LITERATURA PORTUGUESA
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 Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende


Edição de base:

GARCIA DE RESENDE. Cancioneiro Geral. Fixação do texto e estudo por Aida Fernanda Dias.

Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1990.

 

 

 

 

 

 

 

VOLUME I

 

 

 

Tavoada de todalas cousas que estam neste livro assi em ordem como nele vam e nas cousas de folgar acharam um sinal como este . .

 

 

Primeiramente um prologo de Garcia de Resende, deregido ao Principe nosso Senhor.

As trovas que se fizeram sobre o cuidar e sospirar.          fo. I

De Dom Joam de Meneses, sahindo d' ũs amores e entrando noutros.   fo. XV

Desta folha atee às dezoito folhas, é tudo d' obras suas.           fo. XVIII

Do Coudel-moor sobre as cortes que se fizeram em Monte‑moor.       fo. XIX

Outras suas sobre os bispados.                                 fo. XIX

Trovas suas às damas.                                        fo. XIX

Outras a Garcia de Melo.                                      fo. XIX

Outras a Rui Moniz.                                              fo. XX

Outras a Joam Afonso d' Aveiro.                                fo. XXI

Outras a Fernam Cabral.                                      fo. XXI

Trovas suas desta folha atee                                fo. XXIIII

D' Alvaro de Brito Pestana a Luis Fogaça.                 fo. XXIIII

Trovas e cantigas suas, desta folha até às folhas   fo. XXXII

De Nuno Pereira, porque casou sua dama.                fo. XXXII

Trovas e cantigas suas, desta folha atee às folhas  fo. XXXV

D' Alvaro Barreto a Alvaro d' Almada.                     fo. XXXV

Outras suas a El-Rei Dom Afonso.                       fo. XXXVI

Trovas e cantigas suas.                                      fo. XXXVII

De Duarte de Brito de cousas que lhe aconteceram e vio.   fo. XXXVII

Trovas e cantigas suas, desta folha atee às folhas    fo. XXXXVIII

De Dom Joam Manuel à morte do Princepe.           fo. XXXXVIII

Trovas e cantigas suas, desta folha atee às                  fo. LI

Os Nunca vi antre privados.                                    fo. LI

Trovas e cantigas suas, desta folha atee às folhas       fo. LV

De Dom Martinho da Silveira, de novas e ũa cantiga sua.  fo. LVII

Cantiga de Dom Rolim e de Diogo de Miranda e de Fernam Telez e Diogo e Sancho de Pedrosa.    fo. LVII

De Luis d' Azevedo aa morte do Ifante e ũa cantiga sua.   fo. LVIII

De Gil de Crasto a Anrique d' Almeida.                    fo. LVIII

De Pedr' Homem, trovas e cantigas.                        fo. LIX

D' Anrique d' Almeida, sete cantigas.                             fo. LX

De Joam Barbato, d' avisos.                                       fo. LX

Outras suas, d' ũu sonho.                                     fo. LXI

De Diogo Fogaça aas damas e quatro cantigas.         fo. LXI

De Fernam Lobato a ũa molher.                                 fo. LXI

 

 

 

 

 

 

CANCIONEIRO GERAL

DE GARCIA DE RESENDE

 

 

 

PROLOGO DE GARCIA DE RESENDE, DEREGIDO

AO PRINCEPE NOSSO SENHOR

 

 

 

Muito alto e muito poderoso

Príncipe nosso Senhor

 

 

 

Porque a natural condiçam dos portugueses é nunca escreverem cousa que façam, sendo dinas de grande memoria, muitos e mui grandes feitos de guerra, paz e vertudes, de ciencia, manhas, e gentileza sam esquecidos. Que, se os escritores se quisessem acupar verdadeiramente escrever, nos feitos de Roma, Troia e todas outras antigas cronicas e estorias, nam achariam mores façanhas, nem mais notaveis feitos que os que dos nossos naturaes se podiam escrever, assi dos tempos passados como d’ agora: tantos reinos e senhorios, cidades, vilas, castelos, per mar e per terra tantas mil léguas, per força d’ armas tomados, sendo tanta a multidão de jente dos contrairos e tam pouca a dos nossos, sostidos com tantos  trabalhos, guerras, fomes e cercos, tam longe d' esperança de ser socorridos; senhoreando per força d' armas tanta parte de Africa, tendo tantas cidades, vilas e fortalezas tomadas e continuamente guerra sem nunca cessar; e assi Guinee, sendo muitos reis grandes e grandes senhores seus vassalos e trebutarios e muita parte de Etiopia, Arabia, Persia e Indeas, onde tantos reis mouros e gentios e grandes senhores sam per força feitos seus suditos e servidores, pagando-lhe grandes pareas e trebutos, e muitos destes pelejando por nós, debaixo da bandeira de Cristos, com os nossos capitãaes, contra os seus naturaes, conquistando quatro mil leguas por mar, que nenhũas armadas do Soldam nem outro nenhum gram rei nem senhor nom ousam navegar com medo das nossas, perdendo seus tratos, rendas e vidas; tornando tantos reinos e senhorios com inumeravel jente aa fee de Jesu Cristo, recebendo agua do santo bautismo; e outras notaveis cousas que se nam podem em pouco escrever.

Todos estes feitos e outros muitos d' outras sustancias nam sam devulgados como foram, se jente d' outra naçam os fizera. E causa isto serem tam confiados de si, que nam querem confessar que nenhũus feitos sam maiores que os que cada ũu faz e faria, se o nisso metessem. E por esta mesma causa, muito alto e poderoso Princepe, muitas cousas de folgar e gentilezas sam perdidas, sem haver delas noticia, no qual conto entra a arte de trovar, que em todo o tempo foi mui estimada, e com ela Nosso Senhor louvado, como nos hinos e canticos que na Santa Igreja se cantam se veraa. E assi muitos emperadores, reis e pessoas de memoria, polos rimances e trovas sabemos suas estorias. E nas cortes dos grandes princepes é mui necessaria na jentileza, amores, justas e momos, e tambem para os que maos trajos e envenções fazem, per trovas sam castigados e lhe dam suas emendas, como no livro ao diante se veraa. E se as que sam perdidas dos nossos passados se poderam haver e dos presentes s' escreveram, creo que esses grandes poetas, que per tantas partes sam espalhados, nam teveram tanta fama como têm.

E, porque, Senhor, as outras cousas sam em si tam grandes que por sua grandeza e meu fraco entender nam devo de tocar nelas, nesta, que é a somenos, por em algũa parte satisfazer ao desejo que sempre tive de fazer algũa cousa em que Vossa Alteza fosse servido e tomasse desenfadamento, determinei ajuntar algũas obras que pude haver d' algũs passados e presentes e ordenar este livro, nam pera por elas mostrar quaes foram e sam, mas para os que mais sabem s' espertarem a folgar d' escrever e trazer aa memoria os outros grandes feitos, nos quaes nam sam dino de meter a mão.

 

 

 

1

 

 

 

PREGUNTA QUE FEZ JORGE DA SILVEIRA A NUNO PEREIRA, PORQUE INDO AMBOS POR ŨU CAMINHO VINHA NUNO PEREIRA MUITO CUIDADOSO E JORGE DA SILVEIRA DOUTRA PARTE DANDO MUITOS SOSPIROS, SENDO AMBOS SERVIDORES DA SENHORA LIANOR DA SILVA.

 

 

 

Pregunta Jorge da Silveira

e reposta de Nuno Pereira,

tudo neste rifam.

 

 

Vós, senhor Nuno Pereira,

por quem is assi cuidando?

— Por quem vós is sospirando,

senhor Jorge da Silveira.

 

 

Jorge da Silveira.

 

 

Nam que eu sospiro indo

por quem cuidados me dá

e me vai assi ferindo,

que de todo destroindo

me vai seu cuidado ja.

Cuidar é causa primeira,

mas despois d' eu ir cuidando,

meus sospiros vam dobrando

tá matar à derradeira.

 

 

Nuno Pereira

 

 

Ter poder de sospirar

assaz é, senhor cunhado,

pera mais desabafar,

mas eu nam tenho lugar,

ca mo tolhe meu cuidado.

Porque é de tal maneira

que por quem eu assi ando

deve d' andar preguntando:

—Morreo ja Nuno Pereira?

 

 

Jorge da Silveira

 

 

Pois vosso cuidar querês

esforçar e defender,

e mostrar no que fazês

que moor pena recebês

que sospirar e gemer,

com fee de servir inteira,

a quem nos fere matando

vamos tristes demandando

que julgar isto nos queira.

 

 

Nuno Pereira.

 

 

Sendo sa mercê contente

qu' a ouvir-nos se encline

serei mais que recontente

que nossa questão presente

ela veja e determine.

E tenhamos nós maneira

d' irmos petição formando

de tal forma qu' em lha dando,

ela por nós lho requeira.

 

 

De Jorge da Silveira e de

Nuno Pereira,ambos jun-

tamente, em modo

de petiçam.

 

 

Pois que, senhora, nacestes

por dar morte e nunca vida,

pois que ambos nos vencestes

com vosso mal que nos destes

de morte não conhecida,

que no al nos desempare

de todo vossa mercê,

sospirar, cuidar decrare

quem se neles vir ou vê

cuja morte maes se crê.

 

 

Desembargo posto nas costas

desta petiçam, por man-

dado da dita senhora.

 

 

Se estes competidores

querem seguir este feito,

ordenem precuradores

e digam de seu dereito.

 

 

De Nuno Pereira, em que toma

seus precuradores pera ajuda-

rem sua tençam por parte

do cuidado, segundo

mandado da dita

senhora.

 

 

Eu par' esta altrecação

tomo por ajudadores

Joam Gomez e Dom Joam,

qu' ajudem minha tenção

como meus precuradores;

e façam ser esta cousa

nos amores conhecida:

que quem sospira, repousa,

e u cuidado bem pousa,

nom tem sospiros nem vida.

 

 

Jorge da Silveira, em que satis-

fazendo ao desembargo, toma

seus precuradores

por parte do sos-

pirar.

 

 

Em cousa de si tam crara

escusado era debate,

e  eu logo o escusara,

s' a senhora o julgara,

que me mata, que nos mate.

Mas pois vós, senhor, metês

remo d' ajuda que vogue,

vós, irmão, acorrer-m' -ês,

entam lá consultarês

onde sangue se nam rogue.

 

 

Pera o qual vos dou poder,

tanto quanto posso dar,

pera por mim requerer,

alegar, contradizer,

consentir e apelar;

por em minh' alma jurardes,

como quer lá o dereito,

pera meus beens obrigardes,

mas nam pera concertardes

tá ver vitorea do feito.

 

 

Segue-se o primeiro rezoado

de Dom Joam de Meneses,

precurador de Nuno Pe-

reira, por parte do

cuidado contra

o sospirar.

 

 

Ha ja tanto que nam vivo

sem sospiros e cuidados

e sem tanto mal esquivo

que por mim, triste cativo,

bem podereis ser julgados.

Mas a vós, senhor cunhado,

não vos deve d' ajudar

quem for muito namorado,

que quem morre de cuidado

é-lhe vida sospirar.

 

 

E mais irdes preguntando

a quem vos nam preguntava

por quem is vós sospirando,

é sinal qu' em ir cuidando

muito moor paixam levava.

Nam digo ja que falar

foi sinal de pouca pena,

mas da pena qu' ee cuidar

descanso é sospiros dar

e sa dor é mais pequena.

 

 

Os cuidados desiguaes

sempre deram mortaes dores;

sospiros nam doem maes,

que quanto sam ũs sinaes

de quem sente mal d' amores.

Pelo qual devem de dar

sentença defenetiva

qu' ee muito mor dor cuidar,

ca quem pode sospirar

inda tem por onde viva.

 

 

Sua à senhora Dona Lianor.

 

 

Senhora, pois vedes craro

que cuidar tem por conforto

sospiros e por emparo,

nam leixês de desemparo

morrer a quem vinha morto.

Nem julguês por afeiçam

sospiros por moor trestura,

por nam ser contra razão

ò reves em condiçam

do que soes em fremosura.

 

 

Rezões de Joam Gomez,

precurador de Nuno Pereira,

por parte do cuidado

contra o sospirar.

 

 

Metem aceso cuidado

amores com suas triscas

de pensamento forçado,

com fogo desesperado,

com sospiros sas faiscas.

Cuidado paixam ordena,

cuidado nunca descansa,

cuidado redobra pena,

cuidado nunca s' amansa,

cuidado sempre tem lena.

 

 

Os sospiros e gemidos

como faiscas s' apagam

com descanso dos sentidos

a quem sam atrebuidos,

porque sospirando pagam.

Mas ũ cuidado mui vivo,

nacido no coraçam

do triste amador passivo,

é ũu cabo de paixam

qual mais nam sofre cativo.

 

 

Quem sofre cuidado tal,

sem topar algum remanso,

sofre fadiga mortal

e paixam tam desigual,

que nam dá nenhum descanso.

A pena que é mais fera

na vida de bem amar

cuidado que persevera,

quanto mais se o cuidar

é no que se desespera.

 

 

E assi concrudo que

o cuidado soo per si

é pena que nam tem sê

nem guarida em qu' estê,

segundo sempre senti.

O cuidado que concluda

em gemidos e sospiros,

com esperança s' ajuda,

poes tem descansos a giros

em que seus males remuda.

 

 

Sua à dita senhora.

 

 

Dama de grã fremosura,

espelho das outras damas,

linda, honesta fegura,

dama da melhor ventura,

das que sam e temos famas,

deve vossa senhoria

julgar o crime cuidado

por pena de namorado,

sospiros por fantesia.

 

 

Rezões que deu Nuno Pereira

em favor de seu cuidado,

ajudando seus pre‑

curadores.

 

 

Narciso, Mancias morrerão

de soo cuidados vencidos!

Oh, quantos ensandecerão

mui sesudos, que perderão

com cuidados seus sentidos!

A que se chama pasmar,

que cousa é esmorecer

senam querer abafar,

sem poder esfolegar?

E sospirar é viver.

 

 

Se o dissesse Oriana,

e Iseu alegar posso,

diriam quem se engana,

que sospiros sam oufana,

cuidado, quebranto nosso.

Deriam: — Quem alegou

sospiros contra cuidado,

nunca bem se namorou,

ca o que a nós matou

mata todo namorado.

 

 

Se os que sam ja finados

e que d' amores morreram

podessem ser perguntados,

diriam que com cuidados

a vida e alma perderam:

a vida em esperando

com cuidados e tristeza,

e alma desesperando,

eles mesmos se matando

com cuidar qu' ee moor crueza.

 

 

O cuidado desbarata

todos grandes corações,

e os aperta e os mata

com fantesias que cata

de desvairadas paixões.

Mas ond' ele anda manso,

que sospiros de si manda

j' el' entam em si abranda,

sospiros vêm por descanso.

 

 

Sua a Jorge da Silveira.

 

 

Diz-m' a mim meu coraçam,

porque m' a isto nam calo:

— Pera que vos dou rezão,

pois vos nam chega paixam

deste cuidado que falo?

Ca se vos ele apertasse

assi como m' ele aperta,

e o vosso assi penasse,

dirieis que se julgasse

o cuidar por morte certa.

 

 

Trova sua à dita senhora.

 

 

Cuidado de minha vida,

vos chamo sempre por nome,

daqui vossa mercê tome

s' haa i cousa mais sobida

qu' a cousa que se vos chama

por milhor nome que posso,

ora vede se é vosso

quem de vós mesma brasfama.

 

 

Cantiga sua à dita senhora.

 

 

O cuidado mui sentido,

donde morte se m' ordena,

é qu' havês de ter marido

e eu sempre minha pena.

 

 

E naquisto contemprando,

vai crecendo desconforto,

que desmaio em cuidando

e caio mil vezes morto

e fora de meu sentido,

com tal morte qual s' ordena

pera mim ver-vos marido

sem vós verdes minha pena.

 

 

Começão as razões por parte

do sospirar contra o cuidado

e logo Francisco da Sil‑

veira, precurador

de seu irmão.

 

 

S' achardes quem bem descarne

as raizes do amar,

dir-vos-am que sospirar

é partir alma da carne.

Pois sede bem conselhado,

nam apodês o cuidado

com sospiros que sam morte,

nem ha i quem nos comporte

senam fino namorado.

 

 

Nam vos engane cuidardes

que sabeis alegações

nem que valem taes rezões

polas bem aperfiardes.

Porque quem ha-de julgar

nam n' havês vós d' enganar

nem lhe fazer entender

preto branco parecer,

nem bom vosso aperfiar.

 

 

Porque sospirar nam vem

senam ja de nam ter vida,

o cuidar cous' ee sabida

qu' outros cem mil furos tem.

De mil cousas vem cuidar,

assi com' ee demandar

morgados e dar libelo,

entam fazer parte delo

pera vir ao contestar.

 

 

Nam vos alego passados,

ca bem craro é de saber

que com sospiros morrer

é ja certo aos namorados.

Mas alego-vos comigo

que des que amores sigo

sempre neles andei morto:

cuidar trazia conforto,

sospirar morte consigo.

 

 

Trova sua à dita senhora.

 

 

Se mercê fazer querês

em al, seja a meu cunhado,

mas vir de maes namorado

sospirar nam lhe tirês.

Ca primeiro vem cuidar

e pós ele o esmaiar,

entam logo o sospiro

que é, senhora, ũu tiro

que faz vidas apartar.

 

 

Trova sua ao Coudel-moor em

que lhe pede ajuda a seu

cabo neste feito, em

favor do sospirar.

 

 

Por cessar esta conquista

sobr' esta perfia nossa,

compre-nos ajuda vossa

por a cousa ser maes vista.

E por isto, senhor, queira

vossa mercê ter maneira

como nos aqui ajude,

ca visto é que mal concrude

seu cuidar Nuno Pereira.

 

 

Cantiga sua contra estes que

aperfiar querem contra

os sospiros.

 

 

Galantes mal namorados,

que fordes contr' oo que sigo,

inda vos veja tratados

de sospiros tam queixados

com' eu sam de quem nam digo.

 

 

Sequer por ficar vingado,

quando vir alguem queixar,

dir-lhe-ei: — Mao namorado,

porque escolhestes cuidado

contr' ò triste sospirar?

Veja-vos todos tomados

nam d' amigas, mas d' emmigo

e assi galardoados

das por que vivês penados,

com' eu sam de quem nam digo.

 

 

Começa o Coudel-moor suas

razões por parte do sospirar

contra o cuidado, ende‑

rençando sua fala à

dita senhora.

 

 

Poes me convem que precure

por quem vida tem sogeita,

vossa mercê me segure

que sa crueza nam dure

a me ser nisto sospeita.

Ca eu nam me maravilho,

pois o feito j' assi vai,

de nam dardes fee ò pai

de quem morto havês o filho.

 

 

Polo qual s' aqui acudo,

é por ser mais que forçado,

pois paixões pelo meudo,

sospirar, cuidar e tudo

é por vossa mão lançado.

E como quem ambos sente

diz que pode estar cuidar

soo per si, mas sospirar

nunca soo, mas juntamente.

 

 

Contra o que Dom

Joam alegou.

 

 

E vós, senhor Dom Joam,

qu' alegaes contr' esta parte,

sei que ja vistes questão

que dava, sem dar paixam,

cuidado grande que farte.

E vistes quem s' alegrasse

com cuidados que cuidava,

mas nam ja quem sospirava

que com prazer sospirasse.

 

 

Algũus indo caminhando,

cuidando fora de tento,

que fazês? lhe preguntando,

respondem: — Ia cuidando

em mil castelos de vento.

Mas fazendo tal questão

onde sospiro se pousa,

responde: — Por ũa cousa

que me chega ò coração.

 

 

Contra o que disse

Joam Gomez.

 

 

E vós que de trovador

qu' alentaes os trovadores,

como daes, vós, meu senhor,

ò cuidado mais primor

qu' ò sospirar nos amores?

Que, se vós bem esguardais,

vós sospiros nunca vistes

senam com amores tristes

quando dam penas mortais.

 

 

Cuidados, como sabês,

certo cousas sam geraes,

cuidados achá-los-ês

no comprar, quando compraes,

no vender, quando vendês.

Se mandaes cousas a Frandes,

cuidado faz segurar,

mas d' amores carregar

retorna sospiros grandes.

 

 

Quem cuidado quer contar,

cuidar é lançar em renda,

cuidar é vida tomar,

cuidar é sempre cuidar,

cuidar, cuidar na fazenda.

Cuidado tem quem tem brigas,

cuidado quem tem demanda,

outro cuidado se manda

com prazer, não com fadigas.

 

 

Mas nam é ja cousa nova

sospirar com mal d' amores,

ca u se paixam renova,

sospirar me lev' aa cova

com seus grandes desfavores.

Sospiros tristes, que vêm

refinando dos sentidos,

trazem seus pendões tendidos

pela fee que vos nam têm.

 

 

Contra o que disse Nuno Pereira.

 

 

Vós cunhado, qu' alegastes

Narciso, tambem Mancias,

nam sei u lhe vós achastes

ou como cuidar cuidastes

que fez acabar seus dias.

Mas tu, sospirar, que cortas

alma, bofes, antredanhas,

nam alegas com estranhas

testemunhas que sam mortas.

 

 

Alegais-me vós Iseu

e Oriana com ela,

e falaes no cuidar seu

como que nunca li eu

sospirar Tristam por ela.

Milhor vos posso alegar

quem diz meos males sobidos

es fazer los mis gemidos

y sospiros esforçar.

 

 

Mas por nam ir maes ò cabo

do falar com nossos males,

nisto soo convosco acabo,

que diss' outro, nam por gabo,

sospiros, ansias mortales.

E assi que se vos cata

cuidado vida segura,

lembrando sa fremosura

sospirar por el[e] mata.

 

 

Com as quaes rezões concluso

vaa, senhor, o rezoado,

e acharês nele confuso

quem cuidado tem por uso

se nam tem maes que cuidado.

Mas ser morte mui inteira

sospirar negar nam posso,

e ser visto pelo vosso,

vosso Jorge da Silveira.

 

 

Do Coudel-moor à dita

senhora por fim de

seu rezoado.

 

 

Pois vossa grã fremosura

nos pôs todos em cuidado,

conheça quem tem tristura

que por sa desaventura

sospiros lhe daes de grado.

Ca por lei dos amadores

o cuidar sospirar ponho,

cuidar é cuidar no gronho,

sospiros, vivos amores.

 

 

Cantiga que dá o Coudel‑

-mor por maes decra‑

raçam do sos‑

pirar.

 

 

Do cuidar que dá cuidado

sem com ele sospirar,

ser de pouco namorado

é cuidar.

 

 

Quando cuidado s' aviva

em tempos que dá paixam,

dá o triste coraçam

sospiros em voz esquiva.

Mas estar deles calado

mostra sem paixões estar

ou de pouco namorado

se cansar.

 

 

Segue-se ũa protestaçam que

fez o Coudel-moor, porque lhe foi

dito que algũus eram roga‑

dos de fora, que aju‑

dassem contra os

sospiros.

 

 

Honrado tabaliam

ou escrivam,

qualquer que soes deste feito,

por guarda de meu dereito

vos dou esta pitiçam.

E faço requerimento

que assentês com bom tento

neste auto que s' esguarda

e com todo ũu estormento

me darês por minha guarda.

 

 

E com isto vos repito

ser-me dito

d' algũs grandes trovadores,

que vêm como valedores

escrever ou têm escrito.

digo que nam queiraes

assentar nem escrevaes

cousa que vos dada seja,

que mui bem o nam vejaes,

qu' eu primeiro o nam veja.

 

 

E des i logo no meo,

qu' hei raceo

de vir Jorge d' Aguiar,

que me mata seu trovar,

quando suas cousas leo.

E porem sede avisado

não vos tome salteado,

mas abri mui bem o olho,

e aqui vos solto cuidado,

e o sospirar vos tolho.

 

 

De Jorge d' Aguiar, que deu ajuda

em favor do cuidado con‑

tra o sospirar.

 

 

Ante tanta fremosura,

ante saber tam sobido,

ante quem siso s' apura,

hei por mui grande baixura

de bater no ja sabido.

Que pera sua mercê

haver de ser acupada

no que tam craro se vê,

no que todo mundo crê,

hei por cousa mui errada.

 

 

Cuidado faz nam dormir,

cuidado faz nam comer,

cuidado faz nunca rir,

cuidado ensandicer,

cuidado nam ter prazer.

Cuidado dá mil paixões,

cuidado dá mil cuidados,

cuidado mil corações,

cuidado mil namorados

tem feito desesperados.

 

 

Cuidado suas folganças

são em muito sospirar,

cuidado suas bonanças,

todo seu desabafar,

é em mil sospiros dar.

Sospiros sam testemunhas,

sospiros sam pregoeiros,

sospiros sam caramunhas

dos cuidados e marteiros

dos amores verdadeiros.

 

 

Mas quem pode sospirar

vai de pena j' alivando

e quem nam pode falar

em cuidando e maginando

vai seus dias acabando.

Assi que quit' à primeira,

pois soes tam namorado

que falaes contr' ò cuidado,

senhor Jorge da Silveira,

mas nam quita à derradeira.

 

 

Muitos vi esmorecidos

cair de grandes cuidados,

com sospiros e gemidos,

qu' ee sinal de ressurgidos,

os vejo sempr' acordados.

Assi que cuidado mata

e sospirar aviventa,

e, s' aquesta nam contenta,

nam sei quem maes rezam cata,

poes vos esta tanto ata.

 

 

Vede bem que perdiçam

vem de cuidado sofrer,

olhai bem por Dom Joam

que jaz ja pera morrer

soo de gram cuidado ter.

E por verdes que cuidado

traz consigo curta vida,

nunca vistes descuidado

que lha nam visseis comprida

mais que todos sem medida.

 

 

Cantiga sua que daa

contra os sospiros.

 

 

Sospiros nam me prasmeis,

pois soes todos fengidores,

dizer-vos que merecês

nunca ser cridos d' amores.

 

 

Com braados desentoados

cuidaes de me fazer crer

que vindes de namorados,

que vindes de padecer.

Ja me nam enganarês

dinos de mil desfavores,

pois sei que nunca nacês

senam dos maes fengidores.

 

 

Do Coudel-moor em forma

d' arrezoado por parte do

sospirar, em que res‑

ponde a estas de

Jorge d' Aguiar.

 

 

Vossas copras receando

tinha feitos meus processos,

mas pois se vem devulgando

pelo que m' is alegando

revolver compre Dejestos.

Que certo voss' alegar

vai per maneiras fundado,

que cuidar fará cuidar

que precede oo sospirar

u nam for bem esguardado.

 

 

Fundastes em dardes nome

de mil modos ò cuidado

s' i ha quem vos assome

far-lh' -ês qu' um espanto tome

que fique com' assombrado.

Mas olhando a qualidade

deste negro sospirar,

acharês ũa verdade

de ũa conformidade

qu' ee ja maes que recuidar.

 

 

Alegaes que o cuidar

em sospirar tem folgança

pois como pode matar

o cuidar, poes seu folgar

tam prestesmente se alcança?

Tambem dizês qu' esmorece

quem sofre grande cuidado

mas isto mas s' acontece

em quem se trata padece

se vê do braço sangrado.

 

 

Mas posto, nam outorgado,

que com cuidar s' esmoreça,

vejamos: nam jaz folgado

quem nam sente seu cuidado

nem dor grande que padeça?

Pois quando lhe vem a vea

que se torna sensetivo,

sospirar, com que descrea,

lhe dá tanta maa estrea,

qu' é milhor morto que vivo.

 

 

Qu' assi daqui concrudo

que sospirar tem o cume,

e qu' amores tenham tudo,

sospirar pelo meudo

de paixões faz moor velume.

Nam dá vida, mas dá morte,

nem folgar, mas dá tristezas,

sem azar nunca faz sorte,

faz o mal brando mui forte,

todo seu bem são cruezas.

 

 

Sua à dita senhora.

 

 

Senhora, grande senhora,

que poder tem sobre tantos,

lance cuidados de fora,

poes sospiros em fort' hora

têm consigo taes quebrantos.

Mande-nos vossa mercê

julgar esta deferença,

ca pois s' a verdade vê,

senhora, mandar querê

que nos dêm nossa sentença.

 

 

De Dom Joam de Meneses

em modo de repricaçam,

por parte do cuidar

contra o sos‑

pirar.

 

 

Senhor Jorge da Silveira,

n' ũa copra dizês vós:

cuidar é cousa primeira,

pola qual à derradeira

vós mesmo falaes por nós.

Que pois primeiro cuidamos

chamaremos o cuidar

e os sospiros ũs ramos

de tristeza que levamos

em cuidar.

 

 

Vosso irmão anda devoto

de ser contra o qu' eu falei,

mas eu juro e faço voto

que lhe vi trazer por moto:

Cuidado, que vos farei?

Mas des que se lhe casou

por quem vevia penado,

sospirou pelo passado,

e despoes que sospirou

nam sentio mais o cuidado.

 

 

Suas enderençadas

ao Coudel-moor.

 

 

Se por alegar cantiga

cuidaes de vencer por arte,

inda tendes mais fadiga,

que convem, senhor, que diga

das que sei por minha parte.

Porem quero que saibaes

que, se fosseis namorado,

rerieis das que falaes,

que sei que vos nam lembraes

del dolor de mim cuidado.

 

 

E outra tenho guardada

pera vossa perdiçam,

a qual foi tam bem cuidada

que parece qu' ee tirada

do meu triste coraçam.

Com esta sam eu perdido,

com esta será ganhado

quem for do nosso partido:

mins querelhas he vencido

siempre me venc' el cuidado.

 

 

Pelo qual de vós m' espanto,

poes vós soes o mesmo paço,

e sabês qu' ee tal quebranto

o cuidar que nam doe tanto

a morte com gram pedaço.

E meus cuidados estranhos

alegar por si enviam,

por todos ficardes manhos,

que sospiros dam tamanhos

na rua onde nam fiam.

 

 

Mil bocijos vi quebrados

em sospiros, que mostravam

ser do coraçam tirados,

mas aqueles que os davam

sospiravam d' enfadados.

Vi mais dama falsamente

sospirar, mas sospirava,

porque se nam despejava

a casa de toda a jente,

por se ir quem lhe falava.

 

 

Dom Vasco mil dados tem

por minha senhora e filha,

de vossa mercê tambem,

mas nam será maravilha

querer-lhe eu muito moor bem.

E ela, se d' enfadada

estando cos servidores,

sospira pola pousada,

levantai qu' ee namorada

ou que vem isto d' amores.

 

 

Sua às damas.

 

 

Senhoras, pois sospiraes

por pexegos, por melão,

por peras, figos orjaes,

marmelos, uvas ferraes,

aas vezes por queijo e pam,

confessai que quem sospira

nam faz nada,

que sospiros sam mentira,

cuidar, dor que se nam tira

sem ser muito bem cuidada.

 

 

Cantiga sua em favor

do cuidado.

 

 

Levo gosto em padecer,

levo gosto em sospirar,

levo gosto em me perder,

mas cuidar no qu' ha-de ser

d' antemão me quer matar.

 

 

Mas nunca farei mudança,

porque quanto mais penar

tanto mui maior lembrança

leixarei, quando leixar

vida tam sem esperança.

Cuidar faz adoecer,

cuidado desesperar,

cuidado me faz morrer,

mas porem torno a viver,

como posso sospirar?

 

 

Responde Francisco da Silveira

ao moto que lhe apontou e

às cousas passadas que

lhe alembrou.

 

 

Renovar dores passadas

escusareis, Dom Joam,

por m' as nam dardes dobradas,

que assaz tenho levadas,

sofridas sem galardam.

Metestes mais ũu casar

de por quem vivo nam ando,

por maes asinha fundar,

a quem, soo por lhe lembrar,

sospiros lh' estão tirando.

 

 

Inda vós nam sabês bem

que dores fazem lembranças,

quando se fazem de quem

nenhũu remedio ja tem,

mas antes desesperanças.

Se vós foreis namorado

tanto com' eu sam perdido,

nam m' alembreis passado

por vos eu contr' ò cuidado

neste preito ter vencido.

 

 

Pera nam serdes tachado

por nam ser vosso louvor,

se quisereis, por cuidado,

em outra guisa alegado

fora sem me dardes dor.

Mas com' a quem se recea

da maa querela que tem,

passada paixam nomea,

com que meu siso rodea

a me nam lembrar ninguem.

 

 

Dizês, senhor, que mandei

moto ja em que dezia:

Cuidado, que vos farei?

Por ele vos provarei

qu' ee boa minha perfia.

Preguntava que faria

o cuidado, nam sospiro,

porque o cuidar sabia

que remedeo se daria,

mas nam o com que sospiro.

 

 

Se por me lançardes fora,

cuidastes que vencereis,

fostes lá mui em fort' hora,

pois ficaes com quem nũ hora

vos fará crer o que mal crieis.

Mas aqui nam presta manha

que cuidaes vencer por arte,

buscai-lh' outra dor estranha,

que lhe dê pena tamanha,

que vos leixe sua parte.

 

 

E entam des que ficardes

vós e quem todos sõoes ũs

poderês, des que cuidardes

e vos bem aconselhardes,

sospiros dar por nenhũs.

Ca despois que juntos fordes,

sem contra vós ser ninguem,

poderês tirar e poerdes

e nam fazer, mas despoerdes

do dereito a quem o tem.

 

 

Sua à dita senhora, em que

lhe pede vingança de

Dom Joam.

 

 

Quis Dom Joam alegar

quem cem mil dores me deu,

por m' os sentidos trovar

e me fazer desviar,

senhora, o prucurar meu.

Peço-vos dele vingança

e leixo o mal de meu irmão,

ca por me fazer lembrança

de quem perdi esperança

me cae a pena de mão.

 

 

Do Coudel-moor em que res‑

ponde ao que disse Dom

Joam contra ele e dá

estas em favor do sospirar.

 

 

Pois quisestes repricar

com querelas alegardes,

e querês arrapiar

o cuidado e o cuidar

pera o mais arrapiardes,

sospirar alegaraa

o triste que sabereis

que dezia entrai laa:

― Sospiros, leixae-me jaa,

com meu mal nam me mateis.

 

 

Sospirar está provado

que nunca traz interesse,

mas traz mal continuado

que brada desesperado:

― Oh quem vista nam houvesse!

Pera meus danos dobrados

cada dia me convida

e diz sobre meus cuidados

com sospiros tam forçados

darem cabo a minha vida.

 

 

Ũu falar nam mui donoso

cab' aqui, pois o quisestes:

quando and' algũu cuidoso,

diz por ele o gracioso:

― Vós, que carracas perdestes?

Mas s' o sospirar dobrado

vejo andar com desfavores,

digo cá em meu calado  

s' anda bem apassionado

aquele com seus amores.

 

 

Du nam fiam, nam fiêes,

nam recebo aqui tal prova,

mas das damas que dizeis

respondo que ja sabeis

qu' a mais doce maes emnova.

Quem sospira por pousada

tem pesares do serão

ou paixam sobr' agastada,

pelo qual nam desfaz nada

o feito de seu irmão.

 

 

Do Coudel-moor à dita senhora,

em que lhe pede outra

vez sentença pelo

sospirar.

 

 

O que vos, senhora, digo,

olhe vossa fremosura,

com sospiros m' afadigo,

porque dobram quando sigo

minha moor desaventura.

E pois ser nam é cuidado

o sospiro nem chegar,

saia deste processado

o de todas e mandado

que os mate o sospirar.

 

 

Cantiga do Coudel-moor em favor

do sospirar, pelos mesmos con‑

soantes da que fez Dom

Joam em favor do

cuidado.

 

 

Por meu triste padecer

me mata meu sospirar,

mas que me veja perder,

cuidando que pode ser,

nam m' acabo de matar.

 

 

Nam posso fazer mudança

das forças de meu penar,

mas vem-me triste lembrança

por sospiros nam leixar,

leixando minha esperança.

Faz-m' assi adoecer

contino desesperar,

que vida m' ee ja morrer

e nam por vida viver

com tal mal de sospirar.

De Pero de Sousa Ribeiro,

ajudando o sospirar.

 

 

Eu nam posso falar mal

naquisto que sam chamado,

pois sospiros e cuidado,

tudo tam mal empregado,

em mim nunca vejo al.

E porque o sei tam bem,

digo, como quem o sabe,

que cuidados cousas tem

que no sospirar nam cabe.

 

 

No cuidado ha cuidar

em mim tem acontecido

que quem muito prefiar

e servir sem anojar

haveram dele sentido.

Vede camanho conforto

tem quem se quer enlear,

mas o triste sospirar

é oficio d' homem morto.

 

 

Aqueste nam dá vagar

pera mil confortos vãaos,

este nam leixa folgar,

este é o que matar

vai assi com suas mãaos.

Aqueste nam tem parceiro

pera ser aconselhado,

toma logo o mal primeiro,

que nam faz o cuidado.

 

 

Sua a Nuno Pereira.

 

 

Vós, senhor Nuno Pereira,

sede mui arrependido,

o qu' aqui tendes metido,

por nam ser todo perdido,

dae com el' em outra feira.

E se nam achardes venda

da perfia que tomastes,

eu vos quito a emmenda

pois j' o trabalho levastes.

 

 

Cantiga sua em favor do sospirar.

 

 

Nam queira ninguem falar

em falar tam escusado

como dizer qu' o cuidado

é igual do sospirar.

 

 

O cuidado é gram prazer,

que prazer é ter espaço

em qu' homem possa dizer:

— Quanto mal nisto a mim faço!

E por isto escusar

deve qualquer namorado

de dizer que o cuidado

é igual do sospirar.

 

 

De Nuno Pereira à dita senhora,

em que pede por estas copras

de Pero de Sousa lhe

dêm a seguinte

pena:

 

 

Nam ha i nenhũa cousa

em que se graça nam meta,

provo pela chanceleta

que meteo Pero de Sousa.

E pois vossa mercê mede

e a todos dereito guarda,

posto qu' ele a nam pede,

dê-se-lhe porem albarda.

 

 

Sua a Pero de Sousa, porque disse

que os sospiros tinham mãaos

com que se matavam e que

fosse vender o cuida‑

do a outra feira.

 

 

Em ũa copra metês

ũa soo rezam que ata;

ha mester que a provês,

pois que sospiro dizêes

que tem mãaos com que se mata.

Dai testemunha jurada,

e nam falês por semelha,

vestis-lhe capirotada,

ou saio com enseada,

ou sombreiro com guedelha.

 

 

I buscar quem vos entenda,

que eu nam sam tam letrado,

que tam alto me estenda

em saber como se venda

em canastras o cuidado.

Como se pode fazer

per alqueires tal medida?

Como se pode vender

o cuidado sem a vida?

 

 

Nem é falar de galante

qu' em cuidado venda caiba,

vossa morte querê ante

que por Dona Violante

ũa tal cousa se saiba.

Fazês do paço mercado,

isto nam no saiba El-Rei,

pelo vosso calar-m' -ei

por nam serdes degradado.

 

 

Sua à dita senhora, em

que faz por sua parte

o feito concruso.

 

 

Vejo tam grande processo

e tam gram prolixidade,

que d' enfadado ja cesso

alegar mais na verdade.

Vá o feito ja concruso

ante quem morte m' ordena,

Jorge da Silveira acuso,

cuidado lhe dêm por pena.

 

 

Do Coudel-moor à dita senhora,

sobre ũ correo que de deos do

Amor lhe chegou a gram

pressa, por vir ante

de se dar senten‑

ça neste feito.

 

 

Tendo ja meu rezoado

pera mais nam rezoar

e assaz bem decrarado

como nam chega cuidado

pelos pees ò sospirar,

da corte d' Amor me veo

ũu correo

sobr' este feito, a gram pressa,

com estas copras que leo

com receo

de se nam tornar avessa.

 

 

Seguem-se as copras com que chegou

este correo, que logo deu e foram

vistas pola dita senhora a

quem vêm ende‑

rençadas.

 

 

Deos d' Amor em sa cadeira

cos de seu conselho estando,

vendo Jorge da Silveira

andar com Nuno Pereira

em seus males altrecando,

sabendo qu' esta perfia

ante vós s' aderençava,

quis dar forma todavia

como vossa senhoria

visse o que determinava.

 

 

Chamou logo ũ sacretareo,

o mais fiel que achou,

e mandou fazer somario

costante, nam voluntareo,

do que se determinou.

O qual logo em comprimento,

porque seu servir s' alegue,

pera vosso avisamento,

senhora, fez ũu assento

da cantiga que se segue.

 

 

Cantiga que o secretareo

de deos d' Amor fez por seu

especial mandado, pera

mais decraraçam

deste auto.

 

 

Sospiros, gram sospirar,

é cousa tanto d' amores

que s' enganam fengidores

com eles par' enganar.

 

 

E por estes qu' assi ousam

fengir verdades, decraro

que sospiros custam caro

onde seus males se pousam.

Pois que mais autorizar

querês este mal d' amores,

pois sospiros sam senhores

de matar com seu matar?

 

 

De Nuno Pereira em modo

de petiçam à dita senhora,

porque lhe foi dito que

a parte contraira

dava enforma‑

çam de fora.

 

 

Foi-me caa dito, senhora,

que o qu' ee contra mim parte

vem com petiçam de fora,

por mostrar que quer agora

meter outros modos d' arte.

Quer demanda perlongada

por se mostrar mais agudo,

eu nam dou por isso nada,

nam seja cousa assentada

sem haver vista de tudo.

 

 

Seguem-se mais ũas rezões que

deu Nuno Pereira, provando

a sua parte do

cuidado.

 

 

Quem s' algũas vezes vio

nũ cuidar cotemprativo,

se o muito perseguio,

diga que pena sentio,

se se vio morto ou vivo.

Ou se se nele lembrava

de cousa qu' entam fazia,

quando em gram cuidar estava,

se lh' alguem entam falava,

se somente respondia.

 

 

É morte nam conhecida

causada de gram paixam,

o cuidado encurta vida,

qu' ee ũa chama encendida

em que arde o coraçam.

Sospiros pelo contrairo,

pois donde cuidado estaa,

acudem por dar repairo

à dor grande que lhe daa.

 

 

Disse-me que me guardasse

o Doutor Mestre Rodrigo

de cuidar e que cuidasse,

s' o cuidado me tomasse,

qu' era jaa morte comigo.

Ca cuidar nam no curava

fiseca nem solorgia

e mais se o dama dava

que servir-la nam prestava

leixar nam na podia.

 

 

Cantiga sua que oferece

à dita senhora com

estas rezões

alegadas.

 

 

Que saibaes que ũ de nós,

senhora, por vós sospira,

do cuidado qu' ele tira,

eu o tenho ja por vós.

 

 

Eu o tenho ja, senhora,

pera nele padecer,

quem se dele tira fora

maes deseja de viver.

Qual merece mais de nós:

ele, enquanto sospira,

ou eu, de quem se nam tira

cuidado que vem de vós?

 

 

Do Coudel-moor à dita senhora,

sobre ũas testemunhas que

houve despois do feito ser

concruso, as quaes daa

em favor do sospirar,

em modo d' enfor‑

maçam.

 

 

Senhora, valha-me Deos,

valha-me vossa mercê,

valê-me, senhora, vós,

poes meu agravo se vê.

Ũa testemunha tenho

que, no caso desta afronta,

fará muito a meu dereito,

e pois inda a tempo venho,

pagarei todo o que monta,

mandai-a assentar no feito.

 

 

Nam corre nela perigo

de lhe porem sospeiçam,

faz muito aquele artigo

que fala do coraçam.

É dina de receber,

pois que quando morrer quis

bradava: — Mataime ja

nem me leixeis mais viver,

sospiros, pues que venis

du min coraçam está.

 

 

E por mais decraraçam

dos sospiros serem pena,

vos alego a Definçam

d' amores per Joam de Mena,

a qual diz em seus decretos,

por seus males concrodir

e amores decrarar:

Sam dulces males secretos,

ũu sospirar e gemir,

ũu vergonçoso lhorar.

 

 

Outra tinha pera dar

que, se eu tempo tivesse,

poderia bem provar

por ela quanto quisesse.

Mas vossa gram descriçam

sente s' ee maes padecer

o cuidar se sospirar;

qu' ee parte de perfeiçam

senti-lo sem no saber,

sabê-lo sem no gostar.

 

 

Cantiga sua que daa com

o dito das testemunhas

à dita senhora, em

favor do sospirar.

 

 

Sospiros nom podem ser

sem ser cuidar,

cuidados se podem ver

sem sospirar.

 

 

Assi que sospiros logo

têm seu mal e o alheo,

nem é meu cuidado cheo,

se sospiros lhe revogo.

Cuidar se pode manter

sem sospirar,

mas sospiros nunca ser

sem ser cuidar.

 

 

Desembargo posto per mandado

da dita senhora nas costas desta

enformaçam e razões que

por parte do sospirar

foram dadas.

 

 

Estas rezões que se dam,

e s' algũa mais se der,

tod' assente o escrivam,

diga mais quem mais quiser.

 

 

Trovas do Coudel-moor ao escrivam

do feito, requerendo que assente no

feito as de Joam Gomez que

deu por o cuidado, por‑

que s' espera ajudar

delas em favor

do sospirar.

 

 

Os da lide contestada,

s' escrivam têm boom por marco,

crêm-no como ũ Sam Marco

avangelista formada.

Ca nam mingua nem acrecenta,

nem risca, nem tira folha,

as partes ambas contenta,

igualmente tudo assenta,

porque falso nom acolha.

 

 

Porem deveis assentar

neste auto, neste mero,

ũas trovas, ũ trovar

de Joam Gomez, que foi dar,

das quaes m' ajudar espero.

Pois logo com a reposta

assentai todas aquelas,

por vermos onde s' acosta

quem cuidar, sospirar gosta

ou quem mais provar por elas.

 

 

Seguem-se as trovas de Joam Gomez

por parte do cuidado, as quaes

andavam de fora do feito e a

requerimento do Coudel‑

-moor foram tor‑

nadas a

ele.

 

 

Senhor Coudel-moor, cuidaes

por fazerdes muitas cobras,

com mil graças que falaes

que nos encalameaes

outras verdadeiras obras.

Mas com falar e falar

sem concludir,

e trobar e mais trobar,

mal vos vejo decernir

cuidado sospiros dar.

 

 

Onde vós virdes desejo

que desejo deva ser,

posto que seja sobejo,

quer com pejo quer sem pejo

sospiros podereis ter.

Causa de s' isto provar

é devulgada:

se deleite es desear,

quanto más ser deseada,

esta nam podeis negar.

 

 

E vós sospirar meteis

em caso de baronia,

e sospirar defendeis

e que seja, vós quereis,

de Pedro quer de Maria.

O galante por quem ama

se desvela,

com cuidado e por fama

poderá sospirar dama

por quem seu sentido vela.

 

 

Mesturastes os cuidados

d' amores da salvagina

nesses vossos razoados,

os meus nom tendes gostados

nem sabês sua doutrina.

Cuidado é de tal raça

e nacimento

que se nam sofre de graça

e quem s' apoja mal caça

nô s' ha pôr a barlavento.

 

 

Vós quisestes desfazer

no mal que faz o cuidado,

e quereis-me encarecer

o sospirar e gemer

e o mal deles causado.

Mas a verdade falar,

pois nam empolga,

deve-se de confessar

qu' este vosso sospirar

nunca quebra nem amolga.

 

 

Polo qual desenganae

quem vos trouxe esta questam

e vossa teima leixae,

mas saib' este que vos cae

em estreita obrigaçam,

por lhe dardes desenganos

do que faz

e conheça seus enganos,

confessando-nos os danos

que cuidado sempre traz.

 

 

Do Coudel-moor em que res‑

ponde a estas de Joam

Gomez, em favor

do sospirar.

 

 

Vosso sobido trobar

meu saber todo desmancha,

mas cuidai que com cuidar

quanto mais quereis cortar

tanto mais feris de prancha.

Dizeis que vossos cuidados

nunca repousam nem folgam

e entam bem aprefiados

quanto mais examinados

sospiros menos amolgam.

 

 

Nam vos presta que digaes

cuidados dam muita pena,

nem que sam males mortaes,

se o nam autorizaes

per teistos de Joam de Mena,

d' Estunhiga ou Aguilar,

ou per bos termos e meos,

ca vos nom val alegar

sem o alegado provar,

disto sam os livros cheos.

 

 

Dizeis-me que faz desejo

sospiros acrecentar,

eu confesso se lhe vejo

por tempo curto, sobejo,

vir algũ desesperar.

E pois ser desesperado

os sospiros desatina,

em tempo tam mal gastado

sospirar d' alma lançado

em paixõoes se determina.

 

 

Co desejo qu' alegaes,

daes pedrada em vosso escudo,

porque quando desejaes

se vos nisso deleitaes

de vós mesmo vos concludo.

Pois deleite é desear,

argumento é de fazer,

cuidado traz desejar,

desejo traz deleitar,

ergo cuidado, prazer.

 

 

Das outras partes m' escuso

por nelas mais nom dobrar,

sospirar vos tem confuso

per custume e per boom uso,

per antiga posse estar.

Per boa confirmaçam

que temos de Joam de Mena,

Joam Rod[r]iguez del Padram,

Manrique e quantos sam

ham sospiros por moor pena.

 

 

Mas s' i ha quem crer se peja

estes doutores modernos,

porque mais craro se veja

creamos a Santa Egreja,

que segura dos infernos.

Pois olhai, quando rezamos 

a nossa Salve Regina

nam diz ela em ti cuidamos,

mas diz a ti sospiramos,

por a causa ser mais dina.

 

 

Trova sua que daa por cabo de seu

razoado, em que concludindo

pede à senhora que lhe

mande dar sua

sentença.

 

 

Que digaes que deite a longe

meus ditos de papassaal,

porque disso estou mui longe,

quando vos meterdes monge,

cuidarei que disse mal.

Mas peço com reverença

à senhora que nos cumpra

de justiça com femença

e nos mande dar sentença

que torno pedir ut supra.

 

 

Cantiga do Coudel-moor, que

dá com este seu razoado

por mais decraraçam

do sospirar.

 

 

Cuidando remedear-me,

nom sinto tanto perder-me,

desesperando valer-me,

sospiros querem matar-me.

 

 

Em meus males ter sahida

cuidando tenho descanso,

e cuidando minha vida

poder seer restetuhida,

com minhas paixõoes amanso.

O cuidar faz consolar-me,

se cuido poder valer-me,

mas u nam sei socorrer-me,

sospiros querem matar-me.

 

 

Desembargo que a senhora man‑

dou pôr no feito, pera satis‑

fazer ao dito das par‑

tes, antes de dar

sentença.

 

 

Se mais querem rezoar

sobelo qu' ee alegado,

dê-se a vista ò cuidado

e despois ò sospirar.

 

 

De Dom Joam rezoando con‑

tra o sospirar, pedindo à se‑

nhora que nam desse sen‑

tença até ele nam seer

sam e nam dar lu‑

gar a prova.

 

 

Senhora, qu' a castelhanos,

senhora, qu' a portugueses,

a poder de desenganos

a vida de muitos anos

lhe tiraes em poucos meses.

Estou cos pees pera a cova,

por isso nam faço trova,

mas visto minha doença

nam devês de dar sentença

té nam dar lugar a prova.

 

 

Pai e filhos mui perfeitos,

que saiba poucos dereitos

e poucas alegações,

sinto todalas paixões

que sam provas de taes feitos:

qu' em minha alma e minha vida,

em mim e meu coraçam,

jaz mais tristeza metida,

mais dores e maes paixam

do que pode ser sabida.

 

 

Mas por verdes qu' em amores

é cuidar das mores dores

qu' eles têm poder de dar,

sendo vós contr' oo cuidar,

fostes seus ajudadores,

qu' alegaes contra cuidados

algũs pontos mui falsilhos,

em qu' estaes tam enleados,

que poderês ser tomados

o pai e depois os filhos.

 

 

E se todos nam aponto

é por nam fazer ũu conto

muito moor qu' ò galarim,

se laa achardes a mim

em erro vá em desconto.

Porem soo pelo qu' entendo,

hei de vós, senhor, piadade,

porque em estas copras lendo,

sei qu' havês d' estar dizendo:

— Dai ò demo, diz verdade!

 

 

Contra Francisco da Silveira,

porque se queixou de lhe

lembrar cousas

passadas.

 

 

Vós, senhor irmão, de quem

ha todo meu mal por bem,

por fazer de vós penado,

chamaes-me mao namorado,

mas bem sei dond' isto vem.

Porem, pois vos faz penar

ver que voltas dam amores,

s' isto lembra com cuidar,

per aqui posso provar

qu' ee cuidar cume d' amores.

 

 

Que cuidar triste penando

faz lembranças do passado:

cuidar lembra o qu' ha-de vir,

sospiros sam ressurgir

da morte que daa cuidado.

Cuidado traz à memorea

memorea de mil tristezas,

tristeza vos dá por grorea,

porem grorea e nam vitorea

nunca dá contra cruezas.

 

 

E pois do cuidar s' ordena

grande dor e nam pequena,

vós bem me podês culpar

que vos dê em que cuidar,

mas cuidar vos deu a pena.

Pelo qual devês chamar

vós e quem vivês penado

oos sospiros descansar

do cançaço qu' ee cuidar,

mas a dor é o cuidado.

 

 

Cantiga sua à dita senhora sobre

Francisco da Silveira, que lhe

pede dele vingança, porque

diz que lhe fez cair a

pena da mão com

cousas que lhe

lembrou.

 

 

Senhora, pois que s' ordena

do cuidado grande pena

e o sospirar a tira,

conhecê que quem sospira

nam na tem senam pequena.

 

 

E quem diz que de paixam

lhe cae a pena da mão,

chamai-lhe mao namorado,

que quem tem algũ cuidado

vêm-lhe mil oo coraçam.

E por verdes que s' ordena

do cuidar dor nam pequena

e que sospirar a tira,

a todo homem que sospira

lhe verês cair a pena.

 

 

Enderença sua fala ao Coudel‑

-moor em favor do seu

cuidado.

 

 

Vós, senhor, a quem nam sabem

louvar vosso merecer,

vós, a quem por mais que gabem,

das vertudes qu' em vós cabem

as maes ficam por dizer,

cuidando ja qu' era morto

de paixam, de desconforto,

quisestes naquele feito

fazer do torto dereito

a quem tem dereito torto.

 

 

Mas por naquesta questam

sabêlo que sei agora,

fui tanto pela paixam

que cheguei ao coraçam,

em que todo pesar mora.

O qual cuidado matava,

o qual cuidado penava,

o qual de cuidar morria,

mas com quanto mal sentia

de si mesmo se queixava.

 

 

Vi que estava cercado

de tristezas e de dores,

de paixões acompanhado,

metido em gram cuidado,

cuidado triste d' amores.

Mas do que lhe preguntei

e da reposta que achei,

se quiserdes ouvir novas,

i lendo por estas trovas

e nelas vo-lo direi.

 

 

Pregunta sua ao coraçam.

 

 

Coraçam, que tantos dias

ha que vives tam penado,

que vivendo nam vevias,

coraçam, que o de Mancias

nunca foi tam namorado.

Coraçam, leal amante,

de quem te nam quer por seu,

coraçam, que, sendo teu,

és de Dona Violante.

 

 

Tu, que vives sem ser vivo,

tu, que morres de paixam,

tu, que sentes mal esquivo,

coraçam, triste cativo,

servo d' outro coraçam,

qu' ainda sejas amado,

sospirar, cuidar, coitado,

di qual has por moor tormento.

Respondeo qu' era um vento

sospirar peroo cuidado.

 

 

Preguntei porque fizerom

sospiros leixai-me jaa.

Respondeo: — Nam no dixeram.

S' eles minha dor tiveram,

mas nam na tem quem os daa.

Preguntei despois daquisto

de quem era tam malquisto,

quem lhe dava tal paixam.

Respondeo: — De ũ coraçam,

que nam sente nada disto!

 

 

Quis ver como defendia

sospiros, ansias mortales.

Respondeo sem alegria:

— Milhor disse quem dezia

ay mins cuidados i males!

Contei-lhe do gracioso

que preguntou ò cuidoso

quantas carracas perdera.

Respondeo que conhecera

nele que era cobiçoso.

 

 

Que cuidado nam soomente

entristece o namorado,

mas a toda outra jente

faz que viva descontente

como tem algum cuidado.

Mas a dama oo servidor

que quer fazer desfavor

promete pelo matar

que lhe dê em que cuidar,

porque esta ha por mor dor.

 

 

Sua por fim de seu razoado

contra os que procuraram

pelo sospirar.

 

 

E pois este coraçam

ha sospiros por prazer,

cuidados por gram paixam,

vós de ter outra tençam

vos devês de repender.

Porque nas cousas d' amores

por que sente tantas dores

nam devês d' aprefiar,

qu' ele deve de julgar

e vós ser precuradores.

Cantiga sua ao cuidado por

cabo de suas rezões.

 

 

Cuidado, quem cuidaria,

se jaa cuidou algum hora,

de ver o que vê agora?

 

 

Quem cuidou ver namorados

chamar pena oo sospirar?

Quem cuidou que vós, cuidados,

por verem que vão errados

lhe nam dês em que cuidar?

Cuidado, quem cuidaria

qu' o cuidado nam melhora

quand' homem sospira e chora?

 

 

De Francisco da Silveira, que

responde a este derradeiro

rezoado de Dom Joam,

no que tocou à sua

parte.

 

 

Vosso falso defender,

vosso mao aprefiar,

vosso nam vos conhecer

me fez por vós responder

de m' ora vivo tornar.

Nam vos nego que cuidado

sobre males nam faz mal,

mas o mal é mais dobrado,

quando sospiro forçado

se mete no caso tal.

 

 

Sua em que responde à cantiga

que diz que cae a pena

da mão a quem

sospira.

 

 

Em cantiga me metês

que cae a pena a quem sospira;

verdade grande dizêes,

pois com sospiro morrês

e a pena entam se tira.

O cuidado que doi mais

nam é mais que dar-vos pena,

cos sospiros vos finais,

com eles alma apartaes,

o mor mal deles s' ordena.

 

 

Mas vosso alvoraçar

é coraçam da pousada,

por saberdes bem trovar

cuidaes de fazer cuidar

que sospiros nam sam nada.

Vaa rir essa presunçam

nam chamar mais namorado,

pois nam tendes coraçam,

nem vos vejo ter naçam

de sofrer mais que cuidado.

 

 

Leixai, leixai os amores

per oos que neles morremos

com seus bravos desfavores,

com tantas, tam tristes dores,

como sempre neles temos.

Tomai prazer, pois podês,

folgai com vosso cuidar,

e cuidado tal trarês,

se viver muito querês,

que nam chegue ò sospirar.

 

 

Porque sem o sospirar,

cuidar havês qu' ee d' amores,

estes sam os do cuidar

sem o poderdes negar

os mores oito senhores:

será primeiro Latam,

o segundo Samuel,

o terceiro Salamam,

o quarto será Faiam,

o quinto Abravanel.

 

 

Namorado é Palaçano,

Gualite, tambem Jacee,

pois que cuidam todo anno,

mas cuidam em dar seu pano,

mais do que vaal a la fe.

Cuidam no arrendamento,

quando cuidam d' encampar,

e cuidam qu' ee perdimento,

quando cuidam que por cento

trinta é pouco ganhar.

 

 

Chamai tambem namorados

òs qu' andam por traiçam

fora do reino lançados,

pois deles nunca cuidados

saem mil do coraçam.

Dai ò demo este cuidado,

confessai que sospirar

é de tal guisa fundado

qu' ee do mal o mais dobrado

qu' ee d' amores o matar.

 

 

Quem sospira nam sospira

senam só com mal d' amores,

o sospirar que se tira

d' alma nunca traz mentira,

mas devulga mortaes dores.

Sam grandes penas mortaes

sam males sem refrigeiro,

sam dores mui desiguaes

d' amores sem ter remedeo.

 

 

Sospirar nam desaliva

como laa atras dizês,

mas antes paixões aviva,

a dor faz ficar mais viva

mui maior do que gemêes.

Prova-se, pois do sospiro

tal choro vem apos ele,

que se nele me consiro,

de meu mal nunca me tiro,

mas antes me moiro nele.

 

 

Sua que daa por fim do

arreezoado à dita

senhora.

 

 

Vejo estar ja tam provado

este triste sospirar,

tam visto, tam decrarado

qu' hei por tempo mal gastado

o que mais nisso gastar.

Pois queira vossa mercê

dar o seu a cujo ee,

que quem tem olhos e vê,

e nos sospiros nam crê,

é hereje em nossa fee.

 

 

Do Coudel-moor em que responde

ao que diz Dom Joam neste rezoa‑

do que deu contra o sospirar, e

primeiro algumas outras que

ficaram atras assentadas no

feito contra o dito sos‑

pirar oferecidas, a

que nam foi res‑

pondido.

 

 

Vosso alto procurar

e tal soster de questões

nos faz todos espantar

por irdes, senhor, achar

ũu coar de taes rezões.

Porque sendo contrafeitas,

parecem vereficadas

e parecem logo feitas

por d' enves fazer dereitas,

de mão de mestre forjadas.

 

 

Porem eu responderei

essas partes mais forçadas

e tambem repricarei

a outras por que passei

qu' havia por escusadas,

cuidando que o cuidado

se desse ja por vencido,

mas pois tam aperfiado

o por ele alegado

será por mim respondido.

 

 

Começa logo o Coudel-moor a

responder ao que disse Nuno

Pereira na sua primeira

copra, dizendo que cui‑

dado lhe tolhia o

sospirar.

 

 

Foi graça, notai-a bem,

u meu cunhado s' acolhe,

diz-nos que lugar nam tem

de sospirar, mas retem,

porque seu cuidar o tolhe.

Se cuidar lho faz tolher,

o qu' eu nam posso cuidar,

d' hoje mais cuido dizer

que cuidar nam é saber,

pois nam sabe sospirar.

Responde ao que disse Nuno

Pereira que d' enfadado

cessava ja de falar

neste feito.

 

 

Pera qu' ee mais testemunha,

pois vosso falar s' emborca,

nos tempos da moor caramunha

lançar sua coroa unha

na pouca dor que vos toca.

Que dizês que d' enfadado

querês do feito cessar

nam vem de grande cuidado,

que u ele jaz dobrado,

nam cessa seu sospirar.

 

 

Responde ao que disse Dom

Joam que sospiros vêm

por descanso e sua

dor que é mais

pequena.

 

 

Dar sospiros por descanso

achei laa em outra vossa,

e s' em al diz que vem manso,

mas eu com sentido canso

por nam ver como ser possa.

Pois sospirar é paixam

e nam vem sem ser cuidado,

quand' estes dous juntos sam,

ambos nam me doeram

mais qu' a vós um apartado.

 

 

Responde a outra em que disse

que sospiros sam conforto

e repairo dos

cuidados.

 

 

Sospiros serem conforto

nam é regra d' algarismo,

pois dizês que sam deporto

é ir contra o enfroismo.

Hipocras por perigosa

dor os chama e lh' ha gram medo:

ele diz em teisto e grosa

que sospirar lutuosa

sam sinaes da morte cedo.

 

 

Responde à cantiga de Jorge

d' Aguiar em que disse que

os sospiros eram gran‑

des fengidores.

 

 

Sospiros per fengidores

Aguiar lhe fez cantiga,

sabendo que nos amores

sam boias dos desfavores,

das paixões e da fadiga.

Quando sem paixam sam dados,

sam por outros comprimentos,

pois falsamente cuidados,

cuidados sejam culpados,

pois cuidam tais fengimentos.

 

 

Responde ao que disse Dom

Joam, que vira ja mil

bocijos quebrados

em sospiros.

 

 

Bocijar sobr' enfadado

per sospirar nam se conte,

que logo é desenxergado

sospiro que vem lançado

d' u paixões se põe em monte.

Eu falo do sospirar

que me vem fresco da forja,

d' ũ querer que me quer matar,

d' ũ triste desesperar,

d' ũ alma que ja escorja.

 

 

Responde ao que disse às da‑

mas que sospiravam por

peras e melão e

figos.

 

 

Sospirar por figos, peras,

por melão, bolo folhado,

nam é sospirar deveras,

que doutras fruitas mais feras

vem o sospirar formado.

Falemos do sospirar

que vir de paixões s' entenda,

que o al mais é cuidar

aa vontade do paadar

pera as cousas da merenda.

 

 

Responde ao que disse Dom Joam,

que pois primeiro é o cuidar,

que o cuidado será moor

pena e os sospiros se‑

riam ramos.

 

 

Que chamês por ser primeiro

o cuidar pena maior,

nam é falar verdadeiro,

mas antes por derradeiro

fica sempre o matador.

Pois que os sospiros sejam

do cuidar ramos chamados,

nam nos vejaes nem vos vejam,

que matam, quando pelejam,

onde dam vida os cuidados.

 

 

Torna o Coudel-moor a responder

às rezões de Dom Joam, que

ora tocou neste seu

razoado.

 

 

Pois venhamos apertar

vossas rezões derradeiras,

por mais me nam dilatar

e se vem vosso alegar

qual se vem das empulgueiras.

Mas posto que em respeito

vosso ja calar devia,

ver a verdade do feito

e ver que temos dereito

esforça minha perfia.

 

 

Responde ao que Dom Joam disse

que se alegavam alguns pontos

falsinhos contra os cuidados,

metendo ele consoantes fal‑

silhos à can‑

tiga que fez contra

Francisco da

Silveira.

 

 

Falsilhos pontos nam sam

verdade ha de diante,

mas meter o coraçam

com a mão, com a paixam,

faz falsilho consoante.

Peroo tudo isto leixado,

falemos a bem de feito

e seja sentenceado

polo alegado e provado

como quer nosso dereito.

 

 

Responde ao que disse que seu

coraçam lhe respondera por

sospiros, ansias mortales,

que milhor dezia quem

dezia ay mins

cuidados i

males.

 

 

Cuidar ter em que cuidar

por forma de seu descanso

voolo fostes alegar,

com mins cuidados lembrar

i males com que já canso.

Porque laa pela contiga,

se nam lerdes ò reves,

acharês pee que vos diga

que descanso dá fadiga

en pensar quanto mal es.

 

 

Responde ao que diz que os sos‑

piros sam ressurgir da morte

que daa cuidado, como

foi ja alegado mui‑

tas vezes.

 

 

S' assi é por ressurgir

sospiros fazem sua porte

fá-lo-am por se seguir

mais longa e pessoir

vida qu' ee pior que morte.

Porque lá temos autor

que, vendo seu mal tamanho,

em sua pena maior

escolh' o triste amador

la muerte por menos danho.

 

 

Outro com desesperança

bradava desesperado:

O morrer me era folgança,

pois por morte se alcança

fim del mal continuado.

E em meu caso tam forte,

porque descanso s' ordene,

morrer hei por boa sorte

por ver se terná la muerte

lo que la vida no tiene.

 

 

E por iss' o namorado,

com paixões entrestecidas,

diz por si triste coitado:

Mim bevir atrebulado

nom se conte antre las vidas.

Nam devês pois arguir,

qu' ha bem só fazer viver,

ca sobre males sentir,

es el remedeo morrir,

ouvi mil vezes dizer.

 

 

E assi que sospirar

nam daa vida por viver,

mas por mais e mais penar

e sabês que ha trocar

maa vida por bom morrer.

Ja foi isto alegado

e tantas vezes se trouve

que por ser tanto dobrado

ficará enfastiado

o coraçam que o ouve.

 

 

Responde ao que diz que seu cora‑

çam lhe respondeo que o cuidoso

pelas carracas que perdera

seria algum grande

cobiçoso.

 

 

Pois se vosso coraçam

do cuidoso presumio

que seu mal, su' afriçam,

seu cuidar, sua paixam,

de cobiça se seguio,

devês logo confessar

que amores nam sam nada

pera nos fazer cuidar,

mas faz cuidar e matar

cobiça desordenada.

 

 

Responde ao que disse que a

dama por desfavor diz ao

servidor que lhe dará

em que cuidar.

 

 

E daqui quem esguardasse

o que a dama dezia

que daria em que cuidasse,

s' ele nunca cobiçasse,

seu cuidar nam o creria.

E que ja ao meaçar

com dar que cuidar alguem,

sem pena por seu cuidar,

mas sem paixões sospirar

isto nam pode ninguem.

 

 

Prossegue o Coudel-moor

outras rezões em favor

do sospirar.

 

 

Vossas tais alegações

fazem pouco contra nós,

ca tocaes em corações

de que vêm vossas rezões

a só precurar por nós.

Entam dizês que cuidar

tem voss' alma trespassada

e querê-lo aprefiar

como que co sospirar

que me quedo em la posada.

 

 

Se gostastes a paixam

que dam sospiros forçados,

nam dirieis si por nam

u falassem na questam

dos sospiros, dos cuidados.

Mas derieis: — Oh camanhos

sinais sam de vida triste!

Oh que males sam tamanhos,

sospiros, choros estranhos,

como os grosa Vita Criste.

 

 

Donde venho concrodir

que cuidado pena seja,

sospirar, quem no sentir,

vê-lo-am sempre ferir

na moor força da peleja.

É tam lindo cortesãao

que sempre brada por damas,

amores onde tem mãao

seus tristes sospiros vam

ardidos todos em chamas.

 

 

Do Coudel-moor enderençada à

dita senhora por cabo de seu

rezoado, em que pede que

lhe mande dar sua

sentença.

 

 

Senhora, nam se dilate

sentença sobre tal prova,

mas diga, sem mais debate,

sospirar, posto que mate,

nam seja por cousa nova.

Paixões posso acrecentar

com mil lembranças que cata,

vindo com desesperar

tenha poder de matar

como de cote nos mata.

 

 

Cantiga sua que daa por cabo

de suas rezões que tem ofe‑

recidas por parte do

sospirar.

 

 

Onde cuidar desbarata,

sospiros querem matar,

porque sobre carregar

dizem que mata.

 

 

Sospiros serem paixam

negar-se nam poderaa,

pois vindos do coraçam

com cuidado e afeiçam

dizem quem os sofreraa.

Tenho-m' aa primeira cata

das feridas do cuidar,

mas, quando vem sospirar,

sabêe que mata.

 

 

De Joam Gomez a Dom Joam, por‑

que lhe foi dito que sendo ele au‑

sente donde se o feito tratava,

que a parte do cuidado nam

ia bem, e com elas lhe

mandou outras que

oferecesse por

parte do cui‑

dado.

 

 

Senhor Dom Joam, senhor  

de mim e mais que de mim,

vós m' havei por servidor

vosso em um tal tenor,

que nam m' abata zinzim.

Tambem pera contrejar

contra quem vós contrejardes,

tudo me podês mandar

e do serviço d' açucar

se me na Ilha mandardes.

 

 

Acerca do que compre ser,

falando por retrocado,

vi quem nam quisera ver

centatantas copras ler

dos sospiros e cuidado.

E somos precuradores

e tam mal nos concertamos

que ja fomos autores

e morrem nossos favores

pelo mal que procuramos.

 

 

E segundo me parece

a quanto entender pude,

o Coudel-moor favorece

sospiros e prevalece

em guisa que nos concrude.

E que tenhais rezoado

por copras mui treunfantes

dou-m' oo demo entregado,

que vos achei recusado

em mais de dez consoantes.

 

 

Pelo qual, senhor, convem

que estas ofereçaes,

se vos parecerem bem,

a quem pertença ou tem

o feito que procurais.

E se mais houver mester,

vossa mercê mo escreva,

quer aqui quer u estiver,

no que se fizer mester

porei a força que deva.

 

 

Seguem-se as copras que Joam

Gomez dá por ultimas

rezões suas.

 

 

Lembrança me faz cuidar

no que o cuidado manda,

cuidado em maginar

faz cuidar e descuidar,

porque andando desanda.

Cuidado mil vezes gira,

enquanto faz e desfaz,

d' u s' afirma nam se tira,

quanto mais d' amor se ira

des que no coraçam jaz.

 

 

Daa lembrança do passado

com desejo do futuro,

em o tear do cuidado

se tece mui resforçado

terçopelo verde escuro.

O qual se neste sentindo,

despõem-se temporizando,

nunca se gasta servindo,

rompem-s' asinha fingindo,

sempre dura bem amando.

 

 

Ó tu gentil terçopelo,

color de mea esperança,

tu, d' escuro Set' Estrelo,

tu, d' amores cotovelo,

donde dor nam faz mudança.

Quem te poderaa vestir

com viva paixam d' amores,

que te mais possa despir,

salvo se em ti sentir

sospirar ou desfavores.

 

 

Porque fim do sospirar

é desejo descuberto,

cuidado dessemular

faz sofrer e soportar

sobre certo e nam certo.

E assi convem que seja

sentido de graves tiros,

vida que viver enteja,

sofrer que morte deseja

o cuidado sem sospiros.

 

 

Sentido com desejar,

em que esperança cabe,

é cheo de sospirar

d' ũ desejo tam doçar

que mui docemente sabe.

Tal sentir nam me cativa

nem dá pena sem descanso,

mas minhas paixões aliva,

dá-me limbo em que viva

de doçar cuidado manso.

 

 

Aquele cuidado esquivo

que nam dá mais que sofrer

ao coraçam cativo,

no qual eu morrendo vivo

em grado de bem querer.

Este tal me vence e lega,

este todo mal me cata,

este nunca m' assessega,

este sempre me trasfega,

d' amores na fim me mata.

 

 

As quaes partes concrudindo,

por fim do que digo e sento,

amores sempre servindo,

suas raivas encobrindo,

seu mortal abafamento,

achei que com sospirar

mil vezes desabafei,

achei-me em soo cuidar

e calar e reportar

que ja nunca descansei.

 

 

Sua à dita senhora por fim

de seu rezoado.

 

 

Estas de fino retrós,

madeixas de meu sentido,

rezões de que me despido,

dama, recomendo a vós.

Vossa mercê as comprenda

e desponha

como quem preito apaga,

o cuidado da contenda

devulgando por peçonha,

os sospiros por triaga.

 

 

Cantiga sua que daa em

fim destas rezões por

parte do cui‑

dado.

 

 

Cuidado, despois que és

no coraçam,

por certo cuidado és,

sospiros nam.

 

 

Cuidado, tu de cuidado

contigo fazes penar

de sentimento forçado,

que nam leixas sospirar.

És tam feito ò revés

per condiçam

que sempre cuidado és,

sospiros nam.

 

 

No coraçam teu inferno

és assi como pecado,

és perdido in eterno,

és em coraçam tomado.

Nam tu inventurus es

a salvaçam,

depois que cuidado és

no coraçam.

 

 

Os amores conservando

em aceso fogo vivo,

maginas desesperando,

triste cuidado cativo.

Despois que aceso és

no coraçam

a la fe cuidado és,

sospiros nam.

 

 

Responde o Coudel-moor a estas

ultimas rezões que Joam

Gomez deu contra

o sospirar.

 

 

Vossas ultimas rezões,

tiradas pola fieira,

movem tantas concrusões,

que nos ficam por lições

como lidas de cadeira.

Mas quem revolve a folha

e prol contra esguardar,

nam ha cousa a que s' acolha

que tolher possa nem tolha

seu primor ao sospirar

 

 

Ca sospirar tem primores

tam altos e tam sobidos

que nam sam senam amores,

mas trauta seus servidores

de mais a menos perdidos.

Que vem sobre saudade,

vem sobre grande cuidado,

vem sobre amor verdade,

mas dobra mais a metade

sobre ser desesperado.

 

 

O veludo que tecestes

no tear que daa cuidado

laa nos liços lhe metestes

ũa esperança que destes

ò galante namorado.

E pois teme esperança

cuidado nem traz perdido,

que cuidado na bonança

grorea de i, s' alcança,

conforta todo o sentido.

 

 

Cuidar, enquanto cuidar,

que seu nome ser esquivo

pod' em bem e mal estar,

antre prazer e pesar

forma tem d' alternativo.

Mas sospiros matadores,

u prazer nunca se mete,

sempre sam perseguidores

e sam çoçobra d' amores

com' em catorze de sete.

 

 

Dissestes que sospirar

faz desejo descobrir,

deve-s' isto decrarar

que descobre um sospirar

de paixões graves sentir.

Descobre seu triste mal,

descobre sa triste vida,

descobre pena mortal,

descobre que lhe nam val

bem servir quem tem servida.

 

 

Mas estes descobrimentos

nam se dêm por reprensam,

pois a causa dos tormentos

e dos tais padecimentos

fica lá no coraçam.

Nam era cousa pejosa

de julgar que nam dá vida,

porque a dama chorosa,

essa se ha por mais fremosa,

que de mais é homecida.

 

 

Alegais um desejar

que d' esperança tem parte,

entam vindes apertar

que dali vem sospirar

com mil duçuras que farte.

Arguis-me com desejo

de cousa qu' haver s' espera,

nam sacude isso o pelejo,

mas outro em que me vejo,

que mata, que desespera.

 

 

Dizês que cuidado pega

sas paixões mui per inteiro

e que todo vos trasfega,

mas a vós nam se vos nega

que cuidar fere primeiro.

pois cuidar pena daa

sobr' esperança perdida,

confessai que mataraa

sospirar com que seraa

de mim e de minha vida.

 

 

Tambem cuidado dizês

que se põe em esperança,

mas este confessar-m' -ês

que nam doe nem no neguês,

pois de si traz confiança.

Tambem tendes confessado

dar cuidar paixões fengidas,

u por vós foi alegado

que ja i nam ha cuidado

que sofra tantas feridas.

 

 

Ò cuidado nam se tira

sua parte de paixam,

mas enquanto nam sospira

nunca fere sua vira

de frecha no coraçam.

Pelo qual fica notado

que, quando cuidar derrama

sospiro desesperado,

que ja entam nam é cuidado,

mas é morte que o chama.

 

 

Bem sabês vós que cuidar

é lança solta que anda

ca e laa pera pousar,

e que nam vem sospirar

sem ja trazer a demanda.

Assi que se vos aperta,

quando s' a paixam refina,

este meus males esperta,

por vir sobre paixam certa,

cujo mal me desatina.

 

 

Trouvestes na derradeira,

por fim de vosso falar,

comparaçam mui inteira

por assentar a calveira

com triaga oo sospirar.

Mas ahinda que vos traga

sospirar, que desbarata,

diz entam: — Por aqui paga

de mim como de triaga

quem com vós muito se mata.

 

 

Do Coudel-moor por cabo de seu

rezoado à senhora, com que o

feito vaa concruso.

 

 

Nam dê vossa senhoria

dilaçam mais neste feito,

cesso ja mais vigaria,

cesse o mal que nos seria

nam nos guardardes dereito.

E pois caso era confuso

dar lugar mais a tal briga,

nem vossa mercê o queira,

mas vaa o feito concruso

com mais esta soo cantiga

que dá Jorge da Silveira.

 

 

Cantiga que dá Jorge da Silveira

à dita senhora, em que responde

ao que Nuno Pereira disse,

quando disse cuidado de

minha vida, vos chamo

sempre por nome.

 

 

Que vos chame quem vos chama

de sua vida cuidado

nam diz muito meu cunhado,

se com' eu mesmo vos ama.

Que eu, senhora, vos chamo

sospiros de minha morte,

com que de vida brasfamo,

pois vos quero, pois vos amo,

sem cuidar que me conforte.

E pois sei que me defama

vosso mal desesperado,

sospiros de meu cuidado

minh' alma sempre vos chama.

 

 

Do Coudel-moor à dita senhora

em nome de Jorge da Sil‑

veira pelas dilações

que sam dadas

neste feito.

 

 

Ha tanto que sam metido

naquesta triste demanda,

que me vejo destroido,

perdido mais que perdido

com meu mal que nam s' abranda.

Nam nos dam aqui pousada

mas temos acolhimento,

a vida tenho gastada,

e vós nam despachaes nada,

senhora de meu tormento.

 

 

Olhai bem que sospirar

vos dá ũas rezões taes,

qu' i nam ha em que cuidar

nem devieis aqui dar

as dilações que nos daes.

Mas ainda outro mais bravo

nos querês fazer exame

e i revitaes o cravo,

vai tam alto voss' agravo,

que nam sei como lhe chame.

 

 

Porem vossa mercê queira

por direito vos guardar,

qu' esta sentença longueira

nam seja mais referteira,

pois por nós se deve dar.

Ou se quer vossa mercê

que do feito mais s' alegue,

estes logo recebê

sete artigos que vos lê

esta copra que se segue.

 

 

Diz e provar entende

sospirar contr' oo cuidado

que seu mal mais mal comprende,

que seus sospiros acende

mais fogo de namorado.

Qu' ee sa pena mais esquiva

que o seu mal nam resiste,

que sa dor nunca s' aliva

qu' ee sua paixam mais viva,

qu' ee sua vida mais triste.

 

 

Assi que devem de ser

meus artigos recebidos,

dar lugar e nam reter

a prova, pera se ver

meus males ser mais sobidos.

Nem curemos doutras minas,

que eu quero oferecer

testemunhas de fee dinas

e rezões outras tam finas

que sejam de receber.

 

 

Desembargo posto per mandado

da senhora nas costas desta

petiçam e artigos que,

por parte do sospi‑

rar, lhe foram

dados.

 

 

Recebo os artigos dados,

venha a prova sem tardar

e assentem tudo no feito.

Entam sejam-me levados

pera o eu determinar

como achar que é dereito.

 

 

Do Coudel-moor que dá em

prova do que disse dos sete

artigos que tem dados

neste feito, por

parte do sos‑

pirar.

 

 

O primeiro está provado

que em si mais mal contem,

pois sospirar e cuidado

está assi tam abraçado,

que seu mal d' ambos lhe vem.

E os fogos encendidos

prova-se per ti que fales,

Estunhiga, de teus gemidos

e sospiros, que sofridos

sem morte nam sam seus males.

 

 

Ser mais esquiva sa pena,

que foi artigo terceiro,

nam se negue, pois s' ordena

das paixões, quando têm lena,

que nos ferem por inteiro.

Donde vem que ressurgir

nunca foi quem seu mal visse

nem sa dor demenuir,

e si posso concrudir

o que em meus artigos disse.

 

 

E tambem pera se crer

que mais viva paixam leva,

isso craro é de ver,

pois sospirar tem seu ser,

nas paixões em que se ceva.

E assi fica verdadeiro

ser mais triste sua vida

qu' ee artigo derradeiro

tá o qual des o primeiro

minha prova dei comprida.

 

 

Sua à dita senhora em que pede

que proveja per si esta

inqueriçam.

 

 

Senhora, querê prover

nossa inquiriçam per vós

e acharês logo em na ler

a rezam que devês ter

pera julgardes por nós.

Pois dai-nos esta sentença,

qu' o dereito no-la daa,

nem haja mais deferença,

ou se nam dai-nos licença,

qu' apelar nos convirá.

 

 

Cantiga que dá Jorge da Sil-

veira à dita senhora, por-

que o seu precurador

disse que esperava

d' apelar.

 

 

É bem de mim apelar,

quer façaes dereito ou torto,

no feito do sospirar,

pois me nam sei agravar

de vós sobre me ver morto.

 

 

Porem esta apelaçam

seguirei, pois que me segue

sospirar com sa paixam,

e pois quer meu coraçam

que lhe meu servir nam negue.

Mas qu' este negro apelar

me nam traga algum conforto,

pois o quer meu sospirar,

fá-lo-ei sem agravar

de vós sobre me ver morto.

 

 

Antrelucatorea da dita senho‑

ra sobre o feito que

lhe foi levado

concruso.

 

 

Pois o feito vem concruso

da mão dos precuradores,

por nam ir termo confuso

mandá-lo ver nam m' escuso

algũs grandes trovadores.

Ũ seja Alvaro Barreto,

o outro Alvaro de Brito,

aos quaes logo remeto,

e pois a ambos o cometo

dêm seus votos por escrito.

 

 

E venha tudo cerrado

asselado e bem coseito,

sendo bem examinado

todo o que foi alegado

de pro e contra no feito.

E desi visto per mim

seus votos, sua tençam,

darei neste feito fim,

e as custas ò galarim

pagará quem for rezam.

 

 

Segue-se o voto d' Alvaro de

Brito, que pôs neste feito

per mandado da dita

senhora.

 

 

Sogeiçam traz desejar,

desejar daa sentimento,

sentimento faz cuidar,

cuidar causa trabalhar,

trabalhar padecimento,

donde vem com desatento

ũu languido sospirar.

Sospiros devem chamar

pena de maior tormento.

 

 

Segue-se o voto d' Alvaro Barreto,

que neste feito pôs per

mandado da dita

senhora.

 

 

Pois por vossa comissam,

que faz que me desatine,

comprindo-me que m' ensine,

me mandais que detremine

ũa tam alta questam.

Eu, senhora, por comprir

a todo vosso mandado,

que nam seja tam letrado,

faz-me a isso ousado

vontade de vos servir.

 

 

Porem pera s' entender

neste caso a verdade,

convem de necessidade

alegar autoridade,

que seja de receber.

E pois que pera juiz

vossa mercê me obriga,

antes que se mais persiga,

alego esta cantiga

que daquesta guisa diz.

 

 

Segue-se a cantiga alegada

per Alvaro

Barreto.

 

 

En esto siento pardios

el grande amor que vos he

em que nunca sospiree

por otra sino por vos.

 

 

See que cosa es sospirar,

despues que vos conoci,

porque no vos pude negar

la parte que haveis em mi.

Y se se fallarem doos

que amem com toda fee,

el uno so yo, porque

sospiro siempre por vos.

 

 

Alego este autor

com outros que ja passaram,

que por copras nos leixaram

ser vivo fogo d' amor.

Sem fazerem tam soomente

memorea que o cuidar

é cousa de nomear,

senam pera praticar

e usar com tod' a jente.

 

 

E pois os autorizados

tiveram esta tençam,

seguir outra openiam

nam fariamos rezam,

que iriamos errados.

Que nam temos por saber

onde nam é contrafeito

desejo d' amor prefeito,

sospirar ser seu efeito

sem al se poder fazer.

 

 

O que cada ũu deseja

pera si d' amor procede,

e quem por amores pede,

de sospirar nam s' espede

tá que o pedido veja.

Pois que podemos dizer

ou quem pode al notar

senam que o sospirar

vem do propio amar

e nam de cuidado haver?

 

 

Sentença.

 

 

Pelo qual visto o processo

e o por ele mostrado,

eu julgo contr' oo cuidado

e o hei por condenado,

pois vai da verdade avesso.

E o sospirar assolvo

do contra ele pedido,

porque é por mim sabido

que o têm favorecido

estes livros que revolvo.

 

 

Segue-se a sentença dada

per a dita senhora sobre

ter visto os votos

dos trovadores

alegados.

 

 

Olhando com bom respeito

o que cada ũu demostra

e alega de seu dereito,

digo que, visto este feito

e o que se per ele mostra,

que cuidado em lugar

pode estar sem sospirar,

assi como está provado

sospirar nam ser achado

sem este mesmo cuidar.

 

 

E tambem visto o alegado

infroismo e sa doctrina,

e com' ee autorizado

o qu' estaa encorporado

na nossa Salve Regina,

item como do cuidar

vem o primeiro ferir

e nam em vos aleixar,

e visto que sospirar

vem sobre o consentir;

 

 

E visto o mais que s' alega

E se mostra pelo feito,

O sospirar nam sonega,

que o mal em que s' entrega

lhe faz craro seu dereito.

E porque nisto m' afirmo,

concrudo prenunciando

ouça quem quiser ouvir-mo,

estes dous votos confirmo,

neles porem decrarando

 

 

Que nam s' haja por cuidar,

nem cuide que dá paixam

pera dela se falar,

cuidado que sospirar

nam mete no coraçam.

Nem lhe quero receber

alegar que sofre e cala,

ca sobre ver-se perder

paixões dinas de sofrer

o mudo com elas fala.

 

 

Nem lhe recebo que diga

que cala por ter segredo,

ca posto que o persiga

sospirar com sa fadiga

nam na amostr' ele co dedo.

E mais podemos cuidar

do cuidar qu' estaa calado

que se leixa assi calar,

por se menos querer mostrar

contente sobr' agravado.

 

 

E porem pois julgador

sam supremo neste feito,

julgo nos autos d' amor

sospirar por vencedor

sobre vencido sogeito.

E assi hei por confirmadas

pelo dito sospirar

as sentenças que sam dadas,

custas hei por relevadas,

por ser rezam letigar.

 

 

Provicaçam desta sentença

que a dita senhora deu

pelo sospirar.

 

 

A nove dias do mes

dos onze meses do anno

da era d' oitenta e tres,

desta sentença medês

e auto palenceano,

foi feita provicaçam,

dentro na corte outrossi

do grande Rei Dom Joam,

e eu, dito escrivam,

qu' esto todo escrevi.

 

 

Emformaçam à dita senhora, que

lhe deu o Coudel-moor por parte

do sospirar, agravando-se das

custas, emmenda e corregi‑

mento que lhe nam jul‑

gou, pedindo porem

sua sentença.

 

 

Com todo o agravo que sento,

pois julgar nos nam quisestes

emmenda e corregimento,

dêm-me a mim um estormento

desta sentença que destes.

Mas porem podês mandar,

nam havendo i outro cobro,

que se mais aprefiar

cuidar contr' oo sospirar

que pague as custas em dobro.

 

 

Desembargo da dita senhora,

posto nas costas desta enfor‑

maçam que por parte do

sospirar se deu.

 

 

O que mandei, o que disse,

isso torno a mandar,

nam hei jamais d' ennovar,

porem quod escripse escripse.

 

 

Copras que fez Nuno Gonçalvez,

alcaide-moor da fortaleza d' Alcobaça,

em favor do cuidar contra a sentença

que foi por parte do sospirar dada, a

qual aqui revogou deos do Amor de

seu propio moto. Havendo primeiro a

vista de todo o processo, deu sentença

na qual daa com suas vozes Mancias e

Tarquino, Joham de Mena e Joham

Rodriguez de la Camara, em que faz

mençam o dito alcaide, que ha mil

annos e nove dias que é finado, e

como é sacretareo de deus do Amor,

endereçando estas copras a Dom Joham

de Meneses, segundo adiante se segue.

 

 

Fala logo o autor.

 

 

Senhores, grandes senhores,

querê saber esta nova,

como servistes amores,

quaes ficastes vencedores,

ouvi a quem vem da cova:

— Mil annos e nove dias,

ha que sam morto, finado,

comigo pousa Mancias,

Mena, Padram das ancias,

e Tarquino desterrado.

 

 

Quantos jazem sô a terra

que foram mal navegados,

quantos amor fazem guerra

que na sua lei mal erra, 

todos sam meus convidados.

Laa no limbo dos ardores

onde têm algũu poder,

ali sofrem disfavores,

ali tormentos e dores,

segundo seu merecer.

 

 

Estando estoutro dia,

deos d' Amor desembargando,

veo ũu homem que gemia

bradando e se carpia,

dos olhos muito chorando,

dizendo: — Ouve, senhor,

ouve ũu tam grande mal,

ouve ũu tam grande error,

que se faz contra Amor

no reino de Portugal.

 

 

Fala deos d' Amor.

 

 

Deos d' Amor muito espantado

respondeo nesta maneira:

— Fala, fala, mais pausado,

conta-m' o feito passado,

todo bem pela carreira.

Se trazes enformaçam

ou trazes o mesmo feito,

forma nisso petiçam

e descanse teu coraçam,

que logo haveras dereito.

 

 

Fala o autor.

 

 

E o qual como descreto,

avisado cortesam,

tornando a cor despeto,

acodio logo desperto

co propeo feito na mão.

Dixe-lhe: — Senhor, verás

aqui ũu feito muito feo,

dentro nele acharás

cousas bem per que farás

grandes justiças arreo.

 

 

Provicaçam do feito.

 

 

O qual logo provicado

foi nesse mesmo momento,

bem levado e decrarado,

como foi arteculado

e contestado,

vio-se todo com bom tento.

Era ja sentenceado

em tal maneira

que o primo da Silveira

leuou grado.

 

 

A tençam do feito e

os competidores.

 

 

E foi seu procedimento,

segundo seu relatar,

qual era maior tormento

e dava mor sentimento,

o cuidar ou sospirar.

Pereira, Meneses, Guiar,

Joham Gomes tambem da Ilha,

estes se querem matar

por ele aa maravilha.

 

 

Silveira, Silveira, Silveira,

pai e filhos com saber,

pela ponta da fieira

buscam mui nova maneira

por sospiros defender.

Brito, Barreto condenaram,

a dama sentenceou,

pelo sospirar julgou,

o cuidado condenaram

e assi se confirmou.

 

 

Artigos, protestações,

com outros autos formados,

cantigas, enformações,

todos foram praticados.

Deos d' Amor a que pertence

toda a final sentença

visto o que aparece,

no auto que s' oferece,

com risonha contenença,

 

 

Lançou os olhos em roda

contra nós outros, finados,

e dixe: — Como s' enloda

este feito a que gram noda

querem pôr aos cuidados!

Disse mais: — Pois sois passados

daquele segre da vida,

nam sereis afeiçoados,

ponde vossos assinados

da verdade bem sabida.

 

 

Porque quero bem rever

este feito e escoldrinhar,

e do que me parecer

por todo o mundo saber

quero per mim sentencear.

Pera cada ũu o ver

lei ponho feito na mão,

todos quatro ham-de dizer,

segundo seu entender

e dar seu conselho são.

 

 

Põe Mancias sua tençam.

 

 

Sospiros e sospirar,

messajeens d' atrebulado,

o meu mal podem mostrar,

mas nam me podem matar

como me mata cuidado.

Cuidar é ũa negrura

que nam tem consolaçam,

sospiros ũa folgura

qu' aliva minha paixam.

 

 

Sospirar nunca sessega,

vai e vem como sezam,

cuidado, despois que pega,

chupando no coraçam,

chupando todo prazer,

tira-lhe toda folgança,

fá-lo todo emnegrecer,

fá-lo secar e morrer,

quando tem desesperança.

 

 

Comparaçam.

 

 

Vejo ũa grande fervura,

fervura d' agua viva,

se a panela bafura,

lança fora da quentura,

é certo que logo aviva.

A meu coraçam impiro,

que anda todo em fogo,

que al tem senam sospiro,

que al tem senam respiro,

porque nam se fina logo?

 

 

Cantiga dele.

 

 

Cuidado, triste cuidado,

sem conforto,

é tu mal tam trebulado,

que me nam leixa cuidado

senam morto.

 

 

Quem tivesse algũu lugar,

quem tivesse algũu descanso,

quem tivesse ũu sospirar,

porque quem me quer matar

fosse mais manso.

Mas tu, mal desesperado,

sem conforto,

é ũu mal tam revitado

que me nam leixa coitado

senam morto.

 

 

Fala com a dama.

 

 

Senhora, nova senhora,

mui fermosa,

porque vossa mercê nam chora

esta dor tam enganosa?

É certo, se nam m' achasse

cos d' amor no desembargo,

vossa mercê nam passasse

esta vez que nam gostasse

sobr' este caso gram cargo.

 

 

Se meu conselho tomardes,

senhora mui graciosa,

por algũu tanto ativardes

e bem em tanto cuidardes

nessa parte algũa grosa.

Pois o feito se perdeo

soo por vossa concrusam,

decrarai que vos venceo

afeiçam.

 

 

Põe Tarquino sua tençam.

Fala com Lucrecia.

 

 

Lucrecia, meu bem inteiro

ordenado

pôs em mim tam gram cuidado

que fiquei seu prisioneiro

verdadeiro.

Seu olhar dessemulado

m' as causou,

cuidado que me matou

com degredo mal logrado,

desterrado.

 

 

Este degredo sentindo

por vales, outeeiros, branhas,

era-me milhor partindo,

sospirar, andar carpindo,

descanso das entradanhas.

Cuidado nam me leixava

somente desfolegar,

sospiro, quando chegava,

algũu tanto m' alivava

pera logo nam finar.

 

 

Comparaçam.

 

 

Ũu fogo grande que farte,

dobrado fogo inmenso,

as faiscas que reparte

manifestam grande parte

do grande fogo itenso.

Empero nam sam tam feras

com' ao fogo que tiro,

quem quiser oulhar deveras

poderá saber por elas

quanto menos é sospiro.

 

 

Cantiga dele.

 

 

Cuidados e sospirar

ambos sam causa d' amores:

sospiros pera mostrar,

cuidados pera matar,

quando sam com disfavores.

 

 

Os sospiros sam escuma

que cuidados botam fora,

sam assuvios de chulma.

Concrodindo: tomam suma

como afirmo e digo agora.

Cuidados e sospirar

ambos sam causa d' amores,

sospiros pera mostrar,

cuidados pera matar,

quem os tem com desfavores.

 

 

Fala com a dama.

 

 

Senhora mui eicelente,

fermosa por eicelencia,

neste processo presente

vossa mercê bem atente,

nam fique por negrigencia.

Que neste limbo d' amores

onde em brasas ardemos,

nam se esguardam favores,

nem quitam males nem dores

se por nós o merecemos.

 

 

E pois voss' alma conhece

o erro dado no fito,

nam façaes que vos esquece,

mas pedi a quem pertence

ũu perdam com grande grito,

e livrai alma de pena

que vos é aparelhado

nam pequena,

pelo mal que se ordena

do passado.

 

 

Tençam de Joam Rodriguez de la

Camara, em que se queixa de

la fortuna por lhe lem‑

brar o passado.

 

 

¡ Oh lhagas de mis passiones,

remedio de min trestura,

lembrança de mins dolores,

mil e mil tribulaciones

me traes desaventura!

Yo digo que pensamientos

me cortaran

e raviosos sentimientos,

cuidados con sus tormentos

me mataran.

 

 

Con lo qual tengo provado

lo que digo:

que cuidado

es un fuego denodado

sin abrigo.

El sospiro es dar fama,

el galante

sospirando por su dama

es mostrança qu' ele ama

por delante.

 

 

Comparaçam.

 

 

¿ El fuego que la lombarda

respara refogueando,

queda elha más quemada,

más ardida, más brasada,

o el tom que va tronando?

Quien d' amor sabe los giros

por esta comparacion

hallará que los sospiros

no son al sino los tiros

del cuidar del coraçon.

 

 

El cuidar desesperado

es un fuego encendido,

es un mal tan redoblado

que dolor de condenado

no es tal ni tan subido.

Su primor e gualardones

al sentir

no son al sino clamores,

cuyos bienes e perdones

es morir.

 

 

Cantiga dele.

 

 

Sospiros mil se darão

al querer del paladar,

cuidados no poderão

demostrar sua paixam

sem bien amar.

 

 

Os sospiros levemente

se podem contraminar,

cuidados de fogo ardente

com agua nem d' outra mente

nunca se podem matar.

Mas sospiros mil darão

al querer del paladar,

cuidados no poderão

demostrar sua paixam

sem bem amar.

 

 

Fala com a dama.

 

 

- Senhora, cuja fegura

resplandece,

esmalte de fremosura,

a quem graça e soltura

obedece.

Por caridad,

tal enganho que florece

emmendad,

pues vuestra merce conote

la verdad.

 

 

A lo menos decrarando

ser enganhada,

e gemiendo y lhorando,

a nuestro dios soplicando

que vos haya perdonada.

No quiera dios que veamos

vuestra venida

nel fuego onde estamos,

em lo qual triste gustamos

muerte y vida.

 

 

Tençam de Joam de Mena.

 

 

El sospiro amortecido

es senhal

que nos dize qu' el sentido

quasi, quasi es fenecido

el mortal.

¿ Mas guiem ha sentido

o cuidar,

cuidado desfavorido,

cuidando que es venido

com amar?

 

 

cumpre más argumento,

ni obras de lisongeros,

cuidados pierdem los tientos,

cuidados, vivos tormentos,

sospiros, los mensageros.

Cuidados, los raviosos,

cuidados, penas mortales,

cuidados, muy desseosos,

cuidados, muy saudosos,

sospiros, delhos senhales.

 

 

Compraçam.

 

 

Hablo com benivolencia,

como el medico conece

por las aguas la dolencia,

assi por sospiro parece

em aquel que lo padece

ũu dolor sim paciencia.

No que sea el dolor

ni tam poco la passion,

mas es ũu amostrador

del dolor y del fervor

del cuidar del coraçon.

 

 

Cantiga dele em favor

do cuidado.

 

 

Biva muerte deveria

de morir quien esto nega,

quien afirma otra falsia

por cierto yo deria

que del dios d' Amor se nhega.

 

 

O renhegar es una suerte

hecha de tal calidad,

renegar nos da la muerte,

renegar tormento fuerte

sin ninguna piadad.

Polo qual luego devria

de morir quiem esto nhega,

quiem afirma otra falsia

por cierto yo deria

que del dios d' Amor se nhega.

 

 

Copra à dama.

 

 

Vida soes, senhora, vida,

vida soes, pues floreceis,

nel mundo no fue sabida

otra dama, nim nacida,

del valor que vos valeis.

Toda beldad e lindeza,

toda gentil galania,

toda vertud y nobleza,

toda la gram gentileza

es em vos claror del dia.

 

 

Pues teneis toda vertud,

y teneis toda verdad,

conservad vuestra salud,

conservad vuestra beldad,

afirmando

que la sentencia passada,

biem mirando,

tirando de vuestro mando

fue mudada.

 

 

Em tal maneira

vuestra culpa tresmudamos,

que vuestra beldad

no queme em la foguera

em que nos tristes ardemos.

E tu, gram beldad soberana,

por tu gram vertud sostiene

una dama tam galana,

em fuego que tanto dana

no se queme.

 

 

Cantiga portugues que cantam

todos quatro em favor

do cuidado.

 

 

Amores, bravos cuidados,

cuidados, bravos amores,

amores, olhos quebrados,

sospiros, raios lançados,

mui penados valedores.

 

 

Cuidados, todo seu mal

com mortal pena sofremos,

cuidados, mal natural,

sospiros, acedental,

e assi que bem dizemos:

Cuidados, bravos amores,

amores, bravos cuidados,

cuidados, olhos quebrados,

sospiros, raios lançados,

mui penados valedores.

 

 

Com tudo vai o feito concruso

a deos d' Amor pera dar

sentença.

 

 

Com estas quatro tenções

dam o feito a seu senhor,

todos fazem orações,

todos jejuns, devoções,

por a dama a deos d' Amor.

Todos bradam, todos gritam,

todos fazem gram façanha,

todos grandes brados tiram

 e a deos d' Amor enviam,

que amanse sua sanha.

 

 

Petiçam dele a deos d' Amor.

 

 

Tu, mui alto deos famoso,

por ter grande nome e fama,

sê agora piadoso

esta vez e gracioso,

nam condenes esta dama.

Por lembrança e por aviso

d' ũ senhor que deos se chama,

dizemos que será quiso

nam levar ao paraiso

ũa tam luzente dama.

 

 

Que tenhas sol, tambem lũa,

que tenhas tambem estrelas,

com a fremosura sua

é certo ũa por ũa

que abata todas elas.

Pois que grande bem seria

e que cousa tam errada

goiã de tam gram valia

perder tua senhoria

d' ũa flor tam esmaltada.

 

 

Pois torna, torna, senhor,

por as tuas dez mil chagas,

amansa teu gram furor

que com todo mal apagas.

E nós todos, com gram femença

e com mui abertos braços,

recebemos ta sentença,

sairemos em pendença

com os pees todos descalços.

 

 

Diz o autor como deos d' Amor

saio pobricar sua

sentença.

 

 

A vinte dias passados

desse mes ante d' Agosto,

com pendões alevantados,

com crarões mui resonados,

mostrança de ledo rosto,

deos d' Amor em seu estado,

sua pompa que nam erra,

suas opas de brocado,

ũu paje mui bem armado

de paz e tambem de guerra,

 

 

Saio ledo e motejando

da sua camara d' ouro.

Todos vinham gracejando,

empero nunca leixando

parato de bravo touro.

Seu conselho derredor,

com mui grande acatamento,

senado de grande honor,

muito moor d' emperador

era seu assentamento.

 

 

Em o qual, como chegasse,

foi-se logo assentar,

e ante que al falasse,

ante que pronunciasse,

fez todos assossegar.

E em som mui entoado,

gracioso de ouvir,

este feito apontado,

todo nele processado,

començou de resumir.

 

 

E despois de resomido,

sem fazer outra detença,

todo muito bem ouvido,

todo mui bem entendido,

provicou esta sentença.

Da qual suas entenções,

seus decretos e primor,

seu resgar d' openiões,

com outras decrarações,

assi segue seu teor.

 

 

Segue-se a sentença.

 

 

Visto mui bem este feito

e o nele processado,

e visto todo seu preito,

visto sobre o dereito

todo mui bem decrarado.

Visto todo precurar

per ũa e outra parte,

visto negar e provar,

todo fundado por arte,

 

 

Mostra-se que o alegado

por parte do sospirar

todo é contraminado,

todo falso logicado,

à vontade do padar.

Mostra-se que o cuidado,

de que vem toda paixam,

põe unha que ò unhado

põe seu mal mui bem pegado

primeiro no coraçam.

 

 

E bem sabe Portugal

nam será homem que remonte,

que todo é ũu papassal,

pois d' i nace todo o mal

como rebeiros de fonte.

E assi confessaremos

e dizemos craramente:

cos cuidados padecemos,

com eles todos morremos,

sospiros sam acidente.

 

 

Eles cansam, eles matam,

sam premeiros e mais inteiros,

sempre vos tristeza catam,

des que pegam, nam apartam,

sospiros sam ventureiros.

Vendo-se bem o passado

por sem sospeita, juizes

polo alegado e provado

julgaram pelo cuidado

e o al por garridicis.

 

 

Deferenças que faz deos d' Amor

do cuidado e sospirar.

 

A deferença que é

do cuidar ao sospirar:

cuidado é ũu libré

que filhando deu a fee

de matar com seu filhar.

Mas do triste coraçam

que nunca perde cuidado,

de que ha grande paixam,

que lhe dá o negro cam,

sospiros levam recado.

 

 

Toma outra concrusam

que todos mui bem notai:

cuidar é no coraçam

ũu ardor mui sem rezam,

sospiros fumo que sai.

Estoutra por acabar,

pois que ata e mais que ata:

sospiros e sospirar

sam podengos de mostrar,

cuidados rede que mata.

 

 

Qu' aleguem Salve Regina,

cantigas e outros motes,

é palavra sancta e dina,

mas lá fica outra más fina

metida dentro nos bofes.

Grande fee e confiança

da senhora que chamamos,

do cuidar na esperança

com temor da tribulança

dali sae o sospiramos.

 

 

Pois as outras picaduras,

qu' alegam de namorados,

nam sam al senam feguras,

nam sam al senam pinturas

e sinaes de seus cuidados.

O cuidar é incuberto,

nam se tanje com badalos,

os que têm seu mal secreto

que sua dama o saiba certo

tanjem-lh' aqueles chocalhos.

 

 

Ũu triste corpo cuidando,

ũu cuidar desesperado,

d' amores desconfiando,

anda sempre maginando

e vivo anda queimado.

Seus males desconfiados,

seu ardor de quando em quando,

seus cuidados debrasados

sospiros mui magoados

por faiscas vam lançando.

 

 

Seu coraçam tomou tençam,

mostrando seu mal estranho,

mostrando sua paixam,

que fere no coraçam

donde vem seu mal tamanho.

Porque a dama sentida

vendo tam estreita dor,

vendo ũu alma tam perdida,

por nam ficar homecida

antremete algũu favor.

 

 

E assi que bem concrudo

esta dor desta amargura,

o cuidar ante que mude,

se o sospiro nam acude,

causa nossa sepoltura.

Cuidar é de tal naçam,

que daa morte conhecida,

sospirar, sua tençam,

a que traz por presunçam

a tal morte buscar vida.

 

 

Acho aqui mais alegado

por parte do sospirar,

deixo ora ũu bom ditado

que faz mais polo cuidado

que por quem o foi buscar.

Digo a vós, que o notaes

em vossos grandes favores,

que mal é que nam oulhaes

e que lhe chamam sinaes,

mas nam ja os matadores.

 

 

Pelo qual vós alegaes

escrito com vossa pena,

vós por vós vos degolaes

e por vós vos outorgaes

no que dixe Joam de Mena.

Pois vós otros leterados,

que meti nesta balança,

afirmaes com grandes brados:

matadores, os cuidados,

sospiros, sua mostrança.

 

 

Torna deos d' Amor

à sua sentença.

 

 

E assi que moto propio

e esponte livremente,

junto todo meu consilio

e de propio meu apilio

publico esta presente.

E digo que a passada

sentença toda renovo,

condano-a por queimada,

mando que seja guardada

esta que faço de novo.

 

 

Em que salvo o cuidado

e o torno em liberdade,

d' amores lhe dou o grado,

ele soo é namorado,

pois sempre guarda verdade.

E os sospiros condano

como cousa echadiça,

falsuras de muito dano,

poder ter coma mao pano

falsa cor e fengediça.

 

 

Faço-lh' esta concrusam

mui limpa de falsidade:

O cuidar sua tençam

sempre estaa no coraçam,

sospiros no arravalde.

Esta deve de matar

todas outras demasias,

que quem maes perto d' amar,

mais perto de bem gostar,

e assi leixar perfias.

 

 

Contradiz o correo que o Coudel‑

-moor alegou que lhe che‑

gara por parte do

sospirar.

 

 

Item quanto ao correo

por parte do sospirar

alegado em rodeo

meu legido e nam leo

tal cousa nunca passar.

E certo nam passaria

ũu tal erro nem passou

por minha chancelaria;

se tal cousa parecia,

meu selo nunca levou.

 

 

Mas passe logo mandado

pera meu corregedor:

Se tal correo for achado,

moira logo atenazado

por falsairo e tredor.

Se outrem o quis fazer

por salvar sua tençam,

triste deve de sofrer

penas d' amor e viver

sem haver satisfaçam.

 

 

Aqui julga deos d' Amor contra

aqueles que deram sen‑

tença por parte do

sospirar.

 

 

Brito, Barreto, concordantes

na sentença do entrejo,

sempre sejam boons andantes,

na cama nunca possantes

e tenham grande desejo.

E por maior pena deles,

tambem de Pero de Sousa,

as damas jaçam com eles,

e chegando-se par' eles,

desejando bem a cousa.

 

 

E assi sempre veram

os rostos desconsolados

das damas que serviram,

e por i conheceram

os males que sam cuidados.

Estas custas do processo

em que sam reos culpantes,

pois tiraram d' arremesso

e foram de todo aveso,

paguem polos consoantes.

 

 

As outras custas maiores

nam curo de as julgar,

porque sam de taes valores

os que ficam vencedores

que as nam ham-de levar.

E nam parando oitavo,

onde falam as desputas,

assi diz que é d' escravo

mais que d' homem livre, alvo,

levar injurias nem custas.

 

 

Sentençea deos d' Amor

a dama que deu a

sentença.

 

 

De dobrado fogo d' amores

a dama se fez culpada,

pois que quis com desfavores

antre taes competidores

dar sentença tam errada.

Mas os gritos e cramores

que ouvi de meus cuidados,

as pendenças e ardores,

os grandes brados e dores

que me viam lastimados;

 

 

Isso mesmo a lembrança

das refeições que lhe direi,

dos olhos e fina mostrança,

d' amores toda folgança,

mas descreta em sua lei.

Estas suas doces fruitas,

falo convosco verdade,

muito mais doces que truitas,

com lembrança doutras muitas,

me movem à piadade.

 

 

E assi que lhe perdoo

por amor dos sopricantes,

movido com grande doo,

porque sei que eras antes

espelho das mais galantes.

Porem com tal condiçam,

pois ha decrarar as artes,

que faça tal devaçam,

que haja por concrusam

ũu gentil perdam das partes.

 

 

Vam estas decrarações,

que aqui sam decraradas,

sem outras repricações

singelas nem trepecadas.

Esta lei sempre seraa

estavel e firme e forte,

esta se confirmaraa

e esta se guardaraa

sô pena d' esquiva morte.

 

 

Aqui assina deos d' Amor

a sua sentença.

 

 

Dez mil chagas, dez mil dores,

ũu soo bem com muito mal,

bravos fogos, mil ardores,

mil cuidados matadores

isto trago por sinal.

 

 

Selo do coraçam de deos

d' Amor, com que mostra

que sam amores.

 

 

Ũu fogo que nunca cansa,

ũu amor de meu sentido,

ũu fogo que nam s' amansa

ũu mal que nunca descansa,

de secreta dor ferido.

Mil agravos, mil despreços,

mil tristezas, mil cuidados,

mil achaques, mil começos,

mil antojos, mil empeços,

mil tormentos mui dobrados.

 

 

No milhor muitos embates,

abrolhos d' agudos pregos,

mil ceumes, mil rebates,

muitas raivas, mil combates,

e os olhos ambos cegos.

Mil desmaios, muitos medos,

esforços desconfiados,

desfavores d' olhos quedos,

muito mais bastos que dedos,

desconfortos magoados.

 

 

Mil desdenhos, mil quebrantos,

mil robores, mil vergonças,

mil beocos, mil espantos;

de gemidos sabês quantos?

mil quintaes e dez mil onças!

Mas o lindo namorado

que lealmente guerrea

tem o grao mais esforçado,

mais limpo, mais esmerado

que comprido a Garrotea.

 

 

E despois de acabado

este negro encantamento,

vem ũu bem tam apurado,

ũu prazer tam graduado

em que mil ganha por cento.

Sua dama descaida

com amor mui aficado,

mea morta, esmorecida, 

se outorga por vencida

em galardam do passado.

 

 

Em que cobra toda grorea,

toda bem aventurança,

que milhor grorea, que vitorea,

que leixar grande memorea

de tal amor, tal folgança!

Que tam sabido prazer

e tam grande galardam!

Que digo que o entender

destas cinco copras sam

meu selo, meu coraçam.

 

 

Aqui diz o autor como deos d' Amor

o mandou com embaixada tra‑

zer a sentença enderençada

a Dom Joham de

Meneses.

 

 

A qual como pobricasse

mandou a mim, seu secretario,

que logo a treladasse

e o propeo leixasse

por registo em seu almareo.

E assi m' adereçasse pera

vir embaixador

e qu' estes autos pobricasse

a vós, Dom Joam, senhor.

 

 

E assi em comprimento,

com despacho segui via,

venho com grande tormento,

caminhando noite e dia.

Fiz ũ bordo em Alcobaça,

onde fico mui cansado,

achei no meo da praça

este correo que caça

qualquer partido de graça.

 

 

O qual vos logo aderenço

por minha grande fraqueza,

e por ele vos estenço

estes autos de gram preço,

receba-os vossa nobreza.

E conserve sua fama

como mui lindo fidalgo,

pois ardês em viva chama

e deos d' Amor vos tanto ama

que soes do seu desembargo.

 

 

Fim de todo processo.

 

 

Recebimentos fareis findos

lanheados com do ouro,

mandarês repicar sinos,

sairês esses mais dinos

com rico paleo de ouro.

Ca pelos reinos alheos

por u venho de passada,

me fazem festas, torneos,

mais ricos, com mais arreos

qu' a esta santa cruzada.

 

 

2

 

 

DOM JOHAM DE MENESES A ŨU HOMEM

QUE SE LHE MANDOU ESPANTAR PER

ŨAS TROVAS COMO, SAINDO DE

ŨS AMORES, PODIA ENTRAR

EM OUTROS, E QUE LHE

RESPONDESSE POR

CASTELHANO.

 

 

Los que sienten vidas lhenas

de tristezas y dolores

em poco tienem las penas,

que pensar em las ajenas

consientem los amadores.

Mas yo lo tomo al reves

y loo que en tal empriende,

y que me digan despues

mal de muchos gozo es,

yo sé bien como s' entiende.

 

 

Comparacion.

 

 

Ya muchos que mal firieron

pensando se conortaron,

no nel golpe que les dieron,

mas em muchos que devieron

de matar y no mataron.

Y se vuestro pensamiento

com vuestro mal haver duelo

oos dexo, de lo que siento,

fue por dar al gram tormiento

que vos mat' algun consuelo.

 

 

Mas si soes de mi culpado,

o yo quexoso de vos,

es em darme em lo passado

por hombre que fue penado,

si mirais quien es mi dios.

Que sola la fremosura

de quien yo por mi mal veo

haz dicha mi desventura,

y ser glorea la tristura

que passé y que posseo.

 

 

La passada porqu' ha poco

su pena com la presente;

la presente por ser loco

d' amores, y fago poco,

segun es por quien se siente.

Assi que puede dizer

quien supiere cuyo so

qu' es a mi triste bevir

no vida lo por venir,

ni muerte lo que passó.

 

 

 Fim e comparacion.

 

 

La garça toma receio

dei remontador templano,

mas ya libre de su vuelo

conoce su fim nel cielo

nel que sueltan de la mano.

Assi yo en los amores

passados bien conocia

qu' eran mis remontadores,

mas estos son matadores

de la vida e muerte mia.

 

 

3

 

 

CANTIGA SUA.

 

 

Pois soes tam sem piadade

qu' em meu mal levaes tal glorea,

ja nam quero moor vitorea

que vencer minha vontade.

 

 

Nam dá pena nem prazer

bem nem mal que me façaes,

folgo menos de vos ver

do que vós a mi folgais.

Faz-me algũa saudade

virem cousas aa memorea

que passei; mas, na verdade,

nam me dam pena nem glorea.

 

 

4

 

 

MOTOS GROSADOS A ESTAS SENHO‑

RAS POR DOM JOHAM DE MENE‑

SES, ENDERENÇADOS A

SUA DAMA, EM ŨA

PARTIDA.

 

 

Dona Felipa de Vilhana.

 

 

Los dias de mi bevir

ya los cuento por passados.

 

 

¡ Oh mi vida, por quien vida

vivo lheno de tristura,

por quem pena dolorida

sobra em mi con la partida

como em vos la fermosura!

Con este triste partir

no parten de mi cuidados

y solo por vos servir

los dias de mi bevir

ya los cuento por passados.

 

 

Dona Joana de Sousa.

 

 

Destes fim al coraçon.

 

 

Mas como son despendidos

por amaros y doleros,

aunque sean mal bividos,

no los cuento por perdidos,

pues se perden tras quereros.

Perderlos é qu' es ganar

por vuestra gran perfecion

a quen no puedo negar

que solo por vos amar

distes fin al coraçon.

 

 

Dona Lianor Mazcarenhas.

 

 

Oh vida desesperada.

 

 

Y pues ya vedes cativo

que muero por vos querer

y mi mal qu' es tam esquivo,

piedad de como bivo

haved ora, qu' es d' haver.

No seaes desconocida,

pues en al no soes tachada,

que no tiene merecida

lhamarse por vos mi vida

oh vida desesperada.

 

 

Dona Guiomar de Castro.

 

 

Oh triste gloria passada.

 

 

Conoce que soy perdido,

por vos, vida y muerte mia,

ca, fuera ser merecido,

está ya tan conocido

que negar no se devia,

que siempre fue mi bevir

y mi vida tam penada

qu' aun estaa por venir

lo por que yo devo dezir

oh triste gloria passada.

 

 

Dona Maria de Melo.

 

 

Lo que mi sentir calhava.

 

 

Que de vos nunca pensee

falharme sino qual quedo,

gloria nunca la pasee

ni jamas nunca me see

menos triste ni más ledo.

Y quando triste fengia

qu' este mal no me matava,

mucha más pena sentia,

porqu' enton contrafazia

lo que mi sentir calhava.

 

 

Dona Felipa Anriquez.

 

 

No veo como seria.

 

 

Ya d' aca donde partistes

todo cuanto haves andado,

vo lhorando por du fuistes,

dando mil sospiros tristes

com' hombre desesperado.

Y sabés que tales son

sospiros sin alegria

que salem del coraçon,

mas salir desta passion

no veo como seria.

 

 

Dona Lianor Pereira.

 

 

Quem podesse saber quem

sabe parte de meu bem.

 

 

E como quem vos nam via

anojado de viver

outra cousa nam fazia,

toda a noite, todo dia,

senam chorar e gemer.

E dezia saudoso

sem meu mal sentir ninguem:

— Oh cativo desditoso,

quem podesse saber

quem sabe parte de meu bem.

 

 

Dona Violante.

 

 

Quiça que terná la muerte.

 

 

Pues muriendo os dó plazer,

a la vida fim dar quiero,

sin la qual no puede ser

yo dexaros de querer

y querendoos desespiero.

Y despues de fenecida

mi dolor y pena fuerte

quedar puede guarecida

que lo que falta em la vida

quiça que terná la muerte.

 

 

5

 

 

TROVAS QUE FEZ DOM JOAM DE

MENESES POR LETRA D' ŨA CUM‑

PUSTURA QUE FEZ DE CANTO

D' ORGAM, QUE SE CAN‑

TA TODAS TRES VO‑

ZES POR ŨA

SOO.

 

 

Todas tres vozes por ũa

acordaram contra mim

que paixões ò galarim

me causem sem caus' algũa

triste vida, triste fim.

Sendo falsas acordavam

com tal som e harmonia,

tais enganos mesturavam

que ninguem nam conhecia

de que vento se formavam,

 

 

Senam eu que sei e sento

seus erros e donde vem

com' a quem perdido tem

paixam e contentamento

de seu mal e de seu bem.

E em som de verdadeiras,

com palavras enganosas,

fazem obras lastimeiras,

sam por bem muito danosas

e por mal pouco guerreiras.

 

 

Almas, honras, corpos, vidas,

tudo trocam por fazendas,

dam repouso por contendas

com sospeitas mal havidas,

falam muito sem pôr prendas.

Trazem linguas afiadas,

com que dam golpes mortais,

as vontades mui danadas

i em fim, quand' apertais,

tudo é nada das nadas.

 

 

Cabo.

 

 

Têm em pouco pola vida

de muitos em deferença,

levemente dam sentença

contra parte nam ouvida

sem fazer disso pendença.

Mas quem manda sobre tudo

tem juizo tam perfeito

que ninguem por muito rudo

nunca perde seu dereito,

nem o ganha por agudo.

 

 

6

 

 

TROVA SUA QUE MANDOU A LUIS

DA SILVEIRA, QUE PARTIA

DE LIXBOA AO CERCO

DE TANJER.

 

 

Co estes ventos d' agora

perigoso é navegar,

que se mudam cada hora,

e quem vai de foz em fora

nunca mais poode tornar.

O navio pend' à banda,

a rezam nam é ouvida,

a vontade tudo manda,

e quem ha-d' andar desanda,

quem tem alma nam tem vida.

 

 

7

 

 

GROSA DE DOM JOAM DE MENESES

A ESTA CANTIGA QUE DIZ:

DI, AMOR, PORQUE

QUESISTE.

 

 

¡Oh beldad, que no me dexas

olvidar lo por que peno,

havé duelo de mis quexas,

pues por ti de quien m' alexas

soy de mi cativo ajeno!

No m' acuerdo de más vida

de la que me destroiste,

y pues la he por ti perdida,

darme pena tam crecida

di, amor, porque quesiste.

 

 

Qual rezon te comovió

assi nelha me matares,

pues cativo, triste yo,

solo verte convertió

mis plazeres em pesares.

Que la hora que te vi,

triste fue la postumera

de mi vida, ca morri,

con en verte consenti

que amasse en tal manera.

 

 

Y de lexos he servido

com gram fe tu hermosura,

tu a mi, triste, perdido,

al reves del merecido

immortal diste tristura.

La qual mata y nunca muere

con querer triste que quiera

tu beldad, mas elha quiere

cativo que desespere,

porque yo biviendo muera.

 

 

Y tu bien puedes matarme,

mas nunca verme matar

terná poder de mudarme,

ca no puedo tanto amarme

que te pueda desamar.

Con tudo mi mal estranho

de mi muerte mensagero,

la qual he por menos danho,

sé que no fuera tamanho

si yo fuera lisongero.

 

 

No digo que recelando

tu perderme te ganara,

si te pierdo bien amando,

mas porque mi mal tirando

mi querer te no tirara.

Ansi que tanto quererte

fue causa de mi penar

y perderme de perderte,

pues sin tanta fe tenerte

no me dieras tal lugar.

 

 

Con el qual desesperado

soy de vida sin dolor,

no porque m' hayas falhado

de ti siendo desamado,

nunca menos amador.

Ni porque mi gran querer

te saliesse mentidero,

ni por ser rezon de ser,

mas quieres verme perder

porque amo, verdadero.

 

 

Ansi que pensar devria

que no siendo tanto tuyo,

más aina fueras mia,

mas por desta fantasia

no morir, de razon fuyo.

La razon sin la qual muero,

si triste quiero mirar,

me faze que desespiero,

porque quanto más te quiero,

quieres mi pena doblar.

 

 

Y con tanta mal andança,

quitado de todo vicio,

no pude fazer mudança,

ni puede desesperança

quitarme de tu servicio.

Ni puedo dexar mi vida,

porque bivo de ser triste,

pues le distes la salida,

no al fim que t' ee servida,

mas al fim que lo feziste.

 

 

Yo con fim de fasta elha

tanto te servi sin falha,

piensando qu' em tal querelha

ganava más en perdelha

qu' en otra parte ganalha.

Mas si tu beldad ordena

que mi vida no te quiera,

no podendo ser ajena

de doblar toda mi pena

fue por me buscar manera.

 

 

Cabo.

 

 

Acabo porque son tales

las penas triste que tengo

que de vivas son mortales;

ni son ya males los males

que sin ti por ti sostengo;

mas bienes si me quitaren

la vida que no tuviera,

y vida, si me mataren,

y muerte, si me dexaren,

porque yo biviendo muera.

 

 

8

 

 

DOM JOAM DE MENESES.

 

 

Mi tormiento desigual

pera más pena sentir

me tiene fecho immortal

y no me dexa bevir.

 

 

Porqu' es tormiento tan fiero

la vida de mi cativo,

que no bivo, porque bivo,

y muero, porque no muero.

Es mi vida tan mortal,

tormiento pera sofrir,

que me fue dado el bevir

por pena más infernal.

 

 

9

 

 

CANTIGA SUA.

 

 

Ojos tristes, desdichados,

de todo mal causadores,

vos fezistes mis cuidados,

doloridos, lastimados,

pera sempre ser d' amores.

 

 

Vos fezistes mis tormentos,

desastrados, graves, crudos,

solo em ver

quien por sus merecimentos

vos fizo quedar desnudos

de plazer.

Assi que por mis pecados

nos dimos por servidores

de quien nos tiene robados

de plazer y nos ha dados

mil cuidados por amores.

 

 

10

 

 

OUTRA SUA.

 

 

Pois minha triste ventura

nem meu mal nam faz mudança,

quem me vir ter esperança

cuide qu' ee de mais tristura.

 

 

E pois vejo que em morrer

levais groria nom pequena,

antes nam quero viver

que viverdes vós em pena.

Quero triste sepultura,

quero fim sem mais tardança,

pois nunca tive esperança

que nam fosse de trestura.

 

 

11

 

 

CANTIGA SUA QUE MANDOU

ÀS DAMAS EM JAZENDO

DOENTE.

 

 

Senhoras, meu coraçam

querei por Deos confortar,

que por querer

é doente de paixam,

e jaz em cama d' amar

pera morrer.

 

 

Querei dar-lh' algũs conforto,

pois isto nam vem d' olhado,

mas d' oulharem

meus olhos quem me tem morto

dias ha, sem ser culpado,

em me matarem,

e à honra da paixam

e morte qu' hei-de passar

pola querer,

confortai meu coraçam

que jaz em cama d' amar

pera morrer.

 

 

12

 

 

CANTIGA SUA.

 

 

Agora sei que maldade

fiz a mim em vos querer,

agora sei a verdade,

que vejo com que vontade

folgastes de me perder.

 

 

Se taqui por vós sentia

tristeza, pena, paixam,

polo bem que vos queria

esperava e merecia

dardes-m' outro galardam.

Tinha posto na vontade

servir-vos atee morrer,

mas depois soub' a verdade

e acho que mor maldade

ca qu' eu fiz nam pode ser.

 

 

13

 

 

DE DOM JOAM DE MENESES A

SUA DAMA EM ŨA

PARTIDA, SENDO

MOÇO.

 

 

Senhora, por vos lembrar

a tristeza qu' em mim cabe

e tambem por vos gabar,

quis aquisto começar,

mas nam sei como vos gabe.

Ca vos vejo sem vos ver

tam fermosa qu' ee danar-vos

louvar vosso merecer,

nem sei cousa que dizer

que nom seja desgabar-vos.

 

 

Vejo-vos, minha senhora,

nacida sem par no mundo,

vejo a mim que milhor fora

ca me ver sem vós agora,

ter-m' a terra ja de fundo.

Vejo-me por vós penado,

vejo Deos por vos fazer

ser de todos mais louvado

que por ser cruceficado

nem por seu gram padecer.

 

 

Vi a mim fazer partida

com qu' espera de partir

deste mundo minha vida,

porque nisto soo dovida

de vos mais ver nem servir.

Dovida e eu dovido,

pois desta hei-de morrer,

nem quero que possa ser,

vendo-me de vós partido,

ter vida nem mais viver.

 

 

Que bem sei que m' ee sobejo

viver eu, e isto digo,

porque se cumpro o desejo

vosso, meu, segundo vejo

que folgais pouco comigo.

E se taqui desejava

de ter vida ou a queria,

era soo porque vos via

e por vos ver comportava

quanto mal m' ela fazia.

 

 

Mas agora a saudade

de vossa gram fremosura,

sem nenhũa piadade,

faz mudar minha vontade

por fim de minha tristura.

E faz-me qu' hei por sobeja

vida tam sem esperança

e o qu' a vida deseja

é estar onde vos veja

ou morrer sem mais tardança.

 

 

E por isto se comprir,

minha vida e meu viver

querem morte consentir

e eu soo por vos servir

nam me pesa de morrer.

Que bem sei que folgareis,

como de feito folgais,

e bem sei que al nom quereis

e tambem que morrereis

se me cedo nom matais.

 

 

Polo qual sem esperar

de vos ver mais em meus dias

como quem se vê matar,

dixo isto por lembrar

que me nam chegou Mancias

em amar nem em querer,

conquanto teve grã fama,

sem se nunca desdizer,

e depois triste morrer

por amor de sua dama.

 

 

Por ser de vós apartado

me vejo neste perigo,

e por ser tam namorado,

triste, mal aventurado,

vejo a morte ja comigo.

Sem vos ver, porque vos vi,

vejo morto meu viver,

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