LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
De Profecia e Inquisição, do Padre Antônio Vieira.

 


Edição de referência:

Antônio Vieira. De Profecia e Inquisição. Brasília, Senado Federal, 2001.

 

 

ÍNDICE

 

 

 

De Profecia

 

I  

II

III

IV

 

De Inquisição

 

V

VI

VII

 

 

 

 

 

 

 

 

I

Defesa do livro intitulado
QUINTO IMPÉRIO,
que é a apologia do livro
CLAVIS PROPHETARUM,

e respostas das proposições censuradas
pelos senhores inquisidores: dadas pelo
Padre Antônio Vieira, estando recluso nos
cárceres do Santo Ofício e Coimbra

                                                        

 

Sendo ontem chamado à mesa, me foi dito que estavam nela os senhores inquisidores para sentenciarem a minha causa, e que antes disso queriam ouvir de mim tudo o que tivesse que dizer ou alegar para bem dela; e porque a última doença (de que estou mal convalescido) me não deixou com forças nem alento para poder falar em público, pedi licença para falar por papel, que me foi concedida. Protesto pois do modo que me é possível, diante desses senhores, que antes de se me dar a notícia que as minhas proposições estavam censuradas, e as censuras aprovadas por sua santidade, fazia eu tenção de propor em presença de vossas senhorias todos os pontos ou questões delas, dando os fundamentos das opiniões que segui, ou determinava seguir, respondendo aos das contraditas; mas depois que me foi dada a notícia da aprovação e autoridade do sumo pontífice, que é argumento a que a minha fé, resignação e obediência, não sabe outra solução senão a da veneração, obséquio e silêncio, sem que para isso seja necessário cativar ou fazer força ao entendimento, que sempre está e esteve sujeito aos menores acenos da Igreja, e de qualquer de seus ministros, havendo por esta via cessado o escrúpulo que só me dilatava; e tendo eu aceitado, sem mais demora da razão, ou explicação das ditas proposições, a todas as censuras delas, e suas dependências, nenhuma outra coisa se me oferece, que possa fazer ou dizer importante ao bem da minha causa, mais que o representá-la a vossas senhorias em um menor e mais abreviado processo, no qual a possa compreender toda junta de uma vez, dividindo-a para isso em partes certas e determinadas, onde se veja brevemente o dilatado, distintamente o confuso, e claramente o escuro e mal declarado por mim: e pois não posso fazer a dita representação com razões vivas (como muito desejava) falarão por mim estas poucas regras, não como nova alegação, pois não digo nelas coisa de novo, mas como um breve memorial deste processo, repartido, para maior facilidade, clareza, e distinção, nas oito ponderações seguintes:

 

PONDERAÇÃO l.a
ACERCA DO ASSUNTO DO LIVRO

 

O argumento ou assunto do livro que quis há muitos anos escrever, e do qual tinha totalmente desistido, depois que me apliquei às missões, era o Império Consumado de Cristo debaixo do nome de Quinto Império: digo - Império - conforme o cômputo dos impérios de Daniel, entendendo-se por império consumado de Cristo, não algum império que Cristo havia de ter nos tempos futuros, senão um novo e maior estado do mesmo império e reino que Cristo hoje tem, e teve sempre depois que veio ao mundo, que vem a ser por outros termos, um novo e perfeito estado da Igreja Católica, que é o único e verdadeiro reino de Cristo.

 

As partes, circunstâncias, e felicidades de que se compõe esse novo e mais perfeito império ou estado, eram a extirpação de todas as seitas de infiéis, a conversão de todas as gentes, a reforma da cristandade, e a paz geral entre os príncipes, a mais abundante graça do Céu, com que salvariam pela maior parte os homens, e se encheria o número dos predestinados, sendo os instrumentos imediatos da dita conversão um sumo pontífice santíssimo, e alguns varões apostólicos de singular espírito, que, divididos por todas as terras de infiéis, as reduziriam e sujeitariam à Igreja, e um imperador zelosíssimo da propagação da fé, o qual empregaria toda a sua autoridade em serviço do dito pontífice, e favor dos pregadores, segurando-lhes o passo, e defendendo-os onde necessário fosse com as suas armas, e sujeitando com elas a todos os rebeldes, principalmente o império romano, com que o faria senhor do mundo.

 

Até aqui o assunto em geral, o qual de nenhum modo é invento meu, senão promessa e esperança, e exposição de muitos santos antigos e modernos, e de muitos comentadores das escrituras, e de muitas pessoas de espírito profético, geralmente aprovado e recebido, de que porei somente os nomes: S. Justino, e S. Gaudêncio, S. João Crisóstimo, S. Hilário, Osório, Uberto, Panônio, Eclio, Herculano, Pedro Bolorengo, Serafino de Berma, Genebrardo Talo, Pedro Galatino, Salazar, Serelego, Arrias Montano, Bandale, Joaquim Abade, Aperilas, S. Metódio, Teófilo Eremita, Malaquias, S. Francisco de Paula, S. Brízida, S. Amatildes, S. Isidoro, S. fr. Gil, o Beato Amadeu, S. Ângelo mártir, o irmão Mem Rodrigues da Companhia de Jesus, e outros muitos católicos pios, e, exceto o último, todos doutos.

 

E porque os sobreditos autores que falam no imperador que Deus há de dar à sua Igreja, para as execuções temporais desta espiritual conquista, não declaram absolutamente, que pessoa particular haja de ser, acrescentava eu, ou pretendia acrescentar, posto que digam muitas propriedades e circunstâncias, de que se pode conjecturar o argumento geral dos ditos autores à acomodação e explicação do reino, para que tinha Deus guardado aquela grande empresa e império, interpretando em honra danação, que seria rei português, e do reino de Portugal, fundando este pensamento principalmente nas palavras de Cristo a El-Rei D. Afonso Henriques - voto in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire.

 

A este fim (o que muito se deve notar) determinava eu seguir ou supor duas opiniões necessárias ao dito intento, ambas comumente recebidas dos teólogos; a primeira, que o império de Cristo não só é espiritual, senão também temporal, cada um a respeito de seus vassalos, sendo este título ainda mais próprio no príncipe, que o fosse de todo o mundo, em suposição das quais duas opiniões, aplicando o sobredito império a um príncipe descendente D'el-Rei D. Afonso Henriques, se vinha a cumprir e verificar nele inteiramente toda a profecia das palavras e promessas de Deus, pois no tal príncipe estabelecia Cristo um império, o qual juntamente seria império de Cristo, e império dum descendente do mesmo D. Afonso Henriques, que é toda a energia - in te, et in semine tua - em seguimento desta aplicação, e descendo a individuar a pessoa deste príncipe, determinava eu chamar à pretensão do dito império todos os que descendem D'el-Rei D. Afonso Henriques, e principalmente por serem a sua décima sexta geração, ou descendentes dela, tinham conhecido direito à promessa de Cristo, como são ao presente o imperador da Alemanha, por filho da imperatriz D. Maria: El-Rei de França por filho da rainha D. Ana, ambas irmãs de Filipe IV de Castela, ou seu filho pela própria descendência.

 

Mas porque o meu intento total era concluir que este príncipe não só havia de ser descendente D'el-Rei D. Afonso Henriques, senão também rei português, e de Portugal, assentado neste princípio segundo, chamava da mesma maneira a pretensão aos reis portugueses, que parece podiam ter maior direito a ela, pondo em primeiro lugar a opinião comum D'el-Rei D. Sebastião, e todos os fundamentos que tinha, e no segundo a El-Rei D. João IV, pela estimação também comum com que na restauração do reino foi reputado pelo verdadeiro encoberto, satisfazendo ao fortíssimo argumento da sua morte, com exemplos e razões que mandei à rainha nossa senhora no papel deste assunto, por ser o que naquela ocasião podia servir de alivio de sua majestade, sendo porém certo que o meu intento não era resolver por último, que o Senhor Rei D. João fosse ou houvesse de ser o prometido imperador: assim o puderam testemunhar algumas mas pessoas dignas de toda a fé, a quem foi força comunicar o meu segredo e o meu pensamento, os quais sabem que verdade era dedicar eu este livro a El-Rei D. Afonso VI, que Deus guarde, e concluir por remate de tudo, haver sua majestade ser o futuro imperador, cm quem tivesse princípio o império prometido ao rei do mesmo nome, provando esta final resolução com a cláusula do mesmo juramento do rei, e promessa de Cristo - usque ad decimam sextam generationem in qua atenuabitur proles, et in ipsa sic atenuata respiciam, et videbo - nas quais palavras expendia ou havia de expender, que o relativo - in ipsa - não se referia à décima sexta geração, que foi El-Rei D. João IV, senão à prole da décima sexta geração, que é El-Rei D. Afonso.

 

Este é, senhores, em geral todo o argumento daquele assunto, esta em particular toda a aplicação, ou a acomodação dele, em que peço se ponderem quatro motivos, que não pouco demonstram a sinceridade e pureza da minha tenção:

 

1.° Quanto ao assunto em geral, se me não deve imputar culpa, pelo ter por católico e pio, e sem escrúpulo de perigosa doutrina, pois tem por si a autoridade e revelações de tantos santos, e de tantos e tão graves autores de nossos tempos, cujos livros, aprovados pelo Santo Ofício, correm sem reparo algum em toda a cristandade.

 

2.° Quanto à aplicação do dito assunto, e imperador dele, o rei de Portugal, que Rusticano (ita), um dos autores acima alegados, religioso de S. Francisco, em um livro que imprimiu em Veneza, aprovado pele Santo Ofício de sua santidade, com título de recopilação das profecias modernas, aplica o mesmo império a el-rei de França, o qual rei se vê estampado em muitas partes do mesmo livro: e pois é coisa lícita e aprova da pelo Santo Ofício, e maiores ministros da Igreja, o ser a mesma aplicação a um príncipe da cristandade, porque me não pareceria a mim também lícito aplicá-lo a outro, principalmente não havendo nenhum no mundo que tenha a seu favor um tão notável e autêntico testemunha como o do juramento D'el-Rei D. Afonso Henriques?

 

3.° Quanto ao dito assunto, e aplicação dele, se colhi manifestamente qual foi a tenção que tive em seguir a opinião comuníssima do mesmo temporal de Cristo por partes, se eu supusesse a opinião contrária, que admite em Cristo o império espiritual, quando viesse a dizer sobre a cláusula - inte - mihi - que o mesmo império de Cristo, e mais d'el-rei de Portugal, papa ou cabeça da Igreja; pois o império espiritual de Cristo não tem, nem pode ter outra cabeça senão o papa: sendo porém esta razão tão natural e manifesta, e sendo outrossim a eleição da dita opinião do império temporal de Cristo, forçosamente necessária para o dito assunto, bem se deixa ver quão alheio do meu sentir é o fundamento sobre que me foi argüida tanta máquina de suspeitas e erros, fundados todos na opinião do dito império temporal de Cristo, e quão impossível coisa parece, que a disposição de todo este meu fundamento, assim como estava truncada e imaginada, se houvesse de penetrar ou perceber antes de se declarar, donde nasceu interpretar-se o título de Quinto Império, como são também todas as conseqüências que dele se inferem.

 

4.° Que o dito chamado livro, verdadeiramente de nenhum modo é, nem foi, nem se pode chamar livro, senão pensamento de livro, e pensamento retratado, e totalmente deixado, por haver mais de onze anos que tinha desistido do sobredito pensamento: nem faz contra esta verdade, bem provada com o retiro do Maranhão, e com me haver aplicado à conversão das gentes, o intento que tinha de dedicar o dito livro a sua majestade, porque este pensamento era ex necessitate, et preter intentionem, depois que pelos cargos que se me deram no Santo Ofício fui obrigado a explicar o dito assunto, e o Quinto Império, e questões dele, para mostrar os fundamentos e motivos por que o tivera por provável e sã doutrina; e em disposição de me ser forçoso gastar o tempo neste estudo, faço conta de o não perder, e dedicar o dito livro a el-rei, no caso em que depois de representar nesta mesa todos os pontos principais, mas não reprovassem em coisa essencial que desfizesse o dito assunto. Assim que, quanto à minha tenção, nem por pensamento me passara fazer o dito livro, e só tratava de alimpar e imprimir os meus sermões, como o padre geral me tinha mandado.

 

PONDERAÇÃO 2.ª
ACERCA DOS PAPÉIS

 

Os papéis de que se tiraram as culpas de que fui argüido são quatro: o primeiro, é o papel do Maranhão, no qual se deve ponderar que todas as culpas que dele se formam se reduzem a um só ponto, que foi o ter o Bandarra por profeta, na qual suposição, que muito é que eu provasse o que ele expressamente diz, ou o que da suas trovas por boa conseqüência se segue. Os fundamentos por que tive para mim que fora profeta, e o pretendi privadamente provar naquele papel, são os que presentei na mesa expendidos em escritura; autoridades e razões especulativas e práticas, em que se seguia a opinião geral, do que por palavras e escritos impressos assim o julgam pregoavam, entendendo da mesma maneira, que assim como se pode provar que tal ação foi milagre, e que tal morte foi martírio, assim se pode provar que tal predição ou predições foram profecias, e assim como se pode inferir que o que faz tal ação é milagroso, e o que padece tal morte é mártir, assim se podia inferir, que o que disse tais predições era profeta; tendo para mim, finalmente, que os papéis o discursos em que as sobreditas coisas se provam, as podem provar comunicar seus autores privadamente, sem violar a proibição, ou incorrer penas dos que publicam ou divulgam semelhantes tratados; em próprios termos, é o que eu só fiz, remetendo o dito papel a um rainha, pelo modo e meio mais secreto que podia ser, que foi por mão de seu confessor: e se ele ou outrem o divulgou, parece se me não deve imputar essa culpa.

 

O segundo papel é o que enunciei ao conselho geral, pedindo restituição de tempo em que havia estado doente, e mudança de lugar por alguns dias, para convalescer da dita enfermidade, com ordenavam os médicos do Santo Ofício, sendo a mesma petição e submissão, com que nela tão miudamente fiz de mim atos mui formais da mesma obediência, reconhecimento, e respeito, e não podendo haver direito algum que presuma que quem pede favor e graça queira ofender ao juiz que o há de sentenciar ou absolver, sendo os juízes principalmente em sentença de que se não pode apelar; assim que, se no sobredito papel intervieram alguns erros ou defeitos, foi por não ser feito por letra minha, ou procurador versado (o que eu por esta mesma razão pedi) nos estilos do Santo Ofício, e por ser eu totalmente falto de semelhantes notícias, e por não serem exatas as que procurei do modo que me era possível, os quais defeitos e erros, finalmente, se purificaram no mesmo papel, com dizer que nas minhas propostas ou petições, pedia ou pretendia somente o que me fosse lícito, protestando e pedindo perdão de tudo, e de qualquer coisa em que pelas sobreditas causas houvesse errado, ou faltado ao que devia.

 

O terceiro papel foram os cadernos de apontamentos escritos pela razão que fica dita nesta mesa, para mostrar como obedeci e trabalhei, os quais eu de nenhum modo oferecerei em resposta ou defesa das proposições, ou proposição alguma, antes sendo-me ordenado que as deixasse, contra minha vontade e tenção o fiz, em pretexto (ita) de todo o sobredito, e de que eu não afirmava, nem sabia, o que nos ditos papéis estava escrito, porque não tivera tempo para os ler, e quando os escrevia, ainda não estava resoluto no que havia de dizer, ou de seguir, sendo somente lançados a pedaços naqueles cadernos, o que estudava ou me ocorria informe ou irresolutamente até a última eleição, assim como fazem todos os escritores de livros, os quais depois de toda esta matéria estudada e junta, e depois de mui ponderadas e examinadas as dificuldades, se resolvem no que absolutamente hão de dizer, e conforme a dita resolução, ou moderam, ou ampliam, ou mudam, prosseguem, ou tiram, ou acrescentam, e muitas vezes riscam e retratam as mesmas conclusões que determinavam seguia, não havendo coisa alguma tão exatamente escrita no primeiro correr da pena, que não tenha sempre que emendar; e tudo isto é o que havia e determinava fazer nos sobreditos cadernos, nos quais, como bem se vê, não há parte ou discurso algum que esteja concluído, havendo muitos riscados, e outros prosseguidos por diferentes modos e razões, para que depois se elegesse o mais conveniente. Assim que, nem os ditos discursos, nem as proposições, ou palavras deles, ou conseqüências algumas, se me devem imputar por culpas, por serem todas duvidosas, e indeterminadamente apontadas, e não absolutamente escritas, nem proferidas, antes da sinceridade e confiança com que pus na mão dos ministros do Santo Ofício todos os ditos papéis, sem emendar, nem ainda rever coisa alguma deles, se mostra claramente a pureza da fé, e verdade da tenção com que foram escritos, e entregues sem temor nem imaginação de receio, porque pudesse vir ao pensamento o que nunca tinha passado pelo meu.

 

O quarto e último papel é o que fiz depois da minha reclusão, de cujo princípio e fim largamente consta que nenhuma das coisas que nele escrevi foi a fim de as defender ou afirmar, senão de referir e representar a vossas senhorias os motivos e fundamentos que tivera para reputar por provável o que tinha escrito, ou determinava dizer ou escrever; e que haver-me enganado, como confessava, nas matérias das proposições censuradas, fora sem má tenção nem culpa Nos sermões impressos em Castela não falo, porque absolutamente aqueles papéis não são meus, senão de quem os quis imprimir debaixo do meu nome, para me afrontar, ou para ganhar dinheiro.

 

PONDERAÇÃO 3.ª
ACERCA DAS PROPOSIÇÕES

 

Antes de propor o que devia seguir, se pondere nas proposições (ita), referirei brevemente as ditas proposições:

 

1.ª Reprova-se o título de Quinto Império, por ser (como dizem) o dito império do Anticristo: e eu no dito acedi, ou segui a sentença ordinária dos teólogos e expositores que, no império das visões de Daniel, dizem que o Quinto Império é o império e reino de Cristo.

 

2.ª Reprova-se provar o império temporal de Cristo com alguns dos mesmos lugares, em que se prova o espiritual, e que isto se não pode fazer sem ser in sensu judaico, e contra Cristo. E este modo de provar é a prova ordinária de todos os teólogos que seguem a dita sentença, posto que não em todos os homens, que absolutamente falam do reino de Cristo, senão somente aqueles em que as palavras e circunstâncias do texto admitem ambos os sentidos, e ambos os reinos, como se pode ver nos ditos autores, e particularmente em Alonso de Mendonça, só sobre o texto do salmo 31 - dominabitur a mari usque ad mare.

 

3.ª Reprova-se dizer que o império de Cristo não é só espiritual, senão também temporal, e esta opinião é a mais comum, e dos maiores teólogos deste século, Soares, Vasques, Lugo, Molina, Salazar, Estudoro, Francisco de Mendonça, Alonso de Mendonça, Cabrera, e outros muitos et nobis; Sime Catena lhe chama - Communissimo, et verior.

 

4.ª Reprova-se a opinião que explica as visões do cap. 2.° e 7.° de Daniel do Reino de Cristo na Terra, ou terreno, em que se opõe ao celestial, posto que o mesmo reino de Cristo se há de continuar eternamente no Céu, como é dito, e na dita matéria segui a explicação comum de todos os expositores, e de quase todos os teólogos de um e outro; texto 61 - Replevit omnem terram, et subter omnem terram.

 

5.ª Reprova-se o afirmar que Cristo em este mundo exercitou alguns atos do dito domínio e jurisdição temporal. Esta é a opinião recebida de muitos autores.

 

6.ª Reprova-se a opinião do Quinto Império, e futuro estado consumado de Cristo, porque se poderiam queixar os passados também de não lograrem o dito estado; e ou se diga que Deus o não fez desde o princípio da Igreja, porque o não quis, ou porque o não pôde, sempre é impiedade: mas sem embargo destes argumentos, a dita opinião é de todos os autores, que são santos canonizados, e se é havê-lo Deus revelado assim, o qual Deus e Senhor Supremo é o que só sabe e pode saber os porquês da sua providência, sem por isso se poderem queixar dele os homens, como se não queixaram os cristãos das novas perseguições da Igreja, de não virem na idade doirada dela, como chamam os historiadores aos tempos de Constantino Magno: e posto que os japões se queixavam de que sendo Deus lhes mandasse tão tarde a luz, e conhecimento da sua fé, esta queixa era sem razão, como S. Francisco Xavier lhes mostrou, e se pode ver em Lucena.

 

7.ª Reprova-se dizer que neste tempo haverá um imperador cristão mui poderoso, que será como braço secular da Igreja para todas as execuções e assistências importantes à provação e estabelecimento do dito estado, porquanto o império e potência temporal anda sempre junta com a ambição, que é destruidora e não propagadora do reino de Cristo, e não pode Deus levantar ou dar império temporal a fim de converter e reformar o mundo; mas a esperança e promessa de haver o dito imperador é expressa profecia de S. Francisco de Paula, S. Brízida, S. Isidoro, de S. Metódio., de S. Gertrudes, de S. Ângelo, do Beato Amadeu, e outros santos, e recebida comumente de todos os autores que seguem a opinião do dito estado, os quais não têm por coisa nova, e muito menos alheia da Providência, haver um príncipe, ou muitos, em quem não ande junta ao império a ambição, senão a piedade e zelo da glória e serviço de Deus como Davi, Josias, Constantino, Carlos Magno, Luís, Estêvão, Casimiro Pelaio, e outros muitos em todos os reinos da cristandade; nem que este instrumento temporal na sua esfera seja desproporcionado para a conversão e reformação do mundo, antes muito eficaz para ajudar a promover a dita reforma e conversão, pois é certo - quia reges ad exemplum totus componitur orbis.

 

8.ª Reprova-se o ditame que admite o dito imperador como instrumento, ainda que imediato e remoto, da conversão, porquanto de qualquer modo que concorra para ela é fazer a potência temporal medida da salvação e graça divina, e a mesma graça conexa e dependente da dita potência, sobre ser o dito modo de converter alheio da doutrina de Cristo, e do exemplo dos apóstolos, os quais o mesmo Cristo mandou - sine baculo et sine pera - mas é certo que a dita opinião e ditame de seus autores não faz a potência temporal medida da graça, nem a graça dependente ou conexa com ela, e somente julga a dita potência por condescendente ou necessária, per accidens, não a graça, senão os meios dela e da fé. Esta é não só a sentença comum do padre Soares, e de todos os teólogos, senão a praxe recebida e usada hoje e aprovada pelos sumos pontífices na conversão das Índias, e assim como concorreu Carlos V e El-Rei D. Manuel e seus sucessores para a conversão delas, assim, diz esta opinião, concorrerá aquele imperador para a conversão do mundo.

 

9.ª Reprova-se o admitir que a dita conversão há de ser ou pode ser antes da vinda do Anticristo, e esta opinião é expressa de Herculano, Salazar e de Servelego, e de todos os santos antigos e modernos, que seguem a sentença do estado consumado do reino de Cristo, e supõe juntamente a tradição, de que entre o dito Anticristo e o dia do juízo não há de haver mais que cento e quarenta e cinco luas, reconhecendo os ditos autores, suposta esta tradição, se não podem de nenhum modo entender muitos lugares da escritura sagrada, senão admitindo a dita conversão antes, a qual a antecedia ou suponha problematicamente, mostrando como nesta opinião e na contrária se havia prosseguir o assunto e lugar e ordem da duração do mundo em que segundo cada uma das ditas proposições caía o estado consumado do reino de Cristo.

 

10.ª Reprova-se a opinião que entende da dita conversão as palavras - unum ovile, et unus pastor e sobre esta sentença de tantos e tão graves autores, como tenho alegado, as mesmas palavras parece que mostram não se entenderem somente de Cristo haver de tirar ou desfazer a parede que dividia os ditos povos de que fala S. Paulo, senão também da vocação e redução dos ditos povos à fé de Cristo, por meio da qual conversão e redução se virão a fazer então um só rebanho debaixo de um só pastor, como exprimem as palavras - illas oportet me adducere et vocem meam audient, et futurum ovile, et unus pastor - de maneira que primeiro se hão de reduzir as ovelhas, e obedecer à voz do seu pastor, e então, todas elas reduzidas, se fará um só rebanho.

 

11.ª Reprova-se ser significado o império otomano, chamado – cornu parvulum - do cap. 7.° de Daniel, por se inferir desta explicação que o império romano não há de durar até ao fim do mundo; mas a dita sentença é de Genebrardo, Elitódio, Tesurdenteu, Fr. Heitor Pinto, Vielmo, Salazar, o padre Bento Fernandes, e outros, os quais fundaram a dita sentença e a interpretaram com graves razões e notícias de que não puderam ter conhecimento os expositores antigos, sendo quase todos os ditos autores não só doutos mas também das religiões mais eminentes em letras como a de S. Agostinho, S. Bento, S. Francisco, S. Domingos, S. Jerônimo, S. Paulo, e a minha de Jesus.

 

12.ª Reprova-se que antes da vinda do Anticristo possa haver duração deste império por muitos anos, ainda por séculos, e, entre trinta e duas opiniões dos doutores que tenho, ao menos quatro delas são tão largas que não só admitem no dito espaço a duração de séculos, senão ainda de milhares de anos. Esta é a suposição em que falava, tomando-as indeterminadamente.

 

13.ª Reprova-se a explicação que pelas palavras de Daniel, cap. 7.° - tempus, et tempora, et dimidium temporis - entende-se três séculos e meio; dizendo-se que este sentido é calvinístico, não sobre o mesmo lugar de Daniel, senão sobre outros do Apocalipse em que São João diz que a perseguição do Anticristo há de durar tantos dias, quantos fazem três anos e meio, se hão de entender nas três cláusulas de Daniel: - tempus, et tempora, et dimidium temporis - porém a sobredita explicação é de todos os doutores, que pelo - cornu parvulum - entendem o império otomano e não o do Anticristo, e nesta suposição nenhuma correspondência tem o dito lugar do tempo de Daniel com a dos dias do Apocalipse, nos quais todos os católicos tomam os dias por dias, assim como soam, e refutamos esta limitada duração do império de Anticristo, a imprudentíssima blasfêmia dos calvinistas, com que atribuem ao vigário de Cristo o nome de Anticristo.

 

14.ª Reprova-se a opinião, que não cursa os mil anos do Apocalipse, cap. 20.°, pelo tempo que tem passado desde a vinda de Cristo, e há de durar até ao fim do mundo. E a dita opinião não só é de muitos santos antigos, senão de gravíssimos doutores, que escreveram de trezentos anos a esta parte, como S. Ulbertino, Nicolau de Lira, Aurélio, Serafim de Fermo, Célio, Panônio, Herculano, Pedro Galatino, Alcacere, e outros, que como em matéria tópica suprível lhe dá cada um o princípio que lhe parece.

 

15.ª Reprova-se a sentença que pelos mil anos ditos entende principal ou precisamente o número de mil, e afirma-se que eu sou do mesmo parecer, e o dissimulo com o disfarce de anos incertos e indeterminados, por não incorrer nas penas e censura dos milenários; e a dita opinião de mil anos, que entende indeterminadamente o número de mil, é de todos os autores modernos, proximamente citados, e de muitos padres antigos, que de nenhum modo foram milenários, como S. Pascácio, S. Ambrósio, S. Hilário, e outros, sendo certo, como se deve notar, que os milenários, nem são nem foram censurados pela diligência com que computam o dito número de mil, senão por dizerem que Cristo havia de vir ao mundo naqueles anos, para fins meramente temporais e corporais menos decentes à pessoa de Cristo.

 

16.ª Reprova-se a opinião de haverem de aparecer algum dia os dez tribos de Israel, supondo que não estão no mundo quase todos que deles falam; mas a contrária sentença é de Josefo, S. Hilário, Ruperto, Abulense, S. Antônio, Genebrardo, Cartusiano, Adero, mestre da história do - Fortalitium fidei - e de outros muitos autores de todas as idades.

 

17.ª Reprova-se a opinião que admite a restituição dos judeus à sua pátria, no caso em que todos se convertam à fé de Cristo, e que cessando geralmente o seu pecado, cessará também o seu castigo. Esta sentença, além de parecer mais conforme aos estilos da misericórdia divina, e ainda às promessas gerais da sua justiça, e às promessas feitas ao mesmo povo, é expressa de Cornélio Alápide, S. Agostinho, Terêncio, Adero, e outros.

 

18.ª Reprova-se dizer que o Messias esperado pelos judeus é fantástico, fictício e imaginário; nisto segui o modo comum dos teólogos e expositores da escritura, porquanto ainda que seda de fé que os judeus hão de receber o Anticristo por Messias, e que o Anticristo há de ser verdadeiro homem, e não fantástico ou fantasma, o que querem dizer os ditos autores, e o que eu digo com eles, é que o Messias que os judeus esperam, é fingido e imaginado pelos mesmos judeus, sem haver de ter mais outro ser, nem existência, que o dito fingimento e imaginação; porque o verdadeiro Messias já veio, e o que eles esperam nunca há de vir, nem existir, e que ainda que os ditos judeus hão de receber o Anticristo por seu Messias, não é porque o Anticristo seja Messias esperado por eles, senão porque eles vendo os milagres aparentes, que por obra e arte diabólica fizer, hão de cuidar enganadamente, que aquele é o seu Messias esperado, do qual erro porem se desenganarão depois que virem que de nenhum modo concorrem na pessoa as principais propriedades, que no seu Messias fingiam, uma das quais era a perpetuidade, sendo breve império e desastrada morte do Anticristo seja.

 

19.ª Reprova-se que o ditame e opinião de bastar para prova da verdade e profecia o sucesso das coisas profetizadas, quando os futuros são meramente livres e contingentes, e tais que se não possam antever por alguma arte humana ou diabólica, nem dizer-se acaso; mas esta doutrina é de S. Tomás, Escoto, Caetano, Medina, Valença, Soares, Cristóvão de Castro, Martín Martínez, Hurtado, Marcon, e de outros teólogos, e é praxe de todos os padres que escreveram contra infiéis provando a verdade das escrituras, profetizar pelo sucesso das coisas profetizadas, como se vê em infinitos lugares de S Agostinho, Justino, S. Irineu, Tertuliano, Orígenes, Clemente Alexandrino, Crisóstomo, S. Hipólito, Gregório Papa, Sertório, Sulpício, Teodoreto, Procópio, e outros, e sobretudo nos mesmos argumentos com que os profetas canônicos convenciam as verdades de suas profecias contra a incredulidade dos judeus sendo este (como ensinam S. Jerônimo, Orígenes, S. Ambrósio, e Ruperto) o sinal por onde os profetas verdadeiros, se distinguem dos falsos.

 

Estas são as opiniões reprovadas, nas quais se deve ponderar que no processo e qualificações dele se propõem e expendem somente as razões e fundamentos com que as ditas opiniões se reprovam e impugnam, e não aquelas com que seus autores, não só as fazem prováveis e forçosas, senão também de maior nota e evidência, e por isso as seguiram:

 

1.ª Se deve notar que não sigo, nem seguia determinadamente algumas das ditas opiniões reprovadas, porque ainda não tinha feito eleição do que havia de seguir em caso que fizesse o livro, como fica mostrado.

 

2.ª Se deve notar que para o intento do meu assunto pela maior parte não era necessário seguir determinadamente algumas das ditas opiniões, e assim propunha ou resolvia problematicamente, assinalando diversos modos de dizer, em que na suposição de cada um deles se erigia o dito assunto, porque acerca do império romano mostrava, como podia haver Quinto Império, ou com extinção dele, ou sem ela. Acerca do - cornu parvulum - mostrava como podia haver também Quinto Império, ou entendendo-se na figura o turco, ou Anticristo. Acerca da conversão universal mostrava como se podia admitir o estado consumado da Igreja, ou seja, antes do Anticristo, ou depois dele. O mesmo acerca do domínio temporal de Cristo. O mesmo acerca da duração do mundo. O mesmo acerca do número dos predestinados. Sendo certo que quem propõe as opiniões problematicamente, ainda que prossiga o seu discurso, vai segundo a suposição delas por não ser possível caminhar juntamente por diferentes caminhos.

 

3.ª E é ponto que muito se deve notar, que acerca das verdadeiras profecias de que falo no número 14.° há ou havia duas opiniões, uma que afirma bastar só o sucesso das coisas profetizadas na forma acima referida, ou além do dito sucesso requerer que nas ditas profecias se não contenha falsa doutrina, e quando eu disse e quis julgar que o Bandarra fora verdadeiro profeta, falei na suposição de ambas estas opiniões, e de qualquer delas; porque a primeira supunha que as predições do Bandarra estavam confirmadas com os sucessos, e que nas ditas predições não havia doutrina falsa.

 

Nem faz contra isto dizer no dito papel, que as profecias não têm outra prova senão os sucessos das coisas profetizadas, ainda na sentença que requer a verdade, como prova ou parte da prova da profecia, e outra que requer somente como condição de maneira que conforme o primeiro modo de dizer - prophetiae probantur per eventum, dummodo nihil contengat contra bonam doctrinam.

 

Este segundo modo de dizer, é o que eu segui, falando coerentemente dele, e suposto que em Bandarra concorria o sucesso das coisas profetizadas, e mais a boa doutrina, mas esta não como prova da profecia, senão como condição, e por isso lhe não prova como lhe não chamam todos, os autores que seguem este modo de dizer, nos quais se pode ver, e principalmente em Cristóvão de Castro sobre Jeremias, e sendo certo e claro que por nenhum modo quis seguir somente a primeira opinião, ainda que a tivesse por ordinária e praticada, senão juntamente ambas, porque fica mais fortificada e estabelecida a maior daquele silogismo, que era o fundamento principal e base de todo o discurso.

 

E se não fiz expressamente todas estas suposições e declarações (como também se omitiram outras no mesmo papel) foi porque a brevidade de uma carta pedia os termos mais precisos, e porque sendo escrita a uma rainha não era bem se lhe confundisse a clareza do discurso com o embaraço das opiniões.

 

4.ª Se deve notar que eu não defendo, nem defendi algumas das doutrinas reprovadas, e somente tratei de mostrar que não eram minhas, ou intentadas por mim, e os motivos que tive para a: reputar por sã doutrina.

 

5.ª Se deve notar, que suposto serem as ditas opiniões de matéria tópica, e seguida dos autores católicos, e não estarem proibidas, nem censuradas até o tempo que as escrevi ou referi, de nenhum modo se me devia imputar a culpa ou erro delas, ainda que afirmar, ou defendera as conclusões de meus discursos, porque é livre aos professores de letras seguirem as opiniões dos doutores que melhor servem a seu intento, como fazem os escritores eclesiásticos e fizeram sempre os mesmos santos padres, os quais em diversos lugares seguem pela dita razão opiniões contrárias, como nota e prova S. Gregório Papa, sendo manifesto que eu não podia antever, que algumas das ditas opiniões, e muito menos quais delas, houvessem de ser reprovadas.

 

PONDERAÇÃO 4.ª
ACERCA DAS SUPOSIÇÕES

 

Como a matéria do meu assunto era tão particular, e não tratada ex professo por algum outro escritor, e no primeiro papel se acudia somente a ela sem declaração das ditas alusões e intento do dito papel, e mui alheias do assunto dele as suposições que de tudo se formaram e argüíram, das quais suposições é forçoso referir ao menos as mais notáveis.

 

1.ª Supõe-se que o dito Quinto Império é humano como o dos inquisidores ordinários do mundo, e não é senão o império e reino de Cristo.

 

2.ª Supõe-se que o dito Quinto Império é futuro, e não é império do futuro, senão o mesmo império e reino de Cristo que foi, é, e há de ser, e só se diz que há de ter um grande aumento no último e confirmado estado da sua duração.

 

3.ª Supõe-se que o dito Quinto Império há de mediar entre o romano e o do Anticristo, como que é o sexto: eu não digo tal, nem é necessário dizer-se porque para um império ser o quinto, outro o quarto, basta que este comece primeiro e o outro depois, ainda que ambos continuem a sua duração no mesmo tempo, como de fato aconteceu ao império grego, e ao romano, que são terceiro e quarto de Daniel, ou dos impérios de que ele trata, e como também vemos hoje no quarto império, e no quinto, que é o do Anticristo, os quais simul continuam enquanto ao nome de reino, que em respeito do romano se chamará o quinto. O império do Anticristo se se fizesse a comparação com ele, se poderia o nosso chamar sexto império, mas tenho para mim que o do Anticristo a respeito do de Cristo não há de ter o nome de império, senão de perseguição, nem de imperador senão de tirano.

 

4.ª Supõe-se que este império de Cristo é o mesmo que se prometeu ao imperador temporal acima referido; e o que se diz do imperador temporal, se diz também de Cristo, e do seu império; e esta equivocação é a que tem embaraçado notavelmente a inteligência de todo o assunto, e feito grande dano às proposições dele, sendo coisa mui sabida que é diversa da outra, porquanto o império de Cristo é passado, presente e futuro, e o do imperador só futuro; o de Cristo é temporal e espiritual; o do imperador só temporal; o de Cristo é de supremo Senhor do mundo e cabeça da Igreja, e o do imperador é de ministro, súdito e soldado dele; sendo este imperador em respeito de Cristo e seu império o mesmo que foi Constantino ou Carlos Magno, só com suposição de haver de ter domínio depois da conquista dos infiéis.

 

5.ª Supõe-se que deste imperador e império, é o que se chama quinto império; e neste nome há também grande equivocação, porquanto o do imperador e império se toma como ministro e instrumento do império de Cristo, enquanto temporal, e no caso não constitui diverso império, e somente é parte material e integrante do império universo de Cristo, ou se tome o dito império absoluta, ou distintamente. como qualquer outro em respeito dos impérios passados, e neste caso se o dito império futuro estiver dividido do romano, chamar-se-á quinto, porque veio depois dele, que é o quarto ou quinto, formando a denominação de qualquer deles, e juntamente chamar-se quarto ou quinto, segundo os diversos respeitos, assim como El-Rei Filipe se chamou III do reino de Portugal e IV do reino de Castela.

 

6.ª Supõe-se que este império há de ser com extinção do reino; nem eu tal digo, nem é necessário tal suposição; porque se se fala na extinção dele em a casa de Áustria, supondo, como desde o princípio disse, que o império romano há de ser daquela casa, e passar-se a real de Portugal não implicando que a mesma pessoa haja de ser imperador de Constantinopla, e ainda de outro maior império, e seja juntamente império romano, que são os próprios termos por que fala S. Metódio nem implicando que estes dois impérios postos na mesma pessoa, um em respeito do outro, sejam quarto e quinto, e que durando ambos até à vinda do -Anticristo, em respeito de um seja o império do Anticristo quinto, e em respeito do outro sexto.

 

7.ª Supõe-se que provo o Quinto Império com os lugares da escritura, com que os prova o Bandarra, porque ele não fala em império a que ele chama quinto, nem eu digo tal coisa.

 

8.ª Supõe-se que não pode estar profetizado o dito estado, ao menos em quanto à conversão universal, porquanto em tal caso haviam de estar anunciadas as ditas profecias às nações de gentilidade, que se hão de converter, como se anunciaram ao povo judaico e seus sucessores futuros, mas este fundamento não é recebido dos autores da opinião que digo, os quais em contrário mostram com a experiência e exposição comum de todos os modernos, que a conversão da China, Japão e América estava profetizada em muitos lugares da escritura, sem nunca lhes ser antecedentemente anunciada ut patet.

 

9.ª Supõe-se que não pode haver o dito estado consumado da Igreja e império de Cristo por não estar profetizado na escritura, mas o contrário consta de todos os meus papéis, e dos autores da dita esperança e opinião, os quais mostram o dito estado profetizado em vários textos no Novo e Velho Testamento, principalmente nos Cânticos de Salomão e no Apocalipse.

 

10.ª Supõe-se que o mesmo se segue de eu responder, que não consta nem pode constar do tempo certo da duração do dito estado, porquanto Deus sempre assinala o tempo em todos os séculos revelados, como se vê no cativeiro do Egito e Babilônia, e nas leis Hebdômadas de Daniel, a qual seqüela e seu fundamento também não admitem os autores da opinião que sigo, porque Deus não tem obrigação de revelá-los - tempore et momento, quae pater possuit in sua potestate - ainda que os tempos e medidas da duração do dito estado estejam reveladas nos ditos textos dos Cânticos e Apocalipse, ou em outros da escritura, nem por isso se segue haverem de se saber ao certo, por não constar do modo com que se devem computar os dias, ou anos deles, como se vê nos mesmos exemplos alegados, em que Daniel não entende os setenta anos de cativeiro de Babilônia escritos por Jeremias sendo que eles se acabaram de cumprir, e sobre as Hebdômadas e sua inteligência, ainda hoje há tanta controvérsia entre os teólogos, e quase a mesma sobre o conciliar a cronologia do texto de Moisés com a de São Paulo, acerca dos anos do cativeiro do Egito.

 

11.ª Supõe-se que admitir o dito estado da Igreja e reino de Cristo, se segue também admitir outros adventos, e entender que há de vir Cristo visivelmente do Céu à Terra a obrar e consumar o dito estado, porque Deus - non adimplet effectus possibiles - senão por causas viáveis, a qual suposição é totalmente alheia do estado e opinião de seus autores e minha, porquanto ainda que o dito princípio dos efeitos e causas visíveis fora universalmente verdadeiro, as causas visíveis próximas, que tantas vezes tenho assinado, são os pregadores evangélicos. e o sumo pontífice; e o instrumento temporal e remoto é o imperador, e a sua assistência também visível, sem ser necessário que Cristo imediata e universalmente venha do Céu à Terra a obrar as ditas conversões, como até agora tem feito em todas as da sua Igreja, por meio dos pregadores, assistidos quando é necessário, por príncipes católicos e pios.

 

12.ª Supõe-se que o dizer eu, ou ter para mim, que os ditos pregadores hão de converter o mundo, por motivos da potência temporal daquele imperador, eu nunca tal disse nem imaginei, senão que os motivos que há de propor hão de ser os da claridade da nossa santa fé, sem concorrer o dito imperador mais que com a assistência da segurança, ou despesas necessárias aos pregadores.

 

13.ª Supõe-se que eu digo, ou suponho, que o poder temporal do dito imperador de tal maneira será necessário para a dita conversão, que só assim se poderá fazer - et non aliter- esta suposição também não é minha nem dos autores da dita opinião, os quais só dizem que o dito imperador será somente conducente ao fim, e ao mistério da conversão e só - per accidens - necessário para ela, como foi necessário a S. Francisco Xavier, para converter a Índia, que El-Rei D. João o III lhe desse nau em que passasse, podendo levá-lo por terra ou por cima das águas, como se diz levou a S. Tomé, e podendo o dito santo converter os índios sem assistência e favor dos vice-reis, que ele confessa por importante, S. Francisco os não converteu sem eles.

 

14.ª Supõe-se que este modo de conversão é mero judaico, e quer ajuntar a Cristo com o Anticristo, porquanto o motivo por que os judeus rejeitam a Cristo, e o não quiseram receber por Messias, foi porque veio pobre sem potência temporal, mas já Fica mostrado que o dito modo é de pregação e conversão, que supor-se (sic) é o que pratica hoje a Igreja, que nelas houve príncipes cristãos aprovados por todos os santos pontífices e exercitados pelos bispos e varões apostólicos e mais santos, como S. João Crisóstomo, S. Domingos e outros; porque a assistência dos príncipes não tira que o objeto da pregação seja Cristo crucificado, o qual sem embargo de ter sido - judaeis quidem scandalum, gentibus autem stultitiam - quando Deus tira o véu dos olhos a uns e toca o coração dos outros o adoram na mesma cruz.

 

15.ª Supõe-se que as felicidades prometidas, e o dito estado do império consumado de Cristo, são sumas felicidades, delícias e riquezas, e outras que corrompem os bons costumes, sendo que tal coisa não disse nem escrevi, senão tudo em contrário, como são virtudes, santidade, graça e salvação, na forma em que o prometem os autores da dita esperança, não havendo nela coisa temporal, mas que por meio do império católico daquele príncipe, e paz universal e vitória contra infiéis, coisas todas ordenadas ao bem espiritual da Igreja, e as quais pede o mesmo Deus para a continuação.

 

16.ª Supõe-se que de admitir a opinião que entende pelo - cornu parvulum - de Daniel, o império otomano se segue, que não é Cristo, ainda vindo ao mundo, porque as duas visões do dito profeta falam do primeiro advento do mesmo Cristo, mas nem os autores da dita opinião ou interpretação sendo tantos e tão católicos, religiosos e doutos, quiseram assinar tal erro, nem entenderam que ele se seguia do dito princípio, pois a mesma ilação se pode fazer, que pelo –cornu parvulum - e sua extinção entendo o Anticristo, porque tão certo é não estar ainda destruído o Anticristo, como não estar ainda destruído o império do turco.

 

17.ª Supõe-se que em admitir o império temporal de Cristo, digo ou quero que Cristo veio ao mundo a restituir e restaurar o reino de Judéia e dos judeus; porque digo só, suponho, e creio que Cristo veio ao mundo a destruir o reino do Demônio e do pecado, e restaurar o gênero humano, e recuperar-lhe o reino do Céu, que pelo mesmo pecado se tinha perdido: e quanto à restituição dos judeus, não antes, senão depois de convertidos, só admito com a opinião acima referida, o que admitem os autores dela.

 

18.ª Supõe-se que o imperador é o Messias dos judeus, e que com a promessa dele os fomenta Bandarra; que este seu imperador havia de ser português e descendente de El-Rei D. Afonso Henriques, a quem, como ele diz, foram dadas as chagas de Cristo por armas, e que em virtude das mesmas chagas havia o mesmo príncipe destruir ao turco e vingar as injúrias da Igreja, e desfazer todas as heresias, e que em concurso de quatro reis havia de receber a investidura do novo impou da mão do pastor-mor, isto é, do sumo pontífice, e que ele havia de dar muitos perdões e indulgências, de que o dita imperador e seus vassalos irão armados à conquista da Terra Santa. Parecia-me que todas estas condições e propriedades, de nenhum modo podiam competir senão àquele imperador dos cristãos prometido por tantos santos, com as qualidades e para o mesmo fim, entendendo também que não contradizia isto o levar o imperador à conquista da Terra Santa gente de todas as leis; pois essa é a maravilha da conversão dos judeus, de que Bandarra fala; da qual suposição é natural conseqüência irem à dita conquista parte de todas as leis, nova e velha, mas já convertidos estes e sujeitos ao sumo pontífice, como e mesmo Bandarra expressamente diz.

 

19.ª Supõe-se que o Bandarra promete ao dito imperador grandes felicidades e riquezas, e exaltação temporal, sendo que o dito Bandarra promete ao seu imperador, é a vitória dos turcos; a exaltação em que fala não é do imperador, senão expressamente da fé, e as riquezas que promete da prata e oiro, são os autores que os ditos judeus convertidos prometem, não ao imperador, senão à Igreja e ao sumo pontífice, e à imitação do que ofereceram os Magos a Cristo, em reconhecimento da sua fé e obediência.

 

20.ª Supõe-se que Bandarra é suspeito de judaísmo, porque não sinala fim ao império do seu imperador, e que eu também incorro na mesma suspeita, porque ainda que lhe assinalo fim, e fingidamente: mas à certeza da suposição tirada de dois atos tão opostos, não se pode responder nesta vida, porque pertence ao juiz dos corações.

 

21.ª Supõe-se que o Bandarra é suspeito de judaísmo, porque supõe que o dito império há de ser com extinção do romano, como os rabinos ensinam e esperam, que há de fazer ô império do seu Messias: mas Bandarra - ut patet- não fala com extinção do império romano; e somente diz que o seu imperador com ser descendente D'el-Rei D. Fernando, não será de casta Goleima, isto é, alemão e da casa de Áustria, como eu interpretava.

 

22.ª Supõe-se que o Bandarra não diz que El-Rei D. João há de ressuscitar, mas o inferi assim das suas trovas, e porque me pareceu que elas o diziam, mão só pôr conseqüências errôneas, mas por suficiente expressão de palavras: assim que, do que interpretei, bem se segue que disse o que diz Bandarra, e se disse mal, segue-se que não soube entender as trovas de Bandarra, que é ignorância e não culpa, suposto que o ressuscitar um homem seja coisa que Deus tem feito muitas vezes, e por muito menores fins que os que parece se colheram do mesmo Bandarra, todos de grande glória de Cristo e bem da sua Igreja.

 

23.ª Supõe-se que aqui parti a verdade de Bandarra com a verdade da Escritura Sagrada, e a certeza de ressurreição de El-Rei D. João IV com a de Isaque; e é certo que nem foi, nem quis fazer tal equiparação, e só disse e quis dizer, que a minha ilação naquela conseqüência era semelhante à de S. Paulo no caso de Abraão, e que aquele modo ou gênero de inferir, não só era discurso, senão de fé, pois nem só eu inferia pôr aquele modo ou gênero de inferir, mas também S. Paulo tinha feito a mesma inferência.

 

24.ª Supõe-se que chamar eu profeta ao Bandarra é sustentar aos judeus na sua profecia, inculcando-lhes que ainda tem profetas da sua nação contra o salmo - jam non est propheta et non cognoscet amplius - e posto que depois de escrever este texto, e de faltarem profetas naquele povo (como muitas vezes faltaram), teve ele não menos que todos os profetas canônicos: não fui eu só o que tive neste reino ao Bandarra por profeta, e que ele predizia os futuros, senão todos os que liam, interpretavam, alegavam, provavam e exprimiam, sem que por isso se presumisse de tantas pessoas doutas, católicas e timoratas, que tivesse alguma delas pensamento de favorecer na dita opinião os judeus, quanto mais nunca podia ser o Bandarra profeta do povo judaico, porque sempre o tive e tenho ainda pôr cristão-velho, e dado que fora da nação hebréia, sendo cristão e filho da Igreja, se segue que era profeta da mesma Igreja, e não da sinagoga, e santo como S. Paulo, S. João Evangelista, S. Jacó, e outros que escrevem os atos dos apóstolos, ainda que fossem hebreus de nação, nem por isso eram profetas dos judeus, senão de Cristo, e assim tive para mim, que na suposição do Bandarra ser profeta de Cristo e da Igreja, e de um reino cristianíssimo, como o de Portugal, correspondendo) a este a opinião e assunto de suas profecia., ou predições, que todas me pareciam ordenadas à exaltação da fé de Cristo e suas chagas, e extirpação de todo o gênero de heresias e não anunciando aos judeus, nem a seus tribos, mas que a sua redenção, fé e obediência da Igreja, e haverem de acabar e ter fim todos os seus erros.

 

25.ª Supõe-se dizer eu que Bandarra via futuros - intuitive - pelo mesmo modo que é próprio de Deus; e tal coisa não disse nem escrevi, nem disputei, supunha somente que os via, ou podia ver por um de três modos com que os profetas vêem os futuros, e por isso se chamam – videntes.

 

26.ª Supõe-se que o dito Bandarra é suspeito de judaísmo, porque não fala na Santíssima Trindade, nem em Nosso Senhor, nem na paixão de Cristo, e que eu por comentar e seguir o mesmo, incorro na mesma censura: mas a verdade é que se não podia inferir os ditos erros pela razão que se supõe, porque há muitos e maiores livros de autores católicos e santos, que não falam em Nosso Senhor, nem na Santíssima Trindade, que é nome que também se não acha em toda a Sagrada Escritura pelo vocábulo - Trindade - bastando que se achem as pessoas em número, como também basta que se achem em Bandarra (como se acham muitas vezes) a saber: das três Pessoas da Santíssima Trindade, que é o que os judeus particularmente negam, acha-se assim mesmo nele o milagre da Redenção chamando a Cristo Redentor e Salvador, acha-se a paixão falando no Calvário e nas chagas muitas vezes e com muita honra, acham-se os sacramentos nomeando-os sempre com respeito, o batismo, crisma, ordem, e os corporais da sagrada eucaristia; acha-se finalmente o Inferno e glória- chamando a Cristo muito alto Rei da Glória, que é confessar manifestamente sua divindade; anunciando finalmente que serão contrários os signos e arriamos; e é certo que a heresia de Árrio e dos arrianos, como a dos judeus, é negar a divindade de Cristo, assim que pelos fundamentos da suposição não podia eu inferir que o Bandarra e o seu livro fosse suspeito de judaísmo.

 

27.ª Supõe-se que as palavras do dito livro do Bandarra - que os judeus serão cristãos sem jamais haver erro - são judaísmo dissimulado debaixo delas, as quais eu não entendi assim nem ainda sei como se poderá dizer que os judeus serão cristãos, e que a seita que agora seguem é erro, senão por aquelas mesmas palavras, principalmente dizendo o mesmo Bandarra em outra parte, que os judeus e os turcos se hão de acabar, e isto é o que eu digo, e o que se achará escrito nos meus papéis.

 

28.ª Supõe-se ser opinião minha que a mesma profecia pode ser verdadeira profecia e conter doutrina falsa; mas esta suposição, como as outras que se fundam em palavras equivocadas e as demo por de menos preço, envolve uma grande equivocação, porque a dita palavra - profecia - pode significar uma profecia, isto é, somente uma proposição profética, e neste significado é implicância manifesta, poder mesma profecia conter doutrina falsa, porque para ser profecia há de se revelada por Deus, e Deus mão pode revelar coisa falsa em nenhuma matéria, quanto mais em matéria doutrinal; em outro sentido pode a palavra profecia não significar uma proposição, senão um livro ou tratado de proposições proféticas, ou chamadas profecias, assim como o livro de lsaías se chama - Profecia - e não - Profecias - e o livro do Apocalipse de São João se chama - Apocalipse - e não - Apocalipses - e neste segundo significado, conforme a opinião comuníssima, que admite no mesmo sujeito verdadeira profecia e erro contra a fé, acerca de diversos objetos pela qual alega S. Crisólogo, e mais cinqüenta doutores, me pareceu bem podia e mesmo livro ou papel conter proposições verdadeiramente proféticas, e algum,: ou algumas que contenham falsa doutrina, escritas por ilusão ou ignorância, e ainda por malícia do que teve as verdadeira revelações; mas esta opinião ou modo de, dizer, se há de entender si das pessoas e revelações particulares, porque se a pessoa for ministro, e ainda intérprete da sua palavra, então pertence à providência divina - ex alio capite - estorvar, e não permitir, que nem por ilusão nem por malícia, nem por ignorância, diga coisa errada; e porventura quis com esta distinção conciliar as duas sentenças opostas, por que, como notei no papel apresentado na mesa, há dois ou três gêneros de verdadeiros profetas: os do primeiro gênero são canônicos, tiveram por ofício (como muitos) serem intérpretes de Deus, como Isaías e Daniel. Os do segundo gênero também são canônicos, mas não tiveram o dito efeito, como muitos, José e Davi. O do terceiro gênero, que não são canônicos, nem tiveram o dito efeito, como muitos santos, e outras pessoas ilustradas com verdadeiro espírito profético; e nas profecias ou escritos dos profetas do primeiro e segundo gênero, de nenhum modo, e em nenhuma opinião pode haver palavras que contenham falsa doutrina.

 

Porém, nas profecias ou escritos dos profetas do terceiro gênero, parece-me, que, conforme a opinião sobredita, não implicam poder juntamente haver verdadeira profecia, e erro contra a fé: assim como o mesmo sujeito tem profecia e erro no mesmo entendimento, por que não poderá também escrever essa profecia e esse erro no mesmo papel? De maneira que se um santo, depois de ter revelações de Deus, tivesse algumas ilusões do Demônio, não conhecidas por tais (como se lê de muitos), e nas ditas ilusões se contivesse algum erro material contra a fé, parece que poderia o dito santo no papel escrever as verdadeiras revelações de Deus e juntamente o erro da sua ilusão; e se um rústico ou idiota tivesse algum erro também material contra a fé, e durante este erro Deus lhe revelasse alguns futuros, parece que poderia o dito idiota escrever no mesmo papel as profecias da sua revelação, e mais os erros da sua ignorância. Finalmente, se qualquer homem a quem Deus revelasse futuros, e depois das ditas revelações caísse em algum erro contra a fé, e sem cair neste o quisesse proferir maliciosamente, parece que poderia escrever no mesmo papel juntamente assim as verdades da revelação de Deus, como o erro ou erros da sua malícia, e em todos estes casos, e qualquer deles, se segue que no mesmo papel, e na mesma escritura, debaixo do mesmo nome de profecias e revelações haveria verdadeiras profecias, ou proposições verdadeiramente proféticas, e reveladas juntamente, e outras que contivessem erros e falsa doutrina.

 

Isto é o que me pareceu se podia dizer coerentemente, suposta a dita opinião, a qual porém não é minha, senão de seus autores. Só advirto, que, do que acabo de dizer, se não infere coisa alguma contra o que tenho dito na ponderação 3.ª n.° 4, acerca da verdadeira profecia, porque somente se segue daqui, não se poder provar que estas profecias são verdadeiras profecias, ainda que verdadeiramente o sejam, porquanto suposto estarem escritas de mistura com erros e falsa doutrina, ou lhes falta parte da prova, conforme o primeiro modo de dizer, ou lhes falta a condição referida, conforme o segundo.

 

29.ª Supõe-se saber eu que o livro do Bandarra estava proibido por suspeito de judaísmo. Eu tal coisa não soube, antes supus sempre o contrário, não me vindo ao pensamento, que pudesse ser proibido, e muito menos proibido por suspeito de judaísmo, um livro que os senhores inquisidores e prelados deste reino consentiam correr nele manuscrito, e impresso, e que não só era lido e interpretado pelos mesmos prelados, mas consentindo ou aplaudindo que s alegasse nos púlpitos, e se imprimissem muitos lugares dele em Lisboa, com licença do santo ofício, enquanto se mostrava ter predito Bandarra os seus futuros meramente contingentes; e se afirmava com aprovação do mesmo santo ofício, que fora homem de boa vida, que não pode estar com ser suspeito na fé.

 

30.ª Supõe-se que em Roma se não proíbem livros senão por matéria de fé, e que nesta insinuava eu, podiam ser lisonjeados os castelhanos nos supremos tribunais da sagrada cúria: mas a verdade é imaginarem também por outras matérias graves, ainda que não sejam de fé, se podiam proibir, e se proíbem livros em Roma, como se proibiu o livro de Antônio Pores, e nessa suposição falava.

 

31.ª Supõe-se que eu tinha ódio ao sumo pontífice, e à sagrada congregação do santo ofício em Roma, por ela haver censurado as minhas proposições, sendo que tal notícia não tive, senão depois que se me leu nesta reclusão, e que o papel de que sou argüido do dito ódio, foi escrito e enviado ao conselho geral muitos dias ante dela, do qual papel se prova ser tão contrária à minha notícia e suposição, que nesse mesmo representava ao dito conselho geral o pejo que tinha, em que as partes do meu assunto, que tocavam a Portugal, fossem enviadas a Roma, onde tinha ouvido se remetiam alguma matérias, sujeitando no mesmo tempo esta e as demais, não só a um senão a dois tribunais do santo ofício, em Lisboa e em Coimbra.

 

32.ª Supõe-se que recusando de suspeitos nas ditas causas de Portugal aos ministros de Roma, debaixo da palavra - ministro - entendia ao sumo pontífice, e à sagrada congregação dos eminentíssimos cardeais superiores ao santo ofício deste reino, mas a verdade sincerissimamente é, que, segundo a informação que tinha dos estilos de Roma e Portugal, em tais casos entendi somente debaixo da dita palavra - ministros - aos qualificadores de Roma por votos consultivos que no conselho geral deste reino se houvesse de resolver, não sendo tão ignorante, que imaginasse, que debaixo do nome - ministros - se entendesse o sumo pontífice, nem que a todo o tribunal do santo ofício se podiam pôr suspeições, e que estas, sendo de superiores, se houvessem de julgar pelos inferiores; e por me não constar dos sobreditos estilos bastantemente, para purificar qualquer culpa ou desacerto daquele papel, acrescentei (como fica dito) a cláusula - no que me foi possível - e protestei por tudo o que por minha ignorância houvesse errado.

 

33.ª Supõe-se que as ditas suposições acerca dos ministros romanos, foram postas em ordem a muitas coisas de fé, sendo certo que todo o meu intento e receio só era por alguns pontos históricos, e juntamente pela história e juramento D'el-Rei D. Afonso Henriques, que, como no princípio disse, era a pedra fundamental de todo o assunto no tocante a Portugal; porque sendo o dito juramento tão recebido, e tantas vezes aprovado neste reino pelo santo ofício é certo que todas as nações estrangeiras, e muito mais os castelhanos e italianos, zombam da verdade da dita história, e a têm por mera impostura e fábula, máxime dizendo-o assim Mariana[1] que em Itália é o texto das histórias de Espanha; e sendo lá reprovada a dita história, ficava o meu assunto perdido, estando pelo contrário certo que em Portugal se não havia de reprovar.

 

34.ª Supõe-se que o dizer eu, e representar ao conselho geral, que o assunto do dito livro era tão grande, que pessoa douta e sábia o julgava por digno de um concílio, mostrava - mere hereticum - querer apelar do sumo pontífice - ad concilium futurum - eu não sei como destas palavras se podia presumir em mim tal extremo de contumácia e desobediência à sé apostólica, sendo as mesmas palavras escritas a um tribunal e ministros, não só súditos, senão os maiores reverenciadores do sumo pontífice, escritas em uma súplica em que lhe pedia com muita submissão tempo suficiente para discutir os fundamentos do dito assunto, e os sujeitar logo ao mesmo tribunal sagrado para com aprovação sua saber o que havia de seguir em todas as matérias dele, como expressamente se contém no dito papel.

 

35.ª Supõe-se, finalmente, que quando escrevi em uma parte de meus apontamentos, que o Bandarra podia ser chamado ao santo ofício por calúnias, e em outra parte com uma autoridade de Castro, que alguns censuradores por quererem censurar proposições alheias, mostravam erro e ignorância das suas; e em ambos os ditos lugares quis remoquear aos ministros do santo ofício, atribuindo-lhes as calúnias, ou erro, ou ignorância; e verdadeiramente que quando isto me foi dito fiquei afrontado e corrido, de que tal descomedimento e despropósito cuidasse do meu pouco juízo, sendo coisa muito clara, que no primeiro lugar que falava dos denunciadores do Bandarra, que o podiam acusar caluniosamente com falsos testemunhos, de que se não livra tribunal algum, por mais puro e santo que seja, como, segundo minha lembrança, digo no mesmo lugar: no segundo dos censurados, aludia e remoqueava nomeadamente ao padre Luís Alves, reitor do colégio do Porto, e ao abade fr. Jorge de Carvalho, por suspeitar que algum deles, ou ambos, haviam denunciado certas proposições, de que se me faz cargo, que eu tinha dito em conversação, mal entendidas ou interpretadas por eles, e constando como consta, que os ditos apontamentos eram para fazer o papel ou livro que tratava de apresentar aos senhores inquisidores, e de suas mãos havia de passar aos revedores e qualificadores do santo ofício: bem se vê que quem esperava dos ditos ministros seu bom despacho, não os havia de querer picar com palavras tão indignas e descorteses, sendo igualmente certo que as ditas palavras se haviam de riscar, e não haviam ser copiadas, sem que ao compor, e ordenar o dito papel, me ocorresse a menor imaginação de que podiam ser tomadas ou torcidas na suposição em que eu agora as vejo.

 

Estas são, senhores, as suposições de que se me forma não parte do meu processo, senão todo ele, supostas e deduzidas todas contra a formalidade do fato ou contra a formalidade do sentido, ou quando menos contra a formalidade da tenção, e do ânimo com que foram proferidas as proposições, como em todas fica mostrado ou apontado, quanto sofreu a brevidade deste memorial, e como mais claramente conhecerá quem as considerar atentamente: sobre elas peço se me ponderem principalmente duas coisas:

 

1.ª Que todas as proposições tomadas contra a suposição verdadeira, ou formal, ou de fato, ou dos fundamentos, ou do sentido, ou da conhecida tenção com que as proferi, de nenhum modo são proposições minhas, e como de proposições não minhas, se me não deve fazer cargo, nem atribuir erro ou culpa delas.

 

2.ª Que não subsistindo por qualquer dos sobreditos modos as ditas proposições, ficam também sem substância, e de nenhum vigor todas as suspeitas censuradas, e conseqüências que delas se deduzem, por mais exata e natural que pareça a forma com que são deduzidas, da qual forma agora direi.

 

PONDERAÇÃO 5. ª
ACERCA DAS CONSEQÜÊNCIAS

 

Posto que das sobreditas suposições, e do modo com que me foram supostas e introduzidas, reconheci com grande admiração, e edificação minha, a superlativa sabedoria, vigilância, e circunspecção deste sagrado tribunal, e alta prudência inspirada por Deus, com que está ordenada a eficácia de seus meios para convencer, penetrar, descobrir, e tirar outro qualquer erro ou engano contra a pureza da fé, por mínimo e oculto que seja.

 

Muito maior conhecimento formei de tudo isto no artifício e disposição dos argumentos e conseqüências com que tão apertadamente fui argüido, redargüido, e instado, posto que todos fossem contra mim; e porque tenho tão justos fundamentos para recear, que sem embargo de serem fundados sobre as suposições tão diversas das minhas se possam persuadir e fazer crer, é-me necessário ponderar e descobrir o dito artifício dos argumentos ou conseqüências: para que se veja que nenhuma delas, nem seus erros me devem prejudicar, porei de cada gênero um exemplo.

 

As conseqüências do primeiro gênero são aquelas em que do grau remotíssimo em concurso se infere a diferença particular como disséramos: este indivíduo é animal, logo é víbora: assim nem mais nem menos se me atribui a peçonha. Exemplo. Os judeus esperam que o seu Messias há de ser imperador do mundo, e o turco também espera semelhante aumento ao seu império, até aqui o proferente diz que o imperador acima referido há de ser imperador do mundo: logo esta esperança é judaica e maometana, como se não for possível e imaginável haver imperador no mundo, senão daquelas nações e daquelas seitas

 

O mesmo argumento se pode fazer em contrário: os espanhóis e franceses esperam e aspiram à monarquia universal: logo esta esperança e católica e cristianíssima, e melhor ainda sobre os fundamentos e autoridades do mesmo assunto. Muitos santos e muito varões insignes em virtude e espírito de profecia, prometem o sobre dito imperador, logo esta esperança é santa, logo esta esperança profecia.

 

As conseqüências do segundo gênero, são as em que se cala o que digo, e se supõe o que não digo: e de premissas em que se cala o afirmado, e se supõe o negado ou imaginado, que muito se infiram tão horrendas e afrontosas conseqüências como as que tenho ouvido? Exemplo no mesmo imperador: eu digo com os autores da dita opinião, que este imperador há de ser europeu, cristão, descendente de príncipes cristãos, zelosíssimo do serviço de Deus, propagador da fé de Cristo, e que todo o poder e autoridade se há de empregar nele, e no serviço da Igreja e obediência ao sumo pontífice ajudado deste imperador se há de converter e reformar o mundo florescendo mais que nunca o culto divino, a justiça, a paz, e todas virtudes cristãs, acrescentando pelos fundamentos particulares deste reino, que o dito imperador há de ser português, e rei do nosso reino de Portugal e cabeça do império, Lisboa. E sendo esta a manifesta verdade do meu assunto, tantas vezes repetida em todos os meus papéis, e tão coerentemente achada em todas as partes e fragmentos deles, e sobre se calarem todas as qualidades proferidas do dito imperador, as que se supõe e afirmam que eu digo, ou quero dizer, são que o seu império há de ser de sumas delícias e riquezas, e ambiciosa potência, e que há de converter o mundo em si, e não a Cristo, e que os motivos da conversão não hão de ser os da cruz, fé, e divindade do mesmo Cristo, senão de potência humana, e finalmente, que há de ser este imperador do verdadeiro Anticristo, Messias esperado pelos judeus, e judeu de nação e profissão, e que Deus lhe há de dar o império ex observationibus legalibus, isto é, pela observância das leis e cerimônias judaicas, e infinitas coisas deste gênero, nem ditas, nem imaginadas por mim, nem ainda imagináveis. E como ao dito imperador se lhe tiraram as propriedades que lhe dão os santos e autores católicos, e lhe aplicam e lhe põem as que os judeus atribuem ao seu Messias, que muito é que sendo imperador cristão, pareça -Anticristo; e que sendo príncipe católico, pareça judaico?

 

Senhores, se a S. Cristóvão lhe tirassem dos ombros o Menino Jesus, e lhe pusessem uma esfera, há de parecer atlante; e se ao Menino Jesus lhe tirarem da mão o mundo e a cruz, e lhe puserem um arco e aljava, há de parecer Cupido; pois assim como um homem católico e santo, tirando-lhe as suas insígnias, e pondo-lhe outras, se pode converter em um monstro gentílico e fabuloso, e o mesmo Cristo em um ídolo, assim tem sucedido ao imperador do meu assunto, sem embargo de ser tão católico e pio, e tão católicos e santos os que o prometem, porque lhe tiraram as suas insígnias, e lhe puseram outras

 

As conseqüências do terceiro gênero, são as que se fundam na equivocação ou impropriedade dos nomes, passando debaixo deles de um significado a outro. Exemplo nos milenários: os milenários fundam a sua opinião nos mil anos do cap. 2 ° do Apocalipse do qual lugar também usa o proferente em prova do seu terceiro estado do império de Cristo; logo também é milenário? Até aqui a chamada opinião dos milenários é condenada, errônea, herética e judaica: logo o proferente segue os mesmos erros, e é quando menos suspeito de heresia e judaísmo.

 

Para que se veja o artifício desta conseqüência, é necessário que os milenários, própria ou impropriamente tomados, se distingam em três espécies. Os milenários propriissimamente e da primeira espécie são os que tiveram pôr cabeça a Cirinto, e foram condenados no concílio hierossolomitano, como verdadeiros hereges, com mistura de judaicos. Os milenários também propriíssimos e da segunda espécie, a que deu princípio S. Dapias, discípulo de S. João Evangelista foram muitos padres e santos antigos que tiveram alguns erros materiais, não condenados no concílio geral romano, como quer Barônio nem em outro algum concílio; mas geralmente reprovados pela comum estimação da Igreja.

 

Os milenários propriamente e propriissimamente, e da terceira espécie, são muitos santos, teólogos e expositores modernos que, impugnando de todo a dita opinião dos padres antigos, tomaram somente dela e dos seus fundamentos, o que contém doutrina sã, provável, e de grande glória de Cristo, e concorda com a sagrada escritura, e com revelações modernas de muitos santos, e vem a ser um estado de nova perfeição, e maior na última idade da Igreja, a qual em tendem os mesmos autores se descreve na última parte dos Cantares de Salomão - quibus positis - se descreve o artifício da sobredita conseqüência, respondendo a ela em forma, desta maneira: logo também o proferente é milenário: distingo; é milenário propriamente, ou da primeira espécie. que contém heresias; ou da segunda, que contém erros: nego; é milenário da terceira espécie, propriamente ou impropriamente, que contém doutrina sã, católica, e recebida de grande glória de Cristo, concedo.

 

As conseqüências do quarto gênero, são aquelas que de um príncipe católico se infere uma ou muitas conseqüências heréticas. Exemplo: o proferente diz e tem para si, que todo o cristão deve imitar a Cristo: logo é ditame e parecer do mesmo proferente, que os santos (os quais foram os maiores imitadores de Cristo) hão de ressuscitar antes da ressurreição universal, assim como Cristo ressuscitou antes dela. Até aqui os judeus têm para si, que o Messias há de trazer consigo aos patriarcas antigos ressuscitados; e os milenários dizem semelhantemente, que Cristo vindo a este mundo, há de ressuscitar os mártires antes da. ressurreição universal; logo o proferente tem erros dos judeus, e dos milenários. Sobre este assunto não direi palavra, só peço se pondere acerca dele, que se um princípio tão católico como dizer que todo o cristão deve imitar a Cristo se me inferem tais conseqüências, que será sobre tantas suposições assim referidas, tão alheias do fato do meu verdadeiro sentido, como da fé e doutrina que sigo.

 

PONDERAÇÃO 6. ª
ACERCA DAS RESPOSTAS

 

Sendo tantas, tão várias e tão terríveis as suposições referidas, e as conseqüências e censuras que delas e sobre elas se me tiraram e argüíram, quase posso afirmar, que a nenhuma tive lugar de responder, ao menos cabal e plenariamente, como agora peço se pondere pelas razões seguintes:

 

Primeira, porque as matérias são tantas e tão pouco tratadas, e envolvem tantas dependências, questões e suposições, e são tantas as dúvidas e dificuldades que sobre cada uma delas pode ocorrer ou argüir-se, que quase é impossível haver-se de explicar e satisfazer a tudo por papel, ainda que este fora muito largo, e ainda que as dúvidas e dificuldades se propuseram muito clara e descobertamente, por ser o papel um intérprete mudo, que só mostra o que leva escrito, sem poder explicar ou distinguir, nem responder ao que nele, dele, e contra ele se me interpreta ou argüi, o que falando se pode fazer, e sendo ouvido, que foi a causa por que eu representei ao conselho geral, me permitisse dar razão de mim verbalmente.

 

Segunda, porque pedindo muitas vezes que me fossem dadas ou quando menos lidas as proposições censuradas por suas próprias e formais palavras, nunca o pôde conseguir, argüindo-as somente das perguntas que se me faziam, e por esta razão ainda que as respostas se ajustavam à formalidade das perguntas, não se podiam ajustar à formalidade das proposições.

 

Terceira, porque as ditas proposições censuradas (como vi agora, que me foram lidas) pela maior parte não são proposições símplices, senão complexas, compostas de muitas proposições, ou eqüipolentes a elas, sem distinguir sobre qual ou sobre quais caiu a censura, donde se segue, que ainda que me fossem declaradas em próprias formalidades, não poderia eu entender quais eram os pontos censurados, como ainda agora os não entendo em quase todos, bastando-me só entender que as ditas censuras estão aprovadas, para; sem mais discorrer sobre elas, as aceitar em qualquer sentido, e sobre todos e quaisquer pontos a que se refiram.

 

Quarta, porque nas perguntas que se me fizeram nos exames, não podia responder senão ao precisamente perguntado, nem me era permitido dilatar-me nas respostas, com que deixava de dizer muitas coisas importantes à inteligência e descargo da matéria delas.

 

Quinta, porque os argumentos e instâncias das admoestações envolviam ordinariamente matéria nova, e não de menor força que as das perguntas; e estes ficaram ou só respondidos por termo: graves, ou totalmente sem resposta.

 

Sexta, porque o Tratado que compus nesta reclusão, como foi escrito tanto tempo antes dos exames, de nenhum modo podia satisfazer nem responder às coisas que se argüiam nela, por serem todas fundadas, como fica mostrado, em suposições alheias do fato e matéria de assunto, e de todo o pensamento e imaginação minha.

 

Sétima, porque ainda que desde o primeiro dia, e primeira sessão dos exames tanto que conheci das ditas proposições, pedi logo papel e tinta para, antes de outra notícia, fazer uma idéia breve em que declarasse mais o verdadeiro argumento do meu assunto, partes dele, e com que desfizesse a equivocação com que via confundir o império de Cristo com o do imperador e ministro do mesmo Cristo, e de sua Igreja, da qual equivocação ou confusão de pessoas e do império, se seguia um labirinto de enredos e conseqüências inexplicáveis; de nenhum modo se me concedeu o dito papel, e só me foi prometido para seu tempo, continuando por esta causa ás ditas conseqüências, suposições, e confusões, sem eu as poder bastantemente desembaraçar e declarar, por não dar o perguntado lugar a tanto.

 

Oitava e última, porque sendo tantos e tão dilatados os exames, e todas as perguntas deles armadas com tantos artifícios, e argüidas com tanta sagacidade e sutileza, como dos mesmos exames se vê, e depois replicadas e tornadas a instar com toda a força de razões e textos, e por pessoa de tantas letras, experiência, sobre ter antevisto matérias e os autores delas, e escolhido as maiores e mais dificultosas e perigosas, era eu obrigado a responder a tudo de repente que se me perguntava ou argüia sobre elas, sem emendar ou mudar palavra, estando destituído de todo o socorro de livros, e sem procurador com quem pudesse consultar um ponto, ou ele pudesse estudar por mim, sendo o meu cabedal tão limitado, como é notório, e havendo tantos tempos, que pela minha reclusão e antecedente enfermidade, estou tão remoto de todo o gênero de estudo, quanto mais do que era necessário para tanta variedade de matérias e controvérsias, que tocam e envolvem todo o gênero de escrituras.

 

Pelo que, e por tantas outras razões de incapacidade, quantas concorrem em mim mo estado presente, mão será maravilha que em alguma ou muitas destas respostas haja errado, por mais não saber nem alcançar, do que tudo me retrato e peço perdão, esperando juntamente da benignidade deste tribunal, que suposto haverem ficado tão defeituosas as ditas respostas por todas as causas sobreditas, e mui particularmente pela minha última desistência, se me supram e hajam por supridos todos os ditos defeitos.

 

PONDERAÇÃO 7.ª
ACERCA DAS DENUNCIAÇÕES

 

Discorrendo sobre os fundamentos com que podiam ser denunciadas coisas tão sem fundamento, como a da proposição ou proposições, de que ultimamente fui argüido, tendo feito menos reparo das antigas por sua matéria, tudo quanto se me oferece acerca de uma e outras, se reduz a ignorância ou a malícia dos delatores, posto que mais a malícia que ignorância, e assim entendo que o poderia provar facilmente, se me fosse dada notícia de quem os delatores eram.

 

Funda-se a presunção de ser por malícia nos muitos inimigos que tenho, e nas muitas ocasiões que tive, e circunstâncias que em mim concorreram para os ter, assim religiosos como seculares.

 

Quanto aos seculares, a mercê que me fazia o Senhor Rei D. João IV, o príncipe, e a rainha, fez meus capitais inimigos a todo os que de mais perto assistiam aos ditos príncipes, e procuravam o valimento e lugar que imaginavam lhes tirava o meu fora do paço; não era menor ocasião de grandes ódios o ruim despacho de muitos requerentes, que me pediam ajudasse suas pretensões no que, pudesse; e porque não podia quanto elas queriam, de amigos se tornavam inimigos. A este número também pertencem, ainda com maior razão, todos os embaixadores e ministros das embaixadas cujas cifras eu tinha, e sua majestade ordenava me dessem notícia de todos os negócios, e os não resolvessem sem ouvir o meu parecer, com o qual sua majestade ordinariamente se conformava, tendo-me os ditos ministros como sobre ronda de suas ações, e temendo á inteireza dos meus avisos e informações, pelo crédito que el-rei me dava.

 

Aos inimigos que tinha por meu respeito, se ajuntavam também os dos meus parentes, os quais vingavam muitas vezes em mim, o que não podiam neles, ou neles o que não podiam em mim, do que há muitos exemplos em Portugal, e no Brasil, por serem dos maiores ministros daquele estado.

 

No Maranhão, pelo zelo da conversão e liberdade dos índios, que eu pretendia, consegui geral ódio, não só dos moradores de toda aquela terra, senão também dos governadores e ministros que lá vão de Portugal, e de outros ainda maiores, que sem lá irem por vias públicas e ocultas, têm lá seus interesses. Fiados no poder destes interessados, se atreveram a me expulsar a mim e a meus companheiros, levantando-me para dar algum ser a tão feio excesso, e provando-me com muitas testemunhas, que eu queria entregar o Maranhão aos holandeses: se lá houvera santo ofício, pode ser que lhe não fora necessário irem buscar o falso testemunho tão longe.

 

Quanto aos religiosos, podem ser estes da minha religião, ou de outras, particularmente daquelas que têm maior emulação à companhia, e seus sujeitos: entre todas sou mais odiado, das que têm conventos no Maranhão, por me terem por inimigo descoberto, sendo a verdade, que venerando a todos os religiosos quanto merece o seu hábito, só me não podia conformar com a perniciosa doutrina que nos púlpitos, confessionários, e nos testamentos, seguem acerca do injusto cativeiro dos índios, que é o maior impedimento para a sua conversão.

 

E porque esta foi a causa por que El-Rei D João encomendou à companhia as missões daquela gentilidade, com a morte do dito rei trataram de se desafrontar deste que tinham por agravo, e foram eles os principais instrumentos da minha expulsão, seguindo-me sempre em toda a parte com o mesmo ódio, que nas mudanças da fortuna antes se farta, do que se compadece; mas quando faltaram estes acidentes particulares, ou encontros particulares, e outros semelhantes, bastava a aceitação geral com que era ouvido na corte, e lidos no mundo os meus papéis, para que os oficiais do mesmo ofício (que são os maiores sujeitos das religiões) lhes não pesasse de ver a minha doutrina abatida e mal avaliada, podendo também acontecer que tenham menos parte nesta dor os mesmos avaliadores. Deixo de representar e pedir a vossas senhorias o que neste escrúpulo pudera justamente, porque sei que a justiça e inteireza de todos os senhores que julgam as causas do santo ofício, tanto há de examinar em qualquer qualificação a verdade dos fundamentos, como a pureza dos ânimos, sendo fácil de conhecer nos movimentos da pena, se a move a caridade ou o afeto.

 

Nos religiosos da minha religião, são tanto interiores mais sensíveis os motivos da emulação, quanto de mais perto viam diferença com que el-rei me honrava, e os grandes me buscavam me deferiam, sentindo também naturalmente os pregadores antigos autorizados, que se desse aos meus poucos anos o título de pregado d'el-rei, que as suas cãs e talentos melhor mereciam, principalmente sendo eu de província estranha, e mais de província do Brasil, e se presumiu que pediria eu a el-rei a divisão das províncias, e sustentava sua majestade a persistir nela; chegara a tanto extremo o zelo dos ditos religiosos, que negociaram com o padre geral que me despedisse da companhia, como com efeito se tivera executado, se el-rei o não, proibira.

 

Diante de Deus julgo que o dito zelo foi fundado em amor da religião, e não em ódio meu; mas se acaso alguns dos delatores são padres da companhia, muito é para ponderar, que ouvindo-me alguma proposição de que fizessem escrúpulo, não tivessem zelo para me advertir logo que reparassem no que dizia da religião, e que tivessem zelo para me denunciarem ao santo ofício!

 

Mas quando as denunciações não fossem motivadas do ódio ou malícia, podia facilmente ser que fosse do que acima chamo ignorância, e vem a ser a desatenção com que muitas pessoas, ainda que sejam doutas, assistem nas conversações, e na apreensão cor que geralmente os homens ou trocam a formalidade das palavras, ou a interpretação, e entendem em diversos sentidos do que são ditas, do que temos quotidianamente experiência os pregadores, a quem os mesmos que nos querem louvar, repetindo-nos o que dissemos, no levantam mil falsos testemunhos, dizendo-nos a nós mesmos outra coisa muito diversa do que temos dito: nascendo naturalmente este erro da forma do juízo de cada um, em que se recebe o que se ouve; se isto acontece em um sermão aonde um só fala, e todos estão atentos, que será em uma conversação, bastando que se não oiça um dizer para parecer que se afirma o que somente se refere, estando mais exposta a este perigo a conversação que for mais ordenada e discursiva. Da minha conversação sabem os que me tratam, que discorro sobre os pontos que se me oferecem, com ponderação das razões ou diferenças de conveniências, e das dificuldades e inconvenientes por uma e outra parte, sendo uma das disposições, premissas, e outras conseqüências, umas próprias, e outras impróprias, como sucede em todas as matérias que se disputam, e nos divertimentos de uma conversação, não é fácil que as apreensões sejam tão firmes e atentas, que não discrepem em qualquer palavra do sentido, ou disposição dela, sendo a dita discrepância como a dos botões, que basta arrancar-se um, para ficarem os mais fora da sua casa; assim me consta com toda a evidência, que sucedeu na conversação e denunciação do Porto, e da mesma maneira podia ter acontecido em quaisquer outras. E também além do ódio poderia ter sua parte a inclinação natural, que sempre nos portugueses pende para o pior.

 

PONDERAÇÃO 8.ª
ACERCA DO RÉU

 

Esta última ponderação, o fora melhor fazê-la outrem, do que eu, pois sou forçado nela a falar por mim, e de mim, mas o fazê-lo forçado, será desculpa das ignorâncias que disser, que assim S. Paulo a tudo o que disse, sendo tão verdadeiro, quando obrigado a falar de si se valeu da mesma desculpa, dizendo: - quasi incipiens loquar vos me coegistis. De duas coisas me vi principalmente argüir nos exames.

 

A primeira é de suspeito na fé, a segunda de presumido, e começando por esta segunda argüição - que quero saber mais que os padres e doutores antigos - já disse que acerca da zona tórrida, e dos antípodas, ensinaram os pilotos portugueses ao mundo, sem saberem ler nem escrever, o que não alcançou Aristóteles, nem S. Agostinho, pela diferença dos tempos; e sendo os tempos, como confessam os mesmos padres, o melhor intérprete, bem pode acontecer, sem maravilha, e cuidar-se sem presunção, que um homem muito menos sábio, depois do discurso de largos anos, e sucessos de algumas profecias, que os antigos e santíssimos por falta de notícias não alcançaram, as alcance, Palas, Arias Montano, Lugunensi, Pôncio, Scherlogo, Mendonça; e outros muitos, os quais expõem muitas escrituras proféticas, sucedidas nestes últimos séculos, confessando que os padres antigos não puderam pela dita causa conhecer o sentido literal delas.

 

Assim que, quando fizera eu o mesmo, fora um daqueles que nem por isso são notados de presumidos; mas não é este o meu caso, porque ainda que me atrevi a navegar por um mar tão profundo, e por meio de uma cerração tão escura, como a das escrituras proféticas, fui seguindo o farol de tanto número de santos, e doutores antigos e modernos, quantos no princípio ficam enumerados, dizendo o que eles primeiro disseram, e querendo só reduzir a um discurso e volume, o que eles escreveram dividido em muitos lugares.

 

Confesso, com tudo que se me pode replicar, que ainda em seguimento de outros autores, não era esta empresa para um homem tão idiota, como eu agora tenho acabado de conhecer que o sou; mas esta culpa tiveram em parte meus prelados, os quais de idade de dezessete anos me encomendaram as ânuas das províncias, que vão a Roma historiadas na língua latina, e de idade de dezoito anos me fizeram mestre de primeira, aonde ditei, comentadas, as tragédias de Sêneca, de que até então não havia comento; e nos dois anos seguintes comecei um comentário literal e moral sobre Josué, e outro sobre os Cantares de Salomão em cinco sentidos; e indo estudar filosofia de idade de vinte anos, no mesmo tempo compus uma filosofia própria; e passando à teologia me consentiram os meus prelados que não tomasse postilha, e que eu compusesse por mim as matérias como com efeito compus, que estão na minha província, onde de idade de trinta anos fui eleito mestre de teologia, que não prossegui por ser mandado a este reino na ocasião da restauração dele.

 

Em Portugal continuei os mesmos estudos, com a aplicação que todos sabem, sendo mais morador da livraria, que da cela não prejudicando em nada aos ditos estudos as peregrinações de Holanda, França, Inglaterra e Itália, onde fui enviado por sua majestade porque sobre a notícia que tinha muito universal dos livros, sendo sempre bibliotecário em todos os colégios, pude ver as melhores livrarias do mundo, e tratar os homens mais doutos, e consultá-los no estudo primeiro, e estudar todo o gênero de controvérsia, nem só na paz, senão com as armas na mão, ajudando-me, não pouco, o mesmo conhecimento das terras e mares, para a exata cosmografia e inteligência da história profana, eclesiástica e sagrada, para a qual também me apliquei muito à cronologia dos tempos, ordem e sucessão das idades do mundo, da Igreja, e dos homens grandes, que nelas e nele floresciam, querendo conhecer os ditos homens pelas suas obras, e lendo-as para isso nas suas fontes, principalmente as dos santos padres e expositores da escritura, a qual passei por vezes toda, e mais particularmente os livros proféticos, insistindo sempre no sentido genuíno e real, e pretendido pelo Espírito Santo, sem me divertir nas folhas e nas flores (que é o estudo ordinário dos Portugueses), e procurando sobretudo a coerência de uns lugares com outros, de modo que todos se pudessem entender concordemente, sem contradição ou repugnância alguma em todo o texto sagrado.

 

Estas são as diligências que fiz em toda a minha larga vida, sendo por mar e por terra meus companheiros inseparáveis os livros, e estas são também as partes que eu lia e ouvia dizer se devia compor o bom intérprete das escrituras, donde resultaram as razões e aparências, porque eu, com pouca culpa, e outros com não pouca temeridade, se enganaram comigo, entendendo que na minha insuficiência havia capacidade para uma obra que tanto excedia a limitação do meu cabedal e talento.

 

Quanto às suposições de fé, depois de dar infinitas graças a Deus por me chegar a estado em que era necessário dar razão de mim em tal matéria, peço aos senhores inquisidores sejam servidos, primeiro que tudo, de se informarem dos procedimentos deste indigno religioso, principalmente no tempo em que escreveu o papel de que se tomam estes fundamentos, para que julguem ao menos se o rigor da sua vida, e o seu zelo da disciplina religiosa, e do culto divino da propagação da fé, e da salvação das almas, da reformação dos costumes, da freqüência dos sacramentos, da promoção à piedade e de assim entre os portugueses, como infiéis, índios, e outros, eram ou podiam ser de homem que não amasse a Cristo, nem cresse na sua fé? E se outrossim, eram ou podiam ser de homem que não amasse a Cristo, os assuntos de seus sermões, e matéria e eficácia deles, e as doutrinas de todos os domingos, uma que fazia na matriz aos índios na sua língua, e outra aos estudantes e portugueses no seu colégio, a que concorria todo o povo, e as confissões gerais, e mudanças de vidas que resultavam das ditas doutrinas e pregações, e dos livros espirituais, principalmente da diferença entre o temporal e eterno, de que levei muitas a este fim, que repartia e fazia repartir aos que eram capazes daquela lição; e se era de homem que não amasse a Cristo, nem cresse na sua fé e contínuo socorro de todos os pobres, que são neste mundo os substitutos do mesmo Cristo, aos quais chegou a dar-lhes a sua própria cama, dormindo daí por diante em uma esteira de tábua, sem jamais se negar a pobre, coisa alguma que houvesse em casa aonde ele se achava, tendo dado a mesma ordem a todas as outras?

 

E porque naquelas terras não havia botica, a mandava ir todos os anos deste reino, a grandes despesas, para a fazer comum de todos os enfermos, assim pobres, como ricos, procurando e ajudando a que se fizesse um hospital para os soldados que morriam ao desamparo, solicitando as causas dos presos, e intercedendo por eles, e livrando muitos, e mandando à cadeia muito freqüentes esmolas, e informando-se dos párocos e dos confessores, das necessidades que havia ocultas, as quais remediava também ocultamente, e com maiores socorros do que se podia esperar de quem professava pobreza? Ou se era de homem que nem cresse, nem amasse a Cristo, o cuidado e a vigilância, e as vigílias e indústria que tinha, para que nenhum gentio ou catecúmeno morresse sem batismo, nem algum batizado sem confissão, indo muitas vezes quatro e seis léguas a pé, e muitas vezes por quinze e vinte, atravessando bosques e rios, sem ponte nem caminho, caminhando de dia e de noite para confessar a um índio enfermo? E posto que nem as suas forças, nem as suas virtudes eram para outros maiores trabalhos, ao menos fazia que os empreendessem seus companheiros, indo alguns deles distância cinqüenta léguas, e sessenta, a acudir a um moribundo, só na dúvida de se poder achar ainda vivo, posto que se afirmasse estaria já o índio morto, como verdadeiramente se achava: e porque as distâncias e as necessidades eram muitas, e os sacerdotes poucos, compus um formulário breve, com todos os atos com que em falta do sacramento da penitência, se pudesse uma alma pôr em graça de Deus, escrito pelas palavras mais substanciais e breves, e de maior eficácia, assim na língua portuguesa, como na geral dos índios, para que qualquer pessoa nos casos de necessidade, pudesse suprir a ausência de sacerdotes.

 

E outra segunda parte na mesma forma, para poderem administrar o sacramento do batismo, e dispor para ele nos casos e termos mais apertados, a qualquer gentio; e outras semelhantes indústrias e prevenções, para que nenhuma alma se perdesse. E será finalmente de homem que não cresse em Cristo, nem amasse a Cristo, a constância, a que outros chamam pertinácia, com que tanto instou e trabalhou para arrancar por todas as vias daquele país o pecado universal, e como original dele, dos cativeiros injustos dos índios, sem embargo de ter contra si todos, não só seculares, senão eclesiásticos; e tomando a Portugal sobre esta demanda, e embarcando-se para isso em um tal navio, que no meio do mar se virou, onde tivera acabado os seus trabalhos, se Deus para outras maiores o não livrara quase milagrosamente?

 

E posto que o Demônio nesta empresa parece prevalecia, não deixou contudo o bom zelo de alcançar contra ele na mesma batalha muitas importantes vitórias; sendo a primeira o vigário da matriz da cidade do Grão-Pará, cônego da sé d'Elvas, o qual deu liberdade por uma escritura pública, a mais de sessenta escravos, com grande escândalo de suas ovelhas, granjeando com esta obra o indigno instrumento dela, o ódio de todos os homens, mas ganhando aquelas e outras almas para Cristo, porque e pelas quais, em tantos conflitos se viu por mar, e por terra, e expôs tantas vezes a vida às setas dos bárbaros, e à fúria dos elementos, sem bastarem estas demonstrações não sendo feitas no seu cubículo, senão na face do mundo, para o não argüirem de inimigo de Cristo? Não cuidavam assim os que lhe ouviam as práticas dos passos da paixão de Cristo, que ele introduziu na igreja de S. Luís do Maranhão, repartidos por todas as sextas-feiras da quaresma, sem que nenhuma houvesse, em que não fosse necessário acudir com remédios a muitos dos ouvintes, uns porque desmaiavam, outros porque abafavam de dor e de lágrimas, mas ainda era maior o fruto, e muito conhecido de uma história ou exemplo de Nossa Senhora, que também introduziu e pregava todos os sábados bem de tarde, a que concorria com grande devoção e expectação toda a cidade, introduzindo assim mesmo na dita igreja todos os dias o terço do rosário, de que ele era capelão, e não só vinham rezar os estudantes e meninos da escola, por obrigação, e para bem se costumarem, mas também se achava ordinariamente à mesma devoção, o governador, ouvidor-geral, provedor-mor da fazenda, o vigário-geral, o da matriz, e outras pessoas principais, sendo muitas as famílias que no mesmo tempo faziam o mesmo em suas casas, rezando pais, e filhos, e escravos, em um coro; e as mães, filhas, e escravas, em outro seguindo em tudo a forma a que eram exortados.

 

Isto é o que obrava o réu em a mesma terra, e no mesmo tempo em que foi escrito o papel de que se inferem as conseqüências porque e chamado ímpio e blasfemo; mas supostas as coisas referidas, e outras mais interiores (que se calam e passaram no Maranhão) em Coimbra estão os padres Francisco da Veiga, Jácome de Carvalho, e José Soares, que podem testemunhar neste caso, e estão em Portugal também o Dr. Pedro de Melo, Baltasar de Sousa Pereira, e o Dr. Jerônimo Cabral de Barros, governador, e capitão-mor, e sindicantes que foram naquele tempo e estado, meus capitais inimigos (e Deus o mundo sabem o porquê) aos quais sem embargo disso ofereço por testemunhas do mesmo e ao licenciado Domingos Vaz Correia, vigário-geral que foi muitos anos e o era naquele tempo do Maranhão, e os mestres pilotos e marinheiros que de lá me trouxeram duas vezes, os quais dirão, como as primeiras rações da minha mesa, ou do meu refeitório eram de todos os passageiros pobres, que em vinte e duas vezes, que me tinha embarcado, tomei sempre à minha conta.

 

E como sendo roubados e lançados na ilha Graciosa em número de onze pessoas, eu me empenhei para remediar a todos, dando a quatro religiosos do Carmo que ali vinham, hábitos e toda a roupa interior, e a todos os mais camisas, sapatos e meias, e a outras pessoas, vestidos que lhes eram necessários, e com escolher de entre os marinheiros um homem de respeito, e outro dos passageiros, lhes entregava sem limitação o dinheiro necessário para sustento de todos, em todo o tempo, que foram dois meses que nos detivemos na dita ilha, e na Terceira, aonde dei a todos embarcação e matalotagem de biscouto e carne, e pescado para quarenta dias, por serem os ventos contrários, com que passaram ao reino; e assim os ditos marinheiros e passageiros desta viagem, de que era mestre Fulano Soeiro, vizinho de Lisboa, como os da última de que era mestre Fulano Pontilha, vizinho de Aveiro, dirão também como nos ditos navios pregava todos os domingos e dias-santos, quando o mar e o tempo dava lugar, dizia missa, e havia muitas vezes confissões e comunhões, e várias doutrinas entre a semana, e lição da vida de santos; e todos os dias pela manhã o terço do rosário, e à tarde a ladainha de Nossa Senhora, a que ninguém faltava, e depois dela meditação para muitos que se achavam a ouvi-la, e à noite exame de consciência para todos, tudo com grande silêncio, ordem e campa tangida, como se fora convento ou noviciado de religião.

 

E o mesmo se observava em qualquer canoa de missão, sendo as primeiras peças da matalotagem o altar portátil, e o relógio de areia, e a campainha para os exercícios espirituais, conforme as regras e estatutos que fiz por ordem do padre geral, quando me mandou os seus poderes para que desse forma à missão, dispondo e ordenando nele tudo o que se havia de guardar, assim quanto à observância religiosa dos missionários, como no pertencente à conversão dos índios, as quais regras deduzidas em mais de 180 capítulos, foram todas aprovadas em Roma, sem se acrescentar nem diminuir palavra, e delas há em Portugal algumas cópias, de que se poderão ver os errados ditames do meu espírito e zelo da religião. Mas vindo ao particular da fé: de idade de dezessete anos Fiz voto de gastar toda a vida na conversão dos gentios, e doutrinar aos novamente convertidos, e para isso me apliquei às duas línguas do Brasil e Angola, que são os gentios cristãos boçais daquela província: e porque para este ministério me não era necessário mais ciência que a doutrina cristã, pedi aos superiores me tirassem dos estudos, porque não queria curso, nem teologia, e cedia dos graus da religião, que a eles se seguem. E posto que os superiores mo não quiseram conceder, antes me tiraram a obrigação do voto, e o padre geral fez o mesmo, eu contudo o tornei a renovar e insistir nele, até que ultimamente o consegui, indo-me para o Maranhão tanto contra a vontade d'el-rei e do príncipe, como é notório, levando e convocando de diversas partes da companhia para a mesma missão, mais de trinta religiosos de grandes talentos, com os quais trabalhei por espaço de nove anos, navegando neste tempo água doce e salgada mais de mil e quatrocentas léguas, fora muitas terras e desertos, sempre a pé, favorecendo Deus tanto o fervor daqueles operários, que já a missão e a fé estava estendida em o distrito de seiscentas léguas, que tantas contei eu, e andei desde a serra de Ibiapaba até o rio de Gapoios, sendo quatorze as residências em que assistiam religiosos, acudindo daí a diversas partes, e havendo algumas em que só os batizados inocentes em espaço de quatro anos passaram de seiscentos, além de muitos adultos batizados - in extremis - para os quais, e para outros que mais devagar se iam catequizando, compus ao mesmo tempo com excessiva diligência e trabalho, seis catecismos que continham em suma todos os mistérios da fé e a doutrina cristã em seis línguas diferentes; um na língua geral da costa do mar, outro na dos nhengaíbas, outro na dos bocas, outra na dos juramiminos, e dois na dos tapuias, tendo-se levantado e edificado de novo todas as igrejas das sobreditas residências, e outras muitas, servidas e ornadas todas pela indústria de quem escreve este papel, porque a todas dava vinho e hóstias para as missas, e cera branca para os dias principais, sendo levadas todas estas coisas deste reino de Portugal, porque naquelas terras as não há; como também iam de Portugal todos os ornamentos, uns ricos e outros decentes, e os sacrários e os altares portáteis, os cálices e as custódias maiores e menores, aquelas de grande majestade, cruzes, castiçais, alâmpadas, turíbulos, alguns de prata, e os mais de latão, muitos sinos, muitas imagens de Cristo, e de Nossa Senhora e de vários santos, umas de pintura para os retábulos, e outras de relevo estufadas, assim maiores para os altares, como menores para as procissões, para mostrar aos gentios, muito inclinados aos seus bailes, que a lei dos cristãos não é triste.

 

E assim mesmo todo o aparato dos batismos para se fazerem com grande pompa, necessária igualmente aos olhos da gente rude que só se governa pelos sentidos, muitas resmas de papel, tintas, e latas para os sepulcros, e imagens da paixão para as procissões da quaresma e semana santa, que tudo se introduziu desde logo para ficar mais bem fundado e estabelecido entre aqueles novos cristãos, sendo matéria de grande devoção ver derramar sangue por amor de Cristo e vestidos de disciplinantes à portuguesa, e muitos daqueles mesmos, que poucos meses antes de fartavam de sangue e carne humana, sendo raro o que naqueles dias não fizesse esta penitência, e para verem da mesma maneira com os olhos o mistério do nascimento de Cristo, cuja solenidade fazia celebrar com diálogos na sua língua representados por seus próprios filhos.

 

Mandava também ir de Portugal as imagens do presépio, e outras curiosidades daquela festa, de que se paga ainda a gente de maior entendimento; vários ternos de charamelas e flautas para maior solenidade das missas, as quais já alguns dos índios têm aprendido a cantar em música de órgão, e ajuntando-se a esta despesa, mais chegadas ao culto divino, outras ordenadas ao mesmo fim, que são as que lá chamam resgates com que se conciliam os ânimos dos bárbaros, e vem a ser grande quantidade de machados, fouces de roçar, facas, tesouras, espelhos, pentes, agulhas, anzóis, e de tudo isto milheiros levados com o demais de Portugal, muito pano de algodão para cobrir, ao menos decentemente, as mulheres convertidas; e outros vestidos de panos de cores alegres para os maiores ou régulos das nações; nas quais coisas todas, em duas vezes que fui ao Maranhão, em nove anos que lá estive, despendi com aquela nova cristandade mais de cinqüenta mil cruzados, pela valia da terra, sendo muito maior o cuidado e desvelo, que o valor, para que se julgasse se foi demasiado empenho com Cristo e a sua fé, para quem se diz que espera outro Messias.

 

E por que não pareça muito ou a quantidade ou quantia da despesa, esta se tirava de quatrocentos mil-réis que o Senhor Rei D. João me deu para este fim, situados nos dízimos do Brasil, donde vinham em açúcares, livres de direitos, e do meu ordenado de pregador d'el-rei, e das esmolas de meus parentes, que só para isso lhas aceitava, e de empenhos e dívidas que fazia, de que ficava por fiador o padre procurador do Brasil, e principalmente da grande e contínua liberalidade com que el-rei em sua vida, e a rainha por sua morte, assistiam àquela missão, não só por via da junta de propagação, senão por mercês e ordenados particulares.

 

Mas o que muito se deve notar é que a aplicação das coisas sobreditas, toda era e vinha a ser à custa da caridade e mortificação dos missionários, os quais comendo farinha de pau, bebendo água, e vestindo algodão tinto na lama, tiravam de si e da boca o que tinham por mais bem empregado no culto divino, e no socorro dos pobres de corpos das almas que iam salvar, sendo o maior trabalho e dificuldade de toda a missão, a cobiça insaciável dos que por cativar e vender os corpos, punham em risco as almas; e, para o fazerem mais livremente, e sem estorvo, chegar a prender sacrilegamente e desterrar aos que por amor das mesmas almas se tinham desterrado.

 

Mas agora sobre a impunidade que logram estarão muito satisfeitos desta sua ação, pois não consentiram que na sua terra pregasse a fé um homem a quem o santo ofício prendeu por crime contra ela, e tem por suspeito na fé.

 

Indo para o Maranhão, quis Deus que por uma tempestade arribasse o navio às ilhas de Cabo Verde, e conhecendo o desamparo espiritual delas, e de toda a costa de Guiné e Angola, escrevia daí apertadissimamente a sua majestade, metendo grande escrúpulo ao príncipe (que já ficava informado) para que se acudisse àqueles gentios e desamparados dos cristãos, de que resultara mais duas missões que ainda hoje se continuam com grande frutos, um dos religiosos da Piedade em Cabo Verde, outra de carmelitas descalços em Angola; e tornando depois a este reino a procurar o remédio (que depois foi causa da minha expulsão) com que se evitassem os cativeiros injustos, e se tirasse de uma vez no Maranhão este estorvo da conversão das almas, com o bem deles procurei juntamente o universal de todos os gentios, alcançando de sua majestade se informasse a junta da propaganda ou propagação da fé, de que sou deputado, pondo em prática com alguns senhores a congregação do mesmo fim, que pouco depois se instituiu em S. Roque, debaixo da proteção de S. Francisco Xavier.

 

Tornando em menos de um ano outra vez ao Maranhão, sobre novas instâncias de sua majestade, mas com novas leis sobre a conversão e liberdade dos índios, bastou só a fama das ditas novas leis, certificadas só com a firma de quem as veio procurar, para que muitos índios dos mais bravos e belicosos, se mandassem logo sujeitar à direção dos missionários, e por meio deles à obediência da fé e de sua majestade, havendo mais de vinte anos que por agravos recebidos faziam cruel guerra aos portugueses; e se a cobiça dos que tinham maior obrigação de guardar as ditas leis não fizera tão pouco caso delas, como das de Deus e da natureza, fora sem dúvida hoje aquela uma cristandade das mais florescentes e copiosas que teve a Igreja: contudo, enquanto com a vida se não se perdeu o respeito às suas ordens, houve lugar de se fazerem onze missões pelo sertão dentro até à distância de quinhentas léguas, sendo um dos missionários delas, que tinha obrigação de dar exemplo aos mais, este suspeito na fé. Nas quais missões não faltavam trabalhos e perigos, em que alguns dos missionários deram a vida, e trouxeram para o grêmio da Igreja muitos milhares de almas de diversas nações - potiguaras, tupinambás, cutingas, pacuias, poquis, maianas e anaias -, e se começava a introduzir a fé, e receber nos ticujuras e aronquis, que são dois grandíssimos reinos ou províncias, por onde também se abria o passo a outros muitos, sendo sempre maior a dificuldade e trabalho vencer a contrariedade dos portugueses, que a fereza dos índios e bárbaros gentios, isto é, quanto à fé destes, de que pudera fazer muito largas relações.

 

Quanto aos hereges, no tempo em que vivi e passei por suas terras me apliquei com toda a diligência ao estudo de suas controvérsias, tendo com eles batalhas quotidianas e públicas, por ser esta a sobremesa daqueles países, principalmente à noite; assistindo-me Deus com fortíssimos argumentos e evidentes soluções, que por não acrescentar suspeita de presumido, não digo que se não acham nos livros, e sempre pela graça divina com vitória da fé e honra da Igreja romana; e quando estive na mesma Roma, aonde tive também disputas, e convenci a um que entre eles era douto, e dispus um memorial para se apresentar à santidade de Inocêncio X sobre a conversão dos hereges do Norte, pelas notícias que eu tinha alcançado do que mais dificultava a sua conversão ou redução, o que se impediu com a repentina brevidade, com que o padre geral, a instância D'el-Rei de Castela, por seu embaixador o duque do Infantado, me mandou sair da cúria. Apliquei-me à apreensão de quatro índios canarins levados por desastre a Inglaterra desde a Índia, os quais tirei de entre aquela gente com dádivas, e os trouxe com muita despesa a Portugal para que se não fizessem hereges, como já se tinha feito outro seu companheiro, e um grumete português natural do Porto, moço de quinze anos, do qual tive notícia ia ferido de peste em um navio velho da mesma frota de Holanda em que eu tinha embarcado, e me passei ao dito navio, e assisti nele por mais de vinte dias, em que padeci três terríveis tempestades, até que morreu confessado nas minhas mãos para que os hereges o não pervertessem.

 

Quanto ao judaísmo não só procurei em Holanda e França reduzir a cegueira dos judeus em algumas conversações particulares (que pela ignorância deles não merecem o nome de disputas) mas diante dalguns, em Amsterdã, convenci ao seu mestre português, Manassés, e apelando para outro italiano, Mortera, também lhe pedi que me trouxesse, e que escolhesse o dia e lugar em que quisessem disputássemos, o que eles não fizeram, pelo tal Mortera não querer.

 

Mas agora poderá ser cuidem que me não pareceram bem as explicações do seu Manassés em ordem à conversão dos judeus; admirado de ver que os padres da companhia ingleses escrevem contra os hereges da sua Inglaterra, e os alemães contra os de Alemanha, os franceses contra os de França, e que os portugueses não escrevem contra ao judaísmo (que é a heresia de Portugal), determinei escrever contra eles o livro de que dei conta nesta mesa; mas porque me disseram em Lisboa pessoas inteligentes, que o santo ofício o não havia de deixar imprimir, desisti desta obra, e converti o zelo que Deus nela me tinha dado em a conversão dos gentios, despedindo-me totalmente da dos judeus, e dizendo com S. Paulo, e S. Bernardo: - Convertimur ad gentes.

 

Até dos turcos que só restam entre os inimigos da fé, me não esqueci, querendo ao menos tirar de entre eles aos renegados, e aos que estavam em perigo de o ser, dando a El-Rei D. João os meios com que isto se podia conseguir, com pouco dispêndio da fazenda, e grande utilidade da navegação, pois o reino está tão falto de marinhagem, que geralmente é a gente de que há mais cativos em Barberia.

 

E posto que o alvitre e meios foram muito aprovados de sua majestade, que lhe chamou inspirados pelo Espírito Santo, impediu-se a execução por outros acidentes, e porque com a minha ausência não houve quem o intentasse ou instasse: assim que, estes e outros semelhantes desserviços, são os que têm feito e procurado fazer à fé de Cristo este outra vez tão indigno religioso, que sobre este merece o nome de ímpio, de sacrílego, blasfemo, e outros mais feios e de maior horror.

 

Agora me lembra, que não só no Maranhão, mas na ilha Terceira, S. Miguel, e Graciosa, e em todos os navios em que naveguei, introduzi o rezar o terço do rosário publicamente a coros, aonde se tem pegado esta devoção a quase todos os navios mercantes, e das armadas, por indústria daqueles mesmos marinheiros, como eles mesmos me disseram, que é novo argumento do ódio que tenho a Cristo, e aos mistérios da sua vida, paixão e glória, e também a sua santíssima Mãe, minha única advogada e senhora nossa.

 

Contra tudo isto se me opõe, que sou favorecedor dos judeus, e se me prova com os dois papéis que antigamente fiz, e com ir a Roma e Holanda a procurar-lhe sinagogas, e serem admitidos neste reino, o que tudo é sem fundamento, e uma mera fábula do vulgo, a quem eu não havia de dar satisfação, escrevendo pelas esquinas de Lisboa os negócios a que era enviado por El-Rei: quais foram os negócios de Roma, pode dizer o senhor arcebispo eleito de Lisboa, a quem se deram as mesmas instruções, quando no mesmo tempo esteve nomeado embaixador extraordinário de França; e quais fossem os mesmos de Roma e Holanda, e todos os mais, dirá o secretário d'estado Pedro Vieira da Silva, por cuja mão corriam todos: mas porque se poderá imaginar, que este fingido negócio dos judeus fosse ainda mais secreto, o dr. Pedro Fernandes Monteiro pode dar notícia da verdade de tudo, porque ele era o secretário de uma cifra particular que eu tinha com sua majestade para algum segredo secretíssimo, se acaso o houvesse. A verdade lisa é, que acerca de cristãos-novos, além da perdição de suas almas, me doeram sempre duas coisas:

 

A 1.ª, a mistura do sangue; a 2.ª, a destruição do comércio: a este fim disse por muitas vezes a sua majestade, que, ou pusesse o comércio todo em cristãos-velhos, ou buscasse remédio a que os interesses dele fossem de Portugal, e não de Holanda, Veneza, Inglaterra e França, por onde os cristãos-novos traziam divertidos os seus cabedais, e sobretudo que mandasse estudar meios com que os cristãos-novos não casassem com os cristãos-velhos, sob pena de todo o reino em cem anos ser judeu, assim como em cento e cinqüenta era já a metade dele.

 

E que os ditos meios os comunicasse sua majestade com os senhores inquisidores, e os resolvesse com eles, e os aprovasse pelo sumo pontífice, que é a maior comprovação de que não pretendi coisa que não fosse mui justa, justificada, e pia, quanto mais contra a fé: nem em mim se pode ou podia considerar razão alguma pela qual houvesse de favorecer os judeus; porque, pela graça divina, sou cristão-velho, e três cunhados e seus filhos, que são os parentes que só tinha, são também cristãos-velhos; não tenho nem tive jamais amizade com cristão-novo algum, exceto somente Manuel da Gama de Pádua, por ser o mercador a quem meu irmão remetia do Brasil os haveres do seu negócio, e açúcares, e por ser prebendeiro da capela que me pagava os meus ordenados de pregador d'el-rei. Nem os cristãos-novos me deram nunca coisa alguma, nem eu havia mister que eles me dessem, porque além de não ser curioso nem cobiçoso de ter (como é mais sabido na minha religião), para tudo que eu quisesse tinha parentes muito ricos, que me davam o que eu não queria aceitar, e sobretudo tinha a liberalidade d'el-rei, que sem limite punha em meu alvedrio a inteira disposição da sua fazenda a qualquer parte onde me enviava, não usando eu jamais desta largueza, antes restituindo aos ministros da fazenda real, até o que dos viáticos me sobejava, como de tudo pode ser boa testemunha Pedro Vieira da Silva.

 

Nem acrescenta nada a sobredita suspeita ou presunção, o haver eu comentado ou seguido as trovas do Bandarra, porque o tive sempre por cristão-velho, sem raça de moiro ou judeu, como ele mesmo afirma, onde perguntado, se é dos judeus ou dos agarenos, diz:

 

Senhor, não sou dessa gente

Nem conheço esses tais.

 

E por me parecer que as ditas trovas combinam grandemente com as profecias dos santos, e opinião dos doutores acima referidos, de cuja fé ninguém duvida, e finalmente, além das razões apontadas neste e em outros papéis, porque tão longe estava de ter o Bandarra por favorecedor dos judeus, que antes entendi sempre, sentia ele também muito o ver ou prever quão grande dano havia de fazer à fé e limpeza do sangue dos portugueses a mistura dos casamentos destes, e ainda a dos fidalgos com os judeus, pelo dinheiro dos dotes. Este é, ou cuidaria eu que era, o sentido daquela sua trova:

 

A linhagem dos fidalgos

Por dinheiro é trocada,

Vejo tanta misturada:

Sem haver chefe que mande,

Como quereis que a cura ande

Se a ferida está danada?

 

onde se queixa o Bandarra, que o sangue limpo (até o dos fidalgos) dos portugueses pelo interesse do ouro, se mistura com o dos judeus, e que não haja chefe ou cabeça que mande, e que impeça esta misturada, advertindo que a cura que o santo ofício aplica a esta ferida não é suficiente a evitar todo o dano à dita ferida, e vão lavrando e corrompendo todo o corpo do reino; e importa pouco que cada ano pelo santo ofício se queimem dez judeus, se pelos casamentos crescem dez mil: e estes os remédios que eu lhe procurava.

 

Finalmente, seja a última prova da minha fé, o rendimento do juízo, e segura obediência dela, ainda contra as evidências certíssimas da própria consciência; pois sendo assim verdadeira e indubitavelmente, e conhecendo com toda a interior certeza, que o sentido e disposição em que as minhas suposições foram interpretadas e censuradas, é totalmente diverso daquele em que as proferi, e do que supus nelas, e do que pretendi significar por elas, entendo e creio, contudo, que as ditas censuras são muito justas, e as ditas interpretações muito verdadeiras, e as aceitei, venero, e sigo muito de meu coração, sem embargo de se julgarem antes de eu perguntado nem ouvido; e se dilatei tanto tempo este inteiro e total rendimento, foi, não quanto à aceitação das censuras, que desde o primeiro dia foram aceitadas por mim, senão quanto à desistência das razões da minha inocência, e pureza da tenção em que tinha proferido as proposições censuradas, foi pela razão do escrúpulo, e que não tive quem me segurasse a ignorância, como procurei por todas as vias que me foram possíveis.

 

Conformando-me, finalmente, com o ditame do confessor, que foi a única pessoa com quem me pude aconselhar, o qual, depois de encomendar o negócio a Deus, resolveu que tinha obrigação de dar razão de mim, e evitar o escândalo; e quão pronto estivesse o meu juízo e o meu ânimo para o dito rendimento e desistência total, bem se viu no mesmo ponto em que tive suficiente razão para depor o escrúpulo, com a notícia de sua santidade haver aprovadas as ditas censuras, sendo certo que se na dita hora se me tivesse dado esta notícia, fora ela também a última de todas as dilações da minha causa, e se tivera evitado o escândalo da cristandade e do mundo, a cujas partes mais remotas, é sem dúvida terá chegado a notícia em dois anos, assim pela religião ser a mais conhecida e dilatada em todo ele, como também pelo nome da pessoa não ser o mais ignorado, principalmente entre aqueles a quem preguei a mesma fé, de cujo juízo sou réu e preso, os quais terão justa razão de duvidar se acaso lhes ensinei alguns erros contra ela, e se se poderão fiar certa e seguramente da doutrina dos outros padres da companhia, pois o que entre eles tinha o maior nome era tal, qual tinha espalhado a fama, e confirmado a prisão.

 

Mas estou confiado na misericórdia divina daquele Senhor - que mortificat, et vivifacat, deducit ad infero, et reduxit - que assim como a justiça do santo ofício achou motivos em mim, que conheço por mui justificados, para uma tão extraordinária demonstração, assim a piedade do mesmo sagrado tribunal acha motivos em si mesmo para restaurar o perdido, e satisfazer ao dito escândalo.

 

O Espírito Santo que tão pontualmente assiste às resoluções desta mesa, seja servido de guiar na decisão desta causa os juízos e ânimos de vossas senhorias, ao que for de maior serviço de Deus, e glória de seu divino beneplácito, que é a única lição em que estudo há mais de dezoito anos, e nestes dois últimos me quis Deus examinar e tomar conta dela, posto que eu lha não tenha dado tão boa como devia.

 

Mas sabe o mesmo Senhor, que se em mim não houvera mais que eu, sem os respeitos do hábito que tenho vestido, nem uma só palavra havia de ter falado em meu descargo, pondo toda a causa aos pés de Cristo crucificado, deixando-a toda à disposição da divina providência, desejando, e tendo por melhor e mais favorável despacho, o que fosse de mais descrédito e afronta, e de maior matéria de padecer, para em algum modo seguir as pisadas do mesmo Cristo, e participar dos opróbrios da sua cruz.

 

 

 

 

 

 

 

 

II

Esperanças de Portugal,

QUINTO IMPÉRIO DO MUNDO,

primeira e segunda vida de

El-Rei D. João o quarto. Escritas por

GONSALIANES BANDARRA,

e comentadas pelo

Padre Antônio Vieira da Companhia de

Jesus, e remetidas pelo dito ao Bispo do

Japão, o Padre André Fernandes

 

 

Ao Sr. Bispo do Japão.

 

 

Conta-me vossa senhoria prodígios do mundo, e esperanças de felicidades a Portugal, e diz vossa senhoria que todas se referem à vinda D'el-Rei D. Sebastião, em cuja dúvida e vida tenho já dito a vossa senhoria o que sinto. Por fim me ordena vossa senhoria, que lhe mande alguma maior clareza do que tantas vezes tenho repetido a vossa senhoria da futura ressurreição do nosso bom amo El-Rei D. João, o 4.° A matéria é muito larga, mas para se escrever tão de caminho como eu o faço, em uma canoa em que vou navegando no rio das Amazonas, para mandar este papel em outra que possa alcançar o navio que está no Maranhão de partida para Lisboa, e resumindo tudo a um silogismo fundamental, digo assim:

 

O Bandarra é verdadeiro profeta, o Bandarra profetizou que El-Rei D. João o 4.° há de obrar muitas coisas que ainda não obrou, nem pode obrar senão ressuscitando. Ergo etc.

 

Prova-se a conseqüência deste silogismo com um discurso claro e evidente, de que se Bandarra é verdadeiro profeta, como se supõe, se hão de cumprir suas profecias, e que há de obrar El-Rei D. João as coisas que Bandarra dele tem profetizado: e como estando morto as não pode obrar, segue-se infalivelmente há de ressuscitar. Esta ilação não só é de discursos, senão ainda de fé, porque assim o inferiu Abraão, e assim o confirmou S. Paulo, declarando o discurso que Abraão fizera quando Deus lhe mandou sacrificar e matar a Isaque, em que ele lhe tinha prometido a sucessão de sua casa, e outras felicidades ainda não cumpridas.

 

O discurso de Abraão foi: Deus prometeu que Isaque há de ser o fundamento de minha casa e descendência; Deus manda-me matar ao mesmo Isaque; segue-se logo que se Deus não revogar seu mandado, e se Isaque morrer, que Deus o há de ressuscitar. Esta foi a conseqüência de Abraão. Esta é a minha D'el-Rei D. João o 4.°, morto, como já disse, quando sua majestade esteve no grande perigo de Salvaterra, que tantas vezes e tão constantemente repeti, e depois preguei, que, ou el-rei não havia de morrer, ou se morresse havia de ressuscitar: assim o disse na sua vida, assim o preguei nas suas exéquias, assim o creio e espero: assim o devem crer e esperar por infalível conseqüência, os que tiverem o Bandarra por verdadeiro profeta, como melhor se mostrará.

 

Prova-se a primeira proposição do silogismo maior: o Bandarra é verdadeiro profeta; a verdadeira prova de espírito profético é o sucesso das coisas profetizadas. Assim o prova a Igreja nas canonizações dos santos, e os mesmos profetas canônicos, que são parte da escritura sagrada: e fora dos princípios da fé não têm outra prova na verdade de suas revelações ou profecias, senão a demonstração de sucedido, o que tantos anos antes profetizaram.

 

O mesmo Deus deu esta regra para serem conhecidos os verdadeiros e falsos profetas.

 

Promete Deus ao povo hebreu que lhe daria profetas de sua nação, e porque no mesmo povo se costumava levantar profetas falsos, e podia haver dificuldade em se conhecerem quais eram os verdadeiros, e mandados por Deus, o mesmo Deus deu por regra certa para se conhecerem uns e outros, e suceder ou não suceder o que tinham profetizado - e se não suceder o que o profeta disser, tendo-o por falso, e se suceder, tendo-o por verdadeiro, e mandado por mim. Não se pode logo negar que o Bandarra foi verdadeiro profeta, pois profetizou e escreveu tantos anos antes tantas coisas, tão exatas, tão miúdas, e tão particulares, que vemos todas cumpridas com os nossos olhos, dos quais apontarei brevemente as que bastam para ao intento, sucedidas todas na mesma forma, e com a mesma ordem como foram escritas.

 

Primeiramente profetizou o Bandarra, que antes do ano de quarenta se havia de levantar em Portugal uma a que ele chama grã tormenta, que foi o levantamento de Évora, e que os intentos desta tormenta haviam de ser outros diferentes do que mostravam (porque verdadeiramente eram para levantar todo o reino), e que a tormenta havia de ser logo amansada, e que tudo se havia de calar, e que os levantados não teriam quem os seguisse e animasse, como verdadeiramente sucedeu. Isto querem dizer aqueles versos do sonho primeiro:

 

Antes que cerrem quarenta

Erguer-se-á grã tormenta

do que intenta,

E logo será amansada

E tomarão a estrada

De calada,

Não terão quem os afoite.

 

Advirta-se que estes versos se hão de ler entre parênteses, porque não fazem sentido com os que imediatamente se seguem, os quais se atam com os de cima, e não continuando a história com os que depois deles se seguem, estilo mui ordinário dos profetas. Profetizou mais Bandarra, que havia de haver tempo em que os portugueses (os quais quando ele isto escreveu, tinham rei e reino) haviam de desejar mudança de estado, e suspirar por tempo vindoiro, e que o cumprimento deste desejo e deste tempo, havia de ser no ano de quarenta: assim o dizem os versos do mesmo sonho:

 

Já o tempo desejado

É chegado,

Segundo o Primal assenta,

já se cerram os quarenta

Que se ementa;

Por um doutor já passado

O rei novo é levado

Já dá brado,

já assoma a sua bandeira

Contra a gripla parideira

Lagomeira

Que tais prados tem gastado.

 

A gripla significa Castela com muita propriedade, porque os reinos distinguem-se por suas armas, e o griplo é um animal composto de leão e de águia, que simboliza com as águias e leões, partes próprias dos escudos e armas de Castela, e chama-se com igual energia neste caso gripla parideira, porque por meio dos partos e casamentos, veio Castela a herdar tantos reinos e estados como possui, que foi também o título com que entrou em Portugal. Profetizou mais Bandarra, que o nosso rei havia de ser da casa de infantes, e que havia de ter por nome D. João, que havia de ser feliz e bem andante, e que com suma brevidade lhe haviam de vir novas de todas as conquistas a que ele chama terras presadas, as quais se declarariam pelo novo rei, e que dali por diante estariam firmes por ele, como tudo se tem visto inteiramente: os versos são no mesmo sonho:

 

Saia saia esse infante

Bem andante,

O seu nome é D. João

Tire e leve o pendão,

E o guião:

Poderoso e triunfante

Vir-lhe-ão novas em um instante

Daquelas terras presadas,

As quais então declaradas

E afirmadas

Pelo rei dali em diante.

 

Profetizou mais com circunstâncias prodigiosas que nas ditas terras presadas havia de haver naquele tempo dois vice-reis (o que nunca houve dantes), e que um deles, que era o Marquês de Montalvão, e outro, que foi o Conde de Aveiras, e o primeiro, não havia de ser deteúdo (isto é detido) no governo de que havia de ser tirado por suspeitas de infidelidade; mas que esta infidelidade não havia de estar no seu escudo, como verdadeiramente não esteve naquele tempo, por ser ele o instrumento da aclamação na Bahia, e em todo o estado do Brasil, onde mandou ordens com que foi El-Rei D. João aclamado. E pelo contrário, que o Conde de Aveiras havia de pôr alguma dificuldade com repugnância à aclamação de el-rei no estado da Índia, o qual estado com grande desejo e ímpeto, sem reparo do vice-rei o ter mão, quis aclamar, dizendo os versos do mesmo sonho:

 

Não acho ser deteúdo

agudo

Sendo ele o instrumento,

Não acho segundo sento

excelento

Ser falso no seu escudo;

Mas acho que o Lanudo

Mui sisudo

Que arrepelará o gato,

far-lhe-á murar o rato

De seu fato

Deixando-o todo desnudo.

 

E porque esta trova é a mais dificultosa do Bandarra, e a que ninguém jamais pôde dar sentido, posto que já fica explicada, a quero comentar, verso por verso, para que melhor se entenda.

 

Não acho ser deteúdo

 

Todos os que governaram as praças de Portugal nas conquistas foram deteúdos, ou detidos nelas, porque os conservou el-rei nos mesmos postos; só ao Marquês de Montalvão mandou sua majestade tirar por ocasião da fugida de seus filhos e do ânimo da marquesa, e por isso, diz Bandarra, que não haja de ser deteúdo.

 

O agudo

 

Os que conheceram o marquês sabem que lhe diz bem o nome de agudo, pela esperteza que tinha em todas suas ações e execuções, e ainda nas feições e movimento do corpo; mas mais que tudo no inventar traças, negócios, e se introduzir neles, sendo ele a maior parte, e não o povo, da aclamação em todo o estado do Brasil, a qual se executou com grande prudência e indústria, por haver na Bahia dois terços de castelhanos e napolitanos que puderam sustentar as partes de Castela, e, quando menos, causar alvoroços.

 

Não acho segundo sento

 

Ou, segundo sinto, que é já falar Bandarra com alguma dúvida da fidelidade do marquês, que neste lugar abonava verdadeiramente decerto, porque o marquês muito tempo foi fiel, e o modo com que acabou mostrou que o não fora sempre.

 

O excelento

 

Quer dizer que tem excelência por marquês e vice-rei, sendo o único vice-rei e o único marquês que governou o Brasil com todas estas circunstâncias. E por que lhe não chamam o excelente senão o excelento? Sem dúvida porque deste masculino tão desusado se inferisse a diferença do masculino e feminino. Como se dissera: a fidelidade de que falo, advirtam que é do marido e não da mulher do excelento, e não da excelenta, como logo se explica.

 

Ser falso no seu escudo

 

Para estranhar Bandarra como estranhou o ser tirado e não ser detido o marquês em seu governo, sendo ele o instrumento da aclamação, parece que bastava dizer que não era falso; mas acrescentou no seu escudo, porque assim como viu a fidelidade do marquês na aclamação, assim viu a infidelidade da marquesa e seus filhos, como se dissera: Falso não no seu escudo, mas no de sua mulher e seus filhos sim.

 

Mas acho que o lanudo

 

O Conde de Aveiras era mui cabeludo, tinha muitos cabelos nas sobrancelhas, orelhas e nariz, por dentro e por fora, e só dentro dos olhos não tinha cabelos, suposto que lhe chegavam os bigodes mesmo perto deles, e eu ouvi dizer a seu sobrinho, o Conde de Unhão, que seu tio tinha pelo corpo lã como um carneiro, e por isso Bandarra lhe chamou lanudo.

 

Mui sisudo

 

E só em ir segunda vez a Índia o não foi, mas no falar, no calar, no andar, no negociar, sisudo em todas suas ações, porque não há dúvida que tinha o Conde de Aveiras aquelas partes, porque o mundo chama aos homens sisudos; e por tal o tinha el-rei quando o não gabava.

 

Que arrepelará o gato

 

O gato significa o estado da Índia, porque tanto que chegou a nova da aclamação, quis logo aquele estado aclamar publicamente a el-rei, mas o vice-rei foi à mão ao ímpeto do povo, fechando-se dentro do paço para considerar como sisudo o que havia de fazer em matéria tão grande, e isto foi arrepelar o gato. E esta foi a última detença ou demora que a aclamação teve em Goa, o que se explica pelo murar do gato ao rato, que é aquela demora ou detença em que o gato está duvidando se remeterá ou não.

 

E far-lhe-á murar o rato

Do seu fato

Deixando-o todo desnudo.

 

Conclui Bandarra contra o conde como desgostado dele, que deixara o estado da Índia desnudo do seu fato; porque tirou da Índia muita fazenda, a qual propriamente se chama lá fato, assim como em Itália se chama roupa. Fundado eu nesta menos aceitação do Bandarra acerca do Conde de Aveiras, quando el-rei o fez segunda vez vice-rei, disse que me espantava muito de que sua majestade elegesse para vice-rei da Índia a um homem de quem o Bandarra dizia mal, porque lhe não podia suceder bem, e o efeito o mostrou. Todos estes versos que tenho referido vão continuados, e neles descrito o sucesso da aclamação do rei no reino e nas conquistas, com todas as circunstâncias, e logo imediatamente se segue no mesmo sonho:

 

Não tema o turco não

Nesta sesão,

Nem o seu grande mourismo

Que não recebeu batismo

Nem o crismo,

É gado de confusão etc.

 

Estes versos contêm uma circunstância admirável da profecia, porque não só declarou Bandarra as coisas que haviam de ser, e o tempo em que haviam de suceder, senão também os tempos em que não haviam de ser. O principal assunto do Bandarra é a guerra que el-rei há de fazer ao turco, e a vitória que dele há de alcançar: e porque não cuidássemos toda a empresa havia de ser logo depois da aclamação do novo rei, advertiu, e quer que advirtamos, que a empresa do turco não é para o tempo da aclamação, senão para outro tempo, e para outra sesão mesmo depois. E por isso disse que nesta sesão bem podia o turco estar sem temor.

 

A esta profecia negativa do turco se junta outra negativa do papa, o qual papa supõe Bandarra que não há de reconhecer a el-rei senão depois que o turco entrar pelas terras da Igreja, e assim o declaram os versos do sonho segundo:

 

O rei novo é acordado

Já dá brado,

Já arressoa o seu pregão,

Já Levi lhe dá a mão,

Contra Siquém desmandado.

 

Esta copla se aplica adiante; por ora basta dizer que Levi é o papa, e Siquém o turco, e que quando Siquém se desmandar pelas terras da Igreja, então dará Levi a mão ao rei novo, que já neste tempo será acordado; onde o que se deve muito notar é aquele já Levi lhe dá a mão, na qual palavra supõe Bandarra que até então lha não quis dar, como em efeito nenhum dos três papas, Urbano, Alexandre e Inocêncio lha não quiseram dar, por mais que foram requeridos pelos povos, com tantos gêneros de embaixadas.

 

Por muitas vezes disse eu a el-rei, e principalmente quando me mandou a Roma, que o papa não havia de dar bispos, e quando vinha a nova que já os dava ou queria dar, sempre me ri disso, assim em Portugal como no Maranhão, de que são testemunhas os que me ouviram dizer por galantaria, que o turco era o que havia de dar os bispos, e não o papa.

 

O ser rei o infante D. Afonso, e o ser governador das armas João Mendes de Vasconcelos, também é profecia do Bandarra. Do infante disse:

 

Vejo subir um infante

No alto de todo o lenho.

 

Todos cuidavam e esperavam por natural conseqüência, que o príncipe D. Teodósio, que Deus tem, havia de suceder a seu pai, e que na volta que deu, a que o Bandarra chama roda triunfante, havia ele de ser o que sucedesse, e subisse no alto de todo o lenho; mas vejo que é o infante D. Afonso, porque assim estava escrito. Muitas vezes me ouviu dizer el-rei e vossa senhoria do mesmo príncipe, que dele não falava Bandarra palavra; e de João Mendes de Vasconcelos, diz:

 

Vejo subir um fronteiro

Do reino de trás da serra,

Desejoso de pôr guerra

Esforçado cavaleiro.

 

Já escrevi a vossa senhoria que quando no Maranhão se soube que o castelhano estava sobre Olivença, e que o Conde de S. Lourenço governava as armas, disse eu diante de muitas pessoas eclesiásticas e seculares que o que havia de fazer as facções era João Mendes de Vasconcelos, fundado nesta mesma copla, interpretando ser ele o fronteiro detrás da serra, porque era ele naquele tempo de Trás-os-Montes. Todo este papel que aqui vai lançado escrevi na mesma conformidade em os últimos de abril deste ano, como se verá pela primeira via dele, que logo então mandarei pelo Maranhão. Agora ouvi que João Mendes está não só retirado da guerra, mas preso, com que parece errou minha conjetura na explicação, ou na aplicação destes versos.

 

Facilmente admitirei este erro, e que fala Bandarra de outro fronteiro que seja de Trás-os-Montes, ou do que nos dizem que é hoje o Conde de S. João, de cujo valor e esforço e cavalarias chega por cá tão honrada fama que bem lhe quadra o nome de esforçado cavaleiro. Mas se houver quem queira persistir no primeiro sentido que demos aos versos, poderá tirar deles a primeira solução, e dizer o que disse antes de se saber cá a retirada do sítio de Badajós. Dizia eu (de que eu tenho muitas testemunhas) que quando se não conseguisse a entrada da praça, nem por isso ficava desfeita a acomodação ou aplicação dos versos, antes então ficam melhor entendidos e construídos, porque as palavras do desejoso de pôr guerra, não significam efeitos senão desejos, posto que tão galhardamente manifestados. Onde também se deve notar a praxe de pôr guerra, que apropria de sitiar guerra, e não de vencer exércitos, e quanto à copla que se segue depois destas falando do mesmo sujeito:

 

Este será o primeiro

Que porá o seu pendão

Na cabeça do dragão

Derribá-lo-á por inteiro,

 

que é uma profecia e promessa do futuro, a que tanto se pode caminhar do castelo de Lisboa, como de qualquer parte, porque fala manifestamente da guerra do turco, como adiante se verá mais claro. E diz Bandarra que aquele mesmo fronteiro que ele mesmo viu sair do reino detrás da serra será o que há de pôr o pendão na cabeça do turco em Constantinopla, e que juntamente o há de derribar e vencer.

 

Isto é o que digo, isto é o que me parece, protestando que assim nestes versos, como em todos os de Bandarra, não é minha tenção tirar o direito a quem o tem, ou parece que o tem, e muito menos tirá-lo a outrem, que é o que no nosso reino se sente. Tudo o que fica dito são as coisas que mais palpavelmente temos visto cumprido das profecias do Bandarra, as quais se bem se distinguirem e contarem, achar-se-á que são mais de cinqüenta, fora infinitas outras que delas dependem, e com elas se envolvem.

 

A todas conheceu o Bandarra e anteviu com tanta individuação de tempos, lugares, nomes, pessoas, feições, modos e todas as outras circunstâncias mínimas, como quem as via com o lume mais claro que o dos mesmos olhos dos que ao depois as viram; e como todos estes sucessos eram totalmente contingentes, e dependentes da liberdade humana, e de tantas liberdades quantas eram os homens, arcebispos, governadores, cidades e estados de todo o reino e suas conquistas, bem se colhe que por nenhuma ciência humana, nem angélica nem diabólica, podia conjeturar Bandarra a mínima parte do que disse, quanto mais afirmá-la com tanta certeza, e escrevê-la com tanta verdade, e individuá-lo com tanta sutileza, que é de que se preza no prólogo de sua obra.

 

Caso miúdo sem conto.

 

Foi individuado com tanta certeza que bem mostra foi lume profético, sobrenatural e divino, o qual alumiou o entendimento deste homem idiota e humilde, para que as maravilhas de Deus que nestes últimos tempos haviam de vir ao mundo. Tivessem também aquela preeminência de todos os grandes mistérios divinos, que é serem muito dantes profetizados.

 

Bem vejo que haverá quem duvide algumas das explicações que dou aos textos referidos, posto que são tão claras e correntes, mas para ao intento que pretendo provar, que é o espírito profético de Bandarra, bastam aquelas que todo; confessam, e que não admitem dúvida alguma, que é grande parte das referidas.

 

E se não pergunto: Quem disse a Bandarra que em tempo de El-Rei D. João o 3.° havia faltar sucessor a Portugal, e que havia passar a coroa a reino estranho? Quem disse a Bandarra que a gripa parideira, ou Castela, por um parto, que foi Filipe 2.° filho da infante Imperatriz D. Isabel, havia de lograr Portugal? Quem lhe disse que o tempo desejado da redenção havia de ser no ano de quarenta? Quem lhe disse que o restaurador havia de ser rei levantado; e quem lhe disse que este rei se havia de chamar D. João, e que havia de ser feliz e descendente de infantes? Quem lhe disse que o haviam de reconhecer e aceitar logo as conquistas, e que elas dali por diante haviam de estar firmes, sem nenhuma vacilar nem retroceder? Quem lhe disse que uma destas conquistas havia de ser governada naquele tempo por um homem mui sisudo e cabeludo, e que o que governasse se havia chamar excelência, e que era agudo, e que sendo instrumento da aclamação havia de ser tirado do cargo por suspeitas da infidelidade; e que essa infidelidade não havia de estar no seu escudo? Finalmente, quem lhe disse que o papa não havia de aceitar este rei, e que lhe havia de suceder na casa um infante, e não príncipe seu primogênito? E certo que só Deus o podia dizer, e revelar ao Bandarra todos estes futuros, e qualquer deles, e com a mesma certeza se deve ter e afirmar, que foi Bandarra verdadeiramente profeta. Resta agora ver se profetizou o Bandarra alguma profecia D'el-Rei D. João, que ainda não esteja cumprida, que é o segundo fundamento da nossa conseqüência.

 

PROVA-SE A SEGUNDA

PROPOSIÇÃO DO SILOGISMO

 

As coisas que o Bandarra profetizou D'el-Rei D. João, que ele ainda não obrou, e há de obrar, são tão grandes, e tão extraordinárias que à vista delas não tiveram as passadas nada de admiração: começa com este prólogo a narração delas, o seu profeta tio sonho segundo:

 

Ó quem tivera

Para dizer

Os sonhos que homens sonham!

Mas hei medo que me ponham

De mos não quererem crer.

 

Isto mesmo, senhor bispo, é profecia do que hoje vemos: há de estar Bandarra corrido e envergonhado na opinião de muitos, até que os feitos maravilhosos D'el-Rei D. João o 4.° nosso senhor, conquistem aos versos do seu profeta a fé que já a primeira parte deles nos tem bem merecida. Diz Bandarra primeiramente que sairá el-rei à conquista da Terra Santa para se fazer senhor dela, deixando o reino totalmente despejado, porque há de levar consigo tudo o que nele houver de homens que possam tomar armas. Assim começa o princípio do diálogo dos bailes:

 

Vejo vejo, direi vejo,

Agora que estou sonhando,

Semente D'el-Rei Fernando

Fazer um grande despejo,

E sair com grão desejo

E dizer: esta casa é minha,

Agora que cá me vejo.

 

Chama a el-rei semente D'el-Rei Fernando, porque El-Rei D. João o 4.°, é 4.° neto D'el-Rei D. Fernando o Católico, tão conhecido e celebrado rei naquele tempo. E que esta saída seja para Jerusalém, e esta casa seja a casa santa, de tudo o que se segue se deixar ver claramente. Diz Bandarra que esta jornada seja por mar, e que o feito de lá será tomar el-rei ao turco com facilidade e sem resistência.

 

Vi um grão leão correr

Sem se deter

E levar sua viagem,

Tomar o porco selvagem

Na passagem

Sem nada lho defender.

 

Porco selvagem é o turco, como declarou o Bandarra em muitos lugares. No sonho segundo fala no porco selvagem, e da mesma viagem diz assim:

 

Já o leão vai bradando,

E desejando

Correr o porco selvagem,

E tomá-lo-á na passagem,

Assim o vai declarando:

Este rei de grão primor

Com furor

Passará o mar salgado

Em um cavalo enfreado,

E não selado,

Com gente de grão valor

Este diz socorrerá

E tirará

Aos que estão em tristura;

Deste conta a escritura

Que o campo despejará.

 

As gentes de que aqui fala, que diz estarão em tristura, e serão socorridos por el-rei, são os povos de Itália, que estarão oprimidos pelas armas do turco, que neles fará grandes crueldades, como claramente o solutivo diz, e o mesmo Bandarra no diálogo dos bailes, aonde começa por Veneza, que será e hoje é a primeira que padecerá as invasões do turco, e que gastará nesta guerra seus tesouros:

 

Também os venezianos

Com as riquezas que têm

Virá o rei de Salém

julgá-los-á por mundanos.

 

Chama rei de Salém ao turco, porque o turco é hoje senhor de Jerusalém, que na escritura se chama Salém; e continuando a descrever as crueldades que fará o turco em Itália, diz logo após os versos acima:

 

Já os lobos são ajuntados

De alcatéia na montanha,

Os gados têm degolados,

E muitos alobegados,

Fazendo grande façanha:

O pastor-mor se assanha,

Já ajunta seus ovilheiros,

E esperta sua campanha,

Com muita força e manha

Correrá os pegureiros.

 

O pastor-mor é o papa, que vendo Itália e Roma neste aperto, chamará os príncipes cristãos, que havendo tantos anos que o turco está fazendo guerra em Itália, eles estão divertidos, como se dormiram. A estes brados do pontífice acudirão os príncipes cristãos, e entre eles o famoso rei de Portugal, como repete e declara o mesmo Bandarra no sonho primeiro, profetizando juntamente a ruína do império otomano, e fim da lei de Mafoma, e destruição da casa de Meca:

 

A Lua dará grã baixa,

Segundo o que se vê nela,

E os que têm lei com ela

Porque se acaba a taixa

Abrir-se-á aquela caixa

Que até agora foi cerrada,

Entregar-se-á a forçada

Envolta na sua faixa.

 

E declarando quem será o autor e instrumento de tudo, continua:

 

Um grande leão se erguerá,

E dará grandes bramidos,

Seus brados serão ouvidos

E a todos assombrará;

Correrá e morderá,

E fará mui grandes danos,

E nos reinos africanos

A todos sujeitará:

Entrará mui esforçado,

Será de toda a maneira;

De cavalos de madeira

Se verá o mar coalhado,

Passará e dará brado:

Na terra da promissão,

Prenderá o velho cão

Que anda mui desmandado.

 

Daqui se fica entendendo que a passagem onde diz Bandarra que o leão há de tomar o porco selvagem, é aquela parte do mar que há entre Itália e Constantinopla, que vem a ser a boca do mar Adriático em o arquipélago. De sorte que o turco obrigado das armas cristãs há de fugir e retirar-se para suas terras, e nesta retirada e passagem há de ser tomado; coisa que não parecerá dificultosa, senão fácil, a quem tiver conhecimento do sítio, porque como aquele mar é um bosque das ilhas em que se podem armar ciladas, as hão de armar ao turco para o apanharem. Assim o diz Bandarra no mesmo baile:

 

Depois de apercebidos,

E as montanhas salteadas

Por homens mui sabidos,

E pastores mui escolhidos,

Que sabem bem as pisadas,

Armar-lhe-ão nas passadas

Trampas, cepos de aseiros,

Atalaias nas estradas,

E bestas nas ameijoadas

Com tiros muito ligeiros.

 

Não só há de el-rei fazer isto por meio de seu exército, mas diz Bandarra que por sua pessoa há de ferir ao turco:

 

Já o leão é esperto

Mui alerto,

já acordou, anda caminho,

Tirará cedo do ninho

O porco; e é mui certo

Fugirá para o deserto:

Do leão e seu bramido

Demonstra que vai ferido

Desse bom rei encoberto,

 

porque o turco assim ferido se há de retirar, e depois desta retirada diz Bandarra, que ele mesmo se há de vir entregar e sujeitar a el-rei. Diálogos dos bailes:

 

Ó senhor tomai prazer,

Que o grão-porco selvagem

Se vem já de seu querer

Meter em vosso poder

Com seus portos e passagens.

 

Note-se o verso com seus portos e passagens, do que se confirma bem que a passagem de que fala é mar de ilhas, e entre Itália e Constantinopla. Diz mais Bandarra, que entregue o turco, se repartirão as suas terras entre os príncipes cristãos que forem a esta guerra, e que a El-Rei D. João caberá Constantinopla. No mesmo diálogo dos bailes:

 

Tanja-se a frauta maior,

Ajunte-se todo o rebanho,

E eu com vosso pastor

Com mui grã soma de amor:

Vamos a partir a ganho

Montes, vales, e pastores,

Digo vamos a partir a ganho,

Tudo nos é sofranganho,

Montes, vales, e pastores,

E repugnam os bailadores

Que não entre aqui estranho.

 

E mais abaixo diz:

 

Sus! Antes de mais extremos

Vai-se Fernando e Constança,

E pois que tudo já vemos,

Pelo bem que lhe queremos

Seja ele o mestre da dança.

 

Constança significa Constantinopla, e Fernando significa el-rei, que baila com Constança: o ser mestre da dança, bem se vê que quer dizer que será Constantinopla sua, e que terá nesta repartição o maior lugar; e não faça dúvida o nome de Fernando, porque os nomes das figuras deste diálogo são supostos, e não os próprios. E assim como as pessoas que formam o mesmo diálogo se chamam Pedro, João, André, e Garcia, não sendo esses os nomes dos príncipes que hão de sair à conquista de Jerusalém, porque não costumam ser tais os nomes dos príncipes estrangeiros, assim o nome de Fernando não é próprio do rei, senão suposto.

 

E se houver quem queira insistir sem razão, em que este seja o nome próprio do rei conquistador da Terra Santa, facilmente se pode dizer que el-rei em sua ressurreição, ou em sua assunção ao império, tomará o nome D'el-Rei Fernando, e se assim for diremos que deixou Santo Antônio o nome de Fernando em S. Vicente de Fora, para que El-Rei D. João o tomasse.

 

Nesta mudança ou acrescentamento de nome (que bem pode el-rei acrescentar o nome de Fernando ao nome de João) se verifica também aquela tradição que diz, o encoberto terá o nome de ferro; porque nas partes de Levante, onde há de ser esta empresa, Fernando chama-se Ferrante, assim como Jacó, Jaques, ou também se pode dizer que assim como Bandarra chamou infante a el-rei, por ser neto do infante D. Duarte, assim lhe chama também Fernando, por ser semente D'el-Rei Fernando, como acima temos dito: mas sem recorrer a nada disto, o mais fácil e natural é dizer que o nome de Fernando neste diálogo é suposto, e não próprio como os demais. Feito pois el-rei senhor de Constantinopla, diz Bandarra que será eleito imperador, com eleição justa, e não subornada:

 

Serão os reis concorrentes

Quatro serão, e não mais,

Todos quatro principais

Do Levante ao Poente;

Os outros reis mui contentes

De o verem imperador,

E havido por senhor

Não por dádivas, nem presentes.

 

Estes reis são quatro que se acharão na guerra contra o turco, os quais conhecendo que a El-Rei D. João se deve toda a vitória, lhe darão em prêmio dela a coroa imperial. E feito el-rei imperador de Constantinopla, diz Bandarra com grande propriedade, que ficará havido por grão-senhor, porque o turco nas suas terras intitula-se grão-senhor, e o mesmo nome lhe dão em Itália.

 

E que a El-Rei D. João se haja de dever toda a vitória, diz Bandarra no sonho seguinte:

 

De quatro reis, o segundo

Haverá toda a vitória.

 

Chama-se El-Rei D. João nesta ocasião o segundo, bem podia ser, por ter tomado o nome de Fernando, porque então será Fernando segundo. Mas pode-se chamar segundo, porque os reis de Portugal verdadeiramente têm o segundo lugar entre os reis cristãos, sendo o primeiro indecisamente o de França, ou de Espanha, que inda o pleiteiam diante do pontífice, o qual nunca o quis decidir. Também pode ter o segundo lugar nesta empresa como general do mar, que há de ser, sendo o primeiro lugar o rei que for general da terra. Enfim, poder-se-á chamar segundo por outro qualquer incidente que o tempo interpretará mais facilmente, do que nós o podemos agora adivinhar.

 

Coroado por imperador, diz Bandarra, que voltará el-rei vitorioso com dois pendões, que deve de ser o de rei de Portugal, e de imperador de Constantinopla:

 

De pendões e orações

Irá fortemente armado,

Dará nele S. Tiago

Na volta que faz depois,

Entrará com dois pendões

Entre os porcos sedeúdos

Com fortes braços e escudos,

E de seus nobres infantões.

 

Estes porcos sedeúdos, entre os quais entrará el-rei, serão os bachás e capitães do turco, e os levará diante de si, e no seu triunfo quando voltar.

 

Finalmente, diz Bandarra, que o mesmo rei há de introduzir ao sumo pontífice os dez tribos de Israel, que naquele tempo hão de sair e aparecer no mundo com pasmo de todo ele. No princípio do sonho primeiro introduz Bandarra a dois hebreus, um chamado Dá, outro Efraim, os quais vêm para falar ao pastor-mor, que é o sumo pontífice, e para serem introduzidos pedem entrada a Fernando, que já dissemos representa a El-Rei D. João, e dizem assim por modo de diálogo:

 

   Efraim. Dizei, senhor, poderemos

Com o grão-pastor falar,

E daí lhe prometemos

Ricas jóias que trazemos,

   Fernando. Se no-las quiser tomar?

Judeus que lhe haveis de dar?

   Judeus. Dar-lhe-emos grande tesouro,

Muita prata, muito oiro,

Que trazemos d'além-mar;

Far-nos-eis grande mercê

De nos dardes vista dele.

   Fernando. Entrai, judeus, se quereis,

Bem podeis falar com ele,

Que lá dentro o achareis.

 

Não declara Bandarra o lugar onde isto há de suceder, se em Jerusalém, se em Roma, quando lá for el-rei, ou se em Portugal, quando os dez tribos vierem. Mas em qualquer parte que suceda será uma maravilha grande, ou a maior das maiores que sucederam, nem se ouviram no mundo. Assim o pondera o mesmo Bandarra em uma das suas respostas:

 

Antes destas coisas serem,

Desta era que dizemos

Mui grandes coisas veremos,

Quais não viram os que viveram,

Nem vimos, nem ouviremos:

Sairá o prisioneiro

Da nova gente que vem,

Desse tribo de Rubem,

Filho de Jacó primeiro

Com tudo o mais que tem.

 

Mas onde Bandarra por inteiro trata esta grande matéria é no sonho 3.°, o qual todo gasta na descrição ou narração portentosa da vinda e aparecimento desta gente, e com estilo muito mais levantado do que costuma, representando pois que sonhava, diz assim:

 

Sonhava com grão prazer,

Que os mortos ressuscitavam,

E todos se alevantavam

E tornavam a renascer.

E que via aos que estavam

Trás os rios escondidos,

Sonhava que eram saídos

Fora daquela prisão.

 

O profeta Esequiel falando no cap. 33.° à letra desta mesma restituição dos dez tribos, como se vê claramente dos três capítulos seguintes, chamava a esta restituição ressurreição; porque este povo estava até agora, como enterrado e sepultado, porque ninguém sabia dele; e seguindo o Bandarra esta mesma praxe de Esequiel diz que sonhava que eram saídos de sua prisão os que estão escondidos detrás dos rios: os dez tribos quando desapareceram passaram da outra banda do rio Eufrates e de então para cá se não sabe deles. Vai por diante Bandarra e discursando em particular como vinham, ou como virão cada um dos dez tribos, diz:

 

Vi ao tribo de Dã

Com os dentes arreganhados,

E muitos despedaçados

Da serpente e do dragão!

E também vi a Rubem

Com grã voz de muita gente,

O qual vinha mui contente

Cantando Jerusalém.

Ó quem vira já Belém,

Esse monte de Sião,

E visse o rio Jordão

Para se lavar mui bem!

Vi também a Simeão,

Que cercava todas as partes

Com bandeiras e estandartes,

Neftelim e Zabulão,

Gar vinha por capitão

Desta gente que vos falo,

Todos vinham a cavalo,

Sem haver um só peão.

 

Notem que entre estes capitães, ou cabeças dos tribos, não se nomeia o de Judá, nem o de Levi, nem o de Benjamim, sendo os dois primeiros um real, outro sacerdotal, porque estes três tribos são os que ficaram. As propriedades com que os descreve, não me detenho em as comentar, porque fora coisa larga e fora do meu intento: pela maior parte são tiradas das dignidades das pessoas, e etimologia dos nomes e das bênções que Jacó deitou a estes seus filhos; só advirto que o dizer Bandarra, que vinham todos a cavalo, sem haver nenhum peão, é tirado do profeta Isaías no cap. 66.° onde diz estas palavras: - quem viu, nem ouviu jamais coisa semelhante (diz o profeta) porventura parirá a terra um dia ou nascerá uma nação inteira? Pois assim parirá Sião, e assim lhe nascerão seus filhos. As alegrias deste parto serão de Portugal, também há quem diga que as dores. Continua Bandarra com a entrada dos dez tribos, e introduz que do meio daquela companhia saíra um velho honrado a falar com ele, e que entre outras coisas lhe perguntou, se era porventura hebreu dos que ali vinham buscar, e diz Bandarra que lhe responderam assim:

 

Tudo o que me perguntais

(Respondi assim dormente):

Senhor não sou dessa gente

Nem conheço esses tais;

Mas segundo os sinais

Vós sois do povo cerrado,

Que dizem estar juntado

Nessas partes orientais:

Muitos estão desejando

Serem os povos ajuntados,

Outros muitos avisados

O estão arreceiando:

Arreceiam vir no bando

Esse gigante Golias,

Mas por ver Enoque e Elias

Doutra parte estão folgando.

 

O gigante Golias significa aqui o Anticristo, e diz Bandarra que há muitos que se têm por sábios que receiam a vinda dos dez tribos, e a conversão dos judeus, porque têm para si que quando isto for já é chegado o fim do mundo, e que já estamos no tempo do Anticristo, sendo que entre um e outro se hão de passar muitos centos de anos, como consta das escrituras, nas quais diz Bandarra (e diz bem) que esta restituição do povo hebreu à sua e por meio do conhecimento de Cristo é coisa mais freqüente e repetida nos profetas de quantas eles escreveram: oiçamos o Bandarra depois de o velho lhe perguntar se cria em um só Deus:

 

Eu quisera-lhe responder,

E tocar-lhe em a lei,

Senão nisto acordei

E tomei grande prazer;

E depois de acordado

Fui a ver as escrituras,

E achar muitas pinturas,

E o sonho afigurado

Em Esdras o vi pintado,

E também vi Isaías

Que nos mostra nestes dias

Sair o povo cerrado,

O qual logo fui buscar

.......Esequiel;

As damas de Daniel

Comecei de as olhar.

 

O mesmo podem fazer os curiosos, e terão muito que olhar e que ver, e que admirar principalmente nos três primeiros capítulos de Esequiel que atrás deixo citados, e só digo por remate desta matéria dos dez tribos, que também eles se hão de sujeitar às quinas de Portugal, e receber por seu rei o nosso grande monarca. E assim o diz o nosso Bandarra antes dos sonhos:

 

Portugal tem a bandeira

Com cinco quinas no meio,

E segundo vejo e creio

Este é a cabeceira,

E porá sua cimeira

Que em Calvário lhe foi dada,

E será rei de manada

Que vem de longa carreira.

 

A vitória do turco e redução dos judeus se seguirá também à extirpação das heresias por meio deste glorioso príncipe. Bandarra nas trovas do fim

 

Vejo erguer um grão rei

Todo bem-aventurado,

E será tão preparado

Que defenderá a grei;

Este guardará a lei

De todas as heresias,

Derribará as fantasias

Dos que guardam o que não sei,

Todos terão um amor

Gentios como pagãos.

Os judeus serão cristãos,

Sem jamais haver error,

Servirão um só Senhor,

Jesus Cristo que nomeio;

Todos crerão que veio

O ungido Salvador.

 

A este universal conhecimento de Cristo, diz Bandarra, que sucederá por coroa de tudo, a paz universal do mundo, cantada e prometida por todos os profetas, debaixo de um só pastor e de um só monarca, que será o nosso fidelíssimo rei, instrumento de Deus para todos estes fins de sua glória. Bandarra no sonho segundo:

 

Tirará toda a escória,

Será a paz em todo o mundo,

Dos quatro reis o segundo

Haverá toda a vitória,

Será dele tal memória.

Por ser guardador da lei,

Pelas armas deste rei

Lhe darão triunfo e glória.

 

Porque todo este triunfo e toda esta glória será de Cristo e de suas chagas, que são as armas do rei; e note-se que de nenhuma coisa faz Bandarra tão freqüentemente menção, como destas chagas de Cristo, e destas armas de Portugal, a cuja virtude atribui sempre as maravilhas que escreve, porque não venha ao pensamento de algum rei da Europa, ou do mundo, cuidar que pode ele ser o sujeito destas profecias. Assim que, resumido tudo o que fica dito, e deixando outras coisas futuras, e ainda não cumpridas, que Bandarra profetizou D'el-Rei D. João o 4.°, as principais de maior vulto são sete:

 

SETE COISAS PRINCIPAIS DA PROFECIA

 

Primeira.

 

Que sairá do reino com todo o poder dele, e navegará a Jerusalém.

 

Segunda.

 

Que desbaratará o turco na passagem de Itália e Constantinopla.

 

Terceira.

 

Que o ferirá em sua própria mão, e que ele se lhe virá entregar.

 

Quarta.

 

Que ficará senhor da cidade e império de Constantinopla, de que será coroado imperador.

 

Quinta.

 

Que tornará com dois pendões vitoriosos ao seu reino.

 

Sexta.

 

Que introduzirá ao pontífice e à fé os dez tribos de Israel prodigiosamente aparecidos.

 

Sétima.

 

Que será instrumento da conversão e paz universal de todo o mundo, que é o último fim para que nosso Senhor o escolheu.

 

E faltando a vida a El-Rei D. João para obrar todas estas coisas, e sendo certo que as há de obrar, pois assim está profetizado, bem assentado parece que fica este segundo fundamento de nossa conseqüência. Mas perguntar-me-á vossa senhoria com razão, donde provo eu este rei de que Bandarra fala é El-Rei D. João o 4.°? Digo que o provo com o mesmo Bandarra em dois lugares para comigo evidentes. O primeiro nas trovas antes do sonho diz assim:

 

Este rei tão excelente

De quem tomei minha teima,

Não é de casa goleima,

Mas de rei, primo e parente;

Vem de mui alta semente,

De todos quatro costados

Todos reis de prima grados

De Levante até o Poente.

 

De maneira que diz Bandarra, que o assunto ou teima de suas profecias é um só rei mui excelente, com quem tomei minha teima: e daqui se segue, eficaz e evidentemente, que o assunto e teima das ditas profecias é D'el-Rei D. João o 4.°, porque é coisa certa e conhecida, e vista pelos olhos de todos, que em El-Rei D. João o 4.° se cumpriram todas as profecias passadas, como se prova da primeira proposição deste silogismo: logo se o assunto das profecias do Bandarra é um só rei, e consta que El-Rei D. João o 4.° foi o assunto das profecias passadas, bem se segue que ele é também o assunto das profecias futuras; porque se as profecias passadas se cumpriram em El-Rei D. João o 4.°, e as futuras se houveram de cumprir em outro, segue-se que a teima e o assunto do Bandarra não era um só rei, senão dois.

 

Poderá alguém dizer que este rei de que fala Bandarra não é nenhum rei em particular, senão o rei de Portugal em comum; e ainda que estas profecias se verifiquem em um rei em particular, e em outro, sempre se verificam no rei de Portugal. Não faltou quem isto dissesse ou cuidasse, mas quis Deus que se explicasse Bandarra, o qual nesta mesma trova declara que não fala do rei de Portugal em comum, senão de tal rei em particular, de tal pessoa, de tal indivíduo, filho de tais pais, neto de tais avós, de tal descendência, como aqui descreve.

 

1.° Diz que este rei não é de casta goleima, porque El-Rei D. João não é descendente da casa de Áustria, casta goleima; porque os que comem muito, chama-lhe o mundo goleimas, e os príncipes da casa de Áustria (como todos os alemães) são notados de muito comer.

 

2.° Diz que este rei é príncipe e parente de reis, a qual propriedade admiravelmente mostra a pessoa D'el-Rei D. João porque toda a maior nobreza que Bandarra podia dar a El-Rei D. João era ser primo e parente de reis, porque El-Rei D. João não era filho nem neto de reis, como os outros reis são comumente, senão somente primo e parente de reis; primo D'el-Rei de Castela, primo d'el-rei de França, primo do imperador, parente dos mais reis da Europa; mas suposto que não é filho, diz Bandarra:

 

Que vem de mui alta semente

De todos quatro costados.

 

3.° Que é o infante D. Duarte filho D'el-Rei D. Manuel e da rainha D. Maria, filha dos reis católicos, e por estes dois avós vem a ser el-rei descendente dos reis de Portugal, Castela, e Aragão, que eram os maiores reis do Poente, e dos reis de Nápoles e Sicília, que eram os maiores reis do Levante.

 

Sendo logo certo que Bandarra nas suas profecias fala de um tal rei em particular, e de uma tal pessoa, e de um tal indivíduo, e sendo também certo que este rei, esta pessoa, este indivíduo, é El-Rei D. João o 4.°, como se prova pelas qualidades pessoais, e pelos sinais individuantes com que o mesmo Bandarra descreve este rei; segue-se por infalível conseqüência, que assim como deste rei se entenderam as profecias passadas, assim dele se entendem as futuras do que está por vir. E nesta conformidade chamou Bandarra com muita galanteria ao seu assunto teima, porque se depois de tratar de um rei, deixara este e tratara de outro, não fora isso teimar com um, como ele diz: Este reino excelente, com quem tomei minha teima: verdadeiramente depois de el-rei estar morto e sepultado, dizer ainda que há de ir a Jerusalém conquistar o turco, parece que é demasiado teimar, mas esta é a teima do Bandarra.

 

O segundo lugar em certo modo é mais certo e claro, porque fala D'el-Rei D. João, nomeando-o por seu próprio nome. Vai tratando das armas de Portugal, e chagas de Cristo, e depois de as antepor às mais armas de todos os reis e reinos, diz assim no sonho 1.°:

 

As armas e o pendão,

E o guião,

Foram dadas por vitória

Daquele alto rei da glória,

Por memória

A um santo rei varão;

Sucedeu a El-Rei D. João,

Em possessão

O calvário por bandeira,

Levá-lo-á por cimeira,

Alimpará a carreira

De toda a terra do cão.

 

O rei santo varão, a quem foram dadas as insígnias da paixão de Cristo, em memória da vitória, foi El-Rei D. Afonso Henriques.

 

Estas armas da paixão a quem chamam calvário, sucederam a El-Rei D. João em possessão, por serem em sua bandeira. E que fará El-Rei D. João com essa bandeira, com essas armas, e com esse calvário? Levá-lo-á por cimeira, e alimpará a carreira de toda a terra do cão. Que El-Rei D. João, que foi o segundo, como fundador de Portugal, e depois de perdido seu restaurador, sucedendo a El-Rei D. Afonso Henriques na possessão do reino, e do brasão das chagas de Cristo, esse mesmo Rei D. João, e não outro, será o que levará as insígnias da paixão de Cristo por cimeira de seu elmo. Esse mesmo rei João, e não outro, será o que alimpará a carreira da terra do cão, restaurando a Terra Santa, e desimpedindo os caminhos dela, que o turco tem ocupado há tantos anos.

 

Todos os sucessos deste rei prometido, divide Bandarra em duas partes principais, a primeira contém os sucessos da aclamação de Portugal, a segunda contém os sucessos da conquista do turco e Terra Santa. E para que se visse que uns e outros pertenciam nomeadamente a El-Rei D. João, quando Bandarra fala dos primeiros, no princípio do sonho primeiro diz que el-rei se chama João:

 

O seu nome é João.

 

E quando fala no segundo, no mesmo sonho diz também que el-rei se chama João:

 

Sucedeu a El-Rei João

Em possessão

O calvário por bandeira.

 

E note-se a palavra em possessão porque à possessão do reino, foi que El-Rei João sucedeu, que quanto ao direito dele sempre o teve, como o mesmo Bandarra diz:

 

Louvemos este varão

De coração,

Porque é rei de direito.

 

O qual direito afirmado e confirmado pelo Bandarra, é novo e claro sinal de ser El-Rei D. João o 4.° o sujeito de quem falam as profecias, porque se o direito D'el-Rei D. João fora direito reconhecido e recebido por todos, como é o direito D'el-Rei D. Sebastião, e de outros reis, não tinha necessidade de dizer que era rei de direito. Mas porque o direito D'el-Rei D. João é direito duvidado e pleiteado, por isso declara Bandarra que é verdadeiramente rei de direito, e por este mesmo direito, posto que todos o confessam com a boca, quando aclamaram a el-rei houve porém alguns que o negaram com o coração: a estes já tira Bandarra a pedra, quando diz, louvemos a este varão de coração.

 

Aquelas palavras que já repetimos não toma o turco não nesta sessão também provam que El-Rei D. João (de cuja aclamação falava Bandarra) é o que há de vir conquistar o turco. Não diz que não tema o turco El-Rei D. João, mas diz que o não tema nesta sessão, porque nela havia de ser só restaurador do reino de Portugal, e na sessão que se espera, é que há de ser conquistador e destruidor do turco, e que se há de fazer temer dele. E o mesmo se convence claramente da combinação de dois lugares ou versos, um do sonho 1.°, outro do sonho segundo. O verso do sonho 1.° diz assim:

 

O rei novo é alevantado.

 

E fala da aclamação passada no ano de quarenta, como a provou o sucesso. O verso do sonho 2.° diz assim:

 

O rei novo é acordado.

 

E fala da jornada futura, e conquista do turco, para a qual há de acordar o rei novo, como provam os versos que a este se seguem:

 

O rei novo é acordado,

Já dá brado,

Já arressoa o seu pregão,

Já Levi lhe dá a mão,

Contra Siquém desmandado.

 

O Siquém é o turco, que se há de desmandar por Itália, e terras da Igreja, donde claramente se vê uma e outra profecia, assim do passado como do futuro; ambas se entendem a El-Rei D. João, porque o que foi levantado é o reino novo, e o que há de ser acordado há de ser rei novo:

 

O rei novo é levantado,

O rei novo é acordado.

 

E não se deixa passar sem reparo o verso já Levi lhe dá a mão, que prova o mesmo, porque aquele já é relativo, e quem diz já Levi lhe dá a mão, supõe que dantes lha não deu, ou lha não quis dar: logo aquele rei a quem o papa há de dar a mão depois, é o mesmo a quem a não deu, nem quis dantes dar, que é El-Rei D. João o 4.°

 

Prometi provar esta gloriosa conclusão com dois lugares de Bandarra, e já a tenho provado com seis, e para encurtar argumentos, e fechar este discurso (que é a chave de todo este papel) com uma demonstração irrefragável, digo assim:

 

Aquele rei é o que há de conquistar e vencer o turco, no qual se acham todos os sinais e diferenças individuantes, com que Bandarra em todas suas profecias o retrata, sed sic est: que El-Rei D. João o 4.°, que hoje está sepultado em S. Vicente de Fora, é aquele em quem se acham pontualmente todos estes sinais e diferenças individuantes, sem faltar nenhuma: logo El-Rei D. João o 4.° é o que há de conquistar o turco, e a quem pertencem e esperam todos estes prodígios desta fatal empresa; e que em El-Rei D. João o 4.° se achem estes e aqueles sinais individuantes, eu o provo evidentemente com uma indução geral, em que irei discorrendo por todos.

 

Bandarra diz que este rei é semente D'el-Rei Fernando: El-Rei D. João é semente D'el-Rei Fernando, como fica dito. Bandarra diz que este rei é rei novo: El-Rei D. João é rei novo, porque dantes nunca o havia sido. Bandarra diz que este rei há de ser levantado no ano de quarenta: El-Rei D. João foi levantado no ano de quarenta. Bandarra diz que este rei é feliz, e bem andante: El-Rei D. João em todo o seu reinado foi felicíssimo. Bandarra diz que o nome deste rei é D. João: El-Rei D. João, antes e depois, sempre teve o mesmo nome. Bandarra diz que por este rei se declarariam logo as conquistas, e estariam firmes por ele: El-Rei D. João logo foi aclamado e reconhecido por rei nas conquistas, e todas perseveraram na mesma fidelidade. Bandarra diz que ele levantaria suas bandeiras, e faria guerra a Castela: El-Rei D. João dezesseis anos que governou sempre fez guerra aos castelhanos. Bandarra diz que este rei é mais excelente: El-Rei D. João teve muitas excelências, além dele só ser excelência, enquanto duque de Bragança.

 

Bandarra diz que este rei não é de casta goleima: El-Rei D. João não é de casta goleima, como já explicamos. Bandarra diz que este rei é primo e parente de reis: El-Rei D. João é primo, e não mais que primo de três reis da Europa, e parente dos mais. Bandarra diz que este rei vem de mui alta semente: El-Rei D. João vem dos reis de Portugal, cujo título é mui alto e muito poderoso. Bandarra diz que este rei descende dos reis do Levante até o Poente: El-Rei D. João descende dos reis de Portugal, Aragão e Castela, que são reis do Poente, e dos reis de Nápoles, e Sicília, que são reis do Levante. Bandarra diz que este rei tem um irmão bom capitão: El-Rei D. João é irmão do Infante D. Duarte, tão bom capitão como sabemos. Bandarra diz que este rei ou este monarca é das terras da comarca, porque é natural de Vila Viçosa. Bandarra diz que este rei é guardador da lei, e que da justiça se preza: El-Rei D. João de nenhuma coisa se prezava mais que da justiça, e esta só deixou encomendada em seu testamento a el-rei que Deus guarde. Bandarra diz que este rei até certo tempo não há de ser recebido pelo papa: El-Rei D. João nenhum dos três pontífices até o tempo de seu falecimento o recebeu. Bandarra diz ou supõe que este rei, nem todos os que o aclamaram com a boca o haviam de seguir com o coração: El-Rei D. João é certo que o não seguiram com o coração, ao menos aqueles a quem ele mandou tirar as cabeças. Bandarra, finalmente, diz que este rei fez Deus todo perfeito, e que não acha nele nenhum senão, e quem pode duvidar que depois de ressuscitado El-Rei D. João, que há de ser um varão perfeito, e que mostre bem ser feito e perfeito por Deus, quanto mais que homem sem nenhum senão, não pode ser homem deste mundo senão do outro. Da mesma maneira diz Bandarra, que é um homem rei encoberto, porque em El-Rei D. João tem Deus depositado em grau eminente muitas partes e qualidades de bom rei encobertas até agora, e depois se descobrirão. Uma parte que desejava El-Rei D. João para o tempo em que Deus o fez, era ser muito guerreiro, e inclinado às armas. Este espírito guerreiro e militar, se descobrirá em el-rei com notáveis maravilhas na guerra do turco, quando o mundo, depois de fugidos e desbaratados seus exércitos, o vir rendido aos pés D'el-Rei D. João, e ferido por sua própria espada: esta é a energia com que Bandarra diz:

 

Demonstra que vai ferido

Desse bom rei encoberto.

 

Mostrando encoberta nele esta parte que parece lhe faltava para bom rei. O quanto estava encoberto naquele sujeito D'el-Rei D. João! Estava el-rei em si mesmo encoberto de alguns acidentes de rei, em que mais se reparava era em uma cobertura (disfarce natural) com que Deus tinha encoberto nele, o que por ele queria obrar, para que sejam mais maravilhosas suas maravilhas.

 

Leiam os curiosos todas as profecias do Bandarra, assim as que contêm os sucessos já passados, como as que prometem os futuros, e em todas elas não acharão diferença individuante, sinal ou qualidade pessoal alguma de monarca profetizado, mais que estas que aqui fielmente temos referido, as quais todas são tão próprias da pessoa D'el-Rei D. João o 4.°, e lhe quadram todas tão naturalmente, e sem violência, que bem se está vendo que a ele tinha diante dos olhos, e não a outro, quem com cores tão vivas, e tão suas o retratava. Com que fica evidentemente mostrado e demonstrado, que o Senhor Rei D. João o 4.° que está na sepultura, é o rei fatal, de que em todas as suas profecias fala Bandarra, assim das que já se cumpriram, como das que hão de suceder ainda. E este mesmo rei está hoje morto e sepultado, e não é amor e saudade, senão razão e obrigação do entendimento, crer e esperar que há de ressuscitar.

 

O contrário será sermos néscios, como Santo Agostinho chamava aos que tendo visto cumprida uma parte das profecias, não crêem a outra. Pesa-me não poder citar as palavras do santo, que são excelentes, considerem agora os incrédulos (se ainda os há), quantos homens têm ressuscitado, não só cristãos, mas gentios, para fins mui diferente. S. Francisco Xavier quase em nossos dias ressuscitou vinte e cinco. Pois se Deus em todas as idades, e em esta nossa ressuscitou tantos homens ainda gentios, e para fins particulares; para um fim tão alto e tão extraordinário, tão universal, e o maior que nunca viu o mundo, como é a recuperação da Terra Santa e destruição do turco, e a conversão de toda a gentilidade e judaísmo, como não ressuscitará um homem cristão, pio, e religioso, e que sendo rei soubesse ser humilde, que é a qualidade que Deus mais que todas busca nos que quer fazer instrumento de suas maravilhas, sem reparar em outras imperfeições e fraquezas humanas, como se viu em Davi. Ressuscitará El-Rei D. João, a sua ressurreição será o meio mais fácil de conciliar o respeito da obediência de todas as nações da Europa, que o hão de seguir a militar debaixo das suas bandeiras nesta empresa, o que de nenhum modo fariam, sendo tão orgulhosas e altivas, se não forem obrigadas deste sinal do Céu, entendendo todos que não obedecem ao rei de Portugal, senão a um capitão de Deus.

 

Allá verrá de Lixbona

Una illustre persona,

Cuja fama já resona

Por toda a parte y lado

En el mundo dará grã brado

 

Diz Solutivo, profetizando o remédio com que Deus há de acudir de Lisboa a Roma destruída pelo turco. E que brado é este que então há de soar no mundo todo, senão dizer-se que ressuscitou o rei dos portugueses? A este brado, como lhe chama também Bandarra, acudirá todo o mundo a ver e admirar, e a seguir o ressuscitado e milagroso rei: este estupendo prodígio visto com os olhos, será o que abrirá a porta à fé e à exclusão de todos os outros.

 

Contra todo este discurso resta só uma objeção, a qual ao entendimento pode fazer grão peso; e é esta: Se o principal e total assunto do Bandarra, e o seu tema ou teima, como ele diz, é profetizar os sucessos prodigiosos D'el-Rei D. João, e entre todos estes sucessos e prodígios, o que parece maior e mais incrível de todos é o haver de ressuscitar el-rei, por que não falou Bandarra nesta sua ressurreição? Respondo e digo, que sim falou nela pelos termos mais próprios e mais ordinários com que os profetas costumam falar nesta matéria. Chamar-se à morte sonho, e o ressuscitar acordar, é frase tão ordinária nos profetas, que não é necessário citar lugares. Davi, profetizando a morte de Cristo, diz que dormiu: Suporatus sum et ex surrexi. E o mesmo Cristo, profetizando a ressurreição de Lázaro, usou dos mesmos termos: Lazarus amicus noster dormit vadem ut a somno exitum eum. Fala Bandarra da ressurreição D'el-Rei D. João, e diz assim:

 

Já o tempo desejado

É chegado,

Segundo o Primal assenta,

Já se passam os quarenta,

Que se ementa,

Por um doutor já passado;

O rei novo é chegado,

Já dá brado,

Já arressoa o seu pregão,

Já Levi lhe dá a mão,

Contra Siquém desmandado,

E segundo tenho ouvido,

E bem sabido,

Agora se cumprirá,

A desonra de Dina

Se vingará,

Como está prometido.

 

Os sete versos primeiros desta copla, são tão parecidos com os outros sete em que refere a aclamação deste rei, que se acham em muitos exemplares, e em alguns riscados, e em outros  faltam, cuidando-se que eram os mesmos. Assim o suspeitava eu; tenho combinado alguns dos ditos exemplares, e, finalmente, o vim a averiguar em um cartapácio mui antigo do doutor Diogo Marchão, a quem comuniquei este pensamento no ano de 1643, e para experiência tirou ele da sua livraria o cartapácio que digo, e achamos que estavam nele ambas estas coplas, e estas segundas tinham uma risca. Da combinação destas duas coplas, e da semelhança e diferença delas, se vê claramente em como El-Rei D. João há de ter duas vidas, e sucessores mui diferentes em cada uma delas. Em ambas estas duas coplas diz Bandarra já o tempo desejado é chegado, porque havia de haver dois tempos desejados: o primeiro tempo desejado foi o da restauração do reino; o segundo tempo desejado é o em que estamos hoje, em que todos desejam e esperam rei prodigioso, posto com diferentes esperanças. A primeira copla diz já chegam os quarenta, e a segunda diz já se passam os quarenta, porque o termo da primeira copla havia de ser no ano de quarenta, e o termo da segunda havia de ser depois do tempo passado. A primeira copla diz o rei novo é alevantado, e a segunda diz o rei novo é acordado, porque o reino novo que no ano de quarenta foi levantado, esse mesmo rei novo depois de passado há de acordar do sono em que dorme, isto é, há de ser ressuscitado. Em ambas estas coplas diz já dá brado, porque o mesmo rei novo há de dar dois brados, um brado grande na sua aclamação, e outro brado maior na sua ressurreição: são as mesmas palavras de Solutivo: nel mundo darà gram grito: a primeira copla dizia já assoma a sua bandeira contra a gripla parideira, a segunda diz já arressoa o seu pregão, já Levi lhe dá a mão contra Siquém desmandado; porque à aclamação do rei novo seguiram-se as guerras de Castela, e neste tempo o não havia de receber o papa; e à ressurreição do rei novo, hão-se de seguir as guerras do turco, e então o há de receber o papa, e não lhe há de dar o pé, senão a mão.

 

Onde se deve notar a propriedade da história e aplicação de um homem idiota, que bem mostra ser guiado pelo espírito divino.

O príncipe Siquém, gentio, desonrou a Dina filha de Jacó, e para vingança desta afronta se ajuntaram os dois irmãos de Dina, Levi e Simeão, e mataram e destruíram a Siquém com todos os seus. Aplica agora Bandarra esta história passada ao sucesso futuro com extremada acomodação, porque Siquém é o turco, e Dina a Igreja; Levi o papa, e Simeão el-rei, e assim como Levi se uniu com Simeão para desafrontar a Dina da injúria que lhe fez Siquém, assim el-rei se há de unir com o papa para desafrontar a Igreja das injúrias que lhe fará o turco, e isto diz Bandarra mesmo nas suas respostas quando diz:

 

O que minha conta soma

O texto se há de cumprir

Primeiro, senhor, em Roma.

 

Primeiro há de vir o turco a Itália e Roma, e então há de ressuscitar el-rei: e em outro lugar fala o mesmo Bandarra na ressurreição d'el-rei, debaixo da mesma metáfora de acordado, com as mesmas circunstâncias do turco, e diz assim nas trovas antes dos sonhos:

 

Já o leão é desperto

Mui alerto,

Já acordou, anda caminho,

Tirará cedo do ninho

O porco, e é mui certo.

 

De maneira que quando el-rei, que é o leão, despertar, que é ressuscitar, será depois que o porco, que é o turco, vier fazer o ninho nas terras dos cristãos; e diz que o tirará cedo do ninho, porque a guerra será muito breve, e não como as dilatadíssimas em que se for conquistar a Terra Santa: e porque este efeito, e esta presa parecia dificultosa e admirável, acrescenta: porque ninguém duvide (e é mui certo), e assim em dois lugares diz Bandarra que o novo rei ressuscitará debaixo da metáfora de acordado: Já o leão é desperto mui alerto, já acordou etc.

 

Em ambos estes lugares diz, acordará e ressuscitará para ir fazer guerra ao turco, e vencê-lo, e deste efeito se colhe com evidência que acordar significa ressuscitar, porque el-rei novo morto, como ao presente está, não pode acordar, senão ressuscitando. Em outros dois lugares com a mesma clareza (posto que também metafóricos) acho profetizada no Bandarra a ressurreição d'el-rei; e ressuscitar nas escrituras explica-se pela palavra erguer-se: deste termo usou o anjo quando anunciou a ressurreição de Cristo: surrexit non est hic: do mesmo termo usou Cristo quando ressuscitou o filho da viúva: Adolescens tibi dua surge. Do mesmo modo usou Davi profetizando a ressurreição do mesmo Cristo: Surge Domine in requiem tuam. Porque assim como jazer significa estar sepultado, por onde escrevem as sepulturas: Aqui jaz Fuão; assim levantar-se e erguer-se significa ressuscitar, e por este modo diz Bandarra em dois grandes textos que ressuscitará El-Rei D. João: o primeiro texto nas trovas antes dos sonhos:

 

Um grão leão se erguerá,

E dará grandes bramidos,

Seus brados serão ouvidos,

E a todos assombrará.

 

O segundo texto nas trovas antes do fim:

 

Vejo erguer-se um grão rei

Todo bem-aventurado,

Que será tão prosperado,

Que defenderá a grei.

 

Onde se deve notar que da conseqüência destes mesmos textos colhe-se claramente, que em ambos o erguer significa ressuscitar porque em ambos se segue o erguer. No primeiro texto diz que se erguerá, e que assombrará a todos, porque não haverá coisa que mais assombre o mundo que el-rei de Portugal depois de tantos anos morto, ressuscitado: e logo continua os versos seguintes, dizendo o que há de fazer contra o turco, e como há de entrar na terra da promissão, que é o principal fim para que Deus há de ressuscitar el-rei. No segundo texto sobre dizer que se há de erguer todo bem-aventurado, que é qualidade própria de um homem, diz que se há de erguer para defender a grei, que é o rebanho de Cristo a quem o rei ressuscitado irá acudir e defender contra os lobos, que, como fica dito pelo mesmo Bandarra, estarão despedaçando em Roma e em Itália o mesmo rebanho. Assim que, em quatro lugares diz Bandarra expressamente pelos mesmos termos com que costumam falar os profetas, e pelos mesmos com que profetizou Davi a ressurreição de Cristo, que El-Rei D. João há de ressuscitar.

 

Neste mesmo sentido, e com a mesma clareza falou S. Metódio cujas palavras andam muito viciadas nos cartapácios dos sebastianistas. Eu as li na Biblioteca antiga dos Santos Padres que está na livraria do colégio de Santo Antão, e são desta maneira: Ex pergisetur tamquam a somno vini quem putabunt homines quasi inutilem esse. Fala o santo de um príncipe que em tempos futuros há de vencer e desbaratar o império do turco, e diz que acordará como do sono do vinho aquele que cuidavam os homens, que como morto era já inútil. Em dizer que acordará como do sono do vinho, quer significar o valor e esforço indômito, a pressa, a resolução e atividade extraordinária com que el-rei depois de ressuscitado se aplicará às armas, aos aprestos e guerras, e sobretudo à execução da vingança contra seus inimigos e de Cristo, tal que pareça furor, bem assim como escreveu Davi a Cristo na dita ressurreição vitorioso contra a morte e inferno, e neste sentido, finalmente, acabará de ficar entendida a profecia tão celebrada de Santo Isidoro, que tão trazida e tão violentada anda em tantos escritos: Erit rex sii pietatis . D. João o quarto já Deus no-lo há de tomar a dar outra vez, e então será duas vezes piedosamente dado: uma de sua restituição ao reino, outra de sua restituição à vida; uma quando aclamado, outra quando ressuscitado, e porque não pareça que sou singular nesta interpretação do Bandarra quero alegar neste ponto os mesmos que roubando-lhes as suas verdades se acreditaram e tomaram nomes de profetas com elas. O padre Bento nas suas profecias:

 

E pero viviendo verá

Quien vivier um grão leão

Muerto resuscitará

 

E o Cartuxo nas suas:

 

Veo entrar una dama

Com armas en el consejo

Y que resucita el vieyo

Debaxo de la campana

Com su barba larga y cana

 

De modo que estes dois autores tão guardados nos arquivos da antiguidade, ou falassem por espírito próprio ou interpretando (como eu mais creio) a Bandarra, ambos profetizaram que o rei fatal cuja monarquia se espera antes que obrasse os efeitos prodigiosos pelos quais há de subir a dita monarquia, havia de morrer e ressuscitar.

 

E porque não passe sem explicação a copla passada do Cartuxo, que tem coisas dignas de comento: bem pode ser que será tal o aperto de Portugal, ou da cristandade, que obrigue ao real e varonil espírito da rainha nossa senhora a entrar em conselho com armas. E ressuscitar el-rei debaxo de la campana, bem o explica a igreja de S. Vicente de Fora, onde está depositado; e estar tão perto do Santíssimo Sacramento, quod est semen resurrectionis, não carece de mistério. No epíteto de velho, e na barba larga e cana é que se pode reparar mais; mas el-rei já não é moço, e em respeito do rei novo que hoje temos é velho, e que os cabelos embranquecem na sepultura, pelos meus que sou quatro anos mais moço, digo que pode el-rei ressuscitar com barbas brancas e muito brancas. Mas contudo a mim me parece que esta barba é postiça, e que, profético, o poeta pinta a ressurreição do nosso rei com os olhos na idade D'el-Rei D. Sebastião por quem esperava; e quem pintou a ressurreição de um e a barba do outro, não é muito que lhe saísse o retrato menos ajustado nesta parte.

 

E já que falamos ou tocamos nestas velhices que tanto duram, só digo a vossa senhoria que o Bandarra não falou uma só palavra em El-Rei D. Sebastião, antes todas as suas desfazem esta esperança; porque o rei que descreve é todo composto de propriedades contrárias que implicam totalmente com El-Rei D. Sebastião, e senão façamos outra individuação às avessas da passada.

 

El-rei de que tratamos chama-lhe Bandarra, rei novo: El-Rei D. Sebastião é rei tão velho que nascido de três anos começou a ser rei. Diz Bandarra que o seu nome é João. El-Rei D. Sebastião tem outro nome muito diferente. Este rei chama-lhe Bandarra infante: El-Rei D. Sebastião nunca foi infante, porque nasceu príncipe. Este rei diz Bandarra que é bem andante e feliz: El-Rei D. Sebastião infelicíssimo, e a causa de todas as nossas infelicidades. A este diz Bandarra saia, saia: a El-Rei D. Sebastião dizia todo o povo e reino não saia, não saia. Este rei diz Bandarra que não é de casta goleima ou da casa de Áustria: El-Rei D. Sebastião tinha todo o sangue de Carlos V. Este rei diz Bandarra que é só primo e parente de reis: El-Rei D. Sebastião era neto de reis por seus pais, e de imperadores por sua mãe. Este rei diz Bandarra, que tem um irmão bom capitão: El-Rei D. Sebastião nem teve, e não pode ter irmão; porque nem o Príncipe D. João, seu pai, nem a Princesa D. Joana, sua mãe, tiveram outro filho. Este diz Bandarra que é das terras da comarca: El-Rei D. Sebastião não é da comarca, porque nasceu em Lisboa. Este rei diz Bandarra que havia de ter guerra com Castela no princípio do seu reinado: El-Rei D. Sebastião nunca teve guerra com Castela. Este rei diz Bandarra que da justiça se preza: El-Rei D. Sebastião prezava-se das forças e valentia. Este rei diz Bandarra, que até certo tempo lhe não hão de dar a mão os pontífices. El-Rei D. Sebastião teve grandes favores dos pontífices do seu tempo Paulo IV, Pios IV e V. Este rei diz Bandarra que lhe não achou nenhum senão: El-Rei D. Sebastião se não fora a África não nos perdera: veja-se se foi grande senão. Finalmente, porque nos não cansemos mais em prova de coisa tão clara, tirado somente ser El-Rei D. Sebastião semente D'el-Rei D. Fernando, nenhuma coisa diz Bandarra em todos os textos dos sinais ou qualidades do rei que descreve que possam acomodar, nem de muito longe a El-Rei D. Sebastião.

 

As outras que os sebastianistas chamam profecias, são papéis fingidos e modernos, feitos ao som do tempo, e desfeitos pelo mesmo tempo, que em tudo tem mostrado o contrário; até aquele texto tão celebrado cujus numen quinque apicibus ne tatum est, que os mesmos sebastianistas aplicam ao nome de Sebastianus, composto de cinco silabas; tão fora está de ser em favor de suas esperanças, que é uma milagrosa confirmação da nossa. Ápices propriamente não são sílabas, nem letras, senão os pontinhos que se põem sobre a letra i. Assim o diz o texto: Ista onum aut unus aero. E qual seja o nome que tenha cinco ápices, ou cinco pontinhos sobre a letra i o nome seguinte o dirá: Joannes IV - iiii, e não digo mais.

 

Mas estou vendo que tem mão em mim vossa senhoria, e quem diz: Dic nobis quando haec erunt: respondo primeiramente: non est nostrum nosse tempora vel momenta quae pater posuit insule potestate: mas porque esta resposta é muito desconsolada, direi o que minha conjetura tem alcançado ou imaginado. Tenho para mim que dentro na era de sessenta se há de representar no teatro do mundo esta tragédia. Fundo-me em cinco textos de Bandarra, três mui claros, e dois mais escuros, mas muito notáveis.

 

No sonho 3, falando Bandarra das profecias de Esequiel e das hebdômadas de Daniel, diz assim:

 

Achei no seu cantar,

Segundo o que representa,

E assim Gar, como Agar

Que tudo se há de acabar,

Dizendo cerra os setenta

 

Gar, que são os judeus, e Agar que são os agarenos, ou turcos, se hão de acabar as suas seitas, quando se cerrar o ano de setenta que é o fim de toda a comédia; segue-se logo que as jornadas, desta comédia se hão de ir representando pelos anos de sessenta. O mesmo confirma Bandarra nas suas respostas falando nas mesmas profecias onde diz:

 

E depois delas entrarem

Tudo será já sabido,

Aqueles que aos seis chegarem

Terão quanto desejarem,

E um só Deus será conhecido.

 

Chama Bandarra a esta era a era dos seis por entrarem nela duas vezes seis 660 e na era de 666 por entrarem nela três vezes seis, número muito notável e muito notado no Apocalipse.

 

E sem dúvida que é muito o que está para ver nestes seis, pois diz Bandarra que os que a eles chegarem terão quanto desejarem.

 

E nestes seis

Vereis coisas de espantar.

 

E logo abaixo repete o mesmo:

 

Desde seis até setenta

Que se ementa

Do rei que irá livrar.

 

Assim que, todos estes três ou quatro lugares do Bandarra mostram que na era de 660 é o prazo determinado para o cumprimento das suas profecias, e dos prodígios prometidos nelas; e se alguém disser que este número de seis ou de 660 pode ser de outro século e não deste, respondo que não pode ser porque já temos por fiador o ano de quarenta, que evidentemente foi deste século, e não de outro, e sobre este ano de quarenta é que vai Bandarra assentando suas contas: uma vez diz antes que cheguem quarenta, outra vez diz já se chegam os quarenta; e sobre estes quarenta fala depois nos de sessenta e setenta.

 

Dos outros dois textos que tenho prometido será ainda para maior confirmação esta conjetura. Chamei-lhes textos escuros, e também lhes pudera chamar tristes. No primeiro texto das trovas do fim diz Bandarra assim:

 

Vejo quarenta e um ano

Pelo correr do cometa

Pelo ferir do planeta

Que demonstra sem grão dano.

 

No ano de 618 apareceu em todo o mundo o último e famosíssimo cometa que viu a nossa idade, e a figura era de uma perfeitíssima palma, e a cor acesa, a grandeza como a sexta parte de todo o Hemisfério; o sítio no Oriente, o curso sempre diante do Sol, a duração por coisa de duas horas. Eu o vi na Bahia, e vossa senhoria o devia ver. De então para cá não houve outro cometa, ao menos notável. Fala dele Causino no seu livro De regno et domo em três partes, atribuindo-lhe os efeitos, principalmente em Espanha.

 

Deste cometa, que por antonomásia foi o cometa destas idades, entendo que fala Bandarra dele, pois foi o cometa do século de suas profecias. E fazendo eu o cômputo dos anos pelo ferir do mesmo cometa, vem a fazer quarenta e um anos, do fim em que estamos, ou no princípio do que vem, porque o cometa, como fica dito, e como eu estou lembrado muito bem, apareceu no ano de 1618, como observa Causino; o dia em que apareceu foi em 17 de novembro, e o dia em que totalmente desapareceu, foi aos 14 ou 15 de janeiro, porque já então se enxergava mal.

 

Se fizermos pois a conta do dia em que apareceu o cometa, fecham-se os quarenta e um anos em 17 de novembro deste ano de 659, e se a fizermos do dia em que desapareceu, fecham-se os quarenta e um em 14 de janeiro do ano de 660, o qual ano diz Bandarra que demonstra ser grão dano, porque os princípios desta notável representação, é certo que hão de ser trágicos e funestos, como as vésperas vão mostrando, e em tudo se confirma o segundo texto com o primeiro, senão é que a escuridade do cômputo é nele mais escura:

 

Trinta e dois anos e meio

Haverá sinais na Terra,

A escritura não erra,

Que aqui faz o conto cheio

Um dos três que vem a reio,

Demonstra grande perigo,

Haverá açoite e castigo

Em gente que não nomeio.

 

Para inteligência, suponho que contos cheios são números perfeitos que acabam em dez, como são 30, 40, 50, 60, 70; contos não cheios são os que não chegam a aperfeiçoar este número de dez, como são, 31, 42, 53, 64. Suposto isto, os primeiros quatro versos falam na aclamação deste rei, a qual sucedeu no conto cheio de quarenta, tão celebrado do Bandarra, tendo decorrido primeiro desde a morte do último rei português, trinta e dois anos e meio, isto há sessenta e um anos. E tantos anos pontualmente passaram desde a morte do último rei de Portugal D. Henrique, que morreu em janeiro do ano de 1580, até à aclamação D'el-Rei D. João o 4.°, que foi o primeiro de dezembro de 1640. Até aqui corre facilmente a explicação desta copla, a dificuldade está nos versos que se seguem:

 

Um dos três que vem a reio

Demonstra grande perigo, etc.

 

E porque há já muito tempo que passaram os três anos que vem a reio depois do conto cheio do ano de quarenta, e não vimos esses perigos, nem esses açoites, nem esses castigos, digo que um dos três que vem a reio, não significa um destes anos, como se cuidava, senão um dos três contos cheios, que é o que fica imediatamente atrás, os quais contos cheios depois do ano de quarenta, são o ano de cinqüenta, e o ano de sessenta, e o ano de setenta; e um destes três contos cheios é o que mostra grandes perigos. Resta agora saber qual dos três anos será. Quanto eu posso alcançar, tenho para mim que é o ano que vem de sessenta. Provo: estes três contos cheios, são o ano de 50, o ano de 60, o ano de 70. 0 ano de 50, não é, porque já passou: o ano de 70, não pode ser, porque então, como fica dito, se há de acabar tudo: logo sem dúvida é o ano de sessenta.

 

Neste ano haverá açoite e castigo (em gente que não nomeia Bandarra, entendo que por reverência do estado eclesiástico), haverá açoite e castigo em Portugal. E posto que todos devem tomar estes castigos e açoites, como da mão de quem os dá, e procura aplacar sua divina justiça, tão merecidamente provocada; saibam porém os portugueses, e não se desanimem do trabalho por grande que seja, que o mesmo Deus que os castiga, os ama, antes porque os ama, os castiga, e depois de castigados e purificados com a tribulação, os há de fazer raros e escolhidos de sua glória. Fora de Espanha veremos que Portugal prevalece, e Castela acaba. Bandarra nas trovas do fim:

 

Vejo um grão rei humano

Alevantar sua bandeira,

Vejo como por peneira

A grifa morrer no cano.

 

No efeito dos sucessos é certo que me não engano; no cômputo do tempo, de que não tenho tanta segurança, também presumo que me não hei de enganar. E se assim foi aparelhe-se o mundo para ver nestes dez anos uma representação dos casos maiores e mais prodigiosos que desde seu princípio até hoje tem visto. Em Espanha verá a el-rei de Portugal ressuscitado, e Castela vencida e dominada pelos portugueses. Em Itália verá o turco bastantemente vitorioso, e depois desbaratado e posto em fugida. Em Europa verá a universal suspensão das armas entre todos os príncipes cristãos, e não cristãos, verá ferver o mar e a terra em armas contra o inimigo comum. Na África, e na Ásia, e em parte na mesma Europa, verá o império otomano acabado, e el-rei de Portugal aclamado imperador de Constantinopla. Finalmente, com a sombra de todas as gentes verá aparecidos de repente as dez tribos de Israel, que há dois mil anos que desapareceram, reconhecendo por seu Deus e seu Senhor a Jesus Cristo, em cuja morte não tiveram parte.

 

Esta é a prodigiosa trágico-comédia, a que convida Bandarra nestes dez anos a todo o mundo. Mas saibamos os que vivemos, e saibam os que viverem, que na primeira cena desta primeira representação, nadará todo o teatro em sangue, no qual ficará afogado o mesmo mundo, porque há de chegar até cobrir a cabeça. E com isto, padre e senhor meu, me haja vossa senhoria por desempenhado da maior clareza que deseja, pois se não pode falar mais claro. E eu também me hei por despedido do meu profeta, que em traje tão peregrino parte do Maranhão para Lisboa, levando por favor da sua fortuna, a sua mesma verdade. Assim diz ele no prólogo de sua sapataria, de que são todos os versos com que quero acabar:

 

Sempre ando ocupado

Por fazer minha obra boa,

Se eu vivera em Lisboa

Eu fora mais estimado.

 

Estimado será porque promete ser bem recebido de muitos senhores, posto que não de todos, que nem os seus louvores são para todos:

 

Sairão do meu coser

Tantas obras de lavores,

Que folguem muitos senhores

De as calçar e trazer,

E quero entremeter

Laços em obra grosseira,

Quem tiver boa maneira

Folgará muito de a ver.

 

Conhece que haverá quem goste, e quem não goste destes versos grosseiros, mas também diz que uns e outros trazem a causa consigo, os que entendem gostarão, os que não entendem não poderão gostar:

 

Minha obra é mui segura

Porque a mais é de correia,

Se a alguém parecer feia

Não entende de costura;

Sei medir, e sei talhar,

Sem que vos assim pareça,

Tudo tenho na cabeça,

Se o eu quiser usar;

E quem o quiser gozar,

Olhe bem a minha obra,

Achará que inda me sobra,

Dois cabos para ajuntar,

Contente sou, e pagado

De lançar um só remendo,

Inda que estem remoendo

Não me toquem no calçado.

 

Finalmente, supõe Bandarra que há de haver glosadores ao seu texto, e eu suponho que haverá muitos mais à minha glosa, mas nem por isso direi o que ele diz:

 

Inda que estem remoendo, etc.

 

Só digo que sobre ter dito tanto, ainda é muito o que calo.

 

Tudo aprendi do mesmo mestre, quando não duvidou dizer de si:

 

Sei medir, e sei talhar, etc.

 

Guarde Deus a vossa senhoria muitos anos, como desejo, e como estas cristandades hão de mister. Camutá do Rio das Amazonas 29 de abril de 1659 anos.

 

O padre

Antônio Vieira

Da Companhia de Jesus

 

 

 

 

 

III
Discurso em que se prova a vinda
do Senhor Rei D. Sebastião

 

 

É o assunto deste discurso uma prova, e uma defensa; o provar a vinda de um vivo reputado por morto: Quem homines reputabunt tamquam mortuum; e o defender uma probabilidade estimada por ignorância: Et stulti irridebunt prudentibus.

 

Provar a vinda do sereníssimo Rei D. Sebastião o qual se conserva vivo, apesar dos que o querem morto: Quem conservat Altissimus; e defender o direito dos sebastianistas, que sendo poucos, e tidos em pouca conta, se isentam da conta dos muitos que diz Salomão: Stultorum infinitus est numerus. Para esta defensa, pois, e para aquela prova, necessário é correr os fundamentos daquela vinda, contrariada de tantos sem fundamento; e discursar as razões daquela probabilidade, contra a qual peleja a sem-razão de muitos; e com oito gêneros de fundamentos provaremos e defenderemos esta questão.

 

Primeiro com razões e conjecturas.

Segundo com profecias e vaticínios.

Terceiro com revelações.

Quarto com prodígios.

Quinto com prognósticos dos mais insignes astrólogos.

Sexto com a fé dos históricos.

Sétimo com o juízo dos políticos.

Oitavo com as tradições dos mesmos maometanos.

 

PRIMEIRO FUNDAMENTO
DAS RAZÕES E CONJECTURAS

 

Vejamos, como prometeu o discurso, primeiramente as razões destas duas espécies, umas que mostram a razão da parte afirmativa, outras que da parte negativa inculquem a sem-razão.

 

Primeiramente não se dá impossibilidade alguma; porque se se dera, ou se dera da parte de Deus, ou da parte dele: da parte de Deus é impossível, porque a Deus tudo é possível; da parte dele, também não, porque ainda nos tempos modernos passaram alguns homens de trezentos anos, e quando não seja naturaliter, será miraculose, como de fato é: logo não se dá impossibilidade nenhuma.

 

A esta primeira razão, serve de obstáculo a primeira sem-razão, argüindo, que é escusado guardar-se um homem tanto tempo, podendo fazer qualquer rei o que ele havia de fazer. E não reparam, que Daniel, falando do império otomano, diz que havia de ser entregue a um velho, por antonomosia velho: Usque ad antiquun dierum pervenit: et in conspectu ejus obtulerunt eum. Et dedit ei potestatem et honorem, et regnum etc: Que doidice é logo dizer-se que El-Rei D. Sebastião está guardado e conservado para destruir o império do turco, que é uma das coisas que há obrar? E se não combinem aquele quem conservat Altissimus, com este usque ad antiquum dierum pervenit, e verão a razão. Demais, que os porquês de Deus são incompreensíveis, e das suas razões não pode o entendimento humano dar razão. Demais, que Deus sempre faz as suas obras grandes, com grandes milagres. Bem podia Deus dar no tempo do Anticristo, padres que a este pregassem, e contudo guarda há tantos anos a Enoque e Elias; e outras muitas paridades, que as não permite a brevidade.

 

Segunda razão: Ou este rei morreu, ou não: se morreu, onde morreu? Ou na batalha, ou fora dela: se morreu na batalha, como não acharam os mouros o despojo que tanto procuravam? Se morreu no rio, como veio depois a sua espada? Como mandou El-Rei D. Henrique, aos que se fingiram reis, inquirir e perguntar se eram verdadeiro rei? Se a ele lhe constara a sua morte, nunca fizera tal inquirição. E a quem podia constar melhor sua morte? Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Nápoles preso e desprezado? Isto constou evidentissimamente, e este sucesso refere Lúcio Floro em os seus Anais, e D. João de Castro, que foi testemunha de vista, o escreveu, e todas as evidências disso, e os prodígios que então sucederam o confirmam, os quais no quarto fundamento deste discurso mostrarei. Mais: que o senhor Rei D. João o quarto, que Deus tem, o testificou e contou, e isto mostra uma evidência certa: e outras muitas, que é trabalhoso o referi-las por papel.

 

Terceira razão: ou a opinião dos sebastianistas é justa e provável, ou não: para dizer que não, dificultoso é de provar; porque é falso, e a razão o mostra; e que é justa, porque não é contra a fé, nem é contra a razão, nem é contra a utilidade comum; logo é justa.

 

Que seja provável, também se prova; porque se um santo canonizado afirmara alguma coisa, ou por espírito profético, ou por revelação de Deus, não há dúvida que fora provável, o que ele afirmara; atqui, que a opinião dos sebastianistas não só a confirmou um santo, mas muitos santos, não só uma profecia mas muitos vaticínios: segue-se logo, que é muito provável esta opinião. E se uma autoridade de um santo faz uma opinião provável, e se se ajunta outra é mais provável; e ajuntando-se mais outra é probabilíssima; tendo esta opinião mais de três, e mais de trinta vaticínios e autoridades, como não será muitas vezes probabilíssima?

 

Contra esta razão argumentam os adversários, porque não caem na razão, e dizem uns que estas profecias se não entendem dele; outros respondem que são supostos os vaticínios, e levantados pelos sebastianistas. Tanto uma como outra coisa, se convence por frívola, e só dada por evitar a força do argumento.

 

A primeira se convence; porque todos os sinais deste rei prometido, todas as circunstâncias deste rei encoberto se cumprem em o senhor Rei D. Sebastião, de tal sorte, e com tal evidência, que posta de uma parte a suma dos vaticínios, e da outra a sua vida, parecem aqueles vaticínios epítome da sua vida, e a vida um compêndio daquelas profecias, como mostrarei neste discurso.

 

A segunda razão também se convence, porque todos os vaticínios se acharão em os autores que os alegam, e outros em os mesmos santos que os predisseram. Prova-se também o serem verdadeiros, porque se foram falsos não iriam sucedendo no inundo as coisas que eles têm predito: pelo que, ou os vaticínios são verdadeiros, ou falsos; falsos não são, porque dizem verdades que realmente sucedem; logo são realmente verdadeiros. E pergunto agora: por que se hão de ter ignorantes aqueles que provam a sua opinião com muitos fundamentos? E por que se hão de ter por entendidos aqueles que com nenhum fundamento o contradizem?

 

Quarta razão: além das profecias se corrobora esta opinião com muitas conjecturas, com tradições dos mesmos maometanos, com muitas revelações, prodígios, prognósticos, etc. E se outra qualquer opinião tivera isto, não fora probabilíssima? Pois se esta tem isto, como lhe querem negar o título ainda de provável? Que os ignorantes e rudes o duvidem e neguem, está bem; mas que os entendidos o contradigam, parece mal.

 

Muitos argüirão, como agúem, que pois muitos sábios e entendidos estão contra esta opinião, devem ser seguidos, pois são sábios. A isto se responde, que uns negam por terem impedida a parte intelectiva, e estes são os ignorantes; outros por terem impedida a parte afetiva, e estes são os entendidos; e como têm impedida a parte afetiva, não vale nada a intelectiva; porque uns se inclinam pelo interesse, outros pela lisonja, outros porque lhes parece mal, sem atentar em fundamento, porque não têm afeto, e assim seguem diversa opinião. Por isso disse o anjo a Esdras quando lhe mostrou a visão da águia, ensinasse a visão aos sábios que a pudessem receber: Docebis ea sapientes de populo tuo, quoum corda scis posse capera secreta haec. De sorte que não só advertiu o anjo, que o havia de dizer aos sábios, mas ainda lhe advertiu mais, que havia de ser aos sábios que pudessem compreender. Quis distinguir uns sábios dos outros sábios; uns tinham a afetiva impedida, outros não; os que a não tinham, é que haviam de compreender os mistérios, e por isso só a eles se deviam declarar; que muitos sábios e entendidos têm a parte intelectiva para saberem e entenderem disposta, mas como têm a afetiva impedida, não lhes vale o saber, nem o entender: têm o entendimento, mas falta-lhes o afeto, e assim nestes não faz o entendimento efeito.

 

Quinta razão: consta evidentemente de muitas profecias, que há no mundo encoberto: isto poucos dos entendidos o duvidam; que haja de ser português, os mesmos vaticínios o declaram; e que as circunstâncias deste rei possam convir a outro, o qual não seja o senhor Rei D. Sebastião, ninguém o mostrará: donde está logo o erro dos sebastianistas?

 

Sexta razão: Portugal há de ser império quinto e universal, como se prova com a fé dos históricos, com o juízo dos políticos, com o discurso dos matemáticos, com as profecias dos santos, com as tradições dos mesmos maometanos, para cuja prova se tem feito e escrito doutíssimos tratados; quem haja de ser o rei que haja de fazer o tal império, dizem-nos os vaticínios, prognósticos e tradições; consultem-se, se daí se seguir que o dito imperador não haja de ser o senhor Rei D. Sebastião, cederemos da esperança.

 

A objeção que põem os contrários é que se não podem esperar tantas felicidades de um rei que foi vencido e destruído, e com ele também o reino. E não reparam que os mesmos vaticínios prometem a um rei que deixou o reino, que foi vencido, e claramente que foi desbaratado em África; e pois se deste se faz a promessa, como não havemos de neste ter a esperança?

 

SEGUNDO FUNDAMENTO
DAS PROFECIAS E VATICÍNIOS

 

Prova-se também a vinda do senhor Rei D. Sebastião com as profecias e vaticínios dos santos, e homens de virtude, e de espírito profético. Veremos as profecias e depois os vaticínios, que falam neste encoberto, destruidor da seita maometana, imperador do mundo, e no fim deste discurso, por remate, veremos que todas as circunstâncias e sinais deste prometido só no senhor Rei D. Sebastião se cumprem e acham, e só ele é o verdadeiro encoberto, o verdadeiro prometido, e o verdadeiro imperador, que deve ser esperado.

 

Profecias da Sibila Eritréia.

 

Acerca desta matéria, muito largamente escreve esta Sibila, e não podemos referir tudo, por ser contra a brevidade; faremos menção do mais sucinto, mais claro, e mais principal. Diz pois em o canto sexto:

 

Desta misma sangre alla muy corriente

Saldrá aquel espanto de varias naciones,

Porque en otras partes ha dado pregones,

Que nasce en Occaso, y llega al Oriente,

De muerte resurge en carne floriente,

Con llaves, y flores etc.

 

Em o sétimo:

 

Saldrá por el mundo con sus ventureros,

Llevará delante ciere mil pregoneros

Irá derribando todo llevantado.

 

Em o décimo terceiro:

 

La letra dez y ocho del abcedario

Será venerada, y la tilde con ella:

La gente, que fuere con luna, y estrella

Tendrá em el Leon muy grande adversario.

 

Em o décimo nono:

 

Bien se, que de mil, vinte nõ me creeron,

Y de vinte mil los dez nõ me entendan

Y unos me burlen, y otros me reprehendam.

 

Em o trigésimo segundo:

 

Y un tiempo vendrá en el siglo postrero,

Contando muy cierto de aquel que ha venido

Supremo juez; será muy cumplido

Se se cuenta diez vezes um ciento primero,

Y luego seguiendo otros seis por intero

Vendrán otros diez, que a todo han seguido,

Y luego el otro a un non cumplido

Será desta cuenta la guia, y rotero.

 

Em o trigésimo quarto:

 

Despierta de un sueño con furia estraña,

Y trahe consigo al toro, y al gallo,

La zorra, el tigre, la ave, el cavallo;

Con furia se vienen, con furia y con maña

En Efrata entra, y en una alta montaña

Depuso Calipso su primer trismallo

Alli con fuerza de piedra, y de mallo

Se funda o travez su primera cabaña.

 

Em o trigésimo sexto:

 

Verase un portento sangriento señal,

Que el padre con ancias de muerte renueva:

Verase la tierra, que es vieja ser nueva,

Sin que de haver sido le quede señal

Alli de improviso verá cadaqual

Las señas bastantes, que el vulgo approeba,

Verase del muerto la mas falça prueba,

Que con su engaño causó tanto mal.

 

Em o trigésimo sétimo:

 

Al bravo leon el mundo obedece

Las señas, que traz, son bruno, y son blao,

Son sinco, y sinco escriptas en pao,

 

Em o quadragésimo quinto:

 

Del cielo la luna se caye en la tierra,

El sol dará luz de noche, y de día

Por todo el mundo sus raios embía

En solo siette annos de paz, y de guirra.

 

Em o quadragésimo nono:

 

Venderá en un cavallo mayor, que el troyano,

Com otras mil aves muy acompañado,

Un leon rompiente del ciclo guardado

Dó ciñe la espuma del mar Occeano

Ya tiende su braco con muy larga mano,

Ya passa la meta hasta el otro lado,

Con el fuerte escudo del muy sublimado

Se llega à las puertas del monte Ulisano.

 

Em o quadragésimo sétimo:

 

Tendrá la victoria muy enteramente

De grullos, y gryfos, de tigres, y pantheras

El leon primero con sinco simeras,

Saltando las torres, el vado, y la puente:

De las quatro bandas el es presidente,

Tomando del austro las partes primeras,

Y del Oriente las mas estrangeras

Se buelve volando hasta el Occidente.

 

Em a Profecia vinte e sete:

 

La gloria se augmenta del leon afamado,

Porque es sin segundo en vida, y en muerte,

El mundo du nombre conosce, y advierte etc.

 

Em a Profecia vinte e cinco:

 

Y llega à la selva dõ nascio primero

Con gran magestad, y pompo espantosa etc.

 

Profecia que está na livraria de Santo Antônio de Cascais,
no livro intitulado
Vita Christi Jesu, n. ° 598:

 

"Prophecia cujusdam fratris ordinis minorum niapolitani anno nativitatis MDXX.

 

"Vae tibi Lusitania, quae dominaberis omnibus nationibus, quia vienient profecto dies, in quibus lux tua extinguetur eris sub calcaneo alienorum, qui te confrigent tamquam vas figuli, auferent namque à te opes, et divitias tuas, tunc sub tributo eris gemens et dolens, et non erit qui consoletur te ex omnibus charis tuis: honor tuus mutabitur, gens tua delebitur, et infideles accipient civitates tuas. Sed tunc pater misericordiarum respiciet, et videbit oprobrium tuum, et suscitabit de medio tui Salvatorem, qui te liberabit à servitute alienorum; postquem mittet alium tamquam mortuum reputatum, qui te in miseria posuit; ipse restituet te ad pristinum splendorem, et exaltabit imperium tuum, et dilabit fidem Christi; destruet Mahometicam domum: tunc manebit imperium tuum in aeternum, et dicet omnis populus: Laetare Lusitania, quia princeps provinciarum, et domina gentium à Deo facta es."

 

Profecia de S. Teófilo Bispo.

 

Depois de vaticinar algumas coisas, falando de um príncipe de Espanha diz: - " Qui cum uno rege dictae provinciae, qui oblitus, mortuus, et non regnaturus putabatur, regna praedicta recuperabit, Soldanum suae dictioni subjugabit, et Christianis domum Dei restituet."

 

Profecias de Santa Leocádia Virgem e Mártir.

 

Acharam-se em sua trasladação dentro da sepultura, no ano de 1587, estando presente El-Rei Filipe II.

 

Depois de várias coisas diz:

 

Por el alto saber del Sempiterno

Unira la voluntad en amor paterno

Y el Ibero con el Luso en compañia

Hara navegacional solio de Maria,

Y al santo mauseolo

Donde el lusitano solo,

Coronado de Africa, y Palestina

Exaltarà su nombre por la fé divina.

Ay, que con deseo el ay suspira

Al tiempo, que por años se respira !

Ay, que las CC dezaseis caminan

A cumplir lo que los dos arabes

Moros in la astrologia eminentes,

Que del tiempo por computos concernientes

Predito lo tienen !

Ay, que ya vienen

Las letras caminando al siglo de oro,

Para el Luso occulto, y para el Moro !

Victorio en el cielo ya se acclama,

Angles a sus lados

Traerà el Luso por soldados etc.

 

E vaticinando outras coisas, assinou-se ao pé do pergaminho - Leocádia.

 

Profecias de S. Cláudio Bispo.

 

No fim de livro das profecias de S. Isidoro, impresso em Valença no ano de 1520, está uma de S. Cláudio que diz:

 

"Um rei de Espanha, que será coroado aos quatorze anos de sua idade, e guerreiro até aos vinte e quatro, sujeitará a maior parte do mundo, e será santo, e reinará trinta e cinco anos e tomará a casa santa."

 

E se alguém duvidar entender-se esta profecia do senhor Rei D. Sebastião, por dizer que há de reinar trinta e cinco anos, e ele apenas reinou dez, respondemos que os que faltam, reinará depois que Deus o trouxer. E bem se vê entender-se dele a profecia, pois se coroou aos quatorze anos, e aos vinte e quatro empreendeu a guerra em que foi desbaratado.

 

Profecia de S. Ângelo Carmelita.

 

Lastimado o santo de ver que os castigos que Cristo Senhor nosso prometia ao gênero humano por seus pecados, eram grandes, disse-lhe Cristo: "Que mandaria quem os levantaria." Respondeu-lhe: "Da antiga descendência dos franceses se levantará um, que será de grande piedade para com Deus, e será recebido pelos reis católicos, e professores da fé católica, e será muito amado deles, e cercará o mundo por mar e por terra, e socorrerá as coisas oprimidas da Igreja: e juntando-se com o romano pontífice, alimpará os erros dos cristãos, e da cristandade: restituirá a Igreja ao estado desejado dos bons, mandará seus exércitos, aos quais seguirão muitos de sua própria vontade, e posto que nestas guerras morram muitos, por meu nome, em paga subirão a gozar os triunfos do Céu. Este passará com grandes frotas o mar, restituirá as igrejas perdidas, livrando a Jerusalém.

 

E é de advertir, que não é objeção ao nosso intento, dizer que há de ser da antiga descendência dos franceses: porque o senhor Rei D. Sebastião é neto de Carlos V, que foi francês, descendente dos duques de Borgonha.

 

Profecia de S. Nicolau Factor, à qual se refere Francisco Navarro de Hativa na sua Política Espanhola à fl. 328.

 

"Despues de destruida la seyta mahometana em Hespaña, echados los moros, se tratarà en ella dela recuperacion dela Tierra Santa, y se pregonarà guerra, à la qual marcharan muchas compañias de soldados: y en oyendo los lavradores, que estaran cultivando sus campos, que aquellos apparatos son para la Tierra Santa, se inflamaran de tal suerte en devocion, que sin acordar-se de bolver a sus casas, tomaron el mismo camino; y la misma bandera deste exercito serà de frayles y clerigos; y en este medio se llevantarà en la iglesia el espirito de un nuevo David, que serà um pontifice romano, escogido por el mano de Dios, el qual reformarà la iglesia catholica en tiempo, que se allarà en tanta apertura, que apenas seran catholicos, y fieles la tercera parte de los que tienen nombre de christianos. Este nuevo pontifice reduzirà la iglesia a su antigo estado, y reduzirá a los hereges; y reduzidos se juntaran con el rei, en quien estarà la gracia de Dios. Todos tomaran los thezoros de las iglesias, y hechos moneda llevataran gente en el chrystianismo, y con poderozo exercito marcharan la buelta de Jerusalem. Este exercito passarà por el estrecho de Gibraltar en Africa, y caminarà hasta sitiar la ciudad de Libia, ò Fez; y en ella el gran leon de Hespaña desembainarà una espada de virtud, reservada para el, y proseguirà su jornada por Barberia, matando e abrazando a todos los que no pidierem el sagrado baptismo, ni professaren el nombre de Christo; y seron tantas las victorias que alcançarà de los moros, que de cien legoas vendran postrados a sus pies entregar-le las llaves de las ciudades, y fuerzas; y en esta forma vendrà com sus fuerzas sobre Tunes, donde formarà una poderoza armada, y el campo caminarà por tierra. Luego que llegaren las nuevas al turco, de que el rei Leon viene tan poderozo, congregarà un formidable exercito, que pondrà en cuydado al Leon de Hespaña; mas Dios le confortarà por medio de un angel, assegurando-le, que no tema porque le tendrà de su parte. Con este auxilio, la armada christiana, que hirá por mar, se apoderarà de la ciudad de Alexandria do Egypto; y quando el avizo llegar al turco, que serà al amanecer, se acobardarà de tal suerte, que deshaziendo el exercito, se retirarà a la tierra dentro; y deixando el campo franco, el Leon continuarà sus victorias hasta Jerusalem, y en llegando a ella, se arrojarà pecho por tierra, y darà gracias a Dios por tantas victorias y mercedes. Por este tiempo quedarà Hispaña ............ ; porque, para acudir a la Tierra Santa, apenas se allaran en ella hombres de 14 años arriba, que non sean viejos, e inutiles, y quando vinieren de la conquista, se cumplirà la profecia, que siette mugeres iran traz un hombre, perguntando la una per su marido, la otra por sus hijos; y quando los hombres se acertaren de encontrar por las calles, se gratularan entre si, de haveren llegado a ver-se juntos, despues de tantas tribulaciones. Todo el hombre està alierta, que el tiempo buela, y no sabemos la hora."

 

Profecias tiradas das cartas de S. Francisco de Paula, escritas
a seu companheiro Simão de Ximena, as quais andam no fim
do livro de sua tida, e na primeira parte da sua crônica.

 

Diz primeiramente em uma de suas cartas: - "Vuestra santa generacion serà maravilhosa sobre la tierra, entre la qual vendrà uno de vuestros descendientes, que serà como el sol entre las estrellas. El tal hombre serà en su puericia y adolescencia quasi santo, mas en su juventud serà peccador: despues serà convertido de todo a Dios, y harà gran penitencia, y seranle perdonados sus peccados, y tornarà a ser santo. Serà gran capiton, y principe de gente santa, llamados los santos cruciferos de Jesu Christo, con los quales dezharà la seita mahometana, con todo el resto de los infieles, anniquilará las heregias, y tirannias del mundo, reformará la iglesia de Dios con sus sequazes: seron los mejores hombres del mundo en armas, en letras, y toda otra virtud del Altissimo. Tendrá el dominio del mundo temporal, y espiritual, y regirá la iglesia de Dios in sempiterna secula. Amen."

 

Diz mais em outra carta a este intento, ao dito Simão Ximena, chorando os maus governos dos príncipes:

 

"Ay, ay de vos otros! Dios Omnipotente llevantarà, de pobrissimo, gentil hombre del linage de Constantino, hijo de Santa Helena, y del linage de Pepino um descendiente lo qual traherà en el pecho la señal, que viste en el principio desta carta. Por virtud del Altissimo consumirá los tyrannos, los hereges y infieles: combatirá com ellos, y matará todos los rebeldes del Altissimo. Ó Sr. Simon! Tal hombre será de vuestros descendientes etc. De Paula I de abril de 1455."

 

Diz mais em outra carta ao mesmo Simão: - "Apresenten-se todos los principes del mundo, espirituales y temporales, para esperar el grandissimo açote, que vendrá sobre ellos, el qual será de los infieles, y de los hereges, y despues vendran fidelissimos, y escogidos del Altissimo, santos cruciferos, los quales no podiendo vencer primero con letras los hereges, se moveran impetuozamente contra ellos con las armas. Venceran muchas ciudades, castillos, fortalezas, y villas con muerte de infinito numero de buenos y malos; los buenos seran martyres de Jesu Christo, y los malos del demonio. Los infieles se bolveran contra estas dos partes de hereges, y catholicos; mataran, arruinaran, y sacaran la mejor parte de la christianidad. Del otro bando se moveran los santos cruciferos, non contra los christianos, ni dentro de la christianidad, siño contra los infieles en el paganismo, y le conquistaran todo con muerte de infinito numero de infieles, y despues se bolveran contra los malos christianos, y mataran todos los rebeldes de Jesu Christo, e le quitaran todo lo espiritual y temporal, que ansi es voluntad de su divina magestad. Regiran y governaran el mundo santamente in saeculam saeculorum. Amen. De vuestra linage serà el fundador de tal gente santa. Mas quando será tal cosa? Quando se veran los señales, y se verá sobre el estandarte el crucifixo? Viva Jesu Christo biendito; Gaudeamus omnes, nos otros que estamos en el servicio del Altissimo porque se llega ya la gran vizita, y reformacion del mundo, será un ganado, y un pastor. Adios. 25 de março de 1460.”

 

Diz mais em outra carta ao dito Simão, ao mesmo intento:

 

"Ya se vá acercando la hora que a divina magestad visitarà el mundo con la nueva religion de los santos cruciferos, con el crucifixo llevantado sobre el mas alto estandarte, y de mejor logar: estandarte admirable a los ojos de todos los justos, que en los principios escarneceran todos los incredulos, y malos christianos; mas despues que vean las maravillas, y victorias contra tyrannos, hereges, y infieles, sus burlas se converteran en lagrimas. Esta santa gente hará arsoyos, con rios de la sangre de los rebeldes da divina Magestad. Ó quantos infelicissimos animos se hiran al infierno, cujos cuerpos seran comidos de los animales brutos, castigo merecido de todos aquellos, que seran transgressores de los divinos preceptos por obstinacion, y no por fragilidad; porque à los fragiles penitentes, la soberana Magestad, y misericordia les perdona de ordinario benignamente! Ó santos cruciferos, escogidos del Altissimo, que sereis gratissimos al gran Dios, mucho mas por cierto, que lo fue el pueblo de Israel! Mostrarà señales mas maravillozos por vosotros, que jamas mostró por otro pueblo: vosotros destruireis la maldita seita mahometana: vós otros poreis el freno a toda la suerte de infieles seitas, y heregias del mundo, y sereis el acabamiento de todos los tirannos: vós otros pondereis silencio con perpetua paz por todo el universo: vosotros hareis santos a todos los hombres. Ó gente santa! Ó gente biendita de la Santissima Trindad. Señor Simon, y hermano en Jesu Christo, companero charissimo, alegre-se vuestra anima, que el gran Dios se digna del remedio de un descendiente vuestro, y hijo mio bendito, para dar una religion tan santa al mundo, la ultima de todas e la mas amada de la Magestad divina. Vencedor se llamarà su fundador: vencerà el mundo, la carne y el demonio. Laus Deo, y a todos los suyos henditos etc. 17 de maio de 1462.

 

Diz mais adiante ao mesmo Simão, em outra carta, e ao mesmo intento:

 

"Vendrà despues de vós un descendiente vuestro, ansi como muchas vezes lo tengo escrito, y profetizado, por la voluntad del Altissimo, el qual harà otros muchos echos, y señales. Este hombre será gran peccador en la juventud, y despues se converterá al gran Dios, del qual serà llamado como fue Pablo. Será fundador de su nueva religion, differente de las otras todas, y repartila-ha en tres ordenes de cavalleros armados, sacerdotes, solitarios, y hospitaleros piedosissimos. Será la ultima religion de todas, y hará fruto en la iglesia de Dios mayor que todas as otras ultimas. Extinguirá la maldita seita de Mahoma, y todos los hereges y tyrannos del mundo se extirparan. Tomarasse por fuerza de armas todo lo temporal y espiritual: será un ganado, y un pastor, y reduziran el mundo a una santa vida, y viviran in saecula saeculorum. Amen. En todo el mundo no haverá sino doze reis, um imperador, y poquissimos señores, los quaes todos seran santos. Viva Jesu Christo biendito, porque a mi, indigno siervo y pobre peccador, se ha dignado darme espirito pofetico, con clarissimas profecias, no escuras, como a otros siervos las ha dado, y hecho dizir, y escrivir. Bien, que de los incredulos, y gente precita, no seran sino burladas mis letras, y no las creeran, mas en los fieles espiritos catholicos, que aspiran al santo paradiso, estas letras engendraran tanta suavidad en el amor divino, que se deleitaran leendolas muchas vezes, y procuraran sacar copias delas con grandissimo fervor. En estas letras se coneceran quales son de Chisto biendito, y quien predestinado y precito, y mucho mas en la señal de Dios vivo, que quien le reverenciare, amare, y trahere será santo de Dios. 13 de agosto de 1496."

 

Outras muitas mais coisas diz em diversas cartas, e em diferentes partes este propósito; mas como seguimos brevidade neste discurso, parece-nos o que fica referido bastante fundamento para desenganar os duvidosos, se não quiserem ser incrédulos, e cair em os outros infames títulos com que o santo os apelida.

 

Profecias do padre Frei João de Rozacelça, religioso de S. Bento Aragonês, as quais mandou a El-Rei D. Fernando estando em Granada.

 

Depois de muitos vaticínios, diz:

 

El que primero vencido,

Con muerte de su ganado

Dexò sollano, y collado,

Quedar-seha adormecido,

Quazi muerto y trespassado ;

Sale con nuevo pendon

En cavallo mariano

Dexa el Auzonio y Troyano

Para otra occazion,

Viene aora al Occeano etc.

 

Depois de vaticinar outras muitas coisas, diz:

 

Quedan tres coronas, cierto,

Lo que una sola hà sido,

Y coronado el vencido,

El que fue un tiempo muerto,

Por mostrar, que era perdido.

Su bandera encruzarà

Todo es cruzes quanto le veis,

Cinco cruzes le vereis

Blancas, y una en blao tendrà,

Y en blao todas pintareis.

Esta insignia venturosa

De varias flores ornada,

Serà en la tierra dichosa,

Que en medio està fundada.

 

E dizendo outras coisas, acaba assim:

 

Tres PPP y una S junto

Son las quatro de que hablamos:

Al S el señor atamos,

Y al P el primer punto,

Por el qual todos lloramos.

 

Em outra parte diz o seguinte:

 

Mis sueños occultos son

Nadie los entenderà

Però vivendo verà

Quien lo viere, en gran Leon

Muerto ressuscitarà.

Ya parece descubierto

El de branco, y colorado

y dize con braço armado;

Mio es el jardim, y huerto,

Que o mi propozito fue tomado.

Saldrà de la occulta cueva

Tan espantozo, y airado

Que se espantarà el prado

De le ver corona nueva,

Y cruz en el siniestro lado.

 

Profecias de Santo Isidoro.

 

Santo Isidoro na profecia 26, diz assim:

 

"Sahirà el Leon de su morada, despertando de su temerario sueño, causa de tantos males etc."

 

Na profecia 55, diz assim:

 

"Llamado será encuberto por las altas montañas, y con catholico zelo deixarà la tierra huerfana etc."

 

Ainda aqui se não contém a metade das profecias que há ao intento, mas o nosso e tratar com brevidade; e assim vejamos agora, e ouçamos os vaticínios, como prometemos no princípio deste segundo fundamento.

 

Vaticínio que, S. Zacarias, discípulo de S. Francisco, fundador do convento de Alenquer, deixou nele, tirado de S. Isidoro, e de Cassandra.

 

Vaticínio que S. Zacarias, discípulo de S. Francisco, fundador do convento de Alenquer, deixou nele, tirado de S. Isidoro, e de Cassandra.

 

"Isidorus, et Cassandra, filia Priami regis troyanorum concordati in unum dixerunt: In ultimis diebus in Hispania maiori regnabit rex bis piè datus: et regnabit per feminam, cujus nomen inchoabitur per Y graecum, et terminabitur per L: et dictus rex ex partibus orientalis veniet, et regnabit in juventute: ipse expurgabit spurcitias Hispaniarum, et quod ignis non devorabit, gladius vastabit: regnabit super domum Agar, et obtinebit Jerusalem, et super sanctum sepulchrum signum crucifixi ponet, et erit monarcha maximus."

 

Advirta-se que aquele in Hispania maiori denota Portugal, porque Espanha divide-se em três Espanhas: Terraconense, Hispalense, e Lusitânia, e esta anigamente era maior e mais estendida que hoje, como consta de todos os cosmógrafos e historiadores: e o mesmo Santo Isidoro disse em outro texto, que para Portugal hão de vir. Aquelas partículas - regnabit per feminam etc., claramente denotam o senhor Rei D. Sebastião.

 

Vaticínio de Frei Bartolomeu Salutivo, ou de Salúcio.

 

Foi Bartolomeu Salutivo franciscano venerado em toda a Itália, por sua santidade e zelo apostólico, escreveu um livro de predições na era de 1606, as quais se têm provado com os efeitos: seu principal assunto é tratar dos castigos da cristandade, pelas armas do turco; mas depois vendo o remédio, diz assim:

 

Mà si volete odire una cansona

Verrà de Lisbona

Chiara, e illustre persona,

Adorna de ogni opera buona

La qui fama risona

In tuta parte elido

Nel mondo dà gran grido.

 

Quer dizer:

 

Mas se quiseres,

Vos direi uma canção.

Virá de Lisboa

Uma nobre e ilustre pessoa,

Adornada de boas obras,

Cuja grande fama,

Espalhada por toda a parte

Em o mundo dará um grande brado.

 

Vaticínios de S. Frei Gil português, conservados no
real mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.

 

1.° Ecclesia Dei a multis, sed frustra opprimetur.

 

2.° Sanctum evangelium, praelia, seditiones, dissentiones, prodigia, inundationes, terraemotus, fames, pestilentiae ubicumque erunt; confidete fideles qua nondum statim finis.

 

3.° Ungaria turcos propulsabit potender.

 

4.° Galliae reducentur feliciter.

 

5.° Roma componet prudenter.

 

6.° Veneti juvabunt utiliter.

 

7.° Italia pacare reget.

 

8.° Ecclesia haereditate ditabitur.

 

9.° Anglia religione cadet, formidabilis erit, sed ab extris occupabitur fraudulenter.

 

10.° Hispani non frustra timebunt.

 

11.° Britania contentione vexabitur.

 

12.° Lusitania sanguine orbata regio diu ingemisset, et multipliciter patientur; sed propitius tibi Deus salus a longinquo veniet, et imperate ab isperato redimeris.

 

13.° Africa debellabitur.

 

14.° Imperio ottomanum ruet.

 

15.° Ecclesia martyribus coronabitur.

 

16.° Bisantium subvertetur.

 

17.° Domus Dei recuperabitur.

 

18.° Omnia mutabuntur.

 

19.° Magnates deprimentur.

 

20.° Humiles exaltabuntur.

 

21.° Orbis à tribus moderabitur.

 

22.° Aetas aurea reviviscet.

 

23.° Pax ubicumque erit.

 

24.° Felices, qui viderint.

 

Vaticínio de S. Metódio.

 

S. Metódio no liv. 6 cap. 28, diz:

 

"Expergiscetur rex in furore magno, quem existimabant homines tamquam mortuum."

 

O mesmo santo no liv. 37 das Visões dos tempos, como também na Biblioteca dos santos padres, diz:

 

"In his diebus apparebit in luna vitale signum; resurget rex ex somno, qui fuit asinus et camelus. Leo decipabit agarenos, dicetur magnus imperator romanorum, et restituet domum sanctitatis, et erit pax plurima. "

 

Vaticínio que o doutor Gregorio d’Almeida refere na Restauração de Portugal.

 

O doutor Gregório d'Almeida, refere na Restauração de Portugal um vaticínio, dando por testemunha o conde de Cantanhede, o qual se achou em uma sepultura, e tirando-lhe as claúsulas, que não fazem a seu intento, diz assim: - "Cum sol libaverit ossa mea, appropinquabit laetitia lusitanorum, setember autem videbit ingressum Ruphi Insulani, occultus rex apparebit, sacrum promontorium coronabitur."

 

Vaticínio de João Carrion.

 

João Carrion em o liv. Chronicos Chronicorum libelus refere este vaticínio à fl. 358:

 

"Excitabitur Caesar perinde, ac homo ille dulci sopore correptus a somno; hic reputabitur ab hominibus velut mortuus, et ascendet supra mare magnum, et invadet turcos, et vincet eos, uxores, et liberos corum ducet captivos; ingens metus et terror magnus obruet turcos; mulieres, et pueri eorum lamentabuntur, et querelas effundent: ominis terra turcorum tradetur in manu romanu Caesaris."

 

Vaticínios do padre José de Anchieta, da relação da sua vida.

 

Estando este servo de Deus com o seu companheiro, e outras pessoas leigas, em Pernambuco, praticando ficou demudado e suspenso, tanto que lhe perguntou o companheiro se tinha alguma coisa que o molestasse.? E tornando em si, disse: Irmãos, demos graças a Deus Nosso Senhor; porque a esta hora se perdeu El-Rei D. Sebastião; e era no mesmo dia 4 de agosto de 1578. E perguntando-lhe o companheiro por el-rei, respondeu que escapara, e que Deus o tinha livrado daquele perigo, mas que tarde tornaria a reinar, e que seria depois de passados muitos anos, e ele e Portugal padecerem muitos trabalhos.

 

E o mesmo venerável padre disse também a Manuel de Gaia, morador no Espírito Santo, que El-Rei D. Sebastião havia de passar três vezes a África, e a havia de ganhar e conquistar, e muita parte da gente mourisca havia de receber o sagrado batismo, pedido por ela de sua livre vontade, e que tomaria a cidade de Alexandria, onde se tomariam grandes riquezas, e que destruiria a casa de Meca, da qual não ficaria memória, e que conquistaria toda a Palestina, Antióquia, Jerusalém, e todo o império do turco, em que se tomariam grandes riquezas, e que conquistaria o império de Alemanha, por reinar nele imperador herege, e que seria Portugal uma ave fênix como o fora antigamente Roma, que senhoreou o mundo, e que o príncipe seu filho conquistaria toda a Ásia, e seria senhor de todo o mundo, porque tudo isto estava ordenado pelo Senhor, e que El-Rei D. Sebastião era um santo rei, pelo que o guardava Deus, para por ele obrar tudo o que fica dito.

 

Disse mais, que toda a gente do norte e setentrião viriam ao grêmio da Igreja, e dariam obediência ao Santo Padre, e que seriam muitos povos de Portugal governados pelos pequenos, pelo que seriam melhor governados do que antes, e com justiça. Estando este servo de Deus à hora da morte disse ao dito Manuel de Gaia, que viesse a Lisboa, e dissesse a quem governava o reino, que governasse com justiça; porque o senhor Rei D. Sebastião era vivo, e havia de vir tomar posse dele. Temendo o dito Manuel de Gaia vir com esta embaixada, o padre o assegurou dos seus temores, dizendo-lhe que tornaria sem perigo. Fez o que o padre lhe mandou, e deu aos governadores o seu recado. Esteve o dito homem seis ou sete meses em Lisboa, e avisando os governadores a Madri, tardou tanto a resposta, que o dito homem se partiu, e nisto esteve o mistério; porque no primeiro correio depois da partida do dito homem, veio ordem para que fosse lá levado. Isto viu toda Lisboa.

 

Vaticínio de Pedro de Frias, comentador das profecias de Santo Isidoro.

 

Depois de vaticinar muitas coisas, diz assim:

 

Por las traiciones de atroz

Sale el leon assañado,

Blanco, azul y colorado

Son los pendones, que traz:

Sale de guerra, y de paz

El Bisneto de Manoel,

Nadie se burle con el,

Que el leon es muy sañudo,

En la paz blando y sizudo,

Y en la guerra muy cruel.

 

Passando a outras coisas, diz:

 

En Marrocos entrarà,

Y serà grande señor,

En Africa emperador,

Y por tal se coronarà:

Y las cosas, que harà

En toda la Moraria

En Africa, y Berberia,

Al mundo todo espanta:

Tomarà la casa santa,

Reinarà en la gran Turquia,

Y serà dos vezes dado

Por rei à los lusitanos

Esfuerço de los christianos

De todos serà acclamado

Y serà Christo adorado,

Por aquesto cavallero,

Y como fuerte guerrero

Domarà el pueblo descreido,

De todos serà temido

Christo por Dios verdadero.

 

Vaticínios do venerável padre Antônio da Conceição, que comumente chamam o Beato Antônio, os quais se acharam depois da sua morte.

 

Os tempos mais esfaimados

Esperam grandes fortunas,

Nunca tardam as venturas

Se se atropelam pecados.

Terá fim nossa dor,

Se em boa razão me fundo,

Terá melhoras o mundo

Quando estiver pior,

Isto não terá detença

Mediante alguma virtude;

Porque é mais certa a saúde

Quando se passa a doença.

Virá rei muito famoso,

De outra sorte coroado,

Este fará nosso estado

De mui triste, venturoso.

Árvore é transplantada

Posto que nunca esquecida

Este fará nossa vida

Toda bem-aventurada.

Belos frutos traz consigo,

Enxertados noutra terra,

Que na mais horrenda guerra,

Assombraram o inimigo.

Tomaremos belos portos

Entre tão grandes extremos,

Todos ressuscitaremos

Quando estivermos mortos.

O leão com passos incertos

Com suas garras virá,

Mas mui cedo se verá,

Com os colmilhos abertos.

Ficarão os lusitanos

Felizes nesta ocasião,

E logo ressuscitarão

Com seus feitos soberanos.

Daquela mais bela terra

Virá a nossa conquista

Daquela, que não é vista,

Senão dos que vivem nela.

Mas ah, que grandes sinais

Estou antes disto vendo!

Ah, que açoite tão tremendo

Hão de aguardar os mortais!

Ah' grande tribulação,

Que em todo o povo se espalha!

Mas ah, que grande batalha

Tem a serpente com o leão!

Junto daquela cidade,

Que tem os campos de um santo,

Haverá horror e espanto,

Sairá triunfante a verdade.

Verás, se atento me lês,

O seu tormento só sinto,

Quando ao número quinto

Acrescentares mais três.

Aquele grande cometa,

Que antes há de aparecer,

Mostra, que havemos vencer

Aquela malvada seita.

Ah Portugal, Portugal,

Fiel na divina lei!

Verás o encoberto rei

Com coroa imperial.

Olha, que a ti te procura,

Confia em teu esperar

Que muito te há do custar;

Nunca o muito pouco custa.

Se tu queres ver na Terra

Os sinais mais turbulentos,

Verás, que teus próprios ventos

Te hão de fazer mais guerra.

Verás no mundo opressores,

E apertos mui de repente;

Não verás ninguém contente,

Senão os grandes Gailões.

Não terás a quem abrandes,

E com queixas muito menos;

Verás chorar os pequenos,

E só se hão de rir os grandes.

Mas em tão cruel porfia,

Tudo se há de trocar,

A alegria em pesar,

E o pesar em alegria,

Quando correrem as águas

Por três dias mui coadas,

Então serão acabadas,

Ó Portugal, tuas mágoas.

Denota grã claridade

Esta escura cerração,

E depois da turbação

Verás a serenidade.

Verás os lenhos famosos

Que dos islenhos te chegou,

E com bonanças navegam

A fazer-nos venturosos.

Verás aquele Senhor

Que por S se começa,

A quem o mundo obedeça

Por absoluto Senhor.

 

Vaticínios do ermitão de Monserrate.

 

Por las puertas del estrecho

Un encubierto entrarà,

Dòs infantes traerà,

De esfuerço, valor, y pecho.

A Portugal và derecho,

Passando herculeas colunas,

Y sin temor de las lunas

Quedarà Africa admirada,

Que los hilos de su espada

Provar querrà sus fortunas.

En una ciudad fundada

Por un griego capitan,

Rey, y infantes entraràn

En la prostrera jornada etc.

 

Vaticínios que tinha o arcebispo de Lisboa, D. Miguel de Castro

 

Terras no meio do mar,

Que já foram descobertas,

Para as achar tão incertas,

Que as não poderão achar

Tornando-as a procurar

Que tesouro aqui se encerra!

Aos lusos o rei pio,

Dado milagrosamente,

Duas vezes à moura gente

Toda passa pelo fio

Da sua cruel espada.

 

TERCEIRO FUNDAMENTO

 

Prova-se também a vinda do senhor Rei D. Sebastião, com revelações de santos, e de pessoas de conhecida virtude, como ouviremos.

 

Revelação de Santa Teresa de Jesus.

 

À fl... cap... do tom. 1.° da Crônica dos carmelitas descalços, diz Santa Teresa, que revelara Deus aos 4 de agosto de 1578 a perda d'el-Rei D. Sebastião, e dos que o acompanharam na guerra, e afligindo-se a santa com a tal perda, disse -lhe o Senhor: Se eu os achei dispostos para trazê-los a mim, de que te afliges tu? E acrescenta mais a santa no cap... fl..., que daquela perda haviam de redundar grandes bens, e coisas de grande glória de Deus, e admiráveis na Igreja.

 

Revelações de madre Leocádia da Conceição, às quais se refere o
padre Baltasar Guedes, reitor dos órfãos do Porto, em a breve relação que fez daquilo que sabia da dita madre, constrangido de seus confessores, com a qual comunicou, e as diz e jura.

 

Em nenhum modo esta admirável madre era afeiçoada a ouvir falar coisas do encoberto, e dizia, que era perder tempo falar nesta matéria: neste tempo fui eu a Lisboa ordenar-me, pediu-me então a venerável madre, visitasse da sua parte a madre Brízida, pessoa bem conhecida, e celebrada neste reino, de quem o licenciado Jorge Cardoso, que Deus tenha, em o 3.° Agiológio traz sua vida, e onde a podem ver os curiosos.

 

Cheguei a Lisboa, fui vê-la, e a primeira coisa que me disse foi: Diga, meu padre, à madre Leocádia, que em breve tempo se desenganará, e que eu a venero muito; porque o Senhor quando foi ao Tabor, revelou a glória a seus discípulos, e nem por isso os nove que ficaram ao pé do monte, deixaram de ser discípulos.

 

Acabei eu o meu negócio, e vim para esta cidade, e fui dar conta à venerável madre do que a madre Brízida me tinha dito: sorriu-se a nossa madre Leocádia, e me disse: Meu filho, se a coisa é de Deus, ele a fará entender quando for servido.

 

Passados alguns meses, um dia depois de vésperas, foi se a madre para a sua capelinha, como costumava, e em chegando a ela, viu que estava da parte de dentro um homem deitado, todo vestido de armas brancas desde o bico do pé até a cabeça, onde tinha um formoso elmo ou capacete com a cabeceira fechada, e em o braço esquerdo um escudo, e nele gravadas as armas deste reino, e na mão direita um bastão. A cabeceira deste homem estava uma árvore, em cujo remate estava a imagem de Cristo Senhor nosso crucificado, e ao pé desta árvore estava ao modo de um ermitão de joelhos, com as mãos levantadas em oração, e da parte direita estava uma mulher em pé, toda vestida de branco com um véu de volante pelo rosto, a cabeça bem composta, e na mão direita uma custódia, e na esquerda uma cruz. Da parte esquerda da árvore estava um gentil mancebo, com um estandarte nas mãos, com as sagradas quinas deste reino, e junto dele um homem mais entrado na idade, vestido ao comprido, como de cor roxa.

 

Sobressaltou-se a venerável madre com a visão, e como era de natural intrépida, como mulher forte, quis entrar para dentro, e disse-lhe a mulher: Persigna-te, e diz o credo, protesta a fé, como te ensinou o padre Frei Agostinho de S. Paulo, que então era confessor do dito convento, religioso de muita virtude e autoridade. Persignou-se, parou, e disse o credo, e protestou a fé de joelhos: feita a protestação da fé, ouviu claramente dizer ao mancebo que tinha o estandarte na mão, para o que estava deitado: Tu, que dormes, levanta-te; e no mesmo instante se levantou. Replicou o mancebo para o que estava ao pé da árvore: Tu, que oras, espera; e para o que está junto a si: Tu, que vigias, segue-me. E nisto saíram pela porta da capela afora, para a parte do mar, lançando estas vozes: Espanha, Espanha, que será de ti! Roma, Roma, Portugal, Portugal, império, império; e isto diziam todos em som de guerra.

 

A venerável madre ia seguindo com a vista esta visão, e viu que lá para o mar, além dos Capuchos, se reduzia aquela cruz vermelha em forma de flor-de-lis.

 

Era a este tempo a venerável madre porteira da porta de cana, e tangendo-se a campainha, correu à obediência, vindo chorando os trabalhos da cristandade; e abrindo a porta viu a mesma cruz, que dantes vira vermelha, posta no ar sobre o pátio toda branca e refulgente.

 

Com este espírito do que vira, tomou a chave, e na parede, que faz costas à capela, fez com a chave o retrato da mesma cruz; e não sei se estará ainda hoje no próprio lugar.

 

Passaram-se alguns tempos: entre eles me comunicou esta visão, pedindo-me segredo, e o meu parecer. Respondi-lhe, que era eu mochacho e néscio, e que sua reverência o comunicasse ao seu confessor, que era letrado e virtuoso, e como tal lhe respondeu, que se não inquietasse com o que vira, que Deus Senhor nosso lho manifestaria quando fosse tempo.

 

Nesses tempos continuava fervorosa oração, e estando uma tarde no coro, viu que no arco da capela-mor estava formada uma formosíssima árvore, semelhante a um plátano em as folhas e cachos; porém advertia ela, que aquela igreja lhe parecia muito maior, sem comparação do que ela é, e que sobre ela estava a imagem de Cristo Senhor nosso crucificado, que está no arco da capela-mor. Ao pé desta árvore estava virado para o altar-mor aquele ermitão que ela viu embaixo na capela do Senhor dos Passos, ao pé da árvore que fica referida. Ouvia a venerável madre, que dizia este homem para o altar-mor. Memento mei, qui Alphonso dixisti. Estando assim a venerável madre admirada, sobre suspensa, advertiu, que pela porta da igreja, ainda que fechada, entrava um homem de terrível aspecto, fazendo vênia ao Senhor, e foi chegando à árvore, trazendo em as mãos um machado e um ancinho de ferro. Em todo este tempo dizia o ermitão as palavras que em latim ficavam escritas.

 

Tomou este homem o ancinho, e foi esfolhando toda a árvore, cujas folhas assim como caíam, se sumiam, e da mesma sorte os cachos, que depois das folhas foram arrancados: ficou a árvore como se fora estio.

 

Feita esta cerimônia, pôs de parte o ancinho, e pegando no machado, foi aquele tremendo homem cortando todos os troncos da árvore, sem ficar um só; e ouvia a venerável madre uma voz sentida, saída do altar-mor que dizia ao cortar dos troncos: Dissipati sunt, torquentes cor meum.

 

Dizia-me esta madre, que me comunicou esta visão: Meu filho, cada tronco que caía fazia tal estrondo, que me parecia que todo o convento se arruinava. Perguntei-lhe o que fazia quando via esta visão.? Respondeu-me: Conformava-me com a vontade de Deus, e pedia-lhe misericórdia, e neste ponto (dizia ela) parece que o Senhor me dizia: Post tenebras spero lucem.

 

Desaparecida esta visão, sentia-se a venerável madre mui compungida e sentida: deu parte a seu confessor, e ele a deu ao padre guardião, que então era aquele grande servo de Deus a quem chamavam Frei Manuel de Jesus, e por ser de Monção, lhe chamavam o Galego de alcunha. E chegando a falar com ela o dito padre guardião, e animando-a da visão que havia visto, disse-lhe que continuasse nos seus santos exercícios, e que quando comungasse pedisse a Deus nosso Senhor, desse-lhe a sentir as circunstâncias da visão, já que fora servido mostrar-lha. Obedeceu a madre, e passadas algumas comunhões, sentiu que por locução interior se lhe dizia: A árvore que viste, é este reino, cujo povo significam as folhas dela, significadas as riquezas em os cachos; os troncos que viste, são os fidalgos que hei de dissipar e destruir, porque atormentam os pobres e desvalidos, que são o meu coração; aquele homem que viste que esfolhou e cortou, é o meu vigor com que hei de castigar este reino, pois se não aproveita da minha misericórdia, ofendendo-me, como se não fora reino meu; aquele que viste de joelhos ao pé da árvore chorando, é o corpo místico deste reino, em que se significam os povos que me amam; esses me pedem, me lembre deste reino, como prometi lembrar-me ao primeiro rei deste reino D. Afonso Henriques.

 

Perguntou-lhe a venerável madre: Senhor, aquelas palavras últimas: Post tenebras spero lucem , bem mostram que vossa piedade se há de lembrar, depois que passarem os trabalhos; mas ficar aquela árvore sem troncos, arrematada com poucas folhinhas, que me pareciam de louro, ao pé da vossa cruz, que significa? Ouviu então que se lhe dizia: Filha, o tronco real deste reino, nunca o hei de acabar, e com os poucos que escaparem, significados nas poucas folhas que viste, hei de aumentar este reino, que há de ser império até ao fim do mundo.

 

Nestes tempos não passava a venerável madre dia, que não tivesse visões; porque todo o seu cuidado era encomendar muito a nosso Senhor a paz da Igreja, e deste reino com Castela; gastava no coro muitas horas, e ordinariamente a estava acompanhando o encoberto, que era aquele homem, que ela viu deitado, como acima fica dito, ao pé da árvore que ela tinha visto em a sua capelinha do claustro, do Senhor com a cruz às costas. Falava com ela em português, mas nunca levantava a viseira do elmo, e sempre o viu coberto de armas brancas até as mãos.

 

Muitas vezes disse-me a venerável madre, que ele era santo. Em o dia que comungava via sair extraordinárias luzes por baixo da viseira. Perguntava-lhe a venerável madre, onde habitava, e quando havia de vir a este reino, porque claramente dizia, era El-Rei D. Sebastião, e a forma em que andava no mundo.? Ao que respondia, era reservado só a Deus nosso Senhor.

 

Vinha um dia a venerável madre abrir a porta de cima, de que era porteira, e vindo pelo corredor, viu que diante dela vinha o encoberto, e trazia pela mão aquela mulher vestida de branco, que acima fica dito que na capela do Senhor com a cruz às costas disse à venerável madre, que se persignasse, dissesse o credo, e protestasse a fé; e encontrando-se a veneranda madre em o corredor lhe perguntou o encoberto: Vós casastes? Respondeu-lhe a mulher, que era a Igreja: Este, que vês, me há de reformar desde a ara pontifícia até o menor clérigo de menores, e ao mundo dará coroa imperial.

 

Em outra ocasião estava em coro, depois de vésperas a venerável madre em oração, quando viu entrar pela porta do coro dentro um homem velho bem parecido, vestido de armas brancas, trazia em o braço esquerdo muitas coroas, e em sua própria cabeça trazia uma bem ornada, que parecia imperial; viu logo entrar outros homens vestidos de vários modos, e cada um que chegava fazia profunda vênia ao Santíssimo Sacramento, e dali ajoelhava ao pé do velho, e lhe beijava a mão, e logo lhe punha o velho uma das coroas que no braço tinha. Iam-se estes reis pondo à roda em forma de círculo, e o úlimo que entrou, era ainda moço no aspecto, gentil homem, de presença mui agradável; e tanto que este apareceu, lhe fizeram todos muita cortesia; o velho o tomou nos braços, e tirando de sua própria cabeça a coroa, a pôs em a cabeça do moço, e o pôs junto a si. Chegou logo um velho em forma de eclesiástico, e querendo beijar a mão ao primeiro velho, lhe virou as costas, e desapareceu a visão.

 

Passados alguns dias andava a venerável madre muito assustada e suspensa com o que vira: estando ela no coro depois de vésperas em oração, apareceu-lhe no mesmo coro mão com uma asa mui resplandecente: esta mão pegava em uma cadeia lustrosa e de grandes elos, a qual vinha acabar em o encoberto. Passou a visão à sua vista, e ficou muito sobressaltada; e virando-se para o altar-mor disse: Senhor, que é isto? Cadeias? Quereis prender a Portugal e cativá-lo? E toda debulhada em lágrimas prostrou-se por terra, pedindo misericórdia para este reino. Teve logo uma locução interior, que lhe dizia: Filha, a cadeia que viste, se puderas contar os seus fuzis, acharias que eram dezesseis, que significam os dezesseis reis deste reino, que são os que há poucos dias viste neste coro. Aquele primeiro velho era El-Rei D. Afonso Henriques, em quem comecei este reino; e por isso ia dando as coroas aos mais, e o último que viste entrar era El-Rei D. Sebastião, em cuja cabeça pôs o velho a sua coroa, e o recebeu nos braços. O eclesiástico que viste, foi o cardeal que entregou o reino a Castela, e não a quem pertencia; por isso o velho lhe virou as costas, e nem bênção, nem coroa lhe deu. A cadeia que viste em a mão com as asas, é do anjo Custódio deste reino. A cadeia que viste com elos unida, são os reis deste reino, tão unidos todos em fé, que nunca a quebraram, antes prevaleceram e perseveraram nela sempre fortes; e por isso viste o encoberto fixo nela, que pela exaltar, saiu à conquista.

 

Quando a venerável madre me contou esta visão, estava muito alegre em o Senhor, certificando-lhe sempre que este reino era puro na fé, e que o encoberto a havia de propagar por todo o mundo.

 

Quando Elvas esteve sitiada, à hora em que o nosso exército entrou em as trincheiras, apareceu-lhe o encoberto, e lhe disse: Eu fui o primeiro que rompi as trincheiras, e logo se foram seguindo os que foram entrando, e D. Luis de Haro tem deixado tudo, porque eu o intimidei e fiz ir fugindo: dá graças a Deus nosso Senhor por esta vitória; porque o Senhor me deu licença para te dar esta nova, pois com tanto cuidado lhe encomendas as coisas deste reino.

 

Estava a venerável madre na tarde do Dia de Reis rezando segundas matinas em o coro, por certo escrúpulo que lhe ocorreu, e chegando ao salmo que diz, Da imperium tuum puero tuo et salvum fac fìlium ancillae tuae, apareceu-lhe o encoberto e lhe disse: Deixai-me rezar, não me inquieteis; e se me ordenais que repita este verso, dizei-me o para quê? Respondeu-lhe o encoberto. Amiga, esse verso, suposto se intenda de Cristo Senhor nosso, também se acomoda a mim; porque me tem o Senhor prometido que hei de reformar e ser imperador; porque sou o filho mais obediente da Igreja nossa mãe.

 

Em tempo que Évora esteve de sítio pelo inimigo, recolheu-se a venerável madre ao coro em um dia de tarde, levando consigo trinta e duas freiras com velas acesas, como muitas vezes costumava; e estando recomendando a Deus nosso Senhor, restituísse a cidade de Évora à sua liberdade, estando em o fervor da oração, entrou pelo coro dentro uma religiosa doida, que havia no dito convento; esta trazia uma cana na mão com um papel, como bandeira, dizendo: Vitória, vitória. Respondeu a venerável madre: Escutai, filhas, que ainda não é tempo; e passado algum tempo mais, disse muito alegre para as freiras: Louvemos todas muito a Deus nosso Senhor, que já Évora está restaurada.

 

E perguntando-lhe eu em outra ocasião por este negócio, disse-me : Filho, o encoberto também andou na batalha, e logo me deu a nova de tão bom sucesso. Seja o Senhor bendito para sempre.

 

Revelações do irmão Pedro de Basto, tiradas da sua vida.

 

Sendo este servo de Deus ainda menino, viu em o ar um mar muito tempestuoso, e que nele estava deitado um homem vestido de armas brancas, o qual fazia diligências por se livrar, mas não podia; e ouvia uma voz que dizia: D. Sebastião Rei de Portugal, D. Sebastião Rei de Portugal. E viu mais dois exércitos, e que em um vinham homens a cavalo em leões brandindo setas, lançando fogo pela boca, mui irados, e queriam chegar ao homem que estava deitado, mas nunca o puderam conseguir, porque sempre dele estiveram distante oito braças.

 

Estando este servo de Deus orando na missa a Deus, pelos bons sucessos de Portugal, e pedindo para este reino remédio, viu ao levantar da hóstia a El-Rei D. Sebastião com um diadema na cabeça, todo vestido de verde. Muitas outras coisas viu este servo de Deus acerca desta matéria.

 

Revelações de Leonor Rodrigues, beata carmelita, de grande santidade, cuja vida anda em as crônicas carmelitanas, e suas visões alegadas por muitos autores, e tidas em grande autoridade; porque todas as coisas que predisse, sucederam realmente.

 

Viu esta serva de Deus uma vez que em Belém desembarcava um homem venerando, e que para ele ia correndo muita quantidade de gente, e muitos frades a beijar-lhe a mão, e havia muita alegria e contentamento.

 

Viu também um homem venerando que tinha beiço fendido, e em uma mão a letra S., e em outra um B.

 

Pedindo-lhe um religioso, por nome frei Pedro Tomás, que pedisse a Deus lhe revelasse, se era vivo El-Rei D. Sebastião, viu um sacrário que se abria e se fechava; abriu-se segunda vez, e segunda vez se tornou a fechar.

 

Viu também que vinha muita gente de fora a este reino, e que Lisboa estava muito receosa, temendo lhe vinha ali algum mal, mas que esta gente estrangeira deixava em Lisboa um homem, e se tornava, e que este governava a cidade e reino, com o que estavam todos muito contentes.

 

Em o ano de 1633, viu por muitos dias contínuos um homem velho, fornido de membros, e barba larga, no trono deste reino, com coroa nova, e que em termo de três dias se fazia senhor dele.

 

Viu outra vez um homem ancião metido em um abismo, e que logo se punham a cavalo alguns com ele.

 

Viu mais um homem de cabelo branco, e o beiço de baixo a modo de fendido, o qual tinha na mão uma bandeira verde, e que lhe dava S. Teresa.

 

Quarenta anos contínuos mostrou-lhe Deus um sol, que vinha de fora, e nascia em Tomar, o qual se estendia e resplandecia por todo o mundo.

 

Viu em uma ocasião um sol muito resplandecente que nascia em Lisboa, e deitava quatro braços para as quatro partes do mundo, e que a Lisboa vinham muitos frades fazer reverência àquele sol, com o qual estavam contentíssimos.

 

Outras muitas coisas que não é possível relatar, podem-se ver no padre Sebastião de Paiva na sua Quarta Monarquia, as quais lhe revelou seu confessor, e ele as confirmou. Trata também de suas revelações o padre Belchior de Santa Ana na Crônica dos Carmelitas.

 

Revelações da serva de Deus Maria da Cruz.

 

Em Viseu houve outra serva de Deus e virtuosa mulher, chamada Maria da Cruz, a quem Deus nosso Senhor revelava grandes segredos, e fazia muitos favores: pedindo a Deus lhe revelasse se era morto ou vivo El-Rei D. Sebastião, lhe mostrou Deus entre os vivos, e entre os mortos, sem declarar outra coisa mais, que estar diante de Deus.

 

A esta mesma lhe mostrou Deus grandes coisas sobre a jornada de Jerusalém, e que pessoas que hoje vivem, seriam sepultadas no santo sepulcro. Isto refere o padre Sebastião de Paiva.

 

Revelações de soror Marta de Cristo,

religiosa no Convento da Esperança.

 

Na era de 1578, em 4 de agosto, dia da desgraçada batalha de África, estando esta serva de Deus no coro fazendo oração, começou a gritar que lhe acudissem e viessem também chorar aquela tão grande perda do exército. Acudiram as religiosas e levaram-na para a cela; e tornando em si lhe perguntaram o que vira; e respondeu que naquela hora se perdeu El-Rei com todo o seu exército, e referiu a forma em que se perdeu; o que depois se soube, que assim foi: e perguntando-lhe por El-Rei, disse que Deus o livrara.

 

Quando o Sr. D. Antônio veio sobre Lisboa com os ingleses no ano de 1589, quiseram as religiosas do dito convento sair, como fizeram as mais que estavam extramuros, e a dita soror Marta de Cristo aconselhou-lhes que não saíssem porque o senhor D. Antônio não havia de ser rei de Portugal. E perguntando-lhe a abadessa, quem o havia de ser, respondeu, que El-Rei D. Sebastião, ao qual guardava Deus para remédio de Portugal. Tomaram as religiosas o conselho, e assim sucedeu, porque o exército foi-se sem ninguém receber dano.

 

Chegou a Portugal a nova, como El-Rei D. Sebastião estava em Veneza no ano de 1598; perguntou-lhe a abadessa, que pois ela certificava ser El-Rei D. Sebastião vivo, que alcançasse de Deus nosso Senhor com suas orações, se era ele o que se dizia estar em Veneza. Obedeceu a serva de Deus, orou pelo negócio, e respondeu que ele era o mesmo; mas que primeiro que ele viesse ao reino havia de passar muitos anos, e ele e Portugal muitos trabalhos.

 

QUARTO FUNDAMENTO DOS PRODÍGIOS

 

Prova-se, também, e defende-se a vinda de El-Rei D. Sebastião com prodígios dignos de lembrança e admiração; mas como referir estes todos é coisa dificultosa, e quase impossível, faremos menção de alguns, e posto que poucos, valerão por muitos.

 

Seja o primeiro, aparecer o pergaminho do juramento de El-Rei D. Afonso Henriques, poucos meses antes de estar El-Rei D. Sebastião em Veneza na era de 1598. Saiu a público este juramento em dezembro de 1597, havendo mais de 400 anos que fora escrito. Quis advertir a Divina Providência que nada ordena ao acaso; que não desconfiássemos quando víamos ao 16.° rei atenuado e impossibilitado, afirmando que nessa 16.ª geração atenuada havia de pôr os olhos da sua misericórdia: Possuit enim super te, et super semen tuum post te oculos misericordiae suae, usque in decimam sextam generationem, in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata ipse respiciet, et videbit.

 

Seja o segundo o que refere Gregório de Almeida na Restauração de Portugal, cap. 9. Tratando-se da colocação da imagem do senhor D. Afonso Henriques, que estava para se pôr no frontispício do real convento de Alcobaça, se não achou um pau em todos os pinhais de Leiria, que no comprimento e grossura pudesse servir. Neste tempo rebentou na Pederneira, no porto de S. Martinho, um pau de tanta grandeza e grossura, que foi necessário cortá-lo para servir na dita obra. Vinha coberto com muitos limos, e mexilhões pegados, sinal de vir do interior do mar. Aos 16 de dezembro de 1632 colocou-se a dita imagem, e depois de posta em o nicho, passada uma hora, viu-se um globo de fogo, com cauda de duas braças da parte do mar, que fica ao ocidente do mosteiro, o qual corria direito à estátua, e na mesma altura dela, mostrando claramente, que só a ela demandava, e tanto que chegou, parou sobre a coroa do glorioso rei, sobre a qual se desfez, deixando o ar alumiado por bom espaço de tempo; prognóstico, diz este autor, da restauração, e ressurreição deste reino, e assim são consideradas todas as circunstâncias do sucesso. O mastro saiu do mar, com sinais de estar escondido largo tempo, que isto denotam os limos que trazia; o resplandor da coroa, vindo também da parte do mar, indicava tudo a 16.ª geração atenuada e encoberta por largo tempo em lugar marítimo, da qual Deus a subiria outra vez à coroa a seu tempo: Virum ascendentem de corde maris.

 

Seja o terceiro: Em o ano de 1601, aos 13 de junho, sucedeu o prodígio de dar o santo Rei D. Afonso Henriques por três vezes três pancadas na sua sepultura, ao tempo que El-Rei D. Sebastião estava preso em Nápoles (como esteve em Veneza dois anos, sete meses, e dois dias, dando-se-lhe depois a liberdade) em conformação, de que aquele preso tinha quem por sua causa acudisse, e não menos que a raiz daquele mesmo tronco.

 

Em os mesmos 13 de junho de 1601 tangeu milagrosamente o sino de Belilha, muito mais tempo do que tinha tangido na prisão de Afonso III rei de Aragão na batalha naval, e em outras ocasiões notáveis em Castela; e nesta frei Marcos de Guadalajara fez esta obra em verso, assim como se fizeram outras muitas:

 

Cuenta-se una maravilla,

Todo se puede creer,

Que se viò por si tañer

La campana de Belilla.

Tambien se cuenta una nueva,

Que el primero portugués

Dio golpes trez vezes trez

Allà dentro de su cueva.

Mas tienen-se por verdades,

Y pues ansi se publican

Grandes cosas pronostican

Tan estrañas novedades.

Y aun que son cosas obscuras,

Y por vezes tuvo gana

De tañer esta campana,

Mas nunca las sepulturas.

Esto se poderà desir,

Que esta campana a ossadas,

Nò tañe a cosas passadas.

Tañe à las por venir.

Portugal ultra el Mogon

Suelta sus nobles banderas,

Gentes pocas, mas guerreras

Vencieron mucha nacion.

Hizo tributarios reys,

Tan lexos, cosa increible,

Nunca pudo lo impossible

Reformar los condes reys.

Por interpreza à las luchas

Del mal, y del merecer,

Le ha faltado que vencer,

Pero nunca embidias muchas.

Por casos, Dios sabe quales

A Castilla la real,

De Aragon y Portugal

Sirven los sceptros reales.

Bien se pudo presumir-se

Por lo de Affonso, y campana,

Que la monarquia de Hespaña

Es tiempo de dezunir-se.

Antes es cosa sencilla

Acabar-se todo imperio:

Plegue a Dios, que a nuestro imperio

No se le entre la polilla.

Alguna vez amarillos

Miren lo cargue el baston

En la frente del leon

Las quinas en los castillos.

Aora Hespaña y Castilla

Se juntou. Ay, que estã junta!

Plegue a Dios, como a difunta

Que no le taña Belilla,

Viendo en esta conjectura

Solo un rey bueno, e mil malos,

El mejor re¡, que huvo a palos

Brama de la sepultura.

Si el discurso nó me engaña

Alegra-te Portugal,

Al cabo de tanto mal,

Sobre los reinos de Hespaña.

Ya Dios te abre los puertos

Para bienes excessivos,

Ayer callavan los vivos,

Oy vemos hablar los muertos.

Bien puede ser, quando viene,

Hablar rei sin duda muerto,

Esperar otro encubierto

Que por muerto no se tiene.

Y que mucho es, que guardasse

Dios, un vivo de la muerte,

Pues hizo, que aquel rey fuerte

En cenizas buelto hablasse?

Portugal, nõ seas Thomas,

Que nõ ay llaga en que meter

La mano para creer:

Vivo está, no quieras mas:

Que es verdad ansi se vio,

Que elrey tenido por muerto

Nõ moríò, ni fue cautivo,

Mas vivendo se quedó.

No es mucho, segun se prueba

De su condicion altiva,

Con tal desgracia, que viva

Cien años en una cueva.

Y se a males ordinarios

Huvo Dios de dar castigo,

Que mucho es guardar un vivo

Por medios extraordinarios?

Y se tanta confuzion

Te cauza algun desconsuelo,

A cosas que son del cielo

Nó le busques mas razon.

 

Finalmente, soltando muitas coplas, que tocam sucessos de vários reinos, acaba assim:

 

Tuvierala por mejor

Si tornara de repiquez,

Mas el santo rei Henriquez

Quita a su reino el temor.

Pudiera quexas tener

De su reyno siempre amado,

Pues havendo-le jurado

Nò lo quizieron creer.

Si emperò el mismo amor

Pone la quexa en olvido,

Para que sea cumplido

Lo que prometio el Señor.

Si a Dios pide licencia oy,

Para restaurar su arbol,

Y base dentro del marmol,

Como dizendo: Aqui estoy.

 

Seja o quarto prodígio: No ano de 1598 manou em Belém, do sepulcro do príncipe D. João, pai do Senhor Rei D. Sebastião, sangue, por dezoito dias, e é quando D. João de Castro diz, que Sua Majestade estivera muito apertado em Nápoles; ao que atende a sibila Eritréia: Vera-se un portento, sangriento señal, que el padre con ancias de muerte renueva. Eu falei com o padre sacristão, que então era, e me disse, desejara, se tivesse poder, abrir o túmulo, e ver donde manava.

 

Seja o quinto prodígio: Na era de 1598 um menino de dezenove meses, em Santarém, dizer repentinamente: Há de vir o Bastião, e nesta desejada vinda falou três vezes em doze dias. Refere o caso por extenso o padre frei Sebastião de Paiva na sua Quinta Monarquia, que viu o relatório autêntico do pai do dito menino.

 

Seja o sexto: Na noite de 27 de outubro de 1601 se queimou o Hospital de Todos os Santos de Lisboa, em cuja desgraça aconteceram dois prodígios: o primeiro foi ficar intacto o retrato do Sr. Rei D. Sebastião, posto que defumado, ficando queimados todos os outros reis, e consumidos. O segundo foi que ficaram livres as armas de Portugal feitas de madeira, que estavam sobre o cruzeiro. Destas premissas está clara a conseqüência.

 

Seja o sétimo um reparo: Por que razão, em tantos anos, se não tem feito sepultura de mármore, para o sepulcro que dizem alguns ser D'el-Rei D. Sebastião, e se fez para a do Cardeal Henrique? Foi descuido ou foi acaso? Filosofe cada qual como lhe parecer.

 

Seja o oitavo outro reparo: Como houve tal descuido em suas reais exéquias, que até o presente dia se não fizeram, sendo o rei que lhe sucedeu seu tio, homem eclesiástico, muito pio, e que com grandes afetos o amava? E depois dele morto, porque não fez esta ação Filipe 2.°, prudente por nome, e por ações um dos mais vigilantes políticos, entre todos os do seu tempo, e do passado, a quem muito convinha arrancar dos corações dos portugueses o amor de seu rei natural, com segurar a certeza de sua morte nas funerais demonstrações? E o que mais é, que por duas ou três vezes se deram mil cruzados aos oficiais, para elas, e se encomendou o sermão, e nunca tiveram efeito. Que coisa é isto? Uma disposição maravilhosa da Providência Divina; porque não quis Deus permitir que ação tão séria e de verdade fosse executada em um corpo de mentira.

 

Seja o nono, e último: Estando os cinco governadores, que sucederam ao Cardeal D. Henrique, em Almada, por causa da peste que houve no ano de 1598, mandaram um mestre de obras a Extremoz cortar duas sepulturas, uma para o cardeal, outra para o jazigo que chamavam D'el-Rei D. Sebastião. Foi o mestre, tirou a pedra para a sepultura do cardeal, quis tirar outra para a D'el-Rei (que assim o querem), e quebrou-lhe pelo meio, e o mesmo que sucedeu com a primeira, sucedeu com a segunda, e com a terceira, que determinou tirar, e vendo o dito sucesso desistiu da empresa, e deu conta aos governadores, os quais ficaram suspensos, e lhe encarregaram segredo. Este homem estando para morrer, entregou ao seu confessor um escrito, que referia isto, afirmando-o pela conta que tinha de dar a Deus naquela hora, o que não afirmara em vida, por causa das cominações e penas que lhe foram impostas.

 

QUINTO FUNDAMENTO DOS  PROGNÓSTICOS DOS MAIS INSIGNES ASTRÓLOGOS

 

Também conciliam autoridade e prova os escritos dos insignes astrólogos, os quais escreveram largamente acerca desta matéria. Ponderemos o principal.

 

Primeiramente Lourenço Moniati, insigne astrólogo napolitano, mestre de Joviano Pontano, em o 3.° Livro de seus Metros, falando da conjunção de Júpiter e Saturno, que foi o ano de 1503 diz, que naquele tempo, isto é, no tempo dos efeitos da conjunção, nasceria um rei bem-aventurado, manso e pacífico, o qual tiraria todos os males do mundo, e teria as gentes em muita justiça, e em todo o mundo seria amado e temido.

 

Também um insigne varão por nome Lantibórgio, prognosticou um príncipe muito honesto, e de grande autoridade, que reinaria em todo o mundo.

 

O grande matemático Kepler, em o livro, que escreveu da Estrela Nova, que apareceu na era de 1604, dela prognosticou duas coisas memoráveis. A primeira, que na cristandade se levantaria uma nova monarquia, a qual crescendo com a idade, viria a formar a seu tempo um império universal, debaixo de cuja obediência todos os reinos do mundo, que ao presente tumultuavam ferozmente em guerras, deporiam as armas, e ele seria o jugo, que os amassasse, e o freio que os contivesse em paz : Novam ex hoc tempore rempublicam adolescere, cujus imperio generali regna hodiè valdè tumultuantia subigantur olim: ut ita mundus nimium inquietus, et ferox aliquandiu sub hujus monarchae tutela conquiescat.

 

A segunda causa que prognosticou, considerando a estrela foi a que se continua nas palavras seguintes: Circumferuntur passim vaticinia mahometanorum, ex quibus multi evincere volunt hoc esse tempus, quo sit interitura eorum religio. Quibus placebit Deum hoc ipsum indicare voluisse incensa nova stella in Sagittario, quae est triplicitas solis, et Martis, cum sol, et Jupiter christianis favere dicatur ab astrologis (quorum conceptibus Deus uti ponitur). Mars vero turcis. Et quidem stella magis cum Jove concordavit in latitudinis plaga, Mars vero fuit in maxima latitudine Australi, quae hac vice esse potuit, depressus igitur. Hinc victoria religionis christianae supra turcicam astrologicè concluditur. Vem a dizer em suma: que, segundo os vaticínios que se sabem acerca da seita maometana, é parecer de muitos que o tempo, e o último período da sua duração, se vem chegando; e considerando o sítio em que a estrela nova se achava com o Sol, e Júpiter, que eles dizem favorece aos cristãos, e com Marte, que também dizem que favorece aos turcos, se conclui, e convence astrologicamente a vitória total da religião cristã contra a seita maometana: Hinc victoria religionis christianae supra turcicam astrologicè concluditur.

 

E como esta estrela apareceu assinaladamente no signo de Sagitário, que domina sobre Espanha, e na parte do mesmo signo, que distingue a figura do serpentário, que domina sobre Portugal, por ser a serpente o timbre de suas armas, claramente se vê, que este império e este monarca há de ser da Lusitânia. E isto confirma João Carrion em o livro que imprimiu em Leão de França intitulado - Chronicorum libellus - donde em largas razões prova ser Portugal o último e maior dos impérios.

 

Isto mesmo corrobora André Gonçalves Salmanticense em o Tratado que escreveu da Conjunção Máxima: ponderem-no os curiosos, e consultem-no.

 

Mas o nosso lusitano Bocarro resplandece entre todos; Velut inter ignes luna minores, o qual largamente escreveu do império lusitano, e seu fundador. Sendo cinco as suas intrínsecas das exaltações dos impérios; 1.ª as conjunções dos planetas Saturno e Júpiter; 2.ª a mudança dos auges dos planetas, principalmente do Sol; 3.ª a mudança da excentricidade; 4.ª a obliqüidade do Zodíaco; 5.ª o orbe magno; com engenho agudo, e sutil arte mostra este autor em o seu Anacefaleoses da Monarquia Lusitana, que em Portugal se denota este grande império, nas oitavas 57, 58, 59, 61 e 62.

 

Oitava 57:

 

Soberbo passa atropelando o monte,

Vestido de Mavorte, irado o gesto.

Outro novo, senão Belorofonte

De uma nuvem cercado, obscuro, e mesto.

À ninfa rogo, que o que é me conte,

Se o presságio da nuvem tão funesto

É de ruína, ou de imatura morte?

A ninfa me responde desta sorte:

 

Oitava 58:

 

Quando cinco agarenos superando

O santo Afonso, a quem Tonante incita,

A cristífera imagem venerando,

A progênie no céu viu quase escrita:

Que na décima sexta atenuando

Se iria, lhe prediz sacro eremita;

Sustentada porém do Nereu coro

Nova honra alcançaria, e mais decoro.

 

Oitava 59:

 

Chegou-se o tempo, não feliz, mas certo,

Que rogando evitar não posso, ou basto:

Do reino congregou o pouco esperto

A gente, que perdeu fatal Sebasto;

De nuvem, como viste, vai coberto;

Porque na morte, como vês, o engasto,

Que às vezes é defensa do mau fado,

Juízo para Deus só reservado.

 

Oitava 61:

 

Do tempo que refiro, e não consumo,

Enquanto os casos míseros espendo

Compassos giro, e medindo o rumo

Vou da fortuna o pólo compreendendo:

Do mouro, que se exalta, então presumo,

Pelas coisas celestes discorrendo,

Que seu termo hoje tem, e a majestade,

Aquela que venceu naquela idade.

 

Oitava 62:

 

Venceu o lusitano, que a ventura

Dominador criou da Barberia;

Mas como a mútua sorte, que procura

Formar a portuguesa monarquia,

Indigesta estivesse, e não madura

Naquela perfeição que o céu queria,

Venceu ao vencedor o luso forte

Que agora incita o céu, exalta a sorte.

 

Claramente se colige destas oitavas, quem quis insinuar Bocaro havia de ser o autor desta monarquia.

 

SEXTO FUNDAMENTO DA FÉ DOS HISTÓRICOS

 

Em todos os que escreveram as histórias dos nossos reis desde seu princípio, se não pode deixar de observar nos mesmos reis um instinto e inclinação natural, ou sobrenatural, contra todos os sequazes da seita de Mafoma. Vimos que a natureza, desde a geração e nascimento, infundiu aquela certa aversão e antipatia em uns animais contra os outros, como é nos que servem à caça de volateria contra as aves, e na da montaria contra as feras, e até nos domésticos, que vigiam e limpam a casa contra as sevandijas, que a infestam e roubam; e tal é, e foi sempre desde o nascimento de Portugal em reino, a antipatia de seus reis, e antes de terem este título, dos que Deus ia preparando para o serem; porque já então tinha semeado e infundido neles esta natural aversão, e sobrenaturais espíritos contra os mouros e turcos, não como de homens contra homens, mas como de cristãos e professores da fé e lei divina, contra a brutal canalha dos infames seguidores da ímpia e blasfema cegueira maometana.

 

Foi concebido o reino de Portugal, antes de o ser, no Conde D. Henrique, e estando ainda em embrião, já estava animado com os espíritos da conquista de Jerusalém, para onde Henrique caminhava desde França, e para onde foi de Portugal por general do socorro que El-Rei D. Afonso de Leão, seu sogro, mandou ao Papa Urbano II, pelo qual foi eleito em um dos doze capitães, em que se repartiu o peso de todas as armas católicas.

 

Nasceu o mesmo reino nos campos de Ourique, entre os braços armados D'el-Rei D. Afonso I, e ali com tantos impulsos dos mesmos espíritos, como se viu na prodigiosa vitória contra os imensos exércitos dos cinco reis mouros. Tomou Miramolim a inundar o reino com quatrocentos ou quinhentos mil infantes, contra El-Rei D. Sancho I, que também foram desbaratados, repartindo-se a vitória entre a espada de Deus, e a de Sancho, o qual não contente de ter vencido a Mafoma em Portugal, o mandou vencer fora do reino pelo seu Mestre de Aviz, na batalha de Alarcos.

 

Contra El-Rei D. Afonso II se aquartelaram em Elvas, com numerosos exércitos, os dois reis mouros de Sevilha e Jaen; porém com os espíritos do primeiro Afonso, que viviam no valoroso rei, ele não só os venceu em batalha campal, mas entrando com suas armas vencedoras por suas próprias terras, pôs a ferro e a fogo toda a Andaluzia.

 

El-Rei D. Sancho II, posto que infamado de pouco cuidadoso, não se descuidou daquela obrigação que nos reis portugueses parece ainda maior que a de cuidar dos vassalos, e fez tal guerra aos mouros, que recuperou de sua tirania os reinos dos Algarves.

 

Tomaram sobre eles as armas de Mourama, e logo viram sobre si a El-Rei D. Afonso III, que não só os desalojou dali, e das relíquias, que ainda conservavam em alguns lugares de Portugal, mas os foi conquistando nas suas fronteiras, em que lhes ganhou vilas e castelos.

 

El-Rei D. Dinis, posto que ocupado em pacificar as outras coroas de Espanha, e também a sua, ajudou poderosamente a El-Rei D. Fernando de Castela, no intuito da conquista contra os mouros de Granada.

 

Em socorro destes passou El-Rei de Marrocos com as forças de toda a África, reinando já em Portugal D. Afonso IV, o qual em pessoa marchou logo a Sevilha, aonde, duvidando-se da batalha, pela imensa multidão dos bárbaros, ele somente a aconselhou e venceu.

 

El-Rei D. Pedro e D. Fernando parece que tiveram adormecidos um pouco estes espíritos, por não haver já ao pé mouros que conquistar; mas ressuscitaram tão ardentes e generosos em El-Rei D. João I, que indo-os buscar a África, lhes tirou das mãos em um dia, e sujeitou à sua coroa a cidade de Ceuta. Sustentou-a poderosamente El-Rei D. Duarte, e logo El-Rei D. Afonso V, chamado Africano, tendo já tomado Alcácer aos mouros, com maior e mais arriscado empenho se fez senhor de Tânger.

 

Prosseguiu as mesmas empresas El-Rei D. João II, por mar e terra, ganhando as praças interiores, e ganhando fortalezas; e pondo já os pés sobre o mar para passar a África em pessoa, bastou a fama desta resolução para conseguir o fim dela.

 

El-Rei D. Manuel conquistou muitas cidades africanas, e fez tributárias outras; mas com os olhos em Jerusalém, e na extinção total da seita maometana, representou por seus embaixadores ao Sumo Pontífice que se fizesse guerra ao turco juntamente por ambos os mares, e que ele tomaria à sua conta toda a do mar Roxo, e para a do Mediterrâneo concorreria com trinta galeões.

 

El-Rei D. João III ajudou a guerra de Túnis com a pessoa de seu irmão o infante D. Luís, e competente armada; e posto que não continuou a conquista da Mourama vizinha, foi para mais estender e apertar a remota.

 

E, finalmente, El-Rei D. Sebastião, solicitado do Papa Pio V, que casasse em França, prometeu que aceitaria o casamento, se El-Rei cristianíssimo lhe desse por dote, entrar com ele em liga contra os turcos; e finalmente só, e sem sucessor se embarcou para África.

 

Assim que, este natural e hereditário espírito dos reis portugueses, tão singular entre todos os primeiros cristãos, e tão constantemente continuado por mais de quinhentos anos, em tantas batalhas contra maometanos, e tão favorecido do Céu em tantas vitórias, é um manifesto sinal de serem eles os destinados por Deus, para últimos vingadores das injúrias de sua Igreja, e que para sempre tirem do mundo, e acabem este maior perseguidor, e tirano da cristandade.

 

E senão digam: donde veio a Moisés aquela aversão natural contra os egípcios, com que não só depois de homem vingava neles com a morte as injúrias que faziam aos hebreus, mas ainda menino, e inocente metia debaixo dos pés a coroa de Faraó, senão porque já Deus ia lavrando nele o cutelo do Egito, e a ruína total daquele ímpio rei, e do seu império?

 

E por que foi Sansão tão contrário dos filisteus, e Gedeão dos medianitas, senão porque aos cabelos de um e aos fios da espada do outro tinha Deus vinculado o castigo daquelas duas grandes nações, tão poderosas como bárbaras?

 

E, finalmente, entre os doze exploradores dos doze tribos, por que só Josué com Caleb foi o que o persuadiu e facilitou a guerra e conquista das terras de Canaã, que são as mesmas que hoje domina e possui o turco, e nelas os sagrados lugares da nossa redenção, senão porque ele os havia de sujeitar com tão milagrosas vitórias, e repartir aos seus exércitos, que eram os católicos daquele tempo?

 

Com razão podemos logo inferir pelos cânones e regras universais da justiça, e providência divina, que os portugueses e os seus reis hão de ser os Moisés, os Gedeões, os Sansões, e finalmente os Josués da potência e tirania do turco, e os libertadores gloriosos da terra e casa santa.

 

SÉTIMO FUNDAMENTO DO JUÍZO DOS POLÍTICOS

 

Dos historiadores passemos aos politicos. Muitos pudera alegar, mas entre todos, e por todos, me contentarei com o juízo de um, que com as vozes e sentenças de todos, professou felizmente ser mestre da política. Este é Justo Lipsiu, varão incomparável nas notícias do mundo antigo e moderno, e nenhum mais vigilantíssimo observador das diminuições e aumentos dos reinos e impérios, e das causas por que uns se levantam, outros caem; uns dominam, outros servem; uns crescem, outros diminuem; uns nascem, outros morrem; e quase debaixo da sepultura alguns talvez ressuscitam.

 

No cap. 16 do livro da Constância depois de mostrar este grande autor com largo, e eloqüentíssimo discurso, que nenhuma coisa há no mundo que tenha firmeza, ou fosse já, ou pareça hoje grande, chegando à potência dos turcos, e acabando com eles, diz assim: Adeste etiam pelliti vos Scythae (ob turcas dico, qui ex illis) et potenti manu paulisper habenas temperate Asiae, atque Europae. Sed isti ipsi mox discedite et sceptrum relinquire illi ad Occeanum genii. Fallor enim? An solem nescio, quem novi imperii surgentem video ob occidente? Entrai vós também neste número, ó citas, antigamente vestidos de peles, que hoje com o nome de turcos dominais com poderosa mão, e tendes nela as rédeas da Ásia, e da Europa. Mas vós, esses mesmos, cedo perdereis o lugar que tendes, e o largareis àquela gente habitadora lá do oceano. Porventura engano-me eu? Ou estou vendo que do ocidente nasce e se levanta o sol de um novo império?

 

Não nomeia Lipsiu nestas palavras a Portugal, mas é certo e evidente, que fala dele. Bem vejo, porém, que não faltará quem diga ou cuide que fala em geral de Espanha, que não só em toda a Europa, mas em todo o mundo é a mais ocidental. Mas o contrário se convence de todas as mesmas palavras: Illi ad Occeanum genti significa uma só nação, e essa a última, a qual esteja toda metida e rodeada do Oceano, como está Portugal: sendo que Espanha é composta de muitas nações, e por um lado, e o mais principal, com muitos reinos, pertence ao Mediterrâneo. Solem surgentem ab occidente, também demonstra o mesmo com a elegância da contraposição, em nascer, e se levantou no ocaso o Sol, que se levanta e nasce no oriente. E qual é o ocidente ou o ocaso, em que o sol se esconde e sepulta, senão as terras e mares de Portugal? A cláusula novi impero, exclui claramente a Espanha, cujo império não era novo, nem que de novo se havia de levantar, principalmente entrando unida toda ela na sujeição de uma só cabeça, que foi Filipe II, para cuja fortuna, como pondera o mesmo Lipsiu, tendo El-Rei D. Manuel vinte e dois herdeiros, que o excluíam, foi necessário que morressem todos.

 

Finalmente (para que o mesmo autor seja o intérprete deste seu pensamento) no 4.° livro da magnitude romana, cap. 12 aludindo a este império universal, com que lida em tantas partes dos seus escritos, e indo a dizer, que virá tempo e caso em que assim seja, o companheiro (com quem ali fala em diálogo) lhe foi à mão dizendo: Per ignem sermones tui erunt, et vide ne ambulare: Repara Lipsiu, que estas tuas palavras se metem pelo fogo, e olha não te queimes. Donde se segue manifestamente que o fogo e perigo em que se metia era esperar, e prometer outro império dentro em Espanha; porque sendo ele vassalo seu, como flamengo, natural dos estados católicos de Flandes, ficaria suspeitoso, e indiciado de menos devoto e afeto às felicidades e grandezas daquela monarquia, o que de nenhum modo se podia temer se ele lhe prognosticasse os acrescentamentos do império universal, antes seria o maior obséquio e lisonja que podia fazer aos mesmos reis.

 

Em suma, que em todos estes lugares fala Lipsiu do futuro império universal, que se há de levantar, como um novo sol, na gente mais ocidental do Oceano (que são os portugueses) e que a esta gente se há de passar o cetro, e sujeitar toda a potência do turco.

 

E se alguém, com razão perguntar, de que princípios se pode inferir politicamente que este império universal e último se haja de levantar nos últimos fins ou raias do ocidente? Respondo que da experiência havida pelas histórias, que são aquele espelho inculcado por Salomão, em que olhando para o passado, se antevêem os futuros. E posto que estes dependam dos decretos divinos, pelos efeitos que os olhos vêem dos mesmos decretos, não só conhece o discurso humano quais eles fossem, mas infere, quase com certeza, quais haja de ser. Assim o notou em outro lugar o mesmo Lipsiu, advertindo (e pedindo se considere) que o poder e o domínio do mundo sempre veio caminhando ou descendo do oriente para o ocidente: Nescio quo povidentiae decreto res, et vigor ab oriente (considera si voles) ad occasum eunt.

 

O primeiro império do mundo, que foi o dos assírios, e dominou toda a Ásia, também foi o mais oriental: dali passou aos persas, mais ocidentais que os assírios, dali aos gregos, mais ocidentais que os persas, dali aos romanos, mais ocidentais que os gregos; e como já tem passado pelos romanos, e vai levando seu curso para o ocidente, havendo de ser como é de fé, o último império, aonde pode ir parar, senão na gente mais ocidental de todas, que são os portugueses?

 

Mas por que o mesmo autor desta advertência confessa ignorar a razão dela, e a da providência divina em um tal decreto: Néscio quo providentiae decreto; não será temeridade, nem consideração supérflua dizer eu a razão que se me oferece; e é, que Deus enquanto governa dor do mundo, se conforma consigo mesmo, enquanto criador dele. A sabedoria com que Deus governa o universo é a mesma com que o criou. Que muito logo, que no modo do governo, e da criação se pareça a mesma sabedoria, e o mesmo Deus consigo? Deus criou o mundo em sete dias, e vemos que no governo do mesmo mundo, nas idades, nas vidas, nas doenças, nos dias críticos, e nos anos climatéricos, observa sempre os períodos do mesmo seteno. Pois assim como Deus no governo da natureza observa a proporção dos tempos, assim é de crer que no governo dos impérios observe a proporção dos movimentos. O sol, os céus, as estrelas, os mares, todos se movem perpetuamente do oriente para o ocidente; e porque a roda, que os ignorantes chamam da fortuna, é própria e verdadeiramente a da providência divina, correndo sempre os movimentos naturais do universo desde o oriente ao ocaso, pede a proporção e harmonia do mesmo universo, que também corram do oriente para o ocaso os movimentos políticos. Assim que, não é totalmente violenta a força que muda e desfaz os impérios antigos, e cria e levanta os novos; mas essa mesma violência ou força tem muito de natural, pois segue os movimentos e peso de toda a natureza. No oriente nasceu o primeiro império, no ocidente há de parar o último.

 

E certamente que não havia juízo político, alheio de paixão, que medindo geometricamente o mundo e suas partes (na suposição em que imos, de que Deus há de levantar nele império universal) não conheça neste cabo ou rosto do ocidente, assim lavado do Oceano, o sítio mais poporcionado e capaz, que o supremo Arquiteto tenha destinado para a fábrica de tão alto edifício. Como o sangue nos corpos viventes e sensitivos é o humor e instrumento principal, sem o qual se não poderam sustentar nem viver, assim neste vastíssimo corpo do universo em que a terra e os penhascos são a carne e os ossos; o mar, os portos e os rios são o sangue, os nervos e as veias, por onde nas mais remotas distâncias se pode unir o coração com os membros, e por meio deles lhes comunicar a vida, e reparar as forças com aquela distribuição igual e contínua, sem a qual se não pode conservar e muito menos ser um. As naus grandes e poderosas são as pontes do Oceano, e as embarcações menores, as dos rios caudalosos e navegáveis: com estas se unem as povíncias, com aquelas o mundo se não divide em partes, e até as mesmas ilhas se fazem continentes. E que outro lugar há no universo tão acomodado a receber ele, como de uma só fonte, todos estes benefícios vitais, mais breve e facilmente que Portugal, situado quase na boca do Mediterrâneo, não longe das gargantas do Báltico, e para o Atlântico e Etiópia para o Eritreu e o Índico o mais vizinho? Ali se deságua o Tejo, esperando entre dois promontórios, como com os braços abertos, não os tributos de que o suave jugo daquele império libertará todas as gentes, mas a voluntária obediência de todas que ali se conheceram juntas, até as da terra hoje incógnita, que então perderá a injúria deste nome.

 

Lava o celebradíssimo Tejo, ou doira com as suas correntes as ribeiras, e faz espelho aos montes, e torres de Lisboa, aquela antiquíssima cidade, que na prerrogativa dos anos excede a todas as que os contam por séculos. Em seu nascimento foi fundada por Elisa filho de Javã, e irmão de Tubal, ambos netos de Noé, donde começou a ser conhecida pelo nome de Eliséia; e depois tão amplificada por Ulisses, que não duvidou a grega ambição de lhe dar, como obra própria, o nome de Ulissipo. Tanto pelo fundador, como pelo amplificador, lhe compete a Lisboa a precedência de todas -as metrópoles dos impérios do mundo; porque enquanto Eliséia, é 222 anos mais antiga que Nínive, cabeça do primeiro império, que foi o dos assírios; e enquanto Ulissipo 425 anos mais antiga que Roma, cabeça também do último, enquanto o dominaram os romanos. Ambas, caminhando ao ocidente, trouxeram das ruínas de Tróia as pedras fundamentais de sua grandeza; mas Roma na descendência de Enéias, ou vencido ou fugitivo, e Ulissipo, na pessoa do mesmo Ulisses; não só vencedor de Tróia, mas o que a sujeitou o poder ser vencida com o despojo da imagem de Palas, a cujo agradecimento edificou na mesma Lisboa o suntuoso templo, que hoje se vê mudado ou convertido no insigne convento de Chelas.

 

O céu, a terra, o mar, todos concorrem naquele admirável sítio, tanto para a grandeza universal do império, como para a conveniência também universal dos súditos, posto que tão diversos. O céu na benignidade dos ares os mais puros e saudáveis; porque nenhum homem de qualquer nação, ou cor, que seja estranhará a diferença do clima, para os do pólo mais frio com calor temperado, e para os da zona mais ardente com moderada frescura. A terra na fertilidade dos frutos, e na amenidade dos montes e vales em todas as estações do ano sempre floridos; por onde desde o nome de Eliséia se chamaram Elísios os seus campos, dando ocasião às fabulosas bem-aventuranças e paraíso dos heróis famosos. O mar, finalmente, na monstruosa fecundidade de suas águas; porque naquela campina imensa, que nem seca o sol, nem regam as chuvas assim como nos prados da terra pastam os rebanhos dos gados maiores e menores, assim ali se criam sem pastor os marítimos em inumerável multidão e variedade, entrando pela barra da cidade em quotidianas frotas, quase vivos, tanto para a necessidade dos pequenos, como para o regalo dos grandes; sendo também nesta singular abundância Lisboa, não só a mais bem provida, senão a mais deliciosa do mundo.

 

Do que tudo se convence politicamente, conforme a direta ordem do divino governo, estar Lisboa determinada por Deus para metrópole do seu último e glorioso império do mundo, de que há de ser imperador o Senhor Rei D. Sebastião, rei encoberto e guardado por Deus para novamente reinar neste felicíssimo tempo, como fica provado.

 

OITAVO FUNDAMENTO DAS TRADIÇÕES
DOS MESMOS MAOMETANOS

 

Resta vermos provada esta vinda do Senhor Rei D. Sebastião, com tradições dos mesmos maometanos, que, posto que infiéis, contudo não lhes negou Deus a ciência, assim como a não tirou a Lúcifer e seus sequazes. Propriedade têm os animais irracionais de conhecerem os que os hão de apanhar, e tirar a vida.

 

Quando pois os maometanos deviam estar mais soberbos com a vitória de Portugal, nos consta que não duvidavam confessar aos mesmos portugueses vencidos, esta volta fatal e futura, com que as nossas armas não só haviam de sujeitar aquela pequena parte da África, mas todo o poder maometano.

 

Francisco de Meneses, e Jorge de Albuquerque, que ficaram cativos em Barberia na perda do Senhor Rei D. Sebastião, contavam, que um alcaide moiro, em cujo poder estiveram, lhes dissera, por muitas vezes, que nos seus Mosefos, ou livros de tradições, estava escrito, que em Portugal havia de nascer uma cobra, a qual seria muito arrogante, e quereria tragar todo o mundo, e que depois de muito adelgaçada por vários acontecimentos, tornaria a engrossar, como a nuvem que toma água, e conquistaria a África, e seria senhora da maior parte do mundo.

 

Quatro coisas contém esta predição; ou uma e a mesma com quatro circunstâncias: A cobra ou serpente, e o adelgaçar-se e tornar a engrossar, e o dominar os turcos. Neste último estado se vê pintada a serpente nas tabelas ou painéis célebres de Gregório Jordão Vêneto, tabela 6.ª, onde ele declara toda a pintura por estas palavras: Imperatorum turcicorum capitibus imminet serpens se se in gyrum resolvens: supra hos verò novi imperatoris christiani conspiciuntur, qui, extinta turcarum monarchia Constantinopoli, denuo verum patientur: isto é, que sobre as cabeças dos imperadores turcos está iminente e superior a serpente, enroscando-se, e dando muitas voltas, e que do mesmo modo se vêem pintados sobre eles os novos imperadores cristãos, os quais, extinta a monarquia maometana, tornarão a dominar de novo em Constantinopla. E acrescenta o mesmo autor que no sepulcro do mesmo Constantino, que fez imperial a cidade de Constantinopla, e lhe deu o seu nome, se achou o referido em uma' lâmina de prata. Onde o que mais se deve admirar é que assim estivesse já escrito ou esculpido perto de 300 anos antes de sair ao mundo Mafoma.

 

Antônio de Barros de Sampaio, cavaleiro do hábito de Cristo, contou que estando na Índia, na cidade de Cambaia, em tempo que o Sr. Rei D. Sebastião era de poucos anos, lhe perguntara um antigo cassis dos moiros pelos costumes e coisas do reino de Portugal; e depois lhe perguntara como se chamava o seu rei? E respondendo-lhe que Sebastião, o moiro, metera o dedo mostrador da mão direita na boca, fazendo grandes espantos. Perguntou-lhe ele que causa havia para se espantar? E daí a algum espaço lhe respondeu o moiro: Porque os nossos Mosefos dizem que um rei desse nome Sebastião há de destruir a nossa seita. E, praticando outras coisas, disse o mouro: Eu te afirmo que à Índia hão de vir outras gentes mais alvas: e assim foi, porque lá foram, por nossos pecados, os holandeses.

 

Contava Gaspar Fragoso, estando em Ceuta a primeira vez que à África passou o Sr. Rei D. Sebastião que um moiro antigo, reputado entre os mais por sábio, em um dia que o dito rei saiu fora com toda a gente de pé e de cavalo, lhe dissera: Teu rei desta vez não há de fazer nada mais que mostrar-se, e há de tornar para Portugal; e há de vir segunda vez com muita gente, mas há de perder-se com toda ela, que será morta e cativa, porém ele há de escapar; e depois de passarem muitos anos, em que ele andará escondido (assim em seu reino, como em outros estranhos) tornará outra vez à Barbaria, e a conquistará, e destruirá a cidade de Mafamede.

 

Entre estes moiros houve também um filósofo arábio, chamado Acã Burulei, o qual no ano de 1200 escreveu um prognóstico ou vaticínio acerca da destruição de sua lei, o qual anda impresso, e refere Salazar, o padre Guadalajara, e ouros autores; e diz assim: - "Despues de estrañas felicidades, y victorias singulares, que los sequazes de Mahoma alcançaran de los christianos, por el Asia, y otras partes, venderá um rei nascido en los ultimos fines del poniente, de rostro hermozo, que dominarà los christianos, y tendrà el mundo en un anillo, y serà suave de condicion, muito zelador de su ley, y dado a la religion della. Este rei serà el castigo del pueblo de Mahoma, y açote del pueblo de Ismael, el qual con el favor de su religion empeçarà a perseguir los moros, echandolos de sus tierras, y haziendo grandes armadas contra ellos; y serà el castigo, que en ellos harà, tan grande, que se tendrà por bien aventurada la esteril, viendo parecer los hijos de otras con differentes muertes. La espada cortadora de la Morisma, estarà embotada de suerte, que nó cortarà en aquel tiempo, y quanto mas Ismael se esfuerçare, serà para maior perdicion suya; porque los leones son desbaratadores, y moriran a sus manos los cocodrilos del Nilo. Los sagittarios son mas fuertes, que los elephantes con que amenaça Africa. La persecucion serà tan grande, que para llorar nó se darà logar. Su linage serà poderoza, muy justo, fuerte, y muy unido, y llenarà el mundo de las coronas de su caza. Su sceptro serà la vara de Jupiter, su espada la de Marte, y amenaça Agar y Ismael, mientras viviere este rei; y nò seran entonces sus mayores daños: porque deixarà descendencia muy en detrimento de Babilonia, y de Constantinopla, aquien persuado llore, pues saliò su corona, y su colar real se convertiò en cadena de servidumbre; que si bien querrà convalecer, y llevantar cabeça, serà por demàs, y mayor la recahida. De Constantinopla, y del Cayro no quedaran mas que los vestigios, y se dirà: Aqui fue Troya. Jerusalen saldarà de sua caza, y poder del Ismael y entrarà en ella lo monte Calvario, y los estandartes del poniente." Outras muitas coisas predisse este filósofo arábio em seus prognósticos, pertencentes ao nosso intento, as quais porém deixo aqui de ponderar, por causa da brevidade que sigo: só quero referir o que relatara o padre Baltasar Teles, da Companhia de Jesus, e é, que o padre Gonçalo Rodrigues, da mesma companhia, varão de grande autoridade, virtude e letras, referiu, que os abexins tinham uma profecia, a qual era mui relatada pelos seus sacerdotes, que viria tempo em que os portugueses, com um grande capitão seu, iriam presentar batalha ao imperador da Etiópia, o qual seria vencido e morto, e muitos frades cismáticos com ele: que ficaria por rei um irmão seu, e que a Etiópia daí para diante seria governada por vice-rei, que fosse de Portugal.

 

De que tudo se colige, que a principal vitória, que alcançará, será a da fé e dourina com que converterá a Cristo os mesmos turcos, e os mesmos bárbaros. Assim se vê pintada entre as tabelas acima referidas na tabela 8.ª, onde diz a declaração, que vencido o imperador turco pelo imperador católico: Divina clementia spiritu sui luce, animum ejus illustrante, christiranam religionem cum omnibus suis amplectetur.

 

Donde manassem estas tradições entre homens sem verdadeira fé daquela sabedoria, que só tem presente e pode manifestar os futuros, nem eles o sabem com certeza; mas o mesmo Deus que dá instinto (como já disse no princípio deste fundamento) à garça para conhecer o falcão que o há de tomar, também o terá dado a estes bárbaros. Quando não digamos que fosse revelação feita a algum dos grandes santos cativos, ou livres, que entre eles viveram e padeceram. Podendo também ser, que a divina providência concorresse para este juízo por meio da observação de seus astrólogos, que, na Arábia principalmente, foram insignes nesta arte.

 

Tenho descoberto bastantes fundamentos, tanto à curiosidade dos que os quisessem saber, como à incredulidade dos que os duvidassem supor, povando, como prometi, a contingência da minha questão com razões e conjeturas, com profecias e vaticínios, com revelações, com prodígios, com prognósticos dos mais insignes astrólogos, com a fé dos históricos, com o discurso dos políticos, e ultimamente com as tradições dos mesmos maometanos, concordes todos, em que a exaltação da monarquia universal do mundo, e extinção da potência do turco, a tem reservado a providência divina para as vitórias e triunfos de Portugal, e para estabelecimento nele do império de Cristo: Volo in te, et in semine tuo imperium mihi stabilire.

 

Deles consta o haver encoberto, e o haver de ser Portugal império: deles se conhece também a vinda do Sr. Rei D. Sebastião. Porém para mais clareza, e para mais evidentemente se ver o ser ele o prometido em tantos vaticínios, vamos explanando os sinais, e especificando as circunstancias deste encoberto, e veremos que só nele se vêem, acham, e claramente manifestam, assim como prometemos no princípio do segundo fundamento deste discurso.

 

Primeiramente, quanto este nome de encoberto pertença ao Sr. Rei D. Sebastião, se vê, pois sendo ainda menino lhe dava este nome o sapateiro santo Simão Gomes, dizendo então a várias pessoas como aquele menino rei era o encoberto.

 

Santo Isidoro na profecia 55 diz assim: "Llamado serà el encuberto por las altas montañas, y con catholico zelo dexarà la tierra huerfana."

 

Assim lhe chamou também S. Pedro de Alcântara; e nos vaticínios que se acharam por morte D'el-Rei D. Manuel diz um deles:

 

Mas o garfo ficará

Escondido na mãe, certo,

E por ficar encoberto

Este o encoberto será.

 

E discorrendo pelos mais sinais, veremos como só a ele competem, e nele se verificam.

 

O primeiro sinal (segundo S. frei Gil, santa Leocádia, Pedro de Frias, e outros, que estão vistos) que há de ser português. Isto escusa prova.

 

O segundo sinal é, segundo santo Angelo, carmelita, que há de ser este rei da descendência antiga dos franceses; e sr. Rei D. Sebastião é neto de Carlos V, o qual foi descendente de Carlos Magno, rei de França.

 

O terceiro sinal, é segundo frei Afonso Cavaleiro, que este rei não há de ser filho de rei, nem de rainha, e isto bem se deixa ver em o Senhor Rei D. Sebastião, que foi filho do príncipe D. João, e da princesa D. Joana.

 

O quarto sinal é que o nome deste rei, segundo Rosacelsa, o Beato Antônio, e outros, há de começar no S, e isto se vê claramente em o Sr. Rei D. Sebastião, e muito antes dos referidos o tinha predito a Sibila Eritréia dizendo em o canto 13:

 

La letra diez y ocho del abecedário

Será venerada, y la tilde con ella ;

 

e que havia de ser o nome de cinco sílabas: Cujos nomen extimabiliter quinque apicibus conscribitur. Nenhum rei teve o nome de cinco sílabas, como o nome de Sebastianus.

 

O quinto sinal é, segundo S. Cláudio, que este rei há de ser coroado aos 14 anos de sua idade; e isto se viu no Sr. D. Sebastião.

 

O sexto sinal é, segundo o mesmo santo, que há de ser guerreiro até aos 24 anos, e com esta idade empreendeu aquela triste guerra, este soberano rei.

 

O sétimo sinal é, segundo S. Metódio, João Carrião, e outros alegados, que há de ser este rei reputado por morto. Isto bem se deixa ver claramente no Sr. Rei D. Sebastião.

 

O oitavo sinal é, que deste rei já se não há de cuidar; que reinará, segundo S. Teófilo, e outros alegados; e isto patentemente se vê no Sr. Rei D. Sebastião.

 

O nono sinal é, que, segundo a Sibila Eritréia, em o canto 14, Rosacelsa, e outros alegados, há de ser vencido este rei, e disto é testemunha o campo de Alcacerquibir, em que foi derrotado por mistério divino, este santo monarca lusitano.

 

O décimo sinal é, que, segundo S. Nicolau Factor, Rosacelsa, S. Zacarias, S. Frei Gil, S. Metódio, Carrião; e outros alegados há de este rei deixar o reino para fazer guerra aos infiéis e isto bem se viu no Sr. Rei D. Sebastião.

 

O undécimo sinal é que, segundo a profecia do religioso napolitano, que está na livraria de S. Antônio de Cascais, este rei há de ser o que pôs a Portugal em miséria; e isto está patente para o Sr. Rei D. Sebastião, porque depois da sua perda de África sucederam a Portugal muitas misérias: bastavam por todas a perda do exército, e depois por falta da sua sucessão, o violento domínio de Castella.

 

O duodécimo sinal é que, segundo Pedro de Frias, há de ser este rei bisneto de El-Rei D. Manuel; e não há outro, segundo creio, senão o Sr. Rei D. Sebastião.