos e o não via desde anos, teve uma grande alegria ao saber que ele ia para o brigue; e houve verdadeiro júbilo, a bordo, no dia em que levou a bagagem. Que de emoções experimentou então a Ondina, e como se sentiu tão mudada! O seu amor, tão longamente interrompido, reatou-se logo, e com maior intensidade, tornando-se em verdadeira paixão. Ao rapaz é que lhe não sucedeu o mesmo, posto a estimasse ainda e correspondesse de certo modo aos afetos; e isso era devido a uma grande toquade que sentia agora por uns olhos peninsulares que lá deixara em Espanha, chamado de repente ao seu torrão natal. No Desterro contava-se o “caso” vagamente, mas ninguém ousava afirmá-lo...

 

Conquanto mais calmo, o doente continuava ainda com uma febre alta. A moça e a mãe davam-lhe os remédios com exatidão, não se retirando um instante do camarote, situado no convés, num compartimento em frente à câmara. Daí, por uma larga vigia de vidro, dando para ré, avistava-se todo o tombadilho.

 

Era a hora do meio-dia. O capitão, junto à gaiúta, horizontava o sextante para a observação. Embaixo, na câmara, o praticante, um rapaz de quinze anos mais ou menos, socado e rijo, metido num jaquetão de flanela escura, espreitava o cronômetro. A meia tolda e pelas amuradas, passageiros conversavam, em grupos. O contramestre, ao pé da borda, assestava o óculo para leste, com os cotovelos erguidos. E marinheiros, com um ar repousado e sereno, cachimbavam, num falatório, à sombra do traquete. O mar desdobrava-se em torno, manso e transparente, em vagalhões corridos, apenas levemente estriados de espuma. A barlavento, próximo, o sol cegava, em combustão de ouro nas águas. E lá ao longe, os panos duma galera, seguindo para o norte, à bolina...

 

 

IV

 

 

Durante três dias, o navio correu à popa com tempo claro; mas na véspera à noite caíra um pampeiro, com rijas bátegas d’água, obrigando-o a amarrar-se. Era uma quinta-feira de junho. O dia amanhecera enevoado, triste, carregado de aguaceiros. O brigue rolava, aos trancos, no mar muito cavado. Bordejava só em gáveas e velas de proa, sem fazer caminho, porque as águas corriam ao norte como uma bala.

 

Naquela manhã, nem um passageiro na tolda, além do intrépido D. Oswaldo, negociante chileno de Valparaíso, acostumado à vida de bordo em constantes viagens de comércio e recreio a todos os pontos mais importantes da América e da Europa — que se arriscara até ao convés, enfiado em longa capa de borracha e grossas botas d’água. D. Oswaldo era homem de trinta e cinco anos, baixo, trigueiro, os ombros largos, a barba cerrada, um político terrível, inimigo pessoal de Balmaceda, então declarado ditador. O seu tic era a política e as mulheres. Primava pela educação, o cavalheirismo, a jovialidade. Odiava os reis, tinha uma paixão pela música e adorava o Brasil, como todo o bom chileno. Solteiro, muito rico, dizia sempre que, a casar-se, fá-lo-ia com uma “señorita brasileira, por que eran las mas graciosas de la America”. Viajara todo o mundo, possuía um espírito vivíssimo e culto, esmaltado por impressões multicores e universais. Tocava admiravelmente violino, e nas noites claras e suaves, na tolda, dava serenatas esplêndidas. Cantava. De um gênio afável, indizivelmente alegre, expansivo, ruidoso como um bom latino, não deixava ninguém parar, a improvisar constantemente jogos, diversões de todo o gênero. Isto o tornava, como em toda a parte, em geral, o encanto dos passageiros, que o não largavam, atraídos numa grande simpatia, exigindo frequentemente recreações e festas, para quebrar a monotonia dolente de bordo.

 

Estava-se a 21 do mês. E como eram vésperas de S. João, D. Oswaldo planeara já uma pequena matinée ou concerto, que se realizaria em Buenos Ayres, caso o Nielsen quisesse ali arribar, como os passageiros pediam. Subira, por isso, muito cedo, apesar do mau tempo, para ver se conseguia o fim desejado. E falando ao capitão, expunha a necessidade de tocar-se naquele porto, para arejar e desafadigarem-se da terrível viagem, que fora feita até aquela altura sob ventos contrários.

 

Depois era até higiênico, acrescentava, porque “alimpiavam-se” da funerariedade que a moléstia do piloto lançara “a todos los recantos del buque”. D. Carlos achava-se quase restabelecido. A festa seria em sua honra, em honra àquele que fora o salvador de todos na tempestade, na viagem. Estava-se ao sul de Santa Maria, em 36º I5’ e puxava-se agora para terra. O que tinha, pois, uma demora de quatro ou seis dias “en la gran capital del  Plata?...”

 

O Nielsen, que percorria o horizonte em volta, de óculo em punho, com o sueste carregado sobre a nuca, a larga roupa de oleado até os pés, a escorrer sob as cordas d’água açoitando em rajadas — respondia vagamente, preocupado com o tempo que ameaçava engrossar cada vez mais:

 

− Pois sim, veremos, D. Oswaldo...

 

O homem do governo, os encontros gigantescos avolumados disformemente pela japona amarela impermeável, dando-lhe um tórax de Titã, os pés nus no convés vergastado pela chuva, fazia girar, com esforços poderosos e rudes, a roda do leme, olhando atento à proa.

 

De repente, o capitão gritou uma manobra. Então, avante, marinheiros, toscos e anchos na roupa alcatroada, galgaram as enxárcias sob o aguaceiro. Lá em cima, num mastro, uma verga, com os amantilhos soltos, batia o pano já carregado. E fora das amuradas, onde saltavam rolos colossais de espuma borrifando as velas, vagalhões, em cordilheiras, rolavam incessantes na vastidão do oceano.

 

 

V

 

 

A 23, pela madrugada, o pampeiro amainou. O vento soprava ainda do quadrante do sul, mas sem intensidade, muito fino, cortante. O mar abonançava pouco a pouco; e as vagas dobravam, já meio lisas, sem rebentação. Eram sete horas da manhã, uma manhã radiante, de pleno sol, a bordo. O céu, no alto, estava de um azul fresco e lavado. Fazia intenso frio, em cima, no convés gelado durante a noite. Não havia um passageiro no tombadilho. Apenas os marinheiros, em vestes de lã e grossas botas, moviam-se para todos os lados, na faina da manobra.

 

Nesse instante, o Nielsen, à ré, junto ao homem do leme, mandava largar joanetes e sobres, com uma voz volumosa e rouca, as mãos enterradas nos bolsos do espesso jaquetão de pano piloto, a gola levantada, um gorro da Patagônia metido até as orelhas. Lá acima, quase no galope dos mastaréus em perene oscilação, os moços, nos estribos em seio, curvos sobre as vergas — largavam; enquanto, embaixo, os marinheiros alavam braços.

 

O brigue corria agora com proa de sudoeste, porque o Nielsen resolvera afinal arribar a Buenos Ayres, a refrescar da viagem que de Santa Marta para o sul tinha sido uma lástima. O bravo embarcadiço jamais conhecera um inverno tão feio, naquela costa. Depois que se encarreirara para o Pacífico — havia seis anos — era verdadeiramente a primeira vez que apanhava tamanhos temporais, ventos sempre pela proa, moléstia a bordo, o diabo... Estava, pois, resolvido a vender o carregamento em Buenos Ayres e tomar depois qualquer frete para o Chile, mesmo para descansar a companha, totalmente exausta da trabalhosa viagem.

 

Havia mais de quinze dias que aqueles rudes homens robustos não dormiam nem comiam sossegadamente, em luta contínua com a borrasca. É verdade que o barômetro subia indicando bom tempo dali por diante. Talvez ainda pudesse realizar a viagem perfeitamente, assim que o vento se chamasse de todo ao norte, e viesse a montar o cabo de Horn em princípios de julho... Mas não devia expor mais a maruja aos rigores e às inconstâncias daquele inverno horroroso, que começara de assinalar-se por vendavais seguidos; mesmo porque, em semelhantes paragens, com o barômetro alto as tempestades caíam às vezes inopinadamente, subvertendo tudo!

 

− Não! não podia prosseguir, concluíra.

 

Por isso mandou largar pano aproveitando o vento. Achava-se então muito amarado, mas contava entrar em Buenos Ayres no outro dia pela manhã.

 

O navio ia agora a um largo sobre as ondas alegres, esplendidamente malhadas de sol.

 

 

VI

 

 

A mesa do almoço, nesse dia de mar chão, como no princípio da viagem, esteve cercada de passageiros numerosos. D. Oswaldo divertia a todos, muito feliz, na alegria da arribada. Dirigia-se constantemente, borbulhante de graça, às irmãs Ana e Sofia Bauer, que estavam à seu lado — duas moças teuto-brasileiras, que haviam perdido o pai das febres, em S. Francisco, e que iam, com a mãe, para a companhia de um irmão, negociante no Chile. Delgadas e níveas, com os seus vestidos afogados de luto, silenciosas e puritanas, apenas sorrindo levemente, às vezes, lembravam bem duas virgens de marfim, ou duas Imagens sagradas e medievas, nalguma igreja gótica da Germânia. Uns alemães de Joinville, que eram levados a negócio ao Pacífico, e que durante o temporal não se tinham despegado um instante dos beliches — regavam largamente a refeição a cerveja, desforrando-se com bravura da abstinência a que os condenara o enjoo. Uma família de S. Francisco, pela primeira vez vinha à mesa, muito satisfeita, risonha e já mais rija com a proximidade de terra. O marido, a mulher e as filhas tinham um ar desfalecido, os lábios brancos; mas os pequenos, dois rapazinhos — um de cinco, outro de sete anos — negruchos, enfezados, magrinhos, traquinavam pela câmara, desde a saída da barra.

 

O Dr. Barroso, que ultimamente já não enjoava habituando-se ao mar, um médico que abandonara a clínica pela política e o comércio, proprietário e sócio de uma grande companhia industrial em Itajaí — parolava fluentemente, e com humorismo, a propósito de tudo, desmanchando-se em gestos, no seu cacoete de baiano, a rir-se muito, com belos dentes alvos, a boca larga e rubra, em beiços grossos, africanos. Era muito calvo, a pele marrom claro, os olhos a faiscarem, papudos e concupiscentes, sob os óculos de ouro. Político apaixonado, ex-deputado provincial em Santa Catarina, no tempo do Império, vivia em renhidas discussões sobre formas de governo com D. Oswaldo; e, em certas noites, ao chá, no doce conforto da câmara, tinha “pegas” medonhas com o chileno, relativamente à vida interna e administrativa das repúblicas sul americanas. Mas não se excedia jamais, sempre polido e gentil, sem vozeirão ou notas ásperas, como um perfeito gentleman. Dizia-se ainda monarquista, elogiando calorosamente o ex-imperador, chamando-o de magnânimo, ilustre, sábio: “o primeiro monarca do mundo, que as velhas nações da Europa veneravam!” No fundo, porém, sentia grande simpatia pela República, e se falava era de certo modo por despeito, porquanto os republicanos históricos que estavam na direção do Estado, rodeavam-se de muitos dos aderentes da antiga política local, entre os quais alguns dos seus correligionários e amigos, e o abandonavam acintosamente, deixando-o no ostracismo. Isto feria-o de maneira dolorosa, quase íntima, sobretudo agora que já estava “encarreirado” para as altas posições da política, tendo ocupado — não havia ainda um ano — o cargo de presidente da província, exercendo-o interinamente, durante dois meses, como 1º vice-presidente que fora.

 

O Dr. Barroso era uma verdadeira vocação para a música, e, em menino, na Bahia, tocava tão bem clarineta que se tornara extraordinariamente querido nas rodas em família, conquistando fama de “criança prodígio”. Foi por isso que o pai, um velho alfaiate tocador de violão, mas bem relacionado na melhor sociedade, e todo dado à política, pensou a princípio em o mandar ao Rio estudar música, fazendo-o depois seguir para a Itália, a ver se conseguia fazer dele “um Carlos Gomes baiano”, como dizia. Contava para tal com o auxílio de altos personagens seus amigos, e particularmente com um compadre, chefe conservador de prestígio da família S. Lourenço, que lhe prometera arranjar uma pensão de D. Pedro II. Mas o pai morreu dentro em pouco, sem realizar a sua ideia, e o rapaz, depois de muitos incidentes, entrou a estudar medicina. Formou-se aos vinte e seis anos, numa penúria constante, e, após o falecimento da mãe, deixou a Bahia, atirando-se para o sul, ao acaso, em busca de futuro. Fixou-se então em Itajaí, uma pequena cidade sem médicos, na terra catarinense. Abriu consultório e fez-se conhecido, obtendo, em poucos meses, grandes simpatias e clínica. Casou rico. E, no segundo ano de domicílio ali, muito estimado e com um nome feito, começou a politicar. Tempos depois meteu-se no comércio; e ali ia agora de viagem para o Chile, aonde continuamente o levavam negócios.

 

Ondina, ainda com uma vaga melancolia nos olhos verdes e úmidos de saxônia, resto das apreensões em que andara o seu coração nas duas últimas semanas, no mar alto, com a moléstia do piloto — gorjeava alegremente junto aos pais, voltando-se de vez em quando, num esplendor de sorrisos, com uma grande elegância de tórax, para o médico, que gracejava, galanteava a seu lado, chamando-a de Valquíria, Princesa do Norte, Visão dos Niebelungos...

 

A uma das cabeceiras, o jovem piloto, já com o aspecto mais rijo e bastante jovial, o rosto menos tostado pelo sol do tombadilho, cheio da radiação de um deus pagão, moço e vigoroso, contava vivamente, e com amplos gestos decisivos, a um dos filhos do Nielsen, o Melwille, a história dos Dragões marinhos. O menino finava-se de riso, derreado nos seus braços, numa infinita expansão, todo carminado por um rico sangue de seis anos, sangue de fortes raças heroicas, que os ventos salitrosos do mar purificavam e temperavam, tonificando-o com iodo e fios de luz dourada. Ao lado, as irmãzinhas mais novas, vestidas de flanela escarlate, rosadas e louras como babies inglesas, eram servidas paternalmente por um dos alemães mais idosos, cujos olhos, claros e pequenos, na face oleosa e próspera, vertendo sangue, tinham uma expressão enternecida, trabalhados pela cerveja. À outra cabeceira, o capitão, o ar atlético e repousado de leão intemerato, palrava interessadamente, com outros alemães, sobre as Repúblicas do Prata.

 

O almoço terminou às onze horas, no meio da calma relativa do oceano; e como os passageiros, muito bem dispostos e num grande bom humor, rompessem a pedir música, para se festejar a arribada, D. Oswaldo correu à cabine, em busca do violino, seguindo-o o Dr. Barroso, num alvoroço. Daí a instantes voltaram ambos, subindo a escada, apressadamente, às risadas, porque a rabeca de D. Oswaldo, com o álacre estouvamento dele, batera embaixo contra uma das colunas, quase despedaçando a caixa.

 

Todos os aguardavam com interesse, as moças como os homens, colocados em volta do piano, nos bancos de veludo das mesas ou nos sofás das amuradas.

 

Ondina sentou-se então à banquinha, abriu a tampa do teclado e, erguendo a pequenina estante de sarrafinhos cruzados e pregados a taxas douradas, pôs-se a acomodar a música que tirara de sobre o armário, acamando-a com os seus dedos claros onde um rubi faiscava.

 

A esse tempo o Dr. Barroso e o outro, de pé a um lado, afinavam os instrumentos, em sons leves de clarineta e em curtos pizzicatos.

 

E daí a momentos começava o concerto, com a linda valsa de Metra — A Vaga.

 

 

VII

 

 

Nessa tarde extremamente límpida e dourada, navios de toda a ordem cruzavam, entrando e saindo o estuário do Prata. Eram steamers colossais, ingleses, alemães, italianos e franceses, indo para todos os rumos com grossos penachos de fumaça perdendo-se pela popa fora: pequenos paquetes da linha costeira do Brasil: iates, brigues, lúgares e galeras, de todas as nações do orbe, coalhando os mares de ouro da América Austral, com as largas velas alvas.

 

Nas amuradas, à ré, os passageiros de bordo, debruçados, viam passar a frota cosmopolita, representando grande número de países, sobre o oceano sem raias. E esse espetáculo admirável de marinha universal foi um entretenimento para todos, que olhavam satisfeitamente a multidão imensa daqueles cascos cheios de vida, a percorrerem familiarmente o mundo, num mando soberano nos mares, como outrora, em visita às suas terras, faziam os senhores feudais.

 

Ao cerrar-se a noite, quando chegavam as primeiras estrelas, muito acesas e rútilas no céu invernal, manchas claras moviam-se ainda vagamente, aqui e ali, sobre as ondas escuras, como um bando fantástico de albatrozes brancos vogando incerto nas águas. O vento estava pelo nordeste. Em todo o convés resfriava-se.

 

Os passageiros principiaram a descer pouco a pouco, com as carnes vergastadas dentro dos sobretudos de inverno; e só D. Oswaldo, muito agasalhado num grosso casacão de peles de Alaska, ficara a passear na tolda, pelo lado de bombordo, para “mirar” os altos faróis, que já se avistavam na costa, ao sul, piscando as grandes pálpebras luminosas, jorrando clarões astrais e pondo faixas de ouro nas vagas.

 

Ondina também, como toda a moça de origem norte-europeia, não se abalava com o frio, sentada sobre a meia laranja envolta numa peliça da Rússia, forrada com arminhos da raposa polar, manto luxuoso e caríssimo, presente régio do pai, junto dela, o moço piloto, que entrara de quarto, narrava-lhe interessantes histórias de viagens, à claridade verde do farol de boreste, preso à enxárcia na borda. Pela tolda uma vaga melancolia errava, penetrando os corações.

 

À proa, alguns marinheiros, com a vida carregada de nostalgia, cantavam ao som dolente de uma guitarra, que se fundia tristemente ao gemer do vento na cordoalha. Era uma velha canção que dizia, num ritmo monótono e cansado, a tormentosa vida do homem do mar; e tudo findava nela, trabalhos e dores, amarguras e saudades, tendo como recompensa suprema os braços adoráveis da mulher:

 

E os marujos em seus lares,

Abraçando as mães e esposas,

Não se lembram mais dos ventos

Nem das ondas tormentosas.

 

O norte aguentava-se fresco e o brigue, com a sua marcha de oito milhas e meia, despejava caminho, penetrando o imenso estuário.

 

O rapaz e a moça, muito achegados, em confidências intimas, ouviam distintamente as vozes saudosas e apaixonadas dos marinheiros passarem no ar sentimentalmente, em notas grossas e ásperas, desprendendo-se de gargantas másculas. E ambos entreolhavam-se, enlevados.

 

A oeste, um clarão frio, esmaiado como uma faixa de luz elétrica, vinha lentamente surgindo da linha negra do horizonte: e, de repente, a lua, subindo da muralha à fusaín de nuvens, acumuladas sobre o litoral, mostrou parte do disco além, branco e fulgurante como um zimbório de gelo. Súbitas claridades lácteas envolveram tudo, banhando o convés, as velas brancas, os mastros. Riscava, agora, extensamente a superfície escura das ondas, uma galáxia de cristal, vindo quebrar-se, em luminosos plissés de níquel, de encontro ao bojo do costado. Embarcações fugiam, ao longe, saudosamente, com os panos muito caiados ao luar. Pesava um vasto silêncio melancólico de mar e céu, apenas cortado pelo ranger monótono das vergas e o siflar contínuo e vago do vento.

 

 

VIII

 

 

Ao deixar o quarto, nessa noite, o Carlos Vale estava muito pensativo. Durante as longas horas passadas com a Ondina, num enlaçamento traspassado de voluptuosidade e desejos, revelara-lhe uma paixão que verdadeiramente não experimentava, e, numa arrebatação, chegara mesmo a lhe prometer casamento. A moça ficara logo num contentamento, numa palpitação, com uma onda de sangue na face; e, pela primeira vez, ali mesmo na tolda, junto ao homem do leme, num enlevo e numa ingenuidade, cobriu-lhe o rosto de beijos. Ele lhos retribuiu docemente, com uma flama viva nos olhos. Ao descerem ao tombadilho, oscularam-se ainda uma vez. Depois, à porta da câmara, ao despedir-se, ela agarrou-lhe as mãos com ternura, dizendo-lhe segredeiramente, a voz nervosa, hesitante:

 

Então, você me peça, Carlos... Você me peça amanhã, sim?...

 

E desapareceu, com um leve rumor, na escassa iluminação da câmara, totalmente deserta àquela hora avançada da noite.

 

O rapaz voltou ao cata-vento, a esperar o Nielsen que o tinha de render: parara um instante na borda, refletindo mudamente no compromisso em que caíra, num desses acessos de embevecimento e volúpia tão comuns no marítimo. E perplexo, as ideias meio baralhadas sob a responsabilidade tomada, deixava os seus olhos vagarem indiferentemente pela natureza em torno.

 

O disco amplo do mar mostrava-se agora, grandioso e feérico, onde cordões faiscantes se abriam na rebentação espumosa. O vento, que ia escasseando para a madrugada, punha nos cabos e nos mastros, um som doce de casuarina. No alto, o luar de inverno, muito límpido, de cal.

 

Carlos então, apoiado à amurada, entrou a contemplar tristemente a luz argêntea da lua e a larga superfície do monstro, barreade de malines de prata: Uma saudade cismadora e vaga, como a claridade que o envolvia, penetrava o seu espírito e o seu coração de um sopro frio, que, à maneira da brisa sacudindo as folhas secas, despertava-lhe as recordações.

 

E a ideia muito viva daquela que verdadeiramente amava, e que lá estava em Espanha à espera dele, torturava-o, ferindo-o em pleno peito. A imaginação reproduzia-lhe nitidamente todo o seu viver dos últimos tempos em Barcelona, nos amplos vagares da Escola Náutica, e as deliciosas semanas passadas no pueblo de Caldetas, em casa do velho Maristany, junto à Dolores, flor de beleza e de graça, dourada pelo sol da Catalunha. Era uma límpida, adorável criatura essa menina, desabrochando nos seus quinze anos primaveris: morena, de um moreno doce e peninsular, fascinava pelos olhos negros a arderem, com toda a claridade solar da Ibéria, sob os longos cílios de veludo; os lábios deliciosamente talhados, frescos e úmidos como a polpa dos morangos; cabelos pretos, reluzentes, derramando-se pelo dorso e fluindo em bastos crespos sobre a fronte pura de virgem; o colo túrgido, alto, forte, admirável, de onde saíam os seios, arredondando-se sob o corpete como dois frutos capitosos. Tinha um perfil original e artístico e descendia, pela mãe, velha formosura de remontada origem aragonesa, de priscas estirpes fidalgas. Medrada à beira d’água, numa linda enseada, um ninho litoral, feliz e cheio de verdura, onde o Mediterrâneo adormece, azul e plácido, junto à areia branca das praias, experimentava uma nervosa, singular afeição pelo mar. Amava os navios, arrebatava-a a fascinação das viagens; e a sua cabecinha inquieta de castelã medieval, fantasiava uma constante habitação a bordo, no oceano, em meio de todas as sensações, numa vida singular e desigual. Em criança percorrera com os pais vários países da Europa e da Ásia, estivera na Havana e nas Filipinas. Mas fora isso aos dez anos, e nada a bem dizer gozara. Depois o velho D. Juan Maristany, antigo capitão e armador de navios, procurara o interior, a Nova Castela, onde se fixara para a educar e ao irmão, que estudava em Madrid. E cinco anos depois, de novo se instalara na sua bela propriedade de Caldetas, onde Dolores entrara a sentir com veemência o indômito amor do mar. Ali um único desejo intumescia o peito fantasioso da catalã, e era poder unir um dia o seu destino ao de um marítimo. Fora assim que se apaixonara por Carlos, na doçura e na intimidade de uma longa convivência, recusando a mão de um nobre guipuscoano, original rapaz, célebre pelos seus oito duelos complicadíssimos, sua elegância de sportsman, e suas façanhas de caçador de ursos nos Altos Pirineus. Carlos correspondera desde logo, e com igual impulso, à paixão de Dolores, não se tirando jamais de ao pé dela, em casa, nos teatros e nos clubes. Era como se fossem noivos. Os pais, apesar de filha única, exclusivo objeto de todo o seu afeto, de toda a sua ternura e adoração, em tudo consentiam, por estimarem profundamente o rapaz, a quem tratavam como filho. Depois desejavam mesmo que se viessem a casar.

 

Um dia, no último ano dos estudos de Carlos, D. Juan Maristany e a esposa, deixaram-nos ir sós a Mallorca, a uma festa em casa de um parente chegado. A viagem era quase de um dia, e partiram por uma madrugada de ouro, trêfegos e venturosos, no encanto de junho em toda a Espanha oriental, à maneira de dois noivos felizes que vão gozar longe o seu noivado. Voltaram na outra semana, numa tarde cinzeira em que sobreviera um temporal ao largo. Tiveram logo de abandonar a tolda, que o mar inundava quando os vagalhões batiam de través, para se irem refugiar no camarote, onde ela, num temor, e nervosa como uma criança, estivera a noite inteira agarrada a ele, a chorar... Só desembarcaram no outro dia, pela manhã, porquanto o vapor custara muito a romper o mar, atrasando a viagem. Saltaram alegres, recordando a travessia excelente da ida, com o Mediterrâneo em bonança; os horrores da volta, sobre as grandes vagas; a semana irrequieta e esplêndida das festas em Palma; a pequena excursão a certos pontos da ilha, como Martacor, Santa Maná e Inca, a aldeia dos montes; e o piquenique a Cabrera, em meio às rochas escalvadas, depois da pitoresca visita às rumas dos templos fenícios de Astarte e de Baal-Moloch...

 

Daí por diante, Dolores mostrara-se ainda mais louca por ele. E ao concluir o curso de náutica, já esquecido da terra natal, com unia lembrança quase extinta da Ondina e da capital catarinense, para onde deixara de escrever logo após os primeiros seis meses de ausência — nem pensava mais em sair da Espanha, quando foi surpreendido, como por uma pancada súbita, por um telegrama do pai, participando-lhe a morte da mãe e chamando-o à pressa ao Brasil. Ante o despacho lutuoso, ficou a princípio atordoado, a duvidar da verdade; mas, virando e revirando o papel entre as mãos, e relendo-o com calma, convenceu-se afinal e prorrompeu um pranto.

 

Dolores, junto dele, arrebatou-lhe o telegrama, e, muito aflita, foi cair desfalecida sobre um pequeno divã. Manistany e a esposa acudiram imediatamente, a saber o que fora. Carlos narrou-lhes tudo, e recolheu-se ao seu quarto, a pensar na partida, tão cruel nesse instante para o seu coração. Dias depois, abandonava Caldetas, tomando passagem num paquete costeiro para Barcelona. Foi numa quinta-feira de dezembro — e no outro dia, pela tarde, já se achava instalado na primeira classe dum steamer da linha de Marselha, o L’Amérique du Sud. Durante os primeiros dias, viveu a bordo isolado de toda a alegre e ruidosa camaradagem, segregado de tudo, num recanto deserto da tolda, a olhar, cheio de dolorosas saudades, a amplidão do oceano e o lado luminoso do céu pôr onde se afundara a Espanha. A Dolores fora o seu primeiro amor de homem! Estimara, amara mesmo a Ondina, mas como se ama uma irmã, quase com um desses amores fraternais, sem violência e suaves, da puerícia, e que um dia desaparecem sem se saber como, com o crescimento e os anos. Mas a outra, não! amara-a profundamente, virilmente, como um leão...

 

E com o espírito abatido, esmagado ao peso das recordações, Carlos sentia-se tomado duma grande angústia, como na tarde em que deixara a Espanha. Agora, sob a opressora promessa que vinha de fazer a Ondina, é que a Dolores, já como que perdida para a sua afeição, lhe aparecia num ideal esplendor de beleza, aureolada pela nostalgia e a distância. De resto, o que mais o torturava era a certeza do “estado em que a deixara” ao partir. E seu peito abria-se, sob esse pensamento cruel, como atravessado por um gume álgido. Lembrava-se de ter recebido a bordo, ainda em Barcelona, uma carta dela, tão cheia de fé ingênua e da esperança de que ele voltasse, que ficara desalentado... Esmiuçava tudo com um dolorimento agridoce, sofrendo e gozando, enterrado naquelas faltas que o laceravam como espinhos agudos. Recordava-se de tudo muito bem: dos terrores dela ao sentir-se quase mãe, das frases confusas e loucas com que lhe comunicara esse fato, chorando, conhecendo-se desonrada, cheia de sofrimento e vergonha. Era horrível, Santo Deus!...

 

Mas o capitão surgiu de repente no tombadilho, falando-lhe com a voz ainda rouca do sono:

 

— Então, alguma novidade? Quantas milhas andamos?...

 

O Carlos Vale aproximou-se e, depois de informá-lo minuciosamente sobre as últimas quatro horas de marcha, meteu-se no camarim. Aí, quase sem se despir, atirou-se ao beliche, exausto e num grande desânimo.

 

 

IX

 

 

Daí a dois dias, num alvorecer nublado, entrava-se em Buenos Ayres. Os passageiros, alegres, correram acima ao convés ainda alagado da baldeação. O dia pardacento, gelava. Sobre as águas, cascos altos flutuavam, em manchas negras informes, envoltos na bruma invernal, a cordoalha esbatida, aparecendo em trechos vagos no ar empastado, como uma imensa teia de aranha rasgada. A cidade estava toda velada: aqui e ali, muito longe, se desenhava uma torre, a fachada dum palácio...

 

À proa do brigue, havia um grande movimento, na faina da amarração. O Nielsen dava ordens num vozeirão, preocupado com os navios em roda, enquanto o piloto mandava safar o ferro, as amarras. De repente, houve um rolar sonoro de elos e um forte mergulho n’água. Fundeava-se.

 

Os marinheiros acudiram em seguida à meia nau, a largar o bote pequeno, que estava dentro da lancha, sobre as escotilhas. Cabos de laborar rojavam agora pelo convés, num safa-safa terrível; e o esguio escaler, guindado às talhas dos turcos, então torcidos para dentro, foi, em rápida reviravolta, lançado fora, no mar. E logo, um moço desceu a botar o tapete, calar as forquetas e desengatar os cadernais.

 

A visita, porém, demorava.

 

Pelas nove horas o sol jorrou, louro e quente, rompendo o manto brumal: e subitamente, a New York do Sul, a grande capital do Prata, o coração da Argentina, desvendava-se a todos, clara e plana, de mármore. No vasto ancoradouro, como em todos os diques, navios de vela, steamers, pequenas goletas e rebocadores, em aglomeração extraordinária, destacavam, no céu nítido e azul, as grossas chaminés e altas cruzes dos mastros.

 

Os passageiros, em alegre algazarra, olhavam a terra e os barcos, debruçados da borda. Mais à ré, a Ondina conversava risonhamente com o Carlos, sentados ambos à gaiúta. E D. Oswaldo, ao portaló, falava entusiasticamente com o Dr. Barroso sobre o Brasil e seus imensos Estados, aos quais augurava um futuro admirável em toda a América Meridional, comparando a capital brasileira à capital do Prata, e colocando a primeira em grau maior de adiantamento e superioridade. O baiano, sorrindo com os seus dentes alvos, arregaçando-lhe a face larga e obesa, roseada pelo frio, satisfeito com aquela arribada que lhe permitia ir passar deliciosos dias em terra — retorquia-lhe jovialmente, muito fraternal, com a sua voz ciciosa e cheia de ss.

 

Os alemães de Joinville, altos e espadaúdos nos grossos bismarcks de pano claro, a gola erguida, tomavam seguidamente conhaque, à amurada, de pé. As irmãs Bauer, finas como duas galgas, alvas e louras na alpaca negra das vestes, formavam com a mãe, mais à popa, um grupo triste e discreto. Sentada em linha num banco, junto à meia laranja, a família de S. Francisco, amarela e fraca, tremia enrolada nos xales desbotados de lã: o pai, ao lado, o rosto chupado, o cavanhaque maltratado da viagem, tinha um olhar de desalento, puxando contínuos escarros: as crianças, magrinhas, e vivas, esvoaçavam por toda a tolda, a trinar como andorinhas. A mulher do Nielsen, aos balaústres, muito rosada e com as mãos erguidas à altura dos olhos, binoculizava a cidade: o filho, forte e intrépido, como um Hércules infante, brincava com o terra-nova, procurando firmar as grossas patas peludas do cão no alto corrimão da borda, gritando-lhe:

 

— Eh! Golfinho! Hip!...

 

Marinheiros, à proa, estendiam roupa em cima do castelo e nos patarrases do beque.

 

A visita chegou, quando todos iam já a descer para o almoço.

 

Então o chileno, o Dr. Barroso e os alemães, não querendo esperar mais, mandaram atracar o bote de bordo que estava a largar, pois desesperavam por um largo repasto em terra para se desforrarem opiparamente dos vinte e oito dias de “salame” no mar. Mas antes de pôr o pé no escaler, D. Oswaldo foi até a câmara lembrar ao capitão que estavam a 24 de junho, dia de S. João, e que, conforme se combinara lá fora, arranjaria à noite um pequeno concerto. Prometeu voltar pela tarde, com alguns amigos e famílias conhecidas, e correu a todos com gentileza, risonho e serviçal, oferecendo-se para “lo que quisessem de tierra.” O Dr. Barroso acompanhava-o nos oferecimentos, como um bom camarada. Os alemães, hirtos e secos, indiferentes às amabilidades latinas, egoístas e duros como homens de negócios, que eram, já haviam embarcado sem se despedirem. Os dois desceram então apressados, voltando-se ainda para a porta da câmara, as mãos erguidas em adeuses, por entre repetidos “até logo”!

 

 

X

 

 

Desde a tarde que o Nielsen e a mulher andavam num regozijo, porque o Carlos, ao jantar, pedira a mão da filha. O rapaz, suplantando o coração, num momento difícil fora “obrigado” àquele passo, pois a moça narrara à mãe tudo o que entre ambos ocorrera na véspera à noite, na tolda. Depois, pela manhã, na rápida palestra íntima que os dois costumavam ter na câmara, ela declarou-lhe isso mesmo numa ingenuidade de virgem, e, tomada de um enternecimento, a voz súplice, rogara-lhe que a “pedisse” aos pais nesse dia:

 

— Você me peça, Carlos, eu já não posso mais! Desejo ser tua, viver contigo para sempre...

 

Tinha sido uma “entaladela”, da qual se não pudera livrar, pois “já dera a sua palavra”, comprometendo-se inopinadamente, num momento de intimidade e ternura em que não soubera ser “forte”.

 

— Fora talvez uma cilada — pensava dirigindo a limpeza do navio — aquela noite em que os haviam deixado longas horas a sós! Mas o que fazer depois do que sucedera? Não podia voltar atrás, o passo estava dado! Agora era aguentar, resignar-se, sofrer...

E sentia um grande aborrecimento contra si mesmo, contra o Nielsen, a família e o próprio navio, repugnando-lhe de certo modo a festa que se ia realizar. Toda a tarde andou arredio da câmara, esgueirando-se da noiva, a pretexto de ocupações, da direção do serviço. Mas o seu pensamento vagava longe, muito longe, na Espanha...

 

À noitinha, D. Oswaldo e o Dr. Barroso voltaram numa lancha a vapor, acompanhados de alguns amigos, de distintas matronas, e dum rancho alegre de moças. Havia a bordo uma profusa iluminação, vendo-se ao longe pelos discos luminosos das vigias no casco. Um farolete ardia a meio mastro grande, cobrindo de larga claridade os portalós e todo o tombadilho.

 

Ao avistarem a lancha, já muito perto, o capitão e o piloto acudiram à escada, onde todos se gruparam em seguida, prorrompendo em exclamações de boa acolhida aos que chegavam. Ergueu-se após um forte ruído de atracação. Diálogos cruzavam-se da lancha para o brigue. A escada tremia, em grandes esbarradas e baques. Croques tateavam o costado, nos altos, com grandes bicadas de ferro. À proa da lancha, marinheiros gritavam, altercavam, perturbados pela escuridão que lhes roubava a perícia.

 

O Carlos desceu logo ao patamar de baixo, a dar a mão às damas que saltavam, enquanto o Nielsen as conduzia pela escada até ao portaló, onde se aglomeravam a família e todos os passageiros. Aí agora era um reboliço, uma algazarra de pessoas em festa, por entre abraços e beijos, e apertos de mão inumeráveis. E logo os convidados se dirigiram para a câmara, resplandecendo magnificamente pelos seus espelhos, pelos seus metais muito limpos.

 

Entre as famílias argentinas vinha um insigne rabequista brasileiro, Alberto de Lemos, em concertos pelo Prata naquela ocasião, sob um rumor de triunfos que começara na Europa. O ilustre artista fora apanhado casualmente em terra por D. Oswaldo, com quem se relacionara intimamente em Paris, havia quatro anos, e viera até a bordo porque o Chileno não o largara mais, após os primeiros abraços trocados. Empolgara-o com a sua doce, excelente camaradagem, os seus modos boêmios e artísticos, e, depois de um abundante jantar à Champagne, num restaurante célebre, convidou-o para a festa. Imediatamente despachou um próprio ao hotel a buscar o violino do maestro, e, sem atender a escusas, conduziu-o para o cais, obrigando-o a embarcar.

 

Toda a câmara do brigue estava lindamente ornamentada: o navio não parecia ter chegado de viagem. Por toda a parte um reluzir de luzes que punha pontos diamantinos pelos cristais dos glass rak’s. Tapetes alastravam, em grandes panos, o chão de oleado a ramagens. As anteparas faziam ressaltar os frisos e arabescos dourados à claridade profusa; e os espelhos de Inglaterra, refletindo e espaçando tudo, lembravam o esplendor, o asseio e o luxo de um salão de a classe, num steamer das Messageries.

 

Os convidados acomodados nos sofás de veludo, examinavam detidamente toda aquela câmara suntuosa de navio de vela, e indagavam a origem de semelhante luxo num barco de carga, porque em tudo aquilo havia decerto uma história curiosa. O piloto gentilmente explicava que o brigue tinha sido paquete na carreira da Austrália e pertencera outrora a um lord. Esse homem, uma das maiores fortunas de Inglaterra, e antigo oficial de marinha, uma ocasião, tivera de ir com a família a Sydney visitar uma filha, e escolhera aquela embarcação para a viagem, porque era a melhor dentre a imensa frota que possuía, sendo ainda raros, então, os navios a vapor. Mandara para isso ampliar-lhe toda a câmara, dando-lhe uma acomodação e ornamentação de steamer. Ali a bordo, há anos, ao entrar o brigue o Tâmisa, de volta da Oceania, dera se uma soirée marítima que ficara memorável. O Times trouxera da festa descrição minuciosa...

 

Mas todos abandonaram bem depressa a história do navio para dar atenção a D. Oswaldo, que, com extrema distinção e jovialidade, os braços no ar, agitando-se e fazendo grimaces, contava delicadas e interessantíssimas anedotas, no meio das moças argentinas que soltavam sonoras risadas. Ondina era quem mais falava e ria no grupo adorável, a pedir ao Chileno a repetição da Subida ao S. Gotardo. Era a história engraçadíssima dum inglês excêntrico, que se despenhara dum cabeço de gelo, no cume da montanha, após mil peripécias grotescas. D. Oswaldo narrava-a admiravelmente, dando uma hilaridade absoluta. O maestro, o comandante, as moças argentinas e os demais passageiros, sentados em volta, junto às mesas, não continham as gargalhadas, todos curvos, os rostos rosados, os ombros a tremerem nas sacudidelas do riso.

 

Mas D. Oswaldo cessara para dar lugar ao maestro.

 

E, momentos depois, pelas dez horas, o concerto começava com a nostálgica composição — As Palmeiras. Era uma fantasia sentimental de Alberto de Lemos, que fez despertar, nos de bordo, uma saudade do Brasil. Os Argentinos, rapazes e moças, gostaram muito, aplaudindo ruidosamente, com o grande desejo que tinham de conhecer o país do maestro. Ao mesmo tempo, à proa, no castelo, os marinheiros cantavam sob os toldos, ao som gemente da harmônica, enquanto por cima, no alto azul do Espaço, a noite resplandecia, salpicada de estrelas.

 

Em seguida à bela composição de Alberto de Lemos, D. Oswaldo e o Dr. Barroso executaram brilhantemente a Primavera de Mendelsohn, e, logo após, a Phantaisie Hongroise, de Liszt. Todos bateram prolongadas palmas.

 

Fez-se uma pausa. A conversação, os ditos, as graças, as risadas voltaram, mais vibrantes. Licores e doces circulavam.

 

Mas, a pedido do Chileno, duas moças argentinas, fortes, belas, graciosas, de pestanudos olhos negros, com uma doçura e um timbre ideal de voz, cantaram, em dueto, uma habanera langurosa, dum ritmo balançado e dolente, que fizera época em Buenos Ayres havia meses. Intitulava-se Fuego del corazon e fora escrita pela filha dum general, verdadeira beleza porteña, célebre pelo fulgor dos olhos pretos e os modos doidivanos, que a levaram a abalar, um dia, da casa paterna com um alferes de cavalaria... A música dizia bem, numa melodia arrastada e lânguida, a ansiedade e os desejos dum coração cheio de amor.

 

Houve uma grande salva de palmas. As moças, coradas, sorrindo, agradeciam, olhando em redor, com um aéreo mover de cabeça: ― “Gracias!... Gracias!...”.

 

Ondina cantou então um magnífico trecho do Guarani; e Alberto de Lemos, a pedido de todos, começou a tocar Le Papillon.

 

O arco correu sobre as cordas — e um som límpido desprendeu-se, alegre e vívido como um trinar de pássaros num alvorecer estival; e, por entre ondas de melodia que se evolavam do instrumento a cantar, tangido  pelos dedos artísticos numa execução extraordinária, todos evocavam, no espírito, a larga visão luminosa de uma manhã tropical no campo, em que borboletas esvoaçam, um sol de ouro fuzila...

 

— Lindo! muito lindo! exclamavam arrebatados.

 

D. Oswaldo e o Dr. Barroso correram logo a abraçar o maestro.

 

Seguiram-se então as danças, que duraram até a madrugada, hora em que os convidados entraram a retirar levados nas embarcações de bordo. D. Oswaldo, gentilmente, escoltou-os até o cais.

 

E assim, graças às qualidades e ao gênio comunicativo e alegre do cavalheiro chileno, que tão bem representava ali a sua pátria — a célebre noite tradicional se passou festivamente e na mais pura cordialidade, a bordo do brigue catarinense, fraternizando, numa mesma expansão afetiva, o coração chileno com o coração dos brasileiros e dos filhos do Prata.

 

 

XI

 

 

Na manhã seguinte, as principais folhas argentinas trouxeram, redigidas clandestinamente por D. Oswaldo, longas notícias sobre a festa, com referências lisonjeiras ao Brasil e ao povo de sua capital.

 

O brigue, conquanto já bastante conhecido ali de outras entradas, tornou a ser muito visitado por curiosos de toda a espécie e por oficiais de marinha de alguns vasos de guerra estrangeiros surtos no porto. O Nielsen, muito solicito e gentleman, recebia alegremente os visitantes, acompanhando-os por todo o navio, mostrando-lhes tudo circunstanciadamente e oferecendo-lhes depois cerveja na câmara.

 

Mas, decorridas semanas, no tombadilho deserto havia como uma saudade: a ausência da animação que ali reinara, em horas felizes, durante a viagem e nos primeiros dias da chegada.

 

A família do Nielsen desembarcara, para gozar um pouco de outras comodidades e libertar-se das estreitezas de bordo, ávida já de passeios em terra, com uma nostalgia das casas, dos animais e das paisagens. Hospedara-a em seu lar um amigo de infância do Nielsen, o Ireneu, antigo embarcadiço, que adquirira a princípio “alguma cousa”, como prático dos transportes e couraçados que iam para o Paraguai, pela guerra, vindo depois a enriquecer com a grande fazenda de criação que estabelecera nas proximidades da grande capital argentina.

 

A mãe Bauer e as filhas tinham saltado com uma família alemã conhecida que as fora buscar a bordo; os outros, pouco a pouco também, desertaram. Só a gente de S. Francisco, desprovida de recursos e sem conhecimentos na cidade, permanecia no brigue, aguardando, numa espera pacífica, a continuação da viagem. Estava agora animada, e todos mostravam uma fisionomia restaurada, risonha e saudável, fora da perturbação do mar alto. O velho, o carão chupado, já conversava e ria, falando da herança do filho, que morrera em Santiago, onde deixara propriedades, valores e uma casa comercial, de que se ia empossar dentro em breve. Os negociantes alemães, desesperados com a demora, tomaram o primeiro vapor que passou para o Pacífico.

 

D. Oswaldo, esse triunfava, rejubilava-se, porque viajava por gosto, apreciando, com um requinte fin de siècle, as viagens lentas e impontuais que fazem rolar, longos dias, no mar. A sua fantasia de espanhol, amante de perigos e cheia de singularidades, desagradava muitas vezes a precisão matemática da derrota dos steamers, que, à saída de um porto, dão logo o dia e hora da chegada àquele para onde se dirigem, quebrando assim o encanto de viajar-se na incerteza de quando a terra se há de mostrar, de repente, à proa. A viagem a vapor servia-lhe só para urgências comerciais, realização de negócios. Adorava o navio à vela, no seu grande tic fantasista de amor à vida do mar.

 

O Dr. Barroso, como houvesse resolvido levar pelo sul todo o resto do ano naquela excursão de recreio e comércio não se lhe dava igualmente com a demora, mesmo porque lhe era de utilidade passar ali um mês, para tentar algumas operações na Bolsa. Buenos Ayres andava babilônica e feérica por aquele inverno.

 

O jogo da Praça dava milhões. A República festinava às mãos de Juarez Celman, numa ruidosa alegria de quermesse, e expandia-se vigorosamente, exibindo-se a capital platense com um elétrico esplendor de Paris, atraindo a atenção, a cobiça da Europa e do mundo. Rios de opulência e de ouro cruzavam, por toda a parte, o solo, ostentando os tesouros inesgotáveis da Argentina.

 

O Carlos Vale, desolado a bordo, na ausência dos alegres passageiros, quando a família de S. Francisco se recolhia ao camarote corrida pelo vento gélido das tardes, ficava sozinho à popa, tomado de uma grande nostalgia. À balaustrada de boreste, com o olhar pensativo, mirava ele agora descuidosamente o pano de um lúgar espanhol, que saía muito carregado. Assestando o binóculo ao costado, pode colher-lhe o nome, gravado a letras brancas na borda — Amistad.

 

— O Amistad! fez então intimamente, numa recordação, a sorrir emocionado.

 

Conhecia o navio. Era de Masnau, da propriedade e do comando do excelente velhote à capitão Pagés, com quem se dera em Cuba na sua primeira viagem. E vivamente surgiam-lhe no espírito, inolvidáveis, as lindas noites de luar a bordo, em Havana, quando na tolda do Amistad se reuniam os capitães de todos os navios catalães, ali a carregar. D. Francisco Pagés cantava então uma série de picantes, engraçadíssimos couplets à guitarra... Que saudade, santo Deus!...

 

Retirou-se da borda ainda mais triste, e entrou no camarim. Aí, estirado sobre o beliche, imerso em suaves recordações da sua vida passada, revendo pela imaginação pedaços da Espanha adorada, avistava ainda pela vigia, ao longe, as velas brancas do lúgar cortando a vaga azulada...

 

 

XII

 

 

Dias depois, vendido o carregamento, o brigue começou a descarga. Vieram então essas longas semanas de trabalho a bordo, em que os braços se movem de manhã à noite, como os guinchos de carga. Abertas as escotilhas, o carregamento nascia do porão e escoava-se para os grandes saveiros atracados ao costado.

 

O Carlos Vale, agora, passava os dias ocupado a notar os volumes no seu carnê de piloto, na forma universal, rude e primitiva da talha — quatro riscos verticais, cortados obliquamente por um transversal, abrangendo os traços de um extremo a outro, e semelhante a um X mutilado. O Nielsen vinha diariamente ao navio, mas não se demorava, quase absorvido pelos negócios. O rapaz, na grande faina, só tinha ido duas vezes à terra. A sua vida era o trabalho e, nas horas vagas, palrar um pouco na tolda com uma das filhas da família de S. Francisco, a mais nova, uma menina de um rosto meigo, moreno, os olhos negros, inefáveis. Com ela entretinha-se ele longas horas, às vezes; ao passo que outras, quando não se lhe deparava esse encanto, levava num aborrecimento, a cismar, até que um poente admirável vinha ferir-lhe a abstração, barrando as águas de nácar. Ao anoitecer, quando o frio, muito afiado, se tornava insuportável no tombadilho, fechava-se no camarote. E longo tempo, amolecido e nostálgico na quentura do beliche, o seu pensamento trabalhava, trabalhava... Eram sempre lembranças da Espanha, em cujo fundo nebuloso passava e perpassava infinitamente a imagem de Dolores, num abandono e num isolamento como uma Senhora da Soledade que ele vira, uma vez, numa igreja em Madrid. Quanto não sofreria a Dolores, coitada!...

 

Erguia-se então, remexia as malas nervosamente, e abrindo o rico cofre de sândalo chapeado de ouro, que a moça lhe dera um dia, pelos seus anos, tirava uma linda fotografia que ela lhe enviara de Cartagena. E, demoradamente, virava e revirava, sob os olhos, o grande cartão de orlas douradas. Via-a aí toda de negro, como uma dama antiga e trágica, formosa e de uma linha ideal, o torso docemente inclinado sobre uma fila de balaústres, num alto, olhando saudosamente o mar, que se abria a um canto, longe, em frisos brancos ondeados. O cenário da fotografia mostrava uma miranda restaurada dos tempos púnicos, de onde, decerto, damas guerreiras e apaixonadas viram palpitosamente, outrora, chegar as galés poderosas de Aníbal, trazendo as tropas que iam marchar sobre Roma... A querida ausente parecia-lhe mais magra, agora, nas tintas violáceas do retrato: os olhos, grandes e belos, tinham uma luz de pranto; o rosto, níveo e juvenil, muito espiritualizado, cobria-o uma alvura de marfim, do marfim velho e medievo das imagens. Media então, mais nitidamente, esquadrinhando tudo, pesando tudo, “o passo errado que dera”, quando já não sentia pela Ondina senão uma vaga impulsão carnal. Sim! porque o seu verdadeiro amor, o amor que o dominava, era pela outra, que o estava ali apunhalando de dolorosa saudade, a outra, que lá deixara na Espanha adorada!...

 

— Ah! que mal andara e quão louco que fora! Mas não podia agora desenvencilhar-se da “palavra dada!” Tinha de sofrer, sem remédio, todas as consequências de um “passo em falso”, cruzando os braços, deixando-se ir!...

 

Abriu o camarote, sob o peso destas recordações amargas. O bafejo álgido do vento de inverno bateu-lhe o rosto em fogo, fazendo-o experimentar um bem-estar, como a sensação de braços amigos que se lhe estendessem, com robusta sinceridade, para o amparar num despenhamento. E longas horas, pela porta entreaberta, os seus olhos se pregaram longe, num vasto pedaço da noite, que reluzia no alto todo coberto de um rosário de astros...

 

 

XIII

 

 

Em terra, a Ondina aborrecia-se com saudades de bordo; e nessa manhã, na casa de campo do Irineu, para onde fora a família passar alguns dias a excursões na campina ilimitada, debatia-se num tédio, encolhida e triste como uma rola doente. Os pampas, crestados pelo inverno, davam-lhe uma desolação, tornando-lhe desbotados e monótonos, pelo isolamento, os dias que passava longe do noivo. Ainda a principio, na impressão agradável de um espetáculo novo, percorrera trefegamente todas aquelas paragens, e sentira um alegre interesse pelos quadros amplos dessas paisagens rasas, banhadas de um vago encanto. Gozara muito, dias inteiros em carro para todas as direções; mas viera logo a saciedade, a monotonia dos países a planuras. Apenas decorreram semanas, todo o seu maior desejo era voltar, voltar de uma vez para bordo. Depois, o procedimento do noivo, que ainda a não fora visitar, enchia-a de profunda tristeza, e, embora o pai lhe afirmasse que o rapaz “não podia quase ir à terra, pela responsabilidade da carga”, não queria acreditar. A mãe consolava-a igualmente, posto que no íntimo, como toda a boa mãe, experimentasse já certas apreensões e cuidados. E assim, abstrata e contemplativa, perdia pouco a pouco a sua luminosa vivacidade. Nesses instantes de aborrecimento o seu espírito fechava-se num grande silêncio e dolência. Emagrecia dia a dia, e seus olhos, límpidos e transparentes até ali, começavam a manchar-se levemente de um violáceo de olheiras. Àquela hora, envolta na sua peliça, cismava languidamente, estendida sobre uma larga cadeira de balanço na sala, quando uma voz conhecida e amiga veio arrancá-la a esse desalento, estalando alegremente à janela:

 

— Permiso!

 

A esposa do Irineu, imediatamente, com muita gentileza, vocalizou da varanda:

 

— Adelante! Adelante, caballero!

 

E, num perfume e num rumor aristocrático de sedas, o rosto risonho, correu logo para a sala. Aí a Ondina recebia já a D. Oswaldo e o Dr. Barroso, que vinham surpreender a família com a sua visita. Madame Irineu, com o seu todo esbelto e nobre, muito florente nos seus trinta e nove anos passados quase em contínua opulência, acolheu-os afavelmente, como a velhos amigos da casa, desabrochando em sorrisos e palavras cordiais.

 

A mulher do Nielsen surgiu após, dirigindo-se aos dois homens com um amistoso e álacre “sejam bem aparecidos!”. E o pequeno Melwille, que entrou daí a instantes, vindo de fazer uma galopada com um peão pelo campo, o rosto escarlate do exercício e do frio, atirou-se ruidosamente para os braços do Chileno, de quem era muito amigo.

 

Travou-se então animada palestra entre todos, tendo por assunto principal Buenos Ayres, o seu adiantamento, a sua sociedade e a sua riqueza que parecia desafiarem agora todas as cobiças. Interrompeu por instantes o alegre palratório a presença do Irineu e do Nielsen, que chegavam de um sítio próximo por onde tinham andado a vilegiar desde o romper do dia. E o alvoroço subiu de ponto, quando os quatro homens entraram a abraçar-se, saudando-se fraternalmente:

 

— Oh D. Oswaldo!

 

— Oh Dr. Barroso!

 

— Comandante!

 

— Sr. Irineu!

 

Um criado apareceu quase imediatamente, com uma grande salva de prata cheia de garrafas e cálices, servindo conhaque e rum. E logo, em toda a vasta sala campestre, com as vidraças já descidas ao vento frio que se erguera lá fora, e aquecida confortavelmente pela chaminé a crepitar a um canto, aquela boa assembleia entrou em grande confabulação íntima. Já o sol se encaminhava para a tarde, esmaiando a sua luz no belo azul esgazeado e límpido do céu.

 

Daí a horas, apesar do minuano algidíssimo, depois de um jantar opulento, servido cedo, conforme o hábito nas fazendas pastoris, argentinas, partiram todos, bem agasalhados e enluvados, para uma volta no pampa. O carro que os levava, um enorme carro descoberto, patriarcal, rolava, sob o estalar vivo do chicote, tirado pelo arranco de quatro cavalos possantes, que fumaçavam no ar frígido, fogosos e com um grande relevo de músculos. Homens e senhoras, muito aconchegados nas suas peliças e plaids, riam-se a bom rir às engraçadas histórias de D. Oswaldo, que, de pé em meio deles, falava e gesticulava de um modo infinito...

 

A gigantesca planura em redor, aqui e ali inundada de reses, parecia ampliar-se ainda mais aos olhos na vertiginosa corrida, semelhando um estranho oceano, de superfície estagnada e vagalhões espaçados e raros — as coxilhas. Entardecia lentamente. O sol ia abrindo para oeste toda uma imensa mancha sanguínea, sobre que se recortava esfuminhadamente, numa infinda barra azulada, de um contorno irregular, uma cordilheira longínqua, coroada feericamente por cumiadas de neves fulgurando como vidro. O sopro vivo do minuano continuo começava a crestar toda a relva, malhando a vasta planície com placas de ouro esbatido. Para o sul, lá embaixo, muito longe, na linha da Patagônia, as pastagens infindáveis, mordidas pelos ventos austrais, corriam em ondulações meio fulvas, à maneira dum campo de milho. Para os lados da costa e de leste, dir-se-ia cobrir o Atlântico como frigidíssima escumilha alvacenta dum frost-smok polar. O gado mugia melancolicamente, caminhando para os capões afastados, em manadas infinitas. E a primeira cinza negra da noite se alastrava pelo espaço, onde vinham já apontando as estrelas, que tremeluziam cor de ouro, em malhas hieroglíficas.

 

 

XIV

 

 

O navio, acabada a descarga, foi fretado por uma casa inglesa para ir ao Peru receber um carregamento para a Inglaterra. O frete era vantajoso, e a família de Nielsen, já reinstalada a bordo, teve um imenso júbilo, porque aparecia-lhe agora o ensejo de visitar a Europa, o que constituía desde muito a preocupação de todos. Depois o capitão catarinense, apenas a prosperidade começou, planeara percorrer um dia, com a família, esses velhos países por onde andara em menino, especialmente a Dinamarca, que era para ele como uma segunda pátria, pois lá nascera seu pai. Mas, homem de ambições e negócios, aguardara sempre uma oportunidade, que se lhe apresentava agora, e nas melhores condições. Por isso apressou-se em fechar o fretamento, tratando dos aprestos da viagem.

 

Devia arrancar do porto por aquela semana; aguardava, porém, antes de o fazer, a resposta de um telegrama do Pacífico, trazendo-lhe informações sobre a carga. O brigue já havia metido lastro, e tudo a bordo estava preparado para a partida. No convés, sob os toldos, sentiam-se agora o silêncio e os longos vagares que fazem bocejar a maruja ociosa, sôfrega sempre de sair para o mar.

 

Nessa manhã, uma manhã dos fins de junho, cheia de sol e sem brumas, o Carlos Vale, sentado à ré com a Ondina, a contemplar o ancoradouro em volta, avistou de repente, apontando por detrás dum steamer, à popa, levada por um rebocador, uma grande barca que entrava, e que reconheceu logo. Era a Martin Godolar. De onde viria? Talvez de Espanha... E, fixando a mastreação da barca, dando volta pelo lado de terra, por entre a multidão de navios que estavam junto às docas, lembrou-se do Miguel Garau, primo de Dolores e piloto de bordo, seu velho camarada dos bons tempos em Barcelona. Teve então uma grande alegria, ao pensamento íntimo de que o amigo lhe traria decerto notícias da Lola.

 

Mas Ondina, nesse instante, chamou-lhe a atenção para o Golfinho, que saltava à proa, com grandes latidos roucos, contra a enxárcia do traquete, onde o Melwille trepara, a brincar com um pedaço de pau amarrado a um cordão. De cima dos enfrechates, o menino gritava para o cão, concitando-o a pegar num pedaço de tábua, que içava e arriava com destreza, a lograr o animal que embalde saltava contra a enxárcia.

 

O Carlos, mal olhara um instante o brinquedo, voltara a seguir a barca, movendo-se pelo grosso virador do reboque para um grupo de cascos ao longe: e os seus olhos tinham uma vaga iluminação de saudade, sob um tropel de recordações tumultuando-lhe na alma! A moça, a seu lado, falava-lhe agora da viagem e desse país do Pacífico que não conhecia, e para onde o brigue devia em pouco singrar. Dizia-se apreensiva com essa travessia, ainda em pleno inverno, por aquelas costas austrais, pois temia que de novo apanhassem maus tempos, muitos ventos contrários...

 

O rapaz, distraído agora com os seus fundos cismares, apenas lhe respondia, olhando o ponto distante onde a barca amarrar.

 

— Que não; nem tudo eram rosas, nem tudo tormentas.

 

E assim ficaram ainda longas horas, sentados sob o toldo, na manhã muito clara.

 

 

XV

 

 

Desde a véspera que o Carlos Vale assentara procurar, em terra, o Miguel Garau. E ao ler os jornais da manhã, nesse dia, teve um grande prazer, por saber que a barca viera efetivamente de Espanha. Ia pois receber noticias de Dolores e dos bons pais Maristany!

 

E foi com certo alvoroço que, ao anoitecer, pela segunda vez nessa viagem, pisou o molhe principal da cidade, àquela hora sem movimento, quase deserto ao vento frio do mar. Aqui e ali, em alguns pontos, botes atracavam e desatracavam vindos dos navios em volta. Deteve-se um pouco, examinando as pequenas embarcações em manobras, a ver se descobria entre elas a da Martin Godolar, quando deu de repente com o Miguel Garau, que marchava ao seu encontro, de braços abertos, falando-lhe em catalão.

 

Os dois estreitaram-se afetuosamente, com os olhos úmidos de emoção, como irmãos que se encontram após uma ausência de anos. Na verdade, existia entre eles uma afeição fraternal, nascida de uma longa convivência e da similitude de caracteres e qualidades morais. Depois, durante o curso da Escola Náutica, como nas correrias de rapazes, em Barcelona, tinham sido inseparáveis e haviam vivido juntos até ao momento em que o Garau embarcara para Cuba, numa polaca, na sua primeira viagem de piloto. Desde essa data não se viam, mas o Carlos soubera recentemente, por alguns capitães espanhóis, achar-se o amigo a bordo daquela barca, de que era proprietário um tio rico de Badalona.

 

De braço dado, em vivíssima conversação, sob cujo tumulto de palavras iam surgindo os quadros e cenas da vida de ambos na Espanha, foram subindo o largo, devagar, para melhor gozarem os lances saudosos que as recordações despertavam. E assim internaram-se lentamente pelas ruas rumorosas da grande cidade, que já resplandecia em profusa iluminação, cá e lá cortada de clarões de luz elétrica saindo das vastas fachadas de casas comerciais.

 

Longo tempo vagaram nessa conversação animada, até que, ao atravessarem um largo, depararam com o círculo de gás flamejante dum pórtico de teatro. Entraram, falando ainda da Espanha, por entre um borborinho de enchente. Era uma noite de première.

 

Pararam ao meio do jardim, cheio de pequenas mesas de ferro, onde se acumulavam garrafas e copos. Em torno de cada mesa havia um grupo de pessoas ruidosas, todas em geral muito jovens. Eram rapazes de grandes bigodes, o cabelo quase à escovinha, enfiados em belos sobretudos claros, o ar de figurino, modos orgíacos, despejados, com grossas bengalas de castão de ouro e grandes anéis de brilhante. Alinhavam-se com eles, intercaladamente, bustos alvos de cocotes manteúdas, vestidas de seda negra, o colo e a cara muito caiados e tocados de carmim, o pescoço envolto em longas boas de marta...

 

Procuraram então uma mesa vazia, voltejando entre os grupos sentados e a gente de pé, esbarrando em toaletes espaventosas, do alto das quais se voltavam momentaneamente, inclinando-se para eles, rostos femininos, fatigados e túmidos, com olhos negros requebrando-se em fingido langor, ao fundo de órbitas nanquinadas. Sentaram-se, por fim, num recanto isolado, e entraram a cervejar por entre as ramagens enfezadas de alguns arbustos e as folhas magras, lanceoladas de uns crótons, atormentados pelo contínuo e cálido roçagar dos corpos e pelos golpes bruscos dos ajuntamentos e das rixas inopinadas. Luzes flamejavam como estreitas através desses feixes de verdura. E adiante, a poucos passos, no edifício aberto do teatro, de onde saíam vozes enrouquecidas, cantando aos sons fracos de uma orquestra de instrumentos de corda, desenrolavam-se, ao longo do travejamento fino e rendilhado, filas inumeráveis de cabeças, todas negras na luz das gambiarras que jorrava do fundo. Quando a orquestra e os cantos cessavam, havia um largo chiar de pés, uma grande confusão de pessoas, que se levantavam e se espalhavam pelo jardim...

 

Os dois, porém, continuavam aferrados na conversa, interrompendo-se apenas, uma ou outra vez, para olharem os ricos vestidos singrando elegantemente, num frufru de seda ou de saias engomadas. Agora ocupavam-se de Dolores; e o Miguel Garau contava que ela talvez já sé achasse em Montevidéu, conforme o que lhe dizia a carta recebida na véspera da Espanha, e na qual se lhe participava a partida  do tio Maristany, de Barcelona, havia um mês. Não estranhara a comunicação, porque desde muito sabia da viagem do velho ao Rio da Prata, pois vira o convite que lhe dirigira havia um armo o irmão, o tio Benito, para que ele viesse assistir com a família ao casamento da afilhada, a Cármen, a realizar-se naquele julho. Juntamente com a carta fora um cartãozinho da noiva para Dolores, onde lhe pedia “por Dios” que não faltasse. Os pais Maristany tinham acolhido com prazer o convite, e tencionavam embarcar em melados de junho.

 

— Decerto eles já lá estavam, acrescentava. E tanto que pretendia obter uma licença para os ir visitar àquele porto. O tio Maristany pedira-lhe muito que o fosse ver, se acaso por esse tempo a barca se achasse já em Buenos Ayres. Assim, tencionava seguir para o Uruguai com a maior brevidade, e até, se fosse possível, no outro dia à noite...

 

E entre outras coisas, o Miguel declarou ainda a Carlos que o maior empenho do tio, empreendendo, já tão idoso e cansado, semelhante viagem, era o casamento dele Carlos com Dolores, pois a rapariga vivia a toda hora num pranto,  quase louca... Por isso, após o casamento da sobrinha, pretendia seguir para Santa Catarina, a procurá-lo...

 

Depois do que haviam conversado, ajuntou por último o Garau, Carlos o devia acompanhar a Montevidéu...

 

O catarinense, que se “abrira” todo ao amigo, ocultando porém os “horrores” da sua situação com a Ondina, aceitou-lhe o alvitre, dizendo:

 

— Pois sim! Então partiremos juntos. Hoje mesmo, vou falar ao Nielsen...

 

E sentia como uma imensa doçura refrescar-lhe a alma, à ideia, que lhe surgia agora, de um desenlace rápido para o “seu compromisso” com a Ondina. Pensava, com alívio, naquela oportunidade, e deliciava-se mentalmente, pois ia “acabar com tudo”, pertencer definitivamente a “outra”... Embarcaria para Montevidéu, pretextando o convite de um amigo a quem não podia faltar, para uma festa naquela cidade. Diria ser só por dois dias. Carregaria a sua mala de mão com algumas camisas, um costume, e safar-se-ia...

 

Quase ao terminar o espetáculo, ergueram-se, e saíram, já definitivamente ajustados para a viagem, que se realizaria no outro dia à tarde.

 

 

XVI

 

 

Uma semana depois da partida de Carlos para Montevidéu, chegou o esperado aviso do Pacífico que fechava o negócio com a casa fretadora do navio. Estava tudo pronto para a viagem e aguardava-se unicamente o regresso do piloto para se levar âncora. O Nielsen, preocupado com a excelente monção que havia agora para o sul, telegrafou-lhe logo que viesse; mas o dia todo se passou, e nada de resposta. Por fim, anoitecera. No céu azul ferrete, de uma extraordinária transparência, entraram então a reluzir as estrelas.

 

Aborrecido, e num rancor de marítimo por mais aquele atraso, o Nielsen, pela segunda vez naquele dia, expediu o bote à terra com um novo telegrama ao rapaz, e um outro a uma casa comercial de suas relações, pedindo notícias dele. Esperava, entretanto, que o Carlos chegasse até a manhã seguinte, o mais tardar. E enquanto o bote não voltava, passeava na coberta, a grandes passadas de popa à proa; às vezes parava um instante, à amurada, ou junto ao leme, olhando, para dissipar a inquietação, os cascos e as mastreações dos navios, perdendo-se sombriamente na noite...

 

Embaixo, na câmara já acesa, onde havia um conchego agradável, a mãe Bauer e as filhas conversavam discretamente a um canto. A uma das mesas do centro, as graciosas meninas do Nielsen, e o valente Melwille, folheavam, muito entretidos com as gravuras, alguns volumes do Graphic. Mais afastada, e encolhida nos longos sofás das anteparas, a família de S. Francisco olhava, pasmada e triste, para a alegria ruidosa das crianças em grupo. Os dois pequenos negruchos, que todo o dia traquinavam na tolda, já haviam adormecido, estirados pelas almofadas próximas, na fadiga das correrias da tarde.

 

A Ondina não aparecera durante o dia, trancada no camarote, desalentada e a chorar por causa da ausência do noivo. Desde a partida dele que o seu coração jamais serenara, cheio de uma apreensão, de um temor. O seu espírito, sempre borbulhante e alegre, sobrecarregava-se agora de profundas tristezas. Pressagiava coisas sinistras, como a ideia de um desaparecimento, de uma morte... Parecia-lhe mesmo que ele não voltaria mais!... E a este pensamento terrível, tinha ímpetos de gritar, estrangular-se, morrer...

 

A mulher do Nielsen, como a filha não viesse à mesa, ao jantar, apreensiva também com a demora do rapaz que a todos causava estranheza — correra imediatamente a ter com ela no camarote. E aí, como a visse muito chorosa, entrou a dizer-lhe com meiguice:

 

— Mas para que esse choro, menina? O Carlos há de voltar. Teu pai já telegrafou... Decerto, chegará amanhã...

 

Mas em vez de serenar, a Ondina desatava mais vivamente em pranto; e gritava, numa crise histérica, pronunciando palavras incoerentes, de louca. A mãe tomava-lhe então a cabeça entre as mãos, apoiava-a contra o seio, cobrindo-a de beijos como a uma criança. O rosto da filha, porém, afigurava-se-lhe varado de suprema angústia; e a pobre senhora, por sua vez aflita, rompia a chorar em silêncio...

 

Lá em cima, no convés, o Nielsen continuava a passear inquieto, quando o bote atracou ao costado. “Não havia ainda notícia alguma do piloto”, disse-lhe um marinheiro, que se aproximara respeitosamente. O pobre homem então, fazendo um gesto rude com os braços, teve um “com mil raios!” desesperado; e recomeçou a andar ferozmente, como um leão furioso, enchendo o tombadilho de passadas brutais.

 

 

XVII

 

 

Ao outro dia, à tarde, ainda o piloto não tinha chegado. O comandante, que saltara muito cedo em busca de notícias, dirigiu-se à casa do consignatário, às lojas de cabo, e às principais agências de paquetes, a indagar dele. Mas nada pode conseguir. Já desanimado e cansado de andar, chegou por fim ao escritório da Linha de Vapores Montevidéu-Buenos Aires, onde lhe disseram que, efetivamente, o “caballero" que procurava tinha comprado passagem para o Uruguai, a bordo do Saturno, havia uma semana, como se verificava do livro de talões. E o empregado, um rapaz alto, de farto bigode negro, com finas portas de estilete feitas a hongroise, só por dentro da grade, muito solícito naquela ocasião, revirou alguns dos livros que rojavam sobre a escrivaninha, e, sacando de um deles, que folheou rapidamente, estendeu-o aberto ao Nielsen, mostrando-lhe numa das folhas o nome, em bastardo, do rapaz:

 

—  Que lo mirasse...

 

O Nielsen verificou, com um olhar, a verdade, nas letras rondes muito grandes, destacando-se fortemente entre os miudinhos dizeres impressos; e saiu, agradecendo. Ao fim da tarde, voltou de novo ao consignatário, onde encontrou a resposta telegráfica de Montevidéu, que dizia ter o moço embarcado para o Brasil no dia anterior, segundo as informações colhidas. O digno homem teve então um desengano, empalidecendo por instantes o seu rosto tão intensamente rosado pelo sol do mar. Curvou desventurosamente a cabeça vencida, de um louro que alvejava já pela nuca, e, dobrando lentamente o telegrama, com um certo tremor nas mãos rijas e calosas de marujo:

 

— Sim, senhor! Nunca esperei esta coisa!...

 

E, balançando os ombros colossais, encaminhou-se para a porta, tomando em seguida a direção do cais. Chegou a bordo já noite fechada, avistando logo ao portaló a esposa, que o aguardava numa ansiedade. Mal pisara a larga tolda, dia jogou-se-lhe aos braços, inquirindo-o numa voz muito aflita, que chorava:

 

— Então, Nielsen, o Carlos?!

 

Ele não respondeu logo, e lançando um olhar ao convés para certificar-se de que nenhum passageiro ou tripulante se achava presente, a foi levando vagarosamente para ré, onde branquejavam, pintadas de novo, a meia laranja com os vidros já descidos, e a roda do leme, toda encapada em lona. Aí contou-lhe tudo, sem reservas, finalizando com a notícia de que o Carlos embarcara para o Brasil.

 

— Ficara esmagado, como se lhe houvera caído de repente um mastaréu na cabeça, acrescentava. E não sabia como explicar aquele caso, não sabia!... Aquilo era o inferno... Maldita viagem!...

 

Ao ouvir semelhantes palavras, a esposa rompeu a soluçar, amparada ao peito forte do Nielsen. Mas este, depois de um curto silêncio, concluiu com secura máscula:

 

— Agora, paciência... Nada mais se pode fazer... Amanhã tornarei um oficial e continuarei viagem... Não posso, além de tudo, estar perdendo negócios...

 

Ouvia-se ali o palratório rouco dos marinheiros à proa. Embaixo, na câmara iluminada, cujas luzes lançavam uma claridade vaga e nostálgica no tombadilho através os vidros da gaiúta, papagueavam alegremente as crianças, no agradável aconchego interior.

 

E por muito tempo, o Nielsen e a esposa, afetuosamente unidos, como outrora, nos primeiros anos de casados, ali ficaram tristemente a sós, sob o esplendor do céu nítido, onde os mastaréus, oscilando, pareciam apontar as estrelas, a reluzirem no alto em grandes fiadas de ouro.

 

Havia dois dias que o navio rolava no mar largo pelas costas da Patagônia. Toda a majestosa planura das águas austrais resplandecia, sob o sol louro do inverno, desdobrando-se em grandes vagalhões verde gaios, que ondulavam de través. Soprava uma brisa de nordeste, brisa meiga do oceano, sussurrando queixosamente nas enxárcias e encurvando as velas brancas. Por cima, a arqueada vastidão transparente do Espaço dir-se-ia de porcelana azul.

 

Pela primeira vez, nessa manhã, depois da saída de Buenos Ayres, Ondina viera até o salão da câmara. Parecia bem outra agora, ferida pelo grande abalo que sofrera e pelas angústias inominadas que ainda lhe batiam o coração. Emagrecida de repente, e muito abatida, com um ar recolhido, isolada a um canto, junto à amurada, olhava, pelas vigias abertas, as ondas esmeraldinas, quebrando-se umas sobre outras todas coroadas de espuma. O seu rosto, coberto de larga palidez, triste e espiritualizado pelo sofrimento, apresentava o aspecto desolado das rosas que desfalecem à tarde, pelas áleas, ao sopro de um vento frio. Tinha os lábios brancos e como mortos; e os olhos, límpidos e celestes dantes, de um belo verde transparente, estavam agora cavados, embaciados, toldados, à maneira de um lago cristalino, por uma névoa hibernal. E, sob a vasta e ebúrnea testa virginal, lembrando pétalas, o seu espírito parecia revolver lentamente algum sinistro pensamento recôndito, de cuja segurança se possuía mais e mais a moça, na indiferença e no desprendimento de um estoicismo ingênuo...

 

Desde a véspera, quando, cheia de resignação, cessara de maldizer-se e chorar, parecendo conformar-se com o tremendo sofrimento que lhe impusera o destino, que tivera o pensamento da morte. Aspirava ao Nirvana, porque só ele poderia dar ao seu desespero a pacificação eterna. E quem sabe que deliciosa serenidade não havia nesse sono derradeiro!...

 

Nunca mais falara a ninguém, sozinha e perdida na sua dor, ouvindo apenas as consolações de sua mãe, que se sentia profundamente apreensiva diante daquela atitude, aparentemente resignada, mas assustadora, da filha. E a boa senhora não a deixava um instante, acompanhando-a com olhos solícitos e amantíssimos, temerosa de que não tornasse de repente alguma deliberação trágica.

 

Embalde, as irmãs Bauer, muito meigas e carinhosas, D. Oswaldo e o Dr. Barroso procuravam arrancá-la à dolência mórbida que a obcecava funerariamente, inventando brinquedos, jogos, toda a sorte de distrações delicadas. A moça, porém, permanecia indiferente a tudo isso.

 

Ao anoitecer, logo que a câmara se iluminou, Ondina desceu para o camarote, e aí recaiu de novo numa crise nervosa, com soluços e lágrimas; depois adormeceu longamente. A mãe ao pé, noutro beliche, fatigada já de tantas noites às voltas com ela, adormecera também, pesadamente...

 

Mas o navio entrou a jogar com grandes balanços, e gritos de manobras estalavam lá em cima, no tombadilho, de envolta com as grossas pragas da tripulação, em luta ao instante com as primeiras rajadas de um pampeiro. Desde as dez horas que o horizonte cobria-se de espessa fuligem, para o sul, sobrevindo em seguida massas colossais de nuvens, avassalando o céu todo, afogando em fumo denso as estrelas, chicoteando o escuro com a luz rubra dos fuzis — iluminação fantástica da solidão das águas em revolta ao bombardeio dos trovões. O silêncio e calma que precederam a tormenta, fizeram franzir os lábios, e carregar o sobrolho, aos marinheiros experimentados. De fato, daí a momentos um sopro largo de fúria resolveu tudo, erguendo montanhas espumantes que estouravam e se precipitavam sobre o navio, alagando-o. A mastreação e os cabos rangiam e sibilavam num siflar doido, como milhões de flautins soprados por duendes infrenes num valpurgis do oceano...

 

A moça acordou então estremunhada, numa grande ânsia; e, ouvindo lá fora estrugir o ciclone, teve um sorriso glacial e estranho, como se uma resolução decisiva e íntima a iluminasse de repente. Lançou em volta um olhar alucinado, ergueu-se no beliche e vendo a mãe a dormir, enrolou-se na peliça negra que despira ao deitar-se e deixou, trêmula e cautelosamente, o camarote, galgando a passo precipitado a escada.

 

A câmara, àquela hora, jazia numa meia claridade, mantida debilmente por um archote aceso de estearina, que agonizava já em lampejos mortiços, no castiçal de metal branco, suspenso a um dos glass-rak’s, num recanto afastado. Pela porta entreaberta penetrava, de momento a momento, o clarão forte dos relâmpagos e o ruído volumoso de algum trovão, estourando e rolando ao longe. O pampeiro parecia agora menos intenso. No entanto, o navio sacudia-se ainda capramente nas vagas, aos solavancos brutais, fazendo ranger rijamente o velho cavername patent. Cessara de todo a faina, o berreiro da manobra.

 

Ondina atravessou a câmara deserta, sempre de olhar desvairado, o passo incerto, amparando-se às amuradas por causa dos grandes balanços. À porta, porém, estacou; e no receio de esbarrar de repente com algum tripulante, investigou um momento a compacta escuridão do convés, onde os mastros se esbatiam e mal se viam as velas brancas. Mas para logo segura de que ninguém se lhe oporia ao intento fatal, com o coração e o espírito em tumulto, batidos por um sopro de loucura e vertigem, correu ao portaló e se jogou às vagas...

 

Ouviu-se então um grande choque, seguido de um grito humano que ecoou desoladamente na noite, através da tormenta. Nesse instante, o vigia de proa, que de cima do castelo dera com o vulto na borda, acudia ao portaló a correr. Era já tarde, no entanto. Mas como vira o sinistro, galgou lesto o tombadilho, precipitando-se na direção de ré, a gritar numa voz grossa e rude:

 

Um homem ao mar!...

 

E os dois marinheiros de governo, amarrados ao leme por causa da furiosa invasão das montanhas de mar quebrando-se fragorosamente contra o espelho da popa, repetiram o grito terrível que o vento bramante levou para sempre:

 

— Um homem ao mar!...

 

 

Rio — Julho de 92.