LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em
meio eletrônico
Dentro
da noite, de João do
Rio
Edição de referência:
Biblioteca Nacional – setor de obras
digitalizadas
Rei Davi
A FELIX PACHECO
ÍNDICE
O fim de
Arsênio Godard / Do diário íntimo de um revoltoso
— Então causou sensação?
— Tanto mais quanto era inexplicável. Tu
amavas a Clotilde, não? Ela, coitadita! parecia louca por ti, e os pais estavam
radiantes de alegria. De repente, súbita transformação. Tu desapareces, a
família fecha os salões como se estivesse de luto pesado. Clotilde chora...
Evidentemente havia um mistério, uma dessas coisas capazes de fazer os
espíritos imaginosos arquitetarem dramas horrendos. Por felicidade, o juizo
geral é contra o teu procedimento.
— Contra mim?
Podia ser contra a
pureza da Clotilde. Graças aos deuses, porém, é contra ti. Eu mesmo concordaria
com o Prates que te chama velhaco, se não viesse encontrar o nosso Rodolfo,
agora, onze da noite, por tamanha intempérie metido num trem de subúrbio, com o
ar desvairado...
— Eu tenho o ar desvairado?
— Absolutamente desvairado.
— Vê-se?
— É claro. Pobre amigo! Então, sofreste
muito? Conta lá. Estás pálido, suando apesar da temperatura fria, e com um
olhar tão estranho, tão esquisito. Parece que bebeste e que choraste. Conta lá.
Nunca pensei encontrar o Rodolfo Queiroz, o mais elegante artista desta terra,
nem trem de subúrbio, às onze de uma noite de temporal. É curioso. Ocultas os
pesares nas matas suburbanas? Estás a fazer passeios de vício perigoso?
O trem rasgara a treva
num silvo alanhante, e de novo cavalava sobre os trilhos. Um sino enorme ia com
ele badalando, e pelas portinholas do vagão viam-se, a marginar a estrada, as
luzes das casas ainda abertas, os silvedos empapados d'água e a chuva lastimável
a tecer o seu infindável véu de lágrimas. Percebi então que o sujeito gordo da
banqueta próxima -o que falava mais- dizia para o outro:
— Mas como tremes, criatura de Deus!
Estás doente?
— Não; estou nervoso, estou com a maldita
crise. E como o gordo esperasse:
— Oh! meu caro, o Prates tem razão! E
teve razão a família de Clotilde e tens razão tu cujo olhar é de assustada
piedade. Sou um miserável desvairado, sou um infame desgraçado.
— Mas que é isto, Rodolfo?
— Que é isto! E' o fim, meu bom amigo, é
o meu fim. Não ha quem não tenha o seu vício, a sua tara, a sua brecha. Eu
tenho um vício que é positivamente a loucura. Luto, resisto, grito, debato-me,
não quero, não quero, mas o vício vem vindo a rir, toma-me a mão, faz-me
inconsciente, apodera-se de mim. Estou com a crise. Lembras-te da Jeanne
Dambreuil quando se picava com morfina? Lembras-te do João Guedes quando nos
convidava para as fumeries de ópio? Sabiam ambos que acabavam a vida e não
podiam resistir. Eu quero resistir e não posso. Estás a conversar com um homem
que se sente doido.
— Tomas morfina, agora? Foi o desgosto
decerto...
O rapaz que tinha o
olhar desvairado perscrutou o vagão. Não havia ninguém mais -a não ser eu, e eu
dormia profundamente... Ele então aproximou-se do sujeito gordo, numa ânsia de
explicações.
— Foi de repente, Justino. Nunca pensei!
Eu era um homem regular, de bons instintos, com uma família honesta. Ia casar
com a Clotilde, ser de bondade a que amava perdidamente. E uma noite estávamos
no baile das Praxedes, quando a Clotilde apareceu decotada, com os braços nus.
Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio
infantil, meio mulher -a beleza dos braços das Oréadas
pintadas por Botticeli, misto de castidade mística e de alegria pagã. Tive um
estremecimento. Ciúmes? Não. Era um estado que nunca se apossara de mim: a
vontade de tê-los só para os meus olhos, de beija-los, de acaricia-los, mas
principalmente de faze-los sofrer. Fui ao encontro da pobre rapariga fazendo um
enorme esforço, porque o meu desejo era agarrar-lhe os braços, sacudi-los,
aperta-los com toda a força, fazer-lhes manchas negras, bem negras, feri-los...
Porque? Não sei, nem eu mesmo sei -uma nevrose! Essa noite passei-a numa
agitação incrível. Mas contive-me. Contive-me dias, meses, um longo tempo, com
pavor do que poderia acontecer. O desejo, porém ficou, cresceu, brotou,
enraigou-se na minha pobre alma. No primeiro instante, a minha vontade era
bater-lhe com pesos, brutalmente. Agora a grande vontade era de espeta-los, de
enterrar-lhes longos alfinetes, de coze-los devagarinho, a picadas. E junto de
Clotilde, por mais compridas que trouxesse as mangas, eu via esses braços nus
como na primeira noite, via a sua forma grácil e suave, sentia a finura da pele
e imaginava o súbito estremeção quando pudesse enterrar o primeiro alfinete,
escolhia posições, compunha o prazer diante daquele susto de carne que havia de
sentir.
— Que horror!
— Afinal, uma outra vez, encontrei-a na sauteríe da
viscondessa de Lages, com um vestido em que as mangas eram de gaze. Os seus
braços -oh! que braços, Justino, que braços!- estavam quase nus. Quando
Clotilde erguia-os, parecia uma ninfa que fosse se metamorfoseando
Tirei da botoeira da
casaca um alfinete, e nervoso, nervoso como se fosse amar pela primeira vez,
escolhi o lugar, passei a mão, senti a pele macia e enterrei-o. Foi como se
fisgasse uma pétala de camélia, mas deu-me um gozo complexo de que participavam
todos os meus sentidos. Ela teve um ah! de dor, levou o lenço ao sítio picado,
e disse, magoadamente -«Mau!».
Ah! Justino, não
dormi. Deitado, a delícia daquela carne que sofrera por meu desejo, a sensação
do aço afundando devagar no braço da minha noiva, dava-me espasmos de horror!
Que prazer tremendo! E apertando os varões da cama, mordendo a travesseira, eu
tinha a certeza de que dentro de mim rebentara a moléstia incurável. Ao mesmo
tempo que forçava o pensamento a dizer nunca mais farei essa infâmia! Todos os
meus nervos latejavam: voltas amanhã; tens que gozar de novo o supremo prazer!
Era o delírio, era a moléstia, era o meu horror...
Houve um silêncio. O
trem corria em plena treva, acordando os campos com o desesperado badalar da
máquina. O sujeito gordo tirou a carteira e acendeu uma cigarreta.
— Caso muito interessante, Rodolfo. Não
ha dúvida que é uma degeneração sexual, mas o altruísmo de S. Francisco de
Assis também é degeneração e o amor de Santa Teresa não foi outra coisa. Sabes
que Rousseau tinha pouco mais ou menos esse mal? És mais um tipo a enriquecer a
série enorme dos discípulos do marques de Sade. Um homem de espírito já definiu
o sadismo: a depravação intelectual do assassinato. És um Jack-the-ripper-civilisado,
contentas-te com enterrar alfinetes nos braços. Não te assustes.
O outro resfolegava,
com a cabeça entre as mãos.
— Não rias, Justino. Estás a tecer
paradoxos diante de uma criatura já do outro lado da vida normal. É lúgubre.
— Então continuaste?
— Sim, continuei, voltei, imediatamente.
No dia seguinte, à noitinha, estava em casa de Clotilde, e com um desejo louco,
desvairado. Nós conversávamos na sala de visitas. Os velhos ficavam por ali a
montar guarda. Eu e a Clotilde íamos para o fundo, para o sofá. Logo ao entrar
tive o instinto de que podia praticar a minha infâmia na penumbra da sala,
enquanto o pai conversasse. Estava tão agitado que o velho exclamou: -«Parece,
Rodolfo, que vieste a correr para não perder a festa».
Eu estava louco,
apenas. Não poderás nunca imaginar o caos da minha alma naqueles momentos em
que estive a seu lado no sofá, o maelstrom de angústias, de esforços, de desejos, a luta da
razão e do mal, o mal que eu senti saltar-me á garganta, tomar-me a mão, ir
agir, ir agir... Quando ao cabo de alguns minutos acariciei-lhe na sombra o
braço, por cima da manga, numa carícia lenta que subia das mãos para os ombros,
entre os dedos senti que já tinha o alfinete, o alfinete pavoroso. Então fechei
os olhos, encolhi-me, encolhi-me, e finquei.
Ela estremeceu,
suspirou. Eu tive logo um relaxamento de nervos, uma doce acalmia. Passara a
crise com a satisfação, mas sobre os meus olhos os olhos de Clotilde se fixaram
enormes e eu vi que ela compreendia vagamente tudo, que ela descobria o seu
infortúnio e a minha infâmia. Como era nobre, porém! Não disse uma palavra. Era
a desgraça. Que se havia de fazer?...
Então depois, Justino,
sabes? Foi todo o dia. Não lhe via a carne mas sentia-a marcada, ferida.
Cosi-lhe os braços! Por último perguntava: -«Fez sangue, ontem?». E ela pálida
e triste, num suspiro de rola: «Fez...». Pobre Clotilde! A que ponto eu
chegara, na necessidade de saber se doera bem, se ferira bem, se estragara bem!
E no quarto, á noite, vinham-me grandes pavores súbitos ao pensar no casamento
porque sabia que se a tivesse toda havia de picar-lhe a carne virginal nos
braços, no dorso, nos seios... Justino, que tristeza!...
De novo a voz calou-se.
O trem continuava aos solavancos na tempestade, e pareceu-me ouvir o rapaz
soluçar. O outro porém estava interessado, e indagou:
— Mas então como te saíste?
— Em um mês ela emagreceu, perdeu as
cores. Os seus dois olhos negros ardiam aumentados pelas olheiras roxas. Já não
tinha risos. Quando eu chegava, fechava-se no quarto, no desejo de espaçar a
hora do tormento. Era a mãe que a ia buscar. «Minha filha, o Rodolfo chegou.
Avia-te». E lá de dentro: «Já vou, mãe». Que dor eu tinha quando a via aparecer
sem uma palavra! Sentava-se à janela, consertava as flores da jarra, hesitava,
até que sem forças vinha tombar a meu lado, no sofá, como esses pobres pássaros
que as serpentes fascinam. Afinal, ha dois meses, uma criada viu-lhe os braços,
deu o alarme. Clotilde foi interrogada, confessou tudo numa onda de soluços.
Nessa mesma tarde recebi uma carta seca do velho pai desfazendo o compromisso e
falando em crimes que estão com penas no código.
— E fugiste?
— Não fugi; rolei, perdi-me. Nada mais
resta do antigo Rodolfo. Sou outro homem, tenho outra alma, outra voz, outras
idéias. Assisto-me endoidecer. Perder a Clotilde foi para mim o sossobramento
total. Para esquece-la percorri os lugares de má fama, aluguei por muito
dinheiro a dor das mulheres infames, frequentei alcouces. Até aí
o meu perfil foi dentro em pouco o terror. As mulheres apontavam-me a sorrir,
mas um sorriso de medo, de horror.
A pedir, a rogar um
instante de calma eu corria ás vezes ruas inteiras da Suburra, numa
enxurrada de apodos. Esses entes querem apanhar do amante, sofrem lanhos na
fúria do amor, mas tremem de nojo assustado diante do ser que pausadamente e
sem cólera lhes enterra alfinetes. Eu era ridículo e pavoroso. Dei então para
agir livremente, ao acaso, sem dar satisfações, nas desconhecidas. Gozo agora
nos tramways, nos music-halls, nos comboios dos caminhos
de ferro, nas ruas. É muito mais simples. Aproximo-me, tomo posição, enterro
sem dó o alfinete. Elas gritam, às vezes. Eu peço desculpa. Uma já me
esbofeteou. Mas ninguém descobre se foi proposital. Gosto mais das magras, as
que parecem doentes.
A voz do desvairado
tornara-se metálica, outra vez. De novo porém a envolveu um tremor assustado.
— Quando te encontrei, Justino, vinha a
acompanhar uma rapariga magrinha. Estou com a crise, estou... O teu pobre amigo
está perdido, o teu pobre amigo vai ficar louco...
De repente, num
entrechocar de todos os vagões, o comboio parou. Estávamos numa estação suja,
iluminada vagamente. Dois ou três empregados apareceram com lanternas rubras e
verdes. Apitos trilaram. Nesse momento, uma menina loura com um guarda-chuva a
pingar, apareceu, espiou o vagão, caminhou para outro, entrou. O rapaz pôs-se
de pé logo.
— Adeus.
— Saltas aqui?
— Salto.
— Mas que vais fazer?
— Não posso, deixa-me! Adeus!
Saiu, hesitou um
instante. De novo os apitos trilaram. O trem teve um arranco. O rapaz apertou a
cabeça com as duas mãos como se quisesse reter um irresistível impulso. Houve
um silvo. A enorme massa resfolegando rangeu por sobre os trilhos. O rapaz
olhou para os lados, consultou a botoeira, correu para o vagão onde
desaparecera a menina loura. Logo o comboio partiu. O homem gordo recolheu a
sua curiosidade, mais pálido, fazendo subir a vidraça da janela. Depois
estendeu-se na banqueta. Eu estava incapaz de erguer-me, imaginando ouvir a
cada instante um grito doloroso no outro vagão, em que estava a menina loura.
Mas o comboio rasgara a treva com outro silvo, cavalgando os trilhos
vertiginosamente. Através das vidraças molhadas viam-se numa correria fantástica
as luzes das casas ainda abertas, as sebes empapadas d'água sob a chuva
torrencial. E à frente, no alto da locomotiva, como o rebate do desespero, o
enorme sino reboava, acordando a noite, enchendo a treva de um clamor de
desgraça e de delírio.
Ontem, às 6 horas da tarde, fui buscar ao
clube da rua do Passeio o velho barão Belfort, que me prometera mostrar, três
dias antes, a sua cara coleção de esmaltes árabes. O barão jogava e perdia com
um moço febril, que à lapela trazia um crisântemo amarelo, da cor da sua tez.
Ao ver-me, disse amavelmente
— Estamos a jogar. O Osvaldo ganha como
um inglês e com a alucinação de um brasileiro. Estou perdendo e apreciando este
bom Osvaldo, que ainda tem emoções.
Os seus olhares
seguiam, frios e argutos, o jogo do bom Osvaldo, e, a cada cartada,
tamborilando os dedos na mesa, Belfort sorria um sorriso mau, entre desconfiado
e satisfeito. De repente, porém, as pupilas acenderam-se-lhe. Pôs as duas mãos
nervosas na mesa, e perguntou, enquanto mais pálido o moço estacava:
— E tu não jogas?
— Não.
— Fazes bem. Um escritor do tempo de
Balzac dizia que o jogo era para a mocidade o veneno da perdição. O veneno! Ora
vê tu, o veneno!
— O Osvaldo permite? Vou embora sem mais
um real. Até amanhã. E não deixe de tomar água de flor de laranja...
Levantou-se, mirou as
unhas brunidas, mirou a gravata, e saiu, deixando o jovem só naquele salão que
o pleno verão tornara deserto. Acompanhei-o, não sem olhar para traz. O moço
pendia a cabeça na sombra, e assim pálido, com um pálido crisântemo, os seus
olhos tinham chispas de susto e de prazer.
Embaixo, no vestiário,
o barão deixou que lhe enfiassem o paletó, mandou chamar o coupé, e
partimos discretamente, sob a tarde luminosa e cor de pérola. Belfort
aconchegou-se à almofada de cetim malva, acendeu uma cigarrilha do Egito com o
seu monograma em ouro, e, enquanto o carro rodava, indagou:
— Que tal achaste o Osvaldo? É o meu
estudo agora. Havia meia hora que me roubava escandalosamente... Não lhe disse
nada. Ainda é possível salva-lo...
— Quer perde-lo? Indaguei habituado ás
excentricidades desse álgido ser.
— Oh! não, quero gozá-lo. Tu sabes, o
homem é um animal que gosta. O gosto é que varia. Eu gosto de ver as emoções
alheias, não chego a ser o bisbilhoteiro das taras do próximo, mas sou o
gozador das grandes emoções de
— Oh! ser horrível e macabro!
— Seja; horrível, macabro, mas delicado.
É por isso que eu não quero perder o Osvaldo, quero apenas gozá-lo. Preciso não
limitar a minha ação humana aos passeios pelo Oriente, às coleções autênticas e
a alguns deboches nos restaurantes de grão tom. Mas daí a perde-lo, c'est
trop fort...
— Pois não imagina o mal que fez ao
pobre Osvaldo. O rapaz estava horrivelmente pálido!
— Tal qual como o outro. Que exemplar,
meu caro! Que caso admirável! Esse pequeno ha seis meses odiava o víspora. Hoje
tem a voracidade de ganhar, e tamanha que já rouba. Amanhã arde, queima,
rebenta numa banca de jogo. Ah! o jogo! É o único instinto de perdição que
ainda desencadeia tempestades nos nervos da humanidade. O Osvaldinho é tal qual
o outro, o Chinês, a minha última observação.
— O Chinês?
Belfort soprou o fumo
da cigarrilha, sorrindo.
— Imagina que vai para um ano fui
apresentado a um rapaz chamado Praxedes, filho de uma chinesa e de um
negociante português
O Praxedes saía pela
manhã, trabalhava, voltava para o jantar, e não se largava mais de junto da
Clô. Não tinha um vício, nunca tivera um vício, era um chinês espantoso, sem
dragões e sem vícios! Estudei-o, analisei-o. Nada. Legislativamente moral.
Uma noite em que o
convidara para jantar, jogamos. Adivinharia alguém que cratera esperava o
momento de rebentar nessa alma tranquila? A senhora, a Clotilde, cantava no meu
piano, com voz triste, a ária do suicídio da detestável Gioconda. Eu
estava receoso que depois surgissem variações sobre o bailado das Horas.
Disse-lhe despreocupado -«Quer jogar?». -«Não sei». «É sempre agradável ensinar
mesmo o vício». -«Então ensine». Pegou das cartas, olhou-as indiferente, mas as
minhas palavras ouvia-as desvanecedoramente. Jogamos a primeira partida. Os
seus olhos começaram a luzir. Jogamos outra. -«Mas isso assim sem dinheiro?
Ponhamos dois tostões». -«Pois seja». Perdi. «Redobra-se a parada?». -«Oito
tostões?». -«Sim». -«Pois seja». À meia noite jogávamos a dez mil réis, e
Clotilde, muito cansada, já sem cantar, fazia inúteis esforços para o arrancar
à mesa.
Deitei-me sem
conclusões, e só no dia seguinte, quando o chinês enleado
apareceu pedindo outra partida, é que compreendi o assombro. A paixão estalara,
-a paixão voraz, que corrói, escorcha, rebenta... Invejei-o, e, como homem
delicado, joguei e perdi. No outro dia, Praxedes voltou. Levei-o ao clube, à
roleta, donde saiu a ganhar pela madrugada.
Ah! meu caro, que
cena! que fina emoção! O jogo, quando empolga, domina e envolve o homem, é o
mais belo vício da vida, é o enlouquecedor espetáculo de uma catástrofe sempre
iminente, de um abismo
Jantei no clube só
para não perder algumas horas o interesse desse espetáculo. Também durante três
dias e três noites Praxedes não deixou a roleta. Estava pálido, fraco. A gente
do clube, vendo-o ganhar, ganhar mesmo uma fortuna, já o tratava de dom
Praxedes. Ao cabo de uma semana, entretanto, a chance desandou. Praxedes
começou a perder bruscamente com gestos de alucinado, espalhando as fichas como
quem arranca pedaços da própria carne.
— «Calma, meu caro, dizia-lhe eu».
-«Impossível! impossível!», murmurava ele.
Pediu-me dinheiro,
dei-o, pediu a outros, deram-lho. Pediu mais -deixou de ser o dom Praxedes,
recebeu recusas brutais. Acabou não voltando mais ao clube. Eu, porém, sentia-o
em outros antros, definitivamente preso à sua cruz de horror, à cruz que cada
homem tem de carregar na vida...
Certa noite, meses
depois, encontrei-o numa batota da rua da Ajuda, com o fato enrugado e a gravata
de lado. Correu para mim, «Foi Deus que o trouxe. Estou farto de peruar. Isto
de mirone não me serve. Empreste-me cinquenta mil réis para
arrumar tudo no 00. Ah! está dando hoje escandalosamente. Faremos uma vaca? Vai
dar pela certa».
Agarrou a nota como um
desesperado, precipitou-se na roda que cercava o tableau da direita: «Tenho
aqui cinquentão; esperem!». E caiu por cima dos outros, com o braço esticado.
O duble-zero falhou.
Ele voltou cínico: «É preciso insistir; deixe ver mais algum. Não dá? Olhe,
escute aqui, hipoteco-lhe uma mobília de quarto, serve?».
Compreendi então a
descabida vertigem daquela queda. Tive pena. Arrastei-o quase à força para a
rua, fi-lo contar-me a vida. Estava desempregado, abandonara o emprego, vendera
o mobiliário, as jóias da Clô, os vestidos, as roupas, mudara-se para uma casa
menor e alugara a sala da frente. A cábula, a má sorte, a guigne perseguiam-no, e,
pendido ao meu braço o miserável soluçava: -«Havemos de melhorar, empreste-me
algum. Estou sem níquel!».
Deixei-o sem níquel,
mas fui ao outro dia ver a Clotilde, uma flor de beleza, com os olhos vermelhos
de chorar e as roupas já estragadas. Ia sair, arranjar dinheiro... -«E seu
marido?». -«Meu marido está perdido. Anda por aí a jogar. Há dois dias não o
vejo; hoje não comi...». -«Abandone-o!». -«Abandona-lo eu? E a sociedade, e
ele? Que seria dele?». -«Ora, ele!». -«Ele ama-me, ama-me como dantes. Mas que
quer? Veio-lhe a desgraça. Às vezes brigo, mas ele diz-me: Ai! Clô, que hei de
fazer? É uma força, uma força que me puxa os músculos. Parece que desenrolaram
uma bola de aço dentro de mim, tenho de jogar. E cai em prantos, por aí, tão
triste, tão triste que até lhe vou arranjar dinheiro, que saio a pedir...».
É espantoso, pois não?
O homem tinha uma bola de aço e a fidelidade da mulher! Só esses seres
especiais conseguem coisas tão difíceis!
Um instante o barão
calou-se. O coupé rolava pela praia, e a noite, caindo, desdobrava por
sobre o mar a talagarça fuliginosa das primeiras sombras.
— Respeitei a Clotilde, por sistema, já
assustado com as proporções emocionais do marido. Ao outro dia, porém,
Praxedes. com sorrisinhos equívocos na face escaveirada: «Esteve com a Clô,
hein? Conservada apesar da desgraça, a minha mulherzinha, pois não?...». Recuei
assombrado. Aquele homem bom, digno no fundo, aquele homem que amava a mulher,
para arranjar dinheiro com que satisfazer as cartas e a roleta, mercadejava-a
aberta, cínica, despejadamente. -«Que queres tu? Indaguei áspero, tem vergonha,
vai, some-te!».
— «Eu hipoteco uma mobília. Só
quinhentos, só quinhentos!».
Era a alucinação.
Corri-o, e esperei ansioso como quem espera o final de uma tragédia, porque
tinha a certeza do paroxismo daquele vício. Afinal há de haver seis meses,
antes do meu encontro com o Osvaldo, li, na cama, às 3 da manhã, este bilhete
desesperado «Venha. Praxedes matou-se. Estou sem ninguém. Acuda-me. -Clô».
Ai! menino, não sei o
que senti. A minha vontade era ver, era saber, era acabar logo. Precipitei-me.
Quando cheguei, às voltas com a polícia que queria levar o corpo para o
Necrotério, Clotilde, desgrenhada, com os lábios em sangue, caiu nos meus
braços. -«Então, como foi isso?». -«Sei lá como foi! Tinha que ser! A desgraça!
Estava doido. Hipotecou a mobília, os juros eram semanais. Não arranjei
dinheiro e o judeu levou-a. Dormi no chão. Ontem não apareceu. Hoje estava eu a
dormir quando o senti que caminhava. Risquei o fósforo. Era ele, lívido,
embrulhando a casaca do casamento. Não sei o que me deu. -'Onde vais?'. -'Vou
ver se arranjo uns cobres, respondeu. Preciso jogar, sinto uma ânsia, não posso
mais'. -'Estás doido!' -'Não estou, Clô, não estou', fez ele arregalando os olhos.
Eu fui cruel: olha que se vendes a casaca ficas sem roupa para o enterro. Ele
parou. 'Para o enterro? Para o meu enterro? É melhor mesmo, é melhor mesmo, eu
não posso mais!'. E, de repente, desesperado, começou a bater com a cabeça
pelas paredes. Praxedes! Praxedes! Não faças isso! Praxedes! Gritei, solucei.
Qual! Cada vez arrumava o crânio com mais força de encontro às quinas das
portas. O som, ah! esse som como me ensandece! Ainda o ouço! E ele todo em
sangue, todo
Abri o grupo dos
agentes, fui ver Praxedes. Estava cor de cera, com a cabeça fendida e os lábios
coagulados de sangue roxo. E o olhar vítreo, a mão recurva, assim, sob a luz da
madrugada, pareciam seguir ainda e acompanhar o mal a que o impelira a sua bola
de aço.
Esse record de
emoção desesperada prostrou-me. Nunca vi sentir tão vertiginosamente.
O carro parara. O
barão saltou, subiu de vagar as escadas de mármore, enquanto no interior do
palacete retiniam campainhas elétricas.
— Preciso sentir vendo os outros sentir,
fez mirando-se no alto espelho do vestiário. Só assim tenho emoções. Garanto-te
que o Osvaldo acaba como o chinês de Macau, mas por outro meio -com a morfina
talvez. Só os chineses morrem às cabeçadas por sentir demais!
E fomos jantar
tranquilamente na sua mesa florida de cravos e anêmonas brancas.
O terraço era
admirável. A casa toda parecia mesmo ali pousada á beira dos horizontes sem fim
como para admira-los, e a luz dos pavimentos térreos, a iluminação dos salões
de cima contrastava violenta com o macio esmaecer da tarde. Estávamos no
Smart-Club, estávamos ambos no terraço do Smart-Club, esse maravilhoso terraço
de vila do Estoril, dominando um lindo sítio da praia do Russel -as avenidas
largas, o mar, a linha ardente do cais e o céu que tinha luminosidades polidas
de faiança persa. Eram sete horas. Com o ardente verão ninguém tinha vontade de
jantar. Tomava-se um aperitivo qualquer, embebendo os olhos na beleza confusa
das cores do ocaso e no banho viride de todo aquele verde em de redor. As salas lá em
cima estavam vazias; a grande mesa de baccarat, onde
algumas pequenas e alguns pequenos derretiam notas do banco -a descansar. O
soalho envernisado brilhava. Os divãsmodorravam em fila encostados às paredes -os divãs
que nesses clubes não têm muito trabalho. Os criados, vindos todos de
Buenos-Aires e de S. Paulo, criados italianos marca registrada como a melhor em
Londres, no Cairo, em New-York, empertigavam-se. E a viração era tão macia, um
cheiro de salsugem polvilhava a atmosfera tão levemente, que a
vontade era de ficar ali muito tempo, sem fazer nada.
Mas a noite já
estendia o seu negro brocado picado de estrelas e no plein-air do
terraço começavam a chegar os smart-diners. Que curioso aspecto! Havia
franceses condecorados, de gestos vulgares, ingleses de smoking e parasita à
lapela, americanos de casaca e também de brim branco com sapatos de jogar o foot-ball
e o lawn-tenis, os elegantes cariocas com risos artificiais,
risos postiços, gestos a contragosto do corpo, todos bonecos vítimas da
diversão chantecler, os noceurs
habituais, e os michés ricos ou jogadores, cuja primeira refeição deve
ser o jantar, e que apareciam de olheiras, a voz pastosa, pensando no bac-chemin-de-fer, no 9
de cara e nos pedidos do último béguin. O
prédio, mais uma «vila» da bacia do Mediterrâneo, ardia na noite serena,
parecia a miragem dos astros do alto; as toalhas brancas, os cristais, os
baldes de christofletinham reflexos. Por sobre as mesas corria como
uma farândolafantasista de pequenas velas com capuchons
coloridos, e vinha de cima uma valsa lânguida, uma dessas valsas de lento enebriar,
que adejam vôos de mariposas e têm fermatas que parecem espasmos. No meio
daquela roda de homens, que se cumprimentavam rápidos, dizendo apenas as
últimas sílabas das palavras: -B'jour, Plo... deus! goo, iam
chegando as cocottes, as modernas Aspásias da
insignificância. Algumas vinham a arrastar vestidos de cinco mil francos;
outras tinham atitudes simplistas dos primitivos italianos. Havia na sombra do
terraço, um desfilar de figuras que lembravam Rossetti e Heleu, Mirande e
Herman-Paul, Capielo e Sem, Julião e também Abel Faivre, porque havia cocottes
gordas, muito gordas e pintadas, ajaezadas de jóias, suando e praguejando.
Falavam todas línguas estrangeiras -o espanhol, o francês, o italiano, até o
alemão com o predomínio do parigot, do argot, da langue verte. Só se
falava mesmo calão de boulevard. Fora, à entrada, paravam as lanternas
carbunculantes dos autos, havia fonfons roucos, arrancos bruscos
de máquinas H. P. 60. Aquele ambiente de internacionalismo à parisiense cheio
do rumor de risos, de gluglus de garrafas, de piadas, era uma excitação para a
gente chique. O barão André de Belfort, elegantíssimo na sua casaca impecável
convidara-me para um jantar a dois em que se conversasse de arte antiga -porque
ele tinha estudos pessoais sobre a noção da linha na Grécia de Péricles.
Evidentemente, antes de terminar o jantar teríamos a mesa guarnecida por alguma
daquelas figurinhas escapas de Tanagra ou qualquer dos gordos monstros circulantes...
De súbito, porém, na
alegria do terraço ouvi por trás de mim uma voz de mulher dizer:
— Pois então não sabes que a Elsa morreu
hoje de madrugada?
Não me voltei. A
mulher conversava noutra mesa. Mas senti um pasmo assustado. Elsa! Seria a Elsa
d'Aragon, uma carnação maravilhosa de dezoito anos, lançada havia apenas um mês
por um manager de music hall, cuja especialidade sexual
era desvirginar meninas púberes? Seria ela com os seus olhos verdes, a pele
veludosa de rosa-chá e aquela esplêndida cabeleira negra de azeviche? E morrer
em plena apoteose, cheia de jóias e de apaixonados! Indaguei do meu conviva:
— Morreu a Elsa d'Aragon?
O barão Belfort
encomendava enfim o cardápio. Acabou tranquilamente a grave operação, descansou
o monóculo em cima da mesa.
— Exatamente. Parece que a apreciavas?
Pobre rapariga! Foi com efeito ela. Morreu esta madrugada.
— De repente?
— Com certeza. Devia ter sido uma linda
morte. Beleza horrível. Não se fala noutra coisa hoje nas pensões de artistas,
em todos os conventilhos elegantes patronados pelas velhas cocottes ricas, nas
rodas dos jogadores. A Elsa era muito nature, com a
fobia do artifício, mas soube morrer furiosamente.
— Como foi?
Neste momento chegara
a bisquee o balde com a Môet, brut imperiale, que o
velho dandybebe sempre desde o começo do jantar.
O barão atacou a bisque,
deu não sei que ordem ao maître-d'hôtel, e murmurou:
— É uma história interessante. Você de
certo ainda não quis fazer a psicologia da mulher alegre atirando-se a todos os
excessos por enervamento de não ter o que fazer? Quase todas essas criaturas,
altamente cotadas ou apenas da calçada, são, como direi? as excedidas das
preocupações. Estão sempre enervadas, paroxismadas. O meio é atrozmente artificial,
a gargalhada, o champanhe, a pintura encobrem uma lamentável pobreza de
sentimentos e de sensações. Ao demais, a vida tem um regulamento geral de
excessos, e elas fatalmente pela lei, têm que fazer pagar caro e arruinar os
idiotas, têm de amar um rapazola miserável que lhes coma a chelpae as
bata, têm que embriagar-se e discutir os homens, os negócios das outras, tudo
mais ou menos exorbitando. Uma paixão de cocotte é sempre caricatural, é
sempre para além do natural, do verdadeiro, e a sua pobre vida, tenha ela
centenas de contos ou viva sem um real pelas bodegas reles, é sempre uma
hipótese falsificada de vida, uma espécie de fiorde num copo d'água, à luz
elétrica. Todas amam de modo excepcional, jogam excessivamente, embriagam-se em
vez de beber, põem dinheiro pela janela à fora em vez de gastar, quando choram,
não choram, uivam, ganem, cascateiam lagrimas. Se têm filhos, quando os vão ver
fazem tais excessos que deixam de ser mães, mesmo porque não o são. Duas horas
depois os pequenos estão esquecidos. Se amam, praticam tais loucuras que deixam
de ser amantes, mesmo porque não o são. Elas tem varias paixões na vida. Cinco
anos de profissão acabam com a alma das galantes criaturinhas. Não há mais nada
de verdadeiro. Uma interessante pequena pode se resumir: nome falso, crispação
de nervos igual à exploração dos gigolôs e das proprietárias, mais dinheiro
apanhado e beijos dados. São fantoches da loucura movidos por quatro cordelins
da miséria humana.
— A Elsa, então?
— A Elsa foi atirada subitamente numa
pensão do Catete. Sabes o que é a vida em casas de tal espécie. Elas acordam
para o almoço, em que aparecem vários homens ricos. O almoço é muito em conta,
os vinhos são caríssimos. A obrigação é fazer vir vinhos. Desde manhã elas
bebem champanhe e licores complicados. Nesses almoços discute-se a
generosidade, a tolice, ou a voracidade dos machos. A tarde é dada a um ou a
dois. Às cinco, toilette e o passeio obrigatório. À noite, o jantar em
que é preciso fazer muito barulho, dançar entre cada serviço ou mesmo durante,
dizer tolices. Depois o passeio aos music-halls, com os quais tem
contrato as proprietárias, e a obrigação de ir a um certo clube aquecer o jogo.
Cada uma delas têm o seu cachet por esse serviço e são multadas quando
vão a outro -que, como é de prever, paga a multa. O resto é ainda o homem até
dormir. Nesse fantochismo lantejoulado há vários gêneros: o doidivana, o sério,
o reservado, o nature, o romântico, e para encher o vazio, os vícios
bizarros surgem. Elas ou tomam ópio, ou cheiram éter, ou se picam com morfina,
e ainda assim, nos paraísos artificiais são muito mais para rir, coitadas! mais
malucas no manicômio obrigatório da luxúria. A Elsa era do gênero nature.
Ancas largas, pele sensível, animal sem vícios. Tentou os petimetres, os
banqueiros fatigados, os rapazes calvos e, com oito dias estava com os nervos
esgarçados, estava excedida. Mesmo porque, desde a primeira hora olhava-a com o
seu olhar de morta a Elisa, a interessante Elisa.
— Ah!
— Elisa é um tipo talvez normal nesse
ambiente. Tem os cabelos cortados, usa eternamente um gorro de lontra. Nunca a
vi com uma jóia e sem o seu tailleur cor de castanha. É feia, não deve
agradar aos homens, mas presta-se a todos os pequenos serviços dessas damas.
Escreve cartas, arranja entrevistas, tem conhecimentos, e dizem-na com todos os
vícios, desde o abuso do éter até o unisexualismo. Ora,
era Elisa com os seus dois olhos mortos e velados que olhava Elsa, e Elsa
sentia uma extraordinária repugnância, um nojo em que havia medo ao mais
simples contato. Elisa sorria, a Elisa que está sempre nesses lugares, sem
colete com o seu corpo de andrógino morto. E era em toda parte aquele mesmo
olhar acompanhando Elsa, pregando-se a todos os seus gestos, lambendo cada
atitude da criatura. Uma noite, as duas Lacroix Ducerny, as que vestem sempre
iguais e fazem fortuna em comum, asseguraram-me que Elisa já não servia para
nada, perdida, louca de paixão; e, com grande pasmo meu ao entrar num clube
ultra infame, eu vi a Elsa com um conhecido banqueiro e, muito naturalmente,
Elisa ao lado. Era a aproximação...
— Safa!
— Meu caro, nada de repugnâncias. Prove
este faisão. Está magnifico. Ora, ontem, no Casino, como a pobre Elsa estava
totalmente fora dos nervos e com um vestido verdadeiramente admirável, tive
prazer em ir apertar-lhe a mão. -«Então, como vai com esta vida?». -«Como vê,
muito bem». -«Mas está nervosa». -«Há de ser de falta de hábito. Acabo por
acostumar». -«Com um tão belo físico...». -«Não seja mau, deixe os
cumprimentos». E de súbito -«Diga-me, barão, não há um meio da gente se ver
livre disto? Não posso, não tenho mais liberdade, já não sou eu. Hoje, por
exemplo, tinha uma imensa vontade de chorar». -«Chore, é uma questão de nervos.
Ficará de certo aliviada». -«Mas não é isso, não é isso, homem!» -«Se a menina
continua a gritar, participo-lhe que vou embora». -«Não, meu amigo, perdoe. É
que eu estou tão nervosa! tanto! tanto... Queria que me desse um conselho».
-«Para que?». -«Para aliviar-me». -«É difícil. Você sofre de um mal comum, a
surmenagem do artificio. Eu podia dizer-lhe: recolha-se a um
convento. Mas pareceria brincadeira e talvez viesse a morrer mística, a
conversar com os anjos, como Swedenborg. Conheci algumas que acabaram assim. Podia
também, se fosse um idiota, aconselhar a vida honesta. Mas isso seria
impossível porque o pesar de ter saído desta em que o desperdício é a norma, a
saudade e as lembrança deixá-la-iam amargurada. Depois não tem recursos e teria
sempre que pôr em circulação o seu lindo capital». -«Barão, por quem é, fale-me
sinceramente». -«Então, minha filha, aconselho uma paixão ou um excesso, um
belo rapaz ou uma extravagância». -«Nesta roda não há belos rapazes». -«De
acordo, há quando muito velhos recém-nascidos. Mas é recorrer à multidão,
passar uma noite percorrendo os bairros pobres, experimentar. Ou então, minha
cara, um grande excesso: champanhe, éter ou morfina...». Voltei-me para a sala.
Num camarote fronteiro a Elisa olhava com os seus dois olhos de morta. «E se
não a repugna muito uma grande mestra dos paraísos artificiais, a Elisa». -«Não
fale alto, que ela percebe». -«Então já a sabia lá?». -«Corri-a ontem do meu
quarto. É um demônio». -«Mas você precisa de um demônio». -«O que ela faz...».
-«Já sei, toda a gente faz. Mas naturalmente ela é excepcional». -«Barão, vá
embora». -«Adeus, minha querida». Quando dei a volta para falar a Elisa, já
esta deixara vazio o camarote.
— E então, como morreu a linda criatura?
— Aceitando o meu conselho. A sua morte
pertence ao mistério do quarto, mas devia ser horrível. Elsa partiu do music-hall
diretamente para casa, pretextando ao banqueiro que lhe ia pôr um pequeno
palácio, a forte dor de cabeça -a clássica migraine das cocottes
enfaradas ou excedidas. E apareceu na ceia da pensão como uma louca, a mandar
abrir champanhe por conta própria. Quando por volta de uma hora apareceu a
figura de larva da Elisa, deu um pulo da cadeira, agarrou-lhe o
pulso: «Vem; tu hoje és minha!». Houve uma grande gargalhada. Essas damas e mais
esses cavalheiros tinham uma grande complacência com a Elisa, e aquela vitória
excitava-os. Elisa molemente sentou-se ao lado da Elsa, que bebia mais
champanhe, sentia afrontações e torcia os dedos da apaixonada por baixo da
mesa. Era o desespero. Mimi Gonzaga assegurou-me que ela recebera uma carta da
mãe logo pela manhã. No fim, Elsa, pálida e ardente, dizia: «Viens, mon
cheri, que je te baise!», e mordia raivosamente o pescoço da Elisa. Via-se
a repugnância, a raiva com que ela fazia a cena de Lesbos -pobre rapariga sem
inversões e estetismos à Safo... A ceia acabou em espetáculo, e acabaria com
todos os espectadores, se algumas mulheres com ciúmes dos seus senhores -ah!
como elas são idiotas!- não os tivessem levado. Elsa às duas e meia fez
erguer-se a Elisa, calada e misteriosamente fria. «Vão tomar morfina?
interrogou um dos assistentes, cuidado, em?». Elsa deu de ombros, sorriu, saiu
arrastando a outra. E a desaparição foi teatral ainda. Os olhos verdes da Elsa
bistrados, a sua cabeleira desnastra,
agarrando com um desespero de bacante a pastosidade oleosa e alourada da
miserável que a queria.
— Que horror!
— A coitadinha aturdia-se. É o processo
habitual. Para mostrar a sua livre vontade caía na extravagância, agarrava o
tipo que a repugnava, para mergulhar inteiramente no horror. Estive quase a
acreditar que tivesse recebido alguma lembrança dos parentes, e imaginei um
instante a cena sinistramente atroz do quarto em que enfim, como uma larva
diabólica, o polvo louro da roda iria arrancar um pouco de vida àquela linda
criatura ardente, ainda com uns restos de alma de mulher... Nunca porém pensei
no fim súbito.
Pelas cinco horas da
manhã, a pensão acordava a uns gemidos roucos, que vinham do quarto de Elsa.
Eram bem gritos estertorados de socorro. As mulheres desceram em fralda, os
criados ergueram-se com o sorriso cínico habituado àquelas madrugadas agitadas
de ataques e de delírios histéricos. A porta do quarto estava fechada. Bateram,
bateram muito, enquanto lá dentro o som rouco rouquejava. Foi preciso arrombar a
porta. E a cena fez recuar no primeiro momento a tropa do alcouce. Como luz
havia apenas a lamparina numa redoma rosa. O quarto, cheio de sombra, mostrava,
em cima das poltronas, as sedas e os dessous de
renda da Elsa. Um frasco de éter aberto, empestava o ambiente. A Elisa, o corpo
da Elisa estava de joelhos à beira da cama. Os braços pendiam como dois
tentáculos cortados. Inteiramente nua, o corpo divino lívido, os cabelos negros
amarrados ao alto como um casco de ébano, Elsa d'Aragon, as pernas em compasso,
a face contraída, ainda sentada agarrava com as duas mãos numa crispação atroz,
a cabeça da Elisa. Era Elisa que rouquejava. Elsa estava bem morta, o corpo já
frio. Devia ter havido luta, resistência de Elsa, triunfo da mulher loura e por
fim sem fim até a morte, enquanto a outra se estorcia, apertava-a,
arrancava-lhe os cabelos, machucava-lhe o rosto -aquele horror. Elsa entrara no
nada debatendo-se, vítima de um suplício diabólico, mas no último espasmo as
suas mãos agarram a assassina. Quando esta afinal satisfeita quis erguer-se,
sentiu-se presa pelos cabelos, tentou lutar, viu que a pobre era cadáver. E
passou-se então para o monstro o momento do indizível terror, o momento em que
se vê para sempre o mundo perdido porque ficou imóvel rouquejando, de joelhos,
a cabeça no regaço do cadáver, que mantinha nas mãos cerradas a massa dos seus
cabelos de ouro. Os dedos de resto pareciam de aço. Uma das mulheres recorreu à
tesoura para despegar a cabeça de Elisa das mãos do cadáver. Quando o corpo
tombou no leito com o punhado da cabeleira nas mãos, o bando estremunhado viu
surgir a face de Elisa, tão decomposta, tão velha, que parecia outra, como que
aparvalhada.
Houve um silêncio. O
criado servia frutas geladas, esplêndidas pêras de Espanha e uvas das regiões
vinhateiras da Borgonha, grandes uvas negras. O barão trincou de uma pêra.
— Foi uma complicação para afastar a
polícia e impedir notícias nos jornais que desmoralizariam a casa. Elisa seguiu
horas depois para o hospício, babando e estertorando. A Elsa devia ter sido
enterrada hoje á tarde. Estive lá a ver o cadáver. Tinha ainda nas mãos
cerradas fios de cabelos louros, como se quisesse arrancar para o túmulo a
prova desesperada da sua morte horrível.
E mordeu com apetite a
pêra. No salão de cima uma valsa lenta, chorada pelos violinos, enlanguecia o
ar. Das mesas do terraço entre a iluminação bizantina das velas de capuchons
coloridos subia o zumbido alegre feito de risos e de gorgeios de todas aquelas
mulheres que o jantar alegrava.
Estava tudo combinado. Era impossível falhar.
Quando a lancha partiu, sem rumor, explorando a treva do oceano encapelado,
ficamos entretanto nervosos. Seriam muitos? Seria um só? Ah! Se os bandidos
fossem apanhados! Os nossos nervos, excedidos já por aqueles três meses de
enjaulamento na baía, sob o canhoneio das fortalezas e as necessidades mais
duras, começavam a dar aos pequenos fatos uma importância capital, uma
importância desproporcional. Assim, ao recebermos a denuncia amiga de que um ou
mais homens conseguiam a nado levar instruções aos legalistas, a explosão da
nossa cólera foi tal que, vendo-a, ninguém deixaria de julgar as instruções
causa única do nosso enervante estado.
Quase todos nós,
paisanos levados pelas circunstâncias e as perseguições tirânicas dos sequazes
do marechal àquela vida do vaso de guerra, estávamos
encostados à amurada com os oficiais e o comandante a ver se víamos o trabalho
da lancha no negror da noite.
Oh! era demais! Havia
oito dias mastigáramos a meia ração de feijão preto sem toucinho. O
patriotismo, a indignação pelos descalabros do governo caíam intimamente num
relaxamento lamentável. O desejo único era deixar a baía, era acabar com
aquilo, era tirar dos ombros aquela mão de ferro das situações insolúveis em
que só complicavam as traições dos ingleses, as intimativas americanas e a
falência das nossas vitórias. E na treva da noite sem estrelas todas as cóleras
se fundiam no ser que os nossos iam apanhar, como se fosse ele a causa do ror
de desastres havidos.
— É verdade, indagou um médico, em terra
o exemplo da bondade, que castigo havemos de dar ao canalha?
— É boa, passamo-lo pelas armas!
Era um exemplo, mas
seria pouco para o infame. Só se o fizéssemos mira de um tiro ao alvo geral.
Todos nós atiraríamos.
— E ele só sentiria uma vez! O
comandante, qual será o castigo do patife?
O comandante era um
cavalheiro elegante e fino. Voltou-se a sorrir:
— Conforme. Na carta que mo denunciou
dizem-no estrangeiro. Que seja. É impossível justiça-lo. Se for brasileiro,
porém, passamo-lo pelas armas.
Ah! íamos ter urna
noite interessante e divertida afinal! O miserável veria com quem se metera! E
no olhar de cada um de nós havia a expectativa e no riso dos outros, como
talvez no nosso, um repuxamento de lábios queria sorrir e mostrava os dentes
como um esgar de fera.
Esperamos assim
entretanto até de madrugada. A fadiga prostrara alguns, soprava um vento de
chuva, violento e úmido; o comandante recolhera; a lancha não voltava. Já a
inquietação sucedia à fúria quando à amurada a lancha acostou. Todos nós
corremos numa ânsia má, numa ânsia de vingança, ávidos de ver em primeiro lugar
o torpe, o infame, que toda noite passava por nós arriscando a vida para
complicar e perder a nossa vida. O comandante deixou a cabine apressadamente, a
oficialidade vinha de todos os pontos do vaso de guerra. E, naquele surdo rumor
de cólera, os companheiros de lancha içaram para o tombadilho, amarrado,
manietado, como que dobrado em dois, um corpo nu, membrudo e forte.
— Muitos?
— Um só, comandante. Ia com um saco
cheio de cartas.
— E o saco?
— Aqui está.
— Desamarrem o homem.
Dois marinheiros
curvaram-se; outro acendeu uma lanterna de furta-fogo e assim conseguimos ver a
cara do tipo, uma cara comum, de bigode castanho e olhos turvos. Logo que o
soltaram, a voz um tanto inquieta, mas clara, exclamou:
— Mr.
le comandant, j 'suis français!
—
Os
legalistas são brasileiros. Ninguém aqui compreende línguas estrangeiras.
— Eu falo o português. Sou francês,
senhores, peço explicar o fato.
— Você ainda quer explicar, hein? Que
topete!
— Mas é um direito.
— Direitos para um sujeito pescado de
madrugada!
— Eu exijo!... Você não exige nada; nós
é que fazemos de você o que quisermos. Levem esse homem para a sala de armas, a
aguardar as minhas ordens...
Os marinheiros foram
levando o homem aos trancos. Nós ficamos na expectativa. O comandante,
entretanto, fazia conduzir o saco à sua cabine.
— Boa noite, meus senhores.
— E o castigo, comandante?
— Ah! o castigo... já pensei. Apenas só
lho direi amanhã. É preciso faze-lo passar a noite fazendo palpites. Vocês não
imaginam como é interessante passar a noite imaginando várias desgraças
irremediáveis, que todas elas são perfeitamente possíveis e hão de se dar
algumas horas depois... Até logo mais, meus amigos.
Recolhemos. Que
castigo imaginaria aquele homem refinado e distinto? Como estaria o outro, nu,
na madrugada álgida, lá em cima? Dormiria? Pensaria? Pensaria na morte decerto,
porque era impossível outro gênero de castigo...
— Como vai o homem? Indagamos.
— Parece dormir; sim, senhor.
Nós é que não
dormimos. Ficamos no beliche, nervosos, à espera daquela morte, daquela cena
atroz, fatal dali a momentos. Que se daria, céus clementes?
No dia seguinte, às 8
da manhã, fomos convidados a ir à sala de armas. O homem nu lá estava,
carrancudo, com o olhar turvo, mordendo o bigode. E quando o comandante chegou,
houve um arrepio geral, um arrepio de medo. O comandante, porém, estava amável
e sentara-se.
— Como se chama?
— Arsênio Godard.
— Ah! muito bem.
— Eu desejava explicar...
— Oh! inteiramente inútil. Venho
dizer-lhe o que resolvi a respeito. Sr. Arsênio Godard, o senhor vai viver
conosco até o fim da nossa ação. Vê-se que o senhor é um homem, corajoso,
forte. Excelente companheiro! Vou mandar-lhe uma roupa. Terá um beliche seu. O
navio é inteiramente seu. Apenas, como o senhor nada bem e pode não gostar da
nossa companhia, será acompanhado sempre. Não desejamos que nos abandone.
O francês olhava,
tentando descobrir a insídia, procurando saber que castigo horrendo aquele
vencedor arquitetava entre frases de mel.
— Mas, Sr. comandante, devo dizer...
— Eu é que devo dizer que jantará à
nossa mesa. Ah! nós não passamos à vela de libra, como os patriotas da cidade.
Mas, enfim, come-se. Vai-ver. Não imagina o prazer que nos dá a sua companhia.
Está entendido então? Bem. Até o almoço. Guardião, uma roupa ao Sr. Godard.
Era de tal modo grave
a atitude do comandante que nenhum de nós se atreveu a interroga-lo. Também a
explicação veio minutos depois, terminante e terrível.
O tenente João
chamou-nos de parte e em voz seca deu a ordem de cima.
O Sr. comandante
proíbe que se converse ou se responda ao preso. O Sr. comandante considera uma
deslealdade à causa e à sua pessoa dizer uma palavra ao Sr. Godard, até segunda
ordem.
Era o suplício do
silêncio! Era o castigo! Alguns acharam fraco -eram os ingênuos.
Outros sorriram,
imaginando as resultantes daquele sport, a perseguição do silêncio ao pobre
sujeito. Como tomaria ele a vingança?
À hora do almoço,
Godard apareceu, seguido de um marinheiro. Pediu licença, sentou-se. Ninguém
olhava para ele. Ao primeiro prato atirou-se com uma fome indizível,
verificando se lhe prestávamos atenção. Afinal, não se conteve:
— Sr. comandante, não sei como
agradecer...
O comandante continuou
a falar com o tenente João. Godard quis insistir, atrapalhou-se, voltou para o
vizinho da direita:
— Eu devia dizer ao comandante...
O vizinho da direita
dirigiu a palavra ao companheiro ao lado. Godard atirou-se para frente:
— Sim, a generosidade dos senhores...
Os convivas do outro
lado nem voltaram o rosto. Godard cruzou o talher e esperou até o fim o almoço.
Quando o comandante ergueu-se, foi até ele:
— Devo agradecer a sua bondade.
O comandante nem
voltou o rosto. Era cômico, se não fosse atroz. Teria coragem o homem para
resistir a essa humilhação sem palavras? Godard passou o dia passeando no
convés. Ao jantar, a cena renovou-se. À tarde começou o clássico bombardeio de
terra para os navios, dos navios para terra. Era todo o dia aquela ceifa de
vidas inútil e dispendiosa. Godard parava junto de nós.
— Eu sei atirar muito bem.
Nem uma palavra. Não o
ouvíamos; ninguém o percebia. À noite, reunidos para tomar o mate, Godard de
novo surgiu, acompanhado do marinheiro.
— Não quero, Sr. comandante, deixar
passar o dia, sem agradecer a bondade geral. Não me falam. É justo o
ressentimento. Mas eu não sou adversário, sou um ganhador, que, como os condottieri,
mercadeja o seu valor. Com os revoltosos, permitam a palavra, não posso
mercadejar, porque pouparam a minha vida, sustentada à custa de muito risco.
Estou pois às ordens...
Mas, a pouco e pouco,
os oficiais tinham saído e Godard estava só diante do marinheiro mudo e sério.
No dia seguinte, o
nosso preso apareceu ao almoço sombrio, cumprimentou sem ser correspondido,
abancou noutro lugar, mastigou sem dizer palavra, ergueu-se, agradeceu,
insistiu:
— Se o Sr. comandante me desse licença
para expor um plano de ataque, conhecendo eu como conheço as posições
inimigas... Perdão! É traição. Vejo que não sou ouvido... Agradeço, entretanto.
Oh! era evidente que
Arsênio Godard, tipo voluntarioso, fazia um esforço sobre-humano para conter a
cólera, para não desesperar diante daquela horrível situação que o fazia viver
no navio como se estivesse só, inteira e definitivamente só. Os olhos ardiam de
cólera, os beiços estavam brancos e as mãos tremiam, tinham um tremor de fúria.
Talvez ainda se julgasse capaz de vencer o castigo, porque, à noite,
bruscamente, foi ao comandante e de novo insistiu sobre os seus planos. Ao cabo
de quatro dias, entretanto, durante o almoço, Godard ergueu-se.
— Digam? É para sempre o silêncio?
Ninguém me fala? Mas eu sou um idiota, um animal, um leproso? Que sou eu? Não
respondem? Matem-me! É infame, afinal. Os infames sois vós. Retiro-me. Não como
mais. Não fujo, é verdade; mas morro de fome. Adeus, senhores.
Saiu a bater com os
pés para a sua cabine. Nós continuamos a conversar das coisas que nos
interessavam. Só o marinheiro acompanhou-o, como a própria sombra muda.
E foi então a luta
mais curiosa e mais atroz, o sport mais doloroso e mais inquietante que
jamais viramos, entre a palavra e o silêncio. Cada um de nós, com o instinto
animal de vencer, não respondia só para obedecer ao comandante, não respondia
porque responder seria a vitória do pobre diabo. Cada figura de bordo era um
componente daquela máquina de separação, daquela máquina que o tenente João
chamava o pneumático da vontade, a rarefação do homem, porque a palavra é a
vida, e falar, trocar palavras é sentir-se viver. Godard sentia bem que nós o
murávamos no silêncio, que nós cada dia erguíamos mais alto aquele muro de
mudez que as suas palavras não podiam, não conseguiriam quebrar. Resistiu dois
dias, no camarote, à fome. Depois veio à mesa feroz e sombrio como um jaguar e
nessa atitude conservou-se dez dias, dizendo apenas: obrigado e bom dia. Ficava
à porta do camarim, bufando e fumando. Se alguém passava por acaso, erguia-se
tinha um rictus irônico:
— Obrigado!
Ao cabo desse tempo
veio-lhe o relaxamento dos nervos, o acicate da
vontade mordeu-o mais forte. Era preciso obter uma resposta, sentir que não
estava morto! Inventou estratagemas. Acompanhava uma pessoa até saber-lhe o
nome e de repente dizia-lhe nas costas, disfarçando a voz:
— Ó José!
Esperava em lugares
solitários alguém, pedia fósforos, encartava nas palestras acaloradas uma frase
dessas que exigem réplica, discussão espreitava o abandono dos marinheiros para
obter uma palavra, uma apenas. Nós estávamos, porém, numa situação por demais
irritante, com os tiroteios, a falta de víveres e a certeza de um fim próximo,
para consentir
Dos meios sutis,
Godard caiu nos meios baixos. Ia ao comandante:
— A imoralidade do seu navio é
assombrosa. Acautele-se contra o imediato que o venderá na primeira ocasião!
E inventava intrigas
entre os paisanos e os oficiais, arrastava reticências, esperava a pergunta...
Nós nem sorriamos. Um silêncio absoluto, um verdadeiro silêncio que ia até aos
gestos, como se diante dele estivéssemos diante de um objeto indiferente e
inanimado, acolhia a infantilidade desesperada.
Da intriga, Arsênio
Godard caiu na humilhação. Para chegar a este excesso, era preciso sofrer
estrafegadamente, e Godard sofria. Tinha as pálpebras arroxadas, o
semblante lívido, o olhar apuado pela preocupação constante, o gesto vago. Uma
noite, de repente, depois de uma bala ter rebentado no convés, lacerando as
pernas de três inferiores e espadanando sangue até na amurada, enquanto
febrilmente todos nós tratávamos de remediar o mal, caiu de joelhos aos pés do
comandante.
— Deixe-me prestar auxílios também!
Fale-me! Fale-me! Pela sua honra, pela sua farda! Diga sim! diga não! Diga
qualquer coisa!
O comandante
passou-lhe por cima. Arsênio continou de rojo, pedindo, pedindo, sem ver a
quem, pedindo a quem passava, indistintamente. Nenhum de nós, cheios de
preocupações, pensava em ter pena. O bandido era o inimigo, e cada vez que uma
bala trazia o desastre, a cólera aumentava contra a sua figura lívida de
traidor desesperado.
— Pelo amor de Deus; uma palavra só, uma
palavrinha! chorava ele, com a face no chão, ridículo e macabro ao mesmo tempo.
A crise acentuou-se.
Arsênio resolveu conquistar os guardas com as lágrimas.
Cada marinheiro que
lhe postavam como sombra tinha-o logo de joelhos, procurando beijar-lhe a mão,
a fazer promessas, a pedir, a chorar. O comandante repetiu as ordens severas.
Arsênio ficou sem resposta, e da humilhação passou à cólera.
— Não quero este! não quero! Já disse!
bradava quando mudavam os guardas. São uns indignos! Uns covardes! Não me
satisfazem? Que sou eu? Eu não estou morto, ouviram? Falo, falo, falo. Que
importa que não me respondam? Falo, estou falando. Covardes!
Mas a cólera, como as
lágrimas, batia de encontro ao ilimitado e asfixiante silêncio. Não o ouvíamos,
não o sentíamos. Godard voltou à vida do beliche, a dizer: obrigado!
ironicamente quando por acaso alguém passava pela porta. Já haviam passado dois
meses, sessenta dias e sessenta noites. Tudo anunciava o fim da nossa aventura,
e cada vez mais o nosso ódio se acentuava contra aquele objeto solto a bordo, o
mercenário, o traidor. Os acontecimentos, os desastres desenrolaram-se com o
cortejo de mortes, de humilhações, e diante de nós, com as idéias empaladas num
silêncio desesperador, o animal sofria a nossa vingança por todos a quem nos
era impossível estraçalhar, matar, vencer.
Uma tarde, o
marinheiro que deixara a guarda foi dizer ao comandante que Arsênio Godard
parecia febril e falava coisas sem nexo no beliche.
— Deixai-o!
— É verdade, comandante, se acabássemos
com essa boca a mais?
— Oh! é preciso que ele pague a
dedicação aos outros. Se fosse um resignado, há muito estaria morto, mas, por
isso mesmo que enfurece, havemos de o trancar cada vez mais no castigo. Está
desesperado.
Com efeito, Godard
desesperava. No camarote, deitado de barriga para o ar, a barba crescida, o
cabelo pelas orelhas, falava alto para se ensurdecer, para enganar os ouvidos,
para iludir aos próprios sentidos. Era trágico, mudando de voz, imitando vozes
de mulheres, vozes de bichos.
— Oh! oh! Madame engana-se! Qual, é
impossível que o Sr. Arsênio aguentasse tamanha crueldade. Setenta dias, minha
senhora! Eram uns castrados. Oh! perdão! Um patife! Ah! ah! Cocoricó! Bum!
Vamos cantar um dueto? Valeu. Yes! Essa miss é deliciosa...
Os marinheiros
incultos estavam receosos de que a razão de Godard tivesse afinal sido
estrangulada pelo círculo do silêncio. Olhavam-no receosos. E Godard então
pulava da cama, em ceroulas, desguedelhado:
— Não me falam, não? Decidido! Afinal eu
os desprezo, covardes, vencidos. Mas também não preciso. Estou conversando,
estou ouvindo outras vozes responderem às minhas perguntas. Ah! ah! O homem
inteligente escapa aos maiores tormentos dos patetas!
Ao cabo do sexagésimo
nono dia, porém, Godard foi à mesa silencioso e sério, pediu um cigarro,
passeou pelo tombadilho, dormiu direito e logo pela manhã seguinte, deitado,
chamou o guarda.
— Dá-me um fósforo?
O guarda aproximou-se,
estendendo a caixa. Então ah!, o preso, deu um salto da cama, arrancando ao
marinheiro a arma num súbito ataque, bateu a porta rápido e, segurando-o pelo
gasnete:
— Vais responder, agora. Anda, depressa.
Responde! Faze sinal que sim! Faze sinal ou morres!
Uma luta travou-se. O
marinheiro era um caboclo enorme. Prendera a mão que apontara o revólver e com
a outra arrumara um soco à cara do preso. Mas Godard sentia decuplicadas as forças.
Com a mão livre atirou-se ao sabre do marinheiro. O outro desviou. Caíram ambos
tropeçando num jarro. Godard parecia um florete; o marinheiro era uma torre. O
fragor de luta chegou até nós. Corremos à cabine. A voz de Godard bradava:
— Fala, responde, dize qualquer coisa.
Cachorro! Cachorro! Responde-me! E móveis caíam, os corpos rolavam.
— É o Godard! Precisamos abrir.
— Está fechado!
— Abre-se a machado!
— Eu abro se me falarem, berrava de
dentro Godard, eu abro se me falarem! Digam: Godard abre! para mostrar que eu
não estou morto, que eu vivo, que eu sou Godard!
Ah! bandido! Que
pensava ele, o infame? Os machados caíram na porta violentamente, fazendo
saltar a fechadura, e por diante de nós saltou brandindo o sabre, nu, com a
cara em sangue, os cabelos empastados, Arsênio Godard.
Nem prestamos atenção
ao marinheiro. Corremos ao encalço do bandido.
Não fosse ele
atirar-se ao mar! E foi uma caçada infernal a bordo. Era preciso apanha-lo
vivo, vivozinho, inteiro, para sujeita-lo ao regime desesperador, de novo,
eternamente. Godard, brandindo o sabre, encostara-se a um canto do salão de
jantar.
— É preciso acabar! É preciso acabar!
Canalhas! Vocês vão falar-me!
Só uma vez! Digam:
Arsênio, entregue-se, e eu me entrego. Só uma vez, ou então eu escapo, eu
escapo, estou salvo... Assassinos! Vamos a ver quem é mais forte! Quem se
aproximar morre ou mata-me! A vitória é minha! Escapo!
Todos nós, mordendo os
lábios para não deixar escapar uma praga, uma invectiva, paramos, com o desejo
desvairado de mata-lo. E foi um instante apenas. A tropa
precipitou-se para o sabre. Godard manejou-o, mas sentiu-se preso pelas pernas
e emborcou, enquanto cem braços estendiam-se, arrancavam-lhe a arma,
esmurravam-no, surda, silenciosamente.
— Outra vez! Para toda a vida! Oh! não!
não! não!
Com o pasmo de todos
nós, como se aquele muro de silêncio fosse pior do que a própria morte,
desvairadamente, atirou-se ao sabre de outro marinheiro, arrancou-o,
reviravolteou-o no ar e, no círculo aberto por aquela inesperada sortida,
bateu-o em cheio no pescoço.
Um jato de sangue
golpeou no ar sombrio. A cabeça curvou de olhos arregalados. Toda a guarnição
parou. O corpo pendeu. Estava morto. E, não sei por que, um ódio violento, um
ódio desesperado fez-nos ainda segurar o cadáver a ver se vivia.
O torpe fugira à
sentença, escapara das nossas mãos, deixara-nos impotentes para continuar, a
aperta-lo infinitamente naquele sudário de silêncio que fora o nosso mais
feroz, mais tremendo, mais dilacerante castigo.
O grande hall do hotel estava repleto.
Pelas janelas semi-cerradas, na suave ondulação das cortinas brancas, entrava
um vago perfume de violeta e de rosa. Lá fora, entre os tufos de verdura do
jardim e o céu muito azul, devia esplender a pálida luz de um sol de inverno.
As mesas, todas ocupadas e cintilantes de cristais, prolongavam-se até ao fundo
numa orquestração de tons brancos, que iam do branco de prata ao branco gris nos
lugares mais em sombra.
Os criados passavam
apressados, erguendo numa azáfama os pratos de metal. Ao alto, os ventiladores
faziam um rumor de colmeias. Senhoras e cavalheiros, perfeitamente felizes, as
senhoras quase todas com largos boásde plumas brancas, chalravam e sorriam. Estávamos
bem na bizarra sociedade de entalhe que é o escol dos hotéis. Alta, longa,
comprida, com uma cintura de esmaltes translúcidos e o ar empoado de uma íntima
do general Lafayette, a escritora americana, cuja admiração por Gonçalves Dias
chegara a faze-la estudar e propagar o Brasil, mastigava gravemente. Logo ao
lado, um grupo de engenheiros, também americanos, bebia, com gargalhadas
brutais e decerto inconvenientes, champanhe Munn. Mais adiante a encantadora
viúva do milionário Guedes, com o seu perfil de Luigni, de que tanto mal se
dizia, sorria num vago sonho para a senhora Alda, a formosa divorciada do dia,
Alda Pais anteontem, Alda Pereira hoje, como há cinco anos, antes de casar...
De vez em quando parava à porta um novo hóspede, hesitava, percorria com o
olhar a extensa fila de mesas onde o debinage se
acalorava. A um canto, Mlles. Peres, filhas de um rico argentino, yatch-recordermannas
horas vagas e vendedor de gado nas outras, perlavam risadinhas de flerte
para o solitário e divino Alberto Guerra, seguro dos seus bíceps, dos
seus brilhantes e quiçá dos seus versos.
Bem ao centro, o nosso
vasto ministro em Honduras desdobrava a sua simpática adiposidade numa roda de
mocitos elegantes, ferozes pretendentes ao secretariado diplomático, e, de vez
em quando, cortando o zumbido elegante do grande hall, retinia
imperiosamente o som de uma campainha elétrica.
Estávamos a almoçar
cinco ou seis, convidados pelo barão Belfort, esse velho dandy sempre
impecável, que dizia as coisas mais horrendas com uma perfeita distinção. E
fora decerto uma extravagância aquele demorado almoço, a fazer horas para um match
de foot-ball, a que seria impossível deixar de assistir. O barão, de
veia, com a sua voz de navalha, recortava na pele dos presentes as caricaturas
perversas. Nós já tínhamos rido muito e entrávamos com apetite num vulgaríssimo
salmis de coelho, quando de repente um dos nossos
companheiros exclamou:
— Olha, a Chilena aqui!
À porta surgiu uma
triunfal figura de Ceres, com o cabelo cor de ouro e o verde olhar coado por
umas negras pestanas de azeviche. O seu lindo corpo era como que modelado pelo
vestido de Irlanda e rendas verdadeiras. Nos dedos afilados e tênues como as
pétalas esguias dos crisântemos, três ou quatro pérolas rosas; nos lóbulos das
orelhas, duas negras pérolas e por sobre a gola leve de rendas brancas um
virginal colar de pérolas. Acompanhavam-na um cachorrinho branco de neve, de
focinho impertinente, e um cavalheiro, baixo, gordo, cheio de jóias, enfiado
numa redingote azul.
— A Chilena! A Chilena aqui! Mas que
sociedade é esta? bradou o mais jovem dos convivas.
O barão teve um
sorriso cético.
— Meu caro, o Rio tem, como Paris ou
Londres ou mesmo Montevideo, a sua season. A
season começa regularmente com a chegada do primeiro mambembe
estrangeiro, mambembe naturalmente insuportável, e fecha com os calores
da primavera, na abertura do salão de pintura. É a época do luxo, da exibiçâo,
do sacrifício para aparecer, da tagarelice, em que toda a gente fala mal do
próximo e entende de arte, é a época escolhida pelos que pretendem tomar lugar
na sociedade. Nós somos uma sociedade em formação -a mais atraente, a que mais
tenta por consequência, não só pelas suas taras, que há vinte anos não eram
julgadas mal, como pelo nosso fundo meio ingênuo de aceitar tudo o que brilha,
seja diamantino ou seja montana. Anualmente, de envolta com os políticos, os
fazendeiros, os estrangeiros exploradores, aparecem essas figuras com um
passado estranho, decididas a dominar, a entrar nos lugares honestos, a serem
respeitadas.
São figuras de
inverno. Querem dominar. E olhe que aqui, quase todos têm a sua história: as demoiselles
Peres, talvez enteadas de um rei morto, o wildeano conde
Rossi, lá longe, com o seu excepcional secretário cubano; Alberto Guerra, o
sedutor irmão de D. Juan e também de Shylock,
porque vive de emprestar a juros; a viscondessa Guilhermina, que chegou de
Vicchy e só está aqui de passagem; a Alda, a baronesa...
— Barão, cale-se, por favor! Cale-se!
Figuras de inverno, não duvido. Mas a Chilena é menos que isso.
— Ora, a Chilena já não usa esse
pseudônimo tão picante e ao mesmo tempo tão significativo para os guerreiros do
Rio Grande. Todos vocês sabem a história de vício dessas três irmãs que cerca
de dez anos amaram e arruinaram varias criaturas. Mas tinham de ter um nome
honesto. As duas primeiras casaram. Esta é hoje a esposa do cônsul do Haiti no
Pará.
— Então o homenzinho?
— Um explorador riquíssimo que se presta
a ser cônsul, auferindo todos os lucros do cargo. Deve ter uma fortuna superior
a cinco mil contos. Tivemos relações em Belém e em Paris. É um caso de
embrutecimento passional.
— Mas são realmente casados?
— Não há dúvida. Vocês conhecem a
história das chilenas, três lindas criaturas da fronteira que se diziam
chilenas por picante e a que os rio-grandenses chamavam chilenas como lembrança
de certos estribos em que os pés ficam à vontade e toda a gente pode usar. Elas
tinham topete, beleza, audácia. Para ser o vício arrasador não precisava muito
outrora no Rio. Chegaram e logo a fama irradiou. De um dia para outro, os
fazendeiros ricos sentiram a necessidade de dar-lhes palácios, os banqueiros
ofereceram-lhes as carteiras, os amorosos sem vintém prometeram vigor e paixão.
As gaúchas ardentes, ardentes mesmo demais, faziam grandes loucuras sensuais,
mas prestavam atenção ao futuro. Há mulheres que podem se entregar com frenesi
a vida inteira sem conseguirem ser prostitutas Elas tinham o frenesi, não,
tinham o sinal de profissão, e depois, haviam nascido sob as estrelas
complacentes. A Luisa partiu com um fazendeiro, e se o engana é com os cometas,
raramente. Natália recolheu com um negociante riquíssimo Ficou apenas Maria,
que diriam um caso anormal de luxúria, malbaratando dinheiro, embriagando-se,
tripudiando no torvelinho da vida. Ora, Azevedo apaixonou-se pela Maria, há
sete anos, vendo-a guiar uma parelha de cavalos zebrados que foram acabar no
Jardim Zoológico como raridade. Maria atravessava uma das suas crises, devendo
a casa, as mobílias, os cavalos, os criados, e até mesmo o adolescente robusto
que fazia de Augias no fundo do palacete e de Automedonteà
tarde, no passeio. Azevedo foi seringueiro ou coisa que o valha. Precisamente
voltara do Amazonas, esfomeado de mulher e cheio de dinheiro. Teve o
deslumbramento diante da beleza que Maria tornava provocante. Tentou o assalto,
deixou-se prender, pôr o freio, montar, esvaziar. A opinião geral -e aliás
alegre, era que Maria arruinaria o marchante selvagem. A sorte porém de Azevedo
era intensa. Quanto mais dava, quanto mais pagava, mais ganhava. Isso devia ter
concorrido poderosamente para a paixão do animal, fetiche como todos os
simples, e irritar Maria, inimiga dos pagadores como todas as boêmias. Azevedo
empolgou-a inteiramente. Ela, até então a Vênus vingadora, que arruina, arrasa,
domina, de gênio voluntarioso, só encontrava uma satisfação engana-lo, traí-lo,
roubar-lhe o corpo para o banquete dos esfomeados. Era uma performance entre a
paixão cega e a raiva de fugir dessa paixão. Ao cabo de quatro meses, Maria
proibiu-lhe a entrada, despediu-o. Estava coberta de jóias, com o cofre cheio e
enfarada, aborrecida, excedida pela convivência do pobre homem apaixonado e
pagador. Meteu-se na grande orgia, para se convencer de que estava livre, livre
por completo. Mas Azevedo, aguilhoado por aquela despedida, sentira de repente
que perdia a sua carne e a sua sorte e recorria a todos os meios imagináveis
para de novo apanha-la, peitando consciências, interessando na sua desgraça à
custa de bilhetes de banco; as amigas da Maria, convencendo os camaradas de que
era preciso fazer mudar de opinião Maria, aquela louquinha incapaz de pensar no
futuro. Logo a Chilena sentiu em torno, cada vez mais presente, o fantasma do
Azevedo. Falavam nas pândegas as amigas, por acaso: ah! se aqui estivesse o
Azevedo! Falava a cartomante que de oito em oito dias lhe deitava as cartas:
vejo aqui um homem sério que muito a ama e agora afastado voltará a faze-la
feliz! Falavam os criados: Coitado do patrão; passou hoje por aqui, olhando
muito... Falavam até os camaradas de cama e mesa: Afinal o Azevedo é um bom
homem. E Maria viu que tendo despedido o Azevedo agora é que o tinha a todo o
instante na lembrança, sem poder fazer-lhe mal, sem poder vingar-se, quase a
convencer-se de que o idiota era bom. Certa vez disseram lhe: o Azevedo parece
resignado: vai montar casa para a Benevente. Maria teve um grande ódio e no
outro dia Azevedo estava de dentro outra vez, louco de amor e ainda mais
perdulário.
— Maria resignara-se?
— Para a obra da vingança, tornando-o
epicamente ridículo. Não importava a pessoa, a questão era do ato. Ah! Eu
imagino sempre, quando o meu egoísmo quer eternizar o amor, o desespero de um
pobre ente sem poder livrar-se de outro que se molda e curva e dá tudo, e é
passivo e é humilde. Há torturas, imperceptíveis à maioria dos mortais, que são
dantescas. E nenhuma como essa em que o ambiente, a fatalidade, o destino
forçam a vitória do mais fraco dando-lhe o que deseja, fazendo-o realizar o seu
fim, impondo-o a outro corpo, a goza-lo, a senti-lo, a palpa-lo. A grande
desgraça do amor, a maior desgraça é essa porque laça ao mesmo horror duas
almas. Maria devia ter crises de desespero e de lágrimas, enquanto Azevedo
devia sofrer na sua muda humildade de cão sedento de carícias! E quando levou-a
para o Pará, a Chilena tinha a nevrose de engana-lo. Ora, imaginem vocês, em
Belém, terra pequena, onde Azevedo tinha uma posição evidente! As denuncias
anônimas choveram exigindo vergonha, mais pudor, mais brio. O grosso Azevedo
lia e calava, porque, se revelasse uma palavra das cartas, Maria fechava-lhe a
porta semanas e semanas. Uma vez, entretanto, como recebesse uma denuncia
violenta, Azevedo teve tensões de ciúmes e foi encontra-la como a princesa
Falconière da Dalila, cantando num barco com certo tenor de zarzuela. Não
havia dúvida! O cônsul do Haiti berrou de cólera, o tenor deu às gâmbias, a
polícia apareceu. O escândalo, porém, permitiu à Maria um desses cinismos
épicos. Agarrou o Azevedo pelo casaco, meteu-o dentro do carro sem dizer
palavra, ofegante, e ao chegar à casa mediu-o de alto a baixo e teve esta
frase, célebre há cinco anos: -o senhor é um indigno! Desconfia de mim!
É preciso pensar o
alcance, a extensão moral de uma dessas frases num cérebro, obsedado pela idéia
de não perder uma carne cada vez mais desejada. Maria dissera por cinismo
profissional. Ele sentiu-se comovido a princípio. Afinal se enganava, procurava
não o afrontar. Já era uma consideração. E depois engana-lo-ia ela? Há tantos
inocentes condenados, mesmo com provas visíveis comprometedoras! E o tenor, sem
querer, foi a pedra angular do casamento.
— Oh! não...
Quinze dias depois da
cena Azevedo sentiu que nem de negócio e de borracha poderia entender mais.
Maria, muda, grave, solene, vivia com o quarto fechado sem responder primeiro
aos seus insultos, depois às suas ironias, depois aos desesperos e já agora aos
rogos, porque Azevedo vivia como à espera da notícia de ter um mal
irremediável, sem dormir, sem descansar, só pensando que de novo ela o
deixaria. E dessa vez para sempre. Então caiu de joelhos, suplicou, pedindo
perdão, jurando que não vira nada, que jamais acreditaria na calúnia... Há
entre os sexos um ódio latente. Quando um se humilha a outro, esse outro toma
crueldades de tirano, refocila em perversidades e
Na roda correu um
desabalado riso, que fez voltar-se o grupo aspirante ao secretariado
diplomático. O barão limpou o seu monóculo de cristal e continuou
tranquilamente:
— Ela nesse tempo era mais magra e tinha
os cabelos castanhos, mas de um castanho que às vezes era quase negro e de
outras vezes se tornava quase louro. Esse cabelo era a sua alma. Azevedo,
coitado! refletiu vinte dias, torturou-se vinte dias. E nesses vinte dias, a
Maria lutou, em arte e manha, mais que um diplomata, graduando sabiamente as
concessões que dessem ao velho apaixonado uma vaga idéia do que poderia ser o
lar com uma doce criatura meiga, boa, fiel, sem azedumes, sem neurastenias. Os
amigos, sabedores do desastre, reuniram-se para salvar Azevedo. Todos os meios
falhavam; ou antes redundavam a favor da Maria. Um rapaz, Teofano de Abreu, se
bem me recorda, latagão inteligente e bem colocado da colônia portuguesa, com
certo desejo na Maria, prestou-se a um sacrifício colossal: fazer-lhe a corte,
conseguir possui-la e vir contar depois para o Azevedo o fato. A Maria não
resistiu, e Teofano, apesar de ter gostado, sacrificou-se. -«Azevedo, disse em
presença de várias testemunhas, não podes casar com a Maria». -«Porque?».
-«Porque te engana». -«Não admito que insultem uma mulher que vive comigo.»
-«Mas foi comigo, venho agora de lá. Ela será incapaz de negar na minha cara. E
se faço este ato indigno é para te salvar de uma horrível e irremediável
indignidade». Azevedo fez-se pálido, correu casa, e no outro dia não
cumprimentou mais nenhum dos seus amigos. Era fatal. E afinal, para de novo
possuir Maria, casou...
Fui encontra-los em
Paris, elegantemente instalados numa das avenidas da Étoile, num palácio
discreto. Maria tinha carruagens, coupé elétrico, arrastava à noite
pelos pequenos teatros maravilhosas capas de peles de muitos bilhetes de mil, e
frequentava vários lugares maus porque vendo-a um dia a pé a rodar um bistrô,
lembrei-me que bem podia estar de paixão por algum jovem apache, que
os apaches são os homens belos de Paris. É mesmo provável que tivessem deixado
Paris, quando já Maria dava uns chás a alguns vagos titulares internacionais,
por algum chantage de escândalo, que o Azevedo teve de saber e pagar.
Mas isso não era nada!
As exigências e o descaro de Maria cresceram na proporção do embrutecimento do
marido. Quando voltaram de Paris, ela exigiu no seu palacete toda a ala direita
mobiliada à indiana, com autênticos bambus de Calcutá, potiches de cobre
de Benares, deuses bramânicos de porcelana e de metal. O seu quarto tinha
guarnições de seda verde pregadas a grampos de coral; os cortinados eram de
gaze de Decã, a mais leve gaze do mundo. Aos pés da cama, um Vixnu de marfim,
o deus dos ricos, olhava-a a dormir. Frequentava-os por essa ocasião uma
turba-multa de homens sem preconceitos e rapazes bem dispostos, que forneciam
as traições ao Azevedo. Maria era uma pilha de nervos. Não se resignara ao
pobre cônsul; e a sua neurastenia explodia em desejos de humilhações e um
desenfreado apetite de sedução. À mesa, fazia o cônsul levantar-se, ir buscar o
seu leque ao segundo andar, para beijar o conviva, principalmente quando o
jantar era a três. De outras vezes, marcava-lhe a hora da entrada: -preciso
estar só. Apareça depois da meia noite. E nesses dias sempre alguém conhecia a
pele de tigre real com forro de brocado rubro, que havia na terceira sala da
ala esquerda, onde se amontoava a coleção de armas usadas por todos os soldados
dos rajás imagináveis.
Vocês riem! Eu afinal
tenho pena. Esse homem ganhava rios de dinheiro, gozava de boas relações...
Julguei-o um indigno. Não era. Era e é um ser que ama. Qual de nós não tem o
seu segredo inconfessável e um desejo irreprimível? O amor é o desejo, mas o
desejo da completa satisfação, dessa ilusão dos sentidos. Quando se quer assim,
somos arrastados como por uma corrente. Há casos piores a que apertamos a
mão...
— Mas, agora, que fazem eles?
— Não os vejo há dois anos. Naturalmente
ela quer ser família. É uma aspiração natural. Vi-a com ele, na abertura da
Câmara, numa pose de duquesa pintada pelo
Nesse momento, a bela
Chilena, Maria de Azevedo, ergueu-se. O impertinente fraldiqueiro saltou
da cadeira. O homenzinho baixo também, de outra. Ela viu o barão, que se
levantou, curvou-se. Azevedo abriu os braços.
— Oh! você! Há dois anos!
— Donde vem?
E os dois homens
abraçaram-se. Ele parecia velho, meio desconfiado. Ela, sob a luz opalisada das
cortinas brancas, sorria, um sorriso misto de inexprimível ironia e de vaga
satisfação, enquanto os seus olhos pousavam, como uma perturbadora carícia, na
mesa
Quando chegou a casa para almoçar, João Duarte
soube pela criada que a menina ardia
— Que tens, minha filha?
Maria não respondeu.
Apenas agitou a cabeça como se a incomodasse qualquer coisa no pescoço, e tinha
a pele de brasa, a pele que parecia fogo.
— Como foi? Como foi? perguntava o pai,
curvado sobre o leito. Comeste decerto alguma coisa que te fez mal. Uma fruta
decerto? Com este calor, louquinha, com este calor! Mas vamos mandar a Jesuina
ao médico. Ele vem já, dá-te umas drogas, e ficas outra vez boa, pois não?
Saiu para a sala de
jantar, escreveu á pressa um bilhete.
— Leva já isso ao doutor Guimarães.
Depressa.
— E o senhor não almoça? Está pálido.
— Não, perdi a fome. Esta Maria! Decerto
fez alguma imprudência. Anda, vai. Diz-lhe que venha imediatamente. Que te
parece a doença da Maria?
— Oh! meu senhor, uma das doenças da
menina. Oito dias, e sara.
João Duarte forçou um
sorriso de esperança e de novo foi-se ao quarto. A pequena continuava numa
ânsia, a mover a cabeça, os olhos fixos, uma vermelhidão na face, os braços
também vermelhos. João aconchegou-lhe as cobertas, apalpou-a, teve vontade de
tirar o cobertor ao mesmo tempo que lembrava ir buscar mais outro, abriu as
cortinas das janelas, olhou fora sem ver o movimento da rua, tornou à filha,
beijou-a, passeou nervoso, sentou-se à beira da cama, ergueu-se, apanhou uma
cadeira, suspirou, quedou-se com uma dor indizível a olhar a pequena. Era
sempre assim, era sempre aquele excesso. A sua filha, a sua querida filha! João
Duarte era um pobre professor de matemáticas, com uma larga fronte e um gênio
arrebatado. Diziam-no de grande talento os discípulos, posto que bastante
original. Filho de uma família rica e de raízes nobres, viu-se aos treze anos,
ao cursar o primeiro ano da Escola Central, na miséria, porque o pai morrera de
congestão em véspera de certa combinação da Bolsa e os sócios, irmanados na
infâmia, haviam absorvido com descaro toda a fortuna. João entregou a parte que
lhe cabia dos restos da herança às irmãs e continuou só a estudar, ensinando
para viver. Os amigos acharam excessivo o gesto do rapaz. Ele nem sorriu
-porque sentia na sua alma um desejo infinito de amar e dedicar-se.
— São minhas irmãs! dizia.
Naquele tipo de
matemático, havia um ser excepcional, o estofo de um santo? Quem sabe?
Ele resumia a vida no
amor que se entrega suave e sem mácula, e enquanto através do seu curso
brilhante, lentes e condiscípulos vaticinavam-lhe o mais brilhante futuro,
pensava em criar uma família, em ter um lar para ter alguém seu e inteiramente
dedicar-se, velando, cuidando, sendo a causa dos prazeres, o principio das
alegrias de alguém. Casou com uma pequena de família humílima antes de terminar
o curso. Era um colégio gratuito em que meia dúzia de rapazes ensinavam meninas
pobres. Ela aparecera aos treze anos, pálida, com as mãos bem tratadas, um
sorriso de resignação nos lábios. Ele indagou da família, e certa vez em aula:
— Menina, queres casar comigo?
Toda a aula riu,
achando graça na pilhéria do senhor professor. A pequena ficou mais pálida e
duas grossas lágrimas rolaram-lhe pelas faces brancas. Ele foi dali à casa da
mãe, uma senhora viúva de gênio irascível, que vivia com três filhas honestas a
fornecer comida para fora.
— Mas, senhor doutor, está louco! Minha
filha tem treze anos apenas. É uma criança.
— Não importa. Espero até aos quinze,
mas fica noiva.
A mulher desconfiou a
princípio e negou-lhe entrada. Ele começou a presentear a criança, e dar-lhe
dinheiro entre as folhas dos livros mandados à velha, de quem sabia as
necessidades, a enche-la de cuidados, num exagero que a assustava. Era um amor
mais de pai que de noivo, um amor sem desejo de carne, espiritual e enorme. Ela
foi a pouco e pouco acostumando-se, vendo nele o protetor, menos que o
apaixonado. Certa vez, ao entrar na aula, recebeu a primeira carta de amor:
«Venha já. Mamãe com um ataque. Nós três sós e aflitíssimas». Partiu. A
moléstia da velha era grave e ele ficou para fazer-lhe fricções, dar-lhe
banhos, enquanto naturalmente as despesas da casa corriam por sua conta. Quanto
era preciso trabalhar! Lecionava em três colégios, tinha aulas particulares,
ensinava à noite turmas de calouros. Morria de trabalho e estava
satisfeitíssimo, sentia-se feliz quando a Aurélia dizia:
— O pai quando era vivo também fazia
assim!
Para não chocar a
suscetibilidade da velha, imaginou tomar pensão na sua casa, pagando o triplo
do que devia pagar, acabou pedindo-lhe um quarto, em cima, no sotão do velho
prédio, o quarto em que estavam os cacaréos. Quantos sabiam do fato comentavam-no com
acrimônia. Estava o João Duarte de dentro, com três
virgens! Que sátiro! Sempre que a opinião da rua filtrava através das portas, a
velha em cólera, bramia, gesticulava, bradava. E João, sem forças, dizia
súplice:
— Mas se não é verdade? Se a senhora
sabe que não tenho tensões más?
— Era melhor que as tivesse! Ao menos
sabia-se logo! engrolava a velha no auge do furor.
— Que se há de fazer? Cada um como nasceu...
Ao cabo de dois anos,
porém, casou. Foi modesto o casamento. Ele apareceu com o mesmo fato preto com
que diariamente labutava. Não lhe sobrara dinheiro, tanto era o luxo para a
noiva e tantos os objetos comprados para a nova casa, aos poucos, com mil
sacrifícios e uma porção de trabalho, muito trabalho. Mas Aurélia não o amava.
Nunca amou a ninguém. O desequilíbrio nervoso da mãe redundara nela numa vaga
histeria. Precisaria de certo de um homem brutal. Encontrara perdida no mundo
uma rara alma. A influencia da mãe, as suas ordens, os seus conselhos era que a
regiam. João marido passou a ser a criatura que tem obrigação de dar. Ele dava
como um escravo. Nunca um enlevo, um simples gesto terno lhe acolheu
sacrifícios de dinheiro, sacrifícios de trabalho. A família, por ver Aurélia
feliz, começou a quere-la menos. As duas irmãs solteiras açulavam os maus
instintos da velha, e eram elas que faziam a chuva e o bom tempo na casa de
João. Às vezes, Aurélia entrava em casa a chorar:
— São umas miseráveis! Trataram-me como
um cão, depois de lhes ter dado uma porção de coisas!
A cólera estalava na
alma de João.
— Já não te tenho dito tanta vez? Não
lhes fales! Elas invejam a tua felicidade.
— Se elas soubessem!...
— Então, não és feliz?
— Eu feliz?... Ah! que idéia!
Um grande desejo de
insultar aquela criatura vulgar empurpurecia a face de João. Mas para que? A
pobre mulher não o compreendia, ele é que escolhera mal amando-a, amando-a com
aquele estranho amor de altruísmo e incapaz de viver senão para por ela sofrer
e a ela dar todo o produto do seu sangue, dos seus nervos, da sua inteligência.
De resto, Aurélia rebentava em choro ou caía em profundos silêncios agonientos.
Era preciso diverti-la, dar-lhe mimos, leva-la ao teatro. Então João
multiplicava-se. Quando não havia criada, era ele de madrugada que ia acender o
lume, preparar o primeiro almoço, levá-lo à cama. Saía, corria às obrigações,
com a redingote verde e os sapatos em mau estado, voltava para o almoço
carregado de frutas, de gulosinas de que ela dizia gostar.
— Trouxe-te figos e bombons. Come.
— Não quero, fazia ela instintivamente
cruel, empurrando os embrulhos.
Ele tinha um vinco de
tristeza e de raiva logo sopitada. Mas comia à pressa qualquer coisa, ia logo
trabalhar. Ao jantar trazia-lhe sempre uma recordação, ria verificando que já
não existiam frutas e bombons, mandava-a vestir para o teatro, e ainda dava
explicações a uma turma, entre o jantar e o teatro. Ela saia sempre contrariada
porque o marido tinha pressa e voltava em cólera porque havia no teatro
mulheres mais bem postas ou porque a peça não lhe agradara. João, humilde,
preparava-lhe o chá, preparava-lhe o leito, ia para a sala escrever e estudar
até de madrugada, e muita vez Aurélia acordou sobressaltada, com ele ao lado a
olha-la enternecido.
— Ah! que susto! até pareces um
lobisomem!
Mas, de súbito,
Aurélia aparecia mais alegre, consentindo mesmo numa carícia. Era a
reviravolta. Fizera as pazes com os parentes, ou antes, sem recursos, a velha
mãe e as irmãs solteiras tinham vindo alegremente fazer-lhe uma visita. As
frutas, os bombons iam embrulhados tal qual para a casa delas, os cortes de
vestido, os frascos de perfumes sumiam-se do guarda vestido.
— Como estou aborrecida! Se me deixasses
ir ver a mamã? Ela afinal é mãe. Não há duas mães...
— Vai, filha. Não te prendo, mas vê se
consegues demorar as pazes.
— Se elas brigaram foi culpa tua. Não
insultes a minha família. Minha mãe é minha mãe.
— Bom, bom, nada de zangas. Vai, anda...
Por que tentar o
impossível? Ela não o compreenderia nunca. Era um espírito de criança numa alma
de mulher sem amor. Como sentir aquela afeição tão fina, tão superior em que a
honra, a dedicação, o sonho de um homem cheio de coração irradiavam? Um
rapazola qualquer com três socos talvez abrisse na rocha a fonte do amor. Um
tipo cheio de dinheiro espalhando notas do banco talvez a fizesse esquecer os
seus deveres de esposa. E João Duarte recalcava bem no íntimo um vago e atroz
ciúme do que não existia, culpava-se, culpava-se e vinha a ama-la mais, a
rodea-la de maiores carinhos para não perde-la, para não se ver perdido, porque
precisava amar alguém, dar a sua dedicação a alguém. Assim viveu dez anos.
Parecia ter vivido vinte. Estava magro, abatido. As roupas de baixo tinha-as
rasgadas. Os fatos duravam-lhe dois anos. Não bebia senão água: comia sempre
pensando noutra coisa, e dormia pouco, cada vez menos, com o cérebro cheio de
preocupações, as aulas, as vontades de Aurélia a satisfazer, os negócios a
liquidar com os prestamistas. Foi por essa ocasião que a mulher se fez mais
criança ainda, começou a ter vômitos, a sentir os pés inchados, a vociferar com
ciúmes, despedindo as criadas aos gritos. João não acreditava. Seria possível?
Mas o médico não lhe deixou dúvidas. Após dois lustros de
união, Aurélia estava grávida. Todo o desejo do pobre em fim realizado! O seu
amor foi tão grande, o sentimento da paternidade fê-lo tão loucamente feliz,
tão cheio de carinho para com a mulher, que ela, uma vez na vida, cedeu,
deixou-se embalar. E eram passeios e eram consultas de médico e eram beijos.
Nos últimos dias era ele quem a vestia.
— Vamos ter um filho! Um filho! Sorri,
tolinha! Sorri! Vai ser tão bom... Se for mulher, havemos de chama-la Maria,
hein? Querias que fosse homem? Ah! egoísta! Os filhos gostam sempre mais das
mães que dos pais. Mas há exceções. Tu por exemplo és mulher e gostas muito da
tua mãe.
— Não fales! Não fales!
O parto foi laborioso.
Aurélia gritou duas noites, julgando-se desgraçada e intimamente culpando
daquele horror o marido, que não dormia, de um para outro lado, aflito, pálido.
Quando a pequena nasceu, uma noite de temporal no mês de junho, João ao toma-la
ao colo sentiu uma tontura de alegria. O mundo se transfigurava. Os móveis
tocavam-se de uma luz estranha. O teto abria uma chuva de delícias. Afinal o
destino realizava a sua única vontade: uma filha! O seu sangue, parte do seu
ser, com alguma coisa da sua alma, o desdobramento belo do seu eu. A essa sim,
ele podia amar totalmente, com o seu grande amor sempre contido e represo, a
essa devia amar e sentia amar, a essa entregaria a sede de pureza e ideal do
seu coração dedicado, porque ela havia de compreende-lo, havia de senti-lo,
havia de saber que a sua vida inteira de esforço, de coragem e de sofrimento
tinha por fim, por meta do sonho, por último círculo do paraíso -ela.
— Minha filha..., murmurou num êxtase,
minha filha...
Mas decerto o destino
dando-lhe uma filha queria simplesmente aumentar as angústias desse humilde
coração sensível, feito de excessos de ternura e de dedicação. Maria nascera
doente. Aurélia, vendo que os carinhos do escravo diminuíam e por uma feição
dos seus nervos em desequilíbrio, desinteressou-se dos carinhos maternos ao
mesmo tempo que sentia um violento ciúme do marido, apontando-o como o inimigo
pronto a roubar-lhe o amor da filha. Era o próprio egoísmo, o feroz egoísmo das
histéricas. João entrava da rua ansioso.
— E a pequena?
— Não sei, pergunta à ama. Pois se não a
largas!
Ele queria sorrir,
hesitava, não compreendia bem aquele azedume eterno e lá se ia para o berço a
olhar, a olhar, muito, muito... Sem nunca ter aprendido, viu-se à perfeição a
enfaixar a petiza, a embala-la, a cantar cantigas, com uma voz muito triste.
Ele, que nunca na sua vida cantara por não ter tempo nem alegria, sentia
naquela obrigação de carinho paterno que cantar era para a sua alma como
desabafar soluços guardados no seu peito de homem muitos anos antes, toda a sua
vida.
Quando se anunciou a
dentição, Maria foi presa de uma febre violenta. João desvairado mandou chamar
um médico amigo, seguia-lhe as prescrições à risca, com altas doses de quinino,
e a pequenita deu de piorar. Era um erro de diagnóstico, o tratamento
contrário, a morte. Em casa havia uma balbúrdia. Aurélia, incapaz de resistir,
dormia nas cadeiras. As irmãs e a mãe, inteiramente inúteis, julgavam a criança
perdida e apostavam o dia da sua morte. Ele nem mais dormia, nem mais comia,
aflito, louco, com a pequenita nos braços, sem consentir que a tocassem.
— Deixem! Tenho esperanças! Uma grande
esperança...
— Qual! aqui só o milagre!
Começaram as
conferências. Os remédios enchiam os consolos da sala. Um dia, fora de si, ele
chamou o médico.
— Está perdida?
— Meu pobre amigo...
— Está?
— Infelizmente.
— Pois bem. Peço-lhe um grande obséquio
de camarada. Venha apenas passar o atestado. Não lhe demos mais medicamentos.
Custa-lhe tanto! Ela faz uma cara tão feinha. Eu fico a acalenta-la até a
morte. Talvez o meu amor...
— Sim, talvez, fez o médico a sorrir com
descrença.
E ele ficou, no
escândalo condenador de toda a casa, a passear a filha, a dar-lhe gotas de
leite, a anima-la, a incutir-lhe com toda a força da sua vontade o desejo de
vê-la viver, de vê-la renascida. Assim passaram quarenta dias. Quando ao cabo
desse século de dor e de tensão nervosa, viu a pequena sorrir-lhe sem febre,
sã, de aparência sã, mirou-se num espelho por acaso, ao passar, e notou então
que tinha ainda envelhecido. O médico chamado confirmou:
— Sim, com efeito, a reação... Mas como
sofreste, meu amigo! Estás mais branco.
— Que queres? É a vida, fez ele a rir
para os outros que sorriam. E querer bem custa tanto!
A doença da filha
viera desorganisar-lhe a vida do lar, se é que tinha isso. Aurélia cada vez
mais nervosa, de pior humor, estava realmente doente e não se sentia senão
irritada contra a filha. João não podendo conceber esse coração, dividia-se
entre as duas, atenuava, mas à proporção que o amor da filha mais se enraigava,
a mágoa da esposa aumentava. Maria, a petiza, tinha uma saúde de vidro. O pai
fazia-lhe uma atmosfera de suavidades. Foi ele quem lhe ensinou os primeiros
passos, foi ele quem a fez repetir as duas primeiras sílabas formando sentido e
quem toda noite até Maria ter cinco anos a adormecia numa vasta cadeira de
balanço a cantar baixinho velhas canções de embalar crianças. Aurélia,
indignada, à hora de ir ao teatro, surgia.
— Mas é espantoso! Adormecer ao colo uma
pequena de cinco anos! Bem diz a mamã que as tuas maluquices estragam a menina!
João deitava a filha
recomendando à criada mil precauções. No teatro ou onde estivesse a conduzir a
esposa, apanhava sempre alguns minutos, tomava um tilburi, ia
até a casa ver se Maria dormia bem.
Esses cuidados, o amor
incomparável faziam a petiza grata, com a gratidão das crianças que é de tão
grande egoísmo. Como a avó levava a fazer-lhe censuras com o pretexto de a
educar assim como as tias, Maria odiava os parentes. Como a mãe nos seus
acessos neurastênicos dava razão à família e batia-lhe, tinha pela mãe um
sentimento muito vizinho do medo. O pai era bem tudo, resumia todos os amores
na sua permanente carícia, e fazia-lhe todas as vontades, comprava-lhe
brinquedos, brincava com ela, e nada mais agradável para os seus curtos
instantes de descanso do que ir fazer com a filha o «chicote queimado», fingir
que não descobria um lenço escondido e vê-la rir, rir como riem as crianças,
pondo um pouco do céu sobre a terra. Enfim ele realizara a felicidade. Havia um
ente por quem se sacrificava mas que só no mundo a ele via com amor! E a cada
achaque de moléstia, a cada febre violenta da menina, ficava aí perto do leito,
sem pregar olho, olhando-a, exigindo que ela vivesse, com medo dos médicos, da
família, de todos. Dos sete anos porém para diante, Maria só adoecera duas
vezes e ele estava já pensando num fenômeno de saúde, já descansado, já com o
sonho de um futuro risonho ao ver a filha linda, corada, sadia, quando ao
entrar em casa encontrava-a assim, a arder
Então João suspirou de
novo. Teria coragem de ir até ao fim, teria energia para vencer nessa nova
luta? E foi ao encontro do Guimarães, que entrava acompanhado da Jesuina.
— A Maria, sabes, aquelas coisas...
Parece-me sério.
— Vamos a ver. Não te aflijas.
Entrou, começou a
examinar a doentinha, demorou o exame num profundo silêncio,
— É difícil um diagnóstico. Por enquanto
vamos dar-lhe um laxativo e um pouco de quinino para combater a febre.
— Quinino! Ela tem horror ao quinino.
— Ora, João, deixa de tolices. Como
queres tu combater a febre? Ela tem trinta e nove e oito décimos.
Foi-se a receitar, e
como amigo da casa, ordenou a Jesuina levar a receita.
— Volto à tarde. Até logo. Não te
aflijas, homem.
João ficou no quarto,
tal qual tinha entrado, com o chapéu na cabeça, a sobrecasaca aberta. Era como
se tivesse recebido a notícia de que o mundo ia a desaparecer. Então a sua
filha doente? E grave, grave! Sim. Estava grave! A pequena no leito crescia da
agitação, erguendo os braços, sacudindo a cabeça nas travesseiras. De repente,
ergueu-se atirando longe as cobertas, sentou-se.
— Minha filha, que é isso?
— Já é tarde, vou vestir-me.
— Não podes; estás doente.
— Ah! quanto fogo! É um fogo de
artifício. Espera. Onde estão as botinas?
— Maria! Maria! olha teu pai.
— Ah! as baratas, as aranhas. Que porção
de baratas! Vamos mata-las, vamos. As botinas...
Era o delírio. Sem
forças para rete-la, temendo magoa-la, João acompanhou-a. A pequena corria a
casa, ele precipitava-se para fechar uma ou outra janela, para amparar-lhe os
passos titubeantes. Era o delírio. Era a morte. Oh! sim, era a morte! Maria
entretanto não caminhou muito. Súbito esmoreceram-lhe as pernas, e ele levou-a
ao colo para o leito, aconchegou-a bem, ajoelhou na borda da cama.
— Maria, descansa; não morras, minha
filha, não morras porque eu não resisto!
E sentiu que chorava,
que pela primeira vez na vida chorava na presciência da fatalidade inexorável.
Mas era preciso lutar, arrancar o seu entesinho ao irremediável. Enxugou as
lágrimas, as idéias um tanto confusas. Aquela calma de amor com que reagia
sempre outrora se transformara numa agitação febril em que a sua vontade se
perdia. Quando os medicamentos chegaram, foi ele mesmo a administra-los. A
febre continuava.
Para o jantar Aurélia
entrou, e ainda toda enfeitada no quarto:
— Então que é isso?
A Aurélia mal, desde
que saíste, parece.
— Não há de ser nada.
— É grave. Já delirou, está delirando.
Maria, minha filha...
— Se mandássemos prevenir a mamã?
— Faze o que quiseres, deixa-me,
deixa-me!
Ao escurecer, o doutor
Guimarães reapareceu. A febre não cedera, antes aumentara. O médico balançou a
cabeça. Era impossível fazer ainda um diagnóstico, mas o estado da menina
inspirava cuidados. Se não tinham confiança nele, poderiam chamar outro para
uma conferência, e mesmo não o preferir... De resto a casa já tinha esse
aspecto que precede as tragédias, como se o inanimado, os móveis, os muros, os
quadros, os objetos sentissem antes dos homens o arrepio da morte, a passagem
da ceifadora. A família de Aurélia aparecera. A velha dogmática arrasava
Guimarães e queria outro médico. As irmãs já asseguravam o caso perdido, como
de costume. A vontade de João sossobrava. Ele queria estar apenas perto de
Maria, não se tirar dali, ser o único a cuida-la. Então foi pela casa, dirigida
pelas mulheres, como um vento de ensandecimento. A primeira conferência
relegara Guimarães. Um outro médico moderno e célebre aparecera, imaginando
banhos quentes e injeções hipodérmicas de quinino, enchendo os aparadores de
frascos e de caixetas. Batiam à porta sinistramente os fornecedores. Uma grande
banheira foi instalada no quarto. Para enche-la, cada um trazia o seu jarro
d'água a ferver. João calafetava as portas, despia com uma delicadeza infinita
a pobre Maria, tomava-a ao colo, depositava-a na banheira com um arrepio, como
se estivesse a matar a filha, enquanto o médico contava os minutos. Tomava a
pegar da criança, enxugava-a, envolvia-a nos cobertores, quedava-se, com os
olhos muito abertos, um vinco de angústia entenebrecendo-lhe a boca. E o médico
tomava da agulha, enterrava-a no ventre da filha, indiferente, conversando.
Como apesar dos laxativos, o ventre continuava átono,
recorreram aos clisteres. Ele os dava só, sabia de todos os remédios e passava a
noite, aos pés da cama, olhando a filha. Quando ela dormia, chorava, e
murmurava tão baixo que só a sua dor o ouvia.
— Não me deixes, Maria, não me deixes...
Ah! não que eu morro, que eu morro! Por que vieste, hein? Por que? Para me
fazer sofrer? E de uma vez em que estava assim, com a face molhada de lágrimas,
ouviu a voz da filha:
— Ah! paisinho! Quanto trabalho está
tendo comigo!
— Maria!
— E não vale a pena...
— Meu amor, não fales, ouviste? dorme.
Estás muito melhor.
Tocou-lhe nas mãos, e,
com efeito, sentiu-as menos quentes. A febre declinara. Uma chama de esperança
brotou-lhe no coração. Esperou ansioso a manhã, e quando o médico chegou,
disse-lhe quase a sorrir
— Está melhor. A febre diminuiu.
— Acontece. É do curso da moléstia. Tem
trinta e oito graus de febre.
— Então?
— O perigo ainda não desapareceu, meu
caro. Sua filha tem uma grave moléstia com períodos fatais. Há quanto tempo
caiu? Há oito dias. Desde esse momento os dias tem se conservado firmes, de
sol. Esperemos que assim continue o tempo mais uma semana e eu garanto a vida
da pobre criança. Mas, se por acaso tivermos uma brusca mudança meteorológica,
uma tempestade, o abaixamento da temperatura -é difícil dizer qualquer coisa.
— Então, se o tempo conservar-se
firme?...
— E se houver a tempestade...
Certo João Duarte
nunca na sua vida se sentira tão a braços com o destino triste. Ouvira falar de
moléstias em que a variação atmosférica influi perniciosamente, sabia mesmo o
nome de algumas, mas a hiperestesiada sua angústia, a tensão nêurica em que o mantinha
a iminência do desastre, aquele ror de noites passadas em claro, o esforço
físico de andar com a petiza ao colo já tão crescida, e esse martírio de sofrer
na alma todos os cruciantes sofrimentos físicos da filhinha faziam-no perder a
noção nítida das coisas, esbatiam a vida em torno do grande problema: salvar Maria.
A idéia da tempestade entrou-lhe no cérebro de matemático, de homem de ciência
sem abusões, sem crendices, como o anúncio da catástrofe que era preciso evitar
a todo transe. Um tremor convulsivo tomou-o, e a sua atenção bipartiu-se entre
o céu e a filha com o pavor de um primitivo diante dos elementos. Se chovesse,
se no céu lindo rolasse o fragor do trovão e nuvens negras toldassem o azul do
firmamento, toda a razão de ser da sua existência naufragaria porque a filha
não poderia escapar. Não se tirou mais do quarto. Passava a velar Maria e a ir
de vez em quando levantar a cortina para olhar o céu, com um medo
supersticioso. Era em novembro, no começo do verão, nessa época de bruscas
tempestades em que amainavam os grandes calores. A temperatura subia, o sol era
um disco de fogo no azul de cobalto, do céu sem nuvens; e as noites se diluíam
num escandaloso luar cor de ouro e cor de opala. Estavam a findar os dias do
plenilúnio, iam entrar na minguante. Talvez mudasse o tempo.
A febre não cessara, queimando a fogo lento os membros emagrecidos de Maria. A
nevrose da casa tivera um hiato de cansaço, à espera do acontecimento. A
família dormia pelas salas, sem pouso. Aurélia tivera dois ataques com gritos
despedaçadores que faziam no seu leito a doentinha contrair o semblante numa
inédita angústia de cadáver horrorizado subitamente voltado à agonia. Ele
quedava-se, ouvindo o crepitar da lamparina e o tic-tac do relógio na sala de
jantar a coser o tempo no pesponto certo dos segundos. Qualquer outro rumor, o
arrastar de uma cadeira na casa vizinha, as vassouradas dos varredores pela
madrugada, faziam-no pensar em trovões ao longe, em quedas d'água. Corria então
à janela, levantava a cortina, perscrutava o céu calmo. Ah! se não chovesse! Se
o milagre se desse! Se Deus quisesse! Até mesmo em Deus ele acreditava, pondo a
reger aqueles fenômenos que a sua ciência conhecia, um ser sobrenatural e todo
poderoso. E assim os dias passaram. Um, dois, três, quatro dias que eram para
ele a corrida do seu coração, o galope dos sentidos por um túnel de treva à
procura da luz anúncio da vida, dias de que contava as horas e os minutos e os
segundos como se os sorvesse sedentamente num contador de fel, dias que lhe
chupavam das artérias anos de existência.
— Façam uma promessa, segredava às
mulheres, vocês que acreditam. Façam uma grande promessa. Eu cumprirei...
As criaturas,
incapazes de sentir assim, estavam afinal tocadas de respeito, lamentando tanto
a criança como aquela energia humilde que a seu lado se finava por ama-la
demais. Os santos surgiam. Havia oratórios na sala de visitas, no quarto de
Aurélia, com velas a crepitar. E a febre continuava a ressecar a pele branca de
Maria, sempre, sempre, sem descontinuar. No quarto dia -era de madrugada e já
João fora varias vezes olhar o céu- estava sentado a olhar o sono tenebroso da
filha, quando pelos seus olhos passou um relâmpago. Não, era de certo
alucinação da fraqueza. Correu à cortina e quedou-se com um arrepio de horror.
Grossas nuvens vinham vindo do ocidente. A luz da lua era de uma intensidade
cegadora, envolvendo de tal sorte o casario que parecia libra-lo numa
atmosfera de sol azul, coroando-o de icebergues de flocos. Na linha do
horizonte, porém sucediam-se clarões como os que fazem os canhões ao longe a
detonar. Era mesmo um canhoneio de chamas, de que ainda não se ouvia o barulho
mas que barravam a barra do céu de putrefações luminosas.
João Duarte correu à
filha, apalpou-lhe o braço descarnado, que ardia. Nesse momento ouviu-se um
grande fragor pelo céu todo. Era o trovão. João passou várias vezes a mão pelo
rosto. Era impossível! Era impossível! Talvez ele estivesse tentando os
elementos, com a idéia permanente da chuva. Procurou alhear-se, pensar noutra
coisa, arquitetou frases vagas, com os ouvidos à escuta, os olhos dilatados.
Esteve assim um
instante que lhe pareceu um século. Não resistiu, voltou á janela. Já o céu de
um azul de vidro se achamalotava e se rendava de nuvens cor de cinamono. Qual! Era
verdade! A chuva vinha, era fatal! Nunca na sua vida o destino sorrira senão
para lhe lançar mais veneno na alma. Assistiria de pé à hecatombe. E depois
estalaria, estalaria como estalara o trovão.
Que fazer? O céu em
pouco foi todo um licor que baixava, empedrado de nuvens, empurradas pelo
vento. A rua, minutos antes banhada de luz, escurecia
João olhou então a
filha. A pobrinha mostrava apenas a face de cera entre os caracóis dos cabelos.
As olheiras eram roxas e o nariz afilava na sombra do para-luz. Pobresita!
Estava a descansar. Ele ficaria ali, contra o elemento, proibindo-o de entrar,
impedindo-o de passar. As idéias fugiam do seu pobre cérebro sempre resignado.
Abriu os braços nos portais, ficou assim longo tempo, pensando, pensando na
tempestade, na filha, na tempestade que ia acabar, na filha que não podia
morrer. Quanto tempo levou assim? Era impossível saber. Um zumbido tomara-lhe
os ouvidos na recordação dos trovões, as fontes latejavam-lhe, e tinha as mãos
frias como se as tivesse passado
— Maria, ó Maria, melhorzinha?
A pobre não respondeu.
Também tão fraca! Nem de certo escutara... Chamou mais alto:
— Maria, então? queres deixar o pai do
seu coração sem uma resposta? Não vês? Estou só, eu só aqui, eu que sofro
contigo. Maria.
Estava atormentando-a
com certeza. Ah! que bruto era, que mau! As mãos, porém, esfriavam. Oh! Uma
nova complicação na noite, mais dores, mais males, mais horrores. Que seria?
Foi até a cômoda, acendeu uma vela, veio ver de perto a sua adoração.
Maria tinha os olhos
abertos, bem abertos, grandes, largos, abertos. Qualquer coisa de vidro
cristalizava-lhe o brilho. E os lábios descerrados mostravam entre os dentes
uns filamentos brancos, secos, uns filamentos que nunca vira. À luz da vela as
pálpebras não bateram. Uma grossa lágrima rolava-lhe pela face. Já se lhe não
sentia o respiração.
João Duarte deixou a
vela ao lado, na cadeira, virou-se para um lado, virou-se para outro, passou as
duas mãos pela cara, esmagando os dedos de encontro aos olhos, quis falar, quis
chamar. Parou, pousou de novo o olhar no olhar que se embaciava, olhou, olhou a
filha. Um tremor tomou-o, sacudiu-o, abriu-lhe a boca, como que lhe esgarçou os
músculos. As mãos crisparam-se-lhe. E, de chofre, caiu para frente, sem apoio,
no chão, com a face de encontro ao pé da cama, estalado de muito amar
desgraçadamente.
Estávamos na sala
malva, a sala das recepções íntimas, das conversas leves em torno da mesa do
chá. Mme de Sousa, linda no seu teagown cor de
pêssego, posava entre a trêfega mme Werneck e a sisuda viscondessa de Santa
Maria, e nós, eu e o barão Belfort, já tínhamos esgotado o ataque à música
italiana, quando mme Werneck deu conta da sua última descoberta:
— O barão está triste.
— Pois se venho de acompanhar um
enterro.
— Triste por isso? O barão, o homem sem
emoções, triste porque acaba de fazer a coisa mais banal desta vida, entre
pessoas de sociedade!
— Não é propriamente por isso. Estou
triste porque vi enterrar a última mocinha romântica deste agudo começo de
século. Se lhes contasse a história da pobre Carlota Paes, ficavam para aí
todos a chorar, e antes de tudo, nesta hora agradável, nunca me perdoariam ter
envermelhecido os lindos olhos de mme Werneck.
— Mas, pelo que vejo, a sua história tem
a propriedade do dilúvio! fez asperamente a viscondessa.
— Conte-nos isso, barão, disse mme
Werneck; com a sua história contemporânea do dilúvio faremos decididamente
coleção de antiguidades sisudas.
Houve um aproximar de
cadeiras. O barão bebeu um gole de chá.
— Não conheceram a Carlota Paes? Pois a
pobre Carlota Paes, coitada! já com um começo de tísica e um perfil romântico,
dava mesmo pena, à noite, no parapeito da janela, muito branca, como desmaiada.
Ninguém lhe sabia da vida, e vendo-a assim, à janela daquela velha casa, todos
a deploravam. Quando a Carlota atravessava a brutalidade do bairro pobre, com a
apagada dor dos humildes aristocratas, trazia no rosto um tal desgosto que era
por quantos a conheciam um só lastimar. Também saía apenas para acompanhar a
mãe, uma senhora escalavrada e roída como um vaso antigo, para acompanhar com o
seu passo de visão a pobre velha carregada de pesadas costuras. Fôra assim
desde nascida! Olhava os pobres e os parentes como se guardasse na alma a
recordação de um mundo melhor, alheava-se deles, e quando a viam recolher ao
sobrado em ruína, já todos tinham a certeza de vê-la aparecer à janela, muito
loura, e muito branca.
Que fazia ela, assim,
por longas horas, alheia à rua, olhando o céu, como um personagem de romance?
Coitada! Era o único meio de esquecer a miséria da casa, a miséria que embota a
alma e engrossa as delicadezas. Carlota ficava ali, numas atitudes serenas de
pássaro triste, com o olhar cravado no infinito, e toda a suavidade sensitiva,
quebrada pela incompreensão dos outros, mucilaginava uma
dolorosa expectativa.
Parecia um tipo de
lenda à espera da fada que o fosse salvar do bairro escuro e daquela pobre
senhora sempre a trabalhar e sempre de preto.
Como estão a ver, era
uma menina romântica, e que romantismo, minhas senhoras! Até eu cheguei a
admira-la. Tossia mais, estava diáfana, parecia uma ninfa virada em anjo da
saudade -porque, decerto, quem lhe visse o olhar e os irresolutos gestos,
julga-la-ia perdida de um paraíso artificial. Não lhe pude saber a origem desse
esquisito feitio, e certa vez que lhe levava «bombons» e lhe falei em paixão,
ela teve um gesto tal, que me esfriou a alma. Também, como sumida da realidade,
nunca ninguém a tinha visto à janela baixar o seu severo perfil às vulgaridades
do namoro.
Esperava, nada via, e
com a sua ansiedade, assim ficava até tarde, muito branca e muito loura,
olhando o céu.
Uma vez, no mês de
junho, a Carlota estava a chorar, nem sabia bem porque, diante da álgida luz do
luar, quando na casa junto, o harpejo brusco e sonoro de um piano
sobressaltou-a. Do outro lado lentas espirais melódicas espraiavam-se,
envolviam-na. Era, num turbilhão contínuo de notas, de expressões subitâneas e
diversas, a expressão persistente, torturante do desejo que não se termina e se
preludia, do amor cuja volúpia jamais alcança o paroxismo. Ela ficou presa,
estarrecida. Quem seria? Nunca ouvira aquilo, nunca sentira os nervos tocados
daquele brusco quebranto, daquele epidérmico encanto do som, exprimindo o
inexprimível. Os sons, como carícias de rosas, iam a pouco e pouco
desfibrando-a, envolvendo-lhe a alma, machucando-a, toda ela palpitava agora
com uma tremura de folha ao vento. Teria chegado a felicidade, o impalpável
prazer até então vedado? Aconchegou-se mais ao xale, com um arrepio de gozo que
lhe subia pelos braços e lentamente se irradiava pela nuca.
Do outro lado a
música, velada, num resumo de mil emoções, esboçava paisagens sutis e
esfumadas, desfiava risos perlados, cavava-se em soturnas mágoas, e como se a
vida extra-humana fosse um só gemido de amor, toda ela espiralava tormentosos
queixumes, endechas dolorosas, perdidos soluços de paixão. Para os grandes
sensuais só ha um gozo integral que exprimia a ânsia de acabar e a fraqueza
humana -o som, a vibração de uma corda na lamentável evocação de vidas que se
não realizam.
Para que o sentir da
pobre criança fosse mais intenso, no espaço, as estrelas palpitavam e a luz do
luar lustrando as casas com o seu misericordioso brilho, entrava pela janela
num retângulo de ouro que parecia milagre. Oh! nunca a doce Carlota se sentira
tão emocionada, ela que sempre vivera na expectativa do bem!
Essa noite passou-a à
janela até muito depois do piano calar, ouvindo-lhe o último som perdido na
cinza avelhada do luar, e desde então andava o dia à escuta e toda a noite
passava, em que o oculto pianista tocava, presa ao parapeito, entre a luz dos
astros e os sons misteriosos. Nós já ríamos da paixão.
— Então a Carlota?
— Ai! meu senhor, continua a viver dos
sons, está de todo virada!
E quando eu lhe levava
alguma coisa:
— Então a sra. d. Carlota sempre com os
sons?
Ela pendia na cadeira
sussurrando
— É tão bom!
Aqueles sons, como um
rosário sem fim, que se desfiasse, iniciavam-na numa religião de amor
desencarnado, e quando qualquer dificuldade emperrava do outro lado a mão do
tocador, a Carlota sentia uma agonia como se hesitasse em compreender todo o
alcance pecaminoso da frase. Vinha-lhe às vezes a curiosidade de saber quem era
esse tocador. Passava os dias à espreita; a casa ao lado, uma pensão, não lhe
deixava adivinhar, entre as muitas pessoas que entravam, o artista estranho da
noite. Perguntou à mãe se a informavam e a velha senhora respondeu que não
sabia, que não era possível saber.
Bruscamente, então,
perdeu esse desejo. Conhece-lo para que? Bastava a delícia de ouvi-lo, bastava
a inconsútil paixão que a rojava a seus pés! E perdia totalmente as noites,
essas noites de agosto, traidoramente frias, em que a luz brilha mais, há mais
perfume no ar e as brumas, ao longe, parecem sudários consoladores. Era um
inebriamento até ao romper da alva. No fim, quase se arrastando, ia para o
peitoril, como para uma tortura e do outro lado, a música inquisidora
amortalhava-a desabridamente no delirante tropel do amor!
Ah! o gozo do som! Os
seus nervos sensíveis chegavam ao pranto, ao soluço, ao sorriso, como
hipnotizados. Cada nota já lhe exprimia um sentimento; os trechos repetidos
pelo artista ela os seguia, adivinhando acordes, adivinhando sons, como se
fizesse o exame da sua alma de amorosa, e de cada vez, mais maravilhada ficava,
bebendo a pleno trago o delírio, a morte, o êxtase da música encantada.
Decerto, ninguém, ninguém no mundo amava, sentia-se ainda com esse sagrado e
impalpável amor. Encostava-se ao parapeito, esperava e era sempre com um susto
que, de repente, ouvia abrir-se uma escala, como acordando o piano, e as duas
vibrações de bordão, dois acordes de contrabaixo, pesados e sonoros. Depois, um
som subia, outro respondia, o aviário se encadeava num trinado. Muita vez, o
pianista que fundia a alma com as notas, tocava várias árias simples, com um ar
velho, como se os séculos todos chorassem a vida; de outras, eram trechos
modernos, trançando no ar uma flora bizarra de nervosos acordes e era então uma
revoada de dores, ais sem fim, queixas em harpejos arquejados, rugidos rubros
de ciúme, em que o piano parecia abalado e a musica estrebuchava...
Nos últimos dias, a
coitada ardia em febre, plenamente fora do mundo, gozando com um gozo feroz de
agonisante, o amor incorpóreo, enquanto ao lado, noites em fora, as mãos
invisíveis soluçavam a mágoa e a tristeza.
Ora, ontem, quando eu
subia a escada íngreme da sua velha casa, d. Ana apareceu-me desgrenhada.
— Venha, acuda, a Carlota morre...
— Como foi isso?
— Sei lá! Passou toda a noite à janela;
o músico não tocou, a chuva, hemoptises, sangue...
Na sala de visitas, a
pobre Carlota, coitada! estava caída numa cadeira de braços, entre as bacias,
as botijas, os panos, a lúgubre confusão que precede o eterno descanso. Fez um
esforço, estendeu a mão.
— Estou à espera da música...
Deixei-a,
despreguei-me pelas escadas. Era preciso que a música lhe levasse o supremo
consolo. Entrei pela casa ao lado.
— O pianista? perguntei ao encarregado.
— O maluco? No primeiro andar, à
direita, quarto n°. 5.
Subi, bati com força
no quarto, empurrei a porta, desesperado. Encontrei um velho homem, magro e
adunco.
— É o senhor o pianista?
— Sou.
— Há aqui ao lado uma criança que
agoniza. Vinha pedir...
— Para não tocar hoje. Vá com Deus.
— Não. Venho pedir que toque. Não é
possível explicações. Essa menina vive há um mês de ouvi-lo. Está morrendo.
Pede-lhe que toque.
O homem passou a mão
pelos cabelos.
— Escute, é uma loura, muito loura? Meu
Deus! Pobre pequenina! Então ela me ouvia? Vá, eu toco, vou tocar, vá.
— Mas escute, não lhe diga como eu sou.
Eu sou feio, perdia o encanto!
Quando outra vez
entrei na sala, a Carlota morria. Como a querer beija-la, o luar entrava pelas
janelas, num golfão de ouro, e ela, com as mãos de magnólia cruzadas sobre a
peito, tinha na face a tortura da agonia.
Mas, subitamente, teve
um estremeção. Ao lado, como uma ronda de astros que se despregassem do
infinito, o piano explodia uma indizível revolta. Um tropel de sons reboou,
entrechocou-se, deslizou, rasgando o ar, da terra as estrelas, com uma dor
infinita. Depois, pareceu parar, tremulou brevemente, abrindo um paraíso, onde
os arcanjos cantassem e, enquanto Carlota sorria, os acordes, como um coro de
rosas, envolveram-na, beijaram-na. E ela morreu, docemente, sem uma contração,
ouvindo a música do amor...
Houve um longo
silencio na sala malva, onde há conversas tão alegres, à hora suave do chá. O
barão limpou o monóculo:
— Ora, aqui está porque eu estou triste!
— Coisas da sua fantasia macabra, fez a
severa viscondessa de Santa Maria.
— Para entristecer a gente, acrescentou
mme de Souza, linda e sentimental.
E, de novo, enquanto
mme Werneck fazia um grande esforço para não chorar, todos nós, com afinco e
erudição, atacamos a música italiana.
Estávamos a conversar
no gabinete de Jorge Praxedes. Era um fim de tarde prolongado por um lindo e
maravilhoso ocaso. Jorge oferecia chá em xícaras de porcelana da Pérsia; havia
largos divãs sonhadores entre as mesas atulhadas de bugigangas de arte, e
naturalmente, a atmosfera, o tabaco turco, o chá, tudo isso nos dava a lombeira das
recordações e o desejo de fazer frases. Já tínhamos falado do amor, da vertigem
do tempo, do galope da existência e de outras coisas novas.
— É curioso, disse um da roda, nós os
homens modernos não temos a sensação do passado, do não sentido, do total
alheamento que o passado devia dar. As dores, as alegrias, as modas ficam na
memória como coisas presentes que se afastaram. Para um homem que vive a vida
intensa não há propriamente passado, há um acumulador que não dá a impressão
especial do antigo, do acabado, do que não volta mais e há muito tempo terminou.
— Paradoxo!
— É fato. Como homem as minhas amantes
mesmo mortas vivem todas na minha memória como se estivessem ali, por trás do
paravento; como artista nunca me foi possível ter a
impressão do extinto diante de uma estátua grega, a ouvir um trecho de musica
clássica, a ver uma linda tela antiga.
Houve um prudente
silêncio, e todos olhavam prudentemente as janelas, quando o barão Belfort, que
tocava um pouco distante um vago Schumann num piano meio desafinado por falta
de uso, exclamou:
— Como tem você razão! Os grandes
sentimentos e as grandes emoções são sempre os mesmos. Por isso, os homens
guardam na história o mesmo fenômeno de memória da sua vida interna, lembram-se
mais de fatos do tempo de infância do que do tempo de ontem. Como artistas,
neste torvelinho moderno em que a beleza desapareceu, só o que é medíocre,
muito medíocre, dá a sensação do passado, mesmo que seja de ontem. Diante da
Vitória de Samotrácia no Louvre é impossível deixar de ter o enebriamento do
triunfo diante daquele bloco de pedra ardente que parece arrastar as embaterias da
conquista, e anima os nossos nervos de hoje como animaria os dos helenos. A
vista da delicadeza pré-angelical de uma cabeça de Murilo, o nosso amor pela
beleza vibra como vibrava o dos contemporâneos do grande artista. Que digo!
Diante dos simples pedaços de pedra apanhados nas escavações do Egito nós sentimos
a vida porque eles sabiam reproduzir a feição eterna da Vida. Um homem moderno
não se admira do progresso porque o presente não sente o passado porque o
guarda no próprio plasma.
— Grande fantasista.
— Repito, só a mediocridade, a camelote pode
dar a sensação do bem velho, do velho quase incompreensível para nós, do velho
antipático, do velho repugnante, do passado integral. E para isso bastam dois
anos. Eu apalpo as opiniões, o afinamento nervoso dos homens, nas pequenas
coisas, nas emoções dos sentidos. Qual dos senhores que amam perfumes sente a
velhice da essência de rosas? É dos mais velhos perfumes do mundo e é divino e
sempre da nossa alma. Qual dos senhores será capaz de usar, sem se sentir fora
da moda, fora do tempo, um perfume lançado por qualquer fabricante francês com
grande espalhafato e grande êxito há vinte anos, o «Jockey Clube» por exemplo?
Ao ouvir uma sinfonia de Mozart, sentindo a cada passagem uma sugestão aos
sentimentos eternos, ninguém achará essa música velha. Ao ouvir uma valsa de
1870, cada um de vocês tratará de fugir...
A roda riu
desabaladamente. O barão, levantou-se do piano, um pouco animado.
— Mas é um fato. Só as coisas
absolutamente insignificantes dão a sensação do passado. Eu já tive essa
sensação, não solitariamente, como me aconteceria cheirando um frasco de
perfume da ex-moda, mas num salão de baile, num dia de baile. E até jamais
esquecerei a sensação porque vi, olhei, encarei e sofri o miserável passado com
toda a sua imensa insignificância.
Como André de Belfort
contava sempre coisas interessantes, os cavalheiros presentes aguçaram a
atenção.
— Nunca pensei, meus amigos, que fosse
tão simples e tão doloroso. Eu que saía dos museus de indumentária da Idade
Média com ensinamento de arte e a alma renascida, eu que vibrara diante dos
frescos de Botticeli como diante da revelação para o futuro, fiquei aniquilado.
Há cerca de três anos,
fui convidado para um baile nas Laranjeiras. Não era um sarau super-elegante,
absolutamente fashion... Aqueles senhores dançavam ao som de um piano.
Havia, entretanto, casacas, algumas notabilidades literárias e científicas
arrumadas na saleta de fumar, um farto serviço de buffet, a elegância
das mulheres, das moças vestidas de tecidos leves, a adejar a gracilidade suave
dos gestos. O dono da casa recebeu-me com as reverências com que receberia um
bonzo. As moças olharam-me curiosamente, os valsistas ergueram os olhos, as
matronas indagaram o meu nome e eu fui conduzido ao fumoir, onde
murchavam cinco ou seis glórias urbanas. Nesta sala estava o piano, o piano
torturador. Um mulato de pastinhas, com os colarinhos altíssimos e o jeito
pernóstico de levantar o dedo mínimo onde fuzilava um solitário, dirigia a
caravana das notas, radiante como um deus e suado como uma caldeira. De vez em
quando, chegavam rapazes com vozes súplices:
— Firmino, agora, aquela tua polca.
— Qual delas? interrogava o pianista com
a fronte de orango camarinhada de suor.
— Aquela muito bonita, aquela mole...
E, ali mesmo,
baixinho, trauteavam compassos.
— Tocas?
— Pois não.
Por esta
apreensibilidade de motivos musicais, percebi estar diante de um desses
pianistas da moda, peculiares à nossa sociedade, homenzinhos que vivem de
escrever, com alguns erros e muitas aclamações, polcas, valsas e outros sons
dançantes. Os jornais anunciavam mensalmente, havia dois anos, novas
composições suas, e, como um decreto, o seu nome triunfava nos salões modestos.
A vaidade
enlouquecera-o quase. O Firmino tinha a certeza de estar no galarim e,
tocando, acompanhava com os ombros e a cabeça o balanço langoroso dos
compassos, de olho aberto, beiço revirado, tal qual um gênio inebriado com a
própria revelação.
Talvez o fosse. Há
gênios para tudo.
Eu ficara depositado
numa rocking, ouvindo o Firmino e um velho químico, professor
de Faculdade, o dr. Hortêncio Guedes. O dr. Hortêncio falava mal do próximo, de
modo que o Firmino não me escapava, dada a minha natural reserva de responder
com monossílabos quando se ataca a vida alheia.
O pianista era, de
resto, curiosíssimo. À roda do piano havia três ou quatro indivíduos
hipnotizados pela sua virtuosidade. De vez em quando, um rancho de moças,
escoltadas por cavalheiros, invadia a saleta para lhe fazer o pedido de uma
composição comovente, e o Firmino logo esticava mais os dedos, erguia a cabeça
ao teto, fingindo-se em pleno sonho, para ter um sobressalto, curvar-se, dizer:
— Minhas senhoras...
Então, todas falavam a
um tempo
— Firmino, toca a Estrela d'alva.
— Não! Antes a Irresistível...
— Silêncio! Firmino, mlle. Abigail
deseja aquela tua valsa... aquela muito dançante. Como se chama, mlle.?
— Lolita.
— É isso, a Lolita.
— Ah! v. exa. gosta da Lolita? Um
poucochinho velha, tem seis meses.
— Mas é tão bonita!
— Muito obrigado.
E, mais suado, com o
lenço entre o pescoço e o colarinho a desabar, o pianista sacudia no piano os
saracoteios da valsa. Não sei, meus senhores, qual a vossa impressão ouvindo
esse gênero musical. Eu, francamente, sentia-me moço, com vontade de dar à
perna, tamborilando nos braços da cadeira, gostando. Aqueles sons eram do meu
tempo.
De repente, porém,
quando o relógio batia uma hora, o Firmino parou bruscamente, pôs a mão no
queixo.
— Não posso mais!
Logo acudiram rapazes,
o dono da casa, senhoras. Era a desgraça. A nevralgia, a terrível nevralgia do
Firmino rebentara. A notabilidade passava o lenço da fronte ao queixo numa
ânsia raivosa. Havia dor de dentes e, principalmente, a dor de não poder continuar
a ser o ídolo do grupo. As meninas, cheias de carinho, já tinham ido buscar
cocaína, um palito, algodão; um dançarino trouxera o espelhinho do toucador:
— Põe isso, Firmino, a ver se passa.
— Qual! não passa... chorava o artista.
E, subitamente, desapareceu da sala, arrastando os dançarinos.
Durante dez minutos o
dr. Hortêncio tomou sorvete e absorveu as atenções. Eu já estava enfastiado,
quando o anfitrião surgiu:
— Ora esta! E que tal, hein? Uma festa
que ia correndo tão bem! Logo hoje o sr. Firmino dá para ter dores de dentes.
Estraga-me a noite!
Atrás do anfitrião
vinham a pouco e pouco surgindo os convidados e o interesse de gozar a noite
aumentava o ódio contra o pianista, como se ele tivesse a nevralgia só para os
desgostar. Aquilo não passa! É um mulato de maus dentes! E agora? Sim, e agora?
Que se há de fazer? D. Julieta toca? D. Julieta era tímida e ainda estava
estudando. Ninguém tocava, ninguém sabia o que fazer? E tudo por causa desse
Firmino...
Um dos rapazes, que
usava lunetas e parecia muito brincalhão, propôs o suicídio geral, um
holocausto a Terpsychore e, para dar o exemplo, atirou-se à janela. Mas
voltou de lá, em pontas de pé, a face feliz, pedindo silêncio
— Meus senhores, está tudo resolvido.
Descobri um pianista! Agarrei o impossível!
Todos, num ímpeto,
indagaram onde o guardava
— Ali, em baixo, na rua, vendo o baile.
É o Prates. O Prates, há vinte e cinco anos, era o Firmino de hoje. Morreu-lhe
a mulher, foi para uma fazenda, não sei. O fato é que, quando voltou, já outros
lhe tinham tomado o lugar. O Prates anda por aí furioso contra os rivais, e
passa as noites assistindo aos bailes como convidado do sereno. Não perdeu o
hábito, coitado! Era a sua atmosfera... De manhã lê os cumprimentos dos jornais
e à noite espia os saraus. Original. Lá está ele. É aquele gorducho, de cavaignac
branco, com um ar de agente de polícia aposentado.
— Que romântico! fez o Dr. Hortêncio, e
todos nós fomos à janela, sutilmente, espiar a rua negra, onde, com um cavaignac
branco estava o caso esquisito.
O mocinho indagou do
anfitrião:
— V. ex. permite que o vá chamar?
— Sei lá! se os senhores quiserem.
— É velho, clamou alguém.
— Que tem isso? indagou facundamente o Dr.
Hortêncio. Então, se ali embaixo estivessem Beethoven, Schumann, Mozart ou
outros luminares da música, nós não os deixaríamos entrar!
Aquele argumento
pareceu decisivo, apesar de estarmos convencidos de que se Beethoven e os
outros luminares aparecessem, teriam que ficar na calçada e sem abrigo.
O jovem partira,
entretanto, e minutos depois entrava na sala conduzindo um homem ventrudo que
tinha um cavaignac de bode branco e rolava o chapéu nas mãos.
— Meus senhores, o pianista Prates, que
teve a bondade de aceitar o nosso convite.
— Eu passava na ocasião, murmurava o
homem, achei linda a festa...
Um bando de dançarinos
já o envolvia, oferecendo-lhe licores, tirando-lhe o chapéu, sentando-o ao
piano.
— Vai tocar alguma coisa?
— Quem estava aqui?
— Nós todos.
— Pareceu-me ouvir as composições do Sr.
Firmino... Abancou, correu uma escala do piano. Hein? Que era aquilo? Era uma
outra escala, uma escala estranha.
— Bem, vou tocar uma valsa.
— Bem moderna, Sr. Prates; uma valsa
dançante.
— Sim, sim...
Os pares voltaram
todos ao salão. Prates pareceu recordar; atacou um acorde, depois outro, e os
primeiros compassos ecoaram. Um vago mal estar pareceu, de repente, estreitar a
sala. Que coisas cômicas, que coisas grotescas, que coisas estúpidas, essas
notas de piano sugestionavam à gente!... A sensação do passado enraivece
sempre. Os convidados estavam irritados como se fossem recebendo uma longa
humilhação. Eu tinha vontade de rir e ao mesmo tempo de destruir, de quebrar o
piano. Na sala, as meninas largaram os pares desanimadas; moças nervosas
sentavam-se aos cantos e era uma crescente exclamação de desprazer.
— Qual! Não é possível! Ninguém
compreende isso! Pára! Afinal, um, mais ousado, aproximou-se do piano:
— Ó Prates, toca qualquer coisa de mais
novo.
— Hein? não estão gostando?
— Muito, não. Vê se nos dá a Valse
Bleu.
— A Bleu? Ah! Essa não conheço.
Parou, fitou um instante a parede fronteira, correu a mão pelo teclado:
— Vou tocar um dos meus sucessos.
Eu olhava-o como se
olha um monstro, um trambolho que é preciso destruir e ele estatelava nas sete
oitavas uma espécie de belchior melódico, tendo tudo, desde o Seu soldado
não me prenda até os compassos do tempo em que o Furtado Coelho intitulava
as valsas de homenagens e as meninas dançavam a Flor de neve, a Flor
de baile, a Feíticeirinha e a Varsoviana.
Eu nunca vira coisa
tão assustadoramente horrenda. Era como se, de súbito, saltasse ao salão uma
velha horrível, remexendo molemente as pernas bambas. A mixórdia espoucava como
um rebate devastador. Os tais sons dançantes eram impossíveis de dançar. Por
mais desejos, por mais esforços que fizessem os dançarinos hábeis no «boston» e
nas «americanas», eram incapazes de fazer duas voltas sem errar, sem se
encontrarem, sem desanimar. Dançar com aquela música tornava-se um tormento
superior para os mais alegres. E ele, feliz, com o cavaignac pendente,
num gozo infinito, corria os dedos, evocando recordações, o Prates de outrora,
que dirigia os salões, o Prates querido, o Prates animado no turbilhão das
valsas, enquanto cada um de nós sentia o acostar de um espectro, o esmagamento
com o dia de ontem, uma impressão de bolor, de umidade, de ridículo...
No salão o gás silvava
só, e as janelas abriam num largo bocejo para a escuridão da noite. O pianista
chegava ao fim em dificuldades, de mãos cruzadas no teclado, empinando o cavaignac,
glorioso, ébrio de satisfação. De repente, parou, olhou para todos os lados,
sem ver, limpou o suor das fontes, abriu a boca num sorriso alvar.
Já muita vez, com
certeza, lhe acontecera aquilo, na sua peregrinação melancólica.
Prates ergueu-se
pálido, tão pálido que eu pensei vê-lo cair com uma vertigem; pegou do chapéu,
apertou o lenço na boca barbuda, como afogando um soluço e saiu vagarosamente.
Dentro batiam os cristas da ceia...
Foi esta a única vez
que eu tive a sensação do passado.
Naquele hotel da rua
do Catete havia uma sociedade heteróclita mas toda bem colocada. O proprietário
orgulhava-se de ter o senador Gomes com as suas sobrecasacas imundas, o
ex-vice-presidente da ex-missão do México, a primeira ex-grande atriz de
revista, com o seu cachorro, mme de Santarém, divorciada pela quarta vez em
diversas religiões, o barão de Somerino do Instituto Histórico, um negociante
tuberculoso chegado das altitudes suíças com o fardo enorme da esposa, o
engenheiro Pereira mais a mulher, mais sete filhos, mais a criada, a notável
trágica Zulmira Simões em conclusão da sua última peregrinação provincial em
companhia do elegante Raimundo de Souza, duas senhoras entre viúvas, solteiras
ou estritamente casadas, enfim, todo um mundo variado, mas que pagava bem. De
resto, o proprietário, como assegurava a ex-estrela de revista, correspondia,
isto é, servia com cuidado. Havia eletricidade em todos os quartos, um aparelho
de duchas no terraço de cima e um cozinheiro chinês.
Ao almoço era curioso
ver toda aquela gente na sala de baixo, ornada de palmeiras e de flores comuns,
entre os metais polidos das guarnições das mesas. A sala era baixa, com uma luz
baça de recanto submarino. Parecia um aquário. A mim pelo menos. As atrizes tomavam
ares graves de peixes evoluindo cerimoniosamente no fundo d'água para
cumprimentar as damas sem palco; os homens eram reservadíssimos. Tudo aquilo
mastigava calado, cada um na sua mesa, batendo o talher. Só quando havia
hóspede novo é que surgiam frases breves.
— Quem é?
— O deputado Gomensoro.
— Ah!
Sempre grandes nomes,
gente importante, um complexo armorial de celebridades funcionárias e de
titulares empastilhados. E à noite, no saguão de entrada, saguão de mármore que
o gerente forrara de velha tapeçaria e guarnecera de um indizível mobiliário
hesitante entre o estilo otomano, os belchiorese o
confortável inglês, podia-se ver os representantes de todas as classes sociais
desde a diplomacia até o trololó.
Precisamente tínhamos
mais dois hóspedes, o velho ministro do Supremo, Melchior, e seu sobrinho Raul
Pontes, rapaz elegante, vivaz, espirituoso, com vinte anos irresistíveis. Todos
no hotel respeitavam Melchior e gostavam do Raul, e ainda ninguém esquecera a
sua verve quando o deputado Gomensoro, depois de apertar-lhe a mão, dera por
falta do relógio. Onde se fora o relógio? No bonde? Roubado? Saíra Gomensoro
com ele? O Dr. Raul Pontes ria a bom rir. O relógio evaporara-se decerto. Era o
calor. E ficou muito bem aquele estouvamento, tanto mais quanto o velho
Melchior, representante da justiça, mostrava-se incomodado.
No dia seguinte, ao
vestir-me para o almoço, lembrei que na minha gravata creme ficava bem um
alfinete de turmalina azul com brilhantes do Cabo, linda jóia e lindo presente.
Abri a gaveta onde o deixara à noite. Não estava lá. Abri outras gavetas,
procurei, remexi malas e bolsas. O alfinete desaparecera. Quis descer, prevenir
o gerente. Mas contive-me. Podia tê-lo atirado para qualquer canto. Quando se
quer achar um objeto, a gente está vendo-o e é como se não o visse. Depois uma
queixa sem provas contra o criado acirra a má vontade. Menos talvez que as
queixas com provas, mas sempre o bastante para sermos mal servidos. Eu sou
prudente. Três ou quatro dias depois, no saguão, o senador Gomes, que só tinha
livros e roupas velhas no seu aposento, perguntou-me de repente:
— Você tem um alfinete de turmalina
azul, não?
Além de prudente, sou
inteligente. Porque diabo naquele distinto hotel, o senador indagava de um
alfinete desaparecido? Tê-lo-ia apanhado por farsa? Era pouco próprio para o
alto cargo legislativo, mas para mim uma confiança simpática, fez-me o efeito
de um piparote no ventre. Respondi:
— Tenho sim. Porque pergunta? Ainda hoje
saí com ele...
Gomes travara com a
genial Zulmira Simões, oráculo teatral de aquém e de além mar, uma discussão
superior sobre Calderón de
O gatuno -porque era o
gatuno, não havia dúvida-, o gatuno ou farsista sem graça deixara a minha
carteira e deixara até os níqueis, certo para mostrar que aquilo era seu, que
aquilo estava ali porque ele voltaria. Que fazer? Prevenir o proprietário? Mas
eu estava num hotel tão distinto! Era pouco correto e estabeleceria o
desequilíbrio na confiança geral. Não! seria melhor esperar.
No dia seguinte, como
voltasse de ouvir o d. Cesar de Bazan com Zulmira Simões e o brumeliano de
Sousa, enquanto de Sousa subia à frente, a atriz murmurou:
— Ah! meu amigo, este hotel tem casos
curiosos... Sabe que fui roubada?
— Sério?
— Sim. O objeto tinha um valor todo
estimativo, era um berloque que me dera o Raimundo logo no começo da nossa
ligação. Não lhe diga nada que o incomodaria. De resto, não sou eu a única. O
dr. Pontes foi também roubado no seu porte-monnaie.
— Como eu!
— O Sr. também? Mas estamos na caverna
de Ali-Babá.
Horas depois
felizmente rebentava o escândalo. Pela manhã, mme de Santarém dera queixa por
lhe terem roubado um face à main de madrepérola com incrustações de ouro
sob desenhos, dizia ela, de um pintor húngaro. E o gerente pôs fora o criado
Antônio, porque a ele faltavam também passadores de guardanapos -dois, três por
dia. Antônio saiu protestando, furioso. Falou até de processo por perdas e
danos. Era um ladrão cínico. E durante o almoço a conversa generalizou-se.
Ninguém escapara. O que acontecera comigo acontecera com de Sousa, com o barão
de Somerino, com o negociante tuberculoso, com o ex-vice-presidente da
ex-missão do México, com a estrela revisteira, com o dr. Melchior. Todos tinham
sido roubados e confessavam por desabafar. Havia até mesmo recordações. O dr.
Pontes, o nosso caro Raul, indagava da genial Simões:
— V. ex. andava à cata do ladrão naquele
dia em que a encontrei no corredor?
— Não; ainda não sabia. Tive apenas um
pressentimento. Acho que deviam prender o homem.
— Mas não há provas! exclamava mme de
Santarém. Não encontraram nada! Era esperto. No dia em que desapareceu o meu face
à main, não saí do quarto.
— Roubos excepcionais...
— Estamos no domínio dos ladrões
geniais. Precisamos de um grande agente dedutivo para resolver o crime...
— E prender o Antônio copeiro? Ora para
ladrões desse gênero basta a nossa polícia!
Aliás o tal Antônio
gatuno parecia mais um doente. O homem afinal não tirara nunca dinheiro, e as
argolas de guardanapos do hotel eram lastimáveis como valores. Mas, fosse
gatuno genial ou doente, Antônio partira e a confiança renascia. Passamos assim
uma semana e, com grande pasmo nosso, mme de Santarém e a atriz Zulmira Simões,
no mesmo dia, à mesma hora, encontraram em cima do lavatório, uma o seu face
à main, outra o seu berloque.
— É uma aventura! É um caso de
diabolismo! sentenciava o negociante tuberculoso.
O hotel
convulsionava-se. Só o senador Gomes resmungou.
— Que besta!
E aquela frase dita
tristemente preocupou-me. No fundo, porém, o sujo e ilustre homem tinha razão.
O gatuno, ou o sportsman da ladroeira não era Antônio, era outro,
existia, anunciava a sua presença, estava ali, ao nosso lado. Audácia? Loucura?
Estupidez? No dia seguinte deu-se por falta do colar de ouro com pedras finas
da atriz Simões, os brincos da mulher do tuberculoso sumiram-se. Foi o terror.
Os hóspedes trancavam o quarto e saíam levando os valores no bolso, mesmo para
almoçar. A limpeza era feita na presença dos respectivos locatários. Já ninguém
se falava direito, já ninguém conversava. Havia entre nós um ladrão. Um ladrão!
O medo prendia as senhoras aos quartos. Ninguém saía sem necessidade urgente,
com receio de ser apontado pelo menos um segundo, como o fora o Antônio. Éramos
os forçados daqueles crimes; tínhamos que chegar à tragédia. O gerente, lívido,
armava uma polícia interna ferocíssima; os criados serviam, coitados! com uma
humildade dolorosa, temendo a suspeita, o ex-vice-presidente da ex-missão do
México teimava em escrever ao chefe de polícia, em varejar os quartos.
— Pelo amor de Deus! gemia o
proprietário.
— É outra tolice, acrescentava Gomes.
Nós temos aqui gente respeitável.
— Pois está claro! dizia logo mme de
Santarém, divorciada pela quarta vez.
E apesar da
vigilância, continuarem a desaparecer objetos. Não era possível! Ou sair, ou
dar queixa à polícia.
Uma vez encontrei na
cidade Melchior e Pontes, acompanhando mme de Santarém a uma confeitaria. Eram
duas horas da tarde. Voltei à pensão. Por uma coincidência, morava no mesmo
corredor que essas três pessoas, mesmo pegado ao senador Gomes. Estava a despir-me,
quando senti passos abafados. Abri a porta devagar. Era o alegre e sempre
espirituoso Pontes. Vinha para o seu quarto. Mas não. Parou no quarto de mme de
Santarém, experimentou uma chave, torceu, entrou. Oh! a imoralidade dos hotéis
honestos! O felizardo ia gozar as delicias de um aprés-midi amoroso com a
honestíssima senhora! Pouco depois, porém, ouvi um leve rumor, espiei de novo.
Era Pontes, com o ar mais natural, que fechava o quarto e andava ligeiro. Quis
fazer-lhe uma pilhéria, gritar; -ah maganão! ou outra parvoice qualquer -porque
eu sou de natural pândego. Mas deixei para o jantar, recolhi. E no jantar mme
de Santarém, que chegara momentos antes, apareceu transmudada: tinham-lhe
roubado o broche de rubis.
Estávamos todos no
salão e sustiveram-se todos num pasmo raivoso, quando a gentil senhora bradou:
— Acabam de roubar o meu broche de
rubis! Mais um!
Os meus olhos
cravaram-se no dr. Pontes. Tinha o mesmo pasmo dos outros, o mesmo ar, o mesmo
olhar.
Uma idéia
atravessou-me o espirito. Era ele o gatuno! Não havia dúvida. Era agarra-lo
ali, logo... Mas se fosse apenas o amante? Afinal era um homem que devia
respeitar a família e o tio! As provas eram contra ele, absolutamente contra.
No hotel ninguém poderia lembrar-se de sair depois daqueles roubos. A situação
precisava ficar clara. Eu cometeria um escândalo, diria ali que o vira entrar
no quarto de mme de Santarém e as explicações viriam depois.
Ia falar, ia contar
tudo, quando senti que pesavam em mim os dois olhos do senador Gomes, enquanto
este, balançando a cabeça, balançando a faca entre os dedos, parecia por todos
os modos pedir-me para não dizer nada. Gomes sabia! Desde o dia em que falara
do meu alfinete! Contive-me. Mesmo porque entravam a Pepita, mais o seu
cachorro, ambos desesperados com o desaparecimento de um anel marquise,
admirável, segundo a opinião da estrela.
O engenheiro Pereira
ergueu-se.
— Gerente! Não fico mais um dia no seu
hotel. A situação é delicada para o primeiro que sair do ergástulo, mas
eu arrosto-a. Tenho família, tenho uma esposa nervosa e tenho valores. Sou o
engenheiro Salústio Pereira. As minhas malas passam pelo seu balcão, para o
exame. Tire-me a conta...
O diplomata, que, entretanto,
devia cinco semanas, teve um esforço:
— Eu também saio.
Os outros ficaram
quietos, incapazes, mas com grande admiração minha, o dr. Pontes falou:
— Vivemos nesta aflição há já algum
tempo. Há um gatuno aqui, ou um gatuno de fora que possui a chave.
— É isso, a chave..., atalhei eu.
— Mas apesar do mútuo respeito que nos
devemos, a desconfiança existe. Ora, eu já pensei mal de meu tio. Proponho,
pois, que ao sair daqui, façamos uma passeata pelo hotel, entrando e varejando
todos os quartos. Serve?
Eu tinha acabado de
sorver o café e admirei Pontes: ou um gatuno esplêndido ou um inocente. Em
compensação, o senador Gomes olhava a porta absolutamente pálido. Que se iria
passar?
— Serve? tornou a dizer Pontes.
— Mas está claro, fez o Gomes. Partimos
todos para a passeata lá da entrada. É o meio alegre de acabar com uma pressão
séria.
— Apoiado! Este Pontes sempre o mesmo!
Mas Gomes erguia-se no
rumor das exclamações. Ergui-me, alcancei-o no corredor. Estávamos sós.
Sussurrei-lhe:
— O gatuno é ele. Vi-o entrar no quarto
da Santarém...
— Não é.
— Então quem é?
— Não sei.
— É impossível negar mais tempo. Ou o
senhor diz-me ou eu explico tudo
Gomes teve um gesto
alucinado, junto à escada que dava para os aposentos superiores.
— Nada de palavras inúteis. Jura
segredo?
— É um crime.
— Jura?
— Juro.
— Pois salvemos uma pobre mulher,
salvemos uma desvairada, meu amigo, salve-mo-la! Não pergunte porque. Amo-a
como pai, como amante, como quiser.
É ela que rouba, é
ela. Não há meio de impedir. Vou manda-la embora e ao mesmo tempo tremo de
vê-la no cárcere. É louca. Neste momento mesmo estamos à mercê da sorte e do
disparate do Pontes, a quem eu devia odiar. Mas vamos salva-la. É preciso
salva-la. Tudo será restituído. Já tenho feito isso. Psiu! Esconda-se,
esconda-se. Aí, debaixo da escada. Não a veja, não a veja...
Alguém descia a escada
sutilmente. Escondi-me com o coração batendo, enquanto Gomes amparava-se ao
corrimão. O silêncio parecia aumentar a vastidão da escada. A voz do Gomes
indagou:
— Tudo?
— Sim, meu medroso, sim, eu tinha tudo
junto. Toma. E agora, até...
O vulto passou para o
saguão de entrada. Da sala de jantar vinham vindo os hóspedes, excitados com
aquela investigação policial aos quartos. Trêmulo, lívido, Gomes meteu-me na
mão um embrulho, enquanto empurrava nas vastas algibeiras da sobrecasaca e da
calça outros pequenos rolos, a dizer:
— Amanhã, restituiremos pelo correio,
amanhã saem muitos. Sê bom, salva-a!
Era atroz, era
trágico, era ridículo ver aquele homem ilustre e honesto a guardar os roubos de
uma cleptômana satânica e era estúpido o que eu fazia! Mas irresistível.
Fosse quem fosse essa
gatuna inteligente, era de uma ousadia, de um plano, de uma afliteza, de um
egoísmo diabolicamente esplendidos. Estiquei o pescoço na ânsia da curiosidade,
a saber quem era, a ver quem podia ser no hotel tão cheio de hóspedes, aquela
de que me fazia cúmplice, aquela que misteriosamente, impalpavelmente, durante
um mês, trouxera ao hotel atmosfera de dúvida, de crime, de infâmia. E,
contendo um grito de pasmo, vi mme de Santarém entrar no saguão sorridente e
calma.
— Ah! Eu sou um monstro!
— Palavra?
— E um monstro, meus amigos, que pode
confessar os seus apetites sem correr o risco de poder contemplar o mundo
através das grades de um cárcere. Eu sou um infame.
Ditas estas palavras,
Luciano de Barros estendeu-se, desalentado, no divã e soprou para o ar o fumo
do charuto. Era depois de jantar e nós estávamos em casa de Lauriana de Araújo,
uma das mais elegantes raparigas, de uma vaga semi-sociedade em falha,
sustentada por um velho banqueiro de tavolagens e com grandes pretensões a
mulher de espírito e à literatura. Os jantares eram sempre excelentes; o maitre
d'hôtel irrepreensível, os serviços lindos, e bem se podia notar naquele
ambiente, onde o velho banqueiro tinha o bom gosto de não aparecer, que
Lauriana de Araújo sabia escolher com arte uma roda de homens citável. Havia
nomes da Academia, nomes da alta elegância, o creme das duas casas do
Parlamento, e sempre as altas figuras em trânsito propagador. Naquela casa de
jantar cor de morango com frisos de faiança representando a glória de Pomona já
tinham estado um embaixador severo e um quase presidente de grande republica
européia. Ao acabar os jantares, Lauriana, sempre de rendas brancas, como
envolta em espumas, acendia um cigarro e palestrava. Os homens recostavam-se
nos divãs e posavam. De vez em quando tocava-se piano. Quase sempre,
entretanto, na varanda guarnecida de jasmins, ouvia-se um septuor de
instrumentos de cordas. Era perfeitamente agradável. Ninguém ignorava que a
anfitriã amável realizara já uma grande fortuna e que sabia, como ninguém,
liquidar em seu proveito o dinheiro alheio sem estrépitos escandalosos. Só como
amante de um ministro, obtendo concessões entre beijos, no espaço de três meses
arranjara quinhentos contos.
— Farsista! Tu, infame? Tu não passas de
um ingênuo... Era o conselheiro Andrade, conhecido por quarenta anos de ceias
consecutivas, desde o remoto Rocher de Cancale até os desvairamentos dos
cercles atuais.
— Eu, ingênuo?
— Pois então? Um infame, nunca diz que o
é.
— Conforme.
— Afinal, intervinha Lauriana, o Luciano
disse que era um monstro quando eu perguntava como compreendia o amor. O
Luciano é sempre bizarro. Vai dizer para aí alguma barbaridade e liquida a
infâmia.
— É impossível, minha amiga. Por que sou
eu o dedicado servidor, e servidor sem interesse, de todas as mulheres? Nunca
ninguém mo perguntou. E, entretanto, é apenas por um permanente e cruciante
remorso. Tenho trinta e dois anos, um físico menos mau, visto discretamente,
sou mais inteligente do que o vulgar e tenho algum dinheiro. Para vocês, nada
mais banal. Com esses elementos congregados, porém, e com uma alma incapaz de
amar e de se dedicar senão à variedade, consigo numa sociedade moderna ser
simplesmente o monstro. Como? Ora, como! Fazendo-me amar...
Um prolongado riso
correu pelo salão de fumar. O deputado Almerindo quase engasga, o conselheiro
Andrade ergueu as mãos ao teto e o célebre poeta acadêmico Clodomir rebolou
positivamente no divã. Luciano continuou tranquilo:
— É preciso partir do princípio que toda
a mulher ama. Apenas, porém, ama ingenuamente e deixa-se seduzir, deixa-se amar
amando absolutamente uma vez na vida: a primeira. As outras paixões são o
resultado do cálculo, do egoísmo, da satisfação dos desejos. É ela a sedutora e
seja para o bem ou para o mal, para elevar o homem ou para perde-lo, para
sofrer-lhe as pancadas ou fazer-lhe da vida um rosário de beijos, o seu papel
moral é sempre o ativo.
— Estás a lançar paradoxos.
— Estou a dizer coisas velhas. Mas o
ambiente, o meio, conseguem também matar o primeiro sentimento. O amor é um
perfume sutil... Uma pequena de sociedade elevada, mais ou menos culta, sabendo
que há de casar com alguém da sua roda, talvez não ame nunca. Uma rapariga
atirada desde cedo ao torvelinho dos bailes, das festas e dos flertes é uma
lutadora prestes a devorar o seu marido próximo. E mesmo as moças de família
modesta, desde cedo obrigadas a uma profissão e ao exercício de encontrar um
esposo, entregando-se aos maiores excessos de permissão aos namorados, quase
sempre fatais, não sentem o amor...
— O amor morreu.
— O amor é eterno, mas nem todos o podem
ver, através da perversão do flerte ou das luxúrias perdidas. E a minha imensa
monstruosidade está exatamente em procurar o amor, gozar esse perfume e
perde-lo. É, talvez, muito vago o que estou a dizer, mas é horrível. Ando por
todos esses clubes e aborreço as mulheres que arrastam vestidos de contos de
réis; percorro os bailes e os raouts com medo das flirteuses;
frequento as caixas de teatro e em cada mulher que se pende para
mim, sinto a falsificação. Que fazer? Percorrer os meios humildes, e descobrir,
probresitas e sem nada, as crianças que ainda não amaram. Imaginem vocês um
homem com todos os instintos de perversão da nossa roda como facilmente pode
empolgar uma alma ingênua, seduzida apenas pelo exterior.
Dizem que nas grandes
cidades não há o tipo ingênuo, a inocência... A inocência é uma propriedade,
uma qualidade que passa, mas existe em toda a parte. Nas classes mais pobres,
nos meios mais miseráveis é que se encontra mais a flor da inocência, exposta
ao vendaval e guardando o perfume, por um prodígio. Desfolhar essa flor,
violentamente, como um sátiro; não é crime -é instinto. Goza-la naturalmente
sem a intenção senão de a gozar -é a natureza. Cerca-la, prende-la, ir aos
poucos aspirando-a, desfolhando pétala por pétala, com refinamento, intenção
dupla, consciente e ferozmente -é que é monstruoso. E vocês não sabem, não
podem imaginar a fúria de caçador que eu desenvolvo para as encontrar, vocês
não concebem o gozo meu ao prelibar a volúpia de um beijo de virgem, um beijo
sugado na boca ainda não beijada...
Eu vou, eu passo, eu
cumprimento. No dia seguinte torno a passar. Três dias depois, mando-lhe uma
recordação. Tudo é tão simples com os pobres! Dentro em pouco a criaturinha
sente-se envolvida numa atmosfera de cuidados e de delicadezas. A principio é
apenas a vaidade. Um homem tão bem vestido, tão distinto, tão fino, que podia
ser amado por lindas mulheres da sua ordem... Depois o orgulho, a sensação de
que é melhor do que as outras por ter sido a preferida, -orgulho que se perfuma
de gratidão, uma vaga, muito vaga sensibilidade. Em seguida, a alegria da
intimidade de um ente que não a ralha, que lhe reflete em admirações como um
espelho simpático todas as pequenas belezas da sua beleza. Mas, ainda assim,
não é amor, é brincadeira, uma brincadeira agradável, o namoro -o namoro que
está para o flerte como a pureza de uma água pura para a falsificação de um
vinho mau. Eu persisto, então, continuo, prolongo a grande cena. E de repente a
criança sente o ciúme, um doce e ingênuo ciúme que tem zelos até do inanimado,
anseia, treme, e ri e chora sem saber porque, toda ela possuída do perpétuo mal
da vida. Então, eu sinto no intuito uma alegria infernal. É o meu esporte, o
meu exercício, o meu prazer de homem da cidade. As regras são infalíveis como
para todos os jogos, e a vitória sorri-me. Tenho satisfeito o meu desejo?
Não! Ao contrário. É o
grande momento, o momento do iniciador. As carícias na mão, puxando essa mão
que resiste instintivamente e treme, as carícias nos braços, os contatos
fugazes que indicam tudo, um beijo nos cabelos, outro longo, guloso, mordido,
na nuca... Gozar as gradações do reconhecimento do gozo, a face que enrubece, o
calor da pele, os olhos que enlanguecem e de repente se dilatam como ao reflexo
de um clarão, as frases curtas de negativas... É a fascinação inebriante. Toda
a minha tática, entretanto, se faz em torno do que a inocência mais custa a
dar: a boca. Eu tenho a nevrose das bocas. Ha algumas muito vermelhas. Há
outras de um róseo peludo. O movimento da língua passando pelos lábios dá-me
crises desesperadas, e certas criaturas quando riem sugerem-me auroras em que
eu desejo estancar toda a sede de uma noite em claro, que é a minha vida. Às
vezes, o beijo rogado vem de súbito. De outras, a princípio é um leve roçar de
lábios, depois uma pressão mais longa, enfim, a absorção, a loucura num
ambiente em que mesmo de olhos abertos vejo, sinto, cheiro, ouço toda uma
sinfonia rósea dos sentidos...
Na roda, os
cavalheiros pareciam um pouco nervosos, e Lauriana batia o leque de sândalo. O
conselheiro Andrade, o menos excitado, exclamou, de olhos em alvo:
— Caramba! É uma doença cerebral...
Luciano, de olhos
cerrados, parecia em êxtase.
— E que fazes depois?
— Que faço? Aqui tens tu o meu horror.
Fico com um grande dó da criança, acaricio-a ainda mais, envolvo-a na jura de
um amor infinito, chorando a frieza do meu coração incapaz de amar uma só
criatura mais de seis meses. E é o mês dos sofrimentos, em que a vida se me faz
dilema: -ou casas com essa rapariga para abandona-la ou, se a levas contigo sem
o casamento, cometes o crime ainda maior de perder-lhe a honra. Então, no
silêncio do quarto, pensando nela, vendo-a a todo o instante, soluço, choro,
deploro-me, escorcho a alma com a violenta idéia de achar um pretexto para não
perde-la. O amor, porém, o amor verdadeiro é um breve perfume da virgindade. É
senti-lo e é partir. Eu me debato, mas para que serve? Algumas desvairadas têm
vindo até ao desenlace e estão por aí. Outras eu perco de vista, aos poucos,
porque mais adiante outras parecem-me ainda em botão.
— Não é muito bonito, mas nada tem de
ofensivo.
— Achas?
— Há quarenta anos, sem psicologias
malsãs, serias apenas um bandoleiro. Agora, com essa mania de análise das
próprias sensações, é que te julgas um monstro.
Luciano de Barros
deitou fora o charuto que se lhe apagara entre os dedos.
— Infelizmente, nós somos levianos, nós
os homens, em tomo desse grave e doloroso sentimento. Que sou eu? Um homem que
borboleteia a sua perversão pelos botões entreabertos da vida. Até é bonito! E
quem uma vez sentiu a delícia deliciosa de uma boca virgem que se entrega pela
primeira vez, deve ter de mim inveja. Mas, se eu me sinto infame? Ainda agora
venho de um caso assim. Era uma pequena de quinze anos, alegre como um pássaro.
O seu riso lembrava um chilreio e a sua boca cheirava a rosa. Três meses
depois, sincera, nobre, pura, ela amava, amava sem interesse, apesar de
paupérrirna, sem nunca ter recebido uma dádiva que não fosse inteiramente inútil.
Dera-lhe o meu nome, mas ignorava o que eu era, onde morava, qual o meu modo de
vida. Amava como se ama aos quinze anos, cegamente, e eu tinha essa sensação
meio triste, meio ridícula de me saber amado com um encanto de sonho. Que era
ela? Um personagem de conto. Que era eu? O príncipe... A crise do amor na
estufa preparada por mim floriu. Talvez eu mesmo estivesse mais apaixonado do
que parecia. Propus-lhe a fuga, o rapto. Resistiu com o seu fundo honesto,
tanto que lhe propus casamento. Ela sorriu entre lágrimas, erguendo os dois
grandes olhos negros. -«Não sabes o que dizes! Somos de condições tão
diferentes! Isso é impossível». -«Mas, então, que queres?». -«Nada, não quero
nada, coisa nenhuma». Eu voltei, continuei a vê-la, mas insensivelmente, a minha
lamentável alma sentia a necessidade do afastamento, querendo conservá-la. Ela
continuava tal qual, iluminando o semblante quando me via. Certa vez disse-me:
-«Às vezes quase não tenho coragem de voltar à casa, com medo de me matar».
-«Vem comigo, então». -«Não. Já hoje chorei tanto...». Eu gozava aquele
martírio por minha causa, aquela inocência perturbada pela minha figura... Ha
quinze dias não a vi à janela. Passei no outro dia, e interroguei a vizinhança.
Tinham-na levado os padrinhos por causa de umas crises de choro que a
definhavam. E eu estou na agonia, a pensar nessa criatura pura e doce.
— D. João,
sossega! Hás de ver a pequena casada, como as outras.
— Ou perdida, sentenciou, grave,
Lauriana.
Luciano ergueu-se,
consertando a gravata branca.
— Ou talvez morta, porque já tem
acontecido... Então, a linda Lauriana sorriu com infinita tristeza.
— Mas não te julgues, com esse exagero
de análise e de pretensão, o único monstro, meu caro amigo. A cidade está cheia
desses defloradores do amor. A vida é uma luta de sexos. Há criaturinhas que
morrem ceifadas em botão, depois de levemente aspiradas pelos intelectuais
gastos como tu. Há outras, porém, que resistem e ficam como eu.
Houve um prolongado
silêncio. Ninguém rira. E, só, Luciano de Barros, muito pálido, diante de um
grande espelho, parecia pasmo da própria fisionomia. Fora, o septuor tocava uma
valsa lenta, entre os jasmins.
— Oh! uma história de máscaras! quem não
a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de
angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de
carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um
carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...
E Heitor de Alencar
esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o
barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta
implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a
aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis
autêntico, parecia absorto.
— É uma aventura alegre? indagou Maria.
— Conforme os temperamentos.
— Suja?
— Pavorosa ao menos
— De dia?
— Não. Pela madrugada.
— Mas, homem de Deus, conta! suplicava
Anatólio. Olha que está adoecendo a Maria.
Heitor puxou um largo
trago à cigarreta.
— Não há quem não saia no Carnaval
disposto ao excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores
extravagâncias. O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo
ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro
dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é
possível. Não há quem se contente com uma...
— Nem com um, atalhou Anatólio.
— Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam,
as gargalhadas passam como ao arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita
gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a
pornéia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão
da primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodite.
— Muito bonito! ciciou Maria de Flor.
— Está claro que este ano organizei uma
partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me
sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer
da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andamos
de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champanhe aos
clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era
divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando
lembrei uma visita ao baile público do Recreio. -«Nossa Senhora! disse a
primeira estrela de revistas, que ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária,
marinheiros à paisana, fúfiasdos pedaços mais esconsos da rua de S. Jorge, um
cheiro atroz, rolos constantes...». -Que tem isso? Não vamos juntos?
Com efeito. Íamos
juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia
realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e
era uma desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas
fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das
ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em
frascos de álcool, que tem as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços
como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de
papel de arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos
dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de
tarlatanarosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas.
Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável.
Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca
polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem feito,
tão acertado, que foi preciso observar para verifica-lo falso. Não tive dúvida.
Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro
-ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do
grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas
de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim,
abandonando-as, atrás de uma frequentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para
os automóveis e fomos cear no clube mais chique e mais secante da
cidade.
— E o bebê?
— O bebê ficou. Mas no domingo, em plena
avenida, indo eu ao lado do chauffeur, no borborinho colossal, senti um
beliscão na perna e uma voz rouca dizer: «para pagar o de ontem». Olhei. Era o
bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão bem feito. Ainda
tive tempo de indagar: onde vais hoje?
— À toda parte! respondeu, perdendo-se
num grupo tumultuoso.
— Estava perseguindo-te! comentou Maria
de Flor.
— Talvez fosse um homem... soprou
desconfiado o amável Anatólio.
— Não interrompam o Heitor! fez o barão,
estendendo a mão.
Heitor acendeu outro gianaclis,
ponta de ouro, sorriu, continuou:
— Não o vi mais nessa noite, e
segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e caí no mar alto
da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele todos os maus instintos
fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás
das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as
ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a
achamos ínútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento
tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um
riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante,
com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim
perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche
anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil.
Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
— A quem o dizes!... suspirou Maria de
Flor.
— Mas eu estava sem sorte, com a guigne,
com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a
presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças,
embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral
pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!
— É quando se fica mais nervoso!
— Exatamente. Fiquei nervoso até o fim
do baile, vi sair toda a gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da
manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As
praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes
enfurnadas dos fogos de bengala, caíam em sombras -sombras cúmplices da
madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro
carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos
pelas calçadas fofas de confetti. Oh! a impressão enervante dessas
figuras irreais na semi-sombra das horas mortas, roçando as calçadas,
tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de
impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós
embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de
último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rocio e
ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o
bebê de tarlatana rosa.
Era ele! Senti
palpitar-me o coração. Parei.
— «Os bons amigos sempre se encontram»,
disse. O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto
com a cabeça que não. Enlacei-o. -«Vens comigo?». -«Onde?», indagou a sua voz
áspera e rouca. -«Onde quiseres!». Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram
bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram
apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.
— Por pouco...
— Não era preciso mais no Carnaval,
tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: -«Aqui não!».
Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se
em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir
todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa.
Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o
sangue
Mas o meu nariz sentiu
o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que
fazia mal. -«Tira o nariz!». -Ela segredou: «Não! não! custa tanto a colocar!».
Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.
O pedaço de papelão,
porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal estar curioso, um estado
de inibição esquisito. -«Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois
não te disfarça nada». -«Disfarça sim!». -«Não!». Procurei-lhe nos cabelos o
cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa
parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da
minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o
nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão,
aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o
papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o
pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com
dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinadamente
-uma caveira com carne...
Despeguei-a, recuei
num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de
tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que
lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os
dentes alvos. -«Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no
Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito. Foste tu
que quiseste...».
Sacudi-a com fúria,
pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir,
de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele
nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da luxúria...
Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela
cena da semi-treva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo
a mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao
largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixo
batendo, ardendo em febre.
Quando parei á porta
de casa para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma
pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa...
Heitor de Alencar
parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma
contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador
tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento.
Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse
refrigerantes, e resumiu:
— Uma aventura, meus amigos, uma bela
aventura. Quem não tem do carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos
empolgante.
Como tinha sido aquilo! Diante do espelho, a
dar um laço frouxo no lenço de seda, Geraldo sorria o sorriso satisfeito e
vagamente mau que têm todos os homens quando recordam uma aventura em que foram
os mais expertos. Como tinha sido!... O acaso, apenas o acaso. Pobre, sem
pretensões, alugara por uma ninharia aquele casinhoto do morro, bem na rua de
Santa Luzia, defronte do mar. O mar é um fornecedor de energia. Contemplar as
ondas, aspirar o ar infiltrado de salsugem fazia-lhe bem. Depois, acordava
cedo, quase de madrugada, e como a vizinhança era quase toda de pescadores, de
banhistas, de jovens dos centros de regatas, ia mesmo de camisa de meia, com os
pés nus metidos nuns enormes tamancos, ao estabelecimento balneário. Quem o
visse grosso, forte, o bigode espesso, a negra cabeleira ondeante, o braço
cabeludo, não o diria jamais um estudante de medicina. Havia no seu olhar
qualquer coisa dos barqueiros de Nápoles, do langor das serenatas, e na alegria
do semblante, na gesticulação, o ar da raça, o ar que não falha. Basta olhar um
homem para se sentir donde ele veio. Geraldo começara humilde, de origem
italiana. De trabalho em trabalho fizera-se afinal acadêmico, graças à
pertinácia da sua inteligência. Mas por mais querido que fosse entre os
colegas, era uma delícia para a sua alma ir arrastar as pernas pela madrugada
nos corredores da casa de banhos, quase nu, a conversar em napolitano com os
banhistas, os tradicionais banhistas há vinte anos os mesmos.
Era tão bom, tão
bizarro! A princípio, postava-se no pátio, junto da barraca do gerente, escura
de roupas em trouxas com um quadro das chaves e o bico de gás aceso. Era a
chegada dos frequentadores. Havia mulheres pálidas, mães de família,
acompanhadas de crianças e de criadas, verdadeiros regimentos de cloróticos;
havia sujeitos de passo trôpego, reumáticos, beribéricos,
talvez tísicos; havia os habituais, senhores respeitáveis, burgueses de ar
solene, que tomavam banho de mar desde crianças, aconselhando para todas as
moléstias um mergulho no salso elemento; e sujeitos que vinham especialmente
para a pândega, as lições de natação, os namoros com apertões debaixo da água,
as meninas assanhadas, as cocotes, as cocotes de uma palidez mortal àquela
hora... E havia também muita mulher chique, muita mulher de estalo, que os
mirones da praia até olhavam de binóculo.
Mas Geraldo não tinha
pretensões a conquistas, e aquele espreguiçamento na casa de banhos era apenas uma
tonificação para o estudo, que recomeçava horas mais tarde, com o curso dos
hospitais, as aulas, os livros. Depois de descansar na gerência ia a trocar
palavras com os banhistas, rindo, brincando. Afinal atirava-se à água, no meio
da algazarra dos conquistadores e das pequenas, e sempre tímido, só metido com
a gente do serviço. Ninguém o tomaria por um estudante e o próprio pessoal da
casa tratava-o familiarmente por tu.
Uma vez, estava no
corredor estreito e escuro a conversar com o Nicolau, quando mesmo ao pé
abriu-se a porta de um dos quartinhos e uma linda criatura loura chamou:
— O senhor banhista, venha cá.
— Não, o outro. Sim, você mesmo.
Geraldo sorriu
enleado. Tomavam-no por banhista! Ele, um estudante, um acadêmico! Mas, ao
mesmo tempo que o fato o humilhava um pouco, sentia um desejo imprevisto e
romântico de se deixar passar por banhista e ter assim a sua primeira façanha
de estudante. Os estudantes são todos levados da breca! Apertou o braço do
Nicolau, disse-lhe em calão de Nápoles que o deixasse, e aproximou-se. A dama
loura estava já vestida para o banho.
— Não quero mais aquele banhista velho.
Ha cinco dias que tomo banho e logo no primeiro pedi-lhe conservar-me o quarto
seco. Não ha meio. Veja só. Fica você. Quer?
Geraldo curvava-se,
sem uma palavra. A dama loura abriu a bolsa de prata, tirou uma nota.
— Tome. Não quer receber? Ora esta!
Receba. Para esquentar. Ande lá.
— Grazzie, signorina...
— Diga: é italiano?
— Io sono venuto da Napoli fa tre
anni...
— Ah! bem. E quantos tem de idade?
— Vinte e due.
A dama loura olhou-o
profundamente, teve um leve suspiro, e ainda indagou
— Como se chama?
— Túlio.
— Venha dar-me banho.
Infinitamente alegre
com a aventura, Geraldo seguiu para o oceano a dar banho na dama loura, e
quando voltou estava a arrebentar de riso. Não é que a mulherzinha o tomava
mesmo por banhista? Entretanto, o imprevisto do caso acendia-lhe o desejo de
continuar. Sim, continuaria. E falou ao dono da casa de banhos. O homem, um
italiano velho, não gostava de patifarias no estabelecimento. Mas, como era
para ele, Geraldo, consentia. Os outros riam a perder, um pouco envaidecidos
porque, afinal, um estudante era tal qual eles. E Geraldo, que não dissera a
coisa na escola por um certo pudor, não faltou mais. Logo cedo lá estava no
estabelecimento, de pés nus, calção de meia, camisa aberta. A dama loura
chegava sempre às seis e meia.
— Então, Túlio, o meu quarto?
— Pronto, patroa, prontinho.
No fim do quinto dia,
ele fazia tão bem o papel de banhista de opereta, que ela lhe disse o nome era
Alda Pereira, brasileira, do sul, tinha vinte e sete anos, e um protetor sério,
o senador Eleutério, que a tomara depois da separação do marido. Dizia essas
coisas naturalmente, aprendendo a nadar.
— Ai! não me afogues, rapaz. Morrer aos
vinte e sete anos...
— Palavra de rio-grandense e de Alda
Pereira que aprender a nadar custa!
Ele sorria, queria
leva-la para longe.
— Não, que o senador Eleutério pode
saber; e eu, meu filho, depois que me separei do meu marido, tenho muito medo
do ciúme...
Uma suave intimidade
brotava aos poucos daquela hora de banho.
Ele procurava termos
vulgares, copiava o rir dos outros, dizia coisa grossas com um ar ingênuo, o
seu tom de analfabeto, e ela parecia ter cada dia mais confiança. Já se
encostava ao seu ombro, já lhe agarrava o pulso potente de certo modo. Uma vez
perguntou-lhe:
— Você, um rapaz inteligente, porque não
muda de vida?
— Para que, signorina? Aqui vivo, aqui
hei de morrer...
— Criança! E não tem aspirações?
— Não, signorina!
— Aposto que nem sabe ler?
Ele parou um instante
atônito. Estaria ela a brincar, já sabedora de tudo? Seria o caso de avançar e
não gozar mais o prazer de ser conquistado. Mas Alda tinha uma expressão de tão
velutínea piedade, que não hesitou na farsa.
— É verdade. Nem sei ler.
— Meu Deus! Um rapaz de vinte e dois
anos que não sabe ler!
Os seus olhos nesse
dia tornaram-se mais úmidos, e ao rebentar de uma onda na ponte ela se deixou
positivamente cair no seu largo peito. Não tinha dúvida! A mulher amava-o como
certas damas amam os impetuosos adolescentes das classes baixas; a criatura era
uma nevrosada romântica. Decididamente estava de sorte.
No dia seguinte, à
saída, Alda Pereira indagou:
— Ó Túlio, quereria você aprender a ler?
— A signorina paga o professor?
— Ensino eu mesmo.
— Então quero. Onde?
— Vá á minha casa. Logo, à noite, às
sete; é a melhor hora.
Ele arranjara um dolmã de
brim, um capote comprido; comprara o lenço de seda e um chapéu desabado para
aparecer com a cor local. E fora. A dama loura habitava, numa rua transversal à
Lapa, uma casa elegante e discreta, com duas criadas apenas. Fizeram-no entrar
para uma saleta de estilo moderno, em que os móveis eram incômodos e as paredes
tinham mulheres de túnica soprando trombetas. Alda lá estava.
— Entre, Túlio. Nada de acanhamentos.
Francine, deixa a porta aberta... Sabe que já lhe comprei o seu livro?
Sente-se, menino, sente-se...
Evidentemente, ela
estava comovida, com um riso nervoso, as faces coradas. Ele achava aquilo
deliciosamente ridículo. Outro qualquer teria avançado; a sua natural timidez,
a pretensão de levar a cabo uma fantasia romântica inibiam-no de um movimento
de ataque. E parecia-lhe o cúmulo aprender o alfabeto ensinado por aquela
interessante mulher, tal qual nos vaudevilles franceses, numa cena de
burla. Sentou-se. Ela mostrou-lhe o livro na mesa, aproximando a cadeira do
outro lado. E começou a ensinar, com a voz molhada de mistério.
— Que letra é esta?
Geraldo fazia-se
inteiramente bronco, curvava-se muito para sentir os louros cabelos dela
roçando-lhe ao de leve a fronte. Às vezes as mãos se encontravam. As dela
estavam geladas. As dele eram de brasa. Ao fim de uma hora, ela disse num
suspiro
— Bom, vai embora.
Ele quase não podia
falar. Curvou-se mais, respirando forte, e ia toca-la, quando ela chamou:
— Francine, acompanha o Túlio até á
porta...
Como saiu ele furioso!
A sua vontade foi declarar a verdadeira posição, tomar uma atitude. Mas, para
que? Não teria realizado nada! Não a gozaria! Era uma aventura falha. Nunca!
Tivesse que estudar o alfabeto a vida inteira -aquela, ao menos, não lhe
escaparia. E, desde a madrugada, foi espera-la na casa de banhos, apaixonado.
Sim, de fato, apaixonado. Ele não estava senão apaixonado. A paixão é quase
sempre o desejo de um triunfo, que se imagina de um certo e determinado modo.
Há sempre um vencedor na alma de um amante. Ele queria pregar uma peça. Que
peça? Enfim, queria confundir a linda mulher de estranha vontade. E Alda
Pereira parecia também ama-lo, porque apareceu de olheiras, com um ar fatigado.
— Sabe que estudei? fez ele, olhando-a
fixo.
— Palavra?
— Quer tomar a lição hoje?
— Não, amanhã...
Ele se preparou, e
foi. Já sabia o alfabeto. Alda Pereira sorria, enlevada.
— Mas como é inteligente! Vamos a
soletrar. Olhe que você pode dar orgulho a um professor.
A aula ia continuar.
Ela tinha a cabeça curvada, mostrando a nuca nua. Ele estava encostado à mesa, com
aquele tom vulgar e potente, que o seu físico ajudava. A luz era tênue. Geraldo
moveu apenas a cabeça e roçou o bigode no pescoço venusto. Ela
estremeceu, estendeu as mãos e suspirou como uma rola.
— Ah! Túlio...
Ele firmou os lábios
polpudos e apertou-lhe as mãos. Ela se debateu, voltou a cabeça e a sua boca
purpurina, ansiosa e ávida, sugou o lábio de Geraldo. Nem uma palavra. Estavam
num outro mundo. Ele caiu de joelhos, ela pendeu, rolaram os dois. Era
frenética e deliciosa. Deliciosamente deliciosa. A própria paixão a vibrar. E
Geraldo voltou ao casinhoto, outro homem, aturdido, sem compreender o que via,
a lembrar-se dos seus abraços e das palavras suas:
— Túlio! Túlio! não digas a ninguém! É a
minha vida! Lembra-te do que fiz por ti. Só o amor, muito amor...
A vida de delírio
começou então. Ela entregava-se e sentia-o como um imenso acorde do seu próprio
ser. Cada beijo era uma revelação, cada abraço a dissolução de um mundo. E a
necessidade de ocultar de olhares profanos aquele sentimento ainda mais os
incendiava. No banho, ela estudava o momento de aperta-lo, de morde-lo,
esperava com a porta do quarto entreaberta para um beijo; em casa, as lições de
leitura eram a leitura de Paulo e Francesca, no verso de Dante. Jamais, porém,
ela mostrava desconfiar da sua verdadeira situação, e Geraldo, sentindo-se
indigno de si mesmo, continuava a ser o banhista Túlio, sem forças para dizer a
verdade.
Afinal, o senador
Eleutério soubera do caso, e, mais pai do que amante, resolvera mandar Alda à
Europa, a ver se o escândalo terminava. Alda chorava, queria viver sem roupas,
— Tu queres, Túlio?
— É para teu bem.
— Queres mesmo? É o nosso amor que
matas...
Eleutério comprara as
passagens, combinara tudo. Era no dia seguinte que Alda partiria. Geraldo,
preparando-se para a última visita, relembrava aqueles dois meses loucos de romantismo.
Como aquilo fora! Era lá possível prever? Antes, porém, da partida era preciso
dizer-lhe a verdade.
Então penteou o cabelo
como os banhistas, com muita brilhantina, pôs o chapéu e o capote, consertou
ainda uma vez o lenço de seda, e partiu. Alda estava na mesma sala da primeira
vez, muito abatida. Estendeu-lhe as mãos e a boca.
— Meu amor... A última vez!
— Alda, que é isso? ânimo...
— Lembras-te? Há dois meses!... Quanto
amor! Quando te vi, desde que te vi, meu amor, amei-te. Que me importava que tu
fosses banhista? Se era a tua carne, o teu corpo, os teus olhos que eu
desejava, meu adivinhado querido... Nunca, nunca mais sentirei o que senti por
ti, no mar, quando te tinha a meu lado, forte, meu, fiel... Dize!... Nenhuma
outra será como eu. Pois não?
— Mas, Alda...
— Àquela casa vão tantas mulheres! E tu
tens que servir a todas, tens que as segurar, tens que as salvar...
Geraldo, viu que era o
momento.
— Alda, tenho que te dizer...
— Não digas! não digas nada!
— Não, há um engano, um engano que não
pode continuar.
— Não há, Túlio, não há!...
— Há.
— Pois deixa-o!
— Não. Tu pensas que eu sou o banhista
Túlio, nascido em Nápoles.
— E não és? És sim, és o meu Túlio.
— Criança! Eu sou estudante de medicina,
chamo-me Geraldo Pietri.
Mas, como Alda
recuava, com a fisionomia demudada, Geraldo teve um resto de piedade.
— Sim, Geraldo, estudante, que se fez
passar por banhista para te amar...
Um silêncio tombou.
Alda sentara-se. Depois, como Geraldo se aproximasse, sorriu, afastando-o.
— Não, senta-te. Ou vai-te. É melhor
ires. Vai-te.
— Mas a nossa última noite?
— Vai-te.
— Zangaste-te?
— Não, pensei que tinhas mais espirito.
Não tens. Eu sabia, ouviste? Eu sabia desde o primeiro dia, quem eras tu. Se
não soubesse, teria perguntado por ti e dar-me-iam informações. Eu sabia. O meu
amor nasceu de uma brincadeira. Tudo na vida é ilusão e só a ilusão é
verdadeira. A verdade é a mentira porque é o comum e o vulgar. Amei-te,
querendo fazer desse sentimento uma parada de gozo superfino em que ambos nos
esforçássemos por dar a cada um a ilusão. Nunca se desengana uma mulher porque
não se mata a ilusão. Eu amava um ser idealizado, que seria chocante se fosse
verdadeiro, um banhista imprevisto, um selvagem, filho do mar e das canções, em
ti que o fingias bem. Tu mataste Túlio. Que me importa a mim o estudante
Geraldo? Já nem parto. Não é preciso. Adeus! E nunca, ingênuo rapaz, queiras
ser verdadeiro nas coisas do sentimento que ama a ilusão.
Geraldo, nervoso, sem
saber o que fazer do seu chapéu calabrês, sentia a lamentável, uma curiosa e
lamentável sensação de que retomava o seu eu; um eu vulgar e comum. Alda
fez-lhe ainda um vago gesto. Na rua, outra vez, envergonhado, furioso, triste,
o pobre rapaz deitou quase a correr, com o receio de que o conhecessem ainda
mal vindo da parada romântica. E só no quarto humilde é que pode chorar, chorar
longamente não ter sabido guardar integralmente o princípio da vida -a
ilusão...
Laurinda Belfort teve
um sobressalto. O relógio de marfim, engastado discretamente no canto esquerdo
do carro, marcava duas e cinco, e esse relógio, certo, incapaz de adiantamentos
ou de atrasos, marcava sempre a hora precisa para que Laurinda Belfort pudesse
regularizar com calma e tempo os múltiplos afazeres dos seus perfumados dias.
Havia, pois, trinta e cinco minutos que o pobre Guilherme Guimarães a esperava,
apaixonado e comum, numa casa solitária.
Laurinda recostou-se,
hesitando entre a idéia de apressar o cocheiro e o desejo de lá não ir, de
falhar mais uma vez. Vinha-lhe o guloso apetite de deixar sem o seu corpo a
absorvente entrevista. Mas, certamente, à noite teria a acompanha-la numa
queixa muda e feroz, o olhar de Guilherme, ou no teatro ou no raout da
condessa de Souto; e, à proporção que se aproximava o carro, Laurinda sentia as
mãos frias, uma vaga contrariedade, a esquisita negação de todo o corpo como a
tem a gente antes de fazer um enorme sacrifício...
Ah! Francamente já
enfarava. No primeiro dia, na manhã em que correra à
primeira entrevista, teria chicoteado o cocheiro para andar depressa, para
voar; nesta maldita quinta-feira vestira-se devagar, conversara durante o
almoço como toda a sua vida fora um resultado de imitações, fora um
acompanhamento de figurinos. Em criança, imitava os gestos pretensiosos de
altas linhagens de algumas das colegas de Sion; em menina e moça a sua linha
fora sempre copiada de alguns tipos de romance, e quando a mamã lhe fez notar a
necessidade de casar para satisfazer todos os apetites de luxo, imediatamente casou,
inaugurando aquela grande vida artificial e custosa, com as salas compostas
segundo desenhos de decoristas ingleses, os vestidos vindos de Paris e um ar de
boneca social, que para sempre lhe tirara a idéia de amar alguém, além da sua
prezadíssima pessoa. A grande vida um tempo fê-la mesmo esquecer quase o
marido, porque era preciso passar o carnaval em Nice, estar no outono em Paris,
passear os hotéis depravados do Cairo no inverno, dar opiniões sobre artistas e
pintores, falar de viagens e manter o seu salão no Rio, o seu salão invejado,
criticado, incomparável como Edmond Rostand, o campanilo de S. Marcos, a erosão
inglesa do esporte e a graça parisiense. Fora nessa ocasião que tomara como
dama de companhia uma velha inglesa esbelta, grande conhecedora de arte, que
sabia versos de Morris de cor e se apaixonara pelos fados portugueses a ponto
de acabar caissièrede hotel no Estoril. Laurinda tomou-a como quem
consulta um pequeno Larousse, e as suas extraordinárias toilletes, os
seus adereços, feitos no Vevert da rua da Paz, em que as pedras brasileiras
tinham rebrilhos inéditos cravadas em brilhantes, eram desenhos da velha
inglesa. Grande época aquela! Época de excessos, de conquista, de triunfo. O
grave Belfort de vez enquanto pasmava.
— Pois que! Tu agora fumas?
— Com efeito, grelho uma cigarreta.
— Mas é grosseiro.
— É ultra fashion. Não sabes nada
disso. És old style.
E montou um salão de
banho, em que a água da piscina parecia descer de um enorme vitral
representando avalanches de neve em montes, tudo quanto há de mais
pré-rafaelita. Todos os objetos e utensílios obedeciam ao
motivo algas do fundo do mar.
Mas em breve, a
vitória mundana fatigou-a. Era preciso mais alguma coisa. Uma Alice Verride,
senhora entendida em adultérios mas da melhor sociedade disse-lhe um dia:
— Minha cara Laurinda, precisas de um
homem.
— É boa. E meu marido?
— O marido não conta nunca,
principalmente quando nos faz todas as vontades. Precisas de um homem que te
preocupe, cuja paixão seja um piment para a tua vida, um ser violento.
Nunca amaste?
— Oh! Não!
— Pois é chique, menina. Admira até que
tu, tão conhecedora de Paris...
No dia seguinte,
Laurinda acordou convencidíssima de que precisava de um amante. Sim! Ela, uma
parisiense, que tinha como nenhuma outra a arte sutil da maquilage, essa
admirável estesia ateniense herdada por Paris, ela ainda não tinha um amante.
Que atraso, que femme vieux jeu! Decididamente retardava, retardava uns trinta
anos pelo menos. E, quando apareceu ao almoço, com os olhos cernés, o
gesto lasso, o lábio rubro, Laurinda olhou o paciente Belfort com um vago
desprezo, tal qual as damas dos romances a que uma grande paixão sacode.
Ainda não tinha
nenhuma. Mas viria a ter. Seria a última etapa de mundanismo e de puro sangue
da sua já gloriosa carreira na alta sociedade, teria também o seu romance. E
para realizar esse romance, entre muitos adoradores profissionais, o que já
insistia de há muito era precisamente Guilherme. Que fazer? Torturada pela
súplica de Guilherme o marido, ansiando pelo fato que lhe fosse pretexto para
não ir -porque Laurinda, sem indagar de razões, sentia-se presa a esse dever,
ao dever do amor. Afinal, sempre se decidira. Mais uma vez, Deus do céu! E lá
ia sem compreender porque, para a casa à beira mar ouvir o marulhar do oceano e
a voz do Guilherme!
Pobre Guilherme!
Estava decerto à espera, torturando as pontas farpadas do bigode, chegara
talvez cedo de mais. Também não fazia outra coisa agora, passava a vida
amando-a; e, ela, decididamente, enfastiava-se. Tudo quanto é demais, aborrece.
Fora levada àquilo por
mundanice, por cabriolice da alma, como diria a sra. de Souza Castro, titular
em decadência, hoje dama de companhia. De ver as outras damas amadas por homens
discretos e bem vestidos, achara aquilo smart e
comprometedor, com um leve tom de crime consentido. Ir assim, no seu carro, no
carro do seu marido, entregar-se à paixão do outro, do cavalheiro elegante,
parecia-lhe uma nota essencial da moda, lembrava-lhe logo os romances de Paris,
a psicologia passional das duquesas de alta linhagem, que às vezes tem dois,
sem contar o esposo.
Era-lhe grata como se
a sua existência fosse a última elegância esperada para faze-la ultra superior.
De resto custara, e
muito até. Acostumada ao louvor das costureiras e dos íntimos, intimamente
convencida de que onde fosse a admirariam, muito risonha e muito audaz, quem a
visse naquela vertigem de diversões inventando o prazer e o «flerte», não a
julgaria no fundo tão profundamente temerosa das coisas positivas...
O pobre Guilherme
vivera de platonismos longo tempo. Onde ela estivesse, ele lá se achava. Na rua
dava-lhe cercos para lhe tirar o chapéu, curvar-se; em casa, valsando (depois
de conversar com o marido, muito seu amigo), escorria-lhe no pescoço
declarações de amor respeitoso. Era a sugestão, a tentação, a perdição... Ela
ouvia-o, marcava-lhe o lugar da sua frisa para que ele comprasse uma poltrona
fronteira, dizia-lhe com antecedência os bailes e os five-o-clock que
teriam a sua presença. Quando Guilherme falou do grande acorde, sentiu um
desejo surdo de se negar. Então era fatalmente preciso? O desejo fora,
entretanto, muito forte, entontecera-a. Ela, que tinha o nome nos jornais
mundanos, no livro das costureiras e no lábio de toda a gente, quis ouvi-lo
pronunciado ternamente por um homem elegante. A curiosidade aguçou-se. Como
seria emocionante desmaiar, tal qual o pintam nas gravuras e nos romances!
Seria antes de tudo high-life. Guilherme era chique.
Guilherme! que nome
horrível! Mas, coitado, amava-a, estava sempre em toda a parte, tinha uma
porção de roupas, andava à inglesa, trotando, com os braços meio abertos,
repartia o cabelo ao meio como nos figurinos, e possuía um encanto inédito;
limava as unhas, dava-lhe um brilho metálico, incrível, um lustro, que, quando
movia os dedos, parecia ter nas pontas palhetas de nácar. Ah!
as unhas desse Guilherme!
Quando o jovem
afortunado lhe premia a mão, o contato envernizado daquelas unhas dava-lhe num
arrepio a delícia de mais um ofertório à sua beleza tão aguda, tão clara, tão
moderna e tão perturbadora. Fora talvez essa a única razão porque se entregara
à sensualidade meio snob, meio cerebral, de se sentir despir por aqueles
pedaços de um vermelho especial e lustroso, o contato daquelas unhas
artificiais e extra-humanas. E nos passeios, nos banquetes, as luminosas unhas
de Guilherme preocupavam-na como o olhar invejoso de uma amiga, o luxo de mais
uma renda, a volúpia de uma jóia, que se não pôde possuir senão à custa de um
enorme sacrifício...
Fez concessões a
princípio, foi só a trechos pouco frequentados conversar apenas, discutir os
tenores da companhia lírica e as infâmias da sua roda. Mas, como de uma feita,
ele, de mãos postas e joelhos em terra, sem se incomodar com a calça, rogasse a
sua ida ao infalível ninho de amor, ela cedeu afinal, incapaz de resistir por
mais tempo...
Nesse dia foi meia
hora antes, e agora, ali no carro, indo outra vez, ainda tinha na memória a
exasperação sensual da tarde intensa. Guilherme, outro, rouco, e aquelas unhas
brilhantes, coralisadas, que envermelheciam mais, que se machucavam desfazendo
tecidos, que tocavam frias à sua epiderme, luziam nas batistescomo
carapaças de pequenos monstros estranhos, para acabar empalidecendo, fenecendo
de perpassar pela sua carne como fica sem cor um rosto sempre votado à
oração... Naquele momento, toda a sua alma vibrara de um prazer como nunca
tivera, o prazer sutil de gozar e desfazer o artifício máximo do outro. Mas,
desde então, ficara de gelo, esfriara, diante da pertinácia alvar daquela
paixão.
Pobre homem! não se
contentara! Antes pelo contrário, parecia furioso depois do primeiro dia.
Pedia-lhe entrevistas a todas as horas, em todos os lugares, tinha sempre nos
olhos uma queixa, e obrigara-a a dias certos! Ela, uma senhora afinal, achava
aquilo brutal, uma violência de quem paga e que a reduzia, que a humilhava.
Não havia duvida
amava-a. Mas isso, não era razão e plausível para tamanhos excessos. Certamente
era gentil esperava-a sempre com o quarto florido. Mas, em a vendo, era sempre
aquele beijo, o beijo infalível e a frase:
— Sempre vieste! como te amo, Laurinda,
como eu te amo!
Uf! que banalidade!
Era baboso, era de entorpecer. E, positivamente, estragar um dia por semana,
roubar-se à admiração do próximo para ouvir aquele senhor soluçar queixas de
amor, parecia até pouco sério. Depois, Guilherme nem sabia, nem tinha préstimo
para vestir uma senhora. Os seus vestidos, complicados, com ligaduras difíceis
e ousadias de corte, eram amarfanhados por ele, rasgados, e mesmo, num dia de
frio, caindo do céu a umidade, diante do espelho, Laurinda suava de
impaciência, tanto o idiota custava para lhe atacar o colete -já com as unhas
quebradas; sem brilho de se roçarem e de a apertarem.
Antes de ir para essas
sessões, Laurinda vestia-se lentamente com a dor de saber que se ia despir,
demorava, imaginava afazeres, olhando o relógio. De repente, porém, quando já
os ponteiros passavam da hora, não se continha. Mandava tocar à toda, corria ao
rendez-vouscom a louca vontade de que ele não a esperasse
mais. Porque ia então? Ora! porque ia! Por condescendência, por fraqueza, por
não achar o meio sério de se livrar de vez. E só então Laurinda lembrou que ia,
naquele momento, para o suplício! Pegou do tubo acústico,
soprou desesperada:
— Mais devagar, José!
Se aquele pobre
Guilherme tivesse mais alguma novidade além das unhas! Mas -coitada dela!- era
certo vê-lo ajoelhar, vê-lo dizer: -sempre vieste! mostrando as unhas polidas e
brilhantes prestes ao sacrifício! Era infalível que teria um fato novo, que a
beijaria como a beijava sempre nos olhos para lhe tirar a veloutinedo
rosto, era fatal que arrebentaria o cordão do seu espartilho diante do psyché -que
é como a alma do nosso físico... Ao menos, se o jovem feliz não a obrigasse a
despir, conversasse apenas, tivesse, enfim, um aspecto novo -vá! Mas não. Havia
de ser tal qual, inexoravelmente tal qual. Oh! era estúpido!
Um espasmo de raiva
fê-la esticar os dedos coriscantesde anéis. Seria eterno aquilo? Não acabaria mais
nunca? O monstro abusaria até o fim da sua posição de mulher honesta e fraca?
Deus! ia começar a
tortura, o desespero! As janelas estariam abertas, era certo. O imbecil ainda
acabava morando lá! Lentamente, como se levantasse o mundo, suspendeu o storede seda
branca, e mais lentamente ainda ergueu os olhos tristes.
A casa estava
totalmente fechada.
Hein? Seria possível?
Ele, então -e de súbito o desespero sufocou-a- não a esperava mais? Acabara a
paixão? Então, ele também estava farto, estava cansado? Oh! ela já enjoava, já
aborrecia aquele cidadão que a perseguira dois anos! Mas então essas coisas
acabavam assim com a porta fechada, na cara, na sua face! O grosseirão
insultava-a a ela, a ela, Laurinda Belfort, esposa de Soares Belfort!
Abriu a portinhola.
Saltou. No seu cérebro baralhavam as idéias como se a afronta a ensandecesse.
Em derredor, a rua deserta modorrava. No céu muito azul, de um azul muito
claro, o sol vibrava, e do mar, que abria pelo espaço um outro céu, vinha a
úmida aragem de um dia primaveril. Deu dois ou três passos, certificou-se
rangendo os dentes de desespero.
Oh! era ela -para seu
castigo, por ter querido ser boa, por ter pena do infeliz, era ela quem não se
fazia receber! Oh! a vida! Quantas surpresas amargas!
Meteu-se outra vez no
carro, bateu a portinhola.
Ah! não! nunca mais!
estava acabado! O Sr. Guilherme queria o insulso, o idiota? Tanto melhor! Só
assim não perderia mais o tempo, ela que tinha tanto que fazer, que ainda não
fora ao costureiro e tinha teatro à noite, jantar, um five-o-clock das
Teixeira impreterivelmente às quatro e meia! Que bom! E o cretino a pensar que
a humilhava, que a incomodava! A rua do Ouvidor devia estar esplêndida. Se ao
menos ela, Laurinda Belfort, não estivesse muito mal! Sempre que vinha àquela
horrível casa vinha tão sem gosto... O seu vestido era de rendas brancas, sobre
um fundo de liberty verde gaio. Abriu o estojo do coufé, tirou um
espelho, um pompon de pó de arroz, viu-se, achou-se bela com o seu chapéu que
era uma rosa debruada de uma enorme pluma verde pálido. E, de fronte do
espelho, a idéia de fugir à humilhação apuou-lhe de
novo o cérebro. Não havia dúvida. Nada de cenas que demonstrem amor. Apenas, ao
encontrar o mariola -uma frase triste:
— Ah! meu amigo, foi-me impossível ir
hoje!
Gozar a cara dele,
negar a sua ida lá, e mesmo que ele dissesse não ter ido também mostrar um ar
indiferente... Ah! Tortura-lo com uma indiferença calma, ignorante, com alguns
bocejos, até tê-lo uma última vez e deixa-lo, abandona-lo, não ir mais -ela,
ela, ela a vencedora! desprezar as suas unhas, o prazer mórbido de toca-las, as
unhas... ah! canalha!
Então, sob essa
impressão, Laurinda Belfort inclinou-se vivamente:
— José, para a cidade, depressa!
O carro tornou a
rodar, enquanto, reclinada na almofada de seda, Laurinda torcendo os dedos,
sentia, por mais que não quisesse sentir, a falta daquela hora infame, daquelas
frases tolas, a falta daquelas unhas que lhe davam a renovação de uma sensação
toda cerebral, para ao menos quebra-las mais uma vez morde-las, despreza-las.
Instintivamente, na imensa confusão dos seus desejos, olhava os transeuntes com
ânsia, a ver se o via, a ver se o encontrava, para parar o carro, ou tocar à
toda, ou cumprimenta-lo, ou fingir que não o via... Sabia lá! Mas para vê-lo um
momento ao menos, o pobre diabo, com os seus bigodes e aquelas unhas da cor do
nácar rosa... E nos seus olhos brotavam, de desespero e de desejo, lágrimas a
fio -por não ter tido, apenas naquele dia, o brinquedo de um pobre ente para
torturar e espezinhar, o brinquedo aborrecido uma hora antes.
E de súbito, um indizível pavor prega-me ao
banco. É um dia brumosamente invernal. O azul do céu parece tecido de
filamentos de brumas. O sol como que desabrocha dentre as brumas. O ar, um
pouco úmido e um pouco cortante, congela as mãos, tonifica a vegetação, e o
mar, que se vê à distância num recanto de lodo, tem reflexos espelhentos de
grandes escaras de chagas, de óleo escorrido de feridas à superfície quase
imóvel. O cheiro de desinfecção e ácido fênico, o movimento sinistro das
carrocinhas e dos automóveis galopando e correndo pela rua de mau piso, aquela
sujeira requeimada e manchada das calçadas, o ar sem pinga de sangue ou
supremamente indiferente dos empregados da higiene, a sinistra galeria de caras
de choro que os meus olhos vão vendo, põe-me no peito um apressado bater de coração
e na garganta como um laço de medo. A bexiga! a
bexiga! É verdade que há uma epidemia... E eu vou para lá, eu vou para o
isolamento, eu!
Um mês antes ria dessa
epidemia. Para que pensar em males cruéis, nesses males que deformam o físico,
roem para todo sempre ou afogam a vida em sangue podre? Para que pensar? E
Francisco, o meu querido Francisco a que eu amava como a melhor coisa do mundo,
pensava todo o dia, lia os jornais, tomava informações. A média de casos fatais
é de trinta por dia. Ela vem aí, a vermelha, dizia. E já organizara um regimen, tomara
quinino, tinha o quarto cheio de antisépticos, os bolsos com pedras das
farmácias para afastar o vírus. Coitado! Era impressionante. Eu bem lhe dizia
— Mas criatura, não tenhas medo. Andamos
todo o dia pelas ruas, vamos aos teatros. Qual varíola! Vê como toda gente ri e
goza. Deixa de preocupações.
De manhã, porém, nós
líamos juntos, ao almoço, os jornais. Para que mentir? Havia, havia sim! A
sinistra rebentava em purulências toda a cidade. Um dia em que passava por uma
igreja, Francisco ouviu os sinos a badalar sinistramente. Teve a curiosidade de
saber por quem tão tristes badalavam e perguntou a um velho.
— É promessa, meu senhor, é para que
Santo Antônio não mate a todos nós de bexiga.
Francisco ficou como
desvairado. Ao jantar encontrou-se comigo.
— Ah! filho, falta-me o apetite. Estamos
perdidos. É impossível lutar. Ela está aí.
— Acabas doido.
— Antes! fez no orgulho da sua beleza.
Há uma semana, indo
por uma rua de subúrbio encontrou com gritos e imprecações um bando de gente
que arrastava ao sol um caixão. Era uma pobre família levando à igreja o
cadáver de uma criança em holocausto, para que Deus tivesse piedade e
misericórdia. A impressão prostrou-o. Chegou à casa ainda mais assustado.
— Sabes! Estamos perdidos. A polícia já
deixa arrastarem os variolosos pela rua. Dentro em pouco só lepra, a lepra de
dentro encherá as ruas. Cada dia aumenta mais, cada dia aumenta. Quando chegará
a nossa vez?
— Mas vai embora, homem, sobe à
montanha, afasta-te...
E comecei eu também a
indagar, a querer saber. Então, continuava? Como era? Como se morria de
bexigas? As pessoas ficavam muito coradas, sentiam febre. Havia várias
espécies. A pior é a que matava sem rebentar, matava dentro, dentro da gente,
apodrecendo em horas! Palavra, não era para brincadeiras. O Francisco abalara
para o Corcovado, uma noite, sem me falar, sem me dar um abraço, e de repente
naquela manhã, hoje, sabia por uma nota que ele estava no S. Sebastião, com
bexiga também, talvez morto! Deu-me um grande ímpeto! Covarde! Fôra o medo. E
agora? Era preciso vê-lo, não era possível deixa-lo morrer sem um amigo ao
lado. Nunca tive medo de moléstias, morre quem tem de morrer. Depois a cidade
estava tão alegre, tão movimentada, tão descuidosa. Tomei o tramway quase
tranquilo. Mas ali, tudo indica a morte, a angústia, o horror, ali é
impossível, e eu sentia um frio, um frio...
— Estamos no ponto terminal; não salta?
diz-me o condutor, virando os bancos. Faço um esforço, salto. E vou. Vou
devagar, vou não querendo ir. A impressão de fim, de extinção violenta! Aquele
recanto, aquele hospital com ar de cottage
inglês aviltado por usinas de porcelana, é bem o grande forno da peste sangrenta.
Como deve morrer gente ali, como devem estar morrendo naquele instante. Desço a
rua atordoado, com um zumbido nos ouvidos. O mar é um vasto coalho de
putrefações, de lodo que se bronzeia e se esverdinha em gosmas reluzentes na
praia morta. O chão está todo sujo, e passam carroças da Assistência, carroças
que vêm de lá, que para lá vão. Quase não ha rumor. É como se os transeuntes
trouxessem rama de algodão nos pés. Só as carroças fazem barulho. E quando
param -como elas param!- é o pavor de ver descer um monstro varioloso, desfeito
em pús, seguindo para a cova... Espero que não haja nenhuma carroça à porta,
precipito-me pela alameda que sobe ao hospital. Vou quase a correr, paro à
porta de uma sala que parece escritório.
— O diretor?
— É alguma coisa de urgente? indaga um
jovem.
— É. É e não é.
— Vou preveni-lo. Sente-se. O senhor
está pálido.
Caio numa cadeira.
Sinto as mãos frias. As pernas tremem. Eu tenho medo, oh! muito medo... E
aquele trecho de secretaria não é para acalmar o destrambelhamento dos meus
nervos. Tudo é branco, limpo, asseado, com o ar indiferente nas paredes, nos
móveis sem uma poeira. Os empregados porém movem-se com a precipitação triste a
que a morte obriga os que ficam. Retintins de telefone repicam seguidamente nos
quatro cantos. Os diálogos cruzam-se, diálogos em que as vozes falam para dores
invisíveis.
— Mais um doente?
— Ah! sim, ciente.
— Qual? Não há mais lugar. O de nome
José Bernardino? Vou ver.
— Olhe, 425? Morreu ontem à noite. Se já
seguiu? Já.
Enquanto essas
notícias são dadas à boca dos fones, há mulheres pálidas e desgrenhadas que
esperam novas dos seus doentes, há velhos, há homens de face desfeita, uma
série de caras em que o mistério da morte, lá fora, entre as árvores, incute um
apavorado respeito e uma sinistra revolta. Quantas mães sem filhos! Quantos
pais à espera da certeza da morte dos filhos! Quantos filhos ali, apenas para
tratar do enterro dos que lhe deram o ser. Ela não respeita idade, passa a
foice purulenta em tudo, está lá reinando, fora, no jardim, entre as árvores,
morro acima. Os funcionários têm uma delicadeza fria.
— Que deseja, minha senhora?
— Saber do meu filho. É 390.
— Há quantos dias?
— Há quatro. Ainda elas não tinham
saído. Foi o médico que disse. Ai! o meu pequeno!
— Está decerto no pavilhão de
observação. Vou mandar ver.
— Meu senhor, a minha mulherinha,
diga-me por Deus, diga-me.
— Espere, homem. Nada de barulho.
Os retintins
telefônicos continuam. Algumas faces não dizem nada. Estão lá sentadas,
esperando, esperando, esperando. E há marcados, marcados do terrível mal, que
vão sair, não morreram, estarão dentro em pouco na rua com a fisionomia
torcida, roída, desfeita para todo o sempre. E ele? E Francisco? Ficará assim?
Assim, horrível, horrível... É preciso vê-lo! É preciso!
O rapaz volta, faz-me
um gesto, sigo-o, dou no gabinete do diretor, muito louro, com a sua face
inteligente vincada de tristeza.
— Então por cá? Não teve medo? Está com
a mão fria. Ah! meu amigo, a apostar que não acreditava na devastação do mal?
Pois é horrível, é inaudito. Tenho presentemente no hospital setecentos e vinte
doentes desde a varíola hemorrágica, que mata em horas, até a bexiga branca que
nem sempre mata. Já não há lugares. Nunca S. Sebastião esteve assim. Mandei construir
à pressa mais dois pavilhões. Estou arrasado de trabalho e desolado. Afinal,
por mais que se esteja habituado, sempre se tem coração para sentir a dolorosa
atmosfera de desgraça... Mas que deseja? diga.
— Eu desejava tomar uma informação. Está
aqui no hospital um rapaz do norte, Francisco Nogueira, estudante...
— Francisco? Há tanta gente que entra e
tão pouca que sai... Em que dia entrou?
— Creio que anteontem. Vou mandar ver.
Tocou um tímpano.
Apareceu um funcionário. Falaram ambos. O funcionário saiu, e desde que saiu,
um tremor apoderou-se do meu corpo. Estaria morto? Estaria vivo? Aquela carne
feita de ouro e de rosas já se teria transformado numa chaga purulenta? E se
estivesse morto? Uma criança tão cheia de esperanças, tão entusiástica, tão
pura, sem os pais aqui, sem ninguém a não ser eu que tremia. Nossa Senhora! Que
me viriam dizer? E ao mesmo tempo, o desejo de encobrir tamanha emoção
forçava-me a fingir um sorriso, a dizer mundanamente coisas frívolas ao homem
bom cujos olhos tinham tanta piedade.
— É o diabo. A epidemia tem impedido
vários prazeres da season. As grandes estrelas mundiais, os teatros.
— Pouca gente.
— Menos do que se devia esperar. Não
frequenta?
— Não tenho tempo.
— Ninguém dirá entretanto que a
varíola...
— Nas grandes cidades as pestes dão uma
impressão muito menos dolorosa do que outrora.
— Na Idade Média, não, doutor.
Mas um nó subitâneo
estrangula-me a frase. O funcionário voltara, dava informações baixo ao
diretor. O médico pôs-se de pé e diante de mim:
— Está cá. Entrou anteontem. Está vivo.
O médico da enfermaria diz que há esperanças.
— Quero vê-lo, doutor.
— É vacinado?
— Sou.
— Já viu um varioloso?
— Não.
— Gosta desse rapaz?
— É meu amigo.
— É melhor não vê-lo. Aceite o meu
conselho. A ele nada falta. O senhor parece tão comovido. Tenha esperança, vá
descansar. As emoções fazem mal neste período...
— Quero vê-lo, doutor, quero. É um
grande obséquio que lhe fico a dever.
O diretor ainda
hesitou um instante, mas diante da minha resolução que se fazia súplica, fez um
gesto e eu acompanhei o funcionário, passei a secretaria, entrei no jardim,
comecei a subir para o morro, onde entre as árvores erguiam-se os grandes
pavilhões, com as redes das janelas pintadas de vermelho. Era ali, naqueles
enormes galpões, com janelas forradas de tela rubra que a varíola punha
putrefações e gangrenas em corpos dias antes bons. O homem ia depressa, e eu
arquejava atrás, sem forças, com as têmporas batendo. Meu Deus! Que iria ver?
Que se daria? De repente, parou, subiu uma escada. Subi também. Abriu uma porta
de tela, entrou. Entrei com ele. Abriu outra, passou. Passei com ele.
Encaminhou-se para um compartimento. Segui-o. Onde estava eu? Sei lá! Não
sabia! Não sabia! Vi-me diante de um leito, onde um cobertor tapava, por
completo, um pequeno volume. Para diante havia outros leitos cobertos de
vermelhos, outros muitos, cobrindo a negregada. Certo cavalheiro indagava:
— Quer ver então?
— Sim, senhor.
— Não é grave. Esta escapa. Mas tenha
coragem!
Depois, com infinito
cuidado, pegou das pontas do cobertor e foi levantando aos poucos. Fechei os
olhos, abri-os, tornei a fecha-los.
— Não há engano?
— A papeleta não erra. É ele mesmo.
Eu tinha diante de mim
um monstro. As faces inchadas, vermelhas e em pus, os lábios lívidos, como para
rebentar em sânie. Os olhos desapareciam meio afundados em lama
amarela, já sem pestanas e com as sobrancelhas comidas, as orelhas enormes. Era
como se aquela face fosse queimada por dentro e estalasse em empolas e em
apostemas
a epiderme. Quis recuar, quis aproxima-me. Só consegui dizer para o horror:
— Francisco, Francisco, então como vais?
Os lábios moveram-se,
e uma voz, outra voz, uma voz que era outra, passou vagarosa:
— Ah! és tu?
Enquanto o corpo não
fazia um gesto. Era ele, ele, sim, porque sobre a travesseira, só uma coisa não
desaparecera dele e da podridão parecia tomar um redobro de brilho: a sua
enorme cabeleira negra, com reflexos de ouro azul-tinta...
Então veio-me um louco
desejo de chorar, um desejo desvairado. Fiz um vago gesto. O funcionário
abriu-me a porta e eu saí tropeçando, desci o morro a correr quase, entre os
empregados num vaivém constante e as macas que subiam com as podridões. Um
delírio tomava-me. As plantas, as flores dos canteiros, o barro da encosta, as
grades de ferro do portão, os homens, as roupas, a rua suja, o recanto do mar
escamoso, as árvores, pareciam atacados daquele horror de sangue maculado e de
gangrena. Parei. Encarei o sol, e o próprio sol, na apoteose de luz, pareceu-me
gangrenado e pútrido. Deus do céu! Eu tinha febre. Corri mais, corri daquela
casa, daquele laboratório de horror em que o africano deus selvagem da bexiga,
Obaluaiê, escancarava a face deglutindo pus. E atirei-me
ao bonde, tremendo, tremendo, tremendo...
Há epidemia, oh! sim,
há epidemia! E eu tenho medo, meu amigo, um grande, um desastrado pavor...
E Luciano Torres, após
a narrativa, caiu-me nos braços a soluçar. Era de noite e foi há dois dias.
Ontem vieram dizer-me que Luciano Torres, meu amigo e colega, fora conduzido em
automóvel da Assistência do seu elegante apartamento das Laranjeiras para o
posto de observação. Está com varíola.
— Perdeste?
— Não, ganhei por treze. Veja você a
cábula!
E Armando recebia do
parceiro mil réis pela partida de bilhar. Para fazer semelhante aposta fora
preciso a boa vontade do Jeremias, o principal caixeiro, que emprestara os dez
tostões e durante toda a partida levara a peruar, grasnando. «Anda com isso,
homem. Pois ainda não ganhaste? Olha que se perdes...». Armando suspirou, bateu
com o taco no soalho.
— Vamos outra, parceiro? silvou o
contendor, um sujeito lívido, de olhar desconfiado.
— Não posso. Tenho onde estar às sete.
— Quem? Você? Qual! O que você tem é
medo. Um pixote com uma sorte maluca.
— Ah! filho, quem dá a sorte é Deus.
Mas o Jeremias vinha
arrastando as chinelas, em mangas de camisa. E, apanhando as bolas no pano sujo
de giz, a apagar um dos bicos de gás, resmungou tirânico:
— Deixa-o lá. Não lhe dês conversas. O
dianho perde e ainda se põe com luxos!
Mesmo ali,
entregou-lhe a nota do empréstimo, piscou o olho para outro caixeiro, um
camaradão esse, foi até à cigarreria receber fiado um maço dos de carteirinha e
uma caixa de fósforos. Acendeu um, vagou um pouco pela atmosfera deletéria do
botequim, repleto de cambistas, de vendedores de senhas, de gente que não tinha
o que fazer ao lado de uns tipos de torrinha, que trabalhavam o dia para fazer
da claque à noite, olhou-se um instante no espelho. Estava
pálido, com olheiras, a barba por fazer e o seu colarinho, emprestado, havia
oito dias que lhe apertava o pescoço. Sentiu uma tonteira. Fome, de certo. Não
comera desde a véspera, e o dia anterior passara-o com uma media e meio pão com
manteiga, repartido afetuosamente com o Clodomiro. Iria comer um bife no frege.
Saiu devagar, desceu a
rua do Senado, entrou numa casa de pasto da rua do Espirito Santo, e foi bem
para o fundo, com medo dos camaradas necessitados, que talvez quisessem
repartir. O caixeiro, um gordo, com o ventre muito grande e o nariz rubicundo,
assentou as duas mãos na toalha suja, e desfiou diante dele a lista cantada das
iguarias.
— Um bife e um caldo verde.
— O bife depois?
— Está visto.
— Salta um caldo verde! ladrou para
dentro o homem.
Armando pediu tambem
vinho. Logo que o caldo lhe caiu no estômago, um calorsinho agradável
percorreu-lhe o corpo, e o estômago pareceu-lhe que acordava -o seu bom
estômago, amigo às direitas, sem exigências, sem queixumes, um estômago que
perdera a noção do jantar e do almoço e parecia dormir-lhe nas suas entranhas.
Devorou o caldo com grossos pedaços de pão, devorou o bife, sorveu a meia
garrafa de vinho, mastigou duas bananas. Oh! Tinha fome para muito mais! O
proprietário porém não fiava, e já era muito aquele jantar. Apanhou os níqueis
do troco, saiu, com as mãos no bolso, e verificou no meio da rua que não tinha
nada a fazer. Era um homem, completara vinte anos, conservara rijos os músculos
e cheia de ambições a alma. Entretanto estava ali, na calçada, como um trapo,
ao deus-dará da vaga humana, sem trabalho, sem morada. Para onde iria ele,
coitado? Era onde calhasse que havia de dormir. Talvez ceiasse. E talvez no dia
seguinte encontrasse um emprego. Oh! o emprego! Quantas desilusões e a quanta
coisa descera para arranja-lo! Lembrou-se de que uma grande influencia
política, um senador, olhando-o muito intimamente, dissera-lhe:
— Veremos, ainda se pode arranjar...
Ainda se pode! Armando
sorriu. Ora se ainda! Os seus orgulhos, e sua altivez, a noção de honra, de
hombridade, de vergonha tinham naqueles quatro meses de miséria se adelgaçado
assaz. Tudo é tão relativo neste mundo! Quando está a roupa no fio e o estômago
vazio está, tira-se partido mesmo do que nos repugna ao menos para jantar. E
ele, perdendo a cor da face, impondo ainda o seu tipo sensual de adolescente,
entrava em intimidades perigosas, arranjava pequenas ladroeiras mais perigosas
que grandes roubos, metia-se em histórias inconfessáveis, e lentamente, cada
dia descia mais.
Aquilo acontecera a
tantos! Ele viera da terra remetido a um tio padre que vivia em mancebia com
uma cabrocha gorda para os lados da Penha. Era forte, airoso e com essa
sensualidade à flor da pele que só têm os homens de Portugal. Por causa da
cabrocha o tio despachara-o para uma taberna na cidade. Ele ia indo bem e assim
passou dois anos. Mas um dia uns camaradas lembraram ir ao teatro, a uma grande
revista de certa companhia portuguesa. Foi, de terno novo, com um ramo de
violetas à lapela. Nunca vira um teatro. Apaixonou-se por todas as mulheres,
começou logo a considerar os cômicos grandes homens. Nessa noite esperou a
saída dos artistas. No dia seguinte, apesar de tomar conta da taberna, às onze
horas saiu pé ante pé para não acordar os outros, bateu a porta e voltou ao
teatro. E como não tivessem percebido a sua fugida, todas as noites deu para
fazer o mesmo. Estava de dia a cair de sono, mas já conhecia os coristas, já
dizia a sua piada às coristas, já o porteiro da caixa lhe
pedira dinheiro para o deixar passar, e uma artista, a Etelvina Soares, uma de
pernas grossas, já lhe passara duas cadeiras de beneficio. O teatro, a caixa,
os artistas exerciam a sua fatal tentação e para a folia da noite Armando
cortava na gaveta do patrão uma féria permanente. Mas, ao voltar uma noite à
taberna, encontrou de pé, à porta, o patrão a bufar de cólera, que o espancou
furiosamente, insultando-o a berrar:
— Pensavas, patife, que eu não viria a
saber!
Ele foi digno. Que
importavam empregos? Exigiu as suas contas, recebeu economias de dois anos que
o patrão com a ameaça da polícia dera imediatamente, e caiu no oceano daquela
vida sedutora, despreocupado e feliz. Passava os dias nos ensaios, nas bodegas
de artistas meio esfomeados, passava bilhetes de benefício. As mulheres não o
amavam, mas ele conhecia todas; os grandes cômicos não lhe sabiam o nome, mas
ele, Armando, conhecia-lhes todos os papéis, tinha opiniões, criticava, sabia
de cor uma porção de coplas. O ar pezado da aldeia, desfizera-o a vida na
cidade; o tom grosso de caixeiro, aquele roçar com cômicos transformara. Acabou
por desprezar os seus antigos colegas, e na noite de despedida da companhia, no
embarque da mesma, fez loucuras de entusiasmo. Ah! Aquilo é que era! Mas já não
lhe restava mais nada das economias e era preciso empregar-se. Empregos! Todas
as portas se lhe fechavam nas casas de comércio, sabendo do tempo em que
estivera desempregado. Alguns sabiam mesmo a história, e o próprio Armando
sentia não poder mais voltar àquele trabalho, enquanto os dias iam se passando
pelos teatros, pelos botequins, à cata de dinheiro, amoldando-se ainda mais à
infâmia, aos desejos misteriosos, às pândegas das noites. Por último era aquilo
sujo, com fome, sem ter onde dormir, e entretanto julgando-se mais do que fora
antes, julgando-se mais, reagindo contra uma resolução que o fizesse mandar
buscar pelos pais ou de novo o pusesse a trabalhar. Que vida!
Armando parou à porta
de um botequim numa roda de atores principiantes, de contra-regras, de
figurantes. Há sujeitinhos lavados, bem como os coristas, há tipos em mangas de
camisa, há também estômagos vazios. São conhecimentos das noites passadas em
claro nos cafés-bilhares, nas baiucas fétidas de jogo. Armando olha um sujeito
de grosso bengalão: é o chefe da claque. Cumprimenta-o, fala-lhe.
— Não tem disso, não! Fomente-se!
Mas é bom, dá-lhe uma
senha. De posse da entrada, o rapaz põe-se logo a andar, embarafusta pelo
teatro, atravessa o jardim sem ver ninguém, entra na caixa, sobe uma estreita
escada de quatro ou cinco degraus, atravessa um monte de cenários velhos, que
de vez em quando saem da poeira letárgica para um espetáculo de arromba.
Vira à esquerda, passa
pelo pano do fundo para a carreira de camarins das notabilidades, sobe outra
escada, dá em meia dúzia de bricoetes. Armando abre um. É o do ator Espínola. Quem é o
Espínola?
Ninguém sabe. O
Espínola foi comerciante, apaixonou-se pelo teatro, passou misérias atrozes, e
vive agora de fazer pontas com cento e cinquenta mil réis por mês. É tímido, é
assustadiço, e tem piedade pelos outros.
— Então que há.
— Parece que a companhia dissolve.
— É o diabo. Vamos para o interior? Com
quem?
— Um pequeno grupo...
Espínola pinta-se mal
e dá informações. Com os olhos queimados, a face oleosa pela falta de repouso,
Armando ouve-o. Lá em baixo tocam um grande sino. Vai começar. Espínola sai.
Armando diminui a luz do gás, tira o casaco e deita-se na mala. Dormir, não
pensar, dormir apenas... E dorme, dorme um sono mau, fatigante, interrompido
pelas entradas do Espínola, cortado de toques de sino, de inferneiras de
mulheres, de gritos, de músicas. Faz no camarim uma temperatura de caldeira.
Afinal, à meia noite, Espínola acorda-o. Terminou o espetáculo. Armando lava a
cara, penteia o cabelo, prepara-se, saem os dois devagar. Espínola não tem
amantes, e por uma evidente infelicidade Armando não arranjou nenhuma. Tomam
café no largo do Rocio. O bom Espínola, que habita um cômodo com mais cinco
pessoas, despede-se. Armando, só, sem coragem, volta de novo ao botequim onde
ganhou dez tostões. Há como ele outros rapazes, há coristas, há tipos reles. Às
vezes fazem-se pândegas. Mas naquela noite ir amanhecer no Leme ou no Mercado?
Não, não é possível.
Os botequins vão
fechando, rareia o trânsito, Passa de vez em quando um bonde. Aparecem os
varredores da Limpeza Pública, numa nuvem sufocante de poeira. Armando está
ainda à esquina, mastigando a ponta do cigarro. E vê então que há luar. A lua
cheia, muito lânguida e muito pálida, estende pela casaria a poesia misteriosa
da sua luz. Oh! a velha lua! Como consola os tristes e os desgraçados! Armando
vai indo a pé, olhando o céu, olhando a lua. Desce as ruelas escuras, dá no
gradil do campo de Santana, rescendente de aromas silvestres. Tudo é calmo,
tudo é docemente quieto. A brisa leve embala os ramos das árvores num suave
perpassar, e do alto, amplo, como uma ânfora de consolo e bem-aventurança, o
astro derrama a delícia tranquila do seu esplendor. Não poder saltar aquele
gradil, estender-se na relva, ofertar-se à lua numa longa hora de choro e de
lágrimas... Dói-lhe tanto o estômago! Vai até a Central, já com os focos
apagados. Há uma negra vendendo mingau para uma roda de notâmbulos: marinheiros
e soldados ébrios, fúfias de galhinho de arruda e chinelas sujeitos ambíguos de
calça balão. Palavrões choviam. A negra lavava a louça, e ao seu lado um
canzarrão cinzento com vestígios de lepra, roncava. Um momento hesitou. Tomaria
o mingau? Mas a viagem? Não! Era melhor dormir, dormir tranquilo. Entrou,
caminhou até ao saguão, foi até ao embarcadouro. No saguão havia o vigia a
dormir. Na gare, um cavalheiro passeava devagar com uma formosa senhora. Ele
parecia radiante, e ela tinha esse olhar amortecido que as mulheres têm quando
querem saber mais alguma coisa na vida. Um perfume delicado errava à sua
passagem, e quando ela ria, o seu riso animava a tristeza sombria da estação.
Armando não olhou
sequer. Preocupava-o a bilheteira. Quando a viu aberta, comprou um bilhete de
ida e volta para o subúrbio, correu a um vagão de segunda classe, estendeu-se
refasteladamente Estava só. Ia dormir!
Pouco depois soaram
campainhas. O chefe do trem acenou para o maquinista com um lanternim de vidros
vermelhos e verdes, um silvo partiu, houve um ranger de ferros. O trem
moveu-se, a principio devagar, depois vertiginosamente, deixando na corrida
louca o renque do casario, as duas fitas dos combustores.
— Praia Formosa! grita o condutor,
saltando para a plataforma.
Entram alguns
indivíduos, talvez cocheiros. Falam de burros, de atrasos, de parelhas.
— Faz obséquio do seu bilhete.
Armando abre os olhos.
No vagão, o diminuto número de passageiros tem um ar de sono e de fadiga. Havia
gente vinda dos bailes, das tipografias, do trabalho, e muitos, também como
Armando, lá se achavam apenas para passar algumas horas fora do relento. Uns
vinham estirados sobre os bancos; outros apenas cochilando. Armando
reconhecia-os, sem pena, indiferente. Tinha que ser. Talvez alguns tivessem
ainda a pensão do jantar. Ele sim, ele é que longe da família, longe da sua
terra, sem auxílios, descia a rampa da vida certo de encontrar o abismo, mas
incapaz de soltar um grito -por falta de coragem, por falta de energia, porque
tinha de ser... Um soluço sacudiu-lhe o peito. Para ocultar as lágrimas, puxou
as abas do chapéu, virou o rosto. O trem continuava a galopar, sacolejando os
corpos. Os campos inundados de luar passavam numa visão branca. E, de repente,
Armando sentiu um bem-estar. Ia caminho da casa, tinha menos quatro anos. Era
tarde, o pai ralharia, mas a mãezinha lá estava à espera, com o fogareiro de
espírito, para aquentar o café.
— Boa noite, mãe.
— Meu filho, baixo. Olha teu pai. Por
que veio assim tão tarde? E suado, com este frio da noite!... Não vás apanhar
uma constipação.
Oh! a sua mãezinha.
Então sentava-se, contava-lhe tudo, o sonho que tivera, o seu abandono, as
dormidas ao relento, as infâmias, os engates no jogo, tudo por má cabeça...
— Má cabeça tua, meu filho. Mas tu tens
tua mãe. Vai dormir, anda, vai descansar. Descansa que eu te arranjo tudo. Não
há pedido de mãe que Deus não ouça.
Então ele sentia-se
ainda mais pequeno, cheio de vontades. Queria uma roupa nova, um par de botas,
chocolate. Gostava tanto de chocolate! Ele pedia, ela prometia chorando. E
assim os dois, a velha é que o deitava, que o cobria com a colcha limpa.
— Dorme, meu filho, dorme.
E ele dormia, dormia
tão bem na sua cama, ao lado de sua mãe, na sua casa! Dormia bem mesmo, muito,
sentindo o prazer indizível de estar dormindo.
De repente, porém,
sentiu um estalo no ouvido. Acordou. O vagão estava cheio. Era de madrugada. O
trem voltava cheio de operários. A manhã nascia lavada e cor de pérola. Os
artífices bulhentos tinham resolvido acorda-lo, e um da roda, todo a gingar,
com ar de desafio e de troça, batia-lhe palmas junto ao ouvido.
— Estou incomodando, cidadão? chalaceou
o outro.
O pobre rapaz recalcou
a cólera, sorriu.
— Não, até me fez bem... Tirou-me um
sonho!
E foi para a
plataforma do vagão olhar os últimos vestígios de uma das suas noites. Que
havia de fazer agora? O mesmo que fizera antes, a mesma miséria, a mesma
infâmia, o mesmo horror. Nossa Senhora! Mas não haveria meio de ganhar a vida,
de comer, de dormir, de viver? Não haveria quem tivesse piedade da sua atroz
agonia?...
Sentou-se na
escadinha, acabado. O trem continuava a galopar pelos campos dourados do sol
nascente. A natureza abria em flor, ao beijo da madrugada. Uma corrente pendia
entre o vagão em que estava e o outro vagão. Inconscientemente estendeu a mão.
Seria tão interessante pega-la. Mas custava. Tudo no mundo custa. Estendeu mais
o corpo, quase deitado, estendeu mais. O corpo falseou, pendeu. Quis salvar-se,
numa súbita e desesperada angústia. Com os pés enlaçados na grade, ainda
conseguiu prender as mãos nos para-choques. Mas um solavanco desprendeu-o. O corpo
caiu. As rodas do outro vagão esmigalharam qualquer coisa. O trem continuou na
luminosidade da manhã. E ninguém do trem reparou naquele fim de vida tão
desconsolada, sob o calor do sol que começava...
— Está a brincar!
— Sério. É irrevogável. Preciso um pouco
de ar, um pouco de descanso, de repouso, de sossego. A vida desta cidade
ataca-me muito os nervos...
Era no salão de Irene
de Souza, o salão em que a esplendida atriz fundira o confortável inglês com o
luxo do antigo, espalhando entre os divãs fartos da casa Mapple, bergeres mais
ou menos autênticas do século XVIII, contadores do
tempo de Carlos V, e por cima das mesas, por cima dos móveis, nos
porta-bugigangas de luxo, marfins orientais, esmaltes árabes, estatuetas raras,
fotografias com dedicatórias notáveis. Irene de pé, diante da secretária,
sorria, estendendo-me as duas mãos finas, nervosas, enquanto os seus dois
grandes olhos ardiam mais loucos e mais passionais.
Irene de Souza! Que
legenda e que beleza! Os seus inimigos asseguravam-na apanhada como criada de
servir perto de um quartel para os lados de S. Cristovão; outros diziam-na
filha de uma família muito distinta do Sul. Ao certo porém ninguém sabia senão
aquela aparição brusca no teatro, bela como a Vênus de Médicis, a arrastar nos
decadentes tablados cariocas vestidos de muitos bilhetes de mil, criados pelo
Paquin e pelo Ruff. Não era uma pequena qualquer. Era a bela Irene de Souza que
queria ser a boa, a humilde, a simpática, a talentosa Irene. A critica fora
jantar a sua «vila» de Copacabana, onde Irene, ao nascer do sol, num regimen
essencialmente esportivo, fazia duas horas de bicicleta e sessenta minutos de
natação. E a crítica suportara o seu companheiro Agostinho Azambuja,
empreiteiro, rico, casado; a crítica elogiara Irene, e de chofre todas as
atrizes, todos os cabotinos sentiram-se diminuídos lendo no cartaz, em grossas
letras, o nome de Irene en vedette, de Irene repentinamente footlight...
Ela continuava tão boa porém, tão amiga, tão simples, tão séria... Tão séria?
Deram-lhe todos os amantes imagináveis em vão, e por vingança afirmaram que os
seus dentes, como os seus sapatos, eram feitos em Paris; emprestaram-lhe
instintos perversos, e foi célebre a frase de um jornalistinha desprezado: -«De
pé é a Vênus de Médicis, deitada é a Vênus Andrógina». Mas Irene mostrava o
claro fio da dentadura com uma despreocupação tal, tratava tão camarariamente
os homens que a calúnia tombou.
De resto Agostinho
Azambuja tinha uma confiança muito elegante. A lenda era que esse homem vulgar,
possuído de uma paixão devoradora, agarra uma pobre rapariga no mais reles
alcouce e fizera-a uma obra sua para dominar a cidade, uma mulher perfeita,
falando quatro ou cinco línguas, conhecendo música, vibrante de arte e de
elegância que é a arte de ser sempre a tentação. Mas a paixão, o ciúme, esses
paroxismos fatais de quem quer muito bem, Azambuja encobria-os numa serenidade
de bom-tom, talvez mesmo para Irene, deixando-a sair só, não lhe perguntando
nunca donde viera, recebendo na própria casa os apaixonados que a ela poderiam
ser úteis para o reclamo, colocando-a numa posição verdadeiramente superior,
sem esquecer o lado prático, porque lhe assegurava o futuro, comprava-lhe
casas, jóias. No dia em que correu ter o Azambuja presenteado Irene com uma
baixela de ouro lavrado, herdada do avô, um vago judeu argentário, as mulheres
tiveram a certeza da superioridade da rival, e foi notada a resposta do
Azambuja a Etelvina, primeira ingênua casada e adúltera da companhia:
— Minha filha, já não estou na idade de
satisfazer os caprichos de uma mulher. A Irene quem a fez tal qual é fui eu.
Vivo do orgulho que ela me dá. É o meu chique.
— E se o trair?
— Tem bastante espírito para o não
fazer, e lucrarias mais se fosses sua amiga.
Mas isso é que ninguém
concebia: a Irene sem enganar o Azambuja. Afinal era uma rapariga de vinte e
cinco anos, um verão ardentíssimo, uma beleza que chamava paixões! Muita vez no
seu camarim, forrado de seda côr de rosa, faziam-se comentários.
— Mas não ama o velho Agostinho?
— Está claro que não o posso amar como
Julieta a Romeu. Há uma grande diferença de idades. Mas respeito-o e sou-lhe
grata. É quanto basta. Eis a razão por que resisti a princípio e hoje sou
invulnerável.
— Francamente?
— Deve compreender que seria muito parva
se fosse perturbar a minha vida e a beleza que vocês proclamam com uma paixão.
Ora só a paixão poderia influir. Essa não vem, não vem, e não virá nunca.
Conheço os homens.
De fato, tinha razão.
Como o seu sorriso tornava-se cortante, as narinas palpitavam e com o seu ar de
Diana à caça, ela permitia-se abraços e beijos com as companheiras, mais falsas
que a onda, logo se formou irrevogável a legenda.
— Irene? Amantes não... A Irene procura
alguém de quem o Azambuja não tenha ciúmes. Lembrar-te da frase do Gomide?
A legenda foi mesmo
tão espalhada que súbitas ternuras apareceram, e alguns camarotes eram
insistentemente ocupados pelas mesmas damas nas noites das suas representações,
e vários convites surgiram para tê-la na companhia de senhoras bem cotadas.
— És uma criatura imperfeita, disse-lhe
eu um dia.
— Por que?
— Porque não amas o amor. Lembra-te dos
versos do Poeta:
Que os vossos corações
aprendam a viver,
Amando o amor, amando a perfeição,
A perfeição da alma que nos traz o prazer
Supremo e a suprema ilusão!
Ela suspirou, tristemente.
— Se é assim? Que hei de eu fazer? Mas
que romântico, Deus!
E todos nós, jantando
nas suas pratas, escrevendo a respeito do seu talento, tínhamos aceitado o caso
como definitivo. Até Irene mesmo, mostrando predileções excessivas, parecia
sossegar com a esquisita calúnia e mostrava uma alegria, uma imensa satisfação
na vida. De modo que aquela partida brusca, após o seu último sucesso agradável
numa comedia inglesa, era de desnortear. Ao saber a resolução pelo velho
Azambuja na rua, eu tomara um tilburi, interessado como diante da saída de um ministro,
e estava ali, interrogando-a, no meio da desordem do salão, onde havia malas,
chapéus, plumas, e um intenso cheiro de heliotrópio.
— Mas por que partir, Irene?
— Porque é preciso.
— Uma briga com o Azambuja? Não? Aquele
ataque da Suzana Serny? Também não? Então? Querem ver que afinal tem uma
paixão?
Irene sorriu, no seu
quimono rosa, guarnecido de uma leve renda antiga.
— Paixão? Sabe o que estava a fazer,
quando entrou? Estava a limpar a secretária, a rasgar declarações amorosas e a
atira-las para este cesto. Tudo quanto está vendo nesta secretária, tudo quanto
vê neste cesto -é paixão!
Recuei assombrado.
Nunca tinha visto tanta paixão reunida e um sorriso tão destruidor nos lábios
de Irene.
— Oh! não se assuste! Essa paixão é uma
das faces do meu amor ao teatro. O Azambuja sabe e, às vezes, lê as cartas
comigo. Guardo os artigos de jornal num álbum e a chama amorosa na secretária.
Algumas ainda não li, mas foi por falta de tempo...
— Cruel!
— Oh! É lá possível ler tudo quanto a
tolice humana escreve? Recebo as cartas de bom humor porque é impossível
zangar, e acabo considerando-as a homenagem anônima, uma espécie de palmas num
teatro cheio. Quer lê-las?
— Irene, nunca amou? Francamente? Posso
ler todas, todas?
— Todas, fez ela. Sem receio.
Divirta-se! Eu vou mandar fazer um pouco de chá, feito da flor, enviado
diretamente da China para um inglês rico que me adorou em vão.
Ergueu-se. Houve um
deslocamento de perfumes. A meus pés o cesto abria a face abarrotada; diante
das minhas mãos a secretária escancarava-se. Hesitei, olhei-a, não resisti.
Ah! o estranho
capítulo de psicologia, a descrasiante página de análise! Daquela papelada
subia como uma fúria de paixão, de doença, de loucura. Havia mais de quinhentas
cartas, havia mais de mil postais e nesses quadriláteros de papel ardia um
arco-íris passional desde a chama roxa da melancolia à chama rosa do amor
precoce. A primeira carta que abri tinha ao canto um passarinho voando, e
começava assim: «Dona Irene, queira desculpar, ao receber estas mal traçadas
linhas que lhe envio do internato. Tenho quinze anos e vi-a ontem. Como é
bonita!».
— Conheceu?
— Nunca o vi. Pobre pequeno! Do seu
primeiro amor não guardará ao menos más recordações.
— Cá tenho outro: «Senhora. As horas
fogem e a esperança fica. Quem a chamou de feia e a senhora não sabe quem é».
— Quantos nestas condições! Vá vendo...
Eu ia com efeito
vendo. Peguei de outro: «Adeus, flor da minha vida! E que nas outras cidades
deixe os mesmos corações despedaçados. -Maníaco».
— Este confessa-se maluco!
— O que não fazem os outros...
Mas as tolices, os
gritos de paixão, que são sempre ridículos, não acabavam mais. Eu lia versos,
lia pensamentos patetas, via toda a palpitação ingênua do coração dos homens;
ameaças de suicídio, ofertas de dinheiro, descrições de vida futura, pedidos de
uma humildade de rafeiro, agonias com erros de português, máximas idiotas
e generosas: «A amizade da mulher tem um encanto mais suave do que a do homem:
é ativa, vigilante, terna e durável!», graças nevrálgicas de palhaço amoroso.
Deus! O amor, que dolorosa moléstia... eu não sei porque um nervosismo
incompreensível fazia-me trêmulos os dedos, eu procurava com ânsia, humilhado,
espezinhado, como se fosse responsável por todas as sandices do meu fraco sexo.
— A carta anônima é as vezes melhor que
a carta de amor!
— Sabe que teve um pensamento?
— Como os que acabou de ler?
— Não, um pensamento diamantino.
— Pois venha tomar chá.
A criada servia, com
efeito, o chá num lindo tête-à-têtede porcelana com guarnições en vermeille. A
encantadora Irene parara; os seus olhos pareciam levemente inquietos. Eu
continuava a remexer a secretária. Uma das missivas era enorme. Abri-a. «Peço a
v. ex. que me perdoe a ousadia, e, genuflexo, reclamo o seu carinho para os
queixumes de um coração sofredor. Não sei fazer poesia, sou imensamente avesso
às flores de retórica e suponho que não me igualarei ao gorgeio dos rouxinóis
ou às asas das borboletas inquietas...».
— Basta! Basta! fez Irene, tapando os
ouvidos.
— É a paixão.
— Venha antes tomar çhá. Olhe a frase de
Ibsen, na Comédia do Amor: o amor é como o chá. Bebamo-lo!
— Ah! minha querida! como os homens são
idiotas! Essa mania de escrever cartas de amor é bem o sintoma de
inferioridade. Se eles soubessem o fim das suas letras e o pouco caso que delas
fazem as mulheres. Ainda não tive amante que com ela não rasgasse as cartas dos
que me tinham precedido.
— Era uma afirmação de que pelo menos no
momento não o enganavam.
— Quem sabe?
Ela sorria com a
chávena na mão. Era realmente bela. Toda de rosa, naquele quimono de seda,
lembrava uma flor maravilhosa, uma flor de lenda, inacessível aos mortais. Eu
compreendia a futilidade, a tolice, a miséria lamentável dos homens, diante da
sedução de Vênus Vingadora, da Vênus que não se entregara nunca, e era honesta
sem amantes, sem crimes, sem calúnias...
Mas porque ia ela para
a Europa? Porque me humilhava com aquela intimidade de correspondência aberta?
Por que? Os meus dedos encontraram uma gaveta. Abri-a. Nunca a linda Irene de
Souza amara um homem! Era honesta, era o polo do desejo! Ah! não... várias
cartas. Apanho uma ao acaso. Um selo italiano. Tirei-a do invólucro: «Cruel.
Hei de matar-te se alguma vez te encontrar a jeito. Não me quiseste e eu peno,
peno há cinco anos. Conto que ainda hei de ver o teu sorriso indiferente, ó 8,
ó 8, oitavo do século, no mesmo lugar. Preciso muito...».
— E olhe que tem também um doido.
— Palavra?
— Um sujeito que está na Itália, ao que
parece. Fala do numero 8, chama-a cruel.
— E eu que ainda não tinha lido! Com
efeito. É curioso. E assina-se César! Não faz coleção de selos? A filatelia
está em moda.
— Como todas as parvoices inofensivas.
Ainda lá não cheguei.
Depois, parei. Ela
estava preocupada, séria, um tanto fria talvez. Decididamente aborrecia a bela
Irene de Souza. E era de compreender. Irene preparava a sua partida, desejava
estar só. Curvei-me.
— Adeus, então. Seja mais humana lá fora.
— Eu? Com os espias e as agências de
informação pagas pelo Azambuja? Da última vez que estive em Paris, Azambuja
mostrou-me um dossier tão copioso que eu pensei no Affaire Dreyffus.
Qual, meu amigo, sou invulnerável. E rindo alegremente: já se vê que pour
cause...
Saí varado, porque
afinal não há nada mais impertinente do que encontrar realmente honesta uma
mulher que não tem o direito de o ser, e indo pela Avenida Beira Mar a matutar
naquela criatura excepcional encontrei o velho Justino Pereira, a passear
também.
— Poesia?
— Não, idéias. Venho da casa da Irene.
— Boa pega!
— Oh! não, um espírito prático, incapaz
de amar. Mostrou-me verdadeiras cascatas de cartas de amor.
— As mulheres nunca mostram todas as
cartas. É o seu grande trunfo.
— Velho cético!
— Mesmo porque há cartas que os maridos
e amantes podem ler, cartas desvairadas, sem sentido... Que cara a tua! Pareces
criança. Pois meu tolo basta uma combinação prévia, basta uma chave do sentido
oculto. Por exemplo: Hei de matar-te. Tradução: não deixes de vir. Peno há
cinco anos. Tradução: preciso de dinheiro.
— Ora o fantasista! Não me vá dizer que
a Irene tem amantes.
— E se disser que tem mesmo uma espécie
de gigolô, a quem sustenta?
Indignado, como se
fosse uma questão de honra pessoal, estaquei.
— Sr. Justino Pereira, nada de calúnias.
Irene está acima de maledicência. O senhor calunia e é pelo menos incapaz de
nomear o tal gigolô.
— Oh! filho, fez Justino a sorrir.
Soube-o por um acaso, não tenho que guardar. É até um lindo rapaz, corpo de
esgrimista, olhos devoradores. Nasceu
Como me visse pálido,
aturdido, sem saber o motivo daquela emoção, sem saber que como um imbecil eu
tivera a carta na mão:
— Estás apaixonado? Contrariei-te? Todas
as mulheres são excepcionais quando se lhes quer prestar atenção. Mas no mundo
não há uma que não tenha um segredo simples, que lhe mostra um reverso
inteiramente diverso da aparência...
E desatou a rir
enquanto eu esforçava-me por fazer o mesmo.
Era o momento verde, o momento do aperitivo
outrora absinto, hoje uma série de envenenamentos de cores
variadas e de nomes ingleses, a que a leve estética sem inventiva dos cafés e
das confeitarias continuava de chamar sempre o momento da água glauca. Por
hábito, sentara-me a uma das mesas do terraço de confeitaria, os olhos perdidos
na contemplação da Avenida, àquela hora vaga tão cheia de movimento e de ruído.
No asfalto da rua era a corrida dos carros, apitos, trilos, largo bater de
patas de cavalos, chicotadas estalando no pelo das magras pilecas dos
tilburis, carroções em disparada, cornetas de automóvel buzinando arredas,
gente a correr, ou parada nos refúgios, à espera de um claro para poder passar,
o estrépito natural do instante, à hora da noite nas cidades. Nas calçadas uma
dupla fila de transeuntes sempre a renovar-se, o cinema colossal de homens das
classes mais diversas, operários e dândis, funcionários públicos e
comerciantes, ociosos e bolsistas, devagar ou apressados ao lado de uma
multicor galeria de mulheres, a teoria infinita do feminino para todos os
gêneros: pequenas operárias, cocottes notáveis, senhoras de distinção,
meninas casadeiras, simples apanhadoras de amor. As sombras, a princípio de um
azul furfureáceo, depois de um cinza espesso, iam preguiçosamente
espalhando o veludo da noite na silhueta em perspectiva das grandes fachadas. À
beira das calçadas, a pouco e pouco os pingos de gás dos combustores
formavam uma tríplice candelária de pequenos focos, longos rosários de contas
ardentes, e era aqui o estralejamento surdo das lâmpadas elétricas de um
estabelecimento; mais adiante, o incêndio das montras
faiscantes, de espaço a espaço as rosetas como talhadas em vestes de arlequins
dos cinematógrafos, brasonando de pedrarias irradiantes as fachadas. Ah! os
contos de fadas que são as cidades! Os meus olhos se fixavam na confusão
mirionima das cores, vendo em cada roseta um caleidoscópio, sentindo em cada
tabuleta o sonho postiço de um tesouro de Golconda, a escorrer para a semi-opacidade
da noite cascatas de rubis, lágrimas de esmeraldas, reflexos cegadores de
safiras, espelhamentos jaldes de topázios, e eu recordava outras cidades,
outras casas, o eterno boulevard, suprema orquestração do bom gosto
urbano. Que fazer? Os meus olhos descansaram na multidão.
Algum tempo depois
reconheci, como tendo perdido alguma coisa, os olhos à procura, o nariz ao
vento, o delicado Oscar Flores, um ente muito fino, muito sensível, do qual
diziam horrores e que de resto parecia ter na alma um fatigante segredo. Os
segredos fizeram-se para ser contados. Tudo vai de ocasião. Que estaria Oscar
Flores, com a sua palidez e as suas lindas mãos, a procurar assim? Esperei
alguns minutos olhando a ver se via a causa daquela aflição e por fim, quando o
jovem se resolvia a continuar, chamei-o ruidosamente. Ele voltou-se, como se
fosse apanhado
— Vem daí tomar um aperitivo.
— Não, obrigado. Tenho que fazer.
— Pois se já perdeste a pessoa a quem
acompanhavas?...
— Viste? fez ainda mais pálido.
— Vi, isto é -sossega- vi que procuravas
alguém.
Ele teve um suspiro,
deixou-se cair na cadeira. Já agora tomava um cock-tail. O seu caso
porém era outro. E fechou-se num silêncio nervoso, cortado de sobressaltos,
alheado de mim -o seu habitual silêncio em todas as rodas, como sempre à espera
de um sinal misterioso para partir e desaparecer. Olhei-o então com vagar. Era
encantadoramente lindo com o seu ar de adolescente de Veroneso, a pele morena,
o negro cabelo anelado. Como devia ser feliz assim rico e belo, com a sua
bengala de castão de turquesa, a gravata presa de um raro esmalte, a atitude
inquieta de um príncipe assassino e radiante, o Oscar Flores! E falavam tanto
mal dele! Disse-lhe, íntimo e confidencial:
— Então, Oscar, onde estás? É por isso
que te caluniam...
— Ah! tornou sorrindo, ainda falam de
mim?
— Cada vez mais. És o leit-motiv
da falta de assunto. De resto ha sempre na voz do povo um pouco de razão. Estou
a acreditar que realmente tens um segredo. Ora os segredos deixam-se para as
mulheres e para os homens sem interesse, os homens vulgares...
— Mas não tenho segredos, protestou
cansado. Tenho apenas a mais estranha moléstia nervosa -que ninguém sabe.
Curioso, hein? Diante de mim toda a gente sente a anormalidade, outra esfera,
outra vibração. Que será? Os mais espessos -e dessa espessura intelectual se
faz a opinião da massa- pensam logo nas degenerações normais, no centro das loucuras
que é a cidade. E não é nada disso, é outra coisa -é a minha moléstia. A
existência concentro-a nela, no desejo de doma-la e na irresistível vontade de
satisfaze-la. Tenho estudado, tenho lido, tenho feito observações a ver se
encontro outro tipo igual. Absolutamente impossível..
Tomou um gole de cock-tail
com evidente prazer, sorriu mais acalmado.
— Todos pensam que é um segredo porque
ninguém imagina. E eu sofro desde criança. A princípio, na mais tenra idade,
apareceu como escandalosa precocidade; até a adolescência tive-o como um crime
horrível, castigo e prazer do pecado. Com a razão -porque eu sou um sujeito
muito razoável e muito refletido- vim a descobrir que era um desequilíbrio dos
sentidos, a exaltação lírica, o desenvolvimento assustador de um dos sentidos,
capaz de dominar os outros, submete-los e virar aos poucos em fonte de todos os
prazeres, em único foco das sensações agradáveis, em tirano da impalpável
luxúria.
Já decerto conversaste
com os artistas jovens, os que falam na realização da arte, no ideal que jamais
se corporifica e é na nossa alma como o perpétuo sonho irrealisável. A minha
moléstia, o meu desequilíbrio, o império de um único sentido no meu organismo e
nesta sensibilidade caldeado numa ascendência de requintados, deu-me da vida
íntima uma prévia noção incorpórea, deslocou-me para um mundo de fantasia
exasperante, fez-me o lascivo da atmosfera, o gozador das essências esparsas, o
detalhador do imponderável, o empolgado da miragem da vida.
Emborquei
tranquilamente o veneno que me tirava o apetite, e murmurei:
— Meu caro Oscar, tenho uma profunda
simpatia por ti, em primeiro lugar porque és belo, em segundo porque tens
espírito, em terceiro porque nem a beleza nem o espírito conseguiram reduzir-te
à atroz banalidade de ser totalmente feliz. Daí o poder ouvir sem comentário
todas as narrativas lindas com que me queres honrar. Esse teu desequilíbrio é
de fato de uma psicologia muito sutil, muito trabalhada.
Oscar teve um gesto de
impaciência.
— Quando digo! É tão inverossímil que
ninguém acreditaria. Entretanto tens diante de ti o homem que analisa o seu
tormento e não lhe resiste. Sabes que é o sentido soberano? O olfato, apenas o
olfato. Sou como o escravo, o ergastulado do cheiro. Tudo é cheiro. É o cheiro que guia,
repele, atrai, repugna, o cheiro é o condutor das almas. As nossas impressões
são filhas do cheiro que atua como a luz e muito mais porque há cegos e não há
ser vivo que não respire e não sinta o cheiro. O cheiro plasma, porque está no
ambiente. Os caracteres dos homens são feitos de essências, as profissões dão
aos entes certos e determinados cheiros. Vive oito dias numa casa de perfumes
ou no boudoir de uma mulher galante, e as tuas idéias tomam o
aspecto de idéias com pó de arroz, de idéias efeminadas, made expressely para
uma certa roda pueril. Sente o cheiro dos marinheiros, com o cheiro do mar e
três ou quatro escalas de cheiros de óleos refrescados pela viração larga. Um
homem sensível não pode viver muito tempo nesses lugares porque o cheiro
permanente dá-lhe como uma continuidade da visão oceânica e um estado
trepidante que lembra a vagabundagem de grandes navios por mares ignotos. A
alma dos entes revela-se pelo cheiro. A das coisas também, só pelo cheiro.
Conheço os interiores das casas, o gênero, a classe das pessoas que as habitam
pelo cheiro, como de olhos fechados dir-te-ei a casa vazia apenas aspirando-a.
Posso mesmo dizer-te que cada cidade tem um cheiro próprio, e que eu os sinto
ao aproximar-me, ao saltar no desembarcadouro, cheiros que conseguem dar a
impressão geral dos habitantes, cheiros honestos, cheiros voluptuosos, cheiros
de seio...
— Mas, realmente, é delicioso.
— É atroz.
— A hiper-acuidade de um sentido
dirigida com estética. És o homem dos perfumes.
— Não me fales de perfumes, do perfume
com a significação normal de extrato fabricado para o mercado. É outra coisa.
Sou a vítima do cheiro. Para mim não há cheiros repugnantes, há cheiros
desagradáveis. Tenho a sensualidade dos cheiros os mais diversos, do cheiro da
terra, do cheiro da erva, do cheiro dos estábulos e do cheiro das rosas. Como
comecei a sofrer desse desenvolvimento paroxismado do sentido olfativo? Sei lá!
Não foi o perfume, foi a extensão vasta dos cheiros que não são perfumes. Em
criança, antes de levar qualquer gulodice à boca, instintivamente cheirava-a de
olhos cerrados, para sentir bem e prelibar deliciosamente o prazer de
degusta-la. Depois, quando me tomavam ao colo, ao beijar-me, achava sempre meio
de cheirar, de aspirar as pessoas agradáveis. Cada Pessoa tem um cheiro
diverso. Na minha infância a perversão -se-lo-á de fato?- surgiu ensinando-me
todo o pecado. Gostei da carne porque cada nuca é um pouco do olor da natureza,
e há bocas que são como orquestrações de odores. Ah! esse tempo ainda ingênuo,
esse tempo instintivo... Eu me envolvia nas roupas brancas que as raparigas já
tinham usado, pendia para as cabeleiras com tal ânsia aspiradora, tinha uns
modos tão pouco normais que a família se assustava e as raparigas achavam uma
infinita graça. Ah! que pequeno vicioso! Elas diziam convencidas de que eu
gostava apenas do cheiro das suas roupas. Não era, porém. A minha nevrose
olfativa se acentuava cada vez mais, cada dia mais com caráter desabridamente
sensual, e já rapazola, não distinguia o que me poderia conceder o prazer: a
erva molhada, o cheiro dos estábulos, um cheiro de nuca, um cheiro de corpo, e
já começava a sentir as cruciantes necessidades de certos cheiros, que eram tão
violentas quanto a fome ou o amor. Então era preciso alhear-me, deixar a roda
dos conhecidos, sair por aí a ver se descobria o cheiro que eu precisava, o
cheiro que não sabia qual era, mas devia tranquilisar-me.
— Tinhas a obsessão de um cheiro nunca
sentido?
— Exatamente. Ainda era romântico e até
aos dezoito anos tentei com um pouco de literatura e alguns conhecimentos
químicos, o prazer dos perfumes, dos cheiros artificiais. Arranjei catálogos,
estudei longamente, tive baterias de perfumes em frascos de cristal, fiz como
todo sujeito lido em livros franceses, a sinfonia dos perfumes, a alegoria dos
perfumes, a pintura sugestiva dos perfumes, combinando essências, renovando as
camadas de ar do aposento com pulverizadores cheios de misturas sábias ao lado
de incensários a queimar olências exóticas. Era perturbador e era irritante. O
meu olfato desejava, tal as marafonas que a sorte eleva ao grande luxo,
excessos de natureza, virilidades de ambiente. Esses perfumes que as mulheres
usam, esses perfumes com que vocês se civilizam e se friccionam são ignóbeis.
Na composição química da enorme quantidade por mim aspirada senti apenas que
poderia fazer um catálogo, dividindo em classes de almas a diversa temperatura:
perfumes quentes, semi-oleosos, perfumes tépidos, perfumes frios. Os perfumes
de Haubigant dão sempre a impressão de calidez, de calor opressivo. Os ingleses
e os americanos fazem-nos frios, desses que a gente ao aspirar pensa em águas
geladas e madrugadas hibernais. Meia dúzia de refinados franceses conseguem a
meia temperatura, evolando-se lentamente. E há também os medíocres, os reles,
os que lembram montras de boulevards em blefes de luxo e de conforto,
elegâncias por todo o preço de armazéns duvidosos.
Quer uns quer outros,
entretanto, acabaram por me fazer mal, dores de cabeça, apertões nas têmporas,
uma impressão angustiosa de acachapamento. Mas era muito artista. Um amigo, de
volta do Oriente, trouxe-me então uma coleção de perfumes. Eram maravilhosos.
Andei doente e morno, com uma alma de serralhoe de
mel por aspirar um frasco de essência de rosas. Esses perfumes entravam-me no
crânio como estofos bordados de pedraria, como broqueis encrustrados de gemas
coruscantes. Deixavam-me sonambúlico, com frases de antifonárioe
sonhos de rosas de Shiraz, de Kernar, de Kashmir. Vi então que a minha doença
não amava as concentrações mais ou menos industriais.
— Príncipe encantador, havia as
flores...
— Sim, as flores, amei as flores,
tateando na sombra do mal. As flores são as caçoulasdos
perfumes naturais. A natureza condensa nelas o olor das suas paixões, a alma
dos seus desejos, as recordações das tonturas, de frenesis ou de grandes
repousos celestes. Não sorrias. O que eu sinto não o dizem palavras. É preciso
descobrir frases prismáticas como certos cristais e vê-las à luz do sentimento,
que percebe para além das coisas visíveis. Os deuses gostavam de perfumes; o
perfume exorta e exalta. Porque lisonjear os deuses com perfumes, se não
tivéssemos a idéia do sacrifício, do grande pecado da natureza, que ele
representa? Há flores cujo perfume é cínico, outras cujo cheiro é banal, outras
cujo olor se celestisa, outras ainda que nos dão desesperos de carne. É
possível ter à lapela uma gardênia sem sentir cefalalgias horas
depois? É possível cheirar certas rosas sem odia-las?
— Mas, meu querido, procuras apenas
pretexto para dizer coisas infantilmente interessantes. Olha que antes de ti
outros estetas falaram... Odiar as rosas!
— Sim! Odia-las. Há flores carnudas, as
rosas rosas, as rubro negro como sangue coagulado, que a gente aspira, absorve
o odor, cheira, cheira, e depois estraçalha com ódio porque prometem mais do
que dão, porque deixam em meio o gozo, não nos completam o prazer anunciado
pelo cheiro. Ah! essa aflição que dá aos sentidos o cheiro de algumas flores,
as violetas, cujas emanações são como sons de violino em noites de luar, as
tuberosas, crispantes de cio, as rosas chá que cheiram como carnes morenas, o
resedá, a flor do resedá que o Fezensac cantou idiotamente num trocadilho e que
entretanto guardam um frio e exasperante odor de gérmen fecundante, cheiro de
marfim raspado... E, para notares a correspondência de cheiros idênticos nas
coisas mais diversas, a flor que cheira a marfim, é também, cheiro resumo do
cheiro inicial da vida, irmão odor do odor da semente criadora, estranhamente
perdido entre as ervas...
Oscar caíra num
abatimento. Eu começava a temer o delírio.
— Então, se não amas os perfumes que te
fazem mal, se odeias as flores que te exasperam, em que consiste o
desproporcional domínio do olfato sobre os teus sentidos? É decerto um estado
de anemia, uma grande fraqueza que te adoece e te faz sensível aos odores. Não
amas os cheiros, temes todos os cheiros desde que eles se especializam, se
individualizam.
— Ao contrário, fez, de novo animado, ao
contrário. Tenho entre mim e a vida comum um como véu de talagarçaespessa.
E tudo quanto na vida se faz, eu sinto pelo cheiro, pelos cheiros, como um setter
humano, amarrado à corrente da conveniência. É a existência de miragem
olfativa, uma existência em que os cheiros visionam ambientes, descrevem as
almas dos tipos que me rodeiam, dão-me sensações de cor, porque há odores de
todas as cores; de sons, de músicas, porque cada cheiro é como um som diverso e
o cheiro da baunilha é bem uma nota abemolada diversa do cheiro do cravo
vermelho, esse sustenido de clarim; de gosto, porque os cheiros têm gosto; de
excitação, porque todos os sentidos calcados por tamanha acuidade vibram a
arcada furiosa de um desejo incompreensível, perpétuo, demoníaco, no meu pobre
corpo. Oh! não estejas a olhar para mim assim irônico. Há uma íntima correlação
entre as sensações do homem normal, que o faz amar a harmonia das coisas e o
faz pensar na beleza esplendente. Quando ele ama e sente assim, na floração da
arte, que é o arrimo da vida, minhando o seu pensamento sutil e vaga essa
misteriosa afinidade entrelaça os sentidos, para que o homem sinta numa curva
de anca a música das linhas, na carne de uma espádua o perfume da rosa, no
entreabrir de um lábio o sabor dos frutos, na criatura que se desnuda o bruto.
Desejo cego, caos das sensações... Quando é como eu, porém vítima de um só
sentido, morbidamente absorve os outros e leva louco, no delírio perpétuo, a
tentar reaver a harmonia.
— Daí...
— Daí, fez Oscar afastando nervosamente
o cock-tail em meio, daí para a minha sensibilidade compreender que a
natureza é inconsciente, que todos esses perfumes elas os espalhou brutalmente,
desvairadamente, e que só um instante a razão lhe voltou, quando fazia a carne,
quando criava a criatura, onde todos os cheiros da terra se encontram em suaves
nuanças. O que eu amo é o olor da carne, sempre uma orquestração, uma sinfonia
de recordações de outros cheiros, o cheiro das bocas, o cheiro dos cabelos, o
cheiro das nucas, o estonteante cheiro das axilas... Há cabelos, sabes? que
relembram o aconchego arminoso dos ninhos dos pássaros, cabelos em que a gente
se perde como num imenso oceano de olências reparadoras, cabelos musicais que
fazem pensar em manacás e em magnólias, cabelos que são o tecido de todos os
cheiros reconfortantes. Há carnes douradas, carnes feitas de leite e de sangue
de cerejas que ao aspira-las pensa um pobre no descanso dos bosques, em ragaes,
em fraudas rústicas, em grandes abraços pagãos sobre as liras. E as bocas? Já
reparaste nas bocas? Ha bocas quentes e frias, bocas sem cheiro algum, e bocas
que quando falam junto a ti têm um cheiro intimo de rosa murcha, quando te
beijam parecem feitas de pétalas de rosas, e quando as sugas transfundem a alma
como uma essência especial que parece o mel feito de todos os perfumes dos
campos. As criaturas são as ânforas da harmonia dos cheiros. Cada carne tem o
seu corpo odico que é o cheiro, cada ser faz-me sentir a alma pela veste
incorpórea do cheiro, desse cheiro que cada um tem próprio e jamais igual ao do
outro, do cheiro que se procura para aquietar e amar...
— Realmente, com um pouco de toilette,
cada qual faz o seu cheiro.
— Não! não é isso. Talvez pela toilette
e a perfumaria sejam-me indiferentes as formosas mulheres que deixam rastileos de
perfumes industriais e parecem feitas para os retratos de Heleu ou do Amoedo.
Não as amo, porque, maceradas de essências, com os vestidos pulverisados de
perfumes, a boca lavada por águas e pós brilhantes, os lábios carminados, a
face empoada, são como os manequins da moda. O cheiro é a alma dos seres. Elas
afogam a alma no artificial para encantar os simples, os brutais. Os meus
instintos gelam-se, morrem em frente dessas baiadeiras
mascaradas com a mascara transparente de outros cheiros. Houve um silêncio
pesado.
— Ah! disse eu vendo a expirar a
confissão, é grave...
Oscar olhou para mim,
cândido como Adonis, e cansado como se sustentasse nos ombros o
mundo.
— Por isso, murmurou, procuro -é
horrível!- procuro as criaturas simples, as que não se perfumam, as que ignoram
o postiço ignóbil da civilização, e guardam o próprio cheiro: as crianças, as
adolescências rústicas, as criaturas que saem do banho brilhando mais e
cheirando mais, os que não sabem se cheiram bem porque pensam que o cheiro é a
falsificação dos perfumistas. Um lindo corpo, um corpo branco, cor de leite,
que tem todos os suspiros campinos das boninas, dos mal-me-queres, das
margaridas, o sonho casto das violetas brancas e o anseio tranquilo, o cheiro
animal de qualquer coisa que se não sabe! Um corpo moreno, feito de um raio de
Sol, guardando a carnação das rosas e o cheiro da lascívia!... Beijar corpos
assim, aspira-los, aspira-los... É quando há a simpatia do cheiro, que é o
irmanamento das almas. Tudo quanto toca a pessoa fica com o seu cheiro, o lenço
esquecido, um pedaço de móvel. Parta ela, desapareça, cheira aquele pedaço. O
poeta sensual já escreveu:
Ela andou por aqui,
andou. Primeiro
Porque há vestígios das suas mãos; segundo
Porque ninguém como ela tem no mundo
Este esquisito, este suave cheiro.
E é. De chofre, à calentura do cheiro dela,
uma onda de gozo nos transmuda, faz-nos reviver delícias e nevroses da gama que
se acordava com o teu desejo. É a música mortal. Que digo eu? A roupa? Os
trastes? Não! Basta o lábio cansado de roçar, basta o contato das mãos pelo seu
corpo. Nós não conhecemos a própria alma porque não sentimos o nosso cheiro,
enigmas para nós mesmos indecifráveis. O cheiro dos outros fica, impera. De
volta de um cheiro amado, é cheirar as mãos e sentir o olor do amor como um
velador nos próprios dedos. Ah! não! E dizer-te que eu uma vez, há quatro anos
senti esse cheiro, o cheiro do meu amor, numa criatura miserável, dizer que não
me lembro das suas feições pelo muito que me lembro da completa satisfação do
meu desejo, dizer que nunca mais a vi, que a procuro, que a procuro e jamais a
encontro... Como queres tu que eu ouça as conversas idiotas, como queres tu que
pense noutra coisa? Vou em busca do meu perfume, do perfume que amo, da urna
desse sonho, do corpo dessa alma. E degringolo a razão, a moral, o respeito da
sociedade, rolo o abismo dos lugares pouco distintos, dou-me a relações pouco
brilhantes, aspiro todos os corpos a espera de um dia encontrar o perfume
incomparável, a essência doce dessa carne de ouro.
— Curioso.
— A mais rara moléstia que ninguém sabe.
De repente, porém, os
seus olhos chisparam. Ergueu-se. Sorriu.
— Espera um instante.
Sumiu-se apressado. Eu
também sorri então. Não voltada. Alguém passara que se parecera com o seu
cheiro. Pobre rapaz! Talvez fosse na desvairada luxúria o grande sensual do
ideal. E talvez não, talvez fosse um louco. Somos todos loucos mais ou menos.
Foi então que vi serem oito horas. Como o personagem do poema, Oscar procurava
novos perfumes no seu cheiro ideal e os prazeres não sentidos, sempre mais
amargos e menos consoladores. Ergui-me. Já com toda a Avenida, centenas de
lâmpadas elétricas acendiam a sua grande extensão no clarão da luz, -«a
mensageira da verdade visível»...
Para nós, vindos de peregrinar pelas igrejas,
a luz Auer que iluminava o café era talvez desagradável. Ficáramos todos
lívidos, com uma face de orgia. Sob o teto baixo, entre as mesas de mármore
lustroso, os criados arrastavam os passos já meio exaustos, e como a sala fosse
forrada de espelhos, velhos espelhos que reproduziam apagadamente os perfis,
estávamos como num aquário, esquisitos, espectadores de uma cena em que
tomávamos parte, em que nos víamos a representar noutro mundo -um mundo sem
data, sem tempo, sem fim. Algumas vezes dávamos com um gesto nosso a
desaparecer de súbito esburado pela falta de aço num pedaço de espelho, e era
desinteressante, desoladoramente desinteressante. De resto, a noite fora
curiosa. Éramos um pequeno grupo: dois homens que riam de tudo e pagavam a
despesa, um menino com ares de Antino viçoso, cujos princípios todos ignoravam, um
poeta obrigado a ser espirituoso, dois jornalistas, eu. Havia também um homem
chamado Honório. Tomavamos uma mistura repugnante de álcoois variados e
tínhamos vindo cansados de dar encontrões na última igreja. A quinta-feira
santa dissolvera na cidade a impalpável essência da luxúria e dos maus
instintos. Quanta coisa de profano, de sacrílego, de horrível havíamos visto no
redemoinhar da turba pela nave dos templos? Fúfias dos bairros sórdidos
esmolando com a opa das irmandades para o Senhor morto, bandos de rapazes
estabelecendo o arroxo junto do altar-mor para beliscar as nádegas das
raparigas, adolescentes do comércio com os olhos injetados roçando-se
silenciosamente entre as mulheres, e mulheres, muitas mulheres, raparigas
vestidas de branco de azul, de cores vivas, matronas de luto fechado, pretas
quase apagadas em panos negros, mestiças cheirando a éter floral, com gargalhadinhas
agudas, o olhar ardente, todas como que picadas pela tarântula do desejo. A
dolorosa cerimônia tinha qualquer coisa da orgíaco, como em geral as cerimônias
religiosas deste fim de raça, em que os instintos inconfessáveis se escancaram
ao atrito dos corpos, nos grandes agrupamentos. Na Candelária, junto a uma das
colunas, o rapaz que lembrava Antino tivera a lembrança de se colocar entre uma
cabrocha e um alentado sujeito «para verificar o escândalo» dizia ele.
— Fazer horrores junto ao corpo do
Senhor morto! Mas deve ser uma delícia! paradoxou o jovem ambíguo.
— Pois está visto! gaguejou um dos
desconhecidos que pagara.
Nós sorriamos, fartos
de igrejas e de sacrilégios, e íamos sair, quando o cidadão Honório, que até
aquele momento não falara, murmurou:
— Tudo na vida é luxúria. Sentir é
gozar, gozar é sentir até ao espasmo. Nós todos vivemos na alucinação de gozar,
de fundir desejos, na raiva de possuir. É uma doença? Talvez. Mas é também
verdade. Basta que vejamos o povo para ver o cio que ruge, um cio vago,
impalpável, exasperante. Um deus morto é a convulsão, é como um sinal de
pornéia. As turbas estrebucham. Todas as vesânias
anônimas, todas as hiperestesias ignoradas, as obsessões ocultas, as
degenerações escondidas, as loucuras mascaradas, inversões e vícios, taras e
podridões desafivelam-se, escancaram, rebolam, sobem na maré desse oceano. Há
histéricas batendo nos peitos ao lado de carnações ardentes ao beliscão dos
machos; há nevropatas místicas junto a invertidos em que os círios, os altares,
os panos negros dos templos acendem o braseiro, o incêndio, o vulcão das
paixões perversas. A semana santa! Tenho medo desta quinta-feira. Para quem
conhece bem uma grande cidade, esse dia especial sem rumores, sem campainhas, é
um tremendo dia em que os súcubos e os íncubosvoltam a viver. Até as ruas cheias de sombra parecem incitar
ao crime, até o céu cheio de estrelas e de luar põe no corpo dos homens a ânsia
vaga e sensual de um prazer que se espera.
Às palavras do cidadão
Honório fizera-se em torno um espectante silêncio. O homem era pálido, de uma
palidez bistrada. Estava vestido de preto e a sua mão exangue tinha no dedo mínimo
como a quebra-lo um negro morcego de aço prendendo entre as garras o turvo
brilho de uma opala. Só então reparamos que não ria e talvez assustasse almas
menos céticas. Ele, de resto, após uma pausa, continuou sem que lho pedissem.
— Oh! sim! Tenho medo desta quinta-feira
porque vocês vêm o vício aparente, o vício às claras, o vício que os jornais
não noticiam apenas em atenção ao arcebispado. Eu vi o vício que se não vê e dá
o calafrio do supremo horror, o vício misterioso e devorador rodando em torno das
igrejas. Ha três anos acompanho-o. Ainda agora, ao sairmos da Candelária, lá
estava ele na praça, fatal, definitivo, cruel, esperando...
Aquela confissão era a
de um doente. O pequeno Antino abriu a polpa carnuda do lábio num sorriso de
flor que desabrocha.
— Honório, que vício é esse? Fale.
Morremos de curiosidade.
— O vício que ninguém vê? Conta lá.
— É o carro da semana santa.
— O carro? regougou um
dos cavalheiros, é boa, é muito boa!
— Quem sabe? fez Honório pensativo.
Depois, num repente: Há três anos, quinta-feira de endoenças,
resolvi sair à noite. Não deveria ter saído. Neste dia a cidade visita igrejas.
Além das igrejas só a impressionam as confeitarias com os seus balcões de
bombons e os botequins. Saí, entretanto, assim de preto, com um fraque
idêntico. Estive numa confeitaria, hesitei alguns minutos, e afinal, como
estivesse no largo da Carioca, comecei a subir para a igreja da Ordem 3ª.
Ia inconscientemente
quase. Ao deixar a confeitaria, tinha o vago desejo de ver se encontrava
qualquer coisa de interessante, e estava ali, de repente, com vontade de uma
perversão qualquer, com o instinto de qualquer coisa de bem baixo, de bem vil,
de bem indigno, em que refocilar o meu temperamento à solta. Talvez as luzes
trêmulas, aquela gente que subia devagar e descia depressa, o cheiro de suor,
de perfume barato, de cosméticos e de cera, o roçar da canalha, o contato do
meu corpo com outros corpos, peles de mãos ásperas umas, algumas macias,
sugestionassem os nervos do meu pobre ser; talvez apenas fosse o fundo de lama
com que fomos todos feitos... O fato é que ao voltar a rua da Carioca, eu era
um homem que deseja, cuja percepção da luxúria é mais aguda, cujos nervos
vibram mais. Uma saia repuxada, o relevo forte de uma anca, Os encontrões
brutais dos marçanos em traje de ver a Deus, dois olhos mais acesos,
faziam-me parar, retroceder, pensar em frases, morder o bigode, andar devagar
em torno dos vendedores de doces e de refrescos, excitado pela frescura das
peles, pelos trechos de carne ocultos, com as têmporas a suar frio e um calor
nas faces, uma palpitação... A vontade do acanalhamento devorava-me, e eu ao
mesmo tempo que queria satisfaze-la, queria oculta-la.
Ninguém, todavia, dera
ainda por aquela nevrose, quando senti perfeitamente dois olhos pregados nos meus
movimentos. Onde esses dois olhos? Eu os sentia, eu os sentia bem. Onde?
Voltei-me, observei, desconfiado. A turba rumorejava na semi-penumbra. Não
havia ali cara que me olhasse. Só, perto do chafariz, dando àquele canto uma
nota anormal, uma velha berlindacom os stores
arriados, parecia esperar alguém. Que berlinda, filhos! Lembrava um velho carro
da Assistência. Era suja, era grande, era vasta, quase um leito. Na boléia o
cocheiro parecia de pedra, e os stores de pano vermelho estavam imóveis.
Estaria vazia? Esperava mesmo alguém? Dei uma volta indagadora em torno, e
tive, oh! sim! tive a certeza de que ali dentro havia uma criatura, que ali
vibrava estranhamente alguém, porque assim como sentira o calor, o fluido
ardente de dois olhos fixos sobre mim, a descobrir-me a alma, sentia agora que
a minha observação perturbava esses olhos. Quem estaria naquele carro? Quem? Um
homem? Uma mulher? Quis falar ao cocheiro, mas, de repente, a berlinda pôs-se
em movimento, desaparecendo pesadamente na rua do Uruguaiana.
Fiquei um instante
trepidante, nervoso. Mas é um fato que quando as crises de pornéia da multidão
agem sobre os nervos dos fracos, esses começam por desejar seguir alguém, seja
quem for, com desejo flutuante, o seio indeciso e como que tocado também de uma
curiosidade malsã pelo vício dos outros. O carro desaparecendo caiu-me uma vaga
tristeza. Como seria agradável o que se fazia dentro, nas suas velhas
almofadas! Larguei-me para a Candelária, que me pareceu um teatro tanta era a
gente e tanta a luz elétrica, e estava lá roçando-me à turba, quando vi um
conhecido. Saí então, à pressa, sem lhe dar tempo aos cumprimentos e às fatais
perguntas; saí, mergulhei de novo nas ruas mal iluminadas, em que o luar punha
uma suave pulverização de sonho. Iria a S. Bento, que tem um morro, árvores,
mais sombras, mais recantos sugestivos, o Arsenal pegado e a vista do mar -o
pai de todos os grandes vícios incomensuráveis...
Quando, porém, ia
chegando ao Arsenal, lá dei com o carro outra vez, vasto como um quarto, com o
cocheiro impassível e os stores vermelhos. A sombra cobria a calçada; no
céu andava a lua num estendal de ouro pálido. Que esquisito peregrinar! que
estranha peregrinação! Abriguei-me no desvão de uma porta. Passaram-se dez
minutos assim, e era impossível apagar a ansiedade dos meus nervos para
descobrir o enigma. A berlinda parecia tremer a capota empoeirada sob o sudário
do luar. Depois, rodou devagar, como se tivesse uma alma e estivesse a
disfarçar uma ação feia. Ao chegar ao escuro beco de Bragança parou, a portinhola
abriu-se, uma sombra golfou, a então aí a berlinda precipitou a marcha. Deus!
que seria aquilo? Um crime? Uma extravagância? A passeata de algum crente
agonizando, que tivesse feito a promessa de arrastar a sua agonia aos pés de
todos os corpos de Jesus expostos? Mas a sombra? Eu amo o horror das coisas
inacreditáveis. Meti-me quase a correr pelo beco. No meu cérebro havia um
escachoar de idéias...
Não encontrei a
sombra, o vulto que eu vira sair do carro. E a procura-la, de rua em rua, com a
face a queimar, fui até a igreja do Rosário. Como? Não sei. O sangue
latejava-me nas têmporas, um suor viscoso molhava-me a palma das mãos. Quando
dei por mim, tinha diante de mim a velha igreja, e ao canto esquerdo do templo,
exatamente igual, tal qual, a velha berlinda. Concidência... Há desses
encontros de gente que nunca se falará, em reuniões dominadas pelo vício. Não
filosofei, porém. Fui ao cocheiro, querendo saber. -«Olá, camarada,
desocupado?». -«Não», respondeu ele seco. -«Pago bem». -«Não posso, já disse».
-«Tem alguém aí então?». O cocheiro cuspiu para o lado. «Ó seu, vá se pondo
fora, se não quer que lhe aconteça alguma». Fiquei sem palavra e ele tocou.
Mas o desejo de
conhecer a razão daquelas paradas à beira das igrejas era muito. Segui por onde
vira perder-se a berlinda. «Ainda a vejo hoje!» pensava. E de fato, fui
encontra-la quase ao fim da noite, em frente à catedral, do lado do largo do
Paço. Não me aproximei. Era melhor esperar de longe. O trecho da rua ardia em
luzes, tal qual como hoje. Vendedores ambulantes serviam com estrépito
refrescos e doces. Gente de preto ia, vinha, passava, desdobrando pelas
calçadas negras serpentes intérminas. Fuzileiros navais ébrios, malandros de
calça bombacha, marinheiros, formavam grupos perigosos, fora da calçada.
Criaturas ambíguas chispavam olhares desvairados de esguelha, no borborinho da
populaça. De repente, o carro começou a mover-se, foi até a Rua Sete, depois
embicou para a esquerda, para o lado dos jardins. Precipitei-me. A berlinda
misteriosa acompanhava um marinheiro, forte homenzarrão hercúleo e jovem. Não
havia dúvida. Era. Oh! se era! Ia devagar, devagar... O marinheiro, a princípio
hesitava. Em seguida pareceu compreender a ínutilidade de fugir, relanceou os
olhos a ver se o espreitavam, e seguiu bamboleando o passo -um passo que espera
o chamado. Em frente ao Telégrafo parou, cortou pelo jardim, como se fosse para
o ex-mercado. A berlinda rodou mais depressa pela primeira quebra dos jardins,
e foi encontra-lo, já atravessando a rua para a rampa. Aí o rapagão estacou. O
carro também. De dentro falaram, deviam ter falado, porque o marinheiro
aproximou-se da portinhola que se abriu, tragando-o. Fiquei estarrecido, com
tais palpitações que sentia no pescoço a artéria bater. Já a berlinda descia
lentamente, como quem dá uma volta à espera de freguês. Perto de mim, meia
dúzia de catraeiros olhavam com esse ar de mordente complacência que a canalha
tem para receber as fraquezas da gente da alta. Compus a fisionomia, indaguei.
— É boa aquela do carro, hein?
— É danada! respondeu um dos tipos.
— O que admira é a resistência dela!
exclamou outro.
— Como resistência?
— Pois v. s. não sabe? É a mulher do
carro da semana santa. Já está muito conhecida. Vem sempre naquele carro e
chama os que lhe agradam...
— E vocês vão?
— Rapaziada não respeita... ela paga
bem.
— E são muitos?
— Ela só aparece na semana santa. Mas é
até pela manhãzinha.
Recuei. Ali, naquele
velho carro, rodando à beira das igrejas, uma Górgona de vício abria a fauce
tragando as flores da ralé, gente que lhe servia de pasto a troco de dinheiro;
naquele carro silencioso estorcia-se uma nevrose desesperada; naquela berlinda,
misteriosamente a fúria de um súcubo, a ânsia de uma diabólica fundia nos
braços um bando de homens com o desespero sensual despedaçador! Oh! o vício que
se não vê! Essa criatura, essa criatura! E, há três anos, todas as
quintas-feiras santas, acompanho a berlinda procurando vê-la, procurando
encarar o polvo de luxúria, que lá dentro distende os tentáculos. Quem será?
Uma senhora de sociedade? Uma perdida? Sei lá! Uma louca, uma desvairada, uma
desgraçada, de que ninguém sabe o nome, de que ninguém talvez possa reconhecer
o semblante, na rua, quando passa...».
— Delicioso caso! fez o efebo literato
erguendo o corpo airoso, que recordava os pagens dos Valois.
Honório pôs-se de pé.
Todos nós fizemos o mesmo
— Olhem, lá está ela, lá está... Era
fatal... Ninguém sabe o que encerra. É o segredo das vítimas. Não. É o segredo
dela apenas... Espera de certo alguém. Estão vendo? Naquele pedaço de sombra,
junto à igreja... Ao lado há um beco. A vítima sairá do beco... Espantoso. Já
ouvi dizer que é uma mulher com bexigas, outrora bela. Um dos convidados
conseguiu, disse-me, ver-lhe a cara através do véu. Conta que é queimada. Mas
não. Outros asseguram que tem pústulas. É a lenda. A opinião geral é mesmo a de
ser uma formosa senhora de alta posição. Não! não é nada disso. É apenas o
horrível vício que se não vê. A luxúria exasperada...
Nós olhávamos a
sombra, nervosos, como à espera. Honório falava entrecortado, estava quase de
cera, e parou subitamente de falar. Uma camisa branca surgira à portinhola da
berlinda, parara. Era um adolescente. Vimos um gesto de negativa, vimos, apesar
do gesto, a portinhola abrir-se, vimos o rapaz pôr o pé no estribo, ser como
que puxado, e logo o ruído seco da portinhola.
— Mas é um crime! ganiu um dos senhores
que pagavam as despesas.
— Quem sabe? fez frio o cidadão Honório.
Nesse momento as
luminárias da igreja apagaram. Acabara a visitação ao Senhor morto. Havia a
confusão natural nos fins de tais solenidades: gente apressada, senhoras
nervosas por apanhar conduções, homens parados a ver se lhe agradavam as
mulheres, gritos mais fortes de vendedores ambulantes, estalar de chicotes,
carros, chamados, pragas. E, como a rua tivesse caído na sombra, já se sentia o
luar da noite esplêndida iluminar os jardins intérminos, lá, mais longe.
O cidadão Honório
despediu-se. O carro rodava devagar no meio da turba compacta. Era o mesmo
carro de que ouvíramos a história, velho, sujo, vasto, lembrando a Assistência,
o mesmo a levar o horror desesperado, a fúria da volúpia voraz. O pavoroso
mistério do vício delirante...
Núcleo de Pesquisas em Informática,
Literatura e Lingüística