LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio
eletrônico
De pena atrás da orelha, de Manuel de Oliveira Paiva
Edição de base:
Obra Completa. Rio de Janeiro: Graphia, 1993.
DE PENA ATRÁS DA ORELHA
A vidraça tinha batido na casa fronteira, sacudindo
um relâmpago pelo quarto adentro, e foi como a voz do patrão que o despertasse
com todas as peripécias de um carão em regra.
Depois de ter percorrido o quarto, com o lençol de chita
forradinho de branco arrastando como uma capa de rei, à procura do paletó de alpaca,
do colete de fustão, da calça de gazineta, da gravata
e do chapéu cinzento, desenterrando tudo isso do meio da desordem geral, como de
uns escombros, enfiou a bota. Esta parecia ter o rosto inchado, como o do dono,
sem lustro, como se lhe houvessem esfregado uma lixa, ela, a bota que ontem à noitinha
luzia como uns olhos negros!
Quando ele alçou a perna, enfiando o dedo na presilha
do cano suarento, o solado amostrou uma grande parte roída que punha em evidência os pontos até à palmilha.
Aquele sapato nem mais rangia! Coitado, era como a maior
parte dos rapazes, depois que se casam. Ai da rangedeira, do lustro, do tacão, do
elástico, da integridade da sola e do coiro!...
O rapaz filosofava assim, cochilando sobre a outra bota,
que apanhou, de perna estirada, e o pé já na meia cor de café com a pontinha branca.
O poder gigante da inércia calcava-o; e o dedo
magnético dos sonhos descia-lhe de novo as cortinas dos olhos. Como num
engenho d'água o fio de magro corrente, caindo, incute
o giro veloz à ingente rodeira, assim, breve a modorra foi despertando a espantosa
engrenagem daquele cérebro.
As idéias da gente ficam, às vezes, como fogo de monturo...
Vinham-lhe, como em ópera mágica, as apreensões de
antes da festa, quando o carnaval era ainda o amanhã; as comoções do primeiro momento;
as emoções, os desvarios, a espécie de abstração, de alheamento, que nos assalta
em dados instantes no forte, do bom do prazer.
Sonhando a dormir repetiam-se-lhe
episódios do sonhar acordado... E, como se fosse passado,
intrometia-se por ali mefistofelicamente o futuro,
isto é: o escritório, o pavoroso, o soturno escritório com a sua carteira bestial,
com os seus livros sem inteligência e a sua pena sem luz...
Do cantinho da prensa do copiador, entretanto,
saía, distintamente, uma senhora... aquele escritório
era dele agora... que ventura, ele se transformava no
patrão... aquela era a esposa dele que vinha reforçá-lo
com os segredos do seu ser... chamava-o para almoçar, e
ele voltava-se risonho:
— Já vou.
Os livros e as penas agora para ele chegavam a
sentir: não tinham inteligência, nem luz, mas eram os seus amigos...
E tinha rancor a tudo que não fosse ela. Qual
baile, qual nada...
0 sapato caiu-lhe da mão... Diabo, o salto bateu
oco, indiferente, maquinal, frio como um aviso de despedida... O coração
bateu... Faltava banhar o rosto e passar a escova nos dentes, pentear-se,
escovar-se... porque enfim até isso a casa exigia.
A bacia e a moringa apresentavam-se na janela, por onde
entrava o ruído da vida ressurgida na quarta-feira de cinza...
O sol parecia ondular com o vento por cima dos telhados
como no pano de um circo...
Ao contato da água fria nos dedos, à carícia do ar
exterior, o rapaz, esfregando os dentes na sua janela, vestido como um
tresnoitado boêmio, foi que começou a acordar
apenas... o sangue, chamado às gengivas pela fricção da
escova, a mucosa da boca vasculejada pela água, o movimento
do braço, — como um cheiro que se aplicasse ao nariz, numa síncope, — chamavam-no
à vida muscular...
Porém as ruas ainda estavam caladas.
No meio do quarteirão parava uma
velha carroça roxo-terra; e sentia-se
asperamente o chiado seco da vassoura da limpeza pública.
Pausadamente caminhavam os caixeiros, em número
escasso a abrir as lojas. Ouvia-se espaçadamente grunhirem as lingüetas,
rosnarem os gonzos, em um quase silêncio. Passavam rareados convalescentes para
as vacarias; e distribuidores de pão com as cestas de vime ao ombro com a costumeira
manta encarnada.
Assanhava-se a bem-aventurada sonaria
dos sinos, tocando ao descarrego das consciências.
E desapareciam na esquina rezadeiras
apressadas.
Raparigas de vestido simples e cabelo penteado com
água, as mãos Caídas scbre o ventre, com o lenço, o rosário
e o manual, os sapatos comidos para um lado, de elástico esgadelhudo;
a vista para o chão como se atravessassem uma região impudica; a tez palidecida, iam, com o erotismo
abafado de quem sorve a nevrose do templo por lhe ser
inacessível a nevrose do mundo...
Os caixeiros sacudiam as trancas de ferro, e varriam
os interiores.
Via-se, deles, alvos, robustos, de mangas
arregaçadas. Defronte uns arrumavam peças de chita, com o olhar tresnoitado o
pequenino.
Um belo dia que se alevantava na rua! Longe ouvia-se o bater de uma enxó e o chiar intermitente de uma serra.
Um caixeiro moreno Por demais, de cabelo à escovinha, novato, muito puxado no serviço,
parecia notar longamente os transeuntes, com a vassoura em descanso, e manifestava
a presença desanuviada de quem conservasse ainda a doce brutalidade do sertanejo.
O arzinho de chuva, que ameaçava, devia lembrar-lhes que habitar nos matos,
bebendo e jantando arroz com carne odorante a queijo, respeitado não só pelo cabroeiro, que costumava tratar a meninos de família por seu cadete, como pelas autoridades e
funcionários que soíam passar as mãos pela cabeça do filho do doutor fulano, e
do capitão sicrano, era preferível a sujeitar-se aos apelidos de cabeça de toicinho, cabelo de espeta-caju,
a suportar os carões do patrão e a agüentar o mau-trato dos colegas...
Enfiavam para o Mercado vários vendilhões, entre os
quais destacavam-se os de hortaliça, com a luzente
bacia de zinco donde repolhava o setim
das alfaces, o crespo das couves, e repontavam os biquinhos dos quiabos,
dentre a púrpura dos tomates... coentros de palminhas
bordadas, e molhos de cebolas... Lá iam mulatas de xale a tiracolo com as vasilhas
para as compras; marchantes, de roupa asseada e passo ligeiro com o guarda-sol
debaixo do braço; meninos a distribuir jornais: pedreiros; carpinas:
homens do ganho com o uru vazio: donos de casa, em pessoa para a feira... e cegos mendigos, com a mão no ombro dos guias de roupa
suja e rota...
Apertando o gargalo da moringa, o rapaz encheu a bacia,
e, quando a fisionomia sentiu as primeiras mãos-cheias de água, a rede elétrica
dos nervos transmitiu por todo o corpo a verdadeira e definitiva
sensação do despertar. Foi como se retumbasse a voz de — sentido! — por um batalhão em forma que estivesse em descanso.
E breve, no impedimento da toalha
de rosto, que ele não sabia onde parava, enxugou-se no lençol."
Ensaiou os primeiros passos na direção da saída,
mesmo porque já um relógio batera placidamente as sete
horas. Aquilo é que era suar um coração agoniado. Sete horas, hora de horror...
"Hora de febres fatais
Hora em que gemem saudades
Dos tempos que não vêm mais!
Quando os pálidos precitos
Requeimam lábios malditos
Em taças de negro fel!...”
Mas, enfim, saiu como um doido.
Maldita caneta, livros cínicos do comércio! A Inquisição
não se lembrou desse tormento pavoroso!
E naquela negação absoluta pelo trabalho, ele
suspirava ardentemente, imprecativamente, como o desgraçado rico, do inferno
vendo Lázaro no céu:
— Deus, oh Deus! por que não
me fizeste empregado público?!
Momento depois ouvia-se
ainda o ganir dos armadores ao balanço decrescente da rede, no quarto deserto e
desordenado, onde as manchas de sol iam insensivelmente caminhando por cima dos
trastes e das roupas e das estampas coladas na parede.
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística