LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Histórias simples, de Cruz e Sousa


Texto-fonte:

 

João da Cruz e Sousa, Obra completa, org. de Lauro Junkes,

Jaraguá do Sul: Avenida, 2008, 2 v.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

I. À Iaiá

 

II. À Sinhá

 

III. À Nicota

 

IV. À Bilu

 

V. À Santa

 

VI. À Bibi

 

VII. À Neném

 

VIII. Zezé

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARA SOLENIZAR GENTILMENTE, com todas as delicadezas do espírito, a fulgurantíssima ideia de libertar escravos nesta aprazível terra, vamos contar aos amabilíssimos senhores e particularmente às Exmas. senhoras, umas “histórias simples”, interessantes e leves e fáceis e claras, uma espécie de croquis ligeiro do escravo no lar e na sociedade, com a mesma luz geral do método racionalista, intuitivo e prático do grande alemão Froebel, um belo homem que à luz do Jardim da Infância estabeleceu a fisionomia lógica do ensino primário nas sociedades infantis do mundo, com a sua ciência liberal e fecunda de transcendentalismo pedagógico.

 

As “histórias simples” desfilarão por estas colunas como um cortejo de bênçãos e de ironias, picantes e dóceis, como um perfume de corilopsis ou como um perfume de violeta.

 

Serão trabalhadas de estilo, brandamente esmaltadas de ideias como um céu esmaltado de estrelas.

 

Baterão no assunto pelo que ele tiver de mais verdade, de mais penetrabilidade, de mais objetivismo, de mais caráter. Descerão do trono de papelão o ridículo manequim do preconceito oficial e improgressivo, numa grande risada salutar e vitoriosa, bem da alma, bem de crítica e de análise.

 

Eis, pois, as

 

 

 

 

HISTÓRIAS SIMPLES

 

 

I

 

À Iaiá

 

 

Vós SABEIS, Iaiá, como o mar é indomável e mau.

 

O vosso admirável paizinho, uma gentil pessoinha fraca de nervos, impressionada e enjoada pelos grandes e fortes balanços do navio no mar alto, o vosso pai, quando volta de viagem, vos tem de certo contado as inclemências do oceano, as suas lutas, os seus uivos despedaçando-se e abrindo-se em diamantes de espuma no costado das embarcações. E ele tem um riso de alma contente para vós, unicamente porque se lembra do que haveríeis de sentir, do quanto o vosso histerismo se abalaria se o acompanhásseis, a ele já velho e doente, na costumada peregrinação sobre as águas que gemem saudades. Pois ouvi-me Iaiá: um belo dia, pacífico e doce, cheio talvez da doçura infinita do vosso olhar, pela hora calma e solene do meio-dia, um grupo de homens, pescadores, marinheiros, operários, trabalhadores de toda a casta, lutadores de toda a vida, fisionomias rudes e chãs, agrestes como as altas árvores selvagens, se ocupavam à beira de uma praia em observar qualquer coisa estranha e inexplicável.

 

O sol direito jorrando do alto como que apagava, pela força da luz, os traços ou as sombras carregadas e duras dos seus rostos. Mas, queridíssima Iaiá, um agrupamento de indivíduos em certos lugares e em certas ocasiões, influi, pelas circunstâncias de mistério de que se cerca, nas nossas naturezas ocidentais e brasileiras, ávidas de surpresa, de acontecimentos, de fantasmagoria. A indecisão de conhecer a verdade, arrasta-nos e, nós lá vamos, sôfregos, ofegantes, impacientes, saber do ocorrido que tem para nós uma ardente e atormentadora tentação de pecado.

 

O caso era o seguinte:

 

Tinha dado a uma outra praia deserta e longínqua e fora transportado para aquela, até ser entregue à família que quem sabe se ele a teria, ou simplesmente atirado à implacável e fria indiferença da terra, o cadáver de um homem, velho e negro, envolto numa noite física que parecia rir muito, com um riso aflitivo e trêmulo, em toda a extensão da pele do seu corpo. Era tragicamente lindo de ver-se, Iaiá, o seu cadáver sinistro mas calmo, mas sereno, como um deus terrível dos destinos, em cujos olhe vidrados e mudos o sol punha vivos reflexos luzidios.

 

.......................................

 

Depois, interessante e amável e bela Iaiá, os boatos correram no cruzamento e, na acumulação dos tempos, e a história verdadeira dos fato que abre luz nos assuntos da treva, veio dizer-nos que aquele desgraçada não era, nada mais nada menos do que... um escravo que procurava na desventura da vida, a liberdade da morte, no mar, no mesmo mar indomável e mal aberto à existência quase marítima do vosso pai.

 

A Regeneração, Desterro, 23 de junho de 1887

 

 

 

II

 

À Sinhá

 

 

FOI PELO INVERNO que se deu esta cena triste e lúgubre, Sinhá.

 

Tinha eu ido passar a invernada de Junho, num dos nossos sítios tranquilos e modestos, cheios da placidez melancólica da vida humilde e serena, duma paz virginal, lá onde o verde da paisagem não é mais casta nem mais doce que as naturezas francas dos matutos.

 

No dia em que se deu o fato que vou relatar, chovera.

 

Miudinhas cintilações de diamantes, de prata, como vidro liquefeito, tremeluziam vivamente nos troncos e nos galhos das árvores. Havia então um ar de frescura, de purificação, de nitidez em toda a atmosfera e escala ascendente do verde, desde o verde-paris, claro e forte, até ao verde-mar, ao verde-bronze, mais carregado e compacto.

Não sei se naquele sítio de um aspecto pueril e dócil, poderia haver a invasão da maldade e do egoísmo do homem, Sinhá; mas sei entretanto que os meus olhos e que o meu coração, doídos e magoados, tiveram de presenciar isto: Um homem rude, de fisionomia cruel e trágica, apresentando todo o irracionalismo e temperamento animal explosivo, vergastava a duros golpes de relho, de pé atrás para retesar e dar toda a elasticidade e esgrima melhor ao músculo do braço, uma frágil mulher, escrava indefesa que não sei se ria ou chorava, se blasfemava ou suplicava, tanta era a descarga de impropérios que o terrível homem lhe rebentava as faces, como o estado de brusca excitação nervosa em que os meus sentimentos se achavam diante da mais ignóbil das cenas.

 

Oh! era brutal, não, Sinhá?

 

A Sinhá é casada ou é solteira ou é viúva. Tem de cuidar do seu maridinho querido ou do seu vestido creme com rendas da Inglaterra para o baile do primo João que é seu noivo, ou tem de cuidar de chorar elegantemente o passado através do véu negro, rodeada talvez de filhitos louros que o defunto deixou; tem de pensar nestas feminilidades, nestas miudezas, nestes chics de mulher, nestes nadinhas bonitos e encantadores mas sempre criancis, mas sempre ingênuos; não tem a preocupação crua e material do outro sexo, os negócios, a vida prática, a responsabilidade da inteligência mais culta para dirigir nações, para fazer livros, para fazer leis. A sinhá não tem, por isso, a rija couraça de aço da luta que põe na consciência de certos homens, um terror obtuso e bronco pela moral, pelo caráter, pelo amor. E o amor é para a Sinhá, eu sei, o primeiro princípio da sabedoria feminina.

 

E mal sabe agora a Sinhá, o que me ocorreu à ideia quando vi o caso que lhe contei: É que aquele desgraçado ente era uma mulher e vivia sob a pressão do chicote, num sítio afastado e pobre; e a Sinhá é uma mulher também e vive na cidade dos ricos, das luzes e dos rumores, sob a música e harmoniosíssima influência de um piano de Erard que geme scherzos dolentes atravessados de um luar de amor ou de uma balada meiga e saudosa cantada por nereidas de voz de prata e lábios de aurora, numa barca, à flor de espuma do mar azul.

 

A Regeneração (o recorte não traz indicação de data).

 

 

III

 

À Nicota

 

 

LOURA NICOTA, venta muito lá fora. O leste frenético e convulsivo arrepia e desgrenha as árvores, fazendo hieróglifos de rugas trêmulas nas águas turvas dos rios. Não chove. Mas esse leste que zune, efusiva e zarguncha num desespero nevrótico de doido, zangaleando as vidraças, esse leste, loura Nicota, devasta tanto como as grandes chuvas copiosas que caem dos torvos ares elétricos. É noite, escura e erma; e alguns vultos que passam nela, encolhidos, esguios, a largos passos para casa, semelham duendes, antigos fantasmas das belas histórias patuscas contadas por nossas avós junto à fogueira crepitante e alegre das noites de São João.

 

Loura Nicota, venta muito lá fora; e tu estarás talvez dormindo e tu não sentirás o zum-rum do leste; dormirás no teu leito de alvas cobertas de renda, num quarto arejado, de papel escarlate com estrelinhas douradas, janelas para o nascente, sonhando, quem sabe, este sonho que tem o mesmo ar vago, inconsciente e o mesmo tom indeciso do vento. Sonhavas que eras escrava, pobre loura Nicota, que ias vendida para longe, para além, para onde tu não sabias. Haviam te amarrado os pés para não fugires. Tinhas no rosto um rasgão de sangue; e a tua fina pele delicada e cetinosa doía-se toda naquela crueldade imprudente. E tu gemias e tu choravas e tu suplicavas. Em vão tudo. Iam te levar para lá. Tu não sabias bem onde era lá, mas ias. O teu filho, porque tu tinhas um filho, gritava por ti, soluçava e tinha quase uns magoados e surdos ganidos de cãozinho amado e mimoso que o pé brutal de um estranho fere de rijo na pequenina pata dianteira.

 

E tu eras mãe, tinhas um filho, querias ficar ou levá-lo; mas lá estava o olhar imperioso de um sujeito de cara de pedra impassível e tredo, que te ordenava que seguisses sem ele. Era daí a instantes. Tinhas que embarcar. Lá estava o mar brasileiro, o mar latino a te chamar na coroa espumada das suas ondas onde o sol abria coruscações. Lá estavam as velas enfunadas dos barcos que se meneavam, as saliências rubras das boias, a nuvem branca e macia de algum cano de vapor a sair, os botes com a mastroação armada, de remos nas toleteiras, toda a paisagem marítima, fresca e saudável, desenrolada como um cosmorama diante dos teus olhos pisados do choro.

 

E tu embarcaste.

 

Nisto as névoas do teu sonho se desfizeram como se desfazem as neblinas da manhã destacando o dorso azulado das montanhas, e tu, impressionada, levemente comovida, fizeste-te a honra de chorar uma lagrimazinha, um diamante redondo que te tremia na asa rosada do nariz, como se tu foras a desventurada que, não em sonhos, mas em realidades, alguém houvesse escravizado e enviado a senhor estranho, da outra banda do mar, loura Nicota, fora da terra em que nasceste e na qual tivesses deixado um filho!

 

A Regeneração, no 141, domingo, 3 de julho de 1887

 

 

 

IV

 

À Bilu

 

 

VAMOS NO TREM, Bilu. A locomotiva corta as distâncias, de um fôlego, atravessando o ar cálido dos túneis, subindo e descendo montanhas, na grande coragem de ferro do seu ventre pelo trilho em fora, aos guinchos da máquina que apita e expele ondas de fumaça adiante.

 

No carro em que eu vou, ao meu lado direito, um francezito de cabeça pelintra, louro e moço passeia o seu olhar viajado e latino pela fremente natureza que acordara com o dia.

 

As janelas do wagon estão abertas. Veem-se extensões de terreno agricultado, terras aradeadas e lavrados, pastagens, gado que muge, pinheirais imensos, um mar tremulante e verde de canas, despenhadeiros, grotas onde a água cai cascateando branca e cristalina, cumes de serras altas onde os ventos afiam, povoados, casarias brancas alinhando ao alto das encostas, rindo na luz clara da manhã, um idílio fresco de mulheres, de raparigas novas que levam cabras ao monte, cantando, todo um bucolismo e um lirismo campestre que o largo concerto Wagneriano da floresta enche dos pomposos sons metálicos das aves, que estridulam notas no espaço, voando.

 

O francezito louro, duma aparência fina de duque, com toilete leve de verão, assesta repetidas vezes o seu lorgnon para fora, para as amplidões de verdura e particularmente para mim.

 

Eu indago de mim mesmo o que será. Ele retorna a acertar-me o vidro redondo, sem aro, apenas com uma pequenina argola de metal de onde pende uma delgada fita preta. Há uma atmosfera de curiosidade. Os viajantes interrogam-se com o olhar despindo os guarda-pós pela razão da calma que já vai no dia, um forte dia de verão. Mas o francezito não se pode conter e olha desta vez para mim num seigneur de admiração e de surpresa.

 

Eu não dou cavaco e faço não entender. Ele então levanta-se do seu posto, vem a mim e pergunta-me baixo, mas em louvável português, apontando para um vasto terreno onde uns homens negros, mais de cem, trabalhavam sob a ardente chama do faiscante sol abrasador. O que é aquilo, homens negros, trabalhando assim, ao sol, quase nus! Oh! São escravos brasileiros, respondi-lhe eu no mesmo tom. Então os brasileiros são escravos!... Eu disse-lhe que sim. Falei-lhe da França, mostrei-lhe os seus homens, Thiers, Gambetta, Michelet, os grandes patriotas, os belos corações do amor da igualitaridade humana. Toquei-lhe em Girardin. Teve uma comoçãozita nervosa. Riu-se. Disse mesmo, Girardin é o Jornal, é o princípio, é a doutrina. Falei-lhe de Zola, de Goncourt, de Daudet, de Maupassant, de Mendes, de Richepin, de Rollinat.

 

Falei-lhe da Inglaterra. Olhando-me e disse: da Inglaterra só o sportman e o punch, não o jornal, acrescentou com espírito, mas o punch feito com rum e conhaque, chamejante, de vivas chamas azuis e amarelas.

 

Compreendi. Mas ele voltou-me aos homens negros que trabalhavam.

 

Eu então expliquei-lhe que eram escravos no eito, trabalhando sem cessar, desde o romper da aurora até a noite, quase nus vivendo em senzalas, buracos escuros e subterrâneos onde não há ar e onde uma eterna umidade de terrenos palustres põe nos pulmões a mordente tarântula da tísica. Expliquei-lhe mais que não havia nas fazendas, como se chamavam os centros em que residem escravos, ordem de doenças, de agonias, de prazeres, de entusiasmos. Aqueles indivíduos cor de treva eram maquinados, dizia eu; tinham um cordel nos olhos, outro na boca, outro na cabeça, outro nas pernas, outro nas mãos. Quando o feitor queria que eles rissem puxava um cordel, quando queria que chorassem puxava outro, quando queria que pensassem puxava outro, quando queria que andassem puxava outro, quando queria que falassem puxava outro.

 

O francezito ria devagar e entredentes.

 

Depois, senhor, explicava-lhe ainda eu, não têm vontade própria par coisa alguma, comem os restos mal cheirosos de comidas de muitos dias, são separados brutalmente, os filhos de suas mães, as mães de seus filhos e quando alguém intercede piedosamente por eles, há um personagem notável, Sua Majestade o feitor, que os amarra a troncos de árvores e lhe abre as carnes, a chicote, em fundas chagas de sangue.

 

E o francezito ria. E perguntava, de olhar aceso e indagador, com um sarcasmo agudo na ponta do nariz de celta: E a polícia? Eu ria-me também, dizendo-lhe: Mas isso é lei, é muito legal tudo quanto explico ao senhor; pois se os donos de escravos têm até direito de propriedade! Eles compraram a mercadoria, compraram a carne, podem fazê-la apodrecer nas senzalas.

 

Nisto anuncia-se a estação a que eu me destinava e tive de separar-me do amável francês que ficou no trem; ia desembarcar mais adiante.

 

Porém ainda hoje, prezada Bilu, parece-me ver o francezito de cabeça pelintra, louro e moço, o francezito chamado Ideal pátrio, rir muito, rir ironicamente do país da luzida pessoa do D. Pedro II, assestando o seu pedaço de vidro redondo, na noite, numa careta diabólica, para os homens negros escravizados à vergonha da História.

 

A Regeneração, no 144, Desterro, quinta-feira, 7 de julho de 1887.

 

 

 

V


À Santa

 

 

Nós, ADORADA SANTA, tu e eu somos, livres, escravizados apenas pelo amor. Bom é agora, neste caso, que eu te conte umas coisas bonitas sobre liberdade e sobre escravidão. Escuta.

 

O nazareno Jesus, de maneiras singelas e cândidas, de voz persuasiva e penetrante, de palavra fácil e clara como a luz, representa o poderoso e grande principio da moral dos povos. A sua vida, urna de piedade, de simplicidade e de amor, será, pelos tempos em fora, a filosofia abençoada da humanidade. Ele veio da Galileia, veio do povo hebreu, cheio de mistérios sagrados. O divino operário, o filho humilíssimo e calmo do carpinteiro José, tinha ao redor de si uma atmosfera de honestidade e de paz.

 

Os fracos, os pequenos, os tristes, os sofredores, os lacrimosos, todos ele cobria e aquecia do frio da desolação com o seu olhar bom como a sua doutrina, doce como o seu rosto e como os seus cabelos encrespados e lindos.

 

Deixai vir a mim os pequenos, dizia ele. E as crianças dóceis e pobres aproximavam-se risonhas desse Cristo que era a esperança, que era a caridade, que era a crença e que era a fé.

 

Nunca fora sonhado outro céu mais largo e mais puro do que a alma cristã do Messias cuja vinda a profecia anunciara, pela voz dos sábios do Oriente, em letras de verdade e de luz.

 

Desde a Caldeia até a Síria a sua fama e o ar brando e simpático do seu tipo, ressoavam, casta e sonorosamente, como uma música vinda dos astros; alastravam-se nos corações como eternos rosais que o sol fecunda e faz vigorizar. Cristo! Cristo! Cristo! Jesus! Jesus! Jesus! Assim iam de boca em boca estas sílabas, como preces, como ladainhas católico-romanas.

 

Quando ele aparecia era como uma aurora iluminando tudo. Abriam-se os casais e as almas para recebê-lo como para receber o dia. Paravam as gentes nas estradas, os betânios, os de Jaffa, para vê-lo de perto e para ouvi-lo falar; ou sentavam-se junto às piscinas, ou debaixo dos sicômoros, ou à sombra das palmeiras deliciados pela sua frase nua e tosca onde havia tanta unção do bem, tanta humanidade, tanta fraternidade e grandeza.

 

E o Cristo tinha sempre diante de si, dos seus olhos meigos e ternos que sabiam ver longe e fundo, a humanidade triste e paciente que sofria e chorava na obscuridade da noite, lá, quem sabe onde, muito além, na pátria da miséria, longe da vida e bem perto da morte.

 

E ninguém diga que ele foi um revolucionário.

 

Ele foi um revolucionário se acaso o sol com a sua viva claridade pode fazer revolução nos vegetais. Não! Ele não foi petroleiro, não foi incendiário; transformava mas não revoltava. Como pensador, pensava; como pastor de almas, apascentava o seu rebanho.

 

Jesus era escravo do seu ideal, era escravo da sua religião, da sua igreja, do seu apostolado, da humanidade enfim; mas Jesus amava e queria, pelo amor, a liberdade dessa própria humanidade.

 

Uma bela mulher morena e pecadora lhe acendera uma chama tão veemente e tão nobre que Jesus se considerava um Deus, tanta era a altura do afeto que o santificava todo.

 

Jesus, escravo, queria ser livre também para o amor como a outra gente; queria amar muito, amar sempre, amar na eternidade; porque Jesus, como Deus, tinha essas consoladoras palavras, falava em eternidade, falava em céu. Queria a vida eterna e a alma imortal.

 

Madalena, que outra não era a sua amada, tinha pelo nazareno muito respeito e muita adoração. O amor entre eles dois era a liberdade. Mas a Judeia era a escravidão, a escravidão de princípio de doutrina, de uma certa ordem de ideias práticas e puras da vida e que Jesus apregoava, esclarecia e exemplificava com as suas parábolas e com as suas prédicas.

 

Por isso a Judeia crucificou Jesus e por isso Jesus não fecundou o ser de Madalena; de sorte que não ficou sobre a terra homem nenhum tão profundamente e tão santamente imaculado e sereno como ele.

 

E essa mesma lenda da ressurreição que a Bíblia conta e que só poderia ser feita por filósofos evangelistas embriagados pelos eflúvios transcendentais do cristianismo, tal é o seu alcance, a sua natureza racional, nada mais que dizer senão que aquele que adora, protege e combate a liberdade, triunfa e ressuscita até da morte que é a única escravidão eterna, onde habita o verme; porque, se não ressuscita em matéria, ressuscita em espírito no coração de todas as eras.

 

Eis pois, aí tens, Santa, oh doce filha do meu amor, o que é liberdade e o que é escravidão!

 

A Regeneração, n° 146, Desterro, sábado, 9 de julho de 1887.

 

 

VI


À Bibi

 

 

A BIBI FOI CRIADA desde pequenina com a sua escrava Maria. Maria é uma crioula muito viva, de olhos rasgados, raiados de sangue, acusando temperamento ardente e tresloucado. Nunca Bibi deixara Maria. Eram os “irmãos siameses”, costumava a afirmar com autoridade o senhor, o Castro, advogado, quando voltava dos clientes para a família.

 

Bibi era uma raparigota faísca, barulhenta, mexendo em tudo, algazarrenta, trepando aos etagères para brincar com os copos limpos e arrumados ali, derrubando de sobre o gueridon o elegante álbum de couro da Rússia com fecho de metal branco, alvoroçando as aves domésticas no quintal, amarrotando e quizilando as visitas com implicância, com ditos com esquisitas comparações desastrosas. Porque afinal os pais faziam-lhe a vontade, deixavam-lhe o gênio à rédea solta, não lhe ralhavam, não viam aquilo. Demais, Bibi era o mimo da casa, a filha única, não queriam contrariá-la, coitadinha; também, era uma criança, diziam, tinha tanta graça.

 

E Maria e Bibi completavam-se. Nunca se via uma sem a outra.

 

Influenciada por Maria, Bibi fazia tudo. Maria mandava-a tirar às escondidas da sinhá velha um torrão de açúcar, Bibi tirava; Maria mandava tirar uma ave qualquer do quintal para fazer com as meninas da vizinhança um festejo de bonecas, Bibi tirava; Maria mandava tirar um vintém ou dois ou três ou quatro ou cinco, do resto das compras do dia, de sobre a mesa da sala de jantar, Bibi tirava. Ambas inclinadas ao mal desenvolviam-se no mesmo meio como uma planta enxertada na outra. E Bibi tornava-se imprudente, de maus costumes, mentirosa e vingativa. Maria era a causa, Bibi o efeito.

 

Bibi ia fazer quinze anos. Tinha todos os predicados complementares da feminil idade verde: a excessiva vaidade, o amor pelos galanteios, o romantismo dos recitativos langorosos e sem metro acompanhados ao piano numa melopeia monótona e esfalfada, os passeios ao luar calmo e voluptuoso de tranças soltas pelas espáduas; os espetáculos de dramas sinistros, impossíveis, os bailes, os romances manhosos e desenxabidos de causar nevroses, vertigens, febres, um poucochinho de spleen pela virtude e de nostalgia pelo vício.

 

Pelas quinze primaveras de Bibi, dançara-se muito, fizera-se estilo palaciano nas salas do Castro. Ele e a mulher tinham o coração transbordando de entusiasmos paternos pela filha, como os convivas tinham as taças transbordando de champagne rosé e de chambertue, nos hips e nos hurrahs.

 

E as luzes das serpentinas crivando prismas faiscantes nos pingentes que tilintavam com o ruído das valsas dulçorosas que faziam palpitar os seios e gemer as sedas, descreviam hieróglifos de sonhos confusos, cheios de névoas, como castelos no ar, nas imaginações picadas de vinho e atordoadas naquela quente temperatura coreográfica.

 

Um dia Bibi teve um namorado. Soube-se que era pobre, os pais não queriam. A gente de Bibi também não é rica; mas afetava de modo luzente discreto. Pobre de Bibi.

 

Que de choros, de agoniazinhas, de raivas naquela natureza fremente desregrada... Que bater de pé!

 

Mas Bibi não perdera todos os recursos, tinha a sua íntima, a sua Maria. Foi a ela, aconselhar-se com ela, abriu-se, disse-lhe tudo. Maria ouvia Bibi, reluzindo toda no ônix de sua cor.

 

Deu-lhe planos, conselhos, ensinou-a em coisas que sabia, de muito efeito.

 

Disse-lhe que escrevesse que ela levaria a carta e traria alguma que ele tivesse. Ficaram nisto.

 

Passados tempos soube-se que Bibi fugira com um palhaço e que Maria dissera ao vê-la partir:

 

— Tenho saudades dela mas não perdi o negócio. O meu plano valeu-me cinco notas de dez tostões, novinhas em folha. Muito bom aquele seu Chico palhaço!

 

Este interessante caso da outra Bibi de teu nome fez-me despertar no cérebro a ideia de que todas as Bibis como tu, criadas desde a infância com alguma escrava Maria, recebem os costumes e os instintos maus dessa própria Maria; porque o elemento escravo, pernicioso e fatal como é, contagia de vícios a família brasileira da qual tu, meiguíssima, boa e excepcional Bibi, puramente descendes.

 

A Regeneração, no 150, Desterro, quinta-feira, 14 de julho de 1887.

 

 

 

VII


À Neném

 

 

HOJE É DOMINGO, Neném. Celebra-se a Semana Santa.

 

Estamos na Ressurreição.

 

São cinco horas da manhã.

 

Na rua, há ainda um ar vago de alvorada que põe uma guipure de névoa nos aspectos variados da natureza.

 

Entremos na igreja.

 

Na igreja, há também o mesmo ar vago trazido pela larga e polida vidraçaria do templo que se conserva aberta; ar com tudo menos vago talvez pela razão dos lustres acesos e da gala sagrada que enche de resplandecimentos e solenidades toda a extensa nave onde os fiéis rumorejam num crescendo de mar tormentoso e cavado.

 

O altar-mor está vistosamente ornado, rutilante, cheio de flores colocadas em jarros dourados, rodeado de grandes tocheiros que faíscam e reluzem com as suas chamas ensanguentadas e amarelas.

 

Lá em cima, até onde os olhos sobem mais, num trono de luzes, entre uma pesada cortina escarlate caída em pregas longas e fundas, vê-se o Cristo, ressuscitado e chagado, tendo numa das mãos um ramo verde.

 

Nos altares laterais, os santos parecem ainda possuir a auréola triunfal de aleluia de ontem e sorriem seraficamente, meigos, tanto os mártires como os gloriosos.

 

Pelo teto abobadado, como convém às construções de certos edifícios em consequência da acústica, da repercusão dos sons entre as harmonias melífluas, sentimentosas, ternas e docemente melancólicas dos violoncelos e das rabecas, das flautas e do harmonicorde que chora, pianíssimo, na majestade sagrada das suas notas, ecoam sonoramente as vozes que vêm do coro, beatíficas e sérias, entoando-o Kirie eleison, num misticismo de bandolins empíricos cujas cordas flébeis os ventos celestes fazem gemer e soluçar tremulante.

 

Os sacerdotes festivamente paramentados, com as suas capas lustrosas e relampejantes, verdes, encarnadas, brancas e roxas, bordadas a flores de ouro, de estolas pendidas no braço, ou com as suas sobrepelizes alvas e rendadas destacando forte na batina preta, curvam-se em genuflexões religiosas diante do altar-mor e, levantando-se depois com mesuras suaves e medidas, lê um deles a “sacra”, em voz pouco alta: In principio erat verbo et verbo, etc., enquanto os acólitos, em linha e reverentes, agitam, fazem balançar cadenciada e ritmadamente os lavrados turíbulos de prata donde partem brancas e leves espirais de incenso.

 

E o cerimonial prossegue com toda a minudência escrupulosa do rito romano.

 

Mas a minha atenção prende-se agora a um vulto feminino ajoelhado para lá do cruzeiro.

 

Olha, não estás vendo Neném aquela senhora idosa, de cabelo repartido em bandós, de vestido preto e de amplo mantelete de vidrilhos, ali perto da capela do santíssimo?

 

Bem que tu a conheces!

 

Repara bem como ela reza com devoção.

 

O longo rosário de padre-nossos e de ave-marias pende-lhe das mãos engelhadas e trêmulas que o reviram sempre de um lado para outro enquanto os seus lábios frouxos e desmaiados balbuciam com furor histérico intermináveis orações que falam de amor divino, da tentação da carne, do inferno e da glória eterna.

 

Em cada ruga profunda do seu rosto há um mistério, talvez um remorso, um crime talvez.

 

Ela mal pode ter-se de joelhos, as pernas fraqueiam-se-lhe, o seu tronco curva-se e curva-se mais como se se quisesse dobrar e partir; e no entanto essa senhora reza sempre, sem levantar os olhos para ninguém, nem para os santos, preocupada no seu mister beato e salvador, apenas olhando obliquamente, de soslaio, como uma pessoa vesga, de modo invejoso e cruel, para algum chapéu Pierrete, de rosas e clematites, colocado vitoriosamente, com um atrevimento e uma brejeirice e petulância chic, na cabeça grácil de alguma mulher bela e nova.

 

Oh! essa velha tem uma história lúgubre, Neném.

 

Ali onde a vês já está sem dúvida com cinco comunhões e seis confissões.

 

Vem todos os dias às igreja, muito cedo; às vezes ainda há crepúsculo matutino, confessar-se pelos seus grandes pecados e obter a absolvição e as indulgências do senhor padre.

 

Ah! ele que a confessa não tem culpa, não.

 

Não tem porque conhece certamente, embora o fumo espesso da teologia lhe tirasse ao espírito certa lucidez filosófica mais necessária, ele conhece como é feita toda essa manobra da religião, não a religião alegre, piedosa e consoladora do Cristo que eu e tu adoramos, Neném, mas a triste e pervertente religião hipócrita dos homens.

 

Neném, tu és uma moça de espírito, tocas muito bem Schubert e Verdi, tens uma paixão artística pelo “sento una forza indômita” do Guarani e pelos musicais esplendores gregos da Aída; teu pai, um capitalista grave e lord, de cheques ao portador, parecido com um certo nobre de teatro, educou-te muitíssimo bem, com capricho e dedicação mesmo; fez-te aprender o francês, o inglês, pôs às tuas ordens um magnífico professor de música vocal, mandou-te ensinar um pouco de geografia física, de geografia matemática, de geografia política e de história e creio mesmo

 

que até chegou a conseguir que tu folheasses com atenção, por muitas vezes, um tratado de fisiologia e de patologia, porque o teu belo pai tinha um orgulho e um desejo extravagante e clássico de te fazer médica.

 

Até mesmo me afirmaram que certos folhetins que os periódicos literários publicam são escritos por ti, como “As borboletas”, “Os ninhos de colibris”, “Os querubins do lar”, etc. com a maneira gentil de Valentina de Lucena, de Guiomar Torresão, de Júlia da Costa e sobre o pseudônimo esbelto e aristocrático de — Rosalina do Val.

 

Portanto, educada assim como és, inteligente e ponderosa, hás de saber por certo o que é um caso patológico.

 

Sabes, não é?

 

Pois essa velha é isso, é um caso patológico terrível que ainda o mais sábio homem de ciência não poderá estudar facilmente.

 

Essa velha tem a nevrose da maldade.

 

Ela é devota assim como tu vês, não é verdade?...

 

Mas se tu a visses em casa!

 

Em casa ela muda de figura, transforma-se, não é aquela que lá está, não é a mesma.

 

Todo aquele aparato de beatice, some-se como numa mágica, pelo alçapão do cálculo e do interesse egoísta e fica só em cena, no tablado da sala, da varanda ou da cozinha, uma mulherzinha pantérica, sinistra e fatal que não é mais trêmula como a outra nem mais curvada também; mas uma mulher que se impertiga, que anda rápida e desembaraçada, falando forte, de relâmpagos na voz e com um olhar onde há o sangue dessorado e venenosa de muita raiva concentrada e de muita inveja dos outros.

 

Essa velha possui escravos que castiga atrozmente, de uma maneira desumana e brutal.

 

E quando volta da igreja, com o ar ressabiado e hostil por ter ouvido repreensões ásperas do confessor que a conhece e que não lhe permite fazer todas as maldades e barbaridades que ela quer, a velha, despeitada por ele não estar sempre do seu lado, a seu favor naquele modo de vida, de mulher irascível e má, chama uma pobre escrava doente e encanecida pela idade e pelos sofrimentos e dá-lhe pela cara com um vergalho de couro molhado e passado em areia ou chega-lhe aos seios e às pernas um pedaço de lenha ardente em brasa, dizendo-lhe entre um riso satânico e feroz: Anda negrinha, pula agora aí e lembra-te do pai Antônio que não te quis; também o padre não me quer mais a mim.

 

A Regeneração, n° 162, Desterro, quinta-feira, 28 de julho de 1887.

 

 

VIII

 

Zezé

 

 

NESTE MOMENTO ZEZÉ, tenho sobre a mesa de escrita, diante dos olhos, um pequeno folheto cuja capa da frente forma o desenho sereno de uma nuvem prateada no meio da qual um bando alegre de serafins celestes, de crianças louras e rechonchudas voa com as suas asas rosadas, suspendendo no ar uma fita azul-claro que diz — Lisboa-Creche.

 

Lisboa-Creche é um jornal-miniatura, galantezinho, leve e acariciador como um ninho de ave, onde uma turba luminosa de indivíduos que escrevem deixou toda a cintilação de seu espírito doce e cantante como uma revoada zumbente de abelhas douradas.

 

Esmaltam a Creche, além dos escritos mignons, graciosíssimas aquarelistas, espécie de cromos encantadores, das quais ressalta a Tarantella, interessante dança de costumes napolitanos, meridional e vibrante, ruidosa de primor e de graça, pintada com muito chic pelo pincel elegante e radioso de Bordallo Pinheiro, cheia de um sol de talento artístico como de um sol dos trópicos.

 

E para que se fez esse jornal miniatura?

 

Eu te digo.

 

Um dia, em Portugal, lá onde canta a cotovia “tão límpido, tão alto que parece que é a estrela no céu que está cantando” uma rainha amável e pia como o seu nome deu-se ao bom humor, lembrou-se de descer simpaticamente até ao povo e abriu os seus braços fidalgos às crianças sem asilo e sem pão.

 

Porém, tantas e tão pobres eram elas que não bastariam por certo o socorro e o amparo de uma rainha. Conquanto benévola e poderosa fosse, porque essa rainha não sustentaria, ela só, nos seus ombros débeis e delicados, o peso de tanta desventura e tanta necessidade juntas.

 

Então agruparam-se em redor dela os artistas, os escritores, os poetas — todos eles floridos e frementes de ideias — contentes e gloriosos como se fossem desenterrar de cova do passado, com a enxada da fantasia, todas as lembranças queridas e saudosas da sua infância.

 

E daí nasceu, como homenagem à ideia da rainha, o Lisboa-Creche.

 

Bem vês, Zezé, que a intenção, que a razão principal desse jornalzinho não pode ser mais pura; é tão pura, tão casta e tão cândida mesmo [como] uma magnólia aberta, orvalhada ao luar.

 

Ocorre-me isto à memória, apraz-me narrar-te, conversar amigavelmente e fraternalmente contigo estas coisas, porque sei que também tens um coração generoso como a rainha.

 

Tens sim.

 

E para prova disso, basta olhar para as lindas chinelas de lã, bordadas a missanga, que tu trabalhas com tanto gosto e orgulho.

 

As tuas mãos giram e tornam a girar o tapete de um para outro lado, esse tapete por hora tosco e simples, mas que há de ficar estrelado daqui a pouco dos fulguramentos da tua habilidade.

 

Os fios de lã caem de entre os teus dedos, flexivelmente, como fios de luz, enquanto o retrós colorido e fino, com tons de íris etéreo, confunde-se em meadas, cujo segredo da ponta só tu conheces, dentro da tua cesta de vime.

 

E para que fazes isso, Zezé?

 

Tu mesma nada me dirás, nada me responderás, nada me contará a tua boca, porque desejas conservar mistério nessas chinelas até um certo tempo, até ao dia em que elas tiverem de levar o destino que tu imaginas e queres; mas, não obstante essa tua persistência em nada me revelares, eu sei de boa fonte, de fonte bem cristalina, sei do teu próprio coração que não mente nunca nem engana a ninguém, que tu caprichas nesse objeto porque tencionas dá-lo ao bazar a favor dos escravos e lá deve haver com certeza ricos objetos aprimorados, muito preciosos e muito lindos com os quais esse não poderia naturalmente competir jamais, se não fosse, como está sendo, trabalhado caprichosamente.

 

A Regeneração, no 193, Desterro, sábado, 3 de setembro de 1887.

 

 

 

 

FIM