LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Xavier dormindo e Xavier acordado, do Padre Antônio Vieira


Edição referência:

Sermões, Padre Antônio Vieira. Vol. IX. Erechim: Edelbra, 1998

 

 

XAVIER DORMINDO E XAVIER ACORDADO

 

 

DORMINDO,

 

 

Em três orações panegíricas no tríduo da sua festa,

 

 

Dedicadas aos três príncipes que a Rainha Nossa Senhora confessa dever à intercessão do mesmo santo,

 

 

ACORDADO,

 

 

Em doze sermões panegíricos, morais e ascéticos, os nove da sua novena, o décimo da sua canonização, o undécimo do seu dia, o último do seu patrocínio,

 

 

AUTOR O PADRE

 

ANTÔNIO VIEIRA

 

 

Da Companhia de Jesus, pregador da Sua Majestade

 

 

SENHORA

 

 

Foi V. Majestade servida mandar-me significasse ao Padre Antônio Vieira o desejo que tinha de ver elogiado por sua mão, em algum dos tomos dos seus Sermões, ao grande apóstolo do Oriente, S. Francisco de Xavier Foi acertada, como em tudo, a eleição de V. Majestade, porque se só Apeles com o pincel pudera retratar dignamente a Xavier, com a pena só pode descrever a Xavier dignamente o Padre Antônio Vieira. Obedecemos ambos, eu avisando, ele obrando, que para o Padre Antônio Vieira é preceito qualquer significação e mínimo aceno da vontade e gosto de V. Majestade. E ainda que houve demora na execução, originada dos anos de seus achaques, ou dos achaques de seus anos, recompensou o Autor a dilação com o número, pois quando a devoção de V. Majestade se contentava só com um sermão, a sua pena sempre fecunda, e fecunda para os obséquios de seus reis, não se deu por contente com menos de quinze: multiplicou sem dúvida os elogios, para dar a V. Majestade a Xavier multiplicado, ou multiplicado gosto na lição dos louvores de Xavier Como eu fui o internúncio da vontade de V. Majestade, quis o mesmo Autor que fosse eu também o que apresentasse a sua obra nas reais mãos de V. Majestade, para que não só pelo sujeito que a compôs, senão também pelo sujeito que a oferece, que é o Procurador-Geral da Província do Brasil, conste a V. Majestade que a Companhia, espalhada por aqueles matos, não é menos pronta para o serviço de V. Majestade do que e a Companhia junta nesta corte, e que ainda que tem a V. Majestade ausente de seus olhos, tem a V. Majestade muito presente em seus afetos. Pelo menos terá Portugal sempre que invejar esta glória ao Brasil, que entre os engenhos, com que se enriquece, tenha um tanto do gosto e agrado de V. Majestade, que não fazendo caso dos mais, só os frutos deste solicita.

 

Receba, pois, V. Majestade ao seu Xavier, já dormindo, já acordado, já sonhando, já vigiando, mas, ou vigiando ou sonhando, ou acordado ou dormindo, todo sempre seu, porque V. Majestade é toda sempre sua, com tão nova e admirável transmigração da alma de Xavier em V. Majestade, e da alma de V. Majestade em Xavier, que até a mesma confusão dos nomes faz duvidar aos que ouvem nomear a Xavier, se exprime este nome ao apóstolo do Oriente, se a Rainha de Portugal. O certo é que as mesmas espécies excitam mutuamente a memória de ambos os nomes, com conexão tão infalível, que já ninguém se pode lembrar de V. Majestade, que se não lembre juntamente de Xavier Daqui nasceu que, querendo, não há muitos meses, a mão pública de uni tabelião escrever o argutíssimo nome de V. Majestade, com erro ditoso, e agradável, em lugar de Isabel pôs Xavier Perigaria certamente na estimação dos vindouros a fé deste Instrumento público, se não constara ao mundo todo a amorosa transformação de V. Majestade em Xavier que não deixará duvidar em algum tempo ser a mesma, e não outra, Maria Sofia Isabel, e Maria Sofia Xavier, pois quis V. Majestade lhe ficasse confirmado, por escritura pública, o nome já dantes usurpado com todo o direito e legítima posse de usucapião, e não contra vontade de seu antigo possuidor.

 

Mas não se contenta V. Majestade com a glória de tão ilustre nome: também o enche com a semelhança de condignas ações. Assim o prova a imagem de Xavier, que entre outras, sagradas todas, como sol entre planetas, doura e esmalta os braceletes de V. Majestade, que, não satisfeita de o ter esculpido em seu coração, à imitação da Esposa, o imprimiu em seu braço, ou como sinete, e nota de seu amor ou como caráter indelével, donde se deriva não sei que força superior e celestial, a todas as ações de V. Majestade. Ninguém pode duvidar que Xavier obra do nome e no braço de V. Majestade, ou que V. Majestade obra com o braço e com o nome de Xavier E donde podem nascer aqueles exercícios heróicos da mais per feita caridade, em que V. Majestade exercita suas reais mãos, todas as vezes — que são muitas — que socorre compassiva as misérias alheias, senão do seu divino sobrenome Xavier; ou de Xavier; que é o seu sobrenome, de cujo exemplo aprendeu V. Majestade quando estima Deus os benefícios feitos aos miseráveis. Diga a Real Família de V. Majestade, quantas vezes a viu recolher no interior de seu palácio os pobres mais desamparados e desconhecidos, e assistir-lhes como ama cuidadosa, ou amorosa Mãe, lavando-os, temperando, e metendo-lhes na boca o comer com suas próprias mãos, com tal gosto interior da alma, e tal alegria exterior de rosto, que não podia dissimular as delícias em que se via. Efeitos são estes daquele sinete xaveriano, que impresso dentro no coração abre a V. Majestade as entranhas de caridade, e por fora, aplicado ao braço, estende suas reais mãos para socorro dos necessitados.

 

Nem só aprendeu V. Majestade do seu Xavier socorrer aos corpos, senão principalmente às almas. Que ocasião houve em algum tempo, e em algum lugar, ou de escândalo, ou de outra qualquer ofensa de Deus, que V. Majestade com todas suas forças não procurasse logo arrancar e extirpar totalmente, incitando-a o desejo da salvação das almas, que em tudo faz a V. Majestade semelhante ao seu amado Xavier? Não digo mais nesta matéria por não ofender a modéstia de V. Majestade, pois conheço, quer V. Majestade mais obrar o que é digno de louvor, do que ouvir louvado o que obra, ainda que, calando eu, falarão certamente as paredes e recâmaras de palácio, sabedoras da caridade de V. Majestade.

 

Que direi agora do culto tão vário e multiplicado de V. Majestade para com Xavier? Em nenhuma coisa se mostra mais engenhoso o amor de V. Majestade, que nas novas traças que inventa para o venerar Não consentiu a imensa distância de terras e mares que V. Majestade se presenteasse a seu sepulcro real peregrina, ainda que o deseja com tanta ânsia, que, se lhe fora lícito, o fizera, ainda com perigo de vida; mas donde não pode chegar o corpo chegou a real munificência de V. Majestade, mandando ao seu Xavier, por prenda de seu amor, riquíssimas vestes sacerdotais, com as quais ainda agora vivo, depois de morto se vestisse mais augustamente, como triunfador das leis da morte, por incorrupto, vestes, digo sacerdotais, brancas como a confessor, bordadas de vermelho, como a mártir do amor; e, para que não faltassem nelas símbolos do fervor e afeto puro de V. Majestade, resplandecentes com o Jogo do ouro e com a neve das pérolas. Não bastou isto a um amor que não sabe dizer basta: competidora V. Majestade ao príncipe Jônatas, se despiu de seus reais vestidos, para vestir com eles, nos templos e nos altares, ao seu querido Davi. Creio que naquele dia se mostrou Xavier ornado desta gala a toda a corte do céu, sagradamente vaidoso, dizendo de V. Majestade a todos os santos o que Cristo antigamente disse aos anjos todos de Martinho: His me vestibus cliens mea Lusitaniae Regina contexit[1]. — E para que V. Majestade não só vestisse ao seu santo de várias cores, senão também se vestisse a si com as cores do seu santo, sabemos se obrigou com voto de não admitir; por espaço de um ano, nas sedas que traja, outra cor alguma, mais que aquela com que o sol do Oriente, enquanto padeceu o eclipse do corpo mortal, mortificou e ocultou os raios de suas virtudes, para se acomodar à tristeza desta miserável vida, consentindo só de mistura a cor branca, como claro sinal da sua alma virginal de Xavier e de V. Majestade.

 

Conte já a corte de Lisboa — se pode — as sagradas peregrinações de V. Majestade, com que no discurso e recurso de todos os anos, humilde e devota venera os templos e altares do seu santo. Oh! com quanta suavidade costuma mover à piedade — oxalá movera também à imitação — o ver que uma Rainha, Senhora de todos, não tem por menos autoridade pôr-se no dia de festa deste taumaturgo à Mesa da Sagrada Comunhão, com toda a Casa Real, em templo público, para com este banquete, verdadeiramente real e divino, fazer mais célebre a solenidade do seu santo benfeitor, para ornato de cuja imagem consagra todas suas jóias, como melhores despojos orientais do Apóstolo do Oriente, devendo as jóias, a ventura do lugar, e o artificio do lavor e disposição às reais mãos de V. Majestade. Deixo as dez sextas-feiras, que a devoção de V. Majestade, ou pública ou particular, dedica todos os anos a Xavier, nas quais não sofre V. Majestade falte sua real presença, sem lhe servir de impedimento o que a qualquer outro pudera servir de escusa. Dia houve destes, em que V. Majestade, cansada com o incômodo do caminho e ardor da calma, contradizendo todos, foi assistira seu santo, e na última sexta-feira deste ano presente, terminando V. Majestade a novena no colégio novo de Xavier, o foi também buscar ao de Santo Antão. E quando a ausência da cidade ou os achaques não permitiam alguma vez esta piedade pública, V. Majestade recompensou com a particular, de tal sorte que, dentro de seu oratório real, no asseio, no esplendor e no aparato, lucrou com vantagens o culto de Xavier o que se lhe tirava no público.

 

E que direi daquele terníssimo e amorosíssimo afeto, que a todos se descobre, todas as vezes que V. Majestade fala de Xavier? Sabem todos aqueles a quem V. Majestade tem admitido ao soberano favor de mais íntimo trato, quantas vezes, com destreza e suavidade, mete a prática de seu Xavier, ao qual, tanto que nomeia, não só a língua, senão o rosto com as chamas, os olhos com a viveza, o peito com a veemência, o coração com os saltos, falam com tal fervor, que parece o expõe V. Majestade, não tanto aos ouvidos, quanto aos olhos dos que a ouvem, aos quais com amável simpatia, e recíproca comunicação de afetos, faz freqüentemente desatar em copiosas lágrimas. De um destes colóquios, em que eram interlocutores dois religiosos, foi a matéria costumada Xavier, quando V. Majestade, acabando de ler a prodigiosa saúde, que poucos anos há, na Cabeça do Mundo, recebeu em um momento da mão do Taumaturgo do Oriente, Ana Maria Zambrina, matrona romana, cheia de interior gosto e consolação, e desejosa de a comunicar, repetindo, sem enfado, a lição, continuou o milagre do princípio até o fim, por espaço de uma hora inteira, não só sem fastio, mas sem mais pausas, que aquelas que de quando em quando faziam os amorosos suspiros de V. Majestade, que, acendendo os ouvintes no mesmo fogo, escassamente podiam conter as lágrimas. Entendo que esta foi a primeira vez que os seus louvores contentaram à humildade de Xavier, só porque saíam da boca de V. Majestade.

 

Este mesmo amor, com a imposição de nome tão amado, tem V. Majestade instilado, como terníssima mãe, a um e outro filho, nossos Sereníssimos Príncipes, a quem imitam ambos nesta parte com tanta felicidade, que apenas saíram em outra voz, primeiro que soubessem, ainda que com língua balbuciante, chamar, com vulgar antonomásia a Xavier o seu santo, distinguindo já de então sua imagem entre as dos mais, e costumando-se a venerá-la com mil inocentes ósculos. Não falo no cuidado da mais Casa e Família de V. Majestade, que só com a emulação e imitação desta real piedade procura merecer o agrado e favor de sua Senhora. Antes, é já fama constante nesta corte que, para negociar com V. Majestade, não há outro intercessor senão Xavier

 

Um amor tão grande mal podia caber em uma só cidade, já passou além do Tejo, aonde V. Majestade escolheu a de Beja para teatro de sua liberalidade, na qual, movida parte de seu zelo, parte dos piedosos desejos de seus moradores, levanta suntuosa casa à honra do seu santo, edificada e dotada à custa de sua Fazenda Real, para morada daqueles que por obrigação de seu Instituto, e à imitação do grande Apóstolo do Oriente, criem a menoridade nas boas letras e costumes, dirijam a maior no caminho da salvação, e estendam seus gloriosos trabalhos ao vastíssimo campo de Ourique, fértil de lavouras e falto de obreiros, os quais ali, sem o custo de passarem mares, acharão certamente a sua índia. Mas que muito pareça curta ao amor que V. Majestade tem a Xavier uma cidade, quando um reino inteiro lhe parece limitado? Ou que palácio há dos principais da Cristandade, em que V. Majestade —falo com as suas mesmas palavras — não tenha introduzido o nome suave, e poderoso patrocínio deste amável santo? Testemunhas são Viena em Áustria, Madri em Espanha, Varsóvia em Polônia, Parma em Itália, e, finalmente, Alemanha toda, gloriosa e soberba com o berço de V. Majestade, e rica com a numerosa descendência de sua Sereníssima Casa, nas quais todas ateou V. Majestade tal fogo do amor de Xavier, que poucas são as cartas daquelas partes que não venham cheias de seus encômios, escritos por aqueles que agradecem e contam os favores recebidos de sua benéfica mão.

 

V. Majestade é a primeira que com sua confissão, e repetidas experiências, pode e deve testemunhar não ser menor o amor de Xavier para com V. Majestade que o amor de V. Majestade para com Xavier E se os benefícios são a prova mais evidente do amor, tem Xavier feito tantos a V. Majestade, que, se os quisesse contar todos, seria necessário um grande livro. Mas não me consente passar tudo em silêncio o ânimo de V. Majestade, não menos agradecido que devoto, principalmente sendo também glória de Xavier o saber-se que se mostra benfeitor dos que o servem, e retribui os mútuos obséquios com recíprocos beneficios. É, pois, benefício de Xavier o felicíssímo e continuado parto de três filhos varões, assim o confessam, não só eu, e o Reino todo, senão também V. Majestade, que se lembra muito bem do que lhe adivinhou o ânimo, presago do futuro, quando, cheia de fé, entre suavíssimos júbilos de seu coração, recebeu a primeira vez em sua real cabeça o sagrado barrete de Xavier, trazido havia pouco de Goa, porque, lançadas as contas com toda a exação, dali a nove meses saiu V. Majestade a luz com o primeiro e desejado herdeiro desta coroa, confirmando a fé do preságio a infalibilidade do sucesso. É verdade que o Céu, com seu direito, tomou para si estas primícias do real sangue de V. Majestade, mas foi para recompensar a tenra planta, cortada em flor, com novos frutos.

 

Assim foi: sucedeu o segundo, dado por Xavier, seguiu-se o terceiro, devido também a Xavier, por especiais títulos. O dito de V. Majestade é bastante a nos persuadir que o seu santo, com palavra dada lá em oculto, lho prometeu, pois, ainda muito antes de tempo, afirmou, sem sinal de dúvida, que se não haviam de acabar as dez semanas, cujas sextas-feiras, consagradas a Xavier, tinha já principiado a piedade de V. Majestade, sem terceira vez conceber filho. Também o sucesso provou a verdade deste vaticínio, se bem padeceu não pequenas dificuldades, para que ficasse mais patente o autor de tão grande beneficio. Oh! quanto teve de semelhante a prodígio, que, acometida V. Majestade de um repentino sintoma, que ameaçava perigo à mãe e ao filho, se lhe não devessem aplicar remédios humanos! Porque, enquanto disputavam entre si, com pareceres contrários, os mais experimentados médicos, depois de várias consultas, não só de muitas horas, senão de muitos dias, impedidos de força oculta, mas superior, nenhuma coisa souberam nem puderam determinar, para medicina do mal presente. O deixar então remédios cá da terra, se julgou por saudável a mãe e filho, pois lá do céu tratava da cura de ambos o mais sábio e poderoso Macaonte. Desta sorte, livre V. Majestade, por seu celestial salvador, deste, e outros perigos, que ocorreram um dia depois daquele, em que alegre recebeu as graças pela nova fundação do Colégio de Xavier, confirmada já, e estabelecida, também em uma sexta-feira, dia sempre fausto para V. Majestade, nos deu finalmente, com feliz parto, aquele seu Xavier, a quem hoje vemos, com inexplicável gosto nosso, para que pelo dia do nascimento acabasse V. Majestade totalmente de entender que o filho nascido era prêmio indubitável com que Xavier remunerava a liberalidade e munificência de V. Majestade para com ele.

 

Outros muitos semelhantes esperamos lhe há de dar daqui por diante, porque é justo que os seus beneficias continuados correspondam à continuada piedade de V. Majestade, como na verdade correspondem, e se viu manifestamente há pouco tempo, no cuidado singular que teve da vida e saúde de V. Majestade. Verdadeiramente, Senhora, tenho horror de me lembrar daquele tristíssimo tempo, em que éramos obrigados a desconfiar de uma vida que desejávamos imortal, e temer que o céu invejoso nos tirasse cedo o que tarde nos tinha dado. Mas como vemos lançado já fora o medo, nascerem novas esperanças, não só da incolumidade e vida de V. Majestade — que é a honra deste nosso Reino — para compridos anos, senão também de lograr de sua fecund dade hereditária, numerosa posteridade do sangue real, e uma e outra coisa por patrocínio de Xavier, a quem devemos a V. Majestade, ou renascida, ou ressuscitada, mandam-nos os alegres fins, que se seguiram de princípios tão tristes, repetir ações de graças ao seu médico Xavier, e ao céu ofertas vela total convalescência de V. Majestade.

 

Aqui determinava parar com a pena, se a não desafiaram ainda aqueles que, publicando os benefícios de Xavier, apregoam juntamente os de V. Majestade, porque confessam não poucos moradores desta cidade, de um e outro sexo, dever a V. Majestade o acharem no céu a medicina certa de seus males, depois de tentados, mas debalde, os remédios todos da terra. V. Majestade, igualmente desejosa de socorrer aos afligidos, e de aumentar a glória de Xavier, mandando as relíquias sagradas de seu santo aos que estão em mortal perigo, costuma excitar seus ânimos devotos à esperança não duvidosa de seu patrocínio, com tal confiança que merecem receber o fruto desejado do poder de V. Majestade para com Xavier, e da potência de Xavier sobre a morte. Enfim, são já tantas e tão freqüentes as mercês deste taumaturgo, despendidas a V. Majestade e a todos aqueles que V. Majestade tem alistado debaixo da bandeira de seu patrocínio, que, podendo parecer milagres, se foram mais raros, com a freqüência têm perdido a admiração.

 

Acabo — que já é tempo — e quero que esta dedicatória tenha o fim aonde teve o princípio. Receba V. Majestade ao seu Xavier todo seu, porque, assim como V. Majestade se consagra toda ao serviço de Xavier, assim ele se aplica todo aos cômodos de V. Majestade. Há batalha amorosa entre Xavier e V. Majestade: V. Majestade peleja com obséquios, Xavier peleja com beneficios, mas sempre com fortuna próspera de uma e outra parte, assim vencedora como vencida, porque em uma e outra triunfa sempre o amor Este laureado combatente de tal modo acende a guerra e alterna as batalhas entre Xavier e V. Majestade, que ata a V. Majestade a Xavier, e a Xavier a V. Majestade com vínculos indissolúveis no centro do divino Amor, como venturosos prisioneiros.

 

Ultimamente, pagos já, do modo que podemos, os favores que o nosso agradecimento deve a Xavier e deve a V. Majestade, seja V. Majestade servida dar licença à Província Brasílica da Companhia de Jesus para apresentar diante de seu real trono uma pequena petição, e é que, assim como ela, no herdeiro e sucessor da Monarquia portuguesa — o qual o Céu nos guarde por dilatados séculos — com o joelho no chão venera juntamente ao seu Príncipe do Brasil, e agradecida confessa o que deve a Xavier, assim também deva a V. Majestade e ao seu real sangue, nos anos vindouros, contínuos e continuados favores, e uma proteção maternal de sua Rainha e Senhora, para a consecução de cujo despacho nada podia interpor mais poderoso solicitador que este mesmo Xavier, cujo amplíssimo zelo, abraçando igualmente ao Oriente e Ocidente, verdadeiramente dispersit cum sole manus. V. Majestade, imitadora deste zelo, não cesse de fomentar, com os raios de sua benignidade, um e outro termo do mundo, para que um e outro espaçoso campo produza a seara unicamente desejada de Xavier e de V. Majestade, que são tantas almas convertidas e levadas a Deus.

 

 

BALTASAR DUARTE.

 

 

 

NOTICIA PREVIA

 

 

É o oráculo de Cristo, Mestre e Senhor nosso, que o escritor douto da sua Igreja há de ser semelhante ao pai de famílias, que tira do seu tesouro o novo e o velho: Qui profert de thesauro suo nova et vetera (Mt. 13, 53). — O autor deste tomo, que é o undécimo, nem se tem por escritor, posto que escreva, nem por douto, posto que tenha estudado e visto tanto, que o pudera ser. E porque não é tão cego que não veja, como Jeremias, a sua pobreza: Ego vir videns paupertatem meam (Jer. 3, I) — da mesma pobreza, e não do tesouro, que não tem, tirou o novo e o velho, que verá nos quartos de papel que a este se seguem, quem tiver tanta devoção como paciência para os ler. O velho são os três primeiros panegíricos, debaixo do título de Xavier dormindo, que em um tríduo da festa do mesmo santo se haviam de pregar, há mais de quarenta anos, e por doença se não pregaram, sendo ela tão antecipada, que ainda não tinha riscado a pena mais que as primeiras linhas da idéia e divisão dos assuntos. O novo são os outros doze sermões com o título de Xavier acordado, efeito e obediência forçosa, e não forçada, pela significação de um desejo, que dos reis para os vassalos são os mais rigorosos preceitos. Tal é o vestido novo e velho em que São Francisco Xavier, depois de estar glorioso no céu, aparecerá nestas duas estampas, tão pobre e remendado como quando vivia na terra. Nem deve parecer ao leitor escrupuloso, ou crítico, que se viola aqui o documento de Cristo: Nemo immittit commissuram panni rudis in vestimentum vetus (Mt. 9, 16): que se não há de remendar o vestido velho com pano novo — porque na primeira e segunda parte desta escritura tudo é velho sobre velho. A primeira, velha na urdidura, pela antigüidade da idéia, e a segunda mais que velha na tecedura, pela velhice do autor, Se quem ler qualquer delas chegar a outros tantos anos, entenderá a razão que tem agora de não estranhar nem lhe parecerem muitos os erros que descobrir, e lhe dará perdão.

 

 

 

Fr. Tomé da Conceição, Censura do muito R. P M., Religioso de Nossa Senhora do Carmo, Qualificador do Santo Ofício.

 

 

ILUSTRÍSSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR.

 

 

Li este livro, que, com título de Xavier acordado, contém quinze Sermões do segundo Apóstolo do Oriente, São Francisco Xavier, composto pelo Padre Antônio Vieira, da Sagrada e Religiosíssima Companhia de Jesus, Pregador de Sua Majestade, cujo nome é a mais qualificada censura destes sermões, parto todos de seu admirável talento e zeloso espírito, com que, ou pregando, ou escrevendo, entre as delicadezas de seu singular discurso, soube conseguir, a felicidade de granjear os aplausos de todos; nestes quinze sermões têm os devotos de S. Francisco Xavier uma larga mas plausível descrição de todas suas mais heróicas virtudes, discursadas em seu louvor, e encaminhadas à sua devoção e aproveitamento espiritual dos leitores, estilo que este grande pregador usou sempre nos púlpitos, seguindo sempre o conselho de seu patriarca, Santo Inácio, cuja doutrina, recomendada mais particularmente a seus filhos, foi, que tudo o que obrarem seja dirigido à maior glória de Deus, e bem mostra o autor que observa tão santo conselho, pois, tendo granjeado a Deus e aos santos tanta glória nos púlpitos, publicamente diz, na primeira página deste undécimo tomo, que não se tem por escritor, posto que escreva, nem por douto, posto que tenha estudado e visto muito, querendo com a humildade de tão modesta confissão diminuir o preço de seus escritos e compreensão de seus estudos, e assim, lisonjeando por esta vez a sua modéstia, só digo que a licença que se pede para estes sermões saírem à luz por meio da imprensa, se deve aos sermões e a seu autor. Lisboa, no Convento do Carmo, em 20 de fevereiro de 1694.

 

 

Fr. Tomé da Conceição

 

 

Censura do padre doutor Fr. Jerônimo de Santiago, Qualificador do Santo Ofício, e D. Abade de S. Bento da Saúde.

 

 

ILUSTRÍSSIMO SENHOR.

 

 

Por mandado de V. Ilustríssima, li este livro, que com o título de Xavier dormindo e Xavier acordado compôs o Padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus, Pregador de Sua Majestade, e se a censura passara a ser panegírico, eu me não soubera determinar a qual era mais devedor este doutíssimo padre, se à fecundidade de seu admirável talento, se à fortuna de ser filho de tão esclarecida família. Porque, se nesta esclarecida e dilatada família, são tantos os sujeitos insignes quantos são os filhos, porque todos seus filhos são insignes, como da dos Décios disse Cassiodoro: Nescit iode nasci aliquid mediocre, tot probati quot geniti, et quod difficile provenit electa frequentia — a fecundidade de seu talento é tão admirável, tão sublime e tão universal, que sendo tantos os filhos da Companhia que ilustram as ciências em todos os séculos, como se vê do número sem-número de seus escritos, neste nos dá a entender herdou o Padre Antônio Vieira felizmente os talentos de todos: Novissime, diebus istis locutus est nobis in Filio, quem constituit haeredem universorum — Em quinze sermões propõem seu zeloso espírito e seu sutilíssimo engenho o segundo apóstolo do Oriente, São Francisco Xavier, dormindo e acordado, e com tão sólida doutrina, e com tão agudos conceitos, e com tão seleto e sentencioso estilo, discursa este insigne orador os sonhos e cuidados do glorioso apóstolo, que bem mostra saber nas matérias da prédica mais dormindo que todos os mais acordados, pelo que se lhe devem maiores aplausos que censuras. Este é o meu parecer. São Bento da Saúde, em 23 de abril de 1694.

 

 

O Doutor Fr Jerônimo de San-Tiago.

 

 

 

Censura do ilustríssimo e R. D. Fr Timóteo do Sacramento, Bispo de S. Tomé, Religioso de S. Paulo, Primeiro Eremita.

 

 

 

SENHOR.

 

 

 

Escrevendo S. Paulino as proezas do grande Teodósio, a censura do Doutor Máximo, S. Jerônimo, foi repetir em um poema o que a outro intento disse Sêneca: Felix qui a tali oratore laudatur[2] — O livro das proezas de Teodósio, sendo grande, é maior pela opinião do escritor. O das excelências de Xavier dormindo e Xavier acordado, que V. Majestade me manda censurar, é tão qualificado em todo o orbe, que os séculos presentes confessam não haver segundo, e os futuros o admirarão sem primeiro. E assim do escritor tão relevante, ainda que por tal se não confesse, digo o que o Doutor Máximo de S. Paulino, quando escreveu as proezas de Teodósio: Felix qui a tali oratore laudatur O livro intitulado Xavier dormindo e Xavier acordado, sendo grande pelas excelências do Apóstolo do Oriente, o faz maior a reputação do autor que o escreve. É o autor o muito Reverendo Padre Mestre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus, e, constando o livro de quinze sermões, não sei qual seja melhor caminho para uma alma gozar a Deus: se o da escada de Jacó, tendo quinze degraus, ou se o deste livro, contendo quinze sermões; o certo é que, sendo a escada de Jacó um plano caminho para o céu, pela escada — exceto os anjos — ainda o mesmo Jacó não deu um passo, ou estivesse acordado ou dormindo. E que pelo deste livro deram muitos, ainda gravíssimos pecadores, que buscaram a Xavier dormindo ou acordado. Pelo que me parece o livro utilíssimo para o bem das almas e para a dilatação das coroas. Isto é o que sinto. V. Majestade mandará o que for servido. Convento dos Paulistas, em 8 de junho de 1694.

 

 

 

Fr, Timóteo do Sacramento, Bispo de S. Tomé

 

 

LICENÇAS DA ORDEM

 

 

Eu, o Padre Alexandre de Gusmão, da Companhia de Jesus, Provincial da Província do Brasil, por comissão especial que tenho de nosso muito Reverendo Padre Tirso Gonçalves, Prepósito Geral da mesma Companhia, dou licença para que se possa imprimir um livro intitulado Xavier dormindo e Xavier acordado, composto pelo Padre Antônio Vieira, da mesma Companhia, Pregador de Sua Majestade, o qual foi visto, examinado e aprovado por religiosos doutos dela, por nós deputados para isso. E em testemunho da verdade dei esta, subscrita com meu sinal, e selada com o selo de meu ofício. Dada na Bahia aos 30 de julho de 1693.

 

 

 

Alexandre de Gusmão

 

 

DO SANTO OFÍCIO

 

 

Vistas as informações, pode-se imprimir o livro dos Sermões do Padre Antônio Vieira, da Companhia de Jesus, de que esta petição trata, e, depois de impresso, tornará para se conferir e dar licença que corra, e sem ela não correrá. Lisboa, 23 de abril de 1694.

 

 

Pimenta

 

Noronhas Castro

 

Foyos

 

Azevedo

 

 

DO ORDINÁRIO

 

 

Pode-se imprimir o livro dos Sermões, de que esta petição faz menção, e depois tornará para se conferir e se dar licença para correr, e sem ela não correrá. Lisboa, 26 de abril de 1694.

 

 

Serrão

 

 

DO PAÇO

 

 

Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Ofício e Ordinário, e depois de impresso tornará à mesa para se taxar, e conferir, e sem isso não correrá. Lisboa, 9 de junho de 1694.

 

 

Mello. P. Lamprea

 

Marchão

 

Azevedo

 

Ribeiro

 

 

 

Concorda com seu original. Lisboa, no Convento do Carmo, 26 de novembro de 1694.

 

 

Frei Tomé da Conceição

 

 

Visto estar conforme com seu original, pode correr. Lisboa, 26 de novembro de 1694.

 

 

 

Pimenta Noronha

 

Castro

 

Foyos

 

Azevedo

 

 

Pode correr. Lisboa, 29 de novembro de 1694.

 

 

Serrão

 

 

Taxam este livro em mil e duzentos réis em papel. Lisboa, 30 de novembro de 1694.

 

 

Mello P. Lamprea

 

Azevedo

 

Ribeiro

 

Cerqueira

 

 

ADVERTÊNCIA NECESSÁRIA

 

 

Porque, sendo o Autor tão conhecido em todo o mundo, ainda anda em opinião donde é natural, e de presente saiu um livro impresso, que o faz natural da cidade da Bahia, é bem se saiba que o Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa, e foi batizado aos quinze de fevereiro do ano de mil e seiscentos e oito, na Sé da mesma cidade, sendo Cura dela o Padre Jorge Perdigão, e foi seu padrinho o Conde de Unham, D. Fernando Teles de Menezes.

 

 

 

XAVIER DORMINDO

 

 

PROPOSTA

 

 

Beati sunt servi illi quos, cum venerit dominus, invenerit vigilantes.[3]

 

 

A imagem da perfeita vigilância com que S. Lucas, como pintor, nos retrata e, como evangelista, nos descreve a do grande Xavier com os olhos sempre abertos. Os três sonhos de Xavier Proposição geral: já que o evangelista manda vigiar, e Xavier se nos representa sempre dormindo, o sono e os sonhos de Xavier serão a prova da sua vigilância.

 

 

Com os olhos primeiro fechados, e depois abertos, promete o tosco desenho desta pintura mostrar em diferentes estampas ao mundo dois retratos ao natural do grande Xavier.

 

De Alexandre, também o Grande, se disse que ninguém o pôde vencer vivo, e, depois de retratado por Apeles, nem vencer pintado. Que Francisco Xavier vencesse a Alexandre vivo, o Ganges o viu, e todo o mundo o sabe; e também para que o vença pintado o temos pintado hoje por outro pintor melhor que Apeles, S. Lucas. Mas não param aqui as vitórias com que Xavier venceu ao vencedor do mundo. Não invejou Alexandre nem o valor nem as façanhas de Aquiles, senão a pena de Homero, com que foram escritas; e também no motivo de uma tão honrada ou soberba inveja o temos nesta ocasião vencido, porque o mesmo S. Lucas, que nos retratou a Xavier enquanto pintor com melhor pincel que o de Apeles, no-lo descreveu enquanto evangelista com melhor pena que a de Homero.

 

As cores do retrato e as letras da escritura igualmente se empregam em formar no meio das sombras da noite uma perfeita imagem da vigilância armada contra o sono: Beati sunt servi illi quos, cum venerit dominus, invenerit vigilantes. — Sendo a vida humana, como Jó a definiu, milícia, não há coisa nela mais arriscada que o dormir. Dormindo perdeu a vida Holofernes, dormindo Sisara, dormindo Isbozet, e, se buscarmos a primeira origem de todas as desgraças do gênero humano, acharemos que todas tiveram princípio em um homem dormindo. As armas com que a vigilância fiel e constante, tendo sempre os olhos abertos, se defende contra os combates declarados ou assaltos encobertos do sono, são três: cintos apertados: Sint lumbi vestri praecincti[4]tochas acesas: Lucernae ardentes in manibus vestris[5]expectação cuidadosa: Expectantibus dominum suum quando revertatur a nuptüs[6].

 

Cintos apertados porque mal se deixam atar os sentidos se não está desatado o corpo. Assim dormia S. Pedro naquela noite fatal, quando o anjo o espertou dizendo: Circumda tibi vestimentum tuum[7]. Tochas acesas, por que quem há que possa dormir com a luz vizinha aos olhos? Por isso o autor da natureza, o tempo que destinou para o descanso dos animais, ordenou que se ausentasse o sol, e os antigos puseram a casa do sono nas covas cimérias: Quo nunquam radiis oriens mediusve cadensve Phoebus adire potest[8]. — Finalmente, expectação cuidadosa, porque, bastando qualquer cuidado para inquietar o sossego do sono: Somnos abrumpit cura quietos[9] — o mais importuno de todos é aquele que por horas ou momentos espera um quando: Quando revertatur[10].

 

Esta é a imagem da perfeita vigilância, com que S. Lucas, como pintor, nos retrata, e como evangelista, nos descreve a do grande Xavier com os olhos sempre abertos. E como para prêmio dos olhos abertos nenhum tem Deus mais proporcionado que pagar vista com vista, a sua, em que consiste a bem-aventurança, promete a todos os que assim vigiarem: Beati sunt servi illi quos, cum venerit dominus, invenerit vigilantes.

 

A primeira diligência dos pregadores, depois de acharem no Evangelho o sujeito ou herói de que hão de falar, é torná-lo a buscar na sua vida. Ao menos eu assim o fiz sempre, e alguma vez com ventura. Mas que seria se hoje, depois de achar a Xavier no Evangelho vigiando, na sua vida o achasse dormindo? A vida deste grande apóstolo escreveram muitos e insignes autores. E, tomando eu nas mãos o livro do mais diligente, abri, e o primeiro passo com que encontrei foi este: Antes de partir o santo para a índia, sonhou por muitas vezes que andava lutando com um índio agigantado e robustíssimo, o qual o apertava entre os braços, e oprimia com tanta violência que, tomadas as vias da respiração, quase o trazia a termos de expirar; outras vezes se lhe passava dos braços aos ombros, e parecia-lhe a Xavier que trazia às costas o mesmo índio estranhamente pesadíssimo, gemendo e anelando debaixo da carga, tão fatigada e ansiosamente, que muitos dias depois de acordar sentia os ossos moídos e quebrantados. A luta e o peso era sonhado, mas os efeitos verdadeiros. Grandemente me contentou este passo, por campear nele o fervoroso, o animoso, o forte, o grande, o desvelado e perfeito do espírito de Xavier, porque não há dúvida que tudo isto foram profecias do muito que o Santo havia de cansar e trabalhar na conversão daquele grande gigante da Ásia e vastíssimo império do Oriente, com quem tanto lutou em vida para o converter, e a quem ainda hoje traz às costas para o conservar. Por isto, como digo, me contentava grandemente o passo; mas, voltando os olhos para o Evangelho, como nele tudo são vigilâncias, e o santo neste lugar estava dormindo, não me serviu: passei a outra folha.

 

Li ali, e dizia a história que, dormindo o santo em um hospital de Roma, onde tinha por cama uma tábua aos pés do enfermo mais perigoso, foi ouvido uma noite exclamar subitamente, e repetir a altas vozes: Mais, mais, mais. Não se soube então, nem se pode entender a causa daquelas vozes; mas qual vos parece que seria? Três mais há neste mundo, pelos quais suspiram, pelos quais anelam, pelos quais morrem, pelos quais se matam os homens: mais fazenda, mais honra, mais vida. Seria alguma coisa destas, ou todas três, as que Xavier desejava com tantas ânsias, as que pedia com tantas vozes? Vede que diferentes eram, aquela noite em uma visão as fomes, as sedes, os perigos, os caminhos, os naufrágios, os ódios, as perseguições, os falsos testemunhos, e todo os outros trabalhos e afrontas que havia de padecer por seu amor, e com serem tão grandes, tão excessivos, tão inumeráveis, era tão generoso o ânimo de Xavier, e a sede de padecer por Cristo tão fervorosa, tão ardente, tão insaciável, que nada o intimidava, nada o satisfazia, nada o fartava, tudo lhe parecia pouco, e assim pedia mais. A vossa cobiça pede mais fazenda, e a sua mortificação pedia mais pobreza, mais necessidades, mais desamparo. A vossa ambição pede mais honras, e a sua humildade pedia mais desprezos, mais injúrias, mais abatimentos. O vosso amor-próprio pede mais vida, e o seu amor de Deus, e o seu zelo, pedia mais perigos, mais naufrágios, mais dores, mais martírios, mais mortes. Oh! se o dia do Juízo tivera oitavas, como eu havia agora de tirar aqui a balança de Baltasar! Appensus es in statera, et inventus es minus habens[11]. Ponde em uma parte da balança o vosso menos, e eu porei da outra estes três mais, e vereis que conta vos há de pedir Deus, e que conta lhe haveis de dar. Por este ponto de doutrina, e muito mais pela singularidade do caso, me agradou muito este; mas estava o santo também dormindo quando lhe aconteceu, ainda que o espírito não dormia, e bem vedes que não diz com as vigilâncias do Evangelho.

 

Aqui comecei a reparar; torno ao livro com mais cuidado, passei muitas folhas e muitos capítulos, leio, e dizia desta maneira: Estando o santo em Lisboa, para partir para a índia, ofereceu-se-lhe em sonhos uma representação menos decente do que sua virginal pureza permitia, e foi tanto o horror, tanta a aversão, e tão extraordinária a força do espírito com que o valoroso soldado de Cristo rebateu e lançou de si aquele pensamento, que se lhe abriram as veias violentamente de puro resistir, e acordou com o rosto todo banhado em sangue! Raro caso! Estranha e inaudita maravilha! Mas também aqui sonhava Xavier, também aqui terceira vez estava dormindo. Que vos parece, senhores, que faria neste passo tão repetidamente apurada, senão a paciência, a diligência? Por uma parte o Evangelho a pedir vigilâncias em cada regra, por outra o santo a mostrar-se dormindo em cada página: que é o que havia de fazer? Resolvi-me enfim em seguir a aventura, fosse caso ou fosse mistério, e a fazer da dificuldade resolução, respondendo a um acinte com outro acinte. Já que o Evangelho manda vigiar, e Xavier se nos representa sempre dormindo, o sono e os sonhos de Xavier sejam a prova da sua vigilância. Querendo, pois, reduzir toda esta grande matéria a uma só proposição, como costumo, a empresa ou o assunto que se me ofereceu era este: que S. Francisco Xavier foi tão grande santo dormindo, como os maiores santos acordados. Tão grande, disse, e ainda me vinha ao pensamento dizer maior. Os outros santos, para serem santos, é-lhes necessário que vigiem; S. Francisco Xavier, para ser maior que os maiores, basta-lhe que durma. Esta é a proposta que se me oferecia à fantasia, como se eu também sonhasse; mas nem a minha devoção se atreve a tanto, nem se contenta com menos. Direi o que puder provar, e então saberei eu, e julgarão os que me ouvirem, o que hei de dizer.

 

 

 

PREFÁCIO AOS TRÊS SONHOS

 

 

Os sonhos, filhos dos cuidados, e conseqüência do viver Os sonhos de José e de Nabucodonosor As relíquias dos cuidados, de que fala Davi, e os três sonhos de Xavier

 

 

Temos a S. Francisco Xavier dormindo, e não só dormindo, mas sonhando. E se o sono é imagem da morte, os sonhos de que serão imagem? Agora e amanhã o veremos, e também ao outro dia, e no mesmo santo de que havemos de falar. O sono é imagem da morte, e os sonhos são imagem da vida. Cada um sonha como vive: Ea maxime somniamus quae agimus, aut acturi sumus, aut volumus —disse Aristóteles: Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação, a portas fechadas e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas ações, dos seus propósitos, e dos seus desejos. — Faraó, como providente príncipe, sonhava com a fome e com a fartura do povo: o seu copeiro-mor, e o outro ministro da mesa real — que não tem nome nem ofício nas nossas cortes — um sonhava com a taça, outro com as iguarias; o soldado madianita sonhava com a espada de Gedeão; Nabucodonosor sonhava com impérios e monarquias; cada um, enfim, sonhava de noite com o que exercitava de dia. Galeno, para conhecer os humores do enfermo, manda observar os sonhos; e também se podem observar para conhecer os afetos, que são os humores da alma. O melancólico sonha coisas tristes e trágicas, o sanguinho sonha felicidade e festas, o colérico sonha guerras e batalhas, o fleumático creio que não sonha, porque não vive. Até no estado da inocência reconheceu Santo Agostinho que havia sonhos, mas logo advertiu que eram semelhantes à vida: Tam felicia erant somnia dormientium, quam vigilantium: Eram tão felizes os sonhos quando dormiam, como era feliz a vida quando vigiavam. — Porque o dormir é conseqüência do viver, e o sonhar, do modo com que se vive. O vicioso sonha como vicioso, o santo como santo. Bem, seguro vai logo o nosso discurso sobre o Evangelho e as vigias que ele pede sobre os sonhos de Xavier, pois veremos que tam felicia erant somnia dormi entis quam vita vigilantis[12].

 

A razão desta filosofia é porque os sonhos são filhos dos cuidados, como muitos cuidados filhos dos sonhos: De his enim — conclui o Estagirita — maxime cogitationes, imaginationesque obveniunt. Et qui instructi virtutibus sunt, meliora somnia vident, quod etiam vigilantes meliora animadvertunt. Quando Nabucodonosor sonhou toda a história famosa e sucessos daquela prodigiosa estátua, antes de Daniel declarar o mistério, começou a contar o sonho desta maneira: Tu, rex, cogitare coepisti in strato tuo (Dan. 2, 29): Vós, rei, começastes a cuidar no vosso leito. — Tende mão, Daniel: El-rei não vos pergunta o que fazia quando estava acordado, pergunta-vos o que sonhou, quando dormia. — Assim é, diz Daniel, mas eu quero e devo contar o caso desde sua primeira origem, e a origem do sonho de Nabuco foram os seus cuidados: Tu, rex, cogitare coepisti. — Cuidava no que seria, e por isso sonhou o que havia de ser. Cuidou desperto e sonhou dormindo, e não sonhou outra coisa senão aquela mesma que tinha cuidado, porque aquilo em que cada um cuida, e lhe dá maior cuidado quando vivia, isso é o em que sonha quando dorme. Se Nabuco se lembrara do que cuidava, ele se lembraria também do que sonhou; mas o esquecimento que lhe roubou a memória do cuidado, esse lhe levou também a lembrança do sonho, pela grande conexão que têm os sonhos e os cuidados. Enfim, sonhou em reinos e monarquias futuras, porque os reinos, as monarquias e os futuros era a matéria — digna verdadeiramente de um rei — em que ele estava envidando: Tu, rex, cogitare coepisti quid futurum esset post haec[13].

 

É verdade que o sonho de Nabuco teve muito de profecia, mas os cuidados são como as cordas da cítara, que mandou tocar Samuel quando quis profetizar. Ainda para os sonhos divinos são disposição natural os cuidados. Sonhou o rei com os seus cuidados, porque adormeceu ao som de seus pensamentos. Sonho divino foi aquele em que o anjo revelou a S. José o segredo da Encarnação do Verbo nas entranhas de sua Esposa. E quando teve esse sonho José? Quando estava cuidando na mesma matéria: Haec autem eo cogitante, ecce angelus Domini apparuit in somnis ei[14].Mas, se José estava dormindo — in somnis — como estava juntamente cuidando: Haec autem eo cogitante? — Porque dormia José, mas não dormia o seu cuidado. Entre o cuidado e o sonho de José só havia esta diferença: que o cuidado era cuidado de José desperto, o sonho era cuidado de José dormindo. Por isso José e Nabuco sonharam e tiveram a revelação do que lhes dava cuidado, não antes nem depois, senão quando cuidavam: Tu, rex, cogitare coepisti; haec autem eo cogitante.

 

Tais foram os sonhos de Xavier: sonhos divinos, sonhos e revelações juntamente. E não é pouco que me atreva a discorrer em três dias o que Xavier sonhou em três noites, nem é empresa menos grande, e menos digna de tamanha solenidade, antes mais própria e mais natural deste tríduo, porque aqueles três sonhos de Xavier, convertendo as noites em dias, fizeram três dias de festa a Deus. Não sou eu o que o digo: Cogitatio hominis confitebitur tibi, et reliquiae cogitationis diem festum agent tibi (SI. 75, 11): Os cuidados do homem — diz Davi — louvam a Deus, e as relíquias dos cuidados fazem-lhe dias de festa. — Este é um lugar dos mais dificultosos que se lêem nos salmos. Que os cuidados e os pensamentos dos homens louvem a Deus é coisa bem clara, porque Deus satisfaz-se muito dos nossos cuidados, e todos os quer para si, Nas obras e nas palavras tem parte o corpo, nos cuidados e nos pensamentos tudo é alma. São os cuidados os espíritos do espírito: que muito é logo que louvem a Deus os cuidados dos homens, e que estes louvores sejam a Deus muito agradáveis? O dificultoso de entender é quais sejam as relíquias dos cuidados: Et reliquiae cogitationis diem festum agent tibi. — As exposições que dão os intérpretes são muitas e diversas, e isso mesmo é sinal que ainda se não tem achado a verdadeira. Eu digo que as relíquias dos cuidados são os sonhos. Não tenho menos autor que o príncipe dos filósofos. Aristóteles, explicando como se formam os sonhos, diz assim: Horum autem unumquodque est relíquia ejus, quod est in actu sensibili: Os sonhos são relíquias daqueles atos que pelas espécies recebidas dos sentidos se formaram na imaginação. — Estes atos deixam impressas na imaginação umas relíquias muito sutis, representadoras dos seus objetos, e estas relíquias se movem e aparecem, elas são as que representam, compõem e fabricam os sonhos. De maneira que os sonhos não são outra coisa, senão as relíquias dos cuidados: reliquiae cogitationis — e estas relíquias dos cuidados diz Davi que fazem dias de festa a Deus, porque, assim como os cuidados racionais e santos louvam e honram a Deus: Cogitatio hominis confitebitur tibi — assim as relíquias destes mesmos cuidados o honram e louvam, e lhe fazem de noite dias de festa: Reliquiae cogitationis diem festum agent tibi. — E por que fazem mais os dias de festa as relíquias dos cuidados que os mesmos cuidados? Porque os cuidados são exercício de homens acordados, os sonhos são atenções de homens dormindo; os cuidados são os desvelos da atenção, os sonhos são as desatenções do descuido. E quando um homem dormindo está como fora e apartado de si mesmo, que esteja tão em si, e tão unido a Deus, que assim dormindo o ame, assim dormindo o sirva, não há dúvida que é uma representação tão nobre e tão gloriosa que merece ser festejada no céu, e que ou a corte do céu desça de noite à terra a lográ-la, ou que ela seja levada ao céu, para lá fazer a Deus um dia de festa: Diem festum agent tibi. — Estas serão as festas destes três dias, tomando cada sonho de Xavier por sua conta o seu dia para o festejar. Em todos veneraremos e colocaremos sobre aquele altar outra nova e melhor imagem, e outras novas e maiores relíquias de S. Francisco Xavier. As que ali vemos são a imagem do seu corpo, e as relíquias dos seus ossos; as que eu vos hei de mostrar são a imagem da sua vida, e as relíquias dos seus cuidados: Reliquiae cogitationis diem festum agent tibi.

 

 

 

SONHO PRIMEIRO

 

 

Si venerit in secunda vigília.

 

 

Se vier na segunda vigília (Lc. 12, 38).

 

 

§1

 

 

O primeiro sonho. Os dois hemisférios de Xavier A Ásia, teatro da luta de Xavier no primeiro sonho.

 

O mesmo Evangelho, que tão encontradas nos mostrou as suas vigilâncias com os sonhos de S. Francisco Xavier, agora que entramos neles nos descobre que dentro em si continha distintamente o número dos sonhos, a ordem dos sonhos, e o autor ou autores dos sonhos. O número: Si venerit in secunda vigília[15]um; si in tertia vigilia veneritt[16]- dois: qua hora fur venirett[17]três. A ordem: Si venerit in secunm da vigilia — o primeiro; si in tertia vigilia venerit — o segundo; qua hora fur veniret — o terceiro. — O autor, ou autores, porque no primeiro e no segundo o autor foi o Senhor: Expectantibus dominum suum[18]e no terceiro foi o autor o ladrão: qua hora fur veniret. — No primeiro e no segundo o Senhor, o qual duas vezes falou em sonhos a Xavier, revelando-lhe no primeiro a luta, e no segundo os trabalhos, No terceiro o ladrão, que é o demônio, o qual também o tentou em sonhos, presumindo de o achar descuidado, ou menos vigilante.

 

Começando, como pede a mesma ordem, pelo primeiro, grandes eram os cuidados de Xavier, e grandes e vastíssimos os seus pensamentos, pois, de uma só relíquia deles se levantou aquele tão avultado e poderoso gigante negro e medonho, de cuja luta entre os braços, e de cujo imenso peso sobre os ombros, foram tão duros os efeitos, que depois sentia acordado quanto tinham sido fortes os combates que experimentara dormindo. Discretamente disse Sêneca que também em Roma havia antípodas. Chamava assim aos que dormiam de dia, porque tinham vigiado em seus passatempos a noite: Qualis illorum conditio dicitur, quos natura sedibus nostris subditos e contrario posuit, talis horum contraria omnibus non regio, sed vita est: sunt quidem in eadern urbe antipodeste[19]. — Era Xavier um novo sol, que no mesmo tempo e lugar tinha dois hemisférios, e, quando acordado, e de dia, alumiava os de cima; de noite, e dormindo, vigiava e rondava os antípodas, ensaiando, a furto dos olhos e dos outros sentidos, as lutas e as batalhas que havia de ter com eles. Estes antípodas eram todos aqueles que, unidos em um só corpo, por isso agigantado, tão fortemente o apertavam lutando.

 

Mas, antes que vejamos a luta, em que veremos o que não viu Roma nem Grécia nos seus mais celebrados atletas, será bem que descubramos o campo, e tomemos as medidas ao teatro. Como Deus escolheu a Xavier para apóstolo do Oriente, tudo o que compreende o mesmo oriente de mar e de terra, foi a praça ou terreiro imenso desta sonhada luta. Quando à índia chegaram os nossos primeiros argonautas, para que a majestade do rei de Portugal, representada na pessoa do seu capitão, em nenhuma coisa cedesse à dos naturais da terra, fabricava-se um teatro em tal forma, que parte dele ficasse na terra, e parte no mar, onde, assentados ambos de igual a igual, um ouvisse, outro dissesse as causas de sua vinda. Tal era — se as coisas pequenas se podem comparar com as grandes — o teatro da luta de Xavier, fundado nos dois elementos do mar e da terra. A baliza de uma parte era do Mar Eritreu, onde acaba a terra da África; a baliza, ou termo da oposta, era o Mar Eoo, além do qual ainda se não conhece terra; de dentro deste meio círculo do mundo se compreende aquela grande parte dele, que foi a campanha, depois vista, desta agora sonhada batalha.

 

Em suma, que o teatro do primeiro sonho de Xavier, em uma palavra, foi toda a Ásia. Mas quem poderá descrever a grandeza, e grandezas, que o autor da natureza e da graça encerrou desde seu princípio no que a nossa cosmografia significa com tão pequeno nome? Ásia-diz Plínio —é aquela região composta de muitas, da qual nunca saíram seus habitadores, nem deram entrada a outros, porque para a vida e para o regalo têm dentro em si tudo o que podem desejar, sem o receber de fora — exceta, porém, a fé do verdadeiro Deus, que é a que pelas suas portas tão cerradas lhe havia de introduzir Xavier. — Ásia é aquela primeira fonte ou mãe de todas as ciências, onde não só as professaram e ensinaram os caldeus, mas contra as injúrias de ambos os dilúvios, que conheceram, as deixaram escritas e imortais em duas colunas, uma invencível à água, outra ao fogo. Ásia são aqueles vastíssimos e poderosíssimos impérios, onde reinaram os Ninos, as Semíramis, os Xerxes, os Senaqueribes, os Arfaxades, os Assueros, os Darios, os Baltasares, os Nabucodonosores, e os mais altos e ricos membros da sua famosa estátua. Ásia são aquelas terras populosíssimas, nas quais, com fábricas monstruosas e inimitáveis, se edificaram as Nínives e Babilônias, e depois delas as Susas, e as Ecbatanes, que, se na grandeza as não igualaram, na riqueza, na opulência e na arquitetura as venceram com excesso ostentoso quase incrível. Asia é a pátria que o foi do primeiro pai do gênero humano, onde o mesmo Autor do universo foi o agricultor que plantou o paraíso, de que são testemunhas maiores que toda a exceção os dois rios Tigres e Eufrates, que da mesma fonte nasceram, que longamente cortam e regam seus campos, e que aos seus, e não a outros mares, vão pagar o tributo. E para que, à vista da grandeza que agora direi, sejam pequenas todas as outras, Ásia é aquela terra que para nascer, viver e morrer, escolheu o Filho de Deus feito homem, com ordem e preceito de seu Pai, que só a ela santificasse com seus passos, e não pusesse os pés em outra. Finalmente, é a mesma Ásia, como bem notou e ponderou Ortélio, o mapa particular e comum, dentro do qual se contém quanto nas Sagradas Escrituras lemos, assim no Velho como no Novo Testamento: Omnem fere utriusque Testamenti historiam in ea scriptam et completam legimus. — De sorte que de tudo o que Deus obrou no passado, e prometeu para o futuro, não partiu o mesmo Deus com Xavier o teatro que tomou para si, mas deu-lho todo inteiro.

 

 

§II

 

 

O horóscopo do nascimento de Xavier. Por que esperou a Providência Divina pelo nascimento de Xavier para o descobrimento da Ásia? Qual foi o motivo da diversão por que negou Deus a S. Paulo a missão da Ásia?

 

Uma das coisas mais notáveis que os japões argüíram e perguntaram a S. Francisco Xavier foi: se o Deus que ele pregava era tão bom como dizia, por que não lhes mandou a notícia de si muitos anos e séculos antes, senão naquele tempo? A resposta que o santo deu aos japões direi logo; a que eu lhes dou a eles, e a todos, é porque tinha Deus reservado toda a Ásia, até o último fim dela, que é o Japão, para o apostolado de Xavier, e para teatro de suas maravilhas. A primeira prova desta verdade temos nas nossas mesmas histórias, se bem as considerarmos. Todos os historiadores, nossos e estranhos, notam que nasceu S. Francisco Xavier em Navarra, no mesmo ano em que Vasco da Gama partiu de Lisboa ao descobrimento da Índia. Mas, debaixo desta observação geral, está ainda em silêncio, e não observada, uma circunstância digna de todo o reparo. E qual é? Que o portentoso Cabo da Boa Esperança, que era o terror daquela navegação, e o nó gordiano daquele descobrimento, havia já onze anos que estava reconhecido e descoberto. Por que esperou logo a Providência Divina pelo nascimento de Xavier, para o descobrimento da Ásia? Sem dúvida porque a tinha guardado para ele. Naquele descobrimento tinha Deus determinado duas conquistas, ou duas missões, ambas por seu modo apostólicas: a primeira das almas, e a segunda das armas; a das almas como fim, e a das armas como meio que lhe abrissem o caminho. E como à primeira havia de servir a segunda, por isso os passos, ou compassos, da providência divina, pararam e dilataram onze anos a viagem do conquistador das armas, para que estivesse já nascido o que havia de conquistar as almas. Este foi o horóscopo do seu nascimento, ou do seu oriente, debaixo dos aspectos de todas as estrelas que alumiam o do mundo.

 

Vamos agora à Escritura Sagrada, e acharemos a conformação desta providência com a propriedade, não só de missão a missão, senão de Ásia a Ásia. Andando S. Paulo, como próprio apóstolo da gentilidade, alumiando com a luz do Evangelho outras partes da Europa, determinou com seu companheiro, o apóstolo S. Barnabé, ir pregar à Ásia menor. Mas diz o Evangelista S. Lucas que o Espírito Santo lhes proibiu esta missão, mandando-lhes que não fossem: Vetati sunt a Spiritu Sancto loqui verbum Dei in Asia[20]. — E qual seria a razão divina desta proibição tão notável? Quer o Apóstolo das Gentes ir pregar àquelas gentes, e Deus não quer? — Sim, diz S. Gregório Papa, porque os asianos naquele tempo não tinham as disposições necessárias para receber a fé, e se o apóstolo lha pregasse, e eles a não recebessem, seria para sua maior condenação: Ne gravius de contempla praedicatione mali auditores judicari mererentur. — Em conclusão, que não querer Deus que S. Paulo pregasse então na Ásia, não foi desatenção de sua providência, senão mercê, indulgência e misericórdia de sua bondade. E isto mesmo é o que respondeu Xavier aos japões. — Argüis ao Deus, que eu vos prego, de que, sendo tão bom, vos não desse em tantos anos o conhecimento de si mesmo, que agora vos dá? Antes havíeis de argüir o contrário, e que então, e mais agora, se mostrou convosco duas vezes bom. Bom quando vos não deu o conhecimento de si no tempo em que não estáveis dispostos para o receber, porque seria para maior condenação vossa, e bom agora, que estais dispostos, porque é para vossa salvação.

 

Mas esta razão, que no caso dos japões, foi tão cabal e adequada, no caso dos asianos, diz S. João Crisóstomo que não tem lugar, e se prova claramente, porque no mesmo tempo foi outro apóstolo pregar à Ásia menor; logo, dispostos estavam os asianos para receber a fé, como a receberam. Qual foi, pois, o motivo da diversão, ou motivo por que negou Deus a S. Paulo a missão da Ásia? O mesmo S. Crisóstomo o diz: Quia Asia servabatur Joanni: Porque a Ásia a tinha Deus reservado para S. João. — Assim o mostrou o efeito, porque S. João foi o que nela pregou, e a converteu. E isto é o que eu digo de Xavier no Japão. Ele foi o seu próprio apóstolo, e o primeiro que lá pregou a fé, e, sendo o mesmo Japão de mar a mar o último termo de toda a Ásia maior, toda a mesma Ásia maior foi a campanha do seu sonho e o teatro do seu apostolado, bem assim como a Ásia menor o de S. João, o discípulo amado de Cristo.

 

 

§ III

 

 

A Ásia menor confiada a João, e a Ásia maior, confiada a Xavier. Se o amor de Cristo se houverde medirem João e em Xavier pelo que deu a um e a outro, bem pode pôr demanda Xavier a São João sobre o título de amado. A causa e aprova do amor de José a Benjamin. A maioria do parentesco e a maioria do prato em João e em Xavier.

 

É quase tremenda a conseqüência que daqui se tira, mas tal que se não deve calar. De maneira que nega Deus a S. Paulo a missão da Ásia menor, porque a tem reservado para S. João, e, quando reservou a Ásia menor para S. João, reserva a Ásia maior para Xavier. Que comparação tem a Ásia menor com a maior? A menor é uma pequena parte da Europa, e a maior é maior que toda a Europa e toda a África. Apertemos agora a conseqüência. É regra certa no amor de Deus medir-se o que ama pelo que dá. Ele mesmo o disse: Sic Deus dilexit mundum, ut Filiam suam uni genitum daet[21]. — Logo, se o amor de Cristo se houver de medir em João e em Xavier pelo que deu a um e outro, bem pode pôr demanda Xavier a S. João sobre o título de amado. Deus me ajude neste caso e nesta conseqüência, que por isso lhe chamei tremenda. A demanda ou a causa não pode ser mais grave nem mais bem fundada. Mais grave não, porque abaixo de Deus a maior coisa é ser mais amado dele; mais bem fundada não, porque o direito de uma e outra parte se funda em texto expresso, e autoridade divina. Onde iremos logo buscar o juiz e a decisão? Sigamos o que dispõem em semelhante dúvida as nossas leis, e vamos ao reino mais vizinho.

 

O reino mais vizinho a uma e outra Ásia é o Egito, e o oráculo do Egito. Estando, pois, José à mesa com seus irmãos no Egito, diz a História Sagrada que ele por sua própria pessoa lhes fazia e repartia os pratos, mas com tanta diferença que, sendo as porções de todos os outros irmãos iguais, a de Benjamin era avantajada, e maior não menos que em cinco partes: Et mirabantur nimis, sumptis partibus quas ab eo acceperant: majorque pars vens Benjamin, ita ut quinque partibus excederet[22].Muito é que os irmãos de José se admirassem desta diferença, a qual é mais admirável para o nosso caso que para o seu. Eles muito bem sabiam que José amava mais a Benjamim que aos outros irmãos e também sabiam que a causa deste amor era serem José e Benjamim irmãos de pai e de mãe. O mesmo texto o nota ali: iádit Benjamin Fratrem suum uterinum[23].Todos eram irmãos por parte do pai, porque todos eram filhos de Jacó, mas só José e Benjamim eram irmãos de pai e de mãe, porque só José e Benjamim eram filhos de Jacó e Raquel; e como o maior amor, fundado no maior parentesco, era o que trinchava e fazia os pratos, que muito é que a porção de Benjamim fosse maior que a dos outros? E que essa mesma porção fosse a prova de ser ele o amado?

 

Uma coisa é ser amado, outra ser o amado. Para os outros irmãos conhecerem que eram amados de José, bastava que, depois de tão ofendido, os pusesse à sua mesa; mas para prova de Benjamim ser o amado foi necessário que a sua porção fosse maior: Major pars venit Benjamim —e com tal vantagem maior que excedesse às outras em tantas partes: Ira ut quin que partibus excederes. — Daqui se segue a decisão do nosso pleito, e que a sentença de José está por parte de Xavier. Por quê? Porque, se para Benjamim ser o amado sem contradição, bastou por prova que a porção do seu prato excedesse às outras em cinco partes: Quin que partibus excederes — quanto mais a de Xavier, que não só excedia à de S. João em cinco partes, senão em mais de cinqüenta? A porção de Xavier era uma Ásia, e a de S. João outra Ásia, e ambas por seu próprio nome confessam e provam esta maioria: a de João com o nome de menor, e a de Xavier com o de maior: Major pars venit Benjamim.

 

Contudo, porque S. João pode ter embargos a esta sentença, ou ao entendimento dela, ouçamo-lo de sua justiça, para que demos a cada um o seu. Dissemos que a causa do amor de José a Benjamim era por ser ele seu irmão de pai e de mãe: Fratrem suam uterinum — e esta prerrogativa ou exceção para o título de amado pertence a S. João, e de nenhum modo a Xavier. Nem é necessário apelar para outra mesa, senão para a do mesmo José. A mesa de José com os doze irmãos representava

 

a de Cristo com os doze apóstolos, e entre os doze apóstolos só S. João era o irmão de Cristo de pai e de mãe. Todos eram irmãos de Cristo, como o mesmo Senhor lhes chamou, dizendo-lhes: lie, nuntiate fratribus meis[24] e só João era irmão de pai e mãe, porque só a João disse: Ecce Mater tua[25]. — Logo, a João, e não a outrem, pertence o título de amado. Distingo: em comparação dos apóstolos de Cristo, concedo; em comparação do apóstolo do Oriente, nego. S. João foi o apóstolo a quem Cristo amava: Quem diligebat (Jo.13, 23). Xavier foi o que o mesmo Cristo havia de amar. E o amor que era, pelo que era, não se podia comparar nem preferir ao que havia de ser, porque não constava qual fosse, ou qual seria. Em Benjamim concorreram juntas duas prerrogativas, as quais se repartiram entre os dois apóstolos: a da maioria do parentesco pertencia a João, e a da maioria do prato havia de pertencer a Xavier; na primeira se continha a causa de amar, na segunda a prova do amor, e esta é a que deve preferir sem controvérsia.

 

Quanto à causa de amar, já S. Bernardo definiu que o amor se não governa por ela: Amor non quaerit causam. Isac amava a Esaú com causa, porque comia do que ele caçava: Isaac amabat Esau, eo quod de venationibus illius vesceretur (Gên. 25, 28). — Rebeca, que era a mãe, amava a Jacó sem causa: Rebecca diligebat Jacob (ibid.) — e o amor sem causa foi o que prevaleceu, porque a bênção não a alcançou Esaú, senão Jacó. Que importa que Esaú tivesse por si a causa, se Jacó teve o efeito, que é a prova do amor? Os mesmos irmãos de Benjamim o entenderam tanto assim, que de nenhum outro favor, dos muitos em que José lhes mostrou o seu particular amor, se admiraram, ou fizeram reparo, senão da vantagem e excesso do seu prato em tantas partes: Et mirabantur nimis suraptis partibus[26]. —E sendo o prato de Xavier, isto é, a sua Ásia, com tão excessivas vantagens maior que a de S. João bem provado parece que fica, ou quando menos, bem provável, estar por parte de Xavier a decisão da mesa de José, a qual não só era a mesa do paço do Egito, senão também a da consciência.

 

 

§ IV

 

 

Que semelhança tem a seara com a mesa, o campo com o prato, o converter gentios com o comer. O converter e o comer na visão de S. Pedro em Jope, e na conversão da Samaritana à fonte de Sicar.

 

Só resta satisfazer ao escrúpulo de algum juízo ou gosto crítico, o qual pode ser que não achasse sabor no prato de Benjamim para o nosso caso. A grande região da Ásia foi o campo que Deus repartiu a Xavier para a cultura e lavoura do seu apostolado. O ofício, a obrigação e o fim do mesmo apostolado, era semear o Evangelho, pregar a fé, e converter as gentilidades daquelas nações. Que semelhança tem logo a seara com a mesa, e campo com o prato, o converter gentios com o comer? Agora se verá se é própria. O primeiro gentio que se fez cristão neste mundo foi Comélio romano, capitão da infantaria do terço ou coorte itálica, o qual, estando em Cesaréia, mandou pedir a S. Pedro, que estava em Jope, o quisesse instruir na fé de Cristo. Não tinha o santo notícia desta embaixada, subiu ao mais alto da casa onde vivia, para orar mais livremente, e no meio da oração lhe sobreveio tal fome que pediu de comer: Cum esuriret, voluit gustare (At. 10, 10). — Mas enquanto se lhe punha a mesa: Parantibus autem illis — adiantou-se o céu com a toalha e o prato: Et vidit caelum apertura, et descenderas vas quoddam, velut linteum magnum[27]. — Em lugar de vas quoddam, lê Santo Agostinho, e outros intérpretes, discum. De maneira que vos quoddam era o prato, e linteum magnum a toalha; e qual seria a iguaria, sendo o prato um só, e descido do céu?

 

Primeiramente era composta a iguaria de todo o gênero de animais, feras, aves, serpentes: In quo erant omnia quadrupedia, et serpentia terrae, et volucres caeli (At. 10, 12) — e estes animais, não mortos, senão vivos, porque S. Pedro os havia de matar e comer. Assim lho mandou logo a voz do céu: Et facto, est vox ad eum: Surge Petre, occide, et manduca (ibid. 13) Eia Pedro, matai e comei. Admirado o apóstolo do que via e ouvia, e muito mais de que Deus lhe mandasse comer os animais proibidos na lei, e que se chamavam imundos, não acabava de entender o mistério da visão, senão quando lhe batem à porta os enviados, que eram três, com a petição de Cornélio, e então conheceu que a vontade de Deus era que admitisse ao grêmio da Igreja todo o gênero de gentios, e tratasse da sua conversão. Os animais terrestres significavam os gentios mais bárbaros, as aves os mais entendidos, as serpentes os mais inimigos. Mas por que lhos põe Deus na mesa, e o convida com eles em um prato, e lhe manda que os coma, quando quer que os converta? Por isso mesmo; e agora se verá a sabedoria do sabor e a propriedade da semelhança. Pergunto: como pode um animal naturalmente converter-se em homem? Não há dúvida

 

que comendo-o o mesmo homem. E por quê? Porque, sendo comido do homem, a substância do animal, por bruta e feia que seja, se converte na substância humana, e em tal substância humana qual for o homem que o comer. Por isso a voz do céu disse a S. Pedro, não só que comesse aqueles animais, senão que os matasse primeiro: Occide et manduca — porque mortos perdiam uma vida, e comidos adquiriam outra; mortos deixavam de ser o que eram, e comidos começavam a ser o que não eram; mortos acabavam de ser o que tinham sido em si, isto é, gentios, e comidos, e incorporados em Pedro, começavam a ser o que era Pedro, isto é, cristãos. Admiravelmente S. Gregório Papa: Macta, et manduca: quod mactatur quippe a vita occiditur, id vero quod comeditur in comedentis corpore commutatur. Macta ergo, et manduca dicitur, id est, a peccato eos, in quo vivunt, interfice, et a se ipsis illos in tua membra converte.

 

Nem é necessário buscar outros exemplos deste modo de converter e comer, pois, no mesmo Cristo o temos. Assentado o Senhor sobre a fonte de Sicar, cansado do caminho, porque era a hora do meio-dia, mandou aos discípulos que fossem à cidade buscar de comer. Tornaram, e pedindo-lhe que comesse, não o aceitou o divino Mestre, antes lhes deu a entender que tinha comido, e de outros manjares que eles não conheciam: Ego habeo cibum manducare, quem vos nescitis (Jo. 4, 32). — Ouvida com admiração a resposta, começaram os discípulos a duvidar entre si: Numquid aliquis attulit ei manducare (ibid. 33)? Porventura, enquanto nós estivemos ausentes, viria alguém que trouxesse de comer ao nosso Mestre? Eles o duvidaram e verdadeiramente assim era, porque no mesmo tempo veio a Samaritana, a quem o Senhor tinha convertido e incorporado em si, fazendo-a de gentia cristã, e aquela grande alma, naquela hora própria de comer, era a que tinha comido. Logo, chamados por ela, vieram muitos da cidade, os quais, bebendo da fonte que tira a sede para sempre, se converteram também, e todos naquele dia fizeram ao Senhor um esplendidíssimo banquete.

 

O que agora se segue no texto é uma cláusula não menos que milagrosa de todo este discurso. Por ocasião de ter dito o divino Mestre que o seu comer era de outro gênero que eles não sabiam, continuou assim: Esse dito vobis: Levate oculos vestros, et videte regiones, guia albae sunt jam ad messem (Jo. 4, 35): O que vos digo agora, discípulos meus, é que levanteis os olhos, e os estendais por estas regiões do mundo, cujas searas estão já maduras, esperando por vós, para que as recolhais. De maneira que até agora era mesa, prato e comer, e agora são regiões, searas e colheita, porque uma metáfora é declaração da outra, e ambas significam a conversão dos gentios. A região de Xavier não a podiam ver os discípulos, porque estava muito longe, e ainda não descoberta. Mas o que ele havia de comer era conforme à grandeza do prato, tamanho como toda a Ásia. Os discípulos comeram o que trouxeram da cidade, o Mestre comeu toda a cidade, porque converteu todos os que vieram dela, e aqui se descobriu então o grande mistério do prato de Benjamim. Se a sua porção excedia em tantas partes às outras, como era possível que ele a comesse? E se a não havia de comer, por que lhe coube na repartição? Porque representava, como já dissemos, ao segundo Benjamim de Cristo, S. Francisco Xavier, o qual era tão faminto, tão insaciável e tão grande comedor de almas, como se viu depois que Deus o pôs à mesa. Em dez anos que Xavier cultivou a Ásia, converteu um milhão e duzentas mil almas. Reparti esta soma pelos, anos e pelos dias: pelos anos são cento e vinte mil almas cada ano, e pelos dias são trezentas e vinte e nove almas cada dia. me não espanto que Xavier passasse tantos dias sem outro mantimento, pois o seu pão de cada dia era tanto, e tão substancial, como são as almas. Isto foi o que achou e o aguardava na sua imensa região da Ásia, tão abundante no prato para a mesa como vasta no campo para a luta.

 

 

§V

 

 

Os sonhos de Xavier para a conversão da Ásia e o sonho de S. Paulo para a conversão da Macedônia. Se Deus foi o autor dos sonhos de Xavier, por que, havendo de ser o sonho guerreiro e belicoso, não foi o mesmo Xavier o agressor, senão o acometido? A soberba e arrogância dos dois braços mais poderosos do Oriente: os impérios do Mogor e China.

 

Até agora não fizemos mais que medir a grandeza da campanha, em cuja medição nos detiveram os embargos do discípulo amado, com forçado o mas não ocioso encontro, pela comparação e excesso de uma e outra Ásia, Entrando, pois, Xavier na sua, o recebeu todo o Oriente entre os braços, mas não com a benevolência de hóspede, senão com o aperto que vimos, e violência de inimigo. Era sonhando, e a mesma representação, posto que sonhada, segundo o que Deus costuma, parece que não devia ser belicosa, senão pacífica, antes muito comedida e cortês, e de nenhum modo violenta. Quis Deus que fosse S. Paulo pregar à Macedônia, e apareceu-lhe em sonhos um varão autorizado que no trajo e linguagem mostrava ser macedônio. E diz o texto sagrado que com muito comedimento rogava ao apóstolo quisesse tomar o trabalho de passar à sua pátria, para promover e ajudar sua conversão: Et visio per noctem Paulo ostensa est.- vir Macedo quidam erat stans et deprecans eum, et dicens: Transiens in Macedoniam adjuva nos (At. 16, 9). — Ao mesmo modo se pudera representar a Xavier naquele sonho a Ásia, e sem perder nada de sua majestade e grandeza, assim no trajo como no requerimento. Apareça-lhe assentada sobre um elefante real de Ceilão ricamente acobertado. Apareça-lhe vestida de uma cabaia ligeira, faixada de prata sobre verde: o verde pelo fértil da terra, e a prata pelos rios que a cortam e regam. Apareça-lhe com o peito descoberto ao uso oriental, mas cruzado de colares de diamantes, e os braços apertados a espaços com manilhas de rubis. Apareça-lhe com a garganta, não afogada, como cá se diz, mas torneada com um grosso fio de pérolas, na grandeza e igualdade escolhidas entre milhares, e de uma e outra orelha pendentes somente duas maiores, e de maior preço que as de Cleópatra. Apareça, finalmente, com turbante entretecido de branco, encarnado e ouro, que são as cores de que se arreia a aurora, e por remate, entre garçotas de aljôfar, coroa imperial de safiras. Representada ou sonhada assim a Ásia, que então se ajoelhasse o elefante, para que ela se pudesse apear, e, chegando-se mais de perto à presença de Xavier, em sinal de já vir disposta a receber a fé e culto do Deus verdadeiro, que, depois de lhe fazer a zumbaia, ou profunda reverência, com as mãos cruzadas sobre a terra, como a pregador e sacerdote do mesmo Deus, lhe oferecesse dos seus aromas, não âmbar, nem almíscar, ou benjoim de boninas, mas, em uma naveta de ouro, o incenso da Arábia também sua.

 

Nem deve parecer demasiada a alguém fábrica deste sonho, porque todo ele não é mais que a metade do que viu Nabucodonosor no da sua estátua, em que o ouro da cabeça e a prata do peito e dos braços não significava outra coisa, senão a mesma Ásia nos seus dois maiores e mais antigos impérios, o assírio, ou caldeu, e o pérsico. Mas, quando a Ásia no nosso caso se não houvesse de oferecer por si mesma ao seu apóstolo, senão por meio de um embaixador, como a Macedônia a S. Paulo, esse embaixador, por que não seria um índio pacífico, benévolo, comedido e cortês, senão aquele monstro medonho e fero, tão agigantado nas forças como na estatura, e tão impaciente, arrebatado e furioso, que de súbito se achou Xavier lutando com ele, e, primeiro apertado de seus braços que acometido? Não sonhou assim Jacó em Betel, não sonhou assim José em Canaã, não sonhou assim Mardoqueu em Susa, lugares todos dentro da mesma Ásia. E se Deus foi o autor de uns e outros sonhos, por que trata a Xavier tão diversa e tão violentamente, e com tão descobertas hostilidades? A resposta deste grande reparo pertence ao segundo sonho, que foi declaração do primeiro. E porque é matéria que amanhã havemos de ouvir com assombro, agora só devemos examinar por que, havendo de ser o sonho guerreiro e belicoso, não foi o mesmo Xavier o agressor, senão o acometido, nem ele o que rompeu a guerra, e deu a batalha ao Oriente, senão o Oriente a ele, com todo o poder e forças de ambos os braços?

 

Os dois braços mais poderosos do Oriente são os dois impérios do Mogor e China, e tão presumidos ambos de suas forças, que têm por desprezo e afronta fazer guerra, ou admitir a batalha qualquer outra potência, posto que grande. Rebelandose contra o Mogor um rei vizinho, com condições de sujeito, mas com cem mil cavalos em campo, posto em conselho o modo com que se devia proceder no tal caso, a primeira resolução foi que era contra a autoridade e crédito do império fazerlhe guerra; a segunda, que fosse o imperador à caça, e, com parte dos seus monteiros e caçadores, mandasse castigar aquele rebelde. Assim se fez, e para que o efeito não pareça admirável, conta o autor fidedigno, como testemunha de vista, que só dos vivandeiros que seguiam o trem do imperador, para provimento dos que o serviam na caça, foram quinhentos mil carros. Tanto é o poder do braço esquerdo do Oriente. O do direito, que é a China, sendo muito mais numeroso na multidão da gente, é tão igual na presunção e soberba — pois não pode ser maior — que, havendo de tomar satisfação de certo menos respeito, com que os japões o tinham desgostado, o que se resolveu também em conselho, foi que, sendo sessenta e seis os reinos do Japão, não era competente inimigo para se lhe fazer guerra pelo modo ordinário mandando lá armadas, mas que se tomasse outro novo gênero de os dominar, em que aquele império lhes mostrasse a eles e ao mundo a superioridade sem igual da sua potência. Assentaram, pois, os engenheiros o novo modo, com pensamento maior que toda a imaginação, e era que sobre as trinta léguas de mar — que é o menos que dista o Japão da China — se lançasse uma ponte por onde marchassem a pé, e como por terra continente, os que fossem vingar aquele agravo. Havia-se de fundar a ponte sobre navios unidos de costado a costado com grossas cadeias de ferro, e outros instrumentos de bronze, e diz o mesmo autor que por causa da fúria dos tufões, que não admite resistência humana, se deixou de efetuar a obra, e não pelo número dos navios, porque, sem se fabricarem outros de novo, havia muitos mais do que eram necessários para encher unidos aquela distância. Eu mais me admiro da arrogância que da temeridade do pensamento, pois sabemos que em nossos dias um só corsário levantado da mesma China se pôs no mar com quatro mil baixéis.

 

 

§ VI

 

 

Ajax, Alexandre e a honra e glória dos competidores. A notável razão que deu o anjo a Jacó para que o soltasse dos braços. Davi e o mais glorioso modo de vencer: a luta sem armas. A vitória de Davi sobre o gigante.

 

E sendo tal a soberba, arrogância e potência do Oriente, que ele, não a olhos fechados — porque não era o que sonhava — senão movido por impulsos divinos, fosse o que rompeu a guerra, e sem presentar a batalha acometesse a Xavier de improviso, e com todo o poder e força de ambos os braços? É certo que já começa a ser vencido neste mesmo respeito, e Xavier, sem batalha, vencedor antes da vitoria. A soberba não se governa por razão, mas vejamos as muitas que encerra em si o pundonor e altiveza deste pensamento; e para que seja em dois grandes exemplos, também gentios, ouçamos o de Alexandre Magno em Macedônia, e o de Ajax Telamônio em Tróia. Demandando Ajax, por morte de Aquiles, ser ele o herdeiro de suas armas, opôs-se-lhe Ulisses, em quem era maior a força da língua que a facúndia das mãos. E que diria Ajax? Como soldado bizarro e afrontado de tal competidor, declamou assim:

 

Praemia magna peti fateor ; sed demit honorem

 

Aemulus Ajaci. Non est tenuisse superbum,

 

Sit licet hoc ingens — quidquid speravit Ulysses.

 

Ipse tulit pretium jam nunc certaminis hujus,

 

Qui cum victus erit, mecum certasse fereturt[28]:

 

O prêmio desta demanda confesso — diz Ajax — que é grande, pois são as armas de Aquiles; mas a desigualdade do competidor já antes da sentença me tirou a honra: Sed demit honorem aemulus Ajaci. — Quem compete, espera vencer, e, posto que eu de tal competidor não possa temer a sua vitória, já me tem afrontado a sua esperança. Que honra pode ser a minha alcançar Ajax o que esperou Ulisses: Quidquid speravit Ulysses? — Ele nunca pode ser vencedor; mas que maior vitória e glória para ele que poder-se dizer no mundo que competiu comigo: Mecum certasse feretur? — Até aqui Ajax, tão forte como honradamente. Ouçamos agora a Alexandre. Entre as outras habilidades, com que o tinha feito grande a natureza e a fortuna, era singular a velocidade no correr. A mesma reconhecia em si Davi, e por ela dava graças a Deus, quando dizia: Qui perfecit pedes meo tanquam cervorum[29].Por esta vantagem, sendo Alexandre de doze anos, e já naquela idade com ardentíssimos desejos de fama, lhe disseram os palacianos da sua criação por que não ia aos jogos olímpicos, onde sem dúvida alcançaria aquela coroa tão estimada e celebrada em todo o mundo. E que diria o grande, que já era maior na generosidade que nos anos? Libens equidem, inquit, si decertaturos mecum reges sim habiturus[30]: De mui boa vontade iria correr nos jogos olímpicos, se os que houvesse de ter por competidores fossem reis. — Vencer é avantajar-se, competir é medir-se, e que glória será a minha vencer correndo, quando eu me deva correr dos mesmos que venci por competirem comigo, Ainda que seja a vitória dos pés, não devem ser os vencidos por mim outros, senão pés de cabeças coroadas: Si decertaturos mecum reges sim habiturus.

 

Ah! Xavier, sempre e de todos os modos glorioso! Dormi, dormi descansado, que por mais forte e mais gigante que seja o vosso competidor, já tendes a primeira vitória na mesma competência. Aquela sua soberba e arrogância que se afronta de competir com tão poderosos contrários, essa mesma se honra de contender convosco. E quando a nenhuma outra potência concede batalha, nem só com o braço direito, nem só com o esquerdo, a vós provoca, desafia e acomete com ambos! Mas diga-nos o mesmo autor do vosso sonho quanto vos quis honrar com este. Aquele atleta mais que gigante que lutou com Jacó, posto que não dormindo, toda a noite, pediu-lhe no fim dela que o soltasse dos braços, e a razão que deu para isso foi notável: Dimitte me, jam enfim ascendit aurora (Gên. 32, 26): Apartemo-nos, e baste, que já vem saindo a aurora. — E que importava que saísse a aurora? — Muito — diz por parte do anjo o doutor angélico: Loquitur more alicujus gravis viri, qui erubescit videri ab aliis agere quae parum condigna sunt. — O anjo que lutou com Jacó vinha incógnito, e com disfarce de homem: Ecce vir luctabatur cum eo[31]e falou conforme os brios humanos, envergonhando-se de que visse nele a luz do dia uma ação menos digna de sua pessoa. Enquanto encobriu a luta a escuridade da noite, lutou; mas, tanto que assomou a aurora, afrontou-se da competência. E quando um homem que por dentro era anjo, e não tinha nada de soberbo, se afronta de que a aurora o veja lutar com Jacó, a mesma aurora, que é o Oriente, não se afronta, antes se preza e honra de lutar com Xavier.

 

Mas, suposto que o sonho de Xavier, chamado para a conversão da Ásia, não foi pacífico e benévolo, como o de S. Paulo para a de Macedônia, senão violento e guerreiro, não deve passar sem ponderação e reparo o gênero da guerra. Os modos de guerrear são tantos quantos tem inventado o amor para a defesa própria, e o ódio para a ruína do inimigo. E contudo Deus, que dispôs o sonho ou a batalha para este conflito de Xavier, entre todos os modos de pelejar escolheu a luta. E por quê? Não pode ser sem mistério, sendo disposição divina. E foi sem dúvida para que melhor conhecêssemos o valor do capitão, que, desarmado, sem guardas nem sentinela, dormia. A luta é o mais forte meio de pelejar, e o mais glorioso de vencer. Nos outros gêneros de guerra, ou peleja o soldado de longe ou de perto, ou a pé ou a cavalo, ou com a lança ou com a espada. Se de longe, parte da vitória pertence à bala ou à seta; se de perto, parte à espada ou à lança; se a cavalo, parte ao cavalo, e talvez maior que ao cavaleiro; porém, na luta, que é combate sem armas, e de corpo-a-corpo, toda a vitória inteiramente é do homem, porque peleja com os braços, peleja com as mãos, peleja com os pés, e quando derruba e mete debaixo deles o inimigo, então acaba de vencer. Assim, nem mais nem menos, descreveu a luta Davi. Os braços: Posuisti ut arcum aereum brachia mea[32] as mãos: Qui docet manus meas ad praelium[33]; — os pés: Dilatasti gressus meos subtus me; et non sunt infirmata vestigia mea[34]: — e, finalmente, o inimigo derrubado a eles: Et supplantasti insurgentes in me subtus mete[35].- Mas nesta mesma descrição, com todas as cláusulas dela, se deve muito notar que fala Davi sempre de si: Brachia mea, manus meas, gressus meos, et subtus me. — Constando, pelo contrário, da História Sagrada que nenhuma das suas vitórias alcançou Davi lutando. Pois, se as suas batalhas não foram luta, por que lhes chama luta Davi? Porventura porque as quis escrever mais gloriosamente do que as vencera? Não, que Davi era santo, e não queria a glória para si, senão para Deus, cuja fortaleza pretendia engrandecer e agradecer, como se vê no exórdio do mesmo salmo: Diligam te, Domine, fortitudo mea[36]-e porque o mais forte modo de pelejar, e o mais glorioso de vencer, é o da luta, por ser vitória sem armas; por isso às vitórias, que Davi canta e atribui à fortaleza de Deus, e não à sua, dá o nome de luta. De luta outra vez, e não de outro gênero de batalha, como louvor e soberania própria da fortaleza divina pelejar e vencer desarmado. Assim concedeu Deus parte desta mesma glória a Xavier, querendo que lutasse e vencesse dormindo, o que nem por sonhos fez nunca Davi, ainda quando mais acordado.

 

A maior e mais celebrada vitória de Davi foi a do gigante. Mas como? Porventura lutou com ele a braço partido? Assaz faria se lhe chegasse aos joelhos. Porventura atreveu-se a medir o seu cajado com a lança do filisteu? Bem advertiu ele que não era feito o cajado para lobo de tamanhos dentes. Pois, que fez? Pôs-se de longe, fez-lhe tiro com a funda, e derrubou-o com a pedra. Grande vitória! Mas que diremos dela sem lisonja? É certo que teve mais de destreza que de valor. De valor digo, e não sem mistura de fraqueza, a qual o mesmo Davi reconheceu, e não negou. Matar ou vencer de longe não é valentia. E se não, pergunto: quando Davi dedicou a Deus o troféu da sua vitória, por que penas durou no Templo a espada, e não a funda? Porque com a funda derrubou o gigante de longe, e com a espada cortou-lhe a cabeça de perto. Mas os pertos da espada — ainda que seja de espada a espada, o que aqui não foi não são como os da luta. Nos da espada têm muita parte o ferro e a ventura; nos da luta toda a vitória inteiramente é da força: Virtus enim suis lacertis coagis quam alienis integumentis nititur[37] disse judiciosamente Santo Ambrósio.

 

 

§ VII

 

 

O primeiro combate de Xavier A corrupção de Goa e a verdadeira origem dos gigantes. De que meios usou Xavier para destruir o gigante de Goa?

 

Reconhecido, pois, e sentenciado à luta o primeiro e mais glorioso lugar entre as batalhas, tempo é já que entremos aos combates. O primeiro combate de Xavier — agora sonhado, e depois verdadeiro — foi em Goa, onde o seu robusto e agigantado antagonista o recebeu com multiplicadas forças de gigante. Se buscarmos a verdadeira e não fabulosa origem dos gigantes, acharemos que, casando os filhos de Deus com as filhas dos homens, antes do dilúvio, da convenção ou união deste matrimônio nasceram aqueles homens portentosamente maiores que os outros, os quais, pela grandeza da sua estatura, e pela força e violência com que oprimiam os demais, se chamaram gigantes, que essa é a etimologia do nome: Gigantes autem erant super terram in diebus illis — diz a Escritura Sagrada — postquam enim ingressi sunt filii Dei ad filias hominum, illaeque genuerunt, isti sunt potentes a saeculo, viri famosi[38]. — Os que aqui se chamam filhos de Deus, eram os descendentes de Set, bons, virtuosos e varonis, que por isso significam com o nome masculino. As que se chamam filhas dos homens, eram os descendentes de Caim, maus, viciosos, afeminados, que por isso se significam com o nome feminino. E é coisa muito digna de se notar que aqueles monstros da natureza nem nasceram dos bons antes de se ajuntarem com os maus, nem os produziram os maus, antes de se ajuntarem com os bons, mas depois que uns e outros casaram e se uniram entre si, então gerou a natureza, e saíram ao mundo tão monstruosos partos.

 

E por que não antes, senão depois desta união? A razão é porque, assim como do concurso e congresso de duas espécies diferentes nasce outra terceira espécie, que segue a pior parte, assim no concurso de diversos costumes, dentro na mesma espécie — cuja diferença é ainda maior — se produzem não os mesmos efeitos que cada uma destas coisas pudera por si só, senão outros, sempre piores. A filosofia moral do nosso caso é manifesta, porque aos filhos de Deus, isto é, aos bons, sem a união dos maus, faltavam-lhes os impulsos para a maldade, e aos filhos dos homens, isto é, aos maus, sem a união dos bons, faltava-lhes a autoridade para o atrevimento. E como os maus se viam autorizados com a união e exemplos dos bons, e sem a resistência dos mesmos exemplos, que lhes serviam de freio chegado o mundo ao estado de corrupção, que declara o texto: Quippe omnis caro corruperat viam suam[39] — do racional corrupto nasceu o brutal monstruoso, e da corrupção dos homens a geração dos gigantes.

 

Tal era a corrupção de Goa, e tais os monstros que da mesma corrupção tinham nascido, e com ela crescido enormemente, quando lá chegou o enorme Hércules que os havia de domar e vencer. Compunha-se aquele grande empório do Oriente como de quatro humores, de quatro diferentes seitas: judeus, mouros, gentios e cristãos. Os judeus seguiam obstinadamente a lei de Moisés, os mouros o Alcorão de Mafamede, os gentios o culto e ritos dos pagodes e ídolos, e, posto que os cristãos professavam a fé e verdade do Evangelho, a fé estava neles tão morta, e a verdade tão casada com o apetite, e tão sujeita a ele, que pelo trato, comunicação e costume, o judeu, o mouro, o gentio e o cristão, tirada a diferença dos nomes, nenhuma se lhes via nos costumes. Todos seguiam uma lei, que era a da natureza corrupta; todos adoravam dois ídolos, que eram o da cobiça e da torpeza; e todos lhes sacrificavam as miseráveis almas e vidas, ardendo nas abominações e maldades que furiosamente rebentam daquelas mesmas raízes, servindo-lhes de branda matéria ao fogo as riquezas e delícias naturais da terra, tanto mais inimiga do céu quanto mais deliciosa e rica. Tão forte por todos os quatro lados se apresentou a Xavier em Goa o seu gigante, não só bárbaro, mas ímpio. Porém ele, bem advertido que todas as forças destes monstros eram partos daquele matrimônio, em que os filhos de Deus se casaram com as filhas dos homens, o seu primeiro cuidado foi introduzir o divórcio deste casamento, procurando separar os filhos de Deus, que eram os cristãos, da comunicação e trato das filhas dos homens, que eram as outras três seitas.

 

Usou Xavier do meio que Deus tinha ensinado ao profeta Jeremias em semelhante dificuldade. Para que te ouçam os que te não quiserem ouvir, e se convertam os que se não querem converter, o que hás de fazer, ó Jeremias, primeiro que tudo — diz Deus — é separar o precioso do vil: Si separaveris pretiosum a vili, quasi os meum eris, ipsi convertentur ad te (Jer. 15, 19): Se separares o precioso do vil, as palavras da tua boca serão como se saíssem da minha: Quasi os meum eris — e os que podem cuidar que te hão de converter a ti, como têm convertido a outros, e os têm feito semelhantes a si, tu os converterás a eles: Ipsi convertentur ad te, et tu non converteris ad eos. —Admirável e tremendo modo de dizer é o desta última cláusula a qual não poucas vezes se tem experimentado na índia, pelas influências e intemperanças do clima, e suas delícias. Quantos passaram lá com ânimo de converter e emendar os abusos da terra; e a terra e os abusos os converteram a eles, ficando, em vez de converterem, pervertidos? Tais eram geralmente os cristãos que lá achou Xavier, sem mais fé que a do nome, e no demais como os outros, com quem estavam misturados e verdadeiramente casados. Os que casou Deus não os pode separar o homem: Quod Deus conjunxit, honro non separet (Mat. 19, 6) — porém, os que casou o demônio bem os pode o homem separar, mas tão ordenadamente que comece a separação pelo mais precioso: Si separaveris pretiosum a vigi. —O precioso aqui eram os que ao menos tinham fé, posto que a não concordassem com a vida, e o vil eram todos os outros, na vida e na crença totalmente infiéis, e por tão diferentes erros. Começando, pois, o novo pregador pelos cristãos separadamente, exortava-os a que se lembrassem do que eram, e tornassem em si, e que pusessem os olhos no fim, para que de tão longe, e por meio de tantos perigos, tinham passado aquelas terras; que não desdissessem da eleição tão particular com que Deus os tinha escolhido entre todas as nações católicas, para propagadores do seu nome nas estranhas, que reparassem em si e fora de si; que eram ramos daquele tronco e parte daquela gente, à qual a mesma voz divina tinha honrado com o nome, não só de fide puram, senão igualmente de pietate dilectam. Em suma, que considerassem o abismo da sua miséria e cegueira, tão esquecidos da salvação própria os que tinham obrigação de procurar a alheia. Finalmente foram tão poderosas e eficazes as razões e palavras de Xavier, como se a boca de que saíram fora a boca do mesmo Deus: Quasi os meum eris.

 

E tanto que as três seitas vis com os novos exemplos da súbita mudança dos cristãos se viram desautorizadas e enfraquecidas, que lhes havia de suceder? O que sucede aos brutos, que, faltando-lhes um dos quatro pés em que se sustentam, com os três que lhes ficam não podem dar passo, e caem. Caiu o judeu, caiu o mouro, caiu o gentio, e foi tão universal o triunfo da fé naquela pouco antes Babilônia-por lhe não dar outro pior nome — a que os historiadores a comparam, que os que de fora vinham a Goa não a conheciam, nem ela se conhecia a si mesma. E como dizem as fábulas, que na guerra que os gigantes fizeram ao céu foi sepultado Encelado debaixo da ilha de Sicília, assim ficou o nosso não fabuloso, posto que sonhado, debaixo da ilha de Goa neste primeiro conflito.

 

 

§ VIII

 

 

O segundo combate de Xavier. A vitória de Davi sobre Golias e a vitória de Xavier sobre Fucarandono, o maior sábio do Japão.

 

O segundo combate — no qual, como no primeiro, posto que em sonhos, porque eram sonhos proféticos, se lhe representava a Xavier tão vivamente o que havia de ser, como se já fora — foi no Japão, e mui semelhante ao do gigante Golias com Davi, Estavam à vista, em dois montes opostos, o exército dos filisteus e o de Israel, e, confiados os filisteus na grandeza do seu gigante, com pretexto, de evitar sangue no desafio singular de um só combatente, todos comprometeram nas forças de Golias as suas e de todo o exército e nação filistéia, com condição que se o filisteu vencesse ao israelita, ficariam os israelitas sujeitos aos filisteus, e se o israelita vencesse ao filisteu, ficariam sujeitos os filisteus aos israelitas. Assim o propôs, e repetiu por espaço de quarenta dias o mesmo Golias, quando no meio de um e outro exército, se ofereceu ao duelo, por estas palavras: Eligite ex vobis virum, et descendas ad singulare certamen, Si quiverit pugnare mecum, et percusserit me, erimus vobis servi, si autem ego praevaluero, et percussero eum, vos servi eritis, et servietis nobis[40].O mesmo passou no Japão. Afrontados os bonzos, que são os seus religiosos e sacerdotes, de que um estrangeiro pobre, só e mal vestido, pregasse no Japão uma nova lei, contra as estabelecidas nele por tantos anos, e uma nova divindade contra as adoradas em tantos reinos, e cridas pelos reis seus antepassados, para atalhar a opinião com que era ouvido o pregador, e por silêncio à doutrina que ensinava, assim como os filisteus escolheram um Golias entre os seus soldados, assim eles entre os seus sábios: de todas suas universidades fizeram eleição do letrado mais eminente de todos, o qual em pública disputa defendesse a religião e leis antigas, e convencesse a falsidade da nova.

 

Chamava-se este gigante das letras Fucarandono — nome que pelo estrondoso e arrogante em qualquer livro de cavalarias pudera fazer bem a figura. — A disputa havia de ser em presença do rei, no mesmo paço onde o pregador da fé cristã já se achava só, e para onde o grande doutor e defensor da sua caminhava ou marchava, não com menor acompanhamento que de três mil bonzos. Não consentiu o rei que entrassem mais que quatro para testemunha do ato; e para maior clareza e segurança do que se propusesse e respondesse, pediu Xavier que tudo se tomasse por escrito, e se nomeassem também juízes, que sobre cada um dos pontos sentenciassem logo por qual das partes prevalecia a razão. Fez-se assim, e como a verdade é muito confiada, não recusou o padre, antes foi contente que os juízes, como não fossem bonzos fossem embora gentios. Sobre estas suposições — que da parte contrária se houveram de consentir por força — saiu ao campo Fucarandono, mais armado e apercebido que o gigante de Davi, porque este, coberto todo de ferro, só a testa trazia descoberta e desarmada, e por isso sem resistência foi penetrado da pedra. Mas como o presente conflito era de entendimento a entendimento, de saber a saber, de razão a razão, e, finalmente, de testa a testa, ele a trazia fortalecida com uma viseira forjada na oficina de Vulcano e temperada na lagoa Estígia, composta de todos os erros que o inferno introduziu na especulação cega e sem fé de todos os antigos filósofos.

 

Defendia a eternidade do mundo, a multidão dos deuses, e transmigração das almas. Negava a imortalidade delas, a liberdade do alvedrio, a salvação dos pobres e das mulheres, e atribuía ao sol e à lua os poderes da primeira causa. Em todos estes erros — exceto o dos pobres e mulheres, invenção particular da cobiça dos bonzos reconhecia Xavier a Aristóteles, a Platão, a Pitágoras, a Zeno, a Epicuro e aos outros autores deles. E, posto que, para os confundir e convencer, como tão insigne filósofo e teólogo, lhe sobejava cabedal da própria ciência, eram tais os raios da luz mais que natural que acompanhavam as palavras que saíam da sua boca que, alumiados extraordinariamente o rei, os juízes e todos os circunstantes, não podiam deixar de aclamar a uma voz, e em altas vozes, a verdade da nova lei e a vitória do mestre que a ensinava. Este foi o sucesso daquele dia, e também dos cinco seguintes, em que duraram as disputas públicas, no fim das quais o mesmo rei, tomando pela mão ao vitorioso capitão da cristandade, o levava em pessoa pelas ruas até sua casa — ou até à casa não sua — sendo este acompanhamento real maior pompa por uma só pessoa que a dos três mil que acompanhavam o bonzo.

 

Só faltou neste triunfo o coro das filhas de Jerusalém, que cantaram o de Davi. Mas nem elas souberam contar o número dos vencidos nem medir a grandeza do vencedor. Não souberam contar o número dos vencidos, porque disseram que Davi vencera dez mil: David autem decem milha (1 Rs. 18,7) — sendo assim que os vencidos foram mais de cem mil, que de tantos constava o exército dos filisteus, os quais, vendo a cair Golias, se puseram todos em vergonhosa fugida. E também não souberam medir a grandeza do vencedor, porque não haviam de fazer a comparação entre Davi e Saul, o qual nenhuma parte teve na vitória, senão a que o mesmo Saul tinha feito entre Davi e o filisteu, quando a Davi chamou menino, e ao filisteu gigante. E, aludindo a esta comparação ou diferença, então devia a cantiga trocar os termos, e dizer que o gigante fora o menino que caíra de uma pedrada, e Davi o gigante que com a sua própria espada lhe cortou a cabeça.

 

 

§ IX

 

 

Como alcançou Xavier o título de gigante, que as filhas de Jerusalém não souberam dar a Davi? A razão e Propriedade admirável, pela qual a estatura de Xavier é comparada à palmeira. A altura de Xavier e os gigantes Og e Golias.

 

Mas, se o elogio e glória deste nome faltou a Davi na sua vitória, não faltou a Xavier nas suas. Navegava Xavier, e, tendo restituído vivo a um mouro, com promessa de se fazer cristão, um filho, seis dias antes afogado, e sepultado no mar, chegou a fama do milagre à terra, primeiro que o santo desembarcasse, e vieram sessenta maometanos ao navio certificar-se do caso. Sobre a evidência deste motivo o tomou Xavier para lhes mostrar a falsidade de sua lei e a verdade da de Cristo, com tal eficácia que todos a conheceram, e não quiseram sair do navio sem que o santo os batizasse. Fê-lo assim, depois de bem instruídos, e na solenidade daquele ato se provou, como eu dizia, que o título de gigante, que as filhas de Jerusalém não souberam dar a Davi na sua vitória, o alcançou Xavier nas suas, porque a estatura ordinária do santo se viu no mesmo ato tão crescida, que não só parecia, mas verdadeiramente era de gigante. Assim o viram de longe os que estavam em terra, e também de perto os que vieram a bordo, e acharam que se não enganavam os olhos, e era certo o que viam. Agora pergunto: E por que razão, quando Xavier converteu tantos maometanos, e os batizou, então apareceu com estatura de gigante? Outros darão outra melhor, mas eu digo que a razão foi porque a sua estatura crescia e se aumentava à medida das suas vitórias. Tenho em prova, não só a Escritura, senão o mais próprio comento dela, porque este mesmo caso de Xavier a comentou com maior propriedade que nenhum outro expositor até agora.

 

Medindo Salomão, ou ensinando a medir a estatura do homem interior, que sempre cresce, e buscando-lhe a semelhança entre as árvores, não diz que é semelhante aos ciprestes do Monte Sião, nem aos cedros do Líbano, senão à palmeira: Statura tua assimilara est palmae[41], — E por que não semelhante a alguma das outras árvores grandes e altas, senão à palmeira? Porque só ela cresce à medida das suas palmas; por isso as outras árvores tomam o nome do fruto, e a palmeira não o toma do fruto, senão dos ramos. O tronco da palmeira, com singularidade única entre todas, vai subindo e crescendo como uma escada de degrau em degrau, e cada degrau destes o vai adquirindo de palma em palma, pelo nascimento de cada uma. Vão-lhe nascendo sucessivamente as palmas e surgindo de dentro pelo cume, primeiro direitas e fechadas, depois abertas, dobradas e estendidas, lhe formam a copa, até que, apartando-se do tronco, o deixam tão aumentado de altura quanto era o espaço de que recebia o nutrimento. E esta é a razão e propriedade admirável pela qual a estatura de Xavier é comparada à palmeira: Statura tua assimilata est palmae — Crescia Xavier, e subia como a palmeira, porque tanto se levantavam os graus ou degraus da sua estatura, quantas eram as suas palmas, isto é, as suas vitórias, E como as vitórias de Xavier contra Mafamede naquela ocasião foram sessenta, por isso subitamente foi visto com estatura de gigante. Donde se infere que se naquele dia, ou naquela hora cresceu sessenta degraus, qual seria o seu aumento em todos os anos que trabalhou na Ásia, em que tantas foram as suas vitórias quanto o número sem número das almas adultas e não adultas, que, batizando ou pregando, tirou do cativeiro do demônio?

 

Mas antes que pelas mesmas vitórias tornemos a verdadeira medida à sua agigantada estatura, vejamos primeiro qual foi, ou se fingiu neste mundo, a do maior gigante. No capítulo terceiro do Deuteronômio conta Moisés que na cidade de Rabat, que depois se chamou Filadélfia, se via em seu tempo um leito de ferro, que havia sido do rei Og, o último de todos os gigantes, o que tinha nove côvados de comprido e quatro de largo: Et monstratur lectus ejus ferreus, qui est in Rabbath filiorum Ammon, novem cubitos ha bens longitudinis, et quatuor latitudes (Deut. 3, 11). — E acrescenta a tradição dos Hebreus, referida por Lirano e Abulense, que este leito era do mesmo gigante Og, enquanto criança, porque depois cresceu a tanta grandeza, que tinha uma légua de alto, e os braços de tantas forças que arrancou e levantou neles um monte de duas léguas, e o pôs sobre a cabeça, com intenção de que assentando seus arraiais os filhos de Israel, que então marchavam para a Terra de Promissão, lançasse sobre eles o monte, e os sepultasse de um golpe a todos. Isto diz a tradição; mas assim o gigante de uma légua, como o monte de duas são fábulas dos hebreus. A cuja vista, porém, tomadas as medidas do nosso gigante da índia, lhe podemos bem cantar com o poeta, também indiático:

 

As verdadeiras vossas são tamanhas,

 

Que excedem as sonhadas fabulosas.

 

Porque, se o gigante sonhado e fabuloso tinha uma légua de altura, fique à curiosidade dos aritméticos medir e somar a do nosso, e acharão que o excede em muitas léguas. A Escritura Sagrada mediu a altura do gigante de Davi a côvados e palmos: Sex cubitorum et palmi (I Rs. 17, 4) — e para tirar à nossa conta toda a sombra de encarecimento, não quero que os degraus que acrescentam as palmas à estatura do nosso se meçam a côvados nem a palmos, senão pela suposição mais estreita, que é a largura de um só dedo por palma. E sendo as palmas de Xavier um milhão como dissemos — e duzentas mil, bem se segue que sairá a soma tão multiplicada em alturas que, quando o nosso gigante não chegue a topar com a cabeça nas estrelas, ao menos as nuvens mais remontadas lhe ficarão muito abaixo dos ombros.

 

Tão largos, tão fornidos e tão robustos lhe eram necessários para não ficar vencido ou oprimido das forças e arte do seu antagonista, o qual, vendo-se tão fortemente, não só resistido, mas derrubado, e prostrado em todos os combates da luta, se desenvolveu destramente dos braços de Xavier, e de um salto, como diz a história, se lhe pôs sobre os ombros, para oprimir com o peso o que não podia vencer com a força. Qual fosse o peso imenso de uma corpulência, composta de todos os membros da Ásia, não há juízo tão vasto que o possa compreender. Manifestou-o, porém, o efeito, porque Xavier, em muitos dias depois, se não pode descarregar nem aliviar das dores e quebramentos daquela opressão; mas aos primeiros impulsos dela, quase sufocadas as vias da respiração, espertou, e com o fim arrebatado do sono parou o sonho. Amanhã se segue o segundo, muito mais admirável e enquanto o santo respira de tamanho trabalho, respiremos nós também para o ver entrar e sair de outros maiores.

 

 

 

SONHO SEGUNDO

 

 

Et si in tertia vigília venerit.[42]

 

 

§1

 

 

A admirável fábrica dos sonhos. A semelhança ensinada por Aristóteles e os sonhos de Xavier As peregrinações e caminhos de trinta e cinco mil léguas que por mar e por terra havia de fazer Xavier.

 

Um dos maiores mistérios e mais delicados segredos da natureza na arquitetura humana é a fábrica dos sonhos. Sendo o sono uma prisão universal dos sentidos, com que os olhos não vêem nem os ouvidos ouvem e assim dos demais; como pode ser que sonhando vemos sem ver, e ouvimos sem ouvir, e exercitamos os atos dos outros sentidos como se estiveram espertos? A razão ou filosofia deste artifício natural é porque na memória — não a espiritual, que é potência da alma, senão a corporal e sensitiva — estão depositadas as espécies de todos os objetos, ou as imagens de todas as coisas que entram pelos sentidos. Estas imagens, enquanto os sentidos dormem, estão encobertas e escondidas debaixo dos vapores grossos e espessos que sobem ao cérebro, e, ao passo que os mesmos vapores se vão adelgaçando e desfazendo, as imagens aliviadas deles se vão também descobrindo e representando à fantasia, que por outro nome se chama imaginativa, e é a potência com que imaginamos.

 

O modo deste artifício oculto declara o Príncipe dos filósofos com uma semelhança digna do seu engenho. Fazei, ou lavrai de cortiça-diz Aristóteles — uma quantidade de rãs maiores e menores, e com esta forma, ou sem ela — que só é necessária para maior primor da comparação — ponde-as todas sem ordem nem concerto no fundo de um grande vaso. Assim postas, lançai sobre elas uma cama de sal, de modo que fiquem cobertas todas, e não apareçam; e logo, enchendo de água até cima o mesmo vaso esperai um pouco, e vede o que vedes[43], Coisa verdadeiramente curiosa, e ao nosso intento admirável! Assim como se vai desfazendo o sal com a água, assim vão surgindo e se vão aboiando as cortiças pouco a pouco, aqui uma, acolá outra, umas antes, outras depois, até que aparecem todas. Isto mesmo é o que acontece nos sonhos, porque as imagens escondidas das coisas que entraram pelos sentidos, desafogadas dos vapores que as oprimiam, se vão descobrindo e aparecendo à fantasia, ou sem nenhuma ordem, se os sonhos são naturais, ou, se são sobrenaturais e divinos, com aquela ordem e disposição que é necessária para mostrarem e darem a entender o que significam.

 

Desta sorte se descobriu e representou distintamente a Xavier no sonho de hoje o que no de ontem só supôs, ou pisou confusamente, porque o mesmo terreiro da sua luta foi o anfiteatro dos seus trabalhos, cuja imensa campanha agora viu repartida em terras e mares; e para que nem essa propriedade faltasse à semelhança, também foi em água salgada. Passado, pois, o Cabo de Boa Esperança, e penetrado já o nosso apóstolo do Oriente aquele primeiro lago em que o mar etiópico e o indico confundem as águas, como se do meio deles fossem surgindo de mergulho as terras em que havia de semear o céu, assim se lhe iam descobrindo e aparecendo umas depois das outras. A primeira, como a maior ilha do mundo, se deixou ver ao longe, a grande Gadamascar: logo à mão esquerda a dourada Sofala, e a foz das correntes que a fazem rica; e daí a poucas sangraduras, o comum cemitério de Portugal com o nome de Moçambique. Daqui fugindo, e nos mares já da menos negra Mombaça se mostraram ao princípio como uma, e depois duas, e divididas, Zinzibar e Pemba, com outras de menor nome. E, deixada atrás Quiloa, e adiante Melinde, com a infausta Pate, depois de um largo intervalo, se viu levantar a monstruosa cabeça o grosso Cabo de Gardafu, abrindo a grande boca da estreita garganta do Mar Roxo, da qual, como temendo ser comida, apareceu retirada a juntamente cristã e moura, ou nem moura, nem cristã, Socotorá. Este é o ponto donde Xavier começou a cortar as ondas já propriamente da Ásia; mas tanto ao largo, que alagada a Arábia, só se divisaram no fim dela as torres da famosa Ormuz, presumida de que, se o globo do mundo se reduzira ao círculo de um anel, ela seria a pedra. Daqui, mais por fé que de vista, veneraram as bandeiras portuguesas a sempre inexpugnável Diu. E, voltada a proa para a terra piramidal — a quem os naturais chamaram Indostão, e os nossos, pela figura, Lisonja — depois de muitos dias e léguas de mar se avistou a desejada índia, e dentro do circuito de uma não grande ilha — habitada porém de trinta povos — apareceu com a cabeça coroada como metrópole de todo o Oriente, e foi festejada com salvas a real e imperial Goa. Não se detém neste grande empório o nosso discurso, porque com o vento nas velas vai correndo em demanda do Cabo de Comorim. Neste caminho pareceu que também subiam do fundo do mar as inumeráveis Maldivas — mais semelhantes a formigas que a rãs — e ao dobrar do cabo, quase sentida primeiro pelo cheiro que pela vista, se descobria a odirífera Taprobana, hoje chamada Ceilão. Daqui se continua longamente a celebrada Costa da Pescaria pelas pérolas que se pescam nas suas praias, as quais reconheceu mais lentamente Xavier até chegar à foz do famosíssimo Ganges, que, trazendo seu nascimento desde o monte Imao, e tão cansado do caminho como de ser rio, para se graduar de mar no Oceano, descarrega suas correntes no Golfo de Bengala.

 

 

§II

 

 

Por que devia Xavier intentar a passagem do Ganges? As conquistas de Alexandre e as conquistas de Xavier.

 

Até aqui tendes chegado felizmente, glorioso Xavier, e parece que, segundo as obrigações do ofício e as leis do Evangelho, não deveis passar daqui. Se sois um dos apóstolos, aos maiores disse o seu e vosso divino Mestre que seriam pescadores de homens: e vós tendes chegado à costa da Pescaria, onde as vossas redes podem pescar mais homens que as de Pedro peixes no mar de Tiberíades. Também sois aquele mercador evangélico que buscava pérolas, e por uma deu quanto tinha, e as que podeis granjear nestas praias, mais preciosas que as que lhe deram o nome, são mais que as mesmas areias. Parai, pois, nem passeis daqui. E para que a grandeza do vosso sonho não pareça que espera mais de vossas peregrinações, quero-vos alegar um exemplo, também sonhado, e não natural, senão divino. Quando Alexandre Magno, cujas vitórias descreveu o profeta Daniel, foi ao Templo de Jerusalém, admirados os que o acompanhavam da grande reverência com que tratou ao sumo sacerdote Jado, coisa tão alheia da sua soberania e arrogância, respondeu que naquele mesmo trajo lhe aparecera Deus em sonhos, quando lhe mandou que fosse conquistar o Oriente. Foi, pois, Alexandre com poderoso exército, atravessou o mar Eritreu, entrou na índia, alcançou muitas vitórias, conquistou muitas terras, dominou muitas nações, e entre elas ao grande rei Poro, mais gigante que homem; mas, chegando às margens do Ganges, com pensamento de passar adiante, nem lho consentiram seus soldados, nem ele insistiu no intento, que todos julgaram temerário. Mandou voltar as bandeiras, sem se afrontar de dar as costas ao sol, e contente com os troféus, de que deixou semeados os caminhos, e de que colheu os frutos da fama e memória imortal, entrou triunfante em Macedônia. E se esta resolução em Alexandre, com um exército de quarenta mil combatentes tão costumados a vencer, foi de prudente capitão, e a contrária seria temeridade, por que não seguirá o mesmo conselho Xavier só e desarmado, e por que se não contentará de pôr o non plus ultra das suas colunas, não nas ribeiras por onde corria, senão na foz onde morre o mesmo Ganges? Pois, ainda que o seu espírito seja maior que os grandes espíritos de Alexandre, donde ele tomou atrás, antes é crédito que valor não querer passar adiante.

 

Nem tem que recear Xavier que a Roma, que o mandou ao Oriente, não aprove esta resolução, pois em um congresso de todos os oradores romanos, como escreveu Sêneca[44], se pôs em controvérsia no seu tempo se devia Alexandre intentar a passagem do Ganges, e todos, com diversas razões panegíricas, concordaram que obrara como devia a quem era. Dos que falaram com maior aplauso, uns disseram que se não devia empreender a tal conquista, pois nela se não podia ganhar tanto quanto na pessoa do mesmo Alexandre se arriscava; e outros, que a grandeza do seu ânimo se devia contentar do que tinha obrado na empresa da índia, pois Baco, havendo feito muito menos, tinha alcançado por ela as honras de divino, e estava adorado entre os deuses.

 

Todas estas razões tinham maior e mais verdadeiro lugar em Xavier que em Alexandre. Mas a generosidade do seu imenso coração tão fora estava de se medir e aquietar com elas, que torna ou continua a se engolfar com maior ousadia em novos mares. Com a proa primeiro no austral, e depois no Eóo, se começaram a ver pelo continente ao longe os cumes dos montes mais altos e as pontas dos cabos mais bojastes, e ao perto do mesmo pego que cortava — como se do fundo fosse subindo e surgindo sobre a água todo o cardume das rãs — assim ia aparecendo, já confusa, já distintamente, o número sem número das ilhas, de que está lajeado sem ordem nem igualdade aquele intrincadíssimo arquipélago. A áurea Quersoneso, hoje chamada Samatra, as Javas, maior e menor, Bornéu, Celebes, Geilolo, Mindanau, Tandaia, Timor, Paloon, Carmã, Cuba, Malucas, Lequios, e as que já tinham batizado os portugueses, Santa Maria, S. João, Santa Clara, S. Miguel, os Reis Magos, e, finalmente, com largo e perigosíssimo intervalo, a grandíssima do Japão, povoada, ou coroada de sessenta e seis reinos, cujos horizontes, segundo a etimologia do nome, são os berços onde nasce o dia.

 

Aqui se deve muito notar que, assim como Xavier nasceu no ano em que se descobriu a índia, assim no ano em que ele chegou à índia se descobriu o Japão aos portugueses, levados lá de uma tempestade fora da sua derrota. E assim como aquelas eram as últimas raias que a natureza pôs ao Oriente nos seus horizontes, assim eram também as últimas e remotíssimas a que a divina providência tinha estendido e mostrado a Xavier a campanha das suas vitórias, mas não com nome de vitória, senão de trabalhos, porque não devia Deus variar o nome de tão heróicas façanhas ao Hércules das suas conquistas. Que Daniel, porém, haverá de tão aguda vista, de tão sábia e copiosa eloqüência, que possa declarar, ou como Baltasar o escuro das letras, ou como Nabucodonosor o terrível das estátuas, que naquele imenso painel de horrores pintou mudamente a fantasia a Xavier dormindo, onde o menos que ele estava vendo com os olhos fechados, eram dois mundos, um o próprio e natural, que deixava, outro o novo e estranho, que havia de conquistar.

 

 

§ III

 

 

Os trabalhos do grande Hércules da Igreja. Como viu Xavier representado dentro de si mesmo o espetáculo formidável de seus trabalhos.

 

Os que tendes lido os trabalhos deste grande Hércules da Igreja, desencadernando o livro da sua vida, e fazendo de cada folha uma cena, podereis conceber alguma parte desta temerosa representação, e digo parte, e não tudo, porque o menos é o que se sabe e o que se escreveu; do demais foram só testemunhas Deus e os anjos. Ali se viam os mares, pouco dantes descobertos e ainda mal conhecidos, e nunca domados; as tempestades furiosas e tremendas, os ventos implacáveis, as ondas em montes, os mareantes sem cor, sem forças, sem tino; as gáveas no mar, a quilha fora dele, as vidas morrendo e ressuscitando a cada balanço, os dias medonhos, sem sol, as noites horrendas, sem estrela, os relâmpagos, os trovões, os raios, a derrota e o leme perdido, os baixios roncando ao perto, soando temerosamente ao longe por toda a parte. Oh! que horror! E isto não um dia, senão muitos continuados, nem em uma, senão muitas vezes em tantas costas, em tantos cabos, em tantos estreitos, em tantos golfos. Muitos dos que me ouvis, como tão experimentados, entendeis o que digo, que eu sobre tantas repetidas experiências, ainda não sei exprimir o que só quando se sente, se conhece. Viam-se ali os climas e os céus tão diversos, os ares pestilentes, as enfermidades terríveis, sem médico, sem remédio, sem alivio; no mar o convés, na terra a mesma terra por cama; os calores, os frios, as fomes, as sedes; o navegar tão dificultoso, o chegar incerto, o desembarcar e aparecer cheio de perigos; as gentes bárbaras, feras, e de Cristo todas inimigas, as seitas infinitas, a pertinácia maior que a cegueira, a idolatria estabelecida na antigüidade, na crença, na natureza, defendida da soberba e cobiça dos sacerdotes, e da licença dos costumes; armados todos e tudo contra o pregador da nova fé, só, pobre, aborrecido, perseguido, acusado, condenado. Sobretudo, o demônio e todo o inferno posto em campo contra um só homem, invisivelmente com máquinas, e visivelmente com figuras horrendas, não matando, porque não tinham licença para matar, mas dando-lhe tais combates e tormentos que muitas vezes o deixaram moído e pisado a duros golpes, ferido e quase morto. Tudo isto se via ali em vários tempos, e em muitos modos repetido, representando-se vivamente em suas próprias e feiíssimas figuras as crueldades, os ódios, as iras, as invejas, as perseguições, os desprezos, as injúrias, as afrontas, as traições, as ciladas, os venenos, as setas, as catanas, os assaltos, as guerras, e infinitos outros gêneros e formas horríveis de trabalhos, de perigos, ou da natureza ou da malícia, que havia de padecer quem os estava vendo, com a morte sempre presente, e não escapando de uma sem novo risco de outras.

 

Finalmente o que fazia mais admirável e quase incrível esta representação, era uma perspectiva que se abria no meio dela, com uns longes tão seguidos, e remontados a perder de vista, que o fio e comprimento deles podia quatro vezes dar volta a toda a redondeza da terra. E tais eram as peregrinações e caminhos de trinta e cinco mil léguas, que por mar e terra havia de fazer Xavier. No mar bastava dizer que se via no mar para dizer muito, mas via-se sem gasalhado, sem mantimento, sem provisão alguma humana, sustentando-se de esmola, servindo de dia e de noite aos enfermos, e dormindo aos pés, e velando à cabeceira do mais aflito. Na terra, via-se caminhando a pé, muitas vezes descalço, e vertendo sangue, por serranias, por bosques, por espinhos, por pedras agudas, por neves, por areias ardentes, com a trouxa dos ornamentos sagrados às costas, disfarçado em marinheiro, em escravo, em lacaio, podendo mal andar, e correndo atropelado diante dos cavalos, suando, anelando, espirando, ao sol, à chuva, a todos os rigores do tempo; sem descanso, sem casa, sem abrigo, sem segurança; conservando a vida só no disfarce, e não havendo entre a vida e a morte mais distância que o ser ou não ser conhecido. Assim estava vendo Xavier representado dentro em si mesmo o espetáculo formidável de seus trabalhos, bastantes a causar lástima e horror, quando fossem alheios ou fingidos, e não fora o que os havia de padecer o mesmo que os via. Enfim, no fim do último ato se descobriu também a última aparência. E que viu nela Xavier? Viu Xavier a Xavier despedindo-se do mundo e de si mesmo, não já lutando, mas rendido, enfermo, prostrado, desfalecido, morrendo, morto em uma ilha deserta, sobre aterra nua, só e no extremo desamparo: religioso sem companhia, cristão sem os auxílios da Igreja, homem sem nenhum socorro humano, porque, ainda que os anjos, e todo o céu, o assistia e esperava com palmas e coroas, tudo isto se lhe encobriu naquela representação pavorosa, para maior horror da tragédia.

 

 

§ IV

 

 

Que foi o que mostrou Deus a Xavier? Por que a José mostrou-lhe Deus as glórias, e escondeu-lhe os trabalhos, e a Xavier mostra-lhe os trabalhos, escondendo-lhe as glórias. A grande diferença que Deus fez deste grande homem a todos os homens. A forma com que Deus despachou e preveniu sempre aos maiores homens para as maiores empresas.

 

Mas quais vos parece que seriam os afetos que excitou toda esta vista no coração de um homem que assim velava, ou assim dormia? Não acordou ao estrondo de tamanha bateria. Porém antes que ouçamos o que fez, ou o que disse, quero-me admirar, e ponderar primeiro a novidade e estranheza desta representação. Tanto me admiro do que Deus mostrou a Xavier neste sonho, como do que lhe encobriu. Antes de José ir ao Egito, sonhou profeticamente, não uma, senão duas vezes, o sucesso desta sua peregrinação. E que foi o que Deus lhe manifestou? Os sinais foram diversos, um no céu, outro na terra, um nas espigas, outro nas estrelas, mas em ambos nenhuma outra coisa lhe mostrou Deus, senão a grandeza, o trono, a majestade a que havia de ser sublimado, e em que não só os estranhos, mas seus próprios pais e irmãos o haviam de adorar. Caso notável, e mais notável à vista do nosso! José, antes de chegar a estas felicidades, padeceu as invejas, os ódios, as ferezas e as tiranias de seus irmãos, que o despiram, que o ataram, que o meteram no fundo da cisterna, que lhe quiseram tirar a vida, que o venderam. Perdeu a pátria, perdeu a casa de seu pai, perdeu o mesmo pai, que tão singularmente o amava. Foi levado escravo, e como escravo, a Egito, e lá outra vez vendido; depois perseguido, e acusado inocentemente; preso, carregado de ferros, e mais carregado de um falso testemunho tão feio e tão enorme; afrontado, desonrado, e chegado enfim a um tal extremo de miséria e desamparo, que se Deus milagrosamente lhe não acudira, sem dúvida acabava a vida em um suplício infame, Pois, se José havia de padecer tantos e tão desusados trabalhos, por que lhe esconde Deus os trabalhos, e lhe revela somente as glórias? Os trabalhos foram primeiro, as glórias depois: siga Deus a mesma ordem, e se não, mostre-lhe as glórias, e os trabalhos juntamente: mas as glórias sim, e os trabalhos não? Ah! Xavier meu, que singular homem sois! Vede quanto vai de sonho a sonho, e de homem a homem. A José mostra-lhe Deus as glórias, e esconde-lhe os trabalhos: a Xavier mostra-lhe os trabalhos, e esconde-lhe as glórias.

 

Por certo que depois de Deus mostrar a Xavier aquele grande teatro de trabalhos, de perigos, de assombros, pudera facilmente correr outra cortina, e mostrar-lhe um Monte Tabor de glórias muito maiores que as de José, não adorado de onze lavradores nas espigas, nem de uma só família nas estrelas, nem de um só reino no Egito, mas de príncipes, de reis, de imperadores, de pontífices, e de todo o mundo. Pudera contrapor à dureza dos climas e das gentes, o rendimento e obediência delas, às perseguições os obséquios, ao ódio o amor, às injúrias os aplausos, às enfermidades as saúdes milagrosas, às mortes as vidas e ressurreições de tantos mortos, aos sóis o sol parado a seu império, aos caminhos e peregrinações as peregrinações sem caminhos, quando no mesmo tempo, sem dar passo, se achava presente e tão distantes lugares; às pestes as mesmas pestes exterminadas de cidades, de reinos, só com a invocação sempre eficaz de seu patrocínio; às tempestades e furores do mar o mesmo mar humilhado, manso, reverente, e o oceano doce, só com meter, nele, um pé; aos perigos da natureza e da malícia a sujeição da mesma natureza nos elementos, e da mesma malícia nos homens; às guerras e batalhas do inferno o mesmo inferno vencido, sopeado, despojado, triunfado; enfim, os templos, os altares, as estátuas, os mausoléus, os incensos, os votos, os sacrifícios, e a imortalidade gloriosa do nome de Xavier, com a memória sempre viva, com a devoção sempre crescendo, com as maravilhas sempre novas, reconhecido no Oriente por luz da Ásia, no Ocidente por escudo firmíssimo da Europa, e em toda a parte por propiciatório universal da Igreja, como se Deus derrubara e desfizera por ele tantos ídolos, para levantar no mundo um só oráculo.

 

Mas todas estas glórias — não falando nas do céu — encobriu Deus a Xavier naquele sonho, porque, ainda que estava dormindo, era Xavier o que dormia. A José mostra-lhe glórias, para depois o animar aos trabalhos; a Xavier mostra-lhe trabalhos, porque essas eram as suas glórias. A um e outro cortou Deus a visão pelas medidas do seu espírito, mostrando a cada um o que podia obrigar, e encobrindo-lhe o que o podia ofender. A José só glórias, para que a mistura dos trabalhos lhe não dessazonasse o gosto, a Xavier, só trabalhos, para que a companhia das glórias lhe não diminuísse a fineza. O desejo e espírito de Xavier não era padecer para gozar, senão padecer por padecer, porque era amar por amar, e mereciam os quilates desta fineza que o convidasse Deus com os trabalhos puros e secos, sem liga nem mistura de interesse. Desconfiaria Xavier, e duvidaria da verdade do que via, se Deus lhe mostrasse outra coisa que não fossem trabalhos. José, quando viu tantas glórias, creu que o sonho era revelação; Xavier, se não vira trabalhos, cuidaria que a revelação era sonho, Enfim, a José tratou-o Deus como homem, a Xavier como exceção dos homens.

 

A missão, para que Deus prevenia a Xavier naquele sonho era a maior que nunca houve no mundo, porque também o mundo então era o maior que nunca havia sido. E quando vejo os termos com que Deus o convida para tamanha empresa, não posso deixar de conhecer a grande diferença que Deus fez deste grande homem a todos os homens. A Abraão mandou Deus sair, e deixar a pátria e os parentes: Egredere de terra tua, et de cognatione tua[45]e promete-lhe que, pela pouca terra que deixa, lhe dará muitas e melhores terras, e pelos poucos parentes de que se aparta, o fará pai e cabeça de uma nação inumerável, nova e nobilíssima: Et fatiam te in gentem magnam[46]. — A Jonas manda-o pregar aos Ninivitas, e como a maior lisonja de um pregador é a magnificência do teatro, condescende Deus com este afeto humano, e representa-lhe a grandeza da imensa cidade e corte, onde o manda, a maior que então havia e nunca houve no mundo, e por antonomásia a grande: fade in Niniven, civitatem grandem, et praedica in ea[47]. — A Moisés manda-o ao Egito a libertar da servidão o povo hebreu cativo, e sobre lhe dar na vara uma amplíssima delegação de sua onipotência, honra-o não menos que com o título de Deus de Faraó: Constitui te Deum Pharaonis[48]. — Finalmente elege a Jeremias profeta das gentes, e posto que não gentes bárbaras nem remotas, promete-lhe Deus a imunidade de todos os perigos no seguro de sua própria assistência: Tecum sum, ut eruam te[49]e dá-lhe jurisdição e poder absoluto de fazer e desfazer reis e reinos: Ecce constitui te hodie super gentes et regna, ut evellas et disperdas, aedifices et plantes[50], — Esta é a forma com que Deus despachou e preveniu sempre aos maiores homens para as maiores empresas. E sendo a de Xavier igual a todas estas juntas, e maior que todas, vede a diferença inaudita com que Deus o trata. Quer que se desterre da pátria, como Abraão, e muito melhor pátria; quer que vá pregar a terras estranhas, como Jonas, e muito mais estranhas; quer que vá libertar, não um povo, como Moisés, senão infinitos povos; quer que se meta nos perigos, como Jeremias, e muito mais presentes e formidáveis perigos; e com que prêmios o convida, com que esperanças o anima, com que promessas o alenta, com que assistências o assegura? Para que se desterre, convida-o com os desterros; para que se embarque, anima-o com as tempestades; para que prossiga, assegura-lhe os trabalhos; para que não desista, amontoa-lhe as dificuldades; para que não tema, afeia-lhe os perigos; enfim, para que padeça e mais padeça, o que lhe promete, o que lhe assegura, o que lhe mostra, é tudo o que há de padecer, e nada mais. Houve homem algum no mundo, a quem Deus tratasse com esta singularidade?

 

 

§V

 

 

S. Paulo e S. Francisco Xavier. O exemplo de S. Paulo de nenhum modo diminui a gloriosa singularidade verdadeiramente única de S. Francisco Xavier Que é o que Cristo mostrou a S. Paulo antes de o mandar à sua missão, e lhe encarregar o apostolado das gentes? A lição que Davi, sendo tão douto e tão santo, pedia a Deus lhe ensinasse.

 

Dir-me-eis que só S. Paulo, ao qual ou do qual disse Cristo: Ego ostendam illi quanta oporteat eum pro nomine meo pati (At. 9, 16): Eu lhe mostrarei quanto há de padecer por mim. — Primeiramente, quando assim fora, não era pequena glória que fiasse Deus tanto de Xavier dormindo como de S. Paulo acordado. Mas não é assim, nem foi assim, nem querem dizer isso aquelas palavras. Não quis dizer Cristo que havia de mostrar antecedentemente a S. Paulo quantos trabalhos havia de padecer por seu nome, senão que lhe daria muitas ocasiões de padecer, e que padeceria muito. Assim explicam o texto todos os comentadores, e essa é a força e significação da palavra ostendam illi —como consta de muitos lugares da Escritura. No salmo 59: Ostendisti populo tuo dura, potasti nos vino compunctionis[51]. No salmo 70: Quantas ostendisti mihi tribulationes multas et malas, et conversus vivificasti me[52]!E o mesmo Cristo, no capítulo 10 de S. João: Multa opera bona ostendi vobis, id est, feci, exhibui[53]. — E que de fato não mostrasse Cristo antecedentemente a S. Paulo, como a Xavier, todos os trabalhos que por seu nome havia de padecer, prova-se claramente no capítulo 20 e 21 dos Atos dos Apóstolos, onde, revelando o Espírito Santo a Agabo, e outros profetas daquele tempo, as perseguições que em Jerusalém estavam aparelhadas a S. Paulo, o mesmo apóstolo confessou aos cristãos de Mileto que ignorava o que ali havia de suceder: Et nunc ecce ego alligatus spiritu vado in Jerusalem, quae in ea ventura sint mihi, ignorans[54]. — De maneira que o exemplo de S. Paulo de nenhum modo diminui esta gloriosa singularidade, verdadeiramente única de S. Francisco Xavier. Antes acrescento que as mesmas revelações de S. Paulo a qualificam muito mais. E se não, pergunto: Que é o que Cristo mostrou a S. Paulo antes de o mandar à sua missão, e lhe encarregar o apostolado das gentes? O que Cristo lhe mostrou não foram os trabalhos, não, senão as glórias e a coroa que no céu lhe tinha aparelhado, e para isso o levou arrebatado ao céu empíreo. Santo Tomás, a quem muitos seguem, tem para si que essa revelação sucedeu logo no princípio da conversão de S. Paulo, naqueles três dias em que teve os olhos fechados. Porém, o mesmo S. Paulo na segunda Epístola aos Coríntios, que foi escrita no segundo ano do imperador Nero, expressamente afirma que teve este rapto ante annos quatuordecim, (2 Cor. 12, 2): catorze anos antes. — E, conforme a verdadeira cronologia dos tempos, vem a cair no ano segundo de Cláudio, e quarenta e quatro de Cristo, que foi o ano em que S. Paulo foi ordenado Apóstolo das Gentes, pouco antes de partir e tomar posse da missão, como diligentissimamente notou Cornélio:

 

Raptus ergo fuit Paulus anno Claudii imperatoris secundo, quo anno jubente Spiritu Sancto ordinatus est cum Barnaba Apostolus, et Doctor Gentium, paulo videlicet antequam hunc apostolatum ordiretur. — Vede agora a diferença com que Deus tratou os dois apóstolos das gentes: a Paulo, que tirou a Xavier o ser o primeiro, e a Xavier, que tirou a Paulo o ser o único, sendo porém Xavier o primeiro e o único nesta singularidade. A Paulo, antes de entrar na carreira, arrebata-o Cristo ao céu, e mostra-lhe as coroas que havia de merecer; a Xavier, antes de entrar na batalha, leva-o à campanha e mostra-lhe es exércitos com que havia de pelejar. A Paulo diz: Estas são as glórias que hás de gozar — e a Xavier; Estes são os trabalhos que hás de padecer. — Assim enche Cristo estes dois vasos de eleição com tão diferentes licores, assim anima estes dois valentes soldados, para que, do diferente modo com que os anima, se veja a diferença do ânimo de cada um. A diferença, digo, naquele tempo. Eu não nego a S. Paulo que trabalhou mais que todos os apóstolos: Plus omnibus laboravi[55] — nem também posso negar ou afirmar de Xavier que trabalhou mais que S. Paulo. O que sei de certo é que no catálogo que S. Paulo escreveu de seus trabalhos e perigos, apenas se lê algum que não padecesse Xavier outros semelhantes, padecendo muitos

 

outros que ali se não acham: In labore et aerumna, in vigiliis multis, infame et siti, in jejuniis multis, in frigore et nuditate, in plagis supra modum, in mortibus frequentei, in itineribus saepe, periculis fluminum, periculis latronum, periculis ex genere, periculis ex gentibus, periculis in civitate, periculis in solitudine, periculis in mari, periculis in falsis fratribusr[56]. — Tudo isto padeceu Paulo, tudo isto padeceu Xavier, mas, antes de o padecerem, com grande diferença. A Xavier mostrou-lhe Deus só os perigos e os trabalhos, a Paulo mostrou-lhe as glórias e os prêmios. A ambos quis satisfazer Cristo, mas com diferente satisfação: a Paulo mostrou-lhe os prêmios com que lhe havia de satisfazer os trabalhos, a Xavier mostrou-lhe os trabalhos, com que lhe havia de satisfazer os desejos.

 

Dizia o mesmo S. Paulo que para um homem servir a Deus era necessário crer primeiro duas coisas: uma, que é Deus, outra, que é remunerador: Accedentem ad Deum oportet credere quia est, et remunerator sit[57].E este estilo guardou Cristo com S. Paulo: primeiro lhe mostrou que era: quia est — quando o derrubou, e lhe disse: Ego sum Jesus, quem tu persequeris[58]; depois lhe mostrou que era remunerador, quia remunerator est — quando o arrebatou ao céu, e lhe mostrou a glória. A Xavier não assim. Quando quer que o sirva tanto, mostra-lhe os trabalhes e não lhe mostra os prêmios. A Paulo trata-o como remunerador, a Xavier como Deus. Ainda que Deus não fora remunerador, nem tivera prêmios, basta que possa dar trabalhos, para que Xavier o sirva. Esta é aquela altíssima filosofia, e aquela futilíssima lição que Davi pedia a Deus lhe ensinasse: Doce me facere voluntatem tuam, quia Deus meus es tu[59]. — Este verso não anda comumente bem entendido, nem bem construído. Aquele quia Deus meus es tu não se há de construir com o doce me, senão como o facere voluntatem tuam; não quer dizer: Ensinai-me, porque sois meu Deus, a fazer vossa vontade — senão: Ensinai-me a fazer a vossa vontade, porque sois meu Deus. — E esta é a lição que Davi, sendo tão douto e tão santo, pedia a Deus lhe ensinasse: fazer a vontade de Deus, sem outro motivo, sem outro interesse, sem outro prêmio, sem outro porquê, senão porque Deus é Deus; não porque é remunerador, senão porque é: quia est. E porque este era o modo puro, desinteressado e finíssimo, com que Xavier servia e queria servir a Deus, por isso Deus lhe não mostra as glórias, como a Paulo, senão os trabalhos. Trabalhe Paulo, padeça Paulo, sirva a Deus Paulo, mas a Deus, como remunerador; trabalhe também Xavier, padeça Xavier, sirva a Deus Xavier, mas a Deus, como Deus: quia est: guia Deus meus es tu.

 

 

§ VI

 

 

Os gemidos da dor e os ais do desejo. Por que para ouvir o triságio de Xavier; calou-se o triságio dos anjos do Apocalipse? A visão beatífica dos espíritos celestiais e impassíveis, e a terrível visão de Xavier As três vozes do Tabor e as três vozes de Xavier

 

E como se houve cada um dos dois apóstolos à vista de duas representações tão diversas? S. Paulo à vista das glórias, estando acordado, não soube se estava em si ou fora de si: Sive in corpore, sive extra corpus nescio[60]; Xavier à vista dos trabalhos, estando dormindo, esteve tanto em si que começou a bradar: Mais, mais, mais. Eu cuidava que as vozes de Xavier neste caso haviam de ser ais, e não foram ais, senão mais. Parece que haviam de ser ais, porque estas são as vozes próprias dos trabalhos, das penas, dos tormentos. Mas não foram ais, senão mais. Por quê? Porque a dor e o desejo fazem muito diferentes ecos no coração humano, e têm muito diversos gemidos: os gemidos da dor são ais, os ais do desejo são mais. E como os desejos em que Xavier ardia de padecer por Cristo eram excessivamente muito maiores que os trabalhos que lhe representava, apertavam-lhe o coração os desejos, e não os tormentos; e por isso os gemidos que se lhe ouviam, não eram os ais da dor, senão os ais do desejo: mais, mais, mais. Cristo na cruz quando já se lhe acabavam os tormentos, bradou dizendo: Sitio (Jo. 19, 28): Tenho sede. — E como assim; Senhor? Repara agudamente Gualberto: De cruce taces, et de siti clamas? A cruz sofreis-la com silêncio, e a sede faz-vos dar vozes? — Sim, porque a sede era sede de mais padecer por amor dos homens. E, ainda que o atormentava muito a cruz que padecia, muito mais o atormentava o desejo que tinha de padecer mais. Por isso os brados e os gemidos não eram da cruz, senão da sede: Sitio, sitio. — Tais foram as vozes de Xavier naquele temeroso espetáculo de si mesmo. Via-se estender e cravar naquela grande cruz, e em tantas cruzes quantas Deus lhe representava; mas, ainda que as penas e os tormentos eram tão multiplicados e tão imensos, como o desejo e a sede de padecer por Cristo era muito maior: De cruce tacet, et de siti clamat — não se lhe ouvem vozes de dor, e só se ouviam os brados do desejo: mais, mais. Estes eram os ais daquele coração verdadeiramente angustiado, não angustiado pela grandeza das penas, senão angustiado pela estreiteza delas, porque eram muito estreitos os trabalhos, sendo tão largo o coração; eram água pouca para tanta sede, e pouco padecer para tanto desejar. Os trabalhos são grandes ou pequenos, pela medida e proporção do desejo ou do temor. Se aqueles trabalhos fossem iguais ao desejo de Xavier, recebê-lo-ia com silêncio, com resignação, com igualdade de ânimo; se os trabalhos fossem maiores que o desejo, ouvir-se-lhe-iam as vozes da dor, e diria soçobrado, e aflito: Ai, ai, ai; mas como os desejos eram tanto maiores que os trabalhos, e a sede tanto mais ardente, rebentava o coração naquela estreiteza, e bradava ansiado e pedia mais, mais, mais.

 

Oh! quem pudera declarar dignamente a harmonia destas três vozes, e o eco que fizeram no céu quando lá foram ouvidas! No capítulo 4 do Apocalipse viu S. João aqueles quatro querubins de quatro rostos e seis asas, que continuamente sem cessar estavam entoando diante do trono de Deus: Sanctus, Sanctus, Sanctus (Apc. 4, 8). — Porém, no capítulo 8 diz que cessavam subitamente estas vozes, e que por espaço de meia hora se fez no céu um grande silêncio: Factum est silentium in caelo, quasi media hora (ibid. 8,1) — e que um anjo neste tempo tomou um incensário para oferecer nele das orações de todos os santos: Ut daret de orationibus sanctorum omnium (ibid. 3). — O que neste passo se deve muito notar, é que naquele silêncio não ofereceu o anjo todas as orações de todos os santos, senão que de todas elas tirou e escolheu o que pôs no incensário para apresentar a Deus, como se de todos os memoriais apartasse um: Ut daret de orationibus. — Agora pergunto: e que memorial, ou que oração particular foi esta, por uma parte de tanto preço e estimação, que foi escolhida entre todas as orações de todos os santos, e por outra parte de tanta harmonia e de tanto aplauso no céu, que se pôs silêncio às vozes dos querubins, para que só ela fosse ouvida? Cessam no céu aquelas três vozes: Sanctus, Sanctus, Sanctus — para que se ouçam vozes da terra? Que vozes seriam estas? Cuide cada um o que lhe parecer, que eu, entre todas as orações de todos os santos, não acho três vozes que pudessem pôr silêncio às vozes dos querubins, senão aqueles três mais de Xavier. No tempo em que Xavier na terra se lhe estava representando aquela Ilíade de trabalhos, aquele labirinto de perigos, aquele caos de horrores que ouvistes, estavam os querubins no céu, como sempre, continuando com a sua música, e cantando a Deus: Sanctus, Sanctus, Sanctus; mas, quando no meio desta harmonia, com outra nunca jamais ouvida, soaram no céu as vozes de Xavier, mandou Deus que parassem as vozes do céu: Factum est silentium in caelo — porque queria ouvir aquelas vozes da terra. Os querubins, à vista da, glória, diziam a Deus: Sanctus, Sanctus, Sanctus; Xavier, à vista dos trabalhos, dizia a Deus: mais, mais, mais. E estas vozes tão acordadas — e mais ditas por um homem dormindo — quem duvida que eram muito mais admiráveis aos ouvidos de toda a corte do céu?

 

E senão, comparai visão com visão, pessoas com pessoas, e vozes com vozes. Na visão beatifica, em uma visão de glória, espíritos celestiais e impassíveis, que digam a Deus: Sanctus, Sanctus, Sanctus — é afeto natural, não é maravilha; mas na visão de Xavier, em uma visão tão medonha e tão terrível, em que se representava, não o sumo Bem, senão o sumo dos males da natureza, que um homem de carne diga mais, mais, mais, estas são as vozes admiráveis, e que fazem mais admirável a Deus, e mais glorioso, e por isso mais merecedoras de serem ouvidas no céu. Digam-no as mesmas vozes no céu, e do mesmo Senhor do céu, nas suas maiores glórias. No dia da transfiguração trasladou-se a glória do céu à terra, e apareceu visível no Tabor. E que vozes se ouviram ali? Loquebantur de excessu, quem completurus erat in Jerusalem (Lc. 9, 31): Cristo, Moisés e Elias, o que falavam e celebravam eram os excessos que o Redentor do mundo havia de padecer em Jerusalém. Pois estas eram as vozes, esta era a música celestial que em tal dia e tal ato se ouvia naquele monte da glória? Sim, estas eram. Três vozes, uma de Cristo, outra de Moisés, outra de Elias, que publicavam os excessos que o mesmo Senhor havia de padecer, porque não há vozes mais dignas de se ouvirem na glória, que vozes de padecer, e padecer com excesso. Vede se se pareciam estas três vozes com as três de Xavier. Mas que ouço? Ouviu-se ali no mesmo tempo uma voz do céu: Et ecce vox de nube, dicens (Mt. 17, 5). — E que dizia essa voz? Ipsum audite: Ouvi-o — Notai duas coisas. Não disse vede-o, senão ouvi-o, porque, estando Cristo tanto para ver, estava muito mais para ouvir. E não disse a mesma voz: ouvi-me- senão: ouvi-o, porque no mesmo lugar da glória, qual então era o Tabor, não são tanto para ouvir as vozes do céu como as vozes do padecer, e padecer com excesso: Loquebantur de excessu. E que excessos de padecer, como os daquela oração de Xavier? Que excessos de padecer, como os que Xavier pedia? Mais padecer, mais padecer, mais, mais, mais. Que muito logo que para se ouvir este triságio de Xavier cale o triságio dos anjos, e que para se ouvirem estas vozes da terra, se ponha silêncio às do céu: Factum est silentium in caelo?

 

 

§ VII

 

 

Razões por que foi muito maior excesso de valor em Xavier pedir mais trabalhos quando se lhe representavam em sonhos que quando os padecia vigiando, Jó e a aflição e horror com que combatem, penetram e assombram uma alma os trabalhos e perigos sonhados. A representação e apreensão de Cristo no Horto e os sonhos de Xavier.

 

O afinado destas vozes é o que eu sobretudo quisera saber ponderar. Mas, antes de o fazer, quero-vos aquietaro pensamento. Vejo que estais dizendo convosco, que pedir mais em trabalhos sonhados não parece grande coisa; mas que, se Xavier dissera isto mesmo no tempo em que depois os padeceu, então seria uma grande façanha de seu espírito e de seus espíritos. Primeiramente, o que S. Francisco Xavier disse esta vez dormindo, repetiu e ratificou depois muitas vezes acordado, e mais nos maiores trabalhos e perigos. Mas digo que muito maior excesso de valor foi pedir mais trabalhos quando se lhe representavam em sonhos, que quando os padecia vigiando, por duas razões: primeira, porque os trabalhos em sonhos causam muito maior horror. Em matéria de trabalhos não pode haver mais qualificada testemunha, nem mais experimentada, que Jó. Vede o que dizia: Si dormiero, ditam; Quando consurgam (Jó 7,4)? Se durmo, desejo não dormir, e estou dizendo dentro em mim: quando há de chegar a hora em que hei de despertar? — Notável dizer, e mais notável desejar, de um homem que estava coberto de chagas, e todo o dia martirizado de dores, como ele confessa no mesmo verso: Et replebor doloribus usque ad tenebras[61] — Pois, se Jó se queixa das suas dores, e só a noite e o sono podia pôr tréguas a esta dura batalha, por que deseja não dormir? E se o demônio o queria tentar e vencer a pura bataria de tormentos, por que não lhe tira ou lhe impede o sono? Porque o queria atormentar mais com os trabalhos sonhados que com os trabalhos padecidos, e por isso Jó escolhia antes padecer velando que penar dormindo. A resposta é de Orígenes, de S. Crisóstomo e de S. Gregório; mas eu não quero outro intérprete, senão o mesmo Jó, que logo declarou o porquê deste seu desejo: Si dixero; Consolabitur me lectulus meus, terrebis me per somnia, et per visiones horrore concuties. Quamobrem elegit suspendium anima mea, et mortem ossa mea[62]: Tenho medo ao sono — diz Jó — porque os sonhos e as visões que nele se me representam, me causam maior tormento e me fazem maior horror que as penas que, velando, padeço; tanto assim, que,. para se livrar a minha alma de tal gênero de penar, me desejo tirar a vida com minhas próprias mãos: Quamobrem elegit suspendium anima mea. — Assim temia e tremia Jó dos seus sonhos, e tal é a aflição e horror com que combatem, penetram e assombram uma alma os trabalhos e perigos sonhados.

 

A razão natural desta diferença é porque os perigos, os temores, e quaisquer trabalhos e tormentos, mais se padecem na apreensão que nos sentidos, e a apreensão no homem é muito mais viva, muito mais intensa e muito mais penetrante quando dorme que quando vigia. Quando o corpo vigia, está a alma divertida, e como espalhada pelos sentidos e potências exteriores; quando dorme, está toda unida e recolhida dentro em si, e por isso padece toda e totalmente, e quanto mais atenta a sua dor tanto a mesma dor é mais intensa. É o sono uma morte breve, por onde Sêneca sabiamente chamou à morte morte longa, para a distinguir do sono. E assim como na morte fica a alma separada do corpo, e, por ficar separada, conhece melhor e padece mais — como se vê na ausência de Deus, que então é o maior tormento da alma, sendo que na vida, quase a não sente — assim no sono, pelo que tem de morte, posto que a alma esteja unida ao corpo, fica por aquele breve espaço com propriedades de alma separada, e assim conhece e apreende mais vivamente, e ou goza ou padece com maior eficácia. Por isso Jó temia tanto os seus sonhos, e padecia mais insofrivelmente quando dormia que quando velava. E por isso os trabalhos, os perigos, as aflições, e todo aquele tropel de penas e calamidades que Deus mostrou a Xavier em sonhos, naturalmente causavam maior horror, e eram mais temerosas e formidáveis quando se lhe representavam dormindo que quando depois as padeceu vigiando.

 

Acrescenta-se — e é a segunda razão — que os trabalhos e perigos de Xavier, quando depois os padeceu, foram padecidos sucessivamente, e por partes, agora uns, e depois outros; mas naquele sonho representaram-se-lhe todos juntos, e aquele exército de calamidades, todo unido de um assalto e de uma bataria, não há dúvida que causava muito maior terror; e assim foi muito maior excesso de valor, e constância de ânimo, atrever-se então contra todos, e parecerem-lhe poucos, que quando depois os venceu e padeceu um por um. Cristo no Horto, deixando obrar os afetos da natureza, temeu tanto os tormentos em que havia de entrar, que chegou a suar sangue, e pedir ao Padre o aliviasse do cálix, e parece que foi necessário que viesse um anjo a confortá-lo. Tudo isto antes da batalha; mas depois de entrar nela, nem temeu, nem suou, nem pediu que parassem ou se diminuíssem os tormentos; antes, lembrou a seus atormentadores o fel de que se esqueciam, e nem antes da cruz, nem na mesma cruz houve anjo que o viesse confortar. Pois, se Cristo sofreu todas as penas e dores de sua Paixão com tanto silêncio, com tanta fortaleza, com tanta constância, como no Horto quando ainda as não padecia, lhe causaram tanto temor e aflição, que o obrigaram a tais extremos? Os tormentos que temeu no Horto, e os que padeceu no discurso da Paixão não eram os mesmos? Sim, eram. Mas no discurso da Paixão padece-os nos sentidos, no Horto padece-os na apreensão; no discurso da Paixão padece-os por partes, e uns depois dos outros, no Horto representaram-se-lhe todos juntos. E aquela multidão e tumulto de trabalhos unidos, postos juntamente à vista, e como assentados em uma bataria ao mesmo tempo, claro está que naturalmente haviam de fazer maior golpe no coração, e produzir maiores e mais terríveis efeitos de horror e assombro, do que depois, divididos por partes, e padecidos cada um por si em diversos tempos. Tanta é a diferença que vai de se padecerem os tormentos por partes, e se beberem gota a gota, ou se representarem todos com toda a sua amargura dentre em um só cálix.

 

Tal foi a representação e a apreensão de Cristo no Horto, e tal a de Xavier no seu sonho. E sendo os trabalhos e perigos que Deus ali mostrou a Xavier tantos, tão feios, tão temerosos, e tão vivamente representados, que, vendo-os decretados, e armados todos contra si, e cair e descarregar todos sobre um corpo de carne, e não de bronze,

 

como dizia Jó, não temesse, não desmaiasse, não assombrasse, antes lhe parecessem poucos, e bradasse mais, mais, mais? Não há dúvida que foi uma voz nunca ouvida no mundo, e um extremo de fortaleza e valor sem exemplo entre os homens.

 

 

§ VIII

 

 

Por que não desafiou Golias a todos, ou a muitos, ou a dois, senão a um só, corpo-a-corpo? Xavier e os maiores atletas da Escritura Sagrada. O famosíssimo desafio de S. Paulo, e o tríplice desafio de Xavier.

 

O gigante Golias era um homem que valia por dez mil: David autem decem milha (1 Rs. 18, 7) — e aquele exército de homens em um homem, aquele monstro vastíssimo da natureza, aquela torre armada de ferro, como lhe chama Crisóstomo, plantada e soberba diante dos exércitos de Israel, que é o que fez ou o que disse com toda a sua arrogância? — Stans, clamabat adversum phalangas Israel: Eligite ex vobis virum, et descendat ad singulare certamen (1 Rs. 17, 8): Escolhei — dizia — um de vós, e saia comigo a desafio. — Um de vós? E que valentia é essa para um filisteu, para um gigante, para um Golias, tamanho como a sua soberba? Isso é desafiar um monte a um torrão, um cedro a um junco, um elefante a uma formiga. Contudo, não desafiou Golias, nem a todos, nem a muitos, nem a dois, senão a um só corpo-a-corpo: Ad singulare certamem. —Podia-se escusar com Hércules, famoso pelas vitórias de seus trabalhos, o qual ainda que matou dragões, venceu Anteus, prendeu Cérberos e descabeçou hidras, deixou contudo em provérbio ao mundo, que nec Hercules contra duos[63]. — Porém Xavier, do mundo maior gigante que o gigante, e maior Hércules que Hércules, com o exército imenso de seus trabalhos, e com os monstros feríssimos de seus perigos à vista, não só desafia a todos, mas diz que são poucos, e que venham mais; e, se vierem mais, que cresçam mais ainda, e se mais, mais.

 

Eu não quero desfazer no valor dos maiores atletas da fortaleza humana e sagrada. Mas não posso deixar de conhecer uma notável diferença entre aqueles grandes heróis, e este mais que grande. Elias, cuja espada ardente não teve igual, cansado de fugir às perseguições de Jesabel, pede a morte por partido: Petivit animae suae ut moreretur (3 Rs. 19, 4) — e Xavier pede mais perseguições. Moisés, armado da onipotência, teme a Faraó, e resiste uma e outra vez a entrar no Egito: Mitte quem missurus es[64] — e Xavier pede mais Faraós e mais Egitos. José, com um peito feito à prova de ódios, de invejas, de calúnias, de cativeiros, aflito de Putifar, busca terceiros para sair do cárcere: Memento mei, ut suggeras Pharaoni[65] — e Xavier pede mais calúnias, e mais cadeias. Jeremias, santificado antes de nascido, fortalecido com a graça, e ainda confirmado nela, geme, chora, lamenta-se dos rigores com que o trata Fassur, e chega a amaldiçoar o dia em que nasceu: Maledicta dies in qua natus sum! Quare de vulva egressus sum, ut viderem laborem et dolorem[66]?- e Xavier pede mais dores, e mais trabalhos. Davi, forte no nome, e entre os três fortes de Israel o fortíssimo, perseguido de Saul, desterrado e fugitivo, não fazia fim de pedir a Deus o livrasse: Eripe me de inimicis meis, Deus meus, et ab insurgentibus in me libera me[67] — e Xavier pede mais inimigos e mais perseguidores. Finalmente, Jó, o valente do céu, o terror do inferno, a coluna da constância, não lhe bastando a largueza de ânimo para os trabalhos, nem a paciência para as dores, rogava lastimado a Deus, que parasse nos tormentos, e afrouxasse um pouco os cordéis com que o apertava: Recede paululum ab eo, ut quiescat. Usquequo non partis mihi, nec dimittis me ut glutiam salivam meam?[68] — Porém Xavier, jazendo no seu leito, como posto a tormento em um ecúleo, que vozes eram as suas? Oh! valor, oh! constância incomparável! Dava Deus uma volta ao torcedor com os trabalhos, pobrezas, misérias, fomes, sedes, enfermidades, penas, dores, aflições, angústias; e Xavier respondia: mais. Dava outra volta com perseguições, ódios, invejas, iras, traições, afrontas, injúrias, desprezos, calúnias, com tantas acusações falsas, públicas, horrendas, contra a inocência, contra a virtude, e contra o zelo da honra de Deus, e salvação das almas, e Xavier: mais e mais. Dava outra volta com os perigos, tempestades, naufrágios, com todos os elementos, e a mesma natureza, conjurados contra uma vida, com a fereza dos bárbaros, com a crueldade dos tiranos, com a pertinácia dos demônios, com venenos, serpentes, feras, armas, cruzes, mortes, e mil gêneros de mortes, e Xavier, mais, mais, mais. O virum ineffabilem, nec labore victum, nec morte vincendum[69]. Com este excesso de admiração canta e apregoa a Igreja o valor daquele grande homem, que com a metade da capa cobriu a todo Cristo. Mas que vozes foram as de Martinho, que mereceram e deram no mundo tal eco? Si populo tuo sum necessarius, non recuso laborem: Se sou necessário a vosso povo, não recuso o trabalho. — Vede, medi, e comparai esta voz com aquelas vozes, este trabalho com aqueles trabalhos, Martinho; Não recuso — Xavier; Mais, mais, mais; Martinho ao trabalho de uma igreja e povo de Turon, católico e sujeito, Xavier, aos trabalhos de uma diocese imensa de novos mundos, incógnitos, inimigos, belicosos, bárbaros, feros, e que se haviam de conquistar a pura força de padecer.

 

Mas dê-me licença Xavier, que tão animoso, tão intrépido e tão bravo se mostra, dê-me licença que neste leito, ou ecúleo, onde está posto a tormentos, seja eu o que lhe faça a questão. Quem diz, mais, mais, mais, nenhuma coisa excetua. — É assim Xavier? — Assim é. — E se os executores desse mais e mais, que pedis, forem Neros, Dioclecianos, e os instrumentos das penas, a que vos ofereceis, forem os de todos os mártires, que direis a cada um? Mais a cada um, e mais a todos; às pedras de Estêvão, mais pedras; às setas de Sebastião, mais setas; às grelhas de Lourenço, mais grelhas; às rodas e navalhas de Catarina, mais rodas e mais navalhas; aos cárceres, às cadeias, aos leões, aos tigres, ao chumbo derretido, às sertãs e lâminas ardentes, às unhas e garfos de ferro, às cruzes, às catastas, às garruchas, às fogueiras, mais, mais, mais. Tudo isto significa, e tudo isto abraçava aquela animosa resolução de Xavier. Mas vamos adiante. —Todos esses tormentos, Xavier, que vos representei, são os dos mártires já passados; porém no mundo ainda há de haver outros mártires; aqueles martírios horrendíssimos que estão reservados para Enoc e Elias, aqueles que hão de ser executados nos que então defenderem as partes de Cristo, aqueles que se hão de inventar na última tribulação e perseguição da Igreja, que será — como disse Cristo — a mais cruel e a mais terrível que nunca se viu nem ouviu: Qualis non fuit ab initio (Mt. 24, 21). — E se vos vísseis presentado diante do anticristo, armado de todo o poder, de toda a tirania, de todo o terror do inferno, que diríeis no meio de todos estes horrores? Que diríeis condenado a todos estes tormentos? Que diríeis metido neles? Mais, mais, mais. Mais? Já não há mais, porque se acabou o mundo, Acabou-se o mundo, mas não se acabou o poder de Deus. Ainda restam todos os trabalhos, e todas as penas, e todos os tormentos possíveis. E aos possíveis, que diria Xavier? Diria e diz o que tem dito, porque tudo abraça, tudo compreende, a tudo se estende aquele mais, sem limite nem fim: mais, mais, mais: um mais para o presente, outro mais para o futuro, outro mais para o possível. Seja fiador de Xavier dormindo Paulo acordado.

 

O maior desafio que nunca se fez no mundo foi aquele em que S. Paulo, por um cartel firmado da sua mão, reptou a todas as criaturas: Quis nos separabit a charitate Christi? Tribulatio, an angustia, an fames, an nuditas, an periculum, an persecutio, an gladius (Rom. 8, 35)? Quem haverá que nos aparte do amor de Cristo? Porventura a tribulação, a angústia, a fome, a desnudez, o perigo, a perseguição, a espada? — Parece que tinha dito assaz o apóstolo, mas ainda passa adiante: Certus sum quia negue mors, neque vita, neque angeli, neque potestates, neque virtutes, neque instantia, negue futura, neque fortitudo, negue altitudo, neque profundum, neque creatura alia poterit nos separare a charitate Dei (ibid. 38): Estou certo que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados e potestades, nem o presente, nem o futuro, nem tudo o que é forte no mundo, nem o mais alto, nem o mais profundo, nem alguma outra criatura nos poderá separar da caridade de Deus. — Até aqui o famosíssimo desafio de S. Paulo, animoso, forte, grande, e não fácil de compreender. Só reparo naquela última cláusula: neque creatura alia — ou, como lê, com maior expressão, o texto original: neque alia aliqua creatura: nem alguma criatura outra. E que criatura é esta que Paulo não assina nem nomeia, havendo nomeado e desafiado a todas? Se desafiou as atribulações, as angústias, as fomes, as sedes, os perigos, as perseguições, as espadas; se desafiou o céu, a terra e o inferno; os anjos, os homens, e os demônios; a vida e a morte, o alto e o profundo, o temporal e o eterno, o presente e o futuro, tudo o que é, e tudo o que há de ser; que criatura, ou criaturas outras são estas sem nome, que depois de todas, e sobre todas, ainda provoca? São os possíveis. O possível, como tal, nem é, nem há de ser, mas pode ser; e este possível, isto é, todo o possível, é aquela criatura outra que Paulo reptou no último lugar: Neque aliqua alia creatura. — Teodoreto: Cum videret adhuc aliquid deesse, quaerit quidem aliquid aliud adjicere: cum autem non inveniret tantam et tam multiplicem creaturam, oratione affingit, et haec nec sic quidem videt omnino exaequari charitati in Deum: Quis Paulo, como se tocara arma a todas as criaturas, formar e unir em um corpo uma tal multidão, e como exército de trabalhos, perigos, adversidades e tormentos, que fosse igual à grandeza da sua caridade, e ao ânimo e resolução em que estava firme de padecer por Cristo; e depois de convocar, e provocar contra si a todas as criaturas que foram, são, e serão desde a terra até o céu, e desde o céu até o inferno, como se achasse que todas juntas ainda não igualavam a sua caridade, acrescentou no fim aquela universal neque alia aliqua creatura — para compreender tudo o que Deus pode criar, todos os possíveis. Dividiu Paulo tudo o que é, e há de ser, e pode ser, em três partes: Tot ac tanta, bis et ter — diz o mesmo Teodoreto. Na primeira parte, ou no primeiro esquadrão deste formidável exército de adversidades, pôs em campo contra si todo o presente: Tribulatio, na angustia; no segundo, todo o futuro: Neque instantia, neque futura; no terceiro, todo o possível: Neque aliqua alia creatura. — Assim Paulo, para não se apartar de Cristo: Quis nos separabit a charitate Christi? E assim, também, e mais finamente, Xavier, não para não se apartar, senão para mais servir, e mais servir e mais padecer por Cristo: Tot ac tanta, bis et ter: mais — diz — mais, e mais, uma, duas e três vezes: um mais para os trabalhos presentes, outro mais para os futuros, outro mais para os possíveis. Porque toda esta imensidade ou infinidade de padecer abraçava aquele mais, sem exceção, sem limite, sem fim.

 

 

§IX

 

 

O mais da onipotência divina e o mais da constância de Xavier A onipotência de Deus no obrar e a onipotência do homem no padecer A batalha entre Deus e Jacó e a luta entre Hércules e Anteu. Jacó e Xavier Os braços com que Xavier apertava tanto a Cristo, quando Cristo o apertava, que o fazia suar.

 

Parece que competiu neste passo a resolução, o valor e a paciência de Xavier com a onipotência divina. De uma parte a onipotência de Deus, e de outra a onipotência de Xavier. Não estranheis o vocábulo, que isso quer dizer charitas omnia suffert[70]. — É questão ainda não decidida se Deus pode criar o infinito. O em que concordam filósofos e teólogos é que pode criar o infinito, a que eles chamam sincategoremático, que vem a ser, produzir, em qualquer gênero de criaturas, sempre mais, mais e mais. Assim definiu Aristóteles o infinito: Cujus semper est aliquid aliud extra accipere. — Vede se concorda com o termo de S. Paulo: Ne que aliqua alia creatura — e monta tanto — dizem os intérpretes do mesmo filósofo — quod ulterius et ulterius semper extenditur: não pode Deus criar alguma coisa, que em espécie, número, intensão ou extensão seja atualmente infinita; mas nessa mesma espécie, nesse número, nessa extensão e intensão pode sempre produzir mais, e mais, e mais: ulterius et ulterius. E isto é o que Xavier desejou, pediu e instou, em gênero de trabalhos e tormentos. Como se dissera aquele ânimo invicto: Vós, Senhor, quereis que eu padeça por vós estes trabalhos que me representais, mas vós podeis fazer que sejam mais, e mais, e mais. Pois venham mais, e mais, e mais: querei tudo o que podeis, que eu estou pronto, não só a padecer tudo o que quereis, senão o que podeis também.

 

Assim o dissestes, meu santo, mas a mim parece-me demasiado dizer, e a alguém parecerá que é muito presumir. Jó dizia que era menos crédito da onipotência empregar as suas lanças em combater e afligir um homem, que em respeito daquele braço é uma palha seca: Contra folium, quod vento rapitur, ostendis potentiam tuam, et stipulam siccam persequeris[71]- e vós que não sois de melhor nem de mais duro metal, dizeis que para cada mais da onipotência tendes um mais de constância: logo, parece que imaginais que sereis tão onipotente em padecer trabalhos como Deus em os fabricar. Sim — diz Xavier- sim; e não é temeridade, porque ele pode tudo em si, e eu posso tudo nele: Omnia possum in eo qui me confortat[72]. — Para o homem competir com Deus, um em fazer, e outro em sofrer trabalhos, é necessário que seja tão onipotente o homem no padecer como Deus no obrar; e este correr parelhas com Deus não cabe na desigualdade do poder ou da fraqueza humana, nua, desacompanhada, e só consigo; mas se a mesma onipotência se puser também da parte do homem, confortando-o — in eo qui me confortat — então será tão onipotente o homem no mais e mais do padecer as penas, como Deus no mais e mais de as multiplicar, porque, se Deus pode tudo, o homem também pode tudo: Omnia possum. — Ouvi a S. Bernardo: Quantae fiduciae vox omnia possum in eo qui me confortat? Nihil omnipotentiam verbi clariorem reddit, quam quod omnipotentes facit: Parece demasiada confiança um tudo posso na boca de um homem; mas esta é a maior glória do Onipotente, fazer onipotentes. — Verbo innixum, et indutum virtute ex alto, nulla vis potest, nec stantem dejicere, nec subjicere dominantem: O homem que está em Deus, e Deus nele, nenhuma força, ainda que seja do mesmo Deus, o pode derrubar, nem vencer, porque combate uma onipotência com outra, ou, para melhor dizer, a mesma onipotência consigo. — Esta era a confiança onipotente, ou a onipotência confiada, com que Xavier dizia mais, mais, mais, metendo em campo um infinito contra outro infinito, porque estava certo que os mesmos braços onipotentes que Deus empenhasse em o combater se empenhariam também em o confortar: Omnia possum — sim, mas in eo, qui me confortat.

 

Grande caso foi que lutasse Deus com Jacó, e que Jacó se atrevesse a lutar com Deus arca por arca. Mas o que excede toda a maravilha e toda admiração é que estivesse sempre tão forte Jacó, que nunca Deus o pudesse derrubar nem vencer: Contra Deum fortis fuisti[73]. —Pois, se os competidores eram tão desiguais, um Deus, outro homem; se as forças de uma parte eram onipotentes e imensas, e da outra limitadas e fracas, como pôde resistir e prevalecer Jacó? Porque a batalha era luta, e os braços de Deus, que apertavam a Jacó, esses mesmos o sustentavam e fortaleciam. Quanto Deus mais apertava Jacó, tanto mais o unia consigo; quanto Jacó ficava mais unido a Deus, tanto ficava mais forte; e assim era impossível que Deus o vencesse, por mais e mais que o apertasse, porque quanto mais forças aplicava o combatente, tanto mais forças recebia o combatido. Hércules não podia derrubar nem vencer a Anteu, porque, quando o ia botando em terra, a mesma terra, pelo contato lhe dava novas forças; suspendeu-o no ar, e como o teve apartado da terra, então prevaleceu contra ele. Isto diz e fingiu a fábula. Mas, se Anteu recebera a força do peito e dos braços do mesmo Hércules, fora invencível contra ele, porque quanto mais o apertasse, tanto lhe infundiria mais força. E este foi o caso de Jacó, que recebia a força e a fortaleza dos mesmos braços de Deus que o apertavam.

 

Tal Xavier naquela sua noite, semelhante à da luta de Jacó. Ruperto e Santo Tomás tiveram para si que esta luta foi toda imaginária, e em representação, como a de Xavier; mas o contrário é mais certo. Jacó acordado, Xavier dormindo, e por isso maior Jacó que Xavier. Jacó prevaleceu uma vez contra Deus, e Xavier três vezes, porque cada mais foi uma vitória. Os braços com que Xavier lutava eram aqueles com que abraçava os trabalhos que Deus lhe dava, e com que pedia os que lhe não dava, e com que desejava todos os que lhe podia dar. Mas a força destes braços de Xavier, infinita no desejo de padecer, e na constância, que supunha também infinita, toda se fundava nos mesmos braços de Deus: In eo qui me confortat. — Sabia que quanto Deus mais o apertasse com trabalhos, tanto mais o unia consigo; quanto mais o unia consigo, tanto mais o esforçava; quanto mais forte, tanto mais apto ficava para mais padecer; e, crescendo com os trabalhos a união, com a união as forças, e com as forças a resistência, neste círculo se formava o infinito da constância contra o infinito do poder. No desejo passava o mesmo. O amor é como a hidropisia, os trabalhos como a água, o desejo como a sede: quem mais ama, mais deseja padecer, e quem mais padece, mais ama; e deste mais amar e mais padecer, crescendo sempre o padecer sobre o amar, e o amar sobre o padecer, se formava outro círculo, também infinito, do desejo contra o infinito dos trabalhos. Da parte de Deus, mais e mais poder, da parte de Xavier, mais e mais constância; da parte de Deus, mais e mais trabalhos, da parte de Xavier, mais e mais desejos, competindo sempre um infinito contra outro infinito, e o divino sem poder prevalecer contra o humano, porque o humano se fundava no divino: In eo qui me confortat.

 

Um dos maiores prodígios da vida de S. Francisco Xavier, sendo tantos os seus, e tão raros, foi que um crucifixo próprio da sua casa, venerado no castelo de Xavier, se via suar por muitas vezes, e em grande cópia; e, observando-se os tempos, achou-se depois que os dias em que suava eram aqueles em que o santo no Oriente padecia algum notável trabalho. De maneira que Cristo sua com os trabalhos de Xavier, e Xavier nesses mesmos trabalhos pede mais e mais? Sim. E por isso suava Cristo. Cristo e Xavier, ambos se apertavam no mesmo tempo: Cristo apertava a Xavier com os trabalhos, Xavier apertava a Cristo com os desejos; Cristo com lhe dar que padecer, e Xavier com lhe pedir mais que padecer; e porque Xavier o apertava mais e mais, por isso Cristo era o que suava. Não há coisa que mais aperte a Deus que as instâncias com que lhe pedimos. A Jacó disse: Dimitte me (Gên. 32, 26): Deixa-me — porque o apertava lutando; e a Moisés também disse: Dimitte me (Ex. 32, 10) — porque o apertava pedindo. E estes eram os braços com que Xavier

 

apertava tanto a Cristo, quando Cristo o apertava, que o fazia suar. Assim o considero eu. Mas se quisermos, com a interpretação mais comum desta maravilha, que os mesmos trabalhos de Xavier fossem os que faziam suar a Cristo, temos por esta parte a sentença de Santo Ambrósio e S. Pascácio, os quais dizem que a desconsideração dos futuros trabalhos da sua Igreja, e dos seus servos, foi a que fez suar a Cristo no Horto. E, sendo tão fortes os trabalhos de Xavier, que faziam suar a Deus, quando Deus quis apertar a Xavier com estes mesmos trabalhos, tão fora esteve de o poder render, que Xavier foi na luta o vencedor, Deus o vencido: Contra Deum fortis fuisti. — Grande milagre suar Cristo, mas muito maior milagre vencer Xavier. Na batalha do Horto — que também foi luta: Et factus in agonid[74] — ou in agone — como tem o grego — a parte superior da alma de Cristo lutava com a parte inferior; mas a parte superior foi a que venceu, e a inferior a que suou e ficou vencida. Porém, na luta de Xavier, sendo a parte superior Deus, e a inferior um homem, a superior foi a que suou, e ficou vencida, e a inferior a que venceu. Segundo Jacó, mas com grandes vantagens ao primeiro. Jacó capitulou que desistiria se Deus lhe desse a bênção. Xavier capitulou nunca desistir, e a bênção que pediu foi a mesma batalha, e que fossem sempre mais os trabalhos, mais e mais.

 

 

§X

 

 

A única pena de Xavier Por que acha Cristo em Xavier os três mais que desejou em São Pedro? Como definiu Cristo o maior amor?

 

Enfim, Senhor-que já é mais que tempo de chegar ao fim; mas em tanto mais e mais, quem pode acabar? — enfim, Senhor, que haveis de ficar hoje vencido. Mas nunca mais admirável, nunca mais glorioso que quando mostrais ao mundo que tendes um servo tão fiel, tão forte, tão constante, que o não podeis vencer em padecer por vós. Se vos quereis despicar desta vitória sua, não vos vejo outro remédio senão trocar as armas. Trocai os trabalhos em gostos, as aflições em delícias, as penas em consolações, e logo tereis a Xavier rendido: ele vos pedirá tréguas, e vós ficareis vencedor. Assim foi. Começa Deus a desfazer o céu em consolações e em delícias da alma; e que fez Xavier, ou que disse? Desmaiou o coração, trocaram-se as vozes; já não diz, mais, mais, mais; senão basta, basta, basta. Pois aos gostos

 

basta, e aos trabalhos mais? Este é Xavier, tão desejoso de padecer por Cristo, e com tanto gosto, que padecia os gostos, e gozava os trabalhos. Como era possível logo que os trabalhos o vencessem? Quem para os gostos não tinha paciência, como lhe podia faltar paciência para os trabalhos? Quae hunc adversitas superet, quem poenae fovent? — disse profundamente S. Gregório Papa. Um homem a quem alentam e alimentam as penas, como o podem vencer as penas? — E se os trabalhos são alívio dos mesmos trabalhos, como o podem cansar os trabalhos? Ad propellendam laboris latitudinem poena refovetur. — Só uma pena padecia Xavier nas suas penas, que era a pena de não padecer mais e mais. Pacientíssimo nos trabalhos que padecia, nos desejos de padecer, impacientíssimo. Por isso venceu os trabalhos, e mais a Deus: os trabalhos com a paciência, a Deus com a impaciência: Mais, Senhor, mais, mais.

 

Mas, se Deus não pode vencer os desejos de Xavier, pode só Xavier satisfazer os desejos a Deus. Dos homens, a quem encomenda as almas, deseja Deus ser amado com três mais. Quando Cristo encomendou as suas ovelhas a S. Pedro, três vezes lhe perguntou se o amava mais: Diligis me plus his?[75] —A primeira expressamente no plus his, a segunda e a terceira em uma e outra repetição do mesmo diligis me. E que respondeu S. Pedro? Não se atreveu a responder que amava mais, nem três vezes nem duas, nem uma: Tu scis, Domine, quia amo te (Jo. 21, 15): Vós, Senhor, sabeis que vos amo — Respondeu três vezes ao amor, mas ao mais não respondeu. E por quê? Não respondeu aos três mais — diz Santo Agostinho — porque se lembrou que negara três vezes. E negou três vezes — diz Santo Tomás — porque três vezes dormiu no Horto: Trine dormitioni responder trina negado. — Oh! grande Xavier! Oh! grande apóstolo! Oh! grande vigário do Vigário de Cristo! Encomenda o sucessor de S. Pedro a Xavier as ovelhas do Oriente, e não só acha Cristo em Xavier os três mais que desejou em S. Pedro, mas acha-os nele, não acordado, senão dormindo, para que o seu sono acudisse àquele sono, e a sua resposta àquela pergunta. Se não responde Pedro porque dormiu, responda Xavier dormindo; e se Pedro cala, e não diz plus, plus, plus — brade Xavier, e diga a vozes: mais, mais, mais. A pergunta de Cristo foi sobre o amor, a resposta de Xavier foi sobre os trabalhos; e assim havia de ser, quando a pergunta não só era de amar, senão de amar mais. O amar, definido pelo mesmo Santo Tomás, e por Aristóteles, est velle bonum: Amar, é querer bem. — E amar mais, que é? Amar, é querer bem; amar mais, é querer males. O padecer é o comparativo do amar: Majorem charitatem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis[76]. Definiu Cristo o maior amor, não pelo maior bem que se quer, senão pelo maior mal que se padece. O amor pesa-se na balança da paciência: padecer menos é amar menos, padecer mais é amar mais. Bem satisfez logo Xavier à pergunta e aos desejos de Cristo, respondendo aos três mais do amar com os três mais do padecer: Cristo no amor plus, plus, plus — Xavier nos trabalhos mais, mais, mais.

 

 

§ XI

 

 

Conclusão: por que não será alguma vez a nossa virtude insaciável, como são os nossos vícios? Xavier e os quatro insaciáveis de que fala Salomão.

 

Este é, fiéis, o santo de que sois devoto, e esta é a melhor e maior devoção em que podeis mostrar que o sois, em tempos que tanta matéria nos dão a mais e mais padecer. Imitemos a sua paciência, imitemos o seu valor, imitemos a sua constância, imite a nossa necessidade à sua virtude. Por que não será alguma vez a nossa virtude como são os nossos vícios? Que vício há que não deseje insaciavelmente sempre mais e mais? Havia de vir S. Francisco Xavier ao mundo para desafrontar a virtude. Salomão, que tanto conhecia o bem e mal do mundo, diz que, lançando os olhos por todo ele, achou quatro coisas que nunca se fartam, e sempre estão dizendo affer, affer: mais, mais, mais: Tria sunt insaturabilia, et quartum nunquam dicit: Sufficit[77]. — Que quatro coisas sejam estas, explica o mesmo Salomão por metáforas, e vêm a ser, segundo a comum interpretação dos padres e expositores, a ira, a sensualidade, a cobiça e a ambição: a ira, que se não farta de sangue e de vingança; a sensualidade, que se não farta de deleites e prazeres; a cobiça, que se não farta de dinheiro e riquezas; a ambição, que se não farta de honras e dignidades. Isto disse de seu tempo o mais sábio homem de todos os tempos, e ainda mal, porque tanto se verifica e se experimenta nos nossos. Mas o que eu muito admiro e reparo é que todos estes insaciáveis sejam vícios. Não haverá também uma virtude insaciável? Insaciável queria Cristo que fosse a nossa virtude, quando disse: Beati qui esuriunt et sitiunt justitiam[78]. — Mas somos nesta passagem da vida como os filhos de Israel no deserto: que nos enfastia o maná, e todo o nosso apetite, e a nossa fome é pelas grosserias do Egito. O maná era do céu, nós somos terra; os vícios nunca nos fartam, a virtude logo nos enfastia. Por isso digo que veio S. Francisco Xavier ao mundo para desafrontar a virtude. Se Salomão viera no seu tempo, ele dissera que os insaciáveis do mundo eram mais de quatro. Xavier foi o quinto insaciável, Mas de tal maneira o quinto, que venceu e afrontou a todos os quatro insaciáveis. A ira insaciável das vinganças, a paciência de Xavier, mais insaciável nos agravos, nas sem-razões, nas injúrias; a sensualidade insaciável nos deleites, a mortificação de Xavier, mais insaciável nas penas, nos trabalhos, nos tormentos; a cobiça insaciável nas riquezas, a pobreza de Xavier, mais insaciável nas necessidades, nas misérias, nos desamparos; a ambição insaciável nas honras, a humildade de Xavier mais insaciável nos desprezos, nas ignomínias, nas afrontas. Oh! confundam-se os nossos vícios, e afoguem-se neste mar e abismo imenso de virtudes, onde a nenhuma se pode achar fundo. Erubesce, Sidon, ait mare[79]. — Confunda-se a ira, confunda-se a sensualidade, confundase a cobiça, confunda-se a ambição, confundam-se todos os vícios, e confunda-se a natureza humana corrupta e depravada, à vista do espírito ardentíssimo deste homem insaciável, não de outra, senão da mesma natureza. Não vos peço, ainda que digais mais, e mais, e mais à virtude, que não se começa por aqui; ao menos aos vícios dizei: basta, basta. Bastem já as vinganças, bastem já as cobiças, bastem já as ambições, bastem já as torpezas e sensualidades. Há de ter isto fim alguma hora? Por que não será neste dia? Pelos três mais de Xavier ofereçamos a Deus nesta hora um nunca mais. Nunca mais, Senhor, ofender-vos, nunca mais desobedecer-vos, nunca mais apartar de vós, nunca mais pecar, por serdes vós quem sois. Com este nunca mais no coração, com este nunca mais na boca, com este nunca mais em toda a vida, nos achará vigilantes o sono da morte, e alcançaremos aquela bem-aventurança que nunca mais se há de acabar: Beati sunt servi illi quos, cum venerit dominus, invenerit vigilantes[80].

 

 

 

SONHO TERCEIRO

 

 

Qua hora fur veniret.[81]

 

 

§I

 

 

Se nos dois primeiros sermões foram os sonhos relíquias do cuidado, neste terceiro foi o cuidado milagre e vitória da relíquia. O relicário de S. Francisco Xavier e a tentação contra a castidade. O leito de flores de que fala Salomão. O cuidado e a indústria por que a virtude da castidade em Xavier, sendo a flor mais delicada e mimosa de todas, no mesmo dia ou noite da tentação se achou tão fresca e tão forte, que nem dormindo perdeu nada do seu vigor.

 

Somos chegados ao último sonho de Xavier. E é ele de tal qualidade que, parece, desfaz ou desmente quanto temos dito. Dissemos no exórdio do primeiro, ou na prefação de todos três, que os sonhos são as relíquias dos cuidados. E a este último, nem do cuidado se pode chamar relíquia. Quando aquilo que se sonhou de noite é o mesmo em que se cuida de dia, o cuidado é a causa, ou o que deu ocasião ao sonho, e tais foram os dois primeiros sonhos de Xavier; porém, este terceiro por uma parte foi tão alheio da pureza da sua virtude, e por outra tão próprio da fineza dela, que não pode ser todo seu. A primeira parte foi do demônio, que pintou a tentação na fantasia do santo, e a segunda foi do santo, que na mesma fantasia venceu a tentação e o demônio. Também aqui houve cuidado e relíquias, mas as relíquias não foram efeitos do cuidado, senão o cuidado efeito das relíquias. Ora vede.

 

Quando aquela grande alma deixou neste mundo o corpo morto, mas atravessa do nas portas da China, para que se não pudessem fechar aos que o seguiram, achou-se lhe sobre o peito um relicário de cobre, que foram todas as riquezas que em dez anos e meio da sua nunciatura adquiriu no Oriente o núncio apostólico de todo ele. E que continha o relicário? Três relíquias muito notáveis: um osso de S. Tomé, uma firma de Santo Inácio, e a fórmula da profissão do mesmo Francisco Xavier, escrita de sua própria mão, a qual repetia e renovava todos os dias, ratificando os três votos essenciais da religião: pobreza, castidade e obediência ao Sumo Pontífice, como professo da Companhia. E como na repetição dos atos se fortalecem e crescem os hábitos das virtudes, e as potências muito habituadas, ainda sem deliberação nem império da vontade, naturalmente obram e exercitam os mesmos atos de que nasceram os hábitos, estes foram, não as relíquias dos cuidados, senão os cuidados das relíquias, que no meio do sono, que é descuido, e tão acordadamente, sem acordar, rebateram e venceram a tentação atraiçoada do demônio na mesma fantasia do sonho. O sonho e a tentação era contra a pureza da castidade, mas, como a mesma castidade estava habituada e atuada todos os dias na repetida e renovada profissão, que era a terceira relíquia do relicário de Xavier, não a relíquia deste cuidado, senão o cuidado desta relíquia foi o que na mesma fantasia tentada, dormindo, resistiu à tentação, e, dormindo, zombou do tentador vergonhosamente vencido.

 

Assim o deixou escrito quinhentos anos antes S. Bernardo, falando da memória da própria profissão, como se estivera vendo o caso de Xavier: Ne a memoria repellat Deum irruens turba cogitationum in atrium, ad ejus portam ponatur janitor, cujus nomen est recordatio propriae professionis: O átrio ou pórtico da alma é a fantasia, onde as espécies corporais se espiritualizam, e dali sobem ao entendimento, que as representa à vontade; e para que não cheguem, nem entrem lá os maus pensamentos, ponha-se à porta do mesmo átrio um porteiro, o qual se chama recordatio propriae professionis: lembrança da própria profissão. — E que se seguirá daqui? — diz Bernardo. — Com a mesma propriedade do caso outra vez: Ut cum turpibus se cogitationibus senserit animus praegravari, increpet se, et dicat: Tu ne haec debes cogitare, qui sacerdotes, qui monachus es? Seguir-se-á que, sentindo-se o tentado acometido de pensamentos torpes, se repreenda a si mesmo, e diga: E bem, pensamentos são estes que deve admitir um sacerdote, que deve admitir um religioso? — E dizendo isto, conclui o santo, logo ficam rebatidos e excluídos os ilícitos pensamentos, em virtude da lembrança da própria profissão: Haec dicendo excludit fluxum illicitae cogitationis per recordationem propriae professionis. — E porque Xavier andava sempre armado com esta relíquia da própria profissão, e ainda dormindo a tinha como sentinela nas portas da fantasia, não é muito que o porteiro desse com a porta na cara do tentador, e que, posto ele em vergonhosa fugida, a tentação com que pretendia derrubar caísse, e desse este novo gênero de vitória à profissão renovada.

 

Digo, com particular reparo, renovada, porque esta renovação, com que o nosso santo repetia todos os dias, e oferecia de novo a Deus os votos da sua profissão, foi invento singular e próprio do seu constante e fervoroso espírito. Os outros religiosos comumente fazem uma vez a profissão para toda a vida; Santo Inácio mandou aos seus que a renovassem duas vezes cada ano; porém Xavier, como não tinha mais que dar a Deus, assim como o mesmo Deus, depois que se nos deu a si mesmo, renova a mesma dádiva todos os dias, assim ele todos os dias renovava a sua. Ouçamos todo o caso pintado pela pena de Salomão, sem lhe faltar circunstância. Lectulus noster floridus. Tigna domorum nostrarum cedrina, laquearia cypressinad[82]. — Nestas palavras oferece a Deus a alma santa, a sua casa e o seu leito, notando que o leito era composto de flores, e a casa coberta de cedros e de ciprestes. E, verdadeiramente, que os cedros e os ciprestes pareciam matéria mais acomodada também para o leito. Pois, se aquela alma, como pastora do Monte Líbano, podia fabricar o seu leito destes lenhos, ou de outros preciosos e odoríferos, por que o não fez senão de flores: Lectulus noster floridus? — Porque o leito de matéria sólida faz-se uma vez para sempre; porém o leito de flores há-se de renovar todos os dias. O reparo e o pensamento é também, em muito diferente lugar, do mesmo S. Bernardo: Propterea necesse est sane praeparare frequenter, et recentiores semper reponere flores: O leito fabricado de matéria sólida, feito uma vez, serve para toda a vida; porém, se é formado e composto de flores, é necessário que elas se renovem todos os dias. — Por isso Xavier renovava todos os dias as flores e as virtudes da sua profissão. E este foi o cuidado e a indústria por que aquela virtude, em que foi tentado, sendo a flor mais delicada e mimosa de todas, no mesmo dia ou noite da tentação se achou tão fresca e tão forte, que nem dormindo perdeu nada do seu vigor. Nem dormindo, torno a dizer, porque esse foi o mistério da alma santa: oferecer ou convidar a Deus com as flores, não no campo ou no jardim, senão no leito: Lectulus noster floridus. — o leito, porque dormindo foi o assalto; no leito, porque dormindo se deu a batalha; no leito, porque dormindo se alcançou a vitória; e no leito, finalmente, porque nem o sono pôde adormecer o valor, nem o sonho divertir o cuidado.

 

E para que se visse que tudo foram efeitos maravilhosos da mesma relíquia e da mesma profissão, renovada todos os dias, estava o mesmo leito coberto ou coroado de ciprestes e cedros: Tigna cedrina, laquearia cypressina. —O cipreste significa o mortal, o cedro significa o incorruptível, e ajuntar o incorruptível com o mortal, foi não só o primor, senão a propriedade da pureza que professava Xavier. Declarando Santo Inácio, qual deve ser a castidade dos que professam o seu instituto, diz que hão de procurar imitar a pureza dos anjos na limpeza do corpo e alma. A alma separada do corpo facilmente pode imitar os anjos, porque é espírito; mas unida e atada ao corpo, que é carne, nesta união consiste toda a dificuldade de tão pura imitação. Na mesma dificuldade, porém, assim como se esforça a contrariedade da resistência, assim se exalta e levanta no homem até o céu a que nos anjos é natureza, mas não vitória, por que não tem contrário. Por isso no teto que cobria o leito florido se formava a coroa de ramos de cedro, tecidos e enlaçados com os de cipreste, porque no cipreste se unia o mortal com o cedro, e no cedro o incorruptível com o mortal. Os anjos são incorruptíveis, mas não são mortais, porque não têm corpo; e como a profissão de Xavier o obrigava a imitar a pureza dos anjos na limpeza do corpo e alma, esta foi a maravilha ou o milagre da relíquia da sua profissão. Assim que este terceiro sonho, se pela parte do tentador foi diverso, pela parte da resistência, não só foi igual aos dois primeiros, mas na mesma diferença com grande vantagem, porque, se neles foram os sonhos relíquias do cuidado, neste foi o cuidado milagre e vitória da relíquia.

 

 

§II

 

 

Por que tentou o demônio a Xavier com os olhos fechados? A carroça triunfal de Salomão e o estrado soalhado de amor Aos olhos abertos não faz mal o que vêem, senão quando vêem o para que olham. Como dormia Xavier no mar e na terra?

 

Assentado desta sorte o fundamento do terceiro sonho de Xavier enquanto vitorioso, antes de ponderar a vitória, consideremo-lo primeiro enquanto tentado. Tentouo o demônio menos reverentemente do que devera, e como mestre tão velho e tão astuto, parece que não andou coerente, nem tomou bem as medidas à tentação, a qual, para não errar o tiro, pôs a mira no estado e condição da pessoa. Era Xavier núncio apostólico, tentara-o o demônio com pensamentos da púrpura, pois o degrau para subir à eminência do cardinalato são as precedentes nunciaturas, e nenhuma maior que a sua. Tinha o poder eclesiástico supremo em todo o Oriente, onde no mar se pescam pérolas, e na terra nascem diamantes, rubis e safiras. Tentara-o com uma lustrosa cobiça de voltar para Europa com os tesouros de Cresso, os quais na mesma Roma, como peregrinos, não haviam de ser mal agasalhados. E se o demônio, como sujeito religioso e mortificado, quisesse também espiritualizar a tentação, suposto que Xavier não se fazia levar, ao uso da terra, em ombros de homens, mas caminhava a pé, e até pelas serranias do Japão, cobertas de neve, descalço, pusera-lhe à vista dos pés descalços as alpargatas do ídolo de Retorá, avaliadas em duzentos mil cruzados, podendo esperar que assim comparada a sua mesma pobreza, e tão altamente avaliada, ou no próprio, ou no alheio juízo, facilmente se converteria em vanglória; ou também, porque o mesmo corpo de Xavier não era menos mortificado por dentro que por fora, e passava muitos dias sem comer bocado, não digo que o tentasse de gula, na terra onde as delícias do gosto são as mais esquisitas, mas, porque o não apertaria no cerco em que ele mesmo se punha, tentando a sua fome ao menos com pão seco e duro, como tentou a de Cristo?

 

Sobretudo é circunstância digna de grande reparo que, sendo a tentação daquela casta, esperasse o mesmo inimigo para o assalto a hora em que o acometido estivesse dormindo, e com os olhos fechados. E certo que os olhos abertos são instrumentos mais provados e mais seguros que o caçador do inferno arma às almas para as fazer cair em semelhantes laços. A olhos abertos tentou Holofernes com Judite, a olhos abertos a Abimelec com Sara, a olhos abertos a Siquém com Diria, e nem só a gentios, e sem fé, como estes eram, mas aos mais fiéis e mais santos, como Davi e Sansão. Pois, se aos valentes de Deus tenta o demônio com os seus mesmos olhos abertos, a Xavier, por que o não tenta assim? Grandes triunfos tinha alcançado a sua virtude nesta guerra, quando no maior ardor da idade defendeu gloriosamente a pureza virginal em Paris, e depois a conservou sem mancha toda a vida, por onde mereceu a palma branca das açucenas que traz na mão; mas não eram bastantes estes triunfos para que o demônio desmaiasse e se descesse dos seus intentos. É texto notável a este propósito o que agora ponderarei, e para cuja nova e literal exposição convido aos doutos.

 

Diz a Escritura Sagrada, no capítulo terceiro dos Cânticos, que fabricou Salomão uma carroça triunfal, composta dos mais preciosos lenhos do Líbano, em que as colunas eram de prata, o trono e cadeira de ouro, os degraus de púrpura, e o estrado soalhado de amor: isso quer dizer media charitate constravit — onde o hebraico, o siríaco, os Setenta, Vatablo, e os outros hebraizantes, tresladam mais expressamente em lugar de charitate, amore. E acrescenta o texto que isto fez Salomão em respeito das filhas de Jerusalém: Media charitate constravit, propter filias Jerusalem[83]. — Vamos agora à exposição. Primeiramente, estar o estrado assoalhado de amor, significa que no estrado do trono onde Salomão punha os pés se via esculpida a imagem, ou estátua do amor, cego, e com arco e aljava, assim como os poetas pintam o que eles chamam cupido. E até aqui disseram os expositores; mas desta mesma exposição, que é a mais conforme à letra, se seguem duas dúvidas, a que eles não respondem, nem ainda excitam no sentido historial: a primeira, por que pôs Salomão no estrado de seu trono esta figura do amor profano; a segunda, por que o fez, como ele diz, em respeito das filhas de Jerusalém: propter filias Jerusalem? Quanto à primeira, quando ainda Salomão era santo, no estrado do seu trono, aonde ele punha os pés, pôs a estátua do amor profano, para significar neste carro do seu triunfo que ele o tinha triunfado e vencido de maneira que o trazia debaixo dos pés. E isto — quanto à segunda — em respeito das filhas de Jerusalém, para desenganar a cada uma e a todas, que nenhuma presumisse ou esperasse de ter entrada ou parte no seu amor. Como se dissera: Se presumem as filhas de Jerusalém que sucederá a algumas delas comigo o que a Bersabé, minha mãe, com meu pai Davi, engana-se, porque nenhuma haverá tão favorecida da natureza, em todos aqueles dotes que estima, apetece, e de que se deixa cativar o amor, que a mim me haja de entrar no pensamento, ou dar cuidado, porque a todos esses afetos é superior o meu coração, e no mesmo amor, que levo debaixo dos pés neste meu triunfo, tenho já triunfado de todo.

 

Isto é o que presumiu de si Salomão quando era santo. Mas, sem embargo de o ser, que é o que lhe sucedeu? Acautele-se todo o coração humano, e nenhum se fie de si. Assim como Salomão tinha triunfado do amor profano, assim o mesmo amor depois triunfou dele. E para ser mais afrontosamente vencido e pisado, não foi por meio das filhas de Jerusalém, que criam no verdadeiro Deus, mas por meio das gentias e idólatras, a quem amou tão cega e perdidamente que, sendo o escolhido de Deus, para lhe edificar o único templo, ele edificava templos aos seus ídolos. E se esta foi a catástrofe da santidade de Salomão, por que não poderia o demônio presumir, senão tanto, ao menos algum caso semelhante na santidade de Xavier? Grande fundamento parece que tinha por certo, e mais ajudado das ocasiões em que o santo se metia, não presumindo de si, como mais sábio que Salomão, mas confiado na graça divina. Havia na Índia muitas famílias, em que as livres e as escravas eram senhoras dos senhores, e nestas casas se introduzia benevolamente Xavier, para livrar a elas e a eles do cativeiro em que o demônio os tinha, e os pôs, como sempre conseguia, em estado de salvação.

 

Mas nem estes segundos triunfos eram bastante segurança para o demônio não esperar o que pretendia. Como aqueles lugares eram tão contagiosos, por que não esperaria o demônio que sucedesse alguma vez a quem entrava neles o que sucede comumente nas outras pestes, em que os mesmos que entram médicos saem feridos? Entrava, porém, Xavier com os olhos abertos; mas eram tais os resplendores de pureza que saíam dos mesmos olhos, que bastava que os pecadores vissem que o santo os via, para que nos seus mesmos olhos, como em espelhos, reconhecessem a fealdade das suas vidas, e as aborrecessem e emendassem. Aos olhos abertos não lhes faz mal o que vêem, senão quando vêem o para que olham. E para que olhava Xavier, ou dentro ou fora de casa, ou no particular ou no público? Olhava só para a salvação das almas, o que o demônio espreitava e via, e por isso se temia tanto dos seus olhos abertos. Abertos sempre edificavam, abertos sempre admiravam, e abertos sempre compungiam. Ia o padre mestre Francisco por uma rua, e os seus olhos como iam? Ou pregados na terra, ou levantados e arrebatados ao céu. E bem conhecia o demônio que quem na terra levava diante dos olhos a sepultura, e no céu a eternidade, mal podia dar entrada no coração à fantasia de um acidente enganoso e vil, que, para matar, basta que passe, e para não enganar, passa em um momento.

 

Com estas experiências, o inimigo da castidade, que pela vista tentou a Eva, e pela vista tenta a seus filhos, como se Xavier fosse a exceção de todos eles, se desenganou, e resolveu a o não tentar com os olhos abertos. Mas nesta mesma resolução me parece a mim que também ele os tinha fechados. Vem cá, demônio: se assim como confessas que te não atreves a acometer este homem acordado, não vês que será dobrada afronta tua, se também te vencer dormindo? Olha bem para onde dorme, e verás que em cama tão dura não podem ter lugar sonhos tão brandos. Todos os escritores da vida de Xavier, sem figura de encarecimento, mas por narração de simples verdade, dizem que a cama de Xavier, quando navegava, eram as amarras da nau, e a cabeceira as âncoras. Compara agora o sono com este modo ou invenção de dormir. O sono é o remanso da vida, e, como lhe chamou Plínio, é aquele porto quieto que a natureza próvida concedeu ao homem de noite para descanso dos trabalhos do dia. Grande erro é logo a do teu roteiro presumir que pode naufragar no porto quem dorme sobre âncoras e amarras. Mas da cama do mar passemos à da terra. Dormia na terra Xavier, dizem os mesmos historiadores, em um aposento ou choupana em que as paredes eram de esteira; e, como por entre os juncos espreitasse a devota ou incrédula curiosidade o que o servo de Deus fazia, comumente o viu de joelhos, arrebatado em oração, e alguma vez que obrigado do peso do sono pagava um breve tributo à fragilidade da natureza, a cama em que se encostava era um catre percintado de cordas de cairo, que são os entrecostos do coco, e uma pedra por cabeceira.

 

Lembre-se agora o demônio de Jacó dormindo, e considere quais podiam ser os sonhos de uma cabeça recostada sobre uma pedra, e tão mimosamente agasalhada. Sonharia com escadas da terra ao céu; sonharia com anjos que subiam e desciam por ela; sonharia com o portal da fábrica da casa de Deus — quais eram as igrejas que desenhava no pensamento, e edificava em toda a parte — sonharia, enfim, com o mesmo Deus, que das ameias do empíreo, como vigilante e amorosa sentinela, lhe fazia guarda ao sono. Ainda temos outra cama de quem não tinha cama. Era de táboa ou tábua, no desamparo de Moçambique, onde de dia e de noite, enfermo, servia Xavier aos enfermos. E estando para morrer frenético, com a febre maligna, um soldado moço, cuja idade e liberdade fazia muito suspeitosa sua salvação, toma-o o santo padre nos braços, deita-o naquela sua cama, e o mesmo foi tocá-la que tomar o frenético a seu perfeito e inteiro juízo, com que, recebidos em grande quietação e sossego todos os sacramentos, acabou naquela escala cristãmente a carreira da vida. Para que se veja se era mais frenético e louco o demônio em esperar que o frenesi do seu maquinado sonho fizesse delirar ou tresvariar o juízo de quem dormia em uma cama, que milagrosamente o restaurava aos que o tinham perdido.

 

 

§III

 

 

As três espécies de sonhos: humanos, divinos e diabólicos. Por que fiava Deus mais de Xavier dormindo que dos três maiores apóstolos acordados? Se Deus revela em sonhos a José que há de dominar o império do Egito, por que lhe não revela também a olhos fechados o amor cego da mulher de Putifar?

 

Assim zombava eu dos atrevimentos do tentador noturno; mas porque não só prego do santo que o pode vencer, senão para todos, não posso deixar de declarar, para nossa cautela, que ninguém deve desprezar estas traições do demônio, mas temê-las, e fazer delas muito caso, posto que sonhadas. Os filósofos e teólogos dividem os sonhos em naturais, divinos e diabólicos. Os divinos devem-se estimar muito, dos naturais não se deve fazer caso, mas os diabólicos são tanto para temer, como nos ensina a Igreja universal, na oração que faz a Deus no fim de todos os dias, antes das horas do sono: Procul recedant somnia, et noctium phantasmata, hostemque nostrum comprime: Pede a Deus que reprima a força e astúcia do inimigo comum, e que lance muito longe de nós os fantasmas dos sonhos, com que ele, como príncipe das trevas, nos faz guerra de noite. — E para a cautela e vigilância da nossa parte, nos exorta a mesma Igreja, como mãe cuidadosa, com as palavras de S. Pedro, a quem tanto custou o dormir, quando tinha obrigação de velar: Fratres, sobrii estote, et vigilate, quia adversarius vester diabolus, tanquam leo rugiens circuit, quaerens quem devoret[84] — onde é ponto muito digno de notar que, se o demônio se deve temer quando dá bramidos como leão: tanquam leo rugiens — e quando com os mesmos bramidos nos pode despertar do sono, quanto mais quando no maior silêncio da noite, e no maior descuido dos sentidos, entrando a portas fechadas, como espírito que é, e penetrando ao mais interior da fantasia, lhe faz aquela guerra, que S. Cipriano elegantemente chama clandestina, a qual, quanto mais oculta e escura, tanto mais certa e fortemente fere aos que dormem: Quoniam elatius latenter obrepunt, occulta et clandestina ejaculatio, quo minus perspicitur, eo et gravius et crebrius in vulnera nostra grassatur[85].

 

Sendo, pois, tão perigoso e desigual gênero de batalha aquela, em que peleja com um homem de carne, dormindo, um espírito que não tem corpo nem dorme, por isso o não devemos desprezar como covarde, mas temer como astuto e atraiçoado inimigo. E só nos poderíamos admirar de que a providência divina desse licença e poder ao demônio para em tal matéria, e de tal modo tentar a seu fidelíssimo servo Francisco. Mas esse mesmo é o mais encarecido exemplo, e a mais refinada prova da mesma fidelidade e invencível fortaleza sua, essa seguríssima confiança que Deus fazia do seu valor, depois da experiência de tantas vitórias, e não comparando a Xavier consigo neste combate, senão a ele com os maiores santos.

 

Quando Cristo, Redentor nosso, entrou no Horto a orar a seu Padre, apartou consigo os três mais favorecidos discípulos, os três de seu conselho secreto, S. Pedro, S. João, S. Tiago, e avisou-os assim: Vigilate, ne intretis in tentationem (Mt. 26, 41): Discípulos meus, vigiai, não vos deixeis render ao sono, por que não entreis, ou não sejais entrados da tentação. — Mandou-os que vigiassem, para não serem vencidos, porque entre os descuidos de dormir, entre as desatenções e negligências do sono não há virtude bastantemente segura: até a firmeza de Pedro pode cair, até a resolução de Jacó pode enfraquecer, até o amor de João pode vacilar. Pois, se assim é, Senhor, que desigualdades são estas de vossa providência? Como tratais com tanta exceção de pessoas aos vossos apóstolos e ao nosso? Aos três discípulos mandai-lhes que estejam despertos, porque hão de ser tentados, e a Xavier mandais-lhe a tentação estando dormindo? Sim. E não foi falta de providência, senão excesso de confiança. Fiava Deus mais de Xavier, que dos três maiores apóstolos naquele tempo. É teologia certa que, quando Deus permite que o demônio nos tente, sempre tempera e mede as tentações conforme as forças do que é tentado. Assim o diz o apóstolo S. Paulo na primeira aos coríntios, e assim o declarou o Concílio Tridentino: Fidelis autem Deus est, qui non patietur vos tentari supra id quod potestis[86]. —E como Deus tem em sua mão as rédeas do tentador, e aperta ou alarga a tentação pela medida da força de cada um, bem se vê que fiava Deus mais da virtude de Xavier agora, que da dos três maiores apóstolos então; pois a eles os manda vigiar, porque hão de ser tentados, e a Xavier manda-lhe a tentação estando dormindo. Dormir um homem, e ter acordo para se não deixar vencer do demônio, estar com os sentidos ligados nas prisões do sono, e ter sentido para se não deixar entrar da tentação, é uma empresa tão arriscada e uma vitória tão duvidosa, que só de Xavier a fia Deus, e de nenhum outro, ainda que seja S. Tiago, ainda que seja S. João, ainda que seja S. Pedro. S. Pedro, S. João, S. Tiago, estejam em vela, se hão de ser tentados; mas Francisco Xavier, venha-lhe embora a tentação dormindo, que dormindo e acordado, sempre está seguro.

 

E se esta tentação fora tentação de outro gênero, menos me espantara eu que Deus a fiara de Xavier entre as desatenções do sono; mas tentação contra a pureza, batalha contra a castidade? Este mundo é o anfiteatro de Deus, e, assim como os imperadores romanos mandavam lançar os mártires às feras, assim Deus manda sair os confessores aos vícios. E que sendo o vício contrário à pureza, uma fera tão fera lhe lançasse Deus a Xavier, não acordado, senão dormindo! Grande extremo de confiança em Deus, grande crédito de valor em Francisco! O homem mais insigne na castidade, e mais famoso em sonhos, foi José. Dormia José sendo menino, e sonhava uma vez que andava na sega, como filho de lavrador que era, e que as paveias, ou feixes de trigo que iam atando seus irmãos, inclinados ou debruçados sobre a terra, reverenciavam e adoravam o seu. Tornou a sonhar o mesmo José, e das espigas passou às estrelas. Sonhava que o sol, a lua, e outros astros do céu, desencaixados das suas esferas, desciam também à terra a adorá-lo. Não são estas as primeiras estrelas que, para servir a uma ambição venturosa, se abatem do firmamento. Mas, deixadas estas, e outras grandes considerações para outro dia, que não é bem nos gastem o tempo hoje, todos estes sonhos de José eram profecias, porque assim um como o outro significavam que havia de ser supremo governador do império do Egito, e que todos os súditos do mesmo império o haviam de adorar e obedecer, assim os grandes como os pequenos, assim os da corte como os do campo, que por isso as figuras que os representavam em um sonho foram espigas, e noutro estrelas: as estrelas, para significar os ilustres, e as espigas os lavradores. Significavam mais os mesmos sonhos que toda a casa de seu pai e seus irmãos, também ilustres por descendência, e lavradores por ofício, caídos a seus pés, o haviam de reconhecer e adorar por senhor, como o mesmo pai lhes declarou, e ainda repreendeu muito antes.

 

Daqui se segue que nestes dois sonhos, e nestas duas significações deles, ou foi ou podia ser tentado José nas duas maiores e capitais virtudes, humildade e caridade: a humildade que é fundamento, a caridade que é o cume de toda a perfeição. Contra a humildade, tentado de ambição e soberba, vendo-se senhor absoluto de toda a monarquia de Faraó; contra a caridade, tentado de ira e de vingança, vendo prostrados a seus pés os irmãos ou os inimigos, que tanto o aborreciam e perseguiam, que o quiseram matar, e chegaram a o vender. Mas a esta venda e cativeiro, que foi a ocasião de todas as suas fortunas, falta a história da mulher de Putifar, sua senhora, tão amado, como não devera, e tão cegamente pretendido como sabemos. Pois, se Deus revela em sonhos a José que há de dominar o império do Egito, se lhe revela em todos que há de ter aos pés os seus maiores inimigos, por que lhe não revela também a olhos fechados aquele amor tão cego? Porque na primeira revelação corria risco a humildade, na segunda a caridade, mas na terceira, se Deus lha revelara, perigava e arriscava-se a castidade, e riscos e perigos da castidade, nem de José os fia Deus em sonhos. É verdade que ele se portou na tentação fiel e galhardamente; mas vai muito de velar a dormir, e o tino que teve acordado, pode ser que o não tivesse dormindo. Por isso Deus lhe encobriu a história da egípcia, quando lhe revelou as outras sonhando. Sonhe embora José que há de ser senhor do Egito, e fiem-se-lhe as tentações da ambição e soberba; sonhe embora que há de ter debaixo dos pés seus inimigos, e fiem-se-lhe as tentações da ira e da vingança; mas sonhar que há de ser pretendido de quem lhe podia enfeitiçar os pensamentos, e fiar-se-lhe em sonhos, nem por sonhos, tentação contra a pureza? Isso não. Só de Francisco Xavier dormindo fia Deus uma batalha tão arriscada, só dele confia uma vitória tão duvidosa, porque sabe que é tão fina e afinadamente observante de suas obrigações que, ainda que não esteja acordado, não há de fazer dissonância.

 

 

§ IV

 

 

A vitória de Xavier e as feridas da batalha. Por que se prezou Cristo tanto do sangue que derramou e das feridas que recebeu na cruz, que, para conservar eternamente estes dois memoriais da sua vitória ressuscitou as feridas, e sacramentou o sangue.

 

Assim o presumia Deus altamente de Xavier, e ele aprovou não menos que com o galhardo testemunho de seu próprio sangue. Tão longe esteve o valente soldado de Cristo de dar ao combate da tentação nem ainda um inadvertido consentimento, que antes aos primeiros acenos dela a rebateu com tanta violência de espírito, que lhe saltou das veias o sangue puro. Somos entrados em uma circunstância grande e gloriosa desta ação, mas de tal maneira grande, que parece diminui sua grandeza, de tal maneira gloriosa, que parece contradiz sua glória. Vence Xavier a tentação, mas custou-lhe

 

sangue, e a vitória tanto menos vale, quanto mais custa. Saiu Xavier vencedor, mas juntamente ferido, e o vencedor ferido é meio vencedor, porque em parte fica o vitorioso, em parte o vencido. Assim poderá parecer a ânimos pouco generosos, mas não é assim, e tomo por testemunha a flor das armas portuguesas, que está presente. Qual de vós não teve por realce da vitória o sair ferido da batalha? Qual de vós se não preza mais do sangue derramado na guerra que do que traz vivo nas veias? Até no amolgado da espada, no acutilado da rodela, e no passado da malha se estimam as feridas, ainda que secas. A maior gala do vencedor são as feridas e o sangue, nem há modo mais airoso de sair da batalha que vitorioso e ferido. Como os sucessos felizes da guerra muitas vezes são liberalidades da fortuna, e não merecimentos do valor, as vitórias acreditam de venturoso, as feridas de valente. Quem venceu, podia não pelejar, e é a vitória alheia; quem saiu ferido, pelejou, e fez com o sangue a vitória sua. Mas vejamos esta controvérsia decidida no juízo do mesmo Deus. Muitos vencedores houve no mundo, mas vencedor que escolhesse a vitória e o modo de vencer à sua vontade um só houve, que foi Cristo. E que vitória, ou que modo de vencer escolheu Cristo, senão o de ferido, e com tanto sangue? Para remir e vencer o mundo não era necessário a Cristo padecer, nem derramar sangue, mas escolheu este modo de vencer, posto que tão custoso, não pela necessidade do remédio, senão pelo crédito da vitória. Para ser vencedor do mundo, bastava vencê-lo, mas para ser vencedor glorioso havia de ser com sangue e com feridas. E se não, vede-o no seu triunfo.

 

Quando Cristo, vencedor do mundo, da morte, e do inferno, entrou pelo céu triunfante, pergunto que insígnias levava de vencedor? É coisa que se sabe, e digna de se saber. Sabe-se, porque dois profetas, Isaías e Zacarias, viram toda a pompa deste triunfo. Pois, que insígnias de vencedor levava Cristo? Porventura palmas, coroas? Nada disso. O seu sangue e as suas feridas foram todas as insígnias da vitória e todas as galas do triunfo. O sangue levava-o derramado pelo vestido: Quare rubrum est indumentum tuum[87]? As feridas levava-as abertas nas mesmas mãos: Quid sunt plagae istae in medio manuum tuarum?[88] E este sangue, e estas feridas era o que aplaudia o céu, era o que aclamava o triunfo, era o que admiravam os anjos, era, enfim, o que mais prezava o Pai e o que mais honrava ao Filho, porque as feridas são os selos do valor, e o sangue os esmaltes da vitória; e na sua vitória do mundo estimava e gloriava-se Cristo não só de o vencer, senão de o vencer com sangue; não só de sair vitorioso da batalha, senão vitorioso e ferido.

 

Mas, reparando no sangue de que levava matizados os vestidos Cristo no seu triunfo, duvidará com razão alguma curiosidade douta que sangue de Cristo era ou podia ser este? Cristo entrou triunfante no céu depois de ressuscitado; na Ressurreição, como dizem os teólogos, recolheu-se todo o sangue às veias do corpo sagrado. Pois, se o sangue ia recolhido dentro nas veias de Cristo, como ia derramado pelo vestido? Agora entendereis a razão por que Cristo consagrou e sacramentou seu sangue, de sorte que o pudesse ter juntamente recolhido e derramado juntamente nas veias e fora delas; e assim foi aqui. O sangue que Cristo levava recolhido nas veias era o da cruz; o sangue que levava espalhado pelo vestido era o do cálix. O mesmo texto o diz, e tanto sobre o texto que agora é necessária tanta prova: Quare rubrum est indumentum tuum, sicut calcantium in torculari? — diz o texto de Isaías: Por que está tão vermelho o vosso vestido, Senhor, como se o meteram em um lagar? — De sorte que o vestido triunfador ia vermelho de sangue, mas de sangue como vinho, porque era sangue que, tendo de sangue a substância, tinha de vinho os acidentes. S. Cipriano: Vini utique mentio est, et ideo ponitur, ut Domini sanguis vino intelligatur: praedicatur enim verbis propheticis, et praesignificatur quod postea manifestatum est in calice dominico: Teve Cristo por tão grande honra e glória sua o sangue que derramou na vitória do mundo que, para o poder eternizar entre os homens na mesma forma de derramado, duplicou a matéria do sacramento, e o consagrou separadamente no cálix. Para o efeito do sacramento, que é a comunicação da graça, bastava só a consagração do corpo de Cristo na hóstia, que é o que só comungam todos. Pois, por que quis o Senhor consagrar o mesmo sangue também no cálix? Porque no corpo está o sangue dentro nas veias, e no cálix representa-se derramado delas. E ainda que o sangue assim recolhido bastava para nosso remédio, não bastava para a glória de Cristo, porque a glória de que Cristo mais se preza é de o ter derramado. Vede-o na mesma instituição: Hic sanguis meus, qui pro vobis effundetur (Mt. 26, 28): Este é o sangue que por vós será derramado. — Quando Cristo consagrou o cálix, ainda o seu sangue estava todo nas veias; mas o Senhor não o consagrou como sangue das veias, senão como sangue derramado delas: sanguis qui effundetur — porque isso é o que mais se prezava, isso é o que queria eternizar na fama e na memória dos homens.

 

E se fez tantos extremos Cristo por conservar o sangue derramado, não são menores os que fez por conservar as feridas abertas. Não havia coisa mais repugnante a um corpo vivo, glorioso e impassível que as cinco chagas abertas: repugnantes as dos pés, repugnantes as das mãos, e a do lado mais repugnante. E, contudo, ressuscita Cristo à vida, entra na glória, e está e estará eternamente nela com as chagas abertas. Por quê? Porque foram as feridas que recebeu na batalha do mundo, e são as testemunhas mais abonadas de seu valor, e os despojos mais gloriosos de sua vitória. Em suma, que se prezou Cristo tanto do sangue que derramou, e das feridas que recebeu na batalha, que para conservar eternamente estes dois memoriais da sua vitória, ressuscitou as feridas e sacramentou o sangue, ficando por estes dois milagres contínuo, um no céu, outro na terra, as feridas perpetuamente abertas, e o sangue perpetuamente derramado. Assim se prezou Cristo de sair vencedor da sua batalha, e assim saiu Xavier vitorioso e ferido, vitorioso e com sangue. E tão fora esteve esta bizarra ação de se poder chamar por isso meia vitória, que antes foi por isso vitória dobrada: uma vez vencedor Xavier pela batalha que venceu, e outra vez vencedor pelo sangue que derramou.

 

 

§V

 

 

Os mais valentes atletas da Igreja e os mais valentes defensores da castidade vencidos por Xavier A vitória de José no Egito e a vitória de Xavier S. Francisco Xavier, mártir e tirano de si mesmo. O martírio da fé e o martírio da castidade. Por que não saiu S. Paulo gentil homem das bofetadas da tentação? Jó, o valentão de Deus, e S. Francisco Xavier.

 

Ora, consideremos agora a Xavier assim ferido, assim banhado em seu sangue, e assim dormindo; tragamos à sua presença os mais valentes atletas da Igreja, os mais valorosos defensores da castidade, e vê-los-emos a todos, à vista de tão heróica ação, heróica e gloriosamente vencidos. Fiou Deus enfim de José acordado a tentação que não fiara dele dormindo. E que fez José estando muito em si? Largou a capa nas mãos da egípcia, e fugiu: Relicto in manu ejus pallio, fugit[89]. —Galharda ação, e ainda comparada com a de Xavier tão galharda, que um dia ou uma noite, em que a alma santa se quis mostrar a seu Esposo mais fina, mais animosa, e mais valente, se revestiu destas duas ações. Sai a esposa uma noite de casa a buscar pelas ruas e pelas praças a seu esposo divino, e, contando-lhe, depois que o achou, o que lhe tinha sucedido, e o que tinha feito, diz que se encontrara com os soldados da guarda, que brigara, e se defendera deles, e que na pendência largara a capa, e saíra ferida: Percusserunt et vulneraverunt me, et tulerunt pallium meum mihi custodes murorum[90]. — Não sei se reparais na capa e nas feridas. De maneira que quando a alma santa quis alardear finezas e valentia em matéria da defensa de sua pessoa e de sua honestidade, as duas ações que escolheu entre todos os presentes, passados e futuros foi a de José e de Xavier: a de José em largar a capa, a de Xavier em sair ferido. Mas suposto que estas duas ações foram as mais estimadas da esposa e as mais ilustres da Igreja, qual das duas é digna de maior estimação: a de José em largar a capa, ou a de Xavier em derramar o sangue?

 

A mesma esposa, que fez a eleição, deu o primeiro lugar ao sangue e às feridas, e o segundo à capa: Vulneraverunt me, et tulerunt pallium meum — e com muita razão, porque nas batalhas da castidade, ainda que o modo mais seguro de resistir é fugindo, o modo mais glorioso de vencer é pelejando. José venceu, mas venceu fugindo; Xavier venceu, e venceu pelejando; a vitória de José, sem enfeite, foi uma retirada, a resistência de Xavier foi verdadeira vitória; enfim, a vitória de José consistiu em não pelejar nem ser vencido, a de Xavier em pelejar e vencer. Fala destes dois modos de vencer Davi, e, referindo um e outro a Deus e à sua graça, diz assim: Deus noster refugiam et virtus (SI, 45, 2): O nosso Deus é refúgio e é fortaleza. — E por que, ou para quem é refúgio, ou para quem é fortaleza? S. Basílio: Recte refugium et virtutem dixit, ut ostenderet quod aliquando fugiendo, alistando stando, et pugnando vincimus: É nosso refúgio e nossa fortaleza Deus — diz Basílio — porque umas vezes vencemos fugindo, e outra vezes vencemos pelejando. — Mas as vitórias dos que fogem e as dos que pelejam, todas são de Deus: as dos que fogem, são de Deus, como refúgio; as dos que pelejam, são de Deus, como fortaleza: refugium et virtus. —Tais foram as vitórias de José e de Xavier: José venceu, Xavier venceu; a vitória de José foi de Deus, e a de Xavier também foi de Deus; mas a de José foi de Deus enquanto refúgio, porque venceu fugindo, e a de Xavier foi de Deus enquanto fortaleza, porque venceu pelejando; a ação de José foi temor com castidade, a de Xavier foi castidade com valor; a de José foi conhecer-se e temer-se, a de Xavier foi conhecer-se e triunfar-se; a de José foi dar ao golpe da tentação a capa, a de Xavier foi afogar a tentação no próprio sangue. José e Xavier ambos se acharam no curro contra aquele touro feroz, o mais bravo de todos os vícios; estavam vendo desde os palanques Deus, os anjos, os homens, o mundo; remeteu cego e furioso o touro cuidando que os levava nas pontas; e como se portaram ambos? José largou-lhe a capa com acordo, e fugiu; Xavier esperou a pé quedo, feriu-o, jarretou-o, matou-o. Ambas as sortes mereceram vivas e aplausos, mas a de José chamou-se destreza, a de Xavier valentia: Aliquando fugiendo, alistando stando et pugnando vincimus. — E consiste tanto a fortaleza na virtude deste segundo modo de vencer pelejando que, comparado um com outro, só este se chama virtude: Deus noster refugium et virtus. —O vencer fugindo, como José, é refúgio; o vencer pelejando, como Xavier, é virtude.

 

Entre agora outro contendor: quem será? Seja S. Paulo, montante da Igreja, o valente da lei da graça. Mas, antes que vejamos suas resistências, à vista deste vosso sangue, divino Xavier, não posso deixar de formar uma grande queixa, não quero dizer contra a vossa modéstia, senão contra a vossa verdade. Naquela ocasião em que descestes do céu a dar a vida ao vosso Marcelo, em Nápoles, para que ele a fosse dar por Deus no Japão, ensinastes-lhe ali a dizer em presença de todos que pedisse a Deus a graça do martírio, que vós tínheis desejado, e não alcançastes. É possível que há de dizer Xavier que desejou ser mártir, e que o não alcançou? Retratai-vos, Santo, do que dissestes, que sim alcançastes ser mártir, e ilustríssimo entre todos os mártires. Que é esse sangue prodigioso que derramastes, senão um testemunho ardentíssimo de vossa fé, e uma quinta-essência de martírio novo, singular, inaudito? De S. João Evangelista disse S. Jerônimo: Martyrium animo defuisse: que não lhe faltou o ânimo para o martírio, senão o martírio para o ânimo, e isto bastou para ficar S. João canonizado por mártir. Pelo afeto que tenho e devo ao evangelista amado, me pesa de o haver metido nos empenhos desta comparação, porque nenhum grande do céu, ainda que seja tão grande como João, pode sair deste caso senão vencido. A S. João não lhe faltou o ânimo para o martírio, mas faltou-lhe o martírio para o ânimo. Ele não faltou ao tirano, mas o tirano lhe faltou a ele. E ao ânimo de Xavier, que lhe aconteceu? Faltando-lhe o martírio, não lhe faltou o martírio e faltando-lhe o tirano, não lhe faltou o tirano, porque ele foi o mártir, e ele o tirano de si mesmo; ele foi o que padeceu o martírio, e ele o que martirizou; ele foi o que derramou o sangue, e ele o que o fez derramar.

 

Lucrécia — para que nem na gentilidade nos fiquem os maiores exemplos — Lucrécia foi tão honrada matrona, e tão romana que, por uma violência que padeceu sua honestidade, se atravessou com um punhal a si mesma! Valente ação, mas vagarosa. — Tardaste, Lucrécia — diz Agostinho. — Esse sangue que derramaste havia de ser antes da mancha, e não depois. — Assim foi o sangue de Xavier, não derramado em vingança da honestidade rendida e afrontada, mas em defensa da castidade inteira e vencedora, E por isso verdadeiro defensor da fé que devia a Deus, e verdadeiro mártir da castidade. O maior louvor que se disse da castidade foi aquele de Santo Ambrósio: Nec ideo laudabilis virginitas, quia in martybus reperitur, sed guia ipsa inartyres facit: Não merece o maior louvor a castidade porque se acha nos mártires, senão porque ela os faz. — Assim como a fé tem os seus mártires, assim a castidade tem também os seus; mas com uma diferença, que no martírio da fé, a fé é a defendida; no martírio da castidade, a castidade é a tirana: ela é a que martiriza a carne, e ela é a que faz os mártires: Ipsa martyres facit. — Mas entre os mártires que faz a castidade, o martírio de Xavier foi perfeitíssimo, porque foi mártir com sangue. Os outros martírios desta virtude, posto que sempre belicosa, são comumente metafóricos e incruentos; porém, o de Xavier foi martírio verdadeiramente cruento, e por isso perfeitíssimo, com todos os esmaltes de mártir. Não diga logo Xavier que não foi mártir, nem nós creiamos ao depoimento de sua modéstia, senão ao testemunho de seu sangue. Sem este sangue entrou na batalha virgem, e com a vitória dele saiu virgem e mártir. Entrou com uma coroa e com uma palma, e saiu com duas palmas e com duas coroas: uma coroa de açucenas, e outra coroa de rubis; uma palma de virgem, outra palma de mártir: Quia ipsa martyres facit.

 

Mas entre já S, Paulo, que há muito espera, mas não a vencer, como os demais, senão a acrescentar coroas. Uma batalha semelhante à de Xavier teve o apóstolo S. Paulo, que descreveu desta maneira: Ne magnitudo revelationum extollat me, datus est mihi stimulus carnis meae, angelus Satanae, qui me colaphizet (2 Cor. 12, 7): Para que a grandeza das revelações me não desvanecesse, deu-me Deus um espírito de Satanás, que, estimulando minha própria carne, se rebela contra mim, e me dá de bofetadas. — O modo com que resistiu a esta tentação o santo apóstolo foi pegar das armas da oração, prostrar-se diante de Deus, pedir-lhe muitas vezes sua graça: Propter quod ter Dominum rogavi[91] — e com ela saiu vencedor. Mas ainda que, segundo as leis de Deus fez o apóstolo o que devia, segundo as leis do mundo pode dizer o mesmo mundo que não ficou gentil homem S. Paulo. Todos sabeis, melhor que eu, que um homem a quem deram uma bofetada, ainda que tirasse pela espada contra seu inimigo, se não chegou a lhe tirar sangue não ficou desafrontado; haveis de ferir necessariamente a quem vos afrontou; porque a mancha de uma bofetada no rosto só com o sangue de quem a deu se lava. Afrontado ficou logo S. Paulo nas leis do mundo, porque ele confessa que seu corpo, estimulado pelo demônio lhe deu de bofetadas: Stimulus carpis meae, qui me colaphizet. — E, ainda que tirou três vezes pela espada da oração, não chegou a lhe tirar sangue. Assim se saiu S. Paulo desta pendência; porém o nosso D. Francisco de Xavier — dai-me licença que o nomeie assim neste passo, que a gentileza de uma ação tão galharda mais me parecia nascida dos brios de cavaleiro que das obrigações de religioso — S. Paulo, como religioso, resistiu com orações; Xavier como cavaleiro brioso e alentado, com o sangue de seu inimigo tomou a vingança de seu agravo, que onde as tentações são bofetadas, feridas hão de ser a resistência. O mesmo S. Paulo, ainda que seja contra si, nos há de ilustrar o passo.

 

Escreve o santo apóstolo aos cristãos da primitiva Igreja em Jerusalém, diz-lhes assim no capítulo doze: Nondum usque ad sanguinem restitistis, adversus peccatum repugnantes (Hebr. 12, 4)[92]: Não cuideis que fazeis muito em servir a Cristo, e guardar e sustentar sua lei pontualmente, que ainda não resististes contra o pecado até derramar sangue. — Até derramar sangue? E quem viu nunca, nem leu este gênero de resistência contra o pecado? Nas matérias da fé, sim, como diz S. Pedro: Cui resistite fortes in fide[93], — Mas na da castidade, qual esta era? Mais parece que aludiu aqui S. Paulo a alguma das revelações, em que falava, que à obrigação de preceito. Digamos, pois, que tinha diante dos olhos o santo apóstolo a seu grande imitador Francisco, apóstolo também das gentes, e, admirado de tal modo de resistir, aludiu a esta futura maravilha, e deu em rosto com ela aos primeiros atletas da cristandade, como se dissera: — Não cuideis, cristãos primitivos, que fazeis demasiado em perseverar constantes e resistir, como resistis, que virá tempo em que haja um homem no mundo que resistirá às tentações do demônio com o sangue das próprias veias, o que vós ainda não fizestes: Nondum usque ad sanguinem restitistis. — Isto disse S. Paulo àqueles primeiros cristãos, e o mesmo digo eu a S. Paulo. Sagrado apóstolo: Nondum usque ad sanguinem restitisti: se dizeis que vos deu as tentações Deus, para que as revelações do terceiro céu vos não desvanecessem: Ne magnitudo revelationum extollat me, datus est mihi stimulus carnis — sabei e perdoai-me, sabei que não só tendes ocasião de humildade nas tentações, senão ainda nas resistências: podem-vos humilhar as tentações, porque nelas vedes que sois homem como os outros homens, e podem-vos humilhar também as resistências, porque nelas vereis que, com serdes tão gigante, não chegais a igualar os ombros, nem podeis medir a espada com um homem, que, sendo como vós de carne, resistiu contra o pecado até derramar sangue, façanha que nunca fizestes: Nondum usque ad sanguinem restitisti. — Comparado com outros santos, bem se pode gloriar de seu valente resistir quem era tão santo que se gloriava nas suas fraquezas: Libenter gloriabor in infirmitatibus meis[94]. — Mas, comparando com Xavier, sem agravo podemos contar ao mesmo S. Paulo, e aos outros, no número dos que ele, com a cota de um ainda nãonondum — excluiu da última palma da resistência.

 

E se não, diga-o por todos Jó, e logo ouviremos a Deus a razão por que Jó o pode dizer por todos. Prudência é não só política, senão evangélica, antes de chegar a combate com o inimigo, medir as forças próprias com as suas, e, conforme a proporção de umas e outras, ou aguardar a batalha de perto, ou pedir partido de longe. Que rei há, diz Cristo, que, havendo de pelejar de poder a poder com outro rei, não considere primeiro se é bastante o seu para lhe resistir, e, quando conhece que as suas forças são desiguais — Adhuc illo longe agente, legationem mittens, rogat ea quae pacis sunt (Lc. 19, 32): não espera o combate, nem deixa chegar o inimigo, mas, estando ele ainda longe, manda seus embaixadores a pedir-lhe paz, e rogar-lhe com partidos. — Assim o fez aquele grande rei Jó, maior por sua constância e fortaleza que por seu império. Considerou a guerra que faz a carne contra o espírito, e as resistências que deve fazer o espírito à carne: Caro concupiscit adversus spiritum, spiritus autem adversus carnem[95]. — Considerou as forças deste poderoso inimigo, e mediu-as com as suas; e que resolução tomou? O mesmo Jó o diz, que eu não lho levanto: Pepigi foedus cum oculis meis, ut ne cogitarem quidem de virgine[96]: Fiei tão pouco de minhas forças — diz Jó — para esperar e resistir os assaltos de tão bravo, tão insolente e tão vitorioso inimigo, que vim a tomar o conselho que tomam os que se vêem totalmente faltos de resistências. E para que ficasse afastado muito longe de mim, e nem por pensamento chegasse a me dar batalha: ne cogitarem — abati as armas, pedi quartel, rendi-me a partido: pepigi foedus. Pois a partido se rende Jó, aquele com quem Deus desafiava o inferno? —Numquid considerasti servum meum Job[97] — O valentão de Deus, a ronca do paraíso pede quartel? Sim, senhores, diz S. Gregório Papa. Pode tanto a força brandamente violenta de um pensamento molesto e importuno, que humilha as resistências do maior capitão nesta milícia.

 

Ainda Jó não estava tentado nem combatido, ainda a tentação lhe não tinha tirado pela capa, como a José, nem lhe tinha posto as mãos afrontosas no rosto, como a Paulo, e, sem mais que a imaginação ou apreensão de um pensamento ao longe, estava tão assombrado aquele coração invencível, que, rendido só da opinião do perigo, desconfia da vitória, recusa a batalha, capitula sujeições, e salva a vida a partido. Ah! divino Xavier, que grande sois, e quanto campeiam vossas grandezas à vista das dos outros santos? Perdoe-me a corte do céu, perdoem-me os bem-aventurados da glória, que suas façanhas, por grandes que sejam, parecem sonhos de vossas verdades, e as verdades de vossos sonhos são assombro de suas façanhas. José acordado foge, Paulo acordado pede paz, Jó acordado rende-se a partido, e Xavier dormindo peleja, dormindo vence, dormindo triunfa. Vindo o demônio de correr todo o mundo: Circuivi terram, et perambulavi eam[98]- perguntou-lhe Deus se vira lá a seu grande servo Jó, e se reparara bem que não havia no mundo homem semelhante a ele: Numquid considerasti servum meum Job, quod non sit ei similis in terra? — Olhai quanto vai de tempos a tempos, de homens a homens, e de santos a santos. O mesmo Jó, comparado com os outros homens, não tem semelhante, comparado com Xavier, não tem semelhança. Esse Jó, o maior que todos os homens, rende-se a um pensamento, pede quartel, comete partidos: ne cogitarem; mas a fortaleza, a constância, o ânimo, o brio, o valor de Xavier não se humana a tréguas, não se humilha a concertos, a ferro e a sangue peleja, a ferro e a sangue vence, ou, por melhor dizer, não vence a ferro e a sangue, senão a sangue sem ferro, que é muito mais.

 

 

§ VI

 

 

O que teve defino, de alto, de heróico e de sublime o espírito incomparável de Xavier Que instrumento foi o que arrancou das veias o sangue de Xavier? Que mais teve o sangue do Horto que o da cruz, que o da coluna, que o da coroa de espinhos, para ser mais admirado e encarecido? A diferença que teve o sangue de Xavier derramado nesta ocasião comparado com o dos outros santos? As causas do suor de sangue, e as excelências do sangue de Xavier sobre o sangue de Cristo suado no Horto.

 

Até agora consideramos este grande caso por fora: o sono, a tentação, a resistência, o sangue; agora é necessário que penetremos o interior de tudo isto, e veremos o que teve de fino, de alto, de heróico, de sublime o espírito incomparável de Xavier. Agora quisera pedir outra vez a graça; mas, por vos não descompor a atenção, contento-me com vo-la tornar a pedir. Resistiu Xavier à tentação, derramando sangue, sim; mas que instrumento foi o que lhe arrancou das veias esse sangue? Não podemos negar que outros muitos santos venceram semelhantes tentações com o sangue das próprias veias. Demos o seu a seu dono. Um patriarca, S. Bento, que entre as silvas e espinhos buscou a rosa da castidade; um S. Jerônimo, que com uma pedra feria os peitos, até os deixar em carne viva, para mortificar a carne; um S. Domingos, que se disciplinava com cadeias de ferro para domar a rebeldia do corpo; um Santo Aniano, que chegou a arrancar os olhos, porque foram cúmplices de um pensamento. O outro santo que cortou uma mão, o outro que cuspiu fora a língua. Todas estas façanhas deixaram os santos vivas nos anais da santidade, para perpétua admiração dos séculos; mas todas estas resistências comparadas com as de Xavier reconhecem nele muitas vantagens; porque os outros pelejaram a ferro e sangue, Xavier a sangue sem ferro, que é, como dizia, muito mais. Não sei se imagino bem.

 

Seis vezes derramou Cristo seu preciosíssimo sangue —já não acho comparações nos santos do céu nem da terra; é força buscá-las no Santo dos santos, e na fonte da mesma santidade. — Derramou Cristo seu preciosíssimo sangue na circuncisão, no Horto, nos açoites, na coroação, na cruz e na lançada. Saibamos: e de todo este sangue, tantas vezes e por tantos modos derramado, houve algum que tivesse alguma excelência, alguma vantagem, alguma prerrogativa, ou, quando menos, alguma diferença, pela qual mereça ser estimado, honrado e venerado com mais particular amor, com mais particular devoção, com mais particular afeto? Toda a teologia mística, que é a que mais alcança de Deus, responde que sim, e dá esta excelência e prerrogativa ao sangue que Cristo derramou no Horto. Mas por quê? Que mais teve o sangue do Horto que o da cruz, que o da coluna, que o da coroa de espinhos, e mais tormentos? Um e outro estava unido hipostaticamente ao Verbo, um e outro era preciosíssimo, e de valor infinito, um e outro foi derramado livre e espontaneamente, e se a algum se atribui mais particularmente o mistério de nossa redenção, é ao sangue da cruz. Pois, logo, que mais teve o sangue do Horto, para ser tão admirado, tão encarecido, e com tanto extremo estimado? A razão deu-a extremadamente o doutíssimo Salmeirão: Quamquam omnis Christi sanguis sit immensi valoris, iste tamen, quia non incisa ejus carne per flagella, per spinas, per clavos, nec lanceam, sed sponte effluxit, in magno honore est a nobis habendus: É verdade que todo o sangue de Cristo era igual, sem vantagem, na infinidade do preço; mas o sangue do Horto teve uma circunstância superior, pela qual merece particular veneração, honra e afeto, que é o haver sido mais generosa, mais liberal, e mais fidalgamente derramado, porque o sangue da Paixão teve necessidade de cravos, de lança, de açoites, de espinhos, para o derramarem; porém, o sangue do Horto, ele por si rebentou das veias, sem mais violências que as do próprio coração, do próprio amor. — Foi o sangue do Horto como o precioso licor da mirra, a que chamam primeira, o qual por si mesmo brota, e se estila, e sua da árvore, sendo o da Paixão como o da mirra segunda, que não sai senão espremido por arte, e como por força, depois de picado e rasgado o tronco com ferro. E tal é a diferença de sangue de Xavier nesta ocasião, comparado com os dos outros santos. O sangue dos outros santos, não digo que fosse mais tardo, ou menos fervoroso; mas foram necessários instrumentos exteriores e violentos para o derramar; porém, o sangue de Xavier, com ímpetos de mais acelerado e ardente, e como mais fino e mais adelgaçado no fogo do amor, ele por si se desfechou das veias. O sangue de S. Bento foi como o sangue da coroação de Cristo, que o tiraram os espinhos; o sangue de S. Domingos foi como o da coluna, que o tiraram os açoites: o sangue dos outros santos foi como o sangue do lado, das mãos e dos pés, que o tiraram os cravos, a lança, e outros instrumentos de ferro; mas o sangue de Xavier foi como o sangue do Horto, que o tirou a força do amor divino, sem outro exterior instrumento, e, por isso, mais qualificado na mesma igualdade, mais admirável e amável nela.

 

Ora, já que aqui chegamos, consideremos que violências interiores fizeram suar sangue a Cristo, porque, visto a tão grandes luzes, teremos muito que admirar no sangue de Xavier. As causas do suor de sangue de Cristo dizem ordinariamente os santos e doutores que foram duas. A primeira, conforme S. Justino e Teofilato, foi a viva consideração da morte propínqua, e dos tormentos que havia de padecer. Apreendeu o Senhor em seu entendimento as dores, as penas, as injúrias, as afrontas, e o rigor da morte que naquele dia o esperavam, e foi tão aguda e penetrante esta imaginação, que começou a humanidade sagrada a agonizar mortalmente, e a suar sangue: Factus est sudor ejus tanquam gattae sanguinis decurrentis in terram[99]. — Ah! glorioso Xavier, que a grandeza de vossas ações me vai quase tirando do assunto que prometi! Mas exceder os limites da prova, antes é aperfeiçoar a promessa. Veio-me ao pensamento dizer que fostes maior santo dormindo que os outros santos acordados. Mas não me atrevendo a tanto, só prometi que diria o que pudesse provar. E neste passo, se bem se consideram as circunstâncias dele, parece que excedem vossas obras e maravilhas, não só às dos outros santos, senão ainda às do mesmo Cristo. Não cuide algum escrupuloso que me atrevo demasiadamente, que a grandeza verdadeira é muito confiada, e o mesmo Cristo nos deu licença para falarmos assim: Qui credit in me — diz o Senhor por S. João, no capítulo 14 — opera, quae ego fatio faciet, et majora horum faciet (Jo. 14, 12): Os que crerem em mim, e me servirem, farão as obras que eu faço, e ainda maiores. — Não quer dizer que serão maiores na substância, nem no valor, que o das obras de Cristo sempre é infinito, e o das puras criaturas limitado; mas nas circunstâncias e no modo, diz o mesmo Senhor e Redentor dos homens que podem os homens fazer ações tão heróicas e levantadas, que, comparadas com as suas, as igualem, e ainda as excedam. Neste sentido fala, e neste me parece que a ação e maravilha do sangue de Xavier, derramado em tal ocasião, excede a do mesmo sangue de Cristo suado no Horto. Cristo suou sangue no Horto, porque se lhe representaram os tormentos da morte; Xavier suou sangue na tentação, porque se lhe representaram as delícias da vida. Uma e outra apreensão foi veemente, uma e outra imaginação foi causa, mas os efeitos foram muito mais admiráveis em Xavier, porque a Cristo fê-lo derramar sangue a imaginação dos tormentos, mas a Xavier a imaginação das delícias. Que a imaginação dos tormentos tirasse sangue a Cristo não é maravilha que exceda os limites da razão: os tormentos, ainda que imaginados, sempre são repugnantes à natureza; porém, que a imaginação dos deleites e das delícias, que tão conformes são à humanidade, lhe façam rebentar o sangue das veias, como se foram verdadeiros tormentos, esta é a maravilha das maravilhas, este é o pasmo dos pasmos.

 

O mesmo Senhor, que tanto quis honrar a seu servo, nos há de subir de ponto este pensamento. Quando a Madalena ungiu a Cristo com aquele precioso ungüento, murmuraram os discípulos de que aceitasse semelhante regalo quem lhes fazia tantas exortações da mortificação; acudiu, porém, o Senhor com aquelas tão sabidas palavras: Mittens haec unguentum hoc in corpus meum, ad sepeliendum me fecit (Mt. 26, 12): Que não estranhassem admitir em seu corpo aqueles ungüentos, porque o ungia a Madalena para a sepultura. — Para a sepultura? Pois, como? Se Cristo estava vivo, como diz e se pode verificar que o ungia a Madalena para a sepultura? O Cardeal Caetano o disse, e com bem aguda advertência: Constat quod cadaveri non adhibetur unguentum ad delicias. Itaque utebatur Dominus ista unctione sine omni sensualitate, sicut cadaver, quod ungitur, ut sepeliatur: Dizer Cristo que a Madalena o ungia para a sepultura, foi significar — diz Caetano — que estava seu corpo tão mortificado e insensível na vida como se já tivera passado por ele a morte; como se dissera o divino Senhor: Ainda que aceito, ou não resisto estes ungüentos da Madalena, não me tenhais, discípulos meus, por regalado e delicioso, porque haveis de saber que está tão mortificado, e tão morto este corpo que vedes, que as delícias em mim não são delícias, e estes ungüentos da Madalena mais os recebo como cerimônias de morto, que como regalos de vivo. — Assim como os defuntos, que vão a enterrar, nenhuma deleitação recebem nos ungüentos com que os ungem, porque a morte os fez insensíveis, assim está tão morta e tão mortificada minha humanidade, que não sente mais deleitação nestes ungüentos preciosos que se a Madalena me ungira para a sepultura: Ad sepeliendum me fecit. — Até aqui encareceu Cristo a mortificação de seu corpo sagrado; mas a de Xavier, se bem advertirdes, ainda a temos mais encarecida nesta ação: majora faciet. — No corpo de Cristo chegaram as delícias anão ser delícias; no corpo de Xavier passaram as delícias a ser tormentos, Em Cristo chegaram as delícias a não ser delícias, porque não obravam como delícias, nem causavam deleite; em Xavier passaram as delícias a ser tormentos, porque obravam como tormentos, e chegaram a tirar sangue. Há mais grandeza? Há mais excelência? Há mais maravilha? Ainda há mais.

 

A segunda causa que fez suar sangue a Cristo no Horto dizem os santos, mais conformemente, que foi a apreensão de todos os pecados do mundo. Considerou o Redentor o número sem-número de pecados presentes, passados e futuros, com que os homens ofenderam, e haviam de ofender a seu Eterno Padre, e foi tão grande a dor que concebeu em seu coração, que entrou naquelas ânsias e agonias mortais, que se desafogaram em suores de sangue. Tal o nosso Francisco Xavier, Foi-lhe tão penoso tormento aquela imaginação ou representação uma, material e informe, só porque costuma ser matéria de pecado e ofensa de Deus, que de pura aflição e ânsia lhe rebentou o sangue das veias. Mas nisto mesmo teve circunstâncias tantas e tais, que, à vista da imaginação do mesmo Cristo no Horto, subiram grandemente de ponto esta heróica ação. Cristo suou lágrimas de sangue pela apreensão de todos os pecados do mundo; Xavier pela de um só pecado. Cristo por pecados de pensamentos, palavras e obras; Xavier por um pecado de pensamento. Cristo por pecados reais e verdadeiros; Xavier por um pecado imaginado. Cristo por pecados que eram, foram, e haviam de ser; Xavier por um pecado que nem era, nem fora, nem havia de ser, senão só porque podia ser pecado. Tanto amava Xavier a Deus, que obravam nele as possibilidades de uma ofensa sua o que em Cristo as existências de todas.

 

 

§ VII

 

 

Se não podia ser pecado um pensamento sonhado, por que lhe resiste tanto Xavier? Por que resistiram os outros santos? Em que esteve o fino da famosa ação de Davi, quando, tendo a Saul debaixo da lança, lhe não quis tirar a vida? Quanto ficou Davi atrás de Xavier neste mesmo caso. Quão delicados e escrupulosos eram os primores da pureza de Xavier, ainda examinados aos raios da pureza divina. A pedra que derrubou a estátua de Nabucodonosor, e a pedra que derrubou o gigante Golias. Conclusão.

 

Mas, se neste caso não havia pecado, apertemos bem o ponto. No sono não há livre alvedrio, sem livre alvedrio não há pecado, logo, suposto que Xavier estava dormindo, não só não era pecado aquele pensamento, mas nem o podia ser. Pois, se não podia ser pecado, por que lhe resiste Xavier tanto à sua custa? Porque era Xavier. Não lhe acho outra razão. E se não, vede as razões por que os outros santos resistiram. Resistiu José tão resolutamente como vimos. E por quê? Por temor do pecado. Ele mesmo o disse: Quomodo possum hoc nalum facere, et peccare in Deum meum[100]? —Resistiu Susana, ainda com maior vitória, sendo mulher, porque resistiu contra a morte e contra a honra. E por quê? Por temor do pecado. Ela o disse também: Melius est mihi incidere in manus vestras, quam peccare in conspectu Domini[101]. — E por que nos não faltem, ou por que não pareça que fugimos dos exemplos dos que derramaram sangue, entrem de uma vez todos os mártires. Resistiram os mártires valorosamente, padeceram os tormentos, deram a vida, derramaram o sangue. E por quê? Ainda que foi por amor da fé, em todos concorreu o temor do pecado, como gravemente pondera Santo Ambrósio: porque a todos põe o tirano entre a coroa e o suplício; a todos se põe o céu e o inferno à vista; a todos se manda escolher neste terrível dilema: ou ser mártir perdendo a vida, ou ser apóstata perdendo a fé. Nada disto havia no caso de Xavier, porque não havia pecado, nem temor de pecado, nem possibilidade de pecado. Se aquele pensamento fora ou pudera ser pecado, não é muito que lhe resistira qualquer santo, e ainda qualquer cristão, até derramar sangue, que essa é a obrigação da lei de Deus, não consentir no pecado, ainda que custe a vida; mas não ser aquela imaginação, nem poder ser pecado, e contudo resistir-lhe com tanta violência, só porque tinha parentesco com outras imaginações que costumam ser pecados, isto sim que é a verdadeira santidade: não resistir pelo perigo da consciência, senão pelo amor da virtude.

 

Uma das mais louvadas façanhas de toda a Escritura é a generosidade de Davi, com que, tendo a seu inimigo debaixo da lança, lhe não quis tirar a vida. Esta é a circunstância que todos louvam; mas quanto a mim não esteve nisto a fineza.

 

Pois, em que esteve? Esteve em que podendo ter a satisfação de vingado sem a culpa de homicida, perdoou, não por temor do pecado, senão por amor da virtude. Deus tinha dado licença a Davi para que pudesse matar a Saul, se quisesse, e assim lho lembraram naquela ocasião os companheiros: Ecce dies, de qua locutus est Dominus: Tradam tibi inimicum tuum, ut facias ei sicut placuerit in oculis tuis (1 Rs, 24, 5): Chegado é, senhor, o dia que Deus vos tinha prometido: Matai a vosso inimigo, pois Deus vo-lo entregou nas mãos. — De maneira que tinha Davi licença de Deus para tirar a vida a Saul, e o podia matar, como ministro do mesmo Deus, sem pecar, assim como os ministros de justiça matam homens sem pecado. Pois aqui esteve o fino desta famosa ação de Davi: se matar a Saul fora pecado, nunca o fizera Davi, porque era santo; porém que, podendo Davi ter a satisfação de vingado sem a culpa de homicida, que quisesse contudo perdoar a seu inimigo, e tal inimigo, isto sim que é verdadeira ação de grande santidade: não obrar a virtude por temor do pecado, senão a virtude por amor da virtude. Tal Xavier, Estava livre de ofender a Deus, pela impecabilidade do sono, e, podendo lisonjear a imaginação, sem manchar a consciência, repugnou e resistiu até derramar sangue, defendendo fiel e generosamente, não a castidade por temor da impureza, senão a castidade por amor da castidade.

 

Mas cuidará alguém que ficou igualmente gentil-homem Davi, e que correu parelhas com Xavier neste caso. Ora vede no mesmo caso quanto ficou Davi atrás. Diz o texto: Post haec percussit cor suum David (1 Rs. 24, 6): que depois desta ação lhe bateu o coração no peito a Davi, e que lhe remordeu a consciência. — Pois a consciência de que, se Davi tinha feito um ato tão singular e heróico, e se tinha portado em tal ocasião de vingança, tão pio, tão modesto, tão religioso, e ainda tão reverente a seu inimigo? Isto é o que foi no fim da tentação, mas não o que tinha sido no princípio. O mesmo Davi o disse logo a Saul: Cogitavi ut occiderem te, sed pepercit tibi oculus meus[102]. —A primeira resolução de Davi quando viu a Saul, só e sem defensa, foi cozê-lo ali a punhaladas, a matá-lo, como lhe diziam os companheiros; mas, depois que considerou, depois que discorreu, depois que abriu os olhos para ver o muito que havia que ver, e ainda que chorar, naquele caso absteve-se Davi da execução, perdoaram seus olhos a Saul, como ele diz: Pepercit tibi oculus meus. — De sorte que toda esta grande façanha de Davi foi vitória com queda: primeiro a tentação o derrubou a ele, e depois ele derrubou a tentação; primeiro se quis vingar, e depois perdoou; primeiro foi vencido, e depois venceu. Antes, bem considerado o procedimento ou o processo de toda esta ação, se pode duvidar, sem agravo de Davi, se mereceu nome de vitória, porque não foi resistência da tentação, senão emenda do arrependimento. Deliberou a morte de Saul, e depois arrependeu-se; cegou-se, e depois abriu os olhos: Pepercit tibi oculus meus. — Não assim Xavier. Davi consentiu e caiu no pensamento, Xavier sempre resistiu constante; Davi deliberou-se a derramar o sangue alheio, Xavier não duvidou de derramar o próprio; Davi perdoou, mas tarde, a seu inimigo, Xavier não tardou um instante em se não perdoar a si mesmo; Davi vencido venceu-se, mas depois que abriu os olhos: Pepercit tibi oculus meus — Xavier venceu-se invencível, estando com os olhos fechados; finalmente, Davi em matéria onde podia não haver pecado, teve de que fazer penitência: Percussit David cor suum — Xavier onde não houve de que fazer penitência, nem era possível haver pecado, executou o mais cruento e o mais rigoroso castigo contra seu próprio corpo.

 

Agora vejo que me perguntam que castigou Xavier, se aqui não havia pecado, nem ofensa, nem injúria de Deus? Não havia ofensa nem injúria de Deus, mas havia ofensa e injúria sua, e essa castigou Xavier. Os homens de bem hão de regular suas ações por duas leis: pela lei de Deus, e pela lei de quem são. Onde há ofensa de Deus, hão de temer ofender a Deus; e onde não há ofensa de Deus, hão de temer ofender-se a si. Isto é o que altamente chamou Sêneca reverência de si mesmo: Cum jam profeceris tantum, ut sit tibi etiam tui reverentia. — Mas, se em si mesmo tudo o que aqui houve — como acabamos de dizer — não foi mais que um pensamento tão leve, que é o que vinga, que é o que desafronta, que é o que castiga Xavier? Até a soberba humana, em que a honra e a vingança têm tantos pontos, e esta tanto em seu ponto, não vinga imaginações nem castiga pensamentos. Castigar pensamentos é regalia tão própria e tão unicamente singular da divindade, que nem à sua mesma Esposa a comunica Deus, segundo aquele Cânon: Ecclesia non judicat de internis. — Que diremos logo desta ação de Xavier? Diremos que a pureza de seu corpo e alma, das suas portas a dentro se trata com pundonores de divina, dos quais resultam fora estes extremos? Eu não sei que coisa semelhante repreendeu Deus em Jó, quando lhe disse: Si habes brachium sicut Deus, et si voce simili tonas[103]. — Contudo, nem por isso me retrato do que inferia dos pundonores de Xavier, como divinos, antes afirmo que quem assim o disser não dirá mais do que é, senão menos. Para Deus se dar por ofendido, e castigar pensamentos, não basta que nos viesse à imaginação um pensamento mau, mas é necessário que deliberadamente consintamos nele, porque non nocet sensus, ubi non est consensos. — Porém no juízo de Xavier, para ele se ofender, e castigar um pensamento, basta que de sua natureza seja mau, ainda que não fosse consentido, como aqui não foi. Donde se segue que em matéria de ofensas de Deus, ou suas, mais estreito é o juízo de Xavier que o de Deus, pois no mesmo caço, em que a reverência de Deus se não ofendia, a pureza de Xavier se deu por ofendida. Tão delicados e escrupulosos eram os primores da sua pureza, ainda examinada aos raios da divina!

 

Chegado aqui, não tem mais para onde subir o nosso discurso. Mas quem descer com a memória pelos quatro degraus dele, em todos, achará que este só caso lhe deu muito que deixar impresso na admiração. Primeiro, que sem acordar Xavier, se portasse tão acordado; segundo, que sendo a matéria tão grosseira, obrasse nela tantas finezas; terceiro, que não tendo o inimigo carne nem sangue, a batalha fosse sanguinolenta; quarto, que em tão arriscada e dificultosa empresa se alcançasse a vitória, sem as armas nas mãos; e seja o quinto e último, que não só sem armas nas mãos, mas sem mãos, porque estavam atadas. Viu Nabucodonosor em sonhos aquela estátua misteriosa de metais, que tinha a cabeça de ouro, o peito de prata, da cintura aos joelhos de bronze, dos joelhos aos pés de ferro; e viu mais que desceu uma pedra do monte, que, tocando-lhe nos pés, que eram de barro, deu com toda aquela máquina em terra. Compara esta pedrada Drogo Hostiense com a que Davi atirou ao gigante, e diz que esta vitória foi maior e mais digna da onipotência divina:

 

Factus est lapis, et percussit Goliam in fronte, statuam in pedibus: iste jactus tuas Domine. — Pois, se a estátua de Nabucodonosor era uma fábrica morta, ruinosamente fundada em pés de barro, e o gigante de Davi era um colosso vivo, uma pirâmide animada, uma torre coberta de ferro, como foi esta vitória menos admirável que aquela? Dá a razão o mesmo Drogo Hostiense, tirada da Escritura: Quia iste lapis abscissas est sine manibus: Porque a pedra que derrubou a estátua, como diz o texto, foi atirada sem mãos; a pedra que derrubou o gigante foi meneada pelas mãos de Davi, que volteou a funda, que disparou o tiro; porém, a pedra que derrubou a estátua foi despedida sem impulso, e atirada sem mãos: abscissus sine manibus. — E assim, ainda que a estátua era morta, e o gigante vivo, maior vitória foi derrubar a estátua que derrubar o gigante, porque o gigante foi vencido com mãos, e a estátua sem elas. O mesmo passa nesta vitória de S. Francisco Xavier comparada com os outros santos. Já sabeis que enquanto um homem está dormindo tem as mãos do livre alvedrio atadas, É verdade que pode merecer e desmerecer pelos atos ou hábitos antecedentes, mas a vontade e livre alvedrio, que são as mãos com que obra nossa alma, estão atadas nas prisões do sono. Pois, por isso é muito maior a vitória de Xavier que a dos outros santos, porque, ainda que os inimigos fossem igualmente poderosos, eles pelejaram acordados, Xavier pelejou dormindo; eles venceram com as mãos do alvedrio livres, Xavier com as mãos atadas; eles com mãos, Xavier sem mãos: sine manibus.

 

Quando os filisteus quiseram matar a Sansão, pediram a Dalila que o atasse primeiro, e lho tivesse seguro. Fê-lo ela assim escolhidamente, não sei por que interesses, e diz o texto que o atou com sete ataduras fortíssimas. Eis aqui, senhores, quem tendes em vossa caça, quem sustentais à vossa custa, e com o vosso pão: quem vos ata as mãos e os pés, para que vos não possais defender de vossos inimigos, contra todo direito natural. Mas o valente Sansão não se levou desse erro: tanto que viu a ocasião, quebrou as ataduras, saltou do lugar onde dormia, e derrocou-os a todos. Pois, valoroso Sanção, para que vos soltais, por que quebrais os laços, por que vos não deixais estar preço neles? Não fora muito mais gloriosa vitória pelejar assim com vossos inimigos, e vencê-los com as mãos atadas? Não há dúvida que muito mais gloriosa vitória fora; mas esses impossíveis só para Xavier estavam guardados. Estava Xavier dormindo como Sanção, atado com sete ataduras: as cinco dos cinco sentidos, as duas do entendimento e vontade, e quando chegou a tentação, quando chegaram os inimigos, não acordou, não se soltou das prisões; deixou-se estar com as mãos do alvedrio atadas, como se dissera a todo o inferno, que o acometia: — Chegai, chegai, covardes, que Xavier para vós não há mister mãos. — Assim vencestes, glorioso soldado da Companhia de Jesus, assim vencestes ao maior inimigo do gênero humano, e assim triunfastes dele. Pintem-vos diversos afetos como quiserem, uns apartando do peito as roupas, pelo incêndio divino, outros com um sol abraçado na mão, porque o fostes do Oriente e do mundo, outros com um ramo de neve em açucenas, que são a palma da virgindade, que eu, se houvesse de reduzir a breve epílogo vossas maravilhas, havia-vos de pintar com as mãos atadas, e com o inferno aos pés.

 

 

 

CONCLUSÃO AOS SONHOS DE XAVIER DORMINDO

 

 

Xavier e a resposta do imperador Timóteo aos que o acusavam de nada fazer pela grandeza do império. Que é, ou que vem a ser Xavier dormindo?

 

E se dormindo, e com as mãos atadas, alcançou este novo Sansão da Igreja tão prodigiosas vitórias, acordado e vigiando, que vos parece que faria? Vinham novas de grandes vitórias e conquistas ao imperador Timóteo, como refere Plutarco, e como nas cortes sempre há habilidades queixosas, e entendimentos descontentes, saiu uma noite este pasquim. Estava o imperador pintado em trajos de pescador, dormindo em uma barquinha sobre ferro, e lançadas ao mar as redes, que cercavam cidades, e as nassas, pelas quais iam entrando outras, que ele depois recolhia. Queriam significar com isto os malévolos que não tinha o imperador que se vangloriar das vitórias que alcançava, porque ele se estava mui descansado no seu palácio, como o pescador dormindo na barquinha, e as cidades que iam entrando em seu império, e acrescentando sua grandeza, aos capitães que as conquistavam se deviam, e não a ele. Foi levado este pasquim ao imperador, o qual, como sábio e confiado — que tudo é a mesma coisa — pediu a pena, e escreveu por baixo esta regra: Si tantas urbes dormiens capio, quid me vigilantem facturum putatis? Se eu dormindo venço tantas cidades, que vos parece que farei vigiando? — O mesmo podia dizer de si Xavier, e o mesmo digo eu dele. Se o Evangelho e o tema pedia que vos dissesse quanto vigiou este grande santo, e quão vigilante servo foi de Cristo em sua vida, olhai para ele dormindo, e vê-lo-eis. Tomar por assunto a Xavier vigiando, e querer reduzir a discurso as maravilhas prodigiosas que este singular herói obrou acordado, é empresa quase impossível; mas das vitórias que alcançou dormindo se pode fazer conceito do que venceria vigiando: Quid me vigilantem facturum putatis, si tantas urbes dormiens capio?

 

Considerai e pesai bem que é, ou que vem a ser Xavier dormindo. Xavier dormindo não é todo Xavier, nem ainda parte de Xavier: é um desmaio de Xavier, é uma sombra, é uma estátua, é um cadáver. Pois, se um cadáver, se uma estátua, se uma sombra, se um desmaio de Xavier, assim peleja, assim resiste, assim vence, assim triunfa; se um Xavier sem Xavier, se um Xavier não em si, e desacompanhado de si mesmo, obra tais maravilhas, Xavier acordado, Xavier vivo, Xavier todo, Xavier dentro em si e Xavier consigo, julgai o que seria e o que faria? Aos soldados mais valentes, aos capitães mais experimentados, e aos servos mais fiéis e mais cuidadosos de sua casa, manda-os Cristo vigiar, e busca-os vigiando para os achar; mas a Xavier, como mais soldado, como mais capitão e como mais servo, dormindo o busca, dormindo o tenta, dormindo o acha, dormindo o coroa.

 

O juízo verdadeiro desta conjectura pertence à segunda parte, no título Xavier acordado. E certamente que os seus desvelos merecem melhor orador que os seus sonhos. Eu já protestei no princípio que também estava sonhando quando me veio ao pensamento que fora Xavier maior santo dormindo que os outros vigiando. O que prometi foi que diria o que pudesse provar. Mas, se provei o que disse, agora confesso que disse muito menos do que devera. Não peço, porém, perdão ao santo, porque ser ele tão grande, assim como é glória sua, não pode ser culpa minha.

 

 

 

PREFAÇÃO AOS DESVELOS DE XAVIER ACORDADO

 

 

 

Maria, oficina do Espírito Santo, onde se lavraram as virtudes, se fabricaram os milagres, e se fundiram e temperaram as armas para as vitórias de Xavier Que sucedeu a Xavier na sua conversão. Como multiplicou Xavier as doze estrelas que S. João descobriu na coroa da Virgem?

 

Nunca amanheceu a Francisco Xavier no oriente a aurora, que o não achasse, não só vigiando, mas desvelado. E qual era a aurora do seu oriente? Não aquela de que nasce o sol que alumia o mundo, senão a de quem nasceu a luz do mundo, o que criou o mundo, e pôs nele o sol. Estes eram os seus cuidados de dia e os seus desvelos de noite. E, assim como a aurora todos os dias abre as portas ao sol, assim ele vigiava às portas da sua Aurora todos os dias: Qui vigilat ad fores meas quotidie.  - A Maria Senhora nossa, e Senhora, Mãe e protetora sua, depois de contemplar suas grandezas, cantar seus louvores, e implorar suas misericórdias no silêncio da noite, para entrar e sair felizmente dos trabalhos e empresas do dia, se lhe oferecia todo. Os pensamentos e seus gloriosíssimos olhos, com que está vendo a Deus, para que os dirigisse; as palavras a seu ardentíssimo coração, para que as acendesse; as obras a seus poderosíssimos braços, para que as confirmasse. Naquela oficina do Espírito Santo se lavravam as virtudes, se fabricavam os milagres, se fundiam e temperavam as armas para as vitórias.

 

Sendo tão fechados os bosques que se haviam de abrir, e tão fragosas e incultas as terras que se haviam de romper, muitos dias havia - quem tal imaginara! - que a mesma senhora tinha guardado o metal duro e forte, que havia de dar a matéria a tão poderosos instrumentos. Quando Santo Inácio trocou a milícia da terra pela do céu, ao altar famoso de Monserrate dedicou o valente capitão a sua espada, velando aquela noite as armas, como então se costumava em Espanha, e se significava com estes termos. Muito tempo se viu ali pendente aquele nobre despojo da vitória de si mesmo. Mas que se fez da mesma espada? Diz o profeta Isaías, e também Miquéias, que nos tempos do Messias se convertiam as espadas em arados: Conflabunt gladios suos in vomeres (Is. 2, 4) - e assim o fez a soberana Rainha dos anjos, dispondo daquela oferta como sua, e querendo que da espada de Inácio se forjasse a espada de Xavier. Bem mostrou depois a experiência que ambos estes dois instrumentos eram formados do mesmo metal, porque tudo o que Santo Inácio ordenava em Roma, S. Francisco Xavier ditava na índia, sem se comunicarem.

 

Mas antes que nos apartemos da forja, não deixarei de contar aqui o que sucedeu também a Xavier na sua conversão. Enquanto Santo Inácio meditava o seu instituto, e na universidade de Paris ia escolhendo alguns companheiros, o que lhe levava os olhos era D. Francisco Xavier, o qual, porém, não podia reduzir a que metesse debaixo dos pés o mundo, que o trazia nas palmas, como a fama nas línguas. Tinha, porém, Xavier um colega dos mesmos estudos, chamado Pedro Fabro, que já seguia a Inácio, e ambos finalmente conseguiram o que Inácio só não pudera. Daqui se formou um emblema, que entre os engenhosos e discretos nenhum se inventou mais próprio. Inácio significa fogo, e Fabro ferreiro. Pintaram, pois, uma fornalha ardendo, e o ferreiro batendo o ferro afogueado, com a letra que dizia: Solus non sufficit ignis. - A dureza de Xavier em ambos os estados sempre foi de homem ferro; e para amoldar a dureza do ferro não basta só o fogo, é necessário o fogo e mais o fabro.

 

Forjado da espada de Inácio o arado de Xavier, então se viu na terra e no céu aquele impossível do poeta: Terra feret stellas, caelum findetur aratro: Que quando o céu se lavrasse com o arado, então a terra produziria estrelas. - Assim sucedeu. Arava Xavier o mar com as suas navegações, arava a terra com suas peregrinações, arava principalmente o céu com suas orações; e quando as orações do céu se ajuntavam com as pregações da terra, então produzia a terra estrelas, que mandava ao céu.

 

As que mais estimava Xavier eram as da Via Láctea, que, tiradas dos peitos das mães, iam sem dúvida logo a ver o Pai. Mas em todas as outras idades e estados era com a mesma fertilidade. Os astrólogos com o nome de magnitudo distinguem nas estrelas primeira, segunda, terceira, até sexta grandeza. E a natureza e a fortuna fazem no mundo a mesma distinção e o mesmo número. A natureza nas idades subindo: infância, puerícia, adolescência, idade de mancebo, de varão, velhice. A fortuna nos estados descendo: reis, príncipes, fidalgos, nobres, plebeus, escravos. E de todas estas idades e estados, pela pregação de Xavier, nasceram em todas as terras do oriente inumeráveis estrelas.

 

A Abraão, aparecendo-lhe Deus de noite, disse que contasse as estrelas, se podia: Numera stellas, si potes (Gên. 15, 5). - E depois de Abraão não poder contar tantas, lhe revelou o Senhor que tão inumerável seria o número da sua descendência: Sic erit semen tuum (ibid.). - E sendo as almas de inocentes, que, pelo batismo, e de adultos, que, pela doutrina, ou mandou logo Xavier, ou pôs no caminho do céu, como já dissemos, mais de um milhão e duzentas mil, maravilhosa coisa é que o número das estrelas que desde o princípio do mundo descobriram as observações de todos os matemáticos no céu, fossem só mil e vinte duas; donde se convence que, combinado o número das estrelas do céu com o das estrelas da terra, que são as almas, em dez anos pudesse Xavier dar de vantagem, ou de barato, a todos os astrólogos, por cada uma estrela mil estrelas. Mas a mais interessada no excesso de tão grande número é a mesma Virgem Maria, Mãe, Senhora e protetora de Xavier. E por quê? Porque quando o seu segundo filho, S. João, lhe não descobriu na coroa mais que doze estrelas: Et in capite ejus corona stellarum duodecim[104] - Xavier nos seus descobrimentos a coroou com cem mil estrelas por cada estrela. Tantas vêm a ser precisamente no mesmo número um milhão e duzentas mil, isto é, por doze, doze vezes cem mil. Nisto e no demais nenhuma coisa deve a Mãe de Deus a Xavier, senão tudo Xavier desde o princípio até o fim, como ele confessava, à Mãe de Deus e sua. E se a Aurora do seu oriente de noite, e dormindo, o assistia com tão excessivo número de estrelas, bem podemos esperar que de dia, e acordado, o assista com todo o sol.

 

 

 

SERMÃO PRIMEIRO

 

ANJO

 

 

 

Posuit pedem suum dextrum super mare, sinistrum autem super terram[105],

 

 

§1

 

 

São Francisco Xavier na visão profética do Apocalipse. O anjo do socorro a estrela que caiu do céu.

 

Já temos a S. Francisco Xavier, não dormindo, senão acordado, não jazendo, senão levantado, não parado, senão andando, e com um pé sobre o mar, outro sobre a terra. São estas palavras do evangelista S. João, mas não como evangelista, senão como profeta. Como evangelista, escreveu só a história da vida de Cristo; como profeta, historiou todos os sucessos futuros da Igreja mais notáveis, e tal é o presente, sobre ser de nossos tempos. Já supus, e depois provarei, a pessoa de que fala, a qual descreve ou pinta enigmaticamente na figura seguinte: Et vidi alium angelum descendentem de caelo, amictum nube, et iris in capite ejus, et facies ejus erat ut sol, et pedes ejus tanquam colunnae ignis: et habebat in manu sua libellum apertura: et posuit pedem suum dextrum super mare, sinistrum autem super terram (Apc. 10, 1 s). Quer dizer que viu descer do céu um anjo, o qual tinha os pés de fogo; que estes pés serviam de bases a duas grandes colunas, sobre que se movia o resto do corpo, coberto ou vestido de uma nuvem; que desta nuvem se levantava ou amanhecia um sol, coroado com a íris, ou arco celeste; que pusera o pé direito sobre o mar, e o esquerdo sobre a terra; e, finalmente, que o que sustentava todo este colosso era alvorado na mão um livrinho aberto.

 

No princípio desta descrição disse o profeta, et vidi: e vi - porque antes daquela vista ou visão tinha precedido outra, sem a qual se não pode ela entender, e foi desta maneira. - Vi - diz - que caía do céu uma estrela, a qual tinha as chaves do poço dos abismos, que é o inferno, para o poder abrir, que daquele poço aberto saíram grandes nuvens, e fumo espesso e negro, que escureciam o sol, e que de entre o mesmo fumo nasciam inumeráveis enxames ou exércitos de gafanhotos, de monstruosas e horríveis figuras. Os corpos eram de cavalos armados para a guerra, os dentes de leões, as caudas de escorpiões, os rostos de homens, os cabelos de mulheres, e sobre as cabeças coroas como de ouro; sobretudo, que, sendo gafanhotos, não talavam os campos, nem se sustentavam das ervas e das plantas, mas toda a sua fome e veneno empregavam em atormentar os homens, com tais dores, que eles desejavam a morte, e a morte fugia deles.

 

Estas são as duas visões, tão horrenda e temerosa uma, como admirável e prodigiosa outra. E porque a que referimos em segundo lugar foi a que precedeu à primeira, todos os expositores antigos concordam uniformemente que nela são significadas as heresias. E os mais modernos, ajudados da experiência dos tempos, e da ordem e conseqüência da mesma história do Apocalipse, reconhecem mais propriamente nas ditas heresias as que começaram no século passado e continuam no presente. A estrela que caiu do céu, dizem, com pouca ou nenhuma diferença, uns que foi Lutero, outros Calvino. Calvino, porque, sendo clérigo, caiu do primeiro céu da Igreja Católica, que é o estado eclesiástico; e Lutero, porque, sendo religioso, caiu do segundo e mais alto, que é o da religião. O fumo que saiu das fornalhas e abismos do inferno, que estes heresiarcas abriram, são os erros e dogmas ímpios, sacrílegos e abomináveis que novamente ensinaram, tão contrários ao Evangelho e Lei de Cristo, como conformes à largueza da vida, apetite e sensualidade da natureza corrupta. Com eles escureceram o lume da razão e da fé, e cegaram e levaram brutalmente após si tanta parte do mundo setentrional, e nações do norte, uns enfeitiçados do doce veneno da liberdade, sem obediência de mandamentos, sem continência da carne, sem confissão de pecados, e sem necessidade de boas obras; outros, sujeitos, por força e violência das armas, seguindo, como manadas de brutos sem razão, a cegueira de príncipes inconstantes, covardes e afeminados que por isso sobre cabelos de mulheres traziam na cabeça as coroas.

 

 

§II

 

 

Coerência ou conseqüência das duas visões do Apocalipse. A especialidade ou elegância particular da Providência e Sabedoria divina quando quer obrar, por modo superior e mais admirável, curando contrários com contrários, como na medicina.

 

Mas que coerência ou conseqüência tem esta visão tão horrenda, tão belicosa, e tão inimiga de Cristo e sua Igreja, com a primeira que vimos, e logo se seguiu após ela, tão diferente em tudo? Grande coerência, e grande conseqüência, dizem os melhores intérpretes. Como na visão antecedente tinha caído do céu aquela estrela fatal que abriu o inferno, e dos abismos dele fez sair os monstros e pestes de tão feias e abomináveis heresias, necessária conseqüência era que do mesmo céu fizesse logo a providência divina descer o socorro verdadeiramente forte, que parasse a fúria, que resistisse a audácia, e reprimisse os estragos, que os rebeldes e apóstatas da sua Igreja iam fazendo nela, e poderosamente impugnasse, confutasse, confundisse e convertesse seus erros. Assim o fez no mesmo tempo Deus por meio dos doutores fiéis e católicos, armados desde os pés até a cabeça, como ali se descreve, com o zelo, significado no fogo, com a firmeza e constância da fé, significada nas colunas; com a luz e pureza da verdade, significada no sol; com o rego da doutrina descida do céu, significada na nuvem; e, finalmente, com a coroa e vitória deste dilúvio, em que a arca de Noé, isto é, a Igreja de Cristo, se viu tão combatida, mas, como ele lhe prometeu, sempre segura e salva, significado tudo na íris.

 

Acrescenta logo o mesmo texto que o anjo do socorro levantou a voz, como bramido de leão, a qual os trovões do céu acompanharam com as suas: Et clamavit vote magna, quemadmodum cum leo rugit. Et cum clamasset, locuta sunt septem tonitrua votes suas (Apc. 10, 3). - Diz que as vozes destes trovões eram dearticuladas, e que falavam: locuta sunt - porque tais foram, acompanhadas de relâmpagos e raios, as com que os valentes defensores da fé católica, pregando e escrevendo, começaram logo a ferir nos olhos a cegueira, a confundir nos ouvidos a surdeza, e a fulminar nos corações a dureza, e nos entendimentos a obstinação dos hereges: relâmpagos na luz, trovões no espanto, e raios sem resistência nos efeitos.

 

Só poderia parecer menos própria, e menos conforme ao significado, a figura da visão, pois, havendo de ser os fortes defensores da fé muitos, o anjo forte que desceu do céu fosse um só. Mas deste cuidado ou escrúpulo nos livrou a mesma Igreja, declarando que o forte defensor com que o céu a socorreu contra Lutero, e os outros hereges dos nossos tempos, foi Santo Inácio, e a sua Companhia, São palavras expressas da Sé Apostólica, nas lições da festa do mesmo santo: Ut constans fuerit omnium sensus, etiam pontificio confirmatus oraculo, Deum, sicut alios aliis temporibus sanctos viros, ita Luthero, ejusdemque temporis haereticis, Ignatium, et instituíam ab eo societatem objecisse. - Todas as vezes que na Igreja se levanta nova heresia, logo a providência divina levanta contra ela algum novo capitão, que a impugne, e defenda a verdade da fé católica. Tais foram contra Arrio Santo Atanásio, contra Pelágio Santo Agostinho, contra Eutiques S. Gregório, contra Nestório S, Cirilo, e contra os hereges albigenses os dois grandes patriarcas S. Domingos e S. Francisco, com os luzidíssimos terços ou exércitos das suas sagradas religiões. E da mesma maneira contra Lutero e Calvino, e os outros hereges dos nossos tempos, sendo as heresias as mais perniciosas de todas - porque as antigas eram de entendimento, e as modernas todas são fundadas na carne- contra elas afirma a mesma Igreja, e manda ler em todos os coros, que o capitão que Deus levantou foi Santo Inácio, e a sua Companhia: Ignatium et institutam ab eo societatem.

 

E aqui se deve notar uma especialidade ou elegância particular da providência e sabedoria divina, a qual, quando quer obrar por modo superior, e mais admirável, não só cura contrários com contrários, como a medicina, mas com tal contrariedade aos mesmos remédios que, se na oposição são contrários, na paridade sejam semelhantes; assim contra o pecado da árvore vedada levantou Deus a árvore da cruz, e contra o veneno das serpentes do deserto a serpente de Moisés. E como então, vencida uma árvore com outra árvore, e umas serpentes com outra serpente, nesta mesma correspondência foi mais admirável e gloriosa a vitória, assim depois, com igual propriedade e energia, sendo um heresiarca clérigo, como Calvino, e outro heresiarca religioso, como Lutero, levantou Deus um patriarca e uma companhia que fosse de clérigos e religiosos juntamente, não só para desafrontar com eles o estado clerical e religioso, mas para que de um e outro estado unidos formasse a Igreja militante um novo subsídio fiel e forte, com que fortificada, os resistisse, e mais gloriosa os debelasse, São outra vez palavras da mesma Igreja, falando com Deus: Deus, qui ad majorem tui nominis gloriam propagandam, novo per beatum Ignatium subsidio militantem Ecclesiam roborasti[106].

 

 

§ III

 

 

De que modo na mesma visão do Apocalipse não só se representou o pai, Santo Inácio, senão também o filho, São Francisco Xavier Como se podiam juntar na mesma figura duas missões tão distantes e tão diversas? Quão fortemente se defendem na guerra e quão gloriosamente se restauram nas ruínas a igreja triunfante e militante, A missão de Xavier figurada em Isaías e no Cântico dos Cânticos.

 

Neste ponto, pois, está definido pela suprema autoridade, nem eu tenho mais que dizer, nem outrem terá que impugnar. Digo, porém, que naquela mesma visão e figura do Apocalipse, não só se representou o pai, senão também o filho, não só Santo Inácio, senão juntamente S. Francisco Xavier. Falando de si e de seu Eterno Padre, Cristo, Senhor nosso, dizia: Ego in Patre, et Pater in me est (Jo. 14, 10): Eu estou em meu Pai, e meu Pai está em mim. - E noutro lugar: Qui videt me, videt et Patrem meum (ibid. 9): Quem me vê a mim, vê a meu Pai. - E isto mesmo - quanto o humano se pode comparar com o divino - podia dizer S. Francisco Xavier, falando de si e de seu padre, Santo Inácio. Nem deve alguém estranhar a comparação por demasiadamente alta, pois, como diz S. Paulo, não havendo no céu outro Pai senão Deus - porque nos anjos não há pai nem filho - da paternidade do mesmo Deus no céu se deriva o nome e a semelhança que têm os pais na terra com seus filhos: Ex quo omnis paternitas in caelis et in terra nominatur[107]- E pode esta semelhança nos homens subir a ponto de perfeição tão alto que, assim como entre o Eterno Padre e o seu unigênito Filho, exceta somente a distinção real das pessoas, no entender e querer, e em tudo o mais, há uma perfeitíssima e simplicíssima unidade, ao mesmo modo em dois sujeitos humanos, pai e filho, haja tal união e conformidade do entendimento e vontade de ambos que, sendo diferentes as pessoas, e estando em diferentes lugares, em tudo o mais não sejam dois espíritos, senão um só, e esse não dividido, senão multiplicado. Tal foi o de Elias e Eliseu: Fiat in me duplex spiritus tuus[108]- e tal o de Inácio e Xavier. Este é um dos mais prodigiosos milagres destes dois santos. Enquanto S. Francisco Xavier viveu, não estava ainda promulgado no Oriente o instituto da Companhia. E sendo as suas regras tão diferentes das outras religiões, assim no fim como nos meios de o conseguir, governando Santo Inácio em Roma, e S. Francisco Xavier na índia, eram tão uniformes os seus ditames, e tão identicamente os mesmos, que as instruções de Xavier pareciam tresladadas pelas constituições de Santo Inácio, e as constituições de Santo Inácio pelas instruções de Xavier, e não por comunicação alguma que houvesse nesta matéria, em distância de tantas mil léguas, senão pela união ou unidade do espírito, que vivia ou ardia em um e outro, como se fossem ambos uma só alma em dois corpos, um só entendimento em duas almas, e uma só vontade em dois entendimentos. Não é logo nova maravilha que pudesse dizer Xavier: Ego in Patre, et Pater in me est: que ele estava em seu padre, e seu padre nele - e que na mesma figura do Apocalipse, como em um espelho reciproco, se vissem ambos: Qui videt me, videtet Patrem meum.

 

Mas, se Santo Inácio, como vimos, foi eleito contra o Setentrião, e S. Francisco Xavier para o Oriente, Santo Inácio contra os hereges, e S. Francisco Xavier para os gentios, como se podiam ajuntar na mesma figura duas missões tão distantes e tão diversas? Respondo que com admirável propriedade, e por isso mesmo, Para inteligência destes dois misteriosos concursos, havemos de supor uma notável razão de estado da providência divina, e é esta. Nas rebeliões das heresias, em que os súditos da Igreja se levantam contra ela, não só padece a mesma Igreja a guerra, senão também a ruína. A guerra pela oposição e rebeldia das armas contrárias, e a ruína pela perda dos mesmos súditos rebelados, que eram membros seus, e partes da sua mesma grandeza, da qual fica privada e diminuída. E para acudir a um e outro dano, que há mister a Igreja? Quanto ao da guerra, há mister quem a defenda; e quanto ao da ruína, quem lhe restaure e acrescente em uma parte o que lhe faltou e se lhe diminuiu na outra, Para isso, pois, foi necessário no nosso caso que Deus levantasse, não só um, senão dois famosos capitães, quais foram Inácio e Xavier, um com nome e obrigação de defensor, outro com nome e obrigação de restaurador: Inácio, para defender a Igreja na guerra contra os hereges do Setentrião, e Xavier, para lhe restaurar as ruínas nas gentilidades do Oriente. Vamos às Escrituras.

 

Quando os anjos apóstatas se rebelaram contra Deus no céu, que sucedeu à Igreja triunfante? O mesmo que à militante: guerra e ruína. A guerra pela que lhe fez Lúcifer com os seus sequazes; a ruína, pela das três jerarquias que ficaram vagas. E como acudiu a providência divina ao reparo de um e outro dano? Pelo mesmo modo que dissemos. Para a resistência da guerra elegeu um defensor, que foi o arcanjo S. Miguel, capitão general dos seus exércitos: Michael et angeli ejus praeliabantur cum dracone(5)[109]. - E para a ruína das cadeiras elegeu por restaurador a seu próprio Filho, que só quem fosse Deus e homem podia fazer homens dignos de se assentarem nas cadeiras dos anjos. Assim o cantou Davi: Judicabit in nationibus, implebit ruinas (SI. 109, 6): Fará juízo em todas as nações, escolhendo delas os bons, e deles encherá e restaurará as ruínas dos anjos: Et de bonis implebit ruinas angelorum - diz Hugo Cardeal.

 

Desçamos agora do céu à terra, e da Igreja triunfante à militante, e vejamos quão fortemente se defende na guerra, e quão gloriosamente se restaura nas ruínas. Uma e outra coisa descreveu admiravelmente Salomão, quando chamou à mesma Igreja pulchra ut luna, electa ut sol, terribilis ut castrorum acies ordinata[110]. - É a Igreja Católica escolhida como o sol, fonte da luz, pura e sem mancha: electa ut sol - mas nem por isso isenta da oposição e da guerra que lhe fazem os eclipses, e das ruínas da mesma luz, que nos eclipses padece. Está, porém, sempre armada por um lado com o exército terrível que a defende na guerra: Terribilis ut castrorum acies ordinata - e pelo outro com o reparo natural da formosura da lua, para restauração das ruínas: Pulchra ut luva. - Já dissemos, ou nos disse a mesma Igreja, que o seu capitão defensor, contra a guerra das heresias, era Santo Inácio. E o seu exército, debaixo da bandeira de Jesus, posto que com nome de companhia somente, é tão terrível e formidável aos mesmos hereges, que todos os livros que eles escrevem, como se não tiveram outros inimigos, são contra os jesuítas. Um grande capitão dos mesmos hereges, que morreu pelejando contra os católicos da Irlanda, vendo em Évora uns padres da Companhia, disse - e pode ser que esteja neste auditório quem lho ouviu: - Se não foram estes, já todos havíamos de ser uns. - Isto quanto ao defensor da guerra.

 

E quanto ao restaurador das ruínas, Xavier, é admirável a comparação e semelhança da lua: Pulchra ut luva. - Entre todos os planetas, só a lua tem crescentes e minguantes, mas com tal propriedade que, quanto perde de luz por uma parte, tanto adquire no mesmo tempo pela outra. De sorte que, quando se mostra diminuída ao perto, da parte que a vemos, tanto está crescida e restaurada da mesma luz pela parte  oculta e oposta, em que a não vemos, e tudo dentro no seu mesmo globo. O globo da Igreja é o do mundo; e se na parte ou partes do norte a vemos diminuída pelas ruínas, que mais em si mesmos que nela lhe causaram os hereges, nas partes remotas dos nossos olhos, quais são as do Oriente, por meio do seu grande restaurador Xavier, tanto que ele lá pôs os pés ao primeiro som das trombetas do Evangelho, não só ficou igualmente crescida na fé da gentilidade, mas com excessivas vantagens.

 

Divinamente Saías. Fala com a Igreja, e diz: Filii tui de longe venient, etfiliae tuae de latere surgent (S. 60, 4): Os vossos filhos virão de longe, e as vossas filhas se levantarão do vosso lado. - E que filhas são estas, que se levantarão do lado da Igreja, e que filhos os que lhe viriam de longe? Só o pudera dizer com tanta propriedade e clareza quem no seu tempo estava vendo o que sucedeu nos nossos. As filhas que se levantaram do lado da Igreja são Inglaterra, Escócia, Holanda, Dinamarca, Suécia, e as outras, que senão em todo, em parte, estando na Europa ao lado da Igreja romana, e sendo fiéis e católicas, e enobrecidas com muitos santos, seguindo a Lutero e Calvino, e negando a obediência à Sé Apostólica, se rebelaram contra ela, e apostatando da única e verdadeira fé, se fizeram heréticas. E os filhos que lhe vieram de longe, são os canaris, os decanis, os malabares, os chingalás, os bengalas, os pegus, os malaios, os jaos, os abexins, os siames, os malucos, os mindanaus, os japões, os chinas e cochinchinas, e tantos outros gentios orientais, nascidos e criados nas trevas da idolatria, que, alumiados pela pregação e milagres de S. Francisco Xavier, de tão longe vieram buscar a Igreja, e se fizeram seus filhos, como ela mesma diz, orando: Deus, qui Indiarum gentes beati Francisci praedicatione et miraculis Ecclesiae tuae aggregare voluisti[111].- E, se compararmos a ruína das filhas que ao lado se levantaram com o número sem-número dos filhos que de tão longe vieram, bem se vê com quão imensas vantagens o famoso restaurador da Igreja lhe recuperou o perdido. Tomás Bosco, tão diligente examinador dos anais eclesiásticos, e cômputo dos tempos, não duvidou afirmar que todos os heresiarcas em mil e quinhentos anos não roubaram tantas almas fiéis à Igreja quantas Xavier em dez anos lhe adquiriu de gentios.

 

E para que não pareça equivocação o sentido que demos à palavra surgent, ouçamos a mesma palavra da boca da mesma Igreja, no mesmo caso e no mesmo sentido. E juntamente veremos quão grande é a estimação que ela faz dos gentios, que a fé e pregação de Xavier lhe agregou na índia, em comparação dos maus cristãos que a perfídia dos heresiarcas lhe tirou no norte: Surge aquilo, et veni auster, perfla hortum meum, et fluant aromata illius (Cânt. 4, 16): Levanta-te, tu, ó norte, e vai-te embora do meu jardim - diz a Igreja - e venha em teu lugar o austro, e vente e assopre nele, para que se exalem e corram os seus aromas. - Neste sentido entendem o surge S. Gregório Papa, S. Gregório Niceno, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Filo Carpácio, Ruperto, Teodoreto e Pselo. De sorte que a Igreja lança fora do seu jardim o norte, e chama para ele o austro, porque os ventos também pertencem à cultura das flores, como Claudiano disse elegantemente: Zephyro contenta colono. - As flores do jardim da Igreja são primeiramente a fé, e, sobre ela, todas as virtudes cristãs; e a qualidade do norte é tal que as murcha, seca e queima, e, pelo contrário, o austro as alenta e fomenta, e lhes faz crescer a formosura e a fragrância. E como este natural dos ventos se comunica e influi nas terras e gentes a eles sujeitas - donde veio a dizer Santo Agostinho - que o norte é a pátria do demônio e das heresias - por isso a providência divina, quando o norte se rebelou contra a Igreja, fez logo navegar a Xavier com a proa no pólo austral, para que a luz que a Igreja, como lua, perdia no norte, se lhe restaurasse, como restaurou, no austro, e com tanta vantagem, que assim como Plínio disse da luz: Nunc in aquilonem elata, nunc in austros dejecta[112] - nós possamos dizer hoje com os termos trocados: Nunc in aquilonem dejecta, nunc in austros elata.

 

 

§ IV

 

 

Quão diferentes foram os meios e modos com que filho e pai defenderam e restauraram a Igreja. Por que razão o restaurador da Igreja no Oriente aparece no Apocalipse com um livrinho na mão, e pondo o pé direito sobre o mar e o esquerdo sobre a terra?

 

Temos visto e confirmado, com autoridade da mesma Igreja, como Santo Inácio foi eleito por seu defensor contra a perfídia dos hereges, e S. Francisco Xavier por seu restaurador na nova fé dos gentios. E não para diminuição da glória do Pai, senão para maior glória sua, vejamos agora, na consideração da mesma figura do Apocalipse, quão diferentes foram os meios e modos com que o Filho a restaurou, daqueles com que o Pai a defendeu. A coisa mais admirável que se via naquela figura é que, sendo um gigante, ou colosso tão grande, o que levava na mão fosse um livrinho aberto: Et habebat in manu sua libellum apertum (Apc. 10, 2). Que livrinho fosse este, e quão livrinho, depois o veremos; agora só noto a diferença.

 

As armas dos capitães de Santo Inácio contra os hereges também são livros, porque as da língua não as permitem eles, e para as penas não valem muros nem portas fechadas. Estes capitães, não digo que foram, porque sempre se vão sucedendo uns aos outros, e porque pelejaram com armas imortais, digo que são os Laines, os Salmeirões, os Canísios, os Belarminos, os Vasques, os Soares, os Valenças, os Henriques, os Turdanos, os Ribeiras, os Maldonados, os Serários, os Salianos, os Petávios, os Teófilos, os Granetos, os Campianos, os Beranos, os Cornélios, os Tirinos, os Falônios, os Tirsos, e os mais, que fora infinito, e é supérfluo nomear. Baste dizer que só dos nomes nos catálogos se têm estampado volumes inteiros. E quantos escreveu cada um deles? Alguns houve que passaram de vinte e trinta grandes tomos, que mais parece escreveram livrarias que livros. E porque eu não meço a grandeza dos livros pelas folhas, o que mais me admira é que, sendo tantos e tão grandes, segundo a necessidade das matérias, nem podiam ser menos nem menores. Mas que, fulminando-se todas estas balas de papel em defensa da Igreja contra os hereges do Norte, o restaurador da mesma Igreja no Oriente apareça com um livrinho na mão: Habebat in manu sua libellum?

 

Descendo da mão aos pés, diz o texto, e mostra a pintura, que tinha um posto sobre o mar, outro sobre a terra. Segunda e manifesta diferença. Santo Inácio, depois de fundar a sua milícia, nunca navegou, sempre residiu em Roma, assistindo junto à cabeça da Igreja, contra a qual, como contra Saul, dos ombros para cima, mais alto que todos, assestam as portas do inferno todo o peso dos seus tiros, tão hereges em cuidar que podem prevalecer contra ela, como em lhe querer tirar das mãos a sucessão, e as chaves que Cristo deu a S. Pedro. Os capitães e soldados da milícia, que sobretudo se empregam na defensa desta verdade, também o fazem e fizeram sem sair da terra. Eram espanhóis, e escreviam em Espanha; eram franceses, e escreviam em França; eram italianos, e escreviam em Itália; eram alemães, e escreviam na alta e baixa Germânia, não porque seja mais fácil tingir a pena no Mar Negro que molhar os pés no Oceano, ou porque eles o temessem, como se diz das estrelas do mesmo Norte: Arctos oceani metuentes aequore tingi - mas porque o não pedia a necessidade ou conveniência da guerra. Contudo, não se pode negar ser a guerra de Xavier tanto mais heróica quanto mais perigosa, pois na terra se combate com homens, e no mar com todos os elementos.

 

Mas, por que razão tinha Xavier o pé direito sobre o mar, e o esquerdo sobre a terra: Dextrum pedem suum super mare, sinistrum autem super terram? - A questão é curiosa, e as respostas também. Entre os intérpretes antigos, André Cesariense, e entre os modernos, Menóquio, seguindo ao grande Ribera, dizem que este anjo forte tinha o pé esquerdo sobre a terra, porque a havia de alimpar, e sepultar nela os ladrões, e o direito sobre o mar, porque o havia de alimpar também, e afogar nele os piratas. Mas este milagre ainda o não fez S. Francisco Xavier, e, se o fizer, será maior que ressuscitar tantos mortos. Neste sentido, porém, eu trocara os pés, e pusera o direito sobre a terra, porque muito maiores são os latrocínios, e mais poderosos os ladrões da terra, que os piratas do mar. Estes se furtam sem carta de marca, enforcam-nos, e aqueles, com as suas patentes e provisões, têm licença para furtar, e o castigo que lhes dão, pelo que furtaram, são novos e maiores poderes para furtarem mais. Santo Anselmo diz que a terra, como sólida e firme, significa os cristãos mais bem fundados na fé e mais constantes na virtude, aos quais por isso basta a assistência do pé esquerdo, como menos forte; e que o mar significa os cristãos menos firmes na mesma fé, e que não têm constância nem perseverança na observância dos preceitos divinos nem na emenda da vida, e por isso necessitam de mais forte assistência, força e coação, qual é a do pé direito, que os obrigue, refreie e violente a viver como devem. Mas, como vemos que são tão pouco zelosos e tão moles, que não fazem isto os que têm ofícios de pé direito, uns e outros se acharão depois à mão esquerda. Os políticos, que, não contentes com interpretar a sua Bíblia, que é o Tácito, se metem também a comentar a nossa, dizem que o anjo forte tinha o pé esquerdo sobre a terra e o direito sobre o mar, para ensinar aos príncipes principalmente os que têm domínios ultramarinos, que devem pôr o pé direito, isto é, o seu maior poder, no mar, se querem conservar a terra. E quantas temos nós perdido, porque o não fizemos assim?

 

Mas como todos estes autores não conheceram nem supunham que o anjo do Apocalipse representava a S. Francisco Xavier, por isso não acertaram com a verdadeira razão de ter pé esquerdo sobre a terra e o direito sobre o mar, a qual darei agora. Pergunto: S. Francisco Xavier, enquanto núncio missionário e apostólico do Oriente, donde saiu, e até onde chegou? Saiu de Lisboa, e chegou até o Japão. Tomai agora um mapa, ou uma carta de marear, ponde-a diante dos olhos, e vereis que em toda esta navegação e caminho, de mais de quatro mil léguas, levando Xavier um pé por terra, outro por mar, sempre o pé da terra foi o esquerdo, e o do mar o direito. A primeira terra que deixou saindo de Lisboa, e navegando ao sul, foi a costa de Berbéria até Guiné, toda à mão esquerda, e à direita o Mar Atlântico. Dali até o Cabo de Boa Esperança, e, voltando o mesmo cabo, até o estreito de Meca, por uma e outra parte a terra era a África, sempre à mão esquerda, e à direita o Mar Etiópico. Daquele estreito até o Seio Pérsico e foz do Eufrates, à mão esquerda a Arábia Feliz, e à direita o Mar Arábico, Da garganta do mesmo seio até à primeira foz do Indo, a Carmênia, parte da Pérsia à mão esquerda, e à direita o Mar Pérsico, por nome mais geral Eritreu. Do Indo começa a terra, a que ele dá o nome, chamada índia, e se estende até o Cabo de Comorim, à mão esquerda toda, e à direita o Mar Índico. Do Cabo de Comorim dá volta, e corre a contra-costa do reino de Narsinga, ou Bisnagá, até a foz do Ganges, ao mesmo modo à mão esquerda, e à direita o mar ou Golfo de Bengala. Seguindo o grande arco que faz aquele golfo pelas costas da mesma Bengala, Pegu e Sião, até o estreito de Singapura, o mais austral de todo o Oriente, todas aquelas terras ficam à mão esquerda, e o mar por onde se navegam, que é o mesmo golfo, à direita. Finalmente, continuando depois de Malaca os reinos de Camboja, Champá e Cochinchina, e o vastíssimo império da China, todo este grande trato de terras demoram à mão esquerda, e o mar ou mares do oceano chinense, até o Japão, à direita. E como naquela universal e total derrota que Xavier fez, desde os últimos fins de Europa até os fins também últimos da Ásia, as terras estavam e estão lançadas a tão diferentes rumos já de Norte a Sul, ou do Sul ao Norte, já de Poente a Levante, ou de Levante a Poente, já de todos os outros ventos e suas partidas, demorando sempre todas à parte esquerda, como os mesmos mares à direita, por isso esta é a razão natural e demonstração geográfica, e este o sentido literal, necessário e forçoso, sem nenhum outro mistério ou interpretação por que o anjo que representava a Xavier, apareceu, não mudando ou trocando os pés, senão firme e constantemente com o esquerdo sempre sobre a terra, e o direito sempre sobre o mar: Posuit pedem suum dextrum super mare, sinistrum autem super terram.

 

 

§V

 

 

O pregador e as ações e maravilhas do santo por terra e por mar. A primeira ação de Xavier: o ensino da doutrina cristã. O livrinho aberto, de que fala o Apocalipse, e a cartilha da doutrina cristã, que São Francisco Xavier compôs, e por onde ensinava na índia.

 

Estas palavras são as que propus ao princípio, para cujo entendimento, sem nenhuma supérflua, foi necessário um tão largo discurso. E estas mesmas serão o tema do presente sermão, e de todos os oito que se continuam nesta novena. Em todos seguirei o mesmo assunto, ou seguirei as mesmas pisadas do peso de S. Francisco Xavier, dando dois passos somente em cada dia, um por terra, outro por mar: por terra, dizendo o que Xavier obrou em terra; por mar, o que obrou no mar, em um e outro elemento sempre maravilhoso e semelhante a si mesmo. E, posto que digo que os passos serão só dois, não quero dizer com esta limitação que os exemplos não serão algumas vezes muito mais, conforme a matéria, porque o meu intento é dar bem a conhecer este santo, posto que já tão conhecido e venerado. O uso comum nestas novenas era contar um só milagre ou um só exemplo mui brevemente, supondo nos ouvintes o fastio, com pouco crédito de sua devoção, e não menor ignorância das excelências do mesmo canto, de que são devotos. Eu, ainda que não hei de ser tão breve, também espero que não hei de enfastiar, não só pela grande variedade das matérias, dentro do mesmo assunto, senão, e principalmente, porque não hei de pregar para que o pregador seja ouvido, senão para que o santo seja visto. São alguns pregadores como os sacristães da aldeia, que no dia do orago cobrem o altar e o retábulo de tantos ramalhetes que não se vê o santo. Eu, em quem as flores com a idade não só estão já murchas, mas secas, de tal maneira hei de pôr o santo diante dos olhos, que ele visto seja o pregador, e as suas ações e maravilhas a pregação. Altamente disse Santo Ambrósio: Prolixa laudatio est, quae non quaeritur, sed tenetur: Aqueles louvores são mais copiosamente amplificados, os quais, sem se buscar, se acham. - Nos louvores que se buscam, há coisas algumas vezes muito bem achadas, mas essas mais louvam a indústria ou ventura de quem as achou. O panegírico de Trajano não louva tanto a Trajano quanto a Plínio. Tudo o que eu disser de Xavier, não é porque eu o buscasse, mas porque ele já o tinha de si: Quae non quaeritur, sed tenetur -E assim tudo será seu próprio, e nada alheio, e por isso mais digno de ser ouvido.

 

Isto posto, para não faltar hoje, quanto permite a brevidade do tempo, ao assunto, começaremos por onde S. Francisco Xavier começou. A primeira ação sua foi a doutrina cristã aos meninos e gente rude. Com o pé na terra, veremos a doutrina que fazia nas praças e ruas das cidades; com o pé no mar, veremos a mesma doutrina a bordo e nos conveses dos navios. Os que vistes as maiores cortes da Europa, veríeis a autoridade com que saem em público os núncios apostólicos, e o aparato de liteira, carroças, capelães, gentis-homens, estaleiros, librés, e as outras representações de embaixadores que são do supremo Monarca da Igreja, com delegação do seu poder, Mas agora vereis o que nunca lá se viu nem imaginou. Xavier também era núncio apostólico - o que não calou a figura que o representava, porque angelus quer dizer nuntius - e com toda esta dignidade saía o núncio do Oriente pelas ruas e praças da Índia vestido de uma roupeta preta, pobre e grosseira - aonde as lãs de que usa o vulgo são sedas - só, a pé, e muitas vezes descalço, tangendo por sua própria mão uma campainha, e parando nos lugares mais públicos, dizia em voz alta: - Fiéis cristãos, amigos de Jesus Cristo, mandai vossos filhos e filhas, escravos e escravas à santa doutrina por amor de Deus. - A este pregão do céu acudia toda a terra, e grandes e pequenos ouviam as lições daquele livrinho, que agora direi, como prometi, quão livrinho e quão pequenino era.

 

O Apocalipse de S. João foi escrito originalmente na língua grega, na qual esta palavra livro tem três diminutivos, que na nossa se não podem traduzir, e na latina se imitam, não sem alguma violência. O primeiro diminutivo é libellus, o segundo, e menor, libellulus, o terceiro, e mínimo, libellunculus, e este é o que responde ao nosso texto, em que se diz que o anjo tinha levantado na mão um livrinho aberto: Et habebat in manu libellum apertum. - Este livrinho, pois, não só pequeno, mas menor ainda que pequenino, é a cartilha da doutrina cristã, que S. Francisco Xavier compôs, e por onde a ensinava na índia. O Evangelho, a que Saías chama Verbo abreviado, é o primeiro diminutivo, e o abreviado da Escritura: libellus; o catecismo comum é o segundo diminutivo, e o abreviado do Evangelho: libellulus; a cartilha de Xavier é o terceiro diminutivo, e o abreviado do catecismo comum: libellunculus -porque o mediu o santo com a capacidade daqueles a quem ensinava, Nem passarei em silêncio uma circunstância digna de se saber, e de não pequena glória da mesma cartilha, por seu autor, e é ser ela o original da que hoje se pratica em todo Portugal, aonde veio da índia, sendo, entre os diamantes, pérolas e rubis, a mais preciosa das suas drogas, Chama-se livrinho aberto: libellum ou libellunculum apertum, por duas razões, ambas maiores que o mesmo livro: livrinho pela brevidade, aberto pela clareza. E assim como a ciência e onipotência divina resplandece mais na criação das coisas pequenas que nas grandes, assim a ciência, o espírito e o engenho de Xavier venceu aqui a contrariedade daqueles dois extremos: Brevis esse laboro, obscurus fio, - O livro do Apocalipse estava fechado com sete selos por escuro, e o livrinho de Xavier, não fechado senão aberto, por claro. Os selos do Apocalipse iam-se abrindo um por um, e a cada abertura tocava um anjo uma trombeta: por isso os selos eram sete, os anjos sete, e as trombetas sete. Porém, o nosso anjo, sendo os mistérios do seu livrinho maiores que os do Apocalipse, porque são todos os da nossa fé, tocando ele com dois dedos a sua capinha, todas as suas folhas se abriam tão claramente, que não havia menino tão menino, nem escravo tão boçal que as não entendesse.

 

 

§ VI

 

 

A língua de Xavier e as folhas da sua cartilha. Por que diz Davi que o dia ensina ao dia e a noite ensina à noite? S. Francisco Xavier e o avesso das línguas bárbaras. As línguas partidas de que falam os Atos dos Apóstolos.

 

A razão de todos as entenderem, é porque falava a todos na língua de todos. S. Paulo dizia que se fazia judeu com os judeus, e gentio com os gentios, para ganhar os gentios e os judeus. E Xavier nas suas doutrinas fazia-se português com os portugueses, para lhes ganhar os filhos, e índio ou etíope com os etíopes, para lhes ganhar os escravos. Pintava-se ou trajava-se o apóstolo do Oriente de branco e preto, para como branco ganhar os brancos, e como preto os pretos. Viu-o Davi, posto que o não entenderam os seus intérpretes: Dies diei eructat verbum, et nox nocti indicat scientiam (SI. 18, 3): O dia - diz - fala e ensina ao dia, e a noite fala e ensina à noite. - Se os dias e as noites não falaram, não disseram os meninos da fornalha de Babilônia: Benedicite, noctes et dies, Domino[113]. - Por isso acrescentou logo o mesmo profeta Davi, que as palavras com que o dia ensina ao dia, e a noite à noite, são palavras que se ouvem e se entendem: Non sunt loquelae, neque sermones, quorum non audiantur voces eorum[114]. - Mas parece que o dia havia de falar à noite não ao dia, porque a noite está mais perto do dia; e do mesmo modo a noite havia de falar ao dia, e não à noite, porque o dia está mais perto da noite. Pois, por que não fala o dia à noite, senão ao dia: dies diei - e a noite não ao dia, senão à noite: et nox nocti. Porque no falar ensinando -que isso é indicat scientiam -o que ensina e o que aprende hão de ser da mesma cor: o branco ao branco, o preto ao preto, não, no rosto, senão na língua, Tal era a língua de Xavier, e tais as folhas da sua cartilha; uma página branca, quando ensinava os brancos: dies liei eructat verbum -e outra página preta quando voltava a folha, e ensinava aos pretos: et nox nocti indicat scientiam. - E isto universalmente, e em todas as línguas do Oriente, só se verificou em S. Francisco Xavier, porque, ainda que S. Tomé foi à índia, só as palavras de Xavier chegaram ao Japão, que é o fim da terra: Et in fines orbis terrae verba eorum (SI. 18, 5).

 

Deus no princípio do mundo dividiu o dia e a noite, e Xavier nas terras e mares da Ásia ajuntou outra vez a noite ao dia, não só falando na língua dos portugueses aos brancos, senão também aos negros, e de todas as outras cores. Todas as nações do Oriente, de qualquer cor que sejam, falam a língua portuguesa, mas cada uma a seu modo, como no Brasil os de Angola e os da terra; e Xavier, que fazia para que eles o entendessem? Arremedava as suas linguagens com os próprios assentos, nunca mais eloqüente que quando nos tempos, nos casos, nos gêneros imitava os seus barbarismos. Lá canta Salomão da Igreja, quando dá o primeiro leite de doutrina aos meninos e aos rudes: -Mel et lac sub língua tua[115] - O mel e o leite é o primeiro comer, ou a papa dos meninos: Butyrum et mel comedet[116], - E por que traz a Igreja este mel e este leite, não na língua, senão debaixo da língua: Sub língua tua? - As ações de Xavier são a exposição de muitas Escrituras, que antes delas se não entenderam. A língua portuguesa nas terras e mares por onde o santo andou, tem avesso e direito: o direito é como nós a falamos, e o avesso como a falam os naturais. E Xavier para ser melhor entendido na doutrina que ensinava, não usava do direito da língua, senão, do avesso. Aos canarins à canarina, aos malaios à malaia, aos japões à japoa. No Japão há uma língua baixa de que só usa a gente vil, e de nenhum modo os nobres; e desta maneira ensinava o santo a estes, falando-lhes na língua baixa, ou no baixo da língua: Sub língua tua.

 

Mas perguntara eu ao núncio apostólico, ou Padre Mestre Francisco, onde aprendeu ele estas línguas, ou estas meias-línguas? É certo que não em Paris, nem na sua Universidade da Sorbona, nem em Roma, nem em Veneza, nem em Bolonha, nem em Lisboa. Mas também não há dúvida que só as pode aprender no Cenáculo de Jerusalém, onde o Espírito Santo desceu, não só em línguas de fogo, mas em línguas partidas: Apparuerunt dispertitae linguae (At. 23). - E por que eram, ou foram, ou haviam de ser aquelas línguas partidas? Também aqui é o novo comentador S. Francisco Xavier. Eram línguas partidas, não só porque eram muitas línguas, senão porque eram línguas e meias-línguas: dispertitae linguae - como as que ele arremedava. Meias-línguas, porque eram meio-européias e meio-indianas; meias-línguas, porque eram meio-políticas e meio-bárbaras; meias-línguas, porque eram meio-portuguesas e meio de todas as outras nações que as pronunciavam ou mastigavam a seu modo.

 

 

§ VII

 

 

Quão largamente repartia Deus suas graças com os meninos que eram doutrinados com as línguas partidas de que usava S. Francisco Xavier.

 

E para que se veja quão largamente repartia Deus suas graças com os meninos que eram doutrinados com estás línguas partidas, referirei brevemente só dois exemplos: um da terra, outro do mar; um de um menino já cristão, outro de um ainda gentio, ou mourinho, que é mais. Estando o santo fazendo doutrina em Manapar, vieram os criados de um homem muito principal pedir-lhe que quisesse acudir com toda a pressa a seu senhor, porque o demônio lhe entrara no corpo, e lhe dava terríveis tormentos. E que faria Xavier? Bem entendeu que era estratagema do inimigo para o divertir da doutrina, e sem desistir nem parar, tirou uma cruz que trazia sobre o peito, deu-a a um menino da mesma doutrina, dizendo que a desse a beijar ao endemoninhado, e rezasse com ele o Credo. Foi, e fê-lo assim o inocente, e o demônio, com assombro dos presentes, saltou logo fora, mais raivoso como soberbo que como inimigo, por se ver desprezado de Xavier, e não vencido por sua própria pessoa, senão por um menino da doutrina, que ele pretendia impedir.

 

Passemos da terra ao mar, e do menino cristão ao que ainda o não era. Havia muitos dias que o Santo navegava de Malaca para Sanchão, fazendo sempre, como costumava, em toda a parte as suas doutrinas, e o convés podia competir com a praça de qualquer vila, porque levava a nau quinhentas pessoas, soldados, marinheiros, mercadores, cristãos, gentios, mouros. E, sendo a principal esquadra da bandeira das doutrinas de Xavier os moços de pouca idade, sucedeu que um menino de cinco anos, filho de um mercador mouro, caiu ao mar, sem o santo ter notícia daquela desgraça. Teve-a pelo mesmo pai entre muitas lágrimas, depois de ele ter chorado a morte do filho havia três dias, e então lhe perguntou se receberia a lei de Cristo no caso em que tornasse a ver vivo seu filho naquele navio? Respondeu o mouro que sim, e, ficando este contrato suspenso outros três dias, eis que na manhã do sétimo aparece o menino, rindo e brincando, no mesmo lugar do bordo donde caíra. Perguntado onde estivera, só soube dizer que se lembrava que daquele lugar tinha caído ao mar. E não foi necessário que o santo puxasse pela promessa, por que o pai, a mulher, e toda a família, se lançaram a seus pés, pedindo o batismo. O menino se chamou Francisco, e assim este ressuscitado no mar, como o que confundiu o demônio em terra, podiam cantar alternadamente o hosana no triunfo de Xavier, como os meninos de Jerusalém no de Cristo.

 

Ora eu, voltando os olhos destes meninos da Ásia para os da nossa América, desejara saber qual será a razão por que se não vêem neles semelhantes exemplos? Da parte dos mestres não pode ser, porque a variedade das línguas, e o trabalho dos que as aprendem, para ensinar estes gentios, não é menor, nem menos diligente o cuidado cotidiano com que são doutrinados. Segue-se logo que é por culpa ou desmerecimento dos mesmos discípulos, pela natural ingratidão com que desconhecem o benefício da mesma doutrina. E por que se não atribua a diferença à santidade de S. Francisco Xavier, seja a prova, não dos discípulos da sua escola, se não de outros. Um religioso da Ordem Seráfica, com grande zelo e talento, tinha uma escola na índia, em que ensinava a doutrina cristã aos meninos malabares, e porque os castigava à portuguesa, os pais gentios, que reputam por injúria própria o castigo que se dá aos filhos, arremeteram um dia furiosamente à escola para matar o mestre. E os meninos, que eram os magoados, e choravam quando recebiam o castigo, que fizeram? Saltam todos fora dos bancos, cercam o mestre, e foi tal a carga de pedradas que choveram sobre os pais, que os fizeram voltar mais depressa do que tinham vindo, ensinando-lhes que deviam mais àquele de quem recebiam a doutrina que aos que deram o ser.

 

Agora não quero comparar estes meninos malabares com os americanos, senão com os romanos, Era mestre da escola em Roma um cristão chamado Cassiano; condenaram-no à morte pela doutrina e fé de Cristo, que ensinava, e que os executores fossem os mesmos discípulos, com os ponteiros de que usavam, que eram de ferro. E que fariam os romaninhos? Investem o mestre como enxame de abelhas com os ferrões, e foram tantas as picadas, até que lhe tiraram a vida. Os gregos e os romanos prezavam-se de todas as outras nações serem bárbaras, e ainda hoje conserva Roma o mesmo ditame naquele versinho: Graecis, Latinis, Barbaris. - Agora pergunto: E quais são nestes dois casos os bárbaros, os romanos ou os malabares? De homens a homens tão bárbaros e tão tiranos uns como os outros; mas de meninos a meninos, os romanos, os bárbaros, os ingratos, os desconhecidos; e os malabares, os urbanos, os agradecidos, os honrados, os generosos, e os dignos de ser cantados nas geórgicas virgilianas, e nos fastos de Ovídio.

 

 

§ VIII

 

 

O modo com que S. Francisco Xavier ensinava a doutrina, e o modo com que no Brasil ensinam aos escravos os seus senhores. Quão necessária é a doutrina cristã nos paços como nas praças, e nos estrados como nas estradas. S. Francisco Xavier e a educação das meninas e moças.

 

Baste de panegírico aos meninos da doutrina, ou à doutrina dos meninos, e acabo com dois documentos muito necessários à nossa. Que dizia o pregão de Xavier depois de tocar a sua campainha? - Fiéis cristãos, mandai vossos filhos e filhas, e vossos escravos e escravas à santa doutrina por amor de Deus. - Por amor de Deus, dizia, como se pedisse esmola; e eu digo, no Brasil, por amor de nós sob pena de sermos condenados, por faltarmos com a doutrina a quem devemos, e como devemos. Começando pelos escravos e escravas, o modo com que S. Francisco Xavier ensinava a doutrina era este. Rezava primeiro o Padre-nosso, a Ave-Maria, o Credo, e as outras orações da cartilha em voz alta, seguindo-o, e respondendo todos com as mesmas vozes. E logo, descendo a cada mistério em particular, declarava-o com tais termos e repetições, que até os de menor capacidade fizessem o conceito necessário do que haviam de crer. E no cabo de cada mistério perguntava assim: - Credes que Deus é um só, criador de todas as coisas? - Respondiam todos: Cremos. - Credes que Deus não é uma só pessoa, senão três, Padre, Filho, Espírito Santo? - Cremos. - Credes que a pessoa do Filho se fez homem para remir o gênero humano? - Cremos. - E quando respondiam cremos, repetiam tudo o que dizia a mesma pergunta. Agora pergunto eu: - E é este o modo com que no Brasil ensinam aos escravos os seus senhores, ou os seus feitores, ou os seus capelães, ou os seus filhos? Os menos negligentes fazem, quando muito, que os escravos e escravas boçais saibam as orações na língua portuguesa, não entendendo mais o que dizem que os papagaios pardos de Angola, ou verdes do Brasil. E assim vivem e morrem tão gentios como dantes eram, declarando eles o ser cristãos com dizer que lhes meteram sal na boca, e lhes chamaram Pedro ou Francisco. Isto é ser cristão? Isto é saber o gentio o estado que deixa, e o que toma e professa de novo? Isto é o que basta para se salvar o escravo, e mais o senhor? O escravo na hora da morte dirá a Deus: - A mim não me ensinaram mais que a cortar a cana, e a plantar mandioca. - E o senhor, que dirá? Que dirá, tomo a dizer, o senhor, o pároco, e o prelado maior? Ouçam todos a quem há de julgar a todos. Cristo, Senhor nosso, definindo como se haviam de salvar os homens, disse aos ministros da mesma salvação: Docete omnes gentes, baptizantes eos (Mt. 28, 19): Ensinai a todas as gentes, e batizai-os. - Primeiro mandou que fossem ensinados, e depois batizados. E esta ordem a que chama ordo praecipuus o maior intérprete dos textos sagrados, S. Jerônimo, declara o mesmo Doutor Máximo por estas palavras: Primum docent omnes gentes, deinde doctas intingunt aqua: Primeiro ensinam os gentios, e depois os batizam. - Por quê? Segue-se a razão: Non enim potest fieri ut corpus Baptismi recipiat Sacramentum, nisi ante anima fidei susceperit veritatem[117] : Porque de nenhum modo pode ser que o corpo receba o Sacramento do Batismo, sem que a alma antes disso receba a verdade da fé. - E se estas miseráveis almas nunca receberam nem entenderam a verdade da fé, como estes tristes e negros homens são verdadeiramente batizados, e como se podem salvar eles, e os que estão obrigados, debaixo de pecado mortal e gravíssimo, de procurar sua salvação?

 

O segundo ponto, não menos necessário, mas de que menos se cuida, é que S. Francisco Xavier, não só dizia aos portugueses: Mandai vossos escravos e escravas à santa doutrina - senão também vossos filhos e filhas. Isto das filhas tem muita necessidade de atenção e reforma em toda a parte, e não só entre a gente vulgar, senão também na que não é vulgo. A doutrina, com que costumam criar as meninas as suas aias, contém duas coisas, ou duas vaidades: a primeira, a grande nobreza da sua geração, e de caminho os defeitos das alheias, a segunda, como se hão de toucar e enfeitar, gastando com o espelho e com a mestra destas cerimônias toda a manhã, e fazendo esperar o capelão revestido, quando fora melhor no mesmo tempo aprender os mistérios da Missa. S. Francisco Xavier tinha dedicado na índia um dia cada semana para a doutrina das mães e das filhas, sem entrar então na Igreja outra pessoa.

 

Mas a isto responderão as nossas portuguesas que aquele cuidado do santo era muito bem empregado e necessário entre gentias, mas não nas que podem ser mestras do que ele ensinava. Assim o creio, porém, com sua exceção, porque me consta, sem outrem mo contar, que em alguma família portuguesa muito cristã, e não pouco ilustre, duas filhas, que já não eram meninas, cuidavam que os anjos tinham asas e penas, que o Padre Eterno era um velho com as barbas brancas, e o Espírito Santo uma pombinha. As matronas romanas entendem tanto ao contrário esta presunção das nossas, que todos os domingos mandam suas filhas à casa professa da Companhia aprender a doutrina cristã, que lhes faz um padre ancião dos mais graves, na capela de Santo Inácio, com uma cortina corrida. E o certo é, falando mais de perto, que na nossa terra fiz eu algumas doutrinas domésticas, em casas de portadas bem altas, e experimentei que tão necessária é a doutrina cristã nos paços como nas praças, e nos estrados como nas estradas.

 

 

SERMÃO SEGUNDO

 

 

NADA

 

 

Posuit pedem suum dextrum super mare, sinistrum autem super terram[118]

 

 

A prévia e formosa representação das admiráveis traças, novas e propriamente suas, com que Xavier, como pescador no mar, e como caçador na terra, trouxe à obediência de Cristo, e agregou à Igreja tanta diversidade de gentios.

 

Para dar feliz princípio aos passos, ou apostólicos do nosso anjo, ou angélicos do nosso apóstolo, posto que o Filho de Deus feito homem disse aos seus que os faria pescadores de homens, também lhes tinha profetizado, por Jeremias, que não só haviam de ser pescadores, ofício do mar, senão também caçadores, exercício da terra, S. Jerônimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho dizem que falava o profeta particularmente dos gentios, e as palavras da profecia são estas: Ecce ego mittam piscatores muitos, et piscabuntur eos; et post haec mittam eis muitos venatores, et venabuntur eos[119]. - A cláusula post haec parece que sinala tempos sucessivos e diferentes a estas duas missões, mas ambas elas no mesmo tempo e nos mesmos lugares se ajuntaram e viram unidas no nosso grande apóstolo S. Francisco Xavier. E se na prodigiosa década da sua vida e peregrinações do Oriente lhe computarmos os dias de pescador no mar com os de caçador na terra, acharemos que se igualaram os da pesca aos da caça e montaria. Notáveis são as artes, invenções e indústrias com que os pescadores, caçadores e monteiros armam aos peixes, às aves e às feras. E porque nas sagradas letras os homens mais bárbaros e carniceiros se comparam às feras, os mais políticos e de melhor entendimento às aves, e os mais brutos e indisciplinados aos peixes, matéria seria, não só acomodada, própria e útil, mas curiosa e aprazível, se eu hoje fizesse aqui uma prévia e formosa representação das admiráveis traças, novas, e propriamente suas, com que Xavier, como pescador no mar, e como caçador na terra, trouxe à obediência de Cristo, e agregou à Igreja, como ela mesma diz, tanta diversidade de gentios, e almas sem número. Mas porque os discursos seguintes nos irão mostrando por partes estas celestiais e engenhosas indústrias, o que hoje ponderarei somente, com bem importante doutrina, é a energia daquele repetido super: super mare, super terram.

 

 

§II

 

 

Davi, e o verdadeiro modo de dominar e possuir as coisas do mundo. Argumento do sermão: porque tem Xavier o nada do mar e o nada da terra debaixo dos pés, por isso tem o domínio de toda a terra e de todo o mar.

 

Isto que abaixo do céu chamamos mundo, não é outra coisa que uma máquina natural, maravilhosamente composta de mar e terra, abraçados e unidos entre si. Donde se segue que quem debaixo de um pé tiver a terra, e debaixo do outro o mar, terá sujeito o mundo todo, e será senhor dele. Tal é a dobrada superioridade que significa aquele dobrado super do nosso tema: Sinistrum super terram, dextrum super mare. - E houve jamais no mesmo mundo quem fosse senhor de todo ele? Muitos o presumiram, como Nabucodonosor e Assuero; muitos o desejaram, como Alexandre Magno e Júlio César; algum houve que o pôs em praxe, como Tibério: Ut describeretur universus orbis[120] - e um só que realmente tivesse esta grande fortuna, que foi o mesmo que a perdeu, Adão.

 

Descrevendo Davi, não a grandeza da perda, senão a do senhorio, disse: Constituisti eum super opera manuum tuarum (SI. 8, 7): que constituíra Deus a Adão sobre todas as obras de suas mãos - isto é, sobre tudo o que tinha criado neste mundo inferior, sendo o mesmo Adão a maior e última obra sua. E bastando, como nota Santo Agostinho, estas palavras para declaração do domínio universal do primeiro homem acrescenta o mesmo profeta: Omnia subjecisti sub pedibus ejus (ibid. 8): que todas as mesmas criaturas lhe tinha Deus posto debaixo dos pés - com expressão de umas serem as da terra, outras as do mar, como se falara no nosso caso: as da terra: Oves, et boves, insuper et pecora, campi[121] - as do mar: Volucres caeli, et pisces maris, qui perambulant semitas maris[122] - entrando neste segundo coro as aves, como criadas também, com os peixes, no elemento da água.

 

De sorte que este senhorio do mundo em Adão se declarou por dois termos: um de superioridade nele, como cabeça, pelo advérbio super: Constituisti eum super opera manuum tuarum - e outro de sujeição nas coisas postas a seus pés, pelo advérbio sub: Omnia subjecisti sub pedibus ejus. - E por quê, ou com que mistério? Porque, assim como a posse corporal e civil das coisas se toma com as mãos, pondo as mãos nelas, assim a espiritual e moral se toma com os pés, pisando-as, e metendo-as debaixo deles. Funda-se a realidade desta cerimônia naquela promessa de Deus, tantas vezes repetida aos filhos de Israel, para quando entrassem na Terra de Promissão: Omnis locus, quem calcaverit pes vester, vestes erit (Dt.11, 24; Jos. 1, 3): Tudo o que pisarem os vossos pés será vosso. - A Terra de Promissão sempre significa nas divinas letras a bem-aventurança, ou da outra vida, que consiste em ver a Deus, ou desta, que consiste em o servir e agradar, e assim como chegou a dizer Orígenes que, se ele no céu pisasse o lugar de Lúcifer, a cadeira de Lúcifer seria suat[123], assim é certo que tudo o que pisamos neste mundo é nosso, e só do que pisamos somos verdadeiros senhores. Tudo o mais, por grande, alto e sublime que seja, se o não metemos debaixo dos pés por desprezo, mas o trazemos, ou na cabeça por estimação, ou no coração por amor, ou nas palmas por ostentação, ou no desejo - os que o não têm - por ambição e cobiça, tão fora estamos de ser senhores de qualquer destas coisas, que antes elas nos dominam, senhoreiam e possuem a nós, e nós somos seus escravos. De qualquer outro modo que se tratem as coisas deste mundo, ou são peso, ou são embaraço, ou são cuidado, ou são dor, ou são sujeição, ou são cativeiro; só pisadas e metidas debaixo dos pés são domínio. Por isso todas as da terra e do mar tinha o anjo, figura de Xavier, debaixo dos pés: Pedem suum dextrum super mare, sinistrum super terram.

 

Suposto, pois, que meter tudo debaixo dos pés é o verdadeiro modo de dominar e possuir tudo, esse mesmo dominar e possuir, bem apertado, que vem a ser, ou em que consiste? Coisa maravilhosa! Consiste em não ter nem querer nada de quanto se possui ou pode possuir. Texto expresso de S. Paulo: Nihil habentes, et omnia possidentes (2 Cor. 6, 10): Nada temos, e tudo possuímos. - Pois, se o nada é o contrário do tudo, e o não ter é o contrário do possuir, como podem possuir tudo os que não têm nada? Este, que parece paradoxo, será a matéria do meu discurso. S. João Crisóstomo, comentando o mesmo texto, diz assim: Quomodo hoc est? Imo quomodo contrarium est? Vós dizeis: Como pode ser isto? E eu, pelo contrário, digo: Como pode não ser? - Ele o prova em S. Paulo, antes das mesmas palavras: eu o provarei em S. Francisco Xavier, que o confirmou com as obras; ele, como tão eloqüente, com muitos e elegantes argumentos: eu com um só argumento, e sem elegância. Argumento assim: Por que tem Xavier o mar e a terra debaixo dos pés? Porque ter debaixo dos pés, é desprezar, e ter debaixo dos pés, é dominar. Logo porque Xavier correndo tantas terras, e navegando tantos mares, nenhuma coisa quis do mar nem da terra, por isso o nada da terra lhe deu o domínio de toda a terra: Pedem super terram - e o nada do mar o domínio de todo o mar: Pedem super mare.

 

 

§ III

 

 

O senhorio de Xavier sobre o mar. A matalotagem de Xavier quando se embarcou para a índia. Em que fundava a confiança de sustentar a vida na viagem, não querendo levar nada? A virtude do nada e a riqueza da nobreza evangélica. O que sucedeu aos apóstolos de Galiléia com o seu nada? Xavier e a notável diferença das duas instruções de Cristo aos apóstolos em suas missões.

 

Começando pelo mar, o primeiro cuidado de quem se embarca, porque no mar não há estalagens, é prevenir a matalotagem, ainda que a viagem seja breve. Daqui nasceu o ditado dos mareantes, que talvez basta um pão para fazer cem léguas, e talvez para fazer uma légua não bastam cem pães. E em uma navegação tão dilatada, e emuma república tão confusa, qual é uma nau da Índia- e mais as daquele tempo - não só se vão diminuindo os mantimentos, mas crescendo as bocas, o que não aconteceu na arca de Noé. A um fidalgo duas vezes capitão-mor de Goa, e que mais de duas fez a mesma viagem, ouvi dizer que ele, pela experiência que tinha, fazia sempre três matalotagens, uma para os ratos, outra para os marinheiros, a terceira para si. E pudera acrescentar a quarta, porque em certas alturas até os céus comem, e voracíssimamente, corrompendo-se os mantimentos pela intemperança dos climas. E que provimento foi o do Padre Mestre Francisco, quando se embarcou para a índia? Segundo a largueza com que o mandou prover el-rei D. João o III, pudera passar os almazéns de Lisboa ao seu paiol, e, quando menos, pudera descuidar-se da provisão particular da própria pessoa, supondo que a mesa do general seria a sua. Mas nem depois de embarcado puderam acabar com ele os rogos e instâncias do governador da Índia, Martim Afonso de Sousa, que aceitasse esta comodidade, nem antes de se embarcar, o conde da Castanheira, D. Antônio de Ataíde, vedor da fazenda real, para que admitisse o menor provimento de matalotagem, ou outra coisa, dizendo depois muitas vezes em conversação o mesmo conde, que não tivera no apresto das naus daquele ano menos que fazer com o padre, para que quisesse aceitar algum provimento de el-rei, que com toda a outra gente, para que não pedisse ou tomasse mais do que lhe deviam.

 

Mas, se Xavier era vivo como os mais, em que fundava a confiança de sustentar a vida na viagem, não querendo levar nada? Respondo que no mesmo nada, porque quem como ele, por se conformar com a pobreza evangélica, deixa tudo, e não quer nada, nada lhe pode faltar. Na primeira missão em que Cristo, Senhor nosso, tirou da sua escola os discípulos, para que fossem pregar e exercitar os outros ministérios da sua profissão, como a ave que tira os filhinhos do ninho, para os ensinar a voar, a instrução que lhes deu foi que nenhuma coisa levassem consigo para viático ou provimento dos caminhos, nem para comer, nem para vestir, nem para o mais necessário, nem menos bolsa ou dinheiro com que o comprar: Nolite possidere aurum, neque argentum, neque pecuniam in zonis vestris: non peram, neque duas tunicas, etc. (U. 10, 9). - Foram os discípulos, pregaram o reino do céu, converteram pecadores, sararam enfermos, lançaram demônios dos corpos, obraram muitos outros milagres, e tomando tão carregados destes despojos, quão leves tinham ido de tudo o necessário para a vida, então lhes fez o divino Mestre esta pergunta: Quando misi vos sine sacculo, et pera, numquid aliquid defuit vobis (Le. 22,35): Quando vos mandei sem alforje nem viático, faltou-vos alguma coisa? - At illi dixerunt: Nihil: E eles responderam: Nada. - Pois, se nada levaram, como nada lhes faltou? Porque essa é a virtude do nada, e essa a riqueza da pobreza evangélica. Não levarem nada, foi irem destituídos de tudo; não lhes haver faltado nada, foi terem tudo o que lhes foi necessário. E, este tudo se fundou totalmente naquele nada, porque nele levavam um crédito aberto da providência divina, para que, pela medida do nada que não levavam, lhes não faltasse nada do que houvessem mister. E se isto sucedeu aos apóstolos de Galiléia com o seu nada, por que não sucederia o mesmo ao Apóstolo da Índia com o seu? O seu nada foi o seguro viático, que nem se podia roubar, nem se podia diminuir, nem se podia corromper, com que Xavier em toda a viagem, vivendo e sustentando-se de esmola, e muitos dias sem ela, nunca lhe faltou nada, porque não quis nada. Donde eu infiro que na capitania, e em toda a armada, ninguém ia melhor amatalotado que o mestre Francisco, porque os outros iam providos pelo regimento de el-rei, em que podem faltar e faltam muitas coisas, e ele ia provido pelo regimento de Deus, em que nada falta: Dominas regit me, et nihil mini deerit[124].

 

Tomando, porém, à primeira instrução de Cristo, e à experiência com que os apóstolos responderam que, não tendo levado nada, nada lhes faltara: nihil - o que então lhes disse o mesmo Senhor é uma coisa estupendamente admirável, por ser totalmente o contrário. As palavras com que o refere S. Lucas são estas: At illi dixerunt: Nihil. Dixit ergo eis: sed nunc, qui habet sacculum, tollat similiter et peram (Le. 22, 36): Dizeis que, quando vos mandei sem alforje nem bolsa, nada vos faltou? Pois agora vos digo que quem tiver alforje e bolsa, que a leve consigo. - Estes são os mesmos discípulos, e este é o mesmo Mestre; mas se ele e eles foram outros, não lhes pudera dizer coisa mais encontrada. Parece que em boa conseqüência havia de dizer o Senhor: - Suposto que, não levando nada, experimentastes que vos não faltou nada, daqui por diante tende sempre a mesma confiança na vossa pobreza, e não trateis do provimento ou viático para as outras missões, porque nos tesouros da minha providência, e do mesmo despego e desprezo de tudo, tereis tudo o necessário para o sustento da vida. - Mas se na primeira instrução lhes mandou que não levassem nada, como agora lhes ordena que levem tudo o que tiverem e puderem? Porque nem todos os preceitos ou conselhos são para todos os tempos e para todas as ocasiões, ainda que os homens que os hão de seguir e executar sejam os mesmos. A razão desta diferença é porque as missões a que Cristo, Senhor nosso, mandou os seus apóstolos foram duas e mui diversas: a primeira em sua vida, para que pregassem aos judeus somente: In viam gentium ne abieritis, sed potius ite ad oves, quae perierunt domus Israel[125]- a segunda, e para depois de sua morte - que então lhes declarou - para que fossem pregar a todas as gentes do mundo: Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae[126] - e, como as missões eram tão diversas, por isso foram também diversas as instruções. Quando iam pregar aos judeus, que eram os cristãos ou fiéis daquele tempo, mandoulhes que não levassem nada, porque entre eles facilmente podiam achar de graça e de esmola o que lhes fosse necessário para sustentar a vida; porém, quando fossem pregar aos gentios, que fossem prevenidos e providos de tudo, porque neles, como idólatras e inimigos, não só não achariam quem os socorresse com o sustento da vida, mas antes, e certamente, quem lha quisesse tirar.

 

Este é o sentido próprio e literal de um e outro texto, e assim o declaram todos os santos, a quem segue Santo Tomás, mas não S. Francisco Xavier, posto que a ele lhe pertence a segunda parte, como apóstolo das gentes. Reconhece Xavier a verdade da declaração, mas sempre abraçado constantemente com o seu nada; nada quer para o mar, quando serve aos cristãos no mar; e nada para a terra, quando prega aos gentios em terra.

 

 

§ IV

 

 

S. Francisco Xavier, e os terríveis e medonhos moroteses. Excelências do nada de Xavier sobre o nada de S. Paulo.

 

Os gentios mais bárbaros e feros, e mais sem humanidade de todo o Oriente, são os da Batequina, ou ilhas de Moro, em que a principal é de cento e cinqüenta léguas. O seu mais ordinário mantimento é de came humana; matam-se para isso até os pais aos filhos, os maridos às mulheres, e os filhos aos pais e mães, e muitas vezes, antes da fome e do gosto de se comerem, só pelo gosto e apetite de matar, se matam. Não há entre eles lei, peso, medida, ou outro sinal de uso, de razão e de justiça, salvo o freqüente contrato de se emprestarem umas famílias às outras o pai, ou o filho, para o comerem em alguma festa, com obrigação de o pagarem na mesma moeda. O gênero de morte mais usado e menos violento daquela camiceria é o dos venenos, em que são sutilíssimos, não se comendo entre eles um bocado de arroz, nem bebendo-se um trago de água com segurança, e sem suspeita de que se come ou bebe a morte, A quem não meteria medo entrar, e pôr os pés em tais terras? E quem, ainda navegando, não fugiria muito longe de suas praias e de seus mesmos ares? Heu fuge crudeles terras, fuge littus avarum[127]? - Mas esses mesmos horrores eram os que mais animavam e estimulavam o espírito de Xavier a empreender a conquista das ilhas do Moro, Diziam-lhe que voluntariamente se ia meter e buscar os perigos, não duvidosos, mas certos; diziam-lhe que de gente tão bárbara e fera nenhum fruto se podia esperar; diziam-lhe que na hora em que se embarcasse, o chorariam por morto, abonando esta promessa com as mesmas lágrimas, que já não podiam resistir. Sobretudo, punham-lhe diante dos olhos o desamparo de todas as outras cristandades do Oriente, umas ainda verdes, e em flor, outras só semeadas, e outras que desejavam e pediam o arado, com certíssimas esperanças de copiosa colheita, e que toda esta fertilidade trocava por uns penhascos estéreis. Mas, como o santo desfizesse todas estas razões com outras, mais altas e sobre-humanas, vista a constante e inflexível deliberação em que estava de não desistir daquela empresa, ao menos lhe rogavam que levasse consigo as bazares, os unicórnios, as pedras de porco-espinho, e os outros defensivos mais finos e aprovados, de que a Judéia é tão abundante, como dos mesmos venenos. Porém, Xavier, tão fechado neste caso, como em todos os outros, com o seu nada, nenhuma coisa, nem deste, nem de outro gênero, quis aceitar, nem ainda ver.

 

Há tal resolução? Há tal desprezo da vida? Há tal desejo de a perder? Não vedes, meu santo, que aos seus apóstolos diz Cristo que, quando forem às terras dos gentios, mudem o estilo da sua austeridade, e vão prevenidos dos meios necessários para a conservação da vida? Uma coisa é navegar de Lisboa a Goa em uma nau que leva no tope as chagas de Cristo, para que vos baste para sustento o vosso nada; mas entrar em umas terras, onde o nome de cristão, sobre o de homem e estrangeiro, é nova pena de morte, já que não levais os peitos de aço para rebater as suas setas, por que não levareis ao menos esses reparos, que nelas criou a natureza para as traições dos seus venenos? Isto mesmo repetiam a Xavier, com novas instâncias, os que presumiam zelar tanto a sua vida como ele a salvação das almas; e que respondia o Santo? Reconhecia o amor e a boa intenção, agradecia os oferecimentos, e escusava-se de os aceitar, dizendo, com o rosto muito seguro e alegre, que ele levava consigo a mais fina e mais forte contra-peçonha de todas. Esta era, debaixo da confiança em Deus, a virtude do seu nada. O primeiro e mais famoso antídoto ou contra-veneno artificial que houve no mundo, foi o mitridático, a que deu o nome, depois de o inventar, Mitrídates, rei tão poderoso como sábio, o qual o tomava todas as manhãs, e sobre ele, sem perigo nem lesão, comia e bebia todos os venenos [128].

 

Compunha-se o mitridático de oitenta e tantos ingredientes; mas que comparação podia ter com o nada de Xavier, que tinha debaixo dos pés o mare aterra? Tudo o que contém o mar e a terra, pisado como ele o pisava, vede se podia fazer uma confeição e um antídoto que melhor lhe defendesse a vida de todos os venenos, que o seu a Mitrídates. Enfim, assim armado, ou desarmado, chegou Xavier às terras dos medonhos moroteses, e nem a sua fome o comeu, nem a sua sede lhe bebeu o sangue, nem os seus venenos lhe tiraram a vida, antes ele, ao princípio, de feras os fez homens, logo de homens, cristãos, e em espaço de três meses que os assistiu, os deixou tão firmes na fé, e com tais mostras da sua própria salvação que, perseguidos depois pela mesma fé, de crudelíssimos tiranos, a defenderam com gloriosos martírios. Tanto faz, tanto pode, e tão seguro caminha quem se fia de Deus, e não quer nada!

 

Só resta responder ao conselho de Cristo - que conselho foi, e não preceito. - Uma coisa é o que se permite, outra o que se manda; uma o lícito, outra o heróico. Também S. Paulo, Apóstolo das Gentes se singularizou dos outros apóstolos em não querer nada. Os outros apóstolos no exercício da pregação do Evangelho deixavam-se acompanhar de pessoas devotas, que os assistiam, e lhes ministravam o necessário, que é o termo com que falam os textos; porém, S. Paulo, depois de provar largamente que lhe era lícito o mesmo, estava tão desapegado a tudo, e tão pegado ao seu nada, que nenhuma coisa queria aceitar de outrem, gloriando-se tanto desta sua isenção e independência, e fazendo tanta estimação dela, que, se não fora tão santo, e não tivera dito: Qui gloriatur, in Domino glorietu[129]- sendo esta sua glória tão sólida, pudera parecer que debaixo dela havia alguma coisa de vã. Chegou a dizer que antes perderia a vida que esta glória singularmente sua: Bonum est mihi magis mori, quam ut gloriam meam quis evacuet[130]. - E se o nada de S. Paulo era tão isento de tudo, e tão nada, de que se sustentava? Ele mesmo o diz, apontando para as mãos, de cujo trabalho tirava o sustento  seu, e de seus companheiros: Argentum, et aurum, aut vestem nullius concupivi, sicut ipsi scitis: quoniam ad ea quae mihi opus erant, et his qui mecum sunt, ministraverunt manus istae (At. 20, 33 s): - Nem para comer, nem para vestir recebi de outrem coisa alguma, como todos sabeis, porque estas mãos, e o trabalho delas, eram as que me davam tudo o necessário. - Isto fazia o nada de S. Paulo, o que não fazia o nada de Xavier. E qual deles era mais glorioso? O de S. Paulo era singular sobre os doze apóstolos; o de Xavier não só era singular sobre os doze, senão sobre os treze, entrando também neste número o mesmo S. Paulo. Seria, pois, mais glorioso o nada de Xavier, porque muitas vezes passava os três e os quatro dias, e talvez a semana inteira, sem comer bocado? Não só por isso. O nada de Paulo sustentava a Paulo, o nada de Xavier sustentava a Xavier; mas o de Xavier mais glorioso, porque a confiança do nada de Paulo fundava-se no que trabalhava com as suas mãos, e a do nada de Xavier no que pisava com os seus pés: um pé sobre o mar, e outro pé sobre a terra: no mar entre os cristãos, como vimos, bastando-lhe o seu nada para sustentar a vida, e na terra entre os gentios, bastando-lhe o mesmo nada para se defender da morte: Pedem suum dextrum super mare, sinistrum autem super terram.

 

 

§V

 

 

Como o mesmo nada de Xavier o fazia senhor de tudo? O que fez em dois casos a caridade de Xavier, e com tão elegante contraposição, que em uma e outra necessidade remediou um vácuo com outro vácuo: o vácuo dos pobres com o vácuo do mesmo Xavier.

 

Ainda não chegamos a tudo o que prometi. Prometi que, assim como Xavier tudo desprezava, e tudo metia debaixo dos pés, sem querer nada, assim esse mesmo nada o fazia senhor de tudo, e isto é o que agora havemos de ver. Como são freqüentes nos mares do arquipélago da índia os perigos e naufrágios, deu à costa com o seu navio um mercador, capitão e senhorio dele, o qual no mesmo navio levava todo o seu cabedal, tão confiado, ou tão cobiçoso, que não tinha deixado reserva em terra. Com a vida, que lhe perdoou o mar, vendo-se despido em uma praia, por não ter com que a sustentar, se meteu a pedir esmolas pelas portas, tão pobre, que até ao mais pobre que acaso se achou naquela terra, sem reparar nos seus remendos e pés descalços, a pedia também.

 

Enterneceu-se Xavier com a relação da sua desgraça e presente miséria, meteu a mão na algibeira, não achou nada, mas nem por isso despediu o pobre. Toma outra vez com a mão à algibeira. - Mas tende mão nessa mão, meu santo, reparai no que fizestes e no que tornais a fazer. Quando com essa ação natural fostes buscar o que desejáveis dar ao pobre, achastes alguma coisa? Não. Pois, se não achastes na algibeira mais que o nada que nela havia, que ides buscar de novo? O mesmo, e por isso mesmo. Porque é tal a excelência ou a riqueza do nada de Xavier, pelo qual ele tinha metido tudo debaixo dos pés, que em virtude do mesmo nada lhe não podia faltar coisa alguma do que desejasse ou houvesse mister. E assim foi. Acabou de meter segunda vez a mão na algibeira, e no mesmo ponto a tirou cheia de moedas de ouro e prata finíssima, cunhadas de insígnias não conhecidas; com elas socorreu e remediou o pobre, dando-lhas todas. Notam aqui os historiadores que quando isto fez Xavier, pôs os olhos no céu, como se dissera: Levavi oculos meos in montes, unde veniet auxilium mihi (SI. 120, 1): Levantei os olhos aos montes, donde me havia de vir o socorro. - Os dois montes mais célebres no mundo, um de ouro, outro de prata, é de prata o Potosi, na América, e de ouro o Pangeu, na Trácia. E foram estes porventura os montes donde lhe veio a Xavier o socorro do ouro e da prata? Não, continua ele: Auxilium meum a Domino, qui fecit caelum et Cerram (ibid. 2): O socorro veio-me do Senhor que fez o céu e a terra. - Admirável razão, e propriíssima do caso! Não diz que lhe veio o socorro do Deus todopoderoso, ou do Deus Senhor de todas as coisas, senão do Deus que fez o céu e a terra. E por quê? Porque só quando Deus criou o céu e a terra fez tudo de nada, que isso é criar: In principio creavit Deus caelum et terram[131] - e tal foi o milagre da algibeira de Xavier, primeiro nada, e depois ouro e prata. Foi maior milagre que o da nossa Rainha santa, quando as moedas dos pobres se converteram em rosas: porque ali as moedas converteram-se em.outra coisa, que é menos; aqui criaram-se ou fizeram-se as moedas de nada, que é muito mais. Também o modo de socorrer ao pobre foi mais maravilhoso que o de S. Pedro, quando deu os pés ao aleijado que lhe pedia esmola: Argentum et aurum non est mihi: quod autem habeo, hoc tibi do[132]. - S. Pedro disse: Não tenho ouro nem prata, mas dou-te o que tenho - e Xavier podia dizer: Não tenho ouro nem prata, mas dou-te o que não tenho - porque esta era a virtude do seu não ter, e do seu nada.

 

Passemos agora da terra ao mar, e vejamos como pelo mesmo modo com que o nada de Xavier remediou aquele naufrágio do mar na terra, assim acudiu, não menos maravilhosamente, a outro muito maior da terra no mar. Os Paravás são um gentio da Costa da Pescaria, em que o santo empregou uns dos primeiros lanços das suas redes, com tanta ventura, ou favor do céu que, havendo entre eles alguns cristãos só de nome, não só ressuscitou nestes a fé, mas a plantou nos demais, com tão firmes raízes que de todos se compôs uma florentíssima cristandade. Habitavam em muitas povoações os lugares marítimos da mesma costa, quando subitamente rebentou contra eles do sertão um exército dos badagás, gente bárbara e ferocíssima, com tal ímpeto e resolução de levar tudo a fogo e a ferro, que os pobres cristãos, largando-lhes a terra, e quanto nela possuíam, não tiveram outro lugar para onde fugir, e salvar de algum modo as vidas, que lançando-se ao mar. Faz o Cabo de Comorim com a vizinha ilha de Ceilão um estreito cheio de muitos baixios, restingas, parcéis, coroas de areia, e recifes de pedra; e ali - se é lícito comparar as coisas pequenas com as grandes - se viu um lastimoso retrato do dilúvio universal, quando começou a alagar os vales: uns se metiam pelas concavidades dos recifes, outros nadavam ao mais descoberto das coroas, outros subiam ao mais alto dos penedos, e a multidão inumerável dos demais homens, mulheres e meninos, metidos na água, com as cabeças de fora, para conservar a respiração, e as mães e pais com os filhinhos aos ombros, em pé, sem poder descansar nem dormir, e não só abrasados dos raios do sol, que ali são ardentíssimos, mas estalando à fome e à sede, ou se deixavam já afogar desmaiados, ou por instantes esperavam acabar na mesma miséria sem remédio, quando com outro repente viram que vinha enfiando o canal do mesmo estreito, que é muito dificultoso, uma frota de muitas embarcações. Alguns temeram que fossem os mesmos bárbaros, mas os fumos e labaredas com que viam do mar arder as suas povoações, os asseguravam de que não podiam ser eles; mas de quem seriam? Di-lo-ei pelas palavras do mesmo capitão da frota, tanto que lhe chegou a nova do que passava. Em unta carta que escreveu então S. Francisco Xavier a seu companheiro, o Padre Francisco de Maneias, diz assim: - Eu me parto para Cabo de Comorim, com vinte embarcações de mantimentos, a socorrer aqueles pobres cristãos, que com medo dos inimigos estão pelo mar, morrendo alguns à pura necessidade. Lá escrevo aos pantagatins e regedores que lhes acudam com alguma esmola: fazei que seja por suas vontades, e não por força, e que a não tirem dos pobres, senão daqueles que à boa mente a quiserem e puderem dar. - Assim deixava Xavier prevenido o segundo e futuro socorro; mas este primeiro, e presente, donde lhe veio? Vinte embarcações, e de mantimentos, e principalmente de aguada, que era o de que mais necessitavam, e as vasilhas para ela, e as coisas de comer prontas e aparelhadas, e tais que não dependessem de fogo; um vice-rei da índia com os almazéns de el-rei, e toda a fábrica da Ribeira não pudera expedir em Goa um tão repentino socorro. Como o fez logo em um momento, com tantas embarcações, marinhagem, e tudo o mais necessário, quem como Xavier não possui nada? A história não o diz, mas eu digo, e ninguém poderá dizer outra coisa, senão que o seu nada fez este grande e universal milagre, tirando tudo dos seus tesouros, que são os mesmos da divina Onipotência, a qual não há mister tempo nem outros requerimentos, que o da mesma necessidade e miséria dos pobres.

 

Onde a nossa Vulgata diz: Desiderium pauperum exaudivit Dominus - tem o original hebreu: vacuitatem pauperum (SI.10,17). Quer dizer que ouviu Deus e remediou o vácuo dos pobres, que é a sua necessidade, e falta do que não têm. - E por que chama o profeta, e o mesmo Deus por sua boca, a essa necessidade e falta do necessário o vácuo dos pobres? Para que entendamos que assim como a natureza, para impedir o vácuo, obra sobre todas as suas leis, e contra elas, fazendo milagres, assim os faz a misericórdia divina para acudir às necessidades dos pobres. É o que fez neste caso e no passado, por meio da caridade de Xavier, e com tão elegante contraposição, que em uma e outra necessidade remediou um vácuo com outro vácuo; o vácuo dos pobres com o vácuo do mesmo Xavier. Lá com o vácuo e com o nada da sua algibeira, socorrendo a pobreza de um naufragante, com a mão cheia de ouro e prata, cá, e com mais universal maravilha do mesmo vácuo e do mesmo nada, acudindo, não a um homem, nem a um povo, senão a muitos, que de si mesmos tinham feito voluntário naufrágio, lançando-se ao mar, para escapar as vidas, socorrendo-lhas na extrema necessidade com uma frota inteira de vinte embarcações carregadas de mantimentos. Lá, enfim, remediando as perdas do mar na terra para mostrar o seu nada, que, por ter metido a terra debaixo dos pés, era senhor da terra: Pedem sinistrum super terram - e cá remediando as perdas da terra no mar, para acabar de confirmar o mesmo nada, que, por ter metido o mar debaixo dos pés, era senhor do mar: Dextrum autem super mare.

 

 

§ VI

 

 

O conceito que os gentios tinham do poder e dignidade de Xavier Razões por que Deus, nas coisas que pertencem a Xavier, não parece o mesmo, senão outro.

 

Por estes e outros exemplos vieram os mesmos gentios a reconhecer com tal evidência e espanto estes dois domínios de Xavier, que lhe chamavam deus da terra e deus do mar. Falavam como gentios, mas bem podiam dizer o mesmo em sentido cristão. A Moisés disse Deus: Ecce constitui te Deum Pharaonis[133] - E assim como Deus fez a Moisés deus de uma terra, que era o Egito, e deus de um mar, que era o Vermelho, bem o podia fazer sem limite deus de toda a terra, e deus de todo o mar. Tal era o conceito que os gentias tinham do poder e dignidade de Xavier. E para que o possamos tomar em bom sentido, é coisa muito singular, e digna de reparo, que Deus se não dá por ofendido dos que dão a Xavier este nome, antes favorece aos que o invocam, e castiga aos que o juram em vão. Em Cotata, cidade da índia, tem Xavier um templo muito célebre por milagroso, o qual está todo cheio de votos ou troféus, que ali penduram os gentios, em memória e agradecimento das mercês que alcançam do santo, e o seu maior e mais inviolável juramento não é pelos seus deuses ou ídolos, senão pelo santo de Cotata, havendo-lhe conciliado este sumo respeito a experiência que têm das penas com que Deus castiga os violadores deste juramento.

 

Ouçamos agora ao verdadeiro Deus, que nas coisas que pertencem a Xavier não parece o mesmo, senão outro. Queixa-se dos hebreus, e diz assim, pelo profeta Jeremias: Super quo propitius tibi esse potero? Filii tui derelinquerunt me, et jurant in his qui non sunt dii (Jer. 5, 7)? Por que razão, por que merecimento, ou com que título, ó Israel, te posso eu favorecer, ou ser propício, se os teus filhos me deixam, que sou o verdadeiro Deus, e juram por aqueles que não são deuses? - Pois, se isto em próprios termos é o mesmo que faziam os gentios da índia, venerando a Xavier por Deus e jurando por ele, como os israelitas por Baal e Melcon, por que favorece Deus aos que isto fazem, concedendo-lhes quanto pedem a Xavier, e castigando severamente aos que juram por ele, se não guardam os juramentos? É certo, como cantou a Igreja no dia em que canonizou a S. Francisco Xavier, que Deus se honra na honra que se faz a seus santos: Et in sanctorum tuorum honoribus honoraris - mas isto se entende quando a honra que se faz aos santos, não ofende a honra de Deus, como a ofendem os que veneram outro deus, e juram por ele. Por que merecimento, logo, chega Deus a dissimular as suas ofensas, por acrescentar e favorecer as honras que se fazem a Xavier? Não há dúvida que pelos merecimentos do mesmo santo, e não dos que ignorantemente lhe dão o nome e veneração de Deus, porque isto nem o mesmo Deus o pode fazer como dizem enfaticamente aquelas palavras suas: Super quo propitius tibi esse potero[134]? - Mas, se isto chega Deus a fazer pelos merecimentos de Xavier, resta saber por quais merecimentos.

 

Digo que pelos merecimentos daquela soberania, que ponderamos em todo este discurso, tão parecida com a divina. Deus é Senhor de tudo: mas de que modo? De tal modo que para si não quer nada, e tudo o de que é Senhor é para nós. Antes de Deus criar o mundo, tinha alguma coisa fora de si? Nada, porque não havia nada. E depois do mundo criado, teve mais alguma coisa de novo? Para si o mesmo nada que dantes, mas para nós, e para o homem, tudo: Omnia subjecisti sub pedibus ejus[135] - Ao mesmo modo Xavier: com um pé, sobre a terra dominava tudo o que há na terra, com o outro pé sobre o mar dominava tudo o que há no mar; mas para quem? O tudo para todos, ou fossem cristãos ou gentios; e para si o seu nada, puro e despegado de tudo, porque era o que só queria. E como no uso e desuso de uma e outra coisa se parecia tanto com Deus, por isso Deus, não só permitia que fosse venerado por Deus do mar e da terra, mas favorecia com milagrosos benefícios aos que assim o veneravam, e castigava, que é mais, aos que, jurando por ele, faltavam a esta veneração.

 

 

§ VII

 

 

O que fez Xavier e o que fizeram os portugueses com a conquista do Oriente? Em que consiste o domínio do mundo? A razão altíssima por que Deus, sendo tão liberal, deu todo o mundo ao primeiro homem? A verdadeira riqueza com que Cristo nos enriqueceu com a sua pobreza. Os tesouros do não querer As riquezas roubadas e as riquezas roubadoras. Conclusão: comparar o nada do que se possui com o nada do não querer.

 

Agora, para acabar, falemos um pouco conosco. Navegaram ao mesmo Oriente os portugueses, fizeram-se senhores do mar e da terra, e como usaram deste domínio, naqueles felizes princípios, tão absoluto? Com grande diferença. O texto não diz que o anjo tinha um pé no mar e outro na terra, senão um pé sobre a terra: sinistrum super terram - e outro sobre o mar: dextrum super mare. quem tem os pés sobre o mar e sobre a terra pisa o mar e pisa a terra, e só quem os pisa os senhoreia verdadeiramente: Omnis locus, quem calcaverit pes vester, vester erit[136]- e isto é o que fez Xavier; porém os que navegaram e conquistaram o Oriente com outro espírito, não meteram o mar e a terra debaixo dos pés, mas meteram os pés no mar e na terra, para adquirir o que debaixo de si escondia a terra, e o que debaixo de si escondia o mar. Xavier foi lá levar a bênção de Deus, eles foram buscar a bênção de Sacar. E que diz essa bênção? Inundationem maris quasi lac sugent, et thesauros absconditos arenarum [137]. - As tormentas do Cabo da Boa Esperança e os tufões dos mares da China parecer-lhes-ão marleite: Inundationem maris quasi lac sugent- porque vão buscar os tesouros que estão escondidos nas areias: Et thesauros absconditos arenarum. - As pérolas buscá-las-ão debaixo do mar, e de mergulho, na Costa da Pescaria; o âmbar esperarão que as tempestades ou as baleias o lancem às praias; os diamantes cavá-los-ão debaixo da terra de Colocondá; os rubis desterrá-los-ão na de Pegu; as safiras i-las-ão buscar mais longe, na dos persas e medos. E porque se meteram debaixo da terra, e debaixo do mar, e não a terra e o mar debaixo dos pés, por isso os não dominaram verdadeiramente.

 

Demócrito, por testemunho de Sêneca, o mais sutil de todos os filósofos, teve para si que todas estas, que chamamos estrelas, são outros tantos mundos, maiores que este que habitamos; e posto que não se enganou na grandeza, em serem outros mundos, disse um erro, em que outros o seguiram. Ouvindo isto Alexandre Magno, saltaram-lhe as lágrimas pelos olhos, e disse chorando: - É possível que há tantos mundos, e que eu ainda não acabei de conquistar um? - Assim disse aquele monstro de soberba, e o mesmo havia de dizer, se os conquistara todos, porque não sabia em que consiste o domínio do mundo. O domínio do mundo não consiste em o possuir, consiste em o pisar. Essa é a razão altíssima por que Deus, sendo tão liberal, deu todo o mundo ao primeiro homem; criando tantos homens, criou um só mundo, porque, para cada homem possuir um mundo, era necessário que fossem tantos mundos quantos são os homens; mas para todos os homens, e cada homem pisar todo o mundo, basta um só mundo. Desta sorte o dominou Xavier, pisando-o, e não querendo dele nada, e do mesmo modo o dominaram todos os que o souberam pisar.

 

Oh! se os cobiçosos de riquezas souberam entender e penetrar bem este ponto! Ouvi uma notável ponderação de S. Paulo, não sei se bem entendida: Scitis gratiam Domini nostri Jesu Christi, quoniam propter vos egenus factus est, cum esset dives, ut illus inopia vos divites essetis (2 Cor, 8, 9): Bem sabeis a grande mercê e graça de Deus, com que ele, por amor de nós, sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza. - Supõe o apóstolo que todos sabemos isto; mas é certo que muitos o não sabem, antes cuidam que é coisa que se não pode saber, Se dissera que Deus, sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer com a sua riqueza, bem se entendia; mas para nos enriquecer com a sua pobreza? Sim. E é lástima que não entendam esta filosofia os cristãos, entendendo-a os gentios. Quem são os ricos neste mundo? Os que têm muito? Não, porque quem tem muito deseja mais, e quem mais deseja mais falta-lhe o que deseja, e essa falta o faz pobre. Inventas est qui aliquid concupisceret post omnia[138]: Houve neste mundo um homem - diz Sêneca - que, depois de ter tudo, ainda desejou mais. - Este declarou ele que foi Alexandre; mas com encarecimento falso, porque Alexandre nunca foi senhor de tudo. O senhor de tudo só foi Adão. Mas a esse também o perdeu a sua pobreza, porque, tendo tudo, ainda quis mais do que tinha. De maneira que não é rico quem tem muito, ainda que seja tudo. Pois, quem é o verdadeiro rico? Aquele que não quer nada, porque nenhuma coisa lhe falta. E esta é a verdadeira riqueza com que Cristo nos enriqueceu com a sua pobreza, ensinando-nos a não querer nada, como ele o não quis.

 

Ainda não está dito, porque aqui se devem notar duas coisas muito particulares. A primeira, dizer S. Paulo que o Filho de Deus nos enriqueceu com a sua pobreza, e não com a sua onipotência: Ut illius inopia vos divites essetis. - E por quê? Porque com a sua onipotência pode Deus dar muitas riquezas aos homens, mas fazê-los ricos não pode. Deu muitas riquezas aos assírios, aos persas, aos gregos, aos romanos, mas todos eles com estas riquezas sempre ficavam pobres, porque lhes faltava o mais que todos apeteciam, e por isso se destruíam com guerras. Que remédio logo para Deus poder fazer os homens ricos? O remédio foi o que ele tomou, fazendo-se homem, e pobre, e ensinando-nos com a sua pobreza a não querer nada, Torno a dizer a não querer nada, e esta é a segunda energia das palavras de S. Paulo, em que me admiro não repararem os intérpretes. Se diz que Cristo se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza porque não significou essa pobreza com a palavra

 


paupertas, senão com a palavra inopia? Porque paupertas, a qual se define parei possessia[139], significa a pobreza que possui pouco; porém, a palavra inopia, por aquela negação in, que nega tudo, significa a pobreza que não quer nada; e só a inopia, e a pobreza que não quer nada, é a que faz o homem verdadeiramente rico: Ut ejus inopia vos divites essetis. -Assim o entenderam, como dizia, até os mesmos gentios, por onde Atalo, famoso filósofo, em frase também gentílica, disse: Nihil desideres, oportet, si vis Jovem provocare nihil desiderantem[140]: Se queres ser tão rico que desafies ao mesmo Júpiter, não desejes nada, assim como ele nada deseja.

 

Que ricos seriam os homens, e logo, e neste mesmo instante, se soubessem conhecer e estimar os tesouros do não querer! Estas foram as riquezas que Cristo nos ensinou com a sua pobreza, e esta foi a que professou S. Francisco Xavier, com que foi o mais rico de quantos passaram ao Oriente. Eles metendo e engolfando os pés, as mãos, todo o corpo e toda a alma nas riquezas daquelas terras e daqueles mares; e Xavier pisando e metendo debaixo dos pés quanto encerram os mesmos mares e terras: Pedem sinistrum super terram, dextrum autem super mare. - Comparemos agora o nada do que lá foram buscar, e trouxeram, os que tornaram com grande fama de ricos a Portugal, Todos os que com as velas inchadas desta falsa opinião entraram pela barra de Lisboa, por mais carregados que viessem de riquezas, verdadeiramente nada trouxeram. E por quê? Notai muito a razão. Porque tudo o que trazem os que vêm da índia, ou é roubado, ou eles vêm roubados. Se é roubado, não trazem nada, porque o que trazem é alheio, e não é seu, e o devem restituir. E se vêm roubados, ainda menos, porque o roubado não só perde o que traz, senão também a liberdade, e de rico não só fica pobre, mas cativo. Tudo isto descobriu, antes de nós descobrirmos a índia, o cardeal Hugo, naquele verso do salmo: Rapinas volite concupiscere. Divitiae si affluant, nolite cor apponere[141]

 

Primeiramente, por que não diz o Espírito Santo que nos guardemos da rapina e do roubo, senão dos roubos e das rapinas: Rapinas nolite concupiscere? - Porque, assim como há dois modos de adquirir, assim há dois modos de roubar: um com que nós roubamos as riquezas alheias, e outro com que as próprias nos roubam a nós: Dicuntur autem rapine non solum divitiae, quae rapiuntur, id est, quae per rapinam acquiruntur, sed etiam omnes divitiae, quae rapiunt mentem hominis. - De sorte que há umas riquezas que se adquirem por violência, engano, ou qualquer outro modo de injustiça, e estas são as que os homens roubam; e há outras, adquiridas lícita e justamente, e, contudo, se os homens põem nelas o coração e o amor, estas são as que os roubam a eles, Por isso o Espírito Santo, depois de dizer: Rapinas nolite concupiscere - acrescenta: Divitiae si affluant, nolite cor apponere - como se dissera: - E ainda que as riquezas vos entrem pela porta voluntária e justamente, sem violência ou engano, nem por isso vos fieis de pôr nelas o coração, porque ainda que não sejam roubadas, são roubadoras, e não só vos deixarão pobres, senão cativos. - Assim o declara o mesmo Davi noutro lugar: Dormierunt somnum suum, et nihil invenerunt omnes viri divitiarum in manibus suis (SI. 75, 6): Despertaram e abriram os olhos, e nada acharam nas suas mãos os homens das riquezas. - Não diz as riquezas dos homens, senão os homens das riquezas, porque no tal caso não são os homens os senhores das riquezas, senão as riquezas as senhoras dos homens, e eles os cativos e escravos dela. E que importa que venhais da Índia arrastando cadeias de diamantes, se essas vos prendem e vos cativam? E quando presumis e cuidais que sois muito rico, o que verdadeiramente não tendes é nada: Nihil invenerunt in manibus suis.

 

Comparemos, pois, com os olhos bem abertos, um nada com o outro nada: o nada do que se possui com o nada do que se não quer, e acharemos que o nada do que se possui - ainda sem o encargo, ou encargos da consciência - é uma carga pesadíssima, cheia de cuidados, de desgostos, de temores, de dependências, de sujeições, de cativeiros; uma matéria tanto maior, quanto elas forem maiores, sempre aparelhada e exposta aos golpes e vaivéns do tempo e da fortuna, e sem descanso, sem quietação, sem liberdade, uma riqueza rica de misérias, e a mais necessitada e, extrema pobreza. Pelo contrário, o nada do não querer é um tesouro, só escondido aos cegos, no qual se encerra a isenção de todos os males, perigos e pesares desta vida, o descanso sem trabalho, a alegria sem tristeza, a liberdade sem sujeição, e a posse segura e inalterável de todos os bens, e do maior de todos, que é o senhorio de nós mesmos. Se acaso esta riqueza vos não parece riqueza, porque os menores a não apetecem, nem os iguais a invejam, nem os maiores a perseguem, e carregam de pensões e tributos, se vos não parece riqueza, porque não depende no campo do sol e da chuva, que a crie, nem do muito sol, que a seca, nem da muita chuva, que a inunda e afoga, nem da formiga, da lagarta, do gafanhoto, e das outras pragas, de que nenhuma indústria ou poder humano a pode defender; se vos não parece riqueza, porque não se fazem sobre ela pleitos, nem está sujeita a afeto ou ódio do juiz, nem à verdade ou fasidade das testemunhas, nem a ser citada e levada ajuízo para ouvir e ser ouvida nos tribunais; se vos parece que não é riqueza, porque se não adquire com trabalho, nem se conserva com cuidado, nem se perde com dor própria, e, o que às vezes mais dói, com agrado e triunfo dos inimigos; se vos parece que não é riqueza, porque por ela se não entrega a cobiça às ondas e tempestades do mar, nem exércitos se combatem nas campanhas, e se derrama o sangue e perdem as vidas para sustentar a mesma vida e o mesmo sangue; se vos parece que não é riqueza, porque, com antecipada crueldade de a possuir, vos não desejam a morte os filhos, os parentes, e quaisquer outros que a esperam herdar; se vos parece que não é riqueza, porque a não dão os reis, nem a consultam os ministros, nem a solicitam os requerimentos, e vós sois o requerente, o ministro e o rei, que só convosco vos despacheis; se vos não parece riqueza, porque vos não tira nem inquieta o sono a vigilância e astúcia do ladrão, a diligência e negociação do êmulo, e a calúnia e engano do que a quer para si; finalmente, se todas estas conveniências não bastam, sendo cada uma delas riquíssima, considerai que da riqueza do não querer, nem vos hão de pedir conta os homens, nem vós a haveis de dar a Deus, antes o mesmo Deus, em prêmio do vosso não querer, vos há de dar aquela única bem-aventurança, e semelhante à sua, na qual, como diz Santo Agostinho, tereis tudo o que quiserdes, e nada do que não quiserdes: Ibi erit quidquid voles, et non erit quidquid noles.

 

 

 

SERMÃO TERCEIRO

 

 

CONFIANÇA

 

 

Posuit pedem suum dextrum super mare, sinistrum autem super terram.[142]

 

 

A maior miséria da vida humana: não haver neste mundo de quem fiar Se um homem se não há de fiar de outro homem, nem de si mesmo, de quem se há de fiar? A confiança em Deus e a confiança nos homens. Argumento do sermão: Quão ondinária e quão segura foi a confiança com que São Francisco Xavier se fiava de Deus, e quão extraordinária e admirável a certeza com que os homens se fiaram de S. Francisco Xavier

 

A maior miséria da vida humana - outros dirão outra - eu digo que é não haver neste mundo de quem fiar. Os amigos são como Joab com Abner, os irmãos são como Caim com Abel, os filhos são como Absalão com Davi, os casados são como Eva com Adão, e cada um consigo é tão traidor como o mesmo Adão, que se perdeu a si mesmo. E se um homem se não fiar de si, de quem se há de fiar? De ninguém se podia fiar mais Davi que de Saul, a quem tinha servido e honrado com a própria vida; e Saul lhe atirou às lançadas. De ninguém se podia fiar mais Salomão que de Jeroboão, seu criado, a quem tinha levantado de pó da terra; e Jeroboão foi o que se rebelou contra seu filho, e de doze partes do reino lhe usurpou as dez. De ninguém se podia fiar mais Sansão que de Dalila, a quem amava e sustentava com o suor do seu rosto; e Dalila o entregou a seus inimigos. De ninguém se podia mais fiar Cristo que de Judas, a quem tinha fiado quanto havia em sua casa, e de Pedro, a quem tinha dado as chaves do seu próprio reino: Judas o vendeu, e Pedro o negou. Por isso diz Deus por boca de Jeremias: Maledictus homo qui confidit in homine (Jer. 17, 5): Maldito seja o homem que se fia de outro homem.

 

E se um homem se não há de fiar de outro homem, nem de si mesmo, porque é homem, de quem se há de fiar? A conseqüência é manifesta: de Deus, e só de Deus. Assim continua o mesmo Jeremias, contrapondo esta bênção àquela maldição e esta felicidade àquela miséria: Benedictus vir qui confidit in Domino, et erit Dominus fiducia ejus (Ibid. 7): Bendito e ditoso o homem que confia em Deus, e Deus é a sua confiança, porque não tem outra. - Com esta confiança deixou Abraão a sua pátria, e tão forte como felizmente conseguiu as promessas divinas: In repromissione Dei non haesitavit diffidentia, sed confortatus est fide, dans gloriam Deo[143]. - Com esta confiança se afrontava Davi de lhe dizerem que debaixo de outras asas se amparasse de seus perseguidores: In Domino confido; quomodo dicitis animae meae: Transmigra in montem sicut passer? Quoniam peccatores intenderunt arcam; paraverunt sagittas suas in pharetra[144]. - Com esta confiança pelejou Judas Macabeu tantas batalhas, e alcançou tantas vitórias contra tão poderosos inimigos: Machabaeus autem semper confidebat cum omni spe auxilium sibi a Deo affuturum[145]. - Com esta confiança até Susana, sendo mulher, e não só desamparada, mas condenada de todos, só com levantar os olhos ao céu, e sem falar palavra, prevaleceu contra os injustos e infames juízes: Erat enim cor ejus fiduciam habens in Domino[146]. - Finalmente, esta confiança em Deus é um ponto de sua honra, que ele defende tão mimosa e tão desconfiadamente que, tendo Senaqueribe, rei dos assírios, sitiado a Ezequias em Jerusalém, porque em um recado, que lhe mandou para que se entregasse, meteu uma cláusula que dizia: E se me responderes, confiamos no nosso Deus: Quod si responderis mihi: In Domino Deo nostro confidimus (Is. 36, 7) - cada letra desta proposta lhe custou tanto sangue, que amanheceram degolados naquela noite cento e oitenta e cinco mil dos soberbos sitiados, e Senaqueribe, por aquela blasfêmia, perdeu o exército, a coroa e a vida: o exército, fugindo ignominiosamente; a coroa, rebelando-se-lhe os vassalos; e a vida, sendo morto por seus próprios filhos.

 

Mas aonde, direis, caminha este meu discurso, se não é a uma pública retratação de quanto estes dias tendes ouvido? Se só de Deus se podem fiar os homens, e só em Deus devem pôr sua confiança, e, pelo contrário, não só é imprudência, engano e erro, mas maldição expressa do mesmo Deus, fiarem-se os homens de outro homem, e este homem, chamado Francisco Xavier, também é filho de Adão como os outros, e composto do mesmo barro para a fragilidade, e da mesma carne e sangue para a desconfiança, como apregoamos com tantas trombetas e inculcamos a todos que fiem tudo dele? Esta minha instância é o argumento com que os hereges negam a veneração e intercessão dos santos, ímpia, blasfema, e ignorantemente, e sem vergonha, constando o contrário por todas as Escrituras Sagradas. Aos amigos de Jó, que tão duramente lhe apuraram a paciência, disse Deus que, para lhes perdoar, recorressem ao mesmo Jó, que intercedesse por eles: Ite ad servum meum Job: Job autem servos meus orabit pro vobis. Faciem ejus suscipiam[147]. - O mesmo Deus, irado contra o povo, disse que lhe não devia de perdoar, ainda que Moisés e Samuel lhe pedissem: Si steterit Moyses et Samuel coram me, non est anima mea ad populum istum[148]. - Onias, sumo sacerdote, muitos anos depois de morto, viu Judas Macabeu que orava pelos judeus: Oniam, manus protendentem, orare pro omni populo Judaeorum[149] - e o mesmo Onias lhe disse que Jeremias, também defunto, fazia a mesma oração: Hic est qui multum orar pro populo et sancta civitate, Jeremias propheta Dei[150]. - Moisés pedia a Deus que se lembrasse de Abraão, Isac e Jacó, seus servos: Recordare, Domine, Abraham, Isaac et Israel servorum tuorum[151]. - E a Igreja, que se lembrasse de Davi: Memento, Domine, David[152]. - E S. Pedro, não só prometeu que se lembraria de interceder por nós depois de sua morte: Dabo operam, et frequenter habere vos post obitum meum[153] - mas ainda em vida se valeu de S. João, como discípulo amado, para saber o segredo de quem era o traidor: Innuit ergo huic Simon Petrus, et dixit ei: Quis est, de quo dicit[154]?

 

Pois, se estes santos eram homens, e Deus fazia tanto caso dos seus merecimentos, e os homens, com aprovação de Deus, fiavam tanto deles e de sua intercessão, como diz o mesmo Deus: Maldito o homem que confia em outro homem: Maledictus homo qui confidit in homine? - Porque há grande diferença de homens a homens. Os santos são homens, mas homens de Deus. Assim se chamam na Escritura, e esse nome deram a Elias os três enviados de el-rei Ocosias, chamando-lhe todos homo Dei, ainda os que ele abrasou com o fogo do céu, em prova de o ser, como o mesmo Elias repetiu: Si homo Dei sum descendat ignis de caelis[155]. - E quem se fia dos homens de Deus fia-se do mesmo Deus, do qual, por meio deles, tem confiança de alcançar o que pretende. Deixado, pois, o engano ou maldição dos que se fiam dos homens que não são de Deus, para que vejamos no exemplo de um só santo quão seguramente se fiam os santos em Deus, e quão confiadamente se devem os homens fiar nos santos, com um pé na terra, e outro no mar, veremos em primeiro lugar quão ordinária e quão segura foi a confiança com que São Francisco Xavier se fiava de Deus, e no segundo, quão extraordinária, quão admirável, e quão segura a certeza com que os homens se fiaram de S. Francisco Xavier.

 

 

§II

 

 

O famoso testemunho da confiança de Xavier em Deus com os pés em terra. O ataque de el-rei de Pedir a Malaca.

 

Para demonstração da grande confiança do nosso santo em Deus, bem bastava a que até aqui temos visto, envolta em tantos casos, e tão maravilhosos; mas para que agora se descubra e manifeste mais expressa e distintamente, e com maior admiração, referirei só dois, um com o pé na terra, outro no mar, ambos tão raros e estupendos, que a mesma terra e o mesmo mar, que ao princípio estiveram incrédulos, com o assombro e pasmo do que viram, ainda depois de visto, quase o não criam.

 

Chegou a Malaca S. Francisco Xavier a tempo que uma grande armada do Aquém, tendo intentado de noite ganhar a fortaleza por enterpresa, posto que o não conseguiu, queimou, contudo, as naus, que noutro porto desviado estavam seguras, sem notícias nem suspeita do perigo. Com a luz da manhã apareceu a armada ao largo, coberta de bandeiras e flâmulas, como vitoriosa. Era o general, com título de rei de Pedir, um mouro, tão grande soldado na fama, como soberbo, cruel, e inimigo do nome cristão, o qual, tendo tomado sete pescadores nossos, por eles, com os narizes e orelhas cortadas, mandou uma carta ou cartel escrito com o sangue dos mesmos miseráveis, em que desafiava ao capitão da fortaleza, que era Simão de Melo, e se continham nele grandes afrontas dos portugueses desprezos do seu rei, e blasfêmias contra Cristo. Recebida a embaixada, com mais riso das barbatas que pensamento de vingar as injúrias, só Xavier, doendo-lhe, quanto era razão, as de Deus e de sua lei, foi de voto que em todo o caso se acudisse por ela, e foram tão vivas as suas razões, que assim se resolveu. Declarada a guerra contra o mouro, e também Deus então parece que a quis declarar contra Xavier, competindo ambos sobre a sua confiança no mesmo Deus, multiplicando dificuldades ou impossíveis, que pareciam insuperáveis a toda a confiança, e Xavier, perseverando sempre nela, tão constante, inteira e invencível, como se fosse superior a todos.

 

Queimadas as outras naus, só se acharam no arsenal de Malaca sete fustas, e um catur pequeno, sem outro aparelho mais que os cascos velhos, rotos e destroçados, boa parelha contra uma armada de sessenta velas, fustas, lancharas, e galeotas fortes, e fornecidas de tudo o necessário para a navegação e para a guerra, e, sobretudo, de muita artilharia de todo o gênero. Sobre esta dificuldade cresceu outra, que mais se pode chamar desesperação, porque o feitor ou provedor do almazém disse que não havia nele um fio de enxarcia, nem uma vara de pano, nem estopa, nem breu, nem um remo. Mas a tudo acudiu a confiança em Deus de Xavier, repartindo com sua autoridade e encomendando com sua boa graça o apresto das oito embarcações a oito homens ricos, senhores de navios, os quais, com diligência e trabalho que requeria um mês, os puseram à vela em cinco dias. Guarneceu-os o capitão-mor com cento e cinqüenta soldados e cabos de toda a confiança, sendo os da armada inimiga seis mil, afora a chusma, todos escolhidos, e entre eles muitos turcos e genísaros, e quinhentos criados de el-rei, da primeira nobreza, que chamam orobalões da manilha de ouro. De maneira que vinha a ter o inimigo para cada navio nosso doze navios, assim como para cada soldado quase quarenta soldados. Vencida esta desproporção só com dizer Xavier: - E Deus não pode mais? - partiu a nossa armada em demanda da do inimigo, que de propósito, para outro assalto, tinha desaparecido; eis que subitamente, sem tocar embaixo, nem outra ocasião de perigo ou desastre, a nossa capitania se vai a pique. Amotina-se toda a cidade, dizem a gritos que bem mostrava Deus no princípio qual havia de ser o fim daquela empresa. Votam todos que era temerária, e contra o serviço de el-rei; faz-se disso assento público, que assinaram todos; mas não os capitães e soldados, os quais, com valor verdadeiramente cristão e português, disseram que se não haviam de retratar do que uma vez tinham jurado de pelejar até morrer pela fé de Cristo; que aqueles agouros eram mais de mulheres que de homens, que se a capitania se perdera, se salvara a gente, que é a que faz a guerra, e que tanto podiam pelejar em sete como em oito navios. Tudo isto eram efeitos da oração de Xavier, e da sua confiança em Deus, o qual, ainda que a apurava, não podia deixar de a favorecer. Contudo, para sossegar os ânimos dos que ficavam em terra, promete o santo que, por um navio que se perdera, daria Deus dois maiores e melhores, e naquele mesmo dia, antes que se pusesse o sol. A brevidade da promessa acrescentou o alvoroço, não havendo olhos que dos eirados e dos montes não estivessem postos no mar, quando, uma hora antes de o sol se pôr, apareceram da parte do Norte duas velas latinas. Soube-se logo que eram fustas portuguesas, capitães e senhorios delas Diogo e Belchior Soares, pai e filho, que as levavam carregadas de mercadoria, sem intento de tocar Malaca. Foi-as tomar ao mar o santo, autor da empresa, e ambos, a poucas palavras suas, mais como cavaleiros que mercadores, ofereceram as pessoas, os navios, e sessenta soldados que neles levavam, para se incorporarem na armada. Assim acrescentada de vasos e gente, tornou a pedir segunda vez, e com a segunda bênção de Xavier, a que ele chamava romaria da Santa Cruz, não deixando contudo de picar os corações dos que ficavam aquela espinha, que, desguarnecida a fortaleza do principal nervo do seu presídio, perdida a armada, se perderia também ela. Quarenta e cinco dias não houve em Malaca novas dos seus aventureiros, tendo passado a maior parte deste tempo sobre ferro, por causa dos ventos contrários. Mas não se descuidaram os mouros, e o demônio, por meio dos feiticeiros, em divulgar que não viera nova, por não escapar quem a trouxesse, sendo todos mortos, sinalando-se o tempo e lugar da batalha, e outras circunstâncias a que a mesma demasiada tardança deu facilmente crédito.

 

Porque a fé da profecia passada não só esfriara com o temor, mas se apagara totalmente com a tristeza. Culpavam ao capitão-mor por se haver precipitado a uma empresa tão arriscada, por conselho, como diziam, de um clérigo; que os religiosos rezassem pelo seu breviário e se encomendassem a si e ao povo a Deus, e se contentassem os bons com governar as consciências, mas não as armas. Só o padre perseverava constante na sua confiança em Deus, e em todos os sermões pedia um Padre-Nosso e uma Ave-Maria pela vida e vitória dos que iam na armada, ao que respondiam, murmurando os ouvintes, que as pedisse antes pelas almas dos que ele tanto sem razão mandara a morrer. As mulheres lhe chamavam homicida de seus maridos, e as mães de seus filhos, e até o capitão-mor, arrependido, se afastava dele.

 

 

§ III

 

 

A milagrosa vitória da armada portuguesa contra os mouros.

 

Sobre esta consternação se acrescentou outra maior, porque chegou a Malaca uma embaixada do rei de Bintão, filho do mouro Mafamede, a que nós a tomamos, na qual dizia que, estando ele prestes com uma armada de trezentas velas, para fazer guerra a el-rei de Patane, soubera o destroço da armada dos portugueses, e como fiel amigo de el-rei de Portugal, seu irmão, voltara com todo o mesmo poder a socorrer a Malaca, da qual distava só seis léguas, esperando a resposta do capitão-mor. A resposta foi como de corsário a corsário, pelos mesmos consoantes: que ele, capitão-mor, lhe agradecia muito o oferecimento do socorro, em correspondência do qual teria naquela fortaleza o favor e ajuda que sempre nela achara, porque tudo lhe sobejava para o servir, gente, armas, munições e bastimentos, e, o que mais importava, ordem de seu rei para o fazer assim. E quanto à nova, que o divertira do seu principal intento, soubesse que era falsa, antes esperava por horas a sua armada tão vitoriosa e inteira, que lhe pudesse ainda ir seguir a ele as costas a Patane. Isto se dizia por fora, mas o que todos entendiam por dentro era que o mouro, aproveitando-se da ocasião, queria recuperar o que seu pai perdera, ou a título de socorro, sendo admitido, ou, quando não, à força descoberta, com tamanho poder acabar de conquistar Malaca, que nós, desamparando-a, diziam os moradores, lhe tínhamos começado a entregar. Com esta consternação já a armada do Aquém não dava cuidado, temendo-se mais o novo perigo, quanto maior e quanto mais vizinho. Tudo era horror, tudo tristeza, tudo confusão, e as queixas, clamores e desesperações, todas caíam sobre o pobre ou bendito Francisco Xavier, o qual, não as podendo vencer com razões, orava continuamente recolhido ou acolhido à sua ermida de Nossa Senhora do Monte, donde, como de mais alto, descobria a sua confiança em Deus, e o que os demais não podiam ver. Amanheceu finalmente o dia fatal de seis de dezembro, que caiu em domingo, e, pregando o santo na matriz, sendo presentes o capitão-mor e toda a cidade, das nove para as dez horas, emudeceu subitamente no meio do sermão, como suspenso e arrebatado no que via. Todos os gestos mostravam que as coisas vistas eram grandes e espantosas, e não ao perto, senão muito longe, retratando tudo em si mesmo, como em um espelho vivo. O rosto já alegre, já triste, já temeroso e pálido, já fervoroso e abrasado, já admirado, já perplexo. As ações do mesmo modo várias: já apertando as mãos, já estendendo os braços, já caídos, mas não desmaiados, já cruzados sobre o peito, já apartando dele a roupa, como se ardera dentro o coração. Os olhos já levantados ao céu? Já pregados em um Cristo crucificado, que estava sobre o arco da capela mor, agora brotando grossas e copiosas lágrimas, agora entre suspiros e palavras truncadas, saindo delas raios ou setas, que parece feriam o mesmo Cristo. O povo, vendo as figuras deste enigma, que não entendia, atônito, pasmado, e fora de si, e quase cuidando que também não estava em si o pregador, até que ele, como cansado do conflito, se inclinou um pouco sobre o púlpito, e, tomando a levantar a cabeça, alegre e sossegado acabou o sermão com estas palavras: Demos graças a Deus pela vitória que agora acabou de dar a nossa armada. Rezemos um Padre-nosso e uma Ave-Maria pelos que morreram na batalha. Quarta-feira chegará a nova, e sexta veremos a mesma armada.

 

Aconteceu-vos já depois de um sonho pesado, funesto e temeroso, em que vos imagináveis, ou afogado no mar, ou ardendo no incêndio, ou lançado pelos ares dentre as pontas do touro, acordar subitamente, e ficar no mesmo momento descarregado do peso, aliviado da tristeza, seguro do temor, e livre dos sonhados perigos? Tal ficou Malaca com as últimas palavras do sermão de Xavier, ressuscitado, como da morte à vida, de toda aquela confusão de temores, ameaças e desesperações, em que pouco antes se considerava perdida, condenando agora a sua pouca fé, e pedindo perdão, ao prodigioso autor de sua esperança, felicidade e honra, a quem tão ingratamente, e tanto sem razão, acusava e condenava. Chegou a nova no dia sinalado, e dela se soube que as duas armadas se encontraram no Rio Parlês, cento e cinqüenta léguas de Malaca, onde os aquéns tinham destruído e queimado tudo, e posto em fugida o rei; que o primeiro choque foi entre as duas capitanias, em que a nossa se viu coberta de duas nuvens de setas e pelouros; que um tiro de camelo da fusta de João Soares metera logo a pique a lanchara do soberbo general rei de Pedir, notando-se que, se ambos seguiram a sua derrota e não se incorporaram com a nossa armada, iam cair na dos aquéns; que deles nenhum escapara com vida ou liberdade; que os seus mortos foram quatro mil, e os nossos foram quatro; que o rei de Parlês, em reconhecimento da sua liberdade, se fizera tributário a Portugal; que entre os despojos ricos, e militares, eram trezentas peças de artilharia, três delas com as nossas armas; que a batalha fora domingo, entre as nove e dez horas da manhã. E quando os da terra contaram o que no mesmo dia e hora tinha feito e dito no sermão o Padre Xavier, acrescentou o mensageiro que a ele sem dúvida se devia toda a vitória, porque D. Francisco Dessa, cabo da nossa armada, correndo os navios, só dizia: - Pelejai, senhores e amigos, como soldados de Jesus, e por sua fé; lembrai-vos do juramento de morrer ou vencer, que fizemos nas mãos do Padre Xavier; nem duvidemos da vitória, pois ele a prometeu; e, posto que ausente, por suas orações o temos conosco.

 

Contestando em tudo a verdade do sucesso com a da profecia, só esperava Malaca com ânsia ver o que acabava de ouvir, quando na sexta-feira sinalada lhe apareceram as suas oito fustas e pequeno catur, com quarenta e cinco das inimigas por popa, ficando queimadas as demais, por não haver quem as mareasse, todas arrastando as bandeiras maometanas, e tremulando no tope da nossa capitânia as Chagas de Cristo. A receber os vencedores saiu Xavier à praia, com uma imagem do mesmo Cristo crucificado arvorada, e, tanto que puseram os pés em terra, lhes disse: - Este é o General a quem deveis a vitória. - Todos, prostrados, a altas vozes o confessavam assim, adorando a sagrada Imagem, e dali foi levada em triunfo ao seu altar, sendo tal o estrondo da artilharia do mar, e da fortaleza, os repiques de todas as igrejas, os aplausos e aclamações de grandes e pequenos, em que só se ouvia: Viva Jesus! - subindo tudo junto até o céu, que nunca lá se ouviu outra música de vozes e instrumentos que mais o alegrasse.

 

 

§ IV

 

 

A confiança de S. Francisco Xavier com os pés no mar, em meio à tempestade, quando navegava de Japão para Goa. O batel desaparecido.

 

Este foi o famoso testemunho da confiança de Xavier em Deus com os pés em terra; passemos ao segundo no mar, não menos admirável, em que no breve da relação suprirei o largo da passada, sendo que de quantos escreveram o caso nenhum o reduziu a tão poucas palavras. Embarcando o Santo, e navegando de Japão para Goa, foi tão furiosa a tempestade que se levantou e foi crescendo com a lua nova, que, alijando ao mar tudo o que podia ser de embaraço, com conselho poucas vezes ouvido, se arrasaram os castelos de proa a popa, e até o batel, de que naquelas viagens depende a salvação, por causa das aguagens e correntes, pelo muito vulto e peso que fazia no convés, pareceu que fosse antes fora que dentro da nau. Amarrou-se por popa com dois fortes cabos novos e grossos, ficando nele quinze homens portugueses e mouros, que, pelo perigo de se fazer em pedaços, se não puderam recolher. Cinco dias não apareceu de dia sol, nem de noite estrela, para que os pilotos pudessem saber em que altura estavam, deixando-se levar por mares não conhecidos, a arbítrio das ondas e dos ventos. Seria meia-noite quando se ouviu um alarido de vozes lastimosas, cada vez mais distantes, e eram os do batel, que, rotas as amarras, e perdido aquele fraco abrigo, mais pediam misericórdia a Deus que socorro aos homens. Mandou, contudo, o capitão, pela importância do batel, e lástima dos que nele iam, seguisse a nau, bolinando, a sua esteira; mas apenas tinha dado um lado aos mares, quando caíram sobre ela com todo o peso duas serras de água, de que ficou quase soçobrada e totalmente morta, sem obedecer ao leme, faltando só a terceira para ir a pique. Aos gritos da gente acudiu Xavier, que estava em oração, e dizendo: Ó Jesus Cristo, amor da minha alma; valei-nos, Senhor, pelas cinco Chagas que recebeste por nós na cruz! - no mesmo instante a nau, meio sepultada, surgiu e se pôs em via, e os que já a tinham por tumba de todos, como ressuscitados da morte à vida, não acabavam de entrar em si.

 

Passado este tão grande susto, tornou a ocupar os corações a dor e tristeza da perda do batel, e desgraça dos que nele estavam, não havendo quem os não tivesse por mortos, e, rezando-lhes os amigos pelas almas, só Xavier os exortava a que confiassem em Deus, prometendo ao capitão, que entre eles perdera um sobrinho, que antes de três dias o filho viria buscar a mãe, entendendo por mãe a nau, e por filho o batel. Todos, porém, não se riam da promessa, porque o caso era para chorar, e, olhando para a braveza do mar, só criam o que ameaçava a menor onda dele; algum houve que, persistindo na metáfora, disse: Virá o filho mamar na mãe depois de o mar o ter comido? - Outros que, se os seus olhos tornassem a ver tais homens, se haviam de benzer deles, como fantasmas do outro mundo. Nos primeiros dois dias, ao amanhecer, e antes de se cerrar a noite, pedia o santo que fossem a ver das gáveas se aparecia o batel, o que o mestre e o piloto faziam, mais por não descontentar  a quem tanta reverência deviam, que por esperarem, nem lhe entrar na imaginação tal coisa. Contudo, Xavier, entre tantas desconfianças, não vacilava na que tinha em Deus, umas vezes dizendo que não havia de permitir o mesmo Senhor que dois mouros, que iam no batel sem batismo, perdessem esta vida, e mais a eterna, outras, que ele tinha prometido três missas à Senhora do monte de Malaca, em cuja piedade confiava lhe alcançaria esta mercê de seu bendito Filho; mas nada bastava para abrandar a dureza da desesperação humana, em que confirmava a todos a mesma tempestade. Amanheceu, finalmente, o terceiro dia, tornou a pedir Xavier ao piloto que mandasse descobrir o mar, ao que ele respondeu que o batel, em mares tão grossos não podia deixar de estar perdido, e, quando Deus milagrosamente o salvasse, já lhe ficava atrás mais de cinqüenta léguas. Mas, ao desengano desta resposta, acudiu o santo com uma instância tão contrária, como foi pedir que amainassem a vela porque o batel já não podia estar longe. - Padre, replicou o piloto, comer-nosá o mar, se tirarmos aquela pequena vela com que surgimos. Amainaram, contudo, mas vendo que a nau perigava, e querendo outra vez levantar a vela, Xavier teve mão na verga de proa, e, inclinando sobre ela a cabeça por um breve espaço, eis que grita da enxarcia um grumete: Milagre, milagre, ali vem o nosso batel!

 

 

§V

 

 

O prodigioso aparecimento do batel perdido, e o triunfo da confiança de Xavier em Deus. Uma notável circunstância da história de Malaca, quando havia de partir a armada contra os aquéns. A bilocação de Xavier e o martírio de Isaías. Jonas e Xavier

 

Todos os olhos da nau correram a ver o prodigioso aparecimento, saltando em todos as lágrimas de alegria, e tornando-se a suspender de pasmo. Se então se imaginara o que se soube depois, com razão se pudera duvidar pelo número, se o batel era o mesmo ou outro, porque o perdido levara quinze pessoas, e este trazia dezesseis. Então, se iam todos lançando aos pés de Xavier beijando-lhos, como a santo, e pedindo-lhe perdão da sua pouca fé; mas ele, fugindo ao triunfo da sua confiança em Deus, se retirou à câmara da nau, fechando-se por dentro. Chegou-se a bordo o batel, subiram acima por seus pés e suas mãos, sem meter medo, como fantasmas, os que nos três dias antes tinham sido mortos. E, advertindo um deles, que não via o padre, disse: - Ainda o Padre não subiu? - E, perguntado que padre, e donde havia de subir, respondeu naturalmente que o Padre Francisco Xavier, o qual parece que ainda não tinha subido do batel, onde viera com eles. Aqui cresceu o espanto, e parecia coisa de comédia, porque os da nau sabiam que sempre estivera na nau, e os do batel afirmavam que sempre os acompanhara no batel, e nem uns podiam deixar de crer o dito de tantos, nem os outros contrariar o testemunho de quinze; enfim, examinado o caso, se averiguou que o santo no mesmo tempo assistira na nau e no batel juntamente, sendo necessário assim, para que nem a mãe nem o filho acabassem de se perder de todo. Agora me lembra uma notável circunstância da história de Malaca, quando havia de partir a armada contra os aquéns. Os da armada queriam que fosse com eles Xavier, os da cidade não vinham em consentir que os deixasse, e estando a contenda igualmente travada, o que o santo respondeu foi: Senhores e amigos, eu todo sou de todos e de cada um; com tão boa vontade irei com uns como ficarei com outros; se me podeis partir, fazei-o, e senão, vós vos concertai, e o resolvei. - Note-se muito a palavra do santo: se me podeis partir. Porque o não puderam partir, não o partiram, agora porém porque ele podia, e o pedia a necessidade, ele se partiu, e todo em cada ametade: no mesmo tempo se achou Xavier na nau e Xavier no batel. Só a eloqüência de S. Zeno Veronense pudera ponderar o caso. Mandou el rei Manassés serrar pelo meio, da cabeça até os pés, o profeta Saías, e diz o grande padre: Propheta tamen egregius et illustris inter resupinatos sectores, et pendulos, tandiu immobili et inconcusso corporis duravit statu, quandiu duo esse inciperent, qui figuras gentium cum suo persecutore damnarent[156]. - Quer dizer: E o insigne e ilustre profeta, entre os serradores, um pendente de cima, e outro revoltado debaixo, tanto tempo perseverou com o corpo constante e imóvel, até que partido um Saías ficassem dois: Quandiu duo esse inciperent - os quais ambos condenassem a perfídia dos idólatras. - Assim também Xavier: não outros o partiram a ele, senão ele se partiu a si mesmo, até que de um Xavier se fizessem dois Xavieres, um na nau, outro no batel, para que ambos condenassem a pouca fé dos que não criam o poder da sua confiança em Deus.

 

Os primeiros que a reconheceram foram os dois mouros, cujas almas deviam tanto cuidado a Xavier, os quais logo se batizaram, e todos os demais confessavam que naqueles três dias e três noites passaram tão seguros e sem cuidado, como Jonas no ventre da baleia, porque se lá a baleia, que não podia perigar na tempestade, defendia o profeta, cá o profeta defendia o batel, para que não perigasse, sendo lá um só milagre contínuo na vida de Jonas, e cá tantos milagres, não só quantas eram as vidas, senão quantas eram as ondas, que, podendo cada uma meter no fundo o batel, como na nau se cuidava, todas, por reverência do sagrado piloto, se rebatiam e lhe perdoavam. É verdade que os do batel, como Jonas, em todos aqueles três dias não comeram; mas foi coisa observada na nau que também Xavier nos mesmos três dias não comeu bocado, tanto assim que no fim deles, de fraco e debilitado, pediu a Fernão Mendes Pinto, que ia na mesma nau, o deixasse encostar no seu beliche. E por quê? Resolvem os filósofos que, quando Deus reproduz a um homem, para que no mesmo tempo esteja em diferentes lugares, bem pode comer em uma parte sem comer na outra; mas Xavier, porque não comia no batel, também não quis comer na nau, para que até a sua abstinência nos provasse em uma e outra parte que era o mesmo. Elias, quando o povo perecia à fome, tinha um corvo que duas vezes no dia lhe levava de comer; porém Xavier, ainda estando muito longe dos seus, não tinha ânimo para comer quando eles jejuavam.

 

 

§ VI

 

 

Razões por que fez Deus a Xavier pastor universal de todo o gado marítimo maior e menor, pois, exceto os indivíduos humanos, não há outros, ou sejam naturais ou artefactos, que tenham também o seu gênero de predestinação. A nau Santa Cruz, descomposição naval composta de inumeráveis milagres.

 

Mas que diremos ao dito de que o filho viria buscar a mãe? Os navios são uns animais inanimados, que contêm em si todos os cinco gêneros da vida sensitiva. Lá disse Salomão: Tria sunt difficilia mihi: viam aquilae in caelo, viam colubri super petram, viam navis in medio mari[157]. - Andam estes animais sem pés como serpentes, voam com asas como aves, governam-se pela cauda como peixes, trazem o freio nas âncoras, e as rédeas nas escotas, como cavalos, e os seus movimentos certos dependem do céu, como homens. Quando o batel se veio chegando à nau, mandou o piloto que lhe lançassem um cabo, e disse Xavier que não era necessário, como com efeito não foi, porque juraram as testemunhas que o batel, estando o mar tão alterado, veio diretamente buscar a nau, e se cingiu com ela sem corda ou coisa alguma que o atasse, como se fosse um bezerrinho ou cordeiro que por instinto natural vai buscar a mãe, e se pega a ela. E deste dito e caso, junto com outros muitos, infiro eu que fez Deus a Xavier pastor universal de todo este gado marítimo maior e menor; e, assim como o Senhor disse a S. Pedro que apascentasse as suas ovelhas: Pasce oves meas (Jo. 21, 17) - que são as mães, e que apascentasse os seus cordeiros: Pasce agnos meos (ibid. 16) - que são os filhos, assim Xavier, segundo este seu particular ofício e domínio, acudiu e salvou a nau e mais o batel, chamando à nau mãe e ao batel filho, e infundindo a ambos quase espíritos vitais: a mãe, para que, estando caída, se levantasse, e ao filho, para que, estando tão longe, saltando de monte em monte, a buscasse.

 

O mesmo Cristo dizia de si: Ego sum pastor bonus, et cognosco oves meas (Jo. 10, 14): Eu sou bom pastor, e conheço as minhas ovelhas - O qual conhecimento, conforme Santo Agostinho e S. João Crisóstomo, é aquela ciência com que o Senhor entre as suas ovelhas, que são os homens, conhece quais são os predestinados e quais os réprobos. Exceto, porém, os indivíduos humanos, não há outros, ou sejam naturais ou artefatos, que tenham também o seu gênero de predestinação com tanta propriedade como os navios, dos quais uns se salvam, outros se perdem. Logo, sendo Xavier pastor, e bom pastor deste seu gado marítimo, não podia deixar de ter o exato e infalível conhecimento dos que se haviam de salvar ou perder, em que foi mais prodigioso que nenhum outro santo. Em cada viagem, ou partissem muitos navios, ou poucos, conhecia o sucesso de cada um, distinguindo nomeadamente os que haviam de chegar a salvamento, ou arribar, ou perigar, e por que causa ou desgraça, e, de cada navio, se havia de durar muito ou pouco tempo, e que fim havia de ter, ou acabando de velho no porto, ou feito pedaços em um recife, ou lançado a pique na guerra, ou comido do mar na tempestade; enfim, a predestinação de cada um. Da nau capitânia S. Tiago, em que partiu de Lisboa, diziam todos em frase marinhesca que em todo o mar salgado não havia pau de melhores manhas, seguro, veleiro, obediente ao leme: e Xavier só dela se doía, significando sempre ao governador o desastrado fim que havia de ter, como teve, chegando todas as outras, que eram sete, a Goa, e só ela dando à costa na ilha de Salsete de Baçaim, onde, feita pedaços, se afogaram todos aqueles que se apressaram, como sucede, a se querer salvar a nado. Pelo contrário da nau Santa Cruz, famosa em toda a índia, prometeu que nenhum perigo do mar havia de prevalecer contra ela, e que, depois de muitos anos, acabaria no mesmo estaleiro onde fora fabricada. Por esta causa o senhorio, que era Diogo Pereira, o embaixador com quem o santo determinava passar à China, nunca lhe quis dar querena em terra, mas só recorrer-lhe os lados no mar, entendendo que só na terra perigava, e no mar estava segura. Desta maneira navegou a nau Santa Cruz trinta anos, livrando sempre felizmente de grandes perigos, de tormentas e corsários, até que, passando a outro dono, considerada a sua velhice, a quis reparar. Em conjunção de grandes mares foi levada ao estaleiro, onde se assentou quietamente, e indo na manhã seguinte os oficiais que haviam de trabalhar no concerto, não acharam a nau, senão a ossada dela, concorrendo então toda a cidade do Cochim a ver e admirar os muitos e contínuos milagres com que se conservara inteira, porque a quilha estava podre, podres a roda da proa e popa, podres as curvas ou cavernas, o fundo comido do gusano, as obras mortas cadáveres, as costuras descosidas e abertas, os pregos ferrugentos e sem cabeça, enfim, uma descomposição naval, composta de inumeráveis milagres.

 

 

§ VII

 

 

A extraordinária e segura confiança com que os homens se fiavam de S. Francisco Xavier Ainda o milagroso caso da nau Santa Cruz. A pequena fragata de Jorge Nunes Patrão. A promessa do Padre Francisco Xavier ao temeroso piloto Francisco de Aguiar

 

E como as profecias e promessas de Xavier eram tão certas e evidentes, por isso a confiança que os homens tinham nele quase competia com a que ele tinha em Deus, que é o segundo ponto do nosso discurso. Nele serei tão breve como largo no passado, mas não duvido dizer que com exemplos igualmente admiráveis, e, se pode ser, mais estupendos. Pela experiência deste último, era contínua a emulação ou batalha com que os mercadores procuravam embarcar ou segurar os seus comércios na nau Santa Cruz, partindo sempre sobrecarregada, e quase metida no fundo. Sucedeu, pois, que saindo uma vez de Malaca em companhia de uma frota mercantil para Cochim, mal havia perdido de vista o porto, quando advertiram o piloto e passageiros que fazia tanta água, que seria manifesta temeridade empenharem-se em uma tão larga e arriscada viagem sem se aliviar a carga, e descobrir por onde se alagavam; pelo que, disparando uma e outra peça em sinal do seu perigo, voltaram arribados outra vez a Malaca. É caso sem semelhante o que agora se segue. Quando os da cidade souberam a causa, em lugar de acudirem ao temido naufrágio, foram tais as risadas e zombarias, tais as injúrias, nomes e apodos afrontosos com que repreendiam a covardia e pouca fé de homens que temiam perder-se na nau Santa Cruz, à qual o padre Francisco Xavier tinha prometido e assegurado de nunca perigar no mar, que o piloto, mestre, marinheiros, e quantos nela iam, envergonhados e corridos do que tinham intentado, do mesmo modo que arribaram sem buscar nem tomar água, nem fazer diligência alguma, tomaram a içar as velas, e prosseguir a sua derrota a Cochim, onde chegaram com a mesma água, mas com toda a carga, tão enxuta e sem avarias, como se o vaso da nau fora o mais bem calafetado e estanque. Tão firme e tão geral era a confiança que em toda a índia se tinha nas palavras e promessas daquele oráculo!

 

O caso que, depois de desfeita a mesma nau, se seguiu, ainda na minha opinião é mais admirável. Jorge Nunes, patrão de uma pequena fragata, considerando que aquela milagrosa fortuna, que a bênção de Xavier imprimira em todo o corpo da nau Santa Cruz, não podia deixar de ficar também impressa nas partes e relíquias dela, com grande fé e confiança no mesmo santo tomou uma daquelas tábuas, e pregou-a na popa da sua fragata, e por este modo de enxerto, como o garfo de uma árvore no tronco de outra, foi tal o domínio que dali em diante experimentou sobre os mares e ventos que, sem esperar pelas conjunções que os grandes baixéis observam para se fazer à vela, o bom Jorge, com qualquer tempo e vento, e por meio das mesmas tempestades se fazia ao mar, sem nenhum medo delas, como se naquela tábua levasse escrito um passaporte de Deus, para que nenhuma se lhe atrevesse. Chamavam-lhe temerário e louco os outros oficiais da arte, aos quais ele respondia que o mar conhecia a virtude daquela sua relíquia, pela experiência que tinha de trinta anos, em que sempre a reverenciara. Por muitos anos depois continuou o venturoso patrão as suas viagens por todas as costas da índia, vendo a sua fragatinha lastimosas perdições e naufrágios de naus de grande porte, ela, porém, sempre segura, porque em qualquer dos ventos levava sempre naquela tábua a sua fortuna em popa. Finalmente, chegada já à última velhice, e cansada mais de pisar que de sulcar as ondas, sendo tirada à praia, para receber nova querena, diz a história que, assim como tinha imitado a nau Santa Cruz na vida, assim a imitou na morte, desfazendo-se, e ficando sepultada na terra a que nunca pôde sepultar o mar. Tanto se conformou a pontualidade de Xavier, não só com o desejo, senão com o pensamento do seu devoto, o qual houvera de pendurar aquela milagrosa tábua diante dos altares do mesmo santo, como troféu das suas vitórias, e perpétuo monumento da confiança que nele devem pôr os homens.

 

Não posso deixar de ajuntar a este o terceiro exemplo, e seja o último. Era piloto da nau-mãe, a que buscou o batel como filho, Francisco de Aguiar, o qual, discorrendo com Xavier, o seu milagroso passageiro, sobre os perigos e sustos dos que tomaram por ofício e vida trazê-la sobre as águas do mar, tão duvidosa e inconstante como os ventos, lhe manifestou a tristeza e pena com que vivia. Consolou-o o santo, e confirmou-o no mesmo exercício, prometendo-lhe que nem ele morreria no mar, nem navio algum governado por ele se perderia, por maiores que fossem as tempestades que contra ele se conjurassem. Ouvido o celestial oráculo, ficou tão seguro o temeroso piloto na fé daquela promessa, que dali por diante, sem reparar em que a embarcação fosse grande ou pequena, forte ou fraca, bem ou mal aparelhada, nem fazer caso se o mar estivesse quieto ou alterado, o vento próspero ou contrário, o caminho e o fundo limpo ou cheio de escolhos e baixios, tão ousada e cegamente se arrojava aos perigos do mar e da terra, como se o nome de Aguiar lhe tivesse dado asas de águia, superior a ambos os elementos. Navegando uma vez de Jonaserim a Pegu em um champão, embarcação pequena, e própria daqueles mares, velha e mal aparelhada, em companhia de outros navios de alto bordo, levantou-se uma tempestade tão furiosa que, não a podendo aguardar nem resistir os navios grandes, todos, sem escapar um só, ou lançados a pique no alto, ou feitos pedaços nos baixios, se perderam lastimosamente. E o piloto Aguiar, que fazia? Guiado por onde o levava a agulha da sua fé, assentado na popa, e governando o leme do seu champão, como na mais segura bonança, ia cantando. - É possível - lhe disseram os marinheiros - que no meio de uma tormenta tão furiosa, e quando os mares estão semeados dos mastros, das vergas, e dos outros pedaços náufragos de tantos navios mais poderosos, que vimos perder diante dos nossos olhos, vós no vosso champãozinho ides tão seguro, e cantando? - Sim - respondeu intrepidamente o piloto - porque o padre Francisco Xavier me prometeu que nem eu, nem embarcação que eu governasse havia de perecer no mar; e por que é impossível faltar a palavra e promessa daquele grande homem de Deus, ainda que estas ondas cresceram, e subissem até às estrelas, e o meu champão fora de vidro, tão seguro iria, e cantando no meio delas, como até agora fiz ao som do vento nas cordas, e do ruído dos mares nos baixios. - Com esta resposta se revestiram da mesma fé todos os companheiros, o champão chegou a salvamento a Pegu, e alguns mouros, que nele iam, tanto que puseram os pés em terra, pediram e receberam a água do Batismo.

 

 

§ VIII

 

 

A segurança firme e extraordinária que os homens tinham nas profecias e promessas de Xavier, graça que Deus não concedeu aos mesmos profetas canônicos, e da Sagrada Escritura, sendo as suas palavras de fé. A pouca de Pedro, o grande piloto, nas palavras de Cristo, e a confiança absoluta de tantos pilotos nas palavras de Xavier

 

Segundo vejo, parece-me que todos estais admirados da infalível certeza das profecias de Xavier, e dos modos extraordinários com que se cumpriram. Mas eu nem dos milagres me admiro, nem da certeza das profecias, que todas, sendo de Deus, são igualmente infalíveis: o que me causa singular admiração e espanto é a segurança tão firme que os homens tinham nas mesmas profecias e promessas de Xavier, graça que Deus não concedeu aos mesmos profetas canônicos, e da Sagrada Escritura, sendo as suas palavras de fé. Que promessas se lêem na Sagrada Escritura mais repetidas e confirmadas com maiores milagres, que as da Terra de Promissão, a cuja viagem precedem no princípio as dez pragas do Egito, os exércitos de Faraó afogados do Mar Vermelho, a passagem dos filhos de Israel pelo mesmo mar a pé enxuto, e tantos outros assombros da natureza, e prodígios inauditos vistos com os olhos, palpados com as mãos, e pisados com os pés? E, contudo, os mesmos que os viam, palpavam e pisavam, criam tão pouco que haviam de chegar à Terra de Promissão, que em castigo da sua incredulidade, sendo seiscentas mil famílias, as matou Deus a todas no deserto, e, o que mais é, até ao mesmo Moisés, por incredulidade, lhe tirou a vida antes de lá chegar. O mesmo sucedeu às profecias de Saías, de Jeremias, de Ezequiel, de Oséias, e todos os outros profetas, ou duvidadas, ou totalmente negadas, e não cridas. E que as profecias de Xavier viessem finalmente conseguir tal autoridade, fé e crédito com os homens, que no meio dos mais horrendos e formidáveis perigos não vacilassem nelas, antes os desprezassem!

 

Ponhamos o maior exemplo, e o mais natural dos casos que acabamos de referir. Estando a barca dos apóstolos no meio do Mar de Tiberíades, foi a eles o Senhor, que estava em terra, caminhando sobre as águas, o que vendo S. Pedro, disse: - Senhor, se vós sois, mandai-me que vá eu também por cima da água até onde estais. - E vós, Pedro, pedis que vos mandem o que quereis? Muito temo que vos não há de suceder bem nesta viagem. - Havida com voz de obediência a licença, desceu confiadamente da barca; mas, tendo dado alguns passos com toda a segurança, subitamente sentiu que ia ao fundo. Bradou ao divino Mestre que o salvasse, e o Senhor, estendendo o braço, teve mão nele, dizendo: Modicae lidei, quare dubitasti (Mt. 14, 31)? Homem de pouca fé, por que duvidaste? - De maneira, como pondera S. Crisóstomo, que no princípio teve fé nas palavras de Cristo, e com ela se lançou ao mar; porém, depois duvidou. E por que duvidou depois? O mesmo texto o diz: Videns vero ventum validum, timuit (ibid. 30): Vendo que o vento era muito forte, fraqueou na fé, e temeu. - Comparai-me agora este grande piloto com os nossos. Pedro sobre a palavra de Cristo, e com o mesmo Cristo diante dos olhos, vendo que o vento era forte, duvida, teme, fraqueia na fé, vê-se perdido, e, como dizem, pede a Deus misericórdia[158], bradando ao Senhor que o salve, que tanta força têm, e tanto podem os perigos à vista. Porém, os nossos pilotos, sobre a palavra de Xavier, não presente senão ausente ou morto, vendo, não um vento forte, senão as mais horrendas tempestades de todo o mundo, vendo subir as ondas em montanhas às nuvens, vendo sorver o mar uns navios inteiros, e desfazer outros em pedaços, vendo-se sós, e cercados de naufrágios alheios, não vacilavam um ponto na fé, não duvidavam, não temiam, não reconheciam perigo nem necessidade de recorrer outra vez ao céu ou ao santo, mas desassustados, alegres, e cantando, seguiam sua viagem, como se o mar fora leite, os, tufões viração galerna, a cerração e escuridade luz, e os trovões e coriscos serenidades.

 

 

§ IX

 

 

Os dois documentos do sermão: confiar em Deus, como Xavier confiou em Deus, e confiar em Xavier assim como os homens confiaram em Xavier. Xavier, o  homem em que se quebraram e desfizeram as maldições que Deus lançou sobre o homem que se confia de outro homem.

 

Tenho acabado o meu discurso, e assim como ele teve dois pontos, assim em duas palavras tiro dele dois documentos. O primeiro, que confiemos em Deus como Xavier confiou em Deus; o segundo, que confiemos em Xavier assim como os homens confiaram em Xavier, Este foi o homem em que se quebraram e desfizeram as maldições que Deus lançou sobre o homem que se confia de outro homem: Maledictus homo qui confidit in homine[159], - Se confiardes em homens, achareis em lugar da verdade a mentira, em vez da sinceridade enganos, em paga de benefícios ingratidões, em correspondência de merecimentos invejas, em figura da virtude a hipocrisia, com máscara de amizade traições, com rosto de benevolência ódios, com fingimento de louvores calúnias, com promessa de bons ofícios maldades, com bandeira de paz guerra, com capa de zelo zelos, debaixo da voz de Jacó roubos, debaixo dos abraços de Joab punhais, debaixo do beijo de Judas vendas,