LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico

O Hissope, de António Diniz da Cruz e Silva


Edição de base:

 O Hyssope, Paris: Oficina de A. Bobée, 1817.

 

 

 

 

 

 

O Hissope

poema herói-cômico

 

 

 

Canto I

 

Eu canto o BISPO, e a espantosa guerra,

Que o HYSSOPE excitou na Igreja d’Elvas.

Musa, Tu, que nas margens aprazíveis,

Que o Sena borda de árvores viçosas,

Do famoso Boileau a fértil mente

Inflamaste benigna, Tu me inflama;

Tu me lembra o motivo; Tu, as causas,

Por que a tanto furor, a tanta raiva

Chegaram o Prelado, e o seu Cabido.

 

Nos vastos Intermúndios de Epicuro

O grão país se estende das Quimeras,

Que habita imenso Povo, diferente

Nos costumes, no gesto, e na linguagem.

Aqui nasceu a Moda, e d’aqui manda

Aos vaidosos mortais as várias formas

De seges, de vestidos, de toucados,

De Jogos, de Banquetes, de Palavras;

Único emprego de cabeças ocas.

Trezentas belas, caprichosas Filhas,

Presumidas a cercam, e se ocupam

Em buscar novas artes de adornar-se.

Aqui seu berço teve a espinhosa

EscolásticaFilosofia,

Que os Claustros inundou; e que abraçaram

Até a morte os pérfidos Solipsos.

Daqui saíram, a infestar os campos

Da bela Poesia, os Anagramas,

Labirintos, Acrósticos, Segures,

E mil espécies de medonhos Monstros,

A cuja vista as Musas espantadas,

Largando os instrumentos, se esconderam

Longo tempo nas grutas do Parnaso.

Aqui (coisa piedosa!) alçou a fronte

A insípida Burleta, que tirana

Do Teatro desterra indignamente

Melpómene, e Tália, e que recebe

Grandes palmadas da Nação castrada.

       Do denso Povo, que o país povoa,

Um com pródiga mão ricos tesouros,

A troco d’uma Concha, ou Borboleta,

Ou d’uma estranha Flor, que represente

As vivas cores do listrado Íris,

Despendem satisfeitos: Outros passam,

Sem cessar, revolvendo noite e dia

Do antigo Lácio antigos manuscritos,

Do roaz tempo meio-consumidos,

Para depois tecer grossos volumes

Do – H – sobre a pronúncia; ou si se deve

A Conjunção unir ao Verbo, ou Nome,

Que marcham antes d’ela no discurso.

Alguns (mísera gente!) inutilmente

Compõem grandes Ilíadas, e tecem

Aos vaidosos Magnatas mil Sonetos,

Mil Pindáricas Odes, e Epigramas,

A que apenas de olhar eles se dignam.

Estes, cujas cabeças desgraçadas

Não bastam a curar três Anticiras,

Abraçados se crêem d’um santo fogo,

E ter comércio com os altos Deuses:

Senhores da áurea fama e seus tesouros,

Se inculcam aos Heróis, e em seus delírios,

Se julgam mais felizes, e opulentos

Que o grande Imperador da Trapizonda;

Em quanto, na pobreza submergidos,

Cobertos de baldões, e de impropérios

Dos Ricos ignorantes, e dos Grandes,

Com mofa e com desprezo, são olhados.

       Deste pois populoso, vasto Império

Em paz empunha o cetro poderoso

O Gênio tutelar das Bagatelas.

       N’um majestoso Alcáçar, que se eleva,

Com estranha estrutura, até as nuvens,

Assiste o grande Nume; e d’ali rege

A Lunática gente, a seu arbítrio.

De transparente talco fabricado

É o largo edifício, que sustentam

Cem delgadas colunas de miçangas.

Nos quatros lados, em igual distância,

Quatro torres de lata se levantam,

Do Capricho obra, em tudo, muito prima,

Onde a matéria cede muito à Arte.

       Aqui pois a Conselho chama o Gênio

Do seu Império os principais Dinastas.

       N’um vistoso salão, todo coberto

De papel prateado, e lantejoulas,

Se ajunta a grande Corte; e ali, por ordem,

Assentando-se vai: aos pés do trono

De alambres e velórios embutidos,

A Lisonja se vê, e a Excelência;

Segue-se a Senhoria, e abaixo dela,

O Dom surrado, as grandes Cortesias,

O Wisth, o Trinta e um, os Comprimentos;

E logo o Vampirismo, os Sortilégios,

Os Silfos, Salamandras, Ninfas, Gnomos

E os outros Gênios da sutil Cabala.

De mil vãs Cerimônias rodeada,

Os assentos reparte a Precedência.

 

       Composto o grão rumor, e sossegado,

Assim do alto do trono o Gênio fala:

“Ilustres moradores deste excelso

Magnífico Palácio, bem sabido

Já há muito tereis o quanto deve

O meu augusto Gênio, a nossa Corte,

Ao grão Prelado, que as ovelhas pasce

Dos Elvenses redis: notório a todos

Sem dúvida vos é, como pospondo

Das funções mais piedosas o cuidado

Às nossas bagatelas, só se emprega

Em coisas vãs, ridículas, e fúteis.

A corrupta, mas Real Genealogia,

O roxo terciopelo dos sapatos,

As pedras, que lhe esmaltam as fivelas,

A preciosa Safira, a linda Caixa,

Onde, (sobre Anfitrite que tirada

De escamosos Delfins, numa áurea Concha,

Os verdes Campos de Netuno undoso,

Cercada de Tritões, nua passeia)

Do famoso Martin o verniz brilha;

Seu emprego só são, e seu estado.

Enfim, entre os mortais, não há quem renda

À minha Divindade maior culto.

Agradecido pois ao grande empenho,

Que mostra em nos honrar, tenho disposto

Das à sua vaidade um novo pasto.

Que à uma escusa porta o Deão saia,

Com Hissope, a esperá-lo, determino.

Deste meu parecer quis dar-vos parte,

Não só para escutar os vossos votos,

Mas para que saibais e fiqueis certos,

Que a Corte não fazeis a um Nume ingrato.”

 

Acabou de falar: e confirmando

Todo o sábio Congresso e seu ditame,

Um sussurro no Conclave se espalha,

Ao do Zéfiro em tudo semelhante,

Quando nas frescas tardes suspirando,

A bela Flora segue, que travessa

Cá, e lá, entre as flores, se lhe furta.

 

       Mas a vã Senhoria, que se lembra,

Que em casa do Deão sempre encontrara

A mais benigna, a mais certa guarida,

Que seu nome na boca do Lacaio,

Do Cozinheiro, da Ama andava sempre,

A cabeça movendo descontente,

Três vezes escarrou, e a voz alçando,

D’esta sorte falou ao grão Déspota:

 

       “Soberano Monarca, que Tu queiras

Premiar a quem te honra, empresa digna

É de teu coração: eu mesma aprovo,

E mil vezes ditara este conselho:

Mas que, para o fazer, hoje pretendas

Que um Deão, de crescente e curta vista,

A digna abata, e a esperar saia,

N’uma porta de escada, e seu Prelado;

Num justo me parece, nem louvável.

Se Tu queres honrar sua Excelência,

Outras maneiras há de consegui-lo:

Na mesma Igreja de Elvas, e Cabido

Há um Bastos, um Souza, dois Aporros,

Que, juntos com os Pitas, podem todos

Inda a mesma com uma acompanhá-lo,

Levantar-lhe a cortina do traseiro,

Lavar-lhe o nédio cú, - e até beijar-lhe.

Estes, e outros desta mesma estofa,

De que o Bispado, quase todo, abunda,

Às costas vão buscar o gordo Bispo,

Que inda que um pouco pesa, vem seguro:

Que são Cavalos mestres, e possantes.”

 

       Mais queria dizer o vão Dinasta,

Quando, do seu assento, esbravejando,

Se levanta impetuosa a Excelência

O furor que lhe inflama o grave aspecto

As palavras lhe corta; e principia

Cem vezes o discurso, e o logo pára:

Até que nestas descompostas vozes

Finalmente atroou a grande sala:

 

       “Como! E é possível que haja quem se atreva,

Neste Congresso, a opor-se, cara a cara,

Aos obséquios, que Tu, oh Nume, ordenas

À uma Reverendíssima Excelência?

Um Deão, c’o seu Bispo comparado,

Um cominho não é? Se Tu, oh Nume,

O teu grande projeto não sustentas,

Eu só...” E nisto bate o pé na Casa.

 

       Ao rijo som da bestial patada

Tremeu o régio solo, e o pavimento.

Assentes, e Assistentes assustados

Caíram pela terra. Então o Gênio

Alçando um pouco a voz: “Basta (lhe disse)

“Eu disputas não quero em meu Conselho,

Minha resolução está tomada;

Eu a escrevi, eu mesmo, em meu canhenho;

Eu o que escrevo uma vez, nunca mais borro.”

 

       Aqui, c’o rosto um pouco carregado,

O Conclave despede; e logo chama

A vistosa Lisonja, que n’um ponto

Cem caras, cem vestidos, cem figuras,

Cem línguas toma, e muda brevemente

De palavras, e tom, segundo o gosto

Dos que o governo tem; e assim lhe fala:

 

       “Magnata principal da minha Corte,

Eu, para executar este projeto,

Entre todos te escolho; diligente

Parte a cumpri-lo; pois de tuas artes,

E de ti só confio a grande empresa.”

 

       Acaba; e mais veloz que a leve seta

Parte do Itureo arco, ou na alta noite

Cair se vê do Céu brilhante estrela,

Voa o falso ministro, abrindo os ares.

 

       Junto da boca do cruel Averno,

A Província se vê da Dependência,

Cujos Campos retalha, murmurando,

Um pequeno ribeiro de água turva:

Não cria em suas margens tronco altivo;

Mas só ervas humildes, e rasteiras

Produz o seu humor; se algum arbusto

Mais viçoso rebenta, as suas folhas

Tem para a terra todas inclinadas.

Funesto influxo do liquor maligno,

Que o suco lhe ministra! Aqui, voando,

A Lisonja chegou; enchendo de água

Uma pequena infusa, que trazia,

As asas abre, parte alegremente,

Fendendo os leves ares; mil Cidades,

Mil Povos deixa atrás, até que chega

Da famosa azeitona à grande Terra.

 

       Aqui, tomando a forma do Lacaio

Do farfante Deão, entra na Casa,

A tempo que, de chambre e de chinelas,

Pela comprida sala passeava,

Sorvendo uma pitada de tabaco,

Do quando em quando, sua Senhoria:

Ora a janela chega, e aplicando

Uma pequena lente à curta vista,

O que passa na Praça vigiava;

Ora arrotando, para dentro, torna.

Ardia então em calma toda a terra,

E o calor, que as goelas lhe secava,

Lhe faz bradar por água, e caramelos.

 

       A Lisonja, que idôneo tempo vira

Para tamanha empresa, um copo enchendo

Da turva linfa do regato impuro,

Com quatro caramelos, n’uma salva

Lhe levou mui lampeira; ele sorvendo,

Com muita mogiganga o fofo açúcar,

Os dedos lambe, e logo o copo vasa

Do maligno liquor dentro na pausa.

Acabou de beber; e pouco a pouco

O veneno se atua dentro na alma:

Uma chama sutil, um vivo foge

Lentamente se ateia: arde em desejos

De ir o Bispo buscar, de oferecer-lhe

O mais ativo incenso; mil obséquios

Na cabeça lhe rolam, e o transportam:

Da tarde em todo o resto não sossega,

Nem na profunda noite estas idéias

O deixam descansar um só momento:

Sobre os fofos colchões revolve o corpo,

Mil maneiras pensando de adulá-lo.

Umas vezes lhe lembra debuxar-lhe

Em dourado papel sua prosápia,

Mas de Genealogia nada entende

O triste, por seu mal: outras lhe ocorre

Ir calçar-lhe os sapatos: com inveja

Olha o ilustre Almeida a feliz sorte,

Que os pratos, e a bebida lhe ministra.

De noite a maior parte assim consome

Nestes projetos vãos; e com nada assenta.

 

       Até que, junto ao toque da alvorada,

A Lisonja, tomando a leve forma

D’um doce sonho (apenas cerra os olhos),

Entre mil vãos fantasmas lhe aparece,

E assim lhe fala: “Oh grande Dignidade,

Cabeça ilustre do Cabido Elvense,

Se do teu alto engenho hoje pretendes

Dar ao mundo uma prova, humildemente

Tomando o bento Hissope, a porta nova,

Com ele, o teu Prelado, pronto espera.

Honrar nossos Maiores coisa é santa,

Que a natureza inspira: da Sintaxe

O cartapácio diz, que mais ilustres

Seremos, quando formos mais humildes.

Neste ponto acordou o Prebendado;

E vestiu-se a pressa, à Igreja corre;

Sem fazer oração, o Hissope toma,

E com ele, na porta sinalada,

Sua Excelência espera: ali apenas

Da liteira assomou o grande macho,

Por terra se prostrou, e desta sorte

Ao Pastor, que se apeia, o Hissope oferece,

Que uma santa vaidade respirando,

Nele alegre pegou, e o sacro Asperges

Circunspecto lhe lança; em si cuidando,

Que todo este profundo acatamento

A seu ilustre berço era devido;

E, nestas vãs idéias engolfando,

Foi devoto cantar a grande Missa.

 

 

 

Canto II

 

Reinava a doce paz na santa Igreja;

O Bispo, e o Deão, ambos conformes

Em dar, e receber o bento Hissope,

A vida em ócio santo consumiam.

O bom vinho de Málaga, o presunto

Da célebre Montache, as Galinholas,

As Perdizes, a Rola, o tenro Pombo,

O grão Chá de Pequim, e lá da Meca

O cheiroso Café, em lautas mesas,

Do tempo a maior parte lhes levavam;

E o restante, jogando exemplarmente,

Ou dormindo, passavam, sem senti-lo.

 

       Em tanto a Senhoria, em cujo peito

Altamente ficou depositada

Da soberba Excelência a petulância,

Mil vinganças na mente revolvendo,

Consigo mesma diz: “Que! Porventura

Não sou Eu a sublime Senhoria,

Ídolo de Pelões, e de Casquilhos?

Quantas Moças gentis, em cujos rostos

Entre lírios brilhar se vêem as rosas,

A meu culto são rendem seus cuidados:

Quantos graves Varões, que sobre os livros,

Ou de cãs sob os elmos se cobriram?

Nas ricas, e faustosas assembléias

Não tenho porta franca? Não me fazem

Os Circunstantes todos mil lisonjas?

Não correm após mim? não me festejam?

Pois como sofro que a Excelência altiva,

A seus pés me derrube, e me atropele?

Ah! se esta injúria sofro; com desprezo

Entre a gente será meu nome ouvido:

Nem em Casas armadas de damasco,

Ou de panos de rás, onde espumando

Na rica transparência porcelana,

Da Carácas se seve o Chocolate,

Roda o Chá, o Café, se joga o Wisth,

Terei, como costumo, entrada livre:

E somente nas lojas dos barbeiros,

Ou pintadas boticas, entre as moscas,

A vida passarei triste, e sem honra.

Às armas pois corramos, e à vingança;

Que desmaiar à vista dos perigos

É de ânimo abatido indício certo.

Mil artes, mil maneiras de vingar-me

Buscará minha astúcia. O mundo inteiro

Hoje conhecerá minha potência.”

Disse: e sobre o veloz dourado carro,

Que tiram seis Pavões, irada sobe,

Levemente rasgado o ar sereno.

      

       Nas entranhas de Ródope escabrosa

Uma furna se rasga, tão medonha,

Que um gelado tremor, à sua vista,

Dos tímidos mortais os ossos corre:

Aqui lutando sempre em viva guerra,

Rugem mil furacões de opostos ventos,

Aqui se ouvem silvar horrendamente

Górgones, e Cerastas. A Discórdia

Aqui morada tem, aqui tem seu trono.

A este horrendo hospício a Senhoria,

Batendo as rédeas às pomposas aves,

Guia soberbo carro. Espavorido

Da triste vista do medonho alvergue,

Três vezes quis atrás volver o vôo

Das belas aves o soberbo tiro;

E três vezes o Gênio vingativo,

Sacudindo, raivoso, o longo açoite,

O constrange, por fim, a tomar terra.

Ali do Carro desce, e às palpadelas,

Pela cega caverna entra animosa.

 

       No mais profundo da sombria estância

Assiste a cruel Deusa, cujo rosto

Apenas se devisa, à luz confusa,

Que espalham, respirando de contínuo,

Por olhos e gargantas, mil Serpentes.

Aqui o Gênio chega, e derribado

Pela terra, que beija humildemente,

Desta sorte falou: “Nume terrível

Cujo grande poder, cuja vingança

A Terra faz tremer, e o mesmo Olimpo

A teus pés hoje chega a Senhoria;

Atrozmente ultrajada, o teu socorro

Contra a fera Excelência, humilde implora:

Se de peitos ilustres glória, e timbre

Foi sempre proteger os desvalidos,

Tu me vale em meus males, Tu castiga

D’um Gênio insultador a petulância.

Além disto presumo, não ignoras,

Que o farfante Deão da Igreja de Elvas,

Pela baixa lisonja persuadido,

Esquecido da sua dignidade,

Numa porta travessa, o bento Hissope,

Vem, sem brio, oferecer ao gordo Bispo.

Daqui nasce a concórdia, que hoje reina,

Em desprezo da tua Divindade;

Na mesma Igreja e Ócio, e a Preguiça,

De teu poder zombando, nela habitam:

Tu mesma, se o meu pranto te não move,

Para crédito teu, perturbar deves

Esta serena paz, que o Ócio nutre.

Tu podes, se te agrada, a um só aceno,

No seio da família mais conforme,

Dissensões semear, motins, e bandos,

Banhar no fraternal sangue inocente

O buído punhal; e num momento

A Terra confundir, e o Mar profundo:

Mil Fraudes, mil Ciladas e mil Tramas,

Como Escravas fiéis, prontas te servem.

Do Deão fascinado pois desperta

A inata presunção, o gênio altivo.

Tu faze, que conheça o desar grande,

Em que caído tem, e se arrependa

Do baixo incenso, que à Lisonja rende:

Tu lhe traze à memória, que seu nome,

Seu nome ilustre, na futura idade,

Dos Deãos no catálogo, com mofa

De todos os vindouros será lido;

Sabendo-se, que a tanto abatimento

Seu espírito chegou; Tu furiosa

Os ânimos altera, e a paz desterra.”

 

       Disse: e o tirano Nume respirando

Das entranhas um negro e vivo fogo,

Desta sorte responde: “Bem conheço,

Oh nobre Senhoria, quanto devo

A teu soberbo influxo; quantas vezes

Auxiliado tens minhas cabalas.

Sei, que, por teu respeito, se não fala,

Na Terra, muita gente; as muitas mortes

De que autora tens sido. Não me esqueço

Do que devo aos amigos. Vai segura,

Que eu já parto a vingar tuas afrontas.”

 

       Aqui, sobre um feroz Dragão montando,

Rapidamente voa: incêndios, mortes,

Sacrilégios, traições, roubos ruínas

Vai deixando a Cruel, por onde passa.

Chega dos Elvos à Colônia antiga;

E vendo de passagem os Domínicos;

Entre o Prior, e os frades mil disputas

Sobre o chá,  sobre o jogo, e sobre os Doces,

Que aos Tafues, com mão larga, dá na cela,

E sobre os trates, que as Senhoras manda,

Tiranamente excita: alguns gritavam

Que o Convento roubava, que a Clausura

E religiosa vida se perdera:

Outros, cheios de cólera, gritavam,

Que por jogar o Wisth, e dar merendas,

As rendas dissipava do Mosteiro;

Que por isso, no santo Refeitório,

A Fome cruelmente os consumia.

Mas o santo Prelado, todo cheio

De exemplar paciência, e de modéstia,

Vociferar os deixa, - e vai jogando.

 

       Entre tanto a Discórdia encara a porta

Do grande Presidente do Cabido,

A tempo que estirado, à perna solta,

Sobre um mole Sofá, dormia a sesta.

Roncava mui folgada, e cada ronco

A grande sala estremecer fazia,

Ali, encarquilhado o feio rosto,

Um Rosário tomou, e na figura

Da velha e carunchosa Ama se torna:

Assim, a lentos passos caminhando,

Ao Cônego chegou; assim o acorda:

 

       “Como, em tão doce paz assim repousa,

Dorme, e descansa vossa Senhoria;

Ao mesmo passo, que na Terra toda

Do seu nome se faz ludibrio, e mofa?

Como (discorrem uns) como é possível

Que o bom Capitular, que viu o Papa,

Que em Roma conversou com o Datário,

E do sacro Palácio com o Mestre,

Que joga o Trinta e um, e mais o Wisth,

Que chá, e que Assembléia dá em Casa,

A tanto abatimento hoje chegasse,

Que à porta da Comuna o Hissope traga,

Para oferecê-lo a um Bispo de má morte?

Outros dizem. – Parece coisa incrível,

Que a principal figura do Cabido,

Que tem loba de seda, e trouxe às costas,

Lá da famosa Itália a senhoria,

Tanto de si se esqueça, e do seu cargo? –

E Vossa Senhoria, ao ócio entregue,

Dorme profundamente? Acorde, acorde

Desse mole letargo, que é já tempo;

Veja o que deve a si, aos seus Maiores,

À grande Dignidade, que, brilhando

Com seus raios, o cerca majestosa;

E deixe a vil Lisonja, que o arrasta.”

 

       Aqui, os turvos olhos esfregando,

O Deão abre a boca, estende os braços,

A cabeça levanta, e desta sorte

Ao Monstro enganador irado fala:

“Que frenesi é este, Velha tonta?

Está fora de si? ou bebeu vinho,

Que o miolo lhe faz andar à roda?

Reze nas suas contas: Quem a mete

Em coisas a falar, que não lhe tocam?

Vá-se logo daqui...” Nestas palavras,

Outra vez, sobre o mole travesseiro

A pesada cabeça cair deixa.

 

       Então a cruel Deusa, ardendo em ira;

“Pois não queres de grado (lhe tornava)

Por teu brio acudir, a minha força

Agora provarás.” Isto dizendo,

A furtada figura pronta despe,

As hidras arrepela da cabeça,

E cheia de furor, uma arrancando,

No seio do Deão, feroz a lança,

E súbito pelo ar desaparece.

Em tanto a cruel hidra a cauda ferra

Do Cônego nas míseras entranhas.

Em Delfos a famosa Pitonisa,

Toda agitada d’um furor Divino,

Não geme tão convulsa, tão raivosa

Não corre, não retorce os vivos olhos,

(Não podendo sofrer a Divindade)

Como o pobre Deão: - Do Sofá salta;

Correndo furioso toda a sala,

“Armas, armas (bradava) guerra, guerra.”

 

A estas vozes acode diligente,

Da Casa toda gente; e presumindo,

Que algum grave acidente lhe roubara

De todo o pouco siso, pegam nele,

E por força o levaram para a cama,

Onde a cru cachação, a muro seco,

Lhe fizeram cessar parte da raiva.

 

 

 

Canto III

 

Era dia de festa, e na alta torre

Da grande Catedral, de vinte sinos

O grave Carrilhão, rompendo os ares,

Os fregueses chamava à grande Missa,

Quando sua Excelência vigilante,

Montando a grã Liteira, em que se via,

Com modéstia exemplar, Vênus pintada

Sobre um globo de tenros Cupidinhos,

Qual ao mancebo Adonis ou a Páris,

Na Idália selva já se apresentara,

Para a Sé lentamente se encaminha.

 

       Tu, jocosa Tália, agora dize

Qual seu espanto foi, sua surpresa,

Quando à porta chegando costumada,

Nela o Deão não viu, não viu o Hissope.

Tanto foi da Discórdia o fero influxo!

Caminhante que vê súbito raio,

Antes seus pés cair, ferindo a terra,

Tão suspenso não fica, tão confuso,

Como o grave Prelado: a cor mudando,

Um tempo imóvel fica; mas a raiva

Sucedendo ao desmaio, entra escumando

Na grande sacristia, e dali passa

Para o Altar mor, aonde se reveste,

Onde, como costuma, em contrabaixo,

Sem saber o que diz, a Missa canta.

Toda aquela manhã, uma só benção

Sobre o Povo não lança, antes confuso

Em profundo silêncio à Casa torna,

Onde logo a Conselho convocando

Toda a grande família, assim lhe fala:

 

       “Amigos, Companheiros, que o Destino

Fez do meu mal e bem participantes,

O caso sabereis mais execrando,

Que até hoje no Mundo se tem visto.

O Deão...” (E aqui, dando um grão soluço,
Em pranto as negras faces todas banha,
Suspenso um pouco fica, e logo torna)

“O soberbo Deão, que sempre atento

Ao meu alto decoro, o santo Hissope

Vinha trazer-me à porta do Cabido

Hoje não só deixou de vir render-me

(Ah! Que não sei, se de nojo, como o conte!)

Este obséquio devido ao Real sangue,

Que nas veias pulsa heroicamente;

Mas, na sua cadeira empantufado,

Os Salmos entoava, em mim fitando

A carrancuda vista; de tal sorte,

Que mostrava insultar-me, com desprezo.

A raiva, e o grão furor, que a alma me ocupam,

Me tem fora de mim: não sei que faça

Para vingar tão grande e atroz delito.

Vós conselho, vós artes, vós maneira

(Pois a vós também chega a grande afronta)

Me dai, para punir este atrevido.”

 

       Disse: e um grande Lacaio da liteira,

Famoso Rodomonte das tavernas,

A voz tomando a todos, desta sorte

Seu conselho propôs: “Tão grande caso,

Senhor, se leva a pau: eu tenho um raio

De sege, há muito já experimentado

Em funções semelhantes, eu com ele

De sua Senhoria tal vingança

Hoje espero tomar, que de escarmento

A todos sirva...” Aqui o grande Almeida

Gentil-homem da Câmera, e da Boca,

Homem de Gabinete, e de Conselho,

Bom Poeta, Orador, Petrus in cunctis,

Que goza do Prelado a confidência,

O discurso lhe atalha deste modo:

“Se este horrendo, execrável atentado,

Ao vê-lo, digno de que o Sol brilhante,

Os rúbidos Cavalos afastando,

Corresse a mergulhar-se eternamente

Nas voragens da noite mais espessa,

Se houvesse de levar, por força e armas;

Eu armas, coração, e forças tenho:

Mas violentos remédios só se aplicam

Em mal desesperado; isto suposto,

Astúcia, e mais astúcia se precisa;

Que, onde reina a Prudência, nada falta.

Vossa Excelência conta no Cabido

A muitos parciais, e lisonjeiros;

Estes pois, sendo a Conclave chamados,

Poderão sustentar o seu partido,

E obrigar que o Deão faça por força

O que fazer recusa voluntário.”

 

       A estas vozes, babando-se de gosto,

O Prelado exclamou: “Oh raro engenho!

Meu poder, minha força, e meu conselho!

O teu voto me praz; segui-lo quero.

Chamem-me, logo logo, o douto Andrade,

O Grã-Penitenciário, o seco Marques;

E o jantar se prepare prontamente.”

 

       Já na soberba mesa cem terrinas,

O vapor mais suave derramando,

A insaciável gula provocam,

Quando chegam ao cheiro os Convidados,

Que, feitos os devidos comprimento,

Sem distinção, em torno, se assentaram.

Começam a chover logo os manjares,

Cem Perdizes, cem Pombos vem voando,

Cem espécies de molhos, cem de assados,

Grandes Tortas, Timbales, pastéis, cremes

Cobrem com simetria a grande mesa:

A cabeça não falta de Vitela,

Nem do gordo animal a curta perna,

Cozida em branco leite, ou doce vinho.

Mil frutas, mil corbelhas, mil compotas

A terceira coberta logo adornam;

E em dourados cristais, oh loução Baco,

De tuas plantas brilha o roxo sumo.

Entre tanto na porta do Palácio,

A cem pobres o Bicho da Cozinha,

Por ordem do Pastor caritativo,

Um Caldeirão de caldo repartia.

 

       Entre os copos, que em torno sempre giram,

Brevemente propôs o gordo Bispo

Aos bons Capitulares seu projeto,

Que todos aprovaram, e ali juram

Pelo doce liquor, que impetuoso

Pelas veias, e cérebro lhes corre,

De o sustentar – até darem as vidas

Por vê-lo felizmente executado.

 

       Assim da lanta mesa entre as delícias

Largas horas passaram docemente;

Em um queijo de Parma inda roia

A alegre Companhia, pastejando,

Quando das santas Vésperas, na torre,

Fez sinal o relógio. Descontentes

Ao triste som do aborrecido sino

Se levantam em pé os Prebendados,

E fazendo uma longa reverência,

Correm velozes, por fugir da multa,

A ganhar no alto Coro os seus assentos:

Ali mesmo, primeiro que rezassem,

A seus sábios Colegas propuseram,

Que para resolver certo negócio

De maior interesse ao grande Corpo,

Preciso vinha a ser, que ao outro dia,

Em que o Deão da Terra se ausentava,

Se ajuntasse o Cabido. Na proposta,

Sem nenhum discrepar, todos concordam.

Engrolados os Salmos, para casa

Cada um se partiu, em si pensando

Qual seria o negócio, que obrigava

O Cabido a chamar. Alguns julgavam.

Que a Pia d’Água Benta se mudava:

Outros, cheios de gosto presumiam,

Que para se vender mais caro o trigo,

Que no comum Celeiro se guardava,

Algum Celeste arbítrio se encontrara.

 

       Mas o famoso Bastos, d’outra sorte

Consigo discorria: “Certamente,

Para nos distinguir da baixa plebe

Dos vis Beneficiados, desta feita

(E como se ufanava!) Se nos manda,

Que de verde forremos as batinas;

E que Chapéu azul, com borlas brancas

Tragamos na cabeça.” Neste ponto,

Em si próprio, de gosto, não cabendo,

Pulava para o ar, batia as palmas.

Não de outra sorte o mísero mendigo,

Que sonha achar tesouros soterrados,

Se alegre, salta, e folga, e se imagina

Igual ao grã-Sophi da rica Pérsia;

Que vão Capitular, que já se pinta

Na sua extravagante fantasia

A par do grã-Lama, no fausto e pompa,

Ou do fero Muphti dos Muçulmanos.

 

       Cheio destas idéias entra em casa,

E para dar seu voto na Assembléia

Com mais legalidade, pedir manda

Ao Rábula do Cêa alguns Autores,

Que os Cânones sagrados comentaram.

- O douto Acursio, todo satisfeito

De poder granjear um Prebendado,

Esperando medrar por esta via,

E vestir alguma hora a roxa murça,

Digno prêmio das suas gordas letras,

Lhe envia o Bertachino, o grande Granha,

Tamborino, Escolano, Spada, e Pichler,

Meninas de seus olhos, flor e honra

Da rançosa, indigesta Livraria.

 

       O bom Cônego, vendo os grossos tomos;

De prazer, em si próprio, não cabia:

Julgando, pelo vulto dos volumes,

Que deles qualquer seja Autor de arromba;

Já, sem demora ordena, que lh’os tragam,

Para um voto lançar, que semelhante

Nas Decisões da Rota não se encontre;

Papel de Holanda, penas, e tinteiro;

E para que completo em tudo fosse,

A Roda da Fortuna, e Cristais d’alma

Trazer manda também, fazendo conta

De, em partes, lhe sirgir alguns pedaços,

Que encantado o deixaram, quando os lera.

Isto ordenado, para a banca chega,

O lenço tira, o grosso monco assoa,

Toma tabaco, escarra, os livros abre,

E a folhear começa; porém vendo

Que nada entende do que está escrito,

Para a ceia se chega, e enchendo a pança,

Se foi a repousar no brando leito.

 

       Já a rosada Aurora, derramando,

Do cândido regaço, sobre os prados,

Mil orvalhadas flores, despertava

Com a trêmula luz de sete cores,

Os míseros mortais a seus trabalhos;

Quando, na grande sala do Cabido,

Se ajuntam os zelosos Prebendados;

E tomando, por ordem, seus assentos,

Depois d’um breve espaço de silêncio,

Se alçou o grande Abreu, com rosto grave,

E feita uma profunda reverência,

Desta sorte falou: “Cabido ilustre,

Exemplar de Cabidos, e virtudes,

Bem sabe vossa ilustre Senhoria,

Que goza felizmente a distinta honra

De ter por Chefe, por Pastor, e Bispo

Um ramo do Real Português Tronco:

Também sabe, que a glória da cabeça

Aos mais membros se estende; e além disto

Oculto lhe não é quanto se empenha

Em honrar sua Sé este Prelado.

 

       Tu, Santa Quarentena, tu o dize;

Pois viste a importantíssima reforma,

Que em nossas grandes Capas fez zeloso

Este grande Prelado, não sofrendo,

De seus Capitulares em desdouro,

Os antigos franjados alamares,

Que a moda já ridículos tornara.

Deixo por ora de fazer memória

D’outras grandes ações, em que seu zelo

Por nós, brilhar se viu; e só não posso

Em silêncio passar aquela rara,

Grande, e quase Real magnificência,

Com que sua Excelência foi servido

A muitos membros deste grave Corpo

Uns Capitães fazer, outros Tenentes,

Alguns Alferes, Ajudantes outros,

Este Major, Sargento e Cabo aqueles;

Quando a Fúria infernal da voraz Guerra,

Rompendo as portas do espantoso Averno,

Desbocada saiu, o ferro, o fogo

Nas garras sacudindo; e furiosa,

Depois de ter corrido largo tempo,

Com sanguinosa planta toda a Europa,

Em Portugal entrou, ameaçando,

D’um estrago fatal, nossas Prebendas.

Nem o raro valor, com que seguindo

De seus Avós as ínclitas façanhas,

Ao som da Caixa e dos Pífaros, na frente

Da brava Eclesiástica falange,

Coronel General dignou-se chamar-se:

Ação, por certo, digna de ser lida

Com letras de ouro, na Gazeta da Haya,

Ou nas folhas volantes, que em Lisboa

Os Cegos apregoam pelas ruas.

Estas razões, Senhores, nos obrigam

A olhar, como própria, a honra sua.

Ela ultrajada se acha indignamente

Pelo altivo Deão; pois costumando

(Nós testemunhas somos, nós o vimos!)

Vir humilde esperar, com o santo Asperges

À porta deste Alcáçar, de repente,

Mudando se sistema, hoje refusa

Este obséquio render, este tributo,

De tão altas virtudes merecido;

Turbando injustamente em sua posse

O grandioso Prelado. Este desprezo,

Esta pois tão atroz, e negra injúria,

Quem em menoscabo seu, nas nossas barbas,

Se fez ao seu caráter, nós devemos

Prontamente vingar. Sim, consultemos

Os Cânones sagrados, e vejamos

A forma, o modo.” – Então o Ramalhete,

Teólogo chapado, e Canonista,

Que o Dialético Faro de cor sabe,

Que o Santo Tomás tem lido a suma,

O Genet, Busembaum, Lacroix, Guimenio;

Que sabe decidir magistralmente

A famosa questão, - se um Burro pode

O Batismo beber, ardendo em sede, -

Que argumenta nas Teses dos Capuchos,

E inchando do pescoço as cordoveias,

Infere, grita, prova, e nada colhe;

A voz alçando grave, e majestosa,

Nesta forma votou: “Lavrar-se deve

Um terrível Acórdão, que de exemplo,

Da História nos anais, a todos sirva:

O farfante Deão seja obrigado,

Dele em virtude, a desistir da força

Que ao bom Prelado faz na sua posse,

Fulminando-lhe multas, e outras penas;

Este Cabido tem autoridade

Para o fazer: em muito bons autores

Assim o tenho lido: este é o meu voto.”

 

- O Bastos, neste instante, homem versado

Na lição de Florinda, e Carlos Magno,

Quis meter seu bedelho: mas Andrade,

De seu discurso não fazendo caso,

Do douto Magistral o voto apóia

Com mil textos que aponta, a trouxe moxe;

No Sexto, Decretaes, e Clementinas,

Capítulos inteiros terminantes,

Para prová-lo, encontra; e a outra turba

Que c’o queixo caído os escutava,

Arqueando, de pasmo as sobrancelhas,

No que dizem os dois, pronta, concorda.

 

       Em vão o Tesoureiro, em vão o Chantre,

Homens austeros, que adular não sabem,

Se opõem três vezes ao sinistro Acórdão;

Que a Lisonja astuciosa, que, voando

Sobre suas cabeças, invisível,

Os seus votos inspira, faz que todos,

A calar-se, os obriguem; murmurando,

E levados da força da torrente,

Assinaram também o vão Decreto.

 

 

 

Canto IV

 

Numa casa de campo, descuidado

Entre tanto, passava alegremente

O farfante Deão os longos dias

Em que Febo insofrido, unindo as fúrias

Às vezes que raivoso o Cão celeste,

Abraça as calvas terras Transtaganas:

Quando o Monstro veloz, que por cem olhos

Todas as cousas vê, e as cousas todas

Por cem bocas, cem línguas palra, e conta;

Com cem asas fendendo os largos ares,

Aos ouvidos lhe leva a cruel nova

Do bárbaro Decreto. Em paz serena

Então jogando sua Senhoria,

Ganhava um real róber: mas apenas

As orelhas lhe fere o infausto aviso,

Quando subitamente lhe caíram

Das mãos as Cartas. Pálido, e suspenso

Largo espaço ficou. – Não de outra sorte

Imóvel fica, que o mancebo ardido

Que seguindo no Campo, com seus galgos,

O fugaz animal, subitamente,

Ante os pés do Cavalo, vê a terra

Em profundos abismos despenhar-se.

Mas das potências recobrando o uso,

Que o súbito desgosto lhe embarga,

Escumando de raiva, entre si disse:

“Pois não querem a paz, haverá guerra.

Vós, santos Céus, e Tu, Astro brilhante,

Que o sai trazes, e que o dia levas,

E que eu nascer não vejo há longos anos!

Vós testemunhas sois, se eu pretendia

Mais, que em paz desfrutar minha Prebenda,

Comer, jogar, dormir, e divertir-me.

Mas já que Tu, oh Bispo revoltoso,

E Tu, infame, adulador Cabido,

A mudar me obrigais, com vis Cabalas,

De tão santo propósito, - até onde

Chegam dos Laras o valor e o brio,

Desta vez provareis.” Isto dizendo

Levanta-se furioso; e sem respeito

Ao real Róber, que ganhado tinha,

(Tanto pode a paixão no peito humano!)

Assim mesmo, e sem ver quanto indecente

Foi sempre à Senhoria andar à pata,

Ao caminho se pôs, aos ilhais dando,

Suando e melancólico entra em Casa.

Ali, sem sossegar, ora passeia

Pela comprida Sala, ora se assente,

Ora consigo fala. Em vão a mesa

Os Criados lhe põem; em vão os gordos

E tenros Perdigotos, a salada,

A fruta, o vinho, os doces o convidam;

Que, sem ceia, esta noite foi deitar-se.

Ali a mole pluma se lhe torna

Em duro campo da cruel batalha.

Mil cuidados o investem; seu decoro

Atrozmente ofendido, a todo o instante,

A memória lhe vem: ora d’um lado

Os lassos membro volve, ora do outro:

Suspira, tosse, escarra, e abrindo a caixa

Toma o insulso rapé, e não sossega.

 

       A triste Senhoria, que chorando

A desonra comum, aos pés do leito,

Companhia lhe faz, compadecida

Do seu desassossego, veloz parte

A trazer-lhe um pesado, e doce sono.

 

       Entre as rochas do Bósforo Cimerio

Uma gruta se vê, onde não entra

Já mais a luz do sol; sombria alcova,

Onde, em triste letargo submergido,

Repousa o Deus do sono, coroado

De brancas preguiçosas dormideiras:

Em torno ao torpe alvergue não se escuta,

Com seu canto, chamar o esperto Galo

Da Aurora a clara luz; nem na alta noite

Ladrar raivosos cães; mas só murmura

Um plácido ribeiro, que respira,

Com o surdo rumor, paz e descanso.

Outros menores Sonos, fértil prole

Do indolente Morfeu, ali assistem.

Tanta espiga não doura a fértil Ceres

No caloroso Estio; tantas flores,

Na fresca Primavera, pelos prados

Fecunda não produz a Madre Terra,

Quantos ali se vem, todos diversos

De gênios, de costumes, de figuras;

Uns de lúgubre aspecto, outros de ledo,

Muitos pesados são, muito são leves;

Estes, entre vãos sonhos, de contino

Pela escura Caverna andam voando;

Os olhos tem cerrados, e dormindo,

De mil ervas letárgicas o suco

Espremem dentre as mãos. Caladamente

Aqui se chega a triste Senhoria,

E um deles, pelas asas, agarrando,

À casa do Deão, consigo o leva,

Que urrando de desgosto, não dormia:

Mas mal o lumiar toca da porta,

Quando o humor sonolento derramado

Do sono pelas mãos, aos olhos chega

Do desperto Deão, que logo os cerra,

E a ressonar começa docemente.

 

       Então o Gênio, em sonhos lhe aparece,

E falando com ele assim dizia:

“Que é isto, ilustre Lara! Assim desmaia

Teu forte coração! Como é possível,

Que quem pôde sofrer o grave aspeito,

Em Roma, das maiores Personagens,

Sem susto, sem temor, hoje esmoreça,

Perca toda a constância, trema, e gele,

Só a vã ameaça d’um Cabido,

A quem faltou, sem ti, alma e cabeça?

Ânimo pois, valor, e segurança,

Que o Campo cederam os inimigos.

Nesta Cidade tens discretas penas,

Tens de Serpa o Auditor, que o velho Accursio,

E  Bártolo o famoso só despreza,

Por que idólatras foram, e adoraram

A Jove, Marte, e Juno, divindades

A quem aras ergueu o Paganismo.

O Céa tens também, tens o Fernandes,

Oráculos de Astréa, que seu dente

Em Cânones também metem ousados;

Estes consulta, e segue os seus ditames,

Para o orgulho abater de teus contrários.”

 

- “E tu, quem és, Espírito Celeste,”

(O Deão encantado, lhe pergunta,

Da graça, que no rosto lhe cintila)

“Que a consolar-me vens nos meus trabalhos!”

 

-“Eu sou (Ela lhe torna) a Senhoria,

A quem, com tanto extremo, tu adoras.”

 

       A estas vozes, da cama salta fora,

Por terra se lhe prostra, bate os peitos,

De gosto doces lágrimas derrama,

Beijar-lhe quis os pés; mas neste instante,

Ela desaparece, e ele acorda.

 

       Já o sol, esmaltando com seus raios

A alegre terra, entrava às furtadelas,

Das cerradas janelas pelas fisgas,

E as importunas moscas começavam,

Com seu lento sussurro, e com os curtos

Aguilhões, que nas caras lhes cravavam,

Quando o nosso Deão, todo engolfado

Na Celeste visão, se veste alegre;

As meias gris de fer, e mais as luvas,

A Casaca de seda, e mais a Capa,

Em sinal de prazer, preparar manda;

O Crescente penteia, e todo guapo

E do pó sacudido, sai de Casa.

 

       Há d’Elvas na Cidade um Escritório,

Onde assiste a Trapaça, e o Pedantismo.

Ali os feios monstros consultados,

Do gritador Fernandes pela boca,

Suas respostas dão à rude plebe.

Aqui o Reverendo Prebendado

Seus passos encaminha, e aqui chega,

A tempo, que de chambre, o novo Caio

A um rude Camponês, que o escambo

Com outro seu vizinho, respondia:

Mil livros tem abertos, e mil textos

Em latim, ad formalia, lhe repete.

Mas se o rústico deles nada entende,

O Doutor muito menos entendia:

“O seu caso (lhe diz) próprio, escarrado

Neste livro, aqui temos, vá seguro,

Que, a seu favos, terá final sentença.”

       Neste momento sua Senhoria

À porta chega, e o grã-Consulto, ao vê-lo,

Logo o rústico deixa, e vai buscá-lo.

À parte se retiram; e no caso,

Que o Deão lhe propõe, ambos conferem.

Aqui a Livraria vem abaixo;

De poeira uma nuvem se levanta,

Que sai dos velhos, e traçados livros:

Em vão sacode os punhos e a Casaca

O bom Deão; que quanto mais sacode,

Mais poeira dos livros vem caindo.

Lê, e relê o grã-Jurisconsulto,

E depois considerando, assim conclui:

“À Metrópole vossa Senhoria

Deve logo apelar. Isto me ensinam

Os Doutores, Senhor, que tenho lido.”

“Inda assim (replicou o fofo Lara)

Veja vossa mercê sempre o que dizem

No ponto Van-Espen, Dupin, Bartholio.

Estes livros louvar, e seus Autores,

Numa douta Assembléia tenho ouvido.”

- “Que Van-Espen, Dupin, e que Demônio?

(Disse o Consulto então escandecido)

Esses nomes jamais, esses escritos,

Nem ouvi repetir, nem meu Pecúlio

Com eles uma voz alega, e prova:

Sem dúvida serão d’alguns Hereges.

Aqui temos o bom Panormitano,

Em grande letra Gótica, os Fagnanos,

Valenças, Belarminos, Anacletos:

Estes sim, que são livros de mão-cheia;

E não esses Autores estrangeiros,

Que com sua doutrina a Igreja empestam,

O que lhe digo, faça: Appélle, Appélle;

E deixe-se do mais, que é parvoíce.

Advirto-lhe também, que não se esqueça

De pedir os Apóstolos; e sejam

Os reverenciais, por que suspendam

Do malévolo Acórdão os efeitos;

E não uma só vez; mas muitas vezes,

Com mais, e mais instância, instantemente.”

-“Isso (diz o Deão) é escusado;

Eu conservo, entre várias baforinhas

“(De Agnus Dei, de Verónicas, de Bréves,

Que trouxe lá de Roma, e ao despedir-me,

Me deu o Passionei,) uma Cabeça

Do glorioso são Pedro, coisa rara!

Obra de insigne Mestre. Talvez este,

Como Príncipe foi do Apostolado,

Baste no nosso caso, a serem nele

Os sagrados Apóstolos precisos.

Veja, Doutor, se tem isto caminho,

Por poupar-me a vergonha de pedi-los.”

 

-“Não são esses (sorrindo-se, lhe torna)

Mas outros, os Apóstolos, que digo,

E que precisos são no nosso caso:

Esta frase, Senhor, entre os Praxistas,

Tem diverso sentido, e significa

O como a Apelação deve expedir-se.

A alguns destes modernos tenho ouvido

Que fora no Romano Foro usada,

E nele os Canonistas a pescaram;

Eu porém deste achado, e d’outros muitos

De que eles se presumem os Autores,

(Do bom Febo, bom Mendes, e bom Pegas,

A luz e norma dos que o Foro cruzam,

Com punível despejo motejando)

Cá para mim me rio; pois não acho

Em meu Pecúlio semelhante nota.

Faça pois, sem demora, o que lhe digo,

Que outra estrada não tem, por onde possa

Do Acórdão escapar à sem-justiça.”

       Corrido, e aconselhado ao mesmo tempo,

Do Doutor o Deão se despedia;

Quando o Consulto dando uma palmada

Num livro, que na banca estava aberto:

“Espere (lhe gritou) que neste instante

Uma coisa me lembra de substância:

De Juízes venais, e corrompidos

Tudo esperar se deve; e deve tudo

Com tempo prevenir, o que é prudente.

E como os seus, Senhor, são deste porte,

Se deve recear, que levemente

A sua Apelação possam negar-lhe;

Assim, por evitar longas ambages,

Que dinheiro, paciência, e tempo gastam,

Será melhor que Vossa Senhoria

Apele logo, - coram probo viro.”

-“E que querem dizer, Doutor amigo,

Essas palavras, - coram probo viro?

Que eu do latim estou quase esquecido:

Sem embargo de que (dizia o Lara)

Quando fui Estudante, era eu uma Águia,

(Não o digo, Doutor, por fanfarrice;

Que eu de bazófia nunca tive nada)

Em declinar veloz nominativos:

E na Classe o troféu levei mil vezes;

Por sinal, que de tê-lo, boas fitas

O Mestre me rapou, que era um alambre.

Mas voam, voam os ligeiros anos,

E daninhos, consigo, tudo o levam,

Os gostos, a saúde, e a memória;

E qualquer rapazinho agora pode

Rachar-me com quinaos afoitamente.

-“Querem dizer, que Vossa Senhoria

(O Fernandes lhe volta) apelar deve

Perante algum Varão, que em dignidade

Constituído seja; verbi-gratia,

O Guardião dos Caspuchos, dos Paulistas

O Reitor, o Prior dos Domínicos;

Este foi eficaz, pronto remédio,

Que os famosos letrados Palma, Décio,

Bártolo, Castro, e Baldo descobriram

Contra injustos Juízes, que denegam

A justa Apelação aos Litigantes.

Esta lembrança é minha, (não entenda

Que, por gabar-me, o digo; os meus estudos

Assaz notórios são nesta Cidade).

Noves vezes (não trato por agora

Do Autor da Arte legal, nem do Perfeito

Advogado, ou do Flaviense Gomes,

Por serem todos três de menos polpa),

Tenho lido, e cotado em mil lugares

O grande Português Cabral, Vanguère,

E o famoso Bremeu, de cujo livro

Faz logo ver o Título a grandeza;

O mesmo digo do moderno Campos;

Sem que o nosso Ferreira me escapasse,

Autores todos de maiôs chorume,

Que esses seus Zalweins, que os seu Bartélios.

Esta lembrança pois, a dizer torno,

Nem todos teriam; não o Céa,

Não o Doutor Caetano, e a récua toda

Dos novos letradinhos à francesa,

Quem sem trégua as orelhas nos martelam,

Não sei com que Noodts, nem com que Strachios,

E outros galantes nomes tais como estes,

Que na boca não cabem, nem a língua

Pôde, bem que se afane, pronunciá-los;

Mouriscos devem ser, ou eu me engano,

Que Cristãos nunca usaram de tais nomes,

Vá pois, Senhor Deão, e sem receio

A sua Apelação pronto interponha,

Que aos Juízes depois intimar deve,

Se quer das multas escapar ao raio;

Que o terrível Acórdão lhe fulmina.

Não durma sobre o caso, nem descanse:

Que, segundo a vulgar regra em Direito,

O Direito aos que dormem não socorre.

- “Essa regra, Doutor, é o Diabo!

Merecia, o que a fez, as mãos cortadas”.

(O Deão assustado repetia.)

Visto isso, por amor desta demanda

Hei de eu perder a paz, e o meu sossego,

Não dormir, vigilar continuadamente?

Oh ditoso Arganaz, e tu, Marmota,

Que sem demandas ter, nem ter cuidados,

Passais dormindo quase o ano inteiro!

Oh quanto mais feliz é vossa sorte,

Que a nossa, tristes homens! Pois, se acaso

Queremos defender nosso Direito,

O Direito nos deixa, se dormimos!

Meu Doutor, se essa regra é verdadeira,

Fique o malvado Acórdão subsistindo,

Chovam embora sobre mim as multas,

O vestido de seda, a loba, a murça,

Pela água abaixo vão, tudo se perca,

Contanto que eu não perca um só instante

Dos meus suaves, regalados sonos.”

 

       Aqui, com branda voz, o bem Fernandes

Ao aflito Deão assim consola:

Senhor, os textos tanto ao pé da letra

Se não hão de entender, como imagina;

Não é da mente pois do grã-Consulto,

Que esta regra ditou prudentemente,

Que não devam dormir os pleiteantes,

Que isso seria desmarcada asneira;

Sua tenção somente foi lembrar-nos,

Que quem litígios tem, e quer vencê-los,

Deve tudo atentar, e ser esperto.”

 

-“Isso agora, (cobrando novo alento,

Diz o Deão farfante) é outra coisa.

Por esperto, não tenha, Doutor, medo,

Que me haja de vencer o gordo Bispo;

Que aqui, onde me vê, sou grão laverco:

Muitas vezes no Wist, estando as nove,

Na segunda partida, os meus Contrários,

De tais artes me valho, tais maranhas,

Que (não tendo mais que um) lhes ganho o róber.”

 

       Isto dizendo, e feita uma zumbaia,

Do Doutor Bartolista se despede;

E mais ligeiro, que um ligeiro Galgo

Para a casa direito o fio toma,

Onde, sem se despir, manda, lhe tragam

Prestemente a comida, e prestemente

Engole, pensativo, alguns bocados;

E na mesma cadeira, sem deitar-se,

Umas vezes dormindo, outras pensando,

Por algum tempo recostado.

 

 

Canto V

 

       Ainda o quilo bem não tinha feito

O farfante Deão; quando, lembrando

Do – coram probo viro – do Fernandes,

Abre a Caixa, e tomando uma pitada

De mofoso tabaco, assim dizia:

“Que inércia é esta? Que preguiça, oh Lara,

Que os membros, e sentidos te adormenta,

Quando por inimigos tens em Campo

O gordo Bispo, o Abreu, o Ramalhete,

Velhacos todos da primeira plana?

Al’erta, Lara, pois; al’erta, al’erta;

Que o Diabo aos que dormem não socorre,

E cumpre aos litigantes ser espertos.”

 

       Isto dizendo, o corpo inteiriçava,

E abrindo a boca, e os olhos esfregando,

A modorra sacode, em que jazia:

E o suado crescente endireitando,

Sem atender ao sino, que o chamava

A Vésperas tocando, nem a multa,

Que a bolsa lhe ameaça, Sai de casa,

E por baixo da calma, com que assava

Sírio, ladrando, a sequiosa terra.

Aos Capuchos, de trote, se encaminha.

       Sobre uma agra montanha, que se estende

Em pequena distância, dos soberbos

Guerreiros muros da triunfante Elvas,

O célebre Convento se levanta.

Aqui, da mole Inércia no regaço,

Das austeras fadigas descansando,

Da Província, se vê cem Padres Graves,

Ex-Guardiões, Ex-Porteiros, Ex-leitores,

Ex-Provinciais, e alguns destes famosos

Pelas artes sutis, pela ardileza,

Com que forçado tem o Espírito Santo,

Nos rixosos Capítulos, mil vezes,

Os votos a seguir do seu partido.

Destes também no meio, ali se encontram

Do gordo badulaque Ex-Cozinheiros,

Na fumosa Cozinha, entre as tisnadas

Certas fuliginosas e marmitas,

Com grande glória sua, jubilados.

Aqui, suando pois, como um Cavalo,

Chega o Deão, a tempo, que o Porteiro

A porta da Clausura pronto abria;

Desta sorte lhe diz, sobressaltado:

“Que é isto, meu Senhor? Que estranho caso

“Aconteceu à Vossa Senhoria,

Que por baixo da calma tão intensa,

À nossa Casa o traz tão afrontado?

Matou acaso algum dos seus Colegas?

Roubou a Sacristia? ou, do Diabo

Tentando, violou alguma Virgem,

E asilo em buscar na nossa Igreja?”

 

-“Nenhum desses desastres, Deus louvado!

Me sucedeu; (o Lara lhe replica)

Ao Padre Guardião somente quero

Num negócio falar, se for possível.”

-“Inda bem: pois cuidei que era outra coisa;

(Lhe torna o bom Porteiro) e de assustado

Fiquei sem sangue, em quase todo o corpo.

O Padre Guardião, antes das cinco,

Não costuma da sesta levantar-se;

Mas, por servir à Vossa Senhoria,

A desperta-lo vou; no entanto pode

Lá na Cerca esperar, tomando o fresco.”

       Isto dizendo, ao Dormitório sobe;

E o Deão, caminhando para a Cerca,

Com outro Reverendo, acaso topa,

De grã-barriga, de cachaço gordo,

Que atento o cumprimenta, e acompanha.

 

       Quis então a Fortuna, que este fosse

Um dos Padres mais graves da Província,

Ex-Guardião, Ex-Leitor, e Jubilado,

De todos o mais douto, exceto o Arronches,

Pregador de grã-fama, na Cidade.

       O bom Lara, que havia longo tempo,

Que, nesta santa Casa não entrava,

Aturdido ficou, quando a seus olhos,

Na Cerca entrando, juntos se lhe oferecem

As areadas ruas, as Estátuas,

Os Buxos, os Craveiros, as Latadas

De mil flores cobertas, e que, em torno,

O virente jardim adereçavam;

E não bem quatro passos tinha dado,

Quando, fitando curioso a lente

Na estátua, que primeira ali se encontra,

Pergunta ai Jubilado: “Quem é este

Monsieur Pariz? segundo diz a letra,

Que por baixo, na base, tem aberta;

Se se houver de julgar pela aparência;

O nome, a catadura, o penteado

Dizendo-nos estão que este bilhostre

Foi Francês, e talvez Cabeleireiro,

Inventor do topete, que o enfeita.”

-“Páris, e não Paríz diz o letreiro,

(Circunspecto lhe volve o Padre Mestre)

Nem Francês, como crê, Cabeleireiro,

A personagem foi, que representa;

Mas em Tróia nasceu de estirpe régia.”

-“Pois, se Francês não foi (replica o Lara)

Como Monsieur lhe chamam?” – C’um sorriso

Lhe torna o Padre Mestre: “Não se admire

Que isto está sucedendo a cada passo:

Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo,

Se tratam de Mosieurs os Portugueses.

Isto, Senhor, é moda; e como é moda,

A quisemos seguir; e sobre tudo

Mostrar ao mundo, que Francês sabemos.”

-“De tanto peso pois (lhe volve o Lara)

É, Padre Jubilado, por ventura,

O saber o Francês, por disso alarde

Fazer quisessem vossas Reverências?

Por acaso, sem esse sacramento,

Não podiam salvar-se, e serem sábios?

Pois aqui, em segredo, lhe descubro,

Que o Francês, para mim, o mesmo monta,

Que a língua dos selvagens Boticudos.”

 

-“Não digam Senhor, tal; que neste tempo

Oh Tempos, oh Costumes! (diz o Padre)

O saber o Francês é saber tudo.

É pasmar! Ver, Senhor, como um pascasio,

De Francês com dois dedos se abalança,

Perante os homens doutos, e sisudos,

A falar nas ciências, mais profundas,

Sem que lhe escape a Santa Teologia,

Alta ciência, aos Claustros reservada,

Que tanto fez suar ao grande Escoto,

Aos Bacônios, aos Lélios, e a mim próprio.

Desta audácia, Senhor, deste descoco,

Que entre nós, sem limite, vai lavrando,

Quem mais sente as terríveis conseqüências,

É a nossa Português, casta linguagem,

Que em tantas traduções anda envasada

(Traduções, que merecem ser queimadas!)

Em mil termos, e frases Galicanas!

Ah! Se as marmóreas campas levantando,

Saíssem dos Sepulcros, onde jazem

Suas honradas cinzas, os Antigos

Lusitanos Varões, que com a pena,

Ou com a espada e lança, a Pátria ornaram;

Os novos idiotismos escutando,

A mesclada dicção, bastardos termos,

Com que enfeitar intentam seus escritos

Estes novos, ridículos Autores;

(Como se a bela, e fértil língua nossa,

Primogênita filha da Latina,

Precisasse de estranhos de Caconda,

Quilimane, Sofala, ou Moçambique;

Até que já, por fim, desenganados

Que eram em Portugal, que os Portugueses

Eram também, os que costumes, língua,

Por tão estranhos modos, afrontaram,

Segunda vez de pejo morreriam.

 

       Mas eles tem desculpa; a negra fome

Os míseros mortais a mais obriga;

Sem saber o que escrevem, escrevendo,

Buscam dela o remédio, e, como logram

Os fins de seus intentos; o que escrevem,

Seja ou não Português, isso que monta?

Quem desculpa não tem, nem a merece,

É quem vedar-lh’o deve, e não lh’o veda.

Mas por ora deixemos estas coisas,

Que o mundo corrigir a nós não toca.

Este (como dizia) foi Troiano,

E nos Campos que o Phrygio Xantho corta,

Guardando, em doce paz, o seu rebanho,

Eleito foi Juiz do grande pleito,

Que Juno, e Palas, entre si, com Vênus,

Sobre a beleza, um tempo, sustentaram;

No qual não sei porém, se com justiça,

Deu a favor de Vênus a sentença,

Entregando-lhe o rico pomo de ouro,

Que a Discórdia lançara num banquete.

- Já nesse pleito ouvi, (se bem me lembro)

E no pomo falar: (lhe volve a Lara)

Mas o tal Monsieur Páris foi um asno;

(Perdoe a sua ausência). Se na causa,

De ser Juiz a sorte me coubera;

Daria mal, ou bem minha sentença,

Conforme o meu bestunto me ajudasse,

Sem em nada gravar a consciência:

Mas a maça havia d’eu papá-la,

Pelas custas, por certo; e quando muito,

Daria à Vencedora, dela as cascas.

 

       Mas, diga-me, meu Padre Jubilado,

Se gado apascentou esse Marmanjo,

Como de Cortesão está vestido,

De Cabelo, de bolsa, e penteado?”

-“Essa é boa! (replica o Reverendo)

Pois aparece-lhe, à Vossa Senhoria,

Que lhe bastava o seco tratamento

De Monsieur, que lhe demos, e um Cajado,

Um intonso cabelo, uma samarra?”

-“Essa razão me quadra (diz o Lara)

E esta Madama Helena (continua)

Que dele está defronte, porventura

É Troiana também, ou é Francesa,

Como do penteado mostra o gosto?”

-“Não foi, Senhor, Francesa, nem Troiana;

(Responde o Padre Mestre) d’alto sangue,

Em a Grécia, nasceu; e no seu trono

Esparta um tempo a viu: mas Cetro, Esposo,

A chara Pátria, o Cetro, a Fama, a Glória,

Tudo deixou, por esse barbas-d’alho?

Valente marafona foi por certo,

A tal Madame Helena! E quem foi esta?

Diz a letra, Madama Pena-Lopes,

(Prosseguia o Deão) talvez seria

Tão boa, como essa outra?” – “Essa (responde

O douto Jubilado) é d’outra laia.

A famosa Penélope foi esta,

Do Conjugal amor, da fé jurada,

Do sagrado Himeneu nas castas aras,

Um perfeito exemplar, grande Matrona,

Boa Mãe-de-famílias, e estremada,

Entre as mais do seu tempo, tecedeira.

Numa teia gastou mais de dez anos... –

- “Que me diz, Padre Mestre? Está zombando!

(O Deão aturdido lhe replica)

Em urdir e tramar uma só teia

Dez anos consumia a tal Madama;

E diz-me que foi grande tecedeira?

A minha Ama... e mais é uma Zoupeira,

N’outro tanto não gasta nove meses:

E com tudo, não passa, entre as peritas,

Por grande sabichona neste ofício.”

- “Nisso mesmo é que esteve a habilidade,

(O Padre lhe tornou) pois que de noite

O que de dia obrava, desmanchava.”

- “Peior! (diz o Deão) Isso é o mesmo,

Que para traz andar, qual Caranguejo.

Jurarei em cem pares de Evangelhos

Que essa mulher perdido tinha o siso.”

- “Perdido o siso! Que galante coisa!

(O Padre lhe tornou) antes no mundo

Nunca mulher se viu tão atinada;

E digna de passar à Eternidade,

Sobre as asas da póstuma memória.

Foi prudência, Senhor, o que loucura

A sua fantasia lhe figura.

Pois se assim praticava, era somente

Por enganar (em quanto o caro Esposo

Da prolongada ausência não volvia)

Cansados rogos de importunos procos,

Que aspiravam do seu consórcio à glória.

Aracne, que Minerva vingativa

Em aranha tornou, por arrojar-se

A competir com ela; certamente

Lhe não levara no tecer a palma.”

 

- “Como é isso? (o Deão diz assustado)

Pois, salvo tal lugar, um homem pode,

(Isto falando, todo se persigna)

Ou pode uma mulher, em feio bicho,

Ou animal quadrúpede mudar-se?”

- “Isto fábulas são, com que os antigos

Quiseram explicar aos seus vindouros

De muitos animais a indústria, e a arte;

E além disso ensinar, que às Divindades

Se deve ter um grande acatamento.

Mas, que acontecer possa, quem duvida?

(Dizia gravemente o douto Padre)

Não falo agora das antigas Lâmias,

Que inteiros engoliam os meninos,

De Circe, de Medeia, nem de Alcina,

Ou da velha Canídia, de quem conta

O bêbado de Horácio, as nigromancias.

Todos sabem, que todas estas Bruxas,

Em ossudos Leões, manchados Tigres,

Em ardidos Ginetes, negros Ursos,

Ou em Toupeiras vis, vis Musaranhos,

A seu sabor, os homens convertiam.

Além disso, Apuleio nos informa,

Que, por malícia d’uma certa Fótis,

E asno, num instante, se formará,

E como asno passará mil trabalhos.

Não tem ouvido Vossa Senhoria,

Ruidosos Cães uivar, lá na alta noite?

Pois que querem dizer aqueles uivos,

Senão, que anda no bairro Lobis-homem,

Ou homem, por fadário, transmudado

Em jumento orelhudo, ou em sendeiro?”

 

- “Santo Breve da marca! (aqui exclama

O farfante Deão, de temor cheio;

E logo prosseguiu.) Se minha estrela

Ordenado me tem, que por encantos

De alguma Feiticeira, ou Nigromante

Em ferro bruto eu haja de mudar-me,

Praza a vós, santos Céus! Ao Fado praza,

Que, antes do que em sendeiro lazarento,

Em brioso Cavalo, eles me mudem:

Pois assim poderei, inda algum dia,

A sorte vir a ter de ser Pai d’Éguas.

Que bons Potros darei minha raça!

Mas, se muito julgais o que vos peço,

Ao menos concedei-me, que em Fuinha,

Ou matreira Raposa me transtornem;

Só, para do Bispo ir ao galinheiro,

De quantas Aves tem a dar-lhe cabo.”

 

       Sossegado o Deão do seu espanto,

Ao bom Padre pergunta: “E quem é este

Circunspecto Monsieur, que cá se enxerga?”

- “Esse que aí está, nem mais, nem menos,

É o facundo decantado Ulisses,

De Madama Penélope marido:

De todos quantos Gregos aportaram

Da Netunina Tróia às curvas praias,

O mais prudente foi, exceto o velho

Nestor, que viu dos homens três idades.

Este, depois que a cinzas reduzido

Foi o ferro Ilion, por suas traças,

E da altiva Cidade só ficara

O campo, em que imperiosa antes estava,

Voltando à Pátria amada, carregado

De altos despojos da imortal vitória,

De Netuno sofreu a cruel sanha,

E dos ventos, e vagas açoitado,

Undívago correu por longos mares,

Vendo de muitas gentes as Cidades,

As várias artes, os costumes vários,

Até que levantou, na foz do Tejo,

A Rainha do mar, Lisboa invicta.”

- “Oh grande Fundador da minha Pátria,

(Aqui brada o Deão) se mãos tiveras,

E se pernas, e pés te não faltaram,

Os pés e mãos, humilde, de beijara!

Mas se manco, e maneta aqui te vejo,

E à francesa te beije a fria face.”

Disse: e ao colo, furioso se lhe lança,

E na face três beijos lhe pespega.

       Passado este pequeno entusiasmo,

O Lara, prosseguiu: “E aquel’outro,

Que do Jardim no meio se empertiga

Com cara de Ferreiro, é por acaso

O grande Ferrabrás de Alexandria?

Ou Galafre da ponte de Mantible?

- “Esse (responde o Padre) foi Alcides,

Cujo tremendo braço, cujos feitos

Há-de, por certo, vossa Senhoria

Ter ouvido exalçar discretamente,

Em seus sermões, ao nosso Padre Arronches.

 - “Engana se, Senhor: (O Deão volve

Que eu sermões nunca ouvi em minha vida;

E posto que, no Choro, muitas vezes,

Em razão desta minha Dignidade,

A meu pesar, alguns ouvir eu deva;

Em quanto o Padre grita, estou dormindo:

Pois d’outra sorte disfarçar não posso

A fome, que me ataca a esse horas.

Se eu algum dia for eleito Bispo,

(Como esperar me faz o Régio sangue

De Lara, que nas veias me circula)

Já, desde aqui, meu Padre, lhe prometo,

Que estes sermões desterre do Bispado;

E se nele inda achar quem tenha o flato

De pregar, lhe darei pronto remédio:

Mandarei, que cumprindo seus desejos,

Vá pregar aos Hereges, e Gênios,

Que o prêmio lhe darão do seu trabalho;

E escusem de quebrar-nos os ouvidos

Com uma insulsa dilatada arenga,

Que ouve, por uso, o Povo e não preço;

Dando (coisa que muito a mim me espanta)

Sem saber o porque, o seu dinheiro.

Sermões? – E quando quer jantar a gente?

A fome só aumentam, causa sono.

Mas, tornando, meu Padre, ao nosso ponto,

Este Alcides, segundo tenho ouvido,

Foi o maior tunante dos seus tempos.

- “Foi amigo de Moças? Que tem isso?

Vê me aqui? Pois com ter mais de setenta,

(Dizia o Jubilado) nem por isso

Onde quer que as eu topo, lhe perdôo.”

- “Outro tanto de mim, oh quanto pejo

Me custa, Padre Mestre, o confessá-lo

Outro tanto de mim dizer não posso,

E com tudo não passo dos sessenta;

Mas isso é do burel virtude inata.

Agora pois, se a vossa Reverência

Pesado lhe não for, deve quisera

Que deste traficante toda a história

Me referisse; pois segundo penso,

Há-de ser vária, e muito divertida.

Lembra-me a mim, que sendo inda Estudante,

Do Bacharel Trapaça, e Peravilho

De Córdova, a história portentosa

Ouvi ler (por sinal, que por ouvi-la,

Na Classe pespeguei valentes gázios)

A um Clérigo vizinho, bom Poeta,

Que sabia o Borralho todo inteiro,

E tinha uma escolhida Livraria;

E confesso-lhe, Padre Jubilado,

Que nunca, em minha vida, tenho ouvido

Coisa, que cá no goto mais me disse.”

-“ De bom grado o farei, por dar-lhe gosto

(O Padre lhe tornou e assim começa:)

“Este grande varão Alcmena e Jove

Teve por Pais, ainda que grã-tempo

Do forte Anfitrião passou por filho...”

- “Com que, de mais a mais o tal Alcides

De barregã foi filho?... Avante, Padre,

Que o começo promete grandes coisas.”

(Diz o Deão) e o Padre prosseguia:

- “De tantas forças foi, logo em nascendo,

Que inda ele não contava bem dez meses,

Quando, em lugar de berço, repousando

Num escudo de cobre, que a Pterelas,

Anfitrião ganhará batalhando,

Duas Cobras, mais grossas que um madeiro,

Que entraram a papá-lo sorrateiras,

No silêncio da noite, mandado

De Juno, que em ciúmes se abrasava,

Rompeu, espedaçou, com mais presteza,

Do que eu trinchar costumo uma galinha,

Quando, com fome estou, na nossa cela.

Digo – na cela -; pois no Refeitório

Esta ave nunca entrou; que nele reina

Somente o Bacalhau, e talvez podre.

Depois, sendo Mancebo, a estribaria

De Áugias alimpou, façanha grande...”

- Neste ponto o Deão ter-se não pode,

Sem que esta sábia reflexão fizesse:

Filho de Barregã! Moço de mulas!

Vejam de que relé era a criança!”

- “Logo (prossegue o Padre Jubilado)

Fez maiores ações; um Leão fero

Na floresta Neméia, cara a cara,

Destemido afrontou; e lhe machuca,

Com a pesada massa, o duro casco...”

Aqui chegava o Padre, em sua história,

Quando o esperto Deão, à porta vendo

Da Cerca, o Guardião, que a vê-lo vinha,

Inda do sono os olhos esfregando,

O fio lhe cortou, em altas vozes

Ao Guardião gritando: “Appello, Appello

Perante vossa sábia Reverência,

Varão constituído em Dignidade,

Da afronta, que me faz o meu Cabido,

Pretendendo com multas constranger-me

A vir apresentar ao gordo Bispo,

À porta da latrina, o santo Hissope.

Peço também, com todo o acatamento,

Os reverenciais Apóstolos, mil vezes,

- “Basta: (o Prelado diz) já interposta

A Apelação está. Agora, em quanto

O Reverendo Padre Jubilado,

Pois Notário não há, que dê fé disso,

A Certidão lhe passa, nos sentemos

Ao pé desta Roseira a tomar fresco.-”

Ditas estas palavras, se assentaram,

E o farfante Deão assim começa:

“Por certo, que não pode duvidar-se

Do aumento, Senhor, que em nossos dias

Tem tido Portugal, por alto influxo

Do Grande, Forte, e nunca assaz Louvado

Rei, primeiro no nome, e nas virtudes,

E do sábio Ministro, que lhe assiste.

Não falo nas ciências, e nas Artes

Que eu delas nada sei; pois meu emprego

As Letras aplicar-me me não deixa,

Como eu gosto, e gênio me pediam,

E da Art da Cozinha tão somente

(Que é obra, quanto a mim, mais proveitosa

Aos homens, que o Francês, que anda na moda)

Alguns pedaços leio, estando vago.

Falo, sim, no aparato dos banquetes,

No polido dos trajes, e assembléias,

Dos Jardins no bom gosto, e dos Palácios:

Digo isto, meu Senhor por que esta Cerca,

Que era um chiqueiro, há menos de dois dias,

Hoje tornada está num Paraíso.

Mas que não poderá um Gênio grande,

E tal, como o de Vossa Reverência?”

O Guardião então todo enfunado,

Mas modéstia afetando, lhe responde:

- “Aqui que pode haver, que os olhos encha

De Vossa Senhoria, que tem visto

As Terras estrangeiras tão gabadas,

Se é tudo uma pobreza franciscana!”

 

-“Tanto não direi eu (replica o Lara)

Que ao ver deste vergel a amenidade,

O desenho dos Buxos, o bom gosto,

Com que estão as figuras trabalhadas,

A abundância dos vasos, e das flores,

Que nos jardins estão, se me figura

De Castelo Gandolfo, ou de Frascati,

(Onde falei mil vezes com o Papa)

Ver o primor, e o curioso asseio.

Tudo está primoroso; e só lhe falta

Para em nada ceder aos mais gabados,

Deliciosos jardins de Itália, França,

Uma Cascata, que a de Terni iguale.

Se Vossa Reverência quer a planta,

Eu já mandar-lh’a vou; que a tenho em Casa.”

- “Esta obra há de custar muito dinheiro

(Responde o Guardião) e hoje as esmolas,

Para encher a barriga a tantos frades,

Que tem fome canina, apenas bastão.

Algum dia foi rico este Convento;

Mas estas novas Leis testamentárias

Deram um grande corte em suas rendas.

É verdade, que os santos Exorcismos,

O benzer dos feitiços, e lombrigas,

O grande, e extraordinário privilégio

De Irmão, ou Mãe de frades, e outros pios

E santos institutos, que inventaram,

Devotos e sutis, nossos antigos,

E que nós pelo Povo propagamos,

Com zelo, e com destreza, maiormente

Entre o devoto feminino sexo,

Inda pingando vão de quando em quando.

Mas isto tudo é nada, é um cominho,

A par do que rendia o Purgatório!

Senhor, o Purgatório, e as almas santas

Eram o Potosi da franciscana!”

       Neste ponto, chegando o Jubilado

O discurso lhe atalha, e ao Lara entrega

A grande Certidão, que passar fora.

O Deão a recebe civilmente,

E com mil importunos comprimentos,

E outras tantas profundas cortesias,

Dos dois Padres, cortês, se despediu:

E correndo, e saltando, como um Corço,

Risonho, e prazenteiro entrou em Casa;

Onde à sua presença, pelos ares,

Faz vir o triste Luz, que a honra goza

De tocar mal rebeca, na Sé de Elvas,

E de ser, em seu foro, mau Notário,

Ou péssimo Escrivão, que vale o mesmo:

Além disto, cursando tinha as Classes;

E a todas estas coisas ajuntava

Um profunda erudição, bebida

Nos Autos de Reinaldo, e Valdevinos,

E do Infante Dom Pedro nas partidas,

Florisbel de Niquéia, e outros livros

Da andante, da imortal Cavalaria;

Ao qual o Deão disse: “Hoje um negócio

De ti fiar pretendo de importância,

Mas antes será bom, que ao grande Baco,

Algumas libações, como costumas,

Aqui faças.” Dizendo estas palavras,

Ordena, que lhe tragam prontamente

Do bom vinho de Borba três garrafas.

O bom Luz transportado à sua vista,

Sem fazer-se rogar, logo a primeira,

Às duas palhetadas deixa enxuta:

Muito tempo não passa, sem que prove

Igual sorte a segunda; sem descanso

Com a terceira investe, largo espaço

O forte Campeão entra por ela:

E depois que esquentada teve a bílis,

Assim com o Deão fala animoso:

- “Que coisa pode Vossa Senhoria

Querer deste seu Servo, que não faça?

Que perigo haverá, que não arroste?

Da nova Zembla os duros caramelos,

Irei a passear: ao meio dia,

Na Líbia sofrerei a calma ardente;

Com Tigres, com Leões, com Crocodilos

Audaz afrontarei; do Reino escuro,

Para seu cão de fralda, se é seu gosto,

Num pulo, lhe trarei o Cão Cérbero;

Se mais disso se paga, c’um corda

À porta lh’o atarei, como um Macaco. –

- “Menos que isso (bradou o Prebendado)

Menos que isso de ti hoje pretendo.

Uma Apelação só quero que intimes

Ao gordo e fero Bispo: isto somente

De ti hoje desejo, e de ti fio.”

 

       Aqui, mudando a cor do triste rosto,

Começou a tremer o novo Alcides,

E com voz balbuciante, lhe replica:

- “Muito ilustre Senhor, tão grande empresa

Minhas forças excede: o mesmo Aquiles,

Madricardo, Gradasso, Sacripante

Cometê-la, por certo, recearam,

E Orlando, inda que fora verdadeiro.

Dela pois me dispense; que eu sem pejo,

Ante os Céus, ante a Terra hoje confesso

Que um ânimo a tanto não se atreve.”

 

       A este breve discurso, ardendo em ira,

O Deão exclamou: “De minha vista

Vai-te, indigno Furão, vil e rasteiro,

A quem, na cara e feitos, te pareces;

Que eu saberei achar que me obedeça.”

 

       Trêmulo, e semivivo o pobre zote

Então se foi dali escapulindo;

E o farfante Deão fica suspenso,

No peito revolvendo a quem daria

A grande Comissão: - quando à memória

Lhe traz a Senhoria, (que a seu lado

Invisível assiste) o bom Gonçalves,

Escrivão atrevido, e sem piedade;

Que a si mesmo prendera, se podera.

“Este sim (exclamou então contente)

Que é capaz de citar a Jesus-Cristo.”

Isto dizendo, que lh’o chamem, manda.

 

A Senhoria então, tomando a forma

Do Galopim de casa, veloz parte,

E com ele voltou in continenti;

A quem logo o Deão propõem a empresa,

Que ele, sem duvidar, risonho aceita,

E para a executar, tempo oportuno,

Cheio de confiança, a esperar, parte.

 

 

 

Canto VI

 

Já o Sol grande espaço declinava

De brilhante Zênite, para o Ocidente;

E a sossegada Tarde, conduzida

Nas frescas asas dos sutis Favônios,

A passeio os Peraltas convidava,

Quando, por divertir sua Excelência

O fastio, que a longa ociosidade

Nos peitos dos mortais tirana gera,

Se dispõem a sair, como costuma

A frescura a gozar de seu Versalhes.

 

       Mil infandos prodígios (trama urdida

Pela mão industriosa da Excelência,

Para obrigá-lo a não sair de casa)

Esta infausta jornada precederam.

À mesa posto, e a beber um copo

De generoso vinho da Madeira,

Em vinagre, na boca, se lhe torna

O suave liquor, e ao mesmo passo,

No Aparador, saltando um Gato negro,

Em hastilhas lhe faz, com grande estrondo,

Os dourados cristais, que nela estavam.

Depois, dormindo docemente a sesta,

Se lhe figura, no melhor do sono,

Que andando de passeio pela Quinta,

Com passos lentos a ele se chegava

Da nora o velho Burro, e alçando o rabo,

Dois coices lhe pregava no vazio.

À fantástica dor, gritando, acorda;

E acudindo a família prontamente,

Lhe narra o triste caso, inda assustado.

Mas passado o primeiro sobressalto,

Desenganado enfim de que era sonho,

A vestir-se começa: então calçando

O polido sapato, das fivelas,

Salta do Guarda-roupa ao áureo teto,

Com medonho estampido, a melhor pedra.

Finalmente, ao montar à Carruagem,

Batendo um grã-Bisouro as negras asas,

Com horrendo estridor lhe açoita as ventas,

E um Pardal lhe estercou no tejadilho.

 

       Neste instante a Excelência, que tomado

Tinha do grande Almeida a gentil forma,

Vendo que estes agouros não bastavam

Para aterrar do Bispo o forte peito,

C’uma grande zumbaia, assim lhe fala:

- “Se crer em abusões é de almas fracas,

Desprezar portentosos vaticínios

É de peito obstinado, ensurdecido

Às vozes, com que o Céu mil vezes fala.

Se em África Catão, se em Roma César

Deram fé aos presságios, nem aquela

Nas fervidas áreas Africanas

Acabara infeliz: nem no Senado

Às mãos de Cássio e Bruto, ferozmente,

Este fora, qual rês nas aras, morto.

O mesmo digo do temido Almeida,

De quem Vossa Excelência tem o sangue;

De Cambaia murchar as altas palmas

Na brutal Cafraria ele não vira,

Se afoito, ou temerário não zombara

Do bater dos sapatos dos Menezes.

Vossa Excelência tem visto os portentos,

Que lhe tem neste dia acontecido:

Ah! Se a mente pressaga não me engana,

Algum grande desastre prognosticam,

Neste passeio, que fazer intenta.

Para iludi-los pois, torne a apear-se,

À Casa se recolha: considere

Que, por grande, a cautela nunca dana.

Se pois da ociosidade, e seus prestígios,

Que tanto horror lhe faz, fugir deseja,

Mande chamar alguns Capitulares,

E, com eles, em santa paz, jogando,

O resto passe da calmosa tarde,

E não queira, com vã temeridade,

A seu gosto a razão sacrificando,

Desafiar a cólera dos Astros”. –

A estas vozes, risonho, o gordo Bispo

Lhe responde: “Meu Filho, bem conheço,

Que o amor, que me tens, é quem te dita

Essas sábias razões; mas que diria

Esta marcial Cidade, que admirando

Meu heróico valor, trazer pendente

Do bordado talim, me viu na guerra

Uma talhante espada; e sobre tudo,

Erguer da cama, numa fria noite,

Por correr, sem temor, suas muralhas;

Quando o fogo nas altas atalaias,

Brilhando tristemente, anunciava

Roubos, assolações, incêndios, mortes;

Se hoje soubesse, que eu ficava em casa,

Assombrado de quatro bagatelas?

Eu confio no Céu, que esses sucessos

Nada contenham, que aziago seja:

Mas, se assim suceder, constante, e forte

Irei por onde os Fados me chamarem.”

Isto dizendo; confiado ordena

Aos Moços, que caminhem sem demora.

 

       No tempo que estas coisas sucediam

No Episcopal Palácio, o bom Gonsalves,

A quem a grande empresa desvelava,

Sendo por seus espias avisado

De que o Bispo saía; aproveitar-se

Da ocasião, que a Sorte lhe oferecia,

Consigo determina; e a toda a pressa

A vestir-se começa: quando a cara

E longeva Consorte, do Cartório

Nas sórdidas trapaças tão versada,

Como o destro marido, toda cheia

Dum pânico terror, que dentro n’alma

A feroz Excelência lhe infundira,

Ao colo se lhe lança, e assim fala:

 

       “Onde, oh Luz de meus olhos, doce Esposo,

Assim corres veloz, assim me deixas

Cercada de receios e tristezas?

O Bispo vás citar? Ah! tu não sabes

Qual é deste Prelado a santa raiva?

Ignoras, que as menores bagatelas,

Em seu conceito são graves insultos,

Que castigar costuma sem piedade?

Tu, oh pobre Milheiro, tu o dize,

Que por zombar da fita do palmito,

Na respeitável face do Roquete,

(Mestre de Cerimônias, e Cabalas,

Com poder de Assistente, junto ao sólio,

Para insultar, sem termo, os pobres zotes

Em toda esta Cidade, e seu Bispado)

A jazer longo tempo na Cadeia

Barbaramente condenado foste!

Não sabes, que a pesar das leis sagradas

Do nosso piedosíssimo Monarca,

Ele meirinho tem de vara alçada,

Que prende, escorcha, e rouba impunemente

À sombra do sagrado Santuário?

Pois, como a provocá-lo hoje te arrojas,

Por servir o Deão? Crês por ventura,

Que ele te livrará das suas garras?

Ou fias-te talvez em que és sujeito

A outra jurisdição? Mas, oh! Repara

A quantos, como tu, leigos isentos

Em seu cruel aljube oprime, e vexa!

Oh! Se um raio voraz dos Céus descesse,

E todos os aljubes abraçasse!

Quantas, oh Céu! Oh, quantas se evitaram

Vexações, injustiças, e insolências!

Olha o que sucedeu, há pouco tempo

Ao Charlatão do Médico pequeno

(Que a hábito perpétuo de Estudante

Foi, de Esculápio em Junta, condenado,)

Por não dar alimentos à Consorte

Em dinheiro corrente; que de balde,

Os homens, e as estrelas atestando,

Alegava não ter o miserável,

E em vão, para pagá-los oferecia

A venda de seus prédios, ou seus frutos;

Apesar da Razão, e da Justiça,

Com público pregam excomungando!

Bem que dizer-se dele se não possa

Que Herodes à fera tirania,

Nem se quer escapou por inocente;

Pois só, duma penada, a muitas almas

Tem feito as margens ver do Sígio Lago,

Onde por ele esperam barregando,

Para as barbas tirar-lhe, e a cabeleira!

Pretendes pois que o mesmo te suceda?

Ah! não, amado Esposo, por aqueles

Primeiros e suavíssimos instantes

Do nosso doce amor, pela fé pura,

Que no sagrado laço me juraste;

Por estas ternas lágrimas, que choro,

Que a tanto não te exponhas: ah! não queiras,

A ti mesmo cruel e a meu sossego,

Roubar-me a triste vida, dar-me a pena

De ouvir-te excomungar pelas esquinas!

Ou prezo cruelmente, entregue às garras

Do Meirinho voraz, qual tenra Pomba

Entre unhas cruéis de Açor ligeiro.

Do meu pranto tem dó, e dos cansados

Longos anos da minha amarga vida.”

Aqui um magoado, e grã suspiro

As queixas lhe atalhou; que o sentimento

A voz lhe congelou dentro do peito.

 

       Então o grande, e intrépido Gonsalves,

Assim, de brio cheio, e de ternura,

A tímida Consorte alenta, e anima.

“- Enxuga o belo pranto, oh bela Esposa,

Que sem causa derramas, pois com ele

O forte coração me despedaças.

Eu não vou combater algum Gigante,

Nem tenho o Tamorlão por inimigo;

Vou fazer meu ofício, e bem conheço

A quanto me abalanço, e me aventuro.

Mas que dirá o Mundo, se vir hoje,

Que eu fujo dos trabalhos com o corpo?

De mais, que deste excesso, a que me arrojo,

Tu a causa só és; pois d’outra sorte

Mal poderei, Meu rico Bem, compra-te

A Saia, a Capa, a Fita, o Leque, o Pente.

Os anos estão caros, e eu não devo

Um gancho desprezar, que raras vezes

A Ventura depara, e nos oferece.

As Censuras, o Bispo, e sua vara,

Vãos espantalhos são, que não me assustam;

Eu não temo o Meirinho, nem da Igreja

O forte raio, sem razão vibrado;

E para me livrar do Bispo às iras

Tenho braço, artes tenho, e tenho modo.

O susto deixa pois, que brevemente

Tu me verás tornar sem frio, ou febre,

A gozar de teus mimos, teus favores.” –

Isto dizendo, de seus braços foge;

E mais ligeiro, que o ligeiro Gamo,

A esperar, se partiu, sua Excelência.

 

        Já, na rica liteira recostado,

Da Cidade saía o gordo Bispo.

Dois lacaios membrudos, e possantes

Guiavam a compasso os grandes machos;

E dois do mesmo talhe, na dianteira,

A lenta e preguiçosa marcha abriam.

Nos altos Campanários os Donatos,

E das Freiras as Moças, muito alegres

Davam, como costumam, aos badalos.

Quando o bom Escrivão, que pronto estava,

Qual sagaz Caçador, que alegre e fero,

À porta duma moita a rês espera,

À liteira se chega, e respeitoso,

Uma Carta ao Prelado logo entrega,

Na qual a Apelação descomedida

Em letra garrafal ia traçada.

O inocente Pastor, que não suspeita

O veneno mortal, que em si levava,

Depois de lhe lançar a santa benção,

Com risonho semblante, pega nela,

O sobrescrito rompe, e soletrando,

Entra a ler com trabalho; mas, apenas

O sentido da astuta Carta entende,

Começou a tremer; das mãos lhe cai

O atrevido papel. Não, se cem bocas,

Cem línguas eu tivesse, e a voz de ferro,

Poderia contar qual foi a raiva

Do gordo Bispo. A Ira, a Impaciência,

A Soberba, a Vingança, e outras Fúrias

O rodeiam, o agitam, o transportam:

O rosto se lhe inflama; os olhos, tintos

Dum vivo e negro sangue, lhe chamejam;

Escuma, geme, e brama, range os dentes.

Tão cruel, tão espantoso, tão feroz

Não treme, não avança, não se rasga

O que mordido foi de Cão danado,

Quando o triste veneno, que fervendo

Pelas veias lhe corre impetuoso,

Ao coração lhe chega, e lh’o devora;

Como o grave Pastor! A vil Preguiça

Que a seu lado jazia recostada,

Ao vê-lo, dali foge espavorida.

Enfim, em raiva ardendo, grita e clama

Aos Lacaios, que logo, sem piedade,

Aquele infame ousado lh’o castiguem.

Então os insolentes vis Mochilas

Arrancam das espadas, que, em desprezo

Das Leis e Magistrado, à cinta trazem,

E cheios de grande ira, quais raivosos,

Arremessados Cães, que ardidos seguem

O fero Javali, que veloz foge

A emboscar-se na densa e vasta moita,

Correm, sem tino, após o bom Gonsalves,

Os olha com desprezo, e com insulto.

Não de outra sorte rúbido Podengo,

Que seguindo fiel,e lisonjeiro

O rústico Saloio, que à Cidade

Vem, de seus Campos a vender os frutos;

Se ao pé d’alguma esquina se demora,

Preso da vista das formosas cores

Da galhofeira Cidadã Cadela,

E sobre ele caindo a roaz turba

Dos bairristas Cachorros, que a namoram;

Entre as pernas metendo a longa calda,

Corre, sem se deter, até que chega

Junto de seu Senhor, a cujas abas

Seguro e confiado encrespa as ventas,

Contra eles se revira, então rosnando

Lhes mostra os brancos, navalhados dentes.

 

       Denodado Gonsalves, (se meus versos

Alguma coisa podem, se rompendo

A névoa escura dos futuros evos,

Sobre as asas do Tempo se espalharem

Pela terráquea mole) em quanto Alcaides,

Quadrilheiros houver, houver Meirinhos,

O teu nome será sempre famoso,

Pelo heróico valor, com que abarbaste

Do gordo Bispo a temerosa sanha;

E dos Leilões na Praça, em quanto às nuvens

A fronte levantar a grã Lisboa,

Entre a terrível pestilente corja

De Alguazis desalmados e vorazes,

Com inveja e louvor, serás de todos

Pelo primeiro Beleguim contado.

 

       Entanto a Senhoria, que presente

À esta Cômica cena sempre esteve,

Chama a Fama veloz, e lhe encarrega

Que a grã nova ao Deão leve ligeira.

       Estava então o triste combativo

De alegres esperanças e temores;

Umas vezes confia, outras receia,

Que o Escrivão medroso não se atreva

A prosseguir no empenho começado;

Quando a rápida Fama, em seus ouvidos,

A nova espalha do feliz sucesso.

 

       Vós, Filhas da Memória, que do Pindo,

Concordes habitais as frescas selvas,

Qual foi o seu grã prazer, dizei agora.

       De Baco nas solenes Antestérias,

As desenvoltas Mênades não correm,

Nyeteleo invocando, mais furiosas,

Do Deus, e da Alegria arrebatadas;

Como o farfante Lara corre as casas,

Gritando de contente. Os Moços chama

E a todos, entre grandes gargalhadas

Todo o sucesso narra. Ora lhes pinta

Do arrojado Escrivão a grande astúcia,

Ora as vãs iras do cruel Prelado.

      

       Oh geração humana, e quanto és fácil

No meio da bonança a engrimpinar-te,

Sem temer, que a pelada má Fortuna,

Lúbrica, extravagante, caprichosa,

Te vire as costas, e te mostre a calva!

Tu, oh farfante Lara, em pouco espaço

O viste, por teu mal, tu o provaste;

Pois, quando mais ditoso te julgavas,

De improviso fugiu tua alegria;

Qual leve exalação, que apenas nasce,

Nos abismos do Céu desaparece!

       Engolfado o Deão nas esperanças,

Que este fausto princípio lhe anuncia,

Aos Criados ordena in continenti,

Que para festejar o feliz caso,

Uma esplêndida Ceia se prepare;

E a Velha, que também de gosto salta,

Com risonho semblante intima, e manda,

Que não fique, na grande capoeira,

Fôlego vivo em tão festivo dia.

Não contente com isso, maior prova

De seu imenso gozo dar pretende:

Que bizarro Concerto, de prelúdio

Sirva ao farto banquete, determina,

Da Música melhor, que há na Cidade:

E por dar mais prazer aos Convidados,

De Cavalinhos fuscos, depois dela,

Na vaga sala, com soberba pompa,

O galaste espetáculo prepara.

Então a convidar, saltando envia,

Do Clero; e da Milícia cem pessoas.

 

       Ao passo que estas coisas se faziam,

A despiedosa velha ferozmente

A bárbara sentença executava,

Cem Galinhas, cem Frangões degolando.

Entre todos havia um velho Galo,

Pai da grande família, vitorioso

De cem feros rivais, e respeitável

Pelo roxo esporão, roxa crista:

Deste pois, nem sequer, o vulto escapa

Da grande mortandade, e com seu sangue,

De seu cruel Senhor honra o festejo.

 

 

 

Canto VII

 

Entretanto, surdindo a Noite escura

Do Bósphoro Cimmerio, e despregando

As estelantes asas, envolvia

Todo o nosso Hemisfério em densa treva,

Quando na Casa do Deão triunfante,

Ajuntando-se vão os Convidados.

 

       Vós, Deusas do Parnaso, vós agora

Novo fogo inspirai dentro em meu peito;

Regei-me a voz cansada, e o débil canto,

Porque nele celebre dignamente

De tão altos varões nomes, e manhas.

 

       O primeiro que entrou na grande sala

Foi o moço Sequeira, que ombreando

Com o Pai sagaz, na usura e na trapaça,

Lhe sobreleva muito de avareza.

Duma sebenta, desbotada fita,

A bengala da destra traz pendente,

Com que as moscas enxota do Castelo.

 

       Após este se segue circunspecto

O Noventa-cabelos, conhecido,

Por fido Achates do pomposo Lara;

Homem sisudo e grave, e o mais calado

De quantos pisam d’Elvas a Cidade;

Exceto o triste, mísero Tacanho,

Que gerou, por seu mal, o velho Torres.

Muitos dele murmuram (Feia Inveja,

Quem de teus dentes ficará isento,

Se não te escapa a simples Inocência

Que não fala, porque falar não sabe!)

Outros porém mais justos o defendem,

E as estrelas o sobem; pois ao menos

Se não sabe falar, sabe calar-se;

E qual lúbrica, negra sanguessuga,

Que aferrando-se à pele, se não solta,

Sem de todo fartar a cruel sede,

Dos que encontra às orelhas não se agarra,

E sem antes gastar-lhe a paciência,

Com questões importunas os não larga,

Como costuma o zote do Sardinha.

Nas ancas deste entrou esbaforido

O Veloso, Aritmético afamado,

Capaz de duvidar até de Cristo;

E que tem, de loquaz e de arengeiro,

Quanto de taciturno tem o outro;

Ele sabe de Aclamo o grande Escólio,

De cabo à rabo, sem falar-lhe um verbo,

E à força de Pai velho, algum pedaço

Verte em mau Português, do Tridentino.

Com o que, e repetir alguns exemplos

Da longa Jesuítica Sintaxe,

Passa, entre os seus, por homem consomado,

Bom Juiz de Sermões, e Pregadores,

Apesar do atrevido Casadinho,

Que, por ser o barbeiro do Prelado,

Arrogar este cargo a si pretende.

 

       Pouco tempo depois, ao beque dando

Entra o vaidoso mulheril Perinha,

Ramo insigne dos Gatos-Rodovalhos,

E Chefe dos Pelões da sua Terra.

Então de Senhoria toda a Casa,

Qual dum picante enxame de mosquitos,

Azoinada se viu: umas da boca

Em borbotões lhe saem, outras lhe entram

Pelas grandes orelhas lisonjeiras,

E subindo-lhe ao cérebro, a cabeça

De ilustríssimos flatos lhe enchem toda.

Não passou muito espaço, sem que à porta

Se não vissem chegar ambos os Bichos,

Alegria, e prazer da Elvense Terra;

O Leite, e o Barquilhos, tão famosos,

Aquele, pela teima, com que intenta

Mungir dum grande Bode as grandes tetas;

Este, pela piedade, com que vendo

Jazer em terra morto o bravo Touro,

Que os calções de Camurça lhe rasgara

Por que o Céu suas culpas lhe perdoe,

Perdoa em altas vozes, generoso,

O estrago do vestido, e a grave afronta.

Estes por onde passam, mil ápodos,

Mil graças, e risadas, entre a bulha

Do vulgo insultador, soar se escutam:

Não de outra sorte viu Lisboa, um tempo,

Da plebe entre a grande borborinha,

Passear suas ruas, ombro a ombro,

O célebre Dom Félix, e o Caturra.

 

       Mas outro entrando vem, de insignes prendas,

Que no engenho, agudeza, brio, e garbo,

Com os dois pode bem correr parelhas.

Afastai, afastai: deixai passá-lo;

Que é o grande Salgado, cujo nome

Por todo o Alentejo, em suas trompas,

Com sonoro louvor publica a Fama.

Dele relata pois a chocalheira,

Que inda o rol pendurado traz ao colo

Das moças, que, em Mancebo, namorara;

Onde, com distinção, se lêem seus nomes,

Suas graças, e dotes. Pelos prados,

Que o Hebro cristalino corta, e rega,

Tantas, de Amor cativas não seguiram

De Thracia o grã Cantor, que a cara esposa,

Na solitária praia descansando,

Duas vezes perdida, em vão chamava;

Quantas o rol contém, desde a mais baixa

E roliça fregona, até à Dama

Mais nobre, mais gagé, e mais xibante.

Hoje porém, que em mais sérios estudos,

Os dias gasta, desfrutando a honra

Da rústica curar gente da vargem,

Inda este frenesi curar não pode;

Nem da Empírica ciência o grã segredo,

As ervas, Cataplasmas tem bastado,

Para os males curar-lhe da cabeça.

 

       Eis outro chega, de não menos fama,

Cavalheiro do porte dos Venegas,

Que muitos Infanções por Avós conta.

Este só comerá duma assentada,

Sem que papo lhe faça, um Boi inteiro;

E como quem um copo bebe de água,

De Café, Chocolate, Chá, Sorvete,

Dum trago, beberá toda uma pipa.

Ele Ceia não há, não há Merenda,

A que pronto não voe, não assista.

Tão rápida, calar das altas nuvens

Não vê o Passageiro, em largo Campo,

A grasnadora gralha, o negro Corvo,

Sobre o triste animal, que de cansado

Em comprido caminho, deu a ossada;

Como correr se vê o bom Fidalgo

À voz, e cheiro do mais vil banquete.

Desta Canina fome, que o devora,

De alarve lhe ficou o gentil nome,

Com que em toda a Cidade é conhecido.

 

       Nem tu hás de deixar de ser lembrado

Em meus versos, Prior da santa Igreja

Que Alcáçova enobrece; tu, que sendo,

Um tempo, branco e louro, te tornaste

Por artes encanadas, negro e pardo.

Este na Sala entrou de loba e capa,

Mas debaixo do braço, com a Catana,

Com que em noites de escuro tem brigado

(Se de seu grã valor não mente a fama)

Muitas vezes, com todos os Diabos.

 

       Então, tremendo chega a passos lentos,

O longevo potroso do Saldanha,

Que em regras econômicas bem pode

Dar sota e az ao Grego Xenofonte.

Para prova do seu contentamento,

Se adorna do vestido Domingueiro;

Sobre uma vestia branca, airoso traja

Casaca que foi negra há quinze lustros;

Os Calções eram pardos, e os sapatos,

As meias, e espadim, e os outros cabos

Em nada do vestido desdiziam.

 

       A seu lado marchava o velho Preto,

Com a suja panela, em que costuma

Ajuntar as relíquias dos banquetes,

A que assiste faminto, e com que passa

O resto da semana com a família.

 

       Tu também, grosso Silva, lustre e glória

Da tua Pátria, antiga Torres vedras,

Doutor em Ano histórico, não foste

Dos últimos, que a rica sala entraram.

 

       Estes, e outros varões de igual calibre,

Dignos todos de fama e maravilha,

Honraram nesta noite a grande festa:

Mas da Justiça o amor me não consente

Que eu deixe vossos nomes envolvidos

Entre a treva, que espalha sonolenta

A água estofa do sombrio Lethes:

Bolorento Pão ralo, e tu, que falas

A língua da Mourama, oh bom Gonçalo,

E que os Melões, e Pêras almotaças,

Com tanta retidão ao Povo d’Elvas,

Quando empunhas severo a rubra vara.

 

       Junta enfim a seleta Companhia,

O vistoso Salão em torno c’roão.

Então ao Choro, que esperando estava,

Deu sinal o Deão, e uma Sonata

De Cravo, de Machete, e Castanholas,

Da Orquestra estrepitosa foi prelúdio,

A que um Duo se segue, coisa rara!

E que igual nunca viu em seus teatros

Milão, Veneza, Nápoles, Florença.

O grande Eugênio, e o famoso Felix

Foram os dois Virtuosos, que o cantaram.

       Se tu, oh estremada Zamperini,

Que em Lisboa os Casquilhos embaraças,

Seus suaves acentos escutaras,

Passagens, e volatas; bem que as Graças

Lisonjeiras te cerquem, e derramem

Em teu peito e garganta, mil encantos,

Com que as três filhas d’Achelôo vences;

Quantos novos encantos aprenderas!

       Depois o Vidigal ligeiro toma

Uma Bandurra, que na Orquestra estava,

Por mão insigne Mestre trabalhada:

Nela se viam, sobre a branca faia,

De marfim embutidas e pau santo,

As folias do filho de Semele,

Quando, do Ganges triunfando, à Grécia,

Entre ledos tripúdios, se tornava.

Estava o gordo Deus ali sentado

Num grande Carro, que virentes parras,

Contra os raios do Sol todo toldavam;

Uma bojuda pipa, que esparzia

Um largo jorro de liquor vermelho,

De trono lhe servia; e o Moço imberbe

Com verde tirso, com uma mão picava

Os dois acessos mosqueados Tigres,

E com a outra chegava à seca boca,

De saboroso sumo um cheio vaso.

Após ele se via debuxado

O bêbado Sileno, sobre um russo

E cansado jumento; de verde hera

Coroada a fronte tinha o Semi-capro;

E com tal arte figurado estava,

Que a cada passo do animal imbele,

Aos olhos dos que o vem, se representa,

Que, balançando, o semi-deus caía,

Com os fumos, que a cabeça lhe toldavam.

De foliões Silenos uma tropa,

Quase para o suster, o rodeava,

E sobre ela lançava o bom Sileno,

Todo risonho, os mal-abertos olhos.

Precediam o Carro, desgrenhadas

Mil Bacantes, e Sátiros lascivos,

Dando nos ares decompostos saltos.

Uns tocavam buzinas retorcidas,

Outros rijos adufes, e pandeiros.

 

       O Vidigal, pegando no instrumento,

Se encomendou ao Deus, a quem amava,

E dando à escaravelha largo espaço,

Até de todo temperar as cordas,

Soltou a bruta voz, com que costuma

Levantar os Mementos, nos enterros.

Com tão grande atenção não pendem prontos,

Do novo Batalhão da Elvense Terra,

Os marciais soldados, na parada,

Da voz agalegada do Malifa;

Quando o manejo, à falta de homens, rege;

Como a festiva Companhia pende

Dos duros berros do Cantor famoso,

Que da Pátria em louvor, assim dizia:

“Oh grande Elvas, Cidade em todo o tempo

Por teus famosos filhos memoranda!

Hoje até às estrelas meus acentos

Teu nome levaram, e tua fama;

Mas donde a minha voz a teus louvores

Dará princípio? Tu, oh brincão Baco,

Como tens por costume, tu me inspira!

Mil, em silêncio deixarei, sucessos,

Em mais remotos tempos celebrados,

Que tua glória ilustram; pois não pode

Um engenho mortal todas as coisas;

E a louvar passarei do teu Senado

A rara, e nunca-vista Economia,

Com que no velho, já-rachado sino,

Por se acharem as rendas do Conselho,

Em luminárias, lutos, e propinas,

Todas (em seu proveito) consumidas,

Quatro gatos mandou lançar de ferro”

Com tal arte feria o Cantor destro

Do pequeno instrumento as tesas cordas,

Acompanhando o som, com que cantava

Este estupendo gracioso caso,

Que, ao bater das pancadas, parecia

Que se ouviam no sino as marteladas.

Que direi, (prosseguiu) da sutileza,

Com que gravar mandaste sobre a porta

Que tem de Esquina o nome, em negra pedra,

Por que ninguém a lê-la se atrevesse,

A famosa inscrição, em negras letras?

Mais intricado, mais escuros enigma,

Que o que nas portas da famosa Tebas,

Por destino fatal, aos peregrinos

Feroz propunha a monstruosa Esfinge.”

Aqui, para tomar maior alento,

Um pouco se calou; e em alvo pondo,

Como quem pensa em coisas mais profundas,

Os turvos olhos, prega em grande escarro,

Com que assustou os Circunstantes todos;

E de novo começa: “Oh! Se eu lograsse

A grande dita de nascer em Roma,

E ali, na tenra idade, me tivessem,

Qual mísero e novel frangão, castrado;

Que então só, dignamente, em fino tiple,

Qual Aquiles nas Operas de Itália,

De teu grave Senado cantaria

A ação maior, que viram as Idades!

Tu, oh Povo miúdo, e o Povo grosso,

Que dos Touros ao bárbaro combate,

Presidido dos sérios Magistrados,

Lá na Praça assistias galhofeiro,

Tu testemunha serás, que eu não matizo,

Com falsas cores o notável feito:

Falo da profusão, com que lançaram,

(Ao primeiro rumor, e ainda incerto,

Com que a Fama espalhava vagamente

A notícia dos Régios Desposórios

Da Princesa Real, Real Infante)

Depois de terem feito bem o papo,

As relíquias da pródiga Merenda,

Sobre as cabeças da apinhada gente.

Então (coisa pasmosa!) os ovos Moles,

Arroz doce, Cidrão, e Leite crespo

Que o Povo, às rebatinhas, apanhava,

De toda a parte a flux chover se viam;

Cobrindo num instante toda a Praça.

       Qual nas tardes de Maio, (quando Jove,

Com a rúbida mão dardeja irado,

Por entre as negras condensadas nuvens,

Com medonho fragor, torcidos raios)

Cai a grossa saraiva, enchendo os Campos;

Tais, de manjar branco as tostadas pelas.”

       Aqui chegava, quando os Convidados,

A quem de tantos doces a lembrança

Tinha feito crescer água na boca,

Da demora da Ceia impacientes,

E da fome voraz estimulados,

Em tropel se levantam, e lançando

Pela terra Cadeiras e Instrumentos,

Correram para a mesa, onde cintila

Nos dourados cristais, nos finos pratos

A radiante luz de cem bugias.

       O primeiro que ocupa a Cabeceira

É o tolo Aguilar; sem comprimento

Entra logo a cevar a fera gula;

Exemplo, que os mais seguem vorazmente.

Brilha nos copos o rosado sumo,

Que desterra a cruel melancolia

De mesa festival, - reina a Saúde!

       Mas de todos tu foste, grã- Gonsalves,

Quem as primícias colhe; todos brindam

A teu grande valor, à tua astúcia;

Enquanto tu, no colo recostado

Da prezada Consorte, entre os seus mimos,

Do Bispo, e do Deão te estavas rindo.

       A Alegria reinava em toda a mesa;

Mil chistes, mil ápodos, mil pilhérias

Giravam sem cessar; sua Excelência

De todos era o alvo; todos nele

Malhavam satisfeitos e contentes;

Posto que era malhar em ferro frio.

       Uns, a brilhante escolha lhe louvavam

Dos Sinodais Teólogos, - do Arronches,

Exímio Pregador, (que leu inteiro

O Livro dos Conceitos predicáveis,

O Zodíaco soberano, e outros muitos,

Que na Escola Capucha estão em preço)

- Do Guardião dos Capuchos, - do Roquete,

Tomista petulante e confiado.

       Outros, a prepotência, celebravam,

Com que, de motu proprio, um pobre leigo

Despejar, prontamente, fez das Casas,

Para nelas viver o seu barbeiro.

       Este, a grande filáucia encarecia

Com que a Portuense mitra na cabeça,

E seu bago reger já se supunha,

Ofícios repartindo e Dignidades.

       Aquele, murmurava da arrogância,

Com que Ministro eleito à grande Roma

A julgar-se chegou; e rodeado

De Pajés petulantes, e Lacaios,

Do Tibre assoberbar as verdes margens,

Em malhados frisões, imaginava.

       E todos, sem respeito, blasfemavam

Da fatal ignorância, ou liberdade,

Com que, apesar dos Cânones sagrados,

 Benefícios-Curados entregava

De avaros Regulares entre as garras.

       Nem tu, gentil Roupão de fresca Xita,

(Com que, à grande janela, empanturrado,

Da inútil ociosa Biblioteca,

Nas noites de Verão, a calma passa)

Às suas tesouradas escapaste.

       Entre tantos motejos, só o calado,

Chupando os dedos e roendo os ossos,

Comia, e mais comia o Dom Alarve;

E algum caso fatal, de quando em quando,

Todo cheio de espanto, recontava

Do Ano histórico, o grosso e torto Silva.

       Quando, subitamente (caso horrendo!

Que as carnes faz tremer, ao repeti-lo!)

O velho Galo, que num prato estava,

Entre frangões e pombos, lardeado,

Em pé se levantou, e as nuas asas

Três vezes sacudindo, estas palavras,

Em voz articulou triste, mas clara:

-“Em vão, cruel Deão, em vão celebras

Com nosso sangue o próspero sucesso,

Que a futura vitória te promete;

Que por fim cederás a teu contrário.”

 

       Disse: e caindo sobre o grande prato,

Sem mexer-se, ficou. Neste momento

Um gelado suor dos Circunstantes

Banha as pálidas faces; os cabelos

Nas frontes se lhe eriçam; largo espaço

Imóveis ficam, sem dizer palavra.

Mas o perdido espírito cobrando,

Se levantam tremendo, e pela terra

A recheada mesa baquearam:

Três vezes se benzeram com a mão toda;

Três vezes, mas em vão, esconjuraram

O fatal Galo que jazia morto

E, mil, a infausta Ceia dando ao Demo,

Se foram, sacudindo os calcanhares.

 

 

 

Canto VIII

 

Na superior instância introduzida

A grande Apelação, ardia a guerra.

Dois Rábulas famosos trabalhavam

Em ofuscar das Partes o direito.

Quantos rançosos livros, que jaziam

Sepultados em pó, meio-comidos

Da cruel e voraz, maligna traça,

Tornaram outra vez a ver o dia!

A Excelência, a Discórdia, a Senhoria,

Cada um per si, os excitava;

E sobretudo, a fome devorante

Do luzente metal, que o Mundo encanta.

De papel muita resma, em letra grifa,

Onde, a montões, os Textos, os Doutores,

Sem ordem, e sem tempo se alegavam,

Cada qual, de si pago, tinha escrito.

 

       Quando o Gênio feroz das Bagatelas

Uma fiel balança nas mãos toma,

E num dos áureos discos, põem atento

As razões do Deão, noutro as do Bispo;

E vendo, que estas tinham maior peso,

Talvez por terem mais papel e tinta,

Por um geral Edito à Corte chama

Os vaidosos Magnatas, e sem senzala,

Com fera continência, assim lhes disse:

“Nunca a pensar cheguei, que em meus vassalos,

Que do Orbe a estimação, e o ser me devem,

Tão louvo algum houvesse, e tão ingrato,

Que combater ousasse meus projetos!

Mas o Tempo, que a todos desengana,

Me mostrou quanto errava, e quão perdidos

São, com ingratos, grandes benefícios!

Este enorme atentado merecia

Um castigo exemplar; mas a Clemência,

Companheira fiel do meu Império,

A espada me suspende, na esperança

Da pronta emenda.” Aqui fitando os olhos

Na pálida, e confusa Senhoria,

Desta sorte prossegue em seu discurso:

É pois minha vontade, ordeno, e mando,

Sob pena de incorrer no desagrado

Do meu Real Favor, de abrir os olhos

Do mundo fascinado, e de mostrar-lhe

Que nada tem de real vossas Pessoas,

Que todos são fantástica Quimeras:

Que nenhum de vos-outros se intrometa

No famoso litígio, que hoje corre

Entre Bispo, e Deão da Igreja d’Elvas.

Severo, isto dizendo, se retira,

Deixando a todos tristes e confusos.

       Mas a vã Senhoria, que conhece

A quem as ameaças se encaminham,

Vendo, por este modo, as mãos atadas,

Para seguir o empenho começado;

A carpir, se retira num deserto,

Sua grande desgraça, envergonhada.

       Entretanto o Deão confuso, aflito

Passava as horas, na memória tendo

Do lardeado Galo o infausto anúncio.

Pouco a pouco, a cruel Melancolia

O devora, e consome; não graceja,

Como dantes usava, com a família:

Mas, em seus pensamentos abismado,

Comia pouco, pouco repousava,

Não joga, nem Café, nem Chá bebia.

No pico dum rochedo solitário,

Entre as trevas da noite carregada,

Tão lúgubre gemer, de quando em quando,

O feio e rouco Mocho não se escuta,

Como o pobre gemia, retirado

No escuro canto duma nua sala.

 

       Então a zelosa Ama, a quem penetra

Do aflito Patrão a grave pena,

Um dia lhe falou, por esta forma:

- “Que tem, Senhor Deão? que magoa é essa,

Que tão mudado o traz do que antes era?

Mal haja quem lhe dá tanto cuidado!

Essa cara, Senhor, que noutro tempo,

Era cara de Páscoas, tão alegre,

Tão gorda, e reverenda, tão afável,

(Até para os seus Servos) tão mudada

Está do que já foi, que hoje parece

Uma cara de angústias! Não sossega;

Mas em triste silêncio sepultado,

Nem toma o seu Café, nem joga o Wist!

Supondo que lhe deram mal de olhado!

Ah! se esse for seu mal, pronto remédio

Em mim encontrará; pois do quebranto

Sei benzer, e curar por mil maneiras:

Pois, mil vezes, na planta desprezada,

Está de grave enfermidade a cura.”

 

       -“Ama (diz o Deão) para que é tonta?

Por ventura não sabe o grã litígio,

Que trago com o Bispo; em que meu brio,

O meu ser, minha glória se interessam?

Não se lembra também do infausto agouro

Do lardeado Galo? Que mais causa,

Em mim pretende pois, de viver triste?

Oh! se os Astros cruéis tem ordenado

Que eu demanda perca, de repente

Me verá estalar sem frio, ou febre,

Entre as bárbaras mãos deste desgosto.”

- “Senhor Deão (replica então Ama)

Se da sua tristeza é essa a causa,

Tem por certo razão para afligir-se;

Suposto, que não é o mal tão grande,

Que não possa remédio ter ainda.

 

       Eu, sendo moça, instituída

Fui nas artes da Madre Celestina,

Pela velha Canidia; muito trato

Tive então com o sábio Abracadabro,

Famoso Encantador, que ainda vive,

Não longe deste sítio, numa gruta.

Este estupendo Mágico conhece

Das pedras, e das plantas as mais raras,

As ocultas virtudes; sabe a língua

Das Aves, e Animais; com seus conjuros

Muda as louras cearas; sobre a terra,

Mil vezes, faz descer trovões a raios;

Arranca do alto Céu a branca Lua;

Em negro Urso, mil vezes, se converte,

Mil em Lobo Cerval, e mil em Touro:

Este pois mudar pode do Destino

As Leis, e a Natureza; e mentiroso

Tornar (se lhe parece) o triste agouro

Do diabólico Galo. A consultá-lo,

Se for do seu agrado, iremos ambos.”

       Disse: e o Deão suspenso largos espaço,

Sem saber resolver-se, mudo fica.

Umas vezes se anima, outras receia

Do Mágica feroz o horrendo aspecto.

Não de outra sorte está Carvalho anoso,

Que em torno, pelo pé, sendo cortado,

Pendente dum só fio, com a queda

Cem partes ameaça, e a verde copa

A nenhuma, por longo tempo, inclina.

Finalmente, o desejo da vitória

Vence o frio temor. Tanto em seu peito

Pode a Raiva, pode a cruel Vingança!

Dando um grande gemido, estas palavras

Do mais íntimo d’alma aflito arranca:

- “Vamos, Ama, buscar o grande Sábio;

E veremos se tem meu mal remédio.”

 

       Era alta noite, e a terra esclarecia,

Com duvidosa luz, a branca Lua;

Quando o Deão, pela Ama conduzido,

A um monturo se foi, onde ambos juntos

Se despem prontamente, e untando o corpo,

Com sangue de Morcego e de Toupeira,

Sobre sórdidas penas se espojaram.

Então o corpo todo agita, e move

Com medonhos esgares, e rosnando

Em baixo som, por entre os pobres  dentes,

Certas palavras a espantosa Velha,

Ao farfante Deão diz açodada:

- “Voemos.”- E num ponto (coisa rara!

E que igual nunca fez Juan de las vinhas)

Pelos ares voara livremente,

Procurando do Arquimago a morada.

       De Alcáçova o Prior, homem vexado

De noturnas visões, que então à Casa,

Do Nunes Bacanal em companhia,

C’um puxativo escalda, se tornava,

Vendo alçar-se da terra os negros vultos,

Arranca da brilhante Durindana,

E o capote traçado, velozmente,

Põem-se no reto, parte, atira um furo,

Faz pé atrás; mas tropeçando, acaso

Num podengo que, à força de pedradas,

Os travessos rapazes tinham morto,

De costas se estendeu na dura terra,

Coberto de vergonha, esterco, e lama.

Então mais furioso se levanta,

E c’um golpe mortal a partir torna.

O Pejo, e o Furor lhe dobra as forças,

Berra, salta, esconjura, põem preceitos,

Sem descansar, talhando os sutis ventos;

Mas tudo em vão; que leves e seguros,

Nadando pelos ares, se sumiram

Os novos Antropógrifos nas nuvens.

       Tu só, nesta aventura, infeliz Nunes

Provaste a fúria do pesado braço;

Pois, ao vibrar um talho o Dom Quixote,

C’o rabo te chegou da rija espada,

Pregando-te um gilvaz pelos focinhos,

Com que em duas te fez a aguda barba.

 

       Nas entranhas d’um monte solitário,

Que entre as nuvens esconde a calva fronte,

Assiste Abracadabro, a quem patentes

Os profundos mistérios da Cabala,

E todas as leis são da Onomania.

Mil Globos, mil Compassos, mil Quadrantes

Confusos jazem no sombrio alvergue:

Ali Betiles há, há Quelonites,

Corações de Toupeiras, há estranhas

De vãos Camelões, há pedras d’Ara,

E mágicos espelhos; há cabeças

De mortos animais, Lameiras Virgens,

Hipômanes, Mandrágoras, e outras ervas,

À luz colhidas da nascente Lua,

Nas campinas do Ponto, e da Tessália.

Aqui Ama, Deão descem, a tempo

Que, à mal-acesa luz duma lanterna,

Um Talismã o Mágico compunha.

Ao feio aspecto do fatal hospício,

As carnes ao Deão se arrepiaram.

Começa a vacilar; mas a malvada,

Velha Bruxa o segura, alenta, anima.

Entram pois onde o Sábio trabalha,

E, prostrada por terra, a vil Carcaça,

Desta forma, o silêncio interrompia.

Famoso Abracadabro, a cuja ilustre,

Alta ciência os Fados concederam

Dominar Elementos, e Planetas,

Este, que vês (eu creio, o não ignoras)

É o nobre Deão da Igreja d’Elvas:

Pelo arrogante Bispo perseguindo,

Do teu grande poder se chega às abas:

Com o gordo Prelado, e seu Cabido

Uma demanda traz; para vencê-la

Tuas artes procura. Ah! se algum dia,

Com teu alto favor, benigno honraste

Esta Seva fiel; por ele mesmo,

A teus pés humilhada, hoje te peço,

Que o queiras amparar; Ele o merece

Por triste e desvalido; e pelo grande

E profundo respeito, que tributa

A teu alto Saber, às tuas barbas.”

 

       Aqui o Velho Mágico lhe torna:

- “Nada do que tu dizes me oculto;

E por ele, e por ti provar intento

Quanto minha arte pode.” Isto dizendo,

Todos três se saíram da caverna,

E à mal-distinta luz da frouxa Lua,

Sobre a rasa campina, Abracadabro,

Com uma curta vara, quatro linhas

De círculos pequenos logo traça:

A estas linhas junta três fileiras

“Pedras de toque são, onde os quilates

Das grandes almas sempre resplandecem;

De mais, que os duros Fados tão injustos

Não são para contigo, que vingança

A teus grandes agravos não permitam: -“

 

       Ao eco da vingança, ó antigo esforço

Cobra o pálido Lara; e alvoroçado

Esta pergunta faz ao velho bruxo:

-“E que vingança é essa, Abracadabro,

Que o Fado me promete?” – Então o sábio,

Com severo semblante, lhe responde:

 

       “Virá a suceder-te no Deado

Um novo Herói da tua mesma raça.

Este, sendo também indignamente

Pelo orgulhoso Bispo injuriado,

Por que à porta recusa do Cabido

Ir, como tu, a oferecer o Hissope;

Para em salvo se pôr de seus insultos,

Deixando, sabiamente aconselhado,

De venais Magistrados o recurso,

Refúgio buscará nas santas Aras

Onde Têmis preside, e firme asilo

Acham contra a violência os Oprimidos.

Os Ministros da Deusa, que zelosos

De seu altar e culto, atentos seguem

As pisadas do Príncipe famoso,

Que dando ao Sacerdócio, ao Cetro dando,

O que é do Sacerdócio, que do Cetro,

Tem de ambos dos poderes felizmente

As sagradas balizas assinado,

E defendem com pronta vigilância

Da Real Jurisdição os justos termos;

Ao Bispo mandaram, por seu Decreto,

Que a razão deste excesso logo assine.

À fatal vista do imprevisto golpe,

Ficando consternado o bom Prelado,

Com fraqueza a mais vil, dolosamente

(Ação bem digna só dum homem indigno!)

Do Livro mandará riscar as multas;

Negará tê-las feito, e negaria,

Se necessário fosse o mesmo Cristo.

Então desistirá, cheio de medo,

Da pretendida posse, e seus direitos:

E a pele convertendo, na aparência,

De fero Lobo, se fará Cordeiro. –“

Disse: e o Deão, de ouvi-lo satisfeito,

Mil graças dava aos Fados, dava ao Sábio,

Mil à Velha, que vê-lo o conduzira.

       Já a Aurora, deixando enfastiada

Do potroso Titão o frio leito,

Sobre o Carro, de aljofres guarnecido,

Com um molho de rosas excitava

Ao veloz curso as remendadas Pias,

Que os freios mastigando de diamante,

Por olhos, e por ventas cintilavam

Trêmulos raios, que de luz cobriam

Os longo-apavonados horizontes:

Quando a Velha, o Deão, ambos deixando

O grande Abracadabro, e sua gruta,

A descansar da longa ameijoada,

Para Casa velozes se partiram.

 

       Era já alto dia, e retumbava,

Em alegres repiques, Elvas toda;

Quando o Deão acorda o grande ruído,

E chamando os Criados lhes pergunta,

Qual do grande Zão-Zão era o motivo.

Então o Cozinheiro, debulhando

Em lágrimas, lhe conta que a notícia

De ter vencido o Bispo o grande pleito,

Que trazia com sua Senhoria,

Tinha, há pouco, chegando por um Próprio:

Que em todas as Igrejas não havia

Sino grande, Matraca, ou Campainha

Que, em sinal de prazer, se não tocasse,

 

       Acabou o bom servo a triste arenga,

De seu peito exalando um grã soluço;

Mas sua Senhoria consolado

Da futura vingança com a imagem,

Sem alterar-se, ouviu a infeliz nova.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística