LITERATURA BRASILEIRA 

Textos literários em meio eletrônico

Evocações, de Cruz e Sousa


Textos-fonte:

 

João da Cruz e Sousa, Obra completa, org. de Lauro Junkes,

Jaraguá do Sul: Avenida, 2008, 2 v.

 

João da Cruz e Sousa, Obra Completa,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

  

Iniciado

 

Seráfica

 

Mater

 

Capro

 

A noite

 

Melancolia

 

Condenado à morte

 

Anho branco

 

O sono

 

Triste

 

Adeus!

 

Tenebrosa

 

Região azul...

 

Sonambulismos

 

Dor negra

 

Sensibilidade

 

Asas...

 

Espiritualizada

 

Asco e dor

 

Intuições

 

Morto

 

Vulda

 

Anjos rebelados

 

Um homem dormindo...

 

No inferno

 

A nódoa

 

Talvez a morte?!...

 

Ídolo mau

 

Balada de loucos

 

Espelho contra espelho

 

Abrindo féretros

 

Primeiro féretro - Ana

 

Segundo féretro - Antônia

 

Terceiro féretro - Carolina

 

Quarto féretro - Guilherme

 

O sonho do idiota

 

A sombra

 

Nirvanismos

 

Extrema carícia...

 

Emparedado

 

 

 

 

Les seuls vivants méritant le nom d'Artistes sont les créateurs,
ceux qui éveillent des impressions intenses, inconnues et sublimes
.

 

Villiers De L’Isle-Adam, L'Éve Future

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Iniciado

 

Desolado alquimista da Dor, Artista, tu a depuras, a fluidificas, a espiritualizas, e ela fica para sempre, imaculada essência, sacramentando divinamente a tua Obra.

 

Pedrarias rubentes dos ocasos; Angelus piedosos e concentrativos, a Millet; Te Deum glorioso das madrugadas fulvas, através do deslumbramento paradisíaco, rumoroso e largo das florestas, quando a luz abre imaculadamente num som claro e metálico de trompa campestre — claro e fresco, por bizarra e medieval caçada de esveltos fidalgos; a verde, viva e viçosa vegetação dos vergéis virgens; os opalescentes luares encantados nas matas; o cristalino cachoeirar dos rios; as colinas emotivas e saudosas, — todo aquele esplendor de colorida paisagem, todo aquele encanto de exuberância de prados, aqueles aspectos selvagens e majestosos e ingênuos, quase bíblicos, da terra acolhedora e generosa onde nasceste, — deixaste, afinal, um dia, e vieste peregrinar inquieto pelas inóspitas, bárbaras terras do Desconhecido...

 

Vieste da tua paragem feliz e meiga, — amplidão de bondade patriarcal, primitiva, — mergulhar na onda nervosa do Sonho, que já de longe, dos ermos rudes do teu lar, fascinava de magnéticos fluidos, de imponderados mistérios, o teu belo ser contemplativo e sensibilizado.

 

Chegas para a Via-Sacra da Arte a esta avalanche imensa de sensações e paixões uivantes, roçando esta multidão insidiosa, confusa, dúbia, que de rastos, de rojo, burburinha, farejando ansiosamente o Vício.

 

Vens ainda com todo o sol fremente do teu solitário firmamento provinciano na carnação vigorosa de forte, de virilizado naqueles ares; trazes ainda no sangue aceso a impetuosidade dos lutadores alegres e heroicos e ainda todo esse organismo desenvolvido livremente nos campos respira a saúde brava daquela atmosfera casta e verde, dos amplos céus úmidos da tinta fresca das manhãs, aguarelados delicadamente de claro azul.

 

Mas, daí a pouco, uma vez imerso completamente na Arte, uma vez concentrado definitivamente nela, todo esse brilho e viço vitoriosos, por uma surpreendente transfiguração, desaparecerão para sempre, e então, tu, lívido, trêmulo, espectral, fantástico, terás o impressionante aspecto angustioso e fatal do lúgubre aparato de um guilhotinado...

 

A Arte dominou-te, venceu-te e tu por ela deixaste tudo: a viva, a penetrante, a tocante afeição materna, de um humano enternecimento até às lágrimas, até à morte, até ao sacrifício do sangue. Por ela deixaste esse afeto extremo, louco, quase absurdo, de tua mãe — cabeça branca estrelada de amarguras, Espírito celestial do Amor, aquela que nas miragens infinitas e nas curiosidades enigmáticas da Infância, santificou, ungiu o teu corpo com o óleo sacrossanto dos beijos.

 

Tudo esqueceste, para vir fecundar o teu ser nos seios germinadores da Arte. E, quando alimentado, quando conquistado e vencido por ela, quiseres voltar depois aos braços acariciantes de tua mãe, num risonho movimento de afetiva alegria, clara, fresca, espontânea, sadia e simples como a de outrora, esse movimento lhe parecerá funesto e acerbo, como o ríctus de uma caveira, sem jamais o antigo encanto e frescura.

 

E tu, então, surgirás para ela como a sombra, o fantasma do que foste, um desvairado, perdido, errante na Dor — tais e tantas serão em ti as duras rugas, imprevistas e prematuras, para sempre pungitivamente produzidas pelo dilaceramento da Paixão estética.

 

Mas tua mãe te falará das bizarras correrias da tua mocidade, mais florida e mais virgem do que um campo de rosas brancas nas agrestes regiões onde nasceste.

 

E a alma da tua mocidade, a tua jovem bravura de mocidade, andará, vagará já, errando, errando, esquecida do mundo, como um solitário monge, através dos longos e sombrios claustros da Saudade.

 

E, não só tua mãe, mas teus irmãos, teu pai, todos os teus te olharão depois, secretamente abalados, como a um desconhecido, sentindo, por vago instinto, que os caracteres ignotos e supremos do teu ser não são apenas, elementarmente, os mesmos caracteres da simples e natural consaguinidade; que tu, por mais unido que estejas a eles por laços inevitáveis, fatais, estás longe, afastado deles a teu pesar, sem malícia, de alma desprevenida e sã, como as estrelas nas soberanias transcendentes da sua luz estão para sempre afastadas da obscura Terra. E tudo isso por andares atraído por forças redentoras, perdido nos centros fascinantes do absoluto sentir e do absoluto sonhar!

 

Agora, ainda trazes a alma como a mais excêntrica flor do Sol, com todas as febrilidades e deslumbramentos do Sol — flor da força, da impetuosidade das seivas, aberta, rasgada em rubro, viva e violenta a vermelho, cantando sangue...

 

Porém, se és vitalmente um homem, e trazes o cunho prodigioso da Arte, vem para a Dor, vive na chama da Dor, vencedor por senti-la, glorioso por conhecê-la e nobilitá-la. Tira da Dor a profunda e radiante serenidade e a solene harmonia profunda. Faze da Dor a bandeira real, orgulhosa, constelada dos brasões soberanos da poderosa Águia Negra do Gênio e do Dragão cabalístico das Nevroses, para envolver-te grandiosamente na Vida e amortalhar-te na Morte!

 

Vem para esta ensanguentada batalha, para esta guerra surda, absurda, selvagem, subterrânea e soturna da Dor dos Loucos Iluminados, dos Videntes Ideais que arrastam, além, pelos tempos, para os infinitos do incognoscível futuro, as púrpuras fascinadoras das suas glórias trágicas.

 

Se não tens Dor, vaga pelos desertos, corre pelos areais da Ilusão e pede às vermelhas campanhas abertas da Vida e clama e grita: quem me dá uma Dor, uma Dor para me iluminar! Que eu seja o transcendentalizado da Dor!

 

Vem para a Dor, que tu a elevas e purificas, porque tu não és mais que a corporificação do próprio Sonho, que vagueia, que oscila na luxúria da luz, através da Esperança e da Saudade — grandes lâmpadas de luas de unção piedosa, cuja velada claridade tranquila dá ao teu semblante a expressão imaterial, incoercível, etérea, da Imortalidade...

 

E essa Imortalidade em que meditas é a das Ideias, da Forma, das Sensações, da Paixão, cristalizadas maravilhosamente num corpo vivo, quente, palpitante, que sintas mover, que sintas estremecer, agitar-se numa onda de sensibilidade, fremer, vibrar nas efervescências da luz...

 

Condensa, apura, perfectibiliza, pois, o teu Sonho — Sol estranho, em torno ao qual voam condores e águias vitoriosas de garras e asas conquistadoras...

 

Para a gênese desse Sonho, para a gênese dessa Arte, é necessário o Otimismo da Fé, poderosa e religiosamente sentida; é necessário que a tua alma, forte, avigorada para a grande Esfera, tenha a Crença edificante e paire presa às correntes invisíveis, ignotas, de um sentimento espiritualizado e sereno.

 

Ao Pessimismo de Schopenhauer, que tu, pelo fundo de crítica psicológica e de alada e fagulhante ironia adoras, como Satã, por diabólica fantasia, adora os abstrusos venenos do Mal; a esse Pessimismo seco, duro, ditador e esterilizante, prefere antes o Otimismo religioso de Renan, que não abate nem envilece as almas, mas antes as alevanta e ilumina, sem lhes tirar a retidão austera da Verdade, as linhas justas e solenes da alta compreensão da Vida.

 

Do pessimismo e do otimismo, do conjunto dessas duas forças, tira a linha geral do teu ser, para que a visão da tua alma fique perfeita e profunda e não ganhe nem hipertrofias nem vícios de percepção nem graves e antipáticos desequilíbrios de sensibilidade, na frescura abençoada e nos rejuvenescimentos e reflorescências da Fé.

 

Assim, concordará a ação com a sensação, estarás em imediata e clara harmonia com a tua extrema natureza, estudados os fundamentos que intimamente a constituem: a bondade, o afeto, o enternecimento, a delicadeza, a resignação, a brandura, a abnegação, o sacrifício e a calma, latentes qualidades essas todas puramente de um Otimismo religioso, porque são essas qualidades que representam o fundo sincero e sério das faculdades estéticas, presas sempre a um Ideal abstrato, que é, na sua essência, o Ideal do Infinito, da Imortalidade, da Religião, da Fé.

 

Se tens Fé, se vens inflamado veemente e intensamente para o sentimento original da Concepção e da Forma; se te devora a ansiedade lancinante de uma Aspiração que arrebata e coloridas como paixões e sensações; se dentro de todo o teu ser há o Inferno dantesco, em asas, que desprende voos brancos e largos para regiões muito além da Morte; se percorrem os teus nervos, em prodígios de harmonia, músicas estranhas tumultuoso de Visões, épico de majestade mental, a crescer, a crescer, a subir mediterraneamente em ondas cerradas, compactas de sonambulismos estéticos; se sentes a atraente vertigem da palpitação dos astros, a dolência pungente das melancolias enevoadas e doentes que insensivelmente umedecem os olhos; se na luz, se no ar, se na cor, se no som, se no aroma tens a fina, a delicada, a sutil percepção da Arte; se sabes ser, ter na Arte uma existência una, indivisível, és o Eleito dela, o Impressionado, o Iniciado.

 

Não tens mais do que agir fatalmente pelo teu temperamento, numa função original, numa castidade ingênita de emoções, na espontaneidade do teu sangue novo e dos teus nervos aristocráticos, tensibilizados pela estesia.

 

Mas, para livremente chegares a esse resultado artístico, é mister que preceda a tudo isso um sistema de princípios integrais, fecundos e profundos na tua natureza, dando-te, por esse modo, uma firmeza e serenidade emotiva.

 

Não é, apenas, querer, não é poder, apenas — é Ser! — E se tu sabes ser, se tu és, numa legitimidade flagrante, num enraizamento muito intenso de todo o teu organismo, vivendo a Arte e não a Arte vivendo em ti; se assim tu és, na profundidade real desse esquisito e maravilhoso estado, meio-inconsciência, meio-névoa, que te impulsiona para a Concepção; se assim tu és, por germens inevitáveis, fatais, a tua Obra, ainda em gestação, atestará eloquentemente, mais tarde, as inauditas manifestações do temperamento.

 

Tudo está em seres a tua Dor, em seres o teu Gozo, homogeneamente; em saíres, por movimentos espontâneos, livres e simples, representativos de um vivo e afirmativo Fenômeno, da Esfera do mero Instinto para a Esfera reabilitadora, pura e radiante do Pensamento.

 

Se é certo que trazes em ti a principal essência, as expressivas raízes, a flama eterna, o nebuloso segredo dos Assinalados, um poder mágico, irresistível, a que não poderás fugir jamais, te arrastará, te arrojará, como Visão legendária, profética, numa grande convulsão e estremecimento, para fora das humanas frivolidades terrestres, para fora das impressões exteriores do Mundo, mergulhando-te soberanamente, para sempre! no fundo apocalíptico, solene, das Abstrações e do Isolamento...

 

Se trazes essa verdadeira, perfeita aristocracia genésica do Sentimento; se sentes que toda a límpida e nobre grandeza está apenas na simplicidade com que te despires dos vãos ouropéis mundanos, para entrar larga e fraternalmente na Contemplação da Natureza; se vens para dizer a tua grave, funda Nevrose, que nada mais é do que a eloquente significação da Nevrose do Infinito, que tu buscas abranger e registrar; se tens essa missão singular, quase divina, vai sereno, o peito estrelado pelas constelações da Fé, impassível ao apedrejamento dos Impotentes, firme, seguro, equilibrado por essa força oculta, misteriosa e suprema que ilumina milagrosamente os artistas calmos e poderosos na obscuridade do meio ambiente, quando floresce e alvorece nas suas almas a rara flor da Perfeição.

 

Que importam a excomunhão e os desprezos mordazes sobre a tua cabeça?! Que importam os arremessados lançaços d'aço e de ferro contra o broquel do teu peito e contra o vigor de tronco em rebentos verdes do teu flanco?! Os ímpios não pairam nestas órbitas, não giram nestas chamejantes Esferas, não se incendeiam e não morrem nestes augustos e inéditos Infernos.

 

Segue, pois, os que seguem contritos, sob um arco-íris celestial de esperanças vagas, a alma como uma flor exótica dos trópicos ceruleamente aberta às messes de ouro do sol, e a boca, no entanto, secamente, asperamente amordaçada sem piedade pelas sedes tenazes e amargas dos mais inquietantes desejos...

 

E vai sereno, como os Eleitos da Arte, extremados e apaixonados na chama do seu Segredo, da sua excelsa Vontade — levitas extraordinários, martirizados nas inquisições truculentas da Carne, mas benditos, purificados, sem culpa de pecado mundano, na recôndita manifestação das Emoções e do Entendimento.

 

Segue resoluto, impávido, para a Arte branca e sem mancha, sem mácula, virginal e sagrada, desprendido de todos os elos que entibiem, de todas as convenções que enfraqueçam e banalizem, sem as explorações desonestas, os extremos de dedicação falsa, as fingidas interpretações dos cínicos apóstatas, mas com toda a forte, a profunda, a sacrificante sinceridade, da tua grande alma, conservando sempre intacta, sempre, a flor espontânea e casta da tua sensibilidade.

 

Para resistir aos perturbadores ululos do mundo fecha-te à chave astral com a alma, essa esfera celeste, dentro das muralhas de ouro do Castelo do Sonho, lá muito em cima, lá muito em cima, lá no alto da torre azul mais alta dentre as altas torres coroadas d'estrelas.

 

Vai sereno, belo Iniciado! Vai sereno para esta prodigiosa complexidade de Sentimentos, agora que abandonaste a franqueza rude das montanhas, além, longe, na solidão concentrativa, no silêncio banhado de impressionante, comunicativa e augusta poesia, da tua terra de selvas e bosques bíblicos!

 

Vai sereno! a cabeça elevada na luz, vitalizada e resplandecida na nevrosidade mordente da luz e os fatigados olhos sonhadores graves, ascéticos, atraídos pelo mistério da Vida, magnetizados pelo mistério da Morte...

 

 

 

Seráfica

 

 

Como as iluminuras dos missais, que ressaltam de marfins ebúrneos, era infinitamente seráfica, da beatitude angélica dos querubins, aquela pálida mulher juncal, de um moreno triste e contemplativo de magnólia crestada.

 

Seus grandes olhos negros, profundos e veludosos, de finíssimos cílios rendilhados, raiados de uma expressão judaica, tornavam ainda maior o relevo do palor esmaiado do rosto melancólico, que a singular formosura brandamente iluminava de claridade velada...

 

As linhas harmoniosas do seu busto sereno, perfeito, davam-lhe encanto vago, aéreo, siderações egrégias, prefulgências de Arcanjo.

 

Pairavam nessa mulher jalde-esmaiado, que na luz loura do sol tinha toques d'ouro, suavidades de cânticos sacros, carícias de aves, e ritmos preciosos de cítaras e harpas finamente vibradas través a sonoridade clara das lânguidas águas do Mar.

 

Altiva e alta, com o sentimento frio do mármore das Imagens amarguradas, fluíam-lhe da voz, quando raramente falava, cismativas dolências, fundas nostalgias enevoadas...

 

Mas, muda, na mudez das religiosas claustrais, ficava então de uma beleza divinal e secreta, da excelsa resplandecência sagrada dos Hostiários.

 

E, quando erguia os cílios densos e cetinosos e o clarão dos olhos brilhava, como que se evaporizavam deles chamas e músicas paradisíacas, uma espiritualização a glorificava, eflúvios de aroma, a leve irisação da graça.

 

Dominadora, triunfal, na auréola do esplendor que a circundava, parecia reinar num altar etéreo, por entre os finos astros imortais.

 

Fazia crer que todos os sentimentos afetivos purificados, que todas as emanações originais da terra, correriam, perpetuamente, em cortejos reverentes, a vê-la passar, a beijá-la na epiderme de cera, a venerá-la, enfim, com esse amor ideal, indelével, eterno, da natureza abstrata...

 

O perfume e a radiação da sua cabeça majestosa, astral, não fascinavam, não atraíam apenas, mas idealizavam sempre — como se a Seráfica fosse a Aparição simbólica, surgindo de um fundo lívido de lua, uma Santa Teresa, bela e ascética nos cilícios da religião do Amor, amortalhada na castidade das açucenas e lírios...

 

A alma dos Estéticos, dos curiosos Emocionados, se deslumbrava em êxtases de ocasos ao ver-lhe a aristocrática esveltez monjal, os grandes olhos negros e magoados, de beleza deifica, os ondeados cabelos tenebrosos e a boca purpurejante, anelante, letárgica, ligeiramente golpeada de um travor enervante de volúpia dolorosa...

 

Os seios deliciosos e tépidos, origem branca e bela da graça e do desejo, eram duas raras rosas intemeratas, cujo aroma esquisito e vivo meigamente deixava um fino encanto e uma suave fascinação no ar...

 

Virgem ainda, com todo o impoluto verdor do seu corpo misterioso, fechada nos recatos ingênitos do pudor, a Morte, afinal, veio entoar o Canto Nupcial de Seráfica, o seu Epitalâmio...

 

E ela, no tálamo da Morte, nessa mística melancolia de outrora, que a velava, e naquele esmaiado palor, lembrava, aos entendimentos delicados, aos solenes e reclusos profetas da Grande Arte, ter emudecido glacialmente para sempre, sem os impundonorosos, profanadores contactos, de uma exótica e asiática doença...

 

  

 

Mater

 

 

Naquela hora tremenda, grande hora solene na qual se ia inicar outra nova vida, foi para mim uma sensibilidade original, um sofrimento nunca sentido, que me desprendia da terra, que me exilava do mundo, tal era o choque violento dos meus nervos nesse momento, tal a delicada e curiosa impressão de minh'alma nesse transe supremo.

 

Ela, abalada por gemidos, na dor que a dilacerava, quase desfalecia, com a mais rara expressão misteriosa nos grandes olhos, os lábios lívidos, o semblante de uma contemplatividade de martírio, transfigurada já pela angústia sagrada daquela hora, no instante augusto da Maternidade.

 

Todo o meu ser, arrebatado por essa imensa tragédia de sacrifícios, de abnegação cristã, de heroísmos incomparáveis, sofria com o estranho ser da Mater toda a amargura infinita do majestoso aparato da Vida prestes a surgir do caos, da chama palpitante, prestes a irromper da treva...

 

Como que outra natureza, uma paixão viva e forte, um carinho maior me inundava, subia vertiginosamente pelo meu ser, me incendiava numa onda flamante de luz virginal, de claridade vibrante, que me trazia ao organismo alvoroçado rejuvenescimentos inauditos, mocidade viril, poderosa, alastrando em seiva fremente de sensações, nervosamente, nervosamente impulsionando o sangue.

 

Às vezes ficava como que num vácuo, só, numa sinistra amplidão vazia de afetos, sob o eletrismo de correntes invisíveis que me prendiam, me arrastavam ao pensamento da Morte, ao auge do dilaceramento, da aflição, do delírio despedaçador da lembrança de vê-la morta, sem estremecimentos de vitalidade; sem que as suas mãos cheias de afago, as suas mãos dementes, bem-aventuradas, misericordiosas, perdoadoras, sagradas, relicariamente sagradas, me acariciassem mais; sem que os seus braços longos, lentos, lânguidos, me acorrentassem de tépidos abraços; sem que o contato dos meus beijos apaixonadamente profundos a acordasse, — fria, insensível, horrível, gelada ao meu clamor de adeus, ao meu grito tenebroso, tremendo, de leão despedaçado, ferido pela flecha envenenada de uma dor onipotente, rojado de bruços, baqueando em soluços sobre a terra maldita e bárbara!

 

De súbito, porém, as lancinantes incertezas, as brumosas noites pesadas de tanta agonia, de tanto pavor de morte, desfaziam-se, desapareciam completamente como os tênues vapores de um letargo...

 

E uma claridade inefável de madrugadas de ouro, alvorecida das aves brancas de um país sideral, apagava em mim a dor fria, exacerbante, desses pensamentos impacientes e torvos; dava-me o vigoroso alento, a grande esperança de que ela sobreviveria, de que ela sentiria, com Orgulho sagrado, nesse primeiro movimento da Maternidade, correr nas veias todo o impulso delicioso e nobre, toda a delicada aptidão ingênita, poderosa, profunda, para amamentar, fazer florir e cantar no hostiário sacrossanto dos seus seios, aquela doce e vicejante existência que na sua atribulada existência se gerara.

 

E toda a antiga e virtual castidade, a adolescência promissora, prenuncial, o mago segredo púbere da sua passada virgindade se transfigurariam na opulência, no fausto de sensibilidade, de nervosidade, da complexa paixão materna.

 

Mas o momento da angústia suprema se aproximava, fazia-se uma pausa religiosa nesse monólogo mental que me agitava em febre, na concentração aflitiva dos meus pensamentos — agora mudos, no reverente silêncio, na ansiedade calada de quem espera...

 

Era chegado o momento, grande, grave e belo momento entre todos, em que a mulher, perdendo a volubilidade, a gracilidade diáfana e o alado encanto de virgem, se transfigura e recebe uma auréola, um sério resplendor de nobre martírio, de simpático consolo, envolve-se numa sombra e num silêncio de piedade e de sacrifício, num Angelus abençoado de amor.

 

Era chegado o momento em que aquelas formas se espiritualizavam, se eterizavam, tomavam asas de sonho, inflamadas por um novo e alto sentimento, tão tocante e tão augusto, que parecia afinado e fecundado nos céus pela graça divina e peregrina dos anjos. É quando a mulher parece desprender-se, libertar-se suave e secretamente da argila que a gerou e criar para si, solenemente, uma esfera perfeita e eleita de abnegação infinita e de resignação sublime. Quando os seus seios magnificentes, nos renascimentos da Beleza, símbolos delicados da maternal Ternura, florescem à vida dos pequenos seres que nascem, numa alvorada carinhosa e tépida de agasalho, amamentando-os com o néctar delicioso do leite.

 

Nessa hora extrema em que parece desprenderem-se da mulher, desatarem-se, evaporarem-se véus translúcidos de virgindade, para surgir, como de um caule misterioso, a meiga e mágica flor da Maternidade.

 

Todo aquele organismo fecundado estremecia, estremecia, nesse inicial e materno estremecimento virgem, vagamente lembrando as fugitivas vibrações nervosas de sonora harpa nova, de ouro puro, original e intacta, pela primeira vez vibrada com excepcional emoção por dedos inviolados e ágeis...

 

E, em pouco, então, como num suntuoso levante de púrpuras, através de gemidos pungentes, de gritos e ânsias delirantes, a cabeça docemente pendida numa contemplativa amargura, os olhos adormentados pelas brumas crepusculares e lacrimosas de um pressentimento vago, magoado e esmaecida toda a suave graça feminina, na extrema convulsão do corpo dela, todo aquele surpreendente fenômeno foi como que acordando, alvorecendo, surgindo das névoas mádidas e sonolentas, letárgicas, de pesadelo... E a flor maravilhosa e rubra da matéria, gerada na imensa dor, abriu, enfim, em prodígios, pomposamente.

 

Numa apoteose de sangue, respirando o sangue impetuoso, abundante, que jorrava em auroras, em primaveras vermelhas de viço germinal, raiara como clarão aceso de Vida, num grito íntimo, latente, do seu tenro organismo elementar ainda — um grito talvez selvagem, um grito talvez bárbaro, um grito talvez absurdo, arremessado para além, ao Desconhecido do mundo em cujos dédalos intrincados esse delicado ser acabara de penetrar agora por entre ensanguentamentos.

 

Parecia que de uma zona fantástica, dessa Índia ouro e verde, opulenta, feérica, como caprichoso tesouro de Lendas e de Baladas, alvorara o Encanto, criara asas e viera, com o pólen radiante da fecundação, insuflar a vertigem, dar o fremente sopro criador à cabeça, aos olhos, à boca, aos braços, ao tronco, a todo o corpo num movimento quebrado, voluptuoso, lânguido, de germens que se concretizam, que se condensam e vão adquirindo aos poucos, com infinitas delicadezas e inefabilidades, todas as formas perfeitas, todas as linha dúcteis, todas as curvas e flexibilidades sensíveis, todas as fugitivas expressões corretas e harmoniosas.

 

Ali estava aquele vivo e eloquente rebento, iluminado pelos idealismos da minh'alma, vivendo dos florescimentos olímpicos, da alacridade cantante, do ruído em festa, da imaculada frescura da minha livre e forte alegria antiga de adolescente.

 

Ali estava, para o meu amor sereno, para o consolo meditativo das minhas grandes horas de anseio, para o recolhimento ascetérico da minha fé estesíaca, a Imagem palpitante, gárrula, trêfega, da Infância já passada.

 

Ali estava agora a vida desabrochante, o encanto alegre, aflorado, ridente — hino viçoso e verde e virgem e evocativo e sugestivo de uma ventura morta, saudade intensa, chamejante, como que espiritualizada no Filho, rememorando, evocando, numa expressão elegíaca, todos esses longínquos, remotos e significativos deslumbramentos, cânticos, miragens, sóis e estrelas da primeira idade tão enternecivelmente assinalada.

 

Era como que a retrospectividade luminosa de um tempo, que subia, em incensos, de um fundo enevoado: terra sagrada e extinta, saudosa e verdejante Palestina que eu entrevia longe, nas brumas vagas da memória, dentre hosanas e sicômoros; — página recordativa que as estrelas e os aromas docemente fecundaram de amor e de sonhos.

 

E eu ficava por muito tempo a olhá-lo, a olhá-lo, a rever-me na frescura cândida daquela carne, a aspirar com avidez o perfume violento daquela flor viva, considerando, meditando sobre todos os seus traços, sobre a expressão curiosa, de pequenina múmia, do seu corpo veludoso, como que embalsamado no óleo virtuoso de preciosas ervas verdes e virgens.

 

Ali estava, enfim, quem me tornava de ora em diante soturno, calado, no êxtase mudo da contemplação, como sob o impressionante poder cabalístico, sob a eloquência vidente de hieróglifos mágicos...

 

E, assim mentalmente considerando, eu sentia o mais reverente, o mais profundo, o mais concentrado respeito, o afeto mais vibrantemente tocante, aureolado de lágrimas, pelo templo majestoso e santo daquele belo ventre, onde enfim se oficiara a primeira Missa de Propagação perpétua.

 

Todas as perfeições espirituais do ser que se liberta da materialidade vil, todos os anseios supremos pelas formas intangíveis das transcendentes sensibilidades, me transfiguravam, contemplando em silêncio aquele ventre precioso e bom, onde tomara corpo, se consolidara em organismo o gérmen quente e intenso da Paixão.

 

Contemplando em silêncio aquele ventre venerando e divino — Vas honorabile! — de onde o sentimento épico e místico das sempiternas Abnegações ondulou como aroma eterno e celeste; ventre gerador e poderoso que se purificara e sagrara triunfalmente com os sacrificantes milagres da Fecundação; Olimpo glorioso que abrira os pórticos fabulosos à dominativa emoção, à fantasia heroica, à graça d'asas seráficas, do Gênio consolador, estoico e elíseo das amparadoras, misericordiosas Mães!

 

Ó Ventre obscuro e carinhoso, soberbo e nobre pela egrégia função de gerar! Ventre de afetivas sublimidades, donde cantou e floresceu à luz a dolente vitória de uma existência, a encarnação soberana, a fugitiva tulipa negra para idealizar singularmente os Infinitos nostálgicos da minha Crença! Ó Ventre amado. Como foram extremamente puros e penetrantes e frementes os beijos de apaixonada volúpia e reverência sacrossanta que eu depus sobre o teu ébano!

 

Em torno, no ambiente carregado da intensidade de toda essa maravilhosa sensação, errava o segredo ritmal de Litanias, de preces que Visões rezavam baixo, por Céus inefáveis, num abrir e fechar d'asas arcangélicas, d'asas límpidas, d'asas e asas rumorejantes, aflantes, cujo suave e ciciante ruído eu na Imaginação escutava enlevado...

 

E a doce Mater, mais calma, numa unção de bem-aventurança, numa auréola deifica, serenada já da dor profunda da Maternidade, parecia penetrada de um sentimento celeste, de fluídos virtuais do grande Amor, de resignada piedade, — água lustral, da maternal paixão, que a lavava do mal do torturante pecado, purificando a sua alma simples, iluminando-a toda com o altivo esplendor de uma força heroica.

 

Lembrava uma dessas excelsas Divindades espirituais, a Entidade das Abstrações dos reclusos místicos, Aparição imortal, cuja face, no resplendor translúcido daquele sofrimento regenerante, tinha para mim o encanto mais alto, a ternura mais bela, a abnegação mais serena.

 

Sentia-me diante de completa Religião nova que evangelizava a Crença naquela Mãe e naquele Filho, — inteira Religião nova, cujos rituais e cultos eternos eram para mim agora esses dois seres extremadamente amados, cujo sangue irradiava no meu sangue, cuja vida penetrava na minha vida, inoculando-a de um júbilo e de uma graça profética — graça de Anjos e Astros em claridades, músicas e cânticos, por fios sutis de múltiplas cordas d'harpas, d'harpas e harpas, dentre os Azuis e as Constelações...

 

Ao mesmo tempo sentia então que profundos e penetrantes frêmitos me abalavam, me convulsionavam todo, como se se operassem no meu organismo transformações recônditas, gerando uma outra alma, trazendo-me sede insaciável da Vida, o ressurgimento de estesia particular e rara.

 

Força estranha, que eu até aí não conhecia, circulava com veemência nos meus nervos, dava-lhes tensibilidade e vibratilidade mais leve, mais fina; e, grandes asas diáfanas de Aspiração e Sonho, alavam-me às supremas serenidades da Piedade e do Amor.

 

O desejo que me clamava dentro do peito, em claras trompas guerreiras, numa onda sonora e impetuosa, era o de ir além, fora, longe do tédio das cidades murmurejantes, longe das curiosidades indiscretas, dos indiferentes e frívolos, das sentimentalidades aparatosas, dos enternecimentos calculados, decorativos e clássicos, das expansões d'estilo, ornamentais como corpos em tatuagem, de tudo o que grulha e reina na boçalidade majestática da espécie humana.

 

O meu desejo indômito era de ir além, fora das brutas portas de pedra da Região dos Egoísmos, gritar, gritar, clamar, livremente, à natureza virgem, aos campos, às florestas, aos mares, às ululantes tempestades, aos sóis em febre, às noites triunfais, coroadas d'estrelas, aos ventos coroados de pesadelos, que esse Filho extravagantemente amado nascera, que surgira enfim do mistério sonâmbulo da Maternidade...

 

A ansiedade que me agitava, levantando dentro de mim o desconhecido, convulsionando este organismo num incêndio de sensação, era de deprecar ao Indefinido das Cousas, ao Abstrato das Formas, ao Intangível do Espírito, à Eloquência dos Presságios, para que me dissessem o que ia ser desse frágil obscuro, dessa tímida flor da Desgraça, o que ia ser daqueles membros tenros, débeis; que estupendos augúrios dormiriam no brilho fugitivo daqueles olhos inconscientes, perdidos no vago de um fluido sentimento, sob o fundo fatal das impurezas da Carne, das inquietações do Pecado — germens latentes ainda, apesar do desdobramento milenário das eras, da absoluta e primitiva Culpa humana.

 

Ansiava que me dissessem que mágicos filtros de gnomos da Noite o predestinariam; que frêmitos de desejo convulsionariam essa boca ainda tão impoluta, sã, ainda sem laivos visguentos; que luxúria intensa e nova inflamaria, acenderia centelhas nessa boca úmida, fresca, viçosa, apenas entreaberta já num indefinido anelo, sedenta, inquieta, impaciente, ávida já da instintiva volúpia do leite...

 

Todo o evocativo estremecimento das saudades, das esperanças, das alegrias, das lágrimas, me invadia a alma num sonho esquisito, exótico, oriental, por entre os nardos quentes, perturbadores e magnéticos, da Abissínia e da Arábia Ideal de todos os meus pensamentos fugidios, circulando, girando, torvelinhando, como silfos procriadores, em torno àquela meiga e venerada cabeça.

 

Eu ficava absorto, contemplativo ante as sugestões delicadas que o supremo fenômeno trazia, nessa manifestação singular de curiosidades de preciosas revelações ingênitas e caprichos ignotos da Natureza, sentindo que o Filho poderosamente me fascinava, que a mais irresistível atração me chamava para ele, atração vital, imediata, eterna, do sangue comunicativo e fraterno que clama pelo sangue fraterno.

 

Ela, afetiva Sacrificada, Mater, dolorosamente aí ficaria na terra, gravitando nos centros nervosos da Vida, — Sombra divina e errante! —para o futuro, para a obscuridade, para a velhice, para o silêncio e esquecimento dos tempos...

 

Ele, Filho, surgindo das nebulosidades da Matéria, caminhando, caminhando a Via-Sacra das horas e dos dias pelas ermas e infinitas encruzilhadas dos Destinos, iria então, resignado ou desesperado, para o Vilipêndio ou para as medíocres conquistas do Mundo, através dos conclamadores Anátemas, através dos lancinamentos inconcebíveis, através das taciturnidades melancólicas, através de tudo, tudo, tudo o que chora d'alto, profunda e apocalipticamente, o Réquiem solene, a soberana majestade, tremenda, trágica, da imponderável Dor!...

  

 

 

Capro

 

 

Dentro daquele organismo em seiva fumente de novilho espojando-se na amplidão dos campos relvosos, trinavam, cantavam pássaros, vibravam fanfarras marciais.

 

Temperamento de guerra, ostentoso como um carro de triunfo, outrora, nas hostes helênicas, era a volúpia que lhe ritmava as ideias, que lhe dava diapasão ao entendimento.

 

Virginal, como a alva constelação dos astros, a sua Arte abria-se numa florescência vigorosa, dimanando o aroma natural, puro, criador e intenso, de terras lavradas e germinais, revolvidas de fresco, a doçura verde das tenras e viçosas folhagens, entre as quais brilha ao sol a loura abundância sazonada dos frutos.

 

A sua natureza deveria ser estudada sem roupagens, sem atavios, livremente, a golpes crus e acres, a tons violentos e rubros, profundos e flagrantes, na plenitude de toda a extravagância e de toda a idiossincrasia que o singularizava.

 

A afloração da sua força psíquica fazia lembrar uma fantástica floresta vermelha por efeito de um incêndio colossal: — largas e longas manchas de sangue alastrando tudo, clarinando tudo de gritos, de brados, de púrpuras de indignação, de ódios artísticos, de despeitos, de tédios mortais, de spleens enevoados.

 

A cor, a luz, o perfume, para a sua esquisita e caprichosa sensibilidade, sangravam, vertiam sangue sinistro de dolorosa volúpia; e, todos os aspectos, todas as perspectivas, pareciam-lhe à retina requintada e misteriosa outras tantas manchas de sangue, que a sua estesia doente mais vivas, mais flagrantes via por toda a parte.

 

E nessa tendência espiritual orgânica para os efeitos sangrentos, preferia à clorose das magnólias e lírios brancos a rubente coloração das rosas e cravos bizarros.

 

Superexcitado pelas nevroses ardentes do Pensamento, desde as liturgias simbólicas de Verlaine até aos satanismos de Huysmans, exigindo as linhas em alto requinte da Arte, toda a sua estética se manifestava então por uma corrente impetuosa de luxúria, de caprismo, de lubricidade pagã de sátiro, de fauno mítico, estirado ao sol, como certos animais no período da incubação, gozando, sibaritamente, a morna carícia do eterno clarão fecundante.

 

Diante da retina coruscavam-lhe deslumbramentos de ideias, com claras, cantantes cores.

 

Feriam-lhe agudamente a retina, impressionando-a, hipnotizando aquela idiossincrasia fatal, o ensanguentamento dos ocasos, os vermelhos clarinantes dos clarões de fogo, os rubros candentes, inflamados, das forjas, os escarlates violentos das púrpuras, os álacres rubis de certas tropicais florações e folhagens, os rubores quentes de certos sumarentos e selvagens frutos, a sulferina coloração delicada de vinhos tépidos, todos os rubros majestosos, potentes, embriagantes, toda a clamante alucinação dos vermelhos crepitando em sensações de chama, todas as atroantes fanfarras e gamas infinitas e finíssimas das cores como que aperitivas, palatais, genealógicas do Sangue.

 

Os livros carnalíssimos, que porejam luxúria, acendiam-lhe, mais flamejantes, os instintos sensuais; e ficava então puro maometano, revestido em sedas e pedrarias prodigiosas de gozo, nesse lasso luxo oriental em que a Ásia se perpetua como o lânguido sol decadente das exóticas sensualidades.

 

Nos seus nervos, nas suas veias circulavam flamas geradoras dessa Originalidade trucidante que naturezas febris ansiosamente procuram, como buscariam o recôndito veio profundo da água nas camadas mais obscuras da terra.

 

Olfato delicado, claro, que tudo sentia, que tudo respirava, ainda por extremo requinte de volúpia, era extraordinária, maravilhosa a sensibilidade aguda da sua membrana pituitária, fariscando ativamente, em cios.

 

Mas, os cheiros mais prediletos, mais sugestivos para ele, que lhe penetravam e cocegavam mais a mucosa nasal, numa atuação de esfregamento, como que no atrito agradável provocado na pele para a cessação de irritante prurigem, eram os cheiros acres de matérias resinosas, as emanações de folhas silvestres machucadas, a exalação úbere dos estábulos, o aroma estonteador e verde das maresias, o odor do sedimento de certos líquidos, o fartum que diversos animais segregam, o hircismo quente dos bodes, o estimulante de fermentação da cevada nas cervejarias, o sumo travoroso e ativo dos limões verdoengos, quase que tocados de um sentido penetrante, claro, inteligente e todos os amargos sabores das frutas ácidas e cálidas que como que lhe feriam, abriam numa chaga, em apetites aguçados e picantes, o grosso lábio enervado pela volúpia letárgica.

 

E como ele se empurpurasse, se enlabaredasse no esplendor triunfal da Arte, esses odores todos o penetravam, o fascinavam, alertando-o, transfigurando-o para a Escrita, para a Forma.

 

Era como se saísse de andar em volta de vasta coivara a arder e viesse dela aquecido, com o sangue esporeado, as veias latejando em febre, numa sensação intensa de produtividade.

 

Mas, uma vez caído em frente ao papel branco, que tinha de receber o exuberante pólen do seu espírito, todos esses ímpetos, esses fervores esmoreciam, o calor dessa temperatura artística baixava logo e ei-lo então novamente vencido, numa espécie de coma, no adormecimento que lhe tolhia sempre o próprio esforço da vontade.

 

E, súbito, naquela espiritual ansiedade de natureza impotente, como que a dolorosa e enervante crise olfativa continuava, mais violenta, dava-se o mesmo fenomenal período de volúpia capra, nervosa, mental, no qual o sentimento pituitário dominava, impunha-se, avassalava as outras funções de modo verdadeiramente estranho.

 

E o seu olfato desejava, ansiava sentir o talho sangrento nos açougues, as carnes rasgadas nos anfiteatros anatômicos, as feridas abertas nos hospitais de sangue, dentre os aços frios e cortantes dos instrumentos, como indiferentes, desdenhosos aparelhos, rindo, em rijas cutiladas sonoras, cantando o hino dos metais fulgentes ante as torturas humanas da matéria dilacerada.

 

No entanto, outrora, esse lascivo, natureza dispersa, sem unidade de conjunto, produzira já algumas belas páginas cantantes, estilos com flamejamentos de espadas, vibrações candentes de bigorna, cintilantes como os polidos, espelhados broquéis antigos.

 

Fora isso na adolescência, quando a sua natureza não se achava absorvida pela pestilência do meio ou mesmo quase constituindo, como agora, as próprias células dele. Eram primícias, prodigalidades do seu cérebro ainda não sazonado completamente; a abundância espontânea, mas não produzida por seleção, de um temperamento fecundo, farto de idealização e de força, mas sem a intensidade essencial que nasce da condensação e da síntese. Aquelas páginas eram verdadeiros viços, opulências de rebentos, florescências inéditas e castas que lhe brotavam do ser com o mesmo ímpeto de germinação dos vegetais rasgando a terra.

 

Mas, desde que o seu temperamento chegara ao mais cabal desenvolvimento, que atingira à Elevação, subindo a extremos requintes, ele sentira essas páginas descoloridas, ocas, vazias, sem mergulharem no mar convulsivo, vulcânico da sua Imaginação, sem dizerem, sem falarem, sem reproduzirem todo o sol e toda a treva da sua recôndita Nevrose.

 

Armado de coruscante cota de malha de espírito, tecida de diamantes, ele agora quereria para a Estética um majestoso damasco de Inauditismo, a psicologia imprevista que os organismos virgens e novos provocam na sua evolução lenta e curiosa.

 

Impotente, no entanto, para revelar, sob uma forma gráfica, os segredos espirituais que o dominavam, incapaz de concentração, de isolamento para agrupar e dar corpo às visões que ondulavam em torno do seu centro ardente de ação mental, o polo das emoções do Capro, talvez por um doentio e instintivo despeito dessa Impotência, era a sensualidade, e era gozar, através das puras manifestações da Carne, sem a dolorosa expressão escrita, a volúpia secreta de um anseio transcendental, de um Ideal rebuscado e uno, olfatando tudo, tocando mentalmente tudo, para ver se encontraria nas cousas o odor do Desconhecido, a essência singular, a emanação casta e original que tanto o inquietava e atraía.

 

A ideia da Morte, com os seus terrores ocultos, obscuros e surdos, imponderados, com os seus enregelamentos supremos, lançava-lhe sempre à espinha um frio de angústia, soprava-lhe no cérebro tredo tufão tenebroso, esmagando-o e deleitando-o ao mesmo tempo, num deleite luxurioso e fatal, que o envenenava como de ódio terrível, sanguinolento.

 

Vinha de um fundo misterioso, de recônditas raízes de sofrimento, de ânsias e desesperos concentrados, esse vendaval ululante de sensações imprevistas que o abalavam até ao íntimo do seu ser, perante a ideia vulcanizadora da Morte, da lívida, da rígida, da impenetrável Morte...

 

Era o estremecimento latente, lancinante, de um terror absurdo, que o esmagava, que o dilacerava, como se já andasse de rastros, agrilhoada às sombras e à gelidez tumulares, toda a sua convulsa existência de extasiado olímpico, de absorto egrégio nas luminosas volúpias da Arte.

 

E quando lhe soava nos nervos a hora alta da febre da grande alucinação para a perpetuidade do nome no espírito das Gerações que surgissem; quando se surpreendia absorto, na contemplatividade muda desse inquietante e vago Aspirar que fecunda as almas anelantes de Indefinível; nesses impressionativos momentos em que ele, transfigurado, empalidecia, os que mais e melhor sentiam todos os íntimos segredos, todos os voluptuosos encantos da sua mentalidade, lhe perguntavam pela obra que deixaria, lhe diziam:

 

— Então! nada tens feito que revele a tua estesia, que determine as tuas sensações, a tua sensibilidade extrema. Vives preguiçando, dormindo lassos, longos sonos de luxúria... Olha que a morte aí vêm, aí vêm já, irremovível e oblíqua, sôfrega, sequiosa da tua carne e te vai surpreender inútil, mudo, sem nada dizeres ao mundo, cérebro budicamente indiferente, boca fechada numa contração torturante de impotência doentia rodando na mesma poeira vertiginosa, no mesmo torvo e banal rodomoinho dos homens e das cousas, sem nunca revelares todo esse estranho Infinito que trazes na alma.

 

Sentes o mundo vão, estreito, de dolorosa dureza e no entanto não queres ou não sabes fugir dele pela única larga porta estrelada que se te oferece ao teu espírito, esse vasto campo ideal onde livremente colhes a cada passo tanta admirável flor de pensamento! Olha a morte, olha a morte!... Aí vêm ela, irremovível e oblíqua... Olha o tempo, olha as horas fatais que te caem na cabeça, negras e surdas, fulminando-te, com a inevitabilidade inquisitorial do lento suplício do pingo d'água.

 

Ele ficava, ante estas abaladoras palavras, em sobressaltos assustadores, aterrado, azoinado e vencido, quase cambaleando, como um homem que leva de repente em cheio uma forte pedrada em pleno peito.

 

Abria-se então na alma inquieta do Capro um rasgão de mar e estrelas, dava-se no seu temperamento fugitivo um tocsin de alarma, um bimbalhar de carrilhões ruidosos, um estrugir de músicas marciais em marcha, clarões que rompiam névoas de vacilação, de timidez psíquica, um flavo e transfigurado acordar de alvoradas, todo um sol de alvoroço e triunfo que o iluminava, impelindo-o ao trabalho tenazmente, insistentemente, mergulhando-o na chama das concepções, dos estilos virgens, das formas não sonhadas ainda — órbitas estreladas e azuis onde a sua astral natureza com tanta ansiedade girava.

 

Mas desde que essas transfigurações o impulsionavam ao trabalho, desde que ele procurava traduzir, por formas caprichosamente sensacionais e singulares, as impressões que o abalavam, que viviam nele vida curiosa e intensa, todo esse poderoso esforço tornava-se vão, o pulso, de repente, gelava-se-lhe, a mão não agia com eficácia, e os pensamentos, confusos, embaralhados, emaranhados, num tropel, fugiam, recuavam como paisagens encantadas, feéricas, como ondulantes zonas de luz que desaparecessem da retina deslumbrada de um opiado visionário.

 

Um vácuo tenebroso, um vazio sepulcral, horrível fazia-se logo no seu cérebro, como se uma onda pestífera, violenta e glacial, lhe varresse os pensamentos desoladoramente.

 

Ficava então sufocado, em ânsias, respirando mal: parece que lhe faltava ar, sol, céu. Erguia-se da mesa do trabalho, inquieto, lívido; sentava-se de novo; erguia-se outra vez; saía, corria, desorientado, desesperado, a vagar nalgum cais, onde o mar parecia estar de grandes braços abertos para recebê-lo, para dar-lhe generosamente toda a seiva dos seus abismos glaucos; ou então buscava com ansiedade a paz bucólica de algum campo próximo, respirando assim com avidez e consolo o hálito virgem, as sadias emanações fortalecestes da vegetação e das ondas salgadas, como se procurasse haurir nelas todo o poder secreto que não possuía, toda a força de concentração, de generalização e de síntese que no momento fatal da Concepção tão capciosa se lhe mostrava e tão impiedosamente lhe fugia.

 

Era como se ele fosse um condenado a quem estivessem para sempre interditas as portas livres e luminosas da salvação. Natureza que a intemperante sensualidade, já pela sua expressão alcoólica, já pela sua expressão carnal, já pela sua expressão de preguiça inerte e até mesmo, por fim, de gula, ia aos poucos devorando funestamente. Dir-se-ia que procurava nos inebriamentos, vertigens, delírios e perturbações da Carne como que o veículo mais pronto, mais fácil, embora inferior, para nele fazer mover e canalizar alucinadamente a Sensação que trazia.

 

As qualidades que lhe tinham de vir unas, homogêneas, condensadas para o espírito, dispersavam-se na sensualidade, transformavam-se em instintos puramente sensuais, como que para mais e melhor justificar, agravando, a sua impotência conceptiva.

 

Nas claras e fundas horas abstratas de julgamento próprio que cada um tem no seu Intimo, seja o mais puro ou o mais perverso dos homens, o mais superior ou inferior, ele reconhecia toda a sua Impotência, via-se flagrante no espelho cruel e nu do seu Nada.

 

Assim como há certos intelectuais que na superioridade dos grandes meios ficam radicalmente esmagados, enquanto outros ganham o mais extraordinário esplendor e vigor, como que absorvem o céu e a terra, os continentes, são infinitos que se desdobram no Infinito; há também, especialmente nas regiões da Arte, seres que trazendo consigo a alta responsabilidade do Espírito, pelo verbo falado, não a podem registrar, entretanto, pelo verbo escrito.

 

Como que se dá com eles o mesmo fenômeno curioso e aflitivo de um cego que sente tactilmente as cousas, mas que não as pode ver; de um mudo, que possui o órgão vocal, mas que não pode falar...

 

Nesses momentos acerbos de irrequietabilidade mórbida, doentia, quando lhe fugiam todos os raios de unidade amorável e harmoniosa do seu ser e que alguém lhe surpreendia o flagrante do sentimento, o íntimo do íntimo da alma, certas negruras venenosas, o Capro perdia-se na floresta de brumas, afundava-se nos atoleiros lúbricos do álcool, como numa capciosa desculpa de vício, de miséria e de tristeza, para que não lhe sentissem os gritos surdos e o ranger de dentes daquela Impotência.

 

Parece que se dava nele um transbordamento esquisito de natureza, uma anomalia da visão e da imaginação, de modo a não se poderem ligar entre si os fios sutis e harmônicos do entendimento e do sentimento, a não terem correspondência direta e rítmica as correntes psíquicas do seu cérebro e da su'alma. Parece que falta a esses seres mais um grão de visão para abrangerem o complexo todo psíquico ou que algumas das suas células não têm a intensidade una, a energia pronta, a espontaneidade essencial e igual para manifestar por completo as sensações que experimentam...

 

E o Capro perdia-se, mergulhava no centro devorador do seu nirvana de impotência; sucumbia sob as garras ferozes e os despedaçadores tentáculos do seu Irremediável!

 

Ah! era o eterno, o tremendo e incognoscível sofrer da dor das Ideias, implacavelmente, no tormento profundo das mais acerbas agonias.

 

Mas essa insaciabilidade, essa aguda inquietação indomável, tensibilizando-lhe cada vez mais os nervos, requintando-lhe os sentidos, galvazinando-lhe o rosto num espasmo lívido, ia no entanto cavando d'enxadadas brutais e inevitáveis a sua própria cova.

 

Toda a desarmonia geral, todo o desequilíbrio do seu esforço ingênito de mentalizado, toda a ação desvirtualizada dos seus pensamentos, que era já o desmoronamento final provocado pela hipertrofia, ou anulação de uma função do seu cérebro, todo o desmembramento intelectual do Capro, resultante do seu subjetivismo facilmente transbordante, sem centros de intensidade, de condensação, tudo isso apressava já os seus passos impacientes, ávidos nas batidas da Vida, para a sepultura, dando-lhe à fisionomia gasta e dolente um lúgubre macabrismo de esqueleto...

 

E, quando afinal o vi na Morte, pairando-lhe na face fria o êxtase ignoto da indefinida, incoercível visão do Sonho, não sei por que vaga sugestão daquela improdutiva concupiscência psíquica, daquele lascivo e psicológico sentir e pensar desordenado, os seus pés, hirtos, enregelados no féretro, pareciam ter também, sinistra e ironicamente, estranha evidência capra, como se toda aquela espiritualidade que transbordara em luxúria, como se todo aquele vão e dilacerado esforço houvesse, por agudos fenômenos de sensibilidade nervosa, por cristalização de angústias lancinantes, desesperadas, supremas, transformado fantástica e exoticamente o seu ser naquela expressão animal reveladora do seu espírito, por um espectral e derradeiro desdém da Natureza...

 

 

 

A noite

 

 

Ó doce abismo estrelado, nirvana sonâmbulo, taça negra de aromas quentes, onde eu bebo o elixir do esquecimento e do sonho! Como eu amo todas as tuas majestades, todas as tuas estrelas, todos os teus ventos, todas as tuas tempestades, todas as tuas formas e forças! Como eu sinto os perfumes que vêm das grandes rosas místicas dos teus maios; os eflúvios vibrantes, cândidos e finos dos teus junhos; o grasnar dos teus abutres e o claro bater das asas dos teus anjos! Como eu aspiro sedento todos esses cheiros salgados do mar dominador, essa vida aromai das folhagens, das selvas reverdecidas com os teus orvalhos revigoradores, com a tua esquiva castidade misteriosa!

 

Ah! como eu te amo, Noite! Como a tua eloquência muda me fala, me impressiona e me chama, Aparição seráfica, fabulosa irmã do Caos e das Legendas!

 

O peito cheio de vibrações ansiosas, a alma em cânticos de amor, os olhos iluminados por esplendores secretos, como é maravilhoso vagar no solene tabernáculo dos teus silêncios, no in pace do teu Sonho!

 

Como faz bem e tonifica mergulhar profundamente a cabeça nos teus mistérios que deslumbram, adormecer com eles, deixar que a alma se embale neles, vaguear pelo Infinito, tendo todos esses mistérios imaculados como o vasto manto consolador da Piedade e do Descanso!

 

A tua docilidade e frescura, o teu carinho, os teus afagos, a tua música selvagem, as tuas solenidades augustas, o teu antediluviano encanto bíblico, as monstruosas risadas mefistofélicas dos teus fantasmas tenebrosos são como seres singulares, verdadeiros irmãos da minh'alma.

 

Mordido de nervosidade aguda, perdido no teu solitário regaço maternal, ó estranha Noite, eu sinto que o cavalo de asas da minha consciência galopa, voa longe, livre, sumindo-se na infinita poeira de ouro dos astros; que os movimentos dos meus braços ficam também livres, para abraçar as Quimeras; que os meus olhos, alegremente felizes, se libertam do carnívoro animal humano, para só fitarem sombras; que a minha boca aspira o Vácuo estrelado, para saciar-se dele, para beber todo o seu luminoso vinho noturno; que os meus pés erram melhor, oscilantes e vagos embora na embriaguez e na cegueira da treva, para melhor se desiludirem de que se arrastam na terra; que as minhas mãos se estendem e se movem largamente, como asas de espontâneo voo bizarro, para dizerem triunfante adeus por algumas horas às terríveis contingências da Vida!

 

Perdido nas solidões da tua treva vibram-me as tuas harpas, seduzem-me os teus êxtases, arrebatam-me os teus misticismos.

 

Com os olhos radiantemente abertos, como se fossem duas curiosas flores de raios celestes, eu noctambulo em silêncio, na concentração de um missionário contemplativo vagando num imenso templo deserto e cheio de sagradas sombras...

 

Em cima, sobre a cabeça, sinto cantar-me, doce e terna, a fina luz das meigas estrelas, e essa luz arde, chameja melancolicamente como uma alma que aspira...

 

Dentro de mim uma sensibilidade incomparável vibra e vive como essas estrelas delicadas e meigas.

 

Todos os quebrantos da noite fascinam-me, enlevam-me e eu me surpreendo arrebatado por uma transfiguração que não sei de onde parte, que não sei de onde vem, mas que me enche a alma como de uma crença maior, como de um revigoramento de marés picantes, como de um largo e belo sopro natal de revivescências juvenis!

 

E quando levanto acaso religiosamente os meus olhos, no meio da candidez da solidão noturna, para o azulado e magoado estrelejamento do céu e vejo o céu suntuoso e mudo com os seus astros, os meus olhos, felizes e gloriosos por te olharem, Noite, exilam-se cada vez mais na tua mudez, vivem cada vez mais do teu deslumbramento e do teu gozo, inteiramente órfãos de todas as outras perspectivas, como dois príncipes hamléticos exilados para sempre numa sombria, mas inefavelmente amorável região de luto.

 

Quando um pesadelo sinistro cavalga o meu dorso, me oprime o peito e os rins, tira-me a respiração — pesadelo gerado do Nada que nos envolve a todos — a tua fascinação astral é para mim um alívio supremo, a tua liberdade ampla é para mim larga emanação vital.

 

As tuas sutilezas me acordam, os teus stradivarius me espiritualizam, os teus preciosos ritmos me afinam...

 

Ó Noite! inimiga irreconciliável dos que não te sabem engrinaldar com os lírios das suas saudades, encher com os seus soluços, estrelar com as suas lágrimas! Hóstia negra dos Sonhos brancos que eu eternamente comungo! Tu que és misericordiosa e que és boa, que és o Perdão estrelado suspenso sobre as nossas desgraçadas cabeças, tu que és o seio espiritual dos miseráveis seres, embalsama-me com os teus ósculos perfumados, com o eflúvio da infância primitiva dos teus idílios, abençoa-me com o teu Isolamento, cobre-me com os longos mantos de veludo e pedrarias das tuas volúpias, purifica-me com a graça dos teus Sacramentos.

 

Fantasista do soturno, do galvânico, do lívido; Colorista do shakespeareano e do dantesco; Mater dos meios tons e das meias sombras, das silhouettes e das nuances; trombeta de Josafá, que fazes caminhar todos os espectros, ressuscitar todos os mortos, máscara irônica de todas as chagas; confessionário de todos os pecados; liberdade de todos os cativos: como eu recordo a galeria subterrânea dos teus mórbidos bêbados, dos teus ladrões cavilosos, das tuas lassas meretrizes, dos teus cegos sublimes e formidáveis, dos teus morféticos obumbrados e monstruosos, dos teus mendigos teratológicos, de aspecto feroz e perigoso de tigres e ursos enjaulados, acorrentados na sua miséria, dos teus errantes e desolados Cains sem esperança e sem perdão, toda a negra boêmia cruel e tormentosa, ultra-romântica e ultratrágica, dos vadios, dos doentes, dos degenerados, dos viciosos e dos vencidos!

 

E a peregrina boêmia dos teus cães uivantes e contemplativos no amoroso espasmo do luar, dos teus gatos sonhadores, exilados e raros estetas felinos deslizando sutis pelos muros, histéricos da lua, os olhos fosforescentes como a luz de estranhos santelmos!

 

Noite que abres teus circos funambulescos, cheios de palhaços rubicundos, tatuados de mil cores, de acrobatas de formas e movimentos alígeros e elásticos como serpentes; que expões todo o arco-íris inflamado dos teus bazares, a vertigem de zumbir de abelhas dos teus fagulhantes cafés-cantantes, o olho ignívomo e solitário dos faróis no mar alto e toda essa ondulação de aspectos e sonhos fugitivos, essa nebulosa do rumor e da emoção, que é o teu véu de noiva, que é o teu manto real!

 

Tu apagas a mancha sangrenta da minha vida, fazes adormecer as minhas ânsias, és a boca que sopras a chama do meu desespero, és a escada de astros que me conduzes à minha torre de sonho, és a lâmpada que desces aos carcavões da minh'alma e fazes desencantar, caminhar e falar os meus Segredos...

 

Tens uma expressão milenária de Epopeias, um curioso e extravagante sentimento druídico, e como que toda melancolia arcaica da Decadência latina.

 

No fundo velho e pitoresco do teu Oriente, ó Noite, meu caprichoso e exótico Crisântemo; nos longes dos teus grandes e famosos Frescos ondulam em curvas lascivas e donairosas as românticas e visionárias virgens, os pálidos poetas meditativos, os ascetas lívidos que velam à claridade magoada dos círios, os fascinantes e capciosos Fra Diavolos, os galhardos, zumbentes e coruscantes carnavais de Veneza da tua prodigiosa Fantasia e as quermesses louras e cor-de-rosa dos querubins da Infância, que dormem sonhando, lírios de comovida ternura, meigamente seduzidos e embriagados no delicado e casto regaço do mistério dos sexos.

 

Ó bendita Noite! dá-me a morte na irradiação dos teus raios, para que eu rompa o selo cabalístico dos teus segredos; dá-me a morte na cristalização dos teus astros, nas auréolas das tuas nuvens, no pesado luxo das tuas constelações, no vaporoso de tuas visões de lagos, na solenidade bíblica das tuas montanhas enevoadas, nas cerradas cegueiras apocalípticas das tuas maravilhosas florestas virgens, quando lentas luas langues florescerem nos céus como grandes beijos congelados de brancas noivas gigantes encantadas e mortas...

 

 

 

 

Melancolia

 

 

Falo ainda e sempre a ti, branco Lusbel das espirituais clarividências! A ti, cuja ironia é ferro e é fogo! Cuja eloquência grave e vasta faz lembrar, como a de Bossuet, longas alamedas de verdes e frondejantes, altos plátanos chorosos. A ti, que amargurado deploras toda esta decadência dos seres; a ti, que te voltas desolado e saudoso para os tempos augustos que se foram, quando a Honra vã de hoje, era, como um poderoso e altivo brasão de águias negras atravessado de uma espada no centro!

 

Sim! branco Lusbel, nós caminhamos para o irreparável empedernimento; desde o solo até aos astros, homens e cousas, tudo vai quedar de pedra. Será um sono universal de uma universal esfinge. Tudo, na pedra, dormirá um sono de pedra. A pedra respirará pedra. A pedra sentirá pedra. A pedra almejará pedra. E esta tremenda aspiração de pedra profundamente simbolizará os sentimentos de pedra dos homens de hoje. E, então, branco e iluminado Lusbel, mais claro do que nunca, verás que os olhos dos homens só luzem diante do dinheiro! Que pelo Amor nenhum se sente com ânimo de brandir um facho, de agitar um gládio ou desfraldar uma bandeira! Que pelo Sacrifício nenhum se arrojará nos Nirvanas transcendentes, porque dói muito abandonar o Conforto! Que pela Abnegação nenhum se colocará na vanguarda, porque custa muito aniquilar o Interesse.

 

Bem sei que tu, ainda com uns restos de clemência, não sei se diabólica, não sei se divina, acharás paradoxal esta intuitiva profecia; mas, para te fazer apagar de uma vez as últimas claridades de crença inexperiente que ainda conservas na alma, vou ministrar-te um rápido e curioso exemplo —síntese preciosa de que o Sentimento está metalizado em ouro, de que a alma anda em cheques universais, no câmbio feroz do egoísmo humano:

 

— Meu filho, ouvi perguntar um dia a uma criança de sete para oito anos que chegara desse rude e corrupto mundo europeu a tentar fortuna nestas novas terras azuis, — meu filho, você, com certeza, deixou lá fora família, sua mãe, seu pai, não?!

 

— Deixei, respondeu ele.

 

— E não tem vontade de voltar, não tem saudade deles?

 

— Eu! saudades, replicou a inocente criança de sete para oito anos; eu não vim cá para ter saudades, vim para ganhar dinheiro!

 

Aí tens tu, branco e iluminado Lusbel, a boca dessa esquisita criança, na qual deveria desabrochar a flor tépida de um afeto cândido, instintivamente gangrenada já por tamanhas abjeções de palavras duras!

 

Nesse ingênuo bandidozinho aí tens tu a imagem simbólica, a mais que exata medida da alma humana universal que tu desoladamente observas com tão desesperada melancolia, cuja psicologia secreta tu penetras tanto nos requintes de toda a tua inquieta Indignação!

 

 

 

Condenado à morte

 

Soyez victorieux de la terre,

 

Balzac, Serafita

 

 

Desde que ele, o doloroso Estético, penetrou naquele Noviciado divino, que se sentiu para sempre condenado à Morte!...

 

Bem o pressentiu logo, bem o compreendeu, assim que em torno à sua cabeça melancólica e triunfante um clangor de guerra ecoou, vitoriando-o, e cem mil estandartes gloriosos dos falangiários do Ideal se desfraldaram e abateram ante seus pés, numa solene homenagem de conquista.

 

A Vida terrena do Tangível que flamejasse lá fora, nos turbilhões cruentos dos dias, no dilaceramento das horas; os homens que se atropelassem e gemessem e rojassem sob a mole formidanda das paixões; o gozo, a ebriedade do gozo, o prazer picante e álacre, fútil, leve, fácil, que cantasse sobre a terra, que agitasse todos os seus guizos jogralescos, rufasse todos os seus tambores festivos, fizesse ressoar todos os seus clarins ovantes...

 

Ele, o Estético doloroso, não! Dentro desse Noviciado divino estaria perpetuamente condenado à Morte — visão, fantasma, sombra do Imponderável, arrebatado não sei por que estranho Mistério, não sei por que esquisita impressão abstrata, não sei por que fluido maravilhoso, para a Morte, antes mesmo da consumação da matéria, por condenar as vãs alegrias que arrastam tantas almas, as venturas banais que fascinam e embriagam tão loucamente os homens.

 

Outros que se alassem às correrias preciosas da Mocidade, às opulências, ao fausto, ao esplendor das pompas exteriores, ao estridente rumor das festas, perdidos pelas estradas intermináveis, longínquas, ermas, dos Destinos desencontrados.

 

Ele, o Estético doloroso, não! Naquela intuição tocante de Iluminado, ficaria no Desconhecido, para a consagração do Espírito, olhando, numa indizível tristeza de mar noturno, as gerações que se aglomeram e mutuamente devoram nos pórticos desolados do Universo, pela batalha bárbara do Existir...

 

Ele estivera já em contactos com o Mundo, sentindo-o, respirando o mesmo ar, chocando-se com os sentimentos mais abstrusos e soturnos, com as paixões mais vorazes, com os corações mais gelados, roídos pelo cancro alastrante de um tédio doentio, de um nirvanísmo agudo, de um nihil eslavo...

 

Sentira todas essas psicoses sangrentas, todas essas manifestações exóticas de unia espécie de absurda teratologia mental; todas essas complexidades d'alma de um fundo caótico, esmagador, aniquilante, de onde a Fé fugiu desolando e enrijecendo tudo, ficando apenas o granito de umas naturezas hirtas, impassíveis, estratificadas no egoísmo e na indiferença das cousas, vendo a perfeição, a beleza serena das abstrações ideais, das formas onipotentes e singulares, com os vesgos olhos da lascívia, da impotência ou da inveja reptilosa e lesmenta.

 

Ele viu atritarem-se convulsamente os leprosos, os aleijados, os epilépticos, os morféticos, os tísicos, os cegos, enroscados todos na sua negra mortalha de suicidas, cambaleantes, ébrios de dor, de desespero, na agonia da carne que se dilacera, que se rasga, que se despedaça — enquanto o soberbo sol, dos Altos, como um pagão, bizarro, cantava sobre todas essas chagas abertas, sarcasticamente, diabolicamente, indiferentemente, a música offenbachiana, do seu clarão comunicativo e cortante...

 

Ele viu, como um largo mediterrâneo, todo o assombro das lágrimas recalcadas, toda a epopeia sinistra, toda a majestade dolorosa da alma humana, torcida num espasmo de angústia lancinada, amargamente lancinada numa aflitiva treva de dilaceramentos.

 

Ele observara tudo, descera a esses subterrâneos fatais, a essas criptas letíficas de nevroses e spleenéticas doenças, onde parece errarem duendes infernais e onde como que uma lua lívida, espectral, d'álem túmulo, trêmula e triste, derrama sonolenta e esverdeada claridade de augúrios medonhos e indefiníveis...

 

Vira tudo isso, mas vira igualmente todas as graças e aromas da terra na fascinação satânica da mulher, no encanto virginal da sua carne, na tantálica tentação dos seus braços tentaculosos.

 

Mas, tendo desde logo entrado na posse secreta de si mesmo, o doloroso Estético só sentira mais a mulher nas linhas e aspectos da visão, desprezara a carne, idealizara, espiritualizara a mulher.

 

Ele vira os fatigantes prazeres, as bizarras e galhardas alacridades do Vinho — quando a mocidade ruidosa, num alvoroço, arrebatada nos fantasiosos corcéis alados da alegria, por ser futilmente, mas intensamente amada, abre os braços nervosos à loucura, com todo aquele sangue exuberante, claro, vigoroso, de leão dominador, que mais tarde a boca visguenta da cova há de beber, sugar então fartamente para sempre.

 

Tudo, absolutamente tudo, ele vira; tudo o que é ventura breve, mas tangível, mas real, tudo o que se goza pelo olfato, pelos olhos, pelo paladar e pelo tato; tudo o que constitui o epicurismo grego e o que constitui o júbilo mundano, a felicidade clássica, oficial, convencionada, das sociedades cansadas, decadentes, esgotadas pela degenerescência do sangue, pela intensidade da Análise, torporizadas e entorpecidas no amolecimento e no postiço das fórmulas, sem ter enfibratura para a Grande Vida, em regiões estreladas, ao de leve, sutil e delicadamente, noutra chama, noutra esfera mais fina, mais pura...

 

Completamente tudo, afinal, ele vira e sentira com profundidade, enclausurado naquele Noviciado divino, pelo qual, como de dentro da terrível, solene e hieroglífica porta do INFERNO, deixara lá fora no Mundo toda a esperança de gozos efêmeros, de ambições medíocres, de aclamações decretadas, de acolhimentos e apoteoses mundanas, de séquitos reverentes e cortesãos arrastando a pompa impura, enxovalhada, rota, ridícula, da larga púrpura de ovações cediças e seculares.

 

Se ainda lhe fosse permitido ouvir o eco adormecido, distante, vago, das Ilusões, das Alegrias livres, dos Sonhos de há vinte anos, das Esperanças imensas, das Saudades intraduzíveis da sua adolescência, para lá destas eras rudes e austeras do Pensamento e do Sentimento, outra cousa não repetiriam, não clamariam todas essas sacrossantas Imagens, todas essas inefáveis Visões, senão que o doloroso Estético é agora um perfeito condenado à Morte — sereno e grande condenado que ufanamente esqueceu e desprezou, para trás, para os tempos de outrora, tanta luz de tranquilidade, de paz ingênua, para vir então espontaneamente entregar-se aos martirizantes cilícios das Ideias.

 

As sensações que poderia experimentar com simplicidade, como natureza elementar, sem febre, sem delírio de impressões, sem agudezas de nervosismos; essas sensações comuns de sentir, físicas, flagrantes como ferro em brasa chiando em cheio nas carnes, o doloroso Estético deixou intensamente de experimentar, para mais intensas sentir as outras sensações que tocam por toda a escala dos nervos, por todo o enraizamento das fibras, por toda a delicadeza etérea, aeriforme, da ductilidade e da vibração.

 

Impassível diante de tudo que não seja a expressão de uma Estética, a afirmação de uma estesia rara, a latente, profunda originalidade sensacional e vivendo por entre o ruído, a confusão, a vertigem da multidão que ri, que goza com distinções boçais, com a sua celulazinha empírica, — Ele não vive a vida externa dos homens, não participa, de fato, do meio ambiente — antes o seu estado vital é a morte, por uma condenação perpétua e lógica de todos os vários elementos da Matéria contra ele conclamados...

 

Isolado do Mundo, no exílio da Concentração, solitário, na tristeza majestosa de um belo deus esquecido, as outras forças múltiplas que agem na Terra, na luta desenfreada de cada dia, que equilibram as sociedades, que regem a massa vã dos princípios, que dão ritmo à onda eterna do movimento e entram na vasta elaboração da cultura das raças, sentiram-se hostilizados diante da sua intuitiva percuciência de vidente, da sua ironia gelada de asceta, do seu desdém soberano de apóstolo, da sua Fé indestrutível, serena de missionário, de extraordinário levita sombrio de um culto estranho, que leva aos lábios, em extremo, o Cálix místico da comunhão suprema da Espiritualidade e da Forma.

 

E então, o doloroso Estético, soberbo e sublime na sua solidão e no seu silêncio, vagueou — afastado do foco real, positivo da Vida — sem existir de fato, como um simples condenado à Morte, errante fantasma na sombra de sepulcros, misteriosamente vibrado por grande Sonho doloroso ritmado nas longas, monótonas e amargurantes melancolias do Mar, para sempre gemendo e sonhando, noturnamente, velhas lendas bárbaras.

 

É que o Estético viera da caudal misteriosa dos que acharam clarividentemente o inédito das suas almas, que se sentiram seres, que se salvaram do Caos universal com a evidência simples e clara de uma natureza afirmativa.

 

Mas, afinal, assim mesmo condenado à Morte, sob os filtros negros da Morte, ele, purificado do Espírito, perfectibilizado da Alma, remido e libertado da Matéria, ficou simbolizando, no entanto, o único ser verdadeiramente livre e legitimamente ser, o mais belo, o maior, o mais alto ser, ainda que desolado e sombrio, vitorioso da Terra!

 

 

 

Anho branco

 

 

Lembrava frescura de úmidas rosas desabrochadas, eflorescência de magnólias e a candidez de alma de pastores aquela carnação opulentamente branca.

 

Existência singela, segetal, um tanto primitiva, de serranias alpestres, o espírito a imaginava surgindo dentre vergéis de lírios e açucenas, numa clara fulguração de brancuras, como se as constelações a houvessem fecundado.

 

Uma luz desconhecida parecia rodeá-la de auréolas arcangélicas, celestiais...

 

No entanto, a sua carne viva, virgem, radiantemente alva, da translucidez requintada da lua, determinava bem a sua terrestre descendência.

 

Pelos campos, pelos prados, ela surgia com o sol, ela noctivagava com as estrelas, branca e de fino ouro flavo nos cabelos.

 

Surgia com o sol, na lactescência imaculada do seu corpo de flexibilidades e delicadezas de linho; noctivagava com as estrelas, na chama doirada dos seus cariciosos, suaves cabelos.

 

Na alvorada púbere desse sangue majestoso de Virgem, inefável Infinidade de sereias de volúpia cantava.

 

Relâmpagos vagos de desejos quiméricos cruzavam, abriam claridades iriadas nesse sangue triunfal impoluto, tão puro e verde nas exuberâncias como as verdes e tropicais vegetações dos campos claros que a geraram.

 

A alma adormecia no azul doce, langue, balouçante, dos seus olhos radiantes, festivos, inundados de uma frescura silvestre de náiade onde, por vezes, a dolente melancolia de amargas águas de mar em repouso vagava.

 

Carne casta e branca, tenra e veludosa, epiderme de leve luz rosada, cujas transparências sutis extasiavam, tinha, no entanto, uma fascinação animal, um quebranto delicioso de pecado, uma provocante flexura nervosa nos quadris afelinados, qualquer cousa de inebriante segredo selvagem no extravagante conjunto das linhas dúcteis da alva e flavescente figura.

 

Certos caprichos que a dominavam, certos arrojos e aventuras, traziam-lhe mesmo afinidades selvagens: — em saltar aos vales, logo pela manhã, aos primeiros e luxuosos coloridos; em coroar-se de rosas agrestes, pelos prados, gárrula, trêfega, no aspecto bizarro, no movimento fugidio e arisco de pássaro airoso; na ousada graça montanhesa de subir a árvores frondejantes e dormir depois à sombra delas, livre, descuidadosa, na expansão vegetal dos campos, identificando-se larga e singularmente com todos os aromas e mistérios da Natureza.

 

E era surpreendente vê-la assim, transfiguradamente formosa, errando pelos vergéis, pelas campinas e vales, voando quase, na febre da luz e da paisagem verde que a impressionava, que a eletrizava, como se ocultas asas a levassem, a levassem, para sempre confundida e mergulhada nas eflorescências abundantes das louras, sazonadas searas.

 

E, por entre os giestais engrinaldados de flores amarelas, por entre a rubente coloração das papoulas, a espessura densa das folhagens glaucas, a gradação pinturesca da verdura e pela margem das lagoas e lagos prateados e sonolentos, à beira dos brejos e alagados, das fontes, cachoeiras e rios e ainda sob a tenda abrigadora dos tamarineiros e jambeiros perfumados, e ainda por entre as galhardas alacridades dos cravos, por entre os amargosos e acres rosmaninhos, era o encanto picante, o supremo êxtase ver como essa Ninfa branca das selvas corria, corria, toda resplandecida de sol, arrebatada através das seivas impetuosas, dos travorosos odores, dos bálsamos, das resinas, das cheirosas e vertiginosas emanações de todas as ervagens e plantas exuberadas, na fascinante volubilidade alígera de movimentos imprevistos de gamo, acusando ainda mais, fazendo ainda mais viver e cintilar, em luminosos relevos, no desalinho soberbo da corrida, a glória da carne branca, a pubescência maravilhosa das formas.

 

E essas seduções prófugas, essa timidez e melindre gracioso, junto às audácias e vivacidades másculas, às surpresas e revelações do seu borboletismo irrequieto, faziam meditar, em silêncio e melancolia, nos sigilos assinaladores, nos recônditos, secretos pudores, na recatada e ingênita malícia de alguma curiosa filha de lendário e poderoso gigante, viçada branca, sob o inflamado e fecundativo pólen do sol, na luxúria animal e verde das florestas.

 

E ela corria, corria, galgava as ribanceiras, transpunha pomares em fruto, sebes de madressilvas e acácias, e perdia-se, perdia-se fantasiosamente pelos infinitos estrelados de flores e de brilhos de todas aquelas amplas, sonoras, e prodigiosas regiões de virgindades campestres.

 

Errava um primitivo e saudoso sentimento de Criação paradisíaca sempre que ela irrompia através da vaga esmeralda das vinhas, do purpurejamento palpitante das rosas, entre as aves que abriam e batiam asas cantando em torno à sua esvelta e fascinadora cabeça d'ouro virgem.

 

Na solenidade épica dos vales, dos bosques, das colinas e campos, onde bois resignados e majestosos tocante e melancolicamente mugiam com os grandes olhos de um sentimento bíblico, espiritualizados por um suavíssimo luar de lágrimas de evangélica bondade, esse corpo branco de brancura olímpica de deusa — ode das odes vivas, Cântico dos Cânticos, Via-Láctea transfundida em carne — parecia ter a influência misteriosa de um silfo alado, parecia derramar, por aqueles horizontes augustos, o luar de imensos e voluptuosos pesadelos dos fenômenos infinitos da Germinação...

 

Era a estranha Visão florestal que, quando aparecia, como que tornava brancos todos os aspectos, fazendo a retina sentir, por efeito dos deslumbramentos e ampliações visuais, vastas miragens brancas, vertigens de cores brancas, perspectivas brancas, nuances brancas, tudo nevadamente aceso em fulguramentos e cambiantes brancos.

 

Nem o sol, com a sua clarinante chama flava, conseguira jamais empalidecer, dar tons de razão a essa brancura intacta, da inviolabilidade de tabernáculos, que parecia sempre repurificada nas origens das extremas lactescências, das neves inacessíveis, dos indeléveis florescimentos.

 

E essa incomparável brancura magnetizava os sentidos como eflúvios de óleos exóticos e místicos vaporosamente queimados...

 

Mas, as curvas esquisitas do seu perfil ágil, lépido, tentadoramente assinalado por fugitivos meneios animais e curiosos; o coleante movimento dos braços de lânguidas nervosidades de áspide; a dilatação sedenta das narinas acendidas numa aspiração de sorver os cheiros vitais das terras fundamente revolvidas e das ervas sumarentas e quentes; a gula farta da boca úmida num viço rubro, exalando lilás e trevo; as mornas e magas magnólias embriagantes dos seios; as finas e elíseas claridades azuis dos olhos, e, enfim, a candidez e brancura suave das pompas da carne virgem, despertariam nos temperamentos violentos, selvagens, anseios intensos, acordariam o gozo idiossincrático, não de desvirginá-la, de violá-la, na brutalidade feroz dos instintos, mas de a morder, de fazer sangrar à faca, com volúpia, com febricitante paixão, carne tão odorante, tão balsâmica, tão lirial e nevada, engolfando saciadoramente nela o aço fúlgido e rijo, rasgando-a com a lâmina acerada e aguda em talhos veementes, vivos, gritantes de sangue fresco e fumegante, escorrendo, gotejando rubinosos vinhos de aurora, toda ela flagrantemente aberta numa esdrúxula floração boreal.

 

E, então, toda, toda essa sexual magnificência, toda essa casta beleza, fazia extravagantemente despertar a lembrança, dava a impressão sugestiva, ao mesmo tempo profana e sagrada, da unção angélica, da encarnação humanada e miraculosa do alvo, tenro e meigo cordeiro imaculado, do lhano, doce e delicioso Anho branco original dos Ermos, para a efusiva Páscoa nova das transcendentes luxúrias...

  

 

 

O sono

 

Ceux qui rêvent éveillés ont connaissance de mille choses qui échappent à ceux qui ne rêvent qu'endormis.

 Dans leurs brumeuses visions, ils attrapent des échapées de l'éternité et frissonent,

en se réveillant, de voir qu'ils ont été un instant sur le bord du grand secret.

 

Edgard Poe, Eleonora

 

 

A tua voz! a tua voz! Clamo em vão pela tua voz, procuro-a como por uma ave maravilhosa e a tua voz está estranhamente adormecida no sono...

 

Está adormecida no sono, muda, calada de gorjear, de cantar na tua garganta e na tua boca, aquela voz que eu sonhara filtrada dos raios do sol, tecida dos raios do sol, de uma prodigiosa essência etérea na qual radiasse o sol, todo o esplendor do sol.

 

Tu estás nostalgicamente dormindo, e esse sono em tão profundo e misterioso Além te imergiu, que pareces de mármore. E é, assim, em vão que clamo, trêmulo e desvairado, pelo brilho quente dos teus olhos, pela vida da tua voz, que me sacia de vida, que me afoga, que me embriaga de vida.

 

Acorda! acorda! acorda! acorda os olhos e a voz, e mergulha-me na vida que se derrama deles: quero sentir os teus olhos olharem, a tua boca palpitar de voz, como um rio transbordante, perenal, que chamejasse, ondulando em gorgolões e vertigens.

 

Esse sono frio, hirto, que me aflige, que me dilacera, lembra uma esperança que dorme perpetuamente, um desejo, uma alegria que não acorda mais e dorme, dorme para sempre nos gelos infinitos.

 

Os meus ciúmes, bravos leões acordados, instigam-se, açulam-se com a tua mudez, feridos de penetrante susceptibilidade por não sentirem os frêmitos, o alvoroço nervoso da tua voz.

 

Eu quero toda a fremência, toda a palpitação da tua voz, acordada em músicas, em sinfonias de beijos, atordoando a dor da minh'alma, como harmonioso e estonteante carinho, como extasiante licor renano, vivendo na intensidade, nos turbilhões do movimento, do ar...

 

Quero a sensibilidade, a flexibilidade voluptuosa da tua voz alvorecida do sono como de uma noite polar, ressurgida, lavada do caos, clara, imaculada de som.

 

Quero a tua voz, ágil, dúctil, aflante como asas e como asas abrindo e fechando em tépidos e alvoroçados véus...

 

Acorda! fala! fala! No teu sono pairam neblinas glaciais, as primeiras névoas do esquecimento... As auréolas místicas, os nimbos cintilantes do Sonho, as miragens e os íris, circulam a tua bela e imaginativa cabeça; e hordas invisíveis de resplandecentes arcanjos, vibrando citaras, alaúdes, harpas e violinos, numa inefável surdina, guardam, velam de ritmos vaporosos o teu sono seráfico...

 

Eu não sei que sentimentos estão agora em curiosa gênese dentro de mim, que na minha alucinação e superexcitação nervosa apalpo ansioso o vácuo, que o sono em que mergulhas encheu de segredos cabalísticos, e procuro, procuro em vão as formas, as formas, as fugitivas formas intangíveis, extremas, ondeantes, sutis, as formas de perfume, as formas de luz e as formas de som da tua voz, que o emoliente sono levou não sei para que necrópoles vazias, não sei para que geladas estepes de egoísticas e mortais indiferenças.

 

Ver-te assim, dormindo, esmaiada, branca e lânguida, nesse abandono de delíquio, num aspecto e espasmo sonhador de lua morta, faz-me experimentar a mais dolorosa ansiedade, como que a sensação flagelante de esquecer-te, uma angústia, uma agonia de sensibilidade tal, que os meus nervos quase se despedaçam, tão grande, tão profunda é a tensibilidade deles quando te apercebem dormindo, e que os teus olhos, fechados por longas e pesadas trevas, não deixam ver os recônditos deslumbramentos; e que a tua boca, muda, calada, encerrando em cárcere misterioso a tua voz virginal, não deixa sentir a alada harmonia das formas e dos aromas!

 

Oh! acorda! fala! fala!

 

Vivamente acordada, que sejas, em flama ardente de vida, nesse hosana triunfante da imortal beleza, eu agito-me, estremeço, vibro e desvairo, para beber insaciavelmente todos os encantos delicados e ignotos da tua voz, todas as ciciantes carícias e luxúrias.

 

E só com a martirizante lembrança de que talvez esse sono seja eterno e eu não ouça, não sinta jamais, nunca mais! as vibrações e as chamas da tua voz, percorrem-me o corpo todo estranhos calafrios, letais pesadelos alucinadores me sufocam...

 

E eu clamo, clamo, num tremor convulso, pela tua voz: procuro-a transfigurado, pergunto inquietamente ao Vago em que mistério a escondeu, em que abismo infernal de trevoso horror rolou, voou e extinguiu-se, apagou-se, desapareceu, como a alma original dos ventos e da luz, a tua colorida e chamejante voz!

 

Invade-me a ânsia de te sentir a voz fluir, borbotar dos lábios, acesa na paixão de existir, de viver, de sensacionalmente viver.

 

A ânsia, o desejo sedento de ver a tua boca febrilmente, frementemente palpitar com o meu nome, dizê-lo, repeti-lo, repeti-lo sempre, sempre, ungi-lo e acariciá-lo na voz, perpetuá-lo com amor, com compaixão, com misericórdia, com volúpia, com febre, com essa emoção e agitação de sentimento que impele, arrebata a alma aos êxtases da Eternidade!

 

Dormindo, no nebuloso e mago sono, onde a mórbida flor das melancolias e desdéns amargos murcha e outonalmente desfolha, e onde esvoaçam em torvelinhos magnéticos as borboletas translúcidas e multicoloridas da Quimera, o carinho e a piedade maior, mais intensa, mais viva, dos teus olhos e da tua voz, deixam-me desamparado, só, num deserto de silêncio e de frio, tiritando de pavor e desespero, envelhecendo cego, tateando de abandono, de desolamento...

 

 

 

 Triste

 

Je devorais mes pensées comme d’autres dévorent leurs humiliations.

 

 Balzac, Histoire Intellectuelle de Louis Lambert

 

 

Absorto, perplexo na noite, diante da rarefeita e meiga claridade das estrelas eucarísticas, como diante de altares sidéreos para comunhões supremas, o grande Triste mergulhou taciturno nas suas profundas e constantes cogitações.

 

Sentado sobre uma pedra do caminho, imoto rochedo da solidão — ele, monge ou ermitão, anjo ou demônio, santo ou cético, nababo ou miserável, ia percorrendo a escala das suas sensações, acordando da memória as fabulosas campanhas do dia, as incertezas, as vacilações, as desesperanças; inventariando com rara meticulosidade e um rigor de detalhes verdadeiramente miraculoso todos os fatos curiosos, coincidências e controvérsias engenhosas que se haviam dado durante o dia, como um gênero insólito e singular de tortura nova.

 

As estrelas resplandeciam com a sua doce e úmida claridade terna, lembrando espíritos fugitivos perdidos nos espaços para, compassivamente, entre soluços, conversar com as almas...

 

E o grande Triste, então, prosseguia no seu monólogo esquisito, mentalmente pensado e sentido e que de tão violento que era nos fundos conceitos, naturalmente até os mais revolucionários e independentes do espírito achariam, por certo, ser um monólogo injusto, pessimista, cruel:

 

— E assim vai tudo no grande, no numeroso, no universal partido da Mediocridade, da soberana Chatez absoluta!

 

O caso está em ser ou parecer surdo e cego, em tudo e por tudo, conforme as conveniências o exigem.

 

Pôr a mão, de dedos abertos, sobre o rosto e parecer, fingir não ver e passar adiante, porque as conveniências o exigem.

 

Essa é que é afinal a teoria cômoda dos tempos e que os tempos seguem à risca, a todo transe, ferozmente, selvagemente, com o queixo inabalável, duro, inacessível ao célebre e pitoresco freio da Civilização, protegendo-se contra o perigoso assalto da Lucidez.

 

— Apaguem o sol, apaguem o sol, pelo amor de Deus; fechem esse incomodativo gasômetro celeste, extingam a luz dessa supérflua lamparina de ouro, que nos ofusca e irrita; matem esse moscardo monótono e monstruoso que nos morde, é o que clamam os tempos. Deixem-nos gozar a bela expressão — locomotiva do progresso — tão suficiente e verdadeira e que cabe tanto na agradável e estreita órbita em que giramos e não nos aflijam e escandalizem com os tais pensamentos, com as tais espiritualidades, com a tal arte legítima e outros paradoxos de loucura. Deixem-nos pantagruelicamente patinhar, suinar aqui no nosso lodoso e vasto buraco chamado mundo, anediando pacatamente os ventres velhos e sagrados, eis o que dizem os tempos. Que excelente, que admirável regalo se a humanidade se tornasse toda ela numa máquina de boas válvulas de pressão, um simples aparelho útil e econômico, do mais irrefutável interesse — sem saudade, sem paixão, sem amor, sem sacrifício, sem abnegação, sem Sentimento, enfim! Que admirável regalo!

 

Inútil, pois, continua a sonhar o Triste, todo o estrelado valor e bizarro esforço novo das minhas asas, todo o egrégio sonho, orgulho e dor, sombrias majestades que me coroam — monge ou ermitão, anjo ou demônio, santo ou cético, nababo ou miserável, que eu sou — inútil tudo...

 

Por mais desprezível que fosse esta procedência, ainda que eu viesse da salsugem do mar das raças, não seria tanta nem tamanha a minha atroz fatalidade do que tendo nascido dotado com os peregrinos dons intelectuais.

 

Assim, dada a situação confusa, esquerda, tumultuária, do centro onde vou agindo, estas nobres mãos, feitas para a colheita dos astros, têm de andar a remexer estrume, imundície, detritos humanos.

 

Adaptações, pastiches, intelectualismos, espécie de verdadeiros enxertos da Inteligência, esses, florescem fáceis logo, porque bem difícil e raro é determinar a pureza infinitamente delicada, sentir onde reside o fio profundo, a linha sutil divisória que separa, como por maravilhoso traço de fogo, os Dotados, dos Feitos ou Transplantados.

 

E, pois, com a alma tocada de uma transcendente sensibilidade e o corpo preso ao grosso e pesado cárcere da matéria, irei tragando todas as ofensas, todas as humilhações, todos os aviltamentos, todas as decepções, todas as deprimências, todos os ludíbrios, todas as injúrias, tudo, tudo tragando como brasas e ainda cumprimentos para cá, cumprimentos para lá, para não suscetibilizar as vaidades e presunções ambientes.

 

Como flechas envenenadas tenho de suportar sem remédio as piedades aviltantes, as compaixões amesquinhadoras, todas as ironiazinhas anônimas, todos os azedumes perversos e tediosos da Impotência ferida.

 

Tenho que tragar tudo e ainda curvar a fronte e ainda mostrar-me bem inócuo, bem oco, bem energúmeno, bem mentecapto, bem olhos arregalados e bem boca escancaradamente aberta ante a convencional banalidade. Sim! suportar tudo e cair admirativamente de joelhos, batendo o peito, babando e beijando o chão e arrependendo-me do irremediável pecado ou do crime sinistro de ver, sonhar, pensar e sentir um pouco... Suportar tudo e obscurecer-me, ocultar-me, para não sofrer as visagens humanas. Encolher-me, enroscar-me todo como o caracol, emudecer, apagar-me, numa modéstia quase ignóbil e obscena, quase servil e quase cobarde, para que não sintam as ansiedades e rebeliões que trago, os Idealismos que carrego, as Constelações a que aspiro... Recolher-me bem para a sombra da minha existência, como se já estivesse na cova, a minha boca contra a boca fria da terra, no grande beijo espasmódico e eterno, entregue às devoradoras nevroses macabras, inquisitoriais, do verme, para que assim nem ao menos a respiração do meu corpo possa magoar de leve a pretensão humana.

 

E, sobretudo, nem afirmar nem negar: — ficar num meio termo cômodo, aprazivelmente neutral.

 

Que até nem mesmo eu possa, na melancolia crepuscular dos tempos, dar com unção emotiva e com cordialidade o braço a certos profundos e obscuros Segredos íntimos e, levemente irônico e pungido de dolência, errar e conversar com eles através das avenidas sombrias de minh'alma.

 

Nada de pairar acima de tudo isto que nos cerca, dos turbilhões ignaros do rumor humano, deste estrondo atroador de rugidos, desta ondulante matéria, desta convulsão de lama, acima mesmo destas Esferas que cantam a luz pela boca dos astros.

 

E que o mundo veja e sinta que eu o conheço e compreendo, e que apesar da obscuridade com que me atrito comumente com ele, apesar dos contactos execrandos na rodante contingência da Vida, tenho-o como que fechado nesta pequena e frágil mão mortal.

 

Dizendo tudo ao mundo, originalmente tudo, com o verbo inflamado em vertigens e chamas da mais alta eloquência, que só um complexo e singular sentimento produz, o mundo, espantado da minha ingenuidade, fugirá instintivamente de mim, mais do que de um leproso.

 

E até mesmo lá numa certa e feia hora em que se abre na alma de certos homens uma torporizada flor tóxica de perversidade, lá muito no íntimo, lá bem no recesso das suas consciências, nuns vagos instantes vesgos e oblíquos, quantos dos mais generosos amigos não acharão, embora falando baixo, muito baixo, como que num piscar de olhos ao próprio eu, mais ridículo que doloroso o meu interminável Sofrimento!

 

Mas, por mais que me humilhe, abaixe resignado a desolada cabeça, me faça bastante eunuco, não murmure uma sílaba, não adiante um gesto, ande em pontas de pés como em câmaras de morte, sufoque a respiração, não ouse levantar com audácia os olhos para os graves e grandes senhores do saber; por mais que eu lhes repita que não me orgulho do que sei, mas sim do que sinto, porque quanto ao saber eles podem ficar com tudo; por mais que lhes diga que eu não sou deste mundo, que eu sou do Sonho; por mais que eu faça tudo isto, nunca eles se convencerão que me devem deixar livre, à lei da Natureza, contemplando, mudo e isolado, a eloquente Natureza.

 

E, então, assim, infinitamente triste, réprobo, maldito, secular Ahasverus do Sentimento, de martírio em martírio, de perseguição em perseguição, de sombra em sombra, de silêncio em silêncio, de desilusão em desilusão, irei como que lentamente subindo por sete mil gigantescas escadas em confusas espirais babélicas e labirínticas, como que feitas de sonhos. E essas sete mil escadas babilônicas irão dar a sete mil portas formidáveis, essas sete mil portas e essas sete mil escadas correspondendo, como por provação das minhas culpas, aos sete pecados mortais.

 

E eu baterei, por tardos luares mortos, baterei, baterei sem cessar, cheio de uma convulsa, aflitiva ansiedade, a essas sete mil portas — portas de mármore, portas de bronze, portas de pedra, portas de chumbo, portas de aço, portas de ferro, portas de chama e portas de agonia — e as sete mil portas sete mil vezes tremendamente fechadas a sete mil profundas chaves, seguras, nunca se abrirão, e as sete mil misteriosas portas mudas não cederão nunca, nunca, nunca!...

 

Num movimento nervoso, entre desolado e altivo, da excelsa cabeça, como esse augusto agitar de jubas ou esse nebuloso estremecimento convulso de sonâmbulos que acordam, o grande Triste levantara-se, já, decerto, por instantes emudecida a pungente voz interior que lhe clamava no espírito.

 

De pé agora, em toda a altura do seu vulto agigantado, arrancado talvez a flancos poderosos de Titãs e fundido originalmente nas forjas do sol, o grande Triste parecia maior ainda, sob os constelados diademas noturnos.

 

As estrelas, na sua doce e delicada castidade, tinham agora um sentimento de adormecimento vago, quase um velado e comovente carinho, lembrando espíritos fugitivos perdidos nos espaços para, compassivamente, entre soluços, conversar com as almas...

 

E, na angelitude das estrelas contemplativas, na paz suave, alta e protetora da noite, o grande Triste desapareceu, — lá se foi aquele errante e perpétuo Sofrimento, lá se foi aquela presa dolorosa dos ritmos sombrios do Infinito, tristemente, tristemente, tristemente...

 

 

  

Adeus!

 

 

Zulma, adeus! adeus, Zulma! O derradeiro abraço, o derradeiro beijo, e adeus!

 

Os primeiros esmorecimentos do dia descem e um crepúsculo de cismas, de brumas misteriosas, turva as claridades bizarras e palpitantes de há pouco.

 

É o crepúsculo da noite — velha saudade dos tempos, recordação fugidia das eras primitivas, spleen das almas, — acendendo no alto das colinas remotas e enternecedoras do Passado todos os faróis apagados das reminiscências, fazendo cintilar claros todos os pressagos santelmos das Navegações velejantes, outrora, pelos países da Ilusão!

 

Adeus, Zulma! O derradeiro abraço, o derradeiro beijo, e adeus!

 

As inclementes amarguras do Mundo vieram já gralhar agoirentamente dentro da necrópole sombria deste coração... E tu foste a maior dessas amarguras, que em forma de ave sinistra gralhaste os teus dolorosos agoiros.

 

Através dos dilaceramentos da Vida, das tortuosidades do Desejo, das inquietações do Espírito, uma tarde — bela e majestosa tarde foi essa! —cheia de silêncios e sombras, vi pela primeira vez o teu perfil fascinativo, que o ritmo nobre de uma estranha música de perfeições e graça sonorizava serenamente.

 

Pareceu-me que desconhecida Divindade inspirava e iluminava a tua beleza, envolvendo num sacrário de estrelas a tua castidade branca.

 

Uma auréola de exclamações cercava-te, vibrantemente, em assombros admirativos, em hinos e aleluias aclamatórias.

 

Coleantes, sutis, de rastros, iam as minhas impaciências, os meus frêmitos, o meu anseio profundo, formando ígneo terreno vulcânico, um chão de chamas, por onde tu passavas indiferentemente, alta no esplendor translúcido da beleza.

 

Era, para mim, surpreendente revelação, o tipo extravagante, irreal, da tua não sonhada formosura — tipo de pureza e pompa brava, evocando, trazendo consigo os segredos grandes dos Vedas.

 

Qualquer coisa de prodigioso fazia flamejar os teus olhos negros, negros, negros até à fadiga, até ao pesadelo, até à saciedade, negros, intensamente negros até ao tenebroso requinte da cor negra, até aos profundos tons exagerados, até a uma nova e inédita interpretação visual da cor negra.

 

E os meus sentidos sentiam, por atração irresistível, os atritos, os contactos da tua pele embalsamada de ambrosia, quentemente impressionante; corria pelos meus nervos uma volúpia doce e morna, que no entanto me fazia estremecer e tiritar de inexplicável gozo, como por calafrio de imenso medo...

 

Mas, ah! que tentadora beleza, abençoada ou maldita, eras, então, tu, Zulma, que assim me deixavas extático, dominado, vencido, sem quase ação no pensamento e só ação e chama e febre e transfiguração no gozo? Onde era o teu Céu, onde era o teu Mar, onde era a tua Terra ou o teu Inferno — deusa dos Astros, deusa das Ondas, deusa dos Bosques, deusa infernal?!

 

Onde era?! Não sei! Só o que sei é que a fascinação produzida pela tua boca acesa em lavas de desejo, pelo negror de caos bíblico dos teus olhos, pela cisterna farta de leite dos seios verdemente virgens e pulcros, pela cristalização de todas as tuas formas, fez florescer em mim a Vinha exuberante e ardente da Paixão, cujos frutos, afinal, me embriagaram de tal modo, tão violentamente me arrebataram, de tais travores tóxicos me angustiaram e acidularam a alma, de tão finos dolorimentos e agoniados transes a laceraram, que eu parto hoje para sempre de ti desiludido, deixo, abandono, para nunca mais! a amplidão larga, tépida e magnética dos teus braços, a cuja sombra mancenilhosa adormeci descuidoso, sonhei e acordei agora fundamente envenenado por letais narcotismos...

 

Fugi de ti, desiludido, fatigado de percorrer as estepes da tua alma, cansado de girar absorto em torno dos enigmáticos caracteres eigpcíacos dos teus caprichos indomáveis, do sepulcro tremendo onde jaz a múmia fria do teu Afeto.

 

Não posso mais entregar-me ao cilício martirizante de tua insana volubilidade, aos calvários tantálicos da tua sede egoística e vingativa de gélidos e apunhalantes desdéns, aos teus sorrisos negros, aos teus beijos negros, ao teu coração sombriamente morto como um relógio parado numa casa deserta, aos teus encantos sinistros, a todos os teus feminis e sedutores encantos sinistros...

 

Parto, sigo, vou-me para sempre embora!

 

A tua voracidade de Águia famulenta fez-me delirar de incertezas, de dúvidas e blasfemar dessa beleza augusta, do bronze majestoso onde por certo algum demônio inquisitorial e régio modelou satanicamente a encarnação soberana dessas formas.

 

Adeus, Zulma! Levo no coração a vertigem sanguinolenta daqueles desesperos alucinantes do ciúme; e no lábio ansioso, anelante, a palpitação inquieta deste adeus supremo, torturado, aflitivo; deste adeus soluçado num crepúsculo amargo; deste adeus de voos solitários, cujas asas, como as de um pássaro torvo de erradias e taciturnas tristezas, voam longe, para além das lembranças, para além das saudades, para além das recordações e reminiscências antigas...

 

Adeus! Adeus! Adeus!

 

Fujo arrebatadamente de ti, levando para desertos áridos, sáfaros, longínquos, às regiões do Esquecimento, lá, muito para lá da monstruosa Terra, o único talismã precioso que me deste — a Dor!

 

E, como para perpetuar a comoção crepuscular deste adeus, destas transfiguradas lágrimas de adeus, todo o infinito nirvânico deste adeus, nesta hora poente em que os Céus começam a revestir-se dos soturnos e solenes ensombramentos da Noite, eu irei erigindo, levantando com essa Dor, com os seus despedaçamentos, dilaceramentos e gritos, as torres de Mistério e Melancolia dos negros castelos maravilhosos da Paixão, em cujos soberbos, longos e silenciosos paços constelados as nossas duas almas erraram letárgicas, sonâmbulas, acorrentadas pelos Estigmas imponderáveis dos Sentimentos humanos e em cujos terraços altos e desolados tanta vez me debrucei aterrado e vencido, nas fundas horas da fadiga, da saciedade e das alucinações do Tédio, sentindo em torno rugir, bramar temporais, trovões, fora, surda e confusamente na Natureza, os desgrenhados invernos lívidos...

  

 

 

Tenebrosa

 

 

Alta, Alta e negra, de uma quase gigantesca altura, torso direito e forte, retesada na espinha dorsal como rígido sabre de guerra; colo erguido de ave pernalta, aprumado, gargalado e toroso; longos braços roliços, vigorosos, caídos, como extensas garras de falcão, ao amplo dos quadris abundantes e de linhas serenas, esculturais, de soberana estátua de mármore, — semelhas bem uma noturna e carnívora planta bárbara, ardente e venenosa da Núbia.

 

Olhos grandes, largos, profundos, cheios de tropical sensualismo africano e abertos como estrelas no céu da refulgente noite escura de ébano polido do rosto redondo — alta, alta e negra, de uma quase gigantesca altura — lembras também o astro nublado, caliginoso da Paixão, girando na órbita eterna da humanizada dolência da Carne, como mancha na luz, ou soturna mulher da Abissínia, cujos luxuriosos sentimentos panterizados sinistramente gelaram e petrificaram na muda esfinge dos secos areais tostados.

 

E eu quisera possuir o teu amor — o teu amor, que deve ser como frondejante árvore de sangue dando frutos tenebrosos. O teu amor de ímpetos de fera nas brenhas e nas selvas, sobre os broncos, graníticos penhascos, na cáustica solar de exóticos climas quentes de raças tropicalizadas na emoção, porque tu és feita do sol em chamas e das fuscas areias, da terra cálida dos desertos ermos...

 

Quisera possuí-lo — inteiro, estranho, eterno, esse amor! E que me parecesse, se o possuísse e o gozasse, possuir e gozar o Mar, ter dentro de mim o oceano coalhado — como a minh'alma está coalhada de sonhos — de navios, de iates, de escunas, de lúgares, galeões, naus e galeras, por uma tormenta avassaladora em que trovões formidáveis e cabriolas elétricas de raios fosforescentes, brechando o firmamento, sacudissem, num brusco arrepio proceloso, o túmido colo crespo e ululante das Vagas.

 

Quisera amar-te assim! E que nesse Mar tormentoso, sob a angustiosa pressão dos elementos, a um cabalístico sinal meu, como se absoluto poder me houvesse constituído o Deus terrível e supremo da Terra — iates, navios, lúgares, escunas, naus e galeras, conduzindo toda a humanidade a várias regiões do monstruoso mundo, de repente soçobrassem juntos, subitamente se afundassem nas goelas hiantes do Mar escancarado, abismante, tremendo...

 

Nós dois, então, fulminados pelo mesmo raio, batidos, esporeados pelo mesmo estertoroso trovão, seríamos arremessados ao seio glauco do oceano, abraçados na extrema contração espasmódica do gozo, indo dar às ilimitadas praias do Ideal os nossos cadáveres, ainda fortemente, desesperadamente unidos, enlaçados, presos, como se a derradeira agonia cruciante da sensualidade e da dor houvesse justaposto os nossos corpos na fremência carnal dos alucinados sentidos!

 

Alguma coisa de aventuroso — fantástico, como o espírito de Byron, aceso pela caricatura viva de uma deformação física; alguma coisa de estranho e satânico como Poe, tantalizado também pelas agruras da ironizante matéria, e por isso mesmo ainda mais esfuziante e flamejante; alguma coisa, enfim, de infernal, de diabólico, de luminoso e tétrico, ficaria então para sempre esvoaçando e pairando em torno da nossa memória, sobre o Nihil das nossas vidas, como sinistra ave desgarrada de outras ignotas regiões inacessíveis e cujo canto soturno e maravilhoso reproduzisse a magoada plangência da harpa misteriosa dos nossos sentimentos, infinitamente vibrando e soluçando através do lento desenrolar das longas eras que passam.

 

Quisera amar-te assim! Vibrado ao sol do teu sangue, incendiado na tua pele flamante, cujos penetrantíssimos aromas selvagens me alvoroçam, entontecem e narcotizam.

 

Assim amar-te e assim querer-te — nua, lúbrica, nevrótica, como a magnética serpente de cem cabeças da luxúria — os olhos livorescidos, como prata embaciada; a fila rútila dos rijos dentes claros cerrada no deslumbramento, no esplendor animal do coito; os nervos e músculos contraídos e os formosos seios de cetinoso tecido elevados como dois pequenos cômoros negros, cheios de narcotismos letais, impundonorosamente nus — nus como todo o corpo! — excitantes, impetuosos, tensibilizados e turgescidos, na materna afirmação sexual do leite virgem da procriação da Espécie! E que a tua vulva veludosa, afinal! vermelha, acesa e fuzilante como forja em brasa, santuário sombrio das transfigurações, câmara mágica das metamorfoses, crisol original das genitais impurezas, fonte tenebrosa dos êxtases, dos tristes, espasmódicos suspiros e do Tormento delirante da Vida; que a tua vulva, afinal, vibrasse vitoriosamente o ar com as trompas marciais e triunfantes da apoteose soberana da Carne!

 

Assim, arrebatado no teu impulso fremente de águia famulenta de alcantiladas montanhas alpestres, eu teria sobre ti o poderoso domínio do leão de majestosa juba revolta, amando-te de um amor imaterial, sob a impressão miraculosa de transcendente sensação, muito alta e muito pura, que se dilatasse e ficasse eternamente intangível sobre todas as vivas forças transitórias da terra.

 

Então, na cela mística do meu peito, como num sacrário, eu sentiria passar em voos brancos esse grande Amor espiritualizado, estrela diluída em lágrimas, lágrimas convertidas em sangue, como a expressão de um sonho, ao mesmo tempo carnal e etéreo, humano e divino, que palpitasse, vivesse no meu ser e me trouxesse o travo, o sabor picante e amarguroso da Dor, que é a consagração, a perfeita essência do Amor.

 

Seria esse um requintado gozo pagão, cujo aroma enervante e capro, como o aroma selvático que vem do bafo morno e do cio dos animais das africanas florestas virgens, embriagasse o meu viver, desse ao meu espírito a alada forma de pássaro e desse à Arte que cultualmente venero, a pompa larga e bravia desse teu bufalesco temperamento e o resistente bronze inteiriço e emocional do teu nobre corpo de bizarro corcel guerreiro — ó alta, alta e maciça torre de treva, de cuja agulha elevada, esguia, aguda e expirante no Azul, o condor do meu Desejo vertiginosamente trêmula e vai as asas rufiando em torno...

  

 

 

Região azul...

 

 

As águias e os astros abrem aqui, nesta doce, meiga e miraculosa claridade azul, um raro rumor d'asas e uma rara resplandecência solenemente imortais.

 

As águias e os astros amam esta região azul, vivem nesta região azul, palpitam nesta região azul. E o azul, o azul virginal onde as águias e os astros gozam, tornou-se o azul espiritualizado, a quint'essência do azul que os estrelejamentos do Sonho coroam...

 

Músicas passam, perpassam, finas, diluídas, finas, diluídas, e delas, como se a cor ganhasse ritmos preciosos, parece se desprender, se difundir uma harmonia azul, azul, de tal inalterável azul, que é ao mesmo tempo colorida e sonora, ao mesmo tempo cor e ao mesmo tempo som...


E som e cor e cor e som, na mesma ondulação ritmai, na mesma eterificação de formas e volúpias, conjuntam-se, compõem-se, fundem-se nos corpos alados, integram-se numa só onda de orquestrações e de cores, que vão assim tecendo as auréolas eternais das Esferas...

 

E dessa música e dessa cor, dessa harmonia e desse virginal azul vem então alvorando, através da penetrante, da sutil influência dos rubros Cânticos altos do sol e das soluçadas lágrimas noturnas da lua, a grande Flor original, maravilhosa e sensibilizada da Alma, mais azul que toda a irradiação azul e em torno à qual as águias e os astros, nas majestades e delicadezas das asas e das chamas, descrevem claros, largos giros ondeantes e sempiternos...

 

 

 

Sonambulismos

 

 

Foi pelas floras concestrativas de uma noite tropical de verão, numa dessas noites em que o espírito se debate e anseia na infinita vertigem das profundas e sombrias cogitações, alanceado por amarguras incomparáveis; numa noite em que desfalecimentos supremos me assediavam, que a minha visão ficou sonambulamente deslumbrada por este espantoso e imaginoso espetáculo da Lua.

 

Todo o azulado espaço estrelara já, fina e aristocraticamente.

 

Na floreada constelação da Via-Láctea, na vasta, solene e celeste, alta Nave dos Astros, alvas cintilações pompeavam, rútilos fagulhamentos, faustosas chamas claras sideralmente acesas, palpitação de harmonias, de formas, de brancuras imaculadas.

 

Como que diamantinas cordas tensibilizadas de harpas miraculosas afinavam sonoramente de ritmos inefáveis a solidão sagrada, eucarística, da noite; e como que também vinham desfilando, descendo lentas e letárgicas pelos fios etéreos das estrelas, alas e alas fulgentes de querubins e arcanjos revestidos das pratarias, da translucidez, da névoa vaporosa da Via-Láctea.

 

E eu sentia leves, doces rumorejos de asas que afiavam, girando num torvelinho, num redemoinho branco de plumagens suaves...

 

Mas, nas sutis vibrações ignotas do Éter, errava certa sensibilidade, o dolorimento secreto de imperceptíveis nervos delicados de freira histérica, dilacerada nos infinitos êxtases do misticismo alucinado, dos intensos refinamentos, dos requintes esquisitos das macerações.

 

Parecia que nas esparsas correntes do ar a dor circulava, cristalizada, filtrada na tenuidade vaga da luz...

 

As transparências luminosas da noite tinham altos silêncios augustos de sacrários, fazendo meditar e sonhar...

 

E toda a amplidão das Estrelas era de uma solenidade e majestade muda.


Através de brumas diáfanas, como através de uma paisagem de nevoeiros polares, vinha lentamente vogando, vogando, lassa, leve, como numa atmosfera aquosa, a angustiada aparição da estupenda lua, imensa, mole e mórbida, untuosa, magnetizadora Flor de filtros letais, Odalisca Fabulosa do opulento Mar-Sultão, derramando uma paz branca, morna, claridade viscosa nas vastidões em torno.

 

Do modo por que eu a via, por que eu a estava sentindo na imaginação e na visão, a lua parecia crescer, crescer, ir avolumando cada vez mais e, à proporção que avolumava, ir adelgaçando, adelgaçando, frouxa e oleosamente, numa forma glutinosa e elástica de estranho Verme sulfúreo rastejando em preguiçosas, felinas ondulações e enchendo, avassalando todo o espaço com a sua redonda auréola luminosa e langue...

 

E então todo o firmamento ficava invadido por essa maravilhosa face da lua, que velava completamente as estrelas.

 

E era só uma ampla lua que formava o espaço inteiro, era só aquela face fria, branca, que dominava de fosforescência toda a vastidão do horizonte.

 

Mas essa mesma face fria como que depois se transfigurava ainda; certos aspectos, os caracteres, as linhas, o contorno breve que lhe dá a semelhança de uma máscara de múmia, as manchas e sombras que por vezes turvam a ebúrnea candidez do seu palejante clarão, subitamente desapareciam, se desfaziam; e ela, a lua espectral, a lua frígida, cadavérica, começava a experimentar a sensação de um ser, a viver a vida de uma alma...

 

Pouco e pouco se acentuavam linhas, traços, aspectos, iam aparecendo novas formas intensas, que acusavam já a contornação de um vulto destacado nos amplos céus, gerado da face lívida da lua.

 

Imensa dolência e imensa tristeza, transfundidas na asiática beleza judaica de Rabino erradio e sacrossanto, como que envolviam numa bruma ideal de paixão essa magoada e cismadora figura.

 

E era, afinal, agora, pela metamorfose da luz, todo o busto sereno, a face dolorosa do Cristo, como que surgindo num grande e profundo soluço mudo.

 

Era a face do Cristo, aparecendo nos sudários do Infinito, ciliciada no meio de esplendores sidéreos, com a imaginativa cabeça enxameada de curiosos e fascinadores apólogos, coroada de epodos, inflamada dos segredos ardentes e voluptuosos do Cristianismo!

 

E essa cabeça legendária, de triste e de patética doçura, de emotiva palidez romântica, avultava, avultava mais, num relevo fundo, como se se quisesse corporificar e mover, abrindo desmesuradamente os olhos cheios de mistérios incomparáveis e fazendo ondular no ar a espessa cabeleira enovelada, derramada em longos caracóis flavescentes pelas espáduas divinas...

 

E eu olhava, absorto, para o surpreendente espetáculo da lua, assim sagradamente transfigurada!!

 

Ah! e como a branda face de Jesus sorria agora para mim com magoado sorriso de piedade; como esse sorriso me acarinhava, derramava perdões e clemências, do alto, sobre a minh'alma terrena! Um sorriso da mais bem-aventurada bondade, da ternura mais celeste, um sorriso infinito que abrangia toda a amplidão e se confundia com a claridade dormente da noite.

 

E era bem para mim esse sorriso, porque ele me atraía, me magnetizava com o seu vaporoso fluido, radiando como esmaecida, lívida madrugada, na boca sensual e roxa pelo fel da agonia, boca contorcida no derradeiro espasmo, do Cristo peregrino, no Cristo errante lacerado de chagas...

 

Com esse enternecido e perdoador sorriso eu me sentia lavado de todos os soturnos e rudes males, via-me purificado de tudo, vivendo nas primitivas essências imaculadas do Bem.

 

Ao mesmo tempo parecia que aquele prodigioso sorriso se transformava num gesto de mão poderosa, onipotente, mas, contudo, mansa, que me afagava meigamente a vertiginada cabeça, com doçura, com ternura, com amor, acordando em mim indefinidos estados d'alma, células que adormeciam há muito os seus desencontrados pensamentos e arrebatando alucinadamente todo o meu ser não sei para que estranhos mistérios e fenômenos da sensação...

 

E eu, abstraído, enlevado, gozava com volúpia, sob aquela mão divinal e terna que me acarinhava, que me mergulhava, quase adormecido, em branduras inefáveis de tufos de sedas alvas, de linhos repousantes, de veludosidades, de arminhos consoladores.

 

E dizia comigo, mentalmente:

 

— Sim! Tu és, afinal, o meu Deus, bom e justo, Todo poderoso, o Unigênito, que te sorris para mim abençoando-me e protegendo-me contra o Mal com o teu sempiterno perdão! Eu me humilho à tua Onisciência e à tua Graça, porque eu pensava sempre que te haveria de encontrar um dia, uma hora, um momento, bom e justo, dando-me o alívio extremo! Oh! és tu! és tu! que eu reconheço bem! És tu o louro Deus profético e apaixonado das saudosas terras da Ásia!

 

Oh! és tu! és tu! Bem te reconheço, pela majestade das transcendentes misericórdias que semeias e pelas ciliciantes grinaldas de sonhos que te circundam a aflitiva, desolada cabeça...

 

Tanto clamei, tanto bradei por ti nas solidões, que tu afinal apareceste para me salvar do fundo desta geena onde em vão me debato e rojo. Do fundo desta geena que me devora, apertando-me nos seus cem mil círculos de ferro.

 

Sim! vens consolar-me de tudo na atroz geena do Mundo, vens suavizar-me estes áridos dias de pedra em que até mesmo o sol é para mim a pedra mais indiferente de todas as pedras.

 

Vens trazer-me justiça, Deus sempiterno — justiça, a quem vive sequioso por ela; justiça, a quem vive de agonias por ela; justiça, a quem combate e depreca no mundo por causa dela.

 

Se eu aqui me desalento e desolo perante a tua Imagem não é que eu duvide da tua suprema demência nem da tua suprema justiça! Não é porque eu julgue a justiça uma palavra inútil, convencional, vã, perfeito engodo doirado para iludir as almas crédulas, para favorecer os potentados e punir os humildes! Não é! Não!

 

Mas, um dia, já um visionário do Infinito, um desses errantes do Ideal, com uns olhos espiritualizados de tísico, contou-me que lá no seu país bárbaro, uma vez que ele quis justiça, que ele clamou por justiça, responderam-lhe com esta espada fria de sarcasmo:

 

— Ah! tu queres justiça, vais ter justiça. Metam este diabo numa jaula, derretam-lhe os pés em azeite a ferver, arranquem-lhe a pele a ferro em brasa e arranquem-lhe a língua pelas costas, se é que ele, na verdade, quer justiça, da pura e boa justiça, da imparcial, da generosa justiça!

 

Tu, Deus excelso, sim, tu não iludes ninguém, tu vens trazer-me justiça, eu bem creio, eu creio muito, porque o sorriso inefável que abre essa original aurora nos teus lábios não pode iludir nunca, não pode enganar jamais.

 

E mesmo os mais descrentes, os mais céticos e pessimistas acreditariam, se vissem! como eu agora vejo nesse teu piedoso sorriso tão carinhosamente iluminado da mais incomparável irradiação de justiça...

 

Sim! vens trazer-me justiça! vens trazer-me justiça!

 

Parecia mesmo, então, que para como que afirmar ainda mais os meus amargurados pensamentos, um pranto imenso, diluvial, me inundava, caindo do alto; que o Cristo chorava, chorava, num monótono choro soluçante que eu escutava pungido e enternecidamente agradecido a Ele por tanto e tanto compreender e sentir assim a minha Dor e assim chorar por mim...

 

Mas, de repente, como por uma transmutação de mágica, tive um fundo sobressalto; do meio daquela espécie de torpor fui violentamente sacudido por uma impressão de deslumbramento, e, então, vi! estupefato, que aqueles divinos lábios lívidos a pouco e pouco se satanizavam e enrubesciam, passava sobre eles um relâmpago de fogo; aquela boca martirizada afinal abria-se estranhamente rubra, estranhamente rubra! — e desvairadas gargalhadas vermelhas estalaram e rolaram retumbantemente pelo espaço a fora como atroantes excomunhões...

 

E as estrepitosas risadas rolaram ríspidas, cortadas sangrentamente de sarcasmos e ensanguentando e abalando todo o espaço, como risadas de um novo Cristo satânico, despenhado e rebelde na eterna confusão dos séculos...

 

Toda aquela face de celeste ternura desaparecera, a doce expressão piedosa daqueles olhos se exilara para longe e apenas então ficara o mais duro e feroz semblante, com a apocalíptica expressão sagrada e selvagem do Arcanjo titânico dos Extermínios agitando no ar o gládio fulminante.

 

E a boca rubra dessa face tremenda ria, bruta, grosseiramente como os Getas da Trácia, bárbaras, empedernidas risadas d'escárnio que rolavam, rolavam pela noite a dentro, de eco em eco, com o clangor monstruoso de turbilhões, de cerradas massas de sons de trombetas conclamantes ou formidáveis e pesados carros de batalha, fantástica e atropeladamente arremessados através dos bíblicos, profundos e tenebrosos despenhadeiros de Josafá!

 

 

 

Dor negra

 

E como os Areais eternos sentissem fome e sentissem sede de flagelar, devorando com as suas mil bocas tórridas todas as rosas da Maldição e do Esquecimento infinito, lembraram-se, então, simbolicamente da África!

  

Sanguinolento e negro, de lavas e de trevas, de torturas e de lágrimas, como o estandarte mítico do Inferno, de signo de brasão de fogo e de signo de abutre de ferro, que existir é esse, que as pedras rejeitam, e pelo qual até mesmo as próprias estrelas choram em vão milenariamente?!

 

Que as estrelas e as pedras, horrivelmente mudas, impassíveis, já sem dúvida que por milênios se sensibilizaram diante da tua Dor inconcebível, Dor que de tanto ser Dor perdeu já a visão, o entendimento de o ser, tomou decerto outra ignota sensação da Dor, como um cego ingênito que de tanto e tanto abismo ter de cego sente e vê na Dor uma outra compreensão da Dor e olha e palpa, tateia um outro mundo de outra mais original, mais nova Dor.

 

O que canta Réquiem eterno e soluça e ulula, grita e ri risadas bufas e mortais no teu sangue, cálix sinistro dos calvários do teu corpo, é a Miséria humana, acorrentando-te a grilhões e metendo-te ferros em brasa pelo ventre, esmagando-te com o duro coturno egoístico das Civilizações, em nome, no nome falso e mascarado de uma ridícula e rota liberdade, e metendo-te ferros em brasa pela boca e metendo-te ferros em brasa pelos olhos e dançando e saltando macabramente sobre o lodo argiloso dos cemitérios do teu Sonho.

 

Três vezes sepultada, enterrada três vezes: na espécie, na barbaria e no deserto, devorada pelo incêndio solar como por ardente lepra sidérea, és a alma negra dos supremos gemidos, o nirvana negro, o rio grosso e torvo de todos os desesperados suspiros, o fantasma gigantesco e noturno da Desolação, a cordilheira monstruosa dos ais, múmia das múmias mortas, cristalização d'esfinges, agrilhetada na Raça e no Mundo para sofrer sem piedade a agonia de uma Dor sobre-humana, tão venenosa e formidável, que só ela bastaria para fazer enegrecer o sol, fundido convulsamente e espasmodicamente à lua na cópula tremenda dos eclipses da Morte, à hora em que os estranhos corcéis colossais da Destruição, da Devastação, pelo Infinito galopam, galopam, colossais, colossais, colossais...

  

 

 

Sensibilidade

 

 

Com os seus lindos bandôs brancos e o seu rendado mantelete de vidrilhos, aquela doce velhice tinha, apesar de enrugada e trêmula, um certo encanto nobre.

 

Fazia lembrar uma gravura antiga e grave, dessas, solenes e vagas, que pousam tristes, quase apagadas de traço, esmaecidas na tela, mas saudosas, ao fundo de algumas salas severas.

 

O seu nome carinhoso e parnasiano, recordava à primeira vista, pelo esmalte claro das sílabas, a forma de delicada porcelana, um fino e precioso mosaico ou os embutidos luxuosos dos charões.

 

E esse nome, aveludadamente azul — Lúcia — cantava-me ao ouvido com a doçura, a terna suavidade da mais íntima, penetrante carícia.

 

Rara e obscura existência, cabeça embranquecida nos gelos das sombrias dores ignoradas e apunhalantes, Lúcia, no entanto, andava dentre auréolas invisíveis de bem-aventurança, dentre etéreas redomas de clemência divina, como se nunca roçasse as diáfanas e níveas asas sutis das suas ilusões e reminiscências no lutulento, letífico charco da terra...

 

Era assim uma alma ainda não esgotada, ainda intacta, inédita, purificada nos rios claros e evangélicos das esperanças, atravessando o mundo sem ruído, oculta, calada, vivendo baixo, devagar, nos sugestivos silêncios, como numa eterna pausa de todos os rumores, pedindo aos recônditos dilaceramentos do coração que emudecessem, ou magoassem e afligissem, mas em segredo, para que lá fora o faustoso clamor da Vida, desdenhoso e vão, não se importunasse e humilhasse.

 

Era uma dessas assinaladas e tocantes velhinhas que impressionam e das quais, muita vez, a tremenda complexidade da Dor fica como que encerrada aos olhos insensíveis da formidanda massa do Mundo, através das brumas do egoísmo.

 

E ela mesma como que faz pensar em todas essas brumas, porque o seu perfil é brumoso, são brumosos os seus belos cabelos, é brumosa toda a sua contemplativa figura, que as brumas, as neblinas, os nevoeiros de fundo mistério envolvem de um luar solitário...

 

Outrora toda a sua bondade espiritualizava-se, subia à serenidade dos Astros, quando, pelas manhãs d'ouro e linho virgem, frescas de sol, eu a via, junto ao mar melancólico, gozando a saudade das vagas.

 

Por ali, perto das vagas, erguia-se um muro austero e alto, donde bucolicamente pendiam imensas e exuberantes latadas, verdes tentáculos de folhagem estrelados de rosas jaldes, de rosas brancas e de rosas rubras. Através de um gradil aberto viam-se louçanias de jardins, preciosidades de plantas, uma alegria pinturesca de vergéis e um repouso secreto e claro de Recolhimento, quebrado em dadas horas pelo quente esplendor bizarro de risadas.

 

Era uma página de comunicativa emoção, de emoção sempre crescente, sentir, no ouro e na prata fluido-vagante das manhãs, o pequenino perfil da Lúcia, vago e triste, tão humanizado naqueles momentos, tão existente, tão ser, tão vivo na irradiação alegre, clarinal do dia, olhando ao mesmo tempo, com igual enternecimento, o mar e os jardins próximos ruidosos em certas horas.

 

O peito desoprimia-se, respirava ao largo amplos e sadios haustos de mar diante dessa velhinha meiga, tão infinitamente sensível, tocada de uma graça de amor supremo, talvez pouco da terra já! mas que parecia ser o símbolo sagrado das resignadas, abnegadas mães.

 

Toda aquela vida era, entretanto, assediada de agitações constantes, com todos os fenômenos do Desconhecido, fenômenos profundos, com origens e raízes longínquas e em cujo centro ciclônico, terrível, ela girava amargamente, confusamente, arrebatada na vertigem do Mundo.

 

E tudo, em redor, como que a torturava em fogueiras acesas de inquisições, fazendo-a delirar de angústia, dessa lancinante impaciência, dessa inquietude que alvoroça os corações velhos que não têm a esperar mais nada.

 

E quantas, quantas vezes eu a vi, perdida nos tumultos, circulando por entre as multidões cerradas e atordoantes — erma, isolada, trêmula e triste, como se levasse toda a fatigada velhice lutadora de rastros ao sacrifício dos desdéns eternos, à indiferença de ferro das bárbaras hordas humanas.

 

E tão só, tão só caminhava, talvez sem objetivo, talvez sem rumo, que a minh'alma compadecida a acompanhava de longe, numa grande e genuflexa piedade muda de companheira misteriosa e solitária.

 

Mas com que dolorosa agonia, com que tormento, quase voluptuoso, ela circulava através multidões, errava através do ruído, através do alarido das ruas, das praças, através dos burburinhantes enxames de uma população variada, diversa de atitudes, de sensações, brutal de instintos, impetuosa de gestos, frívola, fútil, mexendo-se em ondulações de estupendos bichos vorazes, venenosamente serpenteando...

 

Muitas vezes era pelos dias de abrasante sol e poeira, quando os mormaçosos estios relampejam e torram as vegetações recentes e o ar pesa elétrico, túmido de trovões e raios.

 

As correntes intensas e luminosas do calor, as atmosféricas fulgurações zumbentes e escaldantes, atravessadas da poeirada fatigante, punham no ambiente lassa preguiça tropical, dando uma forte exaustão de nervos, que pedia longas, demoradas sestas...

 

Era por esses dias febrilmente calmosos, em que o espaço, hirto, rígido, parece feito de metais incandescentes e de vidro.

 

Candente dureza estéril, surda, sufoca, numa asfixia mortal.

 

Paira em tudo a prostração, a combustão de um incêndio prodigioso em longas extensões de florestas, de selvas intermináveis, de matas escuras e virgens; a tontura morna e enervante da chamejação poderosa, luxuosa, rica, de grossas e resinosas cordoalhas alcatroadas ou das línguas flamívomas e fantásticas de enormes aglomerações de carvão de pedra ardendo com feéricas e estrepitosas labaredas.

 

Como que chiantes e algazarrantes crepitações de cigarras, riscam, retalham e cortam nervosas, com a vibrátil tensibilidade das asas, as fremências ríspidas do sol aberto, aceso estranhamente nos altos.

 

E o sol, devorando ferozmente as seivas, numa insaciabilidade animal de tigres e panteras esfaimadas, faz lembrar horrível, tremendo e torturante carrasco levantando no Infinito guilhotinas atrozes, cujos formidáveis e ígneos cutelos invisíveis fulminam medonhamente os corpos...

 

E a retina fatigada, cansada de fitar os aspectos quentes, as paisagens abrasadas, ofuscada pelos deslumbrantes estrelejamentos que a constelaram, descai langue, frouxa, perdendo já a percepção clara das linhas.

 

Lúcia, entretanto, nômade eterna, errava entre essa atmosfera de sol e poeira, como nas tórridas, áridas vastidões de um deserto. E o seu humilde perfil de peregrina, martirizado pela inclemente ação cáustica da luz, parecia convulsionar-se, contrair-se, contorcer-se espiralmente em eletrismos ardentes de serpes ébrias de cio, encolher-se, murchar como planta esquisita e melindrosa que a chama cresta, devora...

 

Era de uma sensibilidade que magoava até às profundezas da alma ver girar sob o sol em fogo, na amolentadora dormência da poeira turva, o vulto triste dessa velhinha, — alquebrada, aturdida, sonolenta nos entontecedores espasmos, nas radiantes nevroses do sol...

 

Parecia que todo o fino tecido, todas as fibrilhas e filamentos da claridade fulva, vibrante, a magnetizavam, a prendiam como que em redes cintilantes de raios, de brilhos, de centelhas, de siderações, de flamas, de ardências solares, de coruscantes crepitações.

 

Parecia que as chamejativas e agulhantes áspides mordentes e circundantes do sol a apertavam, a comprimiam, a enlaçavam, roçando, babando, lambendo sedentas, sedentas, a epiderme engelhada da supliciada velhinha, embebedando-a de sensações infinitamente complexas e esdrúxulas com as atritantes e cocegantes flexibilidades circulatórias dos seus filiformes e moles organismos...

 

Deveria, ao certo, embalá-la, adormecê-la, fazê-la sonhar um pouco, ao certo, toda aquela luminosidade letárgica, ansiaste, flagelativa, que morbidamente a atravessava, a inoculava de tóxicos e alcoolizadores amavios de feitiços narcotizantes, de venenosos e deliciosos ópios, de sutilezas, de delicadezas nervosíssimas de uma sensibilidade quase lasciva, de tão martirizante, dolorosa e penetrante que era através dos espessos, densos nevoeiros da poeira e do sol...

 

Fazia pensar que uma desconhecida voz, que ela não sabia de onde vinha, chamava com carinho por ela, a abençoava na sua aflição, no seu dilaceramento, suavizando-a na dor, protegendo-a na torturante peregrinação, compadecendo-se dela, bradando, clamando, como através do nebuloso pesadelo de um sono ou de brumas de luar, o seu nome meio velado, meio sonhado e soluçante: Lúcia, Lúcia, Lúcia — como o consolo da Sombra, como a piedade do Mistério, como a clemência do Vago: Lúcia, Lúcia, Lúcia!

 

O seu coração agoniado vibrava com mais veemência, com mais ímpeto, com febre, num profundo êxtase de sofrimento; e os seus amortecidos olhos, turvados pela névoa das lágrimas, espiritualizavam-se, languesciam, como num torpor comatoso, e ela então voltava, voltava, tornava a circular, ali, além, lá, por entre a multidão tenebrosa, como ainda na última esperança de alcançar o que buscava, o que em vão procurava no torvelinhoso caos da existência — velhinha, trêmula, triste, frágil, a cabeça agitada numa convulsão, no lancinamento angustioso de todo o seu ser fatigado, sob o flagelo inflamado das cortantes refrações luminosas, das faíscas e fuzis cambiantes e circunvolventes e da inquietante poeirada turva que subia em turbilhões no ar...

 

Parecia que aquele coração sofredor, arrancado violentamente do peito, eu sentia e via palpitar, sangrando ainda, suspenso, solto, alado, magnetizado, atraído pela intensa e estonteante vibratibilidade aérea, ao alto do Éter vertiginoso, com todos os seus gemidos, com todos os seus soluços, com todos os seus ais, com todos os seus gritos, com todos os seus gritos, com todos os seus gritos!

 

Penetrado de uma curiosidade doentia, desse indefinido desejo de mergulhar no absoluto das cousas, o espírito a acompanhava, sem se aperceber quase, por um movimento instintivo e simpático de atração pelo que é obscuro, isolado, só, como acompanha as emoções e sensações que abrem asas à noite, fugindo ao esmagamento do dia.

 

Não era apenas uma velhinha, trêmula, engelhada, que vagava todas as manhãs, desamparadamente: — era a Dor, a Dor cruel e ignota, que ninguém sentia, ninguém via, mas que vinha sempre sombriamente viver junto à estranha vida que no mar palpitava.

 

E, quem olhasse bem para ela, com afeto piedoso, com todo o concentrado sentimento, e demorasse num exame lento, silencioso, detalhado, de todas as suas feições, de todas as suas rugas, veria então como a Lúcia se transfigurava sempre que ouvia a matinal correria nos jardins do Recolhimento, sempre que encarava por muito tempo o mar, fitando-o como horrível inimigo que se não pode jamais destruir, mas apenas odiar em vão.

 

Um amargor, um fel, uma ansiedade, ansiedade de tudo, ansiedade mortal a crucificava, e ela então começava a percorrer novamente ao longo das praias, mas tão febril, tão inquieta, tão vertiginada a nobre e doce cabeça branca, que se temeria que ela fosse enlouquecer ou morrer ali de desespero.

 

Fazia mesmo lembrar um louco, igualmente cego e mudo, encarcerado e tateando na sua desgraça, debatendo-se para espedaçar as perpétuas grades do cárcere tenebroso da loucura, da cegueira e da mudez, ensanguentando inutilmente as mãos nos grilhões imaginários, com o delírio supremo, a aflição tremenda de uma alma que não sabe, que não pode dizer quanto sofre e sofre ainda mais por isso e sufoca e soluça e convulsiona e rebenta de sofrimento.

 

Era uma dor que tinha a sensibilidade curiosa de um violino miraculoso, vibrando freneticamente, com requintada nevrose, através de nevoeiros frios, nalgum país polar, e cujo som, partindo em arestas finíssimas e inflamáveis, em vez de deliciar de harmonia, ferisse, cortasse e queimasse as carnes.

 

A princípio aquela Dor subia como leve, melodiosa balada fria e triste, por turvo luar, sobre lagos calados, entre paisagens de lenda.

 

Subia suspirantemente, na mágoa dilacerante dos adeuses derradeiros, aflitiva lancinância das preces... Depois, transfigurada por invisível vendaval sinistro, era unia Dor que avassalava todo o seu organismo como um espasmo de alucinação, rugindo em bramidos de mar alto nos bravios tostões desertos, nas abruptas penedias, nas brenhas brancas, sob as trevas soturnas e avérnicas das tempestades, cruzadas pelos Signos diabólicos e fosforescentes dos relâmpagos...

 

Ah! como eu a amava, como eu me apiedava dela assim, como me identificava com o seu sentir, como penetrava nos crepúsculos estrelados da minh'alma, assim dolente, assim fatalizada, essa extraordinária Criação dos dolorimentos, das incoercíveis angústias imponderáveis!

 

Vencida pela saudade e sugestão evocativa das ondas, ela vagava sempre, sem que ninguém soubesse qual era o seu objetivo secreto... E essa maravilhosa dor como que se ampliava, se derramava, enchia as vastidões do Mar imaginativo, cortado de lubricidade e tédio, enevoado de spleen, embriagado de um vinho sombrio e glauco, fascinador, inebriante, atordoativo, de sonambulismos esparsos, sedento da monstruosa, da satânica paixão dos naufrágios, soturnamente cantando, com triunfos d'inquisidor, as elegias das noivas — mais formidável que a Morte!

 

E enchia, enchia, enchia profundamente o Mar a grande Dor, filtrava-se pelos raios fluidos da luz, diluía-se no cheiro azotado e virginal das marés, eterificava-se, era essência, era eflúvio de emoção, era gérmen de sonho, perdido no ambiente picante, acre e ácido, das largas, amargas águas marinhas; era sensibilidade humana depurada, cristalizada, vivida na sensibilidade voluptuosa das ondas, partindo, vagando, errando como aroma e brilho flavo de sol nos turbilhões fugitivos das velas nômades, também infladas, palpitantes também de flutuante, balouçante volúpia e da mais alanceada e nostálgica sensibilidade do Infinito...

 

 

 

Asas...

 

 

Abertas em íris, pelos espaços intérminos, esvoaçam as Asas, voam a regiões antigas enevoadas de dolência e de lenda, às velhas maravilhas do mundo: — pelos Jardins da Babilônia, pelas Pirâmides do Egito. Vão à Pérsia, palpitar no fulgor de alcatifas e tapeçarias; vão à Arábia, voar entre os incensos orientais e, condorizadas, sempre pelas fulvas, fagulhantes opulências do Oriente em fora, rufiar e subir, perder-se além das esguias agulhas alanceoladas das mesquitas, que arrojam para o firmamento as liturgias maometanas...

 

E as Asas flavescem, doiram-se ao sol prisco dos tempos, à chama acesa da Imortalidade — porque as Asas são o Desejo, o Sonho, o Pensamento, a Glória — que tomam assim sempre essa forma, mil vezes, alada, peregrina, errante, das asas.

 

Porque a Forma, a Forma é esse ansiar para o alto, esse fremente rufiar e abrir largo d'asas impulsionadas na Luz, na refulgência das Estrelas, de onde, a música, a harmonia pura da Arte, serena e ritmalmente canta...

 

Mas, essa Forma que abre, cinzelada em astro flamejante, essa mesma Forma sai pontuada de lágrimas, como um relicário onde eternamente ficassem guardadas as hóstias impoluídas de um amor sideral infinito.

 

E essas mesmas lágrimas são asas — asas espirituais, partindo da fremência de um sentimento doloroso, pungente, que nos alanceia, impacienta e agita em febre — sentimento fundamental do Profundo, do Vago, do Indefinido...

 

Turbilhões d'asas, turbilhões d'asas, turbilhões d'asas — asas, asas e asas imensas, amplas, largas, infinitamente rufladoras, infinitamente, infinitamente, cruzando-se e acumulando-se nos tempos, nas orgias báquicas do Sol, nas deblaterantes e atroantes nevroses das tormentas, no rouco e surdo regougar de epilepsias satânicas dos ventos.

 

Asas leves, finas, borboleteantes, falenosas, dos magnificentes, dos radiantes, dos delicados, dos febris, dos imaginosos, dos vibráteis, dos penetrantes, dos emotivos, dos sutis, curiosas abelhas d'ouro, insetos flavos do sol, esmeraldas e meteoros voejantes e asas gigantescas, condoreiramente titânicas, dos hercúleos Proteus do Sentimento e da Forma.

 

Tudo recebe singularidades, impressionantes transfigurações de asas — asas que abrem e tumultuam com vertiginoso e confuso tropel nos Céus, que da Terra vibrando partem, asas, asas e asas, em enigmas esfíngicos, num anseio, num frêmito, num delírio de alcançar, subir além, maravilhosamente subir, com pujanças repurificadoras e a majestade melancólica das águias, à Aspiração Suprema!

 

 

 

Espiritualizada

 

 

Agora fechando de leve os olhos, fechando-os, como para adormecimentos vagos, vejo-te, no entanto, melhor, sinto-te eterizada, de uma essência finíssima onde há diluidamente talvez muito do sol e muito da lua...

 

Assim, mudo e só, neste obscuro aposento, onde apenas uma janela alta dá para o claro dia, como um coração que abre e pulsa para a vida, gozo a divina graça de ficar isolado, intacto, neste momento, ao menos, dos atritos nauseantes da laureada banalidade, de certo fundo chato de plebeísmo intelectual de sentir.

 

Nos seis ou sete palmos deste aposento, que ainda não são, contudo, os sete palmos da cova, eu vejo-te das prefulgentes transcendências da minha Piedade, e, aristocratizando a alma, como um céu se requinta aristocraticamente d'estrelas, sinto que me apareces espiritualizada pelo grande Afeto que te fecundou e sinto que há de ti para mim uma tal influência estésica, uma identidade tamanha, uma tão intensa irradiação, que as nossas naturezas fundem-se num mesmo êxtase, num mesmo espasmo emotivo e numa mesma chamejação de beijos...

 

E, assim, ainda assim, nobre Palmeira de sagrada sombra que me abrigas o coração errante; e, ainda assim, pelas virtudes sublimes do teu ser, canta-me na alma o Cântico claro de que não me separarei jamais de ti, que me acompanharás, boa, crente, do castelo branco das tuas altas virtudes, pelas jornadas eternais da Morte, saciando-me a sede ansiosa, inquieta, de Infinito, com as cisternas puras e transbordantes da tua eterizada Bondade.

 

E como o nosso pequenino filho preso à tua carne pelo cordão umbilical, eu ficarei para sempre preso aos teus graciosos cuidados e fugitivos enlevos, girando em torno à tua ternura, — vibrante abóbada de músicas e de luzes, — como um velho pássaro fatigado abrindo e fechando lenta e amorosamente as asas sem no entanto desprender o voo através do atordoamento e rumor das Esferas...

 

Crê, tem fé profunda na profunda chama que por ti me eleva.

 

Fechando de leve os olhos, como para adormecimentos vagos, mais eu vejo a curiosa beleza negra dos teus olhos transfigurados por olhares pouco terrestres e olhares de tão cintilantes fluidos, de raios tão penetrantes, de tão afagadoras, consoladoras baladas, que só olhares de olhos resignados, perfectibilizados por egrégio Sofrimento, podem por tal forma exprimir a impressionante transfiguração dos teus olhos.

 

Crê, pois, que eu te amo, crê que eu te amo com a majestade serena de um apóstolo e a meiguice trêmula de uma criança. Crê que eu te amo com a alma simples, com o coração inundado de frescura, iluminado de bondade. Crê que eu te amo, sacrossantamente te amo de um afeto indissolúvel, indelével, indefinível, que se perpetuará além da minha morte, sobreviverá aos meus suspiros, aos meus amargos gemidos, abraçar-te-á com abraços muito longos, beijar-te-á com beijos ainda mais longos que esses abraços, numa carícia lenta, muda e aflita, sob o repouso branco das estrelas, na imensa mágoa, no desolado enviuvamento das noites...

 

Assim, maternizada, ó boa e generosa terra de sangue de onde brotou a flor nervosa e lânguida do filho; assim, transfigurado pelo sentimento purificante da Maternidade, ó ser docemente, arcangelicamente formoso, dessa formosura triste, mas nobre, mas excelsa, mas imaculada, das almas que se sensibilizam e vibram; assim, nessa expressão tocante, fina, sutil, do teu semblante que a dolência pungente da Maternidade enluarou de harmonia, fluidificou de delicadezas, angustiou de mistério, és, afinal, a Eleita peregrina do meu Sonho, coroada de um diadema de lágrimas...

 

 

 

Asco e dor

 

 

Últimos risos palermas, últimos escancaramentos de bocas parvas nos fins destroçados de um carnaval, por tarde ardente e nevoenta. Massas de nuvens torvas tumultuam no firmamento, sob múltiplas conformações fabulosas. Raios derradeiros de sol em poente languescem do alto, mornamente crepusculares.

 

Um tédio enorme espreguiça, estremunha no ar, lânguido, letárgico, invencível, indefinível...

 

Por uma rua estreita, sombria e lôbrega como um prolongado corredor de convento ou uma infecta galeria subterrânea, vem desfilando, aos pinchos, saracoteando toda, desconjuntando-se toda, uma turba miserável de carnavalescos, impondo aos últimos raios tristes do sol as suas carantonhas mais horrivelmente tristes ainda, as suas vestimentas funambulescas, fazendo lembrar diferentes aspectos de loucura, graus de imbecil demência, angulosidades de crime, estados primitivos de ignorância amassados numa embriaguez mórbida, selvagem e sinistra.

 

Os pinchos, os saracoteios, os ziguezagues dos quadris elásticos das mulheres, com os moles seios bambos e as nádegas proeminentes, num deboche nu de Inferno relaxado onde vinhos alucinantes entrassem como oceano canalizado para as bocas; os perfis ósseos, anfratuosos dos homens, mascarados de sapo, de gorila, de serpente, de crocodilo, de dragão de cornos, de morcego, de monstro bifronte, de urso, de elefante e de mentecapto, dão à turba carnavalesca a sensação formidável do descaro final, do pandemonium derradeiro, da nudez lúbrica, desbragada, bestial, da cega hediondez dos instintos soltos na hora eclíptica do aniquilamento do mundo!

 

Mas, eis que do centro do desprezível bando, vestida em farrapos, boçal, congestionada de bestialidade, urrante de chascos, destaca-se uma terrível figura mais grotesca do que as outras, trazendo na cabeça, em forma de troféu, uma trunfa alta, feita de cobras emaranhadas, com as caudas em pé, semelhando uma coroa de vícios em convulsão. E no meio do círculo que as outras formam e ao som de palmas cadenciadas e batuques selvagens, através de risadas aparvalhadas do público, fica então a dançar alucinadamente. Nas suas pernas magras, espectrais, de esqueleto ironicamente esquecido pela cova, dir-se-á que lhe puseram azougue e lhe puseram também rodízios nos pés.

 

E ela fica então a rodar, a rodar, macabra, doida, numa febre, num delírio, como se fosse esse todo o extremo esforço das suas faculdades de dançarina. E ela roda, roda, vai rodando, em vertigens e vertigens, em giros esquisitos, fazendo flutuar os dourados farrapos da veste, dentre uma saraivada grossa de risos e aclamações, gozando triunfos na miséria daquilo tudo, como a rainha da lama humana. E a grotesca figura roda, mascarada de múmia verde — alucinação que ondula, desvairamento que serpenteia — a exemplo de uma cousa amorfa, de um bicho inconcebivelmente estranho que se tivesse ao mesmo tempo absurdamente tomado de uma epilepsia nervosa e da dança de São Guido...

 

De vez em quando piparoteiam-lhe a pança, as nádegas moles e ela então, ignóbil animal aguilhoado por essa baixa carícia, saracoteia mais, espaneja-se toda no seu lodo como num leito de volúpia.

 

Ah! daquela momice cínica, daquela desordenada bebedeira d'instintos erguiam-se, hórridos fantasmas de sangue, de lama e lágrimas, o Asco e a Dor!

 

Eu para ali me arrastara, no amargo tédio da tarde, na ânsia crepuscular do sol, que lembrava um palhaço senil e lúgubre, sem mais alegria, vestido de ouro e morrendo, só, desamparado até mesmo das ovações ou dos apupos da rota garotagem, no fundo de um beco imundo...

 

Levaram-me para ali não sei que desencontrados sentimentos, que emoções opostas, que vagos pressentimentos... A verdade é que eu para ali fora, talvez fascinado por certo encanto misterioso dessa miséria cega: para embriagar-me de asco, para envenenar-me de asco e tédio e desse tédio e desse asco talvez arrancar os astros e ferir as harpas de alguma curiosa sensação. A verdade é que eu para ali fora, quase hipnotizado, de certo modo mesmo impelido pela extravagante turba carnavalesca, pela sua monstruosa miséria.

 

Mas, agora, todo esse misto de animalidade, de suinice, esse hibridismo mascarado, de paixões rastejantes, vermiculares, essas formas humanas que atrozmente se convulsionavam como feras devorando, todo esse ambulante sabbatt foi então desfilando por outras ruas, seguindo o seu rumo de calcetas do ridículo, bambamente, aos boléus sob o fim torvo da tarde que parecia, também mascarada de feiticeira, rindo uma risada de augúrio feral aos últimos bamboleios carnavalescos que se afastavam, finalizando como a tarde finalizava, dispersando-se, desaparecendo pelos oblíquos becos tortos num tropel de manadas de gado estropiado que uma peste assolou...

 

E enquanto a multidão, vesga, atordoada, tonta, azoinada de calor, de rumor, de carnaval e de poeira, aplaudia com gritos e zumbaias delirantes, ensurdecedoras, aquela turba vil, incaracterística, a minh'alma sentia-se como que pendida de um cadafalso que a estrangulava, acorrentada a um asco mortal, a uma dor tremenda que não tinha linhas de unidade, de conjunto e de entendimento com as outras dores; dor ingenitamente original, que não participava, em nenhuma das suas fibras, em nenhuma das suas interpretações sensacionais, das outras dores do mundo! Dor legitimamente outra, que não tinha limites no limite da dor comum; dor que me parecia cobrir o céu de luto, enegrecer tudo, aumentando-me o asco de tal sorte que o ar, os horizontes enublados, as árvores, as pedras da rua, as paredes dos edifícios, a multidão que burburinhava, tudo me parecia estar possuído do mesmo asco e da mesma dor. Dor sem raízes conhecidas, sem ritmos definidos, sem origens encontradas nem na vida, nem na morte, fora das correntes eternas, das correlações das esferas, das circunvoluções do pensamento! Dor inaudita, cujas partículas sagradas eram formadas da flamejante constelação de um anseio transcendental, da luz misteriosa das espiritualizações supremas, de sentimentos fugidios, sutis, de sensações que volteavam e ondulavam em torno da minha cabeça, como auréolas psíquico-estesíacas, por paragens ultraterrestres.

 

Asco que era para mim como se eu me sentisse coberto de lesmas, lesmas fazendo pasto no meu corpo, lesmas entrando-me pelos ouvidos, lesmas entrando-me pelos olhos, lesmas entrando-me pelas narinas, pela boca asquerosamente entrando-me lesmas. Um asco feito de sangue, lama e lágrimas, composto horrível de um sentimento inexplicável, hediondo, donde brotava a flor de fogo e veneno de uma dor sem termo.

 

Asco daquelas postas de carne que além obscenamente se rebolavam numa mascarada infernal, bêbadas, bambas, fora da razão humana, a toda a brida no Infinito do deboche, sem fé e sem freios, na confusão dos instintos como na confusão do caos.

 

Dor e asco dessa salsugem de raça entre as salsugens das outras raças. Dor e asco dessa raça da noite, noturnamente amortalhada, donde eu vim através do mistério da célula, longinquamente, jogado para a vida na inconsciência geradora do óvulo, como um segredo ou uma relíquia de bárbaros escondida numa furna ou num subterrâneo, entre florestas virgens, nas margens de um rio funesto...

 

Dor e asco desse apodrecido e letal paul de raça que deu-me este luxurioso órgão nasal que respira com ansiedade todos os aromas profundos e secretos para perpetuá-los através da mucosa; estes olhos penetradores e lânguidos que com tanta volúpia e mágoa olham e assinalam as amarguras do mundo; estas mãos longas que mourejam tanto e tão rudemente; este órgão vocal através do qual sonâmbula e nebulosamente gemem e tremem veladas saudades e aspirações já mortas, soluçantes emoções e reminiscências maternas; este coração e este cérebro, duas serpentes convulsas e insaciáveis que me mordem, que me devoram com os seus tantalismos.

 

Dor e asco dessa esdrúxula, absurda turba bruta que além, sob a tarde, uivava, desprezivelmente ridícula, na infrene mascarada, com os seus ínfimos vultos sinistros transfigurados em crocodilos, em serpentes, em sapos, em morcegos, em monstros bifrontes, todos, todos da mesma origem tenebrosa de onde eu vim, negros, sob a lua selvagem e sonolenta dos desertos, no seio torcido das areias desoladas...

 

Asco e dor dessa ironia que para mim vinha, que para mim era, que só eu estava compreendendo e sentindo assim particular e exótica — ironia gerada nos lagos langues do Letes, fundida nas perpétuas chamas do Abstrato das Esferas, ironia para mim só, só para mim descoberta nas camadas infinitas da Vida, ironia só para o meu Orgulho mortal, só para aminha Ilusão humana, só para o meu insatisfeito Ideal, ironia! ironia! ironia rindo às gargalhadas no fim da tarde pelas máscaras obtusas e pela boca parva da multidão que aplaudia truanescamente como o supremo truão eterno.

 

E, ó Dor maior! Asco mais estranho ainda!

 

Daqueles círculos mômicos, daqueles círculos de chacota e de zumbaias, daqueles requebros de quadris obscenos, daquelas vertigens mórbidas e redomoinhos de corpos lassos, entorpecidos, suarentos, empoeirados, esfalfados; daquelas caras bestialmente cínicas, ignaras e negras, sem máscaras algumas, pintalgadas a cores vivas, a tatouages grosseiras; daqueles langores mornos e doentios de olhos suínos, de todos esses grilhões medonhos, de todo esse lodoso cárcere fatal eu ficava como uma sombra irremediavelmente presa dentro de outra sombra, querendo fugir dali por esforços inauditos e vãos, debatendo-me no vácuo contra esse golfo sem fundo, contra esses vórtices tremendos da matéria, de onde, no entanto, a minh'alma viera, cristalizada em essência, requintada numa imaculabilidade d'estrelas purificadas nos cadinhos celestes.

 

E a minh'alma circunvagava, ia e vinha alucinada, através de adormecidas zonas de sonho, oscilante como um pêndulo de pesadelos, numa aflita ondulação de nevroses, meio dividida entre a bárbara turba mascarada e meio dividida entre a natureza, circundante, cá e lá, guilhotinada misteriosamente pela mesma dor e pelo mesmo asco, cá e lá misturada, amalgamada e perdida em iguais misérias de sangue, lama e lágrimas, ainda e para sempre com o mesmo asco e com a mesma dor...

 

 

  

Intuições

 

 

— Mas, afinal, por que és triste?!

— Sou triste, porque o fundo de toda a Natureza é triste. Triste, porque a tristeza é Deusa, Deusa severa e soberana, com a sua larga, longa clâmide majestosa sombriamente pendida em graves, grandes rugas, envolvendo para sempre os Desolados... A tristeza medita... E é poderosa e sagrada, porque simboliza a profundidade dos Fenômenos que nos rodeiam. Olha tu para tudo. Ergue d'alto a visão do pensamento por essa inclemência dolorosa da Vida e vê lá, se, no íntimo, no recôndito das origens eternas, não está a tristeza irreparável de tudo?! Ouve os teus tumultos interiores! Busca as correntes da Vida e as correntes da Morte. Procura as tuas aspirações supremas e vê lá se não é pela estrada infinita, mas excelsa, da tristeza, que elas seguem. Amo a tristeza, porque ela fecunda a todos os sentimentos de uma nobre paixão abstrata. E é doce, suavizador e piedoso para mim quando às vezes encontro, pelos caminhos que trilho, tão augusta Deusa transfigurando os celerados, purificando os bandidos, dando paz e morte serena aos corações dos cínicos.

 

Ser fundamentalmente triste não exclui, no entanto, a alegria, a alegria sã — essa alegria mesma que é mais sincera e séria porque foi fecundada na sinceridade e seriedade da própria tristeza.

 

Não essa alegria romba, a alegria dos adolescentes espirituosos, que é a forma mais expressiva da imbecilidade distinta.

 

Não a alegria dos que não são vitalmente alegres, dos que riem, pelo estilo, pelo tom de rir, por ser oficial o riso, por estar, d'alto abaixo, decretado, na grande causerie famosa do Mundo, que se deve rir, porque o riso dá maneira, porque o riso dá egrégias virtudes, porque o riso dá beleza, e não se pode, nos centros da fina gente, deixar, enfim, de proclamar o riso!

 

Não é essa alegria fácil, fútil, essa que chega a celebrizar-se, a formar tipo, que constitui o singular encanto sereno de certo modo de ser e sentir...

 

Mas, bem diferentes, outros aspectos e linhas da alegria, bem variados e nobres.

 

A alegria de um lindo rosto louro de Ruth angélica e segetal; uma serenidade cor-de-rosa de face de Cibele branca surgindo dentre lírios; a alegria verde da originalidade dos viços virgens, dos imaculados renovos; a alegria nova dos vergéis em maio, sob o Te Deum do sol.

 

A alegria fantasiosa de um Baco empurpurado de vinho; a alegria pagã de um grego engrinaldado de acanto; a alegria ideal do Diabo coroado de cornos; a alegria obscura e ascética do Isolamento; a alegria clemente, justa, do orgulho natural e simples; a alegria modesta e sóbria da fé convicta e messiânica; a alegria tranquila e fria do desdém calado e secreto; a alegria da bondade simples e radiante, a alegria enfim, fecundadora e sã dos que se sentem fortes porque se sentem dignos!

 

A solenidade dessas alegrias todas vêm das linhas, da harmonia, da austeridade pura da tristeza — noite miraculosa que gera sóis.

 

A alma anseia ficar intacta das argilas lodosas, o espírito aspira envelhecer casto, na velhice milenária da Dor, mas elevando bem alto o sacro cibório das comunhões intelectuais.

 

E, assim, essa tristeza é o tabernáculo severo e sombrio donde o espírito ergue-se calmo e mudo, intenso e seguro nas múltiplas faces da Vida, conhecendo e sentindo com eloquência os homens e tirando desse conhecimento e desse sentimento as forças altas e os nobilitantes vigores para a profética, fecunda demência.

 

Pois no fundo dessa tristeza resultante das fadigas e tédios que deixa o insano ardor por se haver dado o balanço final aos Homens e às Cousas, existe a felicidade forte, de robustez de fundamentos, uma espécie de Otimismo desdenhoso, que é a única e compensadora alegria mais elevada e pura das almas.

 

Sou triste, sem ser cético; sou triste, porque creio ainda, vendo já, no entanto, tudo a esfacelar-se em ruínas...

 

Por isso, por essas causas absolutas, sou triste.

 

Eram dois vultos que caminhavam estrada a fora, através de paisagens, mergulhados numa intensa palestra d'ideias, por clara tarde maravilhosa de luz.

 

Um deles, adolescente, imberbe, conservava a aparência reservada e sisuda de um monástico, acusando mesmo, pelo seu rosto um tanto alongado e o seu perfil bisonho, soturno, haver pertencido a um desses antigos seminários de província, reclusos dentre muros contemplativos e brancos e rodeados das sombras silenciosas de altas e recordativas árvores frondejantes.

 

Visto um pouco ligeiramente parecia ter na face uma expressão dura, rígida, uma tonalidade seca e cética, à Voltaire.

 

Mas, bem reparado de frente, os seus doces olhos grandes, tenebrosos e raiados levemente de vermelho, quebravam essa impressão voltaireana.

 

Tudo, de expressivo e oculto, que ele tinha, estava nos olhos. Uma onda de seivas virgens parecia fluir milagrosamente deles. Dormiam talvez ainda, lá, como princesas encantadas em bosques fabulosos, as misteriosas Paixões do Pensamento e da Forma.

 

Olhos reveladores, de uma expressão inédita de sentimento, dizendo límpido na sua transparente claridade úmida todos os segredos e sonhos que andem sonambulamente romeirando nas almas.

 

Desses olhos para cujo centro profundo e luminoso parece afluir toda a essência pura, todo o idealismo claro e são, todo o alto requinte de Sensibilidade de uma geração mais elevada, mais bela, prestes a surgir!

 

O outro, mais severo, mais perseguido de perto pelas desilusões, com o ar fatigado de quem vem de muito longe — olhos de uma penetração aguda de brilho fundo, um tanto adormentados por uma melancolia nômade; boca de mordacidade viva, de onde as palavras deveriam irromper incisivas como dardos ou sugestivas como parábolas.

 

Sentia-se logo que era doutras Regiões, transfigurado dos Rumos espiritualizantes, dos Fatalismos sombrios, reivindicador solitário do peso negro e venenoso das grandes culpas e por isso, agora, calmo, seguro, como os que trazem consigo, sem até mesmo pressentirem, o cunho singular das Predestinações imprescritíveis, a sede e a febre de um saber intuitivo, contemplativo.

 

De vez em quando, no diálogo que ia estabelecendo com o outro, a sua boca sorria, num sorriso de resignada esperança, de muda contemplação, ou, ferida por um sarcasmo tão puramente justo que a idealizava, ria claro, ria, mas um riso leal, bom e regenerante, fresco, balsâmico, capaz de inundar e imacular de bens as milenárias e maléficas impurezas do Mundo decaído.

 

E a tarde, numa paz luminosa, em auréolas de ouro, os envolvia beatificamente.

 

As duas figuras, unificadas naquele instante por um idêntico e chamejante pensamento, caminhavam devagar na tarde, sob a efusão simpática da suave claridade da tarde.

 

Entretanto, o diálogo continuara.

 

— Sim, sou alegre como Deus, entediado, invejando o Inferno; sou triste como o Diabo, arrependido e sonhando, querendo voltar para o Céu!

 

Sinto esta tristeza impaciente do Irreparável, do Irremediável, do Perdido... E a febre que me devora, a vertigem que me alvoroça, é por não poder fundir as almas sob novas formas, dar-lhes intuições novas, entendimentos inauditos, encarnar-lhes o sentimento noutros moldes mais belos, fazê-las, enfim, mais flexíveis, mais dúcteis, torná-las mais espirituais e vibráteis para as grandes comoções do Imprevisto.

 

A paixão da minha tristeza é por não poder fecundar de novo essas almas, não lhes poder dar as maleabilidades sensíveis, inocular-lhes o fluido estranho de uma vida aperfeiçoada, quint'essenciada numa chama eterna.

 

A doença espiritual da minha tristeza é por não poder impoluir, virginar jamais as consciências já violadas; por não poder fazer brotar nelas a flor melindrosa e boa da timidez simples, que o pecado brutal das luxúrias imponderadas e das intemperanças ferozes fez para sempre murchar.

 

A nevrose da minha tristeza é por não me ser dada a graça magna, o dom soberano e assinalado de vazar, nos cadinhos de ouro da fecundação perpétua, só seivas prodigiosas, ineditamente belas, só germens sãos e perfeitos, só sementes preciosas e raras, para que, talvez, assim então se gerassem as Formas impecáveis, as Correções extremas, as Perfectibidades imperecíveis.

 

Aos que, como tu, se fundam nos mistérios da sua própria natureza; para os que surgem das obscuras gêneses, no movimento de espontaneidade das Origens vivas, das afirmações eloquentes e cujo espírito vai, no tempo e no espaço, se organizando por células, fecundando por sonhos, completando por vibrações de nervos, por germens de paixão, por glóbulos de Vida, aguardando, calmos e resolutos, sentindo a intuição de esperar o instante original para irromper da Sombra, — para esses, deve significativamente impressionar toda a fundamental tristeza destas Manifestações supremas.

 

O certo é que a humanidade erra pelo fantástico, que a natureza está toda sobrecarregada de fantástico. E nem mesmo há homem que não tenha o seu lado extravagantemente ideal, fantasioso; que não percorra, nas vagas horas da Desolação, as galerias sinistras dos fantasmas, ou que não vá em busca do Sonho, que existe na Realidade, como os fenômenos físicos existem esparsos no organismo concreto do Universo. O ideal é real, desde que radia no mundo criado à parte, na circunvolução cerebral de cada ser. Tudo está em saber acordar, com estilo e emoção, esse sonho, onde ele exista, ou na alma do selvagem ou na alma do culto. Para isso os Artistas de todos os tempos produzem as suas Obras que nascem sempre por um movimento de meia inconsciência conceptiva, para serem assim mais fortemente vivas e mais transcendentemente sensacionais.

 

Porque o real é cheio de brumas de sobrenatural, o verdadeiro é cheio de brumas de fantástico e no fundo original da grande Causa está o Sonho.

 

— Ah! Sim! Sim! Clamou o outro, num grito de alvoroçado assentimento: — o natural na Arte é o alto Absurdo, é o Absurdo, o Fantástico, Intangível! Se eu dissesse, em páginas, mais tarde, os êxtases volúpicos que me dominavam no silêncio discreto do Seminário, diante da Imaculada Conceição, doce e cândida no seu rosto de porcelana fina, com aqueles olhos paradisíacos que tanto me aproximavam da serena e celeste luz! Se eu dissesse quanta nevrose, quanto delírio sexual percorreu a minha carne naquele solitário noviciado; quanto misticismo mórbido me ciliciou a alma; quanto espasmo lânguido me dominou o corpo, certo me julgariam louco... E depois, quando deixei a paz austera do Seminário, a sua clausura mestra, os seus hábitos duros; quando deixei toda aquela vasta, longa melancolia que dentro dele reinava como nevoenta Visão de meditações e recolhimentos; quando despedi-me das suas paredes brancas, das suas torres simbólicas, das suas árvores evangélicas, da sua fachada ampla e adormecida olhando para a alegria verde do Mar, — e caí então na plebeia profanação da Existência — ah! que complicadas sensações de prazer, de recordação, de mundanismo, de misticismo, de liberdade, de saudade, de inexprimível angústia, promiscuamente vivendo dentro de mim e viçando os mais tenebrosos, os mais negros e já agora irremediáveis tédios!

 

No entanto, se eu descrever um dia com flagrância de tintas, com violências e cruezas, todo este trecho passado da minha vida; se eu lhe der todo o impressionismo abstrato, todo o requinte de sensibilidade e mesmo até de impressões fantásticas, dirão que eu não tenho a mínima observação do Natural, que não observo a verdade inteira, e sou, em tudo, absurdo.

 

— Belas palavras, essas, a verdade, a observação!

 

Tanto é verdade aquela que determinadas individualidades apenas veem com os olhos, apalpam com o tato das mãos, ouvem com os ouvidos, experimentam pelo paladar, aspiram pelo olfato, apreendem com a atenção, lembram com a memória, percebem, enfim, com todos os sentidos inferiores, como é verdade a verdade que a Imaginação vê, que a Concepção cria, que o Ideal fecunda, que o Sonho transmite, desde que não haja, no modo de reproduzir essa verdade vista pela Imaginação, uma completa hipertrofia sensacional e sim, de certa forma, um fundo lógico, rítmico, harmonioso e equilibrado, até mesmo no próprio Absurdo.

 

Tanto é verdade todo esse mecanismo, todo esse aparelho montado, toda essa fotografia exata, de exatidão até à futilidade e banalidade, como é verdade, tanto mais verdade ainda, tudo que os Estesíacos sentem através dos seus entontecedores desvairamentos, através dos seus espiritualizantes espasmos, dos seus êxtases emocionais e profundos.

 

A verdade na Arte existe em cada temperamento sincero que se manifesta, em cada singular sentimento que se revela, em cada alma original que vêm dizer o seu segredo à Vida!

 

Porque a perfeita verdade da Vida na sua alta e pura essência, não é tangível — é intangível. Para apanhá-la não se faz mister uma visão direta, uma observação imediata, muito perto dos fatos, muito em cima dos tipos, nem um psicologismo científico sistemático, à outrance.

 

A frase do egrégio Balzac — o artista adivinha o verdadeiro — é de uma eloquência profunda e transcendental neste assunto.

 

A vida é real e é ideal, é ideal e é real. As inverossimilhanças, as coincidências, os acasos, os pressentimentos, a fatalidade dos seres, os absurdos, as exceções dos fenômenos gerais, as correntes de atração simpática ou antipática, as impressões desconhecidas, os espasmos ou estados patéticos, o contato, o choque, o encontro magnético e curioso das almas, o Indefinido das cousas, como que constituem o secreto lado ideal, fantástico, de sonho, da Vida.

 

A alta verdade da Vida está em Hamlet — pêndulo miraculoso e eterno que marca as oscilações da Alma.

 

Hamlet surge-nos de um fundo diluído e tocante de lágrimas e lírios, da evocação simpática e doce do Angelus das almas, num crepúsculo abençoado de infinita dolência, espiritualizado como um círio divino bruxuleando na câmara mortuária das almas numa luz final consoladora.

 

Hamlet é o céu melancólico das almas, cujas estrelas tristes, contemplativas, deslumbram-nos de um gozo quintessenciado e nos tornam cegos e perplexos de Indefinível...

 

Hamlet é a grande ansiedade do Sonho, é o Sonho se dilatando, se dilatando, como celeste, sideral serpente, na esfera da Dor, tomando nessas transfigurações, esses velados, sombrios silêncios e essas nevro-histerias mentais da Dúvida.

 

Hamlet é o violino imortal e secreto do Pensamento humano que as torturantes noites nebulosas da Consciência ferem de sons desolados.

 

Hamlet é o Arcanjo supremo das nostalgias, branco e belo, meigo, arrebatador e convulsivo, cujo gládio em chama fosforescente flameja num fundo de sombra de exótico e fulminante desdém e cujo grave gênio pálido, de uma alta e velha aristocracia de Sensibilidade, requintada e esquecida para além nos limbos da Saudade, se debruça, desespera e chora delirantemente sobre o ideal firmamento de astros mortos do seu amor...

 

Hamlet não é louco, não é doente, não é epiléptico, conforme o veredictum, as investigações e cogitações dos críticos, dos fisiologistas e psicólogos de todos os tempos.

 

Hamlet é o zênite da alma humana, nos seus momentos augustos e tremendos, nos seus estados soberbos e soberanos de laceração. É o espasmo do desdém e do orgulho transcendentalizados, acima das camadas da Terra, girando no Absoluto. É o Abstrato que odeia e que ama, que perdoa e que castiga. É a Matéria que tem sede de ser Sombra, para esvair-se, para apagar-se, para desaparecer da Matéria que a encarcera, e que a tortura. É a vibrante chama sensível da Aspiração insaciável que sonha ser o pó do Nada, para que o invólucro físico e efêmero que a contém possa acabar de aspirar e de sofrer. É o sentimento da volúpia radiante, redentora e purificadora da Morte na Vida, secretamente embalsamando de um aroma letal estonteador, como um longo e lento beijo imortal de além-túmulo, os infinitos da Eternidade.

 

Cada homem, quando se escuta a si mesmo, quando se olha a si mesmo, quando se palpa a si mesmo, quando desce em silêncio à funda cisterna imensa de si mesmo, há de sentir um pouco de si mesmo no Hamlet, daquelas irrequietabilidades, daqueles surdos, soturnos e subterrâneos desesperos, daqueles preguiçamentos edênicos, daquela alma não alma, daquele ser não ser, daqueles sublimes vácuos candidamente e misteriosamente cheios ainda de tépidas e quiméricas irradiações de estrelas apagadas.

 

Os tipos de Shakespeare não são absurdos propriamente ditos, nem são fantásticos; todos, mais ou menos, existem nos fenômenos livres e simples, espontâneos, ainda que muito pouco visíveis ou perceptíveis, da Natureza; isto é, cada um no seu conjunto, no seu todo, tem as particularidades secretas peculiares a cada ser. São tipos que rigorosamente não existem no seu modo complexo. Mas cada sentimento obscuro, esquisito, raro, subterrâneo, misterioso, de cada ser em particular, representa uma célula do organismo de cada tipo de Shakespeare, uma qualidade formadora daquelas concepções. Esses sentimentos todos, na suma unidade geral, na mais alta condensação, é que concorrem para a formação capital das sínteses maravilhosas de Shakespeare.

Porque nele os tipos vinham por blocos inteiriços, por avalanches de paixões, por complexidades sugestivas, o que por isso lhes dá a significativa toda especial de Criações.

 

Entretanto essas Criações não entram em absoluto nas regiões do incognoscível absurdo nem do incompreensível; são, pelo contrário, possíveis e verossímeis no Tempo e no Espaço, no infinito dos sentimentos humanos, porque definem esses próprios sentimentos em teses formidáveis, embora não sejam tangíveis os objetivos que tais Criações genericamente representam e simbolizam.

 

Mas, justamente porque a natureza sutil de certos fenômenos da alma e da consciência nos tipos de Shakespeare se encontra harmonicamente num dado momento com a natureza sutil dos fenômenos da alma e da consciência humana, num choque emocional profundo de forças e de elementos que se reconhecem e equilibram, é que as obras sintéticas de Shakespeare serão eternamente aclamadas, ainda que só intimamente e mais profundamente admiradas e sobretudo mais sentidas por capacidades artísticas, por intensidades mentais nervosas cujos fenômenos girem, mais ou menos, pelos mesmos pólos por onde gira a genialidade assombrosa de Shakespeare.

 

Para isso é preciso subir toda a escala misteriosa da Intuição e chegar a certos altos espasmos psíquicos da alma.

 

Esses que dizem perceber Shakespeare, admirar Shakespeare, sentir Shakespeare, para o fazerem vestem casacas de erudição por dentro, concentram-se oficialmente, ficam graves e sérios, tornam-se os difíceis e os inacessíveis da Sabedoria, porque, no entender deles, é necessário toda essa compostura solene, todo esse aparato clássico de maneiras e atitudes, quando, no entanto, para ver Shakespeare basta penetração clara, pureza e nitidez de ser, porque ele é uma expressão da Natureza, por certo a maior, a mais intensa, a mais condensada, a mais transcendente, mas uma expressão, uma força fenomenal dela deslocada, como se deslocam os corpos meteorológicos e cósmicos. Sendo um foco central Shakespeare é, no entanto, uma expansão natural dos elementos vivos e superiores da matéria organizada, é uma voz de todas as vozes, uma hora de todas as horas, um tempo de todos os tempos, uma atmosfera de todas as atmosferas, um ser de todos os seres, uma alma de todas as almas.

 

Se Shakespeare não tivesse atrás de si séculos, nem as gravidades dos doutos juízos dogmáticos, nem as fundamentações de teses críticas, nem os rebuscamentos fundos de análises psicológicas, de agudos comentários, nem as réplicas e tréplicas famosas das argumentações cerradas e fecundas como as camadas da Terra, Shakespeare não seria visto com essa encenação prodigiosa nem com esses estilos oficiais, nem com esse fundo sonhado que lhe dá a distância do tempo. Quase que já se aliena do cérebro a ideia de que Shakespeare fosse matéria animada, estivesse sujeito às leis fisiológicas dos outros homens. Hoje o seu Gênio perde-se no Espaço, é como o fio do infinito do Espírito unindo-se etereamente ao fio do infinito da Matéria e formando um só corpo abstrato.

 

Para entender, para amar, para sentir Shakespeare é apenas preciso vê-lo sem convenções nem preconceitos obscuros de consciência, na mais fácil, franca e vital nudez do Sentimento, na espontaneidade do ser, em toda a largueza genésica das suas obras, em toda a sua amplidão de Liberdade, em todos os seus gritos de Justiça, em todos os seus brados de Misericórdia, em todos os seus ais de Piedade, em todo o seu clamor de Desespero, em todo o seu soluço universal, em toda a sua dor augusta, suprema, em todo o seu amor integral e germinal da Natureza.

 

Shakespeare é uma dessas cristalizações puras e excepcionais das Paixões, o seu consumado e colossal gladiador.

 

Shakespeare, assim como Dante, pelo maravilhoso das chamejantes esferas psíquicas onde os seus espíritos rodavam estranhamente, singularmente, pela grandiosidade patética dos seus aspectos sublimes, pela resplandecente flagrância, pelo caráter genuinamente livre, altivo e soberano da sua Imaginação, pelas iconoclastias à fórmula da Compreensão secular estreita, pelas irreverências ao Método e ao Dogma, deduzidas fatalmente e logicamente dos grandes traços gerais e dos profundos golpes de vista das suas obras, dos seus temas fundamentais e revolucionários em absoluto, por conseguinte contra a Convenção moral e espiritual do Mundo; Shakespeare e Dante, fora do oficialismo e do classismo dos seus renomes imortais, mas vistos em toda a larga e luminosa amplidão da Natureza, como devem ser vistos os grandes Espíritos, são os trágicos e majestosos faróis magnos de todas as épocas, os órgãos poderosos e mágicos da Sensibilidade humana.

 

Shakespeare nos evoca as correntes vulcânicas, largos e fundos abalos atmosféricos, rara e curiosa elaboração de um novo sistema planetário, vales de rosas e de lágrimas, eclipses de sol e de lua, o Caos tomando forma e tomando corpo, a luz, por fim, se projetando e iluminando a Imensidade.

 

Shakespeare é a Vida por camadas densas, chamejando e clamando, polarizada no abismante infinito do Sonho.

 

Shakespeare é o Grandioso do Belo-Horrível, do Trágico-Sublime e do Trágico-Grotesco, do Riso-Lúgubre, do Sarcasmo de lama, estrelas e ais — é o Deus infernal e o Diabo divino.

 

Shakespeare é a Flora absurdamente gigantesca, esquisita e ensanguentada do estranho e morno mar marulhoso e maravilhoso dos gemidos, dos soluços, das lágrimas.

 

Quanto à observação, essa é o fatigado, o gasto lugar-comum dos que muito pouco ou mesmo nada possuem além dela. É evidente que um artista, desde que chegou a requintes superiores, desde que a sua concepção e forma atingiram graus elevados, se espiritualizaram, se eterificaram em abstrações, a origem dessas perfectibilidades, o crisol onde esse artista se apurou foi no da observação, no da análise. A observação parece a força mais poderosa, a qualidade mais particular para os realistas da última hora, porque no Realismo a observação é flagrante pelo documento humano, é flagrante nos objetos, nos aspectos, nas atitudes, nos tipos. Ligeiramente visto, parece, com efeito, ser a mais radical qualidade, por ficar mais em evidência, mais no primeiro plano, fazendo como que um grande relevo no Realismo e sendo assim, por isso, mais acessível às faculdades inferiores da atenção, da visualidade e da memória. Mas, o que é certo, é que em todos os tempos, para dizer um aspeto de céu, de paisagem, para traçar um fato ou um tipo, nas narrativas, novelas e romances antigos, houve sempre a observação, senão com a perfeição e apreensão modernas, ao menos com os elementos que as épocas forneciam. E mesmo nunca se poderia prescindir dessa observação na ocasião de puras descrições e desenhos de lugares, de horas, de acontecimentos, de paisagens. Por isso não me parece que seja a observação faculdade suprema. Acho-a muito evidencial, muito física, muito de nota e informação subsidiária, participando muito da natureza dos trabalhos de investigação material, de detalhes, de minudências, para poder constituir e representar a força magna do Pensamento humano. É até às vezes faculdade elementar, conseguida mais pela tenacidade de organismos por algum modo oficiais, inferiores, pela pesquisa paciente, de visão perscrutadora, do que pelas linhas profundas que formam a estesia eleita de um artista.

 

A observação constitui a força básica do artista, dela é que ele parte para as mais altas abstrações estéticas, como os Decadentes, os Simbolistas, os Místicos, partem das cruezas brutais do Materialismo, da tangibilidade do Realismo e do agudo e livre exame das Ideias positivas, além de outras absolutas origens idealistas nevro-psíquicas, num movimento natural, simples e até nobre e claramente evolutivo, de requintes da alma.

 

Se dado artista chegou logicamente a um apuro maior de emoções e só as determina de um modo abstrato, vago, fluido, não quer isso dizer que ele não tenha observação, pois essa se enuncia e consubstancia muitas vezes apenas num vocábulo exato, determinante próprio e profundo do sentimento, essa ficou, como os resíduos de um corpo líquido que se filtra, no fundo daquelas mesmas emoções mais requintadas. E, como a natureza não dá saltos, uma fisionomia legítima de artista, desde que se perfectibilizou no pensar e no sentir, passou primeiro pelos processos, embora obscuros, desconhecidos, meramente mentais, da mais pura observação, deixando simplesmente dela, para trás, tudo quanto ela tem de mais presente, seco e documental. É precisamente um trabalho delicado de alquimia da Emoção, para dar cristalinidade astral ao Espírito e à Forma, que no organismo artístico intuitivamente e invisivelmente se opera.

 

De outro modo, não se daria então o caso dos artistas que não são realistas se compenetrarem, com inteira compreensão e unção, do sentimento de observação e análise de todas as obras verdadeiramente notáveis, singularmente belas do Realismo.

 

Aqui mesmo, agora, no que vamos naturalmente dizendo, com este ar de livre e leve bom humor, estamos exercendo a observação, mais do que a observação a análise, mais do que a análise, a direta, a penetrante psicologia das Cousas.

 

A observação, a análise, a psicologia, depuradas, filtradas pela Sensibilidade, produzem, em essência, a Abstração.

 

E, já que abordamos estes pontos curiosos, atraentes, ouve ainda o que penso: Quanto à prosa, para ligar um fio de palestra que já há dias tivemos e que agora correlaciona-se a estes assuntos, dir-te-ei que a prosa não é qualidade excepcional dos prosadores exclusivos. Para um espírito complexo de Arte, para o verdadeiro Clarividente, para o Poeta, na grande acepção de sensibilidade desse vocábulo, prosa e verso são teclas, órgãos diferentes onde ele fere as suas Ideias e Sonhos. Prosa e verso são simples instrumentos de transmissão do Pensamento. E, quanto a mim, se me fosse dado organizar, criar uma nova forma para essa transmissão, certo que o teria feito, a fim de dar ainda mais ductilidade e amplidão ao meu Sonho. Nem prosa nem verso! Outra manifestação, se possível fosse. Uma Força, um Poder, uma Luz, outro Aroma, outra Magia, outro Movimento capaz de veicular e fazer viver e sentir e chorar e rir e cantar e eternizar tudo o que ondeia e turbilhona em vertigens na alma de um artista definitivo, absoluto.

 

A prosa não pode ser sempre de caráter imutável, impassível diante da flexibilidade nervosa, da aspiração ascendente, da volubilidade irrequieta do Sentimento humano. Não há hoje, nesta Hora alta e suprema dos tempos, fórmulas preestabelecidas e constituídas em códigos para a estrutura da prosa, principalmente quando ela é feita por uma sensibilidade doentia e extrema. Há tantas maneiras de fazer cantar a prosa, de a fazer viver, radiar, florir e sangrar, quantas sejam as diversidades dos temperamentos reais e eleitos.

 

É um caquetismo intelectual ou cavilosidade dos que só produzem verso e dos que só produzem prosa, não perceberem que determinado artista se manifesta igualmente no verso e na prosa, especialmente quando nessa prosa ele consegue traduzir, comunicar com clareza, com profundidade, a sua estesia, a sua idiossincrasia, os seus êxtases, as suas ansiedades íntimas. Pouco importa que essa prosa não guarde regularidades de preceitos, de dogmas, de convenções, que embora partindo às vezes de cérebros até certo ponto livres, são ainda, de certo modo, por certas causas, convenções puras. O que importa é que o artista consiga dizer imperturbavelmente, com a sinceridade dos seus nervos e da sua visão, o que de mais delicado e elevado experimenta.

 

Desde que ele tenha conseguido com lealdade estética essa profunda manifestação do seu temperamento, tem funcionado na prosa como num legítimo e perfeito órgão da sua Arte, com toda a virginal originalidade das formas inquietas, dos estilos que não são apenas literariamente feitos, que não são apenas literariamente burilados, intelectualmente brunidos, mas das formas sentidas, vividas, mas dos estilos arrancados, sangrados, vibrados eloquentemente da Alma.

 

Se essa determinada prosa dá sugestões, desperta curiosidades, faz acordar a imaginação e consegue trazer no estilo modalidades perfeitamente originais, correspondentes à originalidade do temperamento do artista, como, pois, que o que ele produz, não é prosa, não se deverá chamar prosa?

 

Por um lado até mesmo parece que não deveria ser esse o seu nome; não por não abranger o pretendido sentimento e forma especiais, particulares, da prosa, mas por ultrapassar, por superiorizar-se, por tomar outra elasticidade, outras vibrações, outras modalidades que a prosa convencional e feita sob moldes estabelecidos jamais comporta.

 

Demais, prosa e verso, numa dada natureza, são cordas vibráteis, manifestações integrais e simples de uma Estética pura e à parte.

 

E, dessas cordas vibráteis, se muitos possuem apenas uma, com delicadeza, intensidade e correção superior, não quer isso dizer que outros não possam, por excepcionalidade, possuir duas, com igual ou maior correção ainda, o que simplesmente indica complexidade e força.

 

Um ser artístico assim é como uma harpa exótica de duas cordas: —uma corda para a prosa, outra corda para o verso, formando os sons de ambas essas cordas uma igual harmonia.

 

Há horas em que o espírito, por infinitas dolências, pela volúpia do Vago, pelo desejo consolador de elevar cânticos às Esferas, de compor músicas leves, sutis, ritmos langues, finas baladas, peregrinas barcarolas, de murmurar, enfim, queixas veladas, cinzela estrofes, vaga pelas gôndolas siderais da Poesia...

 

Mas, há também outras horas, em que o espírito, revestido de severas vestes talares, é arrastado por sugestões desconhecidas de uma eloquência magna, mais indutiva, comunicativa e direta e fala então clarividentemente pelo Salmo austero da prosa.

 

Da prosa que nos faz viver com as suas vidências sugestivas, que cria para nós novos mundos imaginativos, que nos revela tesouros virgens, intactos de pensamento e que nos abre de par em par as portas de uma outra Vida.

 

Da prosa clarividente e percuciente — alvorada de fanfarras de ouro e diamantes, que acorda, chamando alvoroçadamente e nervosamente a postos, os belos e bravos legionários da Reivindicação do Espírito!

 

Do verso que nos desperta, que nos chama com seu amor, que nos procura, que vem a nós generosamente, que nos conquista e que nos bate heroicamente ao peito com suas asas de águia.

 

Do verso que renasce, que ressuscita na glória da Forma e que semeia d'estrelas e de lágrimas o seio branco, cândido e fecundo da Alma.

 

E a Originalidade — alacridade nervosa, vinho acídulo e delicioso da sensação, extravagante humor cor-de-rosa, — timbra claro e quente, com os afidalgamentos do Estilo, a emotiva e esdrúxula linguagem do atormentado Sentimento.

 

Depois, há naturezas que são como cristais de múltiplas facetas; têm diversas irradiações, brilhos imprevistos, que são fugidios, escapam a muitas percepções.

 

Depois, certas percuciências, certos atilamentos, certos golpes acres e fundos, embora por síntese, em tudo quanto é meandro e capciosidade do medalhismo, certos sentidos, exotismos de forma, dão, para certa classe incolor e inodora de inteligências, um efeito d'escândalo obsceno. Como que perfeitamente causam, sempre, em todas as épocas, em todas as fases, a sensação brusca, violenta, de um homem flagrantemente nu entre outros homens inteiramente vestidos e muito apertados numa espécie de espartilho de convenção intelectual.

 

— É como a velha questão das escolas, dos grupos, que desorienta e confunde a tantos.

 

— É verdade, as escolas, as escolas! As escolas só ficam com os principais, com os chefes ou fundadores. Só os que conseguem marcar fundo a expressão de um sentimento e de uma forma, Os que têm os arrebatamentos e alucinações do Sonho e que pairam fora das órbitas geralmente traçadas. Os mais são apenas satélites, reflexos pálidos, metidos numa compreensão restrita como em escuros, lôbregos e estreitos corredores. Essas filiações, pois, desde que não há grandes asas desvairadas para plainar no alto, só amesquinham e vão aos poucos inoculando o espírito frívolo de moda nos que não possuem temperamento ingênito nem essa força de isolamento mental para criar sem sugestões diretas, imediatas. Quanto aos grupos, tanto quanto é mister a organizações sociais, não há grupos constituídos, como a Sociedade Amor às Letras, a Palestra Amena, a Brisa e o Grêmio do Momento Solene. Os grupos, como se compreende, são os que se pode dizer criados por abstrações, isto é, individualidades que já existindo, aqui, além, lá, em todo o tempo, vêm a se ligar mais tarde, no mesmo meio ou fora dele, por grandes linhas gerais, por correntes de simpatia intelectual, por inteiras relações de afinidade estética, por harmonia de requintes até certo modo unos, embora cada uma dessas individualidades tenha a sua enfibratura especial correspondente a um dado requinte. Os grupos, quanto a mim, só se estabelecem assim, independente da vontade própria de cada um, mas por um impulso desconhecido, por um instintivo apuramento, por uma seleção natural que foge a todas as regras preestabelecidas.

 

Assim, meu caro e saudoso seminarista de outrora, de que servem argumentos de ferro, de que valem confusões e atropelos, se tudo, na Arte, vai se aclarando numa luz meiga, inefável, serena como a desta tarde que nos envolve, se tudo são embaraços que desaparecem uma vez que se adquire a força altiva, embora obscura e humildemente desenvolvida, de uma convicção e fé verdadeiras?!

 

Em Arte é escusado negar quem for um ser definitivo, supremo, como também é escusado afirmar quem o não for. Não é a opinião deste nem daquele, nem mesmo do mundo inteiro que afirma ou que nega; mas sim única e simplesmente a Natureza nas espontâneas, flagrantes Revelações, no poder misterioso, na inevitabilidade dos seus fenômenos profundos.

 

Depois, quando se chega a certas claras alturas; quando, transfigurados, nos encontramos frente a frente, e de olhos leais e límpidos, com a verdadeira magia do Belo; quando, afinal, sentimos dentro em nós viver o Absoluto, ficamos vagamente sorrindo, serenos e silenciosos, a cabeça um tanto inclinada numa atitude beatífica, como, na eloquente mudez das Esferas, sob a augusta solidão das estrelas, a atitude patética e meio sonâmbula de um demônio divino.

 

De que servem, pois, mofas, de que valem, pois apupos?

 

É de ti, deste, daquele, que falam, que vociferam? Pois as bocas, que eles trazem, para que foram feitas? Para falar, não é assim? Pois que falem, as bocas... Pois que unjam de fel o teu nome, as bocas... Pois que se saciem de ti, as bocas... Pois que lubricamente te devorem, as bocas...

 

Que te neguem, por pregões ridículos, por decretos grotescos, que façam, em torno do teu nome, a campanha cavilosa do silêncio ou das perfídias e caluniazinhas da mediocridade e nulidade triunfante — que importa isso?! — se tu, na serena força da tua Fé, vais calmo, vais tranquilo, no radiante humor, despreocupado, simples, dos que caminham, dos que seguem desdenhando sempre?!

 

Riem de ti, acaso?! Pois, então, ri-te, tu, do riso... A tudo isso, a tudo isso, ri-te, ri-te... Por mais venenos, por mais perversidades, por mais volúpia maligna, por mais crime, por mais vício psíquico que essas risadas possam ter, fica simples e alto, intacto, imperturbável diante de tudo isso e ri-te, — risadas, risadas, grandes risadas vibradas d'alto e ao largo a tudo isso — grandes risadas, grandes risadas!

 

E, um dia, pelas razões ingênitas da tua organização, se tiveres uma natureza genuinamente eleita, tocando alto no Sentimento; um dia que a manifestares toda inteira, amplamente, tal como se foi ela de grau em grau fecundando, verás o abalo, os turbilhões de ar que irás aos poucos deslocando em torno de ti.

 

A princípio, os mais fátuos, que te julgarem conhecer melhor, só sentirão e conhecerão de ti os lados visíveis, os pontos de perfeita tangibilidade.

 

Mas, quando a obra que estiver chamejando dentro de ti for tomando complexidades, absurdos novos, exotismos, eloquências esquisitas e por isso inocentemente agressivas, atacantes e demolidoras nas suas linhas gerais, sem parti-pris, sem pose, mas por fundamentações e integrações, tudo se bandeará do teu lado, os de mais lisura ou mais afetados apenas de intelectualidade recuarão de ti como se tivesses lepra ou trouxesses estigmas infamantes, labéus ignóbeis, e, desde logo, a cisão fatal se dará então subitamente, pejando o ar de dissabores amargos de veementes dissensões...

 

É como se tu fosses por um livre caminho a fora com diferentes companheiros e de repente o caminho se bifurcasse: — várias encruzilhadas, uma direita, clara, extensa, as outras curtas e tortuosas, se te apresentassem diante dos olhos.

 

Tu seguirias pela mais longa, pela mais ampla, pela mais larga. Poucos te acompanhariam. A maior parte tomaria as fáceis encruzilhadas curtas, mas tortuosas...

 

E, se um dia, chegado primeiro que eles ao termo da viagem, em virtude da mais pronta acessibilidade do caminho largo, franco, direito, tivesses de os encontrar mais tarde, poderias, não há dúvida, apertar-lhes lealmente as mãos, falar-lhes com simplicidade e afeto, abrir-lhes cordialmente os braços, mas terias ficado, pelas dispersadoras fatalidades do tempo, já muito afastado, muito longe deles.

 

É que as almas, quando chega a hora alta e grave dos supremos julgamentos, das seleções supremas, separam-se inevitavelmente, sem remédio, irreconciliáveis e tristes, só ficando juntas sempre aquelas que marcham para o centro inflamado do mesmo Objetivo.

 

Depois, mesmo, neste deserto de pedra das almas, as almas brancas, essas que trazem a Grandeza e a Espiritualidade consigo, essas, em virtude das Dúvidas, das Oscilações ambientes, têm que soluçar até à morte!

 

Enquanto passares por certa fase de incipiência; enquanto deres a esperança de ser uma eterna esperança; enquanto te julgarem o perpétuo acólito reverenciador e discreto, a fácil muleta de apoio às suas vaidades e pretensões, todos te bafejarão como um recém-nascido beijocado de mimos, amamentado com carinhos babosos, cercado de cuidados infinitos, de enleios afagadores. A Hidra das Literaturas, supondo-te tímido e nulo, te embalará em seu seio, iludida contigo, dizendo soturnamente: — este é dos nossos! este é dos nossos!

 

Mas, assim que levantares resoluta e inabalavelmente a fronte, assim que começares a manifestar mais a recôndita sensibilidade dos teus nervos, a insatisfação da tua estesia, assim que o teu espírito for se difundindo no espaço, enchendo as Esferas, a boa Hidra-Mãe te será carrasco, forjando para a tua cabeça, subterraneamente, a guilhotina feroz!

 

Vendavais de antipatias, de ódios, de despeitos, de retorcidas e esverdeadas invejas soprarão desencadeados sobre os teus ombros atléticos e firmes...

 

Enfim, carregar cruzes, arrastar calvários, irás pelo mundo, irás pelo mundo!

 

Se trazes com efeito contigo uma feição nova da Arte, trazes contigo uma Dor nova...

 

Se trazes com efeito contigo a inflamada matéria-prima para fundir os Ideais mais nobres e belos, agora é só comunicar-lhes vida, intensos sopros de vida, te concentrares neles, e resplandecer, e alar...

 

Nessas romarias e escaladas obscuras em que por ora vais, pelo Espírito, não sejas dos oportunistas da Arte.

 

Acompanhe-te, ilumine-te sempre esse profundo sentimento artístico de abnegação cultual, de resignação, ou antes de conciliação na Dor, de desprendimento completo das Ambições e Ostentações, do Grande-Lânguido Verlaine, alma de meigo lirismo, essa frescura e velhice cândida de emoção, Fauno-Sacerdote a oficiar nos Missais hieroglíficos da suprema volúpia da Forma ou desse outro ducal, aureoladamente flordelisado e excelso Villiers de L'Isle-Adam, sublime e celeste Artista, que tem para mim um encanto misterioso de cintilação planetária e uma solenidade sagrada de tabernáculos intactos.

 

Que a tua forma seja floresta, seja mar ou seja céu!

 

Segue, com unção e contrição, essa espécie dolente de martirizados Santos sem nichos — Santos temerários que afrontam com impassibilidade os incêndios devoradores das paixões do mundo; que, como Santo Estêvão, se deixam brusca e impetuosamente apedrejar na concavidade do peito, tendo a douta, a erudita clemência apostólica de Santo Agostinho.

 

Segue esses Santos tristes — meio obscuros e poderosos, meio humildes e rebelados, meio ironistas e sarcásticos. Seres mórbida e voluptuosamente estesíacos, eles como que trazem um curioso desvio do sexo, fazendo evocar Santa Teresa de Jesus, cuja requintada mortificação no recolhimento da cela parecia significar a tortura máscula, viril, do sentimento de um eleito da Grande Arte, que se tivesse ido fenomenalmente asilar, por sutil, imperceptível erro genésico, num delicado e nervoso temperamento feminino...

 

Falo-te assim, venho formando diante da tua imaginação prenunciai de noviço esta atmosfera de Evangelho e Religião, não por abusados e calculados misticismos, mas porque falo a quem, pelo menos, sentiu já, nas reclusões aquietadoras do Seminário, os grandes e graves Ensinamentos e Eloquências e Intuições da Religião, na sua essência livre, na sua estética original e na sua harmonia.

 

Segue, pois, com todos os teus exageros de natureza, com todos os teus grandes defeitos aclamados, que a Chatez gloriosa há de esmiuçar e descobrir mais tarde, para não se sentir muito pequena, diminuída na tua presença; defeitos só correspondentes a grandes qualidades, e que constituiriam, só por si, de tão eloquentes e francamente excepcionais que são, as obras mais espontâneas e impressionantes dos que não trazem nem mesmo esses grandes defeitos, dos que são apenas individualidades feitas, intelectualizadas, mas não originadas de fatais e enraizados fundamentos artísticos.

 

Ah! esta sufocação de ar, esta asfixia, estes escrúpulos, esta suscetibilidade por ver-se a gente livre de todos os incipientes, de todos os noviços, que são eternamente incipientes, eternamente noviços, "porque não têm horas vagas para obrazinha, porque isso de Literaturas não dá pão para a boca", e outras capciosas razões de impotência que eles entre si discutem.

 

Sim! porque quanto a mim o Artista é um predestinado!

 

Quanto a mim ele é como uma ave estranha que já nascesse com as suas asas poderosas e gigantescas, ainda retraídas embora por algum tempo, mas que depois as fosse abrindo aos poucos, abrindo, abrindo, até que se distendessem de todo pelos espaços fora, projetando então a sua grande e consoladora sombra de Amor sobre o velho mundo fatigado.

 

Ah! esta ansiedade de segregar-se a gente desses liliputianos prolíferos, que se reproduzem mais indefinidamente que os bichos-da-seda; que nos agarram pelo braço, que nos entram pelos ouvidos, pelos olhos, que nos atordoam com prosas e versos, sempre muito superiores e requintados!

 

Dessas individualidades grotescas, que querem tornar a Arte de assalto e à bruta, sem nunca compreenderem profundamente as cousas, por mais que falem, por mais que gesticulem; verdadeiros animais de corrida que pensam que a Arte é uma questão de aposta para ver quem chega primeiro e mais garboso ao final.

 

Iconoclastazinhos, sem essa veneração nobre, sem esse recato elevado, esse melindre das naturezas concentradas, cujo acatamento e cujo fundo de timidez característica são o toque mais belo e mais digno dos que reconhecem justa e eloquentemente a superioridade dos outros, exprimindo e demonstrando também assim, por essa forma simples e simpática, uma das faces da sua própria superioridade.

 

Oh! insaciável, ardente aspiração de árvore antiga, legendária, que quisesse ficar completamente liberta de todas as parasitas, de todas as ervas, de todas as lianas, de todos os musgos, de todas as trepadeiras e baraços e nervosidades e vertigens de folhagens que a abraçassem, que subissem por ela acima, que a povoassem de verdura alheia — deixando-a só, só, simples e cheia de sombra, vivendo serena e silenciosa, ou gorjeada da Aleluia dos pássaros, para a Amplidão azul!...

 

Não, não será por um estreito pessoalismo egoístico, por uma compreensão acanhada, por uma presunção individual que tu te manifestarás com excepcionalidade de sentir, de ver, de pensar.

 

Mas o teu lábio arderá de tanta inquietude, palpitará de tanta febre, sangrará tanto que tu exprimirás então por Sínteses tudo o que constitui a essência do teu ser e passarás assim por iconoclasta e pessimista à ou-trance, apregoador de falsos paradoxos, demolidor sem o fundo de um objetivo honesto, fútil, folgazão, mundano que afinal até inveja as glórias mais decantadas que cem mil trombetas proclamam das velhas muralhas de Jericó da Opinião!

 

Mas tu, como um inquisidor original e santo purificarás com o fogo benéfico do teu Espírito, essas chagadas consciências humanas debatendo-se, desoladas numa impotência que escondem sempre bem fundo como certos tísicos escondem, negando, o grau agudo da doença corrosiva e lenta que os dilacera.

 

Nós outros, que por aí dolorosamente andamos desbravando as florestas virgens da língua, deflorando os viços púberes do vocábulo, procurando dizer claro, claro como trompas sonoras estrugindo no mar sargaçoso e resplandecente, numa rosada manhã de pesca, claro como se o sol falasse, os nossos estados d'alma, os nossos êxtases, as nossas idiossincrasias e inquietudes, de abelhas nos caprichos curiosos da colmeia, somos como fantasmas múmicos, por desertos, batemos de cheio em paredes de bronze, rebentamos horrivelmente a cabeça contra tenebrosas masmorras de granito...

 

E vê, vê tu lá que não é isso uma visão do avesso, um modo rude, violentamente carregado, de sentir; — mas, tu que sonhas, que ambicionas já ser limpo nas tuas Enunciações, trazer o sinal característico, o cunho imaculado, a prata e a bronze, a ouro e a aço, a sol e a sangue, de uma evidência firme, vê lá bem se não é assim tudo, se tudo não é corja, corja, corja que rasteja, corja que raiva, corja que ruge, hordas brutas que bramem, bárbaras, hórridas hordas...

 

Através da névoa delicada das cismas que te tecem brando e emovente crepúsculo nos olhos, eu vagamente pressinto radiantes lineamentos, revelações curiosas do teu Oriente espiritual futuro, como das neblinas tranquilas e luminosas desta carinhosa tarde que finda antevejo a aurora flavescente de amanhã...

 

Sugestivamente, agora, cheia de concentrações e de vago, a tarde descia, mística, suave e sagrada, evangélica, para a Religão solene do Silêncio...

 

Derradeiras harmonias veladas, de sol e sombra, erram indefinidamente nos espaços...

 

E, sombra e sol, na transição dessa hora meditativa, como que parecem sensibilizados, tocados de emoção humana, de músicas enevoadas, misteriosas, sonorizando os afetivos acordes de almas virgens, mortas, felizes e firmes, com alvuras meigas de Castidade, na solidão da Fé cristã.

 

Dorsos de colinas, ao fundo do mar calmo, recortam-se nitidamente no horizonte, já mais vago, esfuminhando o doce tom de verdura que ao longo e ao largo aveludesce.

 

Um barco, lentamente, fere as águas melancólicas do verde e vasto mar amargo.

 

A embaladora dormência dos aspectos dá um repouso pacificante...

 

E, dentre a crepuscular serenidade, mais densa aos poucos, voa, vai e vem e volta através da espuma branca das ondas, pelos aloendros floridos e salitrosos, uma ave alvinitente, de incomparável suavidade, que não canta, mas que dá saudosamente à tarde a mais tocante espiritualidade só com o encanto aéreo dos voos, só com o ritmo leve, fino, das asas simples e venturosas...

 

O sol, nos opulentos damascos do Poente imergira já de todo, profundamente: — Nero lascivo, em tédios augustos, no gozo mórbido das chamas rubras do incêndio de Roma; Rei guerreiro, por entre as púrpuras sanguinolentas de acres batalhas.

 

As sombras, vagarosas, no delíquio final do dia, descem, descem...

 

Estrelas, num esmalte finíssimo de cristais e pratas, começam a florescer, a marchetar o firmamento, em faiscantes e trêmulas claridades de Relíquias miraculosas.

 

Soberba, imensa, prodigiosamente branca, misteriosa, como eterna paixão estranha, uma lua brumosa, feiticeira e lendária, surge, trazendo vivamente um desejo na face triste, atormentada, arrastando pesadelos sinistros de assinaladores presságios de vingança...

 

A paisagem amplia-se num adormecimento luminoso e velado, toda ela recendendo aromáticos eflúvios, como se névoas delicadas de perfumes luxuriosos, queimados em ânforas invisíveis, ondulassem vaporosamente...

 

E, sob a noite, que pompeava profunda, aureolada da resplandecência maravilhosa das Estrelas e da Lua, os dois vultos, como missionários graves dos sombrios e supremos Sacrifícios, seguiram mudos, calados, a cabeça descoberta ao sabor carinhoso da aragem perfumada.

 

Assim graves e abstratos caminhando atravessavam agora as abóbadas cheias de segredos noturnos das grandes árvores frondosas de um vasto parque, parecendo, então, pela austeridade religiosa que os exaltava nesse momento, penetrarem, reverentes e calmos, paramentados solenemente, no majestoso Vaticano da Arte.

 

 

  

Morto

 

 

No féretro negro, por entre os círios langues, o grande, o doloroso Errante está serenamente morto.

 

Está morto, no féretro negro, para nunca mais ressurgir! aquele espírito doentio e torturado, aquele organismo triste, tenebroso, que trágicos pessimismos humanos fecundaram do ódio mais canceroso, gangrenado.

 

Ali está, gélido, rígido, alto, esquelético, com o fino aspecto delicado e singular de um magno aristocrata martirizado, inquisitoriado, a cujo fugitivo semblante duros cilícios deram a expressão lancinante de sacrifício ascético.

 

Não sei sob que sugestão de pesadelo ou de letargo fica o pensamento diante desse mortuário aparato, que o morto parece avultar aos meus olhos, ter a enformatura titânica, a grande e extraordinária corpulência de gigante rojado por terra, subjugado, vencido pela majestade suprema de uma dor avassaladora, imensa...

 

Do tom negro do féretro destacam, brusca e pavorosamente, os tons brancos, álgidos, crus, irritantes, dos gelos da Morte...

 

O corpo, hirto, tensibilizados os nervos na extrema convulsão do tremendo e derradeiro momento, tressua um frio horrível, lesmento, que parece, tal a agudeza da impressão mortal que se experimenta, tocar, envenenando, por filtros letais, o pensamento...

 

No silêncio aflitivo e torvo do ambiente como que vagam, num refrain lúgubre, numa sinistra litania, errantes, incoercíveis vozes de além-túmulo, crocitando: morto, morto, morto!

 

E a impiedosa palavra, amargamente desdobrada em angústias, ecoa, ecoa, perde-se no silêncio aflitivo e torvo do ambiente, como um dobre agudo, cortante, arrepiando e pungindo: — morto, morto, morto!...

 

No entanto, esse aristocrático cadáver, que agora tudo aterroriza e lesma, edificou outrora na Imaginação palácios encantados de índias opulentas, bebeu o vinho perturbador da Vida até à saciedade, sentiu com intensidade a paixão das cousas como chamas eternas que o devorassem e, como por um lodo verde e putrefato, foi vorazmente invadido pela febre pestilenta do Mal...

 

Goza-se agora uma sensação esquisita, mas eloquentemente bela, em evocá-lo em Vida: quando ele voltava da vertigem, da alucinação das turbas; quando ele errava exilado, perdido, lívido, soturno, silhuético na sombra da multidão desdenhosa, arrastado pelo turbilhão devorador dos fatos, sem hora e sem rumo, como fora de todo o tempo e de todo o espaço, — fantasma do Vácuo, impelido pela avalanche sangrenta dos sentimentos atrozes que o apunhalavam, que o retalhavam...

 

Evocá-lo em Vida, desde a profunda cabeça que um nirvanismo búdico assinalava, cabeça venenosa de serpente que em vão a si própria morde, cabeça donde voejaram ideias sinistras como famulentas aves de rapina.

 

A face, branca e lânguida, de um estremecimento precocemente senil, que os livores de intensa mágoa tornavam ainda mais branca, mais esmaecida e transfigurada... Face trêmula e fria, como velho e maravilhoso mármore móvel, acusando todos os nervosismos interiores, todas as vibrações recônditas, todos os tédios desesperados e infinitos.

 

Os olhos lúridos, desse lúrido sombrio que dá a biliosa expansão dos ódios, olhos turbados pelos nevoeiros da amargura, pela melancolia da meditação, ou estranhamente iluminados pelos incêndios do delírio e onde a feérica fantasia rutilara e cantara outrora; esses olhos fatigados que tanto se queimaram de curiosidades exóticas, de visualidades fantásticas, de miragens excêntricas, que tanto se embriagaram na orgia da luz e do sangue, que tanto viram, gozaram, se extasiaram e esgotaram na paixão de olhar, que tantas vezes sentiram, atônitos, estupefatos, a Visão do Ignoto persegui-los, afligi-los, agoniá-los...

 

A boca, a boca mordaz de outrora, acre, violenta, remordida asperamente de um sarcasmo satânico, ansiada de apetites, aberta na febre voluptuosa de devorar os frutos atraentes do pecado, e rubra, rubra, acesa num colorido vermelho de guerra, gritando e cantando guerra, gritando e cantando guerra, gritando e cantando guerra, guerra, guerra, guerra, por toda a parte, por toda a parte, por toda a parte...

 

Evocá-lo nas mãos, luxuosas mãos de príncipe esvelto, esgalgado, nas mãos de falanges longas, e rememorar que gestos curiosos, magos, que hieróglifos demoníacos, que símbolos miraculosos aquelas mãos não traçariam finamente no ar!? Quanto poder dominativo, real, que solenes predomínios, que majestade suprema, só com um sinal rítmico dessas mãos inteiriçadas agora! Quanto ideal e quanta glória impulsionados no gesto simples, sóbrio, das mãos que tão veementemente palpitaram, que tanto estremeceram e pulsaram vivas como dois estranhos corações que vibrassem juntos! Que fugidias expressões nas linhas, nas curvas e que fluido de mistério, que segredo nos atritos, no contacto quente dessas mãos que foram já os seres caprichosos, flexíveis, dúcteis, das delicadezas da forma. Dessas mãos batalhadoras, combatentes, tenazes, onde uma vitalidade excepcional de atividades circulava; mãos intrépidas, vitoriosas, cheias de emoção, de sensibilidade, de alma, penetradas de uma bravura indômita de aplicação, de altivez e sereno orgulho; mãos donde parecia alarem-se leves asas diáfanas e triunfais de um sonho e cuja ramificação das veias, em múltiplos raios estriados, parecia também acusar uma eflorescência perpétua de qualidades, de aptidões, de sentimentos, de gostos, de secretas e particulares predileções do tato...

 

Para onde foi, já, todo esse surpreendente encanto das mãos, toda essa maravilha de sutilezas de pássaro, de névoa, de nuvem, que as duas mãos enigmáticas desse enregelado e esgalgado cadáver por tanto tempo prodigiosamente contiveram?! Onde, já, a beleza artística do seu gesto, a graça da sua ductilidade, a eloquência do seu movimento?...

 

E os pés, — ah! — e os pés?! Por onde ficou perdido todo aquele alvoroço e ardor de caminhar, toda aquela sede insaciável, toda aquela angústia de percorrer caminhos, de demandar estradas, de conquistar distâncias, de romper nervosamente, infatigavelmente, o rumo de um Destino desconhecido?! Onde essa febre, essa febre de caminhar, de vagar sonâmbulo, pelas noites, pelos dias, taciturnamente? Onde? Onde essa nervosidade, esse calor latente para errar, para noctambular só, por entre os rudes aspectos hostis da Natureza fechada em trevas, mudo e só nas noites, sem estrelas e sem rumo!

 

Onde a ansiedade vertiginosa, delirante, desses pés agora frígidos, parados no espasmo terrível, no doloroso enregelamento, petrificados na amargurante saudade de rasgar caminhos ermos e infinitos?! Pés inquietos, impacientes, atormentados pela desolação dos desertos, queimados pelas tórridas areias saarianas, e agora — ah! — para sempre álgidos, hirtos e horríveis, rígidos no féretro, para jamais caminharem, para jamais errarem, como que numa glacial ironia de mudez e terror...

 

 

 

Vulda

 

 

Os veludos e aromas noturnos do teu próprio nome, Vulda, têm o estranho encanto dessa indiana majestade bramânica e ao mesmo tempo uma volúpia morna de luar de Verão, derramado lânguido, lento, molemente, pelas longas e caladas praias claras...

 

Desperta-me o desejo do longe, do ignoto, do remoto, do ermo, do indefinido, na nonchalance, na displicência e preguiça aristocrática de um príncipe êxul, que erra e sonha, contemplativo e solitário, nas arcarias góticas dos nobres pórticos onde viera vê-lo, outrora, a Amada peregrina.

 

Sempre que o pronuncio, sempre que ele me aflora aos lábios, Vulda, experimento a sensação esquisita do sabor de um fruto delicioso, de maravilhosa tonalidade, sazonado num clima d'ouro e d'azul, por sóis germinais e terras virgens.

 

Sempre que o pronuncio, como que sinto o lábio sangrar, sangrar, pelo gozo vivo, intenso, de o pronunciar, como se a minha boca mordesse com avidez, com gula, a polpa deslumbrante de áurea carne viçosa, pubescente, fina.

 

Fico num êxtase de o murmurar baixo, mansamente, e o ficar gozando, gozando, quase palatalmente, no requinte voluptuoso de todos os sentidos apurados.

 

Evapora-se dele o eflúvio emoliente, langue, da penugem sedosa das gatas, a coleante e hipnótica nervosidade das serpentes, tentando, fascinando, tentando, magneticamente fascinando pelo brilho agudo, aterrorizante e elétrico, dos sinistros olhos letíficos...

 

Como que escorre do teu nome um óleo doce que tudo fluidifica, dilui...

 

E faz pensar num vasto mar desolado, deserto, em regiões longínquas, onde, d'alto, d'asa espalmada e ufana, pássaros tardos voam...

 

Nome excêntrico, lembrando o tropicalismo de uma vegetação exuberada, exultante de seivas, que dir-se-ia profundamente vibrada de sensação psíquica, vivendo a nevrose estética de sentimentos delicados.

 

Ele evoca-me o colorido extravagante, exótico, de uma Flor selvagem e rara destas prodigiosas florestas da ampla e verdejante América — Flor aberta através as vertigens e as pompas de folhagens seculares e através as plantas gigantescas e esdrúxulas, de uma complexidade original de germens, de fibras, de infinitas raízes, de cheiros acres, mornos e intensos, de nuanças e formas múltiplas, como de desejos e aspirações vivas.

 

Teu nome sugestivo, conceptivo, constela-me a Imaginação de bizarras e preciosas fantasias.

 

E só de o lembrar, só de o recordar e acender nos lábios, uma grande Saudade fere-me pungitivamente a alma, que agitada estremece, e tu, então, surges, Vulda, surges do meio de um clarão esmaecido — não sei se viva, não sei se morta!...

 

Não sei se viva, com a boca alvorada num beijo em febre, os olhos crepitando na chama de uma luxuriosa ansiedade, e vagos, vagos na perdida dolência infinita das cismas e melancolias.

 

Não sei se morta, álgida, mumificada, os impolutos braços e seios florescentes outrora, agora lívidos, rígidos, desvirginados pela peçonha lesmenta, larvosa, da Morte...

 

E há também o langor d'onda quebrada, adormentada, Vulda, no teu nome nostálgico e evocativo de extasiantes ocasos — nome harmonioso, ritmai, de voluptuosa graça d'ave, voando, Vulda; nome sonâmbulo de mistério, Vulda; nome impressionante, velado, solitário e dolente, de monja, Vulda; nome de Visão alanceada, martirizada, em cilícios e sonhos circulando, volteando, Vulda; nome, enfim, de trágica, de bárbara e bela, sanguinolenta Rainha de aventuras e apaixonada, apunhalando, em gôndolas, sobre golfos, nos alucinamentos do ciúme, pelas maravilhosas noites prateadamente estreladas do Adriático, num delírio romântico, os patéticos Manfredos espiritualizados e pálidos...

 

 

  

Anjos rebelados

 

 

Trindade de tristes e de trêmulos, sombrio terceto do Dante, todas as tardes, pela violácea bruma poente, aquelas velhas obscuras apareciam, solitárias, soturnas, e tomavam diretamente o nebuloso caminho do Campo Santo.

 

As suas três altas e graves figuras de impressão violenta, talhadas em relevo forte, evocavam mesmo, juntas, um titânico terceto dantesco, pela expressão funda e singular, pela majestade sagrada que ressaltava dos seus semblantes pálidos e macerados.

 

Mas, quem olhasse bem para elas, quem lhes penetrasse as psicologias profundas, sentiria que através de toda essa austera e estranha fisionomia pairava uma candura diáfana, a meiga e terna suavidade de Grandes Anjos brancos e piedosos.

 

O encanto de um sonho, o sentimento de uma infinita nostalgia, dessa nostalgia de seres emigrados de regiões longínquas e misteriosas, nimbavam os seus perfis assinalados de uma unção celeste.

 

Era como se elas tivessem realmente descido dos céus, brancas e arcangélicas, as grandes asas excelsas palpitando, o grande resplendor das Onipotências e das Graças nas frontes intemeratas, para purificar e tornar perfeitas as pobres almas na Terra.

 

Toda a intensa e nobre vida afetiva, toda a resignação, todos os abnegados sacrifícios, todo o imenso martirológio humano cantavam elegias, melancólicas sonatas nos seus olhos misteriosamente nublados pela névoa das desesperanças...

 

Percebia-se que eram Mães, pelo acentuado das solenes figuras, pela linha das cabeças sublimadas, grandíloquas, que uma larga auréola de estoicismo circundava, santificando.

 

Mas, porque a Dor transforma as almas mais belas, faz blasfemar as consciências mais firmes e crentes, faz poluir de deprecações e anátemas as bocas mais castas, mais impolutas e santas, as três Dolorosas se transfiguravam, os seus corações traspassados das espadas dilacerantes da agonia infinita, enchiam-se de um torturante fel, de um mal secreto, de uma terrível cólera sacrílega contra o Vago, o Desconhecido, o Incerto.

 

E, então, os Grandes Anjos brancos e piedosos eram agora os Anjos Rebelados, iluminados pela luz das Vinganças absolutas, de joelhos junto aos túmulos amados dos filhos, com os braços abertos em êxtase, na ansiedade e palpitação de asas que desejam abrir voo para além, para além das recordações.

 

A angústia que lhes agitava os espíritos, a atmosfera circundante: — campas, contemplativos ciprestes, chorões suspirantes, eucalíptus nervosos e contorcidos, a doentia vegetação de todo o Campo Santo, aquele ambiente carregado de impressionismos lúgubres, de silêncios penetrantes, de solenidades panteístas, davam às três velhas e aflitivas figuras uma eloquência suprema de Videntes.

 

A rudeza, as asperezas, os volteios chãos e simples da sua linguagem, vestiam-se, pelo efeito mágico das intuitivas inspirações, de suntuosos veludos; pompas augustas de frase davam deslumbramentos inauditos às suas queixas, iluminavam as suas blasfêmias, imponderalizavam os seus sacrilégios, que vinham mais radicais, mais irrefutáveis que Dogmas!

 

E as imprecações lhes jorravam vivas e violentas das fundas bocas amargas e murchas...

 

Uma lividez de desesperos contidos, mais forte lhes avivava a máscara trágica dos rostos engelhados, cujas peles ressequidas tinham, por vezes, com a febre interior do sangue, leve brilho fugace.

 

Ventos desencontrados e duros, soprando rijos no crepusculamento da tarde, agitavam como frouxas e flébeis cordas de harpa os fios sonoros e cetinosos dos seus cabelos alvos, através dos quais passava uma ligeira música convulsiva, que os desgrenhava...

 

Eram três pesadelos deblaterantes, hirtos, — cabeças brancas elevadas ao céu, braços espectrais abertos, abertos, abertos na ânsia das inconsoláveis saudades, abertos em busca dos bens amados que lhes fugiram, como vazias cruzes de estradas ermas esperando em vão os Cristos místicos e ensanguentados que imprevistamente as desampararam levados por transluzentes Arcanjos invisíveis.

 

E, das suas fundas bocas amargas e murchas, a linguagem blasfematória, assim épica e transcendentemente, em monólogos, clamava:

 

— Aqui estou, meu Deus, Senhor! nesta penitência de angústia, batendo o peito, junto à sepultura querida do meu filho, murmurando as rezas, as orações da minha Fé.

 

Tanto que te pedi, tanto que te supliquei que me deixasses morrer primeiro que o meu Luís, ou que me deixasses acabar ao menos perto dele, para que pudesse cobrir de ardentes beijos os seus olhos azuis que eu adorava, as suas mãos que batalharam por mim, sentir o último clarão da sua doce inteligência e alma pura que só, só para mim viviam, só por mim eram felizes e carinhosas! O meu primeiro filho, que tanta luta me custou, tantos perigos, tantos e tão grandes me fez sofrer! O que eu te pedia, só, Senhor! é que me deixasses meu filho, tão rico de mocidade, tão rico de esperança, tão protegido do meu amor e que lá se foi morrer longe de mim, náufrago, nessa cova medonha do Mar, por uma noite de tempestade, talvez já sem velas o barco e sem ao menos, ah!, quem sabe!, sem ao menos estrelas no céu, Senhor, sem estrelas no céu, Senhor!

 

Apenas um consolo tive e esse bem amargo, bem amargo consolo foi.

 

Quando encontraram o seu cadáver e que mo vieram piedosamente trazer para que eu o enterrasse, para que eu sentisse a comoção derradeira de vê-lo e enfim dar-lhe a sepultura, a última despedida do meu olhar, o desesperado adeus final; quando mo vieram trazer, quando vi aquele cadáver amado perto de mim, ah! como estremeci de horror e de agonia... Como estava tão mudado, tão desfigurado, tão monstruosamente feio, de tal modo inchado e esverdeado pela asfixia do Mar, que não parecia mais ser ele, o meu filho, o meu Luís adorado que eu trouxera outrora com extremos tamanhos dentro de meu ventre.

 

Tu, Senhor, apesar de estares em toda a parte, de tudo saberes e adivinhares, nunca soubeste o que era o meu filho, coração simples, religioso e suave como as humildes ermidas brancas, bondade mansa, evangélica como a dos bois que ele pastoreava alegre, cantando...

 

E como eu me orgulhava quando o via, forte, generoso, franco, leal como a árvore que dá sombra, como a fonte clara e fresca que mata a sede, como o céu estrelado que dá encanto aos olhos. Oh! como ele percorria aqueles campos íntimos da sua mocidade, onde a sua infância desabrochou como as rosas, onde a sua adolescência viu e sentiu ir embranquecendo os meus cabelos, aprofundando a melancolia das minhas rugas.

 

Vê tu, pois, que viuvez agora no meu peito, que desconforto na minha alma, que vazio imenso em torno a mim sem o amparo, a bondade do meu filho, esse bordão seguro a que eu me arrimava na cegueira da minha velhice, o meu filho, a única, a melhor e maior claridade que iluminou sempre a minha pobre cabeça branca.

 

Ó Deus sem piedade, ó Deus sem religião e compaixão, maldito sejas! Que Satanás, o Vencido por ti, vingue todas as Mães, vencendo-te, conquistando todo o teu poder, triunfando eternamente de ti nas masmorras negras do Inferno!

 

E a outra boca, amarga e murcha, blasfemou então:

 

— Jesus dos Amargurados, Jesus dos Tristes, Jesus dos Desamparados! A mim roubaste a filha, a minha idolatrada filha; e, tão sem piedade o fizeste, que não foi até mesmo um castigo que mandaste pelos meus pecados, foi um crime que cometeste. E tão sem misericórdia, com tamanha crueldade, que tu não pareces, Jesus, filho dessa angélica Maria que alucinada gemeu e se desolou por teus martírios!

 

Roubaste a minha filha quando ela era noiva, quando estava a cingir a grinalda branca e virgem, quando estava a galgar, tímida, com os pudores da puberdade, o altar sagrado, sob o véu resplandecente como um pedaço de nuvem do teu céu estrelado!

 

Como hei de viver sem o seu encanto, sem a candidez da sua alma, como me hei de tranquilizar neste deserto onde vivo sem ela, onde existo, solitária, sozinha por este Mundo, inteiramente sozinha, como perdida numa escura floresta, num lodaçal sinistro, ouvindo uivar lobos?

 

Pois não te bastava tanta vida que ceifas dia a dia, tanta lágrima que fazes correr em silêncio? Não te saciaram já tantas e tão preciosas existências que levaste, era preciso ainda roubares minha filha, formosa e já noiva, radiante da alegria de ser depois também mãe como eu?

 

Ah! se tu soubesses, quando ela adoeceu, que cuidados, que sacrifícios, que vigílias, quanto doloroso esforço para dar-lhe logo a saúde!

 

Eu te pedi tanto, te supliquei tantas vezes de joelhos, roguei tanto à tua Onipotência, tanto que afligi e cansei pedindo o teu socorro para ela e, no entanto, foi tudo inútil, o teu desdém me feriu, o teu desprezo me apunhalou e tu de repente a levaste, ela, afinal, morreu...

 

Depois, quando a vi completamente morta nos meus braços, como sofri, quantos padecimentos horríveis, que choro perdido e convulso me sufocou a garganta, que delírio me acometeu!

 

Ah! foram estas mãos magras, esqueléticas, estes dedos ressequidos que lhe colocaram, trêmulos de comoção, dolorosamente enternecidos, a grinalda e o véu de noiva de que ela foi vestida. Foram estas mãos cadavéricas que ornaram aquela cabeça loura, linda; que ajeitaram com delicadeza entre aqueles admiráveis cabelos os níveos botões das flores de laranjeira; que colocaram entre aquelas mãos gentis e enregeladas o ramo branco simbólico, o crucifixo de marfim e o pequeno missal azul de fechos de prata.

 

Depois, depois, já deitada no caixão, num sono sereno de Querubim, quando uns homens vestidos de negro, indiferentes, decerto, estranhos à minha dor, vieram arrancá-la, arrebatá-la de junto a mim, estremeci tanto, tantos abalos me atravessaram, tantos e tamanhos horrores, tal luz alucinante me cegou os olhos, que eu pensei enlouquecer de tormentos, caída de bruços, soluçando, chorando, gemendo sobre o caixão medonhamente fechado que para sempre a levava...

 

Ah! nunca pensei que aquele corpo adorado que vi crescer e florescer aos poucos, ganhando graça e beleza, descesse tão cedo ao irremediável apodrecimento; que o branco enxoval perfumado, feito com carinho, com alegria feliz, com todo o enternecimento, servisse apenas para tão depressa amortalhá-la!...

 

Jesus das supremas bênçãos, dos infinitos perdões, dos infinitos consolos, das infinitas misericórdias! Do fundo do meu coração despedaçado de saudades, de desesperanças, de aflições, eu te lanço todas as blasfêmias, todos os anátemas, todo o fel à tua Inclemência!

 

E a última, amarga e murcha boca, ainda deprecou assim, mais convulsa e violentamente que as outras:

 

— Ó Santa Virgem das Dores, Mãe de todos os desamparados, de todos os sós, de todos os famintos, de todos os cegos, de todos os nus, de todos os Jós, de todos os desiludidos! Como tu foste desnaturada para mim! Que angústias me reservaste! Que tormentos! Que dilacerações! Que prantos! Que dores! Ó Santa Virgem dos Martírios! Mãe vã, que concebeste por obra e graça do Espírito Santo! Mãe sem Maternidade verdadeira, sem o parto brutal e ensanguentado do teu Filho, sem os olhos desvairados no humano transe de dar à luz, sem as entranhas rasgadas, despedaçadas, sem os gritos horríveis, sem os espasmos catalépticos, sem os letargos febris! Ó Mãe sem nervos e sem sangue, sem estremecimentos, sem sensibilidades, sem êxtases, sem frêmitos, sem convulsões da carne na hora augusta de gerar, ah! como tu dilaceraste entre os teus dedos sagrados, como entre garras ferozes, o meu humilde e frágil coração materno! Num só dia, por um seco simoun de peste, levaste todos os meus três filhos, negros e apodrecidos ainda quentes pelo atroz fantasma da morte.

 

Pequeninos, anjos que eram, dizem, talvez para me consolar agora, que eles foram para o Céu. Mas, no Céu, no Mar, na Terra, mortos como estão, tudo são covas, Virgem das Dores, tudo são covas e eu bem sei que eles jazem enterrados, medonhamente enterrados!

 

No entanto, quando as chuvas são torrenciais, à noite, e o vento ruge com violência, arrepiando as árvores, vento gemente e gelado de tempestade, ah! como parece à minha pobre cabeça dolorida e tresloucada de Mãe sem consolo, tristemente horrível o frio que eles hão de sentir lá, lá embaixo desses buracos negros! Como parece aos meus extremos alucinados, à minha aflição de demente que eles hão de tiritar sem remédio dentro dessas covas, sozinhos, lá, tão fundo, tão fundo nas sepulturas!

 

Eu bem sei e bem sinto ainda agora com os meus brancos cabelos arrepiados de pavor até à raiz, que línguas e dentes glaciais de vermes os devorarão sem se saciarem; que nunca mais os beijarei como outrora; que não terei, palpitando mais, aquecendo-se ao meu seio protetor, aqueles corpos tenros, delicados; que tudo, afinal, acabou, Santa Virgem das Dores, Maria! Mãe! Mãe desnaturada que eu daqui amaldiçoo, numa imprecação selvagem, atirando pragas profundas, como facadas contra a sementeira improdutiva da tu'alma...

 

Não é só em nosso nome mas em nome de todas as mães que te falamos nós três, que pela grandeza do Amor que nos liga e sublimiza descendemos diretamente do Cristianismo e somos três apenas, representando juntas o sentimento uno da Maternidade.

 

É em nome de todas as mães que vêm sofrendo desde o princípio do mundo que nos dirigimos a ti: das mães que viram seus filhos morrer na guilhotina; que os perderam nas guerras, rasgados os ventres por baionetas e por metralhas; que os viram devorados pelos incêndios; que os souberam naufragados, na agonia horrível das ondas, ou mortos nas minas, operários míseros, ou loucos, andando como fantasmas, ou cegos, caminhando como sombras.

 

Ah! é por tudo isso, por todo esse infinito de dores que eu me rebelo contra ti, que eu te amaldiçoo, que eu te amaldiçoo, que eu te amaldiçoo! Três vezes! Em nome do Diabo Todo-Poderoso, Criador do Inferno e do Mal! Eu te amaldiçoo! Eu te amaldiçoo! Eu te amaldiçoo! Que tu te transformes na serpente negra que tens aos pés sobre a esfera estrelada e azul e que uma peste bárbara, infernal, peste de fome e fogo, desole, extermine esse teu Céu fatal, gangrene esse teu Paraíso falso, cujas bem-aventuranças são mentiras, cuja piedade e consolação só trazem cruéis e aterradoras torturas!

 

E, a cada monólogo, os braços esqueléticos dessas três piedosas figuras, assim tão profundamente transfiguradas pela Dor, agitavam-se, debatiam-se no ar aflitivamente, aflitivamente, abertos às inexprimíveis majestades da solidão do Campo Santo.

 

Os eucalíptus, ciprestes e chorões, como que impressionados, tocados da emoção que se derramava em fluidos magnéticos desse tremendo terceto dantesco, espiritualizavam-se de segredos sonâmbulos, gemendo baixo nas nervosidades e retorcidos movimentos convulsos, epilépticos, das melancólicas ramagens.

 

Mas, de repente, nas copas mais densas e altas das grandes árvores corpulentas, os ventos, como titãs despenhados, sopraram torvos, atroantes trovejamentos; enquanto grasnos corvejantes de bruxas iam sarcasticamente crocitando ríspidas, rápidas risadas, através das finas e sensibilizadas casuarinas siflantes e dos ciprestes vetustos...

 

A noite, desabrochada na amplidão com estranho esplendor tenebroso, florira de estrelas claras ao alto.

 

Em torno, dentre os montes longínquos, uma cintilante neblina fria vinha então harmonicamente emergindo, emergindo, e, súbito, o plenilúnio cidrento, de marfinal claridade mortificada, ondulou e fulgiu sereno sobre a paisagem da Morte.

 

E as trêmulas Velhas simbólicas, arrebatadas numa mesma febre, levadas por igual alucinação de dor, já de pé sobre a terra úmida e revolta das últimas covas, clamavam ainda em coro:

 

— Maldição! Maldição! Maldição! desaparecendo depois silenciosas, como almas esquecidas num abandono de ruínas antigas, por entre as sombras esparsas — Grandes Anjos Rebelados, de asas impotentes, vencidas, com os dolorosos vultos funestos agora parecendo mais altos, quase gigantescos, mais velhos, mais brancos, mais misteriosamente alvejados e findos sob a volúpia triste, a mágoa muda do luar elegíaco e macerado...

 

 

  

Um homem dormindo...

 

Les hommes endormis et les hommes morts ne sont que de vaines peintures.

 

Shakespeare, Macbeth

 

 

Ei-lo, na noite, após as inclementes fadigas do dia, corpo estirado sobre o leito, gozando o repouso de algumas horas, mudo e imóvel dormindo...

 

O descanso, como um bem misericordioso, como um óleo consolador, unge-o voluptuosamente, enquanto a grande asa crepuscular da ave taciturna da Cisma faz-lhe uma sombra piedosa, grave e doce como uma bênção paterna, em torno do corpo cansado.

 

Na indiferença quase da morte, que o envolve todo de um vago esquecimento das cousas, deitado sobre o leito, como estirado sobre a terra, com a face mergulhada num meio luar galvânico de lividez, esse homem de ombros vigorosos e largos, de tórax poderoso, de estatura gigantesca, hércules fatigado e melancólico da Natureza, talvez o vencedor de batalhas formidáveis, parece, agora, tão pequeno, deitado!

 

De pé, há pouco no dia, caminhando, andando, girando no absurdo Contingente, sob as guerras armadas da Vida, como esse homem se projetava verdadeiramente grande, se compenetrava do valor do aço do seu peito, se iludia a si mesmo com os seus invejáveis músculos, com a sua forte andadura de animal de campanha — lesto, tenaz, reto, preciso e afouto nas distâncias e nas culminâncias a galgar!

 

Mas, agora, deitado no leito, como esse homem forte parece fraco, como toda a sua força hercúlea se evaporou à toa pelos interstícios da prisão brumal do sono e, como simplesmente, mas fatalmente ele recorda, exprime bem a rastejante atitude de um verme!

 

Há nele a expressão do mais completo aniquilamento, da mais funda inanição; ele sente-se sufocado pelos espectros sub-reptícios do Nada que vertiginam e rodam em torno ao eterno absoluto.

 

Deitado, dormindo, ele não é mais o homem, mas o silêncio, o vácuo, o além, o esquecimento. Dormindo, ele conserva essa aparência, essa abstração aflitiva, essa espasmada alucinação de um ser que já foi ser, de uma voz que se tornou mudez, de um movimento que se fez impassibilidade.

 

Não importa mesmo que todos os seus órgãos não estejam totalmente paralisados, sob camadas letais de gelo. Mas a expressão do sono é por tal forma aureolada de mistérios, tais segredos escapam dessa indiferença, que o homem que dorme estirado no leito fica nesse momento mais indefeso, mais frágil e mais inócuo do que uma criança, que na sua vibrante garrulice cor-de-rosa e cristalina impõe mais ação, mais vida, desprende mais ritmos e acordes do sangue, projeta mais ondas sonoras e nervosas de movimento.

 

Pelo estado inerme desse homem que está dormindo parece que uma força oculta, uma catástrofe inesperada, invisivelmente suspensa há muito sobre a sua existência, vai, afinal, certeira e rápida, desapiedadamente esmagar-lhe, caindo dos altos Destinos, a atormentada e vaidosa cabeça com a mais natural facilidade. Pois não é tão fácil, sem dúvida, destruir um obscuro reptil que se arrasta na terra?!

 

Toda a sua coragem louca de guerreador da Existência, toda a aspiração alucinada, todo o sonho de Infinito que lhe povoa a alma, sem mesmo ele se aperceber disso, e que às vezes, por acaso, escapa, traindo-se pelo brilho misterioso dos olhos e por vagos, perdidos suspiros desolados que ele desprende à toa, sem mesmo saber por quê, na inconsciência dos fenômenos ingênitos do seu ser; tudo isso está por algum tempo desvanecido, apagado, sumido já nessa amesquinhada posição de homem deitado, a quem só falta, cerradas como estão as pálpebras, cruzar sobre o ventre as mãos e unir os pés para semelhar um morto.

 

Entretanto, no silêncio e na sombra desse sono como que se está gerando secretamente, sutilmente e profundamente, átomo a átomo, um mundo de fenômenos, uma tragédia muda de fenômenos.

 

Entretanto, assim parecendo despreocupado dos segredos e signos da Vida, renunciando a tudo, agora, nesse aspecto de aparente tranquilidade simples do sono, ele está ali curiosamente, em fundas brumas, vivendo uma alta e íntima vida psíquica muito mais intensa, muito mais complexa e preocupada do que a outra.

 

Porque ninguém sabe que, a seu pesar, ele, por mil sutis combinações transcendentes e engenhosas do querer latente do seu organismo anelante deseja atingir, tocar e radiar entre as esferas siderais do majestoso Espírito.

 

Porque mesmo não há alma nenhuma, por mais vã, por mais humilde, por mais obscura que seja que não aspire subir, por secretos movimentos instintivos e intuitivos, que são as transfulgentes escadas do Abstrato, às transfiguradoras montanhas do Sonho, ao desenvolvimento melhor, à pura perfectibilidade; penetrar, consolada, alheando-se de tudo, nas transcendentalizantes auroras boreais do Sentimento, satisfazendo assim, embora inconscientemente, a ansiedade de Infinito que cada alma traz mais ou menos em si, por maior ou menor que seja a esfera de ação onde ela gravite.

 

No sono como que esses fenômenos tomam vulto, começam a girar, a girar, a girar, em íris de sensibilidade, em halos de lua, na Imaginativa do homem dormindo, cujo fundo vago carregado de narcotismos e de ópios secretos e fascinantes fica como uma rara região, rara e polar, gerando flores exóticas de quint'essência.

 

E nas volúpias e melancolias do sono a alma paira absorta, perplexa, tateando em brumas maravilhosas, como celeste cega de sede da Imortalidade, nos círculos convulsos das lágrimas.

 

Véus diáfanos adelgaçam-se para além da visão terrena! Véus de fímbrias de luar! Véus de centelhas de luar! Véus de fogos-fátuos de luar!

 

E o ser, mudo, solitário, solene, pálido, indiferente, misterioso, fugitivo, trágico, belo, horrível, no espasmo elixírico do sono, dormindo, dormindo aspira, dormindo, dormindo anseia, dormindo, dormindo goza e sofre e geme e soluça e suspira e chora para além da outra vida dos sentidos encarcerados no sono e na outra vida do sono sonha com a Morte libertadora, engrinaldada de virgem, esqueleto extravagante de nervosismos e histerismos terríveis e curiosos de Eternidade, — noiva do Soluço, branca, friamente bela e branca, de um terror que vence, que atrai, que esmaga, e que faz delirar de sinistra majestade e de sinistra beleza.

 

É que o ser bebeu, esgotou até às fezes o licor sombrio, taciturno e estranho do sono pelo cálice amargo da Fadiga e ficou embriagado de sombra, vencido de sombra, desceu ao poço cheio de cismas e pesadelos do Nada para no Nada dormir ansiando, para no Nada viver dormindo, para no Nada dormir sonhando...

 

O sono em que ele está embalsamado põe-lhe em torno à fronte fatigada uma auréola de martírio, mas de um martírio tão singular e tão abstrato que parece como que glorificá-lo, imortalizá-lo, dando-lhe a aparência secreta de estar gozando um gozo muito belo e muito triste, vagamente empoeirado de Esquecimento...

 

Nessa hora de descanso transitório, a mágoa, os dissabores, os infortúnios inclementes, as desgraças sem remédio, as paixões desmanteladas e sem termo, as aflições, os desesperos, os sentimentos obscuros que revestem uma expressão magicamente cabalística, toda essa horrível escala humana de desventuras e misérias, tudo está, por um pouco, sem movimento, inerte, como animais de emboscada, à socapa, eternamente de espreita na vida desse homem, esperando que ele de novo acorde para de novo assaltá-lo e para de novo vencê-lo.

 

E ah! como a esse homem que dorme estirado no leito da sua noite de mísero e efêmero repouso, quase mergulhado na calma negra da morte, há de talvez parecer sempre essa noite pútrida, esverdeada e formidável vala comum onde podem perpetuamente caber bilhões e bilhões de corpos humanos!

 

 

  

No inferno

 

 

Mergulhando a imaginação nos vermelhos Reinos feéricos e cabalísticos de Satã, lá onde Voltaire faz sem dúvida acender a sua ironia rubra como tropical e sanguíneo cáctus aberto, encontrei um dia Baudelaire, profundo e lívido, de clara e deslumbradora beleza, deixando flutuar sobre os ombros nobres a onda pomposa da cabeleira ardentemente negra, onde dir-se-ia viver e chamejar uma paixão.

 

A cabeça triunfante, majestosa, vertiginada por caprichos d'onipotência, circulada de unia auréola de espiritualização e erguida numa atitude de voo para as incoercíveis regiões do Desconhecido, apresentava, no entanto, imenso desolamento, aparências pungentes de angústia psíquica, fazendo evocar os vagos infinitos místicos, as supremas tristezas decadentes dos opulentos e contemplativos ocasos...

 

Como que a celeste imaculabilidade, a candidez elísea de um Santo e a extravagante, absurda e inquisidora intuição de um Demônio dormiam longa e promiscuamente sonos magos naquela idea e assinalada cabeça.

 

A face, branca e lânguida, escanhoada como a de um grego, destacava calma, num vivo relevo, dentre a voluptuosa noite de azeviche molhado, poderosa e tépida, da ampla cabeleira.

 

Nos olhos dominadores e interrogativos, cheios de tenebroso esplendor magnético, pairava a ansiedade, uma expressão miraculosa, um sentimento inquietador e eterno do Nomadismo...

 

A boca, lasciva e violenta, rebelde, entreaberta num espasmo sonhador e alucinado, tinha brusca e revoltada expressão dantesca e simbolizava aspirar, sofregamente, anelantemente, intensos desejos dispersos e insaciáveis.

 

Parecia-me surpreender nele grandes garras avassaladoras e grandes asas geniais arcangélicas que o envolviam todo, condoreiramente, num vasto manto soberano.

 

Era no esdrúxulo, luxuoso e luxurioso parque de Sombras do Inferno.

 

Em todo o ar, d'envolta com um cheiro resinoso e acre de enxofre, evaporizava-se uma azulada tenuidade brumosa, fazendo fugitivamente pensar no primitivo Caos donde lenta e gradativamente se geraram as cores e as formas...

 

Como que diluente, fina harmonia de violinos vagos abstrusamente errava em ritmos diabólicos...

 

Árvores esguias e compridíssimas, em alamedas intermináveis e sombrias, lembrando necrópoles, apresentavam troncos estranhos que tinham aspectos curiosos, conformações inimagináveis de enormes tóraces humanos, fazendo pender fantásticas ramagens de cabelos revoltos, desgrenhados, como por estertorosa agonia e convulsão.

 

Pelas longas alamedas exóticas do fabuloso parque, deuses hirsutos, de patas caprinas e peluda testa cornoide, riam com um riso áspero de gonzo, numa dança macabra de gnomos, cabriolando bizarros.

 

De vez em quando, as suas asas fulgurantes, furta-cores e fortes, ruflavam e relampejavam...

 

Baudelaire, no entanto, suntuoso e constelado firmamento de alma refletindo em lagos esverdeados e mornos, donde fecundas e esquisitas vegetações como que sonâmbula e nebulosamente emergem, estava mudo, imóvel, com o seu perfil suavemente cinzelado e fino, fazendo lembrar a figura austera e altiva, a alada graça perfeita de um deus de cristal e bronze, — tranquilamente de pé, como num sólio real, na posição altanada de quem vai prosseguir nos excelsos caminhos dos inauditos Desígnios...

 

Por conhecer-lhe os ímpetos, as alucinações da audácia, as indomabilidades estesíacas, os alvoroços idiossincráticos da Fantasia, eu imaginava encontrá-lo, vê-lo revoltamente arrebatado para os convulsos Infinitos da Arte por potentes, negros e rebelados corcéis de guerra.

 

Mas, a sua atitude serena, concentrada, isolada de tudo, traía a meditação absorvente, fundamental, que o encerrava transcendentemente no Mistério.

 

E eu, então, murmurei-lhe, quase em segredo:

 

— Charles, meu belo Charles voluptuoso e melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento aquário de spleen, profeta muçulmano do Tédio, ó Baudelaire desolado, nostálgico e delicado! Onde está aquela rara, escrupulosa psicose de som, de cor, de aroma, de sensibilidade; a febre selvagem daqueles bravios e demoníacos cataclismos mentais; aquela infinita e arrebatadora Nevrose, aquela espiritual doença que te enervava e dilacerava? Onde está ela? Os tesouros d'ouro e diamante, as pedrarias e marchetarias do Ganges, as púrpuras e estrelas dos firmamentos indianos, que tu nababescamente possuíste, onde estão agora?

 

Ah! se tu soubesses com que encanto ao mesmo tempo delicioso e terrível, inefável, eu gozo todas as tuas complexas, indefiníveis músicas; os teus asiáticos e letíficos aromas de ópios e de nardos; toda a mirra arábica, todo o incenso litúrgico e estonteante, todo o ouro régio tesourial dos teus Sonhos Magos, magnificentes e insatisfeitos; toda a tua frouxa morbidez, as doces preguiças aristocráticas e edênicas de decaído Arcanjo enrugado pelas Antiguidades da Dor, mas inacessível e poderoso, mergulhado no caos fundo das Cismas e de cuja Onisciência e Onipotência divinas partem ainda, excelsamente, todos os Dogmas, todos os Castigos e Perdões!

 

Oh! que demorados e travorosos sabores experimento com o quebranto feminil das tuas volubilidades Mentais de bandoleiro...

 

Essa alma de funestos Signos, como que gerada dentro de atordoante e feiticeiro sol africano, com todas as evaporações flamívomas, com todas as barbarias das florestas, com todo o vácuo inquietante, desolador, inenarrável, dos desertos, flexibiliza-se, vibratiliza-se, adquire suavidades paradisíacas de açucenais sidéreos, do céu espiritualizado pelos mortuários círios roxos dos ocasos...

 

Açula-me a desvairadora sede, espicaça-me a ansiedade indomável de beber, de devorar, sorvo a sorvo, sofregamente, o extravagante Vinho turvo, de lágrimas e sangue, que orvalha, como um suor de agonias, todas essas olímpicas e monstruosas florações do teu Orgulho.

 

Ah! se tu soubesses como eu intensamente sinto e intensamente percebo todos os teus alanceados, lacerados anseios, todas as suas absolutas tristezas dormentes e majestosas, o grande e longo chorar, o desmantelamento vertiginoso das tuas noites soturnas, as fascinadoras ondas febris e ambrosíacas da tua insana volúpia, as bizarrarias e milagrosos aspectos da tua Rebelião sagrada; a fulminativa ironia dolorida e gemente, que evoca melancolias de dobres pungentes de Requiem aeternam rolando através de um dia de sol e azul, vibrados numa torre branca junto ao Mar!... Como eu ouço religiosamente, com unção profunda, as tuas Preces soluçantes, as tuas convulsas orações do Amor! Como são fascinativos, tentadores e embriagantes os perfumosos falemos da tua sensação, os esquecidos Reinados enevoados e exóticos onde a tua clamante e evocativa Saudade implorativa e contemplativa canta, ondula e freme com lascívia e nonchalance! A tua inviolável e milenária Saudade, velha e antiga Rainha destronada, aventurosa e famosa, que erra nos brumosos e vagos infinitos do Passado, como através das luas amarguradas e taciturnas do tempo. A tua lancinante Saudade de beduíno, perdida, peregrinante por países já adormecidos nas eras, remotos, longe, nos neblinamentos da Quimera, onde os teus desejos agitados e melancólicos tumultuam numa febre de mundos multiformes de germens, em estremecimentos sempiternos; onde as tuas carícias nervosas e felinas sibaritamente dormem ao sol e espojam-se com sensualidade, num excitamento vital frenético de se perpetuarem com os aromas cálidos, com os cheiros fortes que impressionativos e afrodisíacos provocam, atacam, cocegam e ferem de extrema sensibilidade as tuas aflantes e capras narinas!

 

Ah! como eu supremamente vejo e sinto todo esse esplendor funambulesco e todas essas magnificências sinistras do teu Pandemonium e do teu Te Deum!

 

Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Ó Baudelaire! Augusto e tenebroso Vencido! Inolvidável Fidalgo de sonhos de imperecíveis elixires! Soberano Exilado do Oriente e do Letes! Três vezes com dolência clamado pelas fanfarras plangentes e saudosas da minha Evocação! Agora que estás livre, purificado pela Morte, das argilas pecadoras, eu vejo sempre o teu Espírito errar, como veemente sensação luminosa, na Aleluia fúlgida dos Astros, nas pompas e chamas do Setentrião, talvez ainda sonhando, nos êxtases apaixonados do Sonho...

 

E a singular figura de Baudelaire, alta, branca, fecundada nas virgens florescências da Originalidade, continuava em silêncio, impassível, dolorosamente perdida e eternizada nas Abstrações supremas...

 

E, enquanto ele assim imergia no Intangível azul, velhos deuses capros, teratológicos Diabos lúbricos e tábidos, desaparecidos desse egrégio vulto satânico, cismativo e sombrio, dançavam, saltavam, infernalmente gralhando e formando no ar quente, em vertigens de diabolismos, os mais curiosos e simbólicos hieróglifos com a flexibilidade e deslocamento acrobático e mágico dos hirsutos corpos peludos e elásticos...

 

Mas, em meio do misterioso parque, elevava-se uma árvore estranha, mais alta e prodigiosa que as outras, cujos frutos eram astros e cujas grandes e solitárias flores de sangue, grandes flores acerbas e temerosas, flores do Mal, ébrias de aromas mornos e amargos, de dolências tristes e búdicas, de inebriamentos, de segredos perigosos, de emanações fatais e fugitivas, de fluidos de venenosas mancenilhas, deixavam languidamente escorrer das pétalas um óleo flamejante.

 

E esse óleo luminoso e secreto, escorrendo com abundância pelo maravilhoso parque do Inferno, formava então os rios fosforescentes da Imaginação, onde as almas dos Meditativos e Sonhadores, tantalizadas de tédio, ondulavam e vagavam insaciavelmente...

 

 

 

A nódoa

 

 

Naquela hora de superexcitação nervosa, tarde na noite nevoenta em que os ventos lugubremente grasnavam, rondando, rondando, Maurício entrou agitado da rua...

 

Via-se bem, pela lividez espectral do seu rosto, os tumultos sinistros que trazia consigo.

 

Com o cérebro escaldando, numa temperatura mental inconcebível, parecia que alguma cousa dentro do seu ser estava sendo guilhotinada e que grandes, caudalosas torrentes de sangue vivo, quente, o alagavam interiormente, deixando-o exangue, desfalecido...

 

Era, na verdade, um aspecto extravagante o desse cardíaco lascivo, desse neurastênico que o álcool andava aos poucos devastando e povoando já das suas visões trementes e delirantes, lá do fundo absíntico das impenitentes boêmias; desse sombrio e ferrenho misantropo fechado ao alto da sua velha torre torva de melancolia, sentindo em torno o mundo, grosso mar vasto, ululando deprecações...

 

Cabelos em desalinho, olhos estupefatos, boca num espasmo de angústia, mãos convulsas e avelhantadas, braços tateando o ar como garras, pernas trêmulas, tudo naquela desgraçada matéria determinava uma vulcanização muito íntima, um desespero muito particular, talvez o desmoronamento absoluto.

 

Era o lance cruel de uma dessas vidas despedaçadas, dilaceradas, sem centros harmônicos de um objetivo ideal, sem pontos de apoio, girando fora das órbitas da unidade dos sentidos e que vagam, de um a outro extremo da alma, de um ao outro polo do ser, sem uma luzerna, sem um santelmo, sem Refúgios interiores, quase o vácuo de si próprias, batidas por um frio sinistro de desolação, sob a lei inexorável, horrível, dos desequilíbrios e degenerescências. Demônios mórbidos, fatais, arremessados à terra para cobri-la, como de um luto de peste, do sentimento negro, perverso, infernal, do aniquilamento e das culpas.

 

Qualquer cousa de curioso, de secreto, dava-se, sem dúvida, no fundo dessa excepcional natureza que a noite tanto e tão intensamente carregara dos seus esparsos fluidos misteriosos.

 

Apenas mergulhado no aposento, triste tugúrio abandonado e frio, acendeu logo, com a mão febril, nervosamente, a pequena lâmpada que pousava sobre um velho móvel querido que ali jazia como a recordação de vagos e inolvidáveis tempos...

 

Assim que a luz coou em torno a sua tíbia claridade amarelenta, Maurício aproximou-se da luz, sôfrego, a fronte em suor, numa ansiedade muda.

 

Em sobressaltos, inquieto, palpitando, nervoso, cada vez mais nervoso, uma agitação contínua na pupila, quase num delírio, arrastado por curiosidade torturante e ao mesmo tempo por medo avassalador, chegou uma das mãos à luz, aproximou-a da luz, aproximou-a mais da luz, quase a fazendo arder, crepitar, estalar na chama da luz, inquiriu mentalmente toda a palma da mão, o cabalístico M letal, as unhas, uma por uma as falanges, novamente a palma da mão, examinou-a, palpou-a, analisou-a longamente, demoradamente, com movimentos singulares de sonâmbulo e de mago, conservando no rosto tal expressão horrível, tal expressão transfigurada que não era mais deste mundo...

 

E ele olhava e tornava a olhar para a mão, a perscrutá-la bem, detendo-se em cada linha, em cada traço da mão, como sob impressão magnética.

 

 — Mas, não, não! dizia, arrepiando o lábio num velado sorriso contrafeito, macabro. Não! Eu vi! Eu vi! Eu bem lhe fui acompanhando a gradação, o vulto que fazia aqui em toda a mão; a princípio ténue, leve, pequena; depois grande, densa e negra, enchendo a mão toda pavorosamente, reptilmente rastejando, pondo-me calafrios tremendos na espinha. Sim! Eu bem a vi, aqui, aqui, persistente, entranhada, a horrível nódoa negra, manchando-me a mão toda, não sei como, não sei donde mandada.

 

E os outros que lá estavam também como eu no cabaré, na sua hora d'álcool, sentiram-me a obsessão e riram e perguntaram se eu não estaria louco, se não era de fato um demente.

 

Mas eu ouvi e nada lhes disse, nada lhes respondi porque eu bem via, bem estava vendo a nódoa tomar-me pouco a pouco conta de toda a mão, alastrar-se por ela, negra, em breves momentos. Eu bem a vi! E o que importava o desdém ou a indiferença dos outros, o ridículo que os outros me lançassem, se só eu a via, só eu! unicamente eu percebia que ela cá estava, funda, intensa, sem que eu a pudesse extinguir, fazê-la desaparecer para sempre. Sim! Ela cá estava! Senti então de repente um pavor maior lembrando-me se ela me tomasse o corpo todo, me subisse pelo tronco, me manchasse o rosto, envolvendo-me tenebrosamente na sua oleosa baba negra. E assim pensando parecia-me estar já avassalado por ela, que me cobria como de um manto fúnebre.

 

E nesta sugestão doentia, numa extraordinária vibração de nervos, que titilavam de horror, voei pelas ruas em busca de repouso em meu triste aposento, pois era tão forte a obsessão, tão violenta, punha-me em tal estado, que até julguei, com essa infantilidade ingênua que nos transfigura nas íntimas e esmagadoras aflições, que desapareceria aquela nódoa lúgubre logo que eu estivesse tranquilamente repousado.

 

Sim! este meu triste, generoso e leal aposento que com tanto e tanto carinho me acolhe sempre na hora do meu grande abandono, dos meus extremos desfalecimentos, saberia condensar todas as suas diluentas amarguras, todas as suas queixas secretas, todas as suas mágoas esparsas, dar-lhes corpo, dar-lhes vida e alma para, consolando-me, trazer calma piedosa a esta minha agitação profunda.

 

Com efeito, agora, olho e torno a olhar, para a mão e nada encontro nela, nada do que eu vi, porque eu vi! Não encontro mais a nódoa, não está cá. Olho e torno a olhar, reparo, observo bem tudo e não encontro, não vejo mais a nódoa...

 

E não a vejo, mesmo, por mais que examine, em nenhuma das mãos! Ah! respiro! Não a vejo em nenhuma das mãos! Respiro, enfim! Que alívio! Que alívio supremo!

 

Foi, sem dúvida, foi loucura minha, neblinoso torpor de embriaguez, visão, sombra, pesadelo de momentos. Tinham razão os outros em rir... Foi simples loucura minha, simples loucura minha, simples loucura minha!

 

Entretanto, como se uma diabólica força oculta no seu pobre cérebro demente insistisse, agisse dentro dele com perversa e feroz tenacidade calculada, fisgando-lhe as arestas cruas e agudas de cerrada argumentação casuística, mas em certos planos, de certo modo, irrefutável, Maurício colocou-se diante de um espelho oval que havia no aposento, e mirou-se bem nele, com atenção, com minúcia.

 

Como que queria reconhecer-se, como que acreditava ter perdido a legitimidade do seu ser, terem reaparecido, por um desses incompreensíveis fenômenos nervosos, a perfeita identidade das suas feições, as linhas do seu semblante, da sua natureza, e com elas a sua própria sensibilidade.

 

Mas, não! Ele ali estava, vendo-se apenas tão desfigurado, tão abatido, com esse aspecto vago, ignoto, retrospectivamente antigo, de quem já além viveu... Quase se desconhecia! Não era mais o intrépido, o afouto Maurício de outrora, que a bravura de sentimentos bizarros iluminava de esplendor e força. Não era mais o adolescente, amado desse amor frívolo da mundanal mocidade, e cuja alma engrinaldava-se de rosas, esmaltava-se d'estrelas, vibrava de canções e cânticos, na frescura e no azul matinal de um idílio que lhe parecia eterno. Não era mais esse Maurício que através dos longos rumos do tempo se perdera e desaparecera...

 

Era agora um outro Maurício, todo vivamente abalado, é certo, por inquietos sonhos de indefinível ansiedade, mas por isso mesmo acabando, findando já para tudo.

 

Na encruzilhada dos caminhos que percorrera, ele, embevecido, perplexo, como que divulgava, pela curiosa, desoladora e irônica sugestão do espelho, duas nobres figuras de inefável expressão contemplativa que se enlaçavam num amplexo enlevativo e saudoso de idolatrados sentimentos velhos, surgindo das brumas álgidas do Esquecimento.

 

Uma dessas figuras o olhava, atenta, nova e cariciosamente risonha, na meiguice mais cândida, a cabeça loira pendida numa atitude de enternecimento supremo.

 

Igualmente o olhava a outra, subjugada pela febre devoradora do desespero, curvada de anos, por entre rugas e soluços... E ambas essas figuras evocativas se enlaçavam, emocionalmente se enlaçavam, do fundo sombrio e longínquo daquele espelho, no abraço extremo, profundo, infinito, como que fundidas na mesma apaixonada e embriagada convulsão da Vida...

 

E, então, por uma esquisita afinidade de pensamento, como se por acaso mais essa outra obsessão da identidade perdida desnaturasse o rumo lógico do seu raciocínio, esclarecendo, mesmo por esse fato e com igual irrefutabilidade, o fenômeno da nódoa que o perseguia, Maurício espalmou diante do espelho ambas as mãos, certificando-se de tudo, pois até quase lhe parecera, na agonia cruciante daquelas implacáveis conjeturas psíquicas e por lenta compreensibilidade nebulosa, labiríntica do cérebro, mesmo por certa infantilidade demente, que o espelho, refletindo assim sobre o seu busto, desnevoaria, arrancaria mais depressa toda a fatal verdade sobre a nódoa do que apenas a simples chama dúbia e amarelenta da doce luz da lâmpada.

 

E o espelho, no seu fundo glacial de boca turva, crespusculada, de poço; cova de névoas e treva de onde naquela hora se desenterravam todos os seus Afetos; alma de cristal onde um delicado sentimento de esquecimento e de saudade parecia estar diluído; o espelho, naquela alta hora noturna dormente e sonolentamente mergulhado na doce luz amarelentada, da lâmpada, lembrava brumoso vale de lágrimas aureolado de luar...

 

E Maurício revia-se no espelho, consultava-o, analisava, comentava, analisava os próprios reflexos e mutismo do espelho; feria a fina corda vibrátil dos seus nervos, dos seus sentidos de desequilibrado, de impotente, monologava com eles, e esse exame tão detalhado, tão minudente, tão penetrante, dava-lhe certa atração doentia, certa volúpia martirizante, certa lascívia de angústia.

 

Mas, nada. Mesmo ante o espelho ele não distinguia nada nas mãos, nem no rosto, nem em parte alguma do corpo. Estava salvo, efetivamente estava salvo do caprichoso e funesto abalo que o sacudira e gelara! Estava salvo! Estava salvo!

 

Nisto, de repente, como se com aquelas arguições e investigações mentais tivesse despertado, provocado violentamente o Mistério, rasgado os profundos véus translúcidos e transcendentes do Mistério, ei-lo que agora fixa demoradamente os olhos na mão esquerda e, recuando como um fantasma até à outra extremidade do aposento, solta este grito surdo.

 

— Ah! a nódoa!

 

Então, a visão que ele teve nesse momento, foi tremenda. Recuado até ao fundo da parede, o tronco vergado, a cabeça vencida, na expressão dos supremos aniquilamentos, os braços desalentados, os olhos acesos numa fosforescência e parados numa imobilidade persistente de olho de ciclope, a boca escumando todo o horror até ali concentrado, dolorosamente vivido naquele organismo, encolhido como um fardo humano, na atitude de um animal acuado, Maurício estava medonho.

 

Sentia que a nódoa da mão já lhe tomava um braço todo, depois outro, que lhe envolvia o peito e o ventre, que lhe descia às pernas e aos pés e que subia fatalmente, numa inexorabilidade terrível, numa avassalação desolante de peste, pelo rosto, como langue lesma negra, viscosa e envenenada lagarta de pauis apodrecidos, nódoa que até lhe amortalhava os olhos, que o tornava irremediavelmente cego. E por todo ele era só aquela nódoa, aquela nódoa, aquela flageladora nódoa a crescer implacavelmente. Nódoa que mesmo lhe sufocava a garganta para os gemidos e para os gritos, lhe tirava o olfato, lhe roubava os movimentos, o paralisava e gelava todo e o arremessava agora ali, mudo, para um canto, como uma cousa inútil, num semi-idiotismo esquisito, numa lividez mortal, rangendo os dentes e olhando o vácuo, pasmosamente olhando o vácuo...

 

E, assim encolhido, atirado a um canto, as feições já invadidas de súbita e precoce senilidade, dentes rigidamente cerrados, olhos muito abertos vidrados do espanto, do terror singular concentrado no fundo devastado das órbitas, Maurício foi encontrado morto, devorado pela sensacional obsessão delirante daquela estranha nódoa que, no entanto, sem que ele soubesse ou pudesse determinar nitidamente no cérebro alucinado, era a profunda, a incoercível, a grande nódoa negra simbólica da sua própria vida.

 

 

 

Talvez a morte?!...

 

 

Sob a florescência casta e voluptuosa da lua, numa noite em que eu ia embebido num desses sonhos que nos transportam ainda mesmo acordados, deparei com um vulto de mulher, alta, esgalgada e lívida, vestida de negro e velada pela redoma vaporosa da bruma da lua...

 

Parecia trazer, como auréola extravagante, a nostalgia de ecos e rumores extintos...

 

O seu rosto branco, lactescente, na majestade do negror das vestes, tinha uma beleza augusta.

 

A fronte era como um ceú pálido e sereno para constelar de beijos soluçados de imprevista e suprema paixão.

 

Os cabelos, iriados d'orvalho luminoso, como que desprendiam certa fosforescência leve... Não eram louros, eram negros e de um oleoso quente, impressionante, fascinativo.

 

Os olhos chamejantes lembravam dois astros ardendo numa treva densa e ondulante, coruscando no abismo das duas órbitas fundas, fatidicamente embaladores como berceuses de um doce e delicioso Nirvana...

 

O nariz, ainda que belo e de uma aristocracia incriada, tinha uma expressão de ansiosas luxúrias de além-túmulo, um sentimento de austera firmeza e inexorabilidade de causar mistério e pavor...

 

A boca, de um langor quebrado e letal, de uma expansão meio morta, fazia recordar os alucinamentos e o gozo de uma flor de melancólico desejo alvorecida nos frios terrores de uma cova.

 

O andar, lento e grave, de um gracioso e nervoso balanceado de sonambulismo, maravilhava todo o seu vulto esquisito de um encanto desconhecido, como se ela, na verdade, caminhasse sob a magia de um sonho.

 

Vagamente, o espírito ficava arrebatado a cismar num grande lírio tenebroso de perfume adormecedor e fatal!

 

De longe, olhando-a entre o enevoamento do luar, ela passava-me na retina ferida de deslumbramento fantasioso, com cintilações de uma estranha serpente branca e negra, os movimentos coleantes e ondulosos do andar lento e grave de curiosidades e de ritmos imaginários.

 

Dir-se-ia a visão das tormentosas nevroses, a deusa cândida das singularidades emotivas, embriagada por vinhos sombrios e sutis de soberanos requintes.

 

Eu experimentava ao vê-la um estremecimento de fascinação e uma tontura de abismo, como se ela própria fosse um abismo que a pesar meu, bela e tremenda, me viesse estrangular com os seus abraços não sei de que sensação e nem de que delírio, num amor venenoso e luminoso ao mesmo tempo...

 

Não se sentia nela o contato carnal, o travo miserando, a garra cruel da matéria. Não era a lama vil que tomava aqueles inauditos aspectos. Certo não a carne venal mundanizada!

 

Uma força secreta fazia com que ela vagasse, caminhasse... Uma espiritualização nobre a revestiu de vida miraculosa — filtro das Esferas, ansiedade palpitante do Infinito, magno amor dos Espaços, imortalidade invisível das Cousas, quint'essência da dor do Nada!

 

Como que da su'alma de pinturesco de vitrais, sobre um fundo de madrugadas violáceas, deveriam irradiar aleluias lúgubres...

 

Mas, pela obsessão de olhá-la, parecia-me agora que ela não se movia mais, que quedara num ponto, imperturbavelmente olhando os longes indistintos, alta e branca, afilada como uma torre perdida nos descampados do céu, sob a lua em silêncio supersticioso...

 

Doze badaladas sombrias, mensageiras funestas do Sortilégio, ressoaram, soluçaram, cavas no ar, lentas, compassadas, monótonas...

 

Inquieto, febril como nunca, cravei o olhar agitado, sofregamente, no ponto onde devia estar a visão; porém ela havia desaparecido, se desfeito, quem sabe! reentrado nos seus mundos, ante as badaladas choradas e cabalísticas da Meia-Noite!

 

Ah! quem era, afinal, essa Visão, essa ave de luto e melancolia celeste?! Talvez a Arte?! Talvez a Morte?!

 

 

  

Ídolo mau

 

...voici que, tout à coup, ces élus de l'Esprit sentent effluer d'eux-mêmes où leur provenir,

 de toutes parts, dans la vastitude, mille et mille invisibles fils vibrants en lesquels

 court leur Volonté sur les événements du monde,sur les phases des destins,

des empires, sur !'influente lueur des astres, sur les forces déchainées des éléments.

 

Villiers De L'’Isle-Adam, Axël

 

 

De descaro em descaro, de deboche em deboche, as tuas paixões, os teus vícios, monstros leviatânicos, empolgaram-te.

 

Estás agora preso à calceta de sentimentos negros e, obscenamente, te arrastas, lesmado e vil, preso à calceta de sentimentos negros.

 

Na tua alma iníqua, pestilenta e vencida, nada mais arde, nada mais flameja, nada mais canta.

 

Como a ave noturna e luciferina do — Nunca mais! — desse peregrino e arcangélico Poe — como essa ave noturna, pairou sobre ti a desilusão de todas as cousas.

 

E tu, agora, só ouves os misteriosos carrilhões da noite, da grande noite do Nada, convulsamente soluçarem e só vês errar os espectros lívidos da Saudade arrastando as longas túnicas inconsúteis e brancas.

 

De descaro em descaro, de deboche em deboche, as tuas paixões, os teus vícios, monstros leviatânicos, empolgaram-te.

 

De tal sorte te afundaste, te abismaste no caos infernal da malignidade, de tal sorte o crime absurdo, feio, torto, de avassalou supremamente, que a própria origem de lama, de onde surgiste, nega-te, rejeita-te, repele-te.

 

Tu não morrerás mais!

 

Ficarás na terra — imenso Purgatório — regenerando, purificando, cristalizando a tu'alma dessa mancha sinistra e lutulenta, que a envolve toda.

 

Não morrerás mais! Te perpetuarás, para te remires do teu enorme Pecado, cuja sombra orbicular põe nódoas fundas no sol, doentias penumbras no luar, turva, entenebrece a fina pedraria branca das estrelas.

 

Entretanto, legiões e legiões de homens deixam-se fascinar por ti; tu os atrais insensivelmente ou calculadamente, os sugestionas, os arrastas, e, fetichistas tristes, bufos lúgubres, eles vivem de sugar o veneno hediondo das tuas palavras e das tuas obras, com a alma e a consciência de rastos a teus pés, na covardia langue, lassa, dos que dão toda a veneração vilã aos ídolos malignos.

 

Nem o retalhante knut siberiano, nem os suplícios fabulosos do Tântalo, nem os horríveis martírios de Ugolino são suficientes cilícios para remir e imacular o teu ser da mácula de lodo e sangue que tanto o está manchando cada vez mais intensamente.

 

Tal é a malignidade, o descarnado cinismo em que reinas, bandido e bonzo, que pareces o porta-bandeira funesto das fantásticas legiões armadas do Aniquilamento supremo, trazendo como divisa fatal esta inscrição formidável: — Fome! Peste! Guerra!

 

És, pois, o proclamador da Fome, da Peste, da Guerra. Vieste sob a claridade assinaladora de um íris prenuncial, sob os eclipses pressagos, sob os sóis reveladores, sangrando em chaga, dentre círculos de fogo, sob as luas augurais, mórbidas e sonolentas, de amarelidão defunta.

 

Entretanto, se não fora a preguiça mental, um verdadeiro servilismo, uma covardia crassa que tolhe-te completamente os nervos do Pensamento, poderias salvar-te ainda.

 

Porque tudo está na espiritualidade, na alma. Tudo está em fazer da rima nova hóstia, um sol incomparável, a quint'essência do Sentimento, para que a alma seja mais eterna que a luz, mais forte que os bronzes, mais etereal do que os astros.

 

Alma, alma, mais alma, mais alma, muita alma, muita alma, toda, toda a alma, toda a infinita alma!

 

É mister que pouco a pouco te devore uma doce ansiedade secreta e nobre; que uma suavidade celestial desça por sobre ti; que um encanto maravilhoso te engrandeça, te levante e faça sonhar; que aspires às sublimes purificações, às emocionais magnitudes, às surpreendentes transformações, às grandes eloquências da Sensação que perpetuamente constelam as naturezas assinaladas.

 

É mister que a serena e imaculada Sideralidade dê-te o poder das Reivindicações; que de ignóbil e rojado aos mais terrestres vilipêndios, surjas, como de um Batismo novo e original, Arcanjo das Transfigurações, alto e calmo dominando, vencendo os Vândalos em torno.

 

E que uma rara fé, mais forte que toda a fé cristã, mais ardente, mais viva, te inflame e ilumine com as suas chamas prodigiosas.

 

É de lágrimas, é de desejos, é de gemidos, é de aspirações e agonias que se fecunda a imortalidade.

 

Se tu tornares bem intensos os teus pensamentos, bem chamejantes, bem profundos, arrancados do mais íntimo do teu ser com todas as estranhas raízes da tua sensação, tu te salvarás ainda, te remirás do teu crime nefando, do teu cinismo bandido, do teu escarnecedor deboche de celerado.

 

Se souberes manifestar toda a expansão do temperamento, com os segredos da Intuição; se desabrochares como força própria, entranhadamente própria e poderosa, sem veres apenas o que te for tangível aos olhos, sem imaginares o que já foi imaginado, sem sentires o que já foi sentido, sem te nivelares com a materialidade da massa humana, serás uma afirmação, um estado de existir, de impressionar. E, enfim, se ficares livre, inteiramente livre de todas as peias obscenas da miséria coletiva e da convenção dourada, serás verdadeiramente um espírito, originalmente um homem, matrimoniando-te com o sentimento, como o sol nos frementes e lúbricos esponsais com a terra.

 

Basta, apenas, para te purificares de todo e com solenidade desse descaro e desse deboche, que te possuas de ti próprio, que comungues os Sacramentos abstratos, que te unjas de dons incomparavelmente preciosos e belos, despindo-te primeiro de todas as necessidades, de todas as vanglórias, para que, enfim, vivas, excepcionalmente vivas; para que sintas, intuitiva, eloquente, a póstuma volúpia espiritual de te perpetuar, de te difundir no Azul, de ainda, através dos tempos, viver...

 

Basta, para isso, que renasças de ti mesmo, com entusiasmos bizarros, revitalizados pelo fluido de ouro, rico e fecundo, dos Idealismos, olhando as cousas com olhos sonoros, harmoniosos; que ascendas à Perfectibilidade e surjas, simples e sereno, da lama esverdeada onde coaxas de descaro em descaro, de deboche em deboche, — sapo asqueroso de sensualidades tristes — Astro imortal do Sonho, assim singularmente, curiosamente remido e perdoado para sempre de tudo, na palpitação extática das Luzes, das Formas, das Transcendências!...

 

 

 

Balada de loucos

 

Oui, nulle souffrance ne se perd, toute douleur fructifie, il en reste un arome

 subtil qui se répand indefiniment dans le monde!

 

M. De Vogué

 

 

Mudos atalhos a forana soturnidade de alta noite, eu e ela, caminhávamos.

 

Eu, no calabouço sinistro de uma dor absurda, como de feras devorando entranhas, sentindo uma sensibilidade atroz morder-me, dilacerar-me.

 

Ela, transfigurada por tremenda alienação, louca, rezando e soluçando baixinho rezas bárbaras.

 

Eu e ela, ela e eu! — ambos alucinados, loucos, na sensação inédita de uma dor jamais experimentada.

 

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

 

Eram em torno paisagens tristes, torvas, árvores esgalhadas nervosamente, epilepticamente — espectros de esquecimento e de tédio, braços múltiplos e vãos sem apertar nunca outros braços amados!

 

Em cima, na eloquência lacrimal do céu, uma lua de últimos suspiros, morta, agoniadamente morta, sonhadora e niilista cabeça de Cristo de cabelos empastados nos lívidos suores e no sangue negro e esverdeado das letais gangrenas.

 

Eu e ela caminhávamos nos despedaçamentos da Angústia, sem que o mundo nos visse e se apiedasse, como duas Chagas obscuras mascaradas na Noite.

 

Longe, sob a galvanização espectral do luar, corria uma língua verde de oceano, como a orla de um eclipse...

 

O luar plangia, plangia, como as delicadas violetas doentes e os círios acesos das suas melancolias, as fantasias românticas de sonhador espasmado.

 

Parecia o foco descomunal de tocheiros ardendo mortuariamente.

 

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

 

Beijos congelados, as estrelas violinavam a sua luz de eternidade e saudade.

 

E a louca lúgubres litanias rezava sempre, soluços sem o limitado do descritível — dor primeira do primeiro ser desconhecido, originalidade inconsciente de um dilaceramento infinitamente infinito.

 

Eu sentia, nos lancinantes nirvanescimentos daquela dor louca, arrepios nervosos de transcendentalismos imortais!

 

O luar dava-me a impressão difusa e dormente de um estagnado lago sulfurescente, onde eu e ela, abraçados na suprema loucura, ela na loucura do Real, eu na loucura do Sonho, que a Dor quint'essenciava mais, fôssemos boiando, boiando, sem rumos imaginados, interminamente, sem jamais a prisão do esqueleto humano dos organismos — almas unidas, juntas, só almas vogando, almas, só almas gemendo, almas, só almas sentindo, desmolecularizadamente...

 

E a louca rezava e soluçava baixinho rezas bárbaras.

 

Um vento erradio, nostálgico, como primitivos sentimentos que se foram, soprava calafrios nas suas velhas guslas.

 

De vez em quando, sobre a lua, passava uma nuvem densa, como a agitação de um sudário, a sombra da asa de uma águia guerreira, o luto das gerações.

 

De vez em quando, na concentração esfingética de todos os meus sofrimentos, eu fechava muito os olhos, como que para olhar para o outro espetáculo mais fabuloso e tremendo que acordava tumulto dentro de mim.

 

De vez em quando um soluço da louca, vulcanizada balada negra, despertava-me do torpor doloroso e eu abria de novo os olhos.

 

E outro soluço, outro soluço para encher o cálix daquele Horto, outro soluço, outro soluço.

 

E todos esses soluços parecia-me subirem para a lua, substituindo miraculosamente as estrelas, que rolavam, caíam do Firmamento, secas, ocas, negras, apagadas, como carvões frios, porque sentiam, talvez! que só aqueles obscuros soluços mereciam estar lá no alto, cristalizados em estrelas, lá no Perdão do Céu, lá na Consolação azul, resplandecendo e chamejando imortalmente em lugar dos astros.

 

A pouco e pouco — dois exilados personagens do Nada — parávamos no caminho solitário, cogitando o rumo, como, quando se leva a enterrar alguém, as paradas rítmicas do esquife...

 

O vento, queixa vaga dos túmulos, esperança amarga do passado, surdinava lento.

 

De instante a instante eu sentia a cabeça da louca pousada no meu ombro, como um pássaro mórbido, meiga e sinistra, de uma doçura e arcangelismo selvagem e medroso, de uma perversa e febril fantasia nirvanizada e de um sacrílego erotismo de cadáveres. Ficava tocada de um pavor tenebroso e sacro, uma coisa como que a Imaginativa exaltada por cabalísticos aparatos inquisitoriais, como se do seu corpo se desprendessem, enlaçando-me, tentáculos letárgicos, veludosos e doces e fascinativos de um animal imaginário, que me deliciassem, aterrando...

 

Eu a olhava bem na pupila dos grandes olhos negros, que, pela contínua mobilidade e pela beleza quente, davam a sugestão de dois maravilhosos astros, raros e puros, abrindo e fechando as chamas no fundo mágico, feérico da noite.

 

Naquela paisagem extravagante parecia passar o calafrio aterrador, a glacial sensação de um hino negro cantado e dançado agoureiramente por velhas e espectrais feiticeiras nas trevas...

 

A lua, a grande mágoa requintada, a velha lua das lágrimas, plangia, plangia, como que na expressão angustiosa, na sede mais cega, na mais latente ansiedade de dizer um segredo do mundo...

 

E eu então nunca mais, nunca mais me esquecerei daqueles ais terríveis e evocativos, daquelas indefiníveis dolências, daquela convulsiva desolação, que sempre pungentemente badalará, badalará, badalará na minh'alma dobres agudos e lutuosos de uma Ave-Maria maldita de agonias, como se todos os bons Anjos da Mansão se rebelassem um dia contra mim cantando em coro reboantes, conclamantes hosanas de perseguição e de fel!

 

Nunca! nunca mais se me apagará do espírito essa paisagem rude, bravia, envenenada e maligna, todo aquele avérnico e irônico Pitoresco lúgubre, por entre o qual silhueticamente desfilamos, eu, alucinado num sonho mudo, ela, alienada, louca — simples, frágil, pequenina e peregrina criatura de Deus, abrigada nos caminhos infinitos deste tumultuoso coração.

 

Só quem sabe, calmo e profundo, adormecer um pouco com os seus desdéns serenos e sagrados pelo mundo e escutou já, de manso, através das celas celestes do mistério das almas, uma dor que não fala, poderá exprimir a sensação aflitíssima que me alanceava...

 

Ah! eu compreendia assim os absolutos Sacrifícios que redimem, as provações e resignações que transfiguram e renovam o nosso ser! Ah! eu compreendia que um Sofrimento assim é um talismã divino concedido a certas almas para elas adivinharem com ele o segredo sublime dos Tesouros imortais.

 

Um Sofrimento assim despertava em mim outras cordas, fazia soar outra obscura música. Ah! eu me sentia viver desprendido das cadeias banais da Terra e pairando augustamente naquela Angústia, tremenda, que me espiritualizava e disseminava nas Forças repurificantes da Eternidade!

 

E como dentro de mim estava aberto para ela o suntuoso altar da Piedade e da Ternura, eu, com supremos estremecimentos, acariciava essa alucinada cabeça, eu a levantava sobre o altar, acendia todas as prodigiosas e irisantes luzes a esse fantasma santo, que ondulava a meu lado, no soturno e solene silêncio de fim daquela sonâmbula peregrinação, como se ambos os nossos seres formassem então o centro genésico do novo Infinito da Dor!

 

 

 

Espelho contra espelho

 

 

Tu, alma eleita, que trazes essa sede de Espaço, essa ansiedade de Infinito, essa doença do Desconhecido que te fascina os nervos, que vieste ao mundo para falar pelas outras bocas, para ser a voz viva de todas as vozes mortas; tu, que andas em busca de uma dor que venha ao encontro da tua; tu, que interpretas tanta queixa, tanta queixa, tanta queixa dos Corações, tanta queixa dos Espíritos, tanta queixa das Almas, tudo porque não há resposta a esta pergunta horrível: por que nos deram a Vida?! Tu, que legaste toda a delicadeza virginal do Sentimento a este Apostolado doce e amargo da Arte, bela e triste; tu, que sentes chamejar e cantar a inefável poesia que te alimenta como o óleo alimenta as lâmpadas; tu, cujo espírito é uma fonte de dons maravilhosos onde os sedentos se debruçam e bebem à farta a água mais cristalina, mais clara; tu, que tão sagradamente te revoltas, na majestade ideal das águias e dos leões, e que na candidez, na ingenuidade casta e santa da tua alta nobreza de Arte atinges com a ponta das asas espirituais a ponta das asas dos Anjos! Tu, ó alma aureolada de deslumbramentos brancos, Lírio estético que um luar de sonhos sensibilizou, ouve este verbo veemente, vivo, de quem procura sentir os altos segredos da Existência, perscrutar-lhe as íntimas origens fugidias.

 

Ouve este verbo vulcanizado, convulso, cheio das grandes tempestades ideais que abalam o Sentimento do mundo. Ouve este verbo aceso, inflamado na chama do Absoluto, para ele subindo e para ele palpitando sempre. Ouve este verbo indomável — vento que sopra pelas trompas do mar e que soluça pelas harpas do céu toda a grandeza de uma Ilusão, toda a majestade de uma Fé.

 

Eu falo a ti, Alma eleita e desolada nos crepúsculos da Cisma; não falo às almas antipáticas, cruamente ardentes, acres, como terrenos crestados, muito flagrantes de sol, sem sombras consoladoras... Falo a ti, que sentes e sabes o frio que vai pelo mundo, como as almas tiritam sem agasalho, desabrigadas, como as consciências enregelam sem amor e sem bondade na ferocidade dos brutos instintos, como a doce e nobre Humildade se encolhe e protege nos obscuros vãos de uma porta para não morrer esmagada pelo bárbaro tacão da Prepotência, como a filáucia triunfa e como a Grande Virtude de todos os tempos está cega e pede esmola envolta em duros frangalhos! Tu, Genial, que tens suspiros, que tens ânsias, que tens lágrimas para esta Comédia fúnebre, mas dolorosa, em que vai o mundo; tu, singular e lívido demônio que te fizeste monge, que tens a tua ironia santa que diviniza e nirvaniza, o teu rebelado sarcasmo em brasas, toda tua mordacidade inclemente para essas tristes cousas terrenas, não podes ver sem abalo, sem comoção profunda, almas de mocidade já sem dedicação intensa, sem energias claras, sem entusiasmo absoluto. Não desse entusiasmo oficial, coletivo, das massas — mas esse entusiasmo propulsor das células, esse entusiasmo dúctil, voluptuoso, nervoso, que vem da extrema sensibilidade; esse entusiasmo que é tônico, que é éter puro, que é oxigênio matinal, que é essência criadora, que é chama fecunda e asa branca no genuíno espírito; esse entusiasmo que é força altiva, que é dignidade serena, que é emoção original e casta, que infiltra azul e sol nas veias, acende aurora e vibra cânticos no sangue.

 

Há de doer-te fundo esse desolamento, essa morte das almas, essa aridez, essa petrificação de sentimentos em tudo. Há de doer-te muito que os impotentes se liguem aos impotentes, os nulos aos nulos, os frouxos aos frouxos, os esgotados aos esgotados. Que nada os separe, nada os afaste. Que quanto mais se reconheçam tartufos mais se unam no intuito e no instinto de se conservarem inatacáveis, embora, mesmo, no fundo, e fatalmente, se destruam, se odeiem, achando um incômodo a existência dos outros. Há de doer-te muito que uma envenenada relação secreta os una, os congregue, os irmane, para juntos darem batalha subterrânea, cavilosa e vilã, aos que trazem a clara força tranquila de um alto Desígnio, como armadura de astros, no peito.

 

Há de afligir-te muito que na hora da mais profunda, da infinita Desolação, até os mais íntimos te abandonem, desapareçam, como que tocados pela ideia de que os teus extremos fatalismos são inconvenientes e contagiosos!

 

Há de fazer brotar em ti a luminosa flor da ironia, o aspecto ousado do Asinino, que quer a todo o transe medir-se contigo, pôr-se no mesmo paralelo, porque vê tanto como tu, sente tanto como tu, sonha e é tão legítimo ser como tu!! Se tu lhe dizes versos ele diz-te versos, se tu lhe dizes prosa ele diz-te prosa, opondo a natureza dele a tudo, atropelando as cousas, atrabiliariamente, acertando, às vezes, por acaso, por assimilação fácil, por percepção de simples arguto, mas não trazendo os fundamentos de sangue e de sonho, esse longínquo infinito de origem, essa harmonia interior e essa beleza heroica tão pouco perceptível e penetrável.

 

Sentirás no Asinino a pressa de comunicar primeiro que ninguém ideias que já Alguém pôs em circulação no tempo, nas correntes do ar; ideias que já foram acariciadas por outro com delicadeza mais particular, com veemência mais extrema, com intuição mais clara, com amor mais eloquente, com entendimento mais recôndito. Sentirás no Asinino a natureza essencialmente auditiva, que ouve e torna-se o eco fácil, ingênuo, irresponsável, mas errado, mas corrompido, impuro já, da Grande Voz poderosa, honesta e pura que ouviu, porém que ouviu mal, sem a plasticidade necessária para receber, no seu primitivo apuramento imaculado, todas as complexas e infinitas vibrações, nuances e modalidades dessa Grande Voz.

 

Sentirás no Asinino a intenção capciosa de ser o teu refletor, de cruzar nos teus os seus raios, de produzir os mesmos reflexos, de apresentar as mesmas faces iluminantes, as mesmas irradiações e golpes de luz, as facetas do mesmo cristal e o fundo do mesmo aço.

 

Sentirás no Asinino a revelação da tua revelação, o despertar do teu despertar, a sugestão da tua sugestão — mas isso truncado, hipertrofiado, inteiramente desviado dos eixos centrais do teu Objetivo, sem a unidade inicial dos órgãos ingênitos que propulsionaram e deram a integração final às linhas gerais da sensibilidade do teu ser, à zona compacta e luminosa do foco supremo das tuas Intuições.

 

Sentirás no Asinino a imitação do teu Silêncio, a imitação da tua Sombra — sombra e silêncio d'espelho, sombra e silêncio refletidos do teu silêncio e da tua sombra, sombra e silêncio reproduzidos d'espelho contra espelho.

 

Não poderás projetar o teu vulto num lago que o Asinino não projete também o seu vulto no mesmo lago; não poderás aquarelar o teu perfil num luar que o Asinino não aquarele também o seu perfil no mesmo luar.

 

Se a tua Imaginação é virgem, reverdece agora nos luminosos pomares da Fantasia, a Imaginação do Asinino também é virgem e reverdece agora nos mesmos luminosos pomares. Não podes vir da raiz viva e violenta de uma sensação, da agudeza de uma Causa, da livre enunciação de um fenômeno porque o Asinino também vem de lá, também de lá procede, também de lá se origina. Não há originalidades subjetivas, clama o Asinino, não há o puro sentir, o novo sentir, o excepcional sentir! Tudo já passou depurado pelo meu organismo, que é o crisol das purificações, clama o Asinino.

 

Vida do eu visual, do eu olfativo, do eu mental, do eu sensível, faz vida original, faz vida de temperamento, portanto, vida ingenitamente particular e nova, dirás tu na perfectibilidade da tua visão.

 

Mas o Asinino, que é a Rotina secular, que é a Regra universal, argumenta com pedras em vez de argumentar com sentimentos, com emotividades, com dutilidades e mistérios de alma.

 

Nuances novas de alma, caminhos não explorados no mundo do Pensamento, certos segredos e transfigurações, rumos inéditos, paragens de uma inaudita melancolia, tudo é paralelamente julgado pelo Asinino, que logo estabelece para as relações de cada caso especial a mesma esfera de ação de múltiplos casos diversos.

 

Sempre sol contra sol, sempre sombra contra sombra, sempre espelho contra espelho.

 

Sempre este espelho — Homero, contra este espelho — Virgílio. Sempre este espelho — Shakespeare, contra este espelho — Balzac, ou contra este espelho — Dante, ou contra este espelho — Hugo. Sempre este espelho — Flaubert, contra este espelho — Zola, ou contra este espelho — Goncourt. Sempre este espelho — Baudelaire, contra este espelho — Poe, contra este espelho — Villiers e contra este espelho — Verlaine. Sempre este espelho — Ibsen, contra este espelho — Maeterlinck.

 

Sempre, eternamente estes espelhos impolutos e astrais que reproduzem a perfectibilidade de sentimentos nas gerações, paralelamente igualados, medidos e pesados pelo Asinino, que os equipara, confundindo-lhes a delicadeza e fulguração dos cristais.

 

Sempre um Sentimento contra outro Sentimento, como se pudesse haver uma alma com a cor e a sonoridade de outra alma!

 

E tu, na impaciência, na inquietação do teu voo astral para as serenas Esferas, buscarás libertar-te, desacorrentar-te dos grilhões a que essa Rotina te prendeu, a que ela te sujeitou com a responsabilidade das primitivas camadas da Inteligência, para poderes afirmar que, como os Eleitos guiados a sós pelo seu Destino, tu também vieste só, representando um fenômeno desprendido no Espaço, sem leis de correlação no sentimento da tua Dor — uno e indivisível fenômeno no obscuro e perpétuo germinal da Natureza.

 

Na solidão do teu Ideal ficarás como um astro singular vivendo na luz nostálgica de uma órbita imaginária, sem que a confusão dos tempos possa jamais quebrar a intensidade do teu brilho e a serenidade da tua força.

 

O Asinino continuará lá embaixo, na turba, na multidão, no rodar das épocas, estreitamente e empiricamente a comparar, a comparar, a medir o teu Infinito pelo infinito da sua miopia secular, lá embaixo, na turba, na multidão. Tu, além, lá em cima, superpondo-te aos mundos rolarás, transbordarás, na augusta perpetuidade do Sentimento.

 

 

  

Abrindo féretros

 

 

Agora, que deixei para lá, na plebeia rua, a filáucia e a mordacidadezinha do inqualificável cretino; agora, que consigo sacudir-me à vontade da poeira da frivolidade dos caminhos; que já estou, afinal, longe dos perturbadores, vampíricos contactos execrandos, posso, talvez, fechando-me nos meus secretos isolamentos, nas minhas solenes abstrações, concentrando-me, afinal, penetrar serenamente no Além, debruçar-me transfigurado no Mistério.

 

Sinto mesmo que o Mistério chama-me, ele chama-me, atravessa-me com os seus sutis e poderosos filtros.

 

Dilui-se na atmosfera do meu ser uma luz doce, dolente, meiga tristeza de leves nuanças violáceas que deve ser melancolia...

 

Acendem-se e ficam crepitando, ardendo, todos os altos círios sagrados da velada capela da minh'alma, onde o meu passado e morto Amor, como o Santíssimo Sacramento, está exposto.

 

Lâmpada por lâmpada vai também se acendendo o langue, untuoso luar das lâmpadas, como nas azuladas e cintilantes arcarias da Via-Láctea estrela por estrela.

 

E, neste tom do Angelus da minh'alma, nesta surdina vesperal, começam as litanias vagas, as preces desoladas por Aparições que só a vara mágica da contrita saudade e da espiritualidade pura sabe fazer desencantar e ressurgir nimbadas de transfulgentes lágrimas e luzes...

 

Sinto-me afinado por uma música de luar e lírios, por uma eterificação de beijos celestes.

 

E, a meu pesar, sai da minha boca, como de uma cova do esquecimento, este doloroso, ansioso clamor:

 

— ó mármore impenetrável do Sepulcro! palpita! canta! abre-te em veias! E que por essas veias corra e estue a caudal infinita do sangue leonino e virgem das grandes forças criadoras da Beleza! Ó mármore misérrimo! ó matéria missérrima! Escuta-me, ouve-me, sente-me! Sensibiliza-te, espiritualiza-te, vibratibiliza-te...

 

 

 

Primeiro féretro — Ana

 

 

Alma de colegial que se fizesse, de repente, irmã de caridade. Ah! essa era, com efeito, irmã da minha vida e tinha caridade de mim. Fazia meditar num destes seres obscuros que morrem sem nunca ninguém lhes penetrar o segredo.

 

Ela mesmo morreu como uma tarde elísea vagueada de pássaros: —no outono da castidade, intacta natureza que o Nada devorou sem piedade, reclusa e triste, só, no ascetério da sua fé, penitente da carne, monja sem mancha.

 

Parece-me ainda vê-la no féretro, a fronte lívida, que os longos e meigos, fagueiros cabelos aureolavam. Era como se um cortejo de águias, em alas, a levasse pelo Azul, enquanto o seu alvo corpo em flor e gelado ia virginalmente, para sempre, dormindo...

 

Parece-me ver no seu olhar se refletir ainda, talvez do fundo claro da Eternidade, este pensamento cândido; ó inocente alegria da Infância, graça cor-de-rosa e ingênua dos tempos, para onde te exilaste? Eram olhos, os seus, onde vagava a harmonia cantante dos claros rios, e a frescura dessa ingênita bondade que floresce instintivamente e espontaneamente nas almas, como as estrelas no céu, apesar das tentações malignas, das apostasias do Bem, dos sacrilégios do Amor. Olhos onde havia bizarro e cintilante alvoroço alegre de mocidade, qualquer cousa de farfalhante ruflar d'asas por entre festões de flores, sonoridades de cristais e luzes.

 

Como, pois, aquela forma de tanta suavidade e de tanto encanto evaporou-se logo?! Como, pois, aquele ser, tão oculto da terra, tão obscuro, tão humilde, zero inútil no grande algarismo do Mundo, mas tão simples e tão bom, assim desapareceu um dia, arrebatado num vento macabro, convulsivo, de morte?! Como as essências desconhecidas, os filtros esquisitos daquela triste dor nunca foram descobertos? Como os abafados soluços daquela pobre Mágoa nunca foram ouvidos?!

 

Pois que Deus é esse que faz vigorar nos centros do rumor e da luz, como amplas e verdejantes árvores célebres, existências medíocres que pompeiam e fazem ressoar com vaidoso estrondo a sua prepotência vazia, enquanto aniquila, abate existências onde há um sonho bom de amor e de carinho! Pois que Deus é esse! Que divina misericórdia e que clemência iguais ele, cego, tão cego, semeia na terra, que todos, bons ou maus, colhem o mesmo imutável quinhão?!

 

Que celeste ironia, acaso, dá-lhe asas satânicas, dá-lhe asas ferozes de fogo, que ele, cego, tão cego, tudo por igual incendeia e em toda a parte cospe lesto a peste?!

 

Quando Ana morreu eu senti, tal foi o impressionativo abalo, como que uma espada varar-me, lado a lado, o coração.

 

Eu estava num desses períodos que as reminiscências para sempre conservam, que se não apagam nunca mais no íntimo sadio das nossas fibras, das partículas mínimas do nosso sangue, da espontânea florescência casta do nosso ser. Eu estava na mocidade, na plena e na fortalecente mocidade. Desabrochavam em mim perigosas e viçosas flores de delírio juvenil. Eu aspirava o Vago, o Turbilhão das Quimeras. Palácios de fadas eram as minhas noites. Palácios de fadas eram os meus dias. Uma saúde vital dava-me aços de intrepidez, envergaduras ousadas, fantasia e força e frescura matinal de montanhês que vai galgando montanhas por alvoradas de ouro e aves.

 

Na paisagem da minha Imaginação só havia cânticos e uma brancura purificadora envolvia as cousas na calma de leve e ingênua felicidade ridente.

 

Ana foi para mim como uma harpa que deixou, de repente, de soar...

 

Ela era, com efeito, a harpa delicada onde eu, adolescente e sem saber como, tirava as harmonias, os sentimentos rítmicos que guardei comigo e que agora aqui vou aos poucos difundindo.

 

Ela era a harpa em cujas cordas sensibilizadas eu sempre adivinhei os acordes místicos e fugitivos de um segredo amargo.

 

Aquela candidez de virgem tinha luto, aquela madrugada de mulher tinha insônias.

 

Um meio-dia de sol, onde, por um etéreo capricho fenomenal dos astros, se entrecruzasse, transfiguradamente, o crepúsculo.

 

Desde que Ana morreu começou a cair na minh'alma uma cinza fria de desolação, uma sombra dolente.

 

Ela foi quem primeiro me ergueu a fronte e as mãos para os sublimes Sacrifícios. Foi ela quem primeiro me ungiu com os seus cuidados cordiais. Foi ela quem me deu a comungar a hóstia da Vida com as suas mãos de amor. Ela arejou a minh'alma, deu sol ao meu Desconhecido, deu luar de paz ao meu Sonho.

 

Vibrações virgens de harpa inviolada para o mundo, as emoções da alma de Ana faziam meditar no mesmo vago e no mesmo encanto longínquo de regiões ainda não descobertas. Nela dir-se-ia dormir uma vida nova, que, ai! nunca despertou e afinal envelheceu no mistério daquele organismo.

 

Delicadezas de sensibilidade que nunca transbordam no mundo, tímidas lágrimas reconcentradas que nunca enchem os oceanos!

 

Com a morte de Ana foi se diluindo a minha sensibilidade, começou de leve, lento, a harmonia velada do meu ser, veio vindo, se difundindo e definindo a Dolência.

 

Era um fio imperceptível da minha vida, ligado à vida dela, que se partira e que só se tornaria a reunir, talvez, mais tarde, nos reinos encantados e noturnos da Saudade, perto dos rios roxos do Esquecimento, às margens amargas da Ilusão.

 

Ana fora uma espécie dessas crepusculares, outoniças flores nostálgicas, de desconsoladas perpétuas do celibato que as insônias aquebrantadoras e perigosas definham e crestam como mormaços venenosos.

 

Fazia lembrar uma dessas donzelas de honor, insontes e peregrinas; seres para os quais a Dor torna-se de alguma sorte um vinho selvagem e alucinante que embriaga, iluminando de certa forma, e cujas religiosas surpresas e revelações da alma estão para sempre veladas e veladas a muitas almas profanas.

 

E lá, nos reinos encantados e noturnos da Saudade, essa, para mim veneranda e magnânima Criatura — coração, sem dúvida, inquieto, mas parecendo alheio às seduções do mundo e que, quem sabe!, falhou ao seu Destino, lá estará nos parques solitários da Melancolia, no renunciamento de tudo e na indiferença augusta e clássica, nessa doce expressão de beleza de certas estátuas antigas, envelhecidas pelo tempo e tristes, que se veem através de grandes jardins enevoados...

 

 

  

Segundo féretro — Antônia

 

 

Sombra de luto, de viuvez e de velhice. Angelus sem plangências consoladoras de campanário, sem ecos saudosos, sem elos de afeto, só, na solidão árida, no abandono sem limites de uma voz que chamasse por ela — já apagada a última luz dos faróis interiores, escura já toda aquela vasta região de velhice.

 

Era a harpa soturna, surda, sem cordas, como as que ficam ao acaso, para ali a um canto no leilão dos tempos, sem que uma vibração ambiente as faça gemer, sem que um vento dormente as faça cantar. Vida já de vacilações e de ânsias baixinho, de certos nirvanismos curiosos e mudos — alma sem impulso, sem hora, sem desejo, apenas vácuo e vácuo infernalmente circulado de símbolos desesperadores. Sentimentos anônimos, sem consolo, mas de profunda significação genésica, e que o mundo vãmente arrasta nos seus turbilhões medonhos, no seu pó secular, no tumulto das suas venenosas seduções. Tipo que vaga, tipo que ondeia, tipo que gira sem órbitas definidas, ao acaso dos Desígnios, confundidos, amalgamado no supremo Comum, mas Existente original no fundo abismal do seu ser.

 

Para os que sofrem a Dor do Infinito e mergulham nas profundas, longas e complexas galerias dos subterrâneos das almas, na claridade saudosa dos olhos de Antônia parecia haver a transfiguração de uma cegueira singular da alma, que andava, como as fugidias, capciosas mãos sem visão de um cego, tateando por penumbras de bruma.

 

Naquela ignorada alucinação da vida, que círculos, quantas correntes tão opostas se cruzariam!

 

E a efêmera velhinha, sempre obscura, verdadeira nebulosa de gemidos, despertava curiosidades histéricas, emotivas, como os signos assinaladores do arco de aliança — todas as cores, todo o cromatismo esquisito do sofrimento de um ser que vive isolado na ermida da alma, sobre os penhascos, os ásperos outeiros do mundo.

 

Alma apoiada ao bordão da velhice, tiritando e se arrastando sob as lâminas cruas das espadas glaciais da Desolação, caminhando sem tréguas por entre ruas soturnas e confusas, ao longo de imensos muros, vestidos de limo, sob o soluçante e lacrimoso brumar eterno de uma chuva fina, muito lenta, triste, monotonamente triste...

 

Eu a via, naquela paz lutuosa dos anos, nas ingênuas manifestações da su'alma como se ela andasse, sob as provações terrestres, a purificar-se por crisóis imortalizadores, além pelos sete céus cristalinos e astrais.

 

 

  

Terceiro féretro — Carolina

 

 

Esta, Carolina, uma flor infernal de sangue e treva que a Angústia fecundou.

 

Esta, a harpa maior, a harpa da Dor, cujas cordas são mais puras, mais admiráveis e onde mais alto e majestoso chora todo o incomparável Intangível da minha Saudade.

 

Este féretro é um oceano rasgado de tempestades, de ventos imprecativos, anatematizadores e negros.

 

Fluidifica-se deste féretro uma música bárbara de sensibilidade, de martírio.

 

Aberto diante de mim, assim como eu o estou vendo aqui, que sugestões singulares me traz, que despedaçamentos me recorda, que sombrios idílios e delírios!

 

Ah! na vida avara como os sentimentos são avaros, como o pensamento humano é avaro para perscrutar uma existência assim!

 

Onde estão os ascetas que se martirizaram, onde estão os apóstolos que creram, onde estão os santos que ciliciaram e que escutaram de perto, mudos, o eloquente silêncio da Dor, para virem agora, aqui, comigo, aqui, com a minh'alma, traduzir os recônditos segredos que aí estão nesse féretro, penetrar nos ergástulos sem nome que aqui estão, nessa alma.

 

Que purificações e que sugestivas grandezas parabólicas, que transcendentalismos das palavras de Cristo no Sermão da Montanha, ecoando impressionativo e a medo como o ulular primicial e majestoso de imaginários mundos em gestação, poderão, acaso, interpretar esta vida deserta que subiu às mais longínquas e altas cordilheiras da Dor, exprimir os ais que a violinaram, os soluços que a transportaram ao céu, os desencontrados combates que a despedaçaram!

 

Sim! Vazio é tudo no mundo! Os olhos acordam nesta ânsia viva de chorar e de amar! As ansiedades que em vão se escondem plangem à flor dos sentidos, diluem-se, fluidificam-se e, vagamente, aí vêm então jorrando, vêm vindo as lágrimas...

 

Sim! Criatura dos Anjos que, no entanto, o Inferno possuiu e por fim acabou por estrangular! Coração sangrante! Ser do meu ser! Os outros seres vãos que babujam a terra com a argilosa Infâmia de que são feitos nunca poderão, nunca saberão, melancolicamente não, nunca, que hóstia sanguinolenta e travorosa deram-te a comungar na Vida, que pão tenebroso de Páscoa de lágrimas deram-te a devorar, que cálix de vinho letal, alucinante, sugado ao fel das chagas e das gangrenas propinaram-te à boca verminada pelo primeiro beijo de amor, quando tu tinhas as fomes e as sedes vorazes, cegas, desesperadas do Não-Ser, quando aspiravas às formas celestes, quando sentias, apesar da tua inocuidade de poeira mas, talvez!, poeira de algum divino astro diluído, o insaciável desejo de abranger Infinitos.

 

 

 

Quarto féretro — Guilherme

 

 

O que importa a Vida e o que importa a Morte, obscuro velhinho que te foste, operário humilde da terra, que levantaste as torres das igrejas e os tetos das casas, que fundaste os alicerces delas sobre pedra e areia como os teus únicos Sonhos.

 

Deixa sinfonicamente cantar sobre ti a sacrossanta alegria branca e forte do profundo Reconhecimento que te votei na existência! Deixa correr sobre o teu virtuoso flanco de lutador, sobre as tuas mãos rudes e abençoadas, sobre os teus olhos hipocondríacos de senil desterrado de Reinos ignotos, sobre o teu coração suave de cordeiro imaculado, as grandes e maravilhosas lágrimas repurificantes que nesta hora sublimizam o meu ser de uma divinização incomparável! Velho tronco robusto de onde seivas prodigiosas de Afeição porejaram sempre! A tua alma, blindada de uma honra ingênua, antiga e clássica, parecia-se reveladoramente com a natureza — alma franca e virgem, espontânea nos seus fenômenos, puro bloco inteiriço de Sentimento, de onde os cinzelários do Sonho cinzelariam com a sua estética soberana as criações imortais.

 

A claridade e a harmonia de uma bondade primitiva davam à tua alma, não a consagração espartana unicamente, mas uma simpleza e propriedade genésica de selvas que geram o Desconhecido e o Vago da Pureza, sem contactos egoísticos do mundo. Através da tu'alma eu lia, em caracteres indeléveis, a significação eloquente do teu fenômeno triste, do teu simpático e lhano irradiamento na Existência!

 

Para os que têm a boa sombra, o Angelus meigo do Amor, para os que sabem venerar e perdoar do fundo dos grandes Silêncios da alma, a flor genuína da tua sensibilidade tinha esse aroma oculto e amargo que se não define — esse aroma acerbo que vêm das naturezas chãs mas sempre castas, inevitavelmente sepultadas no obscuro centro fatal do seu Destino.

 

Se aflito, se desolado, se doloroso tu foste, como que esse sentimento era alado, era etéreo, isolado como tu andavas das causas originais de tudo, no relevo de rocha viva da tua Ignorância pura, mergulhado até ao fundo no mar augusto, formidável e sem raias da crença em Deus!

 

A tua figura paternal, que a condição ínfima das frívolas categorias sociais obumbrava profundamente na terra, tinha para mim o encanto mítico de vetusto deus dalguma ilha abandonada em regiões, longe, vivendo resignado, paciente, sem queixas, na iluminação teatral, flagrante e acabrunhadora de modernas e autoritárias Civilizações, como o legítimo representante dos seres humanos.

 

Minh'alma ao cuidar em ti, a considerar nos teus dias, a interpretar a tua mudez, a ver as curiosidades e instintivos caprichos dos teus movimentos de ser, quedava-se numa espécie dessa melancolia, dessa nuance aquebrantadora, desse emovente langor de um verso verlainiano que melancoliza tanto.

 

Eu, longe que andava, ausente do teto onde exalaste o derradeiro gemido, não te pude ver no teu belo e grave desdém tranquilo de morto. Não pude meditar nas ironias secretas e significativas da morte às vaidades da vida. Não te fui fechar os olhos, compungidamente, com a delicadeza amorável das minhas mãos trêmulas, nem passar para eles, em fluidos ardentes, o magoado adeus dos meus olhos.

 

Não te pude dizer, de manso, bem junto aos teus olhos e coração moribundos, com toda a volúpia da minha dor, as untuosas e extremas palavras da separação, as cousas inefáveis e gementes no dilacerante momento em que os nossos braços abandonam, para nunca mais apertar, os amados braços que já estão vencidos, entregues ao renunciamento de tudo e que nós tanto e tão acariciadamente apertamos.

 

Mas, nada importa a Vida e nada importa a Morte!

 

O encanto do teu ser foi obscuro; a graça do teu Bem foi toda fugitiva. Porém do seio imenso da minh'alma, do fundo oceânico de soluços de que ela é feita tu emerges e emergirás sempre, proba e doce figura, caridoso fanal do meu passado, que enfim me iluminaste com o clarão da Bondade e me trouxeste com a tua bênção paternal de grande Humilde a Fé sacrificante e salvadora das Resignações para atingir as Esferas supremas do Absoluto.

 

Lá, no Inexorável, na perpétua Dispersão, não sentirás mais o grosso rugir da miséria humana, a mão de ferro da prepotência esmagando tua subjetividade modesta.

 

Todas as ferocidades, todas as durezas, enfim, cessaram no fundo Silêncio negro.

 

Rebrilharam e ressurgiram as Solenidades transfiguradoras da Saudade! Enfim, és morto, agora! Posso evocar-te de lá das sombrias e glaciais imensidades! Posso sentir-te através do enevoamento de distâncias infinitas estreladas de lágrimas! Posso rasgar pelo Azul portas de Devotamento celestial à procura da tua Imagem. Iluminar a tua funda noite de morte com a triste luz saudosa da minha vida. Tu, eternamente, participarás das formas incoercíveis...

 

E eu irei, por este lutulento mundo, com a cabeça um tanto pendida de dolência, como que vagamente aplicando o ouvido a um ponto distante, escutando, enlevado, em arroubos íntimos, secreta música difusa e longínqua de Além, que parece chamar-me para esse rítmico Indefinido onde afinal te dispersaste e sumiste. E, essa música, de atrativos sutis, letíficas seduções, de místicos e transcendentalizadores acordes, fluindo aos meus ouvidos, continuará a chamar-me, a chamar-me, misteriosamente a chamar-me...

 

 

  

O sonho do idiota

 

Je suis inconsolable de t’avoir vue. Hélas! tu es la bien-aimée!

J'ai la mélancolie de toi. Je n'ai de force que vers toi.

 

Villiers De L'’Isle-Adam ― Axël

 

 

Revelações de gênesis que acorda, talvez, no cérebro daquele idiota. Revelações de gênio incubado, que o segredo de um pensamento isolou e emudeceu... Mas, contudo, o certo era que no cérebro daquele idiota rasgavam-se esferas curiosas de sensação, radiavam chamas fenomenais, línguas malditas falavam as linguagens cabalísticas, misteriosas, das paixões humanas, das complexidades psíquicas.

 

Espécie de formidável olho de ciclope, esse cérebro deformado via em visão múltipla, de sorte que, ainda mesmo na realidade, parecia sempre estar sonhando, ainda mesmo acordado, era um sonho vivo que perambulava...

 

Belo idiota, triste idiota, soturnizado idiota, este, em verdade, atado de pés e mãos ao cepo da sua própria existência, como anfratuoso e feroz orango preso em jaula de ferro!

 

De que rumos obscuros e tortuosos viera ele, girando no centro infernal das agonias desconhecidas; espécie dessas almas soluçantes na Dor e das quais a Natureza, por duras e rudes experiências, faz os eternos mármores e bronzes resistentes onde afia desassombrada e confiantemente as suas espadas e as suas lanças!

 

Quem sabe se ali não dormiria, nesse ser hediondo, a fina intuição arcangélica de um missionário celeste, para sempre irremediavelmente perdido no fundo dos grandes tédios e das grandes saudades?!

 

*

 

Uma vez que ermo e hirsuto como um dromedário sonolento errava pelas ruas escuras de certa cidade sombria, o pobre idiota foi corrido por apupos, pela chacota irreverente e apedrejada e penetrou, acolhendo-se, — massa mórbida, riso amolentado, aparência monstruosa de hidrocéfalo — a larga porta aberta de um templo iluminado.

 

Diante da multidão que murmurinhava dentro, ele estacou deslumbrado, como se de repente lhe parasse a circulação da vida, numa expressão animal tão veemente que os que o viram entrar olharam para ele surpresos, com movimentos instintivos de defesa, como diante de um perigo iminente.

 

Ele, mudo, no entanto, mas parecendo falar consigo mesmo qualquer cousa inteligível, exprimir qualquer cousa entre grunhido e voz humana, não se apercebera desses movimentos e continuava ali, parado, a atitude dura e hostil de uma pedra humanizada, em forma de ser existente, mas sem a completação fisiológica de todos os sentidos normalizados.

 

Um perfume celeste errava, vivo e intenso, no ar, evaporava-se lânguido das névoas brancas dos incensos...

 

O órgão nebuloso e sensibilizante, despertando na imaginação a lembrança de uma sombria clausura de almas suspirando e gemendo em sonhos tocantes e solitárias harmonias e magoados queixumes, e ao mesmo tempo longínquo, largo, lento e velado vento onduloso e dormente graduado em sons, expirava com enternecimentos melódicos, com taciturnas lágrimas sonâmbulas, deixando no ar a pungente melancolia fugitiva de um esquecimento amargo...

 

No recinto, agora, bizarros alvoroços passavam... Um zunzunear de turba que ondeia e que murmura. Era o vago adeus de final da festa. Abriam-se vastos e nítidos claros na multidão espessa, que se afastava, que saía... Uma agitação subia, uma pressa e confusão de retirada, como se o sopro rápido e fatal da desolação das cousas tivesse vindo inexoravelmente apagar a chama daquela fé que ali há instantes se acendera.

 

E aquela ondulação de corpos ia e vinha, circulava, para a direita, para a esquerda, subia e descia, para baixo, para cima, estuando, com a respiração de desabafo de um grande monstro saciado, já decrescendo, diminuindo, com oscilações fugitivas de torrente que escapa, que cede nos turbilhonamentos do curso...

 

Arrastado pelo povo, atirado aqui e ali pela onda que decrescia cada vez mais, o idiota tinha desaparecido de repente, semelhante a um mergulhador exótico que desce aos incoercíveis abismos do mar para surpreender-lhe os segredos.

 

Mas, daí a pouco, como a última onda da multidão se aproximasse da nave central, voltando do altar-mor onde genuflexara ante a imagem lívida e melancólica de Jesus, o idiota então novamente apareceu.

 

Agora, porém, o seu rosto de uma dureza e aridez de deserto, parecia estar transfigurado por um sentimento de infinita doçura, que o tornava quase belo. Uma irradiação dava-lhe asas... As linhas do seu perfil tortuoso ameigavam-se, suavizavam-se, e, nos olhos sempre opacos e indiferentes, fluía um brilho inefável, uma indizível emoção, tão intensa, tão viva, que dir-se-ia que os olhos tinham voz, que essa voz falava, que essa fala vinha pungida de lágrimas e acariciada de beijos... Olhos cheios das úmidas fulgurações de ouro líquido dos grandes e comoventes alucinamentos, parecendo terem atravessado a luz virgem de outros mundos intactos, invioláveis a olhos profanos; olhos que continham em si as febris alegrias de gozos inimagináveis.

 

Ele sentira, na verdade, qualquer cousa que o abalara, que o metamorfoseara assim por instantes desse modo.

 

Desvendara algum mistério, achara alguma constelação na terra, algum anjo entre os homens, alguma visão entre as mulheres! Sim!

 

Ele a tinha visto, na sua beleza mais do céu do que da terra, loura, os cabelos finíssimos, os olhos azuis peregrinos de frescura suave, a boca deliciosa e doce, na expressão cândida, infinitamente delicada, da carícia sutil de beijos alados.

 

Ele a tinha visto, espiritualizada por nimbos de angelitude — flor de graça e de glória, misto de madressilvas e luar, madona de seu viver mumificado, santa de lirial candidez entre todas as santas dos altares que ele estava vendo, mais bela do que todas, bendita e branca, inundada do cintilante pólen fecundativo da puberdade, vestida para o seu amor das alvas resplandecências sidéreas, pomba pulcra que não se dignava abrir e pousar as finas asas níveas e virginais sobre a necrópole vazia do seu coração de Idiota. Sim! ele agora era como um firmamento pomposo de astros: a beleza dela, que sorrira, passara e desaparecera na multidão, o tinha estrelado celestemente. Vergava, pois, ao peso de tanta e luminosa ventura, da ventura única de vê-la, de olhá-la sem pecado e sem crime nesse olhar, de senti-la de longe sem que o seu sentir a lesmasse, a manchasse com a lepra da sua miséria. Não! Ela fora embora, mas tão imaculada ou mais ainda do que nunca por aquele olhar-bênção, por aquele olhar-perdão, por aquele olhar-amor que ele lhe havia vibrado ocultamente, de longe. Nenhuma das partículas da sua desgraça sem limites a maculara, ele bem o sabia.

 

Ela era a flor, ao mesmo tempo carnal e mística, onde dormiam sonos mornos e magnéticos os insetos miraculosos de uma volúpia secreta. E ele, ao vê-la, para ali ficara absorto, contemplativo, no êxtase misterioso de uma Sombra sonhando...

 

Naquele instante divino todo o seu mísero ser estava também divino. Um prodígio de sensibilidade, de um sentimento melhor, que não é deste mundo, o iluminava e bendizia.

 

E esse sentimento que o transformava e que ele próprio desconhecia assim tão intenso e curioso na sua alma, transcendentalizava-o e dava-lhe ao obtuso idiotismo uma como que supervisão, certa regularização lúcida e nobre, fazia-o por instantes viver, reflexamente, na origem ignota de uma especial percepção mental e de uma extravagante emoção.

 

Podiam ligar-se, pois, ele e ela, no mesmo fundo de abstratas purezas, prender-se pelas mesmas espirituais correntes, fundir-se nos mesmos emotivos espasmos... Não! ele não violaria os melindres, os escrúpulos arcangélicos daquela natureza delicada, não iria empanar os cristais impolutos das esferas azuis onde ela triunfava. Podia, pois, reentrar, pura, inviolada, nos seus sacrários de ouro, nas suas preciosas redomas, nos seus majestosos domínios e reinados de formosura, incensar-se com o seu perfume de sempre, porque nada inteiramente nela nem de leve experimentara o contacto sutil das secretas e torturantes emoções dele.

 

Naquele grande momento a sua alma de olvidado tinha altares iluminados como esse templo, onde ele hóstias de sentimento comungava. Sim! ela se fora, ela passara, rápida e descuidada dele, mas deixando-lhe nesse curto espaço de tempo, que sintetizava toda a sua vida, mais funda e mais em chama que um abismo de sóis vulcanizados, a sangrante e convulsiva paixão que faz a febre, o delírio mortal do mundo.

 

Entretanto, parecia-lhe que já a havia encontrado outrora, noutros orientes lingínquos, noutra região de sol e de néctar, d'estrelas e açucenas, sob outra forma divina. Parecia-lhe que no país vago, azuladamente nevoento e remoto das suas reminiscências ela passara um dia, sob um fundo curioso de dolências, na delícia suprema e nunca mais gozada de sensações inolvidáveis que ele então experimentara.

 

Mas onde, já, o contacto das suas duas almas, sublimadas no Afeto, se dera na Terra? Onde se assinalara o encontro dos seus seres opostos? Que ritmos simpáticos os tocaram sensibilizantemente?

 

Ah! que vás Interrogações ao mesmo tempo tão inefáveis e tão terríveis!

 

Sim! não era ela nada mais do que a encarnação palpitante da sua visão, a cristalização das suas fugitivas saudades e ilusões, que por aquela embaladora e fugitiva forma vinha dizer-lhe o melancólico, o aflitivo, o desesperado adeus para sempre. Esse ressurgimento assim inaudito se lhe afigurava ser um fio tenuíssimo, disperso, de esquecida melodia, pelo qual se vai lentamente compondo e definindo aos poucos toda uma abandonada música sugestiva... Criação imprecisa, indecisa, indecisa, e que ele como que sentia ondular, através do espírito, na beleza e na tristeza fatal da lua melancolicamente exilada no exílio dos céus!

 

Ele radiava como uma transfigurada águia de envergaduras maravilhosas por entre um arco-íris sensacional de mistérios solenes — ele, miseranda lesma, que queria atingir, com as suas viscosas babas, o sol, purificar-se, perfectibilizar-se no sol!

 

A sua alma de noite paludosa, de caverna sem eco de vida afetiva, parecia agora feita de um azul meigo e crepuscular de firmamento osculado de luar, acordando numa opulenta e prodigiosa floração de pomos pomposos, de pasmos sensibilizantes...

 

Aquele organismo feio, nauseante, asqueroso, requintara nessa hora imprevista de deslumbramento, numa afinação rítmica de beleza estésica singularíssima, evidenciando ainda mais uma vez, assim desse modo, quanto as chamas da transcendência moral clarividenciam e transfiguram os seres, quintessenciando-lhes a forma do Sonho; que só a alma que sobe, sobe, sobe, que atinge ao céu astral de um purificado e abstrato Amor é bela...

 

Naquela hora todo o seu ser aspirava às intangibilidades supremas. Voos e voos de veementes anelos secretos cruzavam-se no seu ser. Aqueles momentos incoercíveis, etéreos, refinados num gozo original, subiam, do polo negativo da sua humilhada matéria, ao polo augusto das imortalidades do Espírito. Sim! Ficariam intactamente imortais esses surpreendentes e transfiguradores momentos de sensibilidade sem igual! Uma luz indelével de ilusão e de sonho fazia alvorecer e vibrar para sempre as recônditas e curiosas sensações, as ocultas e raras harmonias de tão fenomenal natureza.

 

Mas, como estivesse nestas profundas e extraordinárias conjeturas e agitações, revolto e incendido, a exemplo de um terreno onde há matérias inflamáveis, o idiota não havia reparado que a igreja estava quase vazia e que era ele uma das últimas sombras que ainda por ali se arrastavam na inconsciência dos pesadelos.

 

Nos altares já se haviam apagado todas as velas. Apenas, num dos altares laterais, dois círios acesos, mas quase extintos, ardiam, agonizando em fogachos fumosos e sangrentos, últimos soluços da luz, como almas abandonadas que ainda penassem no final de uma dor... Em cima, no seu nicho aberto em arabescos dourados, em ornamentações caprichosas, confusas e complicadas como sonhos, uma Santa loura, linda, o manto azul constelado de estrelas de prata, coroada de um diadema de cintilantes pedrarias, imobilizava-se indiferentemente como se por acaso a visão amada do idiota se tivesse ido ali corporificar nesse mármore de Santa.

 

Na sua pequena mão graciosa abria-se um lírio branco, — florescência simbólica das castidades místicas, forma cândida e aromal de volúpias sagradas e noviças...

 

O templo, como as portas misteriosas de um desses antigos subterrâneos suntuosos de riquezas, fechara-se afinal quase que por encanto...

 

Uma vida fantástica, místico-psíquica, ia sem dúvida se desenvolver agora na sombra, no silêncio frio, na solenidade morta, na solidão sagrada, através das vestiduras dos Santos, das luzes d'ocaso das lâmpadas, dos paramentos chamalotados, dos vitrais multicores, surgir, enfim, do enevoado esquecimento dos Ritos, como se o templo, significando e concentrando simbolicamente toda a histérica unção devota da Idade Média, naquele instante representasse o seu curioso cérebro hipercatólico, maquiavélico e fabuloso.

 

E, ou fosse porque não o tivessem visto ou porque o julgassem inócuo dentro do templo ou por qualquer outra capciosa razão, que escapara à penetração fiscalizadora dos acólitos, o certo é que ninguém deu pela presença do idiota sob aquelas abóbadas, só, silencioso e sombrio, após estarem seguramente fechadas todas as altas, largas e pesadas portas chapeadas de ferro.

 

Um profundo mutismo amortalhava o vasto recinto, dando à impassibilidade marmórea dos Santos uma expressão assustadora.

 

Parecia que todos eles dormiam sonos seculares e que por milagre inconcebível iam afinal acordar coincidentemente naquele momento, mover-se nos seus nichos, descer pé ante pé dos altares e, um a um desfilando, avultando, crescendo em número, enchendo toda a amplidão do templo, surpreender o idiota e puni-lo para sempre da culpa de tão insólita profanação.

 

Ele, porém, naquela solidão majestosa de onde se levantava o pavor, ia e vinha absorto num sentir extravagante, fechado no segredo tremendo da sua esquisita sensação de idiota, perdido o olhar atentamente nas Imagens mudas, a boca meio aberta, as narinas dilatadas num gozo mórbido de volúpias histéricas, como que na absorção das últimas névoas entontecedoras dos incensórios, percorrendo altar por altar, na perambulação hipnótica de fantasma do próprio fantasma do seu Desejo, de sombra da própria sombra do seu Afeto.

 

As altas, caladas e côncavas abóbadas, das quais parecia-lhe aos seus ouvidos alucinados do Desconhecido ouvir o profundo coro apocalíptico, reboando, ecoando de abóbada em abóbada; as grandes lâmpadas, à semelhança vaga de luas marchetadas ou de estranhas lágrimas estratificadas; todas essas magnificências de rituais que emudecem, de culto que dorme no granito e nos mármores dos seus santuários e Imagens, nas suas pratas e nos seus ouros lavrados, o magno e solene sono austero das Religiões, tudo isso incutia na impressionabilidade doentia do idiota emoções esparsas e amorfas, que não eram propriamente nem ingênitamente oriundas das ideias, mas curiosos estados de ser, enigmáticos monólogos, fenômenos nebulosos, talvez recuados ao antropomorfismo das células, à noite caótica, primitiva, da sensibilidade humana.

 

Mas, assim perambulando de altar em altar, de nicho em nicho, o triste idiota estacou diante daquela Santa loura, linda, o manto azul constelado d'estrelas, coroada de um diadema de cintilantes pedrarias, tendo na mão um lírio branco.

 

Estacou diante dela como que impelido por íntimo sobressalto, batido d’alguma recordação impulsiva que o tornava mais estranho que nunca. Levantou bem para ela os olhos em bugalhos de delírio, de aflição sem remédio e, caindo de joelhos, prosternado, os braços invocativamente abertos, num espasmo terrível, rolou para ali todo o seu tormento medonho, toda a sua dor amordaçada, toda a sua miséria secreta, numa linguagem obtusa e confusa de demência.

 

A alma do Idiota alvorava numa aurora negra de lágrimas, abria numa grande flor glacial e lacerante de soluços.

 

Eram soluços e grunhidos, verdadeiramente grunhidos animais e soluços humanos, que abalariam as pedras, se as pedras não fossem mortas, que abalariam os Santos, se os Santos não fossem pedra.

 

Caído de bruços, babando, como mordido por serpentes, na impotência da Dor que encarcera e despedaça a alma, o Idiota tinha viva, de pé, em flor e em beleza diante da sua angústia, como um tentador espectro divino, a florescente aparição que ele vira ali mesmo no templo.

 

Passava-lhe agora pela mente todo esse clarão mortificante de gozo, todo esse tantalismo de mulher que sorri uma vez, brilha e para sempre desaparece. E ele nunca mais a veria, nunca mais, nunca mais, nunca mais!

 

Ah! que inferno nunca sonhado tinha posto ante os seus olhos inúteis e desprezados essa luz consoladora, essa luz que ele jamais sentira, tão bela e tão funesta, aparecendo na serenidade dessa manhã dentro do templo iluminado? Que força desconhecida arrancara dos limbos do mistério aquela formosura ondulante como um verme, perigosa como um veneno, para deixá-lo prostrado assim, assim de bruços rojado, impotente e impenitente, babando a baba do ciúme, talvez a baba verde da Inveja?!

 

Sim! ciúme desesperado por vê-la de outro, por senti-la nos braços de outro, exalando a frescura matinal da sua mocidade inteira nos braços de outro, abrindo e desfolhando todas as rosas e magnólias olentes e virgens dos seus encantos para o gozo de outro! Sim! Ciúme feroz e inveja ainda mais feroz por ver-se idiota, inerme e inútil para florescer, para brilhar ao lado de outro homem são e forte que a desejasse, que a possuísse! Ah! ele tinha unia inveja sinistra de toda essa humanidade que passava equilibrada, direita, sempre com os mesmos e retos raciocínios, pela sua presença. Em cada homem ele via um rival desapiedado, indiferente, que lhe roubaria, não somente essa aparição alvoral, mas todas as outras femininas belezas que serpenteiam no mundo.

 

Só o silêncio, só a solidão o consolava e por isso ali estava sob a vastidão daquelas abóbadas, mísero, de rastros, suplicando, como o mais estranho e ignóbil dos mendigos, a esmola santa da morte. Só na morte ele podia libertar-se desta inveja que o acorrentava, que lhe porejava do sangue, que lhe vertia um fel verde à boca — inveja verde, nauseabundo reptil verde enroscando-se-lhe nas carnes, medonho reptil verde saindo-lhe dos olhos, asqueroso reptil verde saindo-lhe das narinas, todo o seu miserável corpo invadido por hediondos reptis verdes.

 

E como se essa sugestão doentia e diabólica da inveja lhe tomasse logo todo o cérebro e pasmosamente lhe gerasse absurdas visões na retina, jungido à mais perseguidora e atroz obsessão, o idiota, como um monstruoso reptil verde, sentiu-se subdividido, multiplicado infinitamente em milhões e bilhões de reptis verdes de todos os aspectos e formas, longos, lentos, elásticos, subindo pelos altares, descendo pelos paramentos, viscando as vestes dos Santos, se arrastando pelas asas, pelos frisos das colunatas, pelo arco cruzeiro, tatuando de verde a prata das lâmpadas e subindo, sempre triunfais, avassaladoras, sufocantes, numa peste verde, numa alucinação verde, até o altar-mor, sobre o cibório de ouro, sobre o cálix de ouro, sobre a cruz do Cristo de ouro, esmeraldeando maravilhosamente com bizarrismos bizantinos de formas as requintadas cinzeluras refulgentes, de níveas claridades puras e brumosas de Via-Láctea, da velada e suntuosa Capela de reverências, tabernaculal, do Santíssimo Sacramento.

 

Era uma fantástica vegetação de reptis que tomara todo o templo, ondas e ondas de reptis que se acumulavam convulsamente, num surdo murmurinhar e sibilos de esmeraldas ondulantes. Uns, de tamanho desconforme, verdadeiras serpentes formidáveis que com as cabeças e as caudas agitadas galgavam as grandes colunas do coro, os suportes dos púlpitos, enlaçando-se-lhes no bojo, em convulsões delirantes, como se os quisessem pôr por terra. Outros, de conformações exóticas, esguios, fugidios, lânguidos, esgueirando-se como crimes, encaracolavam-se nos colos brancos das Santas à maneira de colares. Por toda a parte a invasão sinistra dos reptis verdes da inveja lesmando tudo. Por toda a parte esse pesadelo verde, brilhos, reflexos, refrações esverdeadas por toda a parte, como se aquela vastidão sagrada se abrisse toda numa floresta de lúgubres assombros.

 

Batido, esporeado por um terror supremo, agrilhoado por todos esses reptis verdes, com os olhos transparentes do verde deslumbrados de pânico, no meio de todo aquele mar verde que o afogava, perdida quase a noção de que era humano, o idiota foi se arrastando, se arrastando até ao centro da igreja, como um sapo no fundo de um subterrâneo, agora ironicamente constelado em cheio pelo largo clarão matinal que osculava os vitrais ao alto.

 

A sua figura vil, miseranda, parecia torcida, crispada toda em garras, se arrastando sempre, sempre, a monstruosa cabeça bamboleando — crânio de mentecapto girando dentro do templo como dentro de outro misterioso crânio. Tentou gritar. Mas os gritos, nesse horror de túmulo, morriam-lhe na garganta, sufocavam-no, como se grossas cordas o enforcassem. Apenas podia se arrastar assim, mudo, sem um só gemido! — massa inútil rojada por terra, dor humana mordendo-se, devorando-se, despedaçando-se...

 

E ele se arrastava, se arrastava, em direção às portas, para sair, para correr, fugindo aterrorizado daquela colossal avalanche de reptis verdes, que por toda a parte, como ele, se arrastava.

 

Queria fugir como um homem alucinado que foge absurdamente da sua sombra num louco desespero; na agonia tremenda de um cego de nascença que se sentisse de repente preso pelas chamas de um incêndio, sozinho a tatear, a tatear num aposento fechado, aflito, gemente, terrível, sinistramente doloroso, a tatear, a tatear, sozinho, rasgando as roupas, rasgando as carnes, sem nunca conseguir libertar-se das chamas que cada vez mais o fossem devorando verminalmente.

 

E o Idiota se arrastava, se arrastava, se arrastava... Até que, exausto, banhado em suor, batendo os dentes de frio e de febre, grunhindo de horror, numa indefinível sensação, aos arrancos, aos solavancos, chegou afinal à grande e chapeada porta central do templo, que logo, como por encanto, abriu-se às amplas cintilações do sol do meio-dia — alta e larga — de par em par...

 

E só então foi que ele, acordando entre soluços, justamente e coincidentemente num meio-dia de sol, se apercebeu, perplexo, que tinha estado a sonhar, preso às inconsequências reveladoras do seu Sonho de Idiota, que mesmo assim acordado, continuaria eternamente e amargamente a sonhar...

 

 

 

A sombra

 

Ó Dor das Origens milenárias! Divina Consagração das Lágrimas! Seio profundo e misterioso das Apoteoses negras do Gemido e do Soluço! Dor das supremas Dores! Dor da imponderável Saudade! Que tu sejas neste momento comigo e me unjas com a tua espiritualizante graça...

 

Sim! Devia ser em sonhos, num fundo de fosforescências e neblinas, que eu vi a tua sombra, o teu vulto — certo a tua carne, o teu corpo, palpitando vida, caminhando para mim, espectral e ao mesmo tempo vivo, dessa vida que respira, que fala, que olha, que olfata, que gesticula e ondula...

 

Sim! foi em sonhos!

 

Não sei que estado eu experimentava em certa hora, que estado de nervos, de sensibilidade, de vibração; não sei que música dolente de melancolia, nem que amargurantes tristezas patéticas de saudade me invadiam em certa hora, que distintamente, nitidamente vi! — vi e senti que estava perto de mim aquela Sombra santa e amada que eu perdera um dia no Letes do esquecimento que a Morte cava...

 

Não era alucinação nem pesadelo — não era alucinação: eu estava sentindo diante de mim, como se surgisse do caos da Existência, aquela Sombra muda, mas viva, que caminhava para mim resolutamente, na afirmação vital do Ser.

 

Percorria-me um frio álgido o corpo todo, um frio de pavor, pavor de vê-la, medo de olhá-la assim, naquela imprevista ressurreição.

 

Ah! eu a amara muito, muito, com a eloquência profunda de um sentimento que não era talvez bem amor, mas sagração, adoração, fé religiosa, veneração e compaixão. Um sentimento que subia como incensos da minh'alma, que se exalavam ante a sua Imagem, como num altar sagrado. Sentimento épico, quase clássico, como por mármores augustos, por antigos templos cristãos. Um sentimento de carinhosa piedade patriarcal pelos seus sacrifícios, pela sua abnegação, pelos seus afetos extremos e dedicações sem limites, pela sua lhaneza estoica, pela sua caridosa ingenuidade humana, pela sua celeste ternura e misericórdia.

 

Mas a Sombra avultava, crescia, avultava mais, destacava da treva donde surgira, da treva do Além, das geladas névoas do sepulcral Silêncio... E das névoas, das névoas sepulcrais dos crepúsculos lôbregos, das tenebrosas argilas, vinha ela, numa transfiguração, surgindo viva: — vivas as carnes palpitantes, vivos os olhos amargurados, vivas as mãos batalhadoras, vivo e vibrante o coração majestoso de infinita bondade.

 

Eu a vira, a princípio em linhas indecisas, vagas, o contorno apagado, esboçado apenas num meio-tom de luz esmaecida como numa pálida claridade de lua d'alta noite, quando já os aspectos fulgurantes vão esmaiando, esvaindo lentos e perdendo a graça vaporosa e velada com as primeiras cores de rosa, os primeiros diluimentos e tenuidades da madrugada...

 

Depois, todo aquele fantasma tomava miraculosa feição singular, pouco a pouco; compunha-se todo aquele sistema de nervos, ampliavam-se aquelas formas, ganhavam as essenciais correções, a estrutura de um corpo vitalizado que age, que move-se, que sente.

 

E a Sombra buscava-me, caminhava para mim resolutamente.

 

Como círculos concêntricos de uma luz palejante, iam-se formando em torno dela auréolas, etéreos resplendores, nimbos diáfanos, refulgências de meteoros, vaga tonalidade violácea e amarelada, cintilas de ardentia, como que as dormentes refrações ouro-aço-azuladas de um sol de eclipse...

 

Parecia-me que ela vinha transfiguradamente irrompendo por entre discos, discos, discos e discos luminosos que se multiplicavam, que se acumulavam, num movimento de rodomoinho de sílfides aéreas vaporosamente circulando, girando em volta de lácteo clarão de leve luz nevoenta e gelada de uma lua polar...

 

Tais cambiantes, tais miríades de cintilações iriadas afetavam-me de tal modo a retina absorta, que nova e original comoção, nova sensibilidade a tocava, como de um ritmo fino...

 

Misticismos de êxtases, delicadezas de sensação, espasmos de ascetas enclausurados, de mártires lívidos nos cilícios da penitência, serenos na suprema Dor — circunvolviam-me de uma ideal beatitude de atenção resignada, para vê-la, para olhá-la, para reparar, trêmulo, no seu aspecto de Passado, de Esquecimento, de Túmulo, percorrendo com magoada ternura nos olhos todas as meigas curvas de sua face que eu beijara, como se o meu olhar deslumbrado tivesse tato, a apalpasse; evocando com lancinante saudade toda a angústia da sua velha e fatigada cabeça que eu tanto amara.

 

Doía-me aquela Aparição, afligia-me aquele Ressurgimento, tão vivo na minha presença, tão tangível ali, tão flagrantemente, que eu não sei de abnegações nem de resignações humanas, só celestes, só divinas! capazes de sofrer, sem estranha convulsão d'espanto, essa realidade móvel que vinha do Desconhecido...

 

E a Sombra buscava-me, caminhava para mim resolutamente!

 

Uma onda forte de emoções me inebriava, me atordoava como uma dor física, fazia-me pairar num círculo dantesco de fenômenos, paralisando-me a voz, o gesto, o andar, mumificando-me à Terra.

 

Só, dentro do meu cérebro, o pensamento girava, funcionava como em brumas muito altas, num revolvimento de germens recônditos; formavam-se mudamente ideias que não achavam a expressão eloquente da linguagem, tão confusas e atropeladas de terror sagrado vinham elas...

 

Mas um mistério maior desolava-me de morte, torturava-me, dava-me o suplício gelado de achar-me vivo numa sepultura: — o mistério da semelhança!

 

Ela parecer-se comigo, ter os mesmos traços, certos estremecimentos da face, o mesmo olhar, o mesmo espesso lábio sensual, a mesma expressão nostálgica de beduíno no semblante, a mesma fugitiva melancolia — tudo, tudo isso me flagelava, eram tormentos insanos que eu sofria calado, parecendo que ela trazia em si, em impressionismos abstratos, desfeita, desaparecida, muita sensação que já fora minha, muita esperança, metade da minh'alma já morta, partículas originais de afeto, de cuidados, segredos e curiosidades íntimas, perdões e clemências que tinham ido embora para sempre com ela.

 

Uma infinidade de sentimentos obscuros, secretos, eu via passar, ondulando, através daquela Sombra, como através de um espelho fantástico que ali estivesse milagrosamente refletindo paixões...

 

Eu existia naquela semelhança perseguidora, naquela semelhança que parecia reproduzir imensa aluvião de fenômenos da alma que já dormiam eternamente no meu ser...

 

Eram períodos gradativos e curiosos, a evolução lenta de organismo novo que procura adaptar-se à Vida, a intuição eloquente dos Destinos, formando grandes e enevoadas colunas de mistério, como as hebraicas colunas de fogo...

 

Então, eu via-me ali quase que vivendo em parte, tendo bem pouco do que tinha quando ela, de fato, vivia — via-me em parte, porque se ela na existência trouxera o meu sangue e esse sangue gelara, deixara de circular nas suas veias, certo era que bem pouco desse sangue eu trazia também agora a circular nas minhas.

 

E sentia diante de tão flagelante semelhança, uma dualidade de natureza operando em mim mesmo: — a que partia, fremente, do meu ser, que existia no meu eu e a que partia, estranha, daquela Sombra móvel... E no espírito crescia-me a obsessão de que ambas essas naturezas, pertencendo-me, se desequilibravam no entanto no plano geral de existirem unas e indivisíveis. Uma era a natureza real, a propriamente minha; outra era a natureza da Sombra, estranha. E eu debatia-me, debatia-me com ânsia para libertar-me da segunda e envolver-me todo, isolar-me, concentrar-me e subjetivar-me, profunda, fundamentalmente na primeira...

 

E eu lutava, bracejava doloridamente, bracejava, tateando numa dúvida cruciante, para sair fora daquele cárcere de angústia, para desprender-me daquela tumular Visão, para fugir daquele mirrado esqueleto a que eu estava agrilhetado e cujo impressionismo de pavor me dilacerava e queimava as carnes, me devorava como uma chaga, rasgava-me a punhaladas o coração, hipertrofiava-me, despedaçava-me os nervos...

 

E eu abria muito os olhos, assombrado, num espanto mudo... E um silêncio negro e gelado e espessas névoas de sono pesavam no ambiente... E nos olhos passavam-me deslumbramentos cegantes, visões pulverulentas de além-sepulcro... E eu abria cada vez mais os olhos, assombrado, num espanto mudo... E eu abria cada vez mais os olhos, cada vez mais, cada vez mais... E os olhos, espasmados de terror, aflitos, perseguidos pela Sombra, parecia-me senti-los crescer, dilatarem-se, grandemente, longamente, rasgadamente abertos e fascinados pelos magnetismos letais da Sombra...

 

Invadia-me um desejo angustioso, soluçante, um delírio mortal de gritar, de gritar alto, atroadoramente, de encher todo aquele ambiente com os meus gritos desesperados; mas, apenas meus lábios se moviam para gritar, um soluço estrangulador guilhotinava-me a voz, desarticulava-me a língua, e apenas rouco, surdo, absurdo som ininteligível, como o grunhido animal de um mudo, rolava, arrastava, rangia áspera, pedregosamente na garganta o seu torvo tartamudismo.

 

Parecia-me que se eu gritasse, se abalasse a atmosfera com grandes e longos brados, talvez que o Fantasma, assim arrebatado, assim repelido, assim violentamente sacudido pelos gritos, se aterrorizasse e desaparecesse...

 

Parecia-me que esses gritos de terror sobrepujariam, venceriam afinal o alucinante fantasma, que era o próprio terror...

 

Mas ao mesmo tempo, temia que esses gritos, como um vento sinistro que levanta, torna mais intensas as chamas de um incêndio, despertassem, acordassem de repente com impetuosidade, com estranha veemência, a vida insana, estupenda, que eu imaginava estar nebulosamente dormindo lá dentro, lá bem no fundo misterioso desse Fantasma.

 

E a Sombra buscava-me, caminhava para mim resolutamente!

 

Por um fenômeno singular de visão, que os nervos superestesiavam, eu a via, ora perto, ora longe, mais longe, muito longe, quase já sumida, já apagada no fundo das cinzas da distância, vindo e se afastando, se afastando e vindo para mim...

 

Mas que germens ocultos fecundaram de novo aquela vida, que seivas inauditas a geraram de novo, que filtros mágicos, maravilhosos, a ressuscitaram, que ela me aparece de tal forma agora, muda, muda, caminhando serenamente para mim, solene e augusta na divinal atitude, sublime, egrégia, como se fosse soberanamente julgar as almas no supremo Juízo Final!

 

E como eu a reconhecia então — ela — a mesma que a Imaginação sonhara — Mãe! Mãe! Mãe! — três vezes bendita entre as mulheres, três vezes crucificada de Agonia!

 

E toda a longínqua e azulada colina de um passado foi se desnevoando, desnevoando, aparecendo aos meus olhos, bíblica, povoada dos brancos e mansos rebanhos da paz, da alegria, da suavidade infantil, da adolescência ingênua, guardados pelo amor daquela Sombra, — cândido pastor, simples e tranquilo, vestido de linho alvo, guiado pela estrela simbólica, sob a clemência dos Céus...

 

E por que me viera assim surpreender essa heroica e transcendente Aparição? O que vinha ela saber de mim? O que quereria nesse extremo momento? O que buscava? A minh'alma, o meu pecado, o meu crime em viver ainda e abandoná-la no Além, só e fria, enterrada tantos torvos palmos, tão profundamente enterrada na terra lutulenta e enregelada? O que buscava ela? O que procurava em mim assim surgindo, andando sonâmbula, vagando sem rumo e rumor como sobre onda, nuvem, espuma?

 

Mas por que me aparecia ela agora? Seria para exprobrar-me o passado? Seria, por acaso, porque não pude envolver na vida em mais delicados cuidados e recônditas carícias as suas longas dores angustiadas?! Ah! porém ela agora está morta, ela agora está morta! Se estivesse viva sentiria então que devotamentos, que consagrações, que inabaláveis, que terríveis dedicações a cercariam, defendendo-a, como couraças e lanças gloriosas de um soberbo e insólito heroísmo; como eu a estremeceria de um amor infinito, como eu lhe votaria afetos supremos, entranhados, profundos!

 

Que segredos tremendos me vinha agora fazer essa Sombra viva, que eu sentia, que eu via, olhando-me muito, em silêncio, mergulhando os seus olhos cavados nos meus olhos, estendendo — ah! horrível! — os braços longos, para mim, como para abraçar-me num abraço, por certo, gélido, num abraço, por certo, esquelético e terrível!

 

Oh! como era lancinante, que aflição de afogado ante essa Visão que me chumbava os pés, que me punha um peso imenso de pavor na língua, um suor letal na fronte e como que lúgubres cadeias de ferro nos pulsos!

 

Como era dolorosamente, lugubremente medonho o seu caminhar tateante, oscilante, mas que seguia resoluto para mim, perseguindo-me, atraindo-me como um demônio, fascinando-me como um filtro pecaminoso, como um vício secreto, como um mal doentio, como uma serpente magnética, como uma nevrose fatal!

 

E a Sombra caminhava, caminhava para mim resolutamente, resolutamente, agora com o passo mais largo, alongando mais para mim o vulto hediondo... Caminhava, caminhava... E eu, pregado, estatelado ao chão, jazia inerte, hirto, petrificado, sem ação para libertar-me daquele horror... E ela perseguia-me, perseguia-me, inexorável Remorso! com o passo cada vez mais largo, alongando cada vez mais para mim o vulto hediondo, quase já — ó Trevas eternas! — tocando as minhas vestes, quase, quase... Quando, eu, quebrando, partindo, despedaçando todos os ferros de algemas das tormentosas masmorras do meu Sonho, num grande grito, afinal, por tanto e tão longo tempo angustiadamente sufocado, acordei de repente, esvaindo-se então a Sombra, de um sopro, retornando as letíficas, glaciais estradas do Além, de onde por instantes surgira...

 

Apenas o meu cérebro, atordoado ainda, adormentado, abatido, ficara, como dentre restos de fumo denso, de vapores espessos do fogo de sanguinolenta batalha, turbado pela pesada bruma letárgica do pesadelo que o invadira, subjetivamente chamando este monólogo amargo:

 

— Ah! Sim! Sim! Que estranho pavor! Que estranho pavor ter-te bem junto a mim, num contacto álgido — Tu! — que eu na Grande Hora da Vida amei já, lá para o passado dos anos! Tu, a quem eu consagrei Evangelhos de Adoração, altas venerações, sentimentos excelsos, solenes como elevadas torres de cristal tocando sideralmente as Estrelas...

 

Tu! que produziste a dolente, a magoada Obra de sangue da minha existência e a quem eu dediquei alma, afetos, ternuras, suavidades do coração, sinfonias beethovínicas do Amor, Tu! — misericordiosa! — Tu! — clemente para mim como nem os Céus o são!, Tu! — dá-me o teu perdão, o teu perdão, porque eu não poderia mais receber os teus abraços, os teus beijos, o teu olhar de sepulcro, teria de repelir-te e — ó! desespero dos Esquecimentos eternos! — de repudiar até a tua Sombra, tão grande e tão fundo seria em mim o terror de sentir-te perto!

 

Não que eu desdenhasse da tua Entidade amargurada, aflitiva, tristíssima, dolorosíssima; da tua bondade suprema, compassiva e comovente; não que eu crivasse de pungentes ironias a tua obscura alma presa, arrastada pelos ergástulos das lágrimas, abalada tragicamente por soluços...

 

Mas tu me aparecerias tão mudada, tão transfigurada por fluidos, trazendo tão prodigiosos eflúvios de outros mundos, tantos raios doutras esferas, tantas fantásticas expressões e singularidades absolutas da treva de atros, tetros báratros, que eu, frágil, que eu, matéria humana, que eu, tecido tênue de nervos, me aterrorizaria e sucumbiria de pasmo...

 

No entanto experimento ainda uma esquisita sensação de dor de lembrança, de saudade, se te evoco, se recordo os bens assinalados que me fizeste, a Criatura ideal que foste, tão meiga de bondade, que toda a carícia da terra é hoje para mim desprezível e vã diante do mar soberano da tua espiritual Afeição.

 

E, é só espiritualmente, só pela eterificação do Pensamento, que sinto que ardes ainda, em chama perpétua, nas majestosas lâmpadas evocativas dos sacrossantos ocasos das Recordações.

 

Mas, se por um absurdo da Natureza me aparecesses flagrantemente, tangivelmente viva, não mais esqueleto, não mais cadáver inteiriçado — seria tamanho o abalo, a convulsão do meu ser, tão intensos delírios e vertigens, tantas ondas de estremecimento me agitariam, tão latentes seriam as transfigurações, as metamorfoses dos meus sentidos, repudiando-te aterrorizado nesse momento — que até tu mesma, que foste Mãe piedosa, Mãe clemente, Mãe misericordiosa, desconhecerias teu filho e talvez então o amaldiçoasses, blasfemando; talvez lhe arremessasses à face Anátemas como pedras, desoladamente chorando e soluçando para sempre por tanto e tão doloroso desamparo e esquecimento eterno!...

 

 

 

Nirvanismos

 

Há loucuras que, como as noites polares, se transformam em verdadeiras auroras boreais reveladoras da mais perfeita lucidez e são a ponte mágica de cristal e azul sobre a qual emigramos do gólfão infernal da Terra para as alvoradas de ouro de um Ideal.

 

Madrugada verde, madrugada de esmeraldas liquefeitas que cintilavam na folhagem tenra, foi essa em que Araldo se fez de marcha, florestas densas a dentro, através da frescura e da virgindade lirial da luz que ondulava...

 

Já todo o extremo limite do mar, no horizonte longe, acendia, rebrilhava, num polimento de cristal sonoro e a última estrela tardia, terna e doce, vagava, peregrinalmente vagava na Boêmia celeste, extinta já no esplendor verde da madrugada subindo, a intensidade viva da sua chama branca das cândidas vigílias esponsalícias dos astros.

 

Pairava no ar um anseio voluptuoso de despertar, um espreguiçamento, de braços lânguidos, uma revelação genésica, o nebuloso sentimento da renascença da terra, sempre casta e fecundadora, sonhando e gerando as perpetuidades da Vida.

 

A hora da transição, da ansiedade do claro-escuro surdinava no ar, bandolinava no céu as derradeiras e saudosas serenatas...

 

Um calafrio luminoso alvoroçava tudo. Começavam delicadamente, harmoniosamente a vibrar leves baladas de auras que vinham picadas do sargaçoso mar salgado, dos bafejos aromados das plantas e das resinas.

 

Pelo horizonte subia o êxtase claro da luz difundida aos poucos e gorjeios e cânticos e rumores e alacridades e murmúrios de águas que acordavam cantando, e alaridos e zumbir de insetos, e estrépitos e palpitações, e vozes estranhas e voos e cicios e ecos e clamores longínquos, e frêmitos e beijos e risos e canções e formas confusas, e vertigens e movimentos, tudo acordava em ondas, burburinhantemente, turbilhonantemente.

 

Clareava, clareava; e a claridade meiga, suave, que aveludava tudo, parecia cheirar a magnólias desabrochadas ao luar.

 

Através das florestas, por onde Araldo errava foragido, a alma jungida aos remorsos, fugindo à condenação dos homens, levantavam-se, tremendas e tumultuosas, grandes árvores seculares, sombras e espectros verdes ramalhando as largas copas agitadas de sonhos.

 

Eram florestas imensas, desconhecidas e imensas, por onde nunca o olhar humano vagara, inacessíveis a outros seres, mas onde Araldo sonhou, ansioso, achar de repente um abrigo eterno, profundo, que ninguém poderia devassar jamais!

 

E tinham suntuosidades e orquestrações de órgãos monstruosos de catedrais festivas, gemendo e murmurando, plangendo, suspirando graves litanias, cânticos aclamatórios de grande unção coral magnificente, suprema.

 

Troncos senis e formidandos, como Prometeus petrificados, expunham as suas corpulências primitivas, lembrando aspirações antigas, velhos desejos fatigados que ali houvessem para sempre tomado a compostura indiferente das múmias.

 

Quem teria guiado Araldo por esses ínvios caminhos? Quem lhe teria, Desespero, Tédio ou Saudade, ensinado o abrigo, a solidão, o obscuro repouso dessas florestas invioladas?!

 

Ele queria fugir à Vida, fugir, fugir sempre, esconder-se da face do mundo, habitar numa furna como selvagem, viver nas florestas como os lobos, errar nos desertos como os párias.

 

Fugir para longe dos execrandos contactos dos homens, da medonha estagnação dos seus sentimentos, da descarnada nudez dos seus egoísmos ferozes.

 

Errar sozinho, sozinho, sombrio visionário peregrino de suprema Aspiração nova, vulto messiânico, talvez um desses graves missionários cujas vidas sacrificadas por uma ideia rasgam-se nos espinhos dos ermos, despedaçam-se nas hostilidades ambientes, martirizam-se crucificadas nas monstruosas cruzes negras dos calvários tantálicos do Tédio...

 

Ah! a solidão, o deserto, o deserto!

 

Que belo e que majestoso o deserto, frio e só, só com a lua, só com o sol, só com as estrelas, caminhando sobre as infinitas areias desoladoras, sentindo chorar no peito, como negra água presa e triste, melancolicamente cismadora, a que despedaçaram as asas sem piedade, o grande sentimento de uma esperança para sempre extinta.

 

Esconder, esconder a chaga da Vida para bem longe, fugir para além deste mundo, para o imponderável Ideal, errar nos sonambulismos da treva e nos sonambulismos da luz — sombra informe batida das rebeliões da terra, arrastada pelas tebaidas de uma enorme saudade e enchendo dela todo o tempo, todo o vácuo desse existir peregrino, desse existir lacerado de impaciências, de febres, de ansiedades, de desejos embrionários cuja primeira flor vermelha e de ouro outras mãos sacrilegamente colheram.

 

Invadido pela força poderosa de uma paixão aterradora, talvez de uma sensibilidade extra-humana, Araldo queria esconder em seios inteiramente intactos de florestas desconhecidas, em regiões nunca vistas, o horror da sua culpa em muito ter amado e em muito ter iludido o coração e os olhos. Verdadeiramente açoitado pela peste, pela lepra sinistra do ódio e do desprezo humano, como um animal acuado, ele espiritualizara mais e mais a sua natureza, requintara o seu sentir, quint'essenciara os seus nervos e, no sensibilizante misticismo de um Santo, mergulhou no mistério, pairou no maravilhoso, vagueou no Sonho, eterificando-se, diluindo-se em lágrimas, em gemidos abafados, quase perdendo todas as qualidades ingênitas que o prendiam fatalmente à Matéria.

 

E Araldo é agora o Espectro, a Sombra, o Fantasma de si mesmo, que vê rodar, eternamente rodar diante dos olhos, num espasmo de alucinado, o tropel de Visões da alma gemente, das suas desesperadas Saudades. Vê rodar, eternamente rodar os inquisidores círculos múltiplos, trágicos, onde as suas excelsas Esperanças lentamente, monotonamente nasceram e morreram.

 

Já, clara e quente nos horizontes, a luz subira de todo, intensa, larga — mar de ouro, mar de ouro e pedrarias prodigiosas, auréolas de íris, sangue, azul e leite derramado abundantemente, vinhos preciosos de astros escorrendo das dornas celestes.

 

E Araldo, na sua peregrinação constante pelas florestas, caminhava...

 

Lívido, a cabeça num bamboleio de fadiga, com os cabelos em patético desalinho, como a cabeça de um enforcado, os olhos transpassados de um tormento mudo, a boca seca, áspera, retorcida por um momo lúgubre, o seu perfil dolorosamente esquecido tinha uma doçura triste, uma carícia dolente, uma taciturnidade tão funda, uma angústia tão cruel, uma aflição tão desamparada, que parecia álgido cadáver que procurava para único descanso o túmulo que até mesmo na morte lhe era vedado; ou então um louco que por alguma sugestão hipnótica, por algum pressentimento estranho que os altos Signos assinalam, corresse a ver, despenhado e incerto, os funerais de sua mãe...

 

E Araldo, nessa peregrinação pelas florestas, caminhava, caminhava.

 

O sol leonino e guerreiro fazia fuzilar d'alto as suas couraças d'aço, de cristal e prata e desses coruscantes troféus d'armas facetadas viva marchetaria de raios e de centelhas cravejava as florestas por onde Araldo seguia vestido do manto miraculoso das pompas consteladas.

 

Ah! que transitório, que efêmero nababo ia ele, e que mendigo, que miserando eterno!

 

Mas, que florestas eram essas que Araldo rompia sempre e a quanto tempo ele as rompia?

 

Moço, forte, a cabeça ainda chamejante das Quimeras, todos, com pasmo, o viram partir um dia, desaparecer bruscamente de todos, ocultar-se num esquisito Segredo de viver, cujos fabulosos perigos e originais deslumbramentos ninguém perscrutou jamais!

 

*

 

Ele era da eterna Raça maldita dos gloriosos Tristes, dos gloriosos Grandes e vinha de um fundo muito carregado de Meditações e de Cismas, de sede de Sonho, como do centro misterioso e flamejante de um Sistema planetário.

 

A terra parecera-lhe sempre um formidável buraco onde os homens se arrastavam com as cabeças vazias, mas com os ventres cheios.

 

A mulher parecera-lhe sempre a perfídia, a traição mordente, verminal de lago, com negras asas sutis de tentação fatal e com carícias de fel.

 

Assim, sem objetivo entre os homens, sem laços terrestres e sem amor, como que ia deixando finar-se, apodrecer a matéria, para só ressurgir e vitalizar a flor melindrosa e virgem das quint'essências da Espiritualidade.

 

Lembrava um ser que quisesse absurdamente transpor as barreiras inevitáveis da Vida sem estar sob as diretas influências e as correntes impulsionastes e fatais da matéria.

 

Perdido, emaranhado por obscuras e confusas psicologias, de síntese em síntese, de generalização em generalização, operando-se em todas as suas faculdades criadoras, imaginativas, em todas as complexidades do seu ser mental, uma profunda, radical Transformação, como esses abaladores terremotos que agitam e convulsionam o frágil organismo do mundo, Araldo foi pouco a pouco rasgando horizontes desconhecidos, atingindo pólos raros e mágicos, subindo a Transcendentalismos invisíveis, imperceptíveis, desprendendo-se cada vez mais da velha Causa tangível, despindo-se do Real, fugindo do seu raio biológico de ação comum, entregando-se completamente ao Isolamento, à Abstração absoluta, até que afinal, um dia, em virtude das próprias Regiões quase extra-humanas a que ascendera, penetrou, transfigurado, em outras delirantes e nebulosas Regiões!

 

Tempos passaram, muito anos, talvez um século e ei-lo que aí segue ainda, velho já, as pernas bambas, bambas, trôpego velhinho que o Silêncio e o Passado santificam e envolvem com o seus longos véus noturnos...

 

Que florestas eram essas, com animais piores que os lobos, piores que os tigres, piores que as serpentes, piores que os homens? Não eram, decerto, em região nenhuma da terra, nem do céu, nem do inferno. Onde eram, então, essas florestas? Onde eram?

 

Mas Araldo, na sua peregrinação constante, caminhava, caminhava, caminhava, como que arrebatado por um vento acre de Imaginação.

 

O sol, que se tornara intenso, flamejava cada vez mais, ardia-lhe cruamente na face em chicotadas de fogo, fervia, chiava-lhe na pele, abria-lhe a pele em equimoses vermelhas, chagava-o com as suas tenazes em brasa e ele rasgava-o com os pés nos cardos bravos, ensanguentava nos tentáculos hostis das ramagens intrincadas, da multiplicidade maravilhosa de vegetações extravagantes, multiformes, confusas, de exuberâncias fenomenais de folhagens inauditas, dentre as apoteoses viridentes de todas aquelas seivas, das possanças de todos aqueles germens, das impolutas manifestações de todas aquelas vidas vegetativas, sentindo uivar, bramir, rugir feras terríveis que lhe parecia virem de dentro de si próprio, sempre caminhando, caminhando pelas florestas como um deus singular ou um índio magnetizador e feiticeiro que, sob a ação de filtros mágicos, anulasse todo o poder dos animais selvagens, que se abatiam tímidos ante o horror doloroso do seu Espectro peregrinante e como que sobre-humano.

 

E as florestas se reproduziam infindavelmente, cheias de um pavor majestoso, de fenômenos que as fecundavam e circulavam por todas elas como estupendas criações feéricas.

 

E ele rompia florestas, florestas, florestas, caminhando como um pesadelo, numa onda surda de ansiedades que não lhe arrancavam, no entanto, nem um grito, nem um ai agoniado, nem um soluço abafado — mas que o transfiguravam, que o tornavam lívido, mais lívido, muito lívido e as pernas mais bambas e os braços mais desolados e o olhar mais perdido, mais errante, mais perdido...

 

E a hora desse dia era infinita, uma hora que não acabava mais, por um sol que abrasava cada vez mais, incendiava as florestas e parecia não findar nunca! Um dia cruel, interminável, de um sol duro e bruto, pregado impassível no firmamento, que parecia não ter jamais o oásis repousante de um ocaso. Um dia de hora acesa no espaço, como num relógio imutável. Um dia de século, um dia que ele sentia penetrar, abrange eternidade, à proporção que ia envelhecendo mais, que lhe cresciam barbas mais longas, rugas mais imponderáveis, tremuras mais senis, mais pavorosos arrepios, apesar da cáustica flamejação do sol.

 

Envelhecia mais, gradualmente, com as árvores, com as florestas, que se cobriam também surpreendentemente de um nevoeiro branco como de cabeleiras de velhice...

 

Envelhecia, envelhecia e as florestas envelheciam juntas com ele, numa fraternidade piedosa de acompanhá-lo na mesma suprema e insana desolação, na mesma alucinação da Vida.

 

E ele caminhava, caminhava, tão velho como as Idades, no seu constante peregrinar....

 

Para que novo e intacto Inferno caminhava então ele assim?!

 

Mas, de repente, eis que as florestas recuam, se apagam, vão desaparecendo aos poucos como por encanto; o assombroso esplendor verde das árvores some-se no longínquo horizonte, como névoas que se desfazem, começam, então, de repente, a surgir areais, areais de desertos inóspitos, areais infindáveis, areais que sucessivamente se reproduzem, longos, muito longos e alvejantes, lá, para além das distâncias que a retina não pode abranger nem descortinar...

 

E Araldo começa de novo a mergulhar noutra ansiedade, a engolfar os pés nos fofos areais fugidios que como que recuam a cada passo que ele vai dando.

 

E os areais se prolongam, numa intraduzível tristeza de vastidão, surdos e estéreis, com as suas ondas brancas de pó acumuladas solitariamente.

 

Vencido pelo tempo, vilipendiado, Araldo vai mergulhando nas surdas areias torvas. Mas, a cada passo que ele dá para adiante, a onda de areia, fofa, frouxa, o arrasta mais para trás; cada investida que ele dá para a frente parece uma investida falsa, vã, inútil, porque os seus pés, pesados e adormentados pela marcha perpétua paralisam completamente quando em mais fofa, mole vaga de areia ansiosamente mergulham.

 

Em certas zonas, em certas regiões, a vastidão plana dos areais se modifica, dá-se uma transmutação súbita; e elevações de colinas, cômoros altos, de protuberâncias piramidais de catafalcos, ostentam-se ameaçadores diante do escarnecido pária, que galga por eles acima, vai subindo, subindo, lá enterrando inquietamente os pés nos lassos areais, descendo após às ampliações planas, galgando novamente os catafalcos de pó, subindo, descendo, descendo, subindo, às vezes abalado pela impressão de ir suspenso no ar, com as mãos, trêmulas e tísicas, lesmadas por um frio tumular de medo, tateando, oscilando no espaço como duas asas hirtas e a envelhecida e espectral cabeça martirizantemente nimbada pelo sol.

 

E, à proporção que ele caminha mais para a frente, os horizontes se ampliam e afastam para longe como se obedecessem a um movimento gradual e curioso da elasticidade nos corpos...

 

E Araldo segue, assombroso, sinistro, através da amplidão e da solidão dos areais mortos, como a Epopeia simbólica das sensações!

 

Súbito uma legião de fantásticas aves colossais, formidáveis, de corpulência humana abateu-se sobre ele, precipitou-se, num voo incisivo, como se acaso ali mesmo o fossem devorar inclementemente.

 

Mas, talvez por tê-lo reconhecido, por senti-lo irmão naquelas agonias supremas, como eram também elas, aves simbolizantes do Sentimento e do Vago, da Piedade e do Consolo, deslizaram suavemente sobre Araldo em carícias de asas, em grasnos compassivos, quase gemidos, cobrindo-o, envolvendo-o com as suas plumagens errantes do Azul e da Treva, na infinita misericórdia das Esferas!

 

E Araldo assim ficou por alguns momentos, subjugado por esse terror sagrado e ao mesmo tempo pacificante, de olhos fechados aos vultos negros e sepulcrais das aves, atordoado, sonâmbulo, dir-se-ia gozando morbidamente, inconscientemente, o espanto dessas incognoscíveis e emplumadas Aparições.

 

Depois, quando abriu lentamente os olhos, tinham desaparecido todas as aves, reentrado no Mistério, remergulhado no Vácuo, levando na fímbria das asas olvidadas e poderosas os últimos raios ouro-violáceos do crepúsculo que essas aves ignotas pareciam ter trazido nas imensas sombras das asas e que descera então afinal sobre aquele pasmoso e interminável dia tão duramente impassível como as pedras.

 

As sombras, amplas, largas, pesadas, circunvolveram logo os sáfaros areais desertos.

 

Por entre brumas espessas, vagorosa e taciturna, na lenta gênese da sua luz, apareceu a lua, vagamente lembrando a nebulosa de um Espírito...

 

Uma claridade diluída, fina, frouxa, ia ungindo tudo...

 

Ondas e ondas nervosas de brancuras lívidas se derramavam como resinas iluminantes; evaporações subiam, se exalavam como de ânforas ardentes, envolvendo a vastidão entre diáfanas auréolas fantasiosas.

 

Certas tonalidades azuladas, roxas, sulfúreas, languesciam, quebravam-se...

 

E aqueles aspectos deslumbradores, magos, dos desertos que se repetiam e que o luar martirizava de uma grande mágoa muda, pareciam os aspectos quietos, calados, lacerantemente, silenciosamente dolorosos, das paragens mortas do Esquecimento...

 

E agora, no luar, outra original ansiedade se difundia — profunda, mais profunda do que nunca, para o Desventurado eterno.

 

Harmonias violinadas e doloridas alanceavam-lhe os nervos; finas e sutilíssimas melodias afinadas pela mais intraduzível amargura fluíam dos raios do luar, das neblinas, dos Angelus do luar...

 

E jamais, jamais Araldo parecera tanto um Espectro como agora, com o selo impenetrável das Desilusões augustas, os olhos, a boca, o peito e os pés já letárgica, sonolentamente tocados por fluidos gélidos e magnéticos de morte, como que revestido do sambenito para os Autos-de-fé, caminhando dentro do Sonho, do espasmo branco do luar soturno e cirial...

 

E todos os sentidos de Araldo se requintavam, atilados na sonoridadade acústica da alva claridade noturna; uma percuciência maior, mais intensa, os vibrava; ele sentia a acuidade penetrante de tal modo expressiva e flagrante como se o seu ser fosse parte esparsa, diluída no grande todo que a lua liriava, agindo com o agir dos inorgânicos, do alado, do evaporável, na mesma sensibilidade intangível da natureza circundante.

 

Ele sentia difundir-se-lhe diante dos olhos esse indefinido perpetuar de visões e sensações, essas ondulações de mundos fascinadores e novos, o flutuante, o vaporoso estado principal de orbes, de esferas flamantes em condensação; sentia a sugestão original de gênesis que se revelam, e todo esse torpor, esse adormecido quebranto de corpos que se fecundam e geram, todo o caprichoso caos germinativo e alucinante que deve singularmente afetar, com o mais intenso e profundo nevropsiquismo, impressionar curiosamente a retina interior dos cegos no seu sonambulismo tátil.

 

Fogos-fátuos, prismas cambiantes, eclípticos, giravam-lhe, fosforeavam-lhe dormentemente diante dos olhos, no enebriamento entorpecedor do luar...

 

Os ouvidos, a cada instante mais dúcteis, mais rítmicos, mais afinados, tinham a pouco e pouco mais aguda suscetibilidade.

 

O terror do deserto, o sigilo amedrontador do luar, a amplidão, o vago, o incoercível da Noite, punha-lhe em todo o organismo essa excessiva vibração, essa extrema sensibilidade, essa extraordinária superestesia nervosa.

 

Então, através dos finos cristais musicais do luar, com o ouvido de uma delicadeza quase mórbida de percepção, que atuava no seu sistema nervoso pela ansiedade flagelante, pelo excesso atordoador do sofrimento, pelo refinamento da angústia, parecia a Araldo escutar, vibrado longe na limpidez glacial da lua, o seu nome desventurado: — Araldo! Araldo! Araldo!

 

E essa voz compungida, num brado claro, como timbrada em aço, chamava alto: — Araldo! Araldo! Onde estás? Onde estás, Araldo?! E como que essa voz se reproduzia, se multiplicava, cada vez se aproximando mais dele — era um marulhar de vozes que estalavam, cantavam de todos os lados, subiam dos areais mortos, desciam dos infinitos céus, do esplendor fabuloso da lua, bradando: Araldo! Araldo! — vibração deslocada na cristalização luminosa; Araldo! Araldo!; osculando os areais desertos, Araldo! Araldo!; vozes castas, carinhosas, abençoadoras e ternas, aladas fantasticamente através do luar tão cheio de miragens, de ilusionismos, tão velado de sugestões e germens miraculosos.

 

De toda a parte ele ouvia o mesmo clamor, chamando-o, procurando-o, buscando-o por toda a parte. E todo esse clamor formava como que um Réquiem triste de impaciência, de inquietudes, de ansiedades, crescendo em mar atroante de vozes, sombriamente: Araldo! Araldo! Araldo!

 

A sua velha e atormentada cabeça como que acordava então daquela peregrinante alucinação, agitada pelas saudades que essas erradias vozes lhe traziam, saudades que se transfiguraram outrora nas lendas do luar, saudades que foram para sempre se asilar nos estrelados santuários da Via-Láctea e que vagueavam por lá, sonhando, Virgens e Santas de regiões inacessíveis vestidas do linho imaculado tecido nas refulgências e lactescências dos astros, alanceadas por todas as grandes dores do Mundo, aureoladas de cintilantes diademas feitos de todas as puras lágrimas transfundidas, serenas na graça langue dos seus corpos venusinos e com os seios intactos dos beijos tentadores sagradamente nus, aflorados da pubescência inicial.

 

Agora, as vozes vinham-lhe em gradações de sonoridade — vozes graves, soturnizadas e proféticas de cantochão e vozes angélicas e frescas de corais gloriosos nas Dulias matutinas e floreadas de maio.

 

Eram os seus bizarros instintos de Mocidade que acordavam gritando; os aviários de ouro das suas alegrias magoadamente irônicas, que gorjeavam; os seus desejos adormecidos, procurando-o, seduzindo-o, tentando-o; as vibrantes fanfarras, já emudecidas, dos seus vagos triunfos, atordoando-o de ecos dolentes; todo o seu gozo chamejante de outrora e as suas amarguras, desalentos, desesperanças, que o buscavam enternecidamente, com carinho, com profundos estremecimentos.

 

A requintada magia, as deliquescências do luar, davam velada, quase apagada reminiscência de um luar muito vago, muito remoto, muito triste, já visto, já sentido e já contemplado outrora nalgum país tumular d'além dos tempos, um luar velho, em diluências de giestas amarelas, de margaridas roxas, de pálidos monsenhores...

 

Longo, largo disco azulado circundava prognosticamente agora a face imóvel da lua, que parecia penetrada de um letargo morno... Imensas, imensas e incomparáveis tristezas se difundiam no mistério daqueles desertos infinitos, cujo sentimento tremendo da desolação e do nada dilacerava.

 

Toda a vastidão era como um solitário sarcófago monstruoso, onde — visão dos imprescritíveis Destinos — errasse, cego e só, esse ser desconhecido, única palpitação, única chama nervosa, única alma em ânsias, único suspiro vivo desprendido na mudez absoluta do mágico luar...

 

Dentre o peso aflitivo da grande noite ritmada de magoadas surdinas, o céu, o impassível céu estava agora brumosamente velado de um fino nevoeiro d'estrelas, como uns olhos de lágrimas...

 

E Araldo seguia, esquecido Arcanjo primitivo, levado pelas asas sulfúreas dos corcéis árdegos daquele fantástico sonambulismo, tatuado pelos gilvazes do luar; lá ia aquela tormenta viva de nervos, aquela alta psicose, nas transfigurações e nas auréolas da Dor; lá ia o nirvanismo do nirvanismo, o infinito do infinito...

 

Súbito, porém, um vendaval terrível, o atordoante simoun convulsivo, epiléptico, abrasador e medonho, tão espesso, tão denso que encobriu totalmente o luar, bramiu em rodomoinhos, em vórtices tenebrosos, revolvendo, levantando em montanhas no espaço toda a torva poeira das areais.

 

Um simoun estranho, mais horrível que nos desertos da Núbia, enovelado, torcicoloso, em grossas espirais de serpentes gigantescas, ciclópicas, com as caudas e as cabeças titânicas vertiginosamente alvoroçadas nos delírios sanguissedentos dos letíficos e monstruosos venenos.

 

Nas cordas tempestuosas desse vento tremendo choravam por vezes sinfonias tannhäuserianas, loucuras reileareanas. Era como se turbilhões de demônios soltos, arrancando os cabelos com desespero, bufassem e ululassem. Um pavor trágico enchia o deserto, assombrava o deserto. Indefinidas angústias gemiam, e soluçavam no vento, velhas queixas encantadas, velhas tristezas milenárias e fundas; primitivas línguas bárbaras violenta e confusamente se dilaceravam, se atropelavam; uivos felinos, ganidos, urros formidáveis de monstros cruzavam-se no ar...

 

A brancura tenra, de anho branco, de cordeiro imaculado, da lua, aparecia, por vezes, de uma tonalidade sombria, apagada, de um eterismo mórbido de eclipse, dando um diluente sentimento de remotividade amarga, como se a lua assim desse modo vista trouxesse a impressão longínqua de ser ela própria a saudade da lua...

 

No meio desse tétrico deserto nunca imaginado, desse luar inquisitorial, mortal, esse vento sinistro tinha uma ressonância subterrânea, funesta e cruel de clamor niilista, evocava as florescências e as quint'essências doentias das sensibilidades do Budismo.

 

E Araldo, cada vez mais Espectro em meio à Natureza toda, cada vez mais silhuético, mais perdido, mais apagado, mais vago no vácuo tremendo daquelas vastidões dolorosas, o vulto cada vez mais diminuído, sumindo-se, sumindo-se, sumindo-se na distância, na absorção da Imensidade circunvolvente, absurda e insensivelmente mergulhou nos turbilhões do vendaval terrível, foi arrebatado nas malhas atrozes e negras do simoun, envolto na lúgubre mortalha dos areais — louco, no auge da sua loucura, na crise formidável dos acordados e alucinados pesadelos que lhe abalavam assim, sempre, fundamente, o cérebro e eram, no entanto, através da grande alucinação da Vida, do abismo eterno da Vida, as únicas horas mais felizes e puras em que ele se enclausurava nos tabernáculos fechados da sua Paixão, os únicos instantes sagrados, os únicos momentos lúcidos para os sóis febricitantes, esquisitos e majestosos da sua fabulosa e sobre-humana Imaginação de louco...

 

 

 

Extrema carícia...

 

 

O que ele, apenas, em realidade sentia naquela hora velada, além de uma esparsa e acerba saudade de tudo, era uma carícia infinita, verdadeiramente inexplicável, invadi-lo todo, difundir-se pelo seu ser como que em músicas e mornos tóxicos luminosos. Era uma dormência vaga, uma leve quebreira e letargia que o mergulhava num sono nebuloso, por entre irisações de brancura, num apaziguamento suave, como se ele estivesse acaso adormecido em cisternas de leite, ouvindo pássaros invisíveis cantar e sons sutilíssimos de harpas docemente, finamente fluindo...

 

Era um luar espasmódico, em delíquios, que nervosamente o aureolava, que lhe caía em neblinas de lírios mádidos nas origens mais recônditas da alma. Era um óleo paradisíaco que manso e manso o acalmava, o anestesiava. Uma extrema carícia, que fazia dilatarem-se-lhe todas as fibras, percorrendo-lhe pelo organismo, extasiantemente, numa onda de fluidos maravilhosos, de longos langores, de demorados gozos, de supremas quint'essências de sensibilidade.

 

O sentido palatal, o sentido olfativo e o sentido visual, profundas manifestações da vida molecularizada, ele os sentia agora de uma aguda penetração superorgânica, prodigiosamente penetrados da extrema carícia, dos fenômenos desconhecidos que o invadiam.

 

Um nimbo azul, ouro, azul, ouro, azul, eterizava-o, como se ele, por abstratas formas estranhas, girasse nas constelações, nas curiosidades prismáticas, cambiantes dos eclipses...

 

Parecia que áspides delicadas, de uma volúpia ultraceleste, enroscavam-se nele, enlaçavam-lhe o corpo todo, sugando-lhe com insaciável frenesi a força vital das vértebras e dando-lhe uma nova vida ainda não vivida pelos seus nervos, ainda não experimentada pelo seu sangue, ainda não sofrida pelos seus sentidos — vida de outras origens, de outras sensações fugitivas, de outras complexidades múltiplas, de outras nevroses absurdas, de outras estesias cândidas, de outros sóis e de outras noites, de outras recordações e de outros esquecimentos... Uma vida sem os contactos epidérmicos, sem os quebrantos doentes da carne, sem os delírios da matéria — inteiramente livre de todos os grilhões do organismo humano. Vida desmolecularizada nas esferas, plainando no absoluto — luz de harmonia, harmonia de luz evaporada, diluída na grande luz astral, subindo camadas, camadas, mais camadas de luz, mais camadas de harmonia, quint'essenciadamente subindo sempre, subindo, impessoalizando-se e sideralizando-se através dos corpos em gestação, nas partículas mínimas, infinitesimais do Ser, no branco infinito do Sonho...

 

E aquela extrema carícia, sempre a inocular-lhe nas veias um frio e divino vinho voluptuoso de graça langue, de graça mórbida, de graça sonâmbula. Sempre aquela carícia adormentadora miraculosamente adormentadora.

 

Sempre aquele ópio fascinante que o sonolentava, pouco a pouco mais intenso, mais profundo... E névoas, névoas de uma deliciosa e pacificadora noite aveludada, sem uma só estrela! o iam envolvendo de forma capciosa e lenta. Aos poucos se extinguia, num final de crespúsculo, a vida chamejativa e original de seus olhos, a ânsia derradeira, o alento último de sua boca já apagada, já muda. No cérebro ia-se-lhe vagamente distendendo, tentacularizando a sensação secreta de um negro, sinistro silêncio... As reminiscências recuavam, sumiam-se nos indefiníveis mistérios... Mesmo, agora, finas mãos glaciais, esqueléticas e invisíveis, de longos e esguios dedos trêmulos, andavam-lhe demoradamente a palpar o corpo todo, de baixo acima, tateando pelo seu rosto, devagar, pousando sobre os seus olhos, sobre as pálpebras, a cerrá-las, a fechá-las com cuidado, devagar na delicadeza e na extrema carícia dos longos e esguios dedos trêmulos... Até que, na convulsa vibração das íntimas cordas sensibilizadas de todo o seu ser, ele sentiu então, compreendeu então irremediavelmente já, do mais horrível modo tenebroso e gelado, pela primeira e única vez! todos esses sutis e esquisitos efeitos letais daquela extrema carícia...

 

 

  

Emparedado

 

 

Ah! Noite! feiticeira Noite! ó Noite misericordiosa, coroada no trono das Constelações pela tiara de prata e diamantes do Luar, Tu, que ressuscitas dos sepulcros solenes do Passado tantas Esperanças, tantas Ilusões, tantas e tamanhas Saudades, ó Noite! Melancólica! Soturna! Voz triste, recordativamente triste, de tudo o que está morto, acabado, perdido nas correntes eternas dos abismos bramantes do Nada, ó Noite meditativa! fecunda-me, penetra-me dos fluidos magnéticos do grande Sonho das tuas Solidões panteístas e assinaladas, dá-me as tuas brumas paradisíacas, dá-me os teus cismares de Monja, dá-me as tuas asas reveladoras, dá-me as tuas auréolas tenebrosas, a eloquência de ouro das tuas Estrelas, a profundidade misteriosa dos teus sugestionadores fantasmas, todos os surdos soluços que rugem e rasgam o majestoso Mediterrâneo dos teus evocativos e pacificadores Silêncios!

 

Uma tristeza fina e incoercível errava nos tons violáceos vivos daquele fim suntuoso de tarde aceso ainda nos vermelhos sanguíneos, cuja cor cantava-me nos olhos, quente, inflamada, na linha longe dos horizontes em largas faixas rutilantes.

 

O fulvo e voluptuoso Rajá celeste derramara além os fugitivos esplendores da sua magnificência astral e rendilhara d'alto e de leve as nuvens da delicadeza arquitetural, decorativa, dos estilos manuelinos.

 

Mas as ardentes formas da luz pouco a pouco quebravam-se, velavam-se e os tons violáceos vivos, destacados, mais agora flagrantemente crepusculavam a tarde, que expirava anelante, num anseio indefinido, vago, dolorido, de inquieta aspiração e de inquieto sonho...

 

E, descidas, afinal, as névoas, as sombras claustrais da noite, tímidas e vagarosas Estrelas começavam a desabrochar florescentemente, numa tonalidade peregrina e nebulosa de brancas e erradias fadas de Lendas...

 

Era aquela, assim religiosa e enevoada, a hora eterna, a hora infinita da Esperança...

 

Eu ficara a contemplar, como que sonambulizado, como o espírito indeciso e febricitante dos que esperam, a avalanche de impressões e de sentimentos que se acumulavam em mim à proporção que a noite chegava com o séquito radiante e real das fabulosas Estrelas.

 

Recordações, desejos, sensações, alegrias, saudades, triunfos, passavam-me na Imaginação como relâmpagos sagrados e cintilantes do esplendor litúrgico de pálios e viáticos, de casulas e dalmáticas fulgurantes, de tochas acesas e fumosas, de turíbulos cinzelados, numa procissão lenta, pomposa, em aparatos cerimoniais, de Corpus Christi, ao fundo longínquo de uma província sugestiva e serena, pitorescamente aureolada por mares cantantes. Vinha-me à flor melindrosa dos sentidos a melopeia, o ritmo fugidio de momentos, horas, instantes, tempos deixados para trás na arrebatada confusão do mundo.

 

Certos lados curiosos, expressivos e tocantes do Sentimento, que a lembrança venera e santifica; lados virgens, de majestade significativa, parecia-me surgirem do suntuoso fundo estrelado daquela noite larga, da amplidão saudosa daqueles céus...

 

Desdobrava-se o vasto silforama opulento de uma vida inteira, circulada de acidentes, de longos lances tempestuosos, de desolamentos, de palpitações ignoradas, como do rumor, das aclamações e dos fogos de cem cidades tenebrosas de tumulto e de pasmo...

 

Era como que todo o branco idílio místico da adolescência, que de um tufo claro de nuvens, em Imagens e Visões do Desconhecido, caminhava para mim, leve, etéreo, através das imutáveis formas.

 

Ou, então, massas cerradas, compactas, de harmonias wagnerianas, que cresciam, cresciam, subiam em gritos, em convulsões, em alaridos nervosos, em estrépitos nervosos, em sonoridades nervosas, em dilaceramentos nervosos, em catadupas vertiginosas de vibrações, ecoando longe e alastrando tudo, por entre a delicada alma sutil dos ritmos religiosos, alados, procurando a serenidade dos Astros...

 

As Estrelas, d'alto, claras, pareciam cautelosamente escutar e sentir, com os caprichos de relicários inviolados da sua luz, o desenvolvimento mudo, mas intenso, a abstrata função mental que estava naquela hora se operando dentro de mim, como um fenômeno de aurora boreal que se revelasse no cérebro, acordando chamas mortas, fazendo viver ilusões e cadáveres.

 

Ah! aquela hora era bem a hora infinita da Esperança!

 

De que subterrâneos viera eu já, de que torvos caminhos, trôpego de cansaço, as pernas bambaleantes, com a fadiga de um século, recalcando nos tremendos e majestosos Infernos do Orgulho o coração lacerado, ouvindo sempre por toda a parte exclamarem as vãs e vagas bocas: Esperar! Esperar! Esperar!

 

Por que estradas caminhei, monge hirto das desilusões, conhecendo os gelos e os fundamentos da Dor, dessa Dor estranha, formidável, terrível, que canta e chora Réquiens nas árvores, nos mares, nos ventos, nas tempestades, só e taciturnamente ouvindo: Esperar! Esperar! Esperar!

 

Por isso é que essa hora sugestiva era para mim então a hora da Esperança, que evocava tudo quanto eu sonhara e se desfizera e vagara e mergulhara no Vácuo... Tudo quanto eu mais eloquentemente amara com o delírio e a fé suprema de solenes assinalamentos e vitórias.

 

Mas as grandes ironias trágicas germinadas do Absoluto, conclamadas, em anátemas e deprecações inquisitoriais cruzadas no ar violentamente em línguas de fogo, caíram martirizantes sobre a minha cabeça, implacáveis como a peste.

 

Então, à beira de caóticos, sinistros despenhadeiros, como outrora o doce e arcangélico Deus Negro, o trimegisto, de cornos agrogalhardos, de fagulhantes, estriadas asas enigmáticas, idealmente meditando a Culpa imeditável; então, perdido, arrebatado dentre essas mágicas e poderosas correntes de elementos antipáticos que a Natureza regulariza, e sob a influência de desconhecidos e venenosos filtros, a minha vida ficou como a longa, muito longa véspera de um dia desejado, anelado, ansiosamente, inquietamente desejado, procurado através do deserto dos tempos, com angústia, com agonia, com esquisita e doentia nevrose, mas que não chega nunca, nunca!!

 

Fiquei como a alma velada de um cego onde os tormentos e os flagelos amargamente vegetam como cardos hirtos. De um cego onde parece que vaporosamente dormem certos sentimentos que só com a palpitante vertigem, só com a febre matinal da luz clara dos olhos acordariam; sentimentos que dormem ou que não chegaram jamais a nascer porque a densa e amortalhante cegueira como que apagou para sempre toda a claridade serena, toda a chama original que os poderia fecundar e fazer florir na alma...

 

Elevando o Espírito a amplidões inacessíveis, quase que não vi esses lados comuns da Vida humana, e, igual ao cego, fui sombra, fui sombra!

 

Como os martirizados de outros Gólgotas mais amargos, mais tristes, fui subindo a escalvada montanha, através de urzes eriçadas, e de brenhas, como os martirizados de outros Gólgotas mais amargos, mais tristes.

 

De outros Gólgotas mais amargos subindo a montanha imensa, — vulto sombrio, tetro, extra-humano! — a face escorrendo sangue, a boca escorrendo sangue, o peito escorrendo sangue, as mãos escorrendo sangue, o flanco escorrendo sangue, os pés escorrendo sangue, sangue, sangue, sangue, caminhando para tão longe, para muito longe, ao rumo infinito das regiões melancólicas da Desilusão e da Saudade, transfiguradamente iluminado pelo sol augural dos Destinos!...

 

E, abrindo e erguendo em vão os braços desesperados em busca de outros braços que me abrigassem; e, abrindo e erguendo em vão os braços desesperados que já nem mesmo a milenária cruz do Sonhador da Judeia encontravam para repousarem pregados e dilacerados, fui caminhando, caminhando, sempre com um nome estranho convulsamente murmurado nos lábios, um nome augusto que eu encontrara não sei em que Mistério, não sei em que prodígios de Investigação e de Pensamento profundo: — o sagrado nome da Arte, virginal e circundada de loureirais e mirtos e palmas verdes e hosanas, por entre constelações.

 

Mas, foi apenas bastante todo esse movimento interior que pouco a pouco me abalava, foi apenas bastante que eu consagrasse a vida mais fecundada, mais ensanguentada que tenho, que desse todos os meus mais íntimos, mais recônditos carinhos, todo o meu amor ingênito, toda a legitimidade do meu sentir a essa translúcida Monja de luar e sol, a essa incoercível Aparição, bastou tão pouco para que logo se levantassem todas as paixões da terra, tumultuosas como florestas cerradas, proclamando por brutas, titânicas trombetas de bronze, o meu nefando Crime.

 

Foi bastante pairar mais alto, na obscuridade tranquila, na consoladora e doce paragem das Ideias, acima das graves letras maiúsculas da Convenção, para alvoroçarem-se os Preceitos, irritarem-se as Regras, as Doutrinas, as Teorias, os Esquemas, os Dogmas, armados e ferozes, de cataduras hostis e severas.

 

Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento, todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta, quanta raça d'África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara para sempre com o riso haeckeliano e papal!

 

Surgido de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda, cujas plumagens de aborígine alacremente flutuavam através dos estilos.

 

Era mister romper o Espaço toldado de brumas, rasgar as espessuras, as densas argumentações e saberes, desdenhar os juízos altos, por decreto e por lei, e, enfim, surgir...

 

Era mister rir com serenidade e afinal com tédio dessa celulazinha bitolar que irrompe por toda a parte, salta, fecunda, alastra, explode, transborda e se propaga.

 

Era mister respirar a grandes haustos na Natureza, desafogar o peito das o