Correspondência de Machado de Assis

 


 

Obras de referência:

 

Obra Completa, de Machado de Assis, vol. III,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

 

Correspondência. Coligida e anotada por Fernando Nery.

Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1937.

 

Cartas de Machado de Assis e de Euclydes da Cunha.

Coligidas por Remato Travassos. Rio de Janeiro:

Waissman, Reis e Cia. Ldta., 1931.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] AO REDATOR DOS ECOS MARÍTIMOS [Rio de Janeiro, 18 fev. 1862]

 

Meu caro.

 

Praz-me acreditar que, nos longos anos da nossa íntima e nunca estremecida amizade, tenho-te dado sobejas provas de que não costumo subordinar as minhas opiniões ao interesse ou conveniências, e que, errôneas ou verdadeiras, são-me elas sempre ditadas pela consciência.

 

Sabes, que não pertenço ao número desses otimistas que têm sempre nos lábios um elogio e nos bicos da pena uma justificação para todo e qualquer ato do poder, somente porque é do poder.

 

E, pois, tentando defender o atual ministro da marinha de acusações, que julgaste dever dirigir-lhe, faço-o constrangido é verdade, por achar-me em divergência com um amigo a quem muito prezo, mas sem temor de que me classifiques entre os turiferários e amigos interesseiros de que falaste no teu primeiro artigo.

 

Nesta contenda ficaremos colocados em campos opostos, tomaremos mesmo caminhos diversos, mas como ambos temos o mesmo fim, como ambos visamos ao mesmo norte — a elucidação da verdade, — espero que nos encontraremos, e então, como agora, nos poderemos apertar as mãos, porque nem tu, nem eu teremos de que corar.

 

Não tratando por enquanto do teu primeiro artigo, porque nele te limitas a formular capítulos de acusação, que prometes desenvolver mais tarde, ocupar-me-ei com as censuras, que no segundo fazes no sistema que se está seguindo no fabrico do vapor Amazonas.

 

Pensas que semelhante obra seria mais pronta e economicamente realizada, prorrogando-se as horas de trabalho, mediante abono de gratificações de sesta, aos operários.

 

"Por este modo, dizes tu, lucraria o governo que mais cedo teria à sua disposição o Amazonas; lucrariam os operários que com esse acréscimo de salário proporcionariam às suas famílias maior soma de bem estar, lucrariam finalmente os cofres do Estado que poderiam aumentar suas receitas com o aluguel do dique".

 

Para admitir estas conclusões, seria mister, conceder-te que a produção do trabalho durante as 2 horas de sesta é equivalente ao salário de meio dia, em tais casos abonado como gratificação, o que contesto.

 

O trabalho ordinário começa nos nossos arsenais ao nascer do sol e termina às 4 horas da tarde, apenas com interrupção de ½h hora concedida para o almoço; o extraordinário em sesta prolonga-se dessa hora ao anoitecer.

 

Assim o sistema que preconizas exige do operário um esforço continuado de 13 horas!

 

E acreditas que um homem possa, no nosso clima, e durante a estação calmosa, trabalhar com a mesma atividade e perfeição por tão dilatado espaço de tempo, exposto aos raios do sol, que os gigantescos refletores de granito formados pelas paredes do dique, tornam ainda mais abrasador?

 

O bom senso dir-te-á que não.

 

Um ou outro indivíduo, dotado de constituição mais robusta, realizará este supremo esforço no primeiro ou segundo dia, porém, exatamente sucumbirá tentando ultrapassar esse limite.

 

Mas, dir-me-ás, o meio que indico tem por si a sanção de inveterada prática!

 

Nem tudo o que é velho é bom; e não ignoras que mais de um abuso existe enraizado na nossa administração pelo emperrado espírito de rotina.

 

Vês, portanto, que a adoção do alvitre por ti sugerido, longe de produzir as vantagens que apontas, prejudicaria os cofres públicos, que teriam de pagar pela obra feita quantia superior ao seu merecimento; prejudicaria ao serviço naval dando como pronto um vapor que, pelo mal acabado de seu fabrico, teria mais tarde de voltar á posição de disponibilidade.

 

Isto é intuitivo; e seguramente te escapou, porque apenas examinaste a questão por uma face.

 

O dique, como bem dizes, não foi construído para cevar os cofres do tesouro, porém para prestar o seu valioso auxílio ao material da nossa armada; conseguintemente, que importa que os navios neles se demorem mais ou menos dias, se por este modo executam-se radicalmente os concertos de que carecem?

 

Precipitação é antípoda de perfeição.

 

Se isto não fora um axioma, citar-te-ia, como exemplo o vapor Oyapock, que segundo é voz geral saiu do dique fazendo água.

 

Passemos ao outro ponto.

 

O ministro da marinha não se intrometeu em atribuições privativas de outrem nem procurou exercer pressão sobre o espírito dos peritos do arsenal, no intuito de arrancar-lhe opinião favorável ao vapor Princesa de Joinville; sua intervenção neste negócio foi estritamente legal e ditada pelos preceitos da prudência e da justiça.

 

A companhia dos paquetes, como é de praxe, requereu que esse navio fosse vistoriado, mas, empregando as restrições mentais em que é vezeira, não falou do casco, porém simplesmente da máquina ; e os peritos, que sabem ser aquele o ponto vulnerável, lavraram o seu parecer em termos genéricos, declarando que haveria imprudência em arriscar o vapor em uma viagem no oceano.

 

Frustrada a estratégia, voltou a companhia requerendo que se discriminassem os quesitos que tinham servido de base ao juízo da comissão; ao que, como era de seu dever, deferiu o ministro. Eis quanto pela marinha se fez nesse negócio; o mais pertence ao ministro das obras públicas.

 

A meu ver fora melhor ter-se negado à companhia permissão para fazer seguir semelhante vapor aos portos do norte; porém, como foi ela limitada pela proibição de conduzir passageiros, acautelando-se por essa forma a segurança do público, qualquer desastre superveniente apenas alcançará a tripulação e as companhias de seguro, que só terão o direito de queixar-se da sua imprudência, visto que perfeitamente conhecem os riscos que vão correr.

 

Não posso todavia deixar de notar que a companhia, anunciando a saída do Joinville, calasse tão importante circunstância!

 

Acredita-me, amigo, abre mão de pequenas polêmicas de que não poderás tirar glória, não malbarates em pouquidades o talento que Deus te concedeu; volta-te para os grandes interesses do país, disseca as profundas chagas que corroem o nosso corpo social, põe a descoberto a podridão desses cancros que, sob o nome de companhias, absorvem o melhor dos nossos recursos; e protesto-te que, nesse terreno, não tendo forças para acompanhar-te, pelo menos te aplaudirá

 

O sincero amigo

 

M. de A.

 

(publicado no Diário do Rio de Janeiro, 8 fev. 1862).

 

 

 

[2] A QUINTINO BOCAIÚVA [Rio de Janeiro 1862/63.]

 

Meu amigo.

 

Vou publicar as minhas duas comédias de estréia e não quero fazê-lo sem o conselho de tua competência.

 

Já uma crítica benévola e carinhosa, em que tomaste parte. Consagrou a estas duas composições palavras de louvor e animação.

 

Sou imensamente reconhecido, por tal, aos meus colegas da imprensa.

 

Mas o que recebeu na cena o batismo do aplauso pode sem inconveniente, ser trasladado para o papel? A diferença entre os dois meios de publicação não modifica o juízo, não altera o valor da obra?

 

É para a solução destas dúvidas que recorro à tua autoridade literária.

 

O juízo da imprensa via nestas duas comédias -- simples tentativas de autor tímido e receoso. Se a minha afirmação não envolve suspeitas de vaidade disfarçada e mal cabida, declaro que nenhuma outra ambição levo nesses trabalhos. Tenho o teatro por coisa mais séria e as minhas forças por coisa muito insuficiente; penso que as qualidades necessárias ao autor dramático desenvolvem-se e apuram-se com o trabalho: cuido que é melhor tatear para achar; é o que procurei e procuro fazer.

 

Caminhar destes simples grupos de cenas à comédia de maior alcance, onde o estudo dos caracteres seja consciencioso e acurado, onde a observação da sociedade se case ao conhecimento prático das condições do gênero -- eis uma ambição própria de ânimo juvenil e que eu tenho a imodéstia de confessar. E tão certo estou da magnitude da conquista que me não dissimulo o longo estádio que há percorrer para alcançá-la. E mais. Tão difícil me parece este gênero literário que, sob as dificuldades aparentes, se me afigura que outras haverá, menos superáveis e tão sutis, que ainda as não posso Ver.

 

Até onde vai a ilusão dos meus desejos? Confio demasiado na minha perseverança? E Eis o que quero saber de ti.

 

E dirijo-me a ti, entre outras razões, por mais duas, que me parecem excelentes: razões de estima literária e razão de estima pessoal. Em respeito à tua modéstia, calo o que te devo de admiração e reconhecimento.

 

O que nos honra, a mim e a ti, é o que a tua imparcialidade suspeita. Serás justo dócil; terás ainda Dor isso o meu reconhecimento; e eu escapo a esta terrível sentença de um escritor: Les amitiés, qui ne résistent pas à la franchise, valent-elles un regret?

 

Teu amigo e colega

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[3] A DOMINGOS JACI MONTEIRO [Rio de Janeiro, 18 mar. 1864]

 

Il.mo Sr. Dr. Domingos Jaci Mont.ro

 

Dig.o Secret.o Conservat.o dramático Brasileiro.

 

Tenho a honra de remeter a V. S.a a minha comédia em 3 atos intitulada: O Pomo da Discórdia para ser sujeita ao parecer Conservatório Dramático Brasileiro.

 

Deus g. e a V. S.a

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[4] A JOSÉ ALEXANDRE TEIXEIRA DE MELO [Rio de Janeiro, 22 nov. 1864]

 

Meu caro Alexandre.

 

Lembrei-me há dias de ti, e parece que era um eco simpático, visto que também não há muitos dias te lembraste de mim. A distância não descasou os nossos espíritos, tão sinceramente amigos um do outro.

 

O que me fez lembrar de ti foi o silêncio e o isolamento a que te condenaste. Deixaste o bulício da corte, e foste esconder a tua musa no interior da província, sem saudade do que deixavas, nem confiança no que podia vir.

 

Ora, se te condeno pela falta de confiança no que te podia vir das mãos do futuro, — e muito deve ser para um talento como o teu, — aplaudo-te no que se refere a não conservares saudades do que abandonavas, saindo da vida ruidosa deste centro, e procurando um refúgio ameno no interior da província.

 

Lá, segundo creio, estás a dois passos dos espetáculos divinos da natureza, cercado das alegrias aprazíveis da família, influenciado pelo olhar do filho e pelo olhar da esposa, quase feliz ou inteiramente feliz, como não é comum lograr neste mundo.

 

Ainda hoje, como outrora, como sempre, a alma do poeta precisa de ar e de luz, — morre se as não tem, ou, pelo menos, desmaia no caminho. Vê daí que luta, que esforço, que milagre não é conservar a gente o ideal e as ilusões através desta lama podre em que patinha, — verdadeiro consolo para os patos, mas tristíssimas agonias para os cisnes. Que cisnes! e que patos! Como a maioria é dos últimos, os primeiros, — ou têm a coragem de fugir-lhes e ir procurar águas mais límpidas e mais puras, — ou então morrem asfixiados na podridão.

 

Há uma terceira hipótese a que não aludo por não desgostar ninguém.

 

Bem hajas tu, ó poeta, que tiveste coragem de ir buscar refúgio para a musa. Não digo que onde quer que vais (sic) não encontres os mesmo homens, mas ao menos terás mais tempo de conversar com os cedros e os ribeiros, — dos quais ainda nenhum te caluniou, nem te mentiu, nem te enjoou.

 

Mas, repara bem, se te invejo o isolamento a que te condenaste, não aplaudo o silêncio da tua musa, da tua musa loura e pensativa, de quem eu andei tão namorado outrora.

 

É que, se podes tomar uma resolução de Alceste, é só com a condição de não deixares no caminho a inspiração, como se fora bagagem inútil. Graças a Deus, é ela a maior consolação e a maior glória das almas destinadas a serem os intérpretes da natureza e do Criador. Os espíritos sérios, graves, positivos, não trocariam, decerto, uma estrofe por um lance político de sua preparação; mas, a despeito desse desdém, continua provado que os referidos espíritos sérios e graves só têm de grave e de sério as denominações, - que eles próprios se dão entre si.

 

Se, em vez de te refugiares como andorinha friorenta, houvesses ficado no tumulto da vida, quem sabe se — (tremo em pensá-lo!) — quem sabe se não acordavas um dia com alma de político?

 

Ah! então é que eu te dava por perdido de uma vez.

 

Não é que eu comparta a opinião do Senhor barão de São Lourenço, senador pela Bahia, a quem parece que poetas não servem para nada em política, mormente quando são moços, isto é, quando ainda conservam um pouco de entusiasmo e um pouco de convicção.

 

Quando aquele senador disse algumas frioleiras nesse sentido perante o senado brasileiro, tive eu a honra de consagrar o fato nesta revista, acompanhado por alguns comentários de casa. O ilustre varão cantou daí a dias uma palinódia muito mal arranjada, sob pretexto de retificação.

 

Não, eu não sou dos que acham que os poetas são incapazes para a política. O que penso é que os poetas deviam evitar descer a estas coisas tão baixas, deviam pairar constantemente nas montanhas e nos cedros — como condores que são.

 

Afinal de contas, os homens que não são sérios e graves, são exatamente os homens graves e sérios. Demócrito continua a ter razão: só é sério aquilo que o não parece.

 

Mas eu insisto em lamentar que juntasses à tua solidão o teu silêncio. Quisera saber de ti, por que motivo fizeste emudecer a lira tão auspiciosa e apagar a inspiração tão prometedora. Contos largos, talvez. Ninguém cala a voz íntima e impetuosa, por causas símplices e passageiras; escreve daí um folhetim, em que me contes todas essas coisas.

 

Já te disse como e por que pensei em ti; agora vou dizer-te o modo por que pensaste em mim.

 

Ah! tu cuidavas que o anônimo te encobria! Tive quem mo revelasse, e nem precisava, porque era ler aquelas cinqüenta linhas de prosa da Alvorada Campista, para ver-te logo, tal qual és, tímido, receoso, delicado.

 

Se Casimiro de Abreu fosse vivo, e estivesse em Campos, ainda eu poderia hesitar. Éreis ambos os mais tímidos, os mais delicados, os mais receosos caracteres que tenho visto. Mas Casimiro lá se foi caminho da eternidade, não vejo outro que pudesse escrever aquilo e por aquele modo.

 

Pois a publicação de um autógrafo meu, só porque não tinhas autorização, carecia de tantas escusas, de tantos rodeios, tantos sustos, tantos perdões? Não tinhas mais do que publicá-lo, embora me não conviesse — e está longe disso — era coisa sem grande resultado.

 

Se algum efeito mau produziu essa publicação, foi o do desgosto de não ter o autógrafo comigo, porque o incluía no meu livro, de que ainda não te mandei um exemplar, por não ter sobeja confiança no correio, e não saber ao certo aonde devia mandá-lo.

 

Além deste, produziu outro efeito mau no meu espírito a tua publicação. É que eu preferia, em vez dos meus versos, ter versos teus, compostos agora, lá na tua solidão. Em resumo, em vez de dares à publicidade as obras alheias, cujos originais possuis, devias revelar ao público as novas meditações da tua musa, os teus melhores sonhos e as tuas sombras mais belas.

 

Se os olhos de algum hipócrita correm agora por estas colunas, não hesito em crer que está naturalmente pensando entre si que estas últimas linhas nada têm de sinceras; mas como escrevo para ti, que me acreditas, importo-me mediocremente com o juízo que possa fazer o referido hipócrita, — se algum me lê.

 

Ora, eis aí tudo o que eu tinha para te dizer, aproveitando a via do folhetim, na esperança de que ele chegará às tuas mãos.

 

Concluo repetindo — que não podes nem deves deixar a musa em ócio, porque, além de um pecado, seria uma desconsolação. Se és feliz, escreve; se és infeliz, escreve também. O remédio assemelha-se um pouco às panacéias universais inventadas pelos charlatães, mas também é o único remédio que não se vende, porque Deus o dá aos seus escolhidos. É inútil dizer que para ser escolhido não basta rimar algumas estrofes em horas de desfastio, — é preciso sentir a poesia, como tu, e morrer com ela, como Casimiro de Abreu.

 

Machado de Assis

 

 

 

[5] A   QUINTINO BOCAIÚVA [Rio de Janeiro, 29 out. 1866]

 

Meu Quintino.

 

Sei pelas folhas do Pará que fizeste até ali uma boa viagem, e estimo d’alma que o mesmo sucedesse até New York. Imagino, meu amigo, que há de ser uma coisa triste e difícil o separar-se a gente de criaturas que lhe são caras; faço idéia do que terás sofrido. Ao menos, porém, se há compensação para isto, deves consolar-te um pouco com a idéia de que tens uma viva saudade em todos quantos apreciam o teu caráter e o teu coração, e que esses, como a tua família, têm um desejo: o de que voltes ao teu país, depois de preenchido o teu dever e garantido o teu futuro.

 

O Saldanha já está na posse do governo de Minas, e já escreveu ao Belfort, com quem continuo a trabalhar no Diário do Rio. Foi o Saldanha recebido com entusiasmo em Ouro Preto, como verás pelas notícias dos jornais. Eu, no Diário, vou fazendo o trabalho do costume, e mais um ou outro artiguinho de fundo quando é necessário. Alguns são por indicação do Afonso Celso com quem tenho estado.

 

Agradeço-te outra vez a recomendação que de mim fizeste ao Afonso. Achei-o nas melhores disposições a meu respeito, e segundo me afirmou ainda ontem, estarei empregado até janeiro, e com bom emprego. Disse-me que devia haver brevemente uma vaga de 2.º oficial na secretaria do império, e eu pela minha parte falei-lhe na de 1.º oficial na da agricultura. Qualquer desses, ou outro, disse-me ele, ser-me-á dado. Nunca houve emprego que viesse mais a propósito do que esse que me dizem.

 

Verás pelas folhas que alterações houve por aqui: a entrada do Sá e Albuquerque para o ministério, a nomeação do Caxias para comandante-em-chefe das novas forças no Paraguai, a demissão do Ferraz, e o título de barão de Uruguaiana, que o imperador lhe deu etc. Saberás também das propostas de paz feitas pelo Lopes, da recusa, do revés do Curupaiti etc. Quanto ao mais, nada de novo, completo silêncio em política. A nomeação de Caxias, além da importância do homem, tem por fim acabar com as dissidências entre o Porto Alegre e o Polidoro, que eram graves. Parece que os dois não perdem o comando dos seus corpos, mas ficam subordinados a Caxias, que comandará todas as forças. Falou-se na demissão do Tamandaré, mas nada sei.

 

Tu a estas horas terás tido o prazer de ouvir a Ristori, de quem o Herald fala com tanto entusiasmo. Manda-me dizer a tua opinião. Se tiveres tempo, escreve também as tuas impressões do país nas cartas que me mandares, e não te esqueças do our american cousin e das poesias de Longfellow, se houver. Daqui irá aquilo que se publicar de notável, e de interesse.

 

Repito o que te disse na véspera da tua partida. Quando precisares de mim aqui, manda as tuas ordens, e achar-me-ás sempre pronto para tudo.

 

Adeus, meu Quintino, sê feliz, e volta breve ao Brasil, onde tanta gente, valendo menos que tu, tem tido a inexplicável fortuna de nos governar este barco.

 

Adeus.

 

Teu do coração,

 

Machado de Assis.

 

Meu parágrafo ao Caymari. Dá-lhe lembranças e saudades; pergunta-lhe se os seus amores, não sei se santos, se profanos, ainda lhe existem em memória; pede-lhe que me escreva; e dize-lhe finalmente que acredite na amizade do Austríaco.

 

 

 

[6] A JOSÉ DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 29 fev. 1868.]

 

Exmo. Sr.

 

É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V. Exa, com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz intróito na vida literária. Abre os olhos em pleno Capitólio. Os seus primeiros cantos obtêm o aplauso de um mestre.

 

Mas se isto me entusiasma, outra coisa há que me comove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inútil fora dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Ex.a, mais do que uma animação generosa.

 

A tarefa da crítica precisa destes parabéns; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloqüente de um chefe é muitas vezes necessária para reavivar as forças exaustas e reerguer o ânimo abatido.

 

Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de crítica, fui movido pela idéia de contribuir com alguma coisa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e efetivamente se perde. Meus limitadíssimos esforços não podiam impedir o tremendo desastre. Como impedi-lo, se, por influência irresistível, o mal vinha de fora, e se impunha ao espírito literário do país, ainda mal formado e quase sem consciência de si? Era difícil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de literatura, sem alento nem ideal, falseada e frívola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Ex.a, sabem exprimir sentimentos e idéias na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam opor um dique à torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal.

 

Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: e a este já não era a inteligência que se expunha, era o caráter. Compreende V.Exa. que, onde a crítica não é instituição formada e assentada, a análise literária tem de lutar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais belas crianças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se afetos. Desfiguram-se os intentos da crítica, atribui-se à inveja o que vem da imparcialidade; chama-se antipatia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que ele não pesaria no ânimo de quem põe acima do interesse pessoal o interesse perpétuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também.

 

Cansados de ouvir chamar bela à poesia, os novos atenienses resolveram bani-la da república.

 

O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veio sentar-se no santuário e assim generalizou-se uma crise funesta às letras. Que enorme Alfeu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias?

 

Eu bem sei que no Brasil, como fora dele, severos espíritos protestam com o trabalho e a lição contra esse estado de coisas; tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do século. Mas sempre há de triunfar a vida inteligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel; contudo, entendia e entendo — adotando a bela definição do poeta que V. Ex.a. dá em sua carta — que há para o cidadão da arte e do belo deveres imprescritíveis, e que, quando uma tendência do espírito o impele para certa ordem de atividade, é sua obrigação prestar esse serviço às letras.

 

Em todo o caso não tive imitadores. Tive um antecessor ilustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria prosseguido no caminho das suas estréias, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as criações que depois nos deu. Será preciso acrescentar que aludo a V. Ex.a?

 

Escolhendo-me para Virgílio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a própria carta de V. Ex.a não houvesse aberto ao neófito as portas da mais vasta publicidade. A análise pode agora esmerilhar nos escritos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito.

 

Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural ansiedade que nos produz a notícia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos. Não tive, como V. Ex.a, a fortuna de os ouvir diante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes diante de mim: não tinha os pés nessa formosa Tijuca, que V. Ex.a. chama de um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano. Em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara à loucura: estávamos no carnaval.

 

No meio desse tumulto abrimos um oásis de solidão.

 

Ouvi o Gonzaga e algumas poesias.

 

V. Ex.a. já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou consigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo público, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escritos do poeta.

 

Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista — no dizer, nas idéias e nas imagens. Copiá-las é anular-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se adivinha que a sua escola é a de Vítor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irmã levou-o a preferir o poeta das Orientais ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode.

 

Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com igual inspiração e método idêntico; a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma forma esculpida com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possui; veste as suas idéias com roupas finas e trabalhadas. O receio de cair em um defeito não o levará a cair no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja dele. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas belezas.

 

O drama, esse li-o atentamente; depois de ouvi-lo, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada página do volume.

 

O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metáforas enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sófocles pede as asas a Píndaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o céu de lona e arroja-se ao espaço livre e azul.

 

Esta exuberância, que V. Ex.a. com justa razão atribui à idade, concordo que o poeta há de reprimi-la com os anos. Então conseguirá separar completamente língua lírica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje.

 

Estreando no teatro com um assunto histórico, e assunto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidência tinham além disso a auréola do martírio. Que melhor assunto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquela veneração que as raças livres devem aos seus Espartácos. O insucesso fê-los criminosos; a vitória tê-los-ia feito Washington. Condenou-os a justiça legal; reabilita-os a justiça histórica.

 

Condensar estas idéias em uma obra dramática, transportar para a cena a tragédia política dos Inconfidentes, tal foi o objeto do Sr. Castro Alves, e não pode esquecer que, se o intuito era nobre, o cometimento era grave. O talento do poeta superou a dificuldade; com uma sagacidade, que eu admiro em tão verdes anos, tratou a história e a arte por modo que, nem aquela o pode acusar de infiel, nem esta de copista. Os que, como V. Ex.a, conhecem esta aliança, hão de avaliar esse primeiro merecimento do drama do Sr. Castro Alves.

 

A escolha de Gonzaga para protagonista foi certamente inspirada ao poeta pela circunstância dos seus legendários amores, de que é história aquela famosa Marília de Dirceu. Mas não creio que fosse só essa circunstância. Do processo resulta que o cantor de Marília era tido por chefe da conspiração, em atenção aos seus talentos e letras. A prudência com que se houve desviou da sua cabeça a pena capital. Tiradentes, esse era o agitador; serviu à conspiração com uma atividade rara; era mais um conspirador do dia que da noite. A justiça o escolheu para a forca. Por tudo isso ficou o nome ligado ao da tentativa de Minas.

 

Os amores de Gonzaga traziam naturalmente ao teatro o elemento feminino, e de um lance casavam-se em cena a tradição política e a tradição poética, o coração do homem e a alma do cidadão. A circunstância foi bem aproveitada pelo autor; o protagonista atravessa o drama sem desmentir a sua dupla qualidade de amante e de patriota; casa no mesmo ideal os seus dois sentimentos. Quando Maria lhe propõe a fuga, no terceiro ato, o poeta não hesita em repelir esse recurso, apesar de ser iminente a sua perda. Já então a revolução expira; para as ambições, se ele as houvesse, a esperança era nenhuma; mas ainda era tempo de cumprir o dever. Gonzaga preferiu seguir a lição do velho Horário corneiliano; entre o coração e o dever a alternativa é dolorosa. Gonzaga satisfaz o dever e consola o coração. Nem a pátria nem a amante podem lançar-lhe nada em rosto.

 

O Sr. Castro Alves houve-se com a mesma arte em relação aos outros conjurados. Para avaliar um drama histórico, não se pode deixar de recorrer à história; suprimir esta condição é expor-se a crítica a não entender o poeta.

 

Quem vê o Tiradentes do drama não reconhece logo aquele conjurado impaciente e ativo, nobremente estouvado, que tudo arrisca e empreende, que confia mais que todos no sucesso da causa, e paga enfim as demasias do seu caráter com a morte na forca e a profanação do cadáver? E Cláudio, o doce poeta, não o vemos todo ali, galhofeiro e generoso, fazendo da conspiração uma festa e da liberdade uma dama, gamenho no perigo, caminhando para a morte com o riso nos lábios, como aqueles emigrados do Terror? Não lhe rola já na cabeça a idéia do suicídio, que praticou mais tarde, quando a expectativa do patíbulo lhe despertou a fibra de Catão, casando-se com a morte, já que se não podia casar com a liberdade? Não é aquele o denunciante Silvério, aquele o Alvarenga, aquele o Padre Carlos? Em tudo isso é de louvar a consciência literária do autor. A história nas suas mãos não foi um pretexto; não quis profanar as figuras do passado, dando-lhes feições caprichosas. Apenas empregou aquela exageração artística, necessária ao teatro, onde os caracteres precisam de relevo, onde é mister concentrar em pequeno espaço todos os traços de uma individualidade, todos os caracteres essenciais de uma época ou de um acontecimento.

 

Concordo que a ação parece às vezes desenvolver-se pelo acidente material. Mas esses raríssimos casos são compensados pela influência do princípio contrário em toda a peça.

 

O vigor dos caracteres pedia o vigor da ação; ela é vigorosa e interessante em todo o livro; patética no último ato. Os derradeiros adeuses de Gonzaga e Maria excitam naturalmente a piedade, e uns belos versos fecham este drama, que pode conter as incertezas de um talento Juvenil, mas que é com certeza uma invejável estréia.

 

Nesta rápida exposição das minhas impressões, vê V. Ex.a que alguma coisa me escapou. Eu não podia, por exemplo, deixar de mencionar aqui a figura do preto Luís. Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a idéia da abolição. Luís representa o elemento escravo. Contudo o Sr. Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr naquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela luta entre a natureza e o fato social, entre a lei e o coração. Luís espera da revolução, antes da liberdade, a restituição da filha é a primeira afirmação da personalidade humana; o cidadão virá depois. Por isso, quando no terceiro ato Luís encontra a filha já cadáver, e prorrompe em exclamações e soluços, o coração chora com ele, e a memória, se a memória pode dominar tais comoções, nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordélia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem.

 

Cumpre mencionar outras situações igualmente belas. Entra nesse número a cena da prisão dos conjurados no terceiro ato. As cenas entre Maria e o governador também são dignas de menção, posto que prevalece no espírito o reparo a que V. Ex.a aludiu na sua carta. O coração exigira menos valor e astúcia da parte de Maria; mas, não é verdade que o amor vence as repugnâncias para vencer os obstáculos? Em todo o caso uma ligeira sombra não empana o fulgor da figura.

 

As cenas amorosas são escritas com paixão; as palavras saem naturalmente de uma alma para outra, prorrompem de um para outro coração. E que contraste melancólico não é aquele idílio às portas do desterro, quando já a justiça está prestes a vir separar os dois amantes!

 

Dir-se-á que eu só recomendo belezas e não encontro senões? Já apontei os que cuidei ver. Acho mais — duas ou três imagens que me não parecem felizes; e uma ou outra locução susceptível de emenda. Mas que é isto no meio das louçanias da forma? Que as demasias do estilo, a exuberância das metáforas, o excesso das figuras devem obter a atenção do autor, é coisa tão segura que eu me limito a mencioná-las; mas como não aceitar agradecido esta prodigalidade de hoje, que pode ser a sábia economia de amanhã?

 

Resta-me dizer que, pintando nos seus personagens a exaltação patriótica, o poeta não foi só à lição do fato, misturou talvez com essa exaltação um pouco do seu próprio sentir. É a homenagem do poeta ao cidadão. Mas, consorciando os sentimentos pessoais aos dos seus personagens, é inútil distinguir o caráter diverso dos tempos e das situações. Os sucessos que em 1822 nos deram uma pátria e uma dinastia, apagaram antipatias históricas que a arte deve reproduzir quando evoca o passado.

 

Tais foram as impressões que me deixou este drama viril, estudado e meditado, escrito com calor e com alma. A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; e um penhor que nos dá. Quando voltar aos arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a não na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas.

 

O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra? É um ponto de interrogação que há de ter surgido no espírito de V. Ex.a. Contra estes intuitos, tão santos quanto indispensáveis, eu sei que há um obstáculo, e V. Ex.a o sabe também: é a conspiração da indiferença.

 

Mas a perseverança não pode vencê-la? Devemos esperar que sim.

 

Quanto a V. Ex.a, respirando nos degraus da nossa Tijuca o hausto puro e vivificante da natureza, vai meditando, sem dúvida, em outras obras-primas com que nos há de vir surpreender cá embaixo. Deve fazê-lo sem temor. Contra a conspiração da indiferença, tem V. Ex.a um aliado invencível: é a conspiração da posteridade.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[7] A CAROLINA [Rio de Janeiro, 2 mar. 1868/9]

 

Minha querida C.

 

Recebi ontem duas cartas tuas, depois de dois dias de espera. Calcula o prazer que tive, como as li, reli e beijei! A m.a tristeza em converteu se em súbita alegria. Eu estava tão aflito por ter notícias tuas que saí do Diário a 1 hora para ir à casa e com efeito encontrei as duas cartas, uma da quais devera ter vindo antes, mas que, sem dúvida, por causa do correio, foi demorada. Também ontem deves ter recebido duas cartas minhas; uma delas, a que foi escrita no sábado, levei-a no domingo às 8 horas ao correio, sem lembrar-me (perdoa-me!) que ao domingo a barca sai às 6 horas da manhã. Às quatro horas levei a outra carta e ambas devem ter seguido ontem na barca das duas horas da tarde. Deste modo, não fui eu só quem sofreu com demora de cartas. Calculo a tua aflição pela minha, e estou que será a última.

 

Eu já tinha ouvido cá que o M. alugara a casa das Laranjeiras, mas o que não sabia era que se projetava essa viagem a Juiz de Fora. Creio, como tu, que os ares não fazem nada ao F.; mas compreendo também que não é possível dar simplesmente essa razão. No entanto, lembras perfeitamente que a mudança para outra casa cá no Rio seria excelente para todos nós. O F. falou-me nisso uma vez e é quanto basta para que se trate disto. A casa há de encontrar-se, porque empenha-se nisto o meu coração. Creio, porém, que é melhor conversar outra vez com o F. no sábado e ser autorizado positivamente por ele. Ainda assim, temos tempo de sobra: 23 dias; é quanto basta para que o amor faça um milagre, quanto mais isto que não é milagre nenhum.

 

Vais dizer naturalmente que eu condescendo sempre contigo. Por que não? Sofreste tanto que até perdeste a consciência do teu império; estás pronta a obedecer; admiras-te de seres obedecida. Não te admires, é coisa muito natural; és tão dócil como eu; a razão fala em nós ambos. Pedes-me coisas tão justas, que eu nem teria pretexto de te recusar se quisesse recusar-te alguma coisa, e não quero.

 

A mudança de Petrópolis para cá é uma necessidade; os ares não fazem bem ao F., e a casa aí é um verdadeiro perigo para quem lá mora. Se estivesses cá não terias tanto medo dos trovões, tu que ainda não estás bem brasileira, mas que o hás de ser espero em Deus.

 

Acusas-me de Pouco, confiante em ti? Tens e não tens razão; confiante sou; mas, se te não contei nada é porque não valia a pena contar. A minha história passada do coração, resumem-se em dois capítulos: um amor, não correspondido; outro, correspondido. Do primeiro nada tenho que dizer; do outro não me queixo; fui eu o primeiro a rompê-lo. Não me acuses por isso; há situações que se não Prolongam sem sofrimento. Uma senhora de minha amizade obrigou-me, com Os seus conselhos, a rasgar a página desse romance sombrio; fi-lo com dor, mas sem remorso. Eis tudo.

 

A tua pergunta natural é esta: Qual destes dois Capítulos era o da Corina? Curiosa! Era o primeiro. O que te afirmo é que dos dois o mais amado foi o segundo.

 

Mas nem o primeiro nem o segundo se parecem nada corri o terceiro e último capítulo do meu coração. Diz a Stäel que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessas, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como os teus são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa razão tão reta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias pelo teu sexo. Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar. Como te não amaria eu? Além disso tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É a ambição dizer à tua grande alma desanimada: "levanta-te, crê e ama; aqui está uma alma que te compreende e te ama também".

 

A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, estou que saberei desempenhar este agradável encargo.

 

Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da M.a felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz?

 

Obrigado pela que me mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse em ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma.

 

Sábado é o dia de minha ida; faltam poucos dias e está tão longe! Mas que fazer? A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom conosco.

 

Volto à questão da casa; manda-me dizer se aprovas o que te disse acima, isto é, se achas melhor conversar outra vez com o F. e ficar autorizado por ele, a fim de não parece ao M. que eu tomo uma intervenção incompetente nos negócios de sua família. Por ora, precisamos de todas estas precauções. Depois... depois, querida, queimaremos o mundo, por que só é verdadeiramente senhor do mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti. Escreve-me e crê no coração do teu

 

MACHADINHO.

 

 

 

[8] A CAROLINA [Rio de Janeiro, 2 mar. 1868/9?]

 

Minha Carola.

 

a esta hora deves ter em mão a carta que te mande hoje mesmo, em resposta às duas que ontem recebi. Nela foi explicada a razão de não teres carta no domingo; deves ter recebido duas na segunda feira.

 

Queres saber o que fiz no domingo? Trabalhei e estive em casa. Saudades de minha C., tive-as como podes imaginar, e mais ainda, estive aflito, como te contei, por não ter tido cartas tuas durante dois dias. Afirmo-te que foi um dos mais tristes que tenho passado.

 

Para imaginares a minha aflição, basta ver que cheguei a suspeitar oposição do F. como te referi numa das minhas últimas cartas. Era mais do que uma injustiça, era uma tolice. Vê lá: justamente quando eu estava a criar estes castelos no ar, o bom F. conversava a meu respeito com a A. e parecia aprovar as minhas intenções (perdão, as nossas intenções.) Não era de esperar outra coisa do F.; foi sempre amigo meu, amigo verdadeiro, dos poucos que, no meu coração tem sobrevivido às circunstâncias e ao tempo. Deus lhe conserve os dias e lhes restitua a saúde para assistir à minha e à tua felicidade.

 

Contou-me hoje o Araújo que, encontrando-se num dos carros que fazem viagem para Botafogo e Laranjeiras, com o Miguel, este lhe dissera que andava procurando casa por ter alugado a outra. Não sei se essa casa que ele procura é só para ele se para toda a família. Achei conveniente comunicar-te isto; não sei se Já sabes alguma coisa a este respeito. No entanto, espero também a tua resposta ao que te mandei dizer na carta de ontem, relativamente à mudança.

 

Dizes que, quando lês algum livro, ouves unicamente as minhas palavras, e que eu te apareço em tudo e em toda a parte? É então certo que eu ocupo o teu pensamento e a tua vida? Já mo disseste tanta vez, e eu sempre a perguntar-te a mesma coisa, tamanha me parece esta felicidade. Pois, olha; eu queria que lesses um livro que eu acabei de ler dias; intitula-se: A Família. Hei de comprar um exemplar para lermos em nossa casa como uma espécie Bíblia Sagrada. É um livro sério, elevado e profundo; a simples leitura dá vontade de casar.

 

Faltam quatro dias; daqui a quatro dias terás lá a melhor carta que eu te poderei mandar, que é a minha própria pessoa, e ao mesmo tempo lerei o melhor. [.....].

 

 

 

[9] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro, 19 nov. 1869]

 

Meu caro Paz.

 

Estimo muito e muito as tuas melhoras, e sinto deveras não ter podido ir ver-te antes da tua partida para a Tijuca. Agradeço-te as felicitações pelo meu casamento. Aqui estamos na Rua dos Andradas, onde serás recebido como um amigo verdadeiro e desejado.

 

Infelizmente ainda não te posso mandar nada da continuação do drama. na tua carta de 8 deste-me parte da tua moléstia e pediste-me que preparasse a coisa para a segunda-feira próxima. Não reparaste certamente na impossibilidade disto. Eu contava com aquele adiantamento e a tua carta anulou todas as minhas esperanças. Não imaginas o que me foi preciso fazer desde segunda-feira à noite até sexta-feira de manhã. De ordinário é sempre de rosas o período que antecede o noivado; para mim foi de espinhos. Felizmente o meu esforço esteve na altura de minha responsabilidade e eu pude obter por outros meios os recursos necessários na ocasião. Ainda assim não pude ir além disso; de maneira que, agora mesmo, estou trabalhando para as necessidades do dia visto que só do começo do mês em diante poderei regularizar a minha vida.

 

Tais são as coisas pelas quais não pude continuar o nosso trabalho; continuá-lo-ei desde que tiver folga para isso. Ele me será necessário, e tu sabes que eu não poupo esforços. Espero porém que me desculpes se neste momento estou curando da solução de dificuldades que eu não previa nem esperava.

 

Se a Tijuca não fosse tão longe iria ver-te. Apenas vieres para casa, avisa-me a fim de te fazer a competente visita e conversarmos acerca da conclusão da obra.

 

Teu

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[10] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro, 1869.]

 

Paz:

 

No domingo bati e rebati à tua porta. Nem viva alma. Queria dizer-te o que houve a respeito de bilhetes, e ao mesmo tempo falar-te de uma idéia soberba!!! Manda dizer onde me podes falar; caso recebas esta carta depois de vir o portador dela, escreve, para m.a casa (Andradas 119) e marcando hora e lugar hoje.

 

A coisa urge.

 

Teu

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[11] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro, 1 mai. 1870?]

 

Paz.

 

Procurei-te ontem e anteontem em casa, e não te achei. Hoje, se te não encontrar, deixarei esta carta, pedindo-te que me esperes amanhã de manhã para conversarmos sobre aquilo. Sei que tens andado ocupado, e temo importunar-te com estes pedidos; mas, como te disse, não tenho outro recurso, e desejava concluir o negócio o mais cedo que fosse possível. Não insisto. Não insisto sobre a importância capital do serviço que me estás prestando; tu bem o compreendes, e sabes além disso qual é a minha situação. Não pude arranjar a coisa só por mim, vê se consegues isso, e repara que os dias vão correndo. Ajuda-me, Paz; eu não tenho ninguém que o faça. Conselhos, sim; serviços, nada./ Espera-me amanhã, domingo; irei às dez horas e meia para dar-te tempo de concluir o sono que por ser domingo, creio que irá até mais tarde./Teu

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[12] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro, s/d.]

 

Paz ami.o. /Ainda preciso daquilo de que te falei. Vê se me arranjas, e deixo ao teu parecer as condições, que conto serão razoáveis, favoráveis para mim

 

Todo teu

 

M. d'ASSIS.

 

 

 

[13] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro, s/d.]

 

Meu caro Paz.

 

A pressa com que se precisa dos versos, a aglomeração de trabalho que sobrevivo agora, e as circunstâncias referidas na nossa conversa anteontem me impedem de servir-te como estava decidido. Não te acanhes, se levar nisso gr.o interesse de afeição; farei então o trabalho a todo o custo; mas, se o caso é como me disseste, vê se me hás por dispensado, e crê-me teu

 

am.o do C.

 

MACHADO DF ASSIS.

 

 

 

[14] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro. s/d.]

 

Meu Paz.

 

O homem que se encarregou da tal folha de Lisboa quer saber dos passos que se devem dar, direitos que se pagam e coisas análogas para tirar os jornais do vapor, apenas ele chegar. Peço-te encarecidamente que vejas isto hoje, porque amanhã chega o paquete. Tenho certa responsabilidade nisto. /Teu

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[15] A DESTINATÁRIO IGNORADO [Rio de Janeiro, 14 jun. 1870.]

 

Exmo. Sr.

 

Era resolução minha, de acordo com o recado que de V. Ex.a recebi, por intermédio de nosso comum amigo o Dr. França, esperar a chegada do Sr. Oliveira para nos entendermos todos três a respeito do trabalho que faço para o Jornal da Tarde como tradutor do folhetim. Nisto atendia eu à consideração devida para com os dignos proprietários do Jornal da Tarde.

 

Sobreveio porém uma circunstância que me obriga a modificar aquela resolução, e a dizer a V. Ex.a que não posso continuar a traduzir o folhetim como até agora fazia. Não querendo pôr embaraços ao Jornal da tarde, continuarei a tradução até sábado 18. Não me demorarei em dizer a V. Ex.a, com que pesar sou obrigado o interromper este trabalho que eu fazia com maior vontade que aptidão; temo que se possa confundir um sentimento verdadeiro com uma fórmula de ocasião.

 

Qualquer que seja porém este meu pesar, não pode influir nas circunstâncias que me determinam. Considere-me V. Ex.a, como sempre.

 

Af.o am.o e obr.o cr.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[16] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 20 juL. 1871.]

 

Não, meu caro Salvador, não é uma análise de Luís XI, é apenas um grito de admiração. A melhor análise, concisa embora, já tu a fizeste, com esse estilo castigado e brilhante da tua carta a Francisco Otaviano. Ou, então, se alguém mais devia fazê-la, porque não retiveste na arena literária o egrégio escritor em cujos lábios a natureza pôs “o sal e o mel de Atenas” e que a política nos levou para si? Lograste arrancá-lo às lutas do areópago para trazê-lo às palestras da Academia. Era muito; devia ser. Devíamos guardá-lo cá entre as musas que tão suas foram sempre, que o amam apesar de ingrato, e que afinal tudo perdoam como boas damas que são.

 

A esse ou a outro, devias cometer o encargo de analisar o Luís XI, que o Rossi evocou do túmulo para assombrar, não já a um escasso número de nababos, mas a uma platéia compacta e ofegante. A mim não, meu querido poeta. Eu, por mais que me iluda a vontade, não passo de um férvido admirador do belo. Alguma vez, e não rara, fiz aí críticas e análises; mas tão elevada e séria me parece esta função de julgar, que (custa pouco a dizê-lo) sempre me achei abaixo do papel.

 

Um grito de admiração, isto sim, é só o que posso dar a esse feiticeiro insigne, para quem não há morte nem séculos, que entra pela história dentro, − pela história, ou pelo purgatório, talvez, − e traz nas mãos, real e viva, a figura do terrível Valois; grito de admiração, e de agradecimento também, porque um homem que nos tem feito viver em plena e grande poesia, um homem que nos levanta desta prosa formalista e chata, não é só um gênio criador, é também um gênio benfeitor.

 

Esse Luís XI, cuido eu, é a obra capital do grande artista. A mais escabrosa era, decerto, já pela extrema dificuldade do caráter, já porque às leis do teatro deviam juntar-se as lições da história, e depois de meditadas, comparadas, convinha dar-lhes esse cunho de idealidade, que é o último grau da interpretação. Não recuou o grande ator diante desta vasta tarefa. A intimidade de Shakespeare deu-lhe abençoados atrevimentos. Ao poeta inglês, se bem me recordo, chama Victor Hugo mau vizinho. Para os inventores será. Para os intérpretes, dizia Garrick, que era uma condição indispensável de perfeição.

 

Não era, todavia, neste sentido que eu dizia uma noite, a um amigo, depois de ouvir Otelo: sem Shakespeare não tínhamos Rossi. Parecia-me ver então entre ambos uma afinidade intelectual, tão exclusiva e absoluta, que o ator nunca seria maior na intimidade de outro poeta e que era esse a sua musa, por excelência, e as suas obras a atmosfera mais apropriada ao seu gênio. Esta opinião, se em parte subsiste, alterou-ma profundamente o Rossi, com a longa série de triunfos até chegar a Luís XI e Rui Blas8. Não tem clima seu; pertencem-lhe todos os climas da terra. Estende as mãos a Shakespeare e a Corneille, a Alfieri e a Lord Byron; não esquece Delavigne, nem Garrett, nem Victor Hugo, nem os dois Dumas. Ajustam-se-lhe ao corpo todas as vestiduras. É na mesma noite Hamlet e Kean. Fala todas as línguas: o amor, o ciúme, o remorso, a dúvida, a ambição. Não tem idade: é hoje Romeu, amanhã Luís XI.

 

Tu, que és sabedor de história e tens alma de poeta, viste bem o que vale essa reprodução do herói de Delavigne. Ressurreição lhe chamaste e chamaste bem. Aprenderia ele com o seu imortal patrício o caminho daquela “selva oscura” que leva à eternidade? Esse Luís XI não é um sujeito parecido com o velho rei; é a pessoa mesma do rei, tal como a história no-la transmitiu. A ti parece-te que já não é o Luís XI de Delavigne, mas o de Comines1 e Walter Scott1. Eu direi antes que é o de todos três. O intérprete foi a todas as fontes, interrogou e comparou − colaborou enfim na obra do seu poeta, que outra coisa não é, nem pode ser, o dever do intérprete consciencioso.

 

Nem seria o Rossi tamanho artista se não soubesse e pudesse preencher essa regra, mas também uma faculdade de espírito, e ninguém a tem em mais alto grau. Não lhe bastaria as qualidades com que a natureza o dotou − e tantas são − se lhe houvesse negado essa que as domina todas, as dirige, as afeiçoa, as completa.

 

São coisas que melhor se percebem do que se expõem. Citarei, todavia, um exemplo desse mesmo Luís XI. Lembras-te da cena entre Maria e o rei, no segundo ato? O rei olha para Maria, passa-lhe a mão pelo rosto e, pouco a pouco, com aquele belo gesto impossível de referir, impossível de estampar, traduz o despeito e a mágoa que lhe inspira tão viçosa1 juventude. Este gesto, tão característico, não está indicado na obra de Delevigne. Mas o ator leu estas primeiras palavras do rei e Marta1, no segundo ato − Comment faites-vous donc pour vous porter si bien? − leu-as e viu-lhes o sentido, a preocupação constante do velho rei que há de, no 4.º ato, pedir ao santo ermitão mais vinte anos de existência. Aquele gesto é, pois, uma pura invenção de Rossi, mas uma invenção lógica, natural, não estranha ao caráter, mas complemento dele; é uma colaboração do intérprete na obra original. Um artista que reproduzisse aquele gesto, com a mesma felicidade, mas por advertência do autor, seria digno do fervoroso aplauso; não seria, porém, tão criador como Rossi.

 

Longe iria se quisesse lembrar todas as passagens, em que o ilustre trágico se mostra assim, colaborador de seu poeta. A cena da confissão, por exemplo, por mais enérgica e viva que no-la pintasse o autor, quem poderia supor que fosse aquela soberba página, não direi a melhor, mas das melhores que o Rossi tem escrito nos livros dos seus triunfos? Quem suspeitaria, lendo os versos de Delavigne, aquela situação terrível e bela em que o rei treme debaixo do punhal de Nemours? A entrada no segundo ato? A morte no último? Cem exemplos, enfim, em que esse imenso artista, sem deixar de ser fiel à obra do poeta, e por isso mesmo que o é, faz-se poeta ele próprio, e dá ao caráter que representa a vida e a realidade histórica.

 

Há simpleza, decerto, em repetir uma verdade tão comezinha; mas é necessário lembrá-la quando se trata de um artista como este, cuja faculdade interpretativa me parece de primeira ordem. Não aduzo provas que a tua esclarecida razão terá descoberto. Olha Shakespeare. Nenhum poeta imprimiu vitalidade própria nas páginas dos seus dramas; nenhum parece dispensar tanto o prestígio do tablado. E contudo poderia o Rossi, poderia ninguém reproduzi-lo com tanta verdade se se limitasse a ler e decorar-lhe os caracteres? A vida que a esses caracteres imortais deu à nossa imaginação, sentimo-la em cena quando o gênio prestigioso de Rossi os interpreta e traduz não só com alma, mas com inteligência criadora.

 

Não te falo de Hamlet, de Otelo, de Cid, de todos esses tipos que a posteridade consagrou, e que o Rossi tem reproduzido diante do nosso público, fervente de entusiasmo. Um deles, o Hamlet, nunca o tinha visto pelo nosso ilustre João Caetano. A representação dessa obra a meu ver (perdoe-me Vilemain), a mais profunda de Shakespeare, afigurou-se-me sempre um sonho difícil de realizar. Difícil era, mas não impossível. Vem realizar-mo o mesmo ator que sabe traduzir a paixão de Romeu, os furores de Otelo, as angústias do Cid, os remorsos do Macbeth, que conhece enfim toda a escala da alma humana. O que ele foi naquele tipo eterno de irresolução e de dúvida, melhor do que eu poderia dizer, já outros e competentes disseram nos jornais. Para mim era antes quase uma quimera, hoje é uma indelével recordação.

 

Anuncia-se já o termo da visita que o Rossi em tão boa hora nos fez. Que recordação levará ele daqui? Não lhe faltaram merecidas ovações, mas escasseou-lhe o público. Tristes devem ser, não para ele, que viu o seu talento compreendido; triste para nós.

 

Embora! Regozijemo-nos, meu caro Salvador, com as delícias que uma boa fortuna depara aos amantes do belo, trazendo às nossas terras os gênios sumos da arte universal. Da Itália nos veio há dois anos, a Ristori; da Itália nos veio agora o Rossi. A natureza os fadou para traduzir na sua bela língua, as grandes paixões da arte teatral, para dar movimento e ação às obras máximas que a imortalidade bafejou. Fora triste que nos deserdassem da glória de os ter aplaudido.

 

Há talvez uma diferença entre eles; se o gênio de ambos é igualmente profundo, o de Rossi me parece mais vasto. Alguns dirão, talvez que, conquanto não haja para nenhum deles fronteiras de escola, a Ristori parecia amar especialmente a arte clássica, ao passo que o Rossi tem particular afeto à arte romântica. Decidam os competentes essas coisas que não são para mim; decide-as tu se vale a pena, escrevendo o artigo de despedida ao nosso hóspede.

 

O que eu desejava, meu caro Salvador, sabes tu o que era? Eu desejava uma coisa impossível, um sonho imenso. Era vê-los os dois, e não só eles, mas também esse outro, que a fama apregoa, e que os nossos irmãos do Prata estão ouvindo e vendo, era vê-los todos três juntos, a combaterem pela mesma causa e a colherem vitórias comuns. Imagina Otelo, Hamlet, Iago, Cordélia, Desdêmona, Lear, Shylock, todo o Shakespeare, enfim; imagina Horácio, Camila, Fedra, Mirrah, Luís XI, Frei Luís de Sousa, Stuart, que sei eu? Imagina todos esses grandes caracteres evocados pelos três italianos no mesmo prazo, no mesmo tablado, perante nós!

 

Quel revê! Et ce n’est pas notre destin!

 

Não, não é, porque seria impossível. O gênio é águia, dizem os poetas. E das águias escreve Buffon27 que vivem assaz afastadas umas das outras, para que, no espaço que lhe fica, achem sempre amplo alimento. O alimento do gênio é a glória.

 

Machado de Assis.

 

 

 

[17] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 24 jan. 1872.]

 

Meu caro poeta.

 

Estou que quer fazer destas linhas o intróito de seu livro. Cumpre-me ser breve para não tomar tempo ao leitor. O louvor, a censura, fazem-se com poucas palavras. E todavia o ensejo era bom para uma longa dissertação que começasse nas origens da poesia helênica e acabasse nos destinos prováveis da humanidade. Ao poeta daria de coração um away, com duas ou três citações mais, que um estilista deve trazer sempre na algibeira, como o médico o seu estojo, para estes casos de força maior.

 

O ensejo era bom, porque um livro de versos, e versos de amores, todo cheio de confidências íntimas e pessoais, quando todos vivemos e sentimos em prosa, é caso para reflexões de largo fôlego.

 

Eu sou mais razoável.

 

Aperto-lhe primeiramente a mão. Conhecia já há tempo o seu nome ainda agora nascente, e duas ou três composições avulsas; nada mais. Este seu livro, que daqui a pouco será do público, vem mostrar-me mais amplamente o seu talento, que o tem, bem como os seus defeitos, que não podia deixar de os ter. Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir. A sua idade os explica, e não até se os pede; são por assim dizer estranhezas de menina, quase moça: a compostura de mulher virá com o tempo.

 

E para liquidar de uma vez este ponto dos senões, permita-me dizer-lhe que o principal deles é realizar o livro a idéia do título. Chamou-lhe acertadamente Névoas Matutinas. Mas por que névoas? Não as tem a sua idade, que é antes de céu limpo e azul, de entusiasmo e arrebatamento e de fé. É isso geralmente o que se espera ver num livro de rapaz. Imagina o leitor e com razão, que de envolta com algumas perpétuas, virão muitas rosas de boa cor, e acha que estas são raras. Há aqui mais saudades que esperanças, e ainda mais desesperanças que saudades.

 

É plena primavera, diz o senhor na dedicatória dos seus livros; e contudo, o que é que envia à dileta de sua alma? Ide, pálidas flores peregrinas, exclama logo adiante com suavidade e graça. Não o diz por necessidade de compor o verso; mas porque efetivamente é assim; porque nesta sua primavera há mais folhas pálidas que verdes.

 

A razão, meu caro poeta, não a procure tanto em si, como no tempo; é do tempo esta poesia prematuramente melancólica. Não lhe negarei que há na sua lira uma corda sensivelmente elegíaca, e desde que a há, cumpria tangê-la. O defeito está em torná-la exclusiva. Nisto cede a tendência comum, e quem sabe também se a alguma intimidade intelectual? O estudo constante de alguns poetas talvez influísse na feição geral do seu livro.

 

Quando o senhor suspira estes belos versos:

À terra morta num inverno inteiro

Voltam a primavera e as andorinhas...

E nunca mais vireis, ó crenças minhas,

Nunca mais voltarás, amor primeiro!

 

nenhuma objeção lhes faço, creio na dor que eles exprimem, acho que são um eco sincero do coração. Mas quando o senhor chama a sua alma uma ruína, já me achará mais incrédulo.

 

Isto lhe digo eu com conhecimento de causa, porque também eu cedi em minhas estréias a esse pendor do tempo.

 

Sentimento, versos cadentes e naturais, idéias poéticas, ainda que pouco variadas, são qualidades que a crítica lhe achará neste livro. Se ela disser, e deve dizer-lho, que a forma nem sempre é correta, e que a linguagem não tem ainda o conveniente alinho, pode responder-lhe que tais senões o estudo se incumbirá de os apagar.

 

O público vai examinar por si mesmo o livro. Reconhecera o talento do poeta, a brandura do seu verso (que por isso mesmo se não adapta aos assuntos políticos, de que há algumas estâncias neste livro), e saberá escolher entre estas flores as mais belas, das quais algumas mencionarei, como sejam: "Tu", "Campesina", "A Volta", "Galope Infernal".

 

Se, como eu suponho, for o seu livro recebido com as simpatias e animações que merece, não durma sobre os louros. Não se contente com uma ruidosa nomeada; reaja contra as sugestões complacentes do seu próprio espírito; aplique o seu talento a um estudo continuado e severo; seja enfim o mais austero crítico de si mesmo.

 

Deste modo conquistará certamente o lugar a que tem pleno direito. Assim o deseja e espera o seu colega.

 

 

 

[18] A. J. C. RODRIGUES [Rio de Janeiro, 25 jan. 1873]

 

Il.mo. am.o Sr. Dr. J. C. Rodrigues.

 

Aperto-lhe mui agradecidamente mãos pelo seu artigo do Novo Mundo a respeito do meu romance. E não só agradeço as expressões amáveis com que me tratou, mas também os reparos que me fez. Vejo que leu o meu livro com olhos de crítico, e não hesitou em dizer o que pensa de alguns pontos, o que é para mim mais lisonjeiro que tudo. Escrevera-lhe eu mais longamente desta vez, se não fora tanta coisa que me absorveu hoje o tempo e o espírito. Entretanto, não deixarei de lhe dizer desde já que as censuras relativas a algumas passagens menos recatadas são para mim sobremodo salutares. Aborreço a literatura de escândalo, e busquei evitar esse escolho no meu livro. Se alguma coisa me escapou, espero emendar-me na próxima composição.

 

O nosso artigo está pronto há um mês. Guardei-me para dar-lhe hoje uma última demão; mas tão complicado e cheio foi o dia para mim, que prefiro demorá-lo para o seguinte vapor. Não o faria se se tratasse de uma correspondência regular como costumo fazer para a Europa; trata-se porém de um trabalho que, ainda retardado um não perde a oportunidade.

 

O nosso João de Almeida tinha-me pedido em seu nome um retrato, que lhe entrego hoje e lá irá ter às suas mãos. Não me será dado obter igualmente um retrato seu para o meu álbum dos amigos? Creia-me, como sempre

 

Seu am.o patrício ad.or

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

 

[19] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 16 abr.1873]

 

Meu caro Lúcio de Mendonça.

 

Antes de mais nada deixe-me agradecer-lhe a confiança que depositou em mim. Qualquer que fosse o objeto, devia agradecer-lhe; tratando-se porém de seu futuro, como me disse, lisonjeou-me muito mais a escolha que fez de mim.

 

Conversei com o Garnier e miudamente lhe expus a sua proposta com as vantajosas condições que me indicou; sua resposta foi que neste momento acha-se ele com cinco tradutores, que trabalham assiduamente e são mais que suficientes para fornecer o mercado do Rio de Janeiro. Mostrou sentir não poder aceitar a sua proposta, alegando que não podia despedir nenhum dos outros, um dos quais parece que é o Salvador, se me não engana a memória. Diante desta proposta, compreende que eu nada podia fazer, salvo alegar a alta importância a que tinha para o amigo neste negócio, o que fiz logo do princípio.

 

Tal é meu caro Lúcio a resposta que sou obrigado a enviar-lhe. Se alguma coisa aparecer por aqui no mesmo sentido, apressar-me-ei a comunicar-lhe. Por outro lado se de lá se lembrar de algum negócio em que eu possa ser medianeiro, pode contar que o farei com a melhor vontade do coração. Creia-me seu amigo e admirador.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[20] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 1875.]

 

Meu caro Salvador.

 

Procurei-te ontem sem ter a fortuna de encontrar-te; mas vai aqui no papel o que eu te queria dizer, e é que, se, depois de publicado o discurso do Dumas, não fizeres empenho em conservar o original, o mandes a este

 

Teu do C.

 

M. A.

 

 

 

[21] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 24 dez. 1875.]

 

Meu caro Salvador.

 

Recebi a tua carta e o teu retrato, o que quer dizer que te recebi todo em corpo e alma. A alma não mudou; é a mesma que daqui se foi. Mas o corpo! Estás outro, meu Salvador: renasceu-te a vida com a mudança, se é que não contribuíram principalmente para isso os tais lábios, "cujo inglês parece italiano". Dou-te os parabéns pela saúde, pelos lábios e pelo exercício do consulado. Aqui crêem todos que terás a nomeação definitiva. O Otaviano, se bem me lembra, falou-me também nesse sentido. O que é preciso é que os amigos que podem influir não se deixem ficar parados.

 

Muito me contas desse país. Li-te com água na boca. Pudesse eu ir ver tudo isso! Infelizmente a vontade é maior do que as esperanças, infinitamente maiores do que a possibilidade. Não espero nem tento nomeação do governo, porque naturalmente os nomes estão escolhidos. Mais tarde, é possível talvez.

 

Remeto-te um exemplar das minhas Americanas. Publiquei-as há poucos dias, e creio que agradaram algum tanto. Vê lá o que isso vale; se tiveres tempo, escreve-me as tuas impressões. Não remeto exemplar ao nosso Rodrigues, porque o Garnier costuma fazê-lo diretamente, segundo me consta.

 

Por aqui não há novidade importante. Calor e pasmaceira, duas coisas que talvez não tenhas por lá em tamanha dose. Aí, ao menos, anda-se depressa conforme me dizes na tua carta, e na correspondência que li no Globo. Não podes negar, porque o estilo é teu. Vejo que mal chegaste aí, logo aprendeste o uso da terra, de andar e trabalhar muito. Uma correspondência e infinitas cartas particulares! Já eras trabalhador antes de lá ir. Imagino o que ficarás sendo. Olha o Rodrigues é bom mestre, e o Novo mundo um grande exemplo.

 

Adeus, meu Salvador; muitos beijos em teus pequenos, futuros yankees, e um abraço apertado do

 

Teu MACHADO DE ASSIS, /que te pede novas letras e te envia muitas saudades.

 

Adeus.

 

 

 

[22] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 15 abr. 1876]

 

Não, meu querido Salvador, ainda que eu te mandasse agora uma carta de trinta ou quarenta folhas, não te daria idéia da surpresa que me causou a tua carta de 7 do mês passado: a maior e a mais agradável das surpresas. Quando a abri, e contei as doze laudas da tua letra, cerrada e miúda, fiquei extremamente lisonjeado, e creio que causei afetuosa inveja a aos que estavam ao pé de mim, o Quintino Bocaiúva e o João de Almeida. Mas logo que comecei a lê-la, senti uma doce desilusão: só o amor é tão eloqüente, só ele podia inspirar tanta coisa ao mais sério dos rapazes e ao mais jovial dos cônsules.

 

Reli a carta, não só porque eram letras tuas, mas também porque dificilmente podia ver melhor retrato de uma jovem americana. Tudo ali é característico e original. Nós amamos e casamos aqui no Brasil, como se ama e se casa na Europa; nesse país parece que estas coisas são uma espécie de compromisso entre o romanesco e o patriarcal. Acrescem os dotes intelectuais de Miss Mary Redeman,

 

talvez a esta hora Mrs. Mendonça. Casar assim, e com tal noiva, é simplesmente viver, na mais ampla acepção da palavra.

 

Sabes se sou teu amigo; receberás daqui de longe o mais apertado abraço. feliz, meu Salvador, porque o mereces pelo coração, pelo talento e pelo caráter. Tua esposa já adivinhou teus dotes; há de apreciá-los, e reconhecer que, se te dá a felicidade, recebê-la-á do mesmo modo e em igual porção.

 

Nada disse a ninguém do que me revelas em tua carta. O Blest Gana, segundo me disseram no Hotel dos Estrangeiros, está fora, na roça. Agradeço-te a confiança; mas devo dizer que ia caindo em rasgar o capote. Foi o caso; estava no Globo, lendo o que me dizias acerca de "um livro sobre coolies e um romance" , repeti estas palavras ao Quintino, João Almeida e Taunay. Admiramo-nos todos do teu gênio laborioso, e eu continuei a ler a carta para mim. Quando vi de que romance me falavas, limitei-me a dizer que efetivamente escrevias um romance, mas que não convinha anunciá-lo por ora. Meu receio era que o Quintino noticiasse gravemente no dia seguinte que as letras pátrias iam receber um novo mimo, etc. Imagina o efeito que te produziria semelhante notícia no Globo. De maneira que, por ora, só eu sei do caso, e não o revelarei antes de revelado por cartas ou jornais.

 

Miss Mary namorou-se de teus olhos de corça. Quando li isto, reconheci que nunca me enganara respeito dos tais olhos; tu mesmo não sabes talvez o que eles valem. Agora que é preciso é que ela não fique todo o tempo embebida neles, e pois que a natureza lhe concedeu talento, deve-nos os frutos dele, que serão ainda mais belos, com a influência do colaborador que a fortuna lhe deparou. Dize-lhe isto, acrescentando que o escreve o mais ínfimo dos poetas e o mais entusiasta da glória literária.

 

Não vi o Novo Mundo do mês de março; mas afiançam-me nada vem lá a respeito das Americanas. Virá no de abril provavelmente; desde já te agradeço a atenção.

 

Mais um abraço, Salvador e meus parabéns; abraça o Mário também. O céu te dê todas as venturas, que as mereces. Quando eu me lembro que, enquanto cogitava nos "lábios em que o inglês parece italiano", tu delineavas simplesmente um plano de casamento, não caio em mim! E agora respondo a um trecho de tua carta. Não há que justificar a pressa. Os melhores amores nascem de um minuto. Deveras, seguiste a boa regra: foste yankee entre yankees.

 

Adeus, meu Salvador. Meus respeitos à Sra. consulesa e mais um abraço para ti.

 

Teu do Coração MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[23] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 13 nov. 1876]

 

Meu caro Salvador.

 

Mal tenho tempo para agradecer-te muito do coração o belo artigo que escrevestes novo mundo, a propósito das Americanas. Está como tudo o que é teu: muita reflexão e forma esplêndida. Cá ficará entre minhas jóias literárias.

 

vai por este vapor um exemplar da Helena, romance que publiquei no Globo. Dizem aqui que dos meus livros é o menos mau; não sei, lá verás./ Faço o que posso e quando posso./ E tu? Eu dir-te-ia muita coisa mais, a não ser urgência. Escrevo esta carta, à hora de sair da secretaria, para ir levá-la ao João de Almeida. prometo desde já ser muito extenso no primeiro vapor. Entretanto, agradeço-te as fotografias que daí me remetestes; são de excelente efeito./ Meus respeitos à tua senhora, lembranças a teus filhos, e para ti o coração do

 

Teu MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[24] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro, 14 dez. 1876.]

 

Meu caro Paz.

 

Faltei com a resposta no dia marcado. Um incômodo, que me durou quatro dias, e de que ainda tenho restos, sucessos diferentes e acréscimo de trabalho com que eu não contava, e que ainda hoje me prendem o dia inteiro em casa, tais foram os motivos do meu silêncio.

 

A resposta é a que eu já receava dever dar-te. São tantos e tais os trabalhos que pesam sobre mim, que não me atrevo a tomar o folhetim da Gazeta.

 

Dize de minha parte ao Eliseu que me penaliza muito a resposta; tu e ele são dois amigos velhos, que sempre achei os mesmos e de quem só tenho agradáveis lembranças. /Crê no

 

Teu do C.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[25] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 8 out. 1877.]

 

Meu caro Salvador.

 

Escrevo-te à pressa, à última hora, e por isso me dispensarás se te não digo uma série de coisas que há sempre que dizer entre bons amigos que se não falam há muito.

 

Antes de tudo, estimo a tua saúde e a de tua senhora e filhos.

 

Vai aparecer no 1.º do ano de 78 um novo jornal, O Cruzeiro, fundado com capitais de alguns comerciantes, uns brasileiros e outros portugueses. O diretor será o Dr. Henrique Correia Moreira, teu colega, que deves conhecer.

 

Incumbiu-me este de te propor o seguinte:

 

1.º Escreveres duas correspondências mensais.

 

2.º Remeteres cotações dos gêneros que interessem ao Brasil, principalmente banha, farinha de trigo, querosene e café, e mais, notícias do câmbio sobre Londres, Paris etc., e ágio do ouro.

 

3.º Obteres anúncios de casas industriais e outras.

 

Como remuneração:

 

Pelas correspondências, 50 dólares mensais.

 

Pelos anúncios, uma porcentagem de 20%.

 

Podes aceitar isso? No caso afirmativo, convém remeter a primeira carta de maneira que possa ser publicada em janeiro. Caso não te convenha, o Dr. Moreira pede que vejas se nosso amigo. Rodrigues, do Novo Mundo, pode aceitar o encargo, e em falta deste algum outro brasileiro idôneo.

 

Os industriais que quiserem mandar os anúncios poderão também remeter se lhes convier, os clichês e gravuras. Quanto ao preço dos anúncios, não está ainda marcado, mas regulará o do Jornal do Comércio, ou ainda alguma coisa menos.

 

Esta carta vai por via de Europa. No primeiro paquete escreverei outra, para remediar o extravio desta, se houver.

 

Desculpa-me a pressa, e escreve ao

 

Teu do Coração

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[26] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 2 mar. 1878.]

 

Meu caro Salvador.

 

Minha primeira carta depois de tua partida, é uma apresentação. Há de ser-te entregue pelo Sr. João Artur Pereira de Andrade, que, por motivo de saúde, vai a esses Estados passar algum tempo.

 

A ninguém melhor do que a ti, poderia apresentar este nosso destino e inteligente patrício Ele te apreciará, como eu e todos os que têm a fortuna de serem teus amigos.

 

Meus, respeitos à tua digna esposa e saudades a teus queridos filhos. Escreve-me e continua a crer no

 

Am. o do Coração

 

MACHADO DE ASSIS

 

 

 

[27] A FRANCISCO DE CASTRO [Rio de Janeiro,4 ago. 1878.]

 

Meu caro poeta,

 

Pede-me a mais fácil e a mais inútil das tarefas literárias: apresentar um poeta ao público. Custa pouco dizer em algumas linhas ou em algumas páginas, de um modo simpático e benévolo, — porque a benevolência é necessária aos talentos sinceros, como o seu, — custa pouco dizer que impressões nos deixaram os primeiros produtos de uma vocação juvenil. Mas não é, ao mesmo tempo, uma tarefa inútil? Um livro é um livro; vale o que efetivamente é. O leitor quer julgá-lo por si mesmo; e, se não acha no escrito que o precede, — ou a autoridade do nome, — ou a perfeição do estilo e a justeza das idéias, — mal se pode furtar a um tal ou qual sentimento de enfado. O estilo e as idéias dar-lhe-iam a ler uma boa página, — um regalo de sobra; a autoridade do nome enchê-lo-ia de orgulho; se a impressão da crítica coincidira com a dele. Suponho ter idéias justas: mas onde estão as outras duas vantagens? Seu livro vai ter uma página inútil.

 

Sei que o senhor supõe o contrário; ilusão de poeta e de moço, filha de uma afeição antes instintiva que experimentada, e, em todo caso, recente e generosa; seu coração de poeta leu talvez, através de algumas estrofes que aí me ficaram no caminho, este amor da poesia, esta fé viva em alguma coisa superior às nossas labutações sem fruto, primeiro sonho da mocidade e última saudade da vida. Leu isso; compreendeu que há ídolos que se não quebram e cultos que não morrem, e veio ter comigo, de seu próprio movimento, cheio daquela cândida confiança de sacerdote novo, resoluto e pio. Veio bem e mal; bem para a minha simpatia, mal para o seu interesse; mas, segundo já disse, nem bem nem mal para o publico, diante de quem esta página é demais.

 

E contudo, meu caro poeta, é difícil esquivar-se um homem que ama as musas a não falar de um poeta novo, em um tempo que precisa deles, quando há necessidade de animar todas as vocações, as mais arrojadas e as mais modestas, para que se não quebre a cadeia da nossa poesia nacional.

 

Creio que o senhor pertence a essa juventude laboriosa e ambiciosa, que hesita entre o ideal de ontem e uma nova aspiração, que busca sinceramente uma forma substitutiva do que lhe deixou a geração passada. Nesse tatear, nesse hesitar entre duas coisas, — uma bela, mas porventura fatigada, outra confusa, mas nova, — não há ainda o que se possa chamar movimento definido. Basta, porém, que haja talento, boa vontade e disciplina; o movimento se fará por si, e a poesia brasileira não perderá o verdor nativo, nem desmentirá a tradição que nos deixaram o autor do Uruguai e o autor d' Os Timbiras.

 

Citei dois mestres; poderia citar mais de um talento original e cedo extinto, a fim de lembrar à recente geração, que qualquer que seja o caminho da nova poesia, convém não perder de vista o que há essencial e eterno nessa expressão da alma humana. Que a evolução natural das coisas modifique as feições, a parte externa, ninguém jamais o negará; mas há alguma coisa que liga, através dos séculos, Homero e Lord Byron, alguma coisa inalterável, universal e comum, que fala a todos os homens e a todos os tempos. Ninguém o desconhece, decerto, entre as novas vocações; o esforço empregado em achar e aperfeiçoar a forma não prejudica, nem poderia alterar a parte substancial da poesia, — ou esta não seria o que é e deve ser!

 

Venhamos depressa ao seu livro, que o leitor tem ânsia de folhear e conhecer. Estou que se o ler com ânimo repousado, com vista simpática, justa, reconhecerá que é um livro de estréia, incerto em partes, com as imperfeições naturais de uma primeira produção. Não se envergonhe de imperfeições, nem se vexe de as ver apontadas; agradeça-o antes. A modéstia é um merecimento. Poderia lastimar-se se não sentisse em si a força necessária para emendar os senões inerentes aos trabalhos de primeira mão. Mas será esse o seu caso? Há nos seus versos uma espontaneidade de bom agouro, uma natural simpleza, que a arte guiará melhor e a ação do tempo aperfeiçoará.

 

Alguns pedirão à sua poesia maior originalidade; também eu lha peço. Este seu primeiro livro não pode dar ainda todos os traços de sua fisionomia poética. A poesia pessoal, cultivada nele, está, para assim dizer, exausta; e daí vem a dificuldade de cantar coisas novas. Há páginas que não provêm dela; e, visto que aí o seu verso é espontâneo, cuido que deve buscar uma fonte de inspiração fora de um gênero, em que houve tanto triunfo a par de tanta queda. Para que a poesia pessoal renasça um dia, é preciso que lhe dêem outra roupagem e diferentes cores; é precisa outra evolução literária.

 

O perigo destes prefácios, meu caro poeta, é dizer demais; é ocupar maior espaço do que o leitor pode razoavelmente conceder a uma lauda inútil. Eu creio haver dito o bastante para um homem sem autoridade. Viu que não o louvei com excesso, nem o censurei com insistência; aponto-lhe o melhor dos mestres, o estudo; e a melhor das disciplinas, o trabalho. Estudo, trabalho e talento são a tríplice arma com que se conquista o triunfo.

 

 

 

[28] A CAPISTRANO DE ABREU [Rio de Janeiro, 22 jul. 1880.]

 

Meu caro am.o e colega Sr. Capistrano de Abreu.

 

Fiquei incomodado quando, anteontem soube que se retirara, depois de longa espera. Esperei que ontem me mandasse dizer alguma coisa, se se tratasse de negócio urgente. Não o tendo feito apresso-me a escrever-lhe para que me diga que motivo o trouxe cá, em tão má hora, que nos não pudemos ver. Creia sempre na simpatia, afeição e apreço que lhe tem - o am.o e colega

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[29] A UM COLEGA JOVEM [Rio de Janeiro, 6.ª feira, 30 jul. 1880.]

 

Meu jovem colega.

 

Esta carta devia ter-lhe sido escrita e enviada há cinco ou seis dias. São tais porém os meus trabalhos e apoquentações, que espero me desculpe a demora. Entretanto, não retardei a resposta a ponto de me não poder aproveitar dela no domingo próximo. Ou no próximo, ou em outro qualquer achar-me-á em casa, porque eu raramente saio nesses dias, exceto de noite, em que vou sempre a alguma visita. Não digo se terei prazer em recebê-lo; sabe muito bem que sim; e, se duvida, ponha-me à prova.

 

Je vous serre la main,

 

MACHADO DE ASSIS.

 

P.S. À visita falaremos dos sinônimos do seu colega Cabral.

 

M. DE A.

 

 

 

[30] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 25 jul. 1881.]

 

Meu caro Salvador.

 

Para o fim de se poder despachar a caixa, convém que mandes a esta Secretaria uma procuração, visto que a caixa veio com o teu nome. O despachante da Secretaria é o Capitão Henrique Jermack Possolo; esse pode ser o procurador.

 

Ontem, ao voltarmos para casa, soubemos da visita que nos fizeste com tua estimável senhora, a quem peço apresentar os meus respeitos. Senti deveras não estar em casa. Minha mulher recomenda-se muito a Mrs. Salv. de Mendonça.

 

Crê-me sempre

 

am.o V.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[31] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 14 jan. 1882.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Escrevo esta carta prestes a sair da Corte por uns dois meses, a fim de restaurar as forças perdidas no trabalho extraordinário que tive em 1880 e 1881.

 

A carta é pequena e tem um objeto especial. Talvez V. já saiba que morreu a senhora do Arsênio. O que não sabe, mas pode imaginar, é o estado a que ficou reduzida aquela moça tão bonita. Nunca supus que a veria morrer.

 

Vamos agora ao objeto especial da carta. O Arsênio, com quem estive anteontem, levou-me a ver a pedra do túmulo que ele manda levantar, e é isto o que lhe diz respeito a v. Comovido e agradecido pelas belas palavras que V. escreveu, em um dos folhetins do Jornal Comércio, a respeito de D. Marianinha, mandou gravar algumas delas na pedra da sepultura, e esse é o único epitáfio, Ele mesmo pediu-me que lhe dissesse isso, acrescentando que não agradeceu logo a referência do folhetim, por não saber quem era o autor. Disse-me também que me daria para V., um retrato fotografado da senhora.

 

Vou para fora, corno disse, mas V. pode mandar as suas cartas com endereço à Secretaria da agricultura.

 

Adeus, meu caro Nabuco. Estou certo de que V. lerá o recado do Arsênio com a mesma emoção com que o ouvi. Pobre Marianinha! Adeus, e escreva ao

 

am.o do coração

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[32] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 29 mai. 1882.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Há cerca de um mês que esta carta devera ter seguido mas o propósito em que estava de escrever urna longa carta foi retardando a resposta à sua, e daí a demora. “Valha a desculpa, se não vale o canto." E o canto aqui não vale muito, porque afinal vai uma carta mínima, como vê, não querendo prolongar estes adiamentos./ Transmiti ao Arsênio suas palavras, e a autorização que lhe deu para o epitáfio, Ele ficou muito agradecido. Não vi ainda o epitáfio na própria pedra. Ninguém que o veja deixará de reconhecer que era a mais bela homenagem à finada, e o melhor agradecimento ao autor.

 

Compreendo a sua nostalgia, e não menos compreendo a consolação que traz a ausência. Para nós, seus amigos, se alguma consolação há, é a têmpera que este exílio lhe há de dar, e a vantagem de não ser obrigado a uma luta vã ou uma trégua voluntária. A sua hora há de vir.

 

Tenho lido e aplaudido as suas correspondências. Ainda hoje vem uma, e vou lê-la depois que acabar esta carta, porque são nove horas da manhã, e a mala fecha-se às dez. E a minha opinião creio que é a de todos.

 

Agradeço muito os oferecimentos que me faz, e anoto-os para ocasião oportuna, se a houver. Quanto aos retalhos de jornais, quando os achar merecedores da transmissão, aceite-os com muito prazer.

 

Minha mulher agradece as suas recomendações e pede-me que lhas retribua. Pela minha parte, creio escusado dizer a afeição que lhe tenho, e a admiração que me inspira. A impressão que V. me faz é a que faria (suponhamos) um grego dos bons tempos da Hélade no espírito desencantado de um budista. Com esta indicação, V. me compreenderá.

 

Adeus, meu caro Nabuco. Você tem a mocidade a fé e o futuro; a sua estrela há de luzir, para alegria dos seus amigos, e confusão dos seus invejosos. Um abraço do

 

am.o do coração

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[33] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 14 abr. 1883.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Esta carta devia ser escrita há cerca de um mês. Como, porém uma folha desta Corte anunciasse que V. em maio viria ao Rio de Janeiro, entendi esperá-lo. Falei depois ao Hilário [de Gouveia], que me disse não ter nenhuma carta sua nesse sentido: concluí que a informação não era exata, e resolvi mandar-lhe estas duas linhas, acompanhadas de um livro meu.

 

Antes de falar de, livro, agradeço muito as suas lembranças de amizade, que de quando em quando recebo. A última, um retalho de jornal, acerca da partida de xadrez, foi-me mandada a casa pelo Hilário; pouco antes tinha recebido pelo correio alguns jornais franceses. relativos à morte e de enterro de Gambetta; e ainda há Poucos dias tive em mão urna remessa mais antiga, um cartão do "Falstaff Club", noite de 21 e junho de 1882.

 

Vê V. que, se lembra dos amigos, o correio não o deixa mal, e é transmissor das suas memórias. Oxalá faça o mesmo com o livro que ora lhe envio, Papéis Avulsos, em que há, nas notas, alguma coisa concernente a um episódio do nosso passado: a Época.

 

Não é propriamente uma reunião de escritos, esparsos, porque tudo o que ali está (exceto justamente a "Chinela Turca) foi escrito com o fim especial de fazer parte de um livro. Você me dirá o que ele vale,-- E agora, passando a coisa de maior tomo, deixe-me dizer-lhe, não só que aprecio e grandemente as suas cartas de Londres para o Jornal do Comércio, como que os meus amigos e pessoas com que converso, a tal respeito, têm a mesma impressão. E olhe que a dificuldade, de, como V. sabe é grande porque no geral as questões inglesas (não só as que V. indicou em uma das cartas, e se prendem aos costumes e interesses locais, mas até as grandes) são pouco familiares neste país: e fazer com que todos as acompanhem com interesse, não era fácil, e foi o que V. alcançou. Sua reflexão Política, seu espírito adiantado e moderado, além do estilo e do conhecimento das coisas. dão muito peso a esses escritos. Há um trecho deles, que não sei se chegou a incrustar-se no espírito dos nossos homens públicos, mas considero-o como um aviso , que não devia sair da cabeceira deles: é o que se refere a nossa dívida. Palavras de ouro, que oxalá não sejam palavras ao vento. A insinuação relativa à perda de alguma parte da região brasileira abre uma porta para o futuro./ Adeus meu Nabuco, continue a lembrar- se de mim, assim como eu continuo a lembra-me de V., e deixe-me apreciar o seu talento, se não posso também gozar do seu trato pessoal./ Um abraço do Am.o e ador.o afetm.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[34] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro,19 abr. 1883.]

 

Il.mo Ex.mo Sr. José Veríssimo.

 

Recebi

 

a carta ele V. Ex.a e o 1.º número da Revista Amazônica. Na carta manifesta o receio de que a tentativa não corresponda à intenção, e que a Revista não se possa fundar. Não importa; a simples tentativa é já uma honra para V. Ex.o, para os seus colaboradores e para a Província do Pará, que assim nos dá uma lição à Corte.

 

Há alguns dias, escrevendo de um livro, e referindo-me à Revista Brasileira, tão malograda disse esta verdade de La Palisse:

 

"que não há revistas, sem um público de revistas". Tal é o caso do Brasil. Não temos ainda a massa de leitores necessária para essa espécie de publicações. A Revista Trimestral do Instituto Histórico vive por circunstâncias especiais, ainda assim irregularmente, e ignorada do grande público.

 

Esta linguagem não é a mais própria para saudar o aparecimento de uma nova tentativa; mas sei que falo a um espírito prático, sabedor das dificuldades, e resoluto a vencê-las ou diminuí-las, ao menos. E realmente a Revista Amazônica pode fazer muito: acho-a bem feita e séria. Pela minha parte, desde que possa enviar-lhe alguma coisa, fá-lo-ei, agradecendo assim a fineza que me fez convidando-me para seu colaborador.

 

Sou com estima e consideração,

 

Admirador e obr.o confrade

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[35] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro, 16 out. 1883.]

 

Meu caro Paz,

 

Se queres ouvir música aceita este bilhete que te manda o velho am.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

N. B. - É no Cassino Fluminense, no dia 4.

 

 

 

[36] A ENÉAS GALVÃO [Rio de Janeiro, 30 jul. 1885.]

 

Meu caro poeta,

 

este seu livro, com as lacunas próprias de um livro de estréia, tem as qualidades correspondentes, aquelas que são, a certo respeito, as melhores de toda a obra de um escritor. Com os anos adquire-se a firmeza, domina-se a arte, multiplicam-se os recursos, busca-se a perfeição que é a ambição e o dever de todos os que tomam da pena para traduzir no papel as suas idéias e sensações. Mas há um aroma primitivo que se perde; há uma expansão ingênua, quase infantil, que o tempo limita e retrai. Compreendê-lo-á mais tarde, meu caro poeta, quando essa hora bendita houver passado, e com ela uma multidão de coisas que não voltam, posto desse lugar a outras que as compensam.

 

Por enquanto fiquemos na hora presente. É a das confidências pessoais, dos quadros íntimos, é a deste livro. Aos que lho argüirem, pode responder que sempre haverá tempo de alargar a vista a outros horizontes. Pode também advertir que é um pequeno livro, escolhido, que não cansa, e eu acrescentarei, por minha conta, que se pode ler com prazer, e fechar com louvor.

 

Que há nele alguns leves descuidos, uma ou outra impropriedade, é certo; contudo vê-se que a composição do verso acha da sua parte a atenção que é hoje indispensável na poesia, e uma vez que enriqueça o vocabulário, ele lhe sairá perfeito. Vê-se também que é sincero, que exprime os sentimentos próprios, que estes são bons, que há no poeta um homem, e no homem um coração.

 

Ou eu me engano, ou tem aí com que tentar outros livros. Não restrinja então a matéria, lance os olhos além de si mesmo, sem prejuízo, contudo, do talento. Constrangê-lo é o maior pecado em arte. Anacreonte, se quisesse trocar a flauta pela tuba, ficaria sem tuba nem flauta; assim também Homero, se tentasse fazer de Anacreonte, não chegaria a dar-nos, a troco das suas imortais batalhas, uma das cantigas do poeta de Teos.

 

Desculpe a vulgaridade do conceito; ele é indispensável aos que começam. Outro que também me parece cabido é que, no esmero do verso não vá ao ponto de cercear a inspiração. Esta é a alma da poesia, e como toda a alma precisa de um corpo, força é dar-lho, e quanto mais belo, melhor; mas nem tudo deve ser corpo. A perfeição, neste caso, é a harmonia das partes.

 

Adeus, meu caro Poeta. Crer nas musas é ainda uma das coisas melhores da vida. Creia nelas e ame-as.

 

 

 

 

[37] A LÚCIO DE MENDONÇA [Corte, 4 mar. 1886.]

 

Meu caro Lúcio.

 

Não lhe respondi logo nos primeiros dias, porque era preciso tratar de um ponto de sua carta, e mais tarde, quando já estava tratado o ponto, meteram-se adiantamentos. Peço-lhe que me desculpe. O ponto é o da Safo. Falei ao Araújo, que me disse não convir o romance para a Gazeta de Notícias, por ter o Daudet carregado a mão em alguns lugares. O Faro e o Garnier não podem tomar a edição; disse-me este último que cessara inteiramente com as edições que dava de obras traduzidas, por ter visto que não eram esgotadas, ou por concorrência das de Lisboa, ou porque, em geral, o público preferia ler as obras em francês.

 

Não falei a mais ninguém, porque estes são os editores habituais. Os outros terão as mesmas e mais razões.

 

Quanto ao retrato, aí lhe mando um; guarde-o como lembrança de amigo velho.

 

Agora reparo que, no fim da sua, me pedia que fosse breve, e eu deixei passar tantos dias. De novo lhe peço que me desculpe, tanto a demora, como a letra em que isto vai. Creia-me sempre am.o e adm.or afetuosíssimo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[38] A LÚCIO DE MENDONÇA [corte, 7 out. 1886.]

 

Meu caro Lúcio de Mendonça, poeta e amigo.

 

Muito obrigado, pela felicitação. Chegou-me à hora própria, e foi lida entre aplausos, que aceitei como sinal da aprovação da nossa amizade, já de alguns anos, e sempre a mesma. Adeus, abrace de longe, o

 

Velho am.o e confrade

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[39] AO VISCONDE DE TAUNAY [Rio de Janeiro. 7 out.1886]

 

Meu caro Sílvio Dinart.

 

Agradeço-lhe de coração as suas palavras, ao mesmo tempo que me desvaneço de as ler tão cálidas e espontâneas. Servem-me ainda, de animação.

 

Creia que se não foi avisado, lá esteve, todavia no pensamento, e lá estaria sempre, qualquer que fosse a distância, não sendo possível tratar de letras brasileiras sem acudir à memória de todos, o autor daquela jóia literária que se chama Inocência e de tantos outros livros de valor.

 

Aperta-lhe igualmente a mão o amigo e colega

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[40] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 29 mar. 1887.]

 

Meu caro e distinto colega Dr. Rodrigo Otávio.

 

A Assembléia geral dos sócios do Club Beethoven reelegeu-me para o cargo que tinha na Diretoria; e pelos estatutos não posso exercer cargo de diretor em outra associação análoga.

 

Obrigado assim a demitir-me da presidência do Grêmio de Letras e Artes e do lugar que a bondade dos meus antigos e colegas me deu no Conselho diretor, peço-lhe que apresente esta carta aos seus dignos companheiros, acrescentando que conservo o lugar de sócio e desejo ao Grêmio o maior desenvolvimento e brilhante futuro.

 

Creia-me sempre, ad.or am.o e obr.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[41] AO BARÃO DO RIO BRANCO [Rio de Janeiro, 17 out. 1890.]

 

Meu ilustre am.o

 

Queira receber os meus pêsames pela morte de sua querida mãe. A austera companheira do nosso grande homem, seu digno pai, teve a consolação de ver o nome que trazia posto honradamente no filho amigo e piedoso. Esse golpe que o feriu deve ter alcançado a todos os que sabem apreciar as suas qualidades de homem e de brasileiro. Deixe-me falar assim, sem respeito a sua modéstia, aproveitando o momento de tão grande desgosto para dizer o que todos pensamos a seu respeito.

 

Cuidei, pela notícia que li em folhas daqui, que viesse ao Rio de Janeiro imediatamente; pelo que li depois, concluo que não virá. Daí a demora desta carta.

 

Creia-me sempre

 

V.o am.o e ad.or

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[42] A MÁRIO DE ALENCAR [SEM DATA]

 

Meu caro Mário de Alencar

 

Agradeço mui cordialmente comunicação que me fez de estar noivo de sua gentil prima D. Helena de Afonseca, e peço-lhe receba os votos que faço pela felicidade que ambos merecem. Seu pai achou no casamento mais uma fonte de inspiração para as letras brasileiras; siga esse exemplo, que é dos melhores. Vale esta um apertado abraço do/ velho am.o e confrade

 

MACHADO DE ASSIS

 

 

 

[43] A ERNESTO CIBRÃO [Rio de Janeiro, 29 abr. 1895.]

 

Meu caro Ernesto Cibrão.

 

Possuía dois manuscritos da minha peça dramática, Tu, só tu, Puro Amor... Um, como sabe, foi para a Biblioteca Nacional, onde se fez a exposição camoniana; o outro ficou comigo e foi bastante V. sabê-lo para desejá-lo, e desejá-lo para obtê-lo, pois é difícil negar-lhe nada do que intente possuir para aumentar a coleção do Gabinete Português de leitura, em boa hora confiado aos seus esclarecidos esforços. Não me atreveria a oferecer-lho, mas também não me atreveria a negar-lho. Aí vai ele para o repositório rio dos documentos que o Gabinete guarda, por menos que possa lembrar o esplendor das festas que aqui se celebram em honra do grande épico. Adeus, creia sempre no velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[44] BELMIRO BRAGA [Rio de Janeiro, 24 jun. 1895.]

 

Meu caro poeta.

 

Recebi e agradeço-vos muito de coração a carta com que me felicitais pelo meu aniversário natalício. Não tendo o gosto de conhecer-vos, mais tocante me foi a vossa lembrança. Pelo que me dizeis em vossa bela e afetuosa carta. foram os meus escritos que vos deram a simpatia que manifestais a meu respeito. Há desses amigos, que um escritor tem a fortuna de ganhar sem conhecer, e são dos melhores. É doce ao espírito saber que um eco responde ao que ele pensou, e mais ainda se o pensamento, transladado ao papel, é guardado entre as coisas mais queridas de alguém. Agradeço-vos também os gentis versos que me dedicais e trazem a data de 21 de junho, para melhor fixar o vosso obséquio e intenção.

 

Disponde de mim, e crede-me

 

amigo muito agradecido.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[45] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 22 set. 1895.]

 

Meu caro Salvador de Mendonça.

 

Com grande prazer recebi o teu retrato e a carta que o acompanhou, cheia de tantas saudades e recordações. Tens razão; compreendo que, ao ver tanta gente nova, em 1891, toda ela te parecesse intrusa por nada saber dos nossos bons tempos nem dos homens e coisas que lá vão. Alguns intrusos vingam-se em rir do que passou, datando o mundo em si, e crendo que o Rio de Janeiro começou depois da guerra a do Paraguai. Os que não riem e respeitam a cidade que não conheceram, não têm a sensação direta e viva; é o mesmo que se lessem um quadro antigo que só intelectualmente nos transporta ao lugar e à cidade. Este Rio de Janeiro de hoje é tão outro do que era, que parece antes, salvo o número de pessoas, uma cidade de exposição universal. Cada dia espero que os adventícios saiam; ma, eles aumentam, como se quisessem pôr fora os verdadeiros e antigos habitantes.

 

Já que me falaste na Semana, dir-te-ei que ainda ontem tive de fazer referência a una dessas pessoas do nosso tempo, a Eponina, viúva de Otaviano. Morreu quarta feira, e uma só folha, creio, deu notícia da morte, sem uma só palavra, a não ser o nome do marido. Assim se vão as figuras de outrora!

 

Venhamos ao teu retrato. Acho-o excelente; não te importes com os 54 anos; eu cá vou com os meus 56 e não digo nada. Vivam os qüinquagenários! Entreguei ao Paz e ao Pacheco os exemplares que lhes mandaste.

 

Felicito-te pelo casamento do Mário, que conheci tão menino. A ele e a sua jovem esposa darás da parte de minha senhora e da minha iguais felicitações. Agradecemos as lembranças de tua senhora e de teus filhos e peço-te que as retribuas da nossa parte.

 

Adeus, meu querido Salvador. Recebe um apertado abraço do

 

Teu velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[46] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 2 dez. 1895.]

 

Ilmo. am.o e colega.

 

Creio que houve um pequeno equívoco entre nós. Quando me falou pela primeira vez no artigo para a Revista Brasileira, deu o prazo até 5 do corrente. Assim, quando anteontem lhe disse que o dia de ontem era dedicado ao artigo, não cuidei que o prazo ficava encurtado. Daí esta conseqüência: fiz o borrão apenas, resta-me copiá-lo e revê-lo. É o que vou fazer e se o equívoco foi meu, releve-mo. Creia no

 

Velho am.o e adm.or/ M. DE ASSIS.

 

 

 

[47] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 24 mar.1896]

 

Meu caro Nabuco.

 

Nenhum de nós esqueceu ainda, nem esquecerá aquela senhora gentilíssima, D. Marianinha Teixeira Leite Cintra da Silva, esposa do meu amigo Joaquim Arsênio Cintra da Silva, morta no esplendor da mocidade, já lá vão muitos anos. Você escreveu sobre ela, então enferma, algumas palavras de comoção de verdade e de poesia, na crônica do J. do Comércio, de 21 de agosto de 1881. Joaquim Arsênio, querendo que no túmulo da esposa se gravasse condigno epitáfio, colheu algumas das suas palavras e fê-las inscrever nesta disposição: "À esposa extremosa, arrebatada na plenitude da vida, como os anjos da bíblia, nas vestes, deslumbrantes que mal tocavam a terra... saudades eternas!"

 

Deu-me uma fotografia do monumento e pediu-me que lhe comunicasse esta notícia a Você; mas não nos tendo encontrado há muitos dias, dou-lho aqui por carta, e nesta mesma data o anuncio a Joaquim Arsênio, segundo havíamos combinado. Adeus, meu caro Nabuco.

 

Saudades do Velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[48] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 10 ago. 1896.]

 

Meu caro Dr. Rodrigo Otávio.

 

Acabo de saber que V. foi nomeado para substituir o Dr. Amaro Cavalcanti na mesa examinadora de candidatos ao lugar de cônsul e de chanceler, amanhã. Um desses candidatos é o meu am.o Sr. Rodrigo Pereira Felício para o qual peço a sua indulgência em tudo o que não for contrário à justiça, — o que aliás é inútil, sabendo que o seu espírito é reto e moderado. O Sr. Rodrigo Felício, conquanto já exercesse o lugar de chanceler, é a primeira vez creio eu, que se apresenta em concurso, e a timidez pode prejudicar a habilidade.

 

Creia-me sempre

 

Velho am.o e ad.or/ MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[49] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 9 fev. 1896, aliás 1897.]

 

Meu caro Salvador.

 

Aqui está uma carta que vai duas vezes retardada; mas como acerta de levar uma notícia agradável aos teus antigos, como que me desculparás a demora das suas outras partes. A notícia é que foste, como de justiça, eleito pela Academia Brasileira de Letras, que aqui fundou o nosso Lúcio. Poucos creram a princípio que a obra fosse a cabo; mas sabes como o Lúcio é tenaz, e a coisa fez-se. A sua amizade cabalou em favor da minha presidência. Resta agora que não esmoreçamos, e que o Congresso faça alguma pela instituição. Cá estás entre nós. O Lúcio te dirá (além da comunicação oficial que tens de receber) que cada cadeira, por proposta de Nabuco, tem um patrono, um dos grandes mortos da literatura nacional.

 

Era pelas festas do Ano-Bom que eu queria escrever-te, desejando-te a ti e aos teus um ano de dias felizes. Espero que sim, e também que a nossa amizade (a nossa velha amizade) fique no que é e foi, apesar da distância que nos separa há muito. Os anos, meu caro Salvador, vão caindo sobre mim, que lhes resisto ainda um pouco, mas o meu organismo terá de vergar totalmente; e as letras, também elas me cansarão um dia, ou se cansarão de mim, e ficarei à margem.

 

Deixa-me agradecer-te cordialmente o mimo que me fizeste com o livro A House Boat on the Styx, obra realmente humorística e bem composta. Na dedicatória do exemplar lembras-te dos Deuses de Casaca. Les Dieux s'en vont, meu querido. Os tais acabaram trocando a casaca pelo sudário e foram-se com os tempos. Bons tempos que eram! Todos rapazes, todos divinos, mofando da gentalha humana; ai tempos!

 

Adeus, meu Salvador. Quando puderes, escreve-me. Já te agradeci o último retrato, que cá está na minha sala, com a cabeça encostada na mão; eu quisera mandar-te o meu último, mas não sei onde me puseram os exemplares dele. Se os achar a tempo, meterei um aqui; se não, irá depois. Meus respeitos a Mrs. Mendonça, a quem minha mulher também se recomenda, e lembranças a todos os teus. Adeus, e não te esqueças do

 

Velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[50] AO DR. A. COELHO RODRIGUES [Rio de Janeiro, 7 mar. 1897.]

 

Exmo. Sr. Dr. A. Coelho Rodrigues.

 

Tenho a honra de comunicar a E. Ex.a que a quantia de 100$000, a mim entregue por V. Ex.a para as despesas da Academia Brasileira de Letras, foi por mim transmitida ao Sr. Inglês de Sousa, tesoureiro da Academia, em sessão da Diretoria desta. A Diretoria incumbiu-me de agradecer a valiosa oferta. Tendo-lhe lido a carta de 17 de janeiro, nada lhe disse do meu próprio sentimento acerca do autor verdadeiro da doação, que V. Ex.a declara ser pessoa que quer ficar oculta, mas é mui provável que todos participem da minha suspeita de que a pessoa é V. Ex.a, cujo ato generoso fica assim realçado pela modéstia. Para si ou para outrem, receba V. Ex.a os agradecimentos da Academia, com os protestos de respeito e estima com que sou

 

De V. Ex.a Am.o at.o e adm.or

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[51] A BELMIRO BRAGA [Rio de Janeiro, 22 jun. 1897.]

 

Prezado senhor e amigo.

 

Muito me comoveu a carta que me enviou, datada de ontem, cumprimentando-me pelo meu aniversário natalício, e assim também a prova de afeição que me deu enviando-me o seu retrato. Este fica entre os dos amigos que a vida nos depara, e aquela entre os manuscritos dignos de recordação. Agradeço-lhe os votos que faz pela minha vida e felicidade, e subscrevo-me com estima e consideração

 

atento e obrg.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[52] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 1 dez, 1897.]

 

Meu caro José Veríssimo.

 

Recebi anteontem, 29, a sua carta de 27, e só hoje lhe respondo, porque o dia de ontem foi para mim de complicação e atribuições. Estimei ler o que me diz dos bons efeitos de Nova Friburgo. A mim este lugar para onde fui cadavérico há uns dezessete anos, e donde saí gordo, ce qu'on appelle gordo, hei de sempre lembrar com saudades. Estou certo que lucrará muito, e todos os seus também, e invejo-lhes a temperatura. Aqui reina o calor; apesar do temporal de ontem, escrevo-lhe com calor, às sete horas da manhã. Não pense que não compreendo o que me diz do caráter da vida daí. Eu sou um peco fruto da capital, onde nasci, vivo e creio que hei de morrer, não indo ao interior senão por acaso e de relâmpago mas, compreendo perfeitamente que prefira um campo a esse misto de roça e de cidade.

 

Tenho ido sempre à Revista, onde o nosso Paulocontinua a receber com aquela equanimidade e bom humor que fazem dele um excelente companheiro. Somos todos firmes. Do Graça não há ainda cartas, mas sei pelo sogro que chegou bem. Estive na Revista com o Artur Alvim, que veio da Europa, há dias, e aqui lhe trouxe os agradecimentos da viscondessa de Cavalcante pela sua notícia; pediu-me que lhos transmitisse e aqui o faço. Parece que a notícia fez até com que ela recebesse mais prontamente algumas informações para o livro.

 

Ontem reunimo-nos onze acadêmicos para a eleição da diretoria e das comissões; sendo precisos quatorze nessa primeira reunião, nada se fez; convocou-se outra para terça-feira próxima.

 

O Paulo já lhe escreveu que as duas linhas que antecedem os versos do Magalhães de Azeredo tragam a minha assinatura. Este escreveu-me anunciando um ensaio a meu respeito no último número da Revista Moderna. Sobre a mesma matéria publicou anteontem um livro de Sílvio Romero; vou lê-lo. Vou ler também o número de ontem da Revista Brasileira; é a mais pontual que temos tido. Adeus, meu caro José Veríssimo, meus respeitos à sua Exma. Senhora e saudades do velho

 

M. DE ASSIS. 3 de dezembro. Não mandei esta carta no dia em que escrevi, por saber do Paulo que viria, hoje; agora sei que só depois de 6, e vou pô-la no correio. Até cá.

 

M. DE A.

 

 

 

[53] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 1 jan. 1898]

 

Meu querido Mário.

 

Obrigado pela sua carta amiga e boa. Já há dias tinha notícia do que ora me sucede; a última vez que nos vimos, de passagem, já eu sabia que ia ser adido. Assim, vinha-me acostumando à idéia e ao fato, e agora que este foi consumado não me resta mais que conformar-me com a fortuna e encarar os acontecimentos com o preciso rosto. A sua carta é ainda uma voz de seu pai e foi bom citar-me o exemplo dele; é modelo que serve e fortifica.

 

Obrigado pelo seu abraço, meu querido Mário. É a primeira carta que dato deste ano; folgo que lhe seja escrita, e em troca de expressões tão amigas.

 

Creia-me velho Am.o e obrg.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[54] A LAFAIETE RODRIGUES PEREIRA [Rio de Janeiro, 19 fev. 1898.]

 

Exmo. Sr. Cons.o Lafaiete Rodrigues Pereira.

 

Soube ontem (não direi por quem) que era V. Ex.a o autor dos artigos assinados Labieno e publicados no Jornal do Comércio de 25 e 30 de janeiro e 7 e 11 do corrente, em refutação ao livro a que o Sr. Dr. Sílvio Romero pôs por título o meu nome.

 

A espontaneidade da defesa, o calor e a simpatia dão maior realce à benevolência do juízo que V. Ex.a aí faz a meu respeito. Quanto à honra deste, é muito, no fim da vida achar em tão elevada palavra como a de V. Ex.a um amparo valioso e sólido pela cultura literária e pela autoridade intelectual e pessoal. Quando comecei a vida, V. Ex.a vinha da carreira acadêmica; os meus olhos afeiçoaram-se a acompanhá-lo nesse outro caminho, onde, nem o direito, nem a política, nem a administração, por mais alto que o tenham subido, puderam arrancá-lo ao labor particular das letras em que ainda agora prima pelo conhecimento exato e profundo. A pessoa que me desvendou o nome de V. Ex.a pediu-me reserva sobre ele, e assim cumprirei. Sou obrigado, portanto, a calar um segredo que eu quisera público para meu desvanecimento. Queira V. Ex.a aceitar os meus mais cordiais agradecimentos, e dispor de quem é

 

De V. Ex.a

 

Muito adm.or e obr.o patrício

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[55] A RUI BARBOSA [Rio de Janeiro, 3 out. 1898.]

 

Exmo. Sr. Dr. Rui Barbosa.

 

Tendo recebido a carta de V. Ex.a de 1 do corrente, relativa ao seu não comparecimento à sessão da Academia Brasileira de Letras, para a eleição de um membro que preencha a vaga deixada pelo Conselheiro Pereira da Silva, dei conhecimento dela aos acadêmicos reunidos.

 

Segundo V. Ex.a previa, o voto por carta não podia ser admitido, mas as palavras que V. Ex.a nessa hipótese escreveu, afirmando a sua homenagem ao merecimento do Barão do Rio Branco, foram devidamente apreciadas pela assembléia e vão ser comunicadas àquele eminente brasileiro, que se desvanecerá de as ter merecido de tão alto espírito. Como V. Ex. a saberá a esta hora, o Barão do Rio Branco foi eleito por unanimidade. Sou, com a maior consideração e apreço.

 

De V. Ex.a

 

ad.or col. a e obr.o MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[56] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 18 nov. 1898.]

 

Meu caro José Veríssimo

 

Esta carta, além do que lhe é pessoal, vale por urna circular aos amigos da Revista, a quem não vejo há mais de dois anos ou quarenta e oito horas. Como é possível que me suceda hoje a mesma coisa, peço-lhe a fineza de dividir com eles as saudades que vão inclusas, mas o papel não dá para todas.

 

Peço-lhe mais que me diga:

 

1.º, Se o nosso Graça Aranha já falou ao Ministro do Interior, e se podemos contar com o salão no dia 30;

 

2.º, Se já está completa a lista começada por ele para a distribuição dos convites;

 

3.º, Se o Inglês de Sousa aí esteve para tratar dos cartões, segundo havíamos combinado;

 

4.º, Se o João Ribeiro está disposto a ser apresentado ao Presidente da República em qualquer dia que, para isso, nos seja fixado;

 

5.º, Se tenho provas da notícia bibliográfica sobre as Procelárias;

 

6.º, Como vão o chá e o Paulo. Quisera ir pessoalmente, mas é provável que não possa. O tempo voa e o dia 30 está a pingar. Receba um abraço do

 

Velho adm.or e am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[57] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 28 nov. 1898.]

 

Meu caro José Veríssimo.

 

Escrevi sábado ao nosso Paulo dizendo que lá iria, se pudesse , mas saí depois das 6 horas da tarde. Não sei se poderei ir hoje; creio que não, mas caso saia a tempo, correrei à Revista. Entretanto, direi desde já que na data em que nos achamos é impossível fazer a recepção na Academia a 30. Vou adiá-la, mas quisera que me dissesse, visto que tem de receber o João, que data lhe é mais cômoda, dando margem à apresentação do novo eleito ao Presidente impressão de cartões, distribuição etc.: 15 de dezembro? Vinte? Vá desculpando a letra e a maçada, responda-me, abrace-me de longe, por si e pelos amigos e creia no

 

Velho e saudoso am.o

 

M. DE ASSIS.

 

P. S. — O portador espera.

 

 

 

[58] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 3 dez. 1898.]

 

Vigésima quinta aos Coríntios.

 

A minha idéia era lá dar um pulo agora, mas não posso, e provavelmente não poderei fazê-lo hoje.

 

O objeto da ida e da carta é dizer ao nosso João Ribeiro que, segundo me comunicou ontem o Dr. Cockrane, o Presidente da República receber-nos-á no dia 6, ao meio- dia.

 

Peço o favor de ser isto comunicado ao dito João Ribeiro, se aí estiver, dia 6 e o favor ainda maior de informar-me aonde poderei escrever-lhe. O dia 6 é terça-feira; cumpre-nos estar a postos. Como sabem, já estive com o Epitácio, por apresentação do Rodrigo Otávio. Adeus e até breve.

 

Velho am.o/ M. DE ASSIS.

 

 

 

[59] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 15 dez. 1898.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Escrevo-lhe a tempo de suprir a visita pessoal, caso não possa ir agradecer-lhe as suas boas palavras de amigo no último número da Revista. Não quero encontrá-lo sábado, à noite, sem lhe ter dado ao menos um abraço de longe. Aqui vai ele, pela crítica do meu velho livro e pelo mais que disse do velho autor dele. O que Você chama a minha segunda maneira naturalmente me é mais aceita e cabal que a anterior, mas é doce achar quem se lembre desta, quem a penetre e desculpe, e até chegue a catar nela algumas raízes dos meus arbustos de hoje. Adeus meu caro Veríssimo. À vista o resto, e creia-me sempre o velho am. o e adm.or/ M. DE ASSIS.

 

 

 

[60] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 31 dez. 1898.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Aceito muito agradecido os abraços de fim de ano, aqui os devolvo com igual cordialidade, pedindo-lhe também que apresente à sua senhora as minhas respeitosas felicitações. Quanto à Revista, era ontem dia marcado e hoje também, mas ontem os destinos o não quiseram, estive doente e recolhi-me logo. Hoje estou aqui preso pelo trabalho. Mas, assim como os pilhei de assalto um dia, assim os pilharei outro.

 

Sobre a água falei anteontem ao Floresta de Miranda, que tomou nota de tudo e ficou de providenciar logo. Vejo que não fez nada. Vou escrever-lhe agora, não sei se com melhor fortuna, mas com igual obstinação.

 

Como vai o Paulo? E o Graça? e os outros? Como vai o ruisseau de la rue du Bac, como diria Madame Stäel? Até breve. Amanhã começo a lê-lo na Gazeta; vamos ter uma longa e bela página. Devia riscar a penúltima palavra, mas o expediente está chegando. Até breve, e adeus.

 

Meu velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[61] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 16 jan. 1899.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Antes de tudo, água. Deus lhe dê água, e o Floresta, seu profeta, também. Novamente escrevi e falei a este. O mais que alcancei é que as obras necessárias darão o mesmo mal a outros, e assim o remédio alcancei eu profeta, também. Novamente escrevi e falei a este. o mais que alcancei é que as obras necessárias darão o mesmo mal a outros, e assim o remédio será que Você tenha coisa maior para depósito. Não sei se será realmente assim. Você diga-me o que pode ser.

 

Sobre a nomeação recaiu em outro que não o seu candidato. O nomeado tem perto de 40 anos de serviço e começou em carteiro, e com tais qualidades que levaram o Vitório a propô-lo e o ministro a adotá-lo.

 

Escrevo ao Paulo sobre a aposentação do pai. Peço a Você que inste com ele para fazer uma reunião próxima da Academia. Quero ver se escrevo também ao Rodrigo Otávio, e há dias falei ao Nabuco.

 

Não sei se ainda vivo. Você vive e bem. Não posso voltar-me para nenhum lado que o não veja impresso. Onde é que Você acha tanta força para acudir a tanta coisa? Saudades ao Graça e a todos. Não vá a ausência fazer esquecer o

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[62] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 6 fev. 1899.]

 

Caro Veríssimo.

 

Cá vi hoje a menção honrosa que me fez, e mando-lhe o troco do meu cordial aplauso ao artigo. Eu notava que o Jornal do Comércio nada dissesse, estando Você lá, mas tanto melhor se guardou para dizer melhor que todos. O nosso Graça já me havia descoberto sábado, e assim o disse com aquela expansão amorosa que lhe conhecemos [.....].

 

 

 

[63] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 13 fev. 1899.]

 

Caro Nabuco.

 

Respondo à sua carta. Pensei na sucessão do Taunay logo depois que o tempo afrouxou a mágoa da perda do nosso querido amigo. A vida que levo, entregue pela maior parte à administração, não me permitiu conversar com os amigos da Revista mais que duas vezes, mas logo achei a candidatura provável do Arinos, e dei-lhe o meu voto; o Graça Aranha e o Veríssimo a promovem , e já há por ela alguns votos certos, ao que me disseram. Assim fiquei aliado, antes que V. me lembrasse o nome do Constâncio Alves. Também ouvi falar do Assis Brasil, mas sem a mesma insistência.

 

Adeus, caro Nabuco, até à primeira, que não sei quando será, mas não deve ser muito tarde. Em todo caso não esqueça o velho am.o e adm.or

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

 

[64] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 25 fev. 1899.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

E água? Como vamos de água? Depois da nossa última conversa, esteve comigo o Floresta que, em resposta à minha carta, trouxe uma nota, que aqui lhe mando inclusa. Disse-lhe que isto sabíamos nós, mais ou menos, e novamente lhe recomendei que abrisse as cataratas do céu; não sei se o fez, não tenho carta de um lado nem de outro.

 

Diga-me agora o que há mais sobre as candidaturas da Academia? Teve resposta de S. Paulo? O Nabuco falou-me, por carta, na candidatura do Constâncio Alves. Respondi-lhe com o que já havíamos conversado na Revista, e o acordo em que estávamos alguns acerca do Arinos. Ouvi que também o Francisco de Castro pensa na vaga. Todas estas perguntas são de pessoa que não pode aparecer e vive aqui entre ofícios e requerimentos. Como vão os amigos? Diga ao Paulo que estou à espera do que ele ficou de me dizer relativamente ao Pai. Logo que possa, apareço. Até breve. Se desse cá um pulo? Em troca, tome lá um abraço e adeus.

 

Velho am.o M. DE ASSIS.

 

 

 

[65] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 10 mar. 1899.]

 

Caro Nabuco.

 

Vai em carta o que não lhe posso dizer já de viva voz mas eu tenho pressa em comunicar-lhe, ainda que brevemente, o prazer que me deu a notícia de ontem no J. do Comércio.

 

Não podia ser melhor. Vi que o governo, sem curar de incompatibilidades políticas, pediu a V. o seu talento, não a sua opinião, com o fim de aplicar em benefício do Brasil a capacidade de um homem que os acontecimentos de há dez anos levaram a servir a pátria no silêncio do gabinete. Tanto melhor para um e para outro.

 

Agora, um pouco da nossa casa. A Academia não perde o seu orador, cujo lugar fica naturalmente esperando por ele; alguém dirá, sempre que for indispensável. o que caberia a V. dizer, mas a cadeira é naturalmente sua. E por maior que seja a sua falta, e mais vivas as saudades da Academia, folgaremos em ver que o defensor de nossos direitos ante a Inglaterra é o conservador da nossa eloqüência ante seus pares. A minha idéia secreta era que quando o Rio Branco viesse ao Brasil, fosse recebido por V. na Academia. Façam os dois por virem juntos, e a idéia será cumprida, se eu ainda for presidente. Não quero dizer se ainda viver, posto que na minha idade e com o organismo, cada ano vale por três.

 

Adeus, meu caro Nabuco, até à vista, e, desde já, um abraço cordial.

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[66] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 10 abr. 1899.]

 

Caro amigo J. Veríssimo.

 

Uma antedata salva tudo, mas nem a consciência nem o Graça Aranha deixariam mentir, e eu prefiro confessar a minha triste memória de velho. Pois não é que deixei passar o dia 8 de abril, sem lá mandar duas linhas de saudação, ou dar um pulo à Revista? Foi o Graça que me lembrou hoje aquele dia, e aqui lhe mando as saudações da amizade. Que os repita muitos e fortes, é o que desejam todos os seus amigos e admiradores.

 

Você é que, apesar de tudo, lembrou-se de mim, com aquela boa vontade que sempre lhe achei. Cá li a referência no Jornal de hoje, e daqui lhe mando um aperto de mão, com as velhas saudades do

 

Am.o velho

 

M. DE ASSIS. P. S. -- Lembranças a todos.

 

 

 

[67] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 25 abr. 1899.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Às pressas. Então janta-se na Revista e eu não sei de nada, a não ser que o meu dedo mindinho, e talvez também o Rodrigo Otávio, me hajam feito suspeitar alguma coisa? Saiba, meu caro amigo, que para despedir-me de pedaços tão caros estou sempre livre, é só mandar-me dizer o dia, hora, lugar e o resto. Creio que não é preciso pôr mais na carta, a não ser um abraço do

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[68] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 10 jun. 1899.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Não há defeito que não ache explicação ou desculpa na boa amizade. Tal sucede aos meus velhos Contos Fluminenses, cuja notícia literária li hoje no Jornal do Comércio. Não é preciso dizer com que prazer a li, nem com que cordialidade a agradeço, e se devo crer que nem tudo é boa vontade, tanto melhor para o autor, que tem duas vezes a idade do livro; digo duas para não confessar tudo. Já três pessoas me falaram do seu artigo; falaremos sobre isto. Agora, adeus; até amanhã, se houver sessão ou sem sessão, se puder soltar-me. Lembranças aos amigos, e um abraço do

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[69] AO DR. ALFREDO ELLIS [Rio de Janeiro, 10 jun. 1899.]

 

Exmo. Sr. Dr. Alfredo Ellis.

 

Acabo de escrever para Paris ao Sr. H. Garnier, pedindo-lhe que diretamente dê autorização à senhora, de quem V. Ex.a me fala no seu bilhete, para a tradução dos meus livros em alemão. A razão disto é, conforme já disse a V. Ex.a haver eu transferido àquele editor a propriedade de todos eles, até agora publicados.

 

Logo que receba a resposta (se ele não puser objeção, o que não espero) farei entrega dela a V. Ex.a para que se sirva dar-lhe o conveniente destino.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[70] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 14 jun. 1899.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

A sua carta de anteontem chegou-me tarde. Contava responder ontem, mas soube a tempo que poderia sair cedo, e logo que saí fui à Revista. Já o não achei. Aqui vai pois a resposta, que não é mais que a confirmação do publicado na Gazeta. Você fez bem em lembrar-me o que eu lhe dissera há anos, a respeito das Cenas da Vida Amazônica. Com tal intervalo, a mesma impressão deixada mostra que o livro tinha já o que lhe achei outrora. Os que vencem tais provas não são comuns. E outra prova. Trouxe de lá a Revista, e li o artigo do João Ribeiro. Sem que houvéssemos falado, escrevendo ao mesmo tempo, veja V. que ele e eu nos encontramos nos pontos principais; donde se vê que as belezas que achamos no livro existem de si mesmas, e dão igual impressão ao moço e ao velho. Tanto melhor para o velho.

 

Há de ter visto que o meu artigo trouxe erros tipográficos. Pará em vez de Perú, por exemplo. Há mais dois ou três; e há também um parágrafo desarticulado, que é das coisas que mais me afligem na impressão, não pelo aspecto, mas porque me quebra as pernas ao pensamento. O Gustavo da casa Laemmert disse-me que queria transcrever o artigo no Boletim Bibliográfico; disse-lhe que sim, notando-lhe aqueles defeitos, ficou de me dar provas. Vou emendar um exemplar da Gazeta e mandar-lho.

 

Até à primeira. Abraços aos amigos. Logo que possa, dou lá um pulo. E a Academia? Se não a fizermos falar, quem falará dela? Há poucos dias, conversei ainda uma vez com o Rodrigo Otávio. Vou dar um impulso novo escrevendo aos colegas que aí não vão habitualmente. Adeus.

 

O Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[71] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 16 jun. 1899.]

 

Am.o e Colega Rodrigo Otávio,

 

Resolvi fazermos uma sessão na Revista, terça-feira, 21, às três horas da tarde, e peço-lhe que nesse sentido mande uma noticiazinha para os jornais. A Academia não pode continuar a esperar casa, já nos reunimos mais de uma vez na Revista; fá-lo-emos ainda, até que nos dêem algum abrigo definitivo. Recomendo-lhe muito que não esqueça, e dispunha do seu

 

Colega e am.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[72] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 16 jun. 1899.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Agora falo só da Academia. Resolvi convocar uma sessão para terça-feira próxima, 21, às três horas da tarde, na sala da Revista. Você concordou em continuar a alojar a Academia, e não vejo outro recurso depois do que me disse o Rodrigo Otávio. Vou escrever a este para mandar a notícia, e entender-me-ei com o Ministro para que me dispense o tempo necessário. Se não houver inconveniente, o seu silêncio servirá de resposta. Abraços a todos, e para si também do

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS. P. S. -- E o nosso pobre Graça?

 

 

 

[73] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro. 16 jun. 1899.]

 

Caro Lúcio.

 

Depois de algumas diligências que recomendei ao Rodrigo Otávio relativamente à sala da Biblioteca Fluminense, para celebrarmos a próxima sessão da nossa Academia, resolvi que nos reuníssemos na Revista Brasileira. Falei ao José Veríssimo, e só me falta marcar o dia. Parece-me que pode ser terça-feira, 21, às 3 horas da tarde.

 

Trata-se de abrir prazo para preenchimento da vaga do Taunay. Além da obrigação, há conveniência de completar-nos, porque ficamos muito desfalcados com a partida do Graça e do Nabuco, e a mudança do Silva Ramos para Petrópolis. Conto com V., que é o pai da Academia, e espero que não falte. Adeus, meu caro Lúcio, receba mais um abraço do

 

Velho am.o , M. DE ASSIS.

 

 

 

[74] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 20 jun. 1899.]

 

Meu caro J. VERÍSSIMO

 

Quase certo ou certo de não poder ir pessoalmente lá, vou por este bilhete que não exige resposta. Visitei domingo o Francisco de Castro, a quem falei na candidatura, acabando por obter que se apresentará oficialmente, logo que o avise. Hoje estive com o Rodrigo Otávio, a quem disse que aceitava a idéia de fazer na mesma sessão a eleição da mesa e a do novo acadêmico. Disse-me que tem os cartões-postais prontos, e combinamos que dez dias antes de 10 de agosto fosse a sessão anunciada. Resta a casa ou antes a sala para este fim imediato; ele quer ver ainda se obtém a Biblioteca Fluminense, e vai ter com o José Carlos. Também falamos sobre o lugar de Secretário Geral.

 

Quero ver se dou com o Rui na eleição do acadêmico.

 

Disse-lhe acima que a carta não tem resposta, mas é só para lhe poupar fadigas. Dê-me os seus conselhos, ou, pelo menos, as suas notícias e lembranças. Adeus; recomende-me aos companheiros, e distribua as saudades que aqui lhe manda

 

o velho am.o M. DE ASSIS.

 

 

 

[75] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 6 jul. 1899.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Muito obrigado pela lembrança;: é Wallon justamente. Hoje, se puder, darei ainda um pulo à Revista. Até logo ou até um dia.

 

Seu velho

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[76] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 31 jul. 1899.]

 

Não é preciso lembrar-lhe o aviso para a sessão de 10 de agosto, mas desculpe-me se estou ansioso por saber da casa. Já alcançou alguma coisa do José Carlos acerca da Biblioteca Fluminense? Já temos a apresentação do Francisco de Castro. Avise-me do que há ou diga-me a hora em que posso procurá-lo.

 

Até breve

 

Sempre ad.or e velho am.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[77] A VALENTIM MAGALHÃES [Rio de Janeiro, 4 ago. 1899.]

 

Meu caro Valentim Magalhões.

 

A melhor resposta à sua carta de ontem está nela mesma. A Academia Brasileira de Letras não tem ainda casa própria, vive de empréstimo. onde quer que alguém, por amor ou favor, consente abrigá-la durante algumas horas. Que, apesar disso, a Academia teime viver é sinal de que traz alguma coisa em si, mas não basta para dar aos nossos hóspedes argentinos uma festa tão completa corno eles merecem. Tal é o meu parecer; e não ponho aqui a escassez do tempo necessário à organização do programa e à adoção e inclusão dele na relação das outras festas públicas, senão para mostrar que a sua bela e justa idéia precisaria mais que estes poucos dias últimos.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[78] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 7 ago. 1899.]

 

Meu caro Rodrigo Otávio.

 

Vou lembrar-lhe a expedição dos avisos e a notícia sobre a sessão da Academia. O José Avelino esteve aqui, anteontem, e, perguntando-me em conversa se o Francisco de Castro apresentara-se candidato, disse-lhe que sim; ao que retorquiu que não se apresentaria, fazendo boas referências ao outro.

 

Estive hoje com o Cesário Alvim, na Prefeitura, aonde fui falar do Pedagogium. Depois lhe direi o resto. O tempo urge.

 

Seu am.o e colega.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[79] A JOSÉ VERISSIMO [Rio de Janeiro, 18 set. 1899.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Deixe-me ainda uma vez apertar-lhe gostosamente a mão pela sua boa vontade e simpatia. Cá o li e reli hoje e guardo com as animações do amigo as indicações do juiz competente. Sobre estas já conversamos. Quanto ao livro de teatro, basta só lazer e oportunidade, além da aquiescência do editor. Para o crítico não sei se há matéria suficiente nos trabalhos de alguns anos; se juntasse os de muitos anos atrás, creio que daria um volume, mas compensariam esses a busca? A própria busca, não sendo impossível, não seria fácil. Enfim, veremos. Mais fácil que isso seriam talvez as memórias. Concordo com o reparo acerca da frase do Tu só tu, puro amor..., tanto mais que, ao escrevê-la, senti alguma estranheza, a não ser que a sua crítica tão sugestiva mo faça crê-lo agora. Adeus, até breve: se puder ser, hoje mesmo. Escrevo entre duas pastas, e vários pretendentes que desejam saber dos seus negócios. Desculpe a letra e o desalinho. Provavelmente teremos esta semana algumas ocasiões de estar juntos. Até logo ou até breve. Sempre o mesmo

 

Velho am. o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[80] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 20 out. 1899.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Pode V. dar uma chegadinha aqui, hoje, ao Gabinete? Só lhe peço cinco minutos, se me der dez ou vinte, é porque sabe o que eles valem.

 

Até logo.

 

Todo seu

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[81] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 31 out. 1899.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Sei que V. tem passado bem não menos que o nosso Graça Aranha, e a ambos envio, de cá, abraços e saudades. Ainda não estive com o Caldas Viana, mas sei por pessoas que lhe falaram que ele veio de lá com grande pena; também eu sentiria a mesma coisa, se houvesse de tornar antes do fim.

 

A vaga deixada por ele terá de ser preenchida naturalmente de acordo com V. ou por proposta sua. Sobre isto tenho indicação de um moço que desejaria ir e é bastante inteligente para corresponder ao que V. lhe confiar: É o Luís Guimarães, filho do Luís Guimarães Júnior. Está na Gazeta de Notícias. Veja V. o que pode fazer por ele, e não esqueça o

 

Velho am.o

 

M. ASSIS.

 

 

 

[82] A BELMIRO BRAGA [Rio de Janeiro, 5 nov. 1899.]

 

Meu caro Sr. Belmiro Braga.

 

Folguei muito com a sua carta, e cordialmente agradeço as palavras que me dirige a propósito do livro Vindiciae do Conselheiro Lafaiete. Creio que já não há quem ignore a autoria deste, embora ele a não confesse. Eu é que confessarei sempre a impressão que ele me fez, por dizer o que diz e vir de quem vem. Pelo que me escreve, há aí também quem pense e trabalhe em defender-me. Peço-lhe que, de antemão, lhe agradeça esta fineza de amigo, caso possa confessar ao Dr. Antônio Fernandes Figueira que me fez tão agradável e preciosa denúncia. Ainda bem que me não faltam amigos distantes, que sintam comigo o bem e o mal.

 

Não se esqueça de mim, e creia-me sempre

 

atento am.o muito obrig.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[83] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 22 nov. 1899.]

 

Caro am.o 1.o Secretário.

 

Temos enfim uma sala no Pedagogium. Não é só nossa; é a em que trabalha a Academia de Medicina. O Cesário falou ao presidente desta, que consentiu em receber-nos, e eu fui depois entender-me com ele, e tudo se ajustou. Fui ver a sala, é vasta, tem mobília e serve bem ao trabalhos. Naturalmente, os retratos e bustos que lá estão são de ossos médicos, mas nós ainda os não temos de nossa gente, e aqueles, até porque são defuntos, não nos porão fora. Entendi-me também para obtermos um lugar em que possamos ter mesa e armário para guarda dos nossos papéis e livros. Resta só agora uma ordem escrita do Diretor da Instrução, Valadares, para que sejamos admitidos ali. Irei buscá-la, mas desejava primeiro que fosse comigo ver a sala, ou se lhe parecer ir só (por desencontro de horas), fica-lhe livre esse alvitre. Só lhe peço que me escreva logo, para não demorar a regularização da posse. Acrescento que a recepção do Francisco de Castro pode ser feita ali, à noite, e para isso há lá seis lustres de gás incandescente, que farão boa figura, sem custar muito. Peço-lhe que refira tudo isto ao nosso Inglês de Sousa, se o encontrar antes de mim, e, se ele for ver também a sala, tanto melhor. Note que há lá outra sala, em que mais tarde poderemos trabalhar como únicos senhores. No caso de ir ver a sala, observo-lhe que a porta grande está fechada; entra-se por outra contígua.

 

Escrevi hoje ao Francisco de Castro, que ficou de responder depois. Domingo estive com ele, e conto lá ir no domingo próximo. Adeus; até breve.

 

Velho am.o e admirador

 

M. DE ASSIS. P. S. -- Já tenho a carta de autorização de posse para o Zararvella, que ficou de vir hoje buscá-la.

 

22-11-99.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[84] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 5 jan. 1900.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Recebi a sua carta anteontem à noite. Era minha intenção ir lá ontem, mas não pude, e não sei se poderei fazê-lo hoje; provavelmente não. Dado que sim, a visita aparecerá atrás da carta, mas para o caso de falhar a primeira, aqui vai a segunda. É curta, porque o gabinete está cheio de gente e a mesa de papel. Agradeço-lhe as suas boas palavras amigas. Quanto ao século, os médicos que estão presentes ao parto reconhecem que este é difícil, crendo uns que o que aparece é a cabeça do XX, e outros que são os pés do XIX. Eu sou pela cabeça, como sabe.

 

Sobre a minha verte vieillesse, não sei se ainda é verde, mas velhice é, a dos anos e a do enfado, cansaço ou o que quer que seja que não é já mocidade primeira nem segunda. Vamos indo. Adeus, meu caro amigo; um ano mais não é pétala de rosa dos a pedidos dos jornais; para nós é uma pedra nova ao edifício da amizade e da estima. Não digo isto alto para não vermos as pétalas dos jornais substituídas por pedras. Até logo, ou até breve. Minha mulher agradece-lhe os seus cumprimentos, e eu peço-lhe que apresente os meus respeitos à sua Senhora. Receba um abraço do

 

Velho am.o e adm.or

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[85] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 8 jan. 1900.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Sainte-Beuve qui pleure un autre Sainte-Beuve. (Arsène Houssaye).

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[86] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 1 fev. 1900.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Anteontem saí daqui doente, antes da hora, e ontem não me foi possível falar ao Severino. Disseram-me que ele vinha hoje, mas até agora não apareceu. Se não vier, irei eu à casa dele. Releve-me a demora e creia no

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS

 

 

 

[87] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 1 fev. 1900.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Obrigado pelo seu cuidado, mas como é que soube que estive doente? As más notícias voam. Venhamos ao mais interessante. Aqui esteve e está o Dr. Severino. Disse-me que (em resumo) falara ao Epitácio ontem. Soube dele que não tinha candidato seu, e que o Presidente, a primeira vez que falaram disso, não tinha nenhum e aceitava o que o Ministro lhe apresentasse. Posteriormente, estando juntos, disse-lhe o Presidente que tinha um candidato, sem lhe dizer quem era, e o Epitácio está esperando a indicação. Será Você? É a pergunta que me fez o Severino e a que eu lhe faço, sem nada podermos decidir. Em todo caso, tal é o estado do negócio; resta ir pela via conhecida. Desculpe-me não ser mais extenso. Até a primeira; lembranças ao Paulo.

 

O velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[88] A BELMIRO BRAGA [Rio de Janeiro, 26 fev. 1900.]

 

Prezado senhor e amigo.

 

Chamo-lhe amigo, e peço para conservar este nome a pessoa que mostra querer-me tanto. O Antônio Sales, a quem escrevo, ter-lhe-á anunciado esta carta, se receber a sua antes, mas eu espero que o correio me faça a fineza de as entregar ambas a um tempo. Não houve esquecimento na resposta que ora lhe dou; o adiamento é que me fez mal. Já não deixo a pena sem agradecer-lhe a fineza de suas palavras. Nem só fineza, mas a cordialidade também, e o espontâneo que as torna ainda mais prezadas. Também eu me honrei quando soube que Labieno era o nosso ilustre Lafaiete, esse mineiro que honra a terra de tantos brasileiros eminentes, e é venerado entre todos, como merece, por seus talentos naturais e rara cultura nas letras e na ciência. Disse-me na sua carta que o Dr. Antônio Fernandes Figueira tenciona responder ao Sr. Sílvio Romero. Aguardarei mais essa prova de simpatia, e de antemão agradeço a defesa, igualmente espontânea e honrosa, tanto mais que só agora sei que o Sr. Figueira é o mesmo Alcides Flávio, da Semana onde colaborei também há anos. Queira-me como antes e receba as congratulações de um trabalhador velho e amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[89] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 19 mar. 1900.]

 

Caro am.o J. Veríssimo.

 

Esta carta leva-lhe um grande abraço pelo seu artigo de hoje. Dom Casmurro agradece-lhe comigo a bondade da crítica a simpática e o exame comparativo. Você acostumou-nos às suas qualidades finas e superiores, mas quando a gente é objeto delas melhor as sente e cordialmente agradece. Ao mesmo tempo sente-se obrigada a fazer alguma, se os anos e os trabalhos não se opuserem à obrigação. Caso fosse possível, não seria dos menores efeitos da sua crítica de mestre. Adeus, meu caro amigo, obrigado pela Capitu, Bento e o resto. Até logo se puder sair a tempo; se não, até amanhã, que é terça-feira, dia de despacho.

 

velho am.o e admirador M. DE ASSIS.

 

 

 

[90] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 21 mar. 1900.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Penso que ontem, ao sairmos daí, esqueceu-me, em cima da mesa do chá o primeiro tomo da Ressurreição de Tolstoi que o Tasso Fragoso me emprestou. Caso assim seja, peço-lhe o favor de mandar-mo pelo portador.

 

Vai junto um folheto do Tasso que ontem deixei de levar-lhe; peço-lhe também que lho dê, quando aí for. Eu não sei quando irei. É claro que logo que possa, e oxalá seja hoje. Até sempre.

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS. Em tempo, Vão juntos o n.o do Figaro (delicioso Anatole!) e outro do Matin, que estava comigo há tempos.

 

 

 

[91] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 2 jun. 1900.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Não me tem sido possível aparecer, nem sei se hoje sairei a tempo de dar lá um pulo. Por isso escrevo, não só para lhe pedir notícias, como para saber o que [há] a respeito do nosso Domício. Peço que lhe pergunte se já posso convidar o Lúcio. Também desejava lembrar a Você o álbum da Viscondessa. Quisera ainda falar de muitas e muitas coisas, entre outras, a Biblioteca Nacional. Que há da Diretoria? Mande-me uma palavrinha para que eu saiba se não morri. Adeus, até à primeira.

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[92] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 4 jun. 1900.]

 

Meu caro José Veríssimo.

 

Pode ser que eu saia hoje às 4 e meia em ponto. Neste caso, e dado que apenas gaste 10 minutos daqui à Revista; achá-lo-ei? Não se constranja na resposta, até porque aquela hora pode falhar; faço-lhe a pergunta, não para que me espere, mas para saber se conta ir mais tarde. Até então ou depois.

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[93] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 26 jun. 1900.]

 

Meu caro Rodrigo Otávio.

 

Segundo ficou combinado, estive domingo com o Cibrão que ficou de falar ao Visconde de Avelar, presidente do Gabinete Português de Leitura. Falou e ontem oficiou-me dando conta do resultado. A Diretoria oferece de boa vontade o salão da biblioteca, só espera que lhe comuniquemos o dia. Respondi hoje mesmo ao Cibrão agradecendo em nome da Academia. Pela nota que ele me deu em particular (e vai inclusa), o 1.o Secretário do Gabinete é o Sr. Raul F. P. de Carvalho, Rua 1.o de Março n.o 30. Os dois secretários poderão entender-se sobre o que convier. O resto da Diretoria consta do Almanaque de 1900, ps. 819, para os convites, e, quanto ao Conselho Deliberativo, o Cibrão ficou de remeter hoje a lista. Convém convidá-los, tanto mais que o Cibrão é do número.

 

Remeto-lhe para os fins convenientes o ofício do Cibrão e cópia da minha resposta.

 

Creio que a nossa sessão de expediente ficou para 5. ª feira; não se esqueça de anunciá-la. Precisamos de falar antes disso ou no próprio dia: até lá. Mande-me as suas ordens. Sinto não poder dispor de todas as minhas horas. Fui ontem à Revista por alguns minutos./ Adeus, disponha do

 

Velho am.o e colega

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[94] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 2 jul.1900]

 

Meu caro Rodrigo Otávio

 

Remeto-lhe um ofício da Academia de Medicina convidando a Academia Brasileira a assistir à sessão de hoje, em homenagem ao Dr. Silva Araújo. Eu, desde muitos dias, estou encarregado pelo meu Ministro de o representar na sessão. Veja se por si ou por outro pode fazer com que a nossa Academia responda ao convite, indo assistir também. Desculpe a letra; a pressa a faz pior do que é.

 

Até logo.

 

Velho am.o e confrade

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[95] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 11 jul. 1900.]

 

Meu querido Lúcio de Mendonça.

 

Não lhe escrevi domingo não só por falta de portador, como por haver dito, sábado, ao Medeiros, que era quase certo não ir ao almoço inaugural. A razão era estar com aftas, que me mortificavam e impediam quase de comer. Mas, para o caso de esquecimento do Medeiros, mando-lhe estas duas linhas. Posso acrescentar que, apesar de tudo, tentei ir, ainda que tarde, mas não pude.

 

Todos os outros almoços da "Panelinha" hão de ser bons, mas eu não quisera faltar ao primeiro. Demais, podia ser que escasseassem os convivas e era mau intróito; felizmente, não. Adeus, meu caro Lúcio, até à primeira.

 

Esquecia-me dizer que tive uma longa conversação com o Eduardo Ramos, perdão, com o Francisco de Castro, e obtive dele promessa de que por todo este mês dará o discurso. Ao Ramos falei sobre o projeto da Câmara, Também pedi ao Francisco de Sá, deputado pelo Ceará e da comissão de Orçamento, que fosse benigno com a Academia, e expondo-lhe o projeto, achou perfeitamente aceitável. Conto falar um dia destes ao Sátiro Dias, a alguns de S. Paulo e Minas, ao Serzedelo Correia, etc. Vamos ver se desta vez vai a caixa ao porão. Adeus, novamente, e até breve.

 

O velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[96] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 18 jul. 1900.]

 

Meu caro Lúcio.

 

Esteve agora comigo o Eduardo Ramos, que me trouxe uma lista da comissão do Orçamento da Câmara. Disse-me que o parecer está pronto e termina com um projeto da Comissão, que, em substância, é mesmo. Já falei ao Sá, como lhe disse há dias; vou amanhã falar ao Cassiano do Nascimento e ao Serzedelo. Poderia V. conversar com o Barbosa Lima e os rapazes do Rio Grande, além de outros que lhe parecessem? Procurarei também o Sátiro e o Seabra. Vamos lá, mais um empurrão, e até breve. Não sei se V. tem ido à Revista. Eu tenho saído agora muito tarde, de maneira que acho a porta fechada. Em todo caso, até o primeiro domingo de agosto; creio que o lugar e a hora são os mesmos. Um abraço do

 

Velho amigo e companheiro

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[97] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 11 ago. 1900.]

 

Meu querido Salvador.

 

Vai só uma palavra, por falta de tempo e necessidade de não adiar para amanhã. O Vilhena esteve comigo e disse-me que o negócio da transferência de teu sobrinho está concluído; creio que é só esperar alguns dias. Estimo que vás passando bem; eu não vou mal, e enquanto puder dar conta do trabalho, tudo irá bem. Domingo almocei com o Lúcio e outros amigos; foi uma festa alegre. Até à primeira, e não e esqueças de mim para o que for do teu serviço e amizade. Lembranças aos teus e um abraço do

 

Velho am.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[98] À GAZETA DE NOTÍCIAS [Rio de Janeiro, 23 ago. 1900.]

 

Meu caro H. Chaves.

 

Que hei de eu dizer que valha esta calamidade? Para os romancistas é como se perdêssemos o melhor da família, o mais esbelto e o mais válido. E tal família não se compõe só dos que entraram com ele na vida do espírito, mas também das relíquias da outra geração, e, finalmente, da flor da nova. Tal que começou pela estranheza acabou pela admiração. Os mesmos que ele haverá ferido, quando exercia a crítica direta e quotidiana, perdoaram-lhe o mal da dor pelo mel da língua, pelas novas graças que lhe deu, pelas tradições velhas que conservou, e mais a força que as uniu umas e outras, como só as une a grande arte. A arte existia, a língua existia, nem podíamos os dois povos, sem elas, guardar o patrimônio de Vieira e de Camões; mas cada passo do século renova o anterior e a cada geração cabem os seus profetas.

 

A antiguidade consolava-se dos que morriam cedo considerando que era a sorte daqueles a quem os deuses amavam. Quando a morte encontra um Goethe ou um Voltaire, parece que esses grandes homens, na idade extrema a que chegaram, precisam de entrar na eternidade e no infinito, sem nada mais dever à terra que os ouviu e admirou. Onde ela é sem compensação é no ponto da vida em que o engenho subido ao grau sumo, como aquele Eça de Queiroz, — e como o nosso querido Ferreira de Araújo que ontem fomos levar ao cemitério, — tem ainda muito que dar e perfazer. Em plena força da idade o mal os toma e lhes tira da mão a pena que trabalha e evoca, pinta, canta, faz todos os ofícios da criação espiritual.

 

Por mais esperado que fosse esse óbito, veio como repentino. Domício da Gama, ao transmitir-me há poucos meses um abraço de Eça, já o cria agonizante. Não sei se chegou a tempo de lhe dar o meu. Nem ele, nem Eduardo Prado, seus amigos, terão visto apagar-se de todo aquele rijo e fino espírito, mas um e outro devem contá-lo aos que deste lado falam a mesma língua, admiram os mesmos livros e estimavam o mesmo homem.

 

M. DE ASSIS.

 

 

[99] A RODRIGO OTÁVIO [Rio de Janeiro, 25 ago. 1900.]

 

Meu caro Rodrigo Otávio.

 

Ontem procurou-me uma comissão de estudantes da Faculdade Livre de Direito para entregar-me a inclusa carta de convite. Trata-se da sessão em honra de Eça de Queirós. Desejam que a Academia compareça, e que designe alguém que fale em nome dela. A minha resposta foi que iria ver o que poderíamos fazer, sem advertir muito que já ontem era sexta-feira e a cerimônia é segunda próxima. Se quer incumbir-se de dizer algumas palavras, peço-lhe o favor de avisar-me, porque eles desejam saber de antemão o nome do orador. Não convoco reunião, por absoluta falta de tempo, mas veja se acha meio de convidar alguns que compareçam, e diga-me se pode lá ir também. Aguardo a sua resposta.

 

O velho am.o e confrade

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[100] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 25 ago. 1900.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

A Academia foi convidada pelos Estudantes da Faculdade Livre de Direito para a sessão de segunda-feira, em honra ao Eça de Queirós. Mandei a carta ao Rodrigo Otávio. Escrevo-lhe este para avisá-lo em tempo, a fim de comparecer se puder, como eu e outros colegas. O portador desta carta é o Sr. Dr. Acrísio da Gama, presidente da Comissão, que me pediu para entregar-lha em mão. Disponha do

 

velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[101] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 28 nov. 1900.]

 

Meu caro Lúcio de Mendonça.

 

Agradeço a carta que Você me mandou ontem, à noite, com a do Azeredo. O Azeredo, como eu disse a seu filho, já me havia comunicado a mesma coisa, pelo telefone, às duas horas da tarde, e eu dei-lhe pela mesma via os nossos agradecimentos. Tinha-lhe escrito na véspera, como ao Lauro Müller e ao Benedito Leite. Creio que o projeto terá passado hoje, mas ainda não recebi comunicação.

 

Agora resta a sanção; e sobre isto Você se entenderá, melhor que ninguém, com o Campos Sales. Há dias encontrando-me com o Epitácio, falei-lhe de passagem sobre o projeto, mas não há intimidade entre nós, e estávamos com outras pessoas. Até aqui fiz o que pude, e achei boa vontade em ambas as câmaras.

 

Quanto ao almoço, não sei; o almirante está agora na Escola. Esperemos aviso, que ainda pode ser recebido nesta semana, ou na que vem. Em todo caso, a panelinha se concertará. Até breve.

 

Todo seu

 

M. DE ASSIS. P.S.— Desculpe os borrões da carta; escrevo no meio de atropelo e papelada grande.

 

M. DE A.

 

 

 

[102] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 7 dez. 1900.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Deixe-me agradecer o exemplar de Minha Formação, que me destinou, e chegou a salvamento. Pouco antes acabava eu de reler e apreciar o valor deste seu livro, que é melhor que memórias, posto que delas tenha parte. Nem ele podia ser escrito sem recordações da própria vida e da vida pública. Assim que, contou V. a história do seu espírito, metendo na narração o interesse do leitor.

 

Na carta ao Graça Aranha digo alguma coisa a tal respeito. Parte dela é para ambos, e para o Oliveira Lima, nosso confrade da Academia, e diria que também para o Eduardo Prado, se não houvesse lido algures que ele embarcou para cá, — ou foi o Arinos que mo disse. O Oliveira Lima escreveu-me que Vocês têm aí um chá das cinco horas, em que recordam os nossos. Aqui é que acabou toda a reunião; raro nos vemos.

 

A morte do nosso Gusmão Lobo causou grande consternação. Valha ao menos que se lembraram dele! Vivi anos com esse talento privilegiado, forrado de um bom coração, capaz de aturar trabalhos longos. Serviu a homens e ao seu partido, como poucos, e figura entre os principais líderes da abolição. Não pude ir ao enterro, mas vou à missa, daqui a dias, e lá verei os restantes heróis, não todos, porque a vida levou alguns para a Europa, e a morte a outros para a sepultura.

 

Adeus, até breve. Não esqueça o seu admirador e

 

Velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[103] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 27 jan. 1901.]

 

Meu querido Salvador

 

A tua carta, em que tão cordialmente me mandas os bons desejos de saúde e felicidade, trouxe-me outra grande alegria, — a notícia da tua ama Maria, que vive três séculos. A razão é que, ao pé de tal criatura, considero-me rapaz, e não é pouca fortuna para quem, considerando-se sozinho, acha-se outra coisa que não digo por ser feia.

 

Boa notícia também é a dos teus bisavós, com 96 e 113 anos, excelente exemplo para o neto, que não deixará de continuar a carreira; e o Mário que aprenda com o pai a passar a perna ao século. A verdade é que não se chega lá sem muita saúde e robustez, e não admira que a tua velha ama coma e durma bem, tenha juízo direito e memória viva. O Visconde de Barbacena, que tem os seus 99, não só fala de coisas antigas, mas ainda projeta fazê-las novas. Há dias, conversando sobre explorações no Amazonas e no Pará, disse-me que, em abril ou maio, irá a Londres esquentar aquela gente para mandar lá uma comissão. A simples idéia de fazer isto mostra que este homem conta ir ao enterro da boa Maria de Itaboraí.

 

Não tenho estado com o Lúcio, mas agora que sei que o par de bustos é teu, vejo que devia adivinhá-lo no epigrama fino. Há desses tais bustos que merecem galeria.

 

Adeus, meu querido. Minha mulher e eu recomendamo-nos à tua Ex.ma Senhora e família. Eu abraço-te, como dantes, no século passado.

 

Velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[104] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 1 fev. 1901.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Creio que se lembra de mim lá em cima; também eu me lembro de Você cá embaixo, com a diferença que Você tem as alamedas do belo parque para recordar os amigos, e eu tenho as ruas desta cidade. Li com inveja as notícias que me dá daí e dos seus "dias gloriosos". Aqui a temperatura tem estado boa e excelente. Tem havido calor, mas é fruta do tempo. Chegou a haver frio, depois daquele famoso temporal, o maior que tenho visto, porque o de 1864 durou menos e não trouxe o tufão medonho, que me deitou abaixo as duas grandes palmeiras do jardim, arrancou grades, retorceu outras, e não me levou a mim, porque eu já estava em casa, mas levou as telhas e deixou cair a chuva em toda a parte. Começo a crer que vamos ter as tardes antigas de trovoadas; tanto melhor, se vierem temperar o calor.

 

Pelo que Você me diz na carta, vai passando bem. Nova Friburgo é terra abençoada. Foi aí que, depois de longa moléstia me refiz das carnes perdidas e do ânimo abatido. E note que não tinha casa, nem parque, nem biblioteca de amigo, como Você; mas a terra é tão boa que ainda sem eles, consegui engordar como nunca, antes nem depois.

 

Conquanto seja grande prazer lê-lo, não se meta a trabalhar. A falta da sua crônica, — revista, quero dizer — esta última segunda-feira, fez com que alguns dos seus fregueses literários me perguntassem se estava doente. Expliquei-lhes que não, que estava repousando. Apesar de tudo, é possível que, segunda-feira próxima, a revista apareça, e a conseqüência natural é o conselheiro estimar que o conselho não pegasse.

 

Recebi e estou lendo o Herod; agradeço-lhe não haver esquecido. Vou escrever ao Graça um dia destes. É verdade que me disse que o Oliveira Lima não vem cá ao Rio, e portanto não podemos ter a nossa grande sessão. Estou a ver se faremos uma sessão ordinária, para cuidar de dar execução a uma parte da Lei e cuidar de outro expediente. Quanto à casa, parece que está em dúvida a Escola de Belas-Artes, na Glória, e portanto, la coupole. Alguns dizem, porém, que o Bernardelli não perdeu as esperanças. Quero ver se lhe falo e ouço os fundamentos destas. Ainda ontem, conversando com o Rodrigo Otávio, reconhecíamos que a casa era difícil, mas acrescentei que não seria impossível, e em todo caso devíamos ter a persuasão de estar fazendo obra que dure, e esperar algum tempo.

 

Não li o livro do F... O Dr. Heráclito, com quem estive ontem, é da sua mesma opinião, e expô-la com igual vigor. Disse-me ele que o Graça voltará da Inglaterra até o fim do ano; sabe alguma coisa?

 

Falei da sessão ordinária que devemos fazer na Academia. Convém que se sigam outras. O Nabuco, escrevendo-me há tempos, observou que elas darão sinal da nossa vida, e é verdade. Para elas temos a sala da Biblioteca Fluminense, ponto central que não obrigará a andar nada; basta ir para casa, parar à porta da Biblioteca, subir, deliberar sair e tomar o bonde. As distâncias matam-nos. Lembre-se do que lhe contei um dia e se não se lembra, aqui vai. Foi no tempo da Constituinte, que se reunia no palácio de S. Cristóvão. Uma vez, indo eu para lá, encontrei no bonde um membro daquela assembléia, que me falou queixoso, aborrecido, zangado com a estafa e morto por que acabasse a Constituição e voltassem as câmaras para baixo. Eu refleti comigo que, se para fundar um regímen, não havia da parte de alguns paciência bastante, pouca haverá para outras obras menos relevantes. Certo é que a Academia é mais que muitas. Basta advertir que a francesa (notre soeur ainée) viu já monarquias de vária casta, legítimas e liberais, e repúblicas, e consulados e impérios, e vai sobrevivendo a todas as instituições.

 

Eis-me aqui a pregar a um convertido; mas releve-me a candura de falar assim a Você, que repousa sub tegmine fagi, lembrando-se de que também isto é acadêmico.

 

Adeus, meu caro amigo; continue a lembrar-se de mim, que eu faço o mesmo. Minha mulher agradece as suas lembranças, e eu assino-me como sempre

 

O velho am.o admirador

 

M. DE ASSIS. Um abraço ao am.o Rodolfo.

 

 

 

[105] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 16 fev. 1901.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Esta carta é apertada para caber, não no papel, mas no tempo de que posso dispor. E desde já lhe digo que cumpri as suas ordens, mandando a carta ao Diretor dos Correios. Este respondeu-me logo, e infelizmente não tenho aqui a carta para lhe remeter com esta; mas como ele me disse que lhe escreveu diretamente, é natural que saiba já das explicações e das providências.

 

Pela outra sua vi que está passando bem, tão bem que até me quisera lá. Eu não menos quisera subir, apesar de carioca enragé; ao Sancho Pimentel, que há dias me convidava a acompanhá-lo, respondi com a verdade, isto é, que não posso deixar o meu posto. O céu, reconhecendo esta situação, mandou-me um verão, e particularmente um fevereiro, que nunca jamais aqui houve. Já tivemos frio! Verdade é que ter frio não é ter Nova Friburgo. A prova do benefício que lhe faz esse clima delicioso, com a vida que lhe corresponde, cá temos tido nas suas Revistas Literárias, que são para gulosos. Vejo que não aceitou o meu conselho e, como eu ganhei com isso, fez muito bem, e melhor fará continuando. Li o que me diz do Oliveira Lima, e tanto melhor se vamos ter a nossa sessão solene. Há cerca de duas semanas recebi carta dele pedindo autorização da Academia para pôr em um livro a designação de membro dela. Já lá foi. Antes da grande sessão precisamos de uma, pelo menos, para assentar sobre vários pontos. Vou cuidar da comunicação ao John Fiske. Convém acudir a quem nos quer bem.

 

Aguardo as coisas que lhe escreveu o Aranha. Eu devo a este amigo uma carta, que já devia estar a caminho. O Magalhães de Azeredo, que me não escreve há tempo, queixou-se de mim na última carta. Eu quisera poder escrever todas a todos, não para ouvir de Você epítetos que não mereço, como esse de Mérimée, mas para, ao menos, agradecer às leituras dos meus livros, como a das Histórias Sem Data. Adeus. Um grande abraço que responda à distância e alcance o Rodolfo. Adeus.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[106] A SALVADOR MENDONÇA [Rio de Janeiro, 14 mar. 1901.]

 

Meu querido Salvador de Mendonça.

 

Esta carta já devia ter subido a Petrópolis; ainda assim não vai tarde demais. Trata-se de pouco, e, ao que me parece, negócio sabido. O nosso colega da Academia Oliveira Lima, antes de ir para o Japão tomar conta do lugar, tenciona vir aqui tomar conta da cadeira, cujo patrono é o Varnhagen. Segundo me escreveu de Londres, ele quisera que Você lhe respondesse, e para nós todos a festa seria maior. Podemos ficar certos disto? A designação oficial pode ser feita e publicada oportunamente? Eis a resposta que Você me mandará, logo que entenda, a fim de que tudo se prepare para a recepção.

 

A saúde como vai? Eu, na semana passada, tive dois dias de molho, mas aqui me acho outra vez no gabinete. Não vejo há muito o Lúcio; mandei-lhe ontem um cartão de cumprimento ao Procurador Geral da República, com direção a Teresópolis, onde penso que continua. Minha mulher e eu recomendamo-nos à tua Ex.ma Consorte, e eu mando aqui dentro um abraço particular do

 

Velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[107] A FIGUEIREDO PIMENTEL [Rio de Janeiro, 31 mar. 1901.]

 

Ex.mo Sr. Figueiredo Pimentel.

 

Respondo à sua carta, agradecendo as notícias que me dá relativamente a Phileas Lebesgue, e à solicitude de V. Ex.a em fazer com que este traduza os meus livros. Entretanto, não posso ordenar que o editor lhos envie, como V. Ex.a me pede, nem sequer autorizar a tradução, porquanto a propriedade das minhas obras está transferida ao Sr. Garnier, de Paris, com todos os respectivos direitos. Só ele poderá resolver sob esse ponto.

 

Sou, com apreço e consideração, de V. Ex., at.o venerador e obrg.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[108] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 2 abr. 1901.]

 

Meu querido Lúcio.

 

Logo que recebi a sua carta, fui-me ao Laemmert, onde achei à minha espera o exemplar das Horas do Bom Tempo. Já o título trazia a frescura necessária aos meus invernos. Devem ter sido bem bons tempos esses, que V. recordou em páginas lépidas, com vida e vontade. É doce achar na conta da vida passada algumas horas tais que não esquecem, que revivem e fazem reviver os outros. Não há senão um relógio para elas, mas é preciso ser bom relojoeiro para saber dar corda e fazê-las bater de novo como você fez. Ao pé delas, vi os contos, reli muitos, e agradeço as sensações de vária espécie que me deixaram, ou alegres ou melancólicas, ou dramáticas. Uma destas, a do "Hóspede", é das mais vivas. E das melancólicas não sei se alguma valerá mais que aquela "À Sombra do Rochedo", que é um livro em cinco páginas; a comparação da manhã e da tarde é deliciosa, e a que forma e dá o título é das mais verdadeiras. E as "Mãos"? e a "Lágrima Perdida"? e o resto? Eis aí boa prosa com emoção e sinceridade.

 

A Academia agradece o novo livro ao seu fundador e cá o espera para fazermos algumas sessões necessárias. Até breve, até o primeiro almoço da "Panelinha".

 

Releve esta letra; nunca foi bonita: a idade a está fazendo execrável. Só o coração se conserva

 

Amigo velho e admirador

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[109] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 10 abr. 1901.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Ontem, quando o Ministro saiu, corri ao Garnier, mas era tarde; faltavam dez minutos para as cinco. Hoje não sei ainda se poderei ir a tempo; mas farei tudo para lá estar às quatro e meia. Como pode suceder que não saia mais cedo que ontem, quero desde já apertar-lhe a mão pelo estudo sobre a Prosopopéia, cuja segunda parte li há pouco. É dos melhores que tem dado a sua Revista Literária, e tem já um dos primeiros lugares no próximo livro. Homem e obra estão completos; vou reler ambas as partes. Até logo, e (para tudo prevenir) se não puder ser logo, até amanhã. Em conversa, o resto. E por fim um abraço de amizade e admiração do

 

Velho

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[110] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 21 mai. 1901.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Não sabendo se sairei cedo, quero que esta carta vá desde já agradecer-lhe a longa e afetuosa crítica que fez hoje do meu livro de versos, e naturalmente do autor. Já estou acostumado aos seus dizeres de amigo, que anima o velho escritor; mas não há costume que tire às belas palavras a novidade que elas trazem sempre do coração e do cérebro de um crítico eminente. Até logo ou até amanhã, se eu sair tarde: mas oxalá seja logo.

 

Velho am.o e confrade

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[111] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 22 out. 1901.]

 

Meu caro Lúcio.

 

Quinta-feira teremos sessão da Academia, no escritório do Rodrigo Otávio. Há de ser anunciada nas folhas da tarde de amanhã e nas da manhã do dia. Trata-se das vagas e da eleição, isto é, do prazo em que esta se fará. Precisamos comparecer. Até lá, e saudades

 

Do velho am.o M. DE ASSIS.

 

 

 

[112] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 2 jan. 1902.]

 

Meu caro Lúcio.

 

De acordo com o que V. me mandou lembrar, vamos recomeçar o almoço da "Panelinha", domingo, 5, no Globo. Já falei a alguns amigos. O Valentim estava ontem incomodado, não sei se irá; e o Filinto de Almeida disse-me que tem o dia destinado a outra coisa. É bom lembrar aos amigos que encontrar.

 

Até lá.

 

Todo seu

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[113] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro. 5 jan. 1902.]

 

Meu querido Nabuco.

 

Vai esta, antes que V. deixe Londres, e primeiro que tudo deixe-me felicitá-lo por mais esta prova de confiança que recebe, assim do governo como do Brasil. A confiança explica-se pela necessidade de vencer; a espada devia ir a quem já mostrou saber brandi-la, e ainda uma vez o nome brasileiro repercutirá no exterior com honra.

 

Agora a felicitação para o ano de 1902, que oxalá lhe seja feliz e próspero, como a todos os seus.

 

E por último felicitações pela vitória do Arinos. Recebi o seu voto na véspera da eleição, como o do Graça, e ambos figuram na maioria dos 21 com que o candidato venceu. O Assis Brasil também era candidato, mas na hora da eleição o Lúcio de Mendonça retirou a candidatura, em nome dele, e daí algum debate de que resultou ficar assentado por lei regimental que as candidaturas só possam ser retiradas por cartas do autor até certo prazo antes da eleição. Note que todos ficamos com pesar da retirada. Como V. lembra era melhor que as duas eleições se fizessem no mesmo dia. Creio que assim a eleição de Assis Brasil seria certa. O Martins Júnior teve 2 votos, e parece que se apresenta outra vez. Também ouvi anteontem ao Valentim Magalhães que o Assis Brasil pode ser que se apresente de novo.

 

Agora mesmo estive relendo o seu discurso de entrada no Instituto, como tenho relido o mais do volume dos Escritos e Discursos Literários que V. me enviou, e naturalmente saboreando as suas belas páginas, idéias e estilo, e recordando os assuntos que passaram pela nossa vida ou pelo nosso tempo. Então vi que V. bem poderia responder ao Arinos, que entrou para a Academia como homem de letras; ambos diriam do Eduardo Prado o que ele foi, com a elevação precisa e o conhecimento exato da pessoa.

 

Adeus, meu caro Nabuco. A missão nova a que V. vai não lhe dará mais tempo do que ora tem para escrever aos amigos, mas V. sabe que um bilhete, duas linhas bastam para lembrar que tal coração guarda a memória de quem ficou longe, e fez bater ao compasso da afeição antiga e dos dias passados. O passado (se o não li algures, faça de conta que a minha experiência o diz agora), o passado é ainda a melhor parte do presente, — na minha idade, entenda-se. Eu ainda guardo da sua primeira viagem a Roma algumas relíquias que V. me deu aqui: — um pedaço dos muros primitivos da cidade, outro dos Rostros, outro das Termas de Caracala. Agora basta que eu ouça cá de longe o eco das suas vitórias diplomáticas, e V. o dos nossos aplausos e saudações. Adeus, meu caro Nabuco. Apesar da diferença da idade, nós somos de um tempo em que trocávamos as nossas impressões literárias e políticas, admirei seu pai, e fui íntimo do nosso Sisenando, a quem V. acaba de oferecer tão piedosamente o seu livro.

 

Abrace de longe o

 

Adm.or e amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[114] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 18 fev. 1902.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Não sabendo se o encontrarei no Garnier, apesar de pretender e poder sair mais cedo daqui, escrevo o que lhe diria de viva voz, a respeito do seu artigo de hoje. Toda aquela questão da literatura do Norte está tratada com mão de mestre. Tocou-me o assunto ainda mais, porque eu, que também admirava os dotes do nosso Franklin Távora, tive com ele discussões a tal respeito, freqüentes e calorosas, sem chegarmos jamais a um acordo. A razão que me levava não era somente a convicção de ser errado o conceito do nosso finado amigo, mas também o amor de uma pátria intelectual una, que me parecia diminuir com as literaturas regionais. Você sabe se eu temo ou não a desarticulação deste organismo; sabe também que, em meu conceito, o nosso mal vem do tamanho, justamente o contrário do que parece a tantos outros espíritos. Mas, em suma, fiquemos na literatura do Norte, e no seu artigo. Consinta-me chamar-lhe suculento, lógico, verdadeiro, claramente exposto e concluído; deixe-me finalmente compartir um pouco das saudades de brasileiro e romântico, comme une vieille ganache, diria o nosso Flaubert. Até logo ou depois.

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[115] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 24 mar. 1902.]

 

Meu caro Nabuco.

 

A sua carta de 26 de janeiro, aqui chegada há poucos dias, é a que se podia esperar de tão fino espírito. Entretanto, parece que o plano não será adotado. Achei amigo que, além de não adotar, penso que encontrarei objeção da parte dos outros, por sair das praxes acadêmicas. Em tal caso, meu caro Nabuco, resolvi não dar andamento à idéia, e dispor-me a ir a Atenas, sem ouvir Platão. Mas irei sequer a Atenas? A eleição do Arinos, que a desejava e pediu, foi brilhante, embora o Assis Brasil tivesse o apoio do Lúcio de Mendonça. Logo que a eleição se fez escrevi um bilhete particular de felicitação ao Arinos e o Rodrigo Otávio fez a comunicação oficial. Não recebi resposta nem o Rodrigo, e como o Arinos tinha ido às águas, podia ser desencontro. Disse ao Rodrigo que mandasse segunda via do ofício, agora que ele estava de volta a S. Paulo, mas ainda não veio resposta, e já tempo de sobra. Não compreendo. Vou ver se o Garcia Redondo, que é da Academia, ou alguém que lá esteja próximo, me descobre a razão deste silêncio.

 

O Assis Brasil esteve aqui de passagem, por dois ou três dias, mas não lhe pude falar. Hei de procurar o Lúcio e o Valentim, para saber se ele quer ser candidato. Cá fica o seu voto.

 

Adeus, meu caro Nabuco. Vá desculpando esta letra de velho, não tão velho que não possa ainda aplaudir os seus bons e grandes serviços à Arte e ao País. Muitas lembranças ao Graça Aranha.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[116] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 21 abr. 1902.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Recebi sábado o seu recado, e respondo que sim, que estou zangado com Você, como Você, esteve comigo. A sua zanga veio de o não haver felicitado pelos 45 anos, a minha vem de os ter feito sem me propor antes uma troca. Eu a aceitaria de muito boa vontade.

 

Já recebi e já li Canaã; é realmente um livro soberbo e uma estréia de mestre. Tem idéias, verdade e poesia; paira alto. Os caracteres são originais e firmes, as descrições admiráveis. Em particular, — de viva voz, quero dizer, — falaremos longamente. Vou escrever ao nosso querido Aranha. Na carta em que ele me anunciou o livro, lembra-me aquela "nossa trindade indissolúvel..." O vento dispersou-nos.

 

Esta semana, no primeiro dia de despacho, sairei mais cedo e irei buscá-lo ao Garnier. Espero ler a sua análise de Canaã. A propósito, quem será o autor do artigo que saiu hoje no Jornal do Comércio?

 

Adeus, até amanhã ou depois. Já nos vemos poucas vezes. Adeus daquele que já fez 45 anos (bela idade!)

 

M. DE ASSIS.

 

P. S. — Abro a carta, hoje 22, para lhe apertar a mão pelo artigo — apoteose de Vitor Hugo.

 

M. DE A.

 

 

 

[117] A LUÍS GUIMARÃES FILHO [Rio de Janeiro, 10 jul. 1902.]

 

Meu querido Luís Guimarães.

 

Recebi a sua cartinha com as notícias que me dá, e o exemplar da tradução das Memórias Póstumas de Brás Cubas. Agradeço-lhe muito e muito a diligência, e a lembrança em que me teve ainda de longe. Quando aqui falamos da publicação de Montevidéu, já aqui tinha o número de 2 de janeiro (ambas as edições), trazendo a da manhã, além do meu retrato, um artigo do Artur Barreiros, encabeçado por algumas palavras honrosas da redação, e seguido de notas biográficas. A tradução só agora a pude ler completamente, e digo-lhe que a achei tão fiel como elegante, merecendo Júlio Piquet ainda mais por isso os meus agradecimentos.

 

A você renovo os meus, e peço que disponha também do velho amigo e admirador do filho, como do pai.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[118] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 17 jul. 1902.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Aí vai cumprida a sua ordem, expressa na carta de ontem. A carta veio em boa hora, por me dar certeza de que ainda vive o caro Veríssimo, apesar de o ler nos Prosadores desta semana e nos artigos de outras. O destino nos separa por algum tempo, até que o faça de todo, se é certa a idéia em que ando de que outra Manaus, mais remota que a nossa, me espera em breve.

 

Que o mesmo destino nos faça encontradiços algumas vezes para trocarmos idéias, é o que desejo.

 

Adeus, releve a escassez do bilhete, e lembre-se sempre do

 

Velho am.o e adm.or

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[119] A LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 8 ago. 1902.]

 

Meu caro Lúcio.

 

A lembrança do meu nome, honrosíssima em si, veio de encontro a um grande obstáculo. Não quero referir-me à representação literária, que a bondade dos amigos me dá, como um prêmio de assiduidade e tenacidade no trabalho. Refiro-me à significação política, quando eu [vou] galgando os sessenta anos, para não dizer a verdade inteira. Meu querido, não é idade em que comece um papel destes quem não exerceu nenhum análogo na mocidade

 

Você, que abriu os olhos em plena luta, me compreenderá bem, e transmitirá aos demais companheiros a minha escusa com os meus agradecimentos. Outrossim, me desculpará também se a lembrança, como a outra, foi também sua.

 

O velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[120] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 5 out. 1902.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Receba os meus pêsames pela perda de sua querida e veneranda mãe. A filosofia acha razões de conformidade para estes lances da vida, mas a natureza há de sempre protestar contra a dura necessidade de perder tão caros entes. Felizmente, a digna finada viveu o tempo preciso para ver a glória do filho, depois da glória do esposo. Retirou-se deste mundo farta de dias e de consolações.

 

Minha mulher reúne os seus aos meus pêsames.

 

O velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[121] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 20 nov. 1902.]

 

Meu caro Mário.

 

Muito obrigado pelas suas felicitações à Secretaria; é um modo delicado de achar em mim qualidades que, a existirem, a idade as terá levado ou diminuído. Quanto ao abraço, cá fica como prova de amizade. Também fica o livro de versos, presente e lembrança, cuja primeira página acabo de ler e é a melhor porta que podia dar ao edifício; adivinhei a pessoa que a inspirou, e saboreei o sentimento que exprime. Também adivinho que o livro corresponderá à carta em que a valia do dizer se forra de tão doce modéstia. Vou lê-lo como merece o seu talento. Ainda uma vez obrigado.

 

Aceite um abraço do velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[122] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 11 dez. 1902.]

 

Meu querido Mário.

 

Cá recebi a sua carta, e vejo que adivinhou a autoria da notícia da Gazeta. Sim, é minha; disse em poucas palavras o que sinto dos Versos e do autor. Juntando o seu nome ao de Magalhães de Azeredo, compreendo bem que seria agradável a ambos.

 

Estimo que as animações que ali pus achem no seu espírito culto e fino o necessário efeito, e folgo de haver acertado. Tem a idade, tem os estímulos, e destes, além dos que lhe podem dar os vivos, contará sempre o do nosso grande morto. Tem já o respeito da arte, que é muito.

 

Adeus, até à primeira.

 

Amigo velho,

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[123] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 17 mar. 1903.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Afinal é preciso lançar mão da pena para lhe dizer e ouvir, se é possível, algumas palavras. Sei que esteve nos Mendes, onde viu convalescer um filho e donde uma filha voltou doente. Sei também que a doente sarou. Tanto melhor para eles e os pais, a quem deram mais essa prova de amor filial. Tudo sei, meu caro; só ignoro o motivo da cólera do destino que nos faz desencontrados. Você, quando chego ao Garnier, já saiu, e agora cedo. Eu, é certo que chego tarde, mas sabe o que é, faz acaso mínima idéia do que, em linguagem administrativa, se chama a última quinzena do trimestre adicional? Repita comigo: última quinzena do trimestre adicional. Outra vez, devagar, e mande-me de lá um suspiro. Eis uma das razões de sair agora mais tarde. Hoje, porém, espero sair mais cedo, e se o não encontrar no Garnier é porque o Destino continua a querer a nossa eterna separação. As tardes, quando o bonde me leva para casa, ainda tenho ocasião de ler o V. e os comentários dos telegramas, mas é pouco e rápido. Alguém me perguntou, há dias, se Você deixara o Correio da Manhã. Respondi que não, e dei algumas das razões últimas, acima citadas.

 

Adeus, meu caro J. Veríssimo, vou preparar a pasta do dia. O papel não dá para letras, nem o tempo, nem o lugar; isto não quer dizer que a resposta, se vier, não traga algumas. Vá desculpando estas palavras emendadas; é obra da pressa e da velhice. Não falo em doença para o não enfadar ainda uma vez com esta desculpa, mas a velhice fica. Quando não fosse obra da natureza, era do calendário.

 

Adeus, meu bom amigo, não esqueça o

 

Velho am.o e adm.or

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[124] AO BARÃO DO RIO BRANCO [Rio de Janeiro, 17 mar. 1903.]

 

Meu eminente e querido am.o

 

Deixe que, em meio de seus graves trabalhos, vá ocupá-lo com a minha pessoa. O que me dá confiança, além da sua bondade, é tratar também de pessoa amiga nossa. Nabuco escreveu-me de Pau, dando-me notícia, entre outras, coisas da Primeira Memória que vai mandar para o Ministério das Relações Exteriores. Disse ele que lhes pedisse a inscrição do meu nome na lista dos que tenham de receber a Memória em português, a qual virá depois da Memória em francês, e só duzentos exemplares. É o que faço desde já, confiado em que não serei esquecido. Não é preciso dizer mais nada, senão que o acompanho, como todos os brasileiros, na grande campanha do Acre. E mais (isto agora em segredo diplomático, porque é uma frase confidencial do Nabuco): "Vejo que o nosso homem, além de chanceler, se fez comandante em chefe".

 

Queira-me sempre bem, como eu lhe quero, além da grande admiração que lhe tenho, e releve a interrupção do

 

Velho am.o e adm.or

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[125] AO BARÃO DO RIO BRANCO [Rio de Janeiro, 31 mar. 1903.]

 

Meu eminente e querido amigo,

 

Esta carta completa a outra que lhe entreguei acerca da inclusão do meu nome entre os favorecidos com um exemplar da Primeira Memória, em português, do nosso Nabuco. Ao mesmo tempo obedece à indicação que me deu outro dia na Secretaria do Exterior. A lista dos contemplados é a seguinte: Sílvio Romero, José Veríssimo, Capistrano de Abreu, João Ribeiro, Rodrigo Otávio, Ramiz Galvão e eu.

 

Devo lembrar que o Nabuco, além das indicações feitas para a Memória, em português, refere-se à mesma em francês, que vem acompanhada de documentos e de um atlas, citando a respeito desta "os colecionadores como o Veríssimo e o Capistrano." Cumpro naturalmente os desejos do autor, fazendo aqui tal menção.

 

Peço-lhe que para a edição francesa seja contemplada a nossa Academia.

 

Também lhe peço, meu bom amigo, que se não esqueça do que me prometeu acerca dos seus trabalhos.

 

Quanto ao mais receba ainda um abraço e m.tas felicitações deste

 

Am.o velho e cordial adm.or

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[126] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 20 abr. 1903.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Não vai cedo a resposta à sua carta, por uma razão: é que queria falar primeiro ao Rio Branco, acerca da inscrição de alguns nomes (entre eles o meu, a quem V. confiou a comissão), para a distribuição de exemplares da Primeira Memória. Falei-lhe; ele próprio me indicou também o de Sílvio Romero, dizendo-me que lhe remetesse para Petrópolis a lista dos beneficiados. Assim fiz, e por esse lado estamos prontos. Não esqueci a Academia, e se alguém aparecer mais que deva receber um exemplar, escreverei ao nosso Chanceler.

 

Está V. em Roma, donde recebi o cartão-postal com a galante lembrança dos "meus três cardeais". Três são, para receberem a minha bênção, mas é de velho cura de aldeia, e sinto não estar lá também, pisando a terra amassada de tantos séculos de história do mundo. Eu, meu caro Nabuco, tenho ainda aquele gesto da mocidade, à qual os poetas românticos ensinaram a amar a Itália; amor platônico e remoto, já agora lembrança apenas.

 

Lá está V. para ganhar a vitória que todos esperamos, e será um louro para a máscula cabeça daquele que eu vi adolescente, esperanças do venerando pai.

 

Voltando à Primeira Memória, agradeço-lhe o exemplar que aí virá brevemente. Os nossos amigos, a quem noticiei a boa nova, ficaram igualmente agradecidos. Peço-lhe que reparta as saudades que lhe mando com os nossos amigos Graça Aranha e Magalhães de Azeredo; com este passei aqui muitas horas longas. O Graça vive debaixo dos nossos olhos, com a edição nova da Canaã, em casa do Garnier. Apresente os meus respeitos à sua Ex.ma Senhora, e receba um abraço do

 

Velho amigo e adm.or MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[127] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 29 ago. 1903.]

 

Meu querido Salvador,

 

Vai aqui um abraço pelo teu restabelecimento, agora completo. Quando o Lúcio me falou da tua doença, ela chegara ao estado agudo, mas ontem as notícias eram boas, e ele próprio, que conta subir a Petrópolis hoje, leva-te um abraço pessoal.

 

Viva a velha guarda, meu amigo. Eu, apesar do pessimismo que me atribuem, e talvez seja verdadeiro, faço às vezes mais justiça à Natureza do que ela a nós. Não posso negar que ela respeita alguns dos melhores, e estou que os fere por descuido, mas logo se emenda e põe o bálsamo na ferida. Adeus, meu querido amigo, apresenta à tua Ex.ma Senhora as minhas congratulações e as de m.a mulher, que também as envia para ti; e continua a lembrar-te do teu

 

Velho Amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[128] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 7 out. 1903.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Demorei uns dias esta resposta, para que fosse completa, isto é, contendo alguma coisa acerca da sua Memória. Há tempo falei ao Rio Branco, e não há muitos dias ao Domício; ultimamente fui à Secretaria do Exterior onde soube pelo Pessegueiro que se estava completando um trabalho depois do qual se fariam as remessas ou entregas. O meu nome está na lista dos contemplados. Não sendo já esta semana, prefiro escrever-lhe uma carta de agradecimento a esperar.

 

Também agradeço o último retrato de Leão XIII, com a cura da idade e os versos latinos. Outrossim, o cartão-postal com o selo da sede vacante. Não tenho coleção de selos, mas este vale por uma e cá fica. Mandar lembranças a um velho é consolá-lo dos tempos que não querem ficar também.

 

Do que V. me diz naquele, já há de saber que nada se fez. O prazo findara. Já deve saber que o Euclides da Cunha foi escolhido, tendo o seu voto, que comuniquei à Assembléia. Não se tendo apresentado o Jaceguai nem o Quintino, o seu voto recaiu, como me disse, no Euclides. Mandei a este a carta que V. lhe escreveu. A eleição foi objeto de grande curiosidade, não só dos acadêmicos, mas de escritores e ainda do público, a julgar pelas conversações que tive com algumas pessoas. Mostrei ao Jaceguai a parte que lhe concernia na sua carta. Espero que ele se apresente em outra vaga, não que mo disses, mas pela simpatia que sabe inspirar a nós todos, e terá aumentado com a intervenção que V. francamente tomou.

 

A recepção do Euclides não se fará ainda este ano. Já há dois eleitos, que estão por tomar posse, o Augusto de Lima, de Minas Gerais, e o Martins Júnior, de Pernambuco. Não é esta a razão; as entradas se farão à medida que estiverem prontos os discursos, e é possível que o Euclides se prepare desde já. Responder-lhe-á o Afonso Arinos. A recepção deste foi muito brilhante; respondeu-lhe o Olavo Bilac.

 

A Academia parece que enfim vai ter casa. Não sei se V. se lembra do edifício começado a construir no Largo da Lapa, ao pé do mar e do Passeio. Era para a Maternidade. Como, porém, fosse resolvido adquirir outro, nas Laranjeiras, onde há pouco aquele instituto foi inaugurado, a primeira obra ficou parada e sem destino. O Governo resolveu concluí-lo e meter nele algumas instituições. Falei sobre isso, há tempos, com o Ministro do Interior, que me não respondeu definitivamente acerca da Academia; mas há duas semanas soube que a nossa Academia também seria alojada, e ontem fui procurado pelo engenheiro daquele Ministério. Soube por este que a nossa, a Academia de Medicina, o Instituto Histórico e o dos Advogados ficarão ali. Fui com ele ver o edifício e a ala que se nos destina, e onde há lugar para as sessões ordinárias e biblioteca. Haverá um salão para as sessões de recepção e comum às outras associações para as suas sessões solenes.

 

Seguramente era melhor dispor a Academia Brasileira de um só prédio, mas não é possível agora, e mais vale aceitar com prazer o que se nos oferece e parece bom. Outra geração fará melhor.

 

Interrompo-me aqui para não demorar mais a resposta, ainda que vá completa do que há, mas a matéria com V. é sempre renascente. Demais, o prazer que traz a certeza de que me lê um amigo, dá vontade de continuar. Vá desde já o abraço do costume, enquanto o permitem estes velhos ossos do

 

Velho am.o e grande admirador

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[129] A RUI BARBOSA [Rio de Janeiro, 9 nov. 1903.]

 

Ex.mo Sr. Senador Rui Barbosa,

 

Li, com a pausa necessária a tão largo, numeroso e profundo trabalho, a Réplica de V. Ex.a às defesas de relação do Código Civil, da qual agradeço o exemplar que me mandou. Que, mais de uma vez, fique o meu nome entre os que V. Ex.a escolheu como dignos de citação, é já de si grande honra, mas V. Ex.a a fez ainda maior com as palavras generosas que lhe acrescentou a meu respeito. Assim que, ambas as razões, a de admiração e a de gratidão, me levam a guardar este livro entre os que mais prezo, para estudo da nossa língua e animação a mim próprio. Queira V. Ex.a receber a sincera expressão de minhas homenagens, como de quem é de V. Ex.a Velho adm.o am.o e obr.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[130] A EUCLIDES DA CUNHA [Rio de Janeiro, 24 dez. 1903.]

 

E.mo colega Sr. Dr. Euclides da Cunha,

 

Recebi a sua carta de anteontem. Não é mister dizer-lhe o prazer que tivemos na sua eleição para a Academia, e pela alta votação que lhe coube, tão merecida. Os poucos que, por anteriores obrigações, não lhe deram o voto, estou que ficaram igualmente satisfeitos. Como membros da Academia, estimarão que esta se fortaleça com escolhas tais.

 

Joaquim Nabuco mandou-me seu voto, com a declaração de que este recairia no Almirante Jaceguai, se se apresentasse candidato. Não se apresentando, votaria no autor dos Sertões, e foi o que sucedeu, por meu intermédio.

 

Pediu-me que lhe transmitisse a carta que achará inclusa, e só agora o faço, com g.de prazer.

 

Renova as esperanças de alta consideração e estima com que sou

 

adm.o e am.o mto obr.o

 

Machado de Assis

 

 

 

[131] A JOSÉ VERÍSSIMO [Nova Friburgo, 14 jan. 1904.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Vai ficar espantado. A sua carta chegou aqui comigo, e mal entrei no Hotel Engert, onde estou, era-me ela entregue. Não quero dizer que viesse antes de escrita, mas que eu não vim sábado, como supunha, e só ontem, quarta-feira, pude fazer viagem, tudo por causa da parede dos carroceiros e cocheiros. Não entro em pormenores que já enfadam.

 

Agradeço muito as palavras amigas que me escreveu, e as desculpas que não eram necessárias mas provam sempre o seu afeto. Minha mulher agradece-lhe igualmente os seus bons desejos, e espera, como eu, ganhar aqui o que se perdeu com a doença, se não é esta anemia que persiste ainda; o clima é bom e dizem que famoso para esta sorte de males. Enfim, agradeço-lhe os números do Temps e a carta que estava no Garnier. Vim achar aqui alguma diferença do que era há vinte anos, não tal, porém, que pareça outra coisa. Há um jardim bem cuidado, e algo mais. O resto conserva-se. Posso consolar-me com o que correspondente de Viena diz no Temps que Você me mandou, a propósito da demolição da casa em que morreu Beethoven: "Si la maison de Beethoven avait été située dans la partie vieille de Vienne, là où les ruelles tortueuses et bâtisses pittoresques subsisteront encore des siècles; peut-être eut-on pu la conserver."

 

Suponhamos Viena, menos os séculos que terão de viver as casas velhas. Quanto ao algo novo, além do jardim público e árvores recém-plantadas, são uma dúzia de casas de residência e ruas começadas.

 

Adeus, meu caro Veríssimo. Recomendações nossas à sua Ex.ma Família, e para Você um estreito abraço do

 

Velho amigo e admirador

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[132] A JOSÉ VERÍSSIMO [Nova Friburgo, 17 jan 1904.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Acabo de receber a segunda remessa do Temps e um cartão-postal datado de ontem perguntando-me se recebi a primeira. Não só recebi a primeira, mas já lhe respondi agradecendo-lha, bem como os seus bons desejos a nosso respeito. Provavelmente a carta terá sido entregue depois da partida do cartão; se não a recebeu, peço-lhe que mo diga para indagar o que houve, porquanto não fui eu que levei a carta, mas uma pessoa que saía para o correio.

 

Agradeço-lhe esta segunda remessa do Temps. O Cosmos chegou-me ontem, e já li a sua crônica do ano literário, franca e justa, como sempre. Vou ler o resto da publicação, que me parece excelente, assim dure o que merece. Não sei se esta carta irá a tempo (são duas horas da tarde de domingo) de descer na mala da manhã. Ouvi tais explicações a este respeito que não posso acabar de entender se há mala de manhã ou só de tarde. No segundo caso, a carta só lhe chegará terça-feira. Vou pessoalmente à Agência do Correio saber o que há.

 

Minha mulher vai passando melhor, conquanto algumas pessoas amigas nos arrastassem a visitas e excursões e dessem conosco no Teatro, anteontem. O ar é bom, o calor não é mau, sem ser da mesma intensidade que o de lá, segundo contam e leio. Eu vou andando; não tenho a palestra do Garnier, e particularmente a nossa, mas Você tem a arte de a fazer lembrar.

 

Li ontem no Jornal do Comércio a reincidência do Eunápio Deiró, e concordo com o que Você me disse na primeira carta. Concordar e tremer é tudo um, por causa dos dois volumes anunciados.

 

Adeus meu caro Veríssimo, mande-me um bilhetinho dizendo-me se recebeu esta e outra carta, e receba um abraço do

 

Velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[133] A JOSÉ VERÍSSIMO [Nova Friburgo, 21 jan. 1904.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

Creio que V. terá já duas cartas minhas. Aqui vai terceira para acompanhar as duas remessas do Temps, que foram lidas com o prazer do costume; leva os meus agradecimentos de amigo e devoto leitor da folha.

 

Vamos passando. Tem havido chuvas e calores, estes comparativamente menores que lá embaixo. Você e os seus como têm passado? Que há de novo entre os amigos da Academia e os habituados do Garnier? Daqui ouço as vozes secretas da Câmara, e agora ouço as primeiras da trovoada do dia cá de cima. Esta impede muita vez os passeios ou interrompe-os.

 

Ontem excepcionalmente, não choveu. Ouvi missa cantada, ou meia cantada, na matriz, com acréscimo de um sermão, apologia de S. Sebastião, mártir. Nos domingos há também prédica no meio da missa. A igreja, que é alegre, estava cheia. De tarde, procissão. Nesse capítulo vim achar muito trabalho católico. Há um colégio jesuíta, do qual só está construído um terço, e será dos maiores ou o maior edifício.

 

Vou fechar a carta para ver se chega a tempo da mala. Escreva-me um bilhetinho em resposta, e quando souber alguma coisa que valha a pena dizer, é dizê-lo ao velho amigo e admirador

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[134] A JOSÉ VERÍSSIMO [Nova Friburgo, 31 jan. 1904.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

A letra vai ainda um pouco trêmula, mas os beiços ficam menos arrebentados. Veladamente quero dizer que acabo de sair de uma febre que me trouxe de cama alguns dias. A inflamação de garganta que a acompanhou é que me não deixou de todo, e ainda agora uso de um gargarejo, ao qual não sei que nome dê, mas que produz efeito. Veja o que são as coisas deste mundo. Entrei com saúde em cidade, onde outros vêm convalescer de moléstia, e apanhei uma moléstia. Imagine-me um pouco mais magro, e cheio de saudades.

 

Receba já a parte destas que lhe pertence, e com ela receba a explicação do meu silêncio. Releve-me se não vou mais longe. Agradeço-lhe a nova coleção do Temps que me chegou agora, Concordo com as impressões que me confessa acerca da localidade, e se falar do meu carolismo não me desconceitue; diga que foi defluxo apanhado pouco depois de chegar. Vá desculpando estes rabiscos. Não ponho mais na carta para que ela chegue à mala que vai partir. Faz-me aqui a eleição em boa paz. Adeus. Reli a carta, é tudo um embrulho, mas prefiro mandá-la assim mesmo a não lhe dizer uma linha.

 

Um abraço mais do

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[135] A JOSÉ VERÍSSIMO [Nova Friburgo, 4 fev. 1904.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Como vai Você? E os amigos do Garnier e da Academia? Diga-lhes que me lembro deles e que em breve, este mesmo mês, irei vê-los a todos.

 

Tem chovido e feito sol, menos sol que chuva; tal é o achaque da terra. Lá parece que o calor faz das suas, conquanto alguns me digam que a temperatura tem feito concessões.

 

Que me lembre do meu Rio de Janeiro, apesar dos excessos de calor que possa haver, é coisa que facilmente se percebe. Contar-lhe-ei uma daqui. Em um dos quartos de banho aqui do Hotel achei escrito a lápis as seguintes palavras: "Saudades de Nova Friburgo". Suponho que as escreveu alguém na véspera de descer. Mas logo abaixo dei com estas outras, provavelmente de alguém que ainda cá ficava: "Saudades do Rio". Era um protesto, também a lápis, e a idéia não parece mal cabida nem mal expressa.

 

Estive aqui com o Dr. Artur Porto, advogado no Pará, que desceu há dias, dizendo-me que antes de seguir para Pernambuco iria procurá-lo; deixei-lhe o número de sua casa no Engenho Novo, e indiquei-lhe o Garnier; parece que irá à livraria. Quando aqui cheguei, ele acabava de perder um filho e tinha outro doente. Este escapou, e lá vai com ele o terceiro. Dissemos bastante mal a seu respeito.

 

Remeto-lhe com agradecimentos os números do Temps que me mandou. E aqui fico até breve. Minha mulher fortifica-se. Um abraço para os amigos, e receba o seu do costume, com as saudades do

 

Velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[136] A MÁRIO DE ALENCAR [Nova Friburgo, 10 fev. 1904.]

 

Meu caro Mário.

 

Dato esta carta de Nova Friburgo, donde pretendo descer no dia 25 ou 26 deste mês. Escrevo-lhe especialmente para que me diga, se é possível, o que há relativamente à casa da Academia Brasileira. O Jornal do Comércio, referindo-se anteontem, creio eu, ao complemento do edifício da Lapa, diz que se não sabe ainda o destino que ele terá. Penso que sobre isto há já decisão do Sr. Ministro do Interior. Houve acaso alteração, excluindo a Academia? Confie-me o que há, se não ao Presidente da instituição, ao seu amigo particular e grato. Ponha-lhe a nota de reserva, se for precisa.

 

Escrevi há dias ao José Veríssimo, pedindo-lhe que dê lembranças a todos os companheiros da Garnier. Que há de versos? Que há de prosa?

 

Os nossos respeitos à sua família e um abraço apertado do velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[137] A JOSÉ VERÍSSIMO [Nova Friburgo, 11 fev. 1904.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Recebi ontem a sua carta de 9, sem tempo de lhe escrever. Aqui vai esta para lhe agradecer as suas boas palavras e os seus conselhos, ao mesmo tempo que leva os meus desejos de o achar totalmente restabelecido. Como não é coisa de cuidado a que o atacou, acredito que está como o deixei quando de lá vim.

 

Quanto a voltar ao Rio, não o poderei fazer depois da data que lhe disse, creio eu 25 ou 26 do corrente, por motivo de serviço público. Até lá não terei mais nada, e minha mulher estará convalescida.

 

Nos últimos dias temos tido mais chuva que sol. Agora mesmo, após o dia e a noite de ontem, estamos com a manhã sem saber o que haverá no resto do dia. Creio que chuva.

 

Recebi o livro que me mandou. Já li o capítulo relativo a François Coppée, que é de chegar. Veja o que é conservar uma impressão antiga. Esta exclamação: Généreux et cher vieillard! causou-me espanto, por ter ainda na cabeça o rapaz de outro tempo e o retrato que então acompanhava as suas edições. Corri a um espelho e reconheci que o tempo também correu para mim.

 

Concordo que os jornais bastem a dar notícia dos poucos sucessos do dia; poucos e na mor parte cediços. Daqui também não há muito que dizer, a não ser que muita gente se prepara para o Carnaval.

 

Há três dias leio no Correio da Manhã que há ali uma carta para Você, ainda da Inglaterra. Dou-lhe este aviso daqui. Assim soubesse eu de uns jornais de Estocolmo que me mandaram dali, acompanhados de carta escrita em português por um professor sueco. É coisa que interessa à nossa Academia. Adeus; meus respeitos à sua Ex.ma.Senhora, com os agradecimentos de minha mulher a ambos, e mais um abraço para Você.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[138] A MÁRIO DE ALENCAR [Nova Friburgo, 15 fev. 1904.]

 

Querido e distinto am.o Mário de Alencar,

 

Muito lhe agradeço a sua resposta a minha carta relativa ao destino do edifício da Praia da Lapa. As palavras do Dr. Seabra confirmam o que antes sabia por ele mesmo, e que o Jornal parecia fazer crer alterado. Agora sei, e em termos sempre positivos, que a Academia pode contar com a parte que lhe toca naquele excelente lugar. Ainda uma vez, obrigado.

 

Sobre a minha descida daqui, os seus conselhos são de bom amigo, como as demais palavras de carta, mas não posso deixar de a efetuar. Tudo assim o pede, e tudo está determinado. Sem dúvida, não é pouca a necessidade que tenho de descansar, fora dessa minha cidade natal, onde o calor é agora imenso, como me diz e todos os que me escrevem. Aqui não tenho calor, se não ando ao sol e o sol é pouco. Quando eu aí chegar hei de estranhar a temperatura; mas enfim não pode ser de outra maneira.

 

Acabo aqui a carta para chegar ao tempo da mala, que é fechada às duas horas, e a Agência do Correio não é perto. Ainda uma vez, agradeço a boa vontade com que me leu e me tranqüilizou. Adeus, meu querido amigo, receba os nossos cumprimentos para sua Ex.ma Senhora e para si, e particularmente um abraço do

 

Velho am.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[139] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 6 mar. 1904.]

 

Meu querido Salvador.

 

Estive ontem com o Campos. Ouvi-lhe que não podia responder logo, mas que em dois dias me mandaria recado à Secretaria. Não havendo objeção fará a transferência do Paulo. Até depois de amanhã. Nossos respeitos e muitas lembranças do

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[140] [Rio de Janeiro, 9 mar. 1904.]

 

Meu querido Salvador de Mendonça.

 

Estive com o Campos, que me mostrou a nota recolhida acerca das duas agências. Disse-me que já houvera pedido de transferência, e alegou que o serventuário do Rio Bonito já ali está há muitos anos. Propôs-me vir o Paulo para a Estação Central; disse-me que esperava a resposta. Não adiantei nada acerca da aposentação do outro, nem respondi afirmativamente acerca da vinda para cá. Fiquei de lhe dar resposta.

 

A meu ver, é melhor que Você escreva ao Lúcio, como me disse. Irá assim mais direta e prontamente. Mande-me o que lhe parecer.

 

Adeus; desculpe a pressa com que esta carta é escrita, para subir hoje, sábado. Meus respeitos à Ex.ma Senhora, e mais um abraço do velho

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[141] [Rio de Janeiro, 30 mar. 1904.]

 

Meu querido Salvador de Mendonça.

 

Aqui recebi, logo que voltei de Nova Friburgo, um exemplar do seu Ajuste de Contas, lembrança de 46 anos de boa e constante amizade.

 

Quis relê-lo, naturalmente, e ainda uma vez achar o efeito que este trabalho produziu em mim, desde o primeiro dia. Não era precisa a amizade que nos liga; bastava o sentimento de justiça que sempre mostrou em V. o que este livro tão brilhantemente expõe. Mando-lhe aqui um abraço apertado; outro, ainda uma vez, pelo discurso a Mac-Kinley pela resposta deste, e pela unanimidade da imprensa americana.

 

Minha mulher recomenda-se-lhe. Ela e eu pedimos que apresente a sua Ex.ma Senhora e a toda a família os nossos sentimentos de respeito e amizade.

 

Lembranças do

 

Velho am.o MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[142] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 28 jun. 1904.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Já, com amigos comuns, lhe mandei os meus cumprimentos; o mesmo com a nossa Academia. Agora, pessoalmente, vão estas poucas linhas levar-lhe o cordial abraço do amigo, do patrício e do admirador.

 

Aqui esperávamos, desde muito, a solução do árbitro. Conhecíamos a capacidade e a força do nosso advogado, a sua tenacidade e grande cultura, o amor certo e provado a este país. Tudo isso foi agora empregado, e o trabalho que vale por si, como a glória de o haver feito e perfeito, não perdeu nem perde uma linha do que lhe custou e nos enobrecerá a todos. Esta foi a manifestação da imprensa e dos homens, políticos e outros.

 

Quisera dizer-lhe de viva voz estas palavras, mas creio que não voltará cá por ora, seguindo daí para Londres, e pela minha parte não irei lá. Já não é tempo para os meus anos compridos, natural fadiga, além de outras razões que impedem este passo, que considero de gigante. Mas, ainda que de longe, terei o gosto de vê-lo continuar a honrar esse nome, duas vezes seu, pelo pai que tanto fulgiu outrora, e por si. Você escreveu a vida de um, alguém escreverá um dia a do outro e nela entrará o nobre capítulo que acaba de fechar.

 

Agradeço-lhe as lembranças últimas que tem tido de mim especialmente a derradeira mandada das ruínas do teatro grego e de uma de suas vistas. Assim me deu com lembrança de amigo o aspecto de coisas que levantam o espírito cá de longe e fazem gemer duas vezes pela distância no tempo e no espaço.

 

A nossa Academia Brasileira tem já o seu aposento como deve saber. Não é separado como quiséramos; faz parte de um grande edifício dado a diversos institutos. Um destes a Academia de Medicina, já tomou posse da parte que lhe cabe, e fez sua inauguração em sala que deve ser comum às sessões solenes. Não recebi ainda oficialmente a nossa parte, espero-a por dias.

 

Adeus, meu caro Nabuco. Aceite ainda uma vez a afirmação do particular afeto do

 

Velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[143] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 21 jul. 1904.]

 

Meu querido Salvador.

 

Não quero que passe o dia de hoje sem cumprimentar-te, ainda que por letra, não podendo fazê-lo em pessoa. Tenho há muito minha mulher doente. Não quero, porém, que este dia de teus anos acabe sem mandar aqui um abraço de felicitações e saudade.

 

Outra felicitação e outra saudade vão aqui pelo teu discurso sobre João Caetano. Cá o li e reli e guardei; fizeste-me reviver dias passados, compuseste a figura do nosso grande trágico, ele e o tempo, e que tempo! A gente nova de hoje achou fino gosto naquilo que pessoalmente lhe não recordou nada; viu a vida, a pessoa, o quadro, os sucessos, adivinhou a arte e o gênio possuímos. Quando falaste do Paraná e da amizade que o aliava a João Caetano, fizeste-me lembrar que o estadista morreu nos braços do ator, e que um poeta da Bahia, ora esquecido (Manuel Pessoa da Silva), em poema que escreveu sobre o marquês, terminou a composição com estes dois versos:

 

E o gênio da política fenece

Nos braços do imortal gênio da cena.

 

Vi também através do discurso o perfil do nosso querido Muzzio. Também me lembraste ao narrar a noite do ensaio da Joana de Flandres, a festa da primeira representação desta ópera, quando tu, eu e tantos outros, cercando o Carlos Gomes, descemos em aclamações ali pela Rua dos Ciganos abaixo. Restamos alguns, e as lembranças que não acabam; dado que esmoreçam, aí está uma voz para as avivar com a velha alma sempre nova.

 

Adeus, meu querido Salvador, recomenda-me aos teus, e não esqueças o

 

Velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[144] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 3 out. 1904.]

 

Meu querido Mário.

 

Ontem li e reli o seu artigo acerca de Esaú e Jacó. Pela nossa conversação particular e pela sua cartinha de 26 sabia já a impressão que lhe deu o meu último livro; o artigo publicado no Jornal do Comércio veio mostrar que a sua boa amizade não me havia dito tudo. Creio na sinceridade da impressão, por mais que ela esteja contada em termos altos e superiores ao meu esforço. Vi que penetrou o sentido daquelas páginas, que as leu com amor e simpatia, e desta última parte nasceu dizer tanta coisa bela, mais ainda para quem já vai em pleno inverno. Ainda bem que lhe não desmereci do que sentia antes.

 

Se houvesse de compor um livro novo, não me esqueceria esta fortuna de amigo, que aliás cá fica no coração.

 

Adeus, um abraço e até breve

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[145] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 4 out. 1904.]

 

Meu caro J. Veríssimo.

 

Recebi ontem de manhã a carta que me enviou em data de 30, dando-me notícias suas, pessoais e de família. As minhas são as de costume. Minha mulher manda agradecer-lhe os seus desejos de boa saúde. Ontem mesmo encontrei o Euclides da Cunha, que está prestes a embarcar para o Norte; pretendia ir o dia 8, mas irá mais tarde. Pode escrever-lhe para a Rua das Laranjeiras n.° 76, onde se acha. Chegou a querer escrever o discurso de recepção na Academia; não podendo fazê-lo, por ser urgente a partida; disse-me que apenas fará a comunicação por ofício, segundo lhe permitem os Estatutos. Estimo que o meu Esaú e Jacó lhe tenha produzido o efeito que me diz na carta. Se lhe pareceu que lá me teve a seu lado, em longa e interessante palestra, é porque estava também comigo, bastou a suprir a presença do amigo velho. Também eu cá o tive com o seu último volume dos Estudos de Literatura (4ª série), publicados na mesma ocasião. Já lhe conhecia as várias partes, entre elas a que me diz respeito, e que ainda uma vez lhe agradeço cordialmente. Já de há muito estou acostumado à sua crítica benévola, e mais que benévola. Esta nova série de estudos, vindo juntar-se às outras, dará caminho a um estudo geral das nossas letras, que servirá de guia a críticos futuros.

 

Parece-me que a nossa Academia Brasileira de Letras vai ser completada no que concerne ao prédio e à mobília. Esta, que ainda falta, será dada por meio da emenda que os deputados Eduardo Ramos e Medeiros e Albuquerque acabam de propor ao orçamento do Ministério do Interior. Resta o estudo da comissão, que não parece lhe seja contrário, por se tratar de fazer cumprir o art. 1o da Lei de 8 de dezembro de 1900.

 

Quanto à vaga de Martins Júnior só temos até agora um candidato apresentado, o Osório Duque Estrada; os outros (e naturalmente há outros) ainda não apresentaram as respectivas declarações, Esperamo-las.

 

Apesar de estar no fim do mundo, como me disse na carta, lá chegará o abraço que lhe mando daqui, e até breve.

 

Apresente os meus respeitos à sua família, e não esqueça o

 

Velho am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[146] A ALCIDES MAIA [Rio de Janeiro, 10 out. 1904.]

 

Meu jovem colega.

 

Deixe-me agradecer-lhe cordialmente as boas e finas palavras que fez publicar no País acerca do meu livro Esaú e Jacó. Quando se conclui algum trabalho dá sempre grande prazer achar quem o entenda e explique com sincera benevolência e aguda penetração. Valham-me as suas agora, expostas com tão graciosa maneira, e aceite este aperto de mão do

 

Velho colega

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[147] A DOMÍCIO DA GAMA [Rio de Janeiro, 26 out. 1904.]

 

Meu caro am.o

 

Há sempre algum amparo na condolência dos amigos, em um transe destes. A razão é deveras a que me dá, dizendo haver nela um pouco da doçura, que é a simpatia humana. Aprendo esta verdade, e a minha completa fortuna seria ir levá-la cedo à companheira de toda a minha vida. Aceite os agradecimentos do

 

Velho am.o e colega

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[148] A SALVADOR DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 28 out. 1904.]

 

Meu querido Salvador de Mendonça.

 

Já ontem recebi na igreja os teus pêsames e por teu intermédio os da tua boa e distinta esposa. Agradeço-os a ambos. O pouco trato que entre elas houve foi bastante para avaliarem o coração uma da outra. Eu, meu querido amigo, estou ainda atordoado, pela imensidade do golpe, como pela injustiça que a feriu. Após trinta e cinco anos de casados é um preparo para a morte.

 

Teu velho am.o do coração

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[149] AO BARÃO DO RIO BRANCO [Rio de Janeiro, 28 out. 1904.]

 

Meu ilustre amigo,

 

Agradeço cordialmente os pêsames que me mandou nesta grande desgraça da minha vida. Já os havia pressentido pelo costume em que me pôs de ser sempre bom comigo. Adeus, meu amigo, creia

 

no Velho e sincero ad.or MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[150] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 20 nov. 1904.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Tão longe, em outro meio, chegou-lhe a notícia da minha grande desgraça e V. expressou logo a sua simpatia por um telegrama. A única palavra com que lhe agradeci é a mesma que ora lhe mando, não sabendo outra que possa dizer tudo o que sinto e me acabrunha. Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro, porque não acharia ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho nenhum. Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará.

 

Não posso, meu caro amigo, responder agora à sua carta de 8 de outubro; recebi-a dias depois do falecimento de minha mulher, e Você compreende que apenas posso falar deste fundo golpe.

 

Até outra e breve: então lhe direi o que convém ao assunto daquela carta, que, pelo afeto e sinceridade, chegou à hora dos melhores remédios. Aceite este abraço do triste amigo velho

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[151] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 6 dez. 1904.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Quando ia responder à sua carta de 8 de outubro, aqui chegada depois da morte da minha querida Carolina, trouxe-me o correio outra de 17 de novembro, a respeito desta catástrofe. A nova carta veio com palavras de animação, quais poderiam ser ditas por V. tão altas, cabais e verdadeiras. Há só um ponto, meu querido amigo; é que as lê e relê um velho homem sem forças, radicalmente enfermo. Farei o que puder, para obedecer ao preceito da amizade e da bondade. Ainda uma vez, obrigado!

 

Indo à carta anterior, dir-lhe-ei que a inscrição para a Academia terminou a 30 de novembro, e os candidatos são o Osório Duque Estrada, o Vicente de Carvalho e o Sousa Bandeira. A candidatura do Jaceguai não apareceu; tive mesmo ocasião de ouvir a este que não se apresentaria. Quando ao Quintino, não falou a ninguém. A sua teoria das superioridades é boa; os nomes citados são dignos, eles é que parecem recuar. Estou de acordo com o que V. me escreve acerca do Assis Brasil, mas também este não se apresentou. A eleição, entre os inscritos, tem de ser feita na primeira quinzena de fevereiro. Estou pronto a servir a V., como guarda da sua consciência literária, por mais bisonho que possa ser. Há tempo para receber as suas ordens e a sua cédula.

 

Adeus, meu caro amigo. Tenho estado com o nosso Graça Aranha, que trata de estabelecer casa em Petrópolis, onde vai trabalhar oficial e literariamente; ouvi falar de outro livro, que para ser belo, não precisa mais que a filiação de Canaã. O Veríssimo está de há muito restaurado. Eu, se reviver do grande golpe, não o deverei menos, a V. e às suas belas palavras, para o único fim de resistir; não é que a vida em si me valha muito. Releve-me a insistência, e receba um abraço amantíssimo do

 

am.o velho

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[152] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 13 dez. 1904.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Não se admire se esta carta repetir alguma resposta já dada, tal é a confusão do meu espírito depois da desgraça que me abateu. Fiquei de lhe responder especialmente sobre a eleição da Academia; é o que vou fazer. Se já o fiz, não se perde nada.

 

Os candidatos são apenas três, Osório Duque Estrada, Vicente de Carvalho e João Bandeira. Não se apresentou o Jaceguai; perguntei-lhe dentro do prazo o que cuidava fazer, disse-me que não se apresentaria. Os outros nomes citados por V. merecem as reflexões que os acompanham, e tenho que o seu plano no modo de ir recompondo o pessoal acadêmico é acertado. Mas é preciso que as candidaturas venham de si mesmas, em vez de se deixarem quietas, como estão. Desta vez, com a casa nova e a quantia votada no orçamento para a mobília (pende ainda do Senado o orçamento), sempre cuidei que os candidatos seriam mais numerosos. Parece-me que alguns não suportam a idéia da eleição, como se fosse um desaire. V. sabe que não há desaire; a escolha de um nome pode ser explicada por circunstâncias, além do valor pessoal do candidato. O preterido não perde nada; ao contrário, fica uma espécie de dúvida por parte da Academia, que não fará parar à porta esquecido quem já tiver direito de ocupar cá dentro uma cadeira.

 

Há tempo para vir o seu voto, e estou a recebê-lo; se quiser que eu escreva a cédula, posso ser seu secretário. Basta indicar o nome. Já lhe citei os três, Bandeira, Osório e Vicente de Carvalho. Pelo que me disse na carta de 8 de outubro, o Bandeira escreveu-lhe, e terei prazer em adotá-lo, se não fossem as razões, que aliás desapareceram. Aqui estou para tudo o que V. mandar; aproveite enquanto há algumas forças restantes; não tardará muito que elas se vão e fique só um triste esqueleto de vontade.

 

Ontem à noite estiveram aqui em casa o Graça e sua Senhora, falamos de V., de literatura e de viagem. Sobem daqui a dois dias para Petrópolis, onde o Graça vai funcionar na comissão do Acre. O Veríssimo está restabelecido.

 

Quero pedir-lhe uma coisa, se é possível, mandar-me alguma das suas fotografias últimas.

 

Não vi ainda o Conde Prozor, ministro da Rússia, de que falamos ontem com referência à carta de 8 de outubro. Se tivéssemos agora a recepção na Academia, eu quisera obter do conde a fineza de vir a ela com a condessa, mas o Euclides da Cunha, que devia tomar posse, fê-lo por carta ao secretário, e embarca amanhã para o alto Purus, onde vai ocupar um lugar de chefe de comissão.

 

Adeus, meu caro Nabuco, continue a não esquecer e dispor do

 

Velho am.o afetuosíssimo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[153] A FRANCISCO RAMOS PAZ [Rio de Janeiro, 15 dez. 1904.]

 

Meu caro Paz,

 

Obrigado pelas tuas palavras e pelo teu abraço. Ainda que de longe, senti-lhes o afeto antigo, tão necessário nesta m.a desgraça. Não sei se resistirei muito. Fomos casados durante 35 anos, uma existência inteira; por isso, se a solidão me abate, não é a solidão em si mesmo, é a falta da minha velha e querida mulher. Obrigado. Até breve, segundo me anuncias, e oxalá concluas a viagem sem as contrariedades a que aludes. Abraça-te

 

O velho am.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[154] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 11 Jan. 1905.]

 

Meu caro Embaixador.

 

Deixe-me dar-lhe o título que já corre impresso. O Jornal do Comércio foi o primeiro que publicou a notícia com a discrição e segurança do costume. Hoje leio que o ministro americano Thompson já está nomeado desde ontem.

 

Não é preciso dizer-lhe o efeito que a notícia produziu aqui. Todos a aplaudiram, e os seus amigos juntamos ao aplauso geral aquele sentimento particular que V. ganhou e possui em nossos corações. Começa V. a história desta nova fase da nossa vida diplomática.

 

Releve-me, meu caro Nabuco, estas poucas linhas em momento que pedia muitas. Acordei um pouco enfermo, e, se não fraquear no propósito de calar, só confiarei a notícia a V., porque, apesar do mal-estar, vou para o meu ofício. Receba um forte abraço, tão longo como a distância que nos separa. Você sabe que é sincero este meu gosto de o ver levantado pelo Brasil até onde merece a sua capacidade. Peço-lhe que apresente os meus cumprimentos à ditosa e digna Embaixatriz, e continue a amizade de que dado tantas e tocantes provas ao

 

Velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[155] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 4 fev. 1905.]

 

Meu caro José Veríssimo.

 

Ontem, depois que nos separamos, recebi o livro e a carta que V. me deixou no Garnier. Quando abri o pacote, vi o livro e li a carta, recebi naturalmente a impressão que me dão letras suas, — maior desta vez pelo assunto. Obrigado, meu amigo, pelas palavras de carinho e conforto que me mandou e pelo sentimento de piedade que o levou à devolução do livro. Foi certamente o último volume que a minha companheira folheou e leu trechos, esperando fazê-lo mais tarde, como aos outros que ela me viu escrever. Cá vai o volume para o pequeno móvel onde guardo uma parte das lembranças dela. Esta outra lembrança traz a nota particular do amigo.

 

Apesar da exortação que me faz e da fé que ainda põe na possibilidade de algum trabalho, não sei se este seu triste amigo poderá meter ombros a um livro, que seria efetivamente o último. Pelo que é viver comigo, ela vive e viverá, mas a força que me dá isto é empregada na resistência à dor que ela me deixou. Enfim, pode ser que a necessidade do trabalho me traga esses efeitos que V. tão carinhosamente afiança. Eu quisera que assim fosse.

 

Quanto à minha visão das coisas, meu amigo, estou ainda muito perto de uma grande injustiça para descrer do mal. Nabuco, animando-me como V., escreveu-me que a mim coube a melhor parte — "o sofrimento". A visão dele é outra, mas em verdade o sofrimento é ainda a melhor parte da vida.

 

Adeus, obrigado, não esqueça este seu velho

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[156] LÚCIO DE MENDONÇA [Rio de Janeiro, 3 mar. 1905.]

 

Meu querido am.o e confrade.

 

Compreendo o tédio que lhe deu o desvio ou perda da carta de 12 ou 13 do mês passado. Ontem de manhã fui ter com o Diretor dos Correios para lhe contar o caso e pedir providências. Respondeu-me que ia telegrafar imediatamente ao agente de Teresópolis, e ao mesmo tempo ordenar aos empregados da Repartição que receberam as malas examinassem esta falta. Ouviria também o carteiro incumbido da correspondência oficial visto que a sua carta trazia o endereço para a Secretaria. Na mesma ocasião expôs longamente a facilidade que há em desvios de cartas apesar do cuidado.

 

Viu que a votação da Academia não deu maioria a nenhum dos candidatos, havendo entre ambos apenas um voto de diferença. Vamos a novo escrutínio em maio. Já então o teremos aqui.

 

Sobre o que me diz acerca da falta de declaração de membro da Academia Brasileira no livro A Caminho, pode ser que tenha razão. O meu editor, porém, já a imprimiu na nova edição da Helena. Venha o seu livro, que me lembrarás dias idos. Vamos recolhendo o que houver ficado pela estrada.

 

Adeus, meu querido Lúcio, receba um abraço do

 

Velho e triste amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[157] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 24 jun. 1905.]

 

Meu querido Nabuco.

 

Deixe-me agradecer-lhe a fotografia e a lembrança. Aquela é soberba, e esta é doce ao meu coração, já agora despojado da vida. Consolam-me ainda memórias de amigo, meu querido Nabuco. Esta aqui fica na minha sala, com as de outros íntimos.

 

Já aqui lemos a notícia de recepção da embaixada e o discurso do embaixador. Foi o que se devia esperar, na altura do cargo, dos dois países e do orador amado e admirado de nós todos. Cabe-lhe um legítimo papel na história das nossas relações internacionais, e agora especialmente americanas. É um desses casos em que o governo acerta nomeando o nomeado da opinião, sem perder por isso a glória do ato.

 

Nós cá vamos andando. A Academia elegeu o seu escolhido, o Sousa Bandeira, que talvez seja recebido em julho ou agosto, respondendo-lhe o Graça Aranha. A cerimônia será na casa nova e própria, entre os móveis que o Ministro do Interior, o Seabra, mandou dar-nos. Vamos ter eleição nova para a vaga do Patrocínio. Até agora só há dois candidatos, o Padre Severiano de Resende e Domingos Olímpio.

 

Adeus, meu querido Nabuco. Disponha sempre deste velho e triste amigo, que o conheceu adolescente e teve a boa fortuna de lhe ouvir as primeiras palavras, que fizeram adivinhar o homem brilhante e grave que viria a ser um dia. Adeus, saudades do

 

Am.o de sempre

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[158] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 11 ago. 1905.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Escrevo algumas horas depois do seu ato de grande amigo. Em qualquer quadra da minha vida ele me comoveria profundamente; nesta em que vou a comoção foi muito maior. Você deu bem a entender, com a arte fina e substanciosa, a palmeira solitária a que vinha o galho do poeta.

 

O que a Academia, a seu conselho, me fez ontem, basta de sobra a compensar os esforços da minha vida inteira; eu lhe agradeço haver se lembrado de mim tão longe e tão generosamente.

 

O Graça desempenhou a incumbência com as boas palavras que V. receberá. Antes dele o Rodrigo Otávio leu a sua carta diante da sala cheia e curiosa. Ao Graça seguiram com versos de amigo o Alberto de Oliveira e o Salvador de Mendonça.

 

A recepção do Bandeira esteve brilhante. Lá verá o excelente discurso do novo acadêmico. Respondendo-lhe, o Graça mostrou-se pensador, farto de idéias, expressas em forma animada e rica. A Academia está, enfim, aposentada e alfaiada; resta-lhe viver.

 

Adeus, meu querido amigo, ainda uma vez obrigado. Aceite um apertado abraço do

 

Velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[159] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 29 ago. 1905.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Recebi a sua carta escrita das Montanhas Brancas. Há dias escrevi-lhe uma agradecendo a generosa e afetuosa lembrança do carvalho de Tasso. A Renascença reproduziu a sua carta e a do síndico de Roma, e deu as palavras do Graça e os versos do Salvador de Mendonça e do Alberto de Oliveira. Lá verá como o nosso Graça correspondeu à indicação que lhe fez, dizendo-me coisas vindas do coração de ambos.

 

Os nossos amigos da Academia, ao par daquela fineza, quiseram fazer-me outra, pôr o meu retrato na sala das sessões, e confiaram obra ao pincel de Henrique Bernardelli; está pronto, e vai primeiro à exposição da Escola Nacional de Belas-Artes. O artista reproduziu o galho sobre uns livros que meteu na tela. Todos me têm acostumado à benevolência. Valha esta consolação à amargura da minha velhice.

 

Sobre o voto da Academia recebi as suas indicações. Não podendo cumpri-las por não ser candidato o Jaceguai nem o Artur Orlando. Já lá há de saber que os candidatos são o Padre Resende, o Domingos Olímpio e o Mário de Alencar. Na Academia não há nem deve haver grupos fechados.

 

Venha o livro que medita; é preciso que o embaixador não faça descansar o escritor; ambos são necessários à nossa afirmação nacional. Dei aos amigos as lembranças que lhes mandou, e eles lhas retribuem. As minhas saudades são as que V. sabe, nascem da distância e do tempo. Ainda agora achei um bilhete seu convidando-me à reunião da Rua da Princesa para fundar a Sociedade Abolicionista; é de 6 setembro de 1880. Quanta coisa passada! Quanta gente morta! Sobrevivem corações que, como o seu, sabem amar e merecem o amor. Adeus, meu caro Nabuco, não esqueça

 

O velho am.o adm.or e companheiro

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[160] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 30 set. 1905.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Aqui tenho a sua carta datada das Montanhas Brancas, onde foi descansar a algum tempo fazendo outra coisa. Diz-me que o lugar é delicioso e fala-me da rapidez dos dias. Tudo merece, meu caro Nabuco, e nós não merecemos menos o livro que promete nesta frase: "Quero ver se dou um livro." Venha ele; é preciso que descanse em um livro, seja qual for o objeto; trará a mesma roupagem nossa conhecida e amada.

 

A carta dá-me a indicação do seu voto no Jaceguai para a vaga do Patrocínio. O Jaceguai merece bem a escolha da Academia, mas ele não se apresentou e, segundo lhe ouvi, não quer apresentar-se. Creio até que lhe escreveu nesse sentido. Ignoro a razão, e aliás concordo em que ele deve fazer parte do nosso grêmio. O Artur Orlando também não se apresentou. Os candidatos são os que já sabe, o Padre Severiano de Rezende, o Domingos Olímpio e o Mário de Alencar; provavelmente os três lhe haverão escrito já. A eleição é na segunda quinzena de outubro, creio que no último dia.

 

Já há de saber do meu retrato que amigos da Academia mandaram pintar pelo Henrique Bernardelli e está agora na exposição anual da Escola de Belas Artes. O artista, para perpetuar a sua generosa lembrança, copiou na tela, sobre uns livros, o galho do carvalho de Tasso. O próprio galho, com a sua carta ao Graça, já os tenho na minha sala, em caixa, abaixo do retrato que V. me mandou de Londres o ano passado. Não falta nada, a não serem os olhos da minha velha e boa esposa que, tanto como eu, seria agradecida a esta dupla lembrança do amigo.

 

A Academia vai continuar os seus trabalhos, agora mais assídua, desde que tem casa e móveis. Quando cá vier tomar um banho da pátria, será recebido nela como merece de todos nós que lhe queremos. Adeus, meu caro Nabuco, continue a lembrar-se de mim, onde quer que o nosso lustre nacional peça a sua presença. Eu não esqueço o amigo que vi adolescente, e de quem ainda agora achei uma carta que me avisava do dia em que devia fundar a Sociedade Abolicionista, na Rua da Princesa. Lá se vão vinte e tantos anos! Era o princípio da campanha vencida pouco depois com tanta glória e tão pacificamente.

 

Receba um apertado abraço do

 

Velho adm.or e am.o

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[161] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 15 out. 1905.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Obrigado pelo exemplar da Washington Life em que vem o seu telegrama ao Roosevelt. Já o havia lido, mas agora tenho aqui o próprio texto original, com as belas palavras e conceitos que V. lhe soube pôr, como aliás pôs a tudo. Do juízo da folha participamos todos os que temos a V. por embaixador do nosso espírito. Também recebi as outras folhas que tratam da conclusão da paz. Com razão celebram todas elas a grande obra do Presidente, e dão nisto vivo exemplo de patriotismo. Certo é também que a nação toda falou pela boca de Roosevelt, e ambos entraram nesta página gloriosa do século. O seu telegrama é a voz da outra América falando ao vencedor da paz. A eleição da Academia deve ser feita em fins deste mês. Em carta que lhe escrevi, há dias, disse o que penso da eleição do Jaceguai, figura certamente representativa para a nossa casa, mas, como V. sabe, ele não se apresentou; nem ele nem o Artur Orlando.

 

Viu transcrito no Jornal do Comércio, entre os "a pedidos", um trecho do seu belo artigo sobre a Sara Bernhardt? Há de ter sido lembrança do Rio Branco, que me pediu informações sobre ele, no dia seguinte à primeira representação agora. Receava-se uma pateada, fizeram-lhe ovação, e ele quis provavelmente que a bandeira da sua autoridade envolvesse a grande artista. Você chamou-lhe então (há vinte e tantos anos!) embaixatriz da França. Não a vi agora, mas dizem que trouxe as mesmas credenciais.

 

Adeus, meu caro Nabuco, receba ainda um abraço do adm.or e velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

PAREI AQUI

 

[162] A JOSÉ VERÍSSIMO [Rio de Janeiro, 22 fev. 1906.]

 

Meu caro Veríssimo.

 

A sua carta de 19 chegou aqui anteontem, mas suponho ter-lhe ouvido que desceria ontem pelas exéquias, receei que a resposta se desencontrasse do destinatário, e não lhe escrevi no mesmo dia. Escrevo-lhe hoje para lhe agradecer as boas e amigas palavras que me mandou a respeito das Relíquias. Já estou acostumado a elas. A sua afeição conhece a arte de acentuar a opinião já de si benévola. Ainda bem que lhe agradaram essas páginas que o teimoso de mim foi pesquisar, ligar e imprimir como para enganar a velhice. Não sei se serão derradeiras, creio que sim. Em todo caso estimo que não tenham parecido importunas ou enfadonhas, e o seu juízo é de autoridade.

 

Adeus, meu caro Veríssimo. Não lhe digo até breve, porque, não podendo lá ir, começo a desconfiar que não virá mais cá; Petrópolis não perdeu, com as revoluções, o dom de enfeitiçar e prender. Ao contrário, parece que o tem agora maior. Eu aqui indo, como posso, emendando o nosso Camões, naquela estrofe:

 

Há pouco que passar até outono...

Vão os anos descendo, e já de estio.

 

Ponho outono onde é estio, e inverno onde é outono, e isto mesmo é vaidade, porque o inverno já cá está de todo.

 

Adeus, meu caro Veríssimo, lembranças aos seus e aos amigos, com quem dividirá as saudades do

 

Velho amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[163] A BELMIRO BRAGA [Rio de Janeiro, 23 jun. 1906.]

 

Caro e distinto amigo.

 

Recebi a sua carta 21, com as boas palavras que me manda pelo meu aniversário. Gostei de as ler, com a natural restrição que lhes põe de que tal data não é de alegrias para mim, depois que perdi a minha boa companheira de trinta e cinco anos. Assim é: muito obrigado. Estou aqui um triste velho desamparado, contando alguns poucos amigos, entre os quais figura o seu nome de moço de talento. Creia-me sempre

 

velho am.o e confrade

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[164] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 19 ago. 1906.]

 

Meu querido Nabuco.

 

Quero agradecer-lhe a impressão que me deixaram estas suas páginas de pensamento e recordações. Vão aparecer justamente quando V. cuida de tarefas de ordem política. Um professor de Douai, referindo-se à influência relativa do pensador e do homem público, perguntava certa vez (assim o conta Dietrich) se haveria grande progresso em colocar Aristides acima de Platão, e Pitt acima de Locke. Concluía pela negativa. Você nos dá juntos o homem público e o pensador. Esta obra, não feita agora mas agora publicada, vem mostrar que, em meio dos graves trabalhos que o Estado lhe confiou, não repudia as faculdades de artista que primeiro exerceu e tão brilhantemente lhe criaram a carreira literária. Erro é dizer, como V. diz em uma destas páginas, que "nada há mais cansativo que ler pensamentos". Só o tédio cansa meu amigo, e este mal não entrou aqui, onde também não teve acolhida a vulgaridade. Ambos, aliás, são seus naturais inimigos. Também não é acertado crer que, se alguns espíritos o lêem, é só por dis­tração, e são raros". Quando fosse verda­de, eu seria desses raros. Desde cedo, li muito Pascal, para não citar mais que este, e afirmo-lhe que não foi por distração. Ainda hoje quando torno a tais leituras, e me consolo no desconsolo do Eclesiastes, acho-lhes o mesmo sabor de outrora. Se alguma vez me sucede discordar do que leio, sempre agradeço a maneira por que acho expresso o desacordo.

 

Pensamentos valem e vivem pela observação exata ou nova, pela reflexão aguda ou profunda, não menos querem a originalidade, a sim­plicidade e a graça do dizer. Tal é o caso deste seu livro. Todos virão a ele, atraídos pela substância, que é aguda e muita vez profunda, e encantados da forma, que é sempre bela. Há nestas páginas a história alternada da influência religiosa e filosófica, da observação moral e estética, e da experiência pessoal, já agora longa. O seu interior está aqui aberto às vistas por aquela forma lapidaria que a memória retém melhor. Idéias de infinito e de absoluto, V. as inscreve de modo direto ou sugestivo, e a nota espiritual é ain­da a característica das suas páginas. Que em todas resplandece um otimismo sereno e forte, não é preciso dizer-lho; melhor o sabe, porque o sente deveras. Aqui o vejo confessado e claro, até nos lugares de algu­ma tristeza ou desânimo, pois a tristeza é facilmente consolada, e o desânimo acha depressa um surto. Não destacarei algumas dessas idéias e reflexões para não parecer que trago toda a flor; por numerosas que fossem, muito mais flor ficaria lá. Ao ca­bo, para mostrar que sinto a beleza e a verdade particular delas, basta apontar três ou quatro. Esta do livro I: "Mui raramente as belas vidas são interiormente felizes; sempre é preciso sacrificar muita coisa à unidade" é das que evocam recor­dações históricas, ou observações diretas, e nas mãos de alguém, narrador e psicó­logo, podia dar um livro. O mesmo digo daquela outra, que é também uma lição política: "Muita vez se perde uma vida, por­que no lugar que cabia ponto final se lan­ça um ponto de interrogação". Sabe-se o que era a vida dos anacoretas, mas dizer como V., que "eles só conheceram dois estados, o de oração e o do sono, e prova­velmente ainda dormindo estavam rezan­do", é pôr nesta ultima frase a intensida­de e a continuidade do motivo espiritual do recolhimento, e dar do anacoreta imagem mais viva que todo um capítulo.

 

Nada mais natural que esta forma de conceito inspire imitações, e provavelmente naufrágios. As faculdades que exige são especiais e raras; e é mais difícil vingar nela que em composição narrativa e seguida. Exemplo da arte particular deste gênero é aquele seu pensamento CVII do livro III. Certamente, o povo já havia dito, por mo­do direto e chão, que ninguém está conten­te com a sua sorte; mas este outro figu­rado e alegórico é só da imaginação e do estilo dela: "Se houvesse um escritório de permuta para as felicidades que uns in­vejam aos outros, todos iriam lá trocar a sua". Assim muitas outras, assim esta ima­gem de contrastes e imperfeições relativas: "A borboleta acha-nos pesados, o pavão mal vestidos, o rouxinol roucos, e a águia rasteiros".

 

Em meio de todo este pen­sado e lapidado, as reminiscências que V. aqui pôs falam pela voz da saudade e do mistério, como esse quadro no cemitério das cidades. Você exprime magnificamen­te aquela fusão da morte e da natureza, por extenso e em resumo, e atribui aos próprios enterrados aí a notícia de que "a morte é o desfolhar da alma em vista da eterna primavera". Todos gostarão essa forma de dizer, que para alguns será ape­nas poética, e a poesia é um dos tons do livro. Igualmente sugestivo é o quadro do dia de nevoeiro, ambos em Petrópolis também, como este da "estrada caiada de luar", e este outro das árvores de altos galhos e folhas finas.

 

Confessando e definindo a influência de Renan em seu espírito, con­fessa V. ao mesmo que "o diletantismo dele o transviou". Toda essa exposição é sincera, e no intróito exata. Efetivamente, ainda me lembra o tempo em que um gesto seu, de pura fascinação, me mos­trou todo o alcance da influência que Cha­teaubriand exercia então em seu espírito. O estudo do contraste destes dois homens é altamente fino e cheio de interesse. Um e outro lá vão, e a prova melhor da veraci­dade da confissão aqui feita é a equidade do juízo, a franqueza da crítica, o modo por que afirma que, apesar da religiosi­dade do exegeta, não se pôde contentar com a filosofia dele.

 

Reli Massan­gana. Essa página da infância, já narrada em nossa língua, e agora transposta à francesa, que V. cultiva também com amor, dá imagem da vida e do engenho do norte, ain­da para quem a conhece de oitiva ou de lei­tura; deve ser verdadeira.

 

Não há aqui só o homem de pensamento ou apenas tem­perado por ele; há ainda o sentimento evocado e saudoso, a obediência viva que se compraz em acudir ao impulso da von­tade. Tudo aí, desde o sino do trabalho até a paciência do trabalhador, a velha madrinha, senhora do engenho, e a jovem mu­cama, tudo respira esse passado que não torna, nem com as doçuras ao coração do moço antigo, nem com as amarguras ao cérebro do atual pensador. Tudo lá vai com os primeiros educadores eminentes do seu espírito, ficando V. neste trabalho de his­tória e de política, que ora faz em benefício de um nome grande e comum a todos nós; mas o pensamento vive e viverá. ­Adeus, meu caro Nabuco, ainda uma vez agradeço a impressão que me deu; e oxalá não esqueça este velho amigo em quem a admiração reforça a afeição, que é gran­de.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[165] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 26 dez. 1906.]

 

Meu querido amigo.

 

Recebi ontem a sua carta de 24, e escrevo-lhe hoje sem saber se terá partido sempre para a fazenda. Creio que esta carta já lá o encontre. O que lhe sucedeu na viagem era natural; eu chegaria do mesmo modo. Agora é seguir e descansar, vendo as coisas novas e interessantes, com que areje a alma e fortaleça o corpo. Vejo que a esposa, a mamãe e os filhos chegaram sem novidade. As duas levaram o melhor viático, o desejo de o ver bom e a confiança na ação da roça. Todos nós aqui partilhamos a mesma esperança e contamos vê-lo tornar restaurado para a família, para os amigos e para as letras.

 

Eu tenho passado sem novidade. Agora estou bastante cansado, particularmente do pescoço, que me dói, visto que ontem gastei todo o dia curvado a trabalhar em casa. Para quem já havia trabalhado todo o domingo (nos outros dias tenho a interrupção das tardes), foi realmente demasiado. Mas eu não me corrijo.

 

Aqui nenhuma novidade. O Artur Orlando mandou-me carta apresentando-se candidato à Academia na vaga do Loreto; já a levei ao Rodrigo Otávio para que publique a notícia e guarde a carta. Ainda não recebi a do Assis Brasil. Não sei se teremos outros candidatos, mas é possível.

 

A Academia pegou, como dizem alguns, e parece que sim.

 

Adeus, meu querido Mário, até a próxima. Apresente os meus respeitos às suas queridas companheiras, lembranças aos pequenos, e um grande abraço para si do velho e grato amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[166] A DOMÍCIO DA GAMA [Rio de Janeiro, 29 dez. 1906.]

 

Meu caro Domício.

 

Vim procurá-lo e soube que está em Petrópolis e não descerá hoje. Disse-me o senhor Vasco Smith de Vasconcelos que o Dr. Dutra, adido à Secretaria, vai pedir demissão 2.ª-feira, depois de amanhã. Ele deseja o lugar para si, e já uma vez lhe falei disto, pedido dele; é estudante do 1.o ano de direito. Pode você interceder por ele? Não desejo incomodar indiretamente o nosso Rio Branco a este respeito, nem sei se lhe poderia falar hoje. Escrevo também ao Graça Aranha.

 

Receba as saudades de um velho amigo e mande-me as suas, se lhe mereço algumas. Adeus, meu caro Domício, não esqueça o

 

am.o velho

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[167] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 5 jan. 1907.]

 

Meu querido amigo.

 

Recebi a sua carta de 2 e devia responder-lhe a 5 mas tive o dia tomado, e ontem não pude fazê-lo nem teria meio de mandar a carta ao Correio. Hoje aproveito esta nesga de tempo, devendo aliás dar-lhe a melhor parte, mas se lhe disser que, depois de algum tempo largo de melhoras sensíveis, tive esta noite uma pequena crise, compreenderá a obrigação em que me vejo de lhe dizer pouco e às pressas. Não sei se recebeu a carta com que respondi ao seu cartão-postal; foi para a fazenda. O telegrama de abraços recebi e ontem tive o cartão de agradecimento de D. Georgina.

 

A carta de 2 me fez mal. Essa melancolia que o aflige é preciso que não seja irredutível nem irremediável. Sei o que me pode responder; é o que já me tem dito como a outros, mas não há como refutá-lo senão tornando aos mesmos termos.

 

Que o mal não irredutível, basta lembrar o caso do Magalhães de Azeredo, que o Sousa Bandeira deixou robusto e lépido. Já lhe contei o que a mãe me disse relativamente ao estado em que ele esteve em Roma. Uma senhora (velha amiga da minha Carolina), em carta que me escreveu há pouco referiu-me o caso de um genro que chegou a um estado agudo e está bom.

 

Tenha pois confiança, meu querido amigo; lá tem os seus melhores médicos, a companhia da sua Mamãe e da sua Baby, e o riso de seus filhos. A vista nova das coisas acabará por penetrar-lhe o espírito.

 

Obrigado pelos conselhos que me dá acerca da minha saúde. Faço o que posso, mas para mim o trabalho é distração necessária.

 

Sousa Bandeira e eu dissemos o que nos cabia a seu respeito, na 6.ª feira, 4, no Garnier; recordamos a sua recepção na Academia, e concordamos que a sua modéstia é um mal. A Academia está de vaga aberta, e o prazo para a apresentação de candidaturas termina a 28 de fevereiro. Por ora só se apresentou o Orlando. Ainda se não apresentou o Assis Brasil, por quem trabalha o Euclides.

 

Conto ir visitar um dia destes o Leo.

 

O que lhe digo acima sobre o dia 5 tomado foi um almoço que o Calmon ofereceu ao J. Marcelino. Não voltei a tempo de escrever.

 

Escreva-me logo que receba esta, vencendo o torpor, e veja se a saudade de um am.o lhe dá ânimo. Adeus, peço-lhe que dê recomendações minhas a sua boa Mãe e boa consorte, e receba o meu abraço de velho, de amigo e de solitário. Adeus, meu querido.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[168] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 7 fev. 1907.]

 

Meu querido Nabuco.

 

Esta carta é breve, o bastante para lhe dizer que todos nós lembramos de V., notícia ociosa. O Veríssimo escreveu, a propósito do seu livro das Pensées Détachées, os dois excelentes artigos que V. terá visto no Jornal do Comércio, para onde voltou brilhantemente com a Revista literária. Fez-lhe a devida justiça que nós todos assinamos de coração. A minha carta, aquela que tive a fortuna de escrever antes de ninguém, era melhor que lá tivesse também saído.

 

Aqui vou andando, meu querido amigo, com estas afeições da velhice, que ajudam a carregá-la. Não sei se terei tempo de dar forma e termo ao livro que medito e esboço; se puder, será certamente o último. As forças compreenderão o conselho e acabarão de morrer caladas.

 

Estou certo que V. achou todos os seus em boa saúde, e ansiosos de ver o seu amado chefe. Peço-lhe que lhes apresente os meus respeitos, e também que me recomende ao amigo Chermont. Não lhe peço que se lembre de mim, porque sei, com ufania e gosto, que nunca me esqueceu e sempre quis ao seu

 

Velho adm.or e grato amigo

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[169] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 7 mar. 1907.]

 

Meu querido amigo,

 

pela sua carta vejo que está passando bem, melhor que na cidade. Viva a paisagem e as suas vozes e vistas que também são médicos e remédios certos e capazes. A sua descrição fez-me lembrar a que daí fez seu glorioso pai. Vá, meu amigo, entregue-se aos passeios e ao trabalho manual que projeta até que torne e continue os outros. Conto que os seus nervos se aquietem e passem a obedecer como já fazem.

 

Esta resposta vai demorada, porque a sua carta veio achar-me com um princípio de grippe que continua; trouxe-me o corpo amolentado, além de outros fenômenos característicos, como a falta de apetite, amargor de boca e recrudescimento da coriza. Um hospital, meu querido! Há três noites não saio de casa. Em plena grippe tinha passado duas delas em pleno jardim vizinho, sentado, apanhando sereno. Enfim, parece-me que melhorarei, não sei; enquanto não me deixarem sair de noite, não posso ir como quisera à Rua de Olinda. Vá pondo à conta do meu mal esta letra irregular e velha, que está cada vez pior.

 

Peço-lhe que apresente os meus respeitos às duas boas companheiras daí, e receba um abraço gr.e de amigo, que dá para dividir com os filhos e ainda lhe sobrará m.to. Adeus, meu querido. Quisera falar-lhe bastante, mas é melhor cá. Creia no amigo velho do coração

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[170] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 13 mar. 1907.]

 

Meu querido amigo,

 

Já lhe escrevi uma carta que lhe terá chegado às mãos pouco antes da que me enviou datada do mês passado, 28; e a essa já lhe respondi também, salvo se estou confundindo datas. Ao cartão-postal que me enviou creio haver respondido também. Seja como for, vou sentindo demora nas suas letras, mas a notícia que tenho de que despende grande parte do tempo com trabalhos físicos em proveito do mal compensa este silêncio. Li o que me disse dos seus passeios e dos livros que terá começado ou vai começar a ler; tudo é bom. O Leo deu-me notícias suas há dias e ontem, e boa. Pretendo ir vê-lo sábado, dia certo de estar em casa. Não fui ainda antes por ter sido atacado da grippe durante alguns dias; agora vou melhorando.

 

Manda-me algumas linhas dizendo como vão os seus nervos. Eu espero que bem. Estes amigos são teimosos, mas não inteiramente, e creio que começando a ir desaparecem. Assim aconteceu a uma das filhas do Parreiras Horta, que ele levou ano passado para a Europa, com o mesmo mal e a tuberculose em 2.o grau; voltou há três dias inteiramente curada e gorda.

 

Receba os meus desejos de o ver assim de volta, e antes do abraço com que o espero, receba este para si e para seus filhos. Às excelentes Esposa e Mamãe peço-lhe que apresente os meus respeitosos cumprimentos. Adeus, e até breve.

 

O velho amigo

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[171] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 18 mar. 1907.]

 

Meu querido amigo.

 

Respondo à sua carta de 14, que me trouxe excelente impressão, confirmando a que o Leo me tem dado. Faz bem em alternar os livros com os quadros naturais. Ao cabo, tudo concorre para a completa cura. Não é preciso dizer o gosto que me deu afirmando que entre as leituras figuram alguns versos meus. "Musa Consolatrix". Eu já não me sinto com o vigor que possa transmitir a alguém, a não ser que a pessoa beneficiada não tenha em si a disposição de me aceitar velhas lembranças; em tal caso, a maior e melhor parte do remédio está no próprio enfermo.

 

É o nosso caso.

 

Estou curado da grippe. O coriza vai a bom caminho, e posso crer que só me resta a parte que arrasto comigo a anos. Estes meus últimos dias têm sido de enfado e naturalmente não é assunto que procure o papel. Falaremos quando voltar. Contente-se, por hora, de ir lendo o que lhe mandar este pobre amigo.

 

Não sei se alguém lhe disse já que o Magalhães de Azeredo e a senhora embarcaram ou vão embarcar com destino ao Rio de Janeiro. Veio ontem no Jornal do Comércio. Justamente agora que eu respondera à carta que ele me mandou a dias. Não me falou nela da viagem; dizem-me que o motivo pode prender com a morte do sogro. Vá relevando esta letra execrável, cada vez pior que a do costume.

 

Por que não me escreve alguma coisa? Idéias fugitivas, quadros passageiros, emoções de qualquer espécie, tudo são coisas que o papel aceita e a que mais tarde se dá método, se lhes não convier o próprio desalinho. Eu confesso-lhe que estou agora inteiramente parado no que quisera fazer andar.

 

Meu respeitos às doces companheiras da sua vida, abraços para as crianças, e um para si do amigo velho

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[172 A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 25 mar. 1907.]

 

Meu querido amigo,

 

Imagino que esta carta se vai fazer encontradiça com alguma sua, a última, a que eu espero em resposta à que lhe mandei na semana passada. Notícias suas tenho as tido pelo Leo e são boas. Conto que as que me mande agora confirmem as dele. Vá desculpando a letra e o mal alinhado. Este seu velho amigo é um pobre-diabo cansado, que mal dá de si alguma pouca coisa, desalinhada e torta.

 

Sábado passado era meu plano ir à Rua de Olinda fazer a visita que prometi; mas o Leo me disse que ia nessa noite ao concerto de Laura Coutinho; adiei a visita para o outro sábado.

 

Cá embaixo não há nada que já não saiba lá no Alto, e aliás o papel apenas bastará para dizer de nós mesmos. Sei que todos vão bem, e imagino que o resto de seu mal desaparecerá depressa. A sessão da Câmara em maio nos aproximará, como de outras vezes; o pior é se o seu interlocutor já estará mais enfadonho que dantes; o que é possível, e, se me consultar bem, é certo.

 

Soube pelo Leo que um dia destes dará cá um pulo, a fugir, e tornará logo para a Tijuca. Se neste meio tempo vier um minuto para mim, eu o receberei como empréstimo de ouro. Ontem, estando com o Capistrano, perguntou-me ele se iríamos aí à Tijuca visitá-lo. Só o poderíamos fazer em domingo e eu pensei comigo no de Páscoa; mas depois adverti na visita que tenho de fazer à sobrinha de minha mulher, Laura Costa. Demais, é fim do trimestre adicional, em que a Contabilidade de todos os Ministérios trabalha muito. Tudo estará feito domingo; eu é já não darei para tanto.

 

Peço-lhe que apresente os meus respeitos às suas queridas Mãe e Esposa, e dê um abraço nas crianças, com um para si e saudades.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[173] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 28 mar. 1907.]

 

Meu querido amigo.

 

Anteontem mandei-lhe uma carta, e ontem à tarde recebi outra sua; cruzaram-se. A sua foi-me entregue no Garnier, aonde foi levada em mão, por um moço que o empregado não conhece.

 

Li-a logo e entristeceu-me naturalmente. As notícias que eu tinha eram boas, estavam longe do desânimo que me manifestava agora. Tudo o que eu lhe possa dizer contra esse desânimo sei que é inútil, mas o próprio texto me faz esperar que o remédio virá por si. Quando me diz que, já aborrecido da versão de Ésquilo, sente contudo desejo de recomeçá-la, revela nisso um estado de espírito vacilante , mas não prostrado de todo; e para o mal do espírito basta que ele vislumbre alguma coisa. A paisagem não dará tudo, o ar também não, e as musas (digo assim, pois que trato das antigas) fazem pagar caro os seus favores. Não importa; lá tem os filhos que lhe querem e merecem, a Esposa que não menos merece e quer, e a Mãe, que vale por todos e sente por todos.

 

Amanhã, — não, — depois de amanhã, sábado, hei de estar com o Miguel Couto e oportunamente lhe direi o que houvermos conversado.

 

O meu trabalho teve uma interrupção de dias; não sei se lhe disse isto. Eu começo a desconfiar que alguma das minhas cartas não lhe terá chegado. Agora quero ver se acabo a leitura e faço o remate.

 

Li o que soube do Graça; é o que também ouvi ao Tasso Fragoso, mas é coisa diversa de seu caso. A Academia vai cuidar de recomeçar as suas sessões. A eleição é em abril. Ficaremos sem o Rodrigo Otávio, que embarca para a Europa domingo, e só voltará em julho. Adeus, meu querido amigo, recomendações aos seus doces anjos da guarda e abraços para as crianças e para si.

 

Velho amigo agradecido.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[174] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 1 abr. 1907.]

 

Meu querido amigo,

 

Só à noite de sábado recebi a sua carta de 27, e ainda assim foi preciso mandar ver se a havia na caixa; provavelmente foi posta depois que eu saí. Vinha de esperar o Magalhães Azeredo até 7¼ horas no Pharoux, onde ele desembarcou às 10 e meia. Ontem é que nos falamos, de manhã, no Largo do Machado, e de tarde em casa do tio Coelho, Rua Marquês de Abrantes n.° 97. Lá lhe dei o seu recado, e ele ficou sentido do desencontro. Hoje deve subir para Petrópolis com a família.

 

A minha idéia era ir sábado visitar o Leo, mas a chegada e a espera do nosso amigo, fez-me ir jantar às oito horas, e só às nove poderia sair do Cosme Velho. Adiei a visita.

 

Li e reli as palavras que me diz, e ainda bem que a minha carta lhe produziu esse efeito, o mesmo que parece haver sentido com a nossa conversação. Tanto melhor, meu amigo. Já sabe que a sua moléstia é uma impressão, e basta alguém de boa vontade, o que lhe não falta, ao contrário. Não falei ao Azeredo na mesma que ele teve em Roma, e de que se curou totalmente; está o mesmo rapaz antigo. Conversamos do que pudemos, e prometi, se for possível, dar um pulo a Petrópolis, mas não sei. Já tenho dito a mesma coisa a amigos que lá tenho, e a quem desejo muito, mas ainda não cumpri nada.

 

Novamente agradeço a D. Helena os cambucás que me mandou; estavam saborosos, conforme lhe disse. Também lhe disse que os dividi com uma vizinha. Não fale na mocidade do meu espírito, que está velho ou pior. Adeus, meu amigo; até à primeira ou até o fim do mês. O Azeredo, pelo que me disse, quer cuidar do discurso de entrada na Academia: teremos festa. A nova eleição é lá para o fim do Mês. Peço que apresente os seus respeitos a Mamãe e à Esposa, lembre-me às crianças e receba um abraço do velho am.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[175] A MÁRIO DE ALENCAR [Rio de Janeiro, 11 abr. 1907.]

 

Meu querido amigo.

 

Recebi a sua carta de 8 ontem à tarde, de maneira que só agora posso responde-la. Li o que me diz acerca do seu mal-estar e outros fenômenos. Qualquer que tenha sido a causa dessa agravação, vejo que está melhor, e ainda bem. Eu, que tenho mais direito a enfermidades, não lhe digo senão que as vou expiando com olhos cansados. O muito trabalhar destes últimos dias têm-me trazido alguns fenômenos nervosos; nem por isso deixo de lhe mandar cá de baixo as animações necessárias, por mais enfadonhas que lhe pareçam.

 

O Magalhães de Azeredo só uma vez desceu de Petrópolis e eu apenas o vi de passagem; ficou de tornar um dia destes. Já lhe contei o nosso encontro do dia seguinte ao da chegada da Europa. Não terá havido extravio das duas cartas que lhe escreveu agora? Não sei se leu ontem que hoje há sessão na Academia para cuidar da próxima eleição e de outros assuntos. Acabo de ler que ontem faleceu o Teixeira de Melo. Desaparecera, há muito, presa de uma mal cruel; é mais uma vaga na Academia.

 

Li o que me diz do Registro que o Bilac escreveu acerca da Academia. Em França há muito quem ataque ou diga mal da Academia, mas são os que estão fora dela; os que a compõem sabem amá-la e prezá-la. Aqui a própria Academia acha em si mesma a oposição.

 

Adeus, meu amigo: acabo, já, por faltar tempo. Estive sábado passado na Rua de Olinda, com os seus amáveis sogro e cunhados, e passei uma boa hora de conversação. Lá falamos, é claro, a seu respeito, e a impressão que me deram é boa. Adeus; recomendações à sua Mamãe e à sua Baby, e os abraços do costume para as crianças e para si.

 

Amigo velho

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[176] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 14 mai. 1907.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Dei conta aos colegas da Academia de seu voto na vaga do Loreto em favor do Artur Orlando. Para tudo dizer, dei notícia também do voto que daria ao Assis Brasil ou ao Jaceguai. A este contei também o texto da sua carta, e instei com ele para que se apresente candidato à vaga do Teixeira de Melo (a outra está encerrada e esta foi aberta), mas insistiu em recusar. A razão é não ser homem de letras. Citei-lhe, ainda uma vez, o meu modo de ver que outrora me foi dito, já verbalmente, já por carta; apesar de tudo declarou que não. Quanto ao Assis Brasil, foi instado pelo Euclides da Cunha e recusou também. A carta dele, que Euclides me leu, parece-me mostrar que o Assis Brasil estimaria ser Acadêmico; não obstante, recusa sempre; creio que por causa da noa réussite. Sinto isto muito, meu querido Nabuco.

 

Para a vaga do Teixeira de Melo apresentaram-se já dois candidatos, o Virgílio Várzea e o Paulo Barreto, que assina João do Rio. O Secretário Medeiros já lhe há de ter escrito sobre isto. Sabe que o Rodrigo Otávio está agora na Europa.

 

Estas são as notícias eleitorais. Dos trabalhos acadêmicos já há de ter notícia que, por proposta do Medeiros estamos discutindo se convém proceder à reforma da ortografia. Ao projeto deste (tendente ao fonetismo) opôs-se logo o Salvador de Mendonça, que apresentou um contraprojeto assinado por ele e pelo Rui Barbosa. Mário de Alencar, Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Lúcio de Mendonça. Este propõe que a Acacemia cuide de organizar um dicionário etimológico, fazendo algumas emendas segundo regras que indica. O João Ribeiro opõe-se contraprojeto, e as nossas três sessões têm sido interessantes e são acompanhadas na imprensa e no público.

 

Adeus, meu caro Nabuco, desculpe esta letra que nunca foi boa e a idade está fazendo pior, e não esqueça o velho amigo que não o esquece e é dos mais antigos e agora o mais triste.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[177] A CAMILO CRESTA [Rio de Janeiro, 18 mai. 1907.]

 

Exmo. Sr. C. Cresta.

 

Aproveitando a sua viagem à Itália, peço-lhe o obséquio de levar a carta junta e entregá-la ao Sr. Guglielmo Ferrero. Pelo que ela diz verá que a Academia Brasileira de que é membro correspondente aquele escritor, sabe que ele vem brevemente a Buenos Aires; nela lhe pede que se demore alguns dias no Rio de Janeiro, onde nos poderá fazer duas ou três conferências. Naturalmente esta interrupção da viagem lhe trará algum transtorno, e para compensá-lo e acudir às despesas de estadia pode oferecer-lhe a soma de dez mil liras, que lhe serão entregues pelo modo que parecer melhor.

 

Agradecendo-lhe desde já este obséquio, peço-lhe também q disponha de mim para o que for do seu serviço, como

 

Adm.o, am.o e obr.o

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[178] A GUILHERME FERRERO [Rio de Janeiro, 18 mai. 1907.]

 

Monsieur.

 

Cette lettre, que j’ai l’honneur de vous écrire au non de l’Académie Brésilienne, vous sera remise par M. Camillo Cresta, notre ami. L’Académie, dont vous venez d’être élu membre correspondant, connaît votre prochain voyage à Buenos Aires. Elle recevrait un grand honneur et un bien vif plaisir, si vous vouliez passer quelques jours à Rio de Janeiro. Ici, Monsieur, où vous avez des admirateurs fervents et nombreux, vous pourriez nous donner deux ou trois conférences publiques. Le sujet en serait à votre choix; naturellement il sera italien, comme vous-même, et moderne, comme votre esprit; personne ne sait dire comme vous de ce qui est matière artistique et sociale.

 

Nous serons bien heureux si vous acceptez cette invitation. Monsieur Cresta nous dira par lettre ou par telegramme votre réponse, et j’en donnerai la nouvelle à mes amis et nos confrères.

 

Agréez, Monsieur Ferrero, mes respectuex hommages et l’assurance de notre grande admiration.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[179] AO BARÃO DO RIO BRANCO [Rio de Janeiro, 3.ª-feira, 1907.]

 

Meu eminente am.o Sr. Barão do Rio Branco.

 

Creio responder ao sentimento da Academia Brasileira agradecendo a V. Ex.a os obséquios com que distinguiu anteontem o ilustre G. Ferrero, nosso sócio correspondente. A Academia convidara o historiador italiano a vir trazer aqui algumas das liçãos que há pouco ditou em Paris e agora vai levar a Buenos Aires, e ele aceitou da melhor vontade fazê-lo em seu regresso para a Europa. A ação de V. Ex.a deu assim relevo grande ao nome do Brasil, recebendo a Ferrero e a sua esposa pelo modo que o seu bom gosto e a dignidade do governo lhe sugeriram, em nome deste, e por honra da nossa associação, em que V. Ex.a tão digna parte ocupa.

 

Queira aceitar os meus protestos de sincera amizade e elevada consideração.

 

MACHADO DE ASSIS.

 

 

 

[180] A GUILHERME FERRERO [Rio de Janeiro, 1907.]

 

Cher Monsieur et éminent confrère,

 

Avant tout, acceptez mes salutations pour vos grands succès à Buenos Aires; c’est justement ce que nous attendions tous de la capitale argentine.

 

Mes amis et nous avons lu votre lettre du 14, et votre plan nous parait infiniment agréable. Peut-être il nous conviendrait mieux si vous pouviez arriver à Rio lê 11 septembre: vous trouveriez ici votre ami Monsieur Paul Doumer, qui est près d’arriver.

 

Les conférences sont huit, comme vous dites, à deux par semaine avec lês honoraires de 5.000 francs par conférence. Au cas où il vous conviendrait d’en diminuer lê nombre pour élargir les excursions qui rentrent dans votre plan, afin de mieux connaitre notre pays, il vous sera entièrement libre de le faire, sans y perdre rien dans la totalité des honoraires ajustés. Croyez bien que toutes les dispositions seront prises por que ces excursions à l’interieur soient realisées dans les meilleurs conditions, non seulement du coté des dépenses, dont vous n’aurez aucun souci, mais aussi des attentions dues à votre éminente personnalité.

 

Nous serons très heureux de lire ce que vous direz en Europe de notre pays, après ce voyage d’un mois et demi, ou deux mois. On nous fera bonne justice, d’autant plus facilement que la voix qu’on entendra sera plus autorisée.

 

Pour ce qui est de logement à Rio un de nos amis a reçu vos ordres et fera comme vous dites, de façon que vous n’aurez rien à chercher ou attendre, aussitôt arrivé.

 

Je vous prie, Monsieur, de présenter à Madame Ferrero mês plus respectueuses salutations et de recevoir lês miennes.

 

Tout à vous.

 

M. DE ASSIS.

 

 

 

[181] A JOAQUIM NABUCO [Rio de Janeiro, 7 jul. 1907.]

 

Meu caro Nabuco.

 

Conforme a sua recomendação de março dei o seu voto ao Artur Orlando. Ao Jaceguai comuniquei as suas preferências, mas ainda assim recusou apresentar-se dessa vez. A sua carta de maio, porém, trazendo-me a notícia do voto ao Sr. Paulo Barreto na vaga de Teixeira de Melo, falou ainda desenvolvidamente sobre o Jaceguai para preferi-lo no caso em que ele e o Assis Brasil pleiteassem a cadeira. Encontrando o Jaceguai, dei-lhe a notícia desta resolução, e ele, terminando no dia seguinte o prazo das inscrições, mandou-me de manhã a carta de candidatura, que comuniquei à Academia. Cumprirei a indicação do voto, e, pelo que ouço, creio que será eleito o nosso almirante.

 

Quanto ao Assis Brasil, apesar do que lhe escreveu o Eucl