LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Busco a palavra, de Maura de Senna


Edição de base:

 

Maura de Senna Pereira, Poesia reunida e outros textos,

 Org. de Lauro Jones, Florianópolis: ACL, 2004.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Da comunhão com a terra

Canto sufocado

Consubstanciação

Balada para o vento sul

Lagoa da Conceição

Buscar-me em flor

Veraneio

Do coração arrebatado

Salmo para o bem-amado

Em verdade te digo

Maternidade

Canto da companheira

O que importa

Da comunhão com o mundo

Quero ajudar

Libertação

Escolha

Caminho

Tudo faltaria

Canto da terra firme

As heroínas

Canto das mães

Retrato de Anita

Elegia para minha mãe

Do país sonhado

As comemorações

Canto da amante amada

Grão-sacerdote

A festa

Colheita

A nau

Os arcanjos

Do culto à vida

Na cidade de Dite

Meus companheiros

Discurso do demente

Desafio

Poema para Ziró

Rosa da feira

Parábola

Pedra para o templo

Determinismo

Morte e eternidade

 

 

Quase uma autobiografia

 

 

Do enraizamento telúrico à comunhão social (Lauro Junkes)

 

 

 

 

 

Para Almeida Cousin

que me disse as palavras

mais belas que já ouvi.

 

 

 

Ao governador

Espiridião Amin

e a todos os meus

amigos catarinenses,

e não catarinenses,

especialmente aos

que tornaram possível

a edição deste livro

e aos que me galardoaram com

suas generosas

palavras de estima,

solidariedade e louvor.

 

 

 

 

 

Qué palabra te dijera

que llegue a tu corazón?

 

Violeta Parra

 

 

As palavras são pássaros

pousados em nossa voz.

As palavras decifram

a fala do homem e da pedra.

 

Francisco Carvalho

 

 

Faz escuro

mas eu canto

porque a manhã vai chegar

 

Thiago de Mello

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da comunhão com a terra

 

 

o verde catarina, menino

apaixonado, te defende, como

defendemos nossa alma, que fica

namorando entre vidraças, e sob

a doce luz de carambolas, já

feito teu poema, a tua poesia.

 

Marcos Konder Reis

 

 

 

Canto sufocado

 

A Márcia Cardeal

 

 

Eu poderia escrever hoje um poema tumultuoso:

emanado dos meus sentidos

rescendendo a raízes e musgos

lembrando resinas e brotos

águas de rio e brilhos de sol

 

Mas quando eu voltava hoje para casa

depois de um banho narciso

à beira das pedras e das areias possuídas pelo

sol da manhã

 

trazendo bagas do rio a brilhar nos anéis dos cabelos

descalça como outrora vovó cunhã

quando eu voltava

pronta para aclamar o dia a terra e a vida

encontrei aquele rebento mirrado da raça dos párias:

aquela pequena criatura humana sem beleza e sem

amor

apagada e faminta

 

No meu poema de hoje correria decerto

a mais viva alegria de viver

animal e psíquica

mas encontrei no caminho a fraqueza a miséria e a dor

 

Onde está agora o gosto de cantar

meu canto panteísta minha volúpia sã

o gosto que eu trazia nos lábios e nos dedos

esta manhã?

 

 

 

Consubstanciação

 

Para Therezinha e Celestino Sachet

 

 

Quando me deito nos teus canteiros mornos,

Jurerê-mirim, Isla de los Patos, Santa Catarina,

não me basta a alegria telúrica

de ter nascido em ti

nem o pensamento quase bíblico

de que sou feita do teu barro.

Meu corpo é o teu imenso corpo de ilha

e meu sangue o rasgão líquido dos teus rios

a linfa nervosa das tuas cachoeiras

a água matuta das tuas lagoas.

Plantas rebentam de tuas carnes, de meus chãos

e sinto-me carregada da tua seiva e do teu pólen

Quando me levanto

a sacudir a tua poeira morena

e ungida com o perfume de vinte lírios novos

e mulher e ilha deixam de ser uma unidade pagã

ainda sinto me prender e me abraçar

e envolver, implacável, a tua existência cósmica

e abraço varonil do mar.

 

 

 

Balada para o vento sul

 

Para Silveira de Souza

 

 

O vento sul chegou

desfolhando papoulas

vergando caules

sacudindo pólens

agitando palmeiras.

 

As águas se levantaram em cóleras plebeias

as aves tremeram.

Tremeram

as pencas leves das glicínias

e os gerânios duros dos balcões.

 

No meio do jardim convulsionado

toda entregue ao seu desvario

fico de pé como uma árvore flexível

— as ânsias e os cabelos em desordem

as mangas largas voando —

a parecer uma alegoria do vendaval.

 

O vento sul chegou

abanando possesso

a minha velha cidade menina

roçando casas

virando esquinas

levando folhas, areias, conchas.

 

Sou tua namorada, vento!

Leva-me também

leva-me contigo

para longe de mim.

 

 

 

Lagoa da Conceição

 

Para Nereu Corrêa

 

 

Esta é a hora da gênese

pois que se ergue sobre as águas.

Cada um dos seus átomos resplandece mais

que os tesouros da rainha de Sabá

e todo ele é como

mil estrelas tombadas.

Eis que se ergue como um arcanjo

bradando mudas parábolas.

Com suas fúlgidas espadas

golpeia as últimas trevas.

Esta é a hora da gênese

pois que se ergue todo-poderoso

derramando seu sêmen de fogo.

Este é o primeiro dia da criação

pois estou vendo o sol

o sol ilhéu nascer

nas tuas águas bíblicas.

 

 

 

Buscar-me em flor

 

Para Sylvia Amélia

 

 

Buscar-me solta amanhecendo

dentro da tarde na solidão selvagem.

Solta na mata cortada pelo arroio

edênico e tão próximo

do rio Biguaçu ainda longe do mar.

Em verdes e pardos bosques

embrenhada buscar-me

passando cercas de vinhas e framboesas

galgando árvores com esconderijos maternos

para os ninhos fecundados dormindo.

Lábios vaiando os irisados insetos

— lábios roxos das frutas devoradas —

cintura ornada de boninas

cabelos misturados de aragem.

Buscar-me nos mesmos sítios de

aromas afrodisíacos e águas índias

(restos do Éden, sítios intocados)

e, no entanto, onde

a garganta juvenil? o adolescente cabelo?

o ímpeto dos pés pequenos?

onde a carne amanhecendo?

 

 

 

Veraneio

 

A Lori e Clóvis Assumpção

 

 

Alegria de ter logo à porta o rio caboclo

e sobre fundos peraus e leves peixes

e entre coroas de aguapés em flor

tomar, ainda cedo, o banho bugre.

 

Alegria de comer a carne dos ingás maduros

e do carneiro novo imolado

e dormir depois na rede mansa

tendo cravos do mato nos cabelos.

 

Alegria de ler debaixo dos salgueiros úmidos,

de saudar os patos brancos nadando

e ver o plátano grande todo dourado

do crepúsculo.

— Boa tarde, vizinha.

(E o piá que lá vai

— pequeno servo nos pastos crioulos —

cuidar das reses, lidar nos tambos.)

 

Alegria de ouvir as odes soltas do vento

na tarde longa

e ver os pássaros sem dono

chegados do Éden

vadiando, felizes, nos banhados do campo.

 

A lua crescente

como uma joia moura

já está enfeitando a noite nova. Alegria!

 

Alegria, alumbramento, comunhão.

Alegria

em que ternamente se mistura

a tristeza de olhar o menino peão.

 

 

 

 

Do coração arrebatado

 

Sustentai-me com passas,

confortai-me com maçãs,

porque desfaleço de amor.

 

Cântico dos Cânticos — 2:5

 

 

Beija-me ainda

ainda mais!

Em mim sempre acharás

à tua vinda

ternuras virginais.

 

Gilka Machado

 

 

 

Salmo para o bem-amado

 

 

Imprecações não ergo e sim ditirambos

e sim aleluias

e sim hosanas

às pedras e às dores do caminho.

Onde está a harpa do rei David

onde estão as cítaras hebreias

onde está Sulamita

e onde as virgens loucas?

A todas essas cordas e bocas eu conclamo

a todas ao meu lado quero

para ajudarem a bendizer a tormenta

que me arrebatou a primavera,

as geenas que padeci,

as pedras e as dores, as lutas e as revoltas,

a bendizê-las

porque foram elas que me aproximaram de ti.

 

 

 

Em verdade te digo

 

 

Em verdade te digo que não foi naquela hora

que te pertenci:

quando me tomaste nos teus braços poderosos

e me tiveste sob teus beijos e tua respiração.

Em verdade te digo que não foi naquela hora

mas quando, diante do teu, surgiu meu espírito livre e

novo

de rebento inquieto deste século

e descobrimos todas as comunhões das nossas almas.

Quando conheceste as minhas derrotas

e disseste que eram triunfos.

Quando viste pulsar meu coração nu

e o festejaste.

Quando soubeste que nem sempre

os teus pensamentos são os meus pensamentos

nem os teus caminhos são os meus caminhos

Mas o amor brilhou como nunca em tua face

e me surpreendeste com a torrente de palavras

de que eu tinha sede

desde a minha primeira hora consciente.

Foi quando te pertenci.

 

 

 

Maternidade

 

 

Arrepender-te-ás talvez

como de uma suprema profanação

de teres um dia me vestido

de bagos e de gomos

e para eles depois te atirado

como um fauno sem lei.

Oh, não te arrependas não

que me deste glória e honra

pois eu só via o milagre da árvore estéril

carregada de frutos

e o sumo das uvas escorrendo

dos seios que nunca amamentaram.

 

 

 

Canto da companheira

 

 

Sairei pela manhã clara em busca do pensamento

do mundo

Irei até às searas e às trepidantes fábricas

e verei o operário mover êmbolos

e turbinas, hélices e tratores.

Entrarei nos barcos, descerei às minas,

estarei nas mansões e nos cortiços

nas igrejas e nas tascas

pois nenhum lugar me há de ser vedado.

Escutarei as ânsias do povo, as pedras da rua

e verei as lutas entre o velho e o novo.

Escreverei então

com suor e sangue e o húmus da terra

o que houver captado

assim unida, colada ao fundo da vida.

Só voltarei pelo fim da tarde

com ligeiros passos

para pôr, antes da noite,

flores vivas no grande jarro.

Cortarei rosas no jardim em tua honra

rosas e dálias para te saudarem.

Voltarei com ligeiros passos

e quando chegares trazendo teu dia

áspero, participante, igual ao meu

e cachos de begônias rubras para mim

já estarão soltos meus cabelos

e acesa a lâmpada.

 

 

 

O que importa

 

 

O meu medroso hímen — oh que pena

não teres sido tu que o golpeaste

 

o que importa porém veio depois

o que importa foram as labaredas

que soubeste atear em meu pudor

 

foram aquelas noites desvairadas

de carne e de alma conjugadas

a vararem três lúbricos decênios

 

o que importa, amor, é este himeneu

— sem os ritos falazes do primeiro —

que juntos celebramos tu e eu

 

 

 

Da comunhão com o mundo

 

Sou uma pessoa muito ocupada:

tomo conta do mundo.

 

Clarice Lispector

 

 

 

Quero ajudar

 

Para Alcides Buss

 

 

Quero ajudar a construir o mundo futuro

e colocar a minha pedra

no lugar exato e na hora certa.

Quero conter a pressa de ajudar

deter os passos vãos e as mãos sôfregas

ser vigilante, compreensiva, tenaz.

Deixar no grandioso edifício a minha pedra

com a mão segura para que ela não vacile

e role nos espaços

feita escombro antes de ser coluna.

Quero deixar segura a minha pedra.

Altos frisos a revestirão

esculpidos por sábias mãos alheias

mas — pequena e anônima, direita e firme —

ela estará lá dentro ajudando.

Quero ajudar a construir o mundo futuro

— o mundo sem opressão e sem miséria —

luminoso, rasgado, justo.

Quero permanecer alerta

e colocar a minha pedra

no lugar exato e na hora certa.

 

 

 

Libertação

 

A Teresinha Pereira

 

 

Que eu saia de mim

e corte com ânsia todos os mares

e chegue a todas as praias sem fadiga.

Que eu esteja nas grandes planícies, nas montanhas,

no lodo

e no tumulto, na orla dos lagos e dos abismos.

Que eu saia de mim

e fique nos caminhos o meu hálito.

Que todos os clamores e todos os risos

e também todos os silêncios repercutam em minha

orelha

e a minha língua se torne clara e ardente como o sol

e todos me entendam, os meninos, os pobres.

Que eu saia de mim

e com a soma de minhas libertações

e a massa de minhas vitórias sobre mim

me volte leve e humana

para as angústias e os problemas dos homens.

Que eu saia de mim

e jamais interrogue sobre o princípio, sobre o fim,

mas sempre diante do universo

meu espírito agnóstico seja um olho comovido.

Que eu saia para sempre de mim

e seja uma nova criatura

em que as coisas e os seres fiquem grudados.

Que eu não volte para mim

que para sempre me perca

da criatura salva

todos sejam impregnados.

 

 

 

Escolha

 

Para Leatrice Moellmann

 

 

Não grito e calo? Não calo e grito?

 

Grito e estarei perdida.

Grito e tomam-me o sol.

A redondilha do meu nome

será jogada no chão.

Grito e terei apóstrofes

terei coroa de espinhos

terei a língua cortada.

Calo e virão belos sonhos.

Não grito e serei poupada.

 

Presságios de belos sonhos

falharam, não se cumpriram.

Pelas pálpebras cerradas

como visão dorida entrou?

Aos ouvidos adormecidos

como chegou este som?

 

Visão de chagas abertas

e que podem ser fechadas.

Som patético de choro,

de choro e ranger de dentes,

que não são inexoráveis,

que o homem pode sustar.

E eu não gritei, não gritei, ai de mim!

Não gritei... Quero acordar.

 

Acordo. Salve a manhã

alegre como as anêmonas!

Vou colher as minhas rosas.

Vou coser os meus vestidos.

Vou colher as minhas rosas

e ferem-me os espinhos.

Vou coser os meus vestidos

e ferem-me as agulhas.

(É o pranto lá de fora

e a lembrança das feridas

que vêm sempre atormentar.)

 

Em coisas muito distantes

de todas essas angústias

vou, pois, me refugiar.

Pensar em búzios, tesouros,

sereias, lendas, nenúfares,

num céu riscado de cores.

 

Passar a outras galáxias

e compor, talvez, um canto,

um canto de casuarina,

e dirigi-lo à amplidão.

Com que palavras compô-lo?

As sós palavras que tenho

são estas que me sufocam

ansiosas de irromper:

não para serem um canto

dirigido ao infinito;

sim para serem denúncia,

súbita brasa lançada

às injustiças da terra.

 

Não grito e calo? Não calo: grito!

 

 

 

Caminho

 

Para Glauco Rodrigues Corrêa

 

 

Porque há passos errados

— não deixo o caminho certo

não trai os órfãos da terra

não largo a estrela no chão.

 

Porque há passos que voltam

— não vou cortejar a noite

não vou negar que a sufocam

as lentas faixas do aurora

 

Recuso jade no colo

pedras raras nos cabelos:

caminho de pés descalços

e vestida de agapantos

 

Porque há passos errados

— meus passos sejam mais firmes

mais alto seja o meu canto

mais alta a estrela na mão.

 

 

 

Tudo faltaria

 

A Nina Costa Dantas

 

 

Ainda que no meu minuto de poesia eu praticasse

o nudismo completo da alma

e as gentes se curvassem diante da minha pureza;

embora eu possuísse a graça dos lírios do campo

e a minha palavra fosse como água clara

rolando da montanha

e eu me sentasse ao lado dos sábios da terra;

e ainda que eu tivesse a beleza de Paulina Bonaparte

e os homens me chamassem divina

e a doçura das úmidas bergamotas

meu amado sempre achasse em minha boca;

ainda assim, tudo faltaria

se eu não tivesse o humano em todos os meus gestos.

Se o rosto de todas as crianças

eu não quisesse banhado de ventura

como se elas tivessem brotado de minha carne

e devorado meu sangue antes de nascer.

Tudo faltaria

se eu não fosse capaz de querer

para todo ser humano

o pão, a rosa e a paz.

 

 

Canto da terra firme

 

A Francisco Carvalho

 

 

De cabelos desatados

canto:

eis que ancorei no homem.

 

Era nada

e já salmos aguardavam a minha vinda.

Era embrião

e já me embalavam cantos sagrados.

Mal nasci

e mergulharam-me nas águas do Jordão

para me lavarem de culpas teologais.

Mal cresci

e fizeram-me navegar em dogmas e artigos de fé.

 

Não mais hoje. Ainda trago

desatados os cabelos

das refregas no mar alto.

Não mais hoje

pois ancorei no homem.

 

Estou nua

mas ele me vestirá de esmeraldas.

Desola-me a paisagem

mas ele cobrirá a terra de pâmpanos

e camélias.

 

Sonho espaços e estrelas

e ele que já violou a imensidão

(rodou como lua em torno da Terra

jogou medalha no peito de Vênus

sentiu nos seus pés a terra da Lua)

fará todo poderosos barcos

e neles cortarei os caminhos do céu.

 

De cabelos desatados

canto:

eis que ancorei no homem.

 

 

 

 

As heroínas

 

 

 

Canto das mães

 

Não. As mães não quiseram a

queda das estrelas, para que

o seio, sagrado, ainda abebere a vida.

 

Almeida Cousin

 

 

 

As mulheres levavam os filhos pequenos pela mão

e, a seu lado, os que já tinham sonhos e namoradas.

Levavam até mesmo os recém-nascidos

que haviam arrancado dos berços

e erguiam nos braços como bandeiras.

Filhas de todos os povos, milhões de mães unidas,

pararam diante da face lívida

dos que estavam preparando a destruição

da carne de sua carne.

Pararam para cantar.

Apertando os filhos ao peito

elas diziam com suas vozes límpidas

que não os dariam para a matança.

(Esperavam pedras e pragas, brados e maldições

os donos das fábricas da morte?)

No entanto, o que tiveram pela frente foi mais forte

pois o verbo simples do amor, o salmo indefeso da paz

os derrotou.

Naquele encontro face a face

enquanto as mães cantavam os monstros compreendiam

que era a própria fonte da vida que cantava

que eles nada mais podiam.

Forças cósmicas se haviam desencadeado

contra os seus desígnios

e os brotos da terra, que eles pretendiam cortar,

queriam crescer e amar.

Olharam, por fim, com vergonha e desolação

as suas grandes fábricas inúteis.

Os meninos estavam salvos.

E começou então

uma nova terra e um novo céu

com flores e frutos e trigais e risos

e pombos brancos voando sobre a cabeça dos povos.

 

 

 

Retrato de Anita

 

 

É filha de rei

esta que vamos celebrar?

Vestiu-se de ouro e prata

teve pérolas nos dedos

colar de água-marinha

axorcas e tiaras

teve manto de rainha?

 

Não é filha de rei

nem mulher de grão-senhor.

Não cintilou de pedrarias

e não nasceram em castelo

os frutos do seu amor.

 

É uma filha do povo

e mulher de espadachim.

Usou vestido singelo

e cinto de couro cru.

Escandalizou o seu burgo:

fugiu com um louro guerreiro

os pés morenos afoitos

no peito uma rosa brava.

Não teve filho em castelo

mas foi mãe de generais.

Não teve reis a seus pés

mas tem o culto dos povos.

 

É a Heroína de Dois Mundos

que vamos celebrar.

 

Lutou no convés dos navios

pela República Juliana.

Lutou de espada na mão

pela unidade italiana.

Passou fome passou frio

dormiu noites ao relento.

Na própria terra natal

caiu um dia prisioneira

e julgou morto seu amado.

Ah, figura de tragédia:

face bela transtornada

um archote na mão pálida

espiando rostos mortos.

 

Mas o amado não achou

esperança renasceu

toda épica fugiu

sobre o dorso de um cavalo

cabelos soltos ao vento.

Vinte léguas até Lages

a heroína percorreu.

(Ao vê-la surgir da noite

galopando em seu corcel

os guardas fogem de espanto:

Era centauro? aparição?)

O coração ardente batia

sob a lua fria da serra

e com o primeiro filho no ventre

moça guerreira corria

para seu amor encontrar.

 

É a Musa da Liberdade

que vamos celebrar.

 

Eis então que o seu rosto

não mais o vemos contido em nenhum quadro

e sim transfigurado, repartido pelo universo.

Os cabelos parecendo faíscas

presos ao solo europeu.

O queixo fincado na barra da Laguna.

Profundos olhos, rasgados mundos

brilhando como estrelas

pousados sobre os povos.

 

Oh, e os lábios se abrirem como outrora

para invectivar

aquele que oprime o seu semelhante

e aquele que se esconde na hora de lutar.

 

É Anita Garibaldi

que vamos celebrar.

 

(Declamado pela autora por ocasião da inauguração do monumento

de Anita Garibaldi, na cidade de Laguna, a 20 de setembro de 1964).

 

 

 

Elegia para minha mãe

 

 

Comecei a ver com dor a beleza

quando, viva e a vida

amando, não mais pudeste ver.

Dor tão funda, tão diária, lembro-a

como ventura, ventura perdida,

desde que vi — ai de mim — a suma beleza:

e ter na heroína dormindo

as primeiras horas do nunca-mais

a mocidade voltando ao rosto

em estendidos lírios, o quase mistério

no sorriso doce, os pretos cílios como

se sonhassem, o fascínio, a paz.

 

 

 

 

Do país sonhado

 

Não saio deste caminho:

este caminho me leva

ao País de Rosamor

 

 

 

 

 

O livro fica num nível jamais traído. Magnífico é o poema Louvação de Jupira, impressionantes ainda Bailenda, Vozes no Pomar, A Nau, Os Arcanjos, todos enfim. Ressalta neste livro a milimétrica unidade, coisa rara. No rigor da seleção revela-se o artista, na afinação das cordas ressalta o virtuose, há sempre um vocabulário aceso em Maura de Senna Pereira — que vem desde o coração para colocá-la entre as vozes mais representativas da poesia lírica brasileira de hoje.

 

(Do artigo "País de Rosamor", de Walmir Ayala, então um dos nossos mais jovens e já em crescente notoriedade como poeta e crítico literário  —  ocupando  todo  o "Folhetim do Jornal do Comércio",  de 31 de julho de 1962).

 

 

 

As comemorações

 

Para Walmir Ayala

 

 

I

 

 

Eis que passam os nascidos entre cânticos

eles que jamais viram

nenhuma das faces do Dragão

eles que montam em leopardos

e têm um halo sobre a franja.

Seu sono é como o dos pássaros

nos ares altos da montanha

despojado de qualquer sonho

que ponha sombras no dia branco.

Eis que passam os nascidos entre cânticos.

 

 

II

 

 

Roseiras todas, despetalemo-nos

para celebrar o evento.

Despetalemo-nos, despetalai

corolas de todas as cores

sobre o cortejo. Arcoirisai

o caminho dos nascidos

e quando passarem aos pares

epitalâmios de pétalas derramai

sobre seus nimbos. Seus nimbos.

E glorificai-os a todos com aromas

que ungidos são

eles que nasceram sob

o signo da Rosa, nossa mãe.

 

 

 

Canto da amante amada

 

 

Ainda trazendo sol e sal

além do ímpeto e da esperança

chegou o Amado.

É alvo o leito e o instante é alvo

porque desatado

de tudo o que antes

turvava o amor.

Nada conspurca

incompleta ou ensombra

meu festim da entrega

e o total carinho pela noite alta

me faz tão sagrada

que me julgo a terra.

Ah, eu sei que — um dia — estarei derramada

em cinzas pelas companheiras rosas

mas — antes — rosas brotarão de mim.

 

 

 

Grão-sacerdote

 

A Carlos Ronald Schmidt

 

 

Grão-sacerdote, de barbas brancas,

trazia Bíblia preta na mão.

 

(Veio de longe por nossa fama:

termos forjado reino do amor.)

 

Em nossos braços o acolhemos.

Demos-lhe igreja pesada de anjos

— anjos azuis, pretos e róseos,

brancos e roxos, cor de marfim -

e altar para

a toda bela — mais do que Vênus —

Nossa Senhora de Rosamor.

 

Também lhe demos tratos de terra

e com seus doze bispos amáveis

planta as espigas, uvas e rosas:

dá-nos o pão, o vinho e o mel.

 

Chega domingo: grão-sacerdote

fala do púlpito ao templo cheio.

Todos amamos esse homem santo

que — tantas vezes — com santa ira

nos apostrofa

— Cristãos sem fé!

 

Penso que lembra naquele instante

horrores todos que viu outrora

e ao mesmo tempo nossas mãos dadas

e anelo nosso de cada dia:

paz sobre a Terra

que ela é Azul.

Pois olhos claros se umedecem

pousa no púlpito a Bíblia preta

as longas mãos se põem em prece

e num momento — tão nosso pai —

grão-sacerdote nos galardoa

— Continuai! Continuai!

 

 

 

A festa

 

Para Theobaldo Costa Jamundá

 

 

Vou botar flor no cabelo

para ver posse do rei.

Levo cinto de camélias?

Levo xale de papoulas?

Tragam flores tragam flores

para a festa de irmão rei.

Reinar aqui é rodízio

e agora chegou a vez

daquele que traça e planta

os nossos jardins ovais.

Tragam flores tragam flores.

Nós e flores para a festa

no jardim das cariátides

e da fonte verdemar.

Veremos os autos novos

dos maduros dramaturgos

e sobre um tapete vivo

de violetas vermelhas

a salamandra dançar.

Chegarão depois em bando

as juvenis isadoras

com seus fluidos véus azuis

véus ou asas pelo ar

pés de pétala no chão.

Entre flores, sobre flores

— banquete de rosa mel.

Entre flores — cantos, rondas,

até uma ponta da lua

já descer sobre o jardim

e as garças brancas chegarem

para o sono sobre a fonte.

 

 

 

Colheita

 

Para Zaurinha

 

 

Fui ontem colher na lua

Antúrios que lá plantei.

Tomei o meu barco alado

e logo à lua cheguei

O canteiro reparado

Por minhas mãos encontrei.

Mas nas hastes dos antúrios

Somente estrelas achei.

Fui ontem colher na lua

Antúrios que lá plantei.

Fui ontem colher antúrios

E com estrelas voltei.

 

 

 

A nau

 

Para Paschoal Apóstolo

 

 

Selvagens filhos do mar

desceram de uma nau preta.

São mercadores? corsários?

Trazem dádivas amigas

nas rudes mãos tatuadas?

Ai, trazem trinta moedas

para comprar esmeraldas.

 

Mas nosso rei jardineiro

assim lhes veio falar:

"Guardai o vosso dinheiro

que não podemos tocar.

Esmeraldas são beleza

em nossa comunidade.

Brilham nos dedos, no colo,

nos cabelos das amadas.

Olhai as nossas varandas

abertas de par em par:

lá estão elas guardadas.

 

Temos ainda os sobejos

em volta desta roseira

— a das rosas irisadas.

Se para o bem — poderíeis

as que quisésseis levar.

Mas iriam gerar lutas

nossas pedras não culpadas.

Por isso não tirareis

nem uma só do lugar".

 

Foi quando, de rosto mau,

desembainhando as adagas

cercaram a grã-roseira

para colher esmeraldas.

Colhê-las? Mesmo as menores

eram todas pedras magas

eram rochas eram bruxas

intactas sob as adagas.

 

Então eles se renderam

E — após lavarem no rio

as suas mãos maculadas —

apertaram a mão do rei.

Nosso reino caminharam

até as grutas azuis.

Pavanarossa dançamos

sal e vinho lhes servimos.

(Lua desmisteriosa

roçando mesa enfeitada

de narcisos e maçãs).

 

Selvagens filhos do mar

voltaram para a nau preta

vazia das esmeraldas

mas de sonhos carregada.

De tantos sonhos que um dia

vai chegar uma nau branca

trazendo gestos amigos

nas mesmas mãos tatuadas.

 

 

 

Os arcanjos

 

Para Pizarro Drummond e Penha

 

 

Com o leite das ovelhas

por leão apascentadas

doze filhos vou criar.

 

Não subirão às estrelas

não descerão às jazidas

que já lhes tenho missão.

 

Em doze corcéis alados

(para eles vão nascer

com rubros sóis sobre as asas

em doces pastos de flor)

nosso reino deixarão.

 

E com rosas simplesmente

— nem espadas nem punhais —

com doze rosas sagradas

farão por terra tombar

a cabeça do Dragão.

 

Amor então se erguerá

e rosas rebentarão

na terra no céu no mar.

 

Em doze corcéis alados

com rubros sóis sobre as asas

os doze cavalgarão.

(O lábaro com a Rosa

suspensa sobre o Dragão).

 

Em doze corcéis alados

nosso reino deixarão.

E só depois de plantarem

Rosamor em toda a terra

os doze regressarão.

 

 

 

Do culto à vida

 

 

ARTIGO 1.

Fica decretado que agora vale a

verdade, que agora vale a vida,

e que de mãos dadas

trabalharemos todos pela vida

verdadeira.

 

Thiago de Mello

(De "Os Estatutos do Homem")

 

                                                         

Na Cidade de Dite

 

............ : qui son gli eresiarche

Co' lor seguaci d'ogni setta, e molto

Più che non credi son le tombe carche.

 

Símile qui con símile è sepolto

E i monimenti son più e men caldi.

 

Dante — Inferno (Canto IX-43 e 44)

 

 

Não será no limbo o meu lugar

nem ao lado de Francesca da Rimini.

Terei de descer ainda

de passar por mais três círculos

até ser arremessada na cidade de Dite.

Ao cair na capital dos infernos, saudarei meus irmãos

e perguntarei logo por todos os hereges que chegaram

depois de Farinata degli Uberti.

Gritarei com fervor o nome de Spinoza

e, se lá estiver, o gênio amado falará

à nova sombra maldita.

Toda a sabedoria portentosa

que habitou o seu sótão holandês

ele me transmitirá do seu sepulcro ardente

e mais o seu pensamento de trezentos anos.

O enxotado das sinagogas enxotará meus erros,

minhas superficialidades;

o polidor de lentes polirá meu turvo e

mesquinho conhecimento;

o mestre dar-lhe-á expressão, unidade, volume

e serei profunda e grande

no meu pequeno canteiro de fogo.

Bendirei, então, meu pecado e minha pena

através de um canto novo, liberto e universal

que abalará os infernos

enraivecerá os demônios

e fará meus companheiros da cidade de Dite

estremecerem, deliciados, nos seus túmulos.

 

 

 

Meus companheiros

 

A Luiz Paiva de Castro

 

 

Eis-me de novo professora

não em nenhum colégio padrão da capital

mas apenas professorinha

numa escola quase rural.

Os alunos são mil, humildes quase todos.

Tantos andam descalços

alguns desmaiam de fome

outros tiritam de frio.

(Lembrarei sempre Zila em minha classe

e a seus irmãos.

Como é possível ter essa luminosa face,

parecer filha de rei

e não ter pão?)

 

Para chegar à minha escola

passo ponte, ruas, roças.

Por um quartel e uma escola

de marujos também passo.

A rota é longa

e meus companheiros quase sempre são

meninos, soldados, marinheiros.

 

A todos observo, a muitos amo.

Amo sobretudo a rapariguinha de tranças

Parecida com a filha que sonhei.

Gosto quando vem sentar-se no meu banco

sorrindo para o meu amor — e o vento do mar

mexe nos seus cabelos enquanto

a ilusão da mãe estéril cresce.

 

Soldadinho enamorado olhando

e rosto quase triste

do retrato (e eu também).

 

Mas ontem quem ficou ao meu lado

foi uma mulher louca:

saia larga de cigana, figura iniludível de pária,

entrou no ônibus sacudida de risos

e pagou a passagem com a moeda única

que trouxera guardada na mão.

Ao ver meu rosto comovido

cuspiu para o lado

e jamais esquecerei sua careta de raiva

e o olhar de nojo com que me olhou.

 

 

 

Discurso do demente

 

Para todos os torturados

 

 

Vós me ressuscitastes. Festejai, irmãos.

Ai, como pôde Robert Browning dizer

Deus está no céu

tudo está bem

se eles me crucificaram na Judeia?

Ai, se me atiraram às feras na arena de Roma?

Outras mortes me deram

e uma das mais atrozes

foi quando demônios me chamaram bruxo

e meu corpo ardeu

para aumentar a treva.

Fui chacinado ainda na noite de São Bartolomeu

e ainda mutilado na Alemanha medieva

após a derrota dos camponeses sem pão

(Ó Joss Fritz, Joss Fritz,

ver a dor dos teus olhos

foi mais triste

do que ser retalhado).

Mas vós me destes de novo o corpo emendado.

 

Antes (e depois)

morri de fome

apodreci de peste

penei nas galés

nas inúteis batalhas

nas prisões cruéis.

Tive os olhos vazados

arrebentadas as virilhas

as costas cortadas

humilhadas pelo látego.

 

Certa vez fui para a morte bradando

que em nome da Liberdade se cometem crimes

e mais tarde, muito mais tarde,

o crime desceu do céu

quando fui calcinado

com a minha cidade: Nagasaki.

 

Cordeiro fui no holocausto dos progrons,

esmagado líder, abatido refém,

(todavia eu era como

a figura branca do Mahatma)

e ainda profanado quando

tive a pele arrancada

para ornar a lâmpada da Besta.

 

Mas vós me destes a vida e o verbo

a paz e o mel

em vosso horto da ressurreição.

Festejai, irmãos. Onde

estão os poetas? Robert Browning

onde está para con-

sertar seu canto? Chamai-o.

 

 

 

Desafio

 

 

...assim inexorável

ao menos venha ela

após caminho longo

depois de longa vida bela

com pão, maçãs e vinho

e a paz e o amor grudados

na flor azul da Terra.

Venha como um sono, uma carência

de parar, uma exaustão, um orgasmo.

Assim venha

porquanto — incréus ou crentes -

desse sono vamos

despertar no Nada fatalmente.

 

 

 

Poema para Ziró

 

À memória de meu irmão Roberto

 

 

Quando começaste a tua faina diária

no atelier da cidade

e tua mãe vivia

e passava o dia

a passar a linda roupa alheia

com o seu velho ferro cheio de carvão

e ainda havia

trabalho na fábrica

para teu pai tecelão,

teu corpo moreno

de moça e menina

neta de cafuzas

Ziró em botão

atraía desejos

por todo o caminho

e os teus dedos

alugadinhos

lidavam ligeiros

no atelier.

 

Depois, ao fim do dia,

quando chegavas ao tugúrio do bairro

soltando risadas

cantando cantigas

rodopiando

com os guris pela mão,

tu eras a alegria boa

que chegava

e teus irmãos em delírio

iam logo gritando

para dentro de casa:

— Taí a Ziró! Taí a Ziró!

 

Ziró, onde estão hoje aquelas pobres migalhas

de festa?

Tua mãe está na cova

E teu pai sem trabalho

dá medo aos pequenos:

passa o dia todo

à beira do fogão apagado

e com os olhos acesos

e os punhos fechados

berrando

praguejando

gargalhando

ameaça

um alguém invisível.

 

Mas quando tu chegas

amargurada

por te haverem cortado o salário

(Ziró, por que deste agora

em trabalhar

tão devagar?)

quando tu chegas

quase sem forças

tossindo

olhando tudo

com teus olhos de grumixama

redondos e retintos,

o coração dos pequenos logo se anima

e eles comem ainda

a sua única migalha de alegria:

— Taí a Ziró Taí a Ziró!

 

Ziró em flor, flor moribunda

para quem

ninguém

mais olha na rua,

que será dos teus meninos

— irmãos e filhos —

quando a doença que te consome

te houver levado

também para a cova

e chegar o fim do dia

e eles perguntarem

aconchegados um ao outro

chorando de fome

tremendo de medo:

— Cadê a Ziró? Cadê a Ziró?

 

 

 

Rosa da feira

 

 

Moça desceu lá do morro

que a feira vai acabar.

Veio buscar o refugo?

Fruta estragada no chão

o pé de couve final

caixa vazia de figo

varredura de feijão?

Moça sorriu de contente

os olhos arregalou...

Se havia alfaces não viu

viu uma rosa tombada.

Moça levantou a flor

pegou a rosa pisada.

 

Madame lá da janela

abanou muito a cabeça

os olhos arregalou.

Diabo de negra é essa!

Vejam só o que ela achou.

Comida até que eu entendo

que ela procure no chão

pois a gente dessa raça

não quer mesmo nada não.

Mas gostar assim de rosa

fazer aqueles dengues todos

para uma flor murcha de feira...

isso onde é que já se viu?

 

Moça sorriu de contente:

flor é flor embora murcha

flor faz parte da beleza.

Adorou aquele achado

endireitou a coroa

cuidou bem do seu tesouro

a rosa ressuscitou.

Moça que mora no morro

que vai fazer dessa flor?

Vai botá-la no vestido

vai enfeitar os cabelos

para o namorado olhar?

Vai mergulhá-la na jarra

de lata do seu barraco?

— Vou jogar a minha rosa

nas espumas de Iemanjá.

 

 

 

Parábola

 

 

Era outro o vestido que eu queria

— leve e novo —

e não aquele que me haviam dado:

comprido

afogado

que me comprimia.

 

Mas só me compreendiam umas pessoas raras

que traziam as testas claras

marcadas de pedras

e as tachas morenas dos olhos ardendo.

 

Comecei mesmo assim a lutar

e eis que logrei desprender

— em vários dos meus arrojos elétricos

de grande tímida —

a solene gola, os atavios decrépitos,

os rendões amarelados que revestiam

aqueles panos caducos e pesados.

 

No sentido da minha libertação

foi quase nada

mas o bastante para enfurecer

os velhos vestidos virgens.

 

E fui apupada na tarde sombria

coberta de anátemas

pelos donos das vestes intactas.

Pelos mesmos que as repudiaram

na aurora do outro dia

sem pressa, sem angústia.

 

Do meu sítio anônimo

a muitos vi passar

coroados de folhas de carvalho

sobre os ombros da turba.

 

 

 

Pedra para o templo

 

 

Não tenho deuses, mar.

Terra

céu

homem

pedra

selva

não tenho deuses.

 

Tenho, porém, uma alma ardente

de Teresa de Jesus

e me prosterno diante do templo

que lentamente se ergue

sem muros no universo

para proclamar

a vida, a simples vida,

sagrada como os tabernáculos.

 

Não tenho deuses, mar.

 

Entanto, sobre o ombro, como um cântaro,

eu trago a minha pedra para o templo.

 

 

 

Determinismo

 

Para Bayard Demaria Boiteux

 

 

Eu tenho de ter um caminho.

 

Melhor seria que, leve e livre, andasse em todos

os caminhos

e só nutrisse meu espírito, meu espírito faminto,

com os frutos maduros do ecletismo.

 

Mas tenho de ter um caminho.

 

Um caminho onde, talvez, encontre

pedras angulosas e curvas insolentes

e por onde tenha de levar, incompreendida e

desamparada,

um facho aceso entre meus frágeis dedos apertados.

 

Mas tenho de ter um caminho.

 

A dura marcha por um só caminho,

embora me leve ao reino do amor,

magoará, por vezes, minha organização exuberante

de netas de filhos inquietos do mar.

E de meu lábio saltará o verbo doloroso o obstinado.

E castigarão minha rebeldia.

 

Mas tenho de ter um caminho.

 

 

 

Morte e eternidade

 

 

Falas para uma assembleia de futuros cadáveres

e também os que nascerem de nós perecerão

e perecerão os filhos de nossos filhos.

 

Mas a palavra subsistirá.

(Pura e sábia

âncora e roteiro

vertendo seiva como um talo novo

clareando caminhos como o velho sol).

 

Também a garganta ungida pelo grande verbo

um dia secará.

Secarão as mãos mortais que semeiam e guiam

e constroem a paz.

E os lábios que se abrem cada dia

para edificar

se transformarão em pó.

Mas a palavra subsistirá.

 

 

 

 

 

 

Quase uma autobiografia

 

 

Maura de Senna Pereira, filha do professor José de Senna Pereira, nome de rua e de Escola Técnica na capital catarinense, e de Amélia Régis de Senna Pereira, nasceu em Florianópolis, onde fez seus estudos, exerceu durante algum tempo o magistério secundário, iniciou as atividades jornalísticas e publicou o primeiro livro. Tendo perdido seu pai muito cedo, ela e dois dos seus irmãos tiveram de trabalhar logo, sendo todos menores. Sentiu profundamente o desaparecimento prematuro de seu pai que foi um exemplo de dignidade humana, um culto autodidata e respeitado mestre. Referindo-se mais tarde à figura paterna, disse que lamentava não tivesse ele ouvido dos lábios da menina as palavras maduras da sua gratidão e do seu amor.

 

Pouco tempo depois, outros grandes golpes atingiram sua família, culminando na morte trágica dos seus irmãos Carlos e Carmen, ambos belos, juveníssimos, laboriosos e para sempre saudosos.

 

Tudo isso ocorreu quando, ainda menina e moça, já colaborava com assiduidade nas publicações da terra natal (que ama apaixonadamente, apesar de ter passado a maior parte de sua vida longe dela) e nas revistas cariocas. Havia de sua parte uma espécie de pressa de deixar o seu recado ao mundo, como se fosse morrer cedo — e seu primeiro livro Cântaro de Ternura, de poemas em prosa, foi nessa ocasião publicado. Teve ele enorme repercussão dentro e fora das fronteiras estaduais e não foram poucos os que encontraram em suas páginas musicalidade, ritmos, imagens poéticas, chamando sua autora de poetisa. Relendo há pouco aquele volumezinho inaugural, pelo qual recebeu felicitações até de Juana de Ibarbourou, admirou-se de ver nele quase sempre uma contagiante e por vezes selvagem alegria de viver, não obstante serem bem negros seus verdes anos. Raramente há uma expressão de mágoa maior: "Este instante não te pertence: é para os meus mortos." E chegou à conclusão de que o que extrapolara fora a própria idade em flor e que a sua pequena escritura teimava em espelhar a primavera da sua carne e de seu coração.

 

Assim foi que, considerada poetisa, escreveu os versos intitulados "Ilha Verde", com que os rotarianos catarinenses abriram uma plaquete mostrando as belezas deslumbrantes da Ilha de Santa Catarina. Não aparecem eles em nenhum livro — como inúmeros outros que publicou em revistas e suplementos: livres, modernos, amorosos e sociais sobretudo, por vezes ousados — ela mesma buscando sozinha seus caminhos de renovação.

 

Por tudo isso, considera a sua verdadeira estréia em poesia o ano de 1949, com Poemas do Meio-Dia, já no Ria de Janeiro, onde veio definitivamente morar em meados da década de 40 e onde se casou, ainda jovem, com a erudito professor e poeta Almeida Cousin.

 

No Rio, trabalhou sempre, tal como acontecera em Florianópolis e em Porto Alegre, onde residiu cerca de dois anos e publicou outro volumezinho em prosa: Discursos. E trabalhou sempre muito, principalmente como jornalista, tendo chegado ao colunismo literário e secretariado a revista Esfera, que fez parte dos órgãos renovadores que atuaram no País durante e após a 2a. Guerra Mundial.

 

O trabalho de Maura em prosa poderia encher vários volumes. Quanto à poesia, em que é mais conhecida, tem relativamente poucos livros. Perdeu, par exemplo, os originais do cancioneiro Jururê-Mirim em honra de Ilha natal, considerado por seu marido — que tem indiscutível autoridade — o seu melhor trabalho. Há outros fatores, especialmente os originados pelas dificuldades editoriais. E, como disse ao escritor Miguel Jorge, em entrevista para o Suplemento Cultural de Goiânia, quando ele lhe perguntou se os seus poemas nasciam em algum momento especial:

 

— Meus poemas nascem quando um pensamento quer ser canto. Meu processo de criação é totalmente mental. O pensamento me persegue e o canto se forja na mente. Quando ele aparece escrito já estava pronto. Não há propriamente momento especial. Há períodos de explosão e outros de esterilidade. E há os cadernos e cadernos perdidos, já que só existiram no meu cérebro...

 

Busco a Palavra reúne parte de seus versas publicados em livros e antologias, divididos quase sempre pelos temas que os inspiraram. Título do último poema da coletânea Cantiga de Amiga — escolheu-o também para título do presente livro, que representa uma gentil homenagem que lhe presta o Estado onde nasceu e que tanto ama.

 

 

 

 

 

 

Do enraizamento telúrico à comunhão social

 

Lauro Junkes

 

 

Maura de Senna Pereira representa, hoje como ontem, a expressão mais lírica, mais sensível, mais qualificada e humana da mulher-poeta em Santa Catarina. O avançar dos anos parece ter nela instigado o aguilhão poético, a ponto de, nos últimos anos, estar praticamente a publicar um livro por ano, como que numa tentativa ansiosa de proclamar um pouca mais de beleza, de amor, de justiça, de compreensão e de fraternidade a este nosso tão desumanizado mundo. Reiteradamente apontada como a mais expressiva voz feminina das Letras Catarinenses, nada mais justo que prestarmos nossa homenagem à sua persistente e sólida criação lírica e aprofundarmos um pouco nosso conhecimento desse rico acervo poético, para melhor o valorizarmos.

 

Nascida em Florianópolis, Maura manifestou desde criança, mesmo antes de saber ler, gosto pelas estórias que sua mãe tão bem sabia contar. E já no curso primário, suas composições despertaram a atenção. Revelando sempre talento esclarecido, cursou a Escola Normal Catarinense e em seguida iniciou dupla carreira: no magistério e no jornalismo. Filha do professor e matemático José de Senna Pereira e de Amélia Régis de Senna Pereira, Maura obteve, com destaque e por concurso, as cadeiras de Português e de História na Escola Complementar de Florianópolis. No jornalismo, destacou-se por presença constante e festejada nos jornais da época.

 

Iniciou sua carreira de escritora, com destaque particular para a poesia, que sempre soube não só escrever, mas também vivenciar. Mudou-se logo depois para Porto Alegre, onde prosseguiu engajada no jornalismo. Na década de 1940, fixou definitivamente residência no Rio de Janeiro, mas sem nunca esquecer sua terra natal, que sempre amou e a cujos assuntos sempre dedicou seu carinho, apreciando e divulgando a gente, as letras e a cultura catarinense. É casada com o professor catedrático, poeta e grande humanista Almeida Cousin.

 

Em sua carreira jornalística, destacou-se pela facilidade e eficiência de comunicadora, quer escrevendo reportagens, crônicas ou comentários literários para jornais, quer entrevistando e sendo entrevistada, quer ainda pronunciando conferências e palestras ou participando de mesas-redondas. Sempre teve especial carinho por temas e personalidades da nossa terra catarinense.

 

Sua obra literária iniciou com a publicação de Cântaro de Ternura (poemas em prosa — Florianópolis, Livraria Moderna, de Paschoal Simone,1931). Perdeu as originais do cancioneiro inédito Jurerê-Mirim. Em 1949 voltou com outro livro: Poemas de Meio-dia (Rio, Editor Brumlick, 1949), ao qual se seguiu, dez anos depois, Círculo Sexto (Rio, Organização Simões Editora, 1959). Pouco depois tornava a publicar em Florianópolis outro livro de poemas: País de Rosamor (Edições Livro de Arte, 1962). Mais tarde, organizou uma antologia, selecionando os melhores poemas dos livros anteriores: A Dríade e os Dardos (Rio, Livraria São José, 1978). E intensificou a criação e publicação: Despoemas (Rio, Edições Achiamé, 1980), Cantiga de Amiga (Rio, Edições Achiamé, 1981) e Poemas-Estórias (Rio, Edições Achíamé, 1984). Além desses livros de poemas, publicou em prosa: Discursos (Edição da Autora, 1936); O Parto sem Dor (Rio, Organizações Simões, 1957) — reportagens; Nós e o Mundo (Rio, Livraria São José, 1976) — uma seleção que serve de amostragem do seu mundo de crônicas, resenhas e artigos vários; e Verbo Solto (Rio, Livraria Kosmos Editora, 1982), em que reúne algumas conferências, preferencialmente voltadas para temas adultos catarinenses.

 

Nesta abordagem, não se torna viável discorrer sobre toda a obra literária de Maura de Senna Pereira. Por isso, a primeira delimitação que estabeleço é de ater-me apenas à sua poesia. Mesmo porque, em tudo que escreve, Maura extravasa seu coração lírico, sensível, bondoso, solidário e amoroso. Autêntica e franca, não teme revelar sua interioridade na poesia. Por isso, torna-se tantas vezes autobiográfica.

 

Sabemos que todo texto poético é rico e inesgotável, devido á polissemia, ao simbolismo, à plurissignificação, às conotações infindáveis que encerra. Na sua tentativa de exprimir o inefável, o poema torna-se, por assim dizer, inexplicável. Vive-se, entende-se, desfruta-se poesia, mas nunca se pode reduzi-la a uma fria análise racional. Por isso, não pretendo abordar a poesia de Maura sob todos os aspectos, nem esgotar a análise de nenhum deles. Após leituras e releituras, sempre agradáveis e enriquecedoras, extraí três linhas temáticas de seus poemas, sobre as quais pretendo discorrer brevemente: o tema do amor, a filiação telúrica e o tema social.

 

I. O Tema do Amor

 

O tema do amor ocupa, principalmente, dois livros de Maura: Cântaro de Ternura e País de Rosamor. Cântaro de Ternura, seu livro de estreia, constitui-se de um conjunto de poemas em prosa, ou seja, de cantos líricos, monólogos apaixonados, gritos unilaterais de amor, dirigidos incessantemente ao amado, do qual exigem atenção constante e exclusividade no amar.

 

São cantos da solidão em busca do "tu" que completa; representam peregrinações do amor em busca da plenitude; constituem ânsia de fusão com o amada, no qual tudo adquire sentido, porque "... somente conheço a glória verdadeira quando tu bebes com o coração esta água samaritana do meu cântaro de ternura Se a concepção amorosa é, no fundo, romântica, desse romantismo-estado de alma que existe na sensibilidade de todo ser humano, os poemas consubstanciam aquele enlevo, aquele tocante lirismo bucólico, aquele fraternal envolvimento da natureza, tão decantado pela sensibilíssima alma lírico-espiritualista de Rabindranah Tagore. Assim, Cântaro de Ternura marcou com segurança uma estréia promissora, revelou uma alma de grande sensibilidade poética, capaz realmente de transmitir a ternura no poema.

 

Em Círculo Sexto, ressoa vigorosa expressão do amor, concepção bem mais sólida e madura do que no lirismo extasiado de Cântaro de Ternura. Logo na primeira seção, o "Canto da Companheira" abre com o poema "Canto Primeiro", de nítido paralelismo com o capítulo 13 da Primeira Epístula de São Paulo aos Coríntios: "Se eu falasse a língua dos homens e dos anjos, mas não tivesse amor, seria como metal que soa ou como sino que tine" — e Maura inicia:

 

Ainda que no meu minuto de poesia eu praticasse

 o nudismo completo da alma

 

E prossegue alinhando diversos "ainda que", para ressaltar que eles nada representariam

 

Se eu não tivesse o humano em todos os meus gestos

e não fosse capaz de querer

para todo ser humano

o pão, a rosa e a paz.

 

Entretanto, a expressão mais densa e madura do amor se manifesta em "Amor", poema que será constantemente republicado, tendo depois o título de "Em verdade te digo":

 

Em verdade te digo que não foi naquela hora que te pretendi (...)

mas quando, diante do teu, surgiu meu espírito livre e novo

de rebento inquieto deste século

e descobrimos todas as comunhões das nossas almas...

 

Essa expressão madura coincide com o encontro definitivo de Maura com Almeida Cousin. Mais tarde, em Despoemas, "Sublimação" reconhecerá que

 

No princípio era o sexo dominando

as próprias mentes,        

 

mas depois

 

cresceram tanto os elos outros

que nos ligaram sempre

 

até a plenitude:

 

uma união ainda maior

que a mais profunda, a mais ardente cópula.

 

E "Vale samaritano", do mesmo livro, atesta a união profunda no sofrimento, após grave acidente sofrido pelo amado Almeida Cousin. O amor entre ambos estava consolidado, ao que tudo indica, física, sexual, espiritual e poeticamente.

 

A temática do amor manifestou-se também vigorosa e permanente em País de Rosamor. Este á outro livro exclusivo de amor. Sensível delicadeza e um halo de amor e ternura envolvem esse aprazível País de Rosamor, em que penetramos juntamente com a poeta. É como se saíssemos deste nosso conturbado mundo, de violências, egoísmos e pragmatismos, e fôssemos magicamente introduzidos num universo edênico, revelando-se a poeta verdadeiramente um demiurgo, um plasmador de mundos, um criador de atmosferas:

 

Fui ontem colher na lua

antúrios que lá plantei.

Tomei o meu barco alado

e logo à lua cheguei.

Fui ontem colher antúrios

e com estrelas voltei.

 

É a busca do mito edênico, da mundo sonhado, da ânsia da fantasia. Todo um ritual de delicadeza, de amor e de beleza se desenvolve, suave e sonoramente, enquanto lemos esses poemas. Não é a racionalidade nem a paixão carnal que nos guiam, mas um sentimento lírico, suave e afetuoso, que flui insensivelmente. O poema "Os Arcanjos" bem concretiza esse mito do mundo bom, do triunfo do amor e da bondade sobre o malvado dragão:

 

Com leite das ovelhas

por leão apascentadas

doze filhos vou criar

E com rosas simplesmente

— nem espadas nem punhais —

com doze rosas sagradas

farão por terra tombar.

Em doze corcéis alados

nosso reino deixarão.

E só depois de plantarem

Rosamor em toda a terra

os doze regressarão.

 

Na singeleza espontânea dos poemas desse volume, há pequenas joias  como a quadra "Bodas":

 

Nos casamentos

a boda é simples:

em torno — rosas

em nós — amor

 

Não são, pois, poemas de fuga, mas belíssima conscientização da força do amor. Já aqui se insinua uma nova visão do mundo — um mundo socialmente mais harmonioso e humano, temática que assumirá cada vez maior consistência na poética de Maura, como veremos adiante. As seções "Do coração arrebatado" e "Do país sonhado", deste livro, reproduzem poemas ligados ao tema do amor.

 

Mas o tema do amor retorna sempre nos livros seguintes. Na antologia. A Dríade e os Dardos, uma seção retoma o tema, reapresentando poemas dos livros anteriores. Em Despoemas, a primeira seção volta a ser dedicada ao amor. Mas, este é um livro já de maturidade, um livro de consciência mais ponderada e de profunda reflexão sobre a frágil existência, sobre a condição humana. E bem por isso não é livro que se esparrama em palavras inúteis. A ponderação, o equilíbrio, a moderação constituem a tônica desse estágio existencial e da correspondente poética. E a concepção de amor também está amadurecida. Não são abstratas divagações sobre esse tema tão decantado. São poemas gerados por situação concreta na vida da autora — as horas amargas, longas, difíceis, incertas e agoniadas à beira do leito de convalescença do amado, revelando a provação e o sofrimento que acompanham os caminhos, as manifestações e o amadurecimento do amor verdadeiro. A dedicação, o amor constante, o sacrifício e a apreensão transparecem desses dois poemas — "No vale samaritano" e "Sublimação", delineando, inclusive, as fases do amadurecimento, desde o início — "No princípio era o sexo dominando...", passando por tantos "outros elos", até chegar ao "fruto da dor", que culmina com

 

Uma união ainda maior

que a mais profunda, a mais ardente cópula.

 

Em Cantiga de Amiga, um belo álbum de poemas, o amor, esse vigoroso impulso que arrebata o ser humano, retorna insistente. E ele também se manifesta nos poemas desse livro, quer na espontânea naturalidade, atração telúrica e sincera doação completa de "Anacreôntica", sempre com o carinho dedicado a Almeida Cousin, ou então no "Canto natural" — a defesa incontida do amor, sem moralismos: "Sou fêmea ou fruta sobre o leito", a defesa da vivência erótica sem preconceitos:

 

a carne rendida penetrada,

a língua sugada como um favo...

 

Ainda Poemas-Estórias proclamam, antes de mais nada, a necessidade do amor, dum amor vivido na decisiva espontaneidade lírica, que o liberta dos constrangimentos e dos preconceitos. "O círculo da flor" e, sobretudo, "A moça que fugiu num barco" fazem irromper essa força do amor, esse sonho arrebatador. Observe-se a aura poética envolvente criada nos versos iniciais:

 

Tia Flor fugiu num barco

(ela gosta de contar).

num barco que encheu de flores

quem a ia deflorar.

 

Mas, nesse como em todos os últimos livros de Maura, o amor ultrapassa constantemente a esfera do individual e do casal, para mais ampla abrangência. É o caráter e a preocupação social que assumem a tônica mais fundamental e marcante da sua poesia, como veremos adiante.

 

Seu amor, demonstrado no poema, sempre buscou a ternura, a compreensão, o apoio e a segurança, mas não menos o perpetuar-se no filho. Tanto assim que talvez uma das mais sofridas mágoas da sua vida foi a "maternidade" não concretizada. Por isso, no poema "Meus companheiros", de A Dríade e os Dardos, ousa assumir seu quase trauma de "mãe estéril":

 

Amo sobretudo a rapariguinha de tranças

parecida com a filha que sonhei.

Gosto quando vem sentar-se no meu banco

sorrindo para o meu amor e o vento do mar

mexe nos seus cabelos enquanto

a ilusão da mãe estéril cresce.

 

Em Círculo Sexto já está presente na utópica "árvore estéril":

 

Oh, não te arrependas não

que me deste glória e honra

pois eu só via o milagre da árvore estéril carregada de frutos

e o sumo das uvas escorrendo.

 

O "Canto da Maternidade" externa sua admiração quase invejosa e sua reverência ante "as mulheres (que) levavam seus filhos pequenos pela mão". E no "Salmo para o bem-amado" chega a "bendizer a tormenta" e as privações que teve "porque foram elas que me aproximaram de ti". Em "Canção em Rosamor", imagina-se utopicamente nesse novo éden que depois desenvolverá em País de Rosamor, onde

 

Quero ninar o meu menino

acender o meu fogão

esperar o meu amado...

 

Semelhante é o tom de "Histórias para a menininha" ou "Estórias antes de ninar".

 

A maternidade esteve na intenção de Maura do início ao final da vida. Já na primeira versão de "Jurerê­-Mirim/Consubstanciação", da década de 1930, invocando a comunhão pela da poeta com a Ilha de Santa Catarina, concluía:

 

E, um dia, quero que a tua fecundidade

pouse também em minha carne

para eu não ser a tua árvore estéril.

 

E no poema conclusivo de Busco a Palavra, sentindo que a vida caminhava para outra dimensão, confessa com amargura, em meio ao poema:

 

desatados atos, adversos gestos im­possíveis passos, malogrados feitos

e eis a não liberta e não conspurcada

e também a mãe gorada

pois nenhuma semente germinou em meu ventre

e assim não pude levar a nenhum ser (...)

o ardor de minha carne e minha mente.

 

O amor constituiu uma dominante na vida de Maura de Senna Pereira, amor que teve uma trajetória complexa e por vezes amarga.

 

 

II. A Filiação Telúrica

 

Já no livro de estréia — Cântaro de Ternura — um destaque necessário a fazer é o impulso quase incontrolado, primitivo, original e vigoroso da força telúrica que se comunica numa fusão vital ao poeta e que cria a ambiência propícia à vivência amorosa total. No poema 3, ela se confessa "gulosamente devorando as frutas vermelhas que colheste para o nosso farnel selvagem" e se extasia quando "tu espalhas sobre os meus cabelos fartos mancheias de flor de grumixama e de amoras verdes". Em "Êxtase selvagem" o próprio título comunica essa vigorosa sensação telúrica — "Eu estou a caminhar entre os pessegueiros floridos... Enquanto os meus pés descalços pisam, com alegria bugra, a terra morena do pomar..". "O cântico da água" sensibiliza para mais outros aspectos da natureza — "Eu estava sentada sobre a relva e mastigava em silêncio begônias encarnadas e frutos ácidos", quando ele a conduziu à fonte "e nós dois ouvimos o cântico da água" e surpreendemos "a própria vida cantando o seu grande cântico de dor e de amor!"

 

"Panteísmo" absolutiza mais ainda a importância telúrica numa concepção quase mística. Inicia como que com bilhete dele: "Eu te escrevo sobre um monte de folhas mortas e, daqui onde estou, ouço o gorjeio dos pássaros selvagens e a canção sonorosa das cachoeiras. Estas letras te levam o cheiro dos figos maduros que, nos seus galhos, se debruçam sobre o meu peito largo. Ama tudo isso, ó adorada minha". E ela: "Ah! corri a abraçar-me com os troncos rudes e a minha boca vermelha e úmida foi beijar fraternalmente as plantas rasteiras. Depois bebi o orvalho na própria cabaça das folhas gotejantes e deliciei-me em morder as flores renascidas que ia encontrando..." Enfim, "...deitada num divã de manjericões, concentrei-me no meu rito e adorei todas as raízes encravadas no chão. E, entre outras, "Elogio da chuva" ressalta como ela passou a perceber e a amar a chuva a partir da vivência conjunta que teve com o amado. Muito significativa se revela, assim, já no seu primeiro livro de poemas, essa beleza espontânea e mesmo sensual das plantas, flores e pássaros, essa convivência íntima com a natureza, essa comunhão telúrica. Ressalte-se que essa comunhão com o elemento telúrico, a natureza e seus fritos se reveste de um misto de pureza prístina quase ingênua com forte tonalidade sensual.

 

Nos livros posteriores, em todos eles, retornam poemas em que a busca da terra, a irmanação com a terra, a fusão com a terra revelam sensível beleza poética. O senso cósmico e telúrico, a fraternal convivência com a natureza e a mística comunhão com a universo projetam em sua poesia aquele impulso vital, selvagem e primitivo, na sua original pureza e atratividade. Perpassada de um sopro lírico, candidamente orgíaco, a natureza íntegra e virgem constitui o revestimento natural e a expressão constante de seu estado íntimo. É a união cósmica, a fusão telúrica, a fraternidade total. Em Círculo Sexto, "Veraneio" revela essa alegria pura no gozo da natureza íntegra

 

Alegria de ter logo à aporta o rio caboclo

e sobre fundos peraus e leves peixes

e entre coroas de aguapés em flor

tomar, ainda cedo, o banho bugre

 

E "Buscar-me em flor" canta a selvagem poesia a sorver o hausto vital num éden ainda não conspurcado:

 

Buscar-me nos mesmos sítios de

aromas afrodisíacos e águas índias

(restos do Éden, sítios intocados)

e, no entanto, onde

a garganta juvenil? o adolescente cabelo?

o ímpeto dos pés pequenos?

onde a carne amanhecendo?

 

Esse senso telúrico e essa fusão cósmica atingem sua mais alta expressão nos poemas dedicados à  "Terra catarinense", Maura, embora há muito residindo fora de sua terra natal, é catarinense autêntica e sua poesia, bem como suas conferências e comentários jornalísticos estão constantemente voltados com grande ternura para a realidade catarinense.

 

Já no Círculo Sexto há uma seção dedicada à "Terra catarinense", que traz a sugestiva epígrafe: "Abraçada ao universo / tendo as raízes em ti", harmonizando a universalidade na regionalidade. Todos os poemas dessa seção mereceriam destaque: "Ilha e Mulher", depois reescrito como "Consubstanciação", funde Ilha e Mulher numa união total:

 

Meu corpo é o teu imenso corpo de ilha

e meu sangue o rasgão líquido dos teus rios.

 

"Balada para o Vento Sul" exprime diretamente essa identificação e comunhão entre o poeta e a natureza:

 

Sou tua namorada, vento!

Leva-me também leva-me contigo

para longe de mim.

 

"Lagoa da Conceição" retoma a própria gênese bíblica do ser humano formado de barro, com ele se identificando. Em "Louvação para Santa Catarina", essa "filha de nobres, irmã de escravos", externa sua ansiosa espera pelo dia "em que o sol da justiça há de brilhar na terra inteira"e haja "paz entre os homens'. "Retrato de Anita" não canta uma "filha de rei", mas "uma filha do povo", que foi prisioneira, sofreu frio, fome, perseguição e privações, mas tornou-se a "Musa da liberdade", a "Heroína dos Dois Mundos". O tema telúrico, ligado à realidade catarinense, volta em outros poemas, como "Insular", "Repto ao sol", e outros.

 

Presa e irmanada à terra, projeta-se na poesia de Maura aquele impulso telúrico na sua original pureza. Nessa comunhão cósmica, transparece um genesíaco sopro bíblico, mais pagão do que cristão, no seu constante envolvimento sensual. Unindo-se à natureza, à terra, à ilha natal, Maura identifica-se com esses elementos, em comunhão e fusão, na busca da autenticidade vital, primitiva e original, como comprova a primeira seção de Busco a Palavra: "Da comunhão com a terra".

 

O tema ainda retorna na terceira seção de Despoemas — "Terra minha sob o signo da poesia", cujo poema "Palácio Cruz e Sousa" canta a glorificação do nosso "gênio emparedado", o "Cisne negro", ao receber, 80 anos após a morte, a distinção de tornar-se nome do Palácio do Governo, "como se a terra o elegesse o filho máximo".

 

Em Poemas-Estórias ainda a alma telúrica e catarinense expande seu entusiasmo. No "Fragmento de autobiografia", Maura reafirma sua alma catarinense — "Nascida em Santa Catarina / nela estou plantada", não obstante o ambiente preconceituoso, a inveja e a maledicência terem marcado sua "triste infância". E sua alma se abre num canto de amor à "Árvore que é gente", à secular pureza "da Figueira da Praça", essa "árvore gigante e maternal", que mais parece "um ser humano muito amado". Essa identidade  catarinense  —  "Eu sou a  mulher  plantada / na terra que era celeiro" — a fez enternecer-se ante "o clamor da terra inundada" em julho de 1983, sempre conclamando à "fraternidade humana ": "Hoje sou planta sofrida / que a terra está inundada".

 

Essa é a Maura catarinense, a Maura ligada à sua terra, a Maura que não esquece a autenticidade de sua origem. Essa sua filiação telúrica, se muita ligação mantém com o tema do amor, encaminha-se também decisivamente para o tema social. Isso se evidencia sobretudo no poema "Canto sufocado", bem como no poema "Grumixamas" de Cantiga de Amiga. Aqui, ao reviver todo um cenário ecológico da infância e recuperar uma paisagem humanizada na sua descrição, a vivência lírica esbarra no vazio:

 

Mas a máquina chamada progresso

abriu uma rua nova em meu quintal.

 

No entanto, mesmo assim, em "Balada contra a tormenta", sabe impor seu otimismo e, após a tormenta, "vou pegar vamos pegar punhados de sementes e jogá-las petas terras boas e poupadas" pois, se

 

somos os sobreviventes

vamos para frente.

 

 

III. O Tema Social

 

Se, no seu primeiro livro, o amor ainda se revestia daquela tendência exclusivista de seres jovens que se buscam na força da paixão total, já nos livros posteriores a poética de Maura vai alargando-se para abranger, cada vez mais decididamente, o amor numa concepção mais social e humanista, fixando-se na temática da participação e do engajamento social. Se o amor consiste em dar-se e receber, essa atitude de abrir-se para compreender e dar-se, para auxiliar, para engajar-se no mundo e buscar o sadio convívio com os semelhantes abre o poema de Maura para o universo social, Os poemas de Círculo Sexto vêm sensivelmente marcados por essa busca solidária do outro. O primeiro poema do livro insere-se já na perspectiva paulina do amor: "Ainda que" eu fosse isso ou possuísse aquilo, se não tivesse amor pela humanidade, "tudo faltaria", como já ficou transcrito anteriormente.

 

No poema seguinte volta a constatar a necessidade de que "me volte leve e humana / para as angústias e os problemas dos homens". Toda a seção "Círculo sexto" compõe-se de cantos angustiados e taciturnos ante o dilema trágico: ou cantar na alienação ou sofrer denunciando as "injustiças da terra. E a decisão final é: "Não calo: grito".

 

"Poesia negra" canta a "lavadeira negra negra negrinha" que lava "o linho custoso da casa rica"; mas sente o flagelo da miséria e gerará mais um pária. E o poema se reveste de todo carinho compreensivo pela "linhagem sombria e forte" que veio "do beijo fecundo dos castigados no tronco". Em "Queimada"; a "beleza perversa" do fogo que consome a natureza é vigoroso símbolo da opressão do homem que ama a liberdade. No "Poema para Ziró" transparece a sentida emoção pela "Ziró em flor, flor moribunda ", que se consome em vão no trabalho. "Pedra para o templo "busca um novo universo, "sem muros"; e para construí-lo "sobre o ombro, como um cântaro, eu trago a minha pedra para o templo". "Canção em Rosamor" anseia pelos ideais de solidariedade e pelo direito de todos à paz, ao amor, ao sustento e a condições de vida para todos, sem preconceitos. Interroga-se: "agora olho lá fora. / Será que todos têm pão?" Assim, a face social impõe-se muito viva nesses poemas, sempre de grande e vivo ardor lírico de Círculo Sexto. Nas seções "Da comunhão com o mundo" e "Culto à vida", deste volume, estão alguns dos melhores poemas sobre esta temática.

 

Despoemas é uma pequena obra de arte, tanto pelo conteúdo poético como pela beleza do seu acabamento gráfico, complementado por leves e delicadas ilustrações. É um livro pequeno em volume, apenas 10 poemas, mas que se transforma numa grande mensagem, na medida em que encerra o coração do poeta, seu amor, sensibilidade e solidariedade, sua visão de vida madura. Constando de quatro seções, a segunda e a quarta ocupam-se fundamentalmente do tema social.

 

Na segunda seção — "Lua e Luta" — o poema alarga sua abrangência social. "Intemporal" traça a trajetória do ser humano (mulher) no mundo, desde a fase de "simples fêmea das cavernas" até o século "cinqüenta e três" — "como ser humano já liberto" — "sem traço algum de sangue e desamor..." "Inauguração da Lua" é o canto à "Lua violada", conquistada pelas e de incontida do homem, nunca satisfeito como que é e o que tem. E a poeta (Ironia?) deseja chegar à lua, "só para usar mirante" e ver "quão mais bela não será a Terra". O poema centraliza-se no homem, habitante da terra, sempre insaciável, e "domador dos espaços".

 

"A estátua" ainda permanece no nível social, ponderando as vicissitudes humanas, as contingências e variáveis, os balanços da sorte ou da desgraça, da honra e glorificação ou da difamação e condenação. Os altos e baixos, a celebração e a maculação, a glória e o crime já estão sugeridos na construção antitética da primeira estrofe:

 

E a hora primeira do bronze eterno

e altos discursos

e baixou relevos

celebram o herói".

 

"João Paulo I" relembra a passagem meteórica desse surpreendente papa-sorriso, com "teu sorriso puro, claro Albino"; com aquele

 

sorriso irmão

de filho de uma lavadeira de pratos

e de um pedreiro socialista.

 

"O homem e o tempo" sujeita a ser humano à ação irreversível do fator temporal:

 

tempo marca o homem

e o transforma e consome.

 

O poema revela a consciência da poeta, como ser contingente, ao constatar que o homem, que tanto pode, que até "pode ampliar / a dimensão da vida"; não possa "sequer tocar a asa do tempo".

 

E a última seção — "Os adeuses" — reúne poemas conseqüentes a "O homem e o tempo", enfocando a inexorável ação do destino sobre a própria condição da poeta. Sempre ainda ao nível do social e do humano, em "Eu não verei a Aurora", a poeta espera a instauração de um mundo novo, humano, fraterno, pacífico — embora a longo prazo:

 

Quando este mundo imundo desabar

caírem as ditaduras, a ignomínia das torturas

tiver fim, os povos forem

livres e fartos...

eu não verei a aurora.

 

E o último poema — "Testamento" — traz a consciência lúcida do fim de todos: "a triste morte", quando "só a vida importa" e sobrevém a terrível apreensão ante o "banquete macabro que eu não quero ser", a "degradação do apodrecer", destino inevitável. E o pedido testamentário da poeta ainda aqui vibra:

 

que eu arda morta como ardi em vida

por meu amor, meu sangue, meu amigo, pelo

ser humano, por um mundo melhor,

 

para que depois,

num gesto natural de quem espalha sementes

eu seja espalhada pelos ventos.

 

Despoemas resulta, assim, numa pequena jóia de beleza e emoção. É poesia sensível, pura, mas sempre lúcida, consciente e social.

 

Em Cantiga de Amiga, toda a juventude permanente de espírito de Maura e todo o seu carinho pelo homem, toda a sua preocupação social estão presentes nos poemas tão belamente apresentados. Sem ser uma fingidora, a poeta aqui se revela em toda a sua espontânea autenticidade. E a poesia capta, retrata e assume decididamente a defesa do humano e do social. Como explica no último poema, sua poesia busca "a palavra em que lateje o presente", "espelhando o homem do meu tempo".

 

Em vários poemas, como "A chave", as preocupações com o espiritual e o transcendente são de certo modo renegadas como inúteis, quando há tanta carência nesta vida, tanta necessidade social, tanto a fazer por um mundo mais humano e fraterno. "Confiteor" orienta-se no mesmo sentido social, objetivando "Alegrar meus irmãos". E "A profecia" proclama que "no meio da praça" e do povo do lugar do poeta, até mesmo para levar seu canto de amor:

 

às sarjetas aos bordéis às prisões

aos que trazem grilhões e mordaça

os oprimidos de todas as raças.

 

Essa busca do homem, na fraternidade, ressoa nítida em "A revoada". Mas, de preferência, o poema se orienta na defesa dos simples, pequenos, pobres e injustiçados, tornando-se até violentas a ironia e sátira que transparecem de "Culto mutilado": na edificante celebração do Dia das Mães não há lugar para "a pobre moça expurgada", a mãe solteira, enquanto no coro

 

uma das vozes mais altas era

a do pai impune e negador do seu ato...

cantando hinos ao Senhor.

 

Também contundente é a denúncia do contraste social de "Carnaval": A "menininha" pobre e humilde circula entre as mesas de "fortes animais quase pelados" e de "bronzeadas náiades", suplicando restos preciosos que nem são para ela.

 

Humana e sensível, a autora se indaga, em "Evolução", sobre quando e como, "na espécie humana", evoluiu o "processo covarde" de "Bater num corpo", tendo

 

sempre como vítima

um ser inerte, atado, indefeso:

a criança o servo o pobre o preso.

 

E no canto que dedica ao trabalho, em "A sábia mão", considera que "é sempre nobre o labor", quer seja o cálculo e a planta do arquiteto, quer seja o "colocar o operário o tijolo. O engajamento social da autora se manifesta decididamente desde a epígrafe inicial:

 

tendo vivido estas duras décadas

tenho o dever de dar meu testemunho

transformando o meu sentir em verbo

entornando o verbo pelo mundo.

 

E por isso, já no primeiro poema, entremeado muito habilmente com um estribilho típico da cantiga medieval de amiga, à D. Dinis — "Ai flores, ai flores / do verde pino" — denuncia a desvirginização e devastação da terra americana, dos seus tesouros de minas e de florestas ("Oh América"). Preocupada não só com a terra, mas também com o homem, relembra, incisiva, em noite de banquete e festa, um verso do poeta negro Solano Trindade: "tem gente com fome" ("Fome Et Festa").

 

Maura possui, em essência, um coração solidário, que se abre para os outros, como ainda comprova seu último livro Poemas-Estórias. "A saga de uma heroína" cria um quadro de tocante calor humano em relação à boa faxineira Celina. Mas é "O canto" que mais vivo eleva o sentimento social de Maura, ao apresentar a história desse menino injustiçado, desse pária que, quando "pedia registro e aumento — aí lhe apontaram a porta da rua", e assim, aliciado para a luta de classes pela moça "com os insetos verdes sempre a bailar" nos olhos, encontrou seu duro destino na prisão e no espancamento.

 

Estes poemas de Maura contêm o carinho e a delicadeza de uma "cantiga de amiga". Mas, ao mesmo tempo, deles transborda a consciência viva e a denúncia incontida de vasta problemática social, sempre em defesa do pobre e indefeso. A alma sensível e fraterna de poeta ultrapassa as fronteiras do lirismo egocentrista, para assumir ampla irmanação social. É essa a força mais admirável que assume a poesia atual de Maura de Senna Pereira.

 

Maura é pessoa de extraordinária sensibilidade e humanismo e poeta de tocante lirismo aliado a profunda consciência social. A pessoa e a mensagem poética fundem-se em vigorosa harmonia, ressoando em nossa sociedade. O poema, sua beleza formal e sua mensagem social e humana conferem à poeta o maior triunfo, a condição de imortalidade. A palavra viva, a palavra engajada, a palavra carregada de sentimento de compreensão e solidariedade permanecerá através das gerações, conferindo a todos os poetas a glória do "Triunfo supremo", como tão bem Cruz e Sousa cantou. E Maura de Senna Pereira conquistou o mérito da imortalidade, não através de uma simples cadeira ocupada na Academia, mas através de uma consistente obra poética, criada conscientemente ao longo dos anos. De Cântaro de Ternura até Poemas-Estórias, sua voz poética e humana ressoará em nossas gerações futuras.