LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Faróis, de Cruz e Sousa


Textos-fonte:

 

João da Cruz e Sousa, Obra Completa, org. de Lauro Junkes,

Jaraguá do Sul: Avenida, 2008, 2 v.

 

João da Cruz e Sousa, Obra Completa,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Recolta das estrelas

 

Recorda

 

Canção do bêbado

 

A flor do Diabo

 

As estrelas

 

Pandemonium

 

Envelhecer

 

Flores da Lua

 

Tédio

 

Lírio astral

 

Sem esperança

 

Caveira

 

Réquiem do sol

 

Esquecimento

 

Violões que choram

 

Olhos do sonho

 

Enclausurada

 

Música da morte

 

Monja negra

 

Inexorável

 

Réquiem

 

Visão

 

Pressago

 

Ressurreição

 

Enlevo

 

Piedosa

 

Ausência misteriosa

 

Meu filho

 

Visão guiadora

 

Litania dos pobres

 

Spleen de deuses

 

Divina

 

Cabelos

 

Olhos

 

Boca

 

Seios

 

Mãos

 

Pés

 

Corpo

 

Canção negra

 

A ironia dos vermes

 

Inês

 

Humildade secreta

 

Flor perigosa

 

Metempsicose

 

Os monges

 

Tristeza do infinito

 

Luar de lágrimas

 

Ébrios e cegos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Recolta de estrelas

 

(1 out. 1895)

 

A Tibúrcio de Freitas

 

 

Filho meu, de nome escrito

Da minh’alma no Infinito.

 

Escrito a estrelas e sangue

No farol da lua langue...

 

Das tuas asas serenas

Faz manto para estas penas.

 

Dá-me a esmola de um carinho

Como a luz de um claro vinho.

 

Com tua mão pequenina

Caminhos em flor me ensina.

 

Com teu riso fresco e suave

Oh! Dá-me do encanto a chave.

 

Do teu florão de Inocência

Dá-me as rosas da Clemência.

 

Como outro Jesus bambino,

Esclarece-me o Destino.

 

Traz luz ao mundano pego

Onde sigo, mudo e cego...

 

Com teus enleios e graça

Nos meus cuidados perpassa.

 

Este peito acende, inflama

Na mais sacrossanta chama.

 

Faz brotar nevados lírios

Das cruzes dos meus martírios.

 

Dá-me um sol de estranho brilho,

Flor das lágrimas, meu filho.

 

Rebento triste, orvalhado

Com tanto pranto chorado.

 

Filho das ânsias, das ânsias,

Das misteriosas fragrâncias,

 

Filho de aromas secretos

E de desejos inquietos.

 

De suspiros anelantes

E impaciências clamantes.

 

Filho meu, tesouro mago

De todo esse afeto vago...

 

Filho meu, torre mais alta

De onde o meu amor se exalta.

 

Ânfora azul, de onde o incenso

dos sonhos se eleva denso.

 

Constelação flamejada

De toda esta vida ansiada.

 

Crisol onde lento, lento

Purifico o Sentimento.

 

Íris curioso onde giro

E alucinado deliro.

 

Signo dos signos extremos

Destes tormentos supremos.

 

Órbita de astros onde pairo

E em febre de luz desvairo.

 

Vertigem, vertigem viva

Da paixão mais convulsiva.

 

Traz-me unção, traz-me concórdia

E paz e misericórdia.

 

Do teu sorriso a frescura

Rios de ouro abra, na Altura.

 

Abra, acenda labaredas,

Iluminando-me as quedas.

 

Flor noturna da luxúria

Brotada de haste purpúrea.

 

Dos teus olhos dadivosos

Escorram óleos preciosos...

 

Óleos cândidos, dos mundos

Maravilhosos, profundos.

 

Óleos virgens se derramem

E o meu viver embalsamem.

 

Embalsamem de eloquentes,

Celestes dons prefulgentes.

 

Para que eu possa com calma

Erguer os castelos da alma.

 

Para que eu durma tranquilo

Lá no sepulcral Sigilo.

 

Ó meu Filho, ó meu eleito

Deslumbramento perfeito.

 

Traz novo esplendor ao facho

Com que altos Mistérios acho

 

Meu Filho, frágil e terno,

Socorre-me do atro Inferno.

 

Onde vibram gládios duros

Por ergástulos escuros.

 

E cruzam flamíneas, fortes,

Negras vidas, negras mortes.

 

Onde tecem Satanases

Sete círculos vorazes...

 

 

 

Recorda!

 

 

Quando a onda dos desejos inquietantes,

Que do peito transborda,

Morrer, enfim, nas amplidões distantes,

Recorda-te, recorda...

 

Revive dessa música já finda

Que nas estrelas dorme.

Volta-te ao mundo sedutor ainda

Da ilusão multiforme!

 

Volta, recorda eternamente, volta

Aos faróis da Esperança,

Do Sonho estranho as grandes asas solta

À celeste Bonança.

 

Recorda mágoas, lágrimas e risos

E soluços e anseios...

Revive dos nevoeiros indecisos

E dos vãos devaneios.

 

Revive! Goza! Desolado, embora,

Sorrindo e soluçando,

Erguendo os véus de já passada aurora,

Recordando e sonhando...

 

Cada alma tem seu íntimo recato

Numa estrela perdida

E cada coração intemerato

Tem na estrela uma vida.

 

Aplica o ouvido a correnteza fria

Dos golfões da matéria

E recorda de que lama sombria

É composta a miséria.

 

Recorda! Sonha! Nas estrelas erra,

Beduíno do Espaço

Aos sonhos brancos, que não são da Terra,

Dá, sorrindo, o teu braço...

 

Dá o teu braço, pelos céus sorrindo

E recordando parte

E hás de entender os claros céus, sentindo

Que andas a recordar-te.

 

 Bate a porta dos Astros solitários

Dos eternos Fulgores,

Em busca desses mortos visionários,

Almas de sonhadores.

 

Ah! volta a infância dos primeiros beijos,

Dos momentos sidéreos,

Volta a sede dos últimos desejos,

Dos primeiros mistérios!

 

Ah! volta aos desenganos primitivos,

Volta a essência dos anos,

Volta aos espectros tristemente vivos,

Ah! volta aos desenganos!

 

Volta aos serenos, flóridos oásis,

Volta aos hinos profundos,

Volta as eflorescências dos Lilases,

Volta, volta a esses mundos!

 

Fique na Sombra e no Silêncio d'alma

Todo o teu ser dolente,

Para tranquilo, com ternura e calma,

Recordar docemente...

 

Na Sombra então e no Silêncio denso,

Como em mágicas plagas,

Faz acender o alampadário imenso

Das recordações vagas...

 

Pousa a cabeça, meigamente pousa

Nesse augusto Quebranto

E nem da Terra a mais ligeira cousa

Te desperte do Encanto.

 

Para o Amor, para a Dor e para o Sonho

Nas Esferas transborda...

E entre um soluço e um segredo risonho

Recorda-te, recorda...

 

 

 

Canção do bêbado

 

 

Na lama e na noite triste

Aquele bêbado ri!

Tu’alma velha onde existe?

Quem se recorda de ti?

 

Por onde andam teus gemidos,

Os teus noctâmbulos ais?

Entre os bêbados perdidos

Quem sabe do teu — jamais?

 

Por que é que ficas à lua

Contemplativo, a vagar?

Onde a tua noiva nua

Foi tão depressa a enterrar?

 

Que flores de graça doente

Tua fronte vem florir

Que ficas amargamente

Bêbado, bêbado a rir?

 

Que vês tu nessas jornadas?

Onde está o teu jardim

E o teu palácio de fadas,

Meu sonâmbulo arlequim?

 

De onde trazes essa bruma,

Toda essa névoa glacial

De flor de lânguida espuma,

Regada de óleo mortal?

 

Que soluço extravagante,

Que negro, soturno fel

Põe no teu ser doudejante

A confusão da Babel?

 

Ah! das lágrimas insanas

Que ao vinho misturas bem,

Que de visões sobre-humanas

Tu'alma e teus olhos tem!

 

Boca abismada de vinho,

Olhos de pranto a correr,

Bendito seja o carinho

Que já te faça morrer!

 

Sim! Bendita a cova estreita

Mais larga que o mundo vão,

Que possa conter direita

A noite do teu caixão!

 

 

 

A flor do Diabo

 

 

Branca e floral como um jasmim-do-Cabo

Maravilhosa ressurgiu um dia

A fatal Criação do fulvo Diabo,

Eleita do pecado e da Harmonia.

 

Mais do que tudo tinha um ar funesto,

Embora tão radiante e fabulosa.

Havia sutilezas no seu gesto

De recordar uma serpente airosa.

 

Branca, surgindo das vermelhas chamas

Do Inferno inquisitor, corrupto e langue,

Ela lembrava, Flor de excelsas famas,

A Via Láctea sobre um mar de sangue.

 

Foi num momento de saudade e tédio,

De grande tédio e singular Saudade,

Que o Diabo, já das culpas sem remédio,

Para formar a egrégia majestade,

 

Gerou, da poeira quente das areias

Das praias infinitas do Desejo,

Essa langue sereia das sereias,

Desencantada com o calor de um beijo.

 

Sobre galpões de sonho os seus palácios

Tinham bizarros e galhardos luxos.

Mais grave de eloquência que os Horácios,

Vivia a vida dos perfeitos bruxos.

 

Sono e preguiça, mais preguiça e sono,

Luxúrias de nababo e mais luxúrias,

Moles coxins de lânguido abandono

Por entre estranhas florações purpúreas.

 

Às vezes, sob o luar, nos rios mortos,

Na vaga ondulação dos lagos frios,

Boiavam diabos de chavelhos tortos,

E de vultos macabros, fugidios.

 

A lua dava sensações inquietas

As paisagens avérnicas em torno

E alguns demônios com perfis de ascetas

Dormiam no luar um sono morno...

 

Foi por horas de Cisma, horas etéreas

De magia secreta e triste, quando

Nas lagoas letíficas, sidéreas,

O cadáver da lua vai boiando...

 

Foi numa dessas noites taciturnas

Que o velho Diabo, sábio dentre os sábios,

Desencantado o seu poder das furnas,

Com o riso augusto a flamejar nos lábios,

 

Formou a flor de encantos esquisitos

E de essências esdrúxulas e finas,

Pondo nela oscilantes infinitos

De vaidades e graças femininas.

 

E deu-lhe a quint'essência dos aromas,

Sonoras harpas de alma, extravagâncias,

Pureza hostial e púbere de pomas,

Toda a melancolia das distâncias...

 

Para haver mais requinte e haver mais viva,

Doce beleza e original carícia,

Deu-lhe uns toques ligeiros de ave esquiva

E uma auréola secreta de malícia.

 

Mas hoje o Diabo já senil, já fóssil,

Da sua Criação desiludido,

Perdida a antiga ingenuidade dócil,

Chora um pranto noturno de Vencido.

 

Como do fundo de vitrais, de frescos

De góticas capelas isoladas,

Chora e sonha com mundos pitorescos,

Na nostalgia das Regiões Sonhadas.

 

 

 

As estrelas

 

 

Lá, nas celestes regiões distantes,

No fundo melancólico da Esfera,

Nos caminhos da eterna Primavera

Do amor, eis as estrelas palpitantes.

 

Quantos mistérios andarão errantes,

Quantas almas em busca da Quimera,

Lá, das estrelas nessa paz austera

Soluçarão, nos altos céus radiantes.

 

Finas flores de pérolas e prata,

Das estrelas serenas se desata

Toda a caudal das ilusões insanas.

 

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,

Se as estrelas não são os ais perdidos

Das primitivas legiões humanas?!

 

 

 

Pandemonium

 

A Maurício Jubim

 

 

Em fundo de tristeza e de agonia

O teu perfil passa-me noite e dia.

 

Aflito, aflito, amargamente aflito,

Num gesto estranho que parece um grito.

 

E ondula e ondula e palpitando vaga,

Como profunda, como velha chaga.

 

E paira sobre ergástulos e abismos

Que abrem as bocas cheias de exorcismos.

 

Com os olhos vesgos, a flutuar de esguelha,

Segue-te atrás uma visão vermelha.

 

Uma visão gerada do teu sangue

Quando no Horror te debateste exangue,

 

Uma visão que é tua sombra pura

Rodando na mais trágica tortura.

 

A sombra dos supremos sofrimentos

Que te abalaram como negros ventos.

 

E a sombra as tuas voltas acompanha

Sangrenta, horrível, assombrosa, estranha.

 

E o teu perfil no vácuo perpassando

Vê rubros caracteres flamejando.

 

Vê rubros caracteres singulares

De todos os festins de Baltazares.

 

Por toda a parte escrito em fogo eterno:

Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!

 

E os emissários espectrais das mortes

Abrindo as grandes asas flamifortes...

 

E o teu perfil oscila, treme, ondula,

Pelos abismos eternais circula...

 

Circula e vai gemendo e vai gemendo

E suspirando outro suspiro horrendo.

 

E a sombra rubra que te vai seguindo

Também parece ir soluçando e rindo.

 

Ir soluçando, de um soluço cavo

Que dos venenos traz o torvo travo.

 

Ir soluçando e rindo entre vorazes

Satanismos diabólicos, mordazes.

 

E eu já nem sei se é realidade ou sonho

Do teu perfil o divagar medonho.

 

Não sei se e sonho ou realidade todo

Esse acordar de chamas e de lodo.

 

Tal é a poeira extrema confundida

Da morte a raios de ouro de outra Vida.

 

Tais são as convulsões do último arranco

Presas a um sonho celestial e branco.

 

Tais são os vagos círculos inquietos

Dos teus giros de lágrimas secretos.

 

Mas, de repente, eis que te reconheço,

Sinto da tua vida o amargo preço.

 

Eis que te reconheço escravizada,

Divina Mãe, na Dor acorrentada.

 

Que reconheço a tua boca presa

Pela mordaça de uma sede acesa

 

Presa, fechada pela atroz mordaça

Dos fundos desesperos da Desgraça.

 

Eis que lembro os teus olhos visionários

Cheios do fel de bárbaros Calvários.

 

E o teu perfil asas abrir parece

Para outra Luz onde ninguém padece...

 

Com doçuras feéricas e meigas

De Satãs juvenis, ao luar, nas veigas.

 

E o teu perfil forma um saudoso vulto

Como de Santa sem altar, sem culto.

 

Forma um vulto saudoso e peregrino

De força que voltou ao seu destino.

 

De ser humano que sofrendo tanto

Purificou-se nos Azuis do Encanto.

 

Subiu, subiu e mergulhou sozinho,

Desamparado, no fetal caminho.

 

Que lá chegou transfigurado e aéreo,

Com os aromas das flores do Mistério.

 

Que lá chegou e as mortas portas mudas

Fez abalar de imprecações agudas...

 

E vai e vai o teu perfil ansioso,

De ondulações fantásticas, brumoso.

 

E vai perdido e vai perdido, errante,

Trêmulo, triste, vaporoso, ondeante.

 

Vai suspirando, num suspiro vivo

Que palpita nas sombras incisivo...

 

Um suspiro profundo, tão profundo

Que arrasta em si toda a paixão do mundo.

 

Suspiro de martírio, de ansiedade,

De alívio, de mistério, de saudade.

 

Suspiro imenso, aterrador e que erra

Por tudo e tudo eternamente aterra...

 

O pandemonium de suspiros soltos

Dos condenados corações revoltos.

 

Suspiro dos suspiros ansiados

Que rasgam peitos de dilacerados.

 

E mudo e pasmo e compungido e absorto,

Vendo o teu lento e doloroso giro,

Fico a cismar qual é o rio morto

Onde vai divagar esse suspiro.

 

 

 

Envelhecer

 

 

Flor de indolência, fina e melindrosa,

Cativante sereia da esperança,

Cedo tiveste a crença dolorosa

De quanto a vida é velha e como cansa...

 

Na lânguida, na morna morbideza

Do teu amargo e triste celibato,

Tu te fechaste para a Natureza

Como a lua no célico recato.

 

No fundo delicado dos teus seios

Foste esconder os sentimentos vagos,

E todos os dolentes devaneios

Das estrelas sonhando a flor dos lagos.

 

Todas as altas celas de ouro e prata

De teu claustro de Virgem sem afeto

Fecharam sobre tu'alma timorata

Austeras portas, com fragor secreto.

 

No entanto, havia no teu corpo ondeante

As delícias sutis de um céu fugace...

E era talvez o encanto mais picante

A graça aldeã do teu nariz rapace.

 

Teus olhos tinham certa mágoa nobre

E certo fundo de doirado abismo

E a malícia que logo se descobre

Em olhos de felino narcotismo.

 

Mas na boca trazias todo o oculto

Toque sombrio de ironia grave...

E como que as belezas do teu vulto

Abriam asas peregrinas de ave.

 

Tinhas na boca esse elixir ardente

Da volúpia mortal dos gozos e essa

Chama de boca, feita unicamente

Para no gozo envelhecer depressa.

 

E envelheceste tanto, muito cedo,

Sumiu-se tão depressa o teu encanto,

Foi tão falaz o sedutor segredo

Do teu carnal e lânguido quebranto!

 

Envelheceste para os vãos idílios,

Para os estranhos estremecimentos,

Para os brilhos iriantes dos teus cílios

E para os sepulcrais esquecimentos.

 

Envelheceste para os vãos amores,

E para os olhos, para as mãos que abrias

Como dois talismãs de brancas flores

E de leves e doces harmonias...

 

Presa, sem ar, sem sol, crepusculada

No celibato que não tem perfume

De todo envelheceste abandonada,

Já como um ser que não provoca ciúme.

 

Envelhecer é reduzir a vida

A sentimentos de tristeza austera,

Enclausurá-la numa grave ermida

De luto e de silêncio sem quimera.

 

E envelhecer na juventude flórea,

Do celibato emurchecido lírio

E ficar sob os pálios da ilusória

Melancolia, como a luz de um círio...

 

Envelhecer assim, virgem e forte,

E cerrar contra o mundo a rósea porta

Do Amor e apenas esperar a Morte,

A alma já muda, há muito tempo morta.

 

Envelheces de tédio, de cansaço,

D'ilusões e de cismas e de penas,

Como envelhece no celeste espaço

O turbilhão das estrelas serenas.

 

O Amor os corações fez interditos

Ao teu magoado coração cativo

E apagou-te os sublimes infinitos

Do seu clarão fecundador e vivo.

 

Hoje envelheces na clausura imensa,

Dentro de um sonho pálido feneces.

Tua beleza veste névoa densa,

Em surdinas e sombras envelheces.

 

De pranto e luar, num desolado misto,

Cai a noite na tua puberdade

E como a Rediviva do Imprevisto,

Erras e sonhas pela Eternidade!

 

 

 

Flores da lua

 

 

Brancuras imortais da Lua Nova

Frios de nostalgia e sonolência...

Sonhos brancos da Lua e viva essência

Dos fantasmas noctívagos da Cova.

 

Da noite a tarda e taciturna trova

Soluça, numa trêmula dormência...

Na mais branda, mais leve florescência

Tudo em Visões e Imagens se renova.

 

Mistérios virginais dormem no Espaço,

Dormem o sono das profundas seivas,

Monótono, infinito, estranho e lasso...

 

E das Origens na luxúria forte

Abrem nos astros, nas sidéreas leivas

Flores amargas do palor da Morte.

 

 

 

Tédio

 

 

Vala comum de corpos que apodrecem,

E esverdeada gangrena

Cobrindo vastidões que fosforescem

Sobre a esfera terrena.

 

Bocejo torvo de desejos turvos,

Languescente bocejo

De velhos diabos de chavelhos curvos

Rugindo de desejo.

 

Sangue coalhado, congelado, frio,

Espasmado nas veias...

Pesadelo sinistro de algum rio

De sinistras sereias...

 

Alma sem rumo, a modorrar de sono,

Mole, túrbida, lassa...

Monotonias lúbricas de um mono

Dançando numa praça...

 

Mudas epilepsias, mudas, mudas,

Mudas epilepsias,

Masturbações mentais, fundas, agudas,

Negras nevrostenias.

 

Flores sangrentas do soturno vício

Que as almas queima e morde...

Música estranha de fetal suplício,

Vago, mórbido acorde...

 

Noite cerrada para o Pensamento

Nebuloso degredo

Onde em cavo clangor surdo do vento

Rouco pragueja o medo.

 

Plaga vencida por tremendas pragas,

Devorada por pestes,

Esboroada pelas rubras chagas

Dos incêndios celestes.

 

Sabor de sangue, lágrimas e terra

Revolvida de fresco,

Guerra sombria dos sentidos, guerra,

Tantalismo dantesco.

 

Silêncio carregado e fundo e denso

Como um poço secreto,

Dobre pesado, carrilhão imenso

Do segredo inquieto...

 

Florescência do Mal, hediondo parto

Tenebroso do crime,

Pandemonium feral de ventre farto

Do Nirvana sublime.

 

Delírio contorcido, convulsivo

De felinas serpentes,

No silamento e no mover lascivo

Das caudas e dos dentes.

 

Porco lúgubre, lúbrico, trevoso

Do tábido pecado,

Fuçando colossal, formidoloso

Nos lodos do passado.

 

Ritmos de forças e de graças mortas,

Melancólico exílio,

Difusão de um mistério que abre portas

Para um secreto idílio...

 

Ócio das almas ou requinte delas,

Quint'essências, velhices

De luas de nevroses amarelas,

Venenosas meiguices.

 

Insônia morna e doente dos Espaços,

Letargia funérea,

Vermes, abutres a correr pedaços

Da carne deletéria.

 

Um misto de saudade e de tortura,

De lama, de Ódio e de asco,

Carnaval infernal da Sepultura,

Risada do carrasco.

 

Ó tédio amargo, ó tédio dos suspiros,

Ó tédio d'ansiedades!

Quanta vez eu não subo nos teus giros

Fundas eternidades!

 

Quanta vez envolvido do teu luto

Nos sudários profundos

Eu, calado, a tremer, ao longe, escuto

Desmoronarem mundos!

 

Os teus soluços, todo o grande pranto,

Taciturnos gemidos,

Fazem gerar flores de amargo encanto

Nos corações doridos.

 

Tédio! que pões nas almas olvidadas

Ondulações de abismo

E sombras vesgas, lívidas, paradas,

No mais feroz mutismo!

 

Tédio do Requiem do Universo inteiro,

Morbus negro, nefando,

Sentimento fatal e derradeiro

Das estrelas gelando...

 

O Tédio! Rei da Morte! Rei boêmio!

Ó Fantasma enfadonho!

És o sol negro, o criador, o gêmeo,

Velho irmão do meu sonho!

 

 

 

Lírio astral

 

 

Lírio astral, ó lírio branco

Ó lírio astral,

No meu derradeiro arranco

Sê cordial!

 

Perfuma de graça leve

O meu final

Com o doce perfume breve,

Ó lírio astral!

 

Dá-me esse óleo sacrossanto

Toda a caudal

Do óleo casto do teu pranto,

Ó lírio astral!

 

Traz-me o alívio dos alívios,

Ó virginal,

Ó lírio dos lírios níveos,

Ó Lírio astral!

 

Dentre as sonatas da lua

Celestial,

Lírio, vem, Lírio, flutua,

Ó Lírio astral!

 

Dos raios das noites de ouro,

Do Roseiral,

Do constelado tesouro,

Ó lírio astral!

 

Desprende o fino perfume

Etereal

E vem do celeste fume,

Ó lírio astral!

 

Da maviosa suavidade

Do céu floral

Traz a meiga claridade,

Ó lírio astral!

 

Que bendita e sempre pura

E divinal

Seja-me a tua frescura,

Ó lírio astral!

 

Que ela, enfim, me transfigure,

Na hora fatal

E os meus sentidos apure,

Ó lírio astral!

 

Que tudo que me é avaro

De luz vital,

Nessa hora se tome claro,

Ó lírio astral!

 

Que portas de astros, rasgadas

Num céu lirial,

Eu veja desassombradas,

Ó lírio astral!

 

Que eu possa, tranquilo, vê-las,

Limpo do mal,

Essas mil portas de estrelas

Ó lírio astral!

 

E penetrar nelas, calmo,

Na paz mortal,

Como um davídico salmo,

Ó lírio astral!

 

Vento velho que soluça

Meu Sonho ideal,

No Infinito se debruça,

Ó lírio astral!

 

Por isso, lá, no Momento,

Na hora fetal,

Perfuma esse velho vento

Ó lírio astral!

 

Traz a graça do Infinito,

Graça imortal,

Ao velho Sonho proscrito,

Ó lírio astral!

 

Adoça-me o derradeiro

Sonho feral

Ó lírio do astral Cruzeiro

Ó lírio astral!

 

Se, o Lírio, ó doce Lírio

De luz boreal

Na morte o meu claro círio,

Ó lírio astral!

 

Perfuma, Lírio, perfume,

Na hora glacial,

Meu Sonho de Sol, de Bruma,

Ó lírio astral!

 

Que eu suba na tua essência

Sacramental

Para a excelsa Transcendência,

Ó lírio astral!

 

E lá, nas Messes divinas,

Paire, eternal,

Nas Esferas cristalinas,

Ó lírio astral!

 

 

 

Sem esperança

 

 

Ó cândidos fantasmas da Esperança,

Meigos espectros do meu vão Destino,

Volvei a mim nas leves ondas do Hino

Sacramental de Bem-aventurança.

 

Nas veredas da vida a alma não cansa

De vos buscar pelo Vergel divino

Do céu sempre estrelado e diamantino

Onde toda a alma no Perdão descansa.

 

Na volúpia da dor que me transporta,

Que este meu ser transfunde nos Espaços,

Sinto-te longe, ó Esperança morta.

 

E em vão alongo os vacilantes passos

À procura febril da tua porta,

Da ventura celeste dos teus braços.

 

 

 

Caveira

 

 

I

 

 

Olhos que foram olhos, dois buracos

Agora, fundos, no ondular da poeira...

Nem negros, nem azuis e nem opacos.

Caveira!

 

 

II

 

 

Nariz de linhas, correções audazes,

De expressão aquilina e feiticeira,

Onde os olfatos virginais, falazes?!

Caveira! Caveira!!

 

 

III

 

 

Boca de dentes límpidos e finos,

De curve leve, original, ligeira,

Que é feito dos teus risos cristalinos?!

Caveira! Caveira!! Caveira!!!

 

 

 

Requiem do sol

 

 

Águia triste do Tédio, sol cansado,

Velho guerreiro das batalhas fortes!

Das ilusões as trêmulas coortes

Buscam a luz do teu clarão magoado...

 

A tremenda avalanche do Passado

Que arrebatou tantos milhões de mortes

Passa em tropel de trágicos Mavortes

Sobre o teu coração ensanguentado...

 

Do alto dominas vastidões supremas

Águia do Tédio presa nas algemas

Da Legenda imortal que tudo engelha...

 

Mas lá, na Eternidade, de onde habitas,

Vagam finas tristezas infinitas,

Todo o mistério da beleza velha!

 

 

 

Esquecimento

 

 

Ó Estrelas tranquilas, esquecidas

No seio das Esferas,

Velhos bilhões de lágrimas, de vidas,

Refulgentes Quimeras.

 

Astros que recordais infâncias de ouro,

Castidades serenas,

Irradiações de mágico tesouro,

Aromas de açucenas.

 

Rosas de luz do céu resplandecente

Ó Estrelas divinas,

Sereias brancas da região do Oriente

Ó Visões peregrinas!

 

Aves de ninhos de frouxéis de prata

Que cantais no Infinito

As Letras da Canção intemerata

Do Mistério bendito.

 

Turíbulos de graça e encantamento

Das sidérias umbelas,

Desvendai-me as Mansões do Esquecimento

Radiantes sentinelas.

 

Dizei que palidez de mortos lírios

Há por estas estradas

E se terminam todos os martírios

Nas brumas encantadas.

 

Se nessas brumas encantadas choram

Os anseios da Terra,

Se os lírios mortos que há por lá se auroram

De púrpuras de guerra.

 

Se as que há por cá titânicas cegueiras,

Atordoadas vitórias

Embebedam os seres nas poncheiras

E no gozo das glórias!

 

O céu é o berço das estrelas brancas

Que dormem de cansaço...

E das almas olímpicas e francas

O ridente regaço...

 

Só ele sabe, o claro céu tranquilo

Dos grandes resplendores,

Qual é das almas o eternal sigilo,

Qual o cunho das cores.

 

Só ele sabe, o céu das quint'essências,

O Esquecimento ignoto

Que tudo envolve nas letais diluências

De um ocaso remoto...

 

O Esquecimento é flor, sutil, celeste,

De palidez risonha.

A alma das coisas languemente veste

De um véu, como quem sonha.

 

Tudo no esquecimento se adelgaça...

E nas zonas de tudo

Na candura de tudo, extremo, passa

Certo mistério mudo.

 

Como que o coração fica cantando

Porque, trêmulo, esquece,

Vivendo a vida de quem vai sonhando

E no sonho estremece...

 

Como que o coração fica sorrindo

De um modo grave e triste,

Languidamente a meditar, sentindo

Que o esquecimento existe.

 

Sentindo que um encanto etéreo e mago,

Mas um lívido encanto,

Põe nos semblantes um luar mais vago,

Enche tudo de pranto.

 

Que um concerto de súplicas de mágoa,

De martírios secretos,

Vai os olhos tornando rasos d’água

E turvando os objetos...

 

Que um soluço cruel, desesperado

Na garganta rebenta...

Enquanto o Esquecimento alucinado

Move a sombra nevoenta!

 

Ó rio roxo e triste, Ó rio morto,

Ó rio roxo, amargo...

Rio de vãs melancolias de Horto

Caídas do céu largo!

 

Rio do esquecimento tenebroso,

Amargamente frio,

Amargamente sepulcral, lutuoso,

Amargamente rio!

 

Quanta dor nessas ondas que tu levas,

Nessas ondas que arrastas,

Quanto suplício nessas tuas trevas,

Quantas lágrimas castas!

 

Ó meu verso, ó meu verso, ó meu orgulho,

Meu tormento e meu vinho,

Minha sagrada embriaguez e arrulho

De aves formando ninho.

 

Verso que me acompanhas no Perigo

Como lança preclara,

Que este peito defende do inimigo

Por estrada tão rara!

 

Ó meu verso, ó meu verso soluçante,

Meu segredo e meu guia,

Tem dó de mim lá no supremo instante

Da suprema agonia.

 

Não te esqueças de mim, meu verso insano,

Meu verso solitário,

Minha terra, meu céu, meu vasto oceano,

Meu templo, meu sacrário.

 

Embora o esquecimento vão dissolva

Tudo, sempre, no mundo,

Verso! que ao menos o meu ser se envolva

No teu amor profundo!

 

Esquecer e andar entre destroços

Que além se multiplicam,

Sem reparar na lividez dos ossos

Nem nas cinzas que ficam...

 

É caminhar por entre pesadelos,

Sonâmbulo perfeito,

Coberto de nevoeiros e de gelos,

Com certa ânsia no peito.

 

Esquecer é não ter lágrimas puras,

Nem asas para beijos

Que voem procurando sepulturas

E queixas e desejos!

 

Esquecimento! eclipse de horas mortas.

Relógio mudo, incerto,

Casa vazia... de cerradas portas,

Grande vácuo, deserto.

 

Cinza que cai nas almas, que as consome,

Que apaga toda a flama,

Infinito crepúsculo sem nome,

Voz morta a voz que a chama.

 

Harpa da noite, irmã do Imponderável,

De sons langues e enfermos,

Que Deus com o seu mistério formidável

Faz calar pelos ermos.

 

Solidão de uma plaga extrema e nua,

Onde trágica e densa

Chora seus lírios virginais a lua

Lividamente imensa.

 

Silêncio dos silêncios sugestivos,

Grito sem eco, eterno

Sudário dos Azuis contemplativos,

Florescência do Inferno.

 

Esquecimento! Fluido estranho, de ânsias,

De negra majestade,

Soluço nebuloso das Distâncias

Enchendo a Eternidade!

 

 

 

Violões que choram

(jan. 1897)

 

 

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,

Soluços ao luar, choros ao vento...

Tristes perfis, os mais vagos contornos,

Bocas murmurejantes de lamento.

 

Noites de além, remotas, que eu recordo,

Noites da solidão, noites remotas

Que nos azuis da Fantasia bordo,

Vou constelando de visões ignotas.

 

Sutis palpitações à luz da lua,

Anseio dos momentos mais saudosos,

Quando lá choram na deserta rua

As cordas vivas dos violões chorosos.

 

Quando os sons dos violões vão soluçando,

Quando os sons dos violões nas cordas gemem,

E vão dilacerando e deliciando,

Rasgando as almas que nas sombras tremem.

 

Harmonias que pungem, que laceram,

Dedos nervosos e ágeis que percorrem

Cordas e um mundo de dolências geram,

Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

 

E sons soturnos, suspiradas mágoas,

Mágoas amargas e melancolias,

No sussurro monótono das águas,

Noturnamente, entre ramagens frias.

 

Vozes veladas, veludosas vozes,

Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes

Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

 

Tudo nas cordas dos violões ecoa

E vibra e se contorce no ar, convulso...

Tudo na noite, tudo clama e voa

Sob a febril agitação de um pulso.

 

Que esses violões nevoentos e tristonhos

São ilhas de degredo atroz, funéreo,

Para onde vão, fatigadas do sonho

Almas que se abismaram no mistério.

 

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,

Finas, diluídas, vaporosas brumas,

Longo desolamento dos inquietos

Navios a vagar a flor de espumas.

 

Oh! languidez, languidez infinita,

Nebulosas de sons e de queixumes,

Vibrado coração de ânsia esquisita

E de gritos felinos de ciúmes!

 

Que encantos acres nos vadios rotos

Quando em toscos violões, por lentas horas,

Vibram, com a graça virgem dos garotos,

Um concerto de lágrimas sonoras!

 

Quando uma voz, em trêmulos, incerta,

Palpitando no espaço, ondula, ondeia,

E o canto sobe para a flor deserta

Soturna e singular da lua cheia.

 

Quando as estrelas mágicas florescem,

E no silêncio astral da Imensidade

Por lagos encantados adormecem

As pálidas ninféias da Saudade!

 

Como me embala toda essa pungência,

Essas lacerações como me embalam,

Como abrem asas brancas de clemência

As harmonias dos Violões que falam!

 

Que graça ideal, amargamente triste,

Nos lânguidos bordões plangendo passa...

Quanta melancolia de anjo existe

Nas visões melodiosas dessa graça.

 

Que céu, que inferno, que profundo inferno,

Que ouros, que azuis, que lágrimas, que risos,

Quanto magoado sentimento eterno

Nesses ritmos trêmulos e indecisos...

 

Que anelos sexuais de monjas belas

Nas ciliciadas carnes tentadoras,

Vagando no recôndito das celas,

Por entre as ânsias dilaceradoras...

 

Quanta plebeia castidade obscura

Vegetando e morrendo sobre a lama,

Proliferando sobre a lama impura,

Como em perpétuos turbilhões de chama.

 

Que procissão sinistra de caveiras,

De espectros, pelas sombras mortas, mudas.

Que montanhas de dor, que cordilheiras

De agonias aspérrimas e agudas.

 

Véus neblinosos, longos véus de viúvas

Enclausuradas nos ferais desterros

Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,

Sob abóbadas lúgubres de enterros;

 

Velhinhas quedas e velhinhos quedos

Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos

Sepulcros vivos de senis segredos,

Eternamente a caminhar sozinhos;

 

E na expressão de quem se vai sorrindo,

Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos

E um lenço preto o queixo comprimindo,

Passam todos os lívidos defuntos...

 

E como que há histéricos espasmos

Na mão que esses violões agita, largos...

E o som sombrio é feito de sarcasmos

E de sonambulismos e letargos.

 

Fantasmas de galés de anos profundos

Na prisão celular atormentados,

Sentindo nos violões os velhos mundos

Da lembrança fiel de áureos passados;

 

Meigos perfis de tísicos dolentes

Que eu vi dentre os vilões errar gemendo,

Prostituídos de outrora, nas serpentes

Dos vícios infernais desfalecendo;

 

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,

Das luas tardas sob o beijo níveo,

Para os enterros dos seus sonhos mortos

Nas queixas dos violões buscando alívio;

 

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,

Frouxos, dormentes, adormidos, langues

Na degenerescência dos vencidos

De toda a geração, todos os sangues;

 

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,

Como que feitos de um poder extremo

Para vencer a convulsão das mortes,

Dos temporais o temporal supremo;

 

Veteranos de todas as campanhas,

Enrugados por fundas cicatrizes,

Procuram nos violões horas estranhas,

Vagos aromas, cândidos, felizes.

 

Ébrios antigos, vagabundos velhos,

Torvos despojos da miséria humana,

Têm nos violões secretos Evangelhos,

Toda a Bíblia fatal da dor insana.

 

Enxovalhados, tábidos palhaços

De carapuças, máscaras e gestos

Lentos e lassos, lúbricos, devassos,

Lembrando a florescência dos incestos;

 

Todas as ironias suspirantes

Que ondulam no ridículo das vidas,

Caricaturas tétricas e errantes

Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

 

Toda essa labiríntica nevrose

Das virgens nos românticos enleios;

Os ocasos do Amor, toda a clorose

Que ocultamente lhes lacera os seios;

 

Toda a mórbida música plebeia

De requebros de faunos e ondas lascivas;

A langue, mole e morna melopeia

Das valsas alanceadas, convulsivas;

 

Tudo isso, num grotesco desconforme,

Em ais de dor, em contorções de açoites,

Revive nos violões, acorda e dorme

Através do luar das meias noites!

 

 

 

Olhos do sonho

(jan. 1897)

 

 

Certa noite soturna, solitária,

Vi uns olhos estranhos que surgiam

Do fundo horror da terra funerária

Onde as visões sonâmbulas dormiam...

 

Nunca da terra neste leito raso

Com meus olhos mortais, alucinados...

Nunca tais olhos divisei acaso

Outros olhos eu vi transfigurados.

 

A luz que os revestia e alimentava

Tinha o fulgor das ardentias vagas,

Um demônio noctâmbulo espiava

De dentro deles como de ígneas plagas.

 

E os olhos caminhavam pela treva

Maravilhosos e fosforescentes...

Enquanto eu ia como um ser que leva

Pesadelos fantásticos, trementes.

 

Na treva só os olhos, muito abertos,

Seguiam para mim com majestade,

Um sentimento de cruéis desertos

Me apunhalava com atrocidade.

 

Só os olhos eu via, só os olhos

Nas cavernas da treva destacando:

Faróis de augúrio nos ferais escolhos,

Sempre, tenazes, para mim olhando...

 

Sempre tenazes para mim, tenazes,

Sem pavor e sem medo, resolutos,

Olhos de tigres e chacais vorazes

No instante dos assaltos mais astutos.

 

Só os olhos eu via! — o corpo todo

Se confundia com o negror em volta...

Ó alucinações fundas do lodo

Carnal, surgindo em tenebrosa escolta!

 

E os olhos me seguiam sem descanso,

Suma perseguição de atras voragens,

Nos narcotismos dos venenos mansos,

Como dois mudos e sinistros pajens.

 

E nessa noite, em todo meu percurso,

Nas voltas vagas, vãs e vacilantes

Do meu caminho, esses dois olhos de urso

Lá estavam tenazes e constantes.

 

Lá estavam eles, fixamente eles,

Quietos, tranquilos, calmos e medonhos...

Ah! quem jamais penetrará naqueles

Olhos estranhos dos eternos sonhos!

 

 

 

Enclausurada

 

 

Ó Monja dos estranhos sacrifícios,

Meu amor imortal, Ave de garras

E asas gloriosas, triunfais, bizarras,

Alquebradas ao peso dos cilícios.

 

Reclusa flor que os mais revéis flagícios

Abalaram com as trágicas fanfarras,

Quando em formas exóticas de jarras

Teu corpo tinha a embriaguez dos vícios.

 

Para onde foste, ó graça das mulheres,

Graça viçosa dos vergéis de Ceres

Sem que o meu pensamento te persiga?!

 

Por onde eternamente enclausuraste

Aquela ideal delicadeza de haste,

De esbelta e fina ateniense antiga?!

 

 

 

Música da morte

 

 

A música da Morte, a nebulosa,

Estranha, imensa música sombria,

Passa a tremer pela minh’alma e fria

Gela, fica a tremer, maravilhosa...

 

Onda nervosa e atroz, onda nervosa,

Letes sinistro e torvo da agonia,

Recresce a lancinante sinfonia,

Sobe, numa volúpia dolorosa...

 

Sobe, recresce, tumultuando e amarga,

Tremenda, absurda, imponderada e larga,

De pavores e trevas alucina...

 

E alucinando e em trevas delirando,

Como um ópio letal, vertiginando,

Os meus nervos, letárgica, fascina...

 

 

 

Monja negra

 

 

É teu esse espaço, e teu todo o Infinito

Transcendente Visão das lágrimas nascida,

Bendito o teu sentir, para sempre bendito

Todo o teu divagar na Esfera indefinida!

 

Através de teu luto as estrelas meditam

Maravilhosamente e vaporosamente;

Como olhos celestiais dos Arcanjos nos fitam

Lá do fundo negror do teu luto plangente.

 

Almas sem rumo já, corações sem destino

Vão em busca de ti, por vastidões incertas...

E no teu sonho astral, mago e luciferino,

Encontram para o amor grandes portas abertas.

 

Cândida Flor que aroma e tudo purifica,

Trazes sempre contigo as sutis virgindades

E uma caudal preciosa, interminável, rica,

De raras sugestões e curiosidades.

 

As belezas do mito, as grinaldas de louro,

Os priscos ouropéis, os símbolos já vagos,

Tudo forma o painel de um velho fundo de ouro

De onde surges enfim como as visões dos lagos.

 

Certa graça cristã, certo excelso abandono

De Deusa que emigrou de regiões de outrora,

Certo aéreo sentir de esquecimento e outono,

Trazem-te as emoções de quem medita e chora.

 

És o imenso crisol, és o crisol profundo

Onde se cristalizam todas as belezas,

És o néctar da Fé, de que eu melhor me inundo.

Ó néctar divinal das místicas purezas.

 

Ó Monja soluçante! Ó Monja soluçante,

Ó Monja do Perdão, da paz e da clemência,

Leva para bem longe este Desejo errante,

Desta febre letal toda secreta essência.

 

Nos teus golfos de Além, nos lagos taciturnos,

Nos pélagos sem fim, vorazes e medonhos,

Abafa para sempre os soluços noturnos,

E as dilacerações dos formidáveis Sonhos!

 

Não sei que Anjo fatal, que Satã fugitivo,

Que gênios infernais, magnéticos, sombrios,

Deram-te as amplidões e o sentimento vivo

Do mistério com todos os seus calafrios...

 

A lua vem te dar mais trágica amargura,

E mais desolação e mais melancolia,

E as estrelas, do céu na Eucaristia pura,

Têm a mágoa velada da Virgem Maria.

 

Ah! Noite original, noite desconsolada

Monja da solidão, espiritual e augusta,

Onde fica o teu reino, a região vedada,

A região secreta, a região vetusta?!

 

Almas dos que não têm o Refúgio supremo

De altas contemplações, dos mais altos mistérios,

Vinde sentir da Noite o Isolamento extremo,

Os fluidos imortais, angelicais, etéreos.

 

Vinde ver como são mais castos e mais belos,

Mais puros que os do dia os noturnos vapores:

Por toda a parte no ar levantam-se castelos

E nos parques do céu há quermesses de amores.

 

Volúpias, seduções, encantos feiticeiros

Andam a embalsamar teu seio tenebroso

E as águias da Ilusão, de voos altaneiros,

Crivam de asas triunfais o horizonte onduloso.

 

Cavaleiros do Ideal, de erguida lança em riste,

Sonham, a percorrer teus velhos Paços cavos...

E esse nobre esplendor de majestade triste

Recebe outros lauréis mais bizarros e bravos.

 

Convulsivas paixões, convulsivas nevroses,

Recordações senis nos teus aspectos vagam,

Mil alucinações, mortas apoteoses

E mil filtros sutis que mornamente embriagam.

 

Ó grande Monja negra e transfiguradora,

Magia sem igual dos paramos eternos,

Quem assim te criou, selvagem Sonhadora,

Da carícia de céus e do negror d’infernos?

 

Quem auréolas te deu assim miraculosas

E todo o estranho assombro e todo o estranho medo,

Quem pôs na tua treva ondulações nervosas,

E mudez e silêncio e sombras e segredo?

 

Mas ah! quanto consolo andar errando, errando,

Perdido no teu Bem, perdido nos teus braços,

Nos noivados da Morte andar além sonhando,

Na unção sacramental dos teus negros Espaços!

 

Que glorioso troféu andar assim perdido

Na larga vastidão do mudo firmamento,

Na noite virginal ocultamente ungido,

Nas transfigurações do humano sentimento!

 

Faz descer sobre mim os brandos véus da calma,

Sinfonia da Dor, ó Sinfonia muda,

Voz de todo o meu Sonho, ó noiva da minh’alma,

Fantasma inspirador das Religiões de Buda.

 

Ó negra Monja triste, ó grande Soberana,

Tentadora Visão que me seduzes tanto,

Abençoa meu ser no teu doce Nirvana,

No teu Sepulcro ideal de desolado encanto!

 

Hóstia negra e feral da comunhão dos mortos,

Noite criadora, mãe dos gnomos, dos vampiros,

Passageira senil dos encantados portos,

Ó cego sem bordão da torre dos suspiros...

 

Abençoa meu ser, unge-o dos óleos castos,

Enche-o de turbilhões de sonâmbulas aves,

Para eu me difundir nos teus Sacrários vastos,

Para me consolar com os teus Silêncios graves.

 

 

 

Inexorável

 

 

Ó meu Amor, que já morreste,

Ó meu Amor, que morta estás!

Lá nessa cova a que desceste,

Ó meu Amor, que já morreste,

Ah! nunca mais floresceras?!

 

Ao teu esquálido esqueleto,

Que tinha outrora de uma flor

A graça e o encanto do amuleto;

Ao teu esquálido esqueleto

Não voltará novo esplendor?!

 

E ah! o teu crânio sem cabelos,

Sinistro, seco, estéril, nu...

(Belas madeixas dos meus zelos!)

E ah! o teu crânio sem cabelos

Há de ficar como estás tu?!

 

O teu nariz de asa redonda,

De linhas límpidas, sutis

Oh! há de ser na lama hedionda

O teu nariz de asa redonda

Comido pelos vermes vis?!

 

Os teus dois olhos — dois encantos —

De tudo, enfim, maravilhar,

Sacrário augusto dos teus prantos,

Os teus dois olhos — dois encantos —

Em dois buracos vão ficar?!

 

A tua boca perfumosa

O céu do néctar sensual

Tão casta, fresca e luminosa,

A tua boca perfumosa

Vai ter o cancro sepulcral?!

 

As tuas mãos de nívea seda,

De veias cândidas e azuis

Vão se extinguir na noite treda

As tuas mãos de nívea seda,

Lá nesses lúgubres pauis?!

 

As tuas tentadoras pomas

Cheias de um magnífico elixir

De quentes, cálidos aromas

As tuas tentadoras pomas

Ah! nunca mais hão de florir?!

 

A essência virgem da beleza,

O gesto, o andar, o sol da voz

Que Iluminava de pureza,

A essência virgem da beleza

Tudo acabou no horror atroz?!

 

Na funda treva dessa cova,

Na inexorável podridão

Já te apagaste, Estrela nova,

Na funda treva dessa cova

Na negra Transfiguração!

 

 

 

Réquiem

 

 

Como os salmos dos Evangelhos celestiais,

Os sonhos que eu amei hão de acabar,

Quando o meu corpo, trêmulo, dos velhos

Nos gelados outonos penetrar.

 

O rosto encarquilhado e as mãos já frias,

Engelhadas, convulsas, a tremer,

Apenas viverei das nostalgias

Que fazem para sempre envelhecer.

 

Por meus olhos sem brilho e fatigados

Como sombras de outrora, passarão

As ilusões de uns olhos constelados

Que da Vida dourarão-me a Ilusão.

 

Mas tudo, enfim, as bocas perfumosas,

O mar, o campo e tudo quanto amei,

As auroras, o sol, pássaros, rosas,

Tudo rirá do estado a que cheguei.

 

Do brilho das estrelas cristalinas

Virá um riso irônico de dor,

E da minh’alma subirão neblinas,

Incensos vagos, cânticos de amor.

 

Por toda parte o amargo escárnio fundo,

Sem já mais nada para mim florir,

As risadas vandálicas do mundo

Secos desdéns por toda a parte a rir.

 

Que hão de ser vãos esforços da memória

Para lembrar os tempos virginais,

As rugas da matéria transitória

Hão de lá estar como a dizer: — jamais!

 

E hei de subir transfigurado e lento

Altas montanhas cheias de visões,

Onde gelaram, num luar, nevoento,

Tantos e solitários corações.

 

Recordarei as íntimas ternuras,

De seres raros, porém mortos já,

E de mim, do que fui, pelas torturas

Deste viver pouco me lembrará.

 

O mundo clamará sinistramente

Daquele que a velhice alquebra e alui...

Mas ah! por mais que clame toda a gente

Nunca dirá o que de certo eu fui.

 

E os dias frios e ermos da Existência

Cairão num crepúsculo mortal,

Na soluçante, mística plangência

Dos órgãos de uma estranha catedral.

 

Para me ungir no derradeiro e ansioso

Olhar que a extrema comoção traduz,

Sob o celeste pálio majestoso

Hão de passar os Viáticos da luz.

 

 

 

Visão

 

 

Noiva de Satanás, Arte maldita,

Mago Fruto letal e proibido,

Sonâmbula do Além, do Indefinido

Das profundas paixões, Dor infinita.

 

Astro sombrio, luz amarga e aflita,

Das Ilusões tantálico gemido,

Virgem da Noite, do luar dorido,

Com toda a tua Dor oh! sê bendita!

 

Seja bendito esse clarão eterno

De sol, de sangue, de veneno e inferno,

De guerra e amor e ocasos de saudade...

 

Sejam benditas, imortalizadas

As almas castamente amortalhadas

Na tua estranha e branca Majestade!

 

 

 

Pressago

 

 

Nas águas daquele lago

Dormita a sombra de Iago...

 

Um véu de luar funéreo

Cobre tudo de mistério...

 

Há um lívido abandono

Do luar no estranho sono.

 

Transfiguração enorme

Encobre o luar que dorme...

 

Dá meia-noite na ermida,

Como o último ai de uma vida.

 

São badaladas nevoentas,

Sonolentas, sonolentas...

 

Do céu no estrelado luxo

Passa o fantasma de um bruxo.

 

No mar tenebroso e tetro

Vaga de um náufrago o espectro.

 

Como fantásticos signos,

Erram demônios malignos.

 

Na brancura das ossadas

Gemem as almas penadas

 

Lobisomens, feiticeiras

Gargalham no luar das eiras.

 

Os vultos dos enforcados

Uivam nos ventos irados.

 

Os sinos das torres frias

Soluçam hipocondrias.

 

Luxúrias de virgens mortas

Das tumbas rasgam as portas.

 

Andam torvos pesadelos

Arrepiando os cabelos.

 

Coalha nos lodos abjetos

O sangue roxo dos fetos.

 

Há rios maus, amarelos

De presságio de flagelos.

 

Das vesgas concupiscências

Saem vis fosforescências.

 

Os remorsos contorcidos

Mordem os ares pungidos.

 

A alma cobarde de Judas

Recebe expressões cornudas.

 

Negras aves de rapina

Mostram a garra assassina.

 

Sob o céu que nos oprime

Languescem formas de crime.

 

Com os mais sinistros furores,

Saem gemidos das flores.

 

Caveiras! Que horror medonho!

Parecem visões de um sonho!

 

A morte com Sancho Panca,

Grotesca e trágica dança.

 

E como um símbolo eterno,

Ritmos dos Ritmos do inferno.

 

No lago morto, ondulando,

Dentre o luar noctivagando,

 

O corvo hediondo crocita

Da sombra d’Iago maldita!

 

 

 

Ressurreição

 

 

Alma! Que tu não chores e não gemas,

Teu amor voltou agora.

Ei-lo que chega das mansões extremas,

Lá onde a loucura mora!

 

Veio mesmo mais belo e estranho, acaso,

Desses lívidos países,

Mágica flor a rebentar de um vaso

Com prodigiosas raízes.

 

Veio transfigurada e mais formosa

Essa ingênua natureza,

Mais ágil, mais delgada, mais nervosa,

Das essências da Beleza.

 

Certo neblinamento de saudade

Mórbida envolve-a de leve...

E essa diluente espiritualidade

Certos mistérios descreve.

 

O meu Amor voltou de aéreas curvas,

Das paragens mais funestas...

Veio de percorrer torvas e turvas

E funambulescas festas.

 

As festas turvas e funambulescas

Da exótica Fantasia,

Por plagas cabalísticas, dantescas,

De estranha selvageria.

 

Onde carrascos de tremendo aspecto

Como astros monstros circulam

E as meigas almas de sonhar inquieto

Barbaramente estrangulam.

 

Ele andou pelas plagas da loucura,

O meu Amor abençoado,

Banhado na poesia da Ternura,

No meu Afeto banhado.

 

Andou! Mas afinal de tudo veio

Mais transfigurado e belo,

Repousar no meu seio o próprio seio

Que eu de lágrimas estréio.

 

De lágrimas de encanto e ardentes beijos,

Para matar, triunfante,

A sede ideal de místico desejo

De quando ele andou errante.

 

E lágrimas, que enfim, caem ainda

Com os mais acres dos sabores

E se transformam (maravilha infinda!)

Em maravilhas de flores!

 

Ah! que feliz um coração que escuta

As origens de que é feito!

E que não é nenhuma pedra bruta

Mumificada no peito!

 

Ah! que feliz um coração que sente

Ah! tudo vivendo intenso

No mais profundo borbulhar latente

Do seu fundo foco imenso!

 

Sim! eu agora posso ter deveras

Ironias sacrossantas...

Posso os braços te abrir, Luz das Esferas,

Que das trevas te levantas.

 

Posso mesmo já rir de tudo, tudo

Que me devora e me oprime.

Voltou-me o antigo sentimento mudo

Do teu olhar que redime.

 

Já não te sinto morta na minh'alma

Como em câmara mortuária,

Naquela estranha e tenebrosa calma

De solidão funerária.

 

Já não te sinto mais embalsamada

No meu carinho profundo,

Nas mortalhas da Graça amortalhada,

Como ave voando do mundo.

 

Não! não te sinto mortalmente envolta

Na névoa que tudo encerra...

Doce espectro do pó, da poeira solta

Deflorada pela terra.

 

Não sinto mais o teu sorrir macabro

De desdenhosa caveira.

Agora o coração e os olhos abro

Para a Natureza inteira!

 

Negros pavores sepulcrais e frios

Além morreram com o vento...

Ah! como estou desafogado em rios

De rejuvenescimento!

 

Deus existe no esplendor d’algum Sonho,

Lá em alguma estrela esquiva.

Só ele escuta o soluçar medonho

E torna a Dor menos viva.

 

Ah! foi com Deus que tu chegaste, é certo,

Com a sua graça espontânea

Que emigraste das plagas do Deserto

Nu, sem sombra e sol, da Insânia!

 

No entanto como que volúpias vagas

Desses horrores amargos,

Talvez recordação daquelas plagas

Dão-te esquisitos letargos...

 

Porém tu, afinal, ressuscitaste

E tudo em mim ressuscita.

E o meu Amor, que repurificaste,

Canta na paz infinita!

 

 

 

Enlevo

 

 

Da doçura da Noite, da doçura

De um tenro coração que vem sorrindo,

Seus segredos recônditos abrindo

Pela primeira vez, a luz mais pura.

 

Da doçura celeste, da ternura

De um Bem consolador que vai fugindo

Pelos extremos do horizonte infindo,

Deixando-nos somente a Desventura.

 

Da doçura inocente, imaculada

De uma carícia virginal da Infância,

Nessa de rosas fresca madrugada.

 

Era assim tua cândida fragrância,

Arcanjo ideal de auréola delicada,

Visão consoladora da Distância...

 

 

 

Piedosa

 

A Nestor Vitor

 

 

Não sei por que, magoada Flor sem glória,

A tua voz de trêmula meiguice

Desperta em mim a mocidade flórea

De sentimentos que não tem velhice.

 

Guslas de um céu remotamente mudo

Gemem plangentes nessa voz que voa

E através dela, abençoando tudo,

Um luar de perdões desabotoa.

 

Vejo-te então sublimemente triste

E excelsa e doce, num anseio lento,

Vagando como um ser que não existe,

Transfigurada pelo Sofrimento.

 

Mas, não sei como, vejo-te por brumas,

Além da de ouro constelada Porta,

Na ondulação das lívidas espumas,

Morta, já morta, muito morta, morta...

 

E sinto logo esse supremo e sábio

Travo da dor, se morta te antevejo,

Essa macabra contração de lábio

Que morde e tantaliza o meu desejo.

 

Fico sempre a cismar, se tu morresses

Que angústia fina me laceraria,

Que músicas de céus saudosos, desses

Céus infinitos sobre mim fluiria...

 

Que anjos brancos soberbos, deslumbrantes,

Resplandecentes nos broquéis das vestes,

Claros e altos voariam flamejantes

Para buscar-te, dos Azuis Celestes.

 

Sim! Sim! Pois então tanta e atroz fadiga,

Tanta e tamanha dor convulsa e cega

Há de ficar sem doce luz amiga,

Da lágrima dos céus, que tudo rega?!

 

As batalhas cruéis do sacrifício,

As transfigurações dos teus calvários,

Essas virtudes, rolarão com o vício

Pelos mesmos abismos tumultuários?!

 

Toda a obscura pureza dos teus feitos,

A tua alma mais simples do que a água,

Essa bondade, todos os eleitos

Sentimentos que tens de flor da Mágoa;

 

Nada se salvará jamais, mais nada

Se salvará, no instante derradeiro?!

Ó interrogação desesperada,

Errante, errante pelo mundo inteiro!

 

Nada se salvará da essência viva

Que tudo purifica e refloresce;

De tanta fé, de tanta luz altiva

De tanta abnegação, de tanta prece?!

 

Nada se salvará, piedosa e pobre

Flor desdenhada pelo Mal ufano,

Só o meu coração e verso nobre

Hão de abrigar-te do desprezo humano.

 

Na transcendência do teu ser, tão alta,

Vejo dos céus como que os dons, a esmola,

O indefinido que de ti ressalta

Me prende, me arrebata e me consola.

 

E sinto que a tua alma desprendida

Do terrestre, do negro labirinto

Melhor há de adorar-me na outra Vida,

Melhor sentindo tudo quanto eu sinto.

 

Porque não é por sentimento vago,

Nem por simples e vã literatura,

Nem por caprichos de um estilo mago

Que sinto tanto a tua essência pura.

 

Não é por transitória veleidade

E para que o mundo reconheça,

Que sinto a tua cândida Piedade,

As auréolas de luz dessa cabeça.

 

Não é para que o mundo te proclame

Maravilha das mártires, das santas

Que eu digo sempre ao meu Amor que te ame

Mesmo através de tantas ânsias, tantas.

 

Nem é também para que o mundo creia

Na humilde limpidez da tua alma justa,

Que o mundo, vil e vão, desdenha e odeia

Toda a humildade, toda a crença augusta.

 

Mas sinto porque te amo e te acompanho

Pelas montanhas de onde sóis saudosos

Clarões e sombras de um mistério estranho

Espalham, como adeuses carinhosos.

 

Sinto que te acompanho, que te sigo

Tranquilo, calmo desses vãos rumores

E que tu vais embalada comigo,

Na mesma rede de carinho e dores.

 

Sinto os segredos do teu corpo amado,

Toda a graça floral, a graça breve,

Todo o composto lânguido, alquebrado

Do teu perfil de áureo crescente leve.

 

Sinto-te as linhas imortais do flanco,

E as ondas vaporosas dos teus passos

E todo o sonho castamente branco

Da volúpia celeste desses braços.

 

Sinto a muda expressão da tua boca

Feita num doce e doloroso corte

De beijo dado na veemência louca

Dos céus do gozo entre o estertor da morte.

 

Sinto-te as nobres mãos afagadoras,

Riquezas raras de um valor secreto

E mãos cujas carícias redentoras

São as carícias do supremo Afeto.

 

Sinto os teus olhos fluidos, de onde emerge

Uma graça, uma paz, tamanho encanto,

Tão brando e triste, que a minha alma asperge

Em suavíssimos bálsamos de pranto.

 

Uns olhos tão etéreos, tão profundos,

De tanta e tão sutil delicadeza

Que parecem viver lá n’outros mundos,

Longe da contingente Natureza.

 

Olhos que sempre no tremendo choque

Dos sofrimentos íntimos, latentes,

Tem esse toque amigo, o velho toque

Original das lágrimas ardentes.

 

Ah! só eu vejo e sinto esse desvelo

Que transfigura e faz o teu martírio,

O sentimento amargurado e belo

Que é já, talvez, quase mortal delírio...

 

Sinto que a mesma chama nos abraça,

Que um perfume eternal, casto, esquisito,

Circula e vive com divina graça

Dentro do nosso trêmulo Infinito.

 

E tudo quanto me sensibiliza,

Fere, magoa, dilacera, punge,

Tudo no teu olhar se cristaliza,

No teu olhar, no teu olhar que unge.

 

Sinto por ti o mais febril e intenso

Carinho quase louco, doentio...

Carinho singular, curioso, imenso,

Que deixa na alma um resplendor sombrio.

 

E e de tal forma esse carinho raro,

De tal encanto e tão sagrada essência,

De tal Piedade e tal Perdão preclaro,

Que canta na estrelada Refulgência.

 

Ah! nunca saberás quanto exotismo

De sentimento me alanceia e pulsa,

Vibra violinos de sonambulismo

Nest'alma ora serena, ora convulsa!

 

Tens luz de lua e tens gorjeios de ave

No mundo virginal dos meus sentidos,

E és sonho, sombra de Angelus suave

Nos nossos mútuos e comuns gemidos.

 

E sonho, sombra de Angelus, tão brandos,

Imortalmente tão indefiníveis

Que todos os terrores execrandos

Cobrem-se para nós de íris sensíveis.

 

É assim que eu te sinto, erma, sozinha,

Frágil, piedosa, nos singelos brilhos

Erguendo aos braços, nobremente minha,

Os dolentes troféus dos nossos filhos.

 

Erguendo-os como cálices amargos

De um vinho ideal de já mortas quimeras,

Para além destes céus mudos e largos

Na ampla misericórdia das Esferas!

 

 

 

Ausência misteriosa

 

 

Uma hora só que o teu perfil se afasta,

Um instante sequer, um só minuto

Desta casa que amo — vago luto

Envolve logo esta morada casta.

 

Tua presença delicada basta

Para tudo tornar claro e impoluto...

Na tua ausência, da Saudade escuto

O pranto que me prende e que me arrasta...

 

Secretas e sutis melancolias

Recuadas na Noite dos meus dias

Vêm para mim, lentas, se aproximando.

 

E em toda casa, nos objetos, erra

Um sentimento que não é da Terra

E que eu mudo e sozinho vou sonhando...

 

 

 

Meu filho

 

 

Ah! quanto sentimento! ah! quanto sentimento!

Sob a guarda piedosa e muda das Esferas

Dorme, calmo, embalado pela voz do vento,

Frágil e pequenino e tenro como as heras.

 

Ao mesmo tempo suave e ao mesmo tempo estranho

O aspecto do meu filho assim meigo dormindo...

Vem dele tal frescura e tal sonho tamanho

Que eu nem mesmo já sei tudo que vou sentindo.

 

Minh’alma fica presa e se debate ansiosa,

Em vão soluça e clama, eternamente presa

No segredo fatal dessa flor caprichosa,

Do meu filho, a dormir, na paz da Natureza.

 

Minh’alma se debate e vai gemendo aflita

No fundo turbilhão de grandes ânsias mudas:

Que esse tão pobre ser, de ternura infinita,

Mais tarde irá tragar os venenos de Judas!

 

Dar-lhe eu beijos, apenas, dar-lhe, apenas, beijos,

Carinhos dar-lhe sempre, efêmeros, aéreos,

O que vale tudo isso para outros desejos,

O que vale tudo isso para outros mistérios?!

 

De sua doce mãe que em prantos o abençoa

Com o mais profundo amor, arcangelicamente,

De sua doce mãe, tão límpida, tão boa,

O que vale esse amor, todo esse amor veemente?!

 

O longo sacrifício extremo que ela faça,

As vigílias sem nome, as orações sem termo,

Quando as garras cruéis e horríveis da Desgraça

De sadio que ele é, fazem-no fraco e enfermo?!

 

Tudo isso, ah! Tudo isso, ah! quanto vale tudo isso

Se outras preocupações mais fundas me laceram,

Se a graça de seu riso e a graça do seu viço

São as flores mortais que meu tormento geram?!

 

Por que tantas prisões, por que tantas cadeias

Quando a alma quer voar nos páramos liberta?

Ah! Céus! Quem me revela essas Origens cheias

De tanto desespero e tanta luz incerta!

 

Quem me revela, pois, todo o tesouro imenso

Desse imenso Aspirar tão entranhado, extremo!

Quem descobre, afinal, as causas do que eu penso,

As causas do que eu sofro, as causas do que eu gemo!

 

Pois então hei de ter um afeto profundo,

Um grande sentimento, um sentimento insano

E hei de vê-lo rolar, nos turbilhões do mundo,

Para a vala comum do eterno Desengano?!

 

Pois esse filho meu que ali no berço dorme,

Ele mesmo tão casto e tão sereno e doce

Vem para ser na Vida o vão fantasma enorme

Das dilacerações que eu na minh’alma trouxe?!

 

Ah! Vida! Vida! Vida! Incendiada tragédia,

Transfigurado Horror, Sonho transfigurado,

Macabras contorções de lúgubre comédia

Que um cérebro de louco houvesse imaginado!

 

Meu filho que eu adoro e cubro de carinhos,

Que do mundo vilão ternamente defendo,

Há de mais tarde errar por tremedais e espinhos

Sem que o possa acudir no suplício tremendo.

 

Que eu vagarei por fim nos mundos invisíveis,

Nas diluentes visões dos largos Infinitos,

Sem nunca mais ouvir os clamores horríveis,

A mágoa dos seus ais e os ecos dos seus gritos.

 

Vendo-o no berço assim, sinto muda agonia,

Um misto de ansiedade, um misto de tortura.

Subo e pairo dos céus na estrelada harmonia

E desço e entro do Inferno a furna hórrida, escura.

 

E sinto sede intensa e intensa febre, tanto,

Tanto Azul, tanto abismo atroz que me deslumbra.

Velha saudade ideal, monja de amargo Encanto,

Desce por sobre mim sua estranha penumbra.

 

Tu não sabes, jamais, tu nada sabes, filho,

Do tormentoso Horror, tu nada sabes, nada...

O teu caminho é claro, é matinal de brilho,

Não conheces a sombra e os golpes da emboscada.

 

Nesse ambiente de amor onde dormes teu sono

Não sentes nem sequer o mais ligeiro espectro...

Mas, ah! eu vejo bem, sinistra, sobre o trono,

A Dor, a eterna Dor, agitando o seu cetro!

 

 

 

Visão guiadora

 

 

Ó alma silenciosa e compassiva

Que conversas com os Anjos da Tristeza,

Ó delicada e lânguida beleza

Nas cadeias das lágrimas cativa.

 

Frágil, nervosa timidez lasciva,

Graça magoada, doce sutileza

De sombra e luz e da delicadeza

Dolorosa de música aflitiva.

 

Alma de acerbo, amargurado exílio,

Perdida pelos céus num vago idílio

Com as almas e visões dos desolados.

 

Ó tu que és boa e porque és boa és bela,

Da Fé e da Esperança eterna estrela

Todo o caminho dos desamparados.

 

 

 

Litania dos pobres

 

 

Os miseráveis, os rotos

São as flores dos esgotos.

 

São espectros implacáveis

Os rotos, os miseráveis.

 

São prantos negros de furnas

Caladas, mudas, soturnas.

 

São os grandes visionários

Dos abismos tumultuários.

 

As sombras das sombras mortas,

Cegos, a tatear nas portas.

 

Procurando o céu, aflitos

E varando o céu de gritos.

 

Faróis a noite apagados

Por ventos desesperados.

 

Inúteis, cansados braços

Pedindo amor aos Espaços.

 

Mãos inquietas, estendidas

Ao vão deserto das vidas.

 

Figuras que o Santo Ofício

Condena a feroz suplício.

 

Arcas soltas ao nevoento

Dilúvio do Esquecimento.

 

Perdidas na correnteza

Das culpas da Natureza.

 

Ó pobres! Soluços feitos

Dos pecados imperfeitos!

 

Arrancadas amarguras

Do fundo das sepulturas.

 

Imagens dos deletérios,

Imponderáveis mistérios.

 

Bandeiras rotas, sem nome,

Das barricadas da fome.

 

Bandeiras estraçalhadas

Das sangrentas barricadas.

 

Fantasmas vãos, sibilinos

Da caverna dos Destinos!

 

Ó pobres! ó vosso bando

É tremendo, é formidando!

 

Ele já marcha crescendo,

O vosso bando tremendo...

 

Ele marcha por colinas,

Por montes e por campinas.

 

Nos areais e nas serras

Em hostes como as de guerras.

 

Cerradas legiões estranhas

A subir, descer montanhas.

 

Como avalanches terríveis

Enchendo plagas incríveis.

 

Atravessa já os mares,

Com aspectos singulares.

 

Perde-se além nas distâncias

A caravana das ânsias.

 

Perde-se além na poeira,

Das Esferas na cegueira.

 

Vai enchendo o estranho mundo

Com o seu soluçar profundo.

 

Como torres formidandas

De torturas miserandas.

 

E de tal forma no imenso

Mundo ele se torna denso.

 

E de tal forma se arrasta

Por toda a região mais vasta.

 

E de tal forma um encanto

Secreto vos veste tanto.

 

E de tal forma já cresce

O bando, que em vós parece.

 

Ó Pobres de ocultas chagas

Lá das mais longínquas plagas!

 

Parece que em vós há sonho

E o vosso bando é risonho.

 

Que através das rotas vestes

Trazeis delícias celestes.

 

Que as vossas bocas, de um vinho

Prelibam todo o carinho...

 

Que os vossos olhos sombrios

Trazem raros amavios.

 

Que as vossas almas trevosas

Vêm cheias de odor das rosas.

 

De torpores, d’indolências

E graças e quint’essências.

 

Que já livres de martírios

Vêm festonadas de lírios.

 

Vêm nimbadas de magia,

De morna melancolia!

 

Que essas flageladas almas

Reverdecem como palmas.

 

Balanceadas no letargo

Dos sopros que vêm do largo...

 

Radiantes d’ilusionismos,

Segredos, orientalismos.

 

Que como em águas de lagos

Boiam nelas cisnes vagos...

 

Que essas cabeças errantes

Trazem louros verdejantes.

 

E a languidez fugitiva

De alguma esperança viva.

 

Que trazeis magos aspeitos

E o vosso bando é de eleitos.

 

Que vestes a pompa ardente

Do velho Sonho dolente.

 

Que por entre os estertores

Sois uns belos sonhadores.

 

 

 

Spleen de deuses

 

 

Oh! Dá-me o teu sinistro Inferno

Dos desesperos tétricos, violentos,

Onde rugem e bramem como os ventos

Anátemas da Dor, no fogo eterno...

 

Dá-me o teu fascinante, o teu falerno

Dos falernos das lágrimas sangrentos

Vinhos profundos, venenosos, lentos

Matando o gozo nesse horror do Averno.

 

Assim o Deus dos Páramos clamava

Ao Demônio soturno, e o rebelado,

Capricórnio Satã, ao Deus bradava.

 

Se és Deus e já de mim tens triunfado,

Para lavar o Mal do Inferno e a bava

Dá-me o tédio senil do céu fechado...

 

 

 

Divina

 

 

Eu não busco saber o inevitável

Das espirais da tua vã matéria.

Não quero cogitar da paz funérea

Que envolve todo o ser inconsolável.

 

Bem sei que no teu círculo maleável

De vida transitória e mágoa seria

Há manchas dessa orgânica miséria

Do mundo contingente, imponderável .

 

Mas o que eu amo no teu ser obscuro

E o evangélico mistério puro

Do sacrifício que te torna heroína.

 

São certos raios da tu’alma ansiosa

E certa luz misericordiosa,

E certa auréola que te fez divina!

 

 

 

Cabelos

 

 

I

 

 

Cabelos! Quantas sensações ao vê-los!

Cabelos negros, do esplendor sombrio,

Por onde corre o fluido vago e frio

Dos brumosos e longos pesadelos...

 

Sonhos, mistérios, ansiedades, zelos,

Tudo que lembra as convulsões de um rio

Passa na noite cálida, no estio

Da noite tropical dos teus cabelos.

 

Passa através dos teus cabelos quentes,

Pela chama dos beijos inclementes,

Das dolências fatais, da nostalgia...

 

Auréola negra, majestosa, ondeada,

Alma da treva, densa e perfumada,

Lânguida Noite da melancolia!

 

 

 

Olhos

 

 

II

 

 

A Grécia d’Arte, a estranha claridade

D’aquela Grécia de beleza e graça,

Passa, cantando, vai cantando e passa

Dos teus olhos na eterna castidade.

 

Toda a serena e altiva heroicidade

Que foi dos gregos a imortal couraça,

Aquele encanto e resplendor de raça

Constelada de antiga majestade,

 

Da Atenas flórea toda o viço louro,

E as rosas e os mirtais e as pompas d’ouro,

Odisseias e deuses e galeras...

 

Na sonolência de uma lua aziaga,

Tudo em saudade nos teus olhos vaga,

Canta melancolias de outras eras!...

 

 

 

Boca

 

 

III

 

 

Boca viçosa, de perfume a lírio,

Da límpida frescura da nevada,

Boca de pompa grega, purpureada,

Da majestade de um damasco assírio.

 

Boca para deleites e delírio

Da volúpia carnal e alucinada,

Boca de Arcanjo, tentadora e arqueada,

Tentando Arcanjos na amplidão do Empíreo,

 

Boca de Ofélia morta sobre o lago,

Dentre a auréola de luz do sonho vago

E os faunos leves do luar inquietos...

 

Estranha boca virginal, cheirosa,

Boca de mirra e incensos, milagrosa

Nos filtros e nos tóxicos secretos...

 

 

 

Seios

 

 

IV

 

 

Magnólias tropicais, frutos cheirosos

Das árvores do Mal fascinadoras,

Das negras mancenilhas tentadoras,

Dos vagos narcotismos venenosos.

 

Oásis brancos e miraculosos

Das frementes volúpias pecadoras

Nas paragens fatais, aterradoras

Do Tédio, nos desertos tenebrosos...

 

Seios de aroma embriagador e langue,

Da aurora de ouro do esplendor do sangue,

A alma de sensações tantalizando.

 

Ó seios virginais, tálamos vivos

Onde do amor nos êxtases lascivos

Velhos faunos febris dormem sonhando...

 

 

 

Mãos

 

 

V

 

 

Ó Mãos ebúrneas, Mãos de claros veios,

Esquisitas tulipas delicadas,

Lânguidas Mãos sutis e abandonadas,

Finas e brancas, no esplendor dos seios.

 

Mãos etéricas, diáfanas, de enleios,

De eflúvios e de graças perfumadas,

Relíquias imortais de eras sagradas

De amigos templos de relíquias cheios.

 

Mãos onde vagam todos os segredos,

Onde dos ciúmes tenebrosos, tredos,

Circula o sangue apaixonado e forte.

 

Mãos que eu amei, no féretro medonho

Frias, já murchas, na fluidez do Sonho,

Nos mistérios simbólicos da Morte!

 

 

 

Pés

 

 

VI

 

 

Lívidos, frios, de sinistro aspecto,

Como os pés de Jesus, rotos em chaga,

Inteiriçados, dentre a auréola vaga

Do mistério sagrado de um afeto.

 

Pés que o fluido magnético, secreto

Da morte maculou de estranha e maga

Sensação esquisita que propaga

Um frio n’alma, doloroso e inquieto...

 

Pés que bocas febris e apaixonadas

Purificaram, quentes, inflamadas,

Com o beijo dos adeuses soluçantes.

 

Pés que já no caixão, enrijecidos,

Aterradoramente indefinidos

Geram fascinações dilacerantes!

 

 

 

Corpo

 

 

VII

 

 

Pompas e pompas, pompas soberanas

Majestade serene da escultura

A chama da suprema formosura,

A opulência das púrpuras romanas.

 

As formas imortais, claras e ufanas,

Da graça grega, da beleza pura,

Resplendem na arcangélica brancura

Desse teu corpo de emoções profanas.

 

Cantam as infinitas nostalgias,

Os mistérios do Amor, melancolias,

Todo o perfume de eras apagadas...

 

E as águias da paixão, brancas, radiantes,

Voam, revoam, de asas palpitantes,

No esplendor do teu corpo arrebatadas!

 

 

 

Canção negra

 

A Nestor Vitor

 

 

Ó boca em tromba retorcida

Cuspindo injúrias para o Céu,

Aberta e pútrida ferida

Em tudo pondo igual labéu.

 

Ó boca em chamas, boca em chamas,

Da mais sinistra e negra voz,

Que clamas, clamas, clamas, clamas,

Num cataclismo estranho, atroz.

 

Ó boca em chagas, boca em chagas,

Somente anátemas a rir,

De tantas pragas, tantas pragas

Em catadupas a rugir.

 

Ó bocas de uivos e pedradas,

Visão histérica do Mal,

Cortando como mil facadas

Dum golpe só, transcendental.

 

Sublime boca sem pecado,

Cuspindo embora a lama e o pus,

Tudo a deixar transfigurado,

O lodo a transformar em luz.

 

Boca de ventos inclemente

De universais revoluções,

Alevantando as hostes quentes,

Os sanguinários batalhões.

 

Abençoada a canção velha

Que os lábios teus cantam assim

Na tua face que se engelha,

Da cor de lívido marfim.

 

Parece a furna do Castigo

Jorrando pragas na canção,

A tua boca de mendigo,

Tão tosco como o teu bordão.

 

Boca fatal de torvos trenos!

Da onipotência do bom Deus,

Louvados sejam tais venenos,

Purificantes como os teus!

 

Tudo precisa um ferro em brasa

Para este mundo transformar...

Nos teus Anátemas põe asa

E vai no mundo praguejar!

 

Ó boca ideal de rudes trovas,

Do mais sangrento resplendor,

Vai reflorir todas as covas,

O facho a erguer da luz do Amor.

 

Nas vãs misérias deste mundo

Dos exorcismos cospe o fel...

Que as tuas pragas rasguem fundo

O coração desta Babel.

 

Mendigo estranho! Em toda a parte

Vai com teus gritos, com teus ais,

Como o simbólico estandarte

Das tredas convulsões mortais!

 

Resume todos esses travos

Que a terra fazem languescer.

Das mãos e pés arranca os cravos

Das cruzes mil de cada Ser.

 

A terra é mãe! — mas ébria e louca

Tem germens bons e germens vis...

Bendita seja a negra boca

Que tão malditas coisas diz!

 

 

 

A ironia dos vermes

 

 

Eu imagino que és uma princesa

Morta na flor da castidade branca...

Que teu cortejo sepulcral arranca

Por tanta pompa espasmos de surpresa.

 

Que tu vais por um coche conduzida,

Por esquadrões flamívomos guardada,

Como carnal e virgem madrugada,

Bela das belas, sem mais sol, sem vida.

 

Que da Corte os luzidos Dignitários

Com seus aspectos marciais, bizarros,

Seguem-te após nos fagulhantes, carros

E a excelsa cauda dos cortejos vários.

 

Que a tropa toda forma nos caminhos

Por onde irás passar indiferente;

Que há no semblante vão de toda a gente

Curiosidades que parecem vinhos.

 

Que os potentes canhões roucos atroam

O espaço claro de uma tarde suave,

E que tu vais, Lírio dos lírios e ave

Do Amor, por entre os sons que te coroam.

 

Que nas flores, nas sedas, nos veludos,

E nos cristais do féretro radiante

Nos damascos do Oriente, na faiscante

Onda de tudo há longos prantos mudos.

 

Que do silêncio azul da imensidade,

Do perdão infinito dos Espaços

Tudo te dá os beijos e os abraços

Do seu adeus a tua Majestade.

 

Que de todas as coisas como Verbo

De saudades sem termo e de amargura,

Sai um adeus a tua formosura,

Num desolado sentimento acerbo.

 

Que o teu corpo de luz, teu corpo amado,

Envolto em finas e cheirosas vestes,

Sob o carinho das Mansões celestes

Ficará pela Morte encarcerado.

 

Que o teu séquito é tal, tal a coorte,

Tal o sol dos brasões, por toda a parte,

Que em vez da horrenda Morte suplantar-te

Crê-se que és tu que suplantaste a Morte.

 

Mas dos faustos mortais a regia trompa,

Os grandes ouropéis, a real Quermesse,

Ah! tudo, tudo proclamar parece

Que hás de afinal apodrecer com pompa.

 

Como que foram feitos de luxúria

E gozo ideal teus funerais luxuosos

Para que os vermes, pouco escrupulosos,

Não te devorem com plebeia fúria.

 

Para que eles ao menos vendo as belas

Magnificências do teu corpo exausto

Mordam-te com cuidados e cautelas

Para o teu corpo apodrecer com fausto.

 

Para que possa apodrecer nas frias

Geleiras sepulcrais d'esquecimentos,

Nos mais augustos apodrecimentos,

Entre constelações e pedrarias.

 

Mas ah! quanta ironia atroz, funérea,

Imaginária e cândida Princesa:

És igual a uma simples camponesa

Nos apodrecimentos da Matéria!

 

 

 

Inês

 

 

Tem teu nome a estranha graça

De uma galga verde, estranha.

Certo langor te adelgaça,

Certo encanto te acompanha.

 

És velada, quebradiça

Como teu nome é velado.

Certa flor curiosa viça

No teu corpo edenizado.

 

Chamam-te a Inês dos quebrantos,

A galga verde, a felina,

Amaranto de amarantos,

Das franzinas a franzina.

 

Teus olhos, langues aquários

Adormentados de cisma,

Vivem mudos, solitários

Como uma treva que abisma.

 

Tua boca, vivo cravo

Sanguíneo, púrpuro, ardente,

De certa forma tem travo

Embora veladamente.

 

És lírio de velho outono,

Meiga Inês, e de tal sorte

Que já vives no abandono,

Meio enevoada da morte.

 

Teu beijo, do rosmaninho

Tem o sainete amargoso...

Lembra a saudade de um vinho

Secreto, mas venenoso.

 

Por um mistério indizível

Não te é dado amar na terra.

Vem de longe o Indefinível

Que os teus silêncios encerra!

 

Deus fechou-te a sete chaves

O coração lá no fundo...

Mas deu-te as asas das aves

Para irradiares no mundo.

 

 

 

Humildade secreta

 

 

Fico parado, em êxtase suspenso,

Às vezes, quando vou considerando

Na humildade simpática, no brando

Mistério simples do teu ser imenso.

 

Tudo o que aspiro, tudo quanto penso

D’estrelas que andam dentro em mim cantando,

Ah! tudo ao teu fenômeno vai dando

Um céu de azul mais carregado e denso.

 

De onde não sei tanta simplicidade,

Tanta secreta e límpida humildade

Vem ao teu ser como os encantos raros.

 

Nos teus olhos tu’alma transparece...

E de tal sorte que o bom Deus parece

Viver sonhando nos teus olhos claros.

 

 

 

Flor perigosa

 

 

Ah! quem, trêmulo e pálido, medita

No teu perfil de áspide triste, triste,

Não sabe em quanto abismo essa infinita

Tristeza amarga singular consiste.

 

Tens todo o encanto de uma flor, o encanto

Secreto de uma flor de vago aroma...

Mas não sei que de morno e de quebranto

Vem, lasso e langue, dessa negra coma.

 

És das origens mais desconhecidas,

De uma longínqua e nebulosa infância.

A visão das visões indefinidas,

De atra, sinistra mórbida elegância.

 

Como flor, entretanto, és bem amarga!

Polens celestes o teu ser inundam,

Mas ninguém sabe a onda nervosa e larga

Dos insetos mortais que te circundam.

 

Quem teu aroma de mulher aspira

Fica entre ânsias de túmulo fechado...

Sente vertigens de vulcão, delira

E morre, sutilmente envenenado.

 

Teu olhar de fulgências e de treva,

Onde as volúpias a pecar se ajustam,

Guarda um mistério que envilece e eleva,

Causa delíquios e emoções que assustam.

 

És flor, mas como flor és perigosa,

Do mais sombrio e tétrico perigo...

Fenômenos fatais de luz ansiosa

Vão pelas noites segredar contigo.

 

Vão segredar que és feia e que és estranha

Sendo feia, mas sendo extravagante,

De enorme, de esquisita, de tamanha

Influência de eclipse radiante...

 

Sei! não nasceste sob a luz que ondeia

Na beleza e nos astros da saúde;

Mas sendo assim, morbidamente feia,

O teu ser feia torna-se virtude.

 

És feia e doente, surges desse misto,

Da exótica, da insana, da funesta

Auréola ideal dos martírios de Cristo

Naquela Dor absurdamente mesta.

 

Vens de lá, vens de lá — fundos remotos

Adelgaçando como os véus de um rio...

Abrindo do magoado e velho lótus

Do sentimento, todo o sol doentio...

 

Mas quem quiser saber o quanto encerra

Teu ser, de mais profundo e mais nevoento,

Venha aspirar-te no teu vaso — a Terra —

Ó perigosa flor do esquecimento!

 

 

 

Metempsicose

 

 

Agora, já que apodreceu a argila

Do teu corpo divino e sacrossanto;

Que embalsamaram de magoado pranto

A tua carne, na mudez tranquila,

 

Agora, que nos Céus, talvez, se asila

Aquela graça e luminoso encanto

De virginal e pálido amaranto

Entre a Harmonia que nos Céus desfila.

 

Que da morte o estupor macabro e feio

Congelou as magnólias do teu seio,

Por entre catalépticas visões...

 

Surge, Bela das Belas, na Beleza

Do transcendentalismo da Pureza,

Nas brancas, imortais Ressurreições!

 

 

 

Os monges

 

 

Montanhas e montanhas e montanhas

Ei-los que vão galgando.

As sombras vãs das figuras estranhas

Na Terra projetando.

 

Habitam nas mansões do Imponderável

Esses graves ascetas;

Ocultando, talvez, no Inconsolável

Amarguras inquietas.

 

Como os reis Magos, trazem lá do Oriente

As alfaias preciosas,

Mas alfaias, surpreendentemente,

As mais miraculosas.

 

Nem incensos, nem mirras e nem ouros,

Nem mirras nem incensos,

Outros mais raros, mágicos tesouros

Sobre todos, imensos.

 

Pelos longínquos, sáfaros caminhos

Que vivem percorrendo,

A Dor, como atros, venenosos vinhos,

Os vai deliquescendo.

 

São os monges sombrios, solitários,

Como esses vagos rios

Que passam nas florestas tumultuários,

Solitários, sombrios.

 

São monges das florestas encantadas,

Dos ignotos tumultos,

Almas na Terra desassossegadas,

Desconsolados vultos.

 

São os monges da Graça e do Mistério,

Faróis da Eternidade

Iluminando todo o Azul sidéreo

Da sagrada Saudade.

 

— Onde e quando acharão o seu descanso

Eles que há tanto vagam?

Em que dia terão esse remanso

Os seus pés que se chagam?

 

Quando caminham nas Regiões nevoentas,

Da lua nos quebrantos,

As suas sombras vagarosas, lentas

Ganham certos encantos...

 

Ficam nimbados pela luz da lua

Os seus perfis tristonhos...

Sob a dolência peregrina e crua

Dos tantálicos sonhos.

 

As Ilusões são seus mantos sanguíneos

De símbolos de dores,

De signos, de solenes vaticínios,

De nirvânicas flores.

 

Benditos monges imortais, benditos

Que etéreas harpas tangem!

Que rasgam d'alto a baixo os Infinitos,

Infinitos abrangem.

 

Deixai-os ir com os seus troféus bizarros

De humano Sentimento,

Arrebatados pelos ígneos carros

Do augusto Pensamento.

 

Que os leve a graça das errantes almas,

— Grandes asas de tudo —

Entre as Hosanas, o verdor das palmas,

Entre o Mistério mudo!

 

Não importa saber que rumo trazem

Nem se é longo esse rumo...

Eles no Indefinido se comprazem,

São dele a chama e o fumo.

 

Deixai-os ir pela Amplidão a fora,

Nos Silêncios da esfera,

Nos esplendores da eternal Aurora

Coroados de Quimera!

 

Deixai-os ir pela Amplidão, deixai-os,

No segredo profundo,

Por entre fluidos de celestes raios

Transfigurando o mundo.

 

Que só os astros do Azul cintilam

Pela sidérea rede

Saibam que os monges, lívidos, desfilam

Devorados de sede...

 

Que ninguém mais possa saber as ânsias

Nem sentir a Dolência

Que vindo das incógnitas Distâncias

E dos monges a essência!

 

Monges, ó monges da divina Graça,

Lá da graça divina,

Deu-vos o Amor toda a imortal couraça

Dessa Fé que alucina.

 

No meio de anjos que vos abençoam

Corações estremecem...

E tudo eternamente vos perdoam

Os que não vos esquecem.

 

Toda a misericórdia dos espaços

Vos oscule, surpresa...

E abri, serenos, largamente, os braços

A toda a Natureza!

 

 

 

Tristeza do infinito

 

 

Anda em mim, soturnamente,

Uma tristeza ociosa

Sem objetivo, latente,

Vaga, indecisa, medrosa.

 

Como ave torva e sem rumo,

Ondula, vagueia, oscila

E sobe em nuvens de fumo

E na minh'alma se asila.

 

Uma tristeza que eu, mudo,

Fico nela meditando

E meditando, por tudo

E em toda a parte sonhando.

 

Tristeza de não sei donde,

De não sei quando nem como...

Flor mortal, que dentro esconde

Sementes de um mago pomo.

 

Dessas tristezas incertas,

Esparsas, indefinidas...

Como almas vagas, desertas

No rumo eterno das vidas.

 

Tristeza sem causa forte,

Diversa de outras tristezas,

Nem da vida nem da morte

Gerada nas correntezas...

 

Tristeza de outros espaços,

De outros céus, de outras esferas,

De outros límpidos abraços,

De outras castas primaveras.

 

Dessas tristezas que vagam

Com volúpias tão sombrias

Que as nossas almas alagam

De estranhas melancolias.

 

Dessas tristezas sem fundo,

Sem origens prolongadas,

Sem saudades deste mundo,

Sem noites, sem alvoradas.

 

Que principiam no sonho

E acabam na Realidade,

Através do mar tristonho

Desta absurda Imensidade.

 

Certa tristeza indizível,

Abstrata, como se fosse

A grande alma do Sensível

Magoada, mística, doce.

 

Ah! tristeza imponderável,

Abismo, mistério aflito,

Torturante, formidável...

Ah! tristeza do Infinito!

 

 

 

Luar de lágrimas

 

 

I

 

 

Nos estrelados, límpidos caminhos

Dos Céus, que um luar criva de prata e de ouro,

Abrem-se róseos e cheirosos ninhos,

E há muitas messes do bom trigo louro.

 

Os astros cantam meigas cavatinas,

E na frescura as almas claras gozam

Alvoradas eternas, cristalinas,

E os Dons supremos, divinais esposam.

 

Lá, a florescência dos Desejos

Tem sempre um novo e original perfume,

Tudo rejuvenesce dentre arpejos

E dentre palmas verdes se resume.

 

As próprias mocidades e as infâncias

Das coisas tem um esplendor infindo

E as imortalidades e as distâncias

Estão sempre florindo e reflorindo.

 

Tudo aí se consola e transfigura

Num Relicário de viver perfeito,

E em cada uma alma peregrina e pura

Alvora o sentimento mais eleito.

 

Tudo aí vive e sonha o imaculado

Sonho esquisito e azul das quint'essências,

Tudo é sutil e cândido, estrelado,

Embalsamado de eternais essências.

 

Lá as Horas são águias, voam, voam

Com grandes asas resplandecedoras...

E harpas augustas finamente soam

As Aleluias glorificadoras.

 

Forasteiros de todos os matizes

Sentem ali felicidades castas

E os que essas libações gozam felizes

Deixam da terra as vastidões nefastas.

 

Anjos excelsos e contemplativos,

Soberbos e solenes, soberanos,

Com aspectos grandíloquos, altivos,

Sonham sorrindo, angelicais e ufanos.

 

Lá não existe a convulsão da Vida

Nem os tremendos, trágicos abrolhos.

Há por tudo a doçura indefinida

Dos azuis melancólicos de uns olhos.

 

Véus brancos de Visões resplandecentes

Miraculosamente se adelgaçam...

E recordando essas Visões diluentes

Dolências beethovínicas perpassam.

 

Há magos e arcangélicos poderes

Para que as existências se transformem...

E os mais egrégios e completos seres

Sonos sagrados, impolutos dormem...

 

E lá que vagam, que plangentes erram,

Lá que devem vagar, decerto, flóreas,

Puras, as Almas que eu perdi, que encerram

O meu Amor nas Urnas ilusórias.

 

Hosanas de perdão e de bondade

De celestial misericórdia santa

Abençoam toda essa claridade

Que na harmonia das Esferas canta.

 

Preces ardentes como ardentes sarças

Sobem no meio das divinas messes.

Lembra o voo das pombas e das garças

A leve ondulação de tantas preces.

 

E quem penetra nesse ideal Domínio,

Por entre os raios das estrelas belas,

Todo o celeste e singular escrínio,

Todo o escrínio das lágrimas vê nelas.

 

E absorto, penetrando os Céus tão calmos,

Céus de constelações que maravilham,

Não sabe, acaso, se com os brilhos almos,

São estrelas ou lágrimas que brilham.

 

Mas ah! das Almas esse azul letargo,

Esse eterno, imortal Isolamento,

Tudo se envolve num luar amargo

De Saudade, de Dor, de Esquecimento!

 

Tudo se envolve nas neblinas densas

De outras recordações, de outras lembranças,

No doce luar das lágrimas imensas

Das mais inconsoláveis esperanças.

 

 

II

 

 

Ó mortos meus, ó desabados mortos!

Chego de viajar todos os portos.

 

Volto de ver inóspitas paragens,

As mais profundas regiões selvagens.

 

Andei errando por funestas tendas

Onde das almas escutei as lendas.

 

E tornei a voltar por uma estrada

Erma, na solidão, abandonada.

 

Caminhos maus, atalhos infinitos

Por onde só ouvi ânsias e gritos.

 

Por toda a parte a rir o incêndio e a peste

Debaixo da Ilusão do Azul celeste.

 

Era também luar, luar lutuoso

Pelas estradas onde errei saudoso...

 

Era também luar, o luar das penas,

Brando luar das Ilusões terrenas.

 

Era um luar de triste morbideza

Amortalhando toda a natureza.

 

E eu em vão busquei, Mortos queridos,

Por entre os meus tristíssimos gemidos.

 

Em vão pedi os filtros dos segredos

Da vossa morte, a voz dos arvoredos.

 

Em vão fui perguntar ao Mar que é cego

A lei do Mar do Sonho onde navego.

 

Ao Mar que e cego, que não vê quem morre

Nas suas ondas, onde o sol escorre...

 

Em vão fui perguntar ao Mar antigo

Qual era o vosso desolado abrigo.

 

Em vão vos procurei cheio de chagas,

Por estradas insólitas e vagas.

 

Em vão andei mil noites por desertos,

Com passos, espectrais, dúbios, incertos.

 

Em vão clamei pelo luar a fora,

Pelos ocasos, pelo albor da aurora.

 

Em vão corri nos areais terríveis

E por curvas de montes impassíveis.

 

Só um luar, só um luar de morte

Vagava igual a mim, com a mesma sorte.

 

Só um luar sempre calado e dútil,

Para a minha aflição, acerbo e inútil.

 

Um luar de silêncio formidável

Sempre me acompanhando, impenetrável.

 

Só um luar de mortos e de mortas

Para sempre a fechar-me as vossas portas.

 

E eu, já purgado dos terrestres

Crimes, Sem achar nunca essas portas sublimes.

 

Sempre fechado a chave de mistério

O vosso exílio pelo Azul sidéreo.

 

Só um luar de trêmulos martírios

A iluminar-me com clarões de círios.

 

Só um luar de desespero horrendo

Ah! sempre me pungindo e me vencendo.

 

Só um luar de lágrimas sem termos

Sempre me perseguindo pelos ermos.

 

E eu caminhando cheio de abandono

Sem atingir o vosso claro trono.

 

Sozinho para longe caminhando

Sem o vosso carinho venerando.

 

Percorrendo o deserto mais sombrio

E de abandono a tiritar de frio...

 

Ó Sombras meigas, ó Refúgios ternos

Ah! como penetrei tantos Infernos!

 

Como eu desci sem vós negras escarpas,

Ó Almas do meu ser, Ó Almas de harpas!

 

Como senti todo esse abismo ignaro

Sem nenhuma de vós por meu amparo.

 

Sem a benção gozar, serena e doce,

Que o vosso Ser aos meus cuidados trouxe.

 

Sem ter ao pé de mim o astral cruzeiro

Do vosso grande amor alvissareiro.

 

Por isso, ó sombras, sombras impolutas,

Eu ando a perguntar as formas brutas.

 

E ao vento e ao mar e aos temporais que ululam

Onde é que esses perfis se crepusculam.

 

Caminho, a perguntar, em vão, a tudo,

E só vejo um luar soturno e mudo.

 

Só contemplo um luar de sacrifícios,

De angústias, de tormentas, de cilícios.

 

E sem ninguém, ninguém que me responda

Tudo a minh’alma nos abismos sonda.

 

Tudo, sedenta, quer saber, sedenta

Na febre da Ilusão que mais aumenta.

 

Tudo, mas tudo quer saber, não cessa

De perscrutar e a perscrutar começa.

 

De novo sobe e desce escadarias

D’estrelas, de mistérios, de harmonias.

 

Sobe e não cansa, sobe sempre, austera,

Pelas escadarias da Quimera.

 

Volta, circula, abrindo as asas volta

E os voos de águia nas Estrelas solta.

 

Cada vez mais os voos no alto apruma

Para as etéreas amplidões da Bruma.

 

E tanta forca na ascensão desprende

Da envergadura, a proporção que ascende...

 

Tamanho impulso, colossal, tamanho

Ganha na Altura, no Esplendor estranho.

 

Tanto os esforços em subir concentra,

Em tantas zonas de Prodígios entra.

 

Nas duas asas tal vigor supremo

Leva, através de todo o Azul extremo,

 

Que parece cem águias de atras garras

Com asas gigantescas e bizarras.

 

Cem águias soberanas, poderosas

Levantando as cabeças fabulosas.

 

E voa, voa, voa, voa imersa

Na grande luz dos Paramos dispersa.

 

E voa, voa, voa, voa, voa

Nas Esferas sem fim perdida a toa.

 

Até que exausta da fadiga e sonho

Nessa vertigem, nesse errar medonho.

 

Até que tonta de abranger Espaços,

Da Luz nos fulgidíssimos abraços.

 

Depois de voar a tão sutis Encantos,

Vendo que as Ilusões a abandonaram,

Chora o luar das lágrimas, os prantos

Que pelos Astros se cristalizaram!

 

 

 

Ébrios e cegos

 

 

Fim de tarde sombria.

Torvo e pressago todo o céu nevoento.

Densamente chovia.

Na estrada o lodo e pelo espaço o vento.

 

Monótonos gemidos

Do vento, mornos, lânguidos, sensíveis:

Plangentes ais perdidos

De solitários seres invisíveis...

 

Dois secretos mendigos

Vinham, bambos, os dois, de braço dado,

Como estranhos amigos

Que se houvessem nos tempos encontrado.

 

Parecia que a bruma

Crepuscular os envolvia, absortos

Numa visão, nalguma

Visão fatal de vivos ou de mortos.

 

E de ambos o andar lasso

Tinha talvez algum sonambulismo,

Como através do espaço

Duas sombras volteando num abismo.

 

Era tateante, vago

De ambos o andar, aquele andar tateante

De ondulação de lago,

Tardo, arrastado, trêmulo, oscilante.

 

E tardo, lento, tardo,

Mais tardo cada vez, mais vagaroso,

No torvo aspecto pardo

Da tarde, mais o andar era brumoso.

 

Bamboleando no lodo,

Como que juntos resvalando aéreos,

Todo o mistério, todo

Se desvendava desses dois mistérios:

 

Ambos ébrios e cegos,

No caos da embriaguez e da cegueira,

Vinham cruzando pegos

De braço dado, a sua vida inteira.

 

Ninguém diria, entanto,

O sentimento trágico, tremendo,

A convulsão de pranto

Que aquelas almas iam turvescendo.

 

Ninguém sabia, certos,

Quantos os desesperos mais agudos

Dos mendigos desertos,

Ébrios e cegos, caminhando mudos.

 

Ninguém lembrava as ânsias

Daqueles dois estados meio gêmeos,

Presos nas inconstâncias

De sofrimentos quase que boêmios.

 

Ninguém diria nunca,

Ébrios e cegos, todos dois tateando,

A que atroz espelunca

Tinham, sem vista, ido beber, bambeando.

 

Que negro álcool profundo

Turvou-lhes a cabeça e que sudário

Mais pesado que o mundo

Pôs-lhes nos olhos tal horror mortuário.

 

E em tudo, em tudo aquilo,

Naqueles sentimentos tão estranhos.

De tamanho sigilo,

Como esses entes vis eram tamanhos!

 

Que tão fundas cavernas,

Aquelas duas dores enjaularam,

Miseráveis e eternas

Nos horríveis destinos que as geraram.

 

Que medonho mar largo,

Sem lei, sem rumo, sem visão, sem norte,

Que absurdo tédio amargo

De almas que apostam duelar com a morte!

 

Nas suas naturezas,

Entre si tão opostas, tão diversas,

Monstruosas grandezas

Medravam, já unidas, já dispersas.

 

Onde a noite acabava

Da cegueira feral de atros espasmos,

A embriaguez começava

Rasgada de ridículos sarcasmos.

 

E bêbadas, sem vista,

Na mais que trovejante tempestade,

Caminhando a conquista

Do desdém das esmolas sem piedade,

 

Lá iam, juntas, bambas,

— acorrentadas convulsões atrozes —,

Ambas as vidas, ambas

Já meio alucinadas e ferozes.

 

E entre a chuva e entre a lama

E soluços e lágrimas secretas,

Presas na mesma trama,

Turvas, flutuavam, trêmulas, inquietas.

 

Mas ah! torpe matéria!

Se as atritassem, como pedras brutas,

Que chispas de miséria

Romperiam de tais almas corruptas!

 

Tão grande, tanta treva,

Tão terrível, tão trágica, tão triste,

Os sentidos subleva,

Cava outro horror, fora do horror que existe.

 

Pois do sinistro sonho

Da embriaguez e da cegueira enorme,

Erguia-se, medonho,

Da loucura o fantasma desconforme.