LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Os Escravos, de Castro Alves


Edição de base:

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

Índice

 

O século

 

Ao romper d'alva

 

A visão dos mortos

 

A canção do africano

 

Mater dolorosa

 

Confidência

 

O sol e o povo

 

Tragédia no lar

 

O sibarita romano

 

A criança

 

A cruz da estrada

 

Bandido negro

 

América

 

Remorso

 

O canto de Bug Jargal

 

A órfã na sepultura

 

Antítese

 

Canção do violeiro

 

Súplica

 

O vidente

 

A mãe do cativo

 

Manuela

 

Fábula

 

Estrofes do solitário

 

O navio negreiro

 

Lúcia

 

Prometeu

 

Vozes d'África

 

Saudação a Palmares

 

Jesuítas e frades

 

Frades

 

A bainha do punhal

 

O derradeiro amor de Byron

 

Adeus, meu canto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O século

 

Soldados, do, alto daquelas pirâmides

quarenta séculos vos contemplam!

 

NAPOLEÃO

 

 

O século é grande e forte.

 

V. HUGO

 

 

Da mortalha de seus bravos

Fez bandeira a tirania

Oh! armas talvez o povo

De seus ossos faça um dia

 

J. BONIFÁCIO

 

 

O séclo é grande... No espaço

Há um drama de treva e luz.

Como o Cristo — a liberdade

Sangra no poste da Cruz.

Um corvo escuro, anegrado,

Obumbra o manto azulado,

Das asas d'águia dos céus...

Arquejam peitos e frontes...

Nos lábios dos horizontes

Há um riso de luz... É Deus.

 

Às vezes quebra o silêncio

Ronco estrídulo, feroz.

Será o rugir das matas,

Ou da plebe a imensa voz?...

Treme a terra hirta e sombria. . .

São as vascas da agonia

Da liberdade no chão?...

Ou do povo o braço ousado

Que, sob montes calcado,

Abala-os como um Titão?! ...

 

Ante esse escuro problema

Há muito irônico rir.

Pra nós o vento da esp'rança

Traz o pólen do porvir.

E enquanto o cepticismo

Mergulha os olhos no abismo,

Que a seus pés raivando tem,

Rasga o moço os nevoeiros,

Pra dos morros altaneiros

Ver o sol que irrompe além.

 

Toda noite — tem auroras,

Raios — toda a escuridão.

Moços, creiamos, não tarda

A aurora da redenção.

Gemer — é esperar um canto...

Chorar — aguardar que o pranto

Faça-se estrela nos céus.

O mundo é o nauta nas vagas...

Terá do oceano as plagas

Se existem justiça e Deus.

 

No entanto inda há muita noite

No mapa da criação.

Sangra o abutre — tirano

Muito cadáver — nação.

Desce a Polônia esvaída,

Cataléptica, adormida,

À tumba do Sobieski;

Inda em sonhos busca a espada ...

Os reis passam sem ver nada ...

E o Czar olha e sorri...

 

Roma inda tem sobre o peito

O pesadelo dos reis!

A Grécia espera chorando

Canaris... Byron talvez!

Napoleão amordaça

A boca da populaça

E olha Jersey com terror;

Como o filho de Sorrento,

Treme ao fitar um momento

O Vesúvio aterrador.

 

A Hungria é como um cadáver

Ao relento exposto nu;

Nem sequer a abriga a sombra

Do foragido Kossuth.

Aqui — o México ardente,

— Vasto filho independente

Da liberdade e do sol —

Jaz por terra... e lá soluça

Juarez, que se debruça

E diz-lhe: "Espera o arrebol!"

 

O quadro é negro. Que os fracos

Recuem cheios de horror.

A nós, herdeiros dos Gracos,

Traz a desgraça — valor!

Lutai... Há uma lei sublime

Que diz: "À sombra do crime

Há de a vingança marchar."

Não ouvis do Norte um grito,

Que bate aos pés do infinito,

Que vai Franklin despertar?

 

É o grito dos Cruzados

Que brada aos moços — "De pé"!

É o sol das liberdades

Que espera por Josué! ...

São bocas de mil escravos

Que transformaram-se em bravos

Ao cinzel da abolição.

E — à voz dos libertadores —

Reptis saltam condores,

A topetar n'amplidão!...

 

E vós, arcas do futuro,

Crisálidas do porvir,

Quando vosso braço ousado

Legislações construir,

Levantai um templo novo,

Porém não que esmague o povo,

Mas lhe seja o pedestal.

Que ao menino dê-se a escola,

Ao veterano — uma esmola...

A todos — luz e fanal!

 

Luz!... sim; que a criança é uma ave,

Cujo porvir tendes vós;

No sol — é uma águia arrojada,

Na sombra — um mocho feroz.

Libertai tribunas, prelos ...

São fracos, mesquinhos elos...

Não calqueis o povo-rei!

Que este mar d'almas e peitos,

Com as vagas de seus direitos,

Virá partir-vos a lei.

 

Quebre-se o cetro do Papa,

Faça-se dele — uma cruz!

A púrpura sirva ao povo

Pra cobrir os ombros nus,

Que aos gritos do Niagara

— Sem escravos, — Guanabara

Se eleve ao fulgor dos sóis!

Banhem-se em luz os prostíbulos,

E das lascas dos patíbulos

Erga-se a estátua aos heróis!

 

Basta!... Eu sei que a mocidade

É o Moisés no Sinai;

Das mãos do Eterno recebe

As tábuas da lei! — Marchai!

Quem cai na luta com glória,

Tomba nos braços da História,

No coração do Brasil!

Moços, do topo dos Andes,

Pirâmides vastas, grandes,

Vos contemplam séc'los mil!

 

 

 

 

Ao romper D'alva

 

 

Página feia, que ao futuro narra

Dos homens de hoje a lassidão, a história

Com o pranto escrita, com suor selada

Dos párias misérrimos do mundo! ...

Página feia, que eu não possa altivo

Romper, pisar-te, recalcar, punir-te...

 

PEDRO CALASANS

 

 

Sigo só caminhando serra acima,

E meu cavalo a galopar se anima

Aos bafos da manhã.

A alvorada se eleva do levante,

E, ao mirar na lagoa seu semblante,

Julga ver sua irmã.

 

As estrelas fugindo aos nenufares,

Mandam rútilas pérolas dos ares

De um desfeito colar.

No horizonte desvendam-se as colinas,

Sacode o véu de sonhos de neblinas

A terra ao despertar.

 

Tudo é luz, tudo aroma e murmurio.

A barba branca da cascata o rio

Faz orando tremer.

No descampado o cedro curva a frente,

Folhas e prece aos pés do Onipotente

Manda a lufada erguer.

 

Terra de Santa Cruz, sublime verso

Da epopéia gigante do universo,

Da imensa criação.

Com tuas matas, ciclopes de verdura,

Onde o jaguar, que passa na espessura,

Roja as folhas no chão;

 

Como és bela, soberba, livre, ousada!

Em tuas cordilheiras assentada

A liberdade está.

A púrpura da bruma, a ventania

Rasga, espedaça o cetro que s'erguia

Do rijo piquiá.

 

Livre o tropeiro toca o lote e canta

A lânguida cantiga com que espanta

A saudade, a aflição.

Solto o ponche, o cigarro fumegando

Lembra a serrana bela, que chorando

Deixou lá no sertão.

 

Livre, como o tufão, corre o vaqueiro

Pelos morros e várzea e tabuleiro

Do intrincado cipó.

Que importa’os dedos da jurema aduncos?

A anta, ao vê-los, oculta-se nos juncos,

Voa a nuvem de pó.

 

Dentre a flor amarela das encostas

Mostra a testa luzida, as largas costas

No rio o jacaré.

Catadupas sem freios, vastas, grandes,

Sois a palavra livre desses Andes

Que além surgem de pé.

 

Mas o que vejo? É um sonho!... A barbaria

Erguer-se neste séc'lo, à luz do dia.

Sem pejo se ostentar.

E a escravidão — nojento crocodilo

Da onda turva expulso lá do Nilo —

Vir aqui se abrigar! ...

 

Oh! Deus! não ouves dentre a imensa orquesta

Que a natureza virgem manda em festa

Soberba, senhoril,

Um grito que soluça aflito, vivo,

O retinir dos ferros do cativo,

Um som discorde e vil?

 

Senhor, não deixes que se manche a tela

Onde traçaste a criação mais bela

De tua inspiração.

O sol de tua glória foi toldado...

Teu poema da América manchado,

Manchou-o a escravidão.

 

Prantos de sangue — vagas escarlates —

Toldam teus rios — lúbricos Eufrates

Dos servos de Sião.

E as palmeiras se torcem torturadas,

Quando escutam dos morros nas quebradas

O grito de aflição.

 

Oh! ver não posso este labéu maldito!

Quando dos livres ouvirei o grito?

Sim... talvez amanhã.

Galopa, meu cavalo, serra acima!

Arranca-me a este solo. Eia! te anima

Aos bafos da manhã!

 

 

 

 

A visão dos mortos

 

 

On rapporte encore qu'un berger ayant été introduit une fois par un nain dans le Hyffhaese, l'empereur (Barberousse) se leva et lui demanda si les corbeaux volaient encore autour de la montagne. Et, sur la réponse afíirmative du berger, il s'écria en soupirant: i1 faut donc que je dors encore pendant cent ans"!

 

H. HEINE (Allemagne)

 

 

Nas horas tristes que em neblinas densas

A terra envolta num sudário dorme,

E o vento geme na amplidão celeste

— Cúpula imensa dum sepulcro enorme,

Um grito passa despertando os ares,

Levanta as lousas invisível mão.

Os mortos saltam, poeirentos, lívidos.

Da lua pálida ao fatal clarão.

 

Do solo adusto do africano Saara

Surge um fantasma com soberbo passo,

Presos os braços, laureada a fronte,

Louco poeta, como fora o Tasso.

Do sul, do norte... do oriente irrompem

Dórias, Siqueiras e Machado então.

Vem Pedro lvo no cavalo negro

Da lua pálida ao fatal clarão.

 

O Tiradentes sobre o poste erguido

Lá se destaca das cerúleas telas,,

Pelos cabelos a cabeça erguendo,

Que rola sangue, que espadana estrelas.

E o grande Andrada, esse arquiteto ousado,

Que amassa um povo na robusta mão:

O vento agita do tribuno a toga

Da lua pálida ao fatal clarão.

 

A estátua range... estremecendo move-se

O rei de bronze na deserta praça.

O povo grita: Independência ou Morte!

Vendo soberbo o Imperador, que passa.

Duas coroas seu cavalo pisa,

Mas duas cartas ele traz na mão.

Por guarda de honra tem dous povos livres,

Da lua pálida ao fatal clarão.

 

Então, no meio de um silêncio lúgubre,

Solta este grito a legião da morte:

"Aonde a terra que talhamos livre,

Aonde o povo que fizemos forte?

Nossas mortalhas o presente inunda

No sangue escravo, que nodoa o chão.

Anchietas, Gracos, vós dormis na orgia,

Da lua pálida ao fatal clarão.

 

"Brutus renega a tribunícia toga,

O apost'lo cospe no Evangelho Santo,

E o Cristo — Povo, no Calvário erguido,

Fita o futuro com sombrio espanto.

Nos ninhos d'águias que nos restam? — Corvos,

Que vendo a pátria se estorcer no chão,

Passam, repassam, como alados crimes,

Da lua pálida ao fatal clarão.

 

"Oh! é preciso inda esperar cem anos...

Cem anos. . . " brada a legião da morte.

E longe, aos ecos nas quebradas trêmulas,

Sacode o grito soluçando, — o norte.

Sobre os corcéis dos nevoeiros brancos

Pelo infinito a galopar lá vão...

Erguem-se as névoas como pó do espaço

Da lua pálida ao fatal clarão.

 

 

 

 

A canção do africano

 

 

Lá na úmida senzala,

Sentado na estreita sala,

Junto ao braseiro, no chão,

Entoa o escravo o seu canto,

E ao cantar correm-lhe em pranto

Saudades do seu torrão ...

 

De um lado, uma negra escrava

Os olhos no filho crava,

Que tem no colo a embalar...

E à meia voz lá responde

Ao canto, e o filhinho esconde,

Talvez pra não o escutar!

 

"Minha terra é lá bem longe,

Das bandas de onde o sol vem;

Esta terra é mais bonita,

Mas à outra eu quero bem!

 

"0 sol faz lá tudo em fogo,

Faz em brasa toda a areia;

Ninguém sabe como é belo

Ver de tarde a papa-ceia!

 

"Aquelas terras tão grandes,

Tão compridas como o mar,

Com suas poucas palmeiras

Dão vontade de pensar ...

 

"Lá todos vivem felizes,

Todos dançam no terreiro;

A gente lá não se vende

Como aqui, só por dinheiro".

 

O escravo calou a fala,

Porque na úmida sala

O fogo estava a apagar;

E a escrava acabou seu canto,

Pra não acordar com o pranto

O seu filhinho a sonhar!

............................

O escravo então foi deitar-se,

Pois tinha de levantar-se

Bem antes do sol nascer,

E se tardasse, coitado,

Teria de ser surrado,

Pois bastava escravo ser.

 

E a cativa desgraçada

Deita seu filho, calada,

E põe-se triste a beijá-lo,

Talvez temendo que o dono

Não viesse, em meio do sono,

De seus braços arrancá-lo!

 

 

 

 

Mater dolorosa

 

 

Deixa-me murmurar à tua ali adeus eterno, em vez de lá chorar sangue, chorar o sangue! meu coração sobre meu filho; tu deves morrer, meu filho, tu deves morrer.

 

NATHANIEL LEE

 

 

Meu Filho, dorme, dorme o sono eterno

No berço imenso, que se chama — o céu.

Pede às estrelas um olhar materno,

Um seio quente, como o seio meu.

 

Ai! borboleta, na gentil crisálida,

As asas de ouro vais além abrir.

Ai! rosa branca no matiz tão pálida,

Longe, tão longe vais de mim florir.

 

Meu filho, dorme Como ruge o norte

Nas folhas secas do sombrio chão!

Folha dest'alma como dar-te à sorte?

É tredo, horrível o feral tufão!

 

Não me maldigas... Num amor sem termo

Bebi a força de matar-te a mim

Viva eu cativa a soluçar num ermo

Filho, sê livre... Sou feliz assim...

 

— Ave — te espera da lufada o açoite,

— Estrela — guia-te uma luz falaz.

— Aurora minha — só te aguarda a noite,

— Pobre inocente — já maldito estás.

 

Perdão, meu filho... se matar-te é crime

Deus me perdoa... me perdoa já.

A fera enchente quebraria o vime...

Velem-te os anjos e te cuidem lá.

 

Meu filho dorme... dorme o sono eterno

No berço imenso, que se chama o céu.

Pede às estrelas um olhar materno,

Um seio quente, como o seio meu.

 

 

 

 

Confidência

 

 

Maldição sobre vós, doutores da lei! Maldição sobre vós, hipócritas! Assemelhais-vos aos sepulcros brancos por fora; o exterior parece formoso, mas o interior está cheio de ossos e podridão.

 

EVANGELHO DE SÃO MATEUS, cap. XXII.

 

 

Quando, Maria, vês de minha fronte

Negra idéia voando no horizonte,

as asas desdobrar,

Triste segues então meu pensamento,

Como fita o barqueiro de Sorrento

As nuvens ao luar.

 

E tu me dizes, pálida inocente,

Derramando uma lágrima tremente,

Como orvalho de dor:

"Por que sofres? A selva tem odores,

"0 céu tem astros, os vergéis têm flores,

"Nossas almas o amor".

 

Ai! tu vês nos teus sonhos de criança

A ave de amor que o ramo da esperança

Traz no bico a voar;

E eu vejo um negro abutre que esvoaça,

Que co'as garras a púrpura espedaça

Do manto popular.

 

Tu vês na onda a flor azul dos campos,

Donde os astros, errantes pirilampos,

Se elevam para os céus;

E eu vejo a noite borbulhar das vagas

E a consciência é quem me aponta as plagas

Voltada para Deus.

 

Tua alma é como as veigas sorrentinas

Onde passam gemendo as cavatinas

Cantadas ao luar.

A minha — eco do grito, que soluça,

Grito de toda dor que se debruça

Do lábio a soluçar.

 

É que eu escuto o sussurrar de idéias,

O marulho talvez das epopéias,

Em torno aos mausoléus,

E me curvo no túm'lo das idades

— Crânios de pedra, cheios de verdades

E da sombra de Deus.

 

E nessas horas julgo que o passado

Dos túmulos a meio levantado

Me diz na solidão:

"Que és tu, poeta? A lâmpada da orgia,

"Ou a estrela de luz, que os povos guia

"À nova redenção?"

 

Ó Maria, mal sabes o fadário

Que o moço bardo arrasta solitário

Na impotência da dor.

Quando vê que debalde à liberdade

Abriu sua alma — urna da verdade

Da esperança e do amor! ...

 

Quando vê que uma lúgubre coorte

Contra a estátua (sagrada pela morte)

Do grande imperador,

Hipócrita, amotina a populaça,

Que morde o bronze, como um cão de caça

No seu louco furor! ...

 

Sem poder esmagar a iniqüidade

Que tem na boca sempre a liberdade,

Nada no coração;

Que ri da dor cruel de mil escravos,

— Hiena, que do túmulo dos bravos,

Morde a reputação! ...

 

Sim... quando vejo, ó Deus, que o sacerdote

As espáduas fustiga com o chicote

Ao cativo infeliz;

Que o pescador das almas já se esquece

Das santas pescarias e adormece

Junto da meretriz...

 

Que o apóstolo, o símplice romeiro,

Sem bolsa, sem sandálias, sem dinheiro,

Pobre como Jesus,

Que mendigava outrora à caridade

Pagando o pão com o pão da eternidade,

Pagando o amor com a luz,

 

Agora adota a escravidão por filha,

Amolando nas páginas da Bíblia

O cutelo do algoz...

Sinto não ter um raio em cada verso

Para escrever na fronte do perverso:

"Maldição sobre vós!"

 

Maldição sobre vós, tribuno falso!

Rei, que julgais que o negro cadafalso

É dos tronos o irmão!

Bardo, que a lira prostituis na orgia

— Eunuco incensador da tirania —

Sobre ti maldição!

 

Maldição sobre , rico devasso,

Que da música, ao lânguido compasso,

Embriagado não vês

A criança faminta que na rua

Abraça u'a mulher pálida e nua,

Tua amante... talvez!...

 

Maldição! ... Mas que importa?... Ela espedaça

Acaso a flor olente que se enlaça

Nas c'roas festivais?

Nodoa a veste rica ao sibarita?

Que importam cantos, se é mais alta a grita

Das loucas bacanais?

 

Oh! por isso, Maria, vês, me curvo

Na face do presente escuro e turvo

E interrogo o porvir;

Ou levantando a voz por sobre os montes,

"Liberdade", pergunto aos horizontes,

Quando enfim hás de vir?"

 

Por isso, quando vês as noites belas,

Onde voa a poeira das estrelas

E das constelações,

Eu fito o abismo que a meus pés fermenta,

E onde, como santelmos da tormenta,

Fulgem revoluções!...

 

 

 

 

O sol e o povo

 

 

Le peuple a sa colére et le volcan sa lave.

 

V. HUGO

 

 

Ya desatado

El horrendo huracán silba contigo

¿ Qué muralla, qué abrigo

Bastaran contra ti?

 

M. QUINTANA

 

 

O sol, do espaço Briaréu gigante,

P’ra escalar a montanha do infinito,

Banha em sangue as campinas do levante.

 

Então em meio dos Saarás — o Egito

Humilde curva a fronte e um grito errante

Vai despertar a Esfinge de granito.

 

O povo é como o sol! Da treva escura

Rompe um dia co’a destra iluminada,

Como o Lázaro, estala a sepultura!...

 

Oh! temei-vos da turba esfarrapada,

Que salva o berço à geração futura,

Que vinga a campa à geração passada.

 

 

 

 

Tragédia no lar

 

 

Na Senzala, úmida, estreita,

Brilha a chama da candeia,

No sapé se esgueira o vento.

E a luz da fogueira ateia.

 

Junto ao fogo, uma africana,

Sentada, o filho embalando,

Vai lentamente cantando

Uma tirana indolente,

Repassada de aflição.

E o menino ri contente...

Mas treme e grita gelado,

Se nas palhas do telhado

Ruge o vento do sertão.

 

Se o canto pára um momento,

Chora a criança imprudente ...

Mas continua a cantiga ...

E ri sem ver o tormento

Daquele amargo cantar.

Ai! triste, que enxugas rindo

Os prantos que vão caindo

Do fundo, materno olhar,

E nas mãozinhas brilhantes

Agitas como diamantes

Os prantos do seu pensar ...

 

E voz como um soluço lacerante

Continua a cantar:

 

"Eu sou como a garça triste

"Que mora à beira do rio,

"As orvalhadas da noite

"Me fazem tremer de frio.

 

"Me fazem tremer de frio

"Como os juncos da lagoa;

"Feliz da araponga errante

"Que é livre, que livre voa.

 

"Que é livre, que livre voa

"Para as bandas do seu ninho,

"E nas braúnas à tarde

"Canta longe do caminho.

 

"Canta longe do caminho.

"Por onde o vaqueiro trilha,

"Se quer descansar as asas

"Tem a palmeira, a baunilha.

 

"Tem a palmeira, a baunilha,

"Tem o brejo, a lavadeira,

"Tem as campinas, as flores,

 

"Tem a relva, a trepadeira,

"Tem a relva, a trepadeira,

"Todas têm os seus amores,

"Eu não tenho mãe nem filhos,

"Nem irmão, nem lar, nem flores".

 

A cantiga cessou. . . Vinha da estrada

A trote largo, linda cavalhada

De estranho viajor,

Na porta da fazenda eles paravam,

Das mulas boleadas apeavam

E batiam na porta do senhor.

 

Figuras pelo sol tisnadas, lúbricas,

Sorrisos sensuais, sinistro olhar,

Os bigodes retorcidos,

O cigarro a fumegar,

O rebenque prateado

Do pulso dependurado,

Largas chilenas luzidas,

Que vão tinindo no chão,

E as garruchas embebidas

No bordado cinturão.

 

A porta da fazenda foi aberta;

Entraram no salão.

 

Por que tremes mulher? A noite é calma,

Um bulício remoto agita a palma

Do vasto coqueiral.

Tem pérolas o rio, a noite lumes,

A mata sombras, o sertão perfumes,

Murmúrio o bananal.

 

Por que tremes, mulher? Que estranho crime,

Que remorso cruel assim te oprime

E te curva a cerviz?

O que nas dobras do vestido ocultas?

É um roubo talvez que aí sepultas?

É seu filho ... Infeliz! ...

 

Ser mãe é um crime, ter um filho — roubo!

Amá-lo uma loucura! Alma de lodo,

Para ti — não há luz.

Tens a noite no corpo, a noite na alma,

Pedra que a humanidade pisa calma,

— Cristo que verga à cruz!

 

Na hipérbole do ousado cataclisma

Um dia Deus morreu... fuzila um prisma

Do Calvário ao Tabor!

Viu-se então de Palmira os pétreos ossos,

De Babel o cadáver de destroços

Mais lívidos de horror.

 

Era o relampejar da liberdade

Nas nuvens do chorar da humanidade,

Ou sarça do Sinai,

— Relâmpagos que ferem de desmaios...

Revoluções, vós deles sois os raios,

Escravos, esperai! ...

 

..................................................................

 

Leitor, se não tens desprezo

De vir descer às senzalas,

Trocar tapetes e salas

Por um alcouce cruel,

Que o teu vestido bordado

Vem comigo, mas ... cuidado ...

Não fique no chão manchado,

No chão do imundo bordel.

 

Não venhas tu que achas triste

Às vezes a própria festa.

Tu, grande, que nunca ouviste

Senão gemidos da orquestra

Por que despertar tu'alma,

Em sedas adormecida,

Esta excrescência da vida

Que ocultas com tanto esmero?

E o coração — tredo lodo,

Fezes d'ânfora doirada

Negra serpe, que enraivada,

Morde a cauda, morde o dorso

E sangra às vezes piedade,

E sangra às vezes remorso?...

 

Não venham esses que negam

A esmola ao leproso, ao pobre.

A luva branca do nobre

Oh! senhores, não mancheis...

Os pés lá pisam em lama,

Porém as frontes são puras

Mas vós nas faces impuras

Tendes lodo, e pus nos pés.

 

Porém vós, que no lixo do oceano

A pérola de luz ides buscar,

Mergulhadores deste pego insano

Da sociedade, deste tredo mar.

 

Vinde ver como rasgam-se as entranhas

De uma raça de novos Prometeus,

Ai! vamos ver guilhotinadas almas

Da senzala nos vivos mausoléus.

 

— Escrava, dá-me teu filho!

Senhores, ide-lo ver:

É forte, de uma raça bem provada,

Havemos tudo fazer.

 

Assim dizia o fazendeiro, rindo,

E agitava o chicote...

A mãe que ouvia

Imóvel, pasma, doida, sem razão!

À Virgem Santa pedia

Com prantos por oração;

E os olhos no ar erguia

Que a voz não podia, não.

 

— Dá-me teu filho! repetiu fremente

o senhor, de sobr'olho carregado.

— Impossível!...

— Que dizes, miserável?!

— Perdão, senhor! perdão! meu filho dorme...

Inda há pouco o embalei, pobre inocente,

Que nem sequer pressente

Que ides...

— Sim, que o vou vender!

— Vender?!. . . Vender meu filho?!

 

Senhor, por piedade, não

Vós sois bom antes do peito

Me arranqueis o coração!

Por piedade, matai-me! Oh! É impossível

Que me roubem da vida o único bem!

Apenas sabe rir é tão pequeno!

Inda não sabe me chamar? Também

Senhor, vós tendes filhos... quem não tem?

Se alguém quisesse os vender

Havíeis muito chorar

Havíeis muito gemer,

Diríeis a rir — Perdão?!

Deixai meu filho... arrancai-me

Antes a alma e o coração!

 

— Cala-te miserável! Meus senhores,

O escravo podeis ver ...

 

E a mãe em pranto aos pés dos mercadores

Atirou-se a gemer.

 

— Senhores! basta a desgraça

De não ter pátria nem lar,

De ter honra e ser vendida

De ter alma e nunca amar!

 

Deixai à noite que chora

Que espere ao menos a aurora,

Ao ramo seco uma flor;

Deixai o pássaro ao ninho,

Deixai à mãe o filhinho,

Deixai à desgraça o amor.

 

Meu filho é-me a sombra amiga

Neste deserto cruel!...

Flor de inocência e candura.

Favo de amor e de mel!

 

Seu riso é minha alvorada,

Sua lágrima doirada

Minha estrela, minha luz!

É da vida o único brilho

Meu filho! é mais... é meu filho

Deixai-mo em nome da Cruz!...

 

Porém nada comove homens de pedra,

Sepulcros onde é morto o coração.

A criança do berço ei-los arrancam

Que os bracinhos estende e chora em vão!

 

Mudou-se a cena. Já vistes

Bramir na mata o jaguar,

E no furor desmedido

Saltar, raivando atrevido.

O ramo, o tronco estalar,

Morder os cães que o morderam...

De vítima feita algoz,

Em sangue e horror envolvido

Terrível, bravo, feroz?

 

Assim a escrava da criança ao grito

Destemida saltou,

E a turba dos senhores aterrada

Ante ela recuou.

 

— Nem mais um passo, cobardes!

Nem mais um passo! ladrões!

Se os outros roubam as bolsas,

Vós roubais os corações! ...

 

Entram três negros possantes,

Brilham punhais traiçoeiros...

Rolam por terra os primeiros

Da morte nas contorções.

 

..................................................................

 

Um momento depois a cavalgada

Levava a trote largo pela estrada

A criança a chorar.

Na fazenda o azorrague então se ouvia

E aos golpes — uma doida respondia

Com frio gargalhar! ...

 

 

 

 

O sibarita romano

 

 

Este olhar, estes lábios, estas rugas

exprimem uma sede impaciente e

impossível de saciar. Quer e não pode.

Sente o desejo e a impaciência.

 

LAVATER

 

 

Escravo, dá-me a c'roa de amaranto

Que mandou-me inda há pouco Afra impudente.

Orna-me a fronte... Enrola-me os cabelos,

Quero o mole perfume do Oriente.

 

Lança nas chamas dessa etrusca pira

O nardo trescalante de Medina.

Vem... desenrola aos pés do meu triclínio

As felpas de uma colcha bizantina.

 

Ohl tenho tédio... Embalde, ao pôr da tarde,

Pelas nereidas louras embalado,

Vogo em minha galera ao som das harpas,

Da cortesã nos seios recostado.

 

Debalde, em meu palácio altivo, imenso,

De mosaicos brilhantes embutido,

Nuas, volvem as filhas do Oriente

No morno banho em termas de porfido.

 

Só amo o circo... a dor, gritos e flores,

A pantera, o leão de hirsuta coma;

Onde o banho de sangue do universo

Rejuvenesce a púrpura de Roma.

 

E o povo rei — na vítima do mundo

Palpa as entranhas que inda sangue escorrem,

E ergue-se o grito extremo dos cativos:

— Ave, Cesar! saúdam-te os que morrem!

 

Escravo, quero um canto... Vibra a lira,

De Orfeu desperta a fibra dolorida,

Canta a volúpia das bacantes nudas,

Fere o hino de amor que inflama a vida.

 

Doce, como do Himeto o mel dourado,

Puro como o perfume... Escravo insano!

Teu canto é o grito rouco das Eumênides,

Sombrio como um verso de Lucano.

 

Quero a ode de amor que o vento canta

Do Palatino aos flóreos arvoredos.

Quero os cantos de Nero... Escravo infame,

Quebras as cordas nos convulsos dedos!

 

Deixa esta lira! como o tempo é longo!

Insano! insano! que tormento sinto!

Traze o louro falerno transparente

Na mais custosa taça de Corinto.

 

Pesa-me a vida!... está deserto o Forum!

E o tédio!... o tédio!... que infernal idéia!

Dá-me a taça, e do ergástulo das servas

Tua irmã trar-me-ás, — a grega Haidéia!

 

Quero em seu seio... Escravo desgraçado,

A este nome tremeu-te o braço exangue?

Vê... Manchaste-me a toga com o falerno,

Irás manchar o Coliseu com o sangue!...

 

 

 

 

A criança

 

 

Que veux-tu, fleur, beau fruit, ou l'oiseau merveilleux?

Ami, dit l'enfant grec, dit l'enfant aux yeux bleus,

Je veux de Ia poudre et des balles.

 

VICTOR HUGO (Les Orientales)

 

 

Que tens criança? O areal da estrada

Luzente a cintilar

Parece a folha ardente de uma espada.

Tine o sol nas savanas. Morno é o vento.

À sombra do palmar

O lavrador se inclina sonolento.

 

É triste ver uma alvorada em sombras,

Uma ave sem cantar,

O veado estendido nas alfombras.

Mocidade, és a aurora da existência,

Quero ver-te brilhar.

Canta, criança, és a ave da inocência.

 

Tu choras porque um ramo de baunilha

Não pudeste colher,

Ou pela flor gentil da granadilha?

Dou-te, um ninho, uma flor, dou-te uma palma,

Para em teus lábios ver

O riso — a estrela no horizonte da alma.

 

Não. Perdeste tua mãe ao fero açoite

Dos seus algozes vis.

E vagas tonto a tatear à noite.

Choras antes de rir... pobre criança!...

Que queres, infeliz?...

— Amigo, eu quero o ferro da vingança.

 

 

 

 

A cruz da estrada

 

 

Invideo quia quiescunt.

 

LUTHERO (Worms)

 

 

Tu que passas, descobre-te! Ali dorme

O forte que morreu.

 

A. HERCULANO (Trad.)

 

 

Caminheiro que passas pela estrada,

Seguindo pelo rumo do sertão,

Quando vires a cruz abandonada,

Deixa-a em paz dormir na solidão.

 

Que vale o ramo do alecrim cheiroso

Que lhe atiras nos braços ao passar?

Vais espantar o bando buliçoso

Das borboletas, que lá vão pousar.

 

É de um escravo humilde sepultura,

Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.

Deixa-o dormir no leito de verdura,

Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

 

Não precisa de ti. O gaturamo

Geme, por ele, à tarde, no sertão.

E a juriti, do taquaral no ramo,

Povoa, soluçando, a solidão.

 

Dentre os braços da cruz, a parasita,

Num abraço de flores, se prendeu.

Chora orvalhos a grama, que palpita;

Lhe acende o vaga-lume o facho seu.

 

Quando, à noite, o silêncio habita as matas,

A sepultura fala a sós com Deus.

Prende-se a voz na boca das cascatas,

E as asas de ouro aos astros lá nos céus.

 

Caminheiro! do escravo desgraçado

O sono agora mesmo começou!

Não lhe toques no leito de noivado,

pouco a liberdade o desposou.

 

 

 

 

Bandido negro

 

 

Corre, corre, sangue do cativo

Cai, cai, orvalho de sangue

Germina, cresce, colheita vingadora

A ti, segador a ti. Está madura.

Aguça tua fouce, aguça, aguça tua fouce.

 

E. SUE (Canto dos filhos de Agar)

 

 

Trema a terra de susto aterrada...

Minha égua veloz, desgrenhada,

Negra, escura nas lapas voou.

Trema o céu ... ó ruína! ó desgraça!

Porque o negro bandido é quem passa,

Porque o negro bandido bradou:

 

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

 

Dorme o raio na negra tormenta...

Somos negros... o raio fermenta

Nesses peitos cobertos de horror.

Lança o grito da livre coorte,

Lança, ó vento, pampeiro de morte,

Este guante de ferro ao senhor.

 

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

 

Eia! ó raça que nunca te assombras!

Pra o guerreiro uma tenda de sombras

Arma a noite na vasta amplidão.

Sus! pulula dos quatro horizontes,

Sai da vasta cratera dos montes,

Donde salta o condor, o vulcão.

 

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

 

E o senhor que na festa descanta

Pare o braço que a taça alevanta,

Coroada de flores azuis.

E murmure, julgando-se em sonhos:

"Que demônios são estes medonhos,

Que lá passam famintos e nus?"

 

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

 

Somos nós, meu senhor, mas não tremas,

Nós quebramos as nossas algemas

Pra pedir-te as esposas ou mães.

Este é o filho do ancião que mataste.

Este — irmão da mulher que manchaste...

Oh! não tremas, senhor, são teus cães.

 

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

 

São teus cães, que têm frio e têm fome,

Que há dez séc'los a sede consome...

Quero um vasto banquete feroz...

Venha o manto que os ombros nos cubra.

Para vós fez-se a púrpura rubra,

Fez-se a manto de sangue pra nós.

 

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

 

Meus leões africanos, alerta!

Vela a noite... a campina é deserta.

Quando a lua esconder seu clarão

Seja o bramo da vida arrancado

No banquete da morte lançado

Junto ao corvo, seu lúgubre irmão.

 

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz.

 

Trema o vale, o rochedo escarpado,

Trema o céu de trovões carregado,

Ao passar da rajada de heróis,

Que nas éguas fatais desgrenhadas

Vão brandindo essas brancas espadas,

Que se amolam nas campas de avós.

 

Cai, orvalho de sangue do escravo,

Cai, orvalho, na face do algoz.

Cresce, cresce, seara vermelha,

Cresce, cresce, vingança feroz

 

 

 

 

América

 

 

Acorda a pátria e vê que é pesadelo

O sonho da ignomínia que ela sonha!

 

Tomás Ribeiro

 

 

À Tépida sombra das matas gigantes,

Da América ardente nos pampas do Sul,

Ao canto dos ventos nas palmas brilhantes,

À luz transparente de um céu todo azul,

 

A filha das matas — cabocla morena —

Se inclina indolente sonhando talvez!

A fronte nos Andes reclina serena.

E o Atlântico humilde se estende a seus pés.

 

As brisas dos cerros ainda lhe ondulam

Nas plumas vermelhas do arco de avós,

Lembrando o passado seus seios pululam,

Se a onça ligeira boliu nos cipós.

 

São vagas lembranças de um tempo que teve!...

Palpita-lhe o seio por sob uma cruz.

E em cisma doirada — qual garça de neve —

Sua alma revolve-se em ondas de luz.

 

Embalam-lhe os sonhos, na tarde saudosa,

Os cheiros agrestes do vasto sertão,

E a triste araponga que geme chorosa

E a voz dos tropeiros em terna canção.

 

Se o gênio da noite no espaço flutua

Que negros mistérios a selva contém!

Se a ilha de prata, se a pálida lua

Clareia o levante, que amores não tem!

 

Parece que os astros são anjos pendidos

Das frouxas neblinas da abóbada azul,

Que miram, que adoram ardentes, perdidos,

A filha morena dos pampas do Sul.

 

Se aponta a alvorada por entre as cascatas,

Que estrelas no orvalho que a noite verteu!

As flores são aves que pousam nas matas,

As aves são flores que voam no céu!

 

......................................................................

 

Ó pátria, desperta... Não curves a fronte

Que enxuga-te os prantos o Sol do Equador.

Não miras na fímbria do vasto horizonte

A luz da alvorada de um dia melhor?

 

Já falta bem pouco. Sacode a cadeia

Que chamam riquezas... que nódoas te são!

Não manches a folha de tua epopéia

No sangue do escravo, no imundo balcão.

 

Sê pobre, que importa? Sê livre... és gigante,

Bem como os condores dos píncaros teus!

Arranca este peso das costas do Atlante,

Levanta o madeiro dos ombros de Deus.

 

 

 

 

Remorso

(ao assassino de Lincoln)

 

 

Cain! Cain!

 

Byron

 

 

Neque fama deum, nec fulmina, nec mini tanti

Murmure, compressit coelum...

 

Lucrécio

 

 

Cavaleiro sinistro, embuçado,

Neste negro cavalo montado,

Onde vais galopando veloz?

Tu não vês como o vento farfalha,

E das nuvens sacode a mortalha

Ululando com lúgubre voz?

 

Cavaleiro, onde vais? Tu não sentes

Teu capote seguro nos dentes

E nas garras do negro tufão,

Nestas horas de horror e segredo

Quando os mangues s’escondem com medo

Tiritando no mar n’amplidão?

 

Quando a serra se embuça em neblinas

E as lufadas sacodem as crinas

Do pinheiro que geme no val,

E no espaço se apagam as lampas,

E uma chama azulada nas campas

Lambe as pedras por noite hibernal,

 

Onde vais? Onde vais temerário

A correr… a voar?... Que fadário

Aos ouvidos te grita — fugi?

Por que fitas o olhar desvairado

No horizonte que foge espantado

Em tuas costas com medo de ti?

 

Ai! debalde galopas a est’hora!

É debalde que sangra na espora

Negro flanco do negro corcel.

E no célere rápido passo

Devorando com as patas o espaço

Saltas montes e vales revel.

 

Não apagas da fronte o ferrete

Onde o crime com frio estilete

Nome estranho bem fundo gravou.

O que buscas? — A noite sem lumes?

P’ra aclarar-te fatais vaga-lumes

Teu cavalo do chão despertou.

 

De bem longe o arvoredo trevoso,

Estirando o pescoço nodoso,

Vem — correndo — na estrada te olhar.

Mas tua fronte maldita encarando,

Foge… foge veloz recuando,

Vai nas brumas a fronte velar.

 

Tu não vês? Qual matilha esfaimada,

Lá dos morros por sobre a quebrada,

Ladra o eco gritando: quem és?

Onde vais, cavaleiro maldito?

Mesmo oculto nos véus do infinito

Tua sombra te morde nos pés.

 

 

 

 

O canto de Bug Jargal

(Traduzido de V. HUGO)

 

 

Por que foges de mim? Por que, Maria?

E gelas-te de medo, se me escutas?

Ah! sou bem formidável na verdade,

Sei ter amor, ter dores e ter cantos!

Quando, através das palmas dos coqueiros

Tua forma desliza aérea e pura,

Ó Maria, meus olhos se deslumbram,

Julgo ver um espírito que passa.

E se escuto os acentos encantados,

Que em melodia escapam de teus lábios,

Meu coração palpita em meu ouvido

Misturando um queixoso murmurio

De tua voz à lânguida harmonia.

Ai! tua voz é mais doce do que o canto

Das aves que no céu vibram as asas,

E que vem no horizonte lá da pátria.

Da pátria onde era rei, onde era livre!

Rei e livre, Maria! e esqueceria

Tudo por ti... esqueceria tudo

— A família, o dever, reino e vingança

Sim, até a vingança! ... ainda que cedo

Tenha enfim de colher este acre fruto,

Acre e doce que tarde amadurece.

 

...................................................................

 

Ó Maria, pareces a palmeira

Bela, esvelta, embalada pelas auras.

E te miras no olhar de teu amante

Como a palmeira n'água transparente.

Porém ... sabes? Às vezes há no fundo

Do deserto o uragã que tem ciúmes

Da fonte amada... e arroja-se e galopa.

O ar e a areia misturando turvos

Sob o vôo pesado de suas asas.

Num turbilhão de fogo, árvore e fonte

Envolve... e seca a límpida vertente,

Sente a palmeira a um hálito de morte

Crespar-se o verde circ'lo da folhagem,

Que tinha a majestade de uma c'roa

E a graça de uma solta cabeleira.

 

...................................................................

 

Oh! treme, branca filha de Espanhola,

Treme, breve talvez tenhas em torno

O uragã e o deserto. Então, Maria,

Lamentarás o amor que hoje pudera

Te conduzir a mim, bem como o kata

— Da salvação o pássaro ditoso —

Através das areias africanas

Guia o viajante lânguido à cisterna.

E por que enjeitas meu amor? Escuta:

Eu sou rei, minha fronte se levanta

Sobre as frontes de todos. Ó Maria,

Eu sei que és branca e eu negro, mas precisa

O dia unir-se à noite feia, escura,

Para criar as tardes e as auroras,

Mais belas do que a luz, mais do que as trevas!

 

 

 

 

A órfã na sepultura

 

 

Minha mãe, a noite é fria,

Desce a neblina sombria,

Geme o riacho no val

E a bananeira farfalha,

Como o som de uma mortalha

Que rasga o gênio do mal.

 

Não vês que noite cerrada?

Ouviste essa gargalhada

Na mata escura? ai de mim!

Mãe, ó mãe, tremo de medo.

Oh! quando enfim teu segredo,

Teu segredo terá fim?

 

Foi ontem que à Ave-Maria

O sino da freguesia,

Me fez tanto soluçar.

Foi ontem que te calaste...

Dormiste . . os olhos fechaste...

Nem me fizeste rezar! ...

 

Sentei-me junto ao teu leito,

'Stava tão frio o teu peito,

Que eu fui o fogo atiçar.

Parece que então me viste

Porque dormindo sorriste

Como uma santa no altar.

 

Depois o fogo apagou-se,

Tudo no quarto calou-se,

E eu também calei-me então.

Somente acesa uma vela

Triste, de cera amarela,

Tremia na escuridão.

 

Apenas nascera o dia,

À voz do maridedia

Saltei contente de pé.

Cantavam os passarinhos

Que fabricavam seus ninhos

No telhado de sapé.

 

Porém tu, por que dormias,

Por que já não me dizias

"Filha do meu coração?"

'Stavas aflita comigo?

Mãe, abracei-me contigo,

Pedi-te embalde perdão...

 

Chorei muito! ai triste vida!

Chorei muito, arrependida

Do que talvez fiz a ti.

Depois rezei ajoelhada

A reza da madrugada

Que tantas vezes te ouvi:

 

"Senhor Deus, que após a noite

"Mandas a luz do arrebol,

"Que vestes a esfarrapada

"Com o manto rico do sol,

 

"Tu que dás à flor o orvalho,

"Às aves o céu e o ar,

"Que dás as frutas ao galho,

"Ao desgraçado o chorar;

 

"Que desfias diamantes

"Em cada raio de luz,

"Que espalhas flores de estrelas

"Do céu nos campos azuis;

 

"Senhor Deus, tu que perdoas

"A toda alma que chorou,

"Como a clícia das lagoas,

"Que a água da chuva lavou;

 

"Faze da alma da inocente

"O ninho do teu amor,

"Verte o orvalho da virtude

"Na minha pequena flor.

 

"Que minha filha algum dia

"Eu veja livre e feliz! ...

"Ó Santa Virgem Maria,

" mãe da pobre infeliz."

 

Inda lembras-te! dizias,

Sempre que a reza me ouvias

Em prantos de a sufocar:

"Ai! têm orvalhos as flores,

"Tu, filha dos meus amores,

"Tens o orvalho do chorar".

 

Mas hoje sempre sisuda

Me ouviste... ficaste muda,

Sorrindo não sei pra quem.

Quase então que eu tive medo...

Parecia que um segredo

Dizias baixinho a alguém.

 

Depois... depois... me arrastaram...

Depois... sim... te carregaram

P'ra vir te esconder aqui.

Eu sozinha lá na sala...

'Stava tão triste a senzala...

Mãe, para ver-te eu fugi...

 

E agora, ó Deus!... se te chamo

Não me respondes!... se clamo,

Respondem-me os ventos suis...

No leito onde a rosa medra

Tu tens por lençol a pedra,

Por travesseiro uma cruz.

 

É muito estreito esse leito?

Que importa? abre-me teu peito

— Ninho infinito de amor.

— Palmeira — quero-te a sombra.

— Terra — dá-me a tua alfombra.

— Santo fogo — o teu calor.

 

Mãe, minha voz já me assusta...

Alguém na floresta adusta

Repete os soluços meus.

Sacode a terra... desperta!...

Ou dá-me a mesma coberta'

Minha mãe... meu céu... meu Deus...

 

 

 

 

Antítese

 

 

O seu prêmio? — O desprezo e uma carta de alforria quando tens gastas as forças e não pode mais ganhar a subsistência.

 

Maciel Pinheiro

 

 

Cintila a festa nas salas!

Das serpentinas de prata

Jorram luzes em cascata

Sobre sedas e rubins.

Soa a orquestra ... Como silfos

Na valsa os pares perpassam,

Sobre as flores, que se enlaçam

Dos tapetes nos coxins.

 

Entanto a névoa da noite

No átrio, na vasta rua,

Como um sudário flutua

Nos ombros da solidão.

E as ventanias errantes,

Pelos ermos perpassando,

Vão se ocultar soluçando

Nos antros da escuridão.

 

Tudo é deserto. . . somente

À praça em meio se agita

Dúbia forma que palpita,

Se estorce em rouco estertor.

— Espécie de cão sem dono

Desprezado na agonia,

Larva da noite sombria,

Mescla de trevas e horror.

 

É ele o escravo maldito,

O velho desamparado,

Bem como o cedro lascado,

Bem como o cedro no chão.

Tem por leito de agonias

As lájeas do pavimento,

E como único lamento

Passa rugindo o tufão.

 

Chorai, orvalhos da noite,

Soluçai, ventos errantes.

Astros da noite brilhantes

Sede os círios do infeliz!

Que o cadáver insepulto,

Nas praças abandonado,

É um verbo de luz, um brado

Que a liberdade prediz.

 

 

 

 

Canção do violeiro

 

 

Passa, ó vento das campinas,

Leva a canção do tropeiro.

Meu coração 'stá deserto,

'Stá deserto o mundo inteiro.

Quem viu a minha senhora

Dona do meu coração?

 

Chora, chora na viola,

Violeiro do sertão.

 

Ela foi-se ao pôr da tarde

Como as gaivotas do rio.

Como os orvalhos que descem

Da noite num beijo frio,

O cauã canta bem triste,

Mais triste é meu coração.

 

Chora, chora na viola,

Violeiro do sertão.

 

E eu disse: a senhora volta

Com as flores da sapucaia.

Veio o tempo, trouxe as flores,

Foi o tempo, a flor desmaia.

Colhereira, que além voas,

Onde está meu coração?

 

Chora, chora na viola,

Violeiro do sertão.

 

Não quero mais esta vida,

Não quero mais esta terra.

Vou procurá-la bem longe,

Lá para as bandas da serra.

Ai! triste que eu sou escravo!

Que vale ter coração?

 

Chora, chora na viola,

Violeiro do sertão.

 

 

 

 

Súplica

 

 

La nègre marqué au signe de Dieu comme vous passera désormais du berceau à

la fosse, la nuit sur son âme, la nuít sur la figure.

 

PELLETAN

 

 

Senhor Deus, dá que a boca da inocência

Possa ao menos sorrir,

Como a flor da granada abrindo as pet'las

Da alvorada ao surgir.

 

Dá que um dedo de mãe aponte ao filho

O caminho dos céus,

E seus lábios derramem como pérolas

Dois nomes — filho e Deus.

 

Que a donzela não manche em leito impuro

A grinalda do amor.

Que a honra não se compre ao carniceiro

Que se chama senhor.

 

Dá que o brio não cortem como o cardo

Filho do coração.

Nem o chicote acorde o pobre escravo

A cada aspiração.

 

Insultam e desprezam da velhice

A coroa de cãs.

Ante os olhos do irmão em prostitutas

Transformam-se as irmãs.

 

A esposa é bela... Um dia o pobre escravo

Solitário acordou;

E o vício quebra e ri do nó perpétuo

Que a mão de Deus atou.

 

Do abismo em pego, de desonra em crime

Rola o mísero a sós.

Da lei sangrento o braço rasga as vísceras

Como o abutre feroz.

 

Vê!... A inocência, o amor, o brio, a honra,

E o velho no balcão.

Do berço à sepultura a infâmia escrita...

Senhor Deus! compaixão!...

 

 

 

 

O vidente

 

 

Virá o dia da felicidade e justiça para todos.

 

ISAÍAS

 

 

Às vezes quando à tarde, nas tardes brasileiras,

A cisma e a sombra descem das altas cordilheiras;

Quando a viola acorda na choça o sertanejo

E a linda lavadeira cantando deixa o brejo,

E a noite — a freira santa — no órgão das florestas

Um salmo preludia nos troncos, nas giestas;

Se acaso solitário passo pelas picadas,

Que torcem-se escamosas nas lapas escarpadas,

Encosto sobre as pedras a minha carabina,

Junto a meu cão, que dorme nas sarças da colina,

E, como uma harpa eólia entregue ao tom dos ventos

— Estranhas melodias, estranhos pensamentos,

Vibram-me as cordas d'alma enquanto absorto cismo,

Senhor! vendo tua sombra curvada sobre o abismo,

Colher a prece alada, o canto que esvoaça

E a lágrima que orvalha o lírio da desgraça,

Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus.

E o vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!

 

Ouço o cantar dos astros no mar do firmamento;

No mar das matas virgens ouço o cantar do vento,

Aromas que s'elevam, raios de luz que descem,

Estrelas que despontam, gritos que se esvaecem,

Tudo me traz um canto de imensa poesia,

Como a primícia augusta da grande profecia;

Tudo me diz que o Eterno, na idade prometida,

Há de beijar na face a terra arrependida.

E, desse beijo santo, desse ósculo sublime

Que lava a iniqüidade, a escravidão e o crime,

Hão de nascer virentes nos campos das idades,

Amores, esperanças, glórias e liberdades!

Então, num santo êxtase, escuto a terra e os céus,

O vácuo se povoa de tua sombra, ó Deus!

 

E, ouvindo nos espaços as louras utopias

Do futuro cantarem as doses melodias,

Dos povos, das idades, a nova promissão...

Me arrasta ao infinito a águia da inspiração ...

Então me arrojo ousado das eras através,

Deixando estrelas, séculos, volverem-se a meus pés...

Porque em minh'alma sinto ferver enorme grito,

Ante o estupendo quadro das telas do infinito...

Que faz que, em santo êxtase, eu veja a terra e os céus,

E o vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!

 

Eu vejo a terra livre... como outra Madalena,

Banhando a' fronte pura na viração serena,

Da urna do crepúsculo, verter nos céus azuis

Perfumes, luzes, preces, curvada aos pés da cruz...

No mundo — tenda imensa da humanidade inteira

Que o espaço tem por teto, o sol tem por lareira,

Feliz se aquece unida a universal família.

Oh! dia sacrossanto em que a justiça brilha,

Eu vejo em ti das ruínas vetustas do passado,

O velho sacerdote augusto e venerado

Colher a parasita — a santa flor — o culto,

Como o coral brilhante do mar na vasa oculto...

Não mais inunda o templo a vil superstição;

A fé — a pomba mística — e a águia da razão,

Unidas se levantam do vale escuro d'alma,

Ao ninho do infinito voando em noite calma.

Mudou-se o férreo cetro, esse aguilhão dos povos,

Na virga do profeta coberta de renovos.

E o velho cadafalso horrendo e corcovado,

Ao poste das idades por irrisão ligado

Parece embalde tenta cobrir com as mãos a fronte,

— Abutre que esqueceu que o sol vem no horizonte.

Vede: as crianças louras aprendem no Evangelho

A letra que comenta algum sublime velho,

Em toda a fronte há luzes, em todo o peito amores,

Em todo o céu estrelas, em todo o campo flores ...

E, enquanto, sob as vinhas, a ingênua camponesa

Enlaça às negras tranças a rosa da deveza;

Dos saaras africanos, dos gelos da Sibéria,

 

Do Cáucaso, dos campos dessa infeliz lbéria,

Dos mármores lascados da terra santa homérica,

Dos pampas, das savanas desta soberba América

Prorrompe o hino livre, o hino do trabalho!

E, ao canto dos obreiros, na orquestra audaz do malho,

O ruído se mistura da imprensa, das idéias,

Todos da liberdade forjando as epopéias,

Todos co'as mãos calosas, todos banhando a fronte

Ao sol da independência que irrompe no horizonte.

 

Oh! escutai! ao longe vago rumor se eleva

Como o trovão que ouviu-se quando na escura treva,

O braço onipotente rolou Satã maldito.

É outro condenado ao raio do infinito,

É o retumbar por terra desses impuros paços,

Desses serralhos negros, desses Egeus devassos,

Saturnos de granito, feitos de sangue e ossos...

Que bebem a existência do povo nos destroços ...

 

..........................................................................

 

Enfim a terra é livre! Enfim lá do Calvário

A águia da liberdade, no imenso itinerário,

Voa do Calpe brusco às cordilheiras grandes,

Das cristas do Himalaia aos píncaros dos Andes!

Quebraram-se as cadeias, é livre a terra inteira,

A humanidade marcha com a Bíblia por bandeira—.

São livres os escravos... quero empunhar a lira,

Quero que est'alma ardente um canto audaz desfira,

Quero enlaçar meu hino aos murmúrios dos ventos,

Às harpas das estrelas, ao mar, aos elementos!

 

.............................................................

 

Mas, ai! longos gemidos de míseros cativos,

Tinidos de mil ferros, soluços convulsivos,

Vêm-me bradar nas sombras, como fatal vedeta:

"Que pensas, moço triste? Que sonhas tu, poeta?"

Então curvo a cabeça de raios carregada,

E, atando brônzea corda à lira amargurada,

O canto de agonia arrojo à terra, aos céus,

E ao vácuo povoado de tua sombra, ó Deus!

 

 

 

 

A mãe do cativo

 

 

Le Christ à Nazareth, aux jours de son enfance

Jouait avec la croix, symbole de sa mort;

Mère du Polonais! qu'il apprene d'avance

A combattre et braver les outrages du Sort.

 

Qu'il couve dans son sein sa colère et sa joie ;

Qu’il ses discours prudents distillent le venin,

Comme un abîme obscur que son coeur se reploie :

À terre, à deux genoux, qu'il rampe comme un nain.

 

MICKIEWICZ (A Mãe Polaca)

 

 

I

 

Ó mãe do cativo! que alegre balanças

A rede que ataste nos galhos da selva!

Melhor tu farias se à pobre criança

Cavasses a cova por baixo da relva.

 

Ó mãe do cativo! que fias à noite

As roupas do filho na choça da palha!

Melhor tu farias se ao pobre pequeno

Tecesses o pano da branca mortalha.

 

Misérrima! E ensinas ao triste menino

Que existem virtudes e crimes no mundo

E ensinas ao filho que seja brioso,

Que evite dos vícios o abismo profundo ...

 

E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,

O raio da espr'ança... Cruel ironia!

E ao pássaro mandas voar no infinito,

Enquanto que o prende cadeia sombria! ...

 

 

II

 

Ó Mãe! não despertes est'alma que dorme,

Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!

O pobre que rola no abismo sem termo

Pra qu'há de sondá-lo... Que morra sem luz.

 

Não vês no futuro seu negro fadário,

Ó cega divina que cegas de amor?!

Ensina a teu filho — desonra, misérias,

A vida nos crimes — a morte na dor.

 

Que seja covarde... que marche encurvado...

Que de homem se torne sombrio reptíl.

Nem core de pejo, nem trema de raiva

Se a face lhe cortam com o látego vil.

 

Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se

Ao frio das noites, aos raios do sol.

Na vida — só cabe-lhe a tanga rasgada!

Na morte — só cabe-lhe o roto lençol.

 

Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se

Bem como a serpente por baixo da chã

Que impávido veja seus pais desonrados,

Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.

 

Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...

Trabalho que pagam com pútrido pão.

Depois que os amigos açoite no tronco...

Depois que adormeça co'o sono de um cão.

 

Criança — não trema dos transes de um mártir!

Mancebo — não sonhe delírios de amor!

Marido — que a esposa conduza sorrindo

Ao leito devasso do próprio senhor! ...

 

São estes os cantos que deves na terra

Ao mísero escravo somente ensinar.

Ó Mãe que balanças a rede selvagem

Que ataste nos troncos do vasto palmar.

 

 

III

 

Ó Mãe do cativo, que fias à noite

À luz da candeia na choça de palha!

Embala teu filho com essas cantigas...

Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.

 

 

 

 

Manuela

(cantiga do rancho)

 

 

Companheiros! na serra

Erra.

A tropa inteira a pastar...

Tropeiros! ... junto à candeia

Eia!

Soltemos nosso trovar ...

 

que as barras do Oriente

Rente

Saiam dos montes de lá...

Cada qual sua cantiga

Diga

Aos ecos do Sincorá.

 

No rancho as noites se escoam.

Voam,

Quando geme o trovador...

Ouvi, pois! que esta guitarra...

Narra

O meu romance de amor.

 

...........................................

 

Manuela era formosa

Rosa,

Rosa aberta no sertão...

Com seu torço adamascado

Dado

Ao sopro da viração.

 

Provocante, mas esquiva,

Viva

Como um doudo beija-flor...

Manuela — a moreninha

Tinha

Em cada peito um amor ...

 

Inda agora quando o vento

Lento

Traz-me saudades de então

Parece que a vejo ainda

Linda

Do fado no turbilhão

 

Vejo-lhe o pé resvalando

Brando

No fandango a delirar.

Inda ao som das castanholas

Rolas

Diante do meu olhar ...

 

Manuela... mesmo agora

Chora

Minh'alma Pensando em ti...

E na viola relembro

Lembro

Tiranas que então gemi.

 

"Manuela, Manuela

Bela

Como tu ninguém luziu...

Minha travessa morena,

Pena

Pena tem de quem te viu!...

 

Manuela... Eu não perjuro!

Juro

Pela luz dos olhos teus...

Morrer por ti Manuela

Bela,

Se esqueces os sonhos meus.

 

Por teus sombrios olhares

— Mares

Onde eu me afogo de amor...

Pelas tranças que desatas

— Matas

Cheias de aroma e frescor ...

 

Pelos peitos que entre rendas

Vendas

Com medo que os vão roubar...

Pela perna que no frio

Rio

Pude outro dia enxergar ...

 

Por tudo que tem a terra,

Serra,

Mato, rio, campo e céu...

Eu te juro, Manuela,

Bela

Que serei cativo teu ...

 

Tu bem sabes que Maria,

Fria

É pra outros, não pra mim...

Que morrem Lúcia, Joana

E Ana

Aos sons do meu bandolim ...

 

Mas tu és um passarinho

— Ninho

Fizeste no peito meu ...

Eu sou a boca — és o canto

Tanto

Que sem ti não canto eu.

 

Vamos pois A noite cresce

Desce

A lua a beijar a flor

À sombra dos arvoredos

Ledos

Os ventos choram de amor

 

Vamos pois ó moreninha

Minha

Minha esposa ali serás

Ao vale a relva tapiza

Pisa

Serão teus Paços-reais!

 

Por padre uma árvore vasta

Basta!

Por igreja — o azul do céu...

Serão as brancas estrelas

— Velas

Acesas pra o himeneu".

 

Assim nos tempos perdidos

Idos

Eu cantava mas em vão

Manuela, que me ouvia,

Ria,

Casta flor da solidão!

 

Companheiros! se inda agora

Chora

Minha viola a gemer,

É porque um dia... Escutai-me

Dai-me

Sim! dai-me antes que beber!. . .

 

É que um dia mas bebamos

Vamos

No copo afogue-se a dor!

Manuela, Manuela,

Bela,

Fez-se amante do senhor!

 

 

 

 

Fábula

O pássaro e a flor

 

 

Era num dia sombrio

Quando um pássaro erradio

Veio parar num jardim.

Aí fitando uma rosa,

Sua voz triste e saudosa,

Pôs-se a improvisar assim.

 

"ó Rosa, ó Rosa bonita!

Ó Sultana favorita

Deste serralho de azul:

Flor que vives num palácio,

Como as princesas de Lácio,

Como as filhas de 'Stambul.

 

Corno és feliz! Quanto eu dera

Pela eterna primavera

Que o teu castelo contém...

Sob o cristal abrigada,

Tu nem sentes a geada

Que passa raivosa além.

 

Junto às estátuas de pedra

Tua vida cresce, medra,

Ao fumo dos narguillés,

No largo vaso da China

Da porcelana mais fina

Que vem do Império Chinês.

 

O Inverno ladra na rua,

Enquanto adormeces nua

Na estufa até de manhã.

Por escrava — tens a aragem

O sol — é teu louro pajem.

Tu és dele — a castelã.

 

Enquanto que eu desgraçado,

Pelas chuvas ensopado,

Levo o tempo a viajar,

— Boêmio da média idade,

Vou do castelo à cidade,

Vou do mosteiro ao solar!

 

Meu capote roto e pobre

Mal os meus ombros encobre

Quanto à gorra... tu bem vês! ...

Ai! meu Deus! se Rosa fora

Como eu zombaria agora

Dos louros dos menestréis!. . .

 

............................................

 

Então por entre a folhagem

Ao passarinho selvagem

A rosa assim respondeu:

"Cala-te, bardo dos bosques!

Ai! não troques os quiosques

Pela cúpula do céu.

 

Tu não sabes que delírios

Sofrem as rosas e os lírios

Nesta dourada prisão.

Sem falar com as violetas.

Sem beijar as borboletas,

Sem as auras do sertão.

 

Molha-te a fria geada...

Que importa? A loura alvorada

Virá beijar-te amanhã.

Poeta, romperás logo,

A cada beijo de fogo,

Na cantilena louçã.

 

Mas eu?! Nas salas brilhantes

Entre as tranças deslumbrantes

A virgem me enlaçará

Depois cadáver de rosa

A valsa vertiginosa

Por sobre mim rolará.

 

Vai, Poeta... Rompe os ares

Cruza a serra, o vale, os mares

Deus ao chão não te amarrou!

Eu calo-me — tu descansas,

Eu rojo — tu te levantas,

Tu és livre — escrava eu sou! ...

 

 

 

 

Estrofes do solitário

 

 

Basta de covardia! A hora soa...

Voz ignota e fatídica revoa,

Que vem... Donde? De Deus.

A nova geração rompe da terra,

E, qual Minerva armada para a guerra,

Pega a espada... olha os céus.

 

Sim, de longe, das raias do futuro,

Parte um grito, pra — os homens surdo, obscuro

Mas para — os moços, não!

É que, em meio das lutas da cidade,

Não ouvis o clarim da Eternidade,

Que troa n'amplidão!

 

Quando as praias se ocultam na neblina,

E como a garça, abrindo a asa latina,

Corre a barca no mar,

Se então sem freios se despenha o norte,

É impossível — parar... volver — é morte

Só lhe resta marchar.

 

E o povo é como — a barca em plenas vagas,

A tirania — é o tremedal das plagas,

O porvir — a amplidão.

Homens! Esta lufada que rebenta

É o furor da mais lôbrega tormenta. .

— Ruge a revolução.

 

E vós cruzais os braços... Covardia!

E murmurais com fera hipocrisia:

— É preciso esperar...

Esperar? Mas o quê? Que a populaça,

Este vento que os tronos despedaça,

Venha abismos cavar?

 

Ou quereis, como o sátrapa arrogante,

Que o porvir, n'ante-sala, espere o instante

Em que o deixeis subir?!

Oh! parai a avalanche, o sol, os ventos,

O oceano, o condor, os elementos...

Porém nunca o porvir!

 

Meu Deus! Da negra lenda que se inscreve

Co'o sangue de um Luís, no chão da Grève,

Não resta mais um som!...

Em vão nos deste, pra maior lembrança,

Do mundo — a Europa, mas d'Europa — a França.

Mas da França — um Bourbon!

 

Desvario das frontes coroadas!

Na página das púrpuras rasgadas

Ninguém mais estudou!

E no sulco do tempo, embalde dorme

A cabeça dos reis — semente enorme

Que a multidão plantou! ...

 

No entanto fora belo nesta idade

Desfraldar o estandarte da igualdade,

De Byron ser o irmão...

E pródigo — a esta Grécia brasileira,

Legar no testamento — uma bandeira,

E ao mundo — uma nação.

 

Soltar ao vento a inspiração de Graco

Envolver-se no manto de 'Spartaco,

Dos servos entre a grei;

Lincoln — o Lázaro acordar de novo,

E da tumba da ignomínia erguer um povo,

Fazer de um verme — um rei!

 

Depois morrer — que a vida está completa,

— Rei ou tribuno, César ou poeta,

Que mais quereis depois?

Basta escutar, do fundo lá da cova,

Dançar em vossa lousa a raça nova

Libertada por vós ...

 

 

 

 

O Navio Negreiro

(Tragédia no mar)

 

 

                         

 

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço

Brinca o luar — dourada borboleta;

E as vagas após ele correm... cansam

Como turba de infantes inquieta.

 

'Stamos em pleno mar... Do firmamento

Os astros saltam como espumas de ouro...

O mar em troca acende as ardentias,

— Constelações do líquido tesouro...

 

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos

Ali se estreitam num abraço insano,

Azuis, dourados, plácidos, sublimes...

Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

 

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas

Ao quente arfar das virações marinhas,

Veleiro brigue corre à flor dos mares,

Como roçam na vaga as andorinhas...

 

Donde vem? onde vai? Das naus errantes

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

Neste saara os corcéis o pó levantam,

Galopam, voam, mas não deixam traço.

 

Bem feliz quem ali pode nest'hora

Sentir deste painel a majestade!

Embaixo — o mar em cima — o firmamento...

E no mar e no céu — a imensidade!

 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!

Que música suave ao longe soa!

Meu Deus! como é sublime um canto ardente

Pelas vagas sem fim boiando à toa!

 

Homens do mar! ó rudes marinheiros,

Tostados pelo sol dos quatro mundos!

Crianças que a procela acalentara

No berço destes pélagos profundos!

 

Esperai! esperai! deixai que eu beba

Esta selvagem, livre poesia,

Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,

E o vento, que nas cordas assobia...

 

..........................................................

 

Por que foges assim, barco ligeiro?

Por que foges do pávido poeta?

Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira

Que semelha no mar — doudo cometa!

 

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,

Tu que dormes das nuvens entre as gazas,

Sacode as penas, Leviathan do espaço,

Albatroz! Albatroz! -me estas asas.

 

 

 

Que importa do nauta o berço,

Donde é filho, qual seu lar?

Ama a cadência do verso

Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!

Resvala o brigue à bolina

Como golfinho veloz.

Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena

As vagas que deixa após.

 

Do Espanhol as cantilenas

Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,

As andaluzas em flor!

Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,

— Terra de amor e traição,

Ou do golfo no regaço

Relembra os versos de Tasso,

Junto às lavas do vulcão!

 

O Inglês — marinheiro frio,

Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,

Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,

Lembrando, orgulhoso, histórias

De Nelson e de Aboukir.. .

O Francês — predestinado —

Canta os louros do passado

E os loureiros do porvir!

 

Os marinheiros Helenos,

Que a vaga jônia criou,

Belos piratas morenos

Do mar que Ulisses cortou,

Homens que Fídias talhara,

Vão cantando em noite clara

Versos que Homero gemeu...

Nautas de todas as plagas,

Vós sabeis achar nas vagas

As melodias do céu!...

 

 

 

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador!

Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!

É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...

Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

 

 

 

Era um sonho dantesco... o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar...

 

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais ...

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos... o chicote estala.

E voam mais e mais...

 

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

 

.................................................................

 

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!

 

No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!..."

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais...

Qual um sonho dantesco as sombras voam!...

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!...

 

 

 

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?...

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!

 

Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são? Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa...

Dize-o tu, severa Musa,

Musa libérrima, audaz!...

 

São os filhos do deserto,

Onde a terra esposa a luz.

Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados

Que com os tigres mosqueados

Combatem na solidão.

Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,

Sem luz, sem ar, sem razão...

 

São mulheres desgraçadas,

Como Agar o foi também.

Que sedentas, alquebradas,

De longe... bem longe vêm...

Trazendo com tíbios passos,

Filhos e algemas nos braços,

N'alma — lágrimas e fel...

Como Agar sofrendo tanto,

Que nem o leite de pranto

Têm que dar para Ismael.

 

Lá nas areias infindas,

Das palmeiras no país,

Nasceram crianças lindas,

Viveram moças gentis...

Passa um dia a caravana,

Quando a virgem na cabana

Cisma da noite nos véus ...

...Adeus, ó choça do monte,

...Adeus, palmeiras da fonte!...

...Adeus, amores... adeus!...

 

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.

Depois no horizonte imenso

Desertos... desertos só...

E a fome, o cansaço, a sede...

Ai! quanto infeliz que cede,

E cai p'ra não mais s'erguer!...

Vaga um lugar na cadeia,

Mas o chacal sobre a areia

Acha um corpo que roer.

 

Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas d'amplidão!

Hoje... o porão negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar...

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar...

 

Ontem plena liberdade,

A vontade por poder...

Hoje... cúm'lo de maldade,

Nem são livres p'ra morrer. .

Prende-os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente

Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoute... Irrisão!...

 

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus,

Se eu deliro... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus?!...

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

Do teu manto este borrão?

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!...

 

 

 

Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

 

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...

 

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

 

 

 

Lúcia

poema

 

 

Na formosa estação da primavera

Quando o mato se arreia mais festivo,

E o vento campesino bebe ardente

O agreste aroma da floresta virgem...

Eu e Lúcia, corríamos — crianças

Na veiga, no pomar, na cachoeira,

Como um casal de colibris travessos

Nas laranjeiras que o Natal enflora.

 

Ela era a cria mais formosa e meiga

Que jamais, na Fazenda, vira o dia ...

Morena, esbelta, airosa... eu me lembrava

Sempre da corça arisca dos silvados

Quando via-lhe os olhos negros, negros

Como as plumas noturnas da graúna,

Depois... quem mais mimosa e mais alegre?...

Sua boca era um pássaro escarlate

Onde cantava festival sorriso.

Os cabelos caíam-lhe anelados

Como doudos festões de parasitas...

E a graça... o modo... o coração tão meigo?l...

 

Ai! Pobre Lúcia... como tu sabias,

Festiva, encher de afagos a família,

Que te queria tanto e que te amava

Como se fosses filha e não cativa...

Tu eras a alegria da fazenda;

Tua senhora ria-se, contente

Quando enlaçavas seus cabelos brancos

Co'as roxas maravilhas da campina.

E quando à noite todos se juntavam,

Aos reflexos doirados da candeia,

Na grande sala em torno da fogueira,

Então, Lúcia, sorrindo eu murmurava:

"Meu Deus! um beija-flor fez-se criança...

Uma criança fez-se mariposa!"

 

Mas um dia a miséria, a fome, o frio,

Foram pedir um pouso nos teus lares...

A mesa era pequena... Pobre Lúcia!

Foi preciso te ergueres do banquete

Deixares teu lugar aos mais convivas...

 

                          ________

 

Eu me lembro... eu me lembro... O sol raiava.

Tudo era festa em volta da pousada...

Cantava o galo alegre no terreiro,

O mugido das vacas misturava-se

Ao relincho das éguas que corriam

De crinas soltas pelo campo aberto

Aspirando o frescor da madrugada.

 

Pela última vez ela chorando

Veio sentar-se ao banco do terreiro...

Pobre criança! que conversas tristes

Tu conversaste então co'a natureza.

 

"Adeus! pra sempre, adeus, ó meus amigos,

Passarinhos do céu, brisas da mata,

Patativas saudosas dos coqueiros,

Ventos da várzea, fontes do deserto! ...

Nunca mais eu virei, pobres violetas,

Vos arrancar das moitas perfumadas,

Nunca mais eu irei risonha e louca

Roubar o ninho do sabiá choroso...

Perdoai-me que eu parto para sempre!

Venderam para longe a pobre Lúcia!..."

 

Então ela apanhou do mato as flores

Como outrora enlaçou-as nos cabelos,

E rindo de chorar disse em soluços:

"Não te esqueças de mim que te amo tanto..."

 

................................................................

 

Depois além, um grupo, informe e vago,

Que cavalgava o dorso da montanha,

Ia esconder-se, transmontando o topo. . .

 

Neste momento eu vi, longe... bem longe,

Ainda se agitar um lenço branco...

Era o lencinho tremulo de Lúcia...

 

 

Epílogo

 

Muitos anos correram depois disto ...

Um dia nos sertões eu caminhava

Por uma estrada agreste e solitária,

Diante de mim ua mulher seguia,

Co' o cântaro à cabeça — pés descalços,

Co'os ombros nus, mas pálidos e magros ...

 

Ela cantava, com uma voz extinta,

Uma cantiga triste e compassada ...

E eu que a escutava procurava, embalde,

Uma lembrança juvenil e alegre

Do tempo em que aprendera aqueles versos...

De repente, lembrei-me. . . "Lúcia! Lúcia!"

... A mulher se voltou ... fitou-me pasma,

Soltou um grito. . . e, rindo e soluçando,

Quis para mim lançar-se, abrindo os braços.

... Mas súbito estacou ... Nuvem de sangue

Corou-lhe o rosto pálido e sombrio ...

Cobriu co'a mão crispada a face rubra

Como escondendo uma vergonha eterna ...

Depois, soltando um grito, ela sumiu-se

Entre as sombras da mata ... a pobre Lúcia!

 

 

 

 

Prometeu

 

 

Ó mon auguste mère, et vous enveloppe de la commune lumière, divin éther,

voyez quels injustes tourments on me fait souffrir.

Qui compatit à cette grande souffrance, qui s'approche du rocher désert où se

tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.

 

ÉSQUILO

 

 

Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,

Sublime no sofrer, vencido — não domado,

Na última agonia arqueja Prometeu.

O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,

Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,

Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.

Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão

E em correntes de luz prende, amarra o Titão.

 

Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora

Consola aquela dor, naquela angústia chora.

Ai! por cúm'lo de horror!... O Oriente golfa a luz,

No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.

De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,

Correm montanha e val em danças delirantes.

E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)

Prantos lascivos dão... suor de bacanais.

 

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Mas não! Quando arquejante em hórrido granito

Se estorce Prometeu, gigantesco precito,

Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!

O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...

 

Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,

Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...

Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,

O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.

Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,

Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.

 

E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,

O século da luz olha... caminha... ri...

 

Mas não! mártir divino, Encélado tombado!

Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,

A musa do poeta irá — filha do mar —

O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...

 

 

 

 

Vozes d'África

 

 

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito...

Onde estás, Senhor Deus?...

 

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na rubra penedia

— Infinito: galé! ...

Por abutre — me deste o sol candente,

E a terra de Suez — foi a corrente

Que me ligaste ao pé...

 

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,

Quando o chicote do simoun dardeja

O teu braço eternal.

 

Minhas irmãs são belas, são ditosas...

Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas

Dos haréns do Sultão.

Ou no dorso dos brancos elefantes

Embala-se coberta de brilhantes

Nas plagas do Hindustão.

 

Por tenda tem os cimos do Himalaia...

Ganges amoroso beija a praia

Coberta de corais ...

A brisa de Misora o céu inflama;

E ela dorme nos templos do Deus Brama,

— Pagodes colossais...

 

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...

A mulher deslumbrante e caprichosa,

Rainha e cortesã.

Artista — corta o mármor de Carrara;

Poetisa — tange os hinos de Ferrara,

No glorioso afã! ...

 

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...

Ora uma c'roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

Universo após ela — doudo amante

Segue cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

 

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Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada

Em meio das areias esgarrada,

Perdida marcho em vão!

Se choro... bebe o pranto a areia ardente;

talvez... p'ra que meu pranto, ó Deus clemente!

Não descubras no chão...

 

E nem tenho uma sombra de floresta...

Para cobrir-me nem um templo resta

No solo abrasador...

Quando subo às Pirâmides do Egito

Embalde aos quatro céus chorando grito:

"Abriga-me, Senhor!..."

 

Como o profeta em cinza a fronte envolve,

Velo a cabeça no areal que volve

O siroco feroz...

Quando eu passo no Saara amortalhada...

Ai! dizem: "Lá vai África embuçada

No seu branco albornoz. . . "

 

Nem vêem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu.

 

De Tebas nas colunas derrocadas

As cegonhas espiam debruçadas

O horizonte sem fim ...

Onde branqueia a caravana errante,

E o camelo monótono, arquejante

Que desce de Efraim

 

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Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?...

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

 

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Foi depois do dilúvio... um viadante,

Negro, sombrio, pálido, arquejante,

Descia do Arará...

E eu disse ao peregrino fulminado:

"Cão! ... serás meu esposo bem-amado...

— Serei tua Eloá. . . "

 

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos ululando passa

O anátema cruel.

As tribos erram do areal nas vagas,

E o nômade faminto corta as plagas

No rápido corcel.

 

Vi a ciência desertar do Egito...

Vi meu povo seguir — Judeu maldito —

Trilho de perdição.

Depois vi minha prole desgraçada

Pelas garras d'Europa — arrebatada —

Amestrado falcão! ...

 

Cristo! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos — alimária do universo,

Eu — pasto universal...

 

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais... irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

 

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Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p'ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito...

Escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!...

 

 

 

 

Saudação a Palmares

 

 

Nos altos cerros erguido

Ninho d'águias atrevido,

Salve! — País do bandido!

Salve! — Pátria do jaguar!

Verde serra onde os palmares

— Como indianos cocares —

No azul dos colúmbios ares

Desfraldam-se em mole arfar! ...

 

Salve! Região dos valentes

Onde os ecos estridentes

Mandam aos plainos trementes

Os gritos do caçador!

E ao longe os latidos soam...

E as trompas da caça atroam...

E os corvos negros revoam

Sobre o campo abrasador! ...

 

Palmares! a ti meu grito!

A ti, barca de granito,

Que no soçobro infinito

Abriste a vela ao trovão.

E provocaste a rajada,

Solta a flâmula agitada

Aos uivos da marujada

Nas ondas da escravidão!

 

De bravos soberbo estádio,

Das liberdades paládio,

Pegaste o punho do gládio,

E olhaste rindo pra o val:

"Descei de cada horizonte...

Senhores! Eis-me de fronte!"

E riste... O riso de um monte!

E a ironia... de um chacal!...

 

Cantem Eunucos devassos

Dos reis os marmóreos paços;

E beijem os férreos laços,

Que não ousam sacudir ...

Eu canto a beleza tua,

Caçadora seminua!...

Em cuja perna flutua

Ruiva a pele de um tapir.

 

Crioula! o teu seio escuro

Nunca deste ao beijo impuro!

Luzidio, firme, duro,

Guardaste pra um nobre amor.

Negra Diana selvagem,

Que escutas sob a ramagem

As vozes — que traz a aragem

Do teu rijo caçador! ...

 

Salve, Amazona guerreira!

Que nas rochas da clareira,

— Aos urros da cachoeira —

Sabes bater e lutar...

Salve! — nos cerros erguido

Ninho, onde em sono atrevido,

Dorme o condor... e o bandido!...

A liberdade... e o jaguar!

 

 

 

 

Jesuítas e frades

 

 

Que o mundo antigo s'erga e lance a maldição

Sobre vós... remembrando a negra lnquisição,

A hidra escura e vil da vil Teocracia,

O Santo Ofício, as provas, o azeite, a gemonia ...

Lisboa, Tours, Sevilha e Nantes na tortura,

Na fogueira Grandier, João Huss na sepultura,

Colombo a soluçar, a gemer Galileu...

De mil autos-da-fé o fumo enchendo o céu...

Que a maldição vos lance a pena do Gaulês

Tendo por tinta a borra das caldeiras de pez...

Que o Germano a sangrar maldiz em férreos hinos.

 

É justo! . . .

A História cega, aquentando o estilete

Nas brasas que apagar não pôde o Guadalete,

Tem jus de vos marcar com o ferro do labéu,

Como queima o carrasco o ombro nu do réu ...

 

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Mas enquanto existir o grande, o novo mundo,

Ó Filhos de Jesus!... um cântico profundo

Irá vos embalar do sepulcro no solo...

A América por vós reza de pólo a pólo!

Dizei-o, vós, dizei, Tamoios, Guaranis,

Iroqueses, Tapuias, Incas, e Tupis...

A santa abnegação, o heroísmo, a doçura,

O amor paternal, a castidade pura

Destes homens que vinham, envoltos no burel,

A derramar dos lábios o amor — divino mel,

O perdão — óleo santo, a fé — mística luz,

E o Deus da caridade — o pródigo Jesus! ...

 

Oh! não! Mil vezes não! O poeta Americano

Vos deve sepultar no verso soberano

— Pano negro que tem por lágrimas de prata

As lágrimas que a Musa inspirada desata!!!

 

Se aqui houve cativos — eles os libertaram.

Se aqui houve selvagens — eles os educaram.

Se aqui houve fogueiras — eles nelas sofreram.

Se lá carrascos foram — cá mártires morreram.

Em vez do Inquisidor — tivemos a vedeta.

Loiola — aqui foi Nóbrega, Arbues — foi Anchieta!

 

Oh! Não! Mil vezes nãol O poeta Americano

Vos deve amortalhar no verso soberano

— Pano negro que tem por lágrimas de prata

As lágrimas que a musa inspirada desata!...

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Frades

 

 

Mel in ore, verba lactis,

Fel in corde, fraus in factis.

 

 

                          III

 

Mas a mão que assim tece o linho aos pés da Glória?

Como Hércules também esmaga a hidra...

E depois de aspergir o tum'lo dos heróis

Pega de Juvenal na vergasta feroz

E os monges hodiernos açoita sem piedade

Como o Divino Mestre o fez na antiguidade!...

 

 

 

 

A bainha do punhal

Fragmento

 

Salve, noites do Oriente,

Noites de beijos e amor!

Onde os astros são abelhas

Do éter na larga flor...

Onde pende a meiga lua,

Como cimitarra nua

Por sobre um dólmã azul!

E a vaga dos Dardanelos

Beija, em lascivos anelos

As saudades de 'Stambul.

 

Salve, serralhos severos

Como a barba dum Paxá!

Zimbórios, que fingem crânios

Dos crentes fiéis de Alá! ...

Ciprestes que o vento agita,

Como flechas de Mesquita

Esguios, longos também;

Minaretes, entre bosques!

Palmeiras, entre os quiosques!

Mulheres nuas do Harém!.

 

Mas embalde a lua inclina

As loiras tranças pra o chão

Desprezada concubina,

Já não te adora o sultão!

Debalde, aos vidros pintados,

Aos balcões arabescados,

Vais bater em doudo afã...

Soam tímbalos na sala...

E a dança ardente resvala

Sobre os tapetes do Irã!...

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O derradeiro amor de Byron

 

 

Et, puisque tôt ou tard l'amour huntain s'oublie,

Il est d'une grande âme et d'un heureux destin?

D'aspirer comme toi pour un amour divin!

 

ALFRED DE MUSSET

 

 

I

 

Num desses dias em que o Lord errante

Resvalando em coxins de seda mole...

A laureada e pálida cabeça

Sentia-lhe embalar essa condessa,

Essa lânguida e bela Guiccioli ...

 

II

 

Nesse tempo feliz... em que Ravena

Via cruzar o Child peregrino,

Dos templos ermos pelo claustro frio...

Ou longas horas meditar sombrio

No túmulo de Dante — o Gibelino...

 

III

 

Quando aquela mão régia de Madona

Tomava aos ombros essa cruz insana...

E do Giaour o lúgubre segredo,

E esse crime indizível do Manfredo

Madornavam aos pés da Italiana ...

 

IV

 

Numa dessas manhãs... Enquanto a moça

Sorrindo-lhe dos beijos ao ressábio,

Cantava como uma ave ou uma criança...

Ela sentiu que um riso de esperança

Abria-lhe do amante lábio a lábio...

 

V

 

A esperança! A esperança no precito!

A esperança nesta alma agonizante!

E mais lívida e branca do que a cera

Ela disse a tremer: — "George, eu quisera

Saber qual seja... a vossa nova amante".

 

VI

 

— "Como o sabes?. . . " — "Confessas?" — "Sim! confesso. . . "

— "E o seu nome. . . " — "Qu'importa?" — "Fala Alteza!. . . "

"Que chama douda teu olhar espalha,

És ciumenta?. . . " — "Mylord, eu sou de Itália!"

— "Vingativa?. . . " — "Mylord, eu sou Princesa!. . . "

 

VII

 

"Queres saber então qual seja o arcanjo

Que inda vem m'enlevar o ser corruto?

O sonho que os cadáveres renova,

O amor que o Lázaro arrancou da cova

O ideal de Satã?. . . " — "Eu vos escuto!"

 

VIII

 

— "Olhai, Signora... além dessas cortinas,

O que vedes?. . . " — "Eu vejo a imensidade!. . . "

— "E eu vejo. .. a Grécia... e sobre a plaga errante

Uma virgem chorando..." — "É vossa amante?..."