LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

 Formas e coloridos, de Cruz e Sousa


Textos-fonte:

 

João da Cruz e Sousa, Obra Completa, org. de Lauro Junkes,

Jaraguá do Sul: Avenida, 2008, 2 v.

 

João da Cruz e Sousa, Obra Completa,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

A abelha

Obsessão da noite

Hora certa

Rosicler

Beijos mortos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A abelha

 

 

 NAQUELE DIA a industriosa abelha iriada, como surgisse a manhã num fulgurante pó branco de neblinas e ela fosse desferir o voo até à colmeia onde trabalhava, nos quentes serões, com outras companheiras, perdeu-se em caminho, entre o nevoeiro, como se a cegasse de repente ali aquela alva irradiação matinal.

 

Contudo, animada por uma chama intensa e viva, e que outra cousa não era mais do que o amor à carinhosa colmeia, tentava sempre romper o nevoeiro, ir através da bruma espessa, penetrar nela num arrojo mais de voo, fazendo um pequenino orifício por onde pudesse atravessar, feliz e gloriosamente, o seu gentil organismo diminuto e alado.

 

Mas em vão! A cada esforço empregado em distender para a frente as asas débeis, a cada ímpeto resoluto, a cada impulso tenaz, parecia que a neblina se obstinava em condensar-se, em intensificar-se mais; e estava esta lua já assim há tempo continuada resultando talvez num triste perigo para o volatilizado ser microscópico e sonoro, quando, finalmente, num golpe de luz — o sol irrompeu, surgiu, subiu festivo e triunfoso para o alto, como um redondo cano de ouro cheio de molhos inflamados de loiras espigas ardendo.

 

Perante o brusco emergir flamejante do sol a rápida [...I abelha mais ainda se entonteceu e deslumbrou então; e tanto se deslumbrou e entonteceu que jamais conseguiu vencer a fina gaze diáfana, que, agora, com o súbito clarão já se ia esvaindo no ar...

 

E era inefável, deliciava entretanto ver a abelha presa no éter, sem poder caminhar, sem poder voar, suspensa no azul e doirada pelo sol, como uma leve gota que o sol deixasse pender no espaço, caída das suas rutilantes pedrarias de raios, e librada apenas nos imperceptíveis fios sutis do fluido luminoso.

 

Ah! se a abelha pudesse enviar recado à colmeia, às companheiras, que a viessem tirar bem depressa dali!

 

Mas quem sabia onde era a colmeia?

 

Os reis, que habitam, lá acima, os claros palácios de luxo, entre soberanos confortos sedosos? Os ministros que passam lá embaixo no culto rumor da cidade, fechados no seu coupé, lendo jornais, como dentro de um rodante e tépido gabinete de estudo?

 

A rapariga do campo, que através da frescura dos fenos leva o gado a pastar na grama vasta e viçosa que cintila e fuma pelas manhãs? Quem sabia onde era a colmeia?!

 

Ninguém o saberia decerto! E essa tênue e voejante abelha, embora solta da trama da luz e não obstante claramente saber para que lados ficava a colmeia, erraria em vão pelos vales cheirosos, perdida para todos os pontos daqueles virgens, castos vergéis, — porque esse tempo gasto a vaguear e a vacilar na neblina a cobriria de receio de comparecer, mais uma vez só que fosse, à presença das outras, sem que sentisse nos seus dormentes e enxameados zumbidos a mais acusadora censura e a queixa mais penetrante às horas que, no exigente pensar egoísta e caprichoso das companheiras, ela andara à toa no campo em flor, amando e sugando alguma pétala, em vez de ir por essa radiosa manhã, para o trabalho, abrir, no favo de mel, as curiosidades artísticas aos arabescos filigranados da efervescente colmeia.

 

Também, ó imaginária criatura amada! a peregrina abelha do meu sonho, voando um dia para a vida, foi logo em viagem surpreendida pelas profundas névoas impenetráveis das desilusões, e, sem poder nem prosseguir nem recuar, vencida pela distância e pela altura vertiginosa do ideal, perdeu para sempre, para nunca mais encontrar o desejado rumo, o caminho fluido, luminoso e gorjeante, que vai dar ao teu coração.

 

 

 

Obsessão da noite

 

  

VEM, TARTUFO, rir ao pé de mim a tua risada de fel.

 

O sol, em cima, ri a sua risada de aurora, que tudo aclara e resplende. Mas é em vão para essa risada de luz, que jorra d'alto sobre tudo, que tudo ilumina e floresce.

 

Quero-te a ti, risada de fel, Tartufo! Quero-te a ti, risada do crime, risada da noite, risada da treva.

 

Apavora-me esse sol, eterno, a flamejar, incendiado na altura, porque ele todas as coisas põe em relevo. Eu não quero essa aflitiva evidência da luz — que ri das nossas chagas, ironiza o nosso amor e avulta o nosso remorso.

 

Quero a sombra que esbate os claros aspectos, que esfuminha os longes, que enevoa e quebra a linha dos corpos.

 

A sombra que desce, que se desdobra em noite, em trevas amargas. Esse luto etéreo que tudo esconde e faz repousar no mesmo vasto silêncio.

 

O luto que esconde o crime e esconde a dor, que confunde a máscara hedionda de Gwymplaine com a máscara loura de Vênus.

 

Esse luto, essa noite, essa treva é que eu desejo. Treva deliciosa que me anule entre a degenerescência dos sentimentos humanos. Treva que me disperse no caos, que me eterifique, que me dissolva no vácuo, como um som noturno e místico de floresta, como um voo de pássaro errante. Treva sem fim, que seja o meu manto sem estrelas que eu arraste indiferente e obscuro pelo mundo a fora, arredado dos homens e das cousas, confundido no supremo movimento da natureza, como um ignorado braço de rio, que através de profundas selvas escuras vai sombria e misteriosamente morrer no mar...

 

Nela é que eu quero afundar-me, na noite que me defende da lesma humana que babuja ao sol, à grandeza da luz. Nela é que eu quero viver, na treva que me despe da realidade da vida, que me sepulta e piedosamente consola.

 

Ela tem a majestade para me apagar da vista esses mil animais sinistros e terríveis que, em múltiplas formas diversas, mordem sempre, caminhando para mim ao clarão do dia em truculenta marcha cerrada de massas pesadas e formidáveis. Quero, ó noite niveladora, fria águia negra das solidões infinitas, ir preso nas tuas asas e perder-me, insensivelmente vagar — átomo desconhecido, talvez a gerar longe o mundo de uma nova Dor!

 

 

 

Hora certa

 

 

INEXORAVELMENTE, imperturbavelmente, na inevitabilidade de um pêndulo estranho, o último suspiro há de soar, na hora atroz, que reboará soturna como por cavernas e subterrâneos.

 

Com a alma supliciada de nevroses, assediada por ciúmes inquisidores, através de trêmulos angustiantes de violinos, o Agonizante elevará os olhos claros, cheios já da transfulgência de outras esferas e aspirará, ainda, gemente, Águia triste de solenes asas despedaçadas, os desejos esparsos, perdidos, que para além ficaram no clamor atordoante da Vida.

 

Como por um mapa fabuloso, viajará ainda a imaginação desfalecida pelas regiões de outrora, onde se agitaram, vivas e palpitantes, todas as grandes forças do seu sentir.

 

E, diante dos olhos adivinhadores de belezas secretas; dos olhos penetrantes e gozadores que pousavam inteligentemente nas cousas com finas asas ideais, amando-as, envolvendo-as numa chama de sentimento, nobres olhos de emoção e profundidade; dos olhos, cujo entendimento cintilava quando olhavam curiosamente tudo; diante dos olhos do Agonizante desfilará então a Visão do seu Ideal — Beleza tão radiante, tão doce, que lhe lembrará ao mesmo tempo a frescura iluminada de um vale e a profunda pompa noturna das estrelas.

 

O muito que odiou e o muito que amou, os traços reveladores do seu espírito, formas de enunciação características de sentimento, ondulações voluptuosas de som, tudo, como um fumo, lhe tecerá brumas na retina; e certas recordações, já nebulosas na memória, certas tempestades d'alma, já entrecruzadas, difundidas e repercutidas na tempestade das Esferas, tudo, como um fumo, lhe tecerá brumas na retina.

 

Soberbos oceanos de imaginação onde mergulhou seguro, o desenterramento da sua Obra, do Escuro para a Luz, ressuscitando-a das sepulturas do Nada e fazendo-a logo abrir clarões e asas no Espaço, tudo, tudo há de ecoar, em extremo, nos desvãos do seu cérebro a fenecer, como a vibração esmorecidamente saudosa de rouca fanfarra longínqua no fim crepuscular de triste e ovante vitória assinalada por aclamações e festões de louros, regada abundantemente pelo vinho quente e humano do sangue.

 

E, relembrando cousas, revendo todas as veredas passadas, como quem revolve poeira, se o Agonizante achar então que afinal lhe doeu muito a Vida, consolado morrerá de que sofrendo por rodos teve assim a mais bela e nobre purificação e consagração dessa Dor.

 

E, de reminiscência em reminiscência, consultando no largo, no amplo, no formidável mostrador do Tempo as horas certas do Mundo, — a hora certa para o Amor, a hora certa para o Ouro, a hora certa para o ódio, — sentirá, então, claro, nítido, evidente na eloquência fatal do último suspiro — concentração tremenda de todos os círculos tremendos do Ser — sentirá então que a única hora certa, ó Vida!, é a hora da Morte, quando o último suspiro soa, trêmulo, marcando o inevitável rumo, como um pêndulo estranho que marca horas imponderáveis caindo inexoravelmente, imperturbavelmente...

 

 

 

Rosicler

 

  

IMAGINAR AGORA, saudosa Rosicler, que essa boca virginal, onde têm vivido, esvoaçado e cantado os ardentes pássaros dos beijos, fica gelada e muda, negra, como a boca de uma cova; que o colorido alvoral da tua carne esmaece, morre; que os fluidos Danúbios claros e azuis dos teus olhos somem-se na névoa da morte; que tu toda esfrias horrivelmente nas minhas mãos, num pavoroso contacto de neves álgidas, — hirta, inteiriçada, glacial — como pesado e rígido bloco maciço de mármore branco!

 

E imaginar, também, que a tua infância de flor, de alva magnólia cheirosa cor de luar, na seda fina da pele nívea, foi passada entre os meus braços: todo o delicioso encanto louro dos teus cabelos, a delicada polpa rosada dos teus lábios e as límpidas marchetarias dos teus dentes na láctea candidez do rosto a que os fluidos Danúbios claros e azuis dos teus olhos de ninfa davam frescuras bucólicas de mirtais e de mares meigos da Grécia.

 

E imaginar, também, celeste Rosicler, que tu, já na pubescência, com as nobrezas régias de dama medieval, planta inglesa e forte desabrochada na atmosfera de uma estufa de Lorde, na luxuosa irradiação da formosura, vais, através do aristocrático rumor de cidades, alta e loura, como soberba Águia fidalga que para sempre houvesse abandonado algum antigo, grande palácio renano!

 

Outros chamem-te Aurora! Hoje que já tens a esveltez palmeiral, o viçoso verdor primaveril e que na transparência d'ouro da epiderme dos seios cantam-te inefavelmente os desejos...

 

Outros chamem-te Aurora! Hoje que já o travo picante da perfídia feminina dá um encanto fatal e acídulo à tua cabeça funesta e trêfega e dá volúpias secretas e tentadoras às tuas garridas formas de louro demônio, a essa sedução prófuga e prônuba, entre sílfide e áspide...

 

Outros chamem-te Aurora!

 

Uma vez que ainda diante dos olhos vejo a rosada e consoladora luz difusa da tua Infância; que ainda sinto os leves e perfumados eflúvios da tua voz; o cristalinar do teu riso nos lábios frescos de vida e de leite; os fios sonoros do teu cabelo de sol na primorosa, suave, resplandecente cabeça; agora que tudo isso, enfim, acorda ainda no meu ser a balada longínqua das Recordações, não te chamarei jamais Aurora, mas Rosicler! que lembra os tons alvorais incomparáveis da tua vaporosa existência de aroma, quando eu tinha nos braços, envolta em neblinas paradisíacas do sonho, a tua formosa, suave, resplandecente cabeça, da excelsa idealização de cabeças de Anjos, revivescentemente cinzeladas em astro...

 

 

 

Beijos mortos

 

 

PARA O FRIO SILÊNCIO do firmamento, para a alta sideração das estrelas, os beijos de chama que me deste outrora subiram mortos, frígidos, glaciais, sem aquele quente, inflamado clarão que os tornava apaixonados.

 

Foram-se os beijos e tu te foste também com eles, Alma sonora, Carne de perfume e de luz, cujos olhos, de tanto incomparável amor carinhosamente me falavam.

 

A minha boca, sequiosa e saudosa agora desses beijos que a constelaram, mal pode sonorizar as sílabas de sol — Amor — que tão inefavelmente sonorizava.

 

Foram-se os teus beijos, sumiram-se aqueles astros, que ardiam, e agora, ei-los, já frios, lá acima, no esplendor, esparsos no arqueado Azul infinito...

 

Que brilhem, lá, gélidos, esses beijos mortos, como a serena e sagrada Via-Láctea da Paixão!

 

Para mim, cá da terra, embaixo, eu os verei e os sentirei ainda palpitar para sempre sobre a minha'alma, purificando-a e iluminando-a, miraculosamente, contra o frio veneno negro da Dor, derramada fundo no meu peito por fulvos e inquisitoriais demônios, atropeladamente arremessados à escalada vertiginosa do Mundo!