LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Reino da Estupidez, de Francisco de Melo Franco


Edição de referência:

FRANCO, Francisco de Melo. Reino da Estupidez. São Paulo: Editora Giordano, 1995

 

 

 

 

REINO DA ESTUPIDEZ

 

 

Índice

 

Prólogo

 

Canto I

 

Canto II

 

Canto III

 

Canto IV

 

 

 

 

 

Prólogo

 

 

Rien est beau, que le vrai,

Le vrai seul est aimable.

Boileau. Épître 9

 

 

 

Vai, oh poema, não digo discorrer pelo Universo, porque sei que estás escrito em português, mas ao menos corre as mãos de todos esses que compõem a Universidade.

 

Eu te vaticino deste já uma desgraçada sorte. Serás praguejado, e por muitos reduzido a cinzas, que irão até lançar-te no Mondego como coisa contagiosa. Não esmoreças, que entre esses algun[s] haverá, ainda que poucos, que folguem de ver a verdade com os seus próprios vestidos.

 

Não receies penetrar os mesmos daustros; aí é que te prognostico os maiores desprezos. Sofre com paciência, que o teu fim é só de fazer ver a verdade. Afirma pois a esses homens que o teu Autor venera os seus Santos Instituidores: que só desejara que aqueles que se prezam de ser seus filhos fossem vivas cópias suas, porque então não chegariam a muitas dúzias em Portugal. Dize-lhes que o que mais o aflige é ver que os que por voto devem ser pobres, humildes e castos são os mais regalados, soberbos e libidinosos, a quem custa muito cumprir os votos que fazem. Pergunta-lhes como será possível ver de sangue frio a um monge, a uni pobre de Jesus Cristo, robusto, gordo e capaz de vender saúde, às costas de dois pobres homens pela Couraça dos Apóstolos acima, até ao Pátio das Artes? Dize-lhes que bem sabes que este é o Mestre de Hebraico, o Sr. D. João de Tal [1]...

 

Irás ter às mãos de muitos, que te censurem de pouco verdadeiro, porque hoje a Universidade está em seu auge e esplendor. Dir-te-ão que para dizer tanto é preciso, ou não ter notícia da Reforma, ou ser maldizente por ofício. A estes tais pede a resolução do seguinte problema:

 

Achava-se um homem nas trevas sepultado no mais profundo sono; rodeavam-no por todos os lados mil perigos e despenhadeiros; compadecido outro do miserável estado em que se achava aquele desgraçado, foi despertá-lo para o pôr fora dos perigos que o cercavam. Tinha já o benfeitor dado alguns passos, mas de repente lhe falta a vista, e fica o infeliz ainda nas trevas, acordado, sem guia, caminhando de precipício em precipício. Pergunta-lhes, pois, quando era mais desgraçado este homem: se no tempo em que estava engolfado no seu letargo, se quando se via acordado, só. e nas trevas?

 

Não te canses em fazer-lhes a aplicação que é manifesta. Dize somente que o fruto que daqui levam os legistas é a pedanteria, a vaidade e a indisposição de jamais saberem. Enfarinhados Unicamente em quatro petas de Direito Romano, não sabem nem o Direito Pátrio, nem o Público, nem o das Gentes, nem Política, nem Comércio, finalmente, nada útil. Que os Canonistas saem daqui com o cérebro entumecido com tanto Direito de Graciano, sem crítica, sem método, engolindo, com alguns verdadeiros, imensos Cânones apócrifos, dando ao Papa, a torto e a direito, poderes que lhe não competem por título nenhum e desbulhando os Reis dos que por Direito da Monarquia lhes são devidos. Com estes não te abras mais, e acrescenta só que é melhor morar em unia casa vazia do que em uma cheia de trastes velhos e desconcertados, onde reina a desordem, a confusão e a imundície.

 

Deves porém confessar que a Reforma trouxe à Universidade as Mestres dignos de tal nome, mas que estes ficam tão submergidos pela Ciências Naturais, que na verdade tiveram e têm ainda alguns materialidade dos companheiros, que fazem a maior porção, que para os distinguir é preciso ter vista bem perspicaz. Tanto reina ainda aqui mesmo a Estupidez!

 

Adverte, enfim, que não reparem em não fazeres menção dos Senhores Teólogos, devendo ser os primeiros, porque ex fructibus eorum cognoscetis eos (S. Mateus, Cap. VII, v. 16) e, invertendo, ex

illis cognoscetis fructus eorum.

 

O Céu te leve a mãos, que te não dêem logo tirano garrote, antes de seres lido por algum que te propague.

 

 

Si Musa vetat, facit indignatio versus.

[Juvenal]

 

 

 

CANTO I

 

 

Não canto aquele herói pio e valente

Que depois de ter visto a cara Pátria

A cinzas reduzida e campo vasto,

Mil p'rigos contrastando, um dima busca

Aonde com os seus ditoso seja.

A mole Estupidez cantar pretendo

Que, distante da Europa desterrada,

Na Lusitânia vem fundar seu Reino.

Dita-me, oh musa, que eu não posso tanto,

Os nobres feitos, e diversos casos,

Que a esta grande empresa acompanharam.

Viu feio monstro de cruel figura,

Desgrenhados cabelos, olhos vesgos.

Disforme ventre, circular semblante,

Da lúgubre caverna aonde jazia

Bocejando saiu, e longo tempo

Nas vizinhas montanhas reparando,

Estas vozes soltou de mágoa cheia:

  "É possível que sendo venerada

Em outro tempo pela Europa toda,

Hoje aqui viva sem domínio ou mando

Nestas brenhas incultas desterrada?

É possível que a Deusa que usurpara

De sábia o nome, e ser de Jove filha

Dos meus vastos domínios me expelisse

E haja sobre o meu posto o seu trono?

Esta inação quero deixar um dia.

Não há de ser assim; essa tirana

Há de ver uma vez o quanto posso."

 A fria Estupidez acesa em ira,

Tanto jamais se viu; ao Reino escuro

Aonde mora a macilenta lnveja

Com a furiosa e vingadora Raiva,

Quanto lhe sofre a natural

Ligeiramente marcha.

" Oh fortes Deusas",

Soluçando lhes diz, — "se tantas vezes

Em tais empresas já me socorrestes

Não podereis deixar também agora

De dar-me a mão em tão aflito caso.

A soberba Minerva injustamente

Depois de meus domínios ter roubado,

Domínios que na Europa tanto prezo,

Por cúmulo de mal em feias selvas

De ninguém habitadas, me desterra."

O fero coração das negras Fúrias,

Por ser causa comum, enterneceram

Da mole Estupidez as brandas queixas.

— "Deixai, amiga irmã" — somente dizem -

—"Vinde também conosco, e vingaremos

Essa injustiça que te faz Minerva."

Em si não se fiando, também chamam

O duro Fanatismo, a Hipocrisia;

E tu, Superstição, que tanto podes

Nas crédulas Nações, não os deixaste.

Em forte batalhão todas armadas

Os elementos turbam. Negra nuvem

De mil coriscos prenhe se encaminha

À parte, donde sopra o frio Noto.

A raivosa Coorte ali se encobre,

Sutis estratagemas ali traça.

Já França se lhes mostra, e destramente

Tomando cada qual sua figura

Para o combate espreitam útil meio.

Então o Fanatismo, que tomara

Um ar sisudo e marcha compassada,

Vendo reinar somente a Humanidade,

De tristeza e rancor se despedaça;

Suas máximas duras assoalha,

Já entre o povo ou entre a sábia gente.

Em vão é trabalhar: com riso e mofa

A porção mais sisuda lhe responde.

Mas o povo uma vez entre apupadas

Pelas ruas o corre duramente,

Qual o cão que danado se presume.

Da vil Supersticão, da Hipocrisia

Mais efeito os trabalhos não produzem;

Reinam a seu pesar a singeleza

Nos costumes, candura e sã verdade.

Minerva, que o ardil não desconhece,

Nos ânimos infunde novas luzes;

Luzes, que dissipando a fosca névoa

Com que a reta razão manchada fica,

Com próprias cores a Verdade pinta.

Da gálica nação, ligeira e douta,

Mil pragas vomitando, fogem todas.

Iradas ainda mais ligeiras buscam

A britânica gente; ataques novos

Em conselho ali põem; ferve de novo

Nos bravos corações, rancor funesto.

Fulminam tudo, a toda a parte correm.

Mas que importa, se a ti, profundo povo,

Brilhantes aparências nunca iludem?

Se por entre a verdade e falso buscas

Manifesta divisa, e só descansas

Quando das coisas tens a sã medula?

Desesperam dali as Fúrias logo;

Voam, não fogem desta gente clara

A que intratável e ferina chamam.

Vão discorrendo pelo frio Norte,

Aqui, ali, novos combates dando.

A Deusa tutelar vendo com susto

Que alguns dos seus a vacilar começam,

Que se deixam levar dos vis enganos,

Convoca incontinenti um grão congresso,

Daqueles que sustentam fortemente

O seu brilhante e majestoso trono.

— Alunos meus, mas não, não disse tudo"—  

A falar, principia desta sorte.

"Amados filhos que da infância tenho

A meus peitos nutrido, e com desvelo,

A vás, a vossos pais tenho livrado

Da vil escravidão em que os tivera

A frouxa Estupidez noutro tempo,

Sabereis que este monstro bafejado

De muitas Fúrias que tornar lhe juram

Seus antigos domínios, disfarçado,

Armando laços, entre vós passeia?

A vosso lado noite e dia velo;

Mas de modo têm sido os seus encontros

Que entre vós sinto alguns já titubeantes.

Que mágoa a minha, que pesar não fora,

Se em triste cativeiro ainda vos visse,

Comigo ingratos, para vós tiranos.

Ao leão rugidor, que em torno gira,

Constantes, resisti! As almas fortes

Com fantásticas formas não sossobram

Qual destro capitão que descortina

Ardilosas ciladas do inimigo,

Na vossa frente, pelejando marcho.

Vitória conseguiu já dele a França,

Outro tanto tem feito a gente inglesa".

Com estas vozes tal esforço inspira

Nos vacilantes peitos, que ligados

Um corpo fazem, como nunca, firme.

De novo as Fúrias seus ardis empenham,

Multiplicam combates, dobram forças;

Mas a sábia coorte, a peito aberto,

Sem p'rigo alcança a vencedora palma.

Qual anoso carvalho, cujos ramos

Tanto procuram as cinzentas nuvens

Quanto as raízes vão minando a terra,

Despreza imóvel a sobeja fúria

Dos ventos zunidores que o combatem.

Vendo sem fruto o seu trabalho, as Fúrias

A certo aceno se congregam todas

Em oculto lugar, aonde só moram

As negras sombras da tristonha noite:

A raiva então, de cujos vesgos olhos

Cintila[m] o ódio e a cruel vingança,

Assim as outras fala, em tom irado:

"Será possível que um poder tão forte

Qual é o vosso e qual o meu conheço

Em nada pare? Que nenhum efeito

Haja destas fadigas resultado?

Ao lado chora, sem dizer palavra,

Aflita, a Estupidez; e largo espaço

Aguda mágoa põe na língua freio.

Senão quando, depois de feita a

Deste modo começa o Fanatismo:

— "A vosso e meu pesar já tendes visto

Que suamos em vão; Minerva impera

Nos duros peitos desta gente infame;

Deixemos pois estes gelados climas,

Bem digna habitação de tais cabeças;

Daqui fujamos para o meio-dia,

País de toda a Europa o mais ditoso;

Aqui mais resistência não teremos;

O povo habitador deste terreno,

Apesar dos passados contratempos

A meu mando viveu sempre sujeito.

Não chores, cara irmã; o teu Império

Segundo creio, lá verás fundado.

Fugir, fugir desta inimiga terra."

Todas, a uma voz prontas concordam;

Da fria região logo desertam,

E sobre as asas dos ligeiros ventos

As amenas Espanhas vão buscando.

 

 

 

CANTO II

 

 

Era alta a noite, e o enregelado inverno

Já começava a sacudir as asas

Que ao sereno gotejam frio orvalho.

Dormia tudo, e só nas ermas ruas

Errantes cães ladrando se encontravam.

Foi então que a Lisboa, rica e vasta,

Em segredo baixou o bando infame

Se à soberba Madri primeiro iriam,

Hesitaram, enquanto o Fanatismo

Não decidira que no Luso Reino,

Como mais certo, começar deviam.

Por acordo comum assentam todas

Que aos públicos lugares com disfarce

Ir, sem demora devem, p'ra que espreitem

Que diz o vulgo, que censura o sábio.

Uns, que murmuram do atual governo,

Que louvam outros; desta sorte podem

Cair melhor no que fazer-se deve.

Dispersas pelas praças vão notando

As práticas diversas a que assistem,

Não só ouvindo, mas também seu voto,

Como a bem lhes fazia, declarando.

Não deixam sem visita parte alguma;

De formas diferentes se revestem

Já de homem, de mulher, de moço ou velho,

De casquilho, de frade ou de jarreta,

Segundo julgam que requer o caso.

Nesta pesquisa muitos dias andam,

Até que chega o desejado instante

Em que haviam proposto se ajuntassem

Para, em pleno conselho, darem conta

Do que ouviram dizer, do que fizeram.

Em oculto lugar, que não perturbam

Nem o tropel dos anafados machos

Nem das velozes rodas o ruído

E nem do povo o barulhado trato,

Lugar que fica além do claro Tejo,

As vagas sentinelas se congregam.

Duvidam entre si qual delas há de

Dar primeiro razão do que passara;

Da sua parte cada qual recusa;

Mas nisto a Raiva impaciente fala:

"Não noteis, companheiras, que eu primeiro

Tome mão da palavra; serei breve.

Nem deve para nós haver cer’mônia.

Por mil sítios andei, andei de noite.

Assisti uma vez a um caso grande:

Era um cadete de figura esbelta

Que diziam ser filho de tal conde,

Vestido muito bem de ponto em branco;

Uma espada tremenda tinha á cinta,

Toda de prata, sem senão lavrada;

Para mais casquilhar, como soldado

Nem da guerra sabia a menor coisa,

Porém de namorar todos os modos

Manejava melhor que o seu florete,

Em que muitos progressos tinha feito;

Na assembléia passava as noites todas

E nela com respeito era escutado.

Assentava consigo que nos olhos

Trazer devia as setas de Cupido,

Pois, para requestar qualquer senhora,

Não precisava mais que pôr-lhe a vista.

Encontra por acaso um velho grave

Com a sua família passeando;

A uma filha pelo braço tinha,

Por bela conhecida e que trazia

Havia tempo ao tal cadete louco.

Apenas a conhece, em torno gira,

Um dito solta, e outro, disfarçando;

Na filha inquietação o velho nota,

No mancebo repara e em seus gracejos;

Diz-lhe que a deixe, que não seja tolo;

Que a não serem os anos se vingara.

Do comprido florete tira logo

O bravo militar enamorado.

Quer defender-se o vacilante velho,

A dois passos porém, ferido cai.

Acode imensa gente mas, fogoso,

Destroça tudo, e impaciente leva

Entre o tumulto a aturdida moça.

No fundo do seu peito o velho geme.

Ao ministro se queixa, magoado;

Este ao fidalgo busca, e de bom modo,

Propõe-lhe queira ao pai levar a filha.

Qual sibilenta cobra cuja cauda

Pisou o incauto e frouxo caminhante

Assim no militar se acende a ira;

Descompõe o Ministro, e se não foge,

Não voltaria, como foi, inteiro.

Pelo sucesso espera o pai aflito;

Em resposta, o ministro só lhe torna.

"Amigo, são fidalgos; tenho feito

Da minha parte o que fazer podia:

Para os pequenos só as leis tem força".

Aqui imóvel fica o triste velho

Como quem dos sentidos perde o uso;

E depois de assim estar por algum tempo.

Dá tão grandes suspiros que parece

Dentro do peito o coração estalar-lhe.

Acusa de infiel a sua sorte

Porque tenha num reino tal nascido

Que tantos Neros tem quanto fidalgos;

Diz que já o Pombal faz tanta falta

Porque ele era somente quem sabia

Desta raça abater o grande orgulho.

Mas ao tempo que o velho isto dizia

"Meu antigo, calar, do mal o menos

E segredo!" — lhe torna o bom Ministro —

“Já que a filha perdeu, não queira agora

Perder também a vida, pois bem sabes

Que estes nossos fidalgos portugueses

É gente que não tem nem Lei nem Roque.”

Folguei de ver esta ousadia e fogo

Que nas outras nac6es jamais notara.

Vi de noite roubar, também de dia;

Uma forte quadrilha de marujos

quem faz por ali maior faxina;

Nada medo lhe põe; zombam da ronda

Que de vis sapateiros composta

E de outros tais, que dormitando levam,

Por espadas, espetos ferrugentos.

Isto vi, companheiras, e mil casos

Que não refiro por não ser extensa."

Logo a Superstição em pé se põe,

Mas fazendo primeiro mil momices:

O chão prostrada por três vezes beija,

Outras tantas, rosnando certas coisas,

Faz sobre o coração quinhentas cruzes.

Debaixo da camisa também tira

Uma grande almofada que constava

De muitas orações, muitas relíquias,

contra mal feitiços, contra a peste,

E muitas contra a tentação da carne.

Beija e rebeija o venerando Breve

E, com os olhos para o céu erguidos,

Com o mesmo se benze imensas vezes.

Deste modo disposta, principia

A dar conta fiel do que passara:

— “Tão outro Portugal agora vejo,

Que o mesmo não parece; quem diria

Que estas pobres mulheres perseguidas

Do Dragão infernal, em pouco tempo

Haviam de encontrar pelos conventos

Pronto socorro a seus cruéis tormentos?

Mal haja esse judeu, esse tirano,

O Paulo de Carvalho, homem ferino,

Que as tristes proibiu este remédio.

Já não camaradas, como dantes.

Fui aos frades capuchos; quarta-feira:

Que coisas lá não vi edificantes!

Na portaria estavam certamente

Para cima de cem, ou mais mulheres;

Umas em convulsões, outras zurrando

Coisa má na verdade, pareciam!

Apareceu depois um frade idoso;

Vinha de estola armado, e pela cara

Todos diziam que já era um santo;

Não era destes frades que capricham

Em trazer os sapatos de camurça

Muito amarela, e o calcanhar brunido,

Que o cabelo penteiam, que arregaçam

0 escovado burel, quando passeiam.

Este não era assim; de muito estudo

Via pouco, seus óculos trazia;

E cuidava nos hábitos tão pouco

Que no peito trazia de simonte

Mui boa quarta, se não fosse arratel.

Apenas se avistou, umas entraram

A fazer-se em pedaços, outras davam

Horrendos uivos, como cães famintos:

É dor do coração ver tal martírio!

Suspenso esteve o frade muito tempo,

Para todas olhando, e de repente

Em profundo silêncio ficou tudo.

Num livro entrou a ler, primeiro baixo.

Mas depois, carregando as sobrancelhas,

Com uma voz de trovão e irado lia:

Aqui é que foi pena... De improviso

Todas quebraram o silêncio a um tempo;

Tais urros, tais bramidos atroaram

O claustro todo, que ainda hoje tenho

De susto, o coração como abafado.

O frade cada vez mais lhes gritava

Batendo com o pé, que se calassem.

A muito custo, acomodou a bulha:

Suspiravam somente, enternecidas,

Como quem de um combate se livrara.

O exorcista já lia em voz mais mansa

E, benzendo-as três vezes, só lhes disse

Que se fossem paz de Jesus Cristo.

Umas a par das outras em fileira

Pondo em terra o joelho, a manga beijam,

E com grande mesura se despedem.

Não pára aqui somente a caridade

Do bom religioso: de outro lado

Aflitas mães,  co’os filhos entre os braços

Ante os pés do exorcista os apresentam.

Umas lhe dizem que cruéis lombrigas

As pobres criancinhas martirizam;

Outras lhe pintam os horríveis danos

Que aqueles inocentes recebiam

De uma sua vizinha, geralmente

Por bruxa e feiticeira reputada.

Prontamente os benzeu, e com brandura

Uma prática breve foi fazendo

Que tivessem fé viva, enfim lhes disse.

Que do seu Santo Padre se lembrassem.

Desta longa fadiga descansava

Já no seu aposento o bom fradinho

Quando o porteiro a toda pressa o chama;

Uns poucos de galegos carregados

De presuntos, perus e de bom vinho

Pelo padre exorcista perguntavam.

A sua caridade isto lhe rende

E ser entre os seus padres respeitado.

Lisboa já não é, torno a dizer-vos,

A mesma que há dez anos se mostrava.

É tudo devoção, tudo são terços,

Romarias, novenas, vias-sacras.

Aqui é nossa terra, aqui veremos

A nossa cara Irmã cobrar Seu reino".

A fina Hipocrisia é quem se segue.

C’os olhos baixos, macilento rosto,

Longos vestidos de cor parda e negra,

A fazer sua vênia se levanta.

Depois em voz submissa, assim começa:

"A cidade corri e tive o gosto

De ver por quase todos praticadas

As máximas sutis que lhes pregava.

No público passeio onde concorre

A mais luzida gente desta Corte,

Uma tarde me achei, e perto estavam

Quatro sujeitos de figura séria

Enquanto ali se via reparando.

Dizia um deles — "Vejam bem, amigos,

Os ocos cascos destes dois mancebos:

Em lugar de topetes concertados,

Medonhas conchas de revelhos cágados

Da injúria do tempo lhes defendem

As vaidosas cabeças; os vestidos

Se não têm as feições já nos sovacos,

São vestidos de ginja e de jarreta.

No umbigo o espadim atravessado;

Por calções, holandesas calças trazem.

Gemem os pobres pés dentro das talas

Dos lustrosos sapatos, carregados

Do peso enorme das luzentes placas.

Casquilhar à malteza a isto chamam.

Muitos dias não há que a moda chefe

Era o contrário do que vemos hoje.

O ter de português o nome indigno

É a pena maior que me atormenta.

Nomear português a qualquer homem

É fazer-lhe a maior descompostura

Que pode proferir a aguda língua

Duma vil regateira enfurecida.

É chamar-lhe, sem dúvida, macaco,

Somente imitador dos vãos caprichos

Das estranhas nações, não das virtudes.

Sem rebuço, é chamar-lhe um ignorante,

Um confirmado tolo, que não sabe

Nem artes, nem ciências, nem comércio.

Miserável nação! que fielmente

Os tesouros franqueia aos estrangeiros

Por chitas, por fivelas, por volantes,

E por outras imensas ninharias!.

Nisto estava inflamado o homem, quando

O fio lhe cortou aos seus discursos

O estrondo que faziam nas calçadas

As fumegantes rodas de um carrinho.

Quatro asseados e membrudos moços

Prontos saltando da vermelha táboa

Ajudam a descer um gordo bispo

Que na Corte se achava com licença.

Vinha todo de seda, e do pescoço

Uma cruz lhe pendia cravejada

De lúcidas safiras, de brilhantes;

O majestoso anel cegava os olhos,

E pouco menos, as fivelas de ouro.

O austero censor ficou pasmado

A mirar o prelado passeando.,

Depois, com vozes de azedume cheias,

Para os outros se volta, assim dizendo:

"Oh, costumes, oh, tempos primitivos!

Tempos em que o Pastor só diferia

Do seu rebanho pelas sãs virtudes,

Pela vida exemplar com que o guiava!

Quem o Santo Evangelho lê atento,

Do supremo pastor quem lê a vida

A presença de um bispo petimetre,

Como pode levar paciência?

Se o venerando apóstolo das gentes

Aqui aparecesse, poderia

Por companheiro ter um homem destes?

O grande Paulo, que o enrugado rosto

Todos os dias de suor banhava,

E para não servir jamais de peso

A seus caros irmãos, antes queria

Ganhar escasso pão com seu trabalho.

Santa religião, tempos ditosos!

Ou tu não és a mesma, ou teus ministros,

De pastores o nome não merecem!

Nesta prática sempre os quatro amigos

Se foram com a noite retirando.

Não fiquei do discurso satisfeita.

A horas em que o bispo já dormia,

Medonha e enormíssima figura

Tomei, e como seta despedida

A seu rico aposento fui direita.

Estirado em colchões de branda pluma

Em profundo silencio repousava;

Mil divertidos e agradáveis sonhos

Ao redor do semblante revoavam:

Um, a bela assembléia das senhoras,

Outro, o whist, o bom café pintando.

Depressa os fiz fugir, e prontamente

Seu lugar ocupando, este discurso

Em breve lhe intimei, com voz horrível:

“É possível que durmas descansado

Sem te lembrares do que diz o povo

Do teu modo de vida, do teu fausto?

Não digo que pratiques fielmente

As máximas austeras de Evangelho;

Para teres de santo o nome honroso

Não precisas de tanta austeridade.

Embora te regales, te divirtas,

Ainda mais, se é possível, do que dantes

Mas nisto deve haver certa medida.

Sê embora um velhaco, um libertino,

Um lobo tragador do teu rebanho,

Mas devem outras ser as aparências;

De outro modo, serás mal reputado,

E. muita duração os teus prazeres

Não podem ter se não mudares logo”

Do brando leito espavorido salta:

Na visão acredita e volta prestes

Em menos de oito dias ao bispado.

Em modesta liteira então passeia;

Aos pobres manda dar todos os dias

Seu caldo por jantar, e às terças-feiras

Dez réis a cada sendo aleijado."

Dizendo que ocultava muitas coisas

Acabou de falar a Hipocrisia.

Tão somente restava o Fanatismo,

Que tinha sobre todos ascendente,

E daquela palestra, presidência.

 — "A vossa exposição" — assim começa --

— "Com prazer escutei; tudo promete

Um êxito feliz à nossa empresa.

Aquele furioso e ardente zelo

Que em Paris fez correr rios de sangue

Na celebrada noite dos franceses;

Aquele matador e fero gênio

Que os duros castelhanos animava

A regar d’indiano sangue um dia

México e Peru, entre este povo

Agora mesmo eu incitar podia.

Um inglês, um gentio, um maometano,

Se as leis civis o não vedassem tanto,

Com a mesma presteza assassinados

Aqui seriam como a um cão se mata,

Pois por alma de cão qualquer é tido

Que a santa fé de Roma não professa.

Agora, pois, só resta que assentemos

Se deve ser aqui ou em Coimbra

A nossa cara Irmã entronizada.

Nesta Corte, anos há, se tem fundado,

Uma coisa, chamada Academia;

Mas isto, quanto a mim, sem diferença,

É um corpo sem alma que não pode

Produzir ação própria, ou um fantasma

Que em bem poucos minutos se dissipa.

O meu voto é que vamos demandando

O mesmo assento donde foi lançada

A mansa Estupidez injustamente.

Cobrar novos esforços é preciso,

Que por fim a vitória está segura."

Todas em uma voz nisto concordam.

Entretanto saltava de contente

A mole Estupidez, com tais risadas,

Que nos montes vizinhos retumbavam.

 

 

 

CANTO III

 

 

Do fértil Portugal, quase no centro,

A vistosa Coimbra esta fundada:

Pelo cume soberbo de alto monte,

E pelas fraldas, que o poente avistam,

Vai-se ao longo, estendendo até que chega

A beber, do Mondego as mansas águas.

Defronte, outra montanha senhoreia

A líquida corrente dividida

De longa ponte, pelos grossos arcos.

Aprazíveis campinas, férteis vales

Do cristalino rio retalhados,

Em torno a cercam, aos habitantes dando

Os mais belos passeios do Universo.

Da fronteira montanha, que dominam

Dois famosos conventos, se desfruta

A linda perspectiva da cidade

Que tem tanto de bela, quanto é dentro

Imunda, irregular e mal calçada.

A terra é pobre, é falta de comércio:

O povo habitador é gente infame,

Avarenta, sem fé, sem probidade,

Inimiga cruel dos estudantes,

Mas amiga das suas pobres bolsas.

Aqui de muito tempo está fundada

A nobre Academia Lusitana.

O monstro, que é dotado de cem olhos,

Que ao longe avista os mais pequenos vultos,

Que debaixo do teto o mais forrado

Nada se passa sem lhe ser notório;

O monstro, que por outras tantas bocas,

Quanto sabe e não sabe põe patente;

Aqui em altas vozes apregoa

Que vem a Estupidez em breve tempo

Seus domínios cobrar, seu diadema,

Armada de terrível companhia.

Na minha fantasia acende, Oh Musa,

Um fogo vivo; põe na minha língua

Expressivas palavras, com que pinte

As proezas que vou dizer agora.

A Acadêmica gente alvoroçada

Não pensa, não conversa noutra coisa;

Em quase todos, geralmente reina

Excessiva alegria e nos Conventos,

De que consta a cidade em grande parte,

Mandam os guardiães que os refeitórios

De mais vinho e presunto se reencham.

Da Universidade o grande Chefe [2]

Um claustro universal convoca logo,

Para que em pleno conselho votem todos

O que deve fazer-se neste caso.

Em comprido salão, cujas paredes,

Ricamente compostas, têm em ordem

Dos lusitanos reis próprios retratos,

Em soberba cadeira se apresenta

O reitor, e por um e outro lado,

Os lentes e doutores assentados

Segundo o vão capricho os destinara,

A dar o seu par'cer se aprontam todos.

Tira nisto o barrete o presidente,

E ao lente primaz de Teologia[3]

Acena que comece. Logo feita

Ao congresso em geral submissa vênia,

O seu voto profere nestes termos:

— "Muito ilustres e sábios acadêmicos!

Por direito divino e por humano,

Creio que deve ser restituída

À grande Estupidez a dignidade

Que nesta Academia gozou sempre.

Bem sabeis quão sagrados os direitos

Da antiguidade são; por eles somos,

Ao lugar que ocupamos, elevados.

Oculta vos não é a violência

Com que foi desta posse desbulhada.

Vós, testemunhas sois dos sentimentos

Com que a vimos partir tão desprezada:

Porém sempre, apesar do seu desterro

Constante, tributei dentro em meu peito

Homenagens devidas à que fora

Na minha infância carinhosa Mestra

E na velhice, singular Patrona.

Entrai pois, companheiros, em vós mesmos,

Ponderai sem paixão: para que serve

As pestanas queimar sobre os autores,

A estimável saúde arruinando?

P'ra levar este tempo em bom sossego,

Divertir e passar alegremente,

Acaso precisais de mais ciência?

Se os dias desta breve e curta vida

Tivéssemos com os livros perturbado

Teríamos acaso mais prebendas,

Mais dinheiro, mais honra, mais estima?

De que podem servir estes estudos

Que mais da moda se cultivam hoje?

A barb'ra geometria tão gabada

Que mil proposições, todas heréticas,

Aqui faz ensinar publicamente,

Sabeis para que presta neste mundo?

A sua utilidade temos visto,"

Diga-o a Inquisição e mais não digo.

Oh, góticos estudos nunca ouvidos

Nos tempos, em que tanto florescia

Um Seara[4], maior do que o seu nome

Um Pupilo[5], um frei Paulo de São Mauro[6],

Que sempre chorarão os frades bentos!

Histórias Naturais, Foronomias,

Químicas, Anatomias, e outros nomes

Difíceis de reter, são as ciências

Que vieram trazer os estrangeiros.

Há coisa mais cruel, mais desumana,

Mais contrária à razão, que ver os médicos

Um cadáver humano espatifando,

Um corpo que habitou o Espírito Santo?

Nunca tal praticaste, oh bom Lopes[7],

Quando pelo Natal, em um carneiro,

O bofe, o coração, as tripas todas,

A teus hábeis discípulos mostravas[8].

Quem pode sem desprezo ver um lente

De imensos estudantes rodeado,

Pelos campos vagar, ali colhendo

Uma ervinha, uma flor, um gafanhoto?

Acolá, c'um fuzil ferindo as pedras?[9]

Deixemos, pois, um dia, oh sábia gente,

Estes prestígios que nos têm cegado;

Ponhamos como dantes estas coisas

Em seu antigo ser; como bons filhos

Recebamos a nossa Protetora;

O que foi sempre seu, em paz governe".

Qual sussurrante enxame, que em tumulto,

Segue a vereda que seguiu a Mestra,

Assim dos frades todos e dos becas

Seguiu a turba o explanado voto.

Algum destes, talvez quisesse opor-se,

Mas de um colega refutar os ditos

Da honra do Colégio é menoscabo.

A porção principal tinha votado;

Faltava a outra, que em desprezo é tida;

Lentes de capa e espada são chamados,

Que aos colégios não têm algum acesso,

Nem recolhem da Igreja os doces frutos[10].

Pelo mesmo teor votaram muitos;

Mas chegando a Tirceu[11], homem singelo,

Que seus dias consome, sobre os livros,

Contemplando a profunda Natureza,

Os longos cumprimentos põe de parte,

E com voz resoluta assim começa:

— "Não é a glória vã de distinguir-me

Quem me obriga a encontrar a tantos votos

Que, por serem conformes, talvez sejam

Ao parecer de muitos, verdadeiros.

A glória do meu rei, o amor da pátria,

São dois fortes motivos que me impelem

A dizer francamente quanto penso.

Trazei, sábios ilustres, à memória,

Aquele tempo em que contentes vistes

Entrar nesta cidade triunfante

O grande, invicto, o imortal Carvalho,

Às vezes de seu rei representando;

Daquele sábio rei, cujo retrato

Inda agora me anima e me dá forças

Para que, em seu favor, em sua glória,

Derramando o meu sangue, exale a vida.

Vistes ao grão marquês, qual sol brilhante

De escura noite, dissipando as trevas,

A frouxa Estupidez lançar ao longe;

E erigir à ciência novo trono

Em sábios estatutos estribado.

Das vossas mesmas bocas retumbaram

Cânticos de louvor nestas paredes.

O triunfo cantastes na presença

Do zeloso ministro respeitado.

Que difrente linguagem hoje escuto?

Como é possível que sem pejo ou honra,

O contrário digais do que dissestes?

As sublimes ciências da Natura

Como podeis tratar com tal desprezo?

Oh, tu, sombra imortal, oh grão ministro,

Da face do teu Deus onde repousas,

(— a cabeça abanou, deu três cuadas

Ouvindo esta blasfêmia, o bom Bustoque[12] —)

Vem um instante aparecer agora

Aqui nesta assembléia e destas bocas,

Que em teu nome entoavam tantos hinos

Ao heróico triunfo das ciências,

Blasfêmias ouvirás....Mas, ah! não venhas,

Nem permitam os céus que tanto saibas.

Que dor a tua, que aflição não fora

Ver sem fruto as vigílias, os trabalhos

Que por zelo da pátria padeceste!

Ver, sobretudo, ingratos e falsários,

Que afetando aparências de alegria,

No fundo do seu peito, idolatravam

A mole Estupidez, como uma Deusa!

Se o mesmo que então eras, hoje fosses,

Quisera, oh pai da pátria, que tivessem

Com a tua presença validade

As minhas vozes, o meu zelo ardente.

Ainda reinará, com mágoa o digo,

Na nossa Academia essa tirana,

Essa vã divindade. Mas protesto

Que nem hoje o aprovo, e que inimigo

Há de em mim encontrar, enquanto o sangue

Seu círculo fizer, neste meu corpo.

Se algum de vós, ilustres companheiros,

Comigo pensa, sem temor exponha,

Apesar da torrente, os seus discursos.

As almas varonis nunca temeram,

Ainda à vista dos maiores perigos,

Pela glória da pátria e da verdade

Expor a vida, derramar seu sangue..."

Ao dizer estas vozes se arrazavam

De lágrimas seus olhos, e as palavras

Já presas lhe ficavam na garganta.

Os homens grandes, os varões preclaros,

Também sabem chorar, quando a ternura

A bem da humanidade os estimula.

Nos ânimos fradescos e nas becas

Contra Tirceu um tal rancor fervia,

Que vivo o tragariam se a presença

Do sério presidente o permitisse.

Disfarçando, porém, com riso e mofa

A dissonante fala receberam.

Acabou-se a função, e timorato

Não decide o reitor o que se faça.

Era já noite e nos colégios ambos

Esquisitos manjares esperavam

Aos rubicundos e nutridos becas.

Nos conventos, porém, coisa mais grossa

Em que o dente atolasse, preparavam;

Famosas postas de vitela tenra

Sobre as brasas chiavam nos espetos;

Perus assados e tremendos quartos

De bom carneiro, por mil modos feitos;

Muito vinho e presunto, eram as massas

Com que os seus refeitórios adubavam

Enquanto os outros com prazer comiam,

E à saúde da Deusa grandes copos

De bom vinho enxugavam; pensativo,

O tímido reitor, escrupuloso,

Passeia as salas todas; té que chega

O Patrício[13] a saber se ainda não ceia

Sua Excelência, que já eram horas.

Responde-lhe que não, que estava aflito,

E os motivos lhe conta, consultando-o:

— "É bom caso, senhor! Vossa Excelência,

Do que deve fazer inda duvida?

Depois de ser de um voto tanta gente

Tão sábia, tão distinta? Pouco importa

que diz meia dúzia desses homens

Que apenas são por lentes conhecidos.

Coma Vossa Excelência alguma coisa,

Durma, que tudo em paz há de fazer-se."

Assim o consolou o bom mordomo.

Sua Excelência mais quieto fica,

Um pouco come, e no seu brando leito

Vai alívio buscar a seu cuidado.

As Fúrias que em Coimbra já se achavam,

Que no claustro geral tinham estado,

Do famoso orador pondo na língua

Palavras que ao seu caso mais faziam,

Ao sombrio lugar onde descansa

O lânguido Morfeu, ligeiras voam.

Nunca ali penetrou a luz da aurora;

Em perene repouso dorme tudo.

Somente os' frescos zéfiros, brincando,

Com suave sussurro as folhas movem.

Murmura ao longe a cristalina fonte,

Escabrosas pedrinhas volteando.

Sobre viçosa relva recostado,

Entre rubras papoulas, verdes mirtos,

Nada pressente o Deus do que se passa.

Então depressa no soturno bosque,

Já quase dormitando, as flores colhem,

Que a mole cabeceira lhe formavam;

Dos soníferos ares se retiram,

E, de improviso, ao belo quarto chegam,

Aonde, ainda perplexo, o presidente

Com os olhos no teto vigiava.

Mal das flores se espalha o grato cheiro,

Boceja, estende os braços, adormece.

O Fanatismo então, tomando a forma

D'um pequeno rapaz, gordo e risonho,

[Cujos ombros adornam duas asas,]

Junto ao leito volteja em curtos giros,

E com doces palavras, assim fala:

— "Não te assustes, oh homem venerando,

Eu não sou coisa má que te apareça;

Tuas altas virtudes me encaminham

Desta dúvida vã a pôr-te fora.

Aos lentes, doutores e estudantes

Ordena que amanhã de tarde saiam

A receber, em préstito pomposo,

A nobre Estupidez; faze-lhe as honras

Que lhe são por direito bem devidas."

Com mais se não cansou o Fanatismo:

Pois sair com a sua não duvida;

Nem Minerva sutil e poderosa

Aqui já lhe fazia a menor guerra;

Deixou por uma vez os portugueses

Como gente rebelde e refratária

Com a sua ignorância e prejuízos

Docemente abraçados. Nisto acorda

O devoto reitor, e ainda imagina

Que um divino clarão no quarto brilha.

Da cama salta, e a toda pressa manda

Que venha[m] o secretário e os escreventes.

Um comprido edital se lavra logo,

Que as ordens da visão continha todas

Pelas mesmas palavras com que a ouvira.

O douto secretário[14], que em Aveiro

Alçou já vara branca, o subescripsi

Põe no fim do papel, e o presidente

Por extenso se assina, em letra grande.

 

 

 

CANTO IV

 

 

Apenas o edital se põe na porta

Da grande sala que p'ra os atos serve,

Entre o corpo que forma a Academia

Um novo reboliço, um alvoroço

Geralmente se move; não se fiam

Na fé dos que referem a notícia;

Desejam com seus olhos ver a nova

Que tão doce alegria lhes motiva.

Deixam os estudantes nos bilhares

A partida no meio, e perturbados,

Das capas lançam mão, como sucede;

Mas o dono da casa, que o barato

Não dá por bem parado, clama e grita:

— "Parceirinhos, pagar! nada me importa

Que venha a Estupidez ou que não venha!"

Dão-lhe dois encontrões, por terra o lançam

E, a qual primeiro, pelas vias correm.

Outros, no sete-é-ponto extasiados,

No whist, no marimba e mais na banca,

Os dados com as cartas deitam fora.

Jamais os obrigou a tanto excesso

Nem do lúgubre sino o toque infausto

Que os chama às aulas, nem tampouco a ama

Com a nojenta vaca ao lume posta,

Praguejando a tardança e quem lha causa,

Nem ainda a venal e imunda moça

Que fretada os espera a certas horas.

Tal a cega paixão, o vil apego,

Que estes míseros moços têm aos vícios!

Esta gente, revolta e mal criada,

Tão soberba e ociosa, que entre tantos,

Apenas se acham ao muito doze

Que o nome de estudantes bem mereçam,

A ler o edital chegam a montes,

E batendo nas palmas: — Bravo, bravo,

Oh, que férias agora não teremos!

Viva a Estupidez!" — dizem saltando.

Nos colégios, conventos e nas casas,

Os doutores, os frades e estudantes

Disputam sobre o caso; e mil castelos

Acerca cio futuro levantando,

Melhorar de fortuna todos cuidam.

Nestas gratas idéias se recreiam,

Até que o sino, a grandes vozes brada

Que venham todos, que é chegada a hora

Em que o novo edital cumprir se deve.

Prontamente concorrem, e marchando

Ao rude som de ingratos instrumentos

Vão a Deusa esperar além da ponte.

Ainda bem ao convento franciscano

O préstito não chega, eis de repente

Uma nuvem brilhante vem ao longe

De luzentes estrelas esmaltada;

No meio, um trono ricamente feito;

A mole Estupidez sentada nele,

Entre tanto aparato, lá disfarça

A sua horrenda e natural figura.

É tudo traça das astutas Fúrias.

Mansos ventos curvados encaminham

A majestosa pompa. Em terra postos

Os soberbos joelhos, com as palmas

Para o céu levantadas, se assombravam

De ver baixar com tanta majestade

A Deusa tutelar da sua Atenas.

Brandamente ondeando a nuvem pára

Aonde com o reitor os lentes-chefes

Com o queixo caído presenciam

Tão grande maravilha nunca vista.

Têm de recato um suntuoso pálio

Com que a Deusa recebem reverentes.

Coisa mais espantosa! De improviso

O caminho, que trouxe, a nuvem segue;

A frouxa divindade por três vezes

Com alegre semblante a todos lança

Uma bênção papal, como a bons filhos.

Os donatos repicam à contenda,

Das descaradas moças dos conventos,

E pelas freguesias vis garotos!

Ninguém se entende com tamanha bulha!

Às janelas acode, acode às ruas,

De toda a qualidade imenso povo.

Entretanto, com passo vagaroso,

Duas compridas alas se encaminham

Ao antigo mosteiro que desfrutam

Os reverendos Cruzios, satisfeitos

De hospedar esta noite a Protetora

Da sua santa casa. À portaria

Com alegres festins é recebida.

De noite, em toda a parte, as luminárias

Fazem emulação à luz do dia.

Em função de barriga e de badalo

Fazem os frades consistir a festa.

Mas o pio reitor, que obediente

Ao milagroso sonho ser deseja,

De novo ordena que se aprontem todos,

Que na manhã seguinte bem montados

Iriam conduzir à Academia

A Régia Estupidez, sua Senhora.

Assinala também os oradores

Que haviam celebrar tão grande feito.

O válido mordomo, que algum dia

De mochila exerceu o nobre emprego,

Toma a seu cargo o aprestar as bestas.

Ainda descansava a roxa aurora

Nos braços de Anfitrite, e os vis lacaios

As portas dos doutores despedaçam

A fortes golpes de calhaus tremendos.

Abrem a seu pesar os frouxos olhos

Estas almas ditosas, engolfadas

Em mil suaves e felizes sonhos;

Mas não vendo luzir o sol nas frestas,

Querem o sono agasalhar de novo;

Debalde o querem, que os valentes moços

Cada vez as pancadas mais duplicam.

Tal há que a mil diabos encomenda .

Os lacaios e quem lhos manda à porta,

Por ver o seu descanso interrompido,

O seu sono de doze boas horas.

Mas, enfim, o motivo é forte e justo,

E para aparecer à divindade

É preciso o cabelo bem composto,

A batina escovada, a volta limpa,

Coisas em que despendem longo tempo.

Cada qual asseado o mais que pode

Vai buscar o reitor, e em companhia

De uma rica berlinda a seis tirada,

No pátio de Sansão se ajuntam todos.

Os soberbos capelos ali tomam:

Brancos, verdes, vermelhos, amarelos,

Azul ferrete ou claro; o mesmo as borlas;

Por humildade, os frades só barrete.

Em duas grandes alas repartidos

Os barrigudos e vermelhos monges

Acompanham saudosos esta grata

E deles sempre amada Padroeira.

Reverentes, a mão todos lhe beijam,

E a todos vai lançando a santa bênção.

Chega enfim ao prior, ele prostrado:

— "Oh Deusa! (assim lhe diz.) Ampara e zela

A estes filhos que te adorarei tanto.

Por ti deste sossego é que gozamos.

Esta forte saúde, esta alegria

Desfrutamos por tua alta bondade.

Seria para nós ditosa sorte

Se fizesses aqui tua morada;

Mas já que somos nisso desgraçados,

Benigno influxo sobre nós derrama

Que a nossa gratidão será constante".

Abraça-o ternamente a divindade;

Diz-lhe que se console, que ela sempre

Nos seus olhos trazia a tão bons filhos.

A nobre comitiva dos doutores

Entre os braços a toma, a qual primeiro,

E quase ao colo na berlinda a mete.

Logo montados pelas ruas tomam,

Que de mais povo são sempre assistidas.

Uns de encarnado vão todos cobertos[15],

Altivos, soberbões, consigo assentam

Que não há no universo outras figuras

De mais contemplação, de mais respeito.

O vermelho durante as bestas serve

De compridas gualdrapas. Outros picam

O fogoso cavalo quando passam

Pela porta de tal ou tal senhora.

De preto muitos vão; porém os frades

Vestem ao mesmo tempo muitas cores,

Branco com preto, azul com encarnado.

Se tu, oh grão Fidalgo de la Mancha,

Famoso Dom Quixote, esta aventura

Nos teus andantes dias encontrasses,

À sem-par Dulcinéia, quanto destes

A render vassalagem mandarias!

Tu que não perdoaste aos pobres padres

Conduzindo a cavalo, por ser longe,

Entre archotes e velas um defunto,

Que os fizeste voar de susto e medo

Pelos campos e montes, que farias

A esta encamisada de doutores?

Por gente feiticeira e endiabrada,

Por maus encantadores os terias;

Como tais o furor do Rocinante,  

Do elmo de Mambrino as influências

E o pesado lanção exp'rimentaram.

Musa, renova no teu vate o fogo

Que já fizeste arder na sábia mente

Não digo de Despréaux, daquele ativo

E discreto Diniz, na Hissopaida;

Renova, enquanto acabo, que a preguiça

Da mole Estupidez já me acomete,

Já começo a sentir os seus efeitos.

Mas ah! que um estro de repente agita

A minha fantasia. Eu vejo, eu vejo,

Da nossa Academia ao grande pátio

Chegar contente a numerosa tropa.

Em triunfo é levada a Deusa Augusta

A um soberbo e majestoso trono;

Gemem debaixo dele aferrolhados

A Ciência, a Razão, o Desabuso.

Põem-se em sossego os assistentes todos;

Levanta-se o Bustoque, e de joelhos

À Deusa pede uma comprida vênia.

Em bárbaro latim começa ufano

A tecer friamente um elogio

À sua Protetora; e nele mostra

O quanto é indecente que nas aulas

Em português se fale, profanando

A sacra Teologia e as mais Ciências;

Que em forma silogística se devem

Os argumentos pôr; sem silogismo

Não sabe como possa haver verdade.

Nisto mais de hora gasta, e enfim conclui

Animando a que sejam sempre firmes

Na fé que devem a tão alta Deusa.

Levanta-se depois o grão Pedroso[16]

Que de prima a cadeira em leis ocupa.

Com a beca estendida, a mão no peito,

Prostra-se em terra, a sua vênia pede

À mole Estupidez que muito folga

De ver um filho seu com tal presença,

Tão cheio de si mesmo, tão inchado.

Principia a falar com voz de estalo;

Com a esquerda aciona, e com a direita

Que estende as mais das vezes sobre o peito,

Súa em mostrar a vã Genealogia

Da nobre Deusa a quem louvar pretende.

A sua antiguidade patenteia;

Faz depois elogios nunca ouvidos

Ao Direito Romano, e no remate

Concorda em tudo com o seu colega.

Vem depois o reitor, jura por todos

Submissa obediência e lealdade.

Da mole Estupidez põe na cabeça

Uma importante coroa cravejada

De finíssimas pedras do Oriente.

As mãos lhe beija logo reverente

E manda a todos que outro tanto façam.

Os oradores vêm; oferece um deles

A discreta oração de sapientia

Que foi causa de ser tão cedo lente;

O outro o mesmo faz da sua análise Do parto

Um bando de retóricos rançosos

Depois acode; um deles assim fala

(Parece que Bezerra[17] se apelida):

"Soberana senhora, a vossas plantas

Tendes rendida por vontade e gosto

A porção principal do vosso reino.

As portas das ciências nós guardamos.

Porque sendo as palavras distintivo

Que dos brutos separa a espécie humana,

Eu creio que só nelas deve o homem

Da vida despender os curtos dias.

A mocidade pois assim levamos

Nesta bela ciência industriada.

Quando a mesma palavra se repete

Ou duas ou três vezes, lhe ensinamos

O nome que isto tem; quantas apóstrofes

Pode o exórdio levar sem ser notado.

Nestas coisas e noutras semelhantes

De sorte os engolfamos, que supresso

Fica o gosto, se o tem, às vãs ciências

Que servem de cansar o esp'rito humano."

"Oh bom filho, insiste nesse sistema

Que, por ser verdadeiro, mais me agrada" —

Abraçando-o, lhe diz a divindade.

Vem atrás um varão muito asseado[18],

Um livro trás na mão, mui douradinho:

"Oh Deusa singular, a quem respeito,

Esquecido da minha fidalguia;

Este poema fiz, que Joaneida

Por nome tem; humilde, vo-lo ofreço

Dignai-vos aceitar a minha oferta."

"Oh meu morgado, quanto sou contente

Da tua oferta, ve-lo-ás com o tempo;

Aqui ao pé de mim quero te assentes

Para mostrar o quanto te venero."

Assenta-o junto a si a divindade.

Dos estudantes vem a turba imensa.

Um lhe oferece uma flor, outro um bichinho,

Um ninho de pardal, um gafanhoto,

Da História Natural, suados frutos.

Outro vem todo aflito, mil queixumes

Formando contra um tal que lhe usurpara

A glória de fazer já sete máquinas

Que subiram ao ar com bom sucesso[19].

―"Filhos amados" — lhes replica a Deusa

"Esse vosso cuidado me consola;

Esse desvelo de ajuntar coisinhas

Tão lindas, tão bonitas, bem recreia

Uma alma como a vossa tão sensível.

Prossegui nesse estudo; eu vos prometo

A minha proteção em toda a vida."

Ao queixoso assim diz: — "Sinto deveras

Que tenhas essa causa de tristeza.

Mas olha, um bom remédio: outras de novo

Faze, que lá irei mesmo em pessoa

Assistir a fazer justiça inteira."

Os doutores vêm logo por seu turno

Vassalagem render, e vão passando.

A mole Estupidez brinca entretanto

Com os lindos anéis do bom morgado,

Que, aflito, não quisera ter tal honra,

Receando que ali se descobrisse

Que cabelo não é, mas que lhe cobre

A luzidia calva, cabeleira.

Porque em menos não preza o ser bonito

Do que fidalgo ser, e ser poeta.

Seguem-se finalmente os lentes todos,

Que são alegremente recebidos.

Mas chegando a Trigoso[20], fica a Deusa

Assombrada de ver tal catadura,

Não menos carregada que a de um touro

Que sopra e para trás a terra lança

Quando para investir se ensaia irado.

Com imensa alegria rematada

A geral confissão de vassalagem:

— "Em paz gozai (a Deusa assim profere)

Da minha proteção, do meu amparo;

Eu gostosa vos lanço a minha bênção.

Continuai, como sois, a ser bons filhos,

Que a mesma que hoje sou, hei de ser sempre."

 

 

 

Fim

 

 

 

Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística



[1]  D. João da Anunciação, lente de Hebraico.

 

[2]  Francisco José de Mendonça, o Principal Mendonça, Reitor.

 

[3]  Carlos Maria de Figueiredo Pimentel, Vice-Reitor.

 

[4]  António Cardoso Seara, lente da Faculdade de Leis.

 

[5]  Frade dos Agostinhos Descalços.

 

[6]  Frei Paulo de S. Mauro, monge, lente de Teologia.

 

[7]  Francisco Lopes Teixeira,  lente de Anatomia.

 

[8]  Antes da reforma de Pombal não se fazia Anatomia Humana.

 

[9]  As Ciências Naturais só foram introduzidas por Pombal.

 

[10]  Professores clérigos também recebiam da Igreja.

 

[11]  José Monteiro da Rocha, jesuíta, lente de Astronomia.

 

[12]  Frade radical.

 

[13]  Seu mordomo.

 

[14]  Gaspar Honorato da Mota e Silva.

 

[15]  Estudantes do Colégio de S. Pedro e S. Paulo.

 

[16]  Manuel Pedroso de Lima, lente de Direito Natural.

 

[17]  João António Bezerra de Lima, lente de Latim.

 

[18]  José Correio de Mello e Brito d’Alvim Pinto, morgado de Alpões, autor da Joaneida.

 

[19]  Experiências com balões, feitas na época em Coimbra.

 

[20]  Manuel de Aragão Trigoso, lente da cadeira de Instituições.