LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Broquéis, de Cruz e Sousa


Texto-fonte:

 

João da Cruz e Sousa, Obra completa, org. de Lauro Junkes,

Jaraguá do Sul: Avenida, 2008, 2 v.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 ÍNDICE

 

Antífona

 

Siderações

 

Lésbia

 

Múmia

 

Em sonhos...

 

Lubricidade

 

Monja

 

Cristo de bronze

 

Clamando...

 

Braços

 

Regina coeli  

 

Sonho branco

 

Canção da formosura

 

Torre de ouro

 

Carnal e místico

 

A dor

 

Encarnação

 

Sonhador

 

Noiva da agonia

 

Lua

 

Satã

 

Beleza morta

 

Afra

 

Primeira comunhão

 

Judia

 

Velhas tristezas

 

Visão da morte

 

Deusa serena

 

Tulipa real

 

Aparição

 

Vesperal

 

Dança do ventre

 

Foederis Arca

 

Tuberculosa

 

Flor do mar

 

Dilacerações

 

Regenerada

 

Sentimentos carnais

 

Cristais

 

Sinfonias do ocaso

 

Rebelado

 

Música misteriosa...

 

Post Mortem

 

Alda

 

Acrobata da dor

 

Angelus...

 

Lembranças apagadas

 

Supremo desejo

 

Sonata

 

Majestade caída

 

Incensos

 

Luz dolorosa...

 

Tortura eterna

 

 

 

 

Seigneur mon Dieu! accordez-moi la grâce de produire quelques beaux vers qui me prouvent à moi-même que je ne suis pas le dernier des hommes, que je ne suis pas inférieur à ceux que je méprise.

 

Baudelaire

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Antífona

 

 

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

De luares, de neves, de neblinas!...

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...

Incensos dos turíbulos das aras...

 

Formas do Amor, constelarmente puras,

De Virgens e de Santas vaporosas...

Brilhos errantes, mádidas frescuras

E dolências de lírios e de rosas...

 

Indefiníveis músicas supremas,

Harmonias da Cor e do Perfume...

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

 

Visões, salmos e cânticos serenos,

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...

Dormências de volúpicos venenos

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...

 

Infinitos espíritos dispersos,

Inefáveis, edênicos, aéreos,

Fecundai o Mistério destes versos

Com a chama ideal de todos os mistérios.

 

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

E as emoções, sodas as castidades

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

 

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

Fecunde e inflame a rime clara e ardente...

Que brilhe a correção dos alabastros

Sonoramente, luminosamente.

 

Forças originais, essência, graça

De carnes de mulher, delicadezas...

Todo esse eflúvio que por ondas passe

Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

 

Cristais diluídos de clarões alacres,

Desejos, vibrações, ânsias, alentos,

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

Os mais estranhos estremecimentos...

 

Flores negras do tédio e flores vagas

De amores vãos, tantálicos, doentios...

Fundas vermelhidões de velhas chagas

Em sangue, abertas, escorrendo em rios.....

 

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

Passe, cantando, ante o perfil medonho

E o tropel cabalístico da Morte...

 

 

 

Siderações

 

 

Para as Estrelas de cristais gelados

As ânsias e os desejos vão subindo,

Galgando azuis e siderais noivados

De nuvens brancas a amplidão vestindo...

 

Num cortejo de cânticos alados

Os arcanjos, as cítaras ferindo,

Passam, das vestes nos troféus prateados,

As asas de ouro finamente abrindo...

 

Dos etéreos turíbulos de neve

Claro incenso aromal, límpido e leve,

Ondas nevoentas de Visões levanta...

 

E as ânsias e os desejos infinitos

Vão com os arcanjos formulando ritos

Da Eternidade que nos Astros canta...

 

 

 

Lésbia

 

 

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,

Planta mortal, carnívora, sangrenta,

Da tua carne báquica rebenta

A vermelha explosão de um sangue vivo.

 

Nesse lábio mordente e convulsivo,

Ri, ri risadas de expressão violenta

O Amor, trágico e triste, e passe, lenta,

A morte, o espasmo gélido, aflitivo...

 

Lésbia nervosa, fascinante e doente,

Cruel e demoníaca serpente

Das flamejantes atrações do gozo.

 

Dos teus seios acídulos, amargos,

Fluem capros aromas e os letargos,

Os ópios de um luar tuberculoso...

 

 

 

Múmia

 

 

Múmia de sangue e lama e terra e treva,

Podridão feita deusa de granito,

Que surges dos mistérios do Infinito

Amamentada na lascívia de Eva.

 

Tua boca voraz se farta e ceva

Na carne e espalhas o terror maldito,

O grito humano, o doloroso grito

Que um vento estranho para és limbos leva.

 

Báratros, criptas, dédalos atrozes

Escancaram-se aos tétricos, ferozes

Uivos tremendos com luxúria e cio...

 

Ris a punhais de frígidos sarcasmos

E deve dar congélidos espasmos

O teu beijo de pedra horrendo e frio!...

 

 

Em sonhos...

 

 

Nos Santos óleos do luar, floria

Teu corpo ideal, com o resplendor da Helade...

E em toda a etérea, branda claridade

Como que erravam fluidos de harmonia...

 

As Águias imortais da Fantasia

Deram-te as asas e a serenidade

Para galgar, subir a Imensidade

Onde o clarão de tantos sóis radia.

 

Do espaço pelos límpidos velinos

Os Astros vieram claros, cristalinos,

Com chamas, vibrações, do alto, cantando...

 

Nos santos óleos do luar envolto

Teu corpo era o Astro nas esferas solto,

Mais Sóis e mais Estrelas fecundando!

 

 

                       

Lubricidade

 

 

Quisera ser a serpe venenosa

Que dá-te medo e dá-te pesadelos

Para envolverem, ó Flor maravilhosa,

Nos flavos turbilhões dos teus cabelos.

 

Quisera ser a serpe veludosa

Para, enroscada em múltiplos novelos,

Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa

E babujá-los e depois mordê-los...

 

Talvez que o sangue impuro e flamejante

Do teu lânguido corpo de bacante,

Da langue ondulação de águas do Reno

 

Estranhamente se purificasse...

Pois que um veneno de áspide vorace

Deve ser morto com igual veneno...

 

 

 

Monja

 

 

Ó Lua, Lua triste, amargurada,

Fantasma de brancuras vaporosas,

A tua nívea luz ciliciada

Faz murchecer e congelar as rosas.

 

Nas floridas searas ondulosas,

Cuja folhagem brilha fosforeada,

Passam sombras angélicas, nivosas,

Lua, Monja da cela constelada.

 

Filtros dormentes dão aos lagos quietos,

Ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,

Que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...

 

Então, ó Monja branca dos espaços,

Parece que abres para mim os braços,

Fria, de joelhos, trêmula, rezando...

 

 

 

Cristo de bronze

 

 

Ó Cristos de ouro, de marfim, de prata,

Cristos ideais, serenos, luminosos,

Ensanguentados Cristos dolorosos

Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata.

 

Ó Cristos de altivez intemerata,

Ó Cristos de metais estrepitosos

Que gritam como os tigres venenosos

Do desejo carnal que enerva e mata.

 

Cristos de pedra, de madeira e barro...

Ó Cristo humano, estético, bizarro,

Amortalhado nas fatais injurias...

 

Na rija cruz aspérrima pregado

Canta o Cristo de bronze do Pecado,

Ri o Cristo de bronze das luxúrias!...

 

 

 

Clamando...

 

 

Bárbaros vãos, dementes e terríveis

Bonzos tremendos de ferrenho aspeto,

Ah! deste ser todo o clarão secreto

Jamais pôde inflamar-vos, Impassíveis!

 

Tantas guerras bizarras e incoercíveis

No tempo e tanto, tanto imenso afeto,

São para vós menos que um verme e inseto

Na corrente vital pouco sensíveis.

 

No entanto nessas guerras mais bizarras

De sol, clarins e rútilas fanfarras,

Nessas radiantes e profundas guerras...

 

As minhas carnes se dilaceraram

E vão, das llusões que flamejaram,

Com o próprio sangue fecundando as terras...

 

 

 

Braços

 

 

Braços nervosos, brancas opulências,

Brumais brancuras, fulgidas brancuras,

Alvuras castas, virginais alvuras,

Lactescências das raras lactescências.

 

As fascinantes, mórbidas dormências

Dos teus abraços de letais flexuras,

Produzem sensações de agres torturas,

Dos desejos as mornas florescências.

 

Braços nervosos, tentadoras serpes

Que prendem, tetanizam como os herpes,

Dos delírios na trêmula coorte...

 

Pompa de carnes tépidas e flóreas,

Braços de estranhas correções marmóreas,

Abertos para o Amor e para a Morte!

 

 

 

Regina Coeli

 

 

Ó Virgem branca, Estrela dos altares,

Ó Rosa pulcra dos Rosais polares!

 

Branca, do alvor das âmbulas sagradas

E das níveas camélias regeladas.

 

Das brancuras de seda sem desmaios

E da lua de linho em nimbo e raios.

 

Regina Coeli das sidéreas flores,

Hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.

 

Ave de prata e azul, Ave dos astros...

Santelmo aceso, a cintilar nos mastros...

 

Gôndola etérea de onde o Sonho emerge...

Água Lustral que o meu Pecado asperge.

 

Bandolim do luar, Campo de giesta,

Igreja matinal gorjeando em festa.

 

Aroma, Cor e Som das Ladainhas

De Maio e Vinha verde dentre as vinhas,

 

Dá-me através de cânticos, de rezas,

O Bem, que almas acerbas torna ilesas.

 

O Vinho d’ouro, ideal, que purifica

das seivas juvenis a força rica.

 

Ah! faz surgir, que brote e que floresça

A Vinha d’ouro e o vinho resplandeça.

 

Pela Graça imortal dos teus Reinados

Que a Vinha os frutos desabroche iriados.

 

Que frutos, flores essa Vinha brote

Do céu sob o estrelado chamalote.

 

Que a luxúria poreje de áureos cachos

E eu um vinho de sol beba aos riachos.

 

Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli,

Vinho é o clarão que teu Amor impele.

 

Que desabrocha ensanguentadas rosas

Dentro das naturezas luminosas.

 

Ó Regina do Mar! Coeli ! Regina!

Ó Lâmpada das naves do Infinito!

Todo o Mistério azul desta Surdina

Vem d’estranhos Missais de um novo Rito!...

 

 

 

Sonho branco

 

 

De linho e rosas brancas vais vestido,

Sonho virgem que cantas no meu peito!...

És do Luar o claro deus eleito,

Das estrelas puríssimas nascido.

 

Por caminho aromal, enflorescido,

Alvo, sereno, límpido, direito,

Segues radiante, no esplendor perfeito,

No perfeito esplendor indefinido...

 

As aves sonorizam-te o caminho...

E as vestes frescas, do mais puro linho

E as rosas brancas dão-te um ar nevado...

 

No entanto, Ó Sonho branco de quermesse!

Nessa alegria em que tu vais, parece

Que vais infantilmente amortalhado!

 

 

 

Canção da formosura

 

 

Vinho de sol ideal canta e cintila

Nos teus olhos, cintila e aos lábios desce,

Desce a boca cheirosa e a empurpurece,

Cintila e canta após dentre a pupila.

 

Sobe, cantando, a limpidez tranquila

Da tu'alma estrelada e resplandece,

Canta de novo e na doirada messe

Do teu amor, se perpetua e trila...

 

Canta e te alaga e se derrama e alaga...

Num rio de ouro, iriante, se propaga

Na tua carne alabastrina e pura.

 

Cintila e canta na canção das cores,

Na harmonia dos astros sonhadores,

A Canção imortal da Formosura!

 

 

 

Torre de ouro

 

 

Desta torre desfraldam-se altaneiras,

Por sóis de céus imensos broqueladas,

Bandeiras reais, do azul das madrugadas

E do íris flamejante das poncheiras.

 

As torres de outras regiões primeiras

No Amor, nas Glórias vãs arrebatadas

 Não elevam mais alto, desfraldadas,

Bravas, triunfantes, imortais bandeiras.

 

São pavilhões das hostes fugitivas,

Das guerras acres, sanguinárias, vivas,

Da luta que os Espíritos ufana.

 

Estandartes heroicos, palpitantes,

Vendo em marcha passe aniquilantes

As torvas catapultas do Nirvana!

 

 

 

Carnal e místico

 

 

Pelas regiões tenuíssimas da bruma

Vagam as Virgens e as Estrelas raras...

Como que o leve aroma das searas

Todo o horizonte em derredor perfume.

 

N'uma evaporação de branca espuma

Vão diluindo as perspectives claras...

Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras

As Estrelas apagam-se uma a uma.

 

E então, na treva, em místicas dormências

Desfila, com sidéreas lactescências,

Das Virgens o sonâmbulo cortejo...

 

Ó Formas vagas, nebulosidades!

Essência das eternas virgindades!

Ó intensas quimeras do Desejo...

 

 

 

A dor

 

 

Torva Babel das lágrimas, dos gritos,

Dos soluços, dos ais, dos longos brados,

A Dor galgou os mundos ignorados,

Os mais remotos, vagos infinitos.

 

Lembrando as religiões, lembrando os ritos,

Avassalara os povos condenados,

Pela treva, no horror, desesperados,

Na convulsão de Tântalos aflitos.

 

Por buzinas e trompas assoprando

As gerações vão todas proclamando

A grande Dor aos frígidos espaços...

 

E assim parecem, pelos tempos mudos,

Raças de Prometeus titânios, rudos,

Brutos e colossais, torcendo os braços!

 

 

 

Encarnação

 

 

Carnais, sejam carnais tantos desejos,

Carnais, sejam carnais tantos anseios,

Palpitações e frêmitos e enleios,

Das harpas da emoção tantos arpejos...

 

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos,

A noite, ao luar, intumescer os seios

Lácteos, de finos e azulados veios

De virgindade, de pudor, de pejos...

 

Sejam carnais todos os sonhos brumos

De estranhos, vagos, estrelados rumos

Onde as Visões do amor dormem geladas...

 

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias

Formem, com claridades e fragrâncias,

A encarnação das lívidas Amadas!

 

 

 

Sonhador

 

 

Por sóis, por belos sóis alvissareiros,

Nos troféus do teu Sonho irás cantando

As púrpuras romanas arrastando,

Engrinaldado de imortais loureiros.

 

Nobre guerreiro audaz entre os guerreiros,

Das Ideias as lanças sopesando,

Verás, a pouco e pouco, desfilando

Todos os teus desejos condoreiros...

 

Imaculado, sobre o lodo imundo,

Há de subir, com as vivas castidades,

Das tuas glórias o clarão profundo.

 

Há de subir, além de eternidades,

Diante do torvo crocitar do mundo,

Para o branco Sacrário das Saudades!

 

 

 

Noiva da agonia

 

 

Trêmula e só, de um túmulo surgindo,

Aparição dos ermos desolados,

Trazes na face os frios tons magoados,

De quem anda por túmulos dormindo...

 

A alta cabeça no esplendor, cingindo

Cabelos de reflexos irisados,

Por entre aureolas de clarões prateados,

Lembras o aspecto de um luar diluindo...

 

Não és, no entanto, a torva Morte horrenda,

Atra, sinistra, gélida, tremenda,

Que as avalanches da Ilusão governa...

 

Mas ah! és da Agonia a Noiva triste

Que os longos braços lívidos abriste

Para abraçar-me para a Vida eterna!

 

 

 

Lua

 

 

Clâmides frescas, de brancuras frias,

Finíssimas dalmáticas de neve

Vestem as longas árvores sombrias,

Surgindo a Lua nebulosa e leve...

 

Névoas e névoas frígidas ondulam...

Alagam lácteos e fulgentes rios

Que na enluarada refração tremulam

Dentre fosforescências, calafrios...

 

E ondulam névoas, cetinosas rendas

De virginais, de prônubas alvuras...

Vagam baladas e visões e lendas

No flórido noivado das Alturas...

 

E fria, fluente, frouxa claridade

Flutua como as brumas de um letargo...

E erra no espaço, em toda a imensidade,

Um sonho doente, cilicioso, amargo...

 

Da vastidão dos páramos serenos,

Das siderais abóbadas cerúleas

Cai a luz em antífonas, em trenos,

Em misticismos, orações e dúlias...

 

E entre os marfins e as pratas diluídas

Dos lânguidos clarões tristes e enfermos,

Com grinaldas de roxas margaridas

Vagam as Virgens de cismares ermos...

 

Cabelos torrenciais e dolorosos

Boiam nas ondas dos etéreos gelos.

E os corpos passam níveos, luminosos,

Nas ondas do luar e dos cabelos...

 

Vagam sombras gentis de mortas, vagam

Em grandes procissões, em grandes alas,

Dentre as auréolas, os clarões que alagam,

Opulências de pérolas e opalas

 

E a Lua vai clorótica fulgindo

Nos seus alperces etereais e brancos,

A luz gelada e pálida diluindo

Das serranias pelos largos flancos...

 

Ó Lua das magnólias e dos lírios!

Geleira sideral entre as geleiras!

Tens a tristeza mórbida dos círios

E a lividez da chama das poncheiras!

 

Quando ressurges, quando brilhas e amas,

Quando de luzes a amplidão constelas,

Com os fulgores glaciais que tu derramas

Dás febre e frio, dás nevrose, gelas...

 

A tua dor cristalizou-se outrora

Na dor profunda mais dilacerada

E das cores estranhas, ó Astro, agora,

És a suprema Dor cristalizada!...

 

 

 

Satã

 

 

Capro e revel, com os fabulosos cornos

Na fronte real de rei dos reis vetustos,

Com bizarros e lúbricos contornos,

Ei-lo Satã dentre os Satãs augustos.

 

Por verdes e por báquicos adornos

Vai c'roado de pâmpanos venustos

O deus pagão dos Vinhos acres, mornos,

Deus triunfador dos triunfadores justos.

 

Arcangélico e audaz, nos sóis radiantes,

A púrpura das glórias flamejantes,

Alarga as asas de relevos bravos...

 

O Sonho agita-lhe a imortal cabeça...

E solta aos sóis e estranha e ondeada e espessa

Canta-lhe a juba dos cabelos flavos!

 

 

 

Beleza morta

 

 

De leve, louro e enlanguescido helianto

Tens a flórea dolência contristada...

Há no teu riso amargo um certo encanto

De antiga formosura destronada.

 

No corpo, de um letárgico quebranto,

Corpo de essência fina, delicada,

Sente-se ainda o harmonioso canto

Da carne virginal, clara e rosada.

 

Sente-se o canto errante, as harmonias

Quase apagadas, vagas, fugidias

E uns restos de clarão de Estrela acesa...

 

Como que ainda os derradeiros haustos

De opulências, de pompas e de faustos,

As relíquias saudosas da beleza.

 

 

 

Afra

 

 

Ressurges dos mistérios da luxúria,

Afra, tentada pelos verdes pomos,

Entre os silfos magnéticos e os gnomos

Maravilhosos da paixão purpúrea.

 

Carne explosiva em pólvoras e fúria

De desejos pagãos, por entre assomos

Da virgindade   casquinantes momos

Rindo da carne já votada a incúria.

 

Votada cedo ao lânguido abandono,

Aos mórbidos delíquios como ao sono,

Do gozo haurindo os venenosos sucos.

 

Sonho-te a deusa das lascivas pompas,

A proclamar, impávida, por trompas,

Amores mais estéreis que os eunucos!

 

 

 

Primeira comunhão

 

 

Grinaldas e véus brancos, véus de neve,

Véus e grinaldas purificadores,

Vão as Flores carnais, as alvas Flores

Do Sentimento delicado e leve.

 

Um luar de pudor, sereno e breve,

De ignotos e de prônubos pudores,

Erra nos pulcros virginais brancores

Por onde o Amor parábolas descreve...

 

Luzes claras e augustas, luzes claras

Douram dos templos as sagradas aras,

Na comunhão das níveas hóstias frias...

 

Quando seios pubentes estremecem,

Silfos de sonhos de volúpia crescem,

Ondulantes, em formas alvadias...

 

 

 

Judia

 

 

Ah! Judia! Judia impenitente!

De erma e de turva região sombria

De areia fulva, bárbara, inclemente,

Numa desolação, chegaste um dia...

 

Través o céu mais tórrido, mais quente,

Onde a luz mais flamívoma radia,

A voz dos teus, nostálgica, plangente,

Vibrou, chorou, clamou por ti, Judia!

 

Ave de melancólicos mistérios,

Ruflaste as asas por Azuis sidérios,

Ébria dos vícios célebres que salvam...

 

Para alguns corações que ainda te buscam

És como os sóis que rútilos coruscam

E a torva terra do deserto escalvam!

 

 

 

Velhas tristezas

 

 

Diluências de luz, velhas tristezas

Das almas que morreram para a lute!

Sois as sombras amadas de belezas

Hoje mais frias do que a pedra bruta.

 

Murmúrios incógnitos de gruta

Onde o Mar canta os salmos e as rudezas

De obscuras religiões -- voz impoluta

De sodas as titânicas grandezas.

 

Passai, lembrando as sensações antigas,

Paixões que foram já dóceis amigas,

Na luz de eternos sóis glorificadas.

 

Alegrias de há tempos! E hoje e agora,

Velhas tristezas que se vão embora

No poente da Saudade amortalhadas!...

 

 

 

Visão da morte

 

 

Olhos voltados para mim e abertos

Os braços brancos, os nervosos braços,

Vens d'espaços estranhos, dos espaços

Infinitos, intérminos, desertos...

 

Do teu perfil os tímidos, incertos

Traços indefinidos, vagos traços

Deixam, da luz nos ouros e nos aços,

Outra luz de que os céus ficam cobertos.

 

Deixam nos céus uma outra luz mortuária,

Uma outra luz de lívidos martírios,

De agonies, de mágoa funerária...

 

E causas febre e horror, frio, delírios,

Ó Noiva do Sepulcro, solitária,

Branca e sinistra no clarão dos círios!

 

 

 

Deusa serena

 

 

Espiritualizante Formosura

Gerada nas Estrelas impassíveis,

Deusa de formas bíblicas, flexíveis,

Dos eflúvios da graça e da ternura.

 

Açucena dos vales da Escritura,

Da alvura das magnólias marcessíveis,

Branca Via-Láctea das indefiníveis

Brancuras, fonte da imortal brancura.

 

Não veio, é certo, dos pauis da terra

Tanta beleza que o teu corpo encerra,

Tanta luz de luar e paz saudosa...

 

Vem das constelações, do Azul do Oriente,

Para triunfar maravilhosamente

Da beleza mortal e dolorosa!

 

 

 

Tulipa real

 

 

Carne opulenta, majestosa, fina,

Do sol gerada nos febris carinhos,

Há músicas, há cânticos, há vinhos

Na tua estranha boca sulferina.

 

A forma delicada e alabastrina

Do teu corpo de límpidos arminhos

Tem a frescura virginal dos linhos

E da neve polar e cristalina.

 

Deslumbramento de luxúria e gozo,

Vem dessa carne o travo aciduloso

De um fruto aberto aos tropicais mormaços.

 

Teu coração lembra a orgia dos triclínios...

E os reis dormem bizarros e sanguíneos

Na seda branca e pulcra dos teus braços.

 

 

 

Aparição

 

 

Por uma estrada de astros e perfumes

A Santa Virgem veio ter comigo:

Doiravam-lhe o cabelo claros lumes

Do sacrossanto resplendor amigo.

 

Dos olhos divinais no doce abrigo

Não tinha laivos de Paixões e ciúmes:

Domadora do Mal e do perigo

Da montanha da Fe galgara os cumes.

 

Vestida na alva excelsa dos Profetas

Falou na ideal resignação de Ascetas,

Que a febre dos desejos aquebranta.

 

No entanto os olhos d’Ela vacilavam,

Pelo mistério, pela dor flutuavam,

Vagos e tristes, apesar de Santa!

 

 

 

Vesperal

 

 

Tardes de ouro para harpas dedilhadas

Por sacras solenidades

De catedrais em pompa, iluminadas

Com rituais majestades.

 

Tardes para quebrantos e surdinas

E salmos virgens e cantos

De vozes celestiais, de vozes finas

De surdinas e quebrantos...

 

Quando através de altas vidraçarias

De estilos góticos, graves,

O sol, no poente, abre tapeçarias,

Resplandecendo nas naves...

 

Tardes augustas, bíblicas, serenas,

Com silêncio de ascetérios

E aromas leves, castos, de açucenas

Nos claros ares sidéreos...

 

Tardes de campos repousados, quietos,

Nos longes emocionantes...

De rebanhos saudosos, de secretos

Desejos vagos, errantes...

 

Ó Tardes de Beethoven, de sonatas,

De um sentimento aéreo e velho...

Tardes da antiga limpidez das pratas,

De Epístolas do Evangelho!...

 

 

 

Dança do ventre

 

 

Torva, febril, torcicolosamente,

Numa espiral de elétricos volteios,

Na cabeça, nos olhos e nos seios

Fluíam-lhe os venenos da serpente.

 

Ah! que agonia tenebrosa e ardente!

Que convulsões, que lúbricos anseios,

Quanta volúpia e quantos bamboleios,

Que brusco e horrível sensualismo quente.

 

O ventre, em pinchos, empinava todo

Como réptil abjecto sobre o lodo,

Espolinhando e retorcido em fúria.

 

Era a dança macabra e multiforme

De um verme estranho, colossal, enorme,

Do demônio sangrento da luxúria!

 

 

 

Foederis Arca

 

 

Visão que a luz dos Astros louros trazes,

Papoula real tecida de neblinas

Leves, etéreas, vaporosas, finas,

Com aromas de lírios e lilases.

 

Brancura virgem do cristal das frases,

Neve serene das regiões alpinas,

Willis juncal de mãos alabastrinas,

De fugitivas correções vivazes.

 

Floresces no meu Verso como o trigo,

O trigo de ouro dentre o sol floresce

E és a suprema Religião que eu sigo...

 

O Missal dos Missais, que resplandece,

A igreja soberana que eu bendigo

E onde murmuro a solitária prece!...

 

 

 

Tuberculosa

 

 

Alta, a frescura da magnólia fresca,

Da cor nupcial da flor da laranjeira,

Doces tons d'ouro de mulher tudesca

Na veludosa e flava cabeleira.

 

Raro perfil de mármores exatos,

Os olhos de astros vivos que flamejam,

Davam-lhe o aspecto excêntrico dos cáctus

E esse alado das pombas, quando adejam...

 

Radiava nela a incomparável messe

Da saúde brotando vigorosa,

Como o sol que entre névoas resplandece,

Por entre a fina pele cor-de-rosa.

 

Era assim luminosa. e delicada

Tão nobre sempre de beleza e graça

Que recordava pompas de alvorada,

Sonoridades de cristais de taça.

 

Mas, pouco a pouco, a ideal delicadeza.

Daquele corpo virginal e fino,

Sacrário da mais límpida beleza,

Perdeu a graça e o brilho diamantino.

 

Tísica e branca, esbelta, frígida e alta

E fraca e magra e transparente e esguia,

Tem agora a feição de ave pernalta,

De um pássaro alvo de aparência fria.

 

Mãos liriais e diáfanas, de neve,

Rosto onde um sonho aéreo e polar flutua,

Ela apresenta a fluidez, a leve

Ondulação da vaporosa lua.

 

Entre as vidraças, como numa estufa-

No inverno glacial de vento e chuva

Que sobre as telhas tamborila e rufa,

Vejo-a, talhada em nitidez de luva...

 

E faz lembrar uma esquisita planta

De profundos pomares fabulosos

Ou a angélica imagem de uma Santa

Dentre a auréola de nimbos religiosos.

 

A enfermidade vai-lhe, palmo a palmo,

Ganhando o corpo, como num terreno...

E com prelúdios místicos de salmo

Cai-lhe a vida em crepúsculo sereno.

 

Jamais há de ela ter a cor saudável

Para que a carne do seu corpo goze,

Que o que tinha esse corpo de inefável

Cristalizou-se na tuberculose.

 

Foge ao mundo fatal, arbusto débil,

Monja magoada dos estranhos ritos,

Ó trêmula harpa soluçante, flébil,

Ó soluçante, flébil eucaliptus...

 

 

 

Flor do mar

 

 

És da origem do mar, vens do secreto,

Do estranho mar espumaroso e frio

Que põe rede de sonhos ao navio,

E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

 

Possuis do mar o deslumbrante afeto,

As dormências nervosas e o sombrio

E torvo aspecto aterrador, bravio

Das ondas no atro e proceloso aspecto.

 

Num fundo ideal de púrpuras e rosas

Surges das águas mucilaginosas

Como a lua entre a névoa dos espaços...

 

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,

Auroras, virgens músicas marinhas,

Acres aromas de algas e sargaços...

 

 

 

Dilacerações

 

 

Ó carnes que eu amei sangrentamente,

Ó volúpias letais e dolorosas,

Essências de heliotropos e de rosas

De essência morna, tropical, dolente...

 

Carnes virgens e tépidas do Oriente

Do Sonho e das Estrelas fabulosas,

Carnes acerbas e maravilhosas,

Tentadoras do sol intensamente...

 

Passai, dilaceradas pelos zeros,

Através dos profundos pesadelos

Que me apunhalam de mortais horrores...

 

Passai, passai, desfeitas em tormentos,

Em lágrimas, em prantos, em lamentos,

Em ais, em luto, em convulsões, em cores...

 

 

 

Regenerada

 

 

De mãos postas, à luz de frouxos círios

Rezas para as Estrelas do Infinito,

Para os Azuis dos siderais Empíreos

Das Orações o doloroso rito.

 

Todos os mais recônditos martírios,

As angústias mortais, teu lábio aflito

Soluça, em preces de luar e lírios,

Num trêmulo de frases inaudito.

 

Olhos, braços e lábios, mãos e seios,

Presos, d'estranhos, místicos enleios,

Já nas Mágoas estão divinizados.

 

Mas no teu vulto ideal e penitente

Parece haver todo o calor veemente

Da febre antiga de gentis Pecados.

 

 

 

Sentimentos carnais

 

 

Sentimentos carnais, esses que agitam

Todo o teu ser e o tornam convulsivo...

Sentimentos indômitos que gritam

Na febre intensa de um desejo altivo.

 

Ânsias mortais, angústias que palpitam,

Vãs dilacerações de um sonho esquivo,

Perdido, errante, pelos céus, que fitam

Do alto, nas almas, o tormento vivo.

 

Vãs dilacerações de um Sonho estranho,

Errante, como ovelhas de um rebanho,

Na noite de hóstias de astros constelada...

 

Errante, errante, ao turbilhão dos ventos,

Sentimentos carnais, vãos sentimentos

De chama pelos tempos apagada...

 

 

 

Cristais

 

 

Mais claro e fino do que as finas pratas

O som da tua voz deliciava...

Na dolência velada das sonatas

Como um perfume a tudo perfumava.

 

Era um som feito luz, eram volatas

Em lânguida espiral que iluminava,

Brancas sonoridades de cascatas...

Tanta harmonia melancolizava.

 

Filtros sutis de melodias, de ondas

De cantos voluptuosos como rondas

De silfos leves, sensuais, lascivos...

 

Como que anseios invisíveis, mudos,

Da brancura das sedas e veludos,

Das virgindades, dos pudores vivos.

 

 

 

Sinfonias do ocaso

 

 

Musselinosas como brumas diurnas

Descem do acaso as sombras harmoniosas,

Sombras veladas e musselinosas

Para as profundas solidões noturnas.

 

Sacrários virgens, sacrossantas urnas,

Os céus resplendem de sidéreas rosas,

Da lua e das Estrelas majestosas

Iluminando a escuridão das furnas.

 

Ah! por estes sinfônicos ocasos

A terra exala aromas de áureos vasos,

Incensos de turíbulos divinos.

 

Os plenilúnios mórbidos vaporam...

E como que no Azul plangem e choram

Cítaras, harpas, bandolins, violinos...

 

 

 

Rebelado

 

 

Ri tua face um riso acerbo e doente,

Que fere, ao mesmo tempo que contrista...

Riso de ateu e riso de budista

Gelado no Nirvana impenitente.

 

Flor de sangue, talvez, e flor dolente

De uma paixão espiritual de artista,

Flor de Pecado sentimentalista

Sangrando em riso desdenhosamente.

 

Da alma sombria de tranquilo asceta

Bebeste, entanto, a morbidez secreta

Que a febre das insânias adormece.

 

Mas no teu lábio convulsivo e mudo

Mesmo até riem, com desdéns de tudo,

As sílabas simbólicas da Prece!

 

 

 

Música misteriosa...

 

 

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,

Que abris a doce luz de alampadários,

As harmonias dos Estradivárius

Erram da Lua nos clarões dormentes...

 

Pelos raios fluídicos, diluentes

Dos Astros, pelos trêmulos velários,

Cantam Sonhos de místicos templários,

De ermitões e de ascetas reverentes...

 

Cânticos vagos, infinitos, aéreos

Fluir parecem dos Azuis etéreos,

Dentre os nevoeiros do luar fluindo...

 

E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,

Na láctea claridade que flutua,

A surdina das lágrimas subindo...

 

 

 

Serpente de cabelos

 

 

A tua trança negra e desmanchada

Por sobre o corpo nu, torso inteiriço,

Claro, radiante de esplendor e viço,

Ah! lembra a noite de astros apagada.

 

Luxúria deslumbrante e aveludada

Através desse mármore maciço

Da carne, o meu olhar nela espreguiço

Felinamente, nessa trance ondeada.

 

E fico absorto, num torpor de coma,

Na sensação narcótica do aroma,

Dentre a vertigem túrbida dos zeros.

 

És a origem do Mal, és a nervosa

Serpente tentadora e tenebrosa,

Tenebrosa serpente de cabelos!...

 

 

 

Post Mortem

 

 

Quando do amor das Formas inefáveis

No teu sangue apagar-se a imensa chama,

Quando os brilhos estranhos e variáveis

Esmorecerem nos troféus da Fama.

 

Quando as níveas Estrelas invioláveis,

Doce velário que um luar derrama,

Nas clareiras azuis ilimitáveis

Clamarem tudo o que o teu Verso clama.

 

Já terás para os báratros descido,

Nos cilícios da Morte revestido,

Pés e faces e mãos e olhos gelados...

 

Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas

Pelo alto ficarão de eras supremas

Nos relevos do Sol eternizados!

 

 

 

Alda

 

 

Alva, do alvor das límpidas geleiras,

Desta ressumbra candidez de aromas...

Parece andar em nichos e redomas

De Virgens medievais que foram freiras.

 

Alta, feita no talhe das palmeiras,

A coma de ouro, com o cetim das comas,

Branco esplendor de faces e de pomas

Lembra ter asas e asas condoreiras.

 

Pássaros, astros, cânticos, incensos

Formam-lhe aureoles, sóis, nimbos imensos

Em torno à carne virginal e rara.

 

Alda fez meditar nas monjas alvas,

Salvas do Vicio e do Pecado salvas,

Amortalhadas na pureza clara.

 

 

 

Acrobata da dor

 

 

Gargalha, ri, num riso de tormenta,

Como um palhaço, que desengonçado,

Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado

De uma ironia e de uma dor violenta.

 

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,

Agita os guizos, e convulsionado

Salta, gavroche, salta clown, varado

Pelo estertor dessa agonia lenta...

 

Pedem-te bis e um bis não se despreza!

Vamos! reteza os músculos, reteza

Nessas macabras piruetas d'aço...

 

E embora caias sobre o chão, fremente,

Afogado em teu sangue estuoso e quente

Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

 

 

Angelus...

 

 

Ah! lilases de Angelus harmoniosos,

Neblinas vesperais, crepusculares,

Guslas gementes, bandolins saudosos,

Plangências magoadíssimas dos ares...

 

Serenidades etereais d'incensos,

De salmos evangélicos, sagrados,

Saltérios, harpas dos Azuis imensos,

Névoas de céus espiritualizados.

 

Angelus fluidos, de luar dormente,

Diafaneidades e melancolias...

Silêncio vago, bíblico, pungente

De todas as profundas liturgias.

 

É nas horas dos Angelus, nas horas

Do claro-escuro emocional aéreo,

Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras

Ondulações e brumas do Mistério.

 

Surges, talvez, do fundo de umas eras

De doloroso e turvo labirinto,

Quando se esgota o vinho das Quimeras

E os venenos românticos do absinto.

 

Apareces por sonhos neblinantes

Com requintes de graça e nervosismos,

Fulgores flavos de festins flamantes,

Como a Estrela Polar dos Simbolismos.

 

Num enlevo supremo eu sinto, absorto,

Os teus maravilhosos e esquisitos

Tons siderais de um astro rubro e morto,

Apagado nos brilhos infinitos.

 

O teu perfil todo o meu ser esmalta

Numa auréola imortal de formosuras

E parece que rútilo ressalta

De góticos missais de iluminuras.

 

Ressalta com a dolência das Imagens,

Sem a forma vital, a forma viva,

Com os segredos da Lua nas paisagens

E a mesma palidez meditativa.

 

Nos êxtases dos místicos os braços

Abro, tentado de carnal beleza...

E cuido ver, na bruma dos espaços,

De mãos postas, a orar, Santa Teresa!...

 

 

 

Lembranças apagadas

 

 

Outros, mais do que o meu, finos olfatos,

Sintam aquele aroma estranho e belo

Que tu, ó Lírio lânguido, singelo,

Guardaste nos teus íntimos recatos.

 

Que outros se lembrem dos sutis e exatos

Traços, que hoje não lembro e não revelo

E se recordem, com profundo anelo,

Da tua voz de siderais contatos...

 

Mas eu, para lembrar mortos encantos,

Rosas murchas de graças e quebrantos,

Linhas, perfil e tanta dor saudosa,

 

Tanto martírio, tanta mágoa e pena,

Precisaria de uma luz serene,

De uma luz imortal maravilhosa!...

 

 

 

Supremo desejo

 

 

Eternas, imortais origens vivas

Da Luz, do Aroma, segredantes vozes

Do mar e luares de contemplativas,

Vagas visões volúpicas, velozes...

 

Aladas alegrias sugestivas

De asa radiante e branca de albornozes,

Tribos gloriosas, fulgidas, altivas,

De condores e de águias e albatrozes...

 

Espiritualizai nos Astros louros,

Do sol entre os clarões imorredouros

Toda esta dor que na minh'alma clama...

 

Quero vê-la subir, ficar cantando

Na chama das Estrelas, dardejando

Nas luminosas sensações da chama.

 

 

 

Sonata

 

 

I

 

 

Do imenso Mar maravilhoso, amargos,

Marulhosos murmurem compungentes

Cânticos virgens de emoções latentes,

Do sol nos mornos, mórbidos letargos...

 

 

II

 

 

Canções, leves canções de gondoleiros,

Canções do Amor, nostálgicas baladas,

Cantai com o Mar, com as ondas esverdeadas,

De lânguidos e trêmulos nevoeiros!

 

 

III

 

 

Tritões marinhos, belos deuses rudes,

Divindades dos tártaros abismos,

Vibrai, com os verdes e acres eletrismos

Das vagas, flautas e harpas e alaúdes!

 

 

IV

 

 

O Mar supremo, de flagrância crua,

De pomposas e de ásperas realezas,

Cantai, cantai os tédios e as tristezas

Que erram nas frias solidões da Lua...

 

 

 

Majestade caída

 

 

Esse cornoide deus funambulesco

Em torno ao qual as Potestades rugem,

Lembra os trovões, que tétricos estrugem,

No riso alvar de truão carnavalesco.

 

De ironias o momo picaresco

Abre-lhe a boca e uns dentes de ferrugem,

Verdes gengivas de ácida salsugem

Mostra e parece um Sátiro dantesco.

 

Mas ninguém nota as cóleras horríveis,

Os chascos, os sarcasmos impassíveis

Dessa estranha e tremenda Majestade.

 

Do torvo deus hediondo, atroz, nefando,

Senil, que embora, rindo, está chorando

Os Noivados em flor da Mocidade!

 

 

 

Incensos

 

 

Dentre o chorar dos trêmulos violinos,

Por entre os sons dos órgãos soluçantes

Sobem nas catedrais os neblinantes

Incensos vagos, que recordam hinos...

 

Rolos d'incensos alvadios, finos

E transparentes, fulgidos, radiantes,

Que elevam-se aos espaços, ondulantes,

Em Quimeras e Sonhos diamantinos.

 

Relembrando turíbulos de prata

Incensos aromáticos desata

Teu corpo ebúrneo, de sedosos flancos.

 

Claros incensos imortais que exalam,

Que lânguidas e límpidas trescalam

As luas virgens dos teus seios brancos.

 

 

 

Luz dolorosa...

 

 

Fulgem da Luz os Viáticos serenos,

Brancas Extrema-Unções dos hostiários:

As Estrelas dos límpidos Sacrários

A nívea Lua sobre a paz dos fenos.

 

Há prelúdios e cânticos e trenos

Tristes, nos ares ermos, solitários...

E nos brilhos da Luz, vagos e vários,

Há dor, há luto, há convulsões, venenos...

 

Estranhas sensações maravilhosas

Percorrem pelos cálices das rosas,

Sensações sepulcrais de larvas frias...

 

Como que ocultas áspides flexíveis

Mordem da Luz os germens invisíveis

Com o tóxico das cóleras sombrias...

 

 

 

Tortura eterna

 

 

Impotência cruel, ó vã tortura!

Ó Força inútil, ansiedade humana!

Ó círculos dantescos da loucura!

Ó luta, Ó luta secular, insana!

 

Que tu não possas, Alma soberana,

Perpetuamente refulgir na Altura,

Na Aleluia da Luz, na clara Hosana

Do Sol, cantar, imortalmente pura.

 

Que tu não posses, Sentimento ardente,

Viver, vibrar nos brilhos do ar fremente,

Por entre as chamas, os clarões supernos.

 

Ó Sons intraduzíveis, Formas, Cores!...

Ah! que eu não possa eternizar as cores

Nos bronzes e nos mármores eternos!