LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em
meio eletrônico
O Badejo, de Artur Azevedo
Edição de base:
Biblioteca Nacional – setor de obras
digitalizadas
Comédia em
três atos, em verso
Representada
pela primeira vez no Rio de Janeiro, no Teatro São Pedro de Alcântara, no dia
15 de outubro de 1898, por iniciativa do CENTRO
ARTÍSTICO pelo corpo cênico do ELITE-CLUB
Ao
Doutor João
do Rego Barros
AMIGO DA
ARTE E DOS ARTISTAS
O.D.C.
Artur
Azevedo
PERSONAGENS
ATORES
A cena
passa-se no Rio de Janeiro.
Atualidade.
Sala
de visitas, bem mobiliada, em casa de João Ramos. Três portas ao fundo, dando
para o jardim. Uma porta à direita comunicando com a sala
de jantar e outra à esquerda, dando para os dormitórios. À esquerda uma mesa
com álbuns, porta-cartões, etc. À direita um sofá. Consolo ao fundo. Piano.
Cadeiras.
CENA I
JOÃO RAMOS (Só.)
[RAMOS
(Só.)] — O almoço com
certeza vai custar-me
Uns
duzentos mil réis, afora os vinhos;
Mas
se caso a Ambrosina, ainda é barato,
Porque
muito me custa a senhorita.
Das
minhas rendas a metade vai-se
Em
vestidos, chapéus, leques e luvas,
Espetáculos,
bailes e concertos;
Ela
casada, cessam tais despesas;
É
preciso, porém, que o noivo seja
Um
rapaz sério e não nenhum pelintra
Que
deseje viver à minha custa:
Pior
seria a emenda que o soneto.
Mas
não são as despesas que me ralam;
Não
sou unhas-de-fome, Deus louvado;
Rala-me
a idéia de bater a bota,
E
deixar a pequena sem marido,
Exposta
sabe Deus a que perigos!
Dirão
que meto minha filha à cara
Dos
pretendentes; ora adeus! que o digam!
A
Ambrosina já fez vinte e dois anos:
É tempo de
arranjar-lhe casamento.
CENA II
JOÃO RAMOS,
DONA ANGÉLICA, o COZINHEIRO
ANGÉLICA —
Ora aqui tens o nosso cozinheiro.
Desejavas
ouvi-lo: aqui to trago.
Entra,
Fabrício.
(O
cozinheiro entra.)
O que
arranjaste para o almoço. Fala.
O
COZINHEIRO — Não pode ser melhor o
meu cardápio.
RAMOS
— Cardápio? Não
conheço essa palavra!
O
COZINHEIRO — Foi arranjada pelo
Castro Lopes.
Eu
não digo menu, que é francesismo.
RAMOS
— Temos um cozinheiro
literato!
O
COZINHEIRO — Literato não sou, mas
sou purista;
Embirro
com palavras estrangeiras.
Hoje,
que tudo se nacionaliza,
Nacionalize-se
a cozinha!
O
COZINHEIRO — Eu, diante do fogão,
diante do forno,
Sou
até jacobino!
Lá
como cozinheiro pode sê-lo,
Mas
tão somente como cozinheiro,
Pois,
conquanto eu viesse com dez anos
Para
o Brasil, sou português, entende?
Jacobinos
dispenso em minha casa!
O
COZINHEIRO — Sou jacobino apenas
cozinhando.
RAMOS
— Pois cozinhando não
devia sê-lo:
RAMOS
— Sim, um artista da
arte culinária,
E a
arte não tem pátria! Porém,
vamos...
Diga lá o
que temos para o almoço.
O
COZINHEIRO — Em primeiro lugar os
acepipes.
Hors-d’oeuvres
não direi nem que me
rachem!
Temos uma
salada de lagostas.
RAMOS
— Muito boa lembrança.
Que mais temos?
O
COZINHEIRO — Sardinhas, azeitonas,
rabanetes,
Manteiga
fresca...
O
COZINHEIRO — Um enorme badejo.
ANGÉLICA
— Que badejo!
RAMOS
— E está bem fresco?
ANGÉLICA
— Vivo à casa chegou.
O
COZINHEIRO — Soltou, coitado,
Nas
minhas mãos o derradeiro alento!
De
camarões uma fritada temos,
Um
primor culinário! Três galinhas
De
cabidela. Espargos em manteiga.
E,
para terminar, um bom churrasco.
Sorvetes
de caju, frutas à ufa,
Queijo
do reino, requeijão de Minas,
Baba
de moça e doce de laranja.
Se
não satisfizer este cardápio,
Que
a espada de Vatel me arranque a
vida
À
exceção dos espargos e do queijo,
O
meu almoço é todo brasileiro!
RAMOS
— Mas a vinhaça é toda
portuguesa:
Bucelas
para acompanhar o peixe,
Depois
Colares da viúva Gomes,
Vinho
do Porto para a sobremesa
E
duas garrafinhas de Champanha
Da
marca Assis Brasil.
O COZINHEIRO —
Estou contente,
Pois
vejo que o Brasil também figura
Muito
embora num rótulo.
ANGÉLICA
— E os licores?
Uma
garrafa de Beneditinos.
(Ao
cozinheiro.)
Bom.
Pode retirar-se, e se o almoço
Ao
meu gosto estiver, conte comigo.
O
COZINHEIRO — Nenhuma recompensa
mais desejo
Que salvar
os meus créditos de artista...
RAMOS
— Da arte culinária.
Vá s’embora.
(O
cozinheiro vai se retirando.)
É
verdade. Ouça cá. Diga ao copeiro
Que
se apresente, pra servir a mesa,
Encasacado
e de gravata branca.
(O
Cozinheiro sai.)
CENA
III
JOÃO
RAMOS, DONA ANGÉLICA
ANGÉLICA — Espero agora que
afinal me contes
A história
deste almoço.
RAMOS
— É muito simples.
Lembras-te
que no baile do Cassino,
O
César Santos, moço encaminhado,
Com
porcentagem numa casa forte,
Namorou
nossa filha à rédea solta?
Nós
moremos tão longe da cidade,
Muitas
vezes nos passa pela porta,
E
até parado fica ali na esquina.
Que,
quando fomos ao Teatro Lírico,
Ao
benefício da Maragliano,
O
Benjamin Ferraz, que é moço rico,
Estava
na platéia e não tirava
Do
nosso camarote os olhos lânguidos?
E
acabado o espetáculo, correndo
Postou-se
à porta pela qual saímos,
Ambrosina?
ANGÉLICA
— Um suspiro escandaloso,
ANGÉLICA — Todas as tardes passa, embora
chova.
O outro
passa de bonde e este a cavalo.
RAMOS
— Pois eu, sabendo
dessas passeatas,
Embora
tu não me dissesses nada,
Como
os achei à mão, ambos, anteontem,
Por
mero acaso, na confeitaria,
Fi-los
sentar-se à mesa em que eu me
[achava,
Paguei-lhes o vermute, apresentei-os
Um
ao outro, mostrei-me muito amável,
E
lembrei-me afinal de convidá-los
Para
almoçar conosco hoje, domingo.
[noivos
Dificilmente
conquistar-se podem
Vendo-os
passar no bonde ou no cavalo;
É
preciso atraí-los; casamentos,
É
de portas a dentro que se arranjam.
Se
teu pai não me houvesse convidado
Para
jantar na casa dele um dia,
Por
sinal que era o dia dos teus anos,
Talvez
não nos casássemos tão cedo;
Mas
convidou-me e, por cautela, à mesa,
Ao
lado teu me fez ficar sentado.
Quando
veio o peru, éramos noivos;
Tratavas-me
por tu à sobremesa;
Um
mês depois estávamos casados,
E
dez meses depois éramos três!
ANGÉLICA
— Mas meu pai convidou-te a
ti somente.
E tu a
dois convidas...
Não
prejudica, diz o velho adágio.
Teu
pai não era tolo, minha amiga,
Apesar
de ter sido sapateiro,
E
se não estava outro mancebo à mesa,
É
que não tinhas outro namorado...
ANGÉLICA
(Rindo.)
—
Sabes tu lá se o tinha ou se o não tinha!
jovens,
Escolher
poderá muito à vontade.
ANGÉLICA
— Mas é preciso preveni-la
disso.
RAMOS
— Justamente ela aí
vem. Vamos falar-lhe.
CENA
IV
RAMOS,
DONA ANGÉLICA, AMBROSINA
AMBROSINA
— A bênção, papai? Bom dia!
RAMOS
— Deus te abençoe,
minha filha.
Mas como tu vens
casquilha!
Há
muito que não te via
Tão
enfeitada e catita!
AMBROSINA —
Oh! Admira-se? Entretanto,
Ontem papai pediu
tanto
Que
me fizesse bonita!
Vê
como estou imponente?
Que
tal acha o meu vestido?
RAMOS — Muito espantado.
Que
papai diga o que sente.
RAMOS
— De modas eu não
entendo;
Que
tenho juízo seguro
Sobre
o que compro e o que vendo.
Quando
alguém conhecer queira
A
qualidade de um prego,
As
minhas luzes não nego,
Posso
falar de cadeira;
Mas
quanto a farandulagens,
Fitinhas,
laços, tetéias,
Sou
muito curto de idéias!
Cá
comigo é só ferragens!
Mas,
minha filha, acredita,
Quando
o contrário suponhas:
Com
qualquer trapo que ponhas,
Acho-te
sempre bonita.
(Dá-lhe
um beijo.)
Bom.
Temos que conversar
Sobre
outro assunto, faceira.
Senta-te
nesta cadeira;
Entre
nós dois vais ficar.
(Coloca três cadeiras no proscênio; a do centro para
Ambrosina, a da direita para Angélica, e da esquerda
para si. Sentam-se todos três.
Pausa.)
RAMOS
— Mulher,
Olha
que eu não sei sequer
Por
onde é que é que se começa!
AMBROSINA —
É coisa grave?
RAMOS
— Não é nada que te
agrave:
Trata-se
de casamento.
RAMOS
— É verdade!
(Embaraçado
e muito comovido.)
—
Menina, chegaste à idade...
Chegaste
ao feliz momento...
A
felicidade tua
É o
nosso constante fito,
E
nós...
(Passando
os dedos nos olhos.)
Lágrimas?...
Bonito!...
(A
Angélica.) Agora
tu continua.
ANGÉLICA
— Valha-te Deus! que
maricas!
Por
qualquer coisa tu choras!
Vamos!
basta de demoras!
RAMOS
—Eu... tu... eu...
ANGÉLICA — Vê em que
ficas!
(Arremedando-o.)
Eu...
tu... eu...
Nem
eu ouso, nem tu ousas!
Fala
tu: para estas coisas
Têm
mais talento as mulheres!
ANGÉLICA — Minha filhinha, teu pai
Convidou
para um almoço
Aquele
moço...
AMBROSINA —
Que moço?
RAMOS
— Dize-lhe o nome.
ANGÉLICA
— Lá vai:
O
César Santos?... Aquele
Que
toda a tarde passeia
No
bonde das cinco e meia?...
AMBROSINA — Sei quem é.
AMBROSINA
— Eu não gosto nem desgosto...
Aquele
outro namorado?...
Quem
é já sabes, aposto!
RAMOS —
Dize o nome!
RAMOS
— Bom.
RAMOS
(Fingindo que está montado a cavalo.)
—
Hein? Patati, patatá!
ANGÉLICA
— Justamente:
O
Benjamin.
RAMOS
— Desse gostas,
AMBROSINA
— Sim... não... É-me
indiferente! ...
Ambos
à casa hoje vêm,
Pra
que eu escolha?...
RAMOS — Decerto.
Examina-os
bem de perto;
Vê
qual dos dois te convém.
AMBROSINA — Oh! nenhum deles me traz
À vida
novos encantos...
AMBROSINA
— Nem o tal César Santos,
Nem o
Benjamin Ferraz.
AMBROSINA
— Não.
Não
acho quem me cative;
Até
hoje nunca tive
Cuidados
no coração.
Quando
o César Santos passa,
E
eu estou acaso à janela,
Não
fujo... não saio dela...
Ele
sorri... Acho graça...
Faz
mal que eu também sorria?...
Namoro?...
talvez que o seja;
Mas
nisso amor ninguém veja...
Quando
muito é simpatia.
ANGÉLICA
— Filha, lá disse o poeta:
“Simpatia
é quase amor”...
RAMOS — Pois seja o poeta quem
for,
Disse
uma asneira completa!
Não
foi Camões com certeza!
ANGÉLICA — Foi Casimiro de Abreu
RAMOS — Uma tolice escreveu;
AMBROSINA
— Quando passa o Benjamin,
Montado
no seu cavalo,
E,
sem tenção de esperá-lo,
Vejo-o
sorrir para mim,
Eu
lhe sorrio também...
Mas...
que exprime este sorriso?
Que
com ele simpatizo...
E
papai diz muito bem:
Não
é este sentimento
Um
quase amor. Que esperança!
Minhalma
livre descansa,
Descansa
o meu pensamento!
Não
me persegue o desejo
De
os ver passar pela porta.
E
quando os vejo, que importa?
Que
importa quando os não vejo?
Se
papai julga que devo
Desde
já mudar de estado,
Antes
que tenha falado
Meu
coração, não me atrevo
A
contrariá-lo, oh! não!...
Mas
entre os dois pretendentes,
Ambos
pessoas decentes,
Não
faço a menor questão.
RAMOS
(Erguendo-se.)
—
Bravo!
(Ambrosina
e Angélica também se erguem.)
AMBROSINA
— Papai, se quiser,
Estude,
examine, escolha;
Mas
permita que eu me encolha...
AMBROSINA
— Qualquer.
(Lucas
entra como um raio. Surpresa geral. Alegria.)
CENA
V
JOÃO
RAMOS, DONA ANGÉLICA, AMBROSINA, LUCAS
TODOS
(Contentes.) —
O Lucas!
LUCAS
— O Lucas, sim, que,
sem mandar aviso,
Abalou
de São Paulo ontem cedinho,
Passou
parte da noite num teatro,
Dormiu
no Grande Hotel, onde espichado
Na
cama, refletiu: de manhã cedo
Tomo
o meu banho, faço a minha barba
E
ao palacete vou do velho Ramos
Causar
uma surpresa àquela gente.
Como
é domingo, encontro o velho em casa
E
chego a tempo de papar-lhe o almoço.
Devias
começar por abraçar-nos...
(Abraçando
Lucas.)
ANGÉLICA
(Abrindo os braços.)
— Eu
também quero o meu abraço!
LUCAS
— É justo.
(Abraça-a.)
ANGÉLICA — Agora, abraça a tua irmã de
leite.
RAMOS
— Desenvolveu-se...
Deitou
corpo... cresceu...
Deixo
um fedelho e encontro uma senhora,
E
mais linda que um anjo! Isto é possível...
Na
minha idade já se não abraçam
Moças
da minha idade...
AMBROSINA
— Sou tua irmã.
LUCAS
— És minha irmã de
leite.
Essa
irmandade não me impediria
De
casar-me contigo...
(Comicamente
cerimonioso.) Enfim,
senhora,
Como
de Vossa Excelência os pais ordenam,
Venha
esse abraço!
AMBROSINA
(Lançando-se nos braços dele.)
—
E esmaga-me, se queres!
—
Como está mamãezinha?
LUCAS
— Boa e fera;
São
seu único mal saudades tuas.
Mandou-te
umas lembranças de São Paulo.
Não
quis que eu viesse ao Rio de Janeiro,
Sem
coisinhas trazer para Ambrosina;
E
durante a viagem vim comprando
Tudo
quanto se encontra no caminho:
Queijos
de Itatiaia e Campo Belo,
E
beijus de Belém. Essas lembranças
Lá
estão no Grande Hotel.
Pois
não sabes que é teu tudo que é nosso?
LUCAS
— Bem sei, mas
receava incomodá-los.
LUCAS
— Demais, moram longe
da cidade,
E eu a
negócio vim, não a passeio.
Se
a coisa prosseguir como tem ido,
Eu
serei, num futuro não remoto,
Quase
tão rico como o velho Ramos!
(Dá
uma pequena pancada no ventre de Ramos.)
RAMOS
(Rindo.)
— O
velho Ramos não é rico.
LUCAS
— É rico;
Mas
tem o sestro de dizer que é pobre,
Porque
receia que lhe peçam chelpa.
(Tomando
ambas as mãos de Ambrosina.)
Quem
me interessa és tu, és tu somente,
Minha
querida irmã, que tanto prezo!
(Com certa hesitação na voz.)
Então?
quando se faz este casório?
Já
deves ter um noivo, ou, pelo menos,
Um
namorado, ou dois... Com esses olhos,
E
essa boca de fada, e esta elegância,
E
este pai, apesar de não ser rico,
Deves
ter pretendentes aos cardumes!
AMBROSINA
— Tenho dois namorados.
LUCAS
(Com um sorriso forçado.) — Dois apenas?
AMBROSINA — Pode ser que outros haja, mas
ignoro.
RAMOS
— Não podias chegar
mais a propósito:
Hoje vêm
ambos almoçar conosco.
AMBROSINA — Convidou-os papai, para que eu
possa,
Depois
de examiná-los bem de perto,
Escolher
o que deva ser meu noivo;
Mas
eu já disse que nem de um nem de outro
Faço
questão, e escolha qualquer deles.
RAMOS
— O Benjamin Ferraz e
o César Santos.
LUCAS —
Não conheço.
RAMOS
Vais vê-los dentro em
pouco.
São
dois tipos um do outro bem diversos.
O
César Santos, guarda-livros hábil,
Interessado
está numa das casas
Mais
importantes desta praça; é moço
Ajuizado,
refletido e sério;
Tem
feito economias, e de parte
Já
pôs alguns vinténs; possui dois prédios.
O
Benjamin Ferraz é muito rico:
Herdou
dos pais e ainda há de herdar dos tios,
Que
fazendeiros são. Monta a cavalo,
Veste-se
muito bem, e desconfio,
Pela
sua maneira de exprimir-se,
Que
literato ele é nas horas vagas.
Em
ter muito dinheiro. Eu não conheço
Melhor
ocupação.
LUCAS
— Prefiro o outro.
(Mudando de tom.)
E
por amor do guarda-livros hábil
E
do janota que tão bem se exprime,
Temos
então almoço ajantarado?
RAMOS
— Lagostas... um
badejo... uma fritada...
Galinhas...
um churrasco... espargos,
[frutas,
Sorvetes, queijos, doces e mais doces,
E
Bucelas, Colares e Champanha!
Eu
vim ao cheiro de uns modestos bifes,
E
caio em plenas bodas de Camacho!
Não
esperava tanto!
RAMOS
— Vai, Angélica,
Dar
uma vista de olhos à cozinha,
E
manda pôr mais um talher à mesa,
E
vê lá se o copeiro pôs casaca.
ANGÉLICA — E tu, anda buscar na adega os
vinhos.
(Sai.)
RAMOS —
Tens razão. Já lá vou. Cá tenho a chave.
(A
Lucas.) Quando
há comes e bebes nesta casa,
Ela
trata dos comes e eu dos bebes.
Fazendo
companhia ao nosso Lucas. (Sai.)
CENA
VI
AMBROSINA,
LUCAS
AMBROSINA
— Mas vê como estou fria...
Oh! pelo
gosto meu mais tempo esperaria;
Porém
papai não pensa infelizmente assim,
E,
pelos modos, quer ficar livre de mim.
LUCAS
— Não creias que teu
pai de ti livrar-te queira:
Tem
medo de morrer deixando-te solteira,
É o
que é. A intenção é boa; apenas, eu
Me
parece que o pior processo ele escolheu.
O
tal César e o tal Benjamin vão pensar
Que
o João Ramos a filha à força quer casar;
Mais
prudente seria esperar que viesse
O
noivo e não chamá-lo à casa, me parece.
AMBROSINA —
Tens razão.
Noiva que,
como tu, tanto atrativo tem.
AMBROSINA
— Isso é bondade tua.
Deste
modo, é porque não quero apoquentá-lo.
Tu
bem sabes de quanto eu lhe sou devedor:
Ele
foi para mim um grande protetor,
Tão
amigo, tão bom, tão desinteressado,
Que
um altar tem cá dentro e é para mim
[sagrado.
[vim,
Se
não fosse teu pai, que seria de mim?
Quando
nasci, o meu já estava morto há.
[meses;
Minha
mãe a miséria, a fome algumas vezes
Sofreu,
mas resistiu. Tu nasceras também;
Adoeceu
tua mãe; era preciso alguém
Que
as vezes lhe fizesse, e a minha então,
[coitada,
[envergonhada,
Sozinha
neste mundo, ao deus-dará, sem pão,
Precisava
de alguém que lhe estendesse a
[mão...
E
foi, como faria uma africana escrava,
Contigo
dividir o leite que eu mamava.
LUCAS
— Eu fui muito feliz,
E
ela também: teu pai, meu pai fazer-se quis.
Nem
eu nem minha mãe saímos desta casa
Que
nos cobriu a nós como de um anjo a asa.
Quando
cresci, o velho à escola me enviou
E
depois no comércio emprego me arranjou.
Para
São Paulo fui. Sou quase independente.
E a
quem o devo? A ele... a ele unicamente.
AMBROSINA
— De nada valeria o muito que
te fez,
Se tu não
fosse bom.
LUCAS
— Não seria, talvez,
[pessoa.
[fez boa.
Mas
falemos dos dois namorados. Teu pai
Quer
que escolhas; pois bem: examiná-los vai
Minuciosamente,
e um dos dois com certeza
Preferirás
ao outro ao sairmos da mesa.
Está
dito?
AMBROSINA —
Pois sim.
Verei dos
dois qual seja o que mais te convém.
CENA
VII
AMBROSINA,
LUCAS, JOÃO RAMOS, DONA ANGÉLICA
No
aparador alinham-se as garrafas,
E o
diabo do copeiro, de casaca,
Parece
até um cidadão conspícuo!
ANGÉLICA — Que bonito badejo é o
rei da festa!...
No
mercado; não pode ser, portanto,
Um
peixinho de pouco mais ou menos.
(Esfregando
as mãos.)
Não
tardam por aí os dois rapazes.
(Toque
de campainha elétrica.)
RAMOS
— Falai no mau...
(Indo
ao fundo e falando para fora.)
Ó senhor César, entre!
(Entra
César Santos cerimoniosamente.)
CENA
VIII
AMBROSINA,
LUCAS, JOÃO RAMOS, DONA ANGÉLICA, CÉSAR SANTOS
Que esperar não me fiz por muito tempo.
RAMOS
— Pontualíssimo foi,
foi cavalheiro.
(Apresentando.)
Minha mulher.
De conhecê-la.
ANGÉLICA — E eu igualmente folgo.
Faça favor.
(Toma-lhe
o chapéu e a bengala, que vai colocar sobre um móvel, ao fundo.)
RAMOS
(Mostrando Ambrosina.)
—
É minha filha. O amigo
Há
muito que a conhece. Já com ela
Dançou
num baile do Cassino.
CÉSAR — É exato.
Foi
uma honra que esquecer não pude,
Pois
me deixou recordações bem doces.
AMBROSINA
(Cumprimentando.)
— Agradecida.
RAMOS
— O meu amigo Lucas.
Quase
meu filho... Um filho malcriado,
Que
ao pai não tem o mínimo respeito,
E
lhe dá piparotes na barriga!
Mas
é um herói! — tem só vinte e dois anos
E é
já negociante conceituado
Na
praça de São Paulo!...
CÉSAR — Cavalheiro.
Consinta que lhe aperte a mão.
No
que lhe está dizendo o senhor Ramos.
Como
lhe devo a posição que ocupo,
É
muito exagerado a meu respeito,
Para
dar mais valor ao seu trabalho.
CÉSAR — As coisas como vão lá por
São Paulo?
O comércio, e de nada mais cogito.
LUCAS
— Os negócios vão
bem.
CÉSAR
— Não me parece;
A
baixa do café tem sido o diabo,
E
esperança não há de que tão cedo
Ele
suba,
(A
Angélica.) não
acha Vossa Excelência?
ANGÉLICA
— Senhor eu não entendo
dessas coisas;
Só
sei que tudo está bem caro agora,
E
que um badejo, que custava dantes
Dez
mil réis, quando muito, agora custa
Vinte
e cinco mil réis!
CÉSAR —
A carestia
Faz
com que o povo sofra e sofra muito;
Mas
o comércio sofre mais que o povo.
Na
nossa praça a crise está medonha;
Muitas
casas estão arrebentadas;
O
câmbio esteve a cinco, é bem verdade,
E
subiu depois disso a sete e meio,
Mas
de novo tem ido para baixo,
E
não há confiança nos efeitos
Do
plano financeiro do governo.
Não
acho que endireite a nossa praça,
Enquanto
a taxa não subir a doze,
Pelo
menos.
(A
Ambrosina.) Não acha
Vossa Excelência?
AMBROSINA
— Eu nunca pude perceber o
câmbio.
CÉSAR
— Pois eu lhe
explico: o câmbio representa...
Faz
favor de sentar-se? Então? Sentemo-nos!
Tanto
se paga em pé como sentado!
(Sentam-se
todos.)
Mas
sobre outros assuntos conversemos,
E
deixemos tranqüilos os negócios.
Estes
belos domingos foram feitos
Pra
que a gente se esqueça da semana.
Do que
câmbio, café, preços-correntes...
Gosto de
ouvir falar de frioleiras.
LUCAS
(Baixo a Ambrosina.)
—
Desconfio que o noivo não te serve.
RAMOS
— Eu sou negociante de
ferragens,
E
por meu gosto, não teria em casa
Nem
trincos, nem martelos, nem argolas,
Nem
pontas de Paris, nem dobradiças,
Nem
nada que lembrasse o meu comércio.
Quando
aos domingos eu me sento à mesa,
Desgostam-me
os talheres, acredite,
Porque
os tenho na loja; na cozinha
Não
entro, só para não ver panelas!
Causam-me
horror grelhas e caçarolas!
Lembras-te
ainda? Estávamos casados
Havia
um mês, se tanto. O pai da Angélica
Um
canário mandou-lhe de presente.
Ela
estimava-o. Muito bem. Pedi-lhe
Um
belo dia que o mandasse embora!
RAMOS
— Não, mas era preciso
dar-lhe alpiste,
E o
alpiste naquele tempo — sabe? —
Vendia-se
nas lojas de ferragens.
(Novo toque de campainha elétrica.)
ANGÉLICA
Tocaram.
RAMOS
(Erguendo-se.)
—
Bom! é ele com certeza! É o Benjamin Ferraz!
(Vai
ao fundo e fala para fora.) A casa é sua.
(Erguem-se
todos. Entra Benjamin Ferraz.)
CENA
IX
AMBROSINA,
LUCAS, JOÃO RAMOS, DONA ANGÉLICA,
CÉSAR
SANTOS, BENJAMIN FERRAZ, depois um COPEIRO
Mil
perdões por chegar um pouco tarde.
Foi
do meu alfaiate a culpa inteira.
Uma
porção de tempo estive à espera
De
uma sobrecasaca que não veio.
LUCAS
(À parte.)
—
Começa mal...
BENJAMIN
— Esta já tem três meses,
E
já não está na moda; os figurinos
Sobrecasacas
apresentam hoje
Fechadas
mais em cima, e mais compridas,
Dando
pelo joelho. Quando eu entro
Pela
primeira vez em qualquer casa,
Com
toda a correção quero ser visto,
Todas
as regras sei do savoir-vivre.
(A
Angélica.)
Depois
deste cavaco indispensável,
Permita,
Excelentíssima Senhora,
Que
lhe ofereça a rosa mais bonita
Que
esta manhã no meu jardim banhavam
As
lágrimas do orvalho matutino.
A
rainha das flores simboliza
A
rainha do lar, a esposa honesta,
RAMOS
(À parte.)
—
Parece um brinde.
ANGÉLICA
— Muito obrigada pelo seu
presente.
BENJAMIN
— Não há de quê minha
gentil senhora.
(Angélica
põe a rosa ao peito. Benjamin volta-se para Ambrosina.)
Para
Vossa Excelência eu trouxe — e espero
Que
seja recebido com bondade —
Este
raminho de violetas brancas,
Também
do meu jardim. Flores modestas,
Que
o seu perfume docemente escondem.
Simbolizam
a cândida inocência
Da
bela virgem recatada e pura.
AMBROSINA
— Agradecida.
RAMOS
— À vista dos
discursos.
Mulher
e filha.
ANGÉLICA
(Tomando o chapéu e a bengala de Benjamin.)
—
Com licença.
BENJAMIN
— Graças.
RAMOS
(Indicando César.)
—
Este já foi por mim apresentado.
BENJAMIN
— Folgo de vê-lo.
RAMOS
— O meu amigo Lucas.
É quase um
filho.
RAMOS
— Não tem ao pai o
mínimo respeito...
LUCAS
— E lhe dou piparotes
na barriga;
Falta-me o
savoir-vivre...
BENJAMIN
— Se é quase um filho, está
no seu direito.
RAMOS
— Mas é um herói! Tem
só vinte e dois anos...
LUCAS
— Vinte e dois anos e
três meses justos.
(Apertando
a mão a Lucas.)
Eu tenho
muita honra em conhecê-lo.
LUCAS
— A honra é toda
minha, cavalheiro.
(Angélica,
que tem saído, volta e diz baixinho a Ramos.)
ANGÉLICA
— O almoço está servido.
RAMOS
(Muito alto.) — Meus senhores...
ANGÉLICA
(Tapando-lhe a boca.)
—
Espera que o copeiro dizer venha.
RAMOS
(Baixo.)
—
É verdade, o copeiro de casaca...
(Entra
o Copeiro.)
Ei-lo!
Faz um vistão! Gosto daquilo!
O COPEIRO —
O almoço está na mesa. (Sai.)
RAMOS
— Meus amigos,
Vamos
ao nosso almoço, prontamente,
Que
já temos o estômago a dar horas.
(Benjamin
e César oferecem ambos o braço a Ambrosina.)
BENJAMIN
— O meu braço aqui tem,
minha senhora.
CÉSAR
— Minha senhora,
ofr’eço-lhe o meu braço.
AMBROSINA
— E agora? Aceito o que chegou
primeiro.
(Dá
o braço a Benjamin. César dá o braço a Angélica. Saem todos.)
RAMOS
(Saindo, a Lucas.)
—
Cada qual no seu gênero, não achas?
LUCAS
— Acho.
(Sai.)
LUCAS
(Só.) — Escolhe um
deles? Pois sim!
Meu
velho, pelo que vejo,
Perdes
o tempo e o latim,
Pra
não dizer o badejo.
[(Cai
o pano.)]
ATO
SEGUNDO
A
mesma sala
AMBROSINA
(Entrando.)
—
Valha-me a Virgem Maria!
Que
grande aborrecimento!
Vim
descansar um momento!
De
tanta sensaboria
Horrorizada
fugi!
Que
só de negócios trate
Cacete
conheço uns quantos,
Porém
daquele quilate
Confesso
que nunca os vi!
E o
Benjamin? Que fofice!
Não
abre a boca o pedante,
Que
não diga uma tolice,
Ou
que não fale de si,
Das
visitas que recebe,
Ou
do extrato que o perfuma,
Ou
dos charutos que fuma,
Ou
dos licores que bebe!
Quantas
asneiras ouvi!
AMBROSINA,
LUCAS
LUCAS
— Pobres moços!...
infelizes! ...
AMBROSINA
— Não.
Com
quaisquer deles casada.
Pelas
impressões primeiras
Incompletas
e ligeiras,
Jamais
levar nos deixemos...
Gente
nova, estranha gente
Não
há, que nos apareça,
E
aos nossos olhos pareça
Aquilo
que é realmente;
Pois
nesta coisa medonha,
Que
se chama sociedade,
Ninguém
sai da intimidade
Sem
que uma máscara ponha.
Não
julguemos à ligeira;
Toda
a gente se mascara:
Uns
cobrem parte da cara
E
os outros a cara inteira.
Quem
se revela maluco
Tem
muitas vezes juízo,
E
nos parece ter siso
Um
velho crânio sem suco.
Finge
de franco o sovina,
Faz-se
virtude a mazela...
Julgas
Penélope aquela?
Muito
a custo me contive...
Se
o mundo enganado vive,
Não
vivo eu!
LUCAS — Ouve...
Defendê-los
tu! Que idéia!
És
cacete por teu turno!
Toma
hoje mesmo o noturno
E
volta pra a Paulicéia!
Diz
que o gatuno é gatuno,
Diz
que é malvado o malvado,
E,
sem que o disfarce o iluda,
Quando
o seu chapéu lhes tira,
Cumprimenta
uma mentira,
Uma
máscara saúda;
Mas
não se trata do mundo
E
sim do juízo que fazes
Sobre
dois pobres rapazes
Que
não conheces a fundo.
Durante
esse almoço triste,
Que
te não deixou saudades,
Não
lhes viste as qualidades,
Mais
que os achaques não viste...
Quem
sabe se os namorados
Produzirão
outro efeito
Quando,
com arte e com jeito,
Os
vejas desmascarados?
AMBROSINA
— Com ou sem máscara, dize,
Aquele
Manel de Soisa
Me
falará noutra coisa
Mas
esse assunto varia,
Porque,
enfim, lá vem um dia
Sobe
o câmbio e a crise passa!
AMBROSINA —
E o outro?... aquele janota,
De
trinta milhões herdeiro,
Vidrinho
de água de cheiro,
Fátuo,
ridículo, idiota?
De
uma penhora estou livre,
LUCAS —
Menina, não faças caso:
AMBROSINA
— Muito agradecida, Lucas:
Falo-te
de coisas sérias,
E
com insulsas pilhérias
A
quanto eu digo retrucas!
Vou
no meu quarto fechar-me!
E
que ninguém me apareça!
Estou
com dor de cabeça:
Escusam
de ir lá chamar-me!
(Sai
arrebatadamente.)
CENA
III
LUCAS
(Só.)
LUCAS
(Só.) — Tem razão,
coitadinha! Eu, no seu caso,
Também
arranjaria uma enxaqueca...
Qualquer
dos dois galãs é o mais ridículo.
César
Santos é todo positivo:
Outro
assunto não tem para a palestra
Senão
coisas da praça. As raparigas
Antipatizam
necessariamente
Com
tais assuntos, e falar-lhes nisso
É o
mesmo que se a gente as obrigasse
A
ler nas folhas tão somente a parte
Comercial.
E o Benjamin? Que parvo!
Um
fenômeno quase! O próprio Édson,
A
matutar, duvido que inventasse
Tão
engenhosa máquina de asneiras!
Entretanto
— quem sabe? — os dois rapazes
São
talvez excelentes criaturas...
É o
que preciso averiguar quanto antes;
Mas
para isso necessário fora
Que
eu conseguisse conversar com ambos,
Cada
um de per si...
(Vendo
entrar César Santos.)
Oh,
que pechincha!...
O
César Santos!... Vou puxar por ele...
Também
eu ponho agora a minha máscara.
CENA
IV
LUCAS,
CÉSAR SANTOS
Vim
procurá-la.
LUCAS — Foi para o seu quarto,
Queixando-se
de dores de cabeça.
Por
ter ouvido tantas baboseiras
Do
Benjamin Ferraz. Que grande tipo!
Lá
o deixei a falar do seu cavalo
Que,
a dar-lhe ouvidos, é o melhor do mundo!
Do
Benjamin Ferraz; pelo contrário...
Acha-lhe
certa originalidade.
Queixa-se
do senhor.
LUCAS
— Por certo,
Pois
o senhor não vê que a moça é fútil,
E
só gosta de ouvir futilidades?
Falta
de educação... Oh! eu conheço-a
Desde
pequena, e sei dos seus defeitos.
O
senhor só conversa em coisas sérias...
CÉSAR
— Não há nada mais
sério que o comércio.
Ela
só toma a sério os armarinhos
Da
Rua do Ouvidor.
Que
o velho Ramos, ferragista honrado,
Foi
no comércio que ajuntou dinheiro,
E
do comércio vive, e vive a filha...
LUCAS
— Esse é o termo que
ela emprega.
Falem-lhe
em bailes, falem-lhe em teatros!
Bem
se lhe dá que o câmbio esteja frouxo,
Ou
que encontre na praça tomadores,
Ou
que pela manhã subindo a sete,
Baixe
de tarde a seis e sete oitavos!
CÉSAR
— Tenho pena,
confesso: gosto dela,
E dói-me
vê-la assim tão leviana.
Pedi-la em
casamento ao pai.
Que
me diz? Nesse caso fiz asneira!
Se
de tais intenções eu suspeitasse,
Não
me exprimira assim a seu respeito!
Pobre
Ambrosina! E ela, com certeza,
Gosta
igualmente do senhor! ... Que diabo!...
Hei
de sempre mostrar-me um criançola!
Tem
graça agora se, por minha causa,
Perde
Ambrosina um casamento destes!
Senhor,
não faça caso do que eu disse!
Ela
não gosta do comércio? Embora!
Peça
a menina, case-se com ela!
O
comércio virá depois... Que bruto
E
que indiscreto fui!
CÉSAR — Sossegue, Lucas:
Se
ela não me aceitar para marido,
Eu
não me atiro ao mar por causa disso.
LUCAS — Ah! bom! já vejo que não
gosta dela...
CÉSAR
— Gosto... gosto... é
bonita... é bem bonita...
Veste-se
muito bem... toca piano...
LUCAS
— E bandolim também,
que é moda agora.
São,
pouco mais ou menos, todas fúteis!
Sim...
depois de casada... em vindo os filhos.
Há
de neles pensar, no seu futuro,
E
todo o dia, quando eu volte à casa,
Perguntará
decerto pelo câmbio.
Confesse
que se casa co’Ambrosina
Como
se casaria... ande, confesse!...
Com
qualquer outra moça tão bonita,
Que
fosse filha de outro velho Ramos.
(César
sorri.)
Este
sorriso não me engana: é certo!
(Contendo
a indignação.)
Faz
você muito bem! (Consinta, amigo,
Que
o trate por você...) Todas as moças
São
parecidas umas com as outras
Quando
se vestem bem, tocam piano
E
bandolim. É próprio de pascácios
Preferir
esta àquela, desde que haja
Beleza...
e dote. Nós, os do comércio,
Mesmo
tratando de formar família,
Não
nos devemos esquecer que somos
Antes
de tudo negociantes...
Tu
és da minha escola! Tu consentes
Que
eu te trate por tu?
CÉSAR
— O casamento é uma
sociedade;
Toda
a mulher é sócia do marido:
Usa
e assina o seu nome, e tem metade
De
quanto lhe pertence.
Isso é
conforme.
Tudo
o que é dele é dela, e vice-versa.
Logo,
é justo — não é? — que a nossa noiva
Nos
traga um capital igual ao nosso.
LUCAS
— E três meses.
Quem
tão bem raciocine nessa idade!
Se
assim pensassem todos, não veríamos
Tantas
desgraças que provêm — pudera! —
Da
pobreza dos cônjuges!
Rapariga
não há, bonita embora,
Que
sem ter dote casamento arranje.
Aquilo
é que é país!
A francesa
é caixeira do marido.
Que a ti
tanto te faz uma como outra...
CÉSAR
— Tinhas toda a
razão. A ti, to digo,
Pois
vejo que não és nenhum poeta,
Nem
nenhum visionário impertinente,
Que
viva numa nuvem cor de rosa.
És
de Dona Ambrosina irmão colaço:
Peço-te,
pois, que essa impressão destruas
Que
nela produzi; dize-lhe Lucas,
Que
tenho aspirações, que tenho sonhos,
Eu
sou muito capaz de fazer versos.
Numa
página até do livro-caixa!
LUCAS
— Vai tranqüilo.
(À
parte.) Caiu
como um patinho,
CENA
V
LUCAS,
CÉSAR SANTOS, JOÃO RAMOS, BENJAMIN FERRAZ, DONA ANGÉLICA
LUCAS
— Para o seu quarto
foi co’ uma enxaqueca.
LUCAS
— Nesse caso, fez
hoje a sua estréia.
LUCAS
— Um vidro tenho aqui
de sais ingleses...
(Angélica
sai sem lhe dar ouvidos.)
Bebeu
Bucelas e bebeu Colares:
Não
estando acostumada a tais misturas,
Sentiu-se
incomodada.
CÉSAR
— Não; não creia:
Muito
pouco bebeu durante o almoço.
(Senta-se
a examinar um álbum de fotografias.)
Os lábios
virginais umedecia.
CÉSAR
— É divertido.
(Ramos
senta-se ao lado de César, e vai lhe mostrando os retratos.)
Em que eu
tinha, talvez, a sua idade.
(Lucas
aproxima-se de Benjamin, que está sentado no sofá.)
LUCAS
(À parte.)
Vou
penetrar nesta alma de ocioso.
(Alto,
sentando-se ao lado dele.)
Quer
saber o motivo da enxaqueca?
Qual
mistura de vinhos; qual histórias!
RAMOS — Esta é minha mulher. Foi bem bonita.
CÉSAR — Ainda se parece.
Que
indisposta ficou dona Ambrosina
Por
tanto ouvir falar ao César Santos
Em
transações da praça.
LUCAS
— Foi o senhor a
causa da enxaqueca.
RAMOS
— A Ambrosina, quando
era mais mocinha.
LUCAS
— Ela, aqui para nós,
é muito tola;
Não
gosta de o ouvir falar; diz ela
Que
o meu amigo só de si se ocupa.
BENJAMIN
— Não costumo falar da vida
alheia.
RAMOS
— O falecido meu
compadre Lopes,
Padrinho da pequena.
CÉSAR
— Eu conheci-o.
Teve uma loja de calçado.
RAMOS
— É isso.
Na Rua da Quitanda. Era bom homem.
LUCAS
— Ela não aprecia o
seu estilo...
É
tão mal preparada! Só lhe agradam
Palavras
corriqueiras... É bonita,
Elegante,
não nego, mas — que pena! —
Falta-lhe
o savoir-vivre. Uma burguesa!
RAMOS — Este é o Freitas Simões, que foi meu sócio.
BENJAMIN
— Pois tenho pena que ela
me deteste:
Tencionava pedi-la em casamento.
Meu
Deus, fi-la bonita! Meu amigo,
Não
faça caso do que eu disse! Pílulas!
Por
minha causa perde a rapariga
Um
casamento destes! Não! não! casem-se!
Virá
depois o savoir-vivre! Diabo!...
Hei
de ser sempre uma criança estúpida!...
RAMOS —
O Gouveia da Rua do Mercado.
BENJAMIN — Não; eu não desanimo por tão
pouco,
E
lhe agradeço até, meu caro jovem,
Ter-me
instruído sobre os gostos dela...
RAMOS
— Conhece? É o Nazaré
da Rua Sete,
BENJAMIN
— Eu tratarei de
transformar-me, creia;
Mas
se inda assim nas suas boas graças
Não
cair, paciência... Outra donzela
Talvez
encontre menos exigente.
O
que me agrada nela é a formosura
Com
que a dotou a natureza pródiga;
Outra
coisa não é, porque sou rico,
E
ainda espero em Deus herdar bastante,
mata...
RAMOS
— Este é o doutor
Galvão, que é nosso médico.
BENJAMIN
— De bom grado eu seria o
seu marido,
Por
ser senhora muito apresentável,
Que
faria figura no grand monde
E
enfeitaria bem um camarote
Do
Lírico; entretanto, um sacrifício
Não
quero que ela faça, está bem visto.
CÉSAR — Este conheço eu muito: é
o João Moreira.
BENJAMIN — Modéstia à parte, a um homem desta estofa,
Que
é moço, e não é feio, e tem saúde,
E é
milionário ou quase milionário,
E
viajou por toda a culta Europa,
E
anda trajado no rigor da moda,
E
faz figura em cima de um cavalo,
E
fuma disto...
(Mostra
o charuto que fuma, e faz menção de tirar outro da algibeira.)
LUCAS
— Não fumo.
Mulheres que o
pretendam, que o disputem,
(Aproxima-se
de Ramos e César, que têm acabado de percorrer o álbum.)
LUCAS
(À parte.)
—
O outro é tolo e malandro; este é só tolo...
É
muito fácil vê-lo pelas costas.
CENA
VI
LUCAS,
JOÃO RAMOS, CÉSAR SANTOS, BENJAMIN FERRAZ, DONA ANGÉLICA
RAMOS
(A Angélica que entra.)
Então? Que é?...
ANGÉLICA
— Não é nada. Aquilo passa.
Sem
ver a nossa chácara. Proponho
Um
pequeno passeio.
CÉSAR — É bem lembrado.
Depois
do lauto almoço que tivemos,
E
ao nosso anfitrião faz tanta honra.
RAMOS — Bondade sua, meu amigo.
Angélica,
Vai buscar
os chapéus destes senhores.
BENJAMIN
(Indo buscar o seu chapéu.)
— Então? Não
se incomode, Excelentíssima! CÉSAR (Idem.)
—
Oh! pelo amor de Deus, minha senhora!
Fazendo
companhia à nossa filha.
LUCAS
— E eu faço companhia
a dona Angélica.
Uma
nascente de água ali no morro...
(Saem
César, Benjamin e Ramos, que continua a falar indistintamente, até que a voz se
perca ao longe.)
CENA
VI
LUCAS,
DONA ANGÉLICA, depois AMBROSINA
ANGÉLICA — Qual enxaqueca! qual nada!
Ambrosina, meu rapaz...
LUCAS — Santos não quer ser chamada,
Nem ser madame Ferraz.
ANGÉLICA — Sabias?
Astutamente
arranjou,
Para
livrar-se da seca
Que
o papai lhe reservou.
O
Ferraz alambicado
Debalde
se encareceu,
E o
César — pobre coitado! —
Chegou,
viu, mas não venceu.
É
bonita, inteligente,
E
tem um dote... oh, lá lá!
Deixe!
O que não se faz hoje
Fazer-se
pode amanhã...
Sossegue,
que não lhe foge
O
seu príncipe Charmant.
À
casa podem chegar...
Ela
tem vinte e dois anos:
Não
deve mais esperar.
LUCAS
— Momento melhor
aguarde;
Não
é preciso correr.
Espere,
que nunca é tarde
Para
uma asneira fazer.
Gosto
a senhora teria
Se
Ambrosina de qualquer
Daqueles
tipos um dia
— Franqueza! — fosse mulher?
ANGÉLICA — Tu não dizes o que sentes:
Dois tipos eles não são.
ANGÉLICA
(Depois de certa hesitação.)
—
Ah! se o meu genro escolhido
Fosse
por mim, só por mim,
De
minha filha o marido
Serias
tu.
(Ambrosina
aparece á porta e escuta o diálogo.)
Que
outro genro achar podemos
Melhor
do que tu?
LUCAS — Perdão.
Sobre outra coisa falemos.
LUCAS
— Não.
E mais na carta não deite...
ANGÉLICA
— Ambrosina...
Ela é minha irmã de leite...
ANGÉLICA — Impedimento não há.
LUCAS
— Há, e um grande
impedimento:
O
impedimento moral:
Semelhante
casamento
Seria
tão desigual...
LUCAS
— Não é preciso
dizer.
ANGÉLICA — És quase um filho adotivo:
LUCAS
— Vou ser.
De
uma... alugada era filho
Quando
nesta casa entrei,
E
seria um maltrapilho
Sem
a proteção que achei.
ANGÉLICA — És tolo.
Não
me desse proteção,
Eu
me teria perdido...
ANGÉLICA — Quem sabe? Talvez que não.
Eu
não pago tanto amor
Pretendendo
a mão da filha
Do
meu santo protetor!
Não
me entendeste, rapaz!
Eu
não digo que pretendas,
Pois
pretendido serás.
LUCAS
— Se eu me casasse
com ela,
Que
diriam por aí?
O
mundo é tão tagarela!
“O
Lucas, aquele intruso
Noiva
e dote abiscoitou!
Friamente
praticou!
Parecia
não ter vícios,
Mas
vede o pago que deu
A
todos os benefícios
Que
do velho recebeu!”
Já
vê que esse casamento
De
modo algum me convém,
E
que todo o fundamento
Os
meus escrúpulos têm.
De dignidade.
LUCAS
— Talvez.
Nenhuns
fidalgos, bem vês.
Meu
marido foi caixeiro
E
hoje apenas é patrão,
E
meu pai foi sapateiro,
Depois
de ser remendão.
Somos,
sim, família honesta
E
temos alguns vinténs;
Mas,
se a fidalguia é esta,
Filho,
também tu a tens.
A
razão por que não queres
Ser
meu genro essa não é;
Mas
— anda lá! — tu preferes
Mentir...
LUCAS
— Mentir! eu?
Apesar
de não ser fina,
Claramente
vendo estou
Que
não gostas de Ambrosina,
Já
cá não está quem falou.
(Vai
retirar-se, mas Lucas toma-lhe a passagem.)
[Ambrosina
[ilumina!
Supunha
o meu afeto apenas fraternal,
Mas
hoje, quando entrei, alegre e jovial,
E
uma senhora achei na tímida criança
Que
do passado meu era a melhor lembrança,
Deslumbrei-me,
e senti que uma
[transformação.
Meu
Deus! se me operava aqui no coração!
Não
pode calcular como os dois namorados
Tão
senhores de si, risonhos, confiados,
Me
encheram de ciúme, e como revivi
Quando
por serem tão ridículos, os vi
Perder
terreno... Oh, não! não diga, por
[piedade.
Que
eu não gosto daquela esplêndida beldade!
Eu
amo-a loucamente, eu amo-a com fervor!
Amor
não pode haver maior que o meu amor!
Mas
peço-lhe por Deus que guarde este
[segredo
Que
murmuro a tremer e balbucio a medo.
Não
me devo casar com sua filha, pois
Que
um abismo fatal existe entre nós dois!
Se
o meu segredo for por mais alguém sabido,
Juro-lhe
que disparo um revólver no ouvido!
AMBROSINA
(Mostrando-se.)
—
Vamos! Dispara! O teu revólver onde está?
Eu
quero ver morrer um homem! Vamos lá!
LUCAS — Ambrosina!
Com
que te vai matar, demos ambos um giro
Até
a pretoria e até a igreja.
ANGÉLICA
(A Lucas.)
— Aí tens:
És noivo; aceita os meus sinceros parabéns.
AMBROSINA
— Mau! Feio! Escutei tudo ali
daquela porta.
Se
não dissesses “Amo”, eu cairia morta!
O
que te sucedeu me sucedeu a mim:
Se
tão cedo não vens, talvez que o Benjamin,
Ou
o César — um dos dois — fosse o meu
[noivo agora.
[demora
Me
pareceu que Deus te conduzia aqui
Para
arrancar-me ao outro e oferecer-me a ti.
ANGÉLICA
(A Lucas.)
— Então? Que dizes tu?
Esta cena
de amor que ninguém... sim,
[ninguém
Me poderá dizer: — “Tu não andaste bem”.
Estes castelos no ar é bom que os não
[façamos,
Todavia,
sem ter ouvido o velho Ramos.
Não
podemos saber como ele acolherá
Esta
conspiração...
ANGÉLICA — Eu vou falar-lhe já.
Desiludi-lo
de um e de outro pretendente.
Eu
disso me encarrego. E só depois que os tais
Saírem...
— sairão, e cá não voltam mais,
Prometo-lhes!...
—
ANGÉLICA — Bem bom! bem bom!
AMBROSINA
— Isso me alegra.
LUCAS
— Só depois eu farei
o meu pedido em regra.
O velho opõe um veto...
AMBROSINA
— Há de lhe dar sanção.
(Ouvem-se
vozes.)
ANGÉLICA
— Eles de volta aí vêm.
AMBROSINA
(Beijando a mãe.)
— Mamãe, muito
obrigada.
[tomada...
CENA
VIII
LUCAS,
DONA ANGÉLICA, AMBROSINA, JOÃO RAMOS, CÉSAR SANTOS, BENJAMIN FERRAZ
Um remédio me deu de efeito pronto.
LUCAS
(À parte.)
— Só
me faltava ser antipirina...
CÉSAR
(Com esforço.)
—
Numa linda cabeça como a sua,
Onde
brilham dois olhos tão formosos,
A
enxaqueca devia ser vedada.
AMBROSINA
(Rindo-se.)
— Que bela frase!
CÉSAR
(À parte.)
—
Decididamente
BENJAMIN
— A enxaqueca, senhora, é
mal terrível,
Porque
desvia do trabalho o cérebro,
E o
trabalho é a alavanca do progresso,
É o
comércio, a lavoura, a indústria, é tudo!
AMBROSINA
(Rindo-se.)
— Falou bonito!
BENJAMIN
(À parte.)
— Decididamente
Durante
o almoço estavas macambúzia
Nem
provaste do célebre badejo!
E
agora tão risonha achar-te venho!
Verias
tu, durante a nossa ausência,
Um
passarinho verde?
AMBROSINA
— Não vi nada;
Mas o fato é que estou muito contente.
RAMOS — Bom. Nesse caso, vais tocar
um pouco
Antes
de nos deixar te batam palmas.
Senhor Forjaz?...
BENJAMIN
— Ferraz, Excelentíssima.
AMBROSINA
— Peço toda a indulgência.
E o bandolim lá está.
RAMOS — Para lá vamos!
CÉSAR
(Oferecendo o braço a Ambrosina.)
— Minha senhora?
BENJAMIN
(Idem.)
— Minha senhora?
AMBROSINA
(Entre os dois.)
—
Dois? Pois bem! não quero
Que
nenhum se desgoste por tão pouco,
E
aceito o braço que ambos me oferecem.
(Sai
pelo braço de ambos.)
RAMOS
(Oferecendo-lhe o braço.)
— Aqui tens, minha amiga.
ANGÉLICA
— É pão com rosca.
RAMOS
(A Lucas, passando com Angélica pelo braço.)
— Não vens?
Safar-se,
venha ter aqui comigo.
Preciso
dar-lhe duas palavrinhas.
RAMOS
— Quantas quiseres,
Lucas. Até logo.
(Sai com Angélica.)
LUCAS
(Só.) — Que dirás,
minha mãe, quando souberes?
[(Cai
o pano.)]
ATO
TERCEIRO
A
mesma sala
CENA
I
LUCAS,
só
(Lucas está olhando para o lado da sala de
jantar, de onde chegam os sons de um bandolim.)
[LUCAS
(Só.)]
Não
há que ver: João Ramos não se lembra
De
que o espero aqui há meia hora.
Ele
está preso ao bandolim da filha,
O
olhar interessado, o ouvido atento,
A
boca aberta, as mãos sobre os joelhos.
Oh,
que velho tão bom! que pai ditoso!
Neste
instante ninguém capaz seria
De
arrancá-lo daquele doce enlevo!
Ouvindo
aqueles sons melodiosos,
Ele
talvez na mente rememore
O
tempo
E
no seu colo adormecia às vezes.
(O
bandolim cala-se. Aplausos.)
Ela
acabou. O velho levantou-se.
Para
este lado olhou. Viu-me.
(Faz
um sinal para dentro.)
Ele
aí vem finalmente. Ei-lo comigo.
Queira
Deus que lhe agrade a minha idéia.
Do
contrário não temos nada feito.
CENA
II
LUCAS,
JOÃO RAMOS
RAMOS
— Lucas, meu filho,
desculpa,
E
não me acuses a mim,
Pois
quem teve toda a culpa
Foi
aquele bandolim.
Quando
a pequena dedilha
As
duas cordas, sei lá!
Deixa
de ser minha filha:
É
um anjinho que aí está!
Minh’alma
sinto levada
Para
outro mundo melhor;
Não
vejo nem ouço nada
Do
que se passa em redor!
Se
o copeiro me dissesse:
—
“Há fogo em casa, patrão!”
Talvez
por isso não desse,
Nem
lhe prestasse atenção!
Não
me queiras mal, portanto,
Se
mais depressa não vim;
Quem
te fez esperar tanto
Foi
aquele bandolim.
LUCAS — Mas vamos ao que se trata.
RAMOS
— Estou sempre ao teu
dispor.
Alguma
negociata
Tu
me desejas propor?
Queres
que eu seja teu sócio?
Aqui
de qualquer negócio,
Havia
de procurar
Ocasião
mais propícia,
Sem
César nem Benjamin,
E
não iria à delícia
Roubá-lo
do bandolim.
Não
têm de que se assustar.
Uma
inverossimilhança,
Que
poderá fazer rir,
É
— não acha? — uma criança
A
um velho os olhos abrir;
No
entanto, o fato é patente!
RAMOS — Mas não me dirás, enfim?...
Da
dona do bandolim.
Dos
dois moços namorados,
Que
hoje almoçaram aqui,
Já
foram bem estudados
Pelo
senhor?
Um
caça-dotes ruim,
Que
faz questão de dinheiro
E
não faz de bandolim!
E o aconselho...
Dás-me
um conselho? Ao que vejo,
Inverteram-se
os papéis!
De
vinte e cinco mil réis!
(Ouve-se
o bandolim.)
Ouves?
LUCAS — Ouço.
Sabes
que mais, meu peralta?
Não
resisto ao bandolim
(Quer
retirar-se. Lucas toma-lhe a passagem.)
—
Venha cá! Falo sério! Não se ria!
César
Santos não gosta de Ambrosina,
Que fosse linda e que tivesse dote...
Me declarou que assim pensava.
LUCAS
— Fingi-me um patifão
da sua laia;
Captei-lhe
a confiança prontamente,
E
dei-lhe um vomitório de poaia.
LUCAS
— Duvida!... O Lucas
mente?...
LUCAS
— Chame-o de parte e
diga-lhe que é pobre,
Que
sua filha não tem dote... Invente!...
E
se ele, ouvindo essa tremenda história,
Não
se puser ao fresco incontinenti,
As
mãos entregarei à palmatória.
RAMOS
— Em todo o caso, é
boa essa armadilha,
Porque
me custaria ver casada,
Por
ter um dote apenas, minha filha,
Quando
com tantos outros é dotada...
LUCAS — Eu vou lá para dentro e aqui lho mando.
Mas
não tenha vergonha:
Invente
uma catástrofe medonha.
Suspire,
se puder de vez em quando...
Coisas
dirá incríveis, conjecturo;
Não
se importe: ele é homem
Desses
que todas as araras comem
E
que o reino do céu tem já seguro
Diga
que o jogo e os seus fatais caprichos
Levaram-lhe
a maquia;
Que
cem contos de réis perdeu nos bichos,
Cem
na roleta, cem na loteria,
E
cem na Bolsa!
— E o Benjamin Ferraz?
Já tem um bandolim: outro dispensa.
RAMOS
— Achas então que o
moço?...
LUCAS
— É mesmo um
bandolim... de carne e osso.
Esse em dote não pensa.
RAMOS
— Eu creio mesmo que
não pensa em nada.
LUCAS
— Mas fica essa
figura reservada para depois.
Eu vou mandar-lhe o tipo.
Meus parabéns sinceros lhe antecipo. (Sai)
CENA
III
JOÃO
RAMOS, [só]
[RAMOS
(Só.)] — É levado
da breca este meu Lucas!
Mas
não é que ele teve uma lembrança
Que
não acudiria a toda a gente?
Eu
vou mentir... mas, ora adeus! se o faço,
É
para o bem da minha filha amada,
E a
mentira que vou pregar só pode
Prejudicar
o próprio mentiroso,
Pois
se a pílula engole o César Santos,
Vai
dizer por ai que estou quebrado;
Mas
como a ninguém devo, que me importa?
Ele
aí vem. Temos cena de comédia!
Coragem!
vou pregar uma mentira
Pela
primeira vez na minha vida...
JOÃO
RAMOS, CÉSAR SANTOS
RAMOS
— Desejava falar-lhe,
senhor César.
(Dando-lhe
uma cadeira.)
Tenha
a bondade, sente-se.
CÉSAR
— Obrigado.
(Senta-se.
Ramos senta-se também.)
Estou às suas ordens.
RAMOS
— Meu amigo,
O
senhor, uma noite, no Cassino,
Minha
filha encontrou, dançou com ela,
E
no dia seguinte pela porta
Começou
a passar de nossa casa
Todas
as tardes, mesmo se chovia.
Se
à janela a pequena me bispava,
Tirava-lhe
o chapéu amavelmente,
E
lhe sorria assim de certo modo...
Achando
no senhor um bom partido,
Por
saber, de pessoas fidedignas,
Que
está perfeitamente encaminhado,
Para
almoçar comigo convidei-o,
E
preparei um suculento almoço
Com
algum sacrifício...
CÉSAR
(À parte.)
— Sacrifício?
Um
namorado, e lhe impingia a filha,
O
Benjamin Ferraz, aparecendo,
Foi
também convidado.
(À parte.) Esta mentira
Não
estava no programa.
(Alto.)
O
que eu queria,
Trazendo-o
para junto de Ambrosina,
Era
fazer com que se aproximassem
E
se entendessem de uma vez por todas.
Ficam-lhe
abertas desta casa as portas.
CÉSAR
(Erguendo-se.)
— Muito obrigado, senhor Ramos.
RAMOS
— Sente-se.
(César senta-se.)
Antes,
porém, que as coisas vão mais longe,
Uma
revelação fazer-lhe quero
Imposta
pela minha lealdade.
(À
parte.) Lá
vai!
(Alto.)
Sou
pobre.
CÉSAR
(Erguendo-se como tocado por uma mola.)
—
É pobre!
RAMOS
— Muito pobre.
Infelizmente perdi tudo. Sente-se.
CÉSAR
(Seco.)
— Estou perfeitamente.
RAMOS
(Erguendo-se.)
Nesse
caso,
Levanto-me
eu também, meu caro amigo.
CÉSAR
— Mas como foi?...
Joguei na baixa.
RAMOS
— Tudo,
A
começar pelo juízo... Apenas
Desse
naufrágio me escapou a honra.
CÉSAR
(Naturalmente.)
— Mas de que vale a honra sem dinheiro?
RAMOS
(Depois de estremecer como se o esbofeteassem.)
—
Basta! não é preciso ouvir mais nada!
Lucas,
vem cá!
RAMOS
— A experiência fica
em meio apenas.
CENA
V
JOÃO
RAMOS, CÉSAR SANTOS, LUCAS
RAMOS
(A Lucas que entra.)
—
Imaginavas que este sujeitinho,
Ouvindo-me
dizer que eu era pobre,
Ao
fresco se pusesse incontinenti;
Pois
bem: sou eu, vais ver, que o ponho fora
Da
minha casa honrada, e, se o não ponho
A
pontapés, é porque nesta idade
Não
há mais pontapés que deixem marca!
RAMOS
(A Lucas.)
—
Quando eu lhe disse que era pobre,
Mas
que era honrado, respondeu-me, filho,
Que
a honra nada vale sem dinheiro!
LUCAS
— O dinheiro sem
honra há quem prefira.
(Vai
buscar a bengala e o chapéu de César Santos.)
(Movimento
de César. Com mais força.)
LUCAS
— Saia...
E nada lhe responda: é o mais prudente.
(César
encolhe os ombros, toma o chapéu e sai com arrogância. João Ramos fica muito
agitado, a percorrer a cena.)
CENA
VI
JOÃO
RAMOS, LUCAS
RAMOS
— Que cinismo! que
despejo!...
Quatro murros merecia!...
Mal
empregado badejo!
Vamos
lá! Não se apoquente,
Que
está salva a sua filha...
Mas
olhe que se ele a pilha!...
E uma nova experiência...
É
moço muito educado,
Incapaz
de dar-me um couce
Como aquele sevandija!
(Falando
para a porta por onde César saiu.)
Há
de haver quem te corrija,
Meu
descarado!
LUCAS — Acabou-se.
Não
se trata desse agora,
Mas
do bandolim Ferraz...
Que
também se vá embora!
Se
um bruto casa com ela,
Um
dia prego-lhe um tiro!
LUCAS — Esteja calmo.
Que
vá de palma e capela
Quando
morrer!
(Pausa,
durante a qual o velho procura serenar-se.)
Do
tal namorado piegas?
Já
agora acredito às cegas
Em
tudo de que me avises!
Uma
ação indecorosa:
Mas
é muito tolo... é prosa...
Presta-se
muito ao debique,
E
de ridículo a dose
Que
traz em si, permanente,
Refletirá
fatalmente
Sobre
a mulher que ele espose.
Há
de ser um desconsolo,
Meu
caro, que a filha sua,
Sempre
que sair à rua
Vá
pelo braço de um tolo.
Ele
tem muitas patacas,
E
ainda há de herdar de uns matutos,
Para
comprar mais charutos
E
novas sobrecasacas;
Mas
todo esse cobre junto,
Toda
essa bela milhança,
Entrando
em conta a esperança
Dos
sapatos de defunto,
Que
vale nas mãos de um homem
Desses
— e é grande a cambada! —
Que,
não produzindo nada,
Enormemente
consomem?
Quem
vive dessa maneira,
E
do seu fausto se gaba,
Por
via de regra acaba
Por
não ter eira nem beira.
Ambrosina
— coisa horrível! —
Nas
mãos desse desfrutável,
Tem
a pobreza provável,
Tem
a miséria possível!
RAMOS
(Erguendo-se.)
— Qual há de ser o espantalho?
LUCAS
— À puridade lhe
diga:
—
“Quer casar coa rapariga?
Pois
bem: procure trabalho!”
Se
o senhor assim o avisa,
Faço
todas as apostas
Em
como, voltando as costas,
Ele
aqui nunca mais pisa.
LUCAS
— Vou mandá-lo.
Verá
como a coisa pega!
Fale-lhe
teso!
RAMOS
— Sossega:
Teso, bem
teso lhe falo! (Lucas sai.)
CENA
VII
JOÃO RAMOS, [só]
[JOÃO
RAMOS (Só.)]
—
Oh! venturoso o pai que lhe entregar a filha!
Vinte
e dois anos só! Quando este bigorrilha
Contar
os que já conto, há de ser um portento!
Aquilo
sim, senhor, aquilo é que é talento!
É
ele a boca abrir, são flores e mais flores!
Até
me faz lembrar Jesus entre os doutores!
Devia
tê-lo feito entrar na Academia...
Que
brilhante orador, que bacharel daria!...
CENA
VIII
JOÃO
RAMOS, BENJAMIN FERRAZ
Se
o privei de mais doce companhia;
Mas
é preciso que nos entendamos
Sobre
assunto que muito me interessa.
BENJAMIN — Antes de prosseguir, Senhor João Ramos,
Cumprimentá-lo
quero entusiasmado:
Tem
uma filha verdadeiramente
Artista;
o bandolim, nas delicadas
Mãos
de dona Ambrosina, diviniza-se!
Ouvi
três peças cada qual mais bela!
Que
brio! que expressão! que sentimento!...
RAMOS — Gosta muito de música?
BENJAMIN
— Muitíssimo.
BENJAMIN
— Nenhum.
RAMOS
— É pena.
BENJAMIN
— Mas tive um primo que
tocava flauta.
RAMOS
— Queira sentar-se
aqui nesta cadeira,
E prestar-me atenção.
BENJAMIN
(Sentando-se.)
— Sou todo ouvidos.
RAMOS
(Depois de sentar-se também.)
—
Há quinze dias, no Teatro Lírico,
Num
camarote eu estava coa família
E o
senhor na platéia.
Cantava o Mefistófeles,
de Boito.
À
Margarida, ao Fausto e ao Mefistófeles,
E
do meu camarote não tirava
Os
olhos, com binóculo ou sem ele.
Bom.
Nós éramos três no camarote...
E a nossa genial bandolinista.
Dirigidos
a mim, que sou marmanjo,
Nem
a minha mulher, que é mulher velha;
Não
é preciso, pois, ser muito esperto
Para
ver que o seu alvo era Ambrosina.
(Benjamin
sorri.)
Acabado
o espetáculo, na porta
O
senhor esperou por nós... por ela,
Quero
dizer, e suspirou tão alto,
Que
a atenção provocou de toda a gente!
BENJAMIN
(Suspirando.)
— Ai! não sei suspirar de outra maneira!
RAMOS
(À parte.)
— Vá suspirar pro diabo que o carregue!
(Alto.)
Já
na manhã seguinte o seu cavalo
Passava
com o senhor em cima dele,
E
nas outras manhãs esse passeio
Reproduzido
foi às mesmas horas.
E
se à janela minha filha estava,
O
senhor lhe fazia um cumprimento,
Caracolando
com mais graça, e ela
Correspondia
ao cumprimento.
BENJAMIN — Vejo
Que tudo sabe.
RAMOS — Eu sou bom pai.
BENJAMIN — Decerto.
RAMOS — Achando no senhor um bom partido,
Para almoçar comigo convidei-o,
E, pra não parecer que convidava
Um namorado e lhe impingia a filha,
O César Santos...
BENJAMIN — Onde está?
RAMOS
— Muscou-se
(Continuando.)
Muscou-se
O
César Santos, que conosco estava,
Foi
também convidado. O que eu queria,
Trazendo-o
para junto de Ambrosina,
Era
fazer com que se aproximassem
E
se entendessem de uma vez por todas.
BENJAMIN
(Erguendo-se.)
—
Senhor João Ramos, eu não sei quais sejam
Os
sentimentos dela a meu respeito,
Porque,
se bem que nos aproximássemos,
Inda
não conversamos um com o outro;
Se
ela quiser ser minha esposa amada
E
da minha riqueza ter metade,
O
mais feliz serei dos namorados;
Se
não quiser, o mais inconsolável.
Inda
há poucos momentos eu gostava
De
sua filha pela formosura
Com
que a dotou a natureza apenas;
Mas
depois que a ouvi, arrebatado,
Naquele
doce bandolim, que as pedras,
Como
a lira de Orfeu, mover podia,
Sinto
aqui dentro uma impressão mais forte!
Isto
é amor, não é namoro; isto
É
mais que amor, talvez; paixão, quem sabe?
RAMOS
(Erguendo-se.)
—
Paixão? Não exagere meu amigo!
BENJAMIN
(Idem.)
—
As paixões, meu senhor, assim começam.
O
que é preciso para transformar-nos?
Um
simples bandolim!
BENJAMIN — Antes que as coisas
Vão
mais longe, meu caro, é indispensável
Que
sobre um grave assunto conversemos,
Muito
mais positivo e mais...
Que
o interrompa. Eu sei de que se trata.
Sou
rico, sou riquíssimo: não quero
Coisa
nenhuma. Ela tem dote? Guarde-o!
Nada
tenho com isso. O meu dinheiro
De
nós ambos será. Divido tudo;
Só
não divido o coração, que é dela!
RAMOS
(À parte.)
— O Lucas enganou-se.
Do
dote o que quiser. O meu desejo
Era
esposar uma donzela pobre...
Dona
Ambrosina tem um patrimônio
No
nome de seu pai: isso me basta,
Porque
dote melhor não há que a honra.
RAMOS
(Entusiasmado.)
—
Sim, senhor! Isto é que é falar! Amigo,
Quero
apertá-lo nos meus braços! Viva!
(Depois
do abraço.)
Mas
não é disso que eu tratar queria...
BENJAMIN
— Então fale, senhor! Ordene!
Imponha
As
condições que desejar, contanto
Que
não me negue a mão de sua filha,
Porque
eu não posso mais passar sem ela!
A
tudo estou disposto!
RAMOS — A tudo?
BENJAMIN
— Eu não percebo.
RAMOS
— Vai perceber. Exijo
que o meu genro,
Embora
seja rico, muito rico,
Tenha
um meio de vida; que trabalhe;
Que
em qualquer coisa ocupe a inteligência,
E
que produza, não consuma apenas.
Para
coisa nenhuma nesta vida,
Mas
estou pronto a trabalhar!
RAMOS — Deveras?
BENJAMIN
— Faço-me industrial: monto
uma fábrica,
Ou
lavrador e compro uma fazenda,
Ou
negociante e abro uma casa.
RAMOS — Bravo!
Na loja de ferragens.
BENJAMIN
— Ou serei simplesmente seu
caixeiro,
E a
vida levarei a contar pregos!
Finalmente,
disponho-me ao trabalho!
RAMOS — Trabalhará?
Que
não me negue a mão de sua filha,
Porque
eu não posso mais passar sem ela!
RAMOS — Dê-me algum tempo. Vou pensar no caso.
(À parte.) Pois já não me parece tão ridículo!
Não
é ainda o oficial; se o fosse,
Eu
seria incorreto. Ao vir pedir-lhe
Oficialmente
a mão de sua filha,
Vestirei
a casaca e trarei luvas.
(Vai
sentar-se a examinar o álbum.)
RAMOS (À
parte.)
— Voltou a ser ridículo, coitado!
CENA
IX
JOÃO
RAMOS, BENJAMIN FERRAZ, LUCAS, depois AMBROSINA, depois DONA
ANGÉLICA
(Lucas
entra e, admirado de encontrar Benjamin, dirige-se a João Ramos.)
RAMOS
— O pobre Benjamin,
Depois
que minha filha ouviu ao bandolim,
Deitou
paixão violenta, e ao trabalho se
arroja!
(Afasta-se
e vai para junto de Benjamin.)
LUCAS
(À parte.)
—
Maldito bandolim! desperta uma paixão
Que
vai dificultar a minha situação!
(Ambrosina entra e, admirada de encontrar Benjamin, dirige-se a Lucas.)
LUCAS — O nosso Benjamin...
LUCAS
— Graças ao bandolim,
Deitou paixão por
ti, e ao trabalho se arroja!
Até
diz que quer ser caixeiro lá na loja!
(Afasta-se.)
AMBROSINA
(À parte.)
— Maldito bandolim! Se adivinhasse tal,
Ou eu não tocaria ou tocaria mal!
(Entra
dona Angélica e, admirada de encontrar Benjamim, dirige-se a Ambrosina.)
ANGÉLICA
— Então ele ficou?
ANGÉLICA — Mamãe, o resultado,
Da experiência foi o
mais inesperado!
AMBROSINA — Que estás dizendo, filha?
AMBROSINA
— O senhor Benjamin,
Quando me ouviu
tocar, deitou paixão por
[mim!
ANGÉLICA — Paixão?
AMBROSINA — Paixão violenta! E ao trabalho se
arroja!
Até diz que quer ser
caixeiro lá na loja!
ANGÉLICA — E que intentas fazer?
AMBROSINA
— Com ele conversar.
Livres do apaixonado havemos de ficar.
Leve papai pra dentro e tudo lhe revele...
Diga que o Lucas me ama e que eu sou noiva
[dele.
LUCAS
(Descendo entre as duas senhoras.)
— Que estão a
cochichar?
Vai lá pra dentro, vai!
Lá irá ter mamãe, lá
irá ter papai.
LUCAS — Com ele ficas só? Vê lá
o que vais fazer!
AMBROSINA — Nesta combinação
não tens que te meter.
(Lucas
encolhe os ombros e sai.)
Chame
papai.
ANGÉLICA — Ó João, vem cá; de ti preciso
Na sala de jantar.
RAMOS
(Erguendo-se, à parte.)
— Oh, que
mulher de juízo!
Já tudo
compreendeu... e quer deixá-los sós.
(A Angélica.)
(Angélica
sai.A Ambrosina.)
Um maridão! (Sai.)
AMBROSINA — Pois sim!
(Olhando
para Benjamin.)
Agora nós!...
CENA
X
BENJAMIN
FERRAZ, AMBROSINA
(Benjamin
está tão entretido com o álbum, que Ambrosina se aproxima dele sem ser
pressentida.)
AMBROSINA
— Senhor Ferraz?
(Benjamin
estremece, levanta-se e deixa o álbum.)
BENJAMIN — Minha senhora?
Ninguém aqui?...
Ninguém!... Só nós!...
(Quer
retirar-se.)
AMBROSINA
— Oh! venha cá..... não vá-se
embora...
Meto-lhe medo?
BENJAMIN — Estamos
sós...
AMBROSINA — Não é razão para fugir-me.
BENJAMIN — Mas eu não devo aqui ficar.
Do savoir-vivre às
leis sou firme!
Vou para a sala de
jantar.
AMBROSINA — Espere... Peço-lhe que fique...
BENJAMIN — Devo, portanto, obedecer.
AMBROSINA — É necessário que eu lhe
explique...
Tenho uma coisa que
dizer.
BENJAMIN — Tremendo estou! De que se
trata?
AMBROSINA — Dessa... paixão que tem por mim.
BENJAMIN — Paixão terrível, insensata,
Que devo àquele
bandolim!
AMBROSINA
Pois bem, senhor: de mim se
esqueça...
Não alimente essa paixão...
Busque outra moça que o mereça
E tenha livre o coração!
BENJAMIN
— Porém seu pai, minha
senhora...
AMBROSINA — Só do que é seu pode dispor:
Não quererá impor-me
agora
Um casamento sem
amor!
BENJAMIN — Essas palavras, proferidas
Pelos seus lábios virginais,
São cruéis armas homicidas!
Não são palavras: são punhais!
AMBROSINA — Esta satisfação aceite...
BENJAMIN — Quem é, senhora, o meu rival?
AMBROSINA — Lucas, o meu irmão de leite.
BENJAMIN — Ele?! No entanto...
(À
parte.) Então?
que tal?
(Alto.) Amam-se?
AMBROSINA
— Oh! — desde pequenos!
BENJAMIN
(Levando a mão ao peito.)
— Data,
senhora, esta afeição
De menos tempo...
AMBROSINA
— Muito menos.
BENJAMIN
— Mas não tem menos
intenção!
AMBROSINA
— Senhor não vá ficar magoado,
O savoir-vivre assim o quer...
Quem o lugar achar tomado,
Outro procure se quiser.
BENJAMIN
— Diz muito bem.
(Vai buscar o chapéu
e a bengala.)
Oh! fados cegos!
Mágoa cruel comigo vai!
E eu estava pronto a contar pregos!
A ser caixeiro de seu pai!
(Limpa uma lágrima.)
AMBROSINA
— Outra o compreenda! outra o
console!
BENJAMIN
— Vou viajar, pois só assim
Do peito meu talvez se evole
O último som do bandolim!
Adeus, ó sonho meu perdido!
AMBROSINA
—Não se despede de meus pais?
BENJAMIN
— Bastantemente despedido
Já estou aqui. Para
que mais?
Que Deus a faça
venturosa
Hei de a rezar pedir
a Deus!
Adeus, quimera cor
de rosa!
Sonho... ilusão...
visão, adeus! (Sai.)
AMBROSINA
(Só.)
—
Pobre rapaz!
CENA
XI
AMBROSINA,
JOÃO RAMOS, LUCAS, DONA ANGÉLICA, depois o COPEIRO
Vem cá, filhinha,
vem cá!
ANGÉLICA — Não assustes a menina!
RAMOS — O Benjamin onde está?
AMBROSINA
— Deixou-lhe muitas lembranças.
LUCAS — Foi-se?
AMBROSINA — Foi... rezar por mim
RAMOS — Oh, senhor, estas
crianças!
Coitado do Benjamin!
ANGÉLICA — Mas tu... tu nada nos dizes?
RAMOS — Mulher, que posso eu
dizer?
Felizes, muito
felizes
Conto que ambos hão
de ser.
(Entre Lucas e
Ambrosina.)
Mas como nem um
momento
Eu me lembrei,
filhos meus,
De que era este
casamento
Aconselhado por
Deus?
Como visse os dois
maganos
Crescerem nas minhas
mãos,
Durante vinte e dois
anos
Considerei-os
irmãos!
Não me entrou na
fantasia,
Nem um minuto
sequer,
Que dois irmãos
algum dia
Fossem marido e
mulher!
E eu, tonto, andava à
procura
De um genro na
multidão,
Sem reparar que a
ventura
Tinha ao alcance da
mão!
(Deixando-os.)
A culpa tiveste-a, Lucas!
Não foste franco, por quê?
E vocês, suas malucas,
Tiveram medo, de quê?
LUCAS — Temiam que o casamento
Não lhe agradasse
talvez...
RAMOS — Se não há impedimento!
Valha-me
Deus, que vocês!...
Que todo o mundo respeite
A suspirada união!
Beberam do mesmo leite?
Pois comam do mesmo pão!
O
COPEIRO
(Entrando.) — O jantar está na mesa.
RAMOS
— Sim, senhor. Pode
sair,
Mas vá, com toda a
presteza,
Essa casaca despir!
(O
Copeiro sai.)
As etiquetas
dispenso!
Eu para luxos não
dou!
ANGÉLICA — Do badejo que era imenso,
Um bom pedaço ficou.
RAMOS — Do tal almoço é sobejo!
Manda-o da mesa
tirar!
(Dona Angélica sai.)
LUCAS — Mal empregado badejo!
RAMOS — Meus filhos, vamos
jantar.
[(Cai
o pano.)]
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