LITERATURA BRASILEIRA
Textos
literários em meio eletrônico
O Cortiço,
de Aluísio Azevedo
Edição de
Referência:
A Biblioteca Virtual do Estudante
Brasileiro
I
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco
anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma
suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou
do pouco que ganhara nessa dúzia de anos,
que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de
ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.
Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz
atirou-se à labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais
duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de
estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por
dia, uma quitandeira sua vizinha, a
Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora
e amigada com um português que tinha
uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.
Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda
era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava de
jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase
que o necessário para a alforria. Um
dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga
superior às suas forças, caiu morto na
rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.
João Romão mostrou grande interesse por esta
desgraça, fez-se até participante direto dos sofrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher
o escolheu para confidente das suas desventuras. Abriu-se com ele, contou-lhe a sua vida de amofinações e
dificuldades. "Seu senhor comia-lhe a pele do corpo! Não era brinquedo
para uma pobre mulher ter de escarrar
pr’ali, todos os meses, vinte mil-réis em dinheiro!" E segredou-lhe então
o que tinha juntado para a sua
liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque
já de certa vez fora roubada por gatunos
que lhe entraram na quitanda pelos fundos.
Daí em diante, João Romão tornou-se o caixa, o
procurador e o conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela produzia e era
também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte mil-réis mensais.
Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de
dinheiro para qualquer coisa, dava um
pulo até à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de "Seu João",
como ela dizia. Seu João debitava
metodicamente essas pequenas quantias num caderninho, em cuja capa de papel
pardo lia-se, mal escrito e em letras
cortadas de jornal: "Ativo e passivo de Bertoleza".
E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança
no espírito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava dele, cegamente, todo e qualquer
arbítrio. Por último, se alguém precisava tratar com ela qualquer negócio, nem
mais se dava ao trabalho de procurá-la,
ia logo direito a João Romão.
Quando deram fé estavam amigados.
Ele propôs-lhe morarem juntos e ela concordou de
braços abertos, feliz em meter-se de novo com um português, porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria
sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à
sua.
João Romão comprou então, com as economias da
amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio
paralelamente à rua, sendo a parte da frente destinada à quitanda e a do fundo para um dormitório que se arranjou com os
cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma cômoda de jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarelo já
mareadas, um oratório cheio de santos e forrado de papel de cor, um baú grande
de couro cru tacheado, dois banquinhos de pau feitos de uma só peça e um
formidável cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita.
O vendeiro nunca tivera tanta mobília.
— Agora, disse ele à crioula, as coisas vão correr
melhor para você. Você vai ficar forra; eu entro com o que falta.
Nesse dia ele saiu muito à rua, e uma semana depois
apareceu com uma folha de papel toda escrita, que leu em voz alta à companheira.
— Você agora não tem mais senhor! declarou em
seguida à leitura, que ela ouviu entre lágrimas agradecidas. Agora está
livre. Doravante o que você fizer é só
seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o cativeiro de pagar os vinte
mil-réis à peste do cego!
— Coitado! A gente se queixa é da sorte! Ele, como
meu senhor, exigia o jornal, exigia o que era seu!
— Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!
Contra todo o costume, abriu-se nesse dia uma
garrafa de vinho do Porto, e os dois beberam-na em honra ao grande acontecimento. Entretanto, a tal carta de
liberdade era obra do próprio João Romão, e nem mesmo o selo, que ele entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar à burla
maior formalidade, representava despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza
não teve sequer conhecimento do fato; o que lhe constou, sim, foi que a
sua escrava lhe havia fugido para a
Bahia depois da morte do amigo.
— O cego que venha buscá-la aqui, se for capaz...
desafiou o vendeiro de si para si. Ele que caia nessa e verá se tem ou não pra pêras!
Não obstante, só ficou tranqüilo de todo daí a três
meses, quando lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos
filhos do morto; mas, por estes, nada havia que recear: dois pândegos de marca
maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista
de uma crioula a quem não viam de muitos anos
àquela parte. "Ora! bastava já, e não era pouco, o que lhe tinham
sugado durante tanto tempo!"
Bertoleza representava agora ao lado de João Romão
o papel tríplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; às quatro da madrugada
estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os fregueses e
depois preparando o almoço para os
trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos
fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na taverna, quando
o amigo andava ocupado lá por fora; fazia a sua quitanda durante o dia no intervalo de outros
serviços, e à noite passava-se para a porta da venda, e, defronte de um
fogareiro de barro, fritava fígado e
frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas de camisa, de tamancos e
sem meias, comprar à praia do Peixe. E
o demônio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e consertar, além da sua,
a roupa do seu homem, que esta, valha a
verdade, não era tanta e nunca passava em todo o mês de alguns pares de calças
de zuarte e outras tantas camisas de
riscado.
João Romão não saia nunca a passeio, nem ia à missa
aos domingos; tudo que rendia a sua venda e mais a quitanda seguia direitinho para a caixa econômica e daí
então para o banco. Tanto assim que, um ano depois da aquisição da crioula,
indo em hasta pública algumas braças de
terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as logo e tratou, sem perda de
tempo, de construir três casinhas de
porta e janela.
Que milagres de esperteza e de economia não
realizou ele nessa construção! Servia de pedreiro, amassava e carregava
barro, quebrava pedra; pedra, que o
velhaco, fora de horas, junto com a amiga, furtavam à pedreira do fundo, da
mesma forma que subtraiam o material
das casas em obra que havia por ali perto.
Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e
sempre coroados do melhor sucesso, graças à circunstância de que nesse tempo a polícia não se mostrava muito por
aquelas alturas. João Romão observava durante o dia quais as obras em que
ficava material para o dia seguinte, e
à noite lá estava ele rente, mais a Bertoleza, a removerem tábuas, tijolos,
telhas, sacos de cal, para o meio da
rua, com tamanha habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um
tomava uma carga e partia para casa, enquanto o outro ficava de alcatéia ao
lado do resto, pronto a dar sinal, em caso de perigo; e, quando o que tinha
ido voltava, seguia então o companheiro,
carregado por sua vez.
Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos
pedreiros, os cavalos de pau, o banco ou a ferramenta dos marceneiros.
E o fato é que aquelas três casinhas, tão
engenhosamente construídas, foram o ponto de partida do grande cortiço de
São Romão.
Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois
mais outras, ia o vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos
fundos da sua bodega; e, à proporção que o conquistava, reproduziam-se os
quartos e o número de moradores.
Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia
santo, não perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que podia e
nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas
medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da casa
dos seus senhores, apertando cada vez
mais as próprias despesas, empilhando privações sobre privações,
trabalhando e mais a amiga como uma junta de bois, João Romão veio afinal a comprar uma boa parte da
bela pedreira, que ele, todos os dias, ao cair da tarde, assentado um instante
à porta da venda, contemplava de longe
com um resignado olhar de cobiça.
Pôs lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis
a fazerem lajedos e paralelepípedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em grosso que, dentro de ano e
meio, arrematava já todo o espaço compreendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta braças de
fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnífico para construir.
Justamente por essa ocasião vendeu-se também um
sobrado que ficava à direita da venda, separado desta apenas por aquelas vinte
braças; de sorte que todo o flanco esquerdo do prédio, coisa de uns vinte e
tantos metros, despejava para o terreno do
vendeiro as suas nove janelas de peitoril. Comprou-o um tal Miranda,
negociante português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma limpeza geral
no casarão, mudar-se-ia ele para lá com a família, pois que a mulher, Dona Estela, senhora pretensiosa e
com fumaças de nobreza, já não podia suportar a residência no centro da cidade,
como também sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pálida e precisava de
largueza para enrijar e tomar corpo.
Isto foi o que disse o Miranda aos colegas, porém a
verdadeira causa da mudança estava na necessidade, que ele reconhecia urgente, de afastar Dona Estela do alcance
dos seus caixeiros. Dona Estela era uma mulherzinha levada da breca:
achava-se casada havia treze anos e
durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes de
terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de
adultério; ficou furioso e o seu primeiro impulso foi de mandá-la para o diabo
junto com o cúmplice; mas a sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera,
uns oitenta contos em prédios e ações
da divida publica, de que se utilizava o desgraçado tanto quanto lhe permitia o
regime dotal. Além de que, um
rompimento brusco seria obra para escândalo, e, segundo a sua opinião,
qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posição
social e tremia só com a idéia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a
vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e afeito à hombridade de português rico que já não tem
pátria na Europa.
Acovardado defronte destes raciocínios,
contentou-se com uma simples separação de leitos, e os dois passaram a dormir
em quartos separados. Não comiam
juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra palavra constrangida, quando
qualquer inesperado acaso os reunia a
contragosto.
Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo
desprezo, que pouco a pouco se foi transformando em repugnância completa. O nascimento de Zulmira veio agravar
ainda mais a situação; a pobre criança, em vez de servir de elo aos dois infelizes, foi antes um novo isolador que se
estabeleceu entre eles. Estela amava-a menos do que lhe pedia o instinto
materno por supô-la filha do marido, e
este a detestava porque tinha convicção de não ser seu pai.
Uma bela noite, porém, o Miranda, que era homem de
sangue esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco anos, sentiu-se em insuportável estado de lubricidade. Era
tarde já e não havia em casa alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se
da mulher, mas repeliu logo esta idéia
com escrupulosa repugnância. Continuava a odiá-la. Entretanto este mesmo fato
de obrigação em que ele se colocou de
não servir-se dela, a responsabilidade de desprezá-la, como que ainda mais lhe
assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel um fruto proibido.
Afinal, coisa singular, posto que moralmente nada diminuísse a sua repugnância pela perjura, foi ter ao
quarto dela.
A mulher dormia a sono solto. Miranda entrou pé
ante pé e aproximou-se da cama. "Devia voltar!... pensou. Não lhe
ficava bem aquilo!..." Mas o
sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um instante, imóvel, a
contemplá-la no seu desejo.
Estela, como se o olhar do marido lhe apalpasse o
corpo, torceu-se sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a frente e patenteando uma nesga
de nudez estofada e branca. O Miranda não pôde resistir, atirou-se contra
ela, que, num pequeno sobressalto, mais
de surpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando com o
marido. E deixou-se empolgar pelos
rins, de olhos fechados, fingindo que continuava a dormir, sem a menor
consciência de tudo aquilo.
Ah! ela contava como certo que o esposo, desde que
não teve coragem de separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procurá-la de novo. Conhecia-lhe o
temperamento, forte para desejar e fraco para resistir ao desejo.
Consumado o delito, o honrado negociante sentiu-se
tolhido de vergonha e arrependimento. Não teve animo de dar palavra, e retirou-se tristonho e murcho para o seu
quarto de desquitado.
Oh! como lhe doía agora o que acabava de praticar
na cegueira da sua sensualidade.
— Que cabeçada!... dizia ele agitado. Que
formidável cabeçada!...
No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em
silêncio, como se nada de extraordinário houvera entre eles acontecido na véspera. Dir-se-ia até que, depois daquela
ocorrência, o Miranda sentia crescer o seu ódio contra a esposa. E, à noite
desse mesmo dia, quando se achou sozinho
na sua cama estreita, jurou mil vezes aos seus brios nunca mais, nunca mais,
praticar semelhante loucura.
Mas, daí a um mês, o pobre homem, acometido de um
novo acesso de luxúria, voltou ao quarto da mulher.
Estela recebeu-o desta vez como da primeira,
fingindo que não acordava; na ocasião, porém, em que ele se apoderava dela febrilmente, a leviana, sem se poder conter,
soltou-lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada que a custo sopeava. O pobre-diabo desnorteou, deveras
escandalizado, soerguendo-se, brusco, num estremunhamento de sonâmbulo acordado
com violência.
A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo
para fugir; passou-lhe rápido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o com uma metralhada de beijos.
Não se falaram.
Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão
violenta no prazer. Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada: descobriu nela o capitoso
encanto com que nos embebedam as cortesãs amestradas na ciência do gozo venéreo. Descobriu-lhe no cheiro da pele e
no cheiro dos cabelos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro hálito,
outro som nos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com
delírio, com verdadeira satisfação de animal no cio.
E ela também, ela também gozou, estimulada por
aquela circunstância picante do ressentimento que os desunia; gozou a desonestidade daquele ato que a ambos
acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, rangendo os dentes,
grunhindo, debaixo daquele seu inimigo
odiado, achando-o também agora, como homem, melhor que nunca, sufocando-o nos
seus braços nus, metendo-lhe pela boca
a língua úmida e em brasa. Depois, um arranco de corpo inteiro, com um soluço
gutural e estrangulado, arquejante e
convulsa, estatelou-se num abandono de pernas e braços abertos, a cabeça para o
lado, os olhos moribundos e chorosos,
toda ela agonizante, como se a tivessem crucificado na cama.
A partir dessa noite, da qual só pela manhã o
Miranda se retirou do quarto da mulher, estabeleceu-se entre eles o hábito
de uma felicidade sexual, tão completa
como ainda não a tinham desfrutado, posto que no intimo de cada um persistisse
contra o outro a mesma repugnância
moral em nada enfraquecida.
Durante dez anos viveram muito bem casados; agora,
porém, tanto tempo depois da primeira infidelidade conjugal, e agora que o negociante já não era acometido tão
freqüentemente por aquelas crises que o arrojavam fora de horas ao dormitório
de Dona Estela; agora, eis que a
leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda aos caixeiros do
marido, na ocasião em que estes subiam
para almoçar ou jantar.
Foi por isso que o Miranda comprou o prédio vizinho
a João Romão.
A casa era boa; seu único defeito estava na
escassez do quintal; mas para isso havia remédio: com muito pouco compravam-se
umas dez braças daquele terreno do fundo que ia até à pedreira, e mais uns dez
ou quinze palmos do lado em que ficava a
venda.
Miranda foi logo entender-se com o Romão e
propôs-lhe negócio. O taverneiro recusou formalmente.
Miranda insistiu.
— O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o
amigo de Bertoleza. Nem só não cedo uma polegada do meu terreno, como ainda lhe compro, se mo quiser vender,
aquele pedaço que lhe fica ao fundo da casa!
— O quintal?
— É exato.
— Pois você quer que eu fique sem chácara, sem
jardim, sem nada?
— Para mim era de vantagem...
— Ora, deixe-se disso, homem, e diga lá quanto quer
pelo que lhe propus.
— Já disse o que tinha a dizer.
— Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo.
— Nem meio palmo!
— Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço
tamanho empenho, é pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para alargar-se.
— E eu não cedo, porque preciso do meu terreno!
— Ora qual! Que diabo pode lá você fazer ali? Uma
porcaria de um pedaço de terreno quase grudado ao morro e aos fundos de minha
casa! quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda!
— Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer
ali!
— É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez
braças do fundo, a sua parte ficaria cortada em linha reta até à pedreira, e escusava eu de ficar com uma aba de
terreno alheio a meter-se pelo meu. Quer saber? não amuro o quintal sem você decidir-se!
— Então ficará com o quintal para sempre sem muro,
porque o que tinha a dizer já disse!
— Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco!
Você ali não pode construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janelas sobre o meu quintal!...
— Não preciso abrir janelas sobre o quintal de
ninguém!
— Nem tampouco lhe deixarei levantar parede,
tapando-me as janelas da esquerda!
— Não preciso levantar parede desse lado...
— Então que diabo vai você fazer de todo este
terreno?...
— Ah! isso agora é cá comigo!... O que for soará!
— Pois creia que se arrepende de não me ceder o
terreno!...
— Se me arrepender, paciência! Só lhe digo é que
muito mal se sairá quem quiser meter-se cá com a minha vida!
— Passe bem!
— Adeus!
Travou-se então uma lata renhida e surda entre o
português negociante de fazendas por atacado e o português negociante de secos e molhados. Aquele não se resolvia a
fazer o muro do quintal, sem ter alcançado o pedaço de terreno que o
separava do morro; e o outro, por seu
lado, não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou três
braças aos fundos da casa; parte esta
que, conforme os seus cálculos, valeria ouro, uma vez realizado o grande
projeto que ultimamente o trazia
preocupado — a criação de uma estalagem em ponto enorme, uma estalagem
monstro, sem exemplo, destinada a matar toda
aquela miuçalha de cortiços que alastravam por Botafogo.
Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão
vivia exclusivamente para essa idéia; sonhava com ela todas as noites; comparecia a todos os leilões de materiais
de construção; arrematava madeiramentos já servidos; comprava telha em
segunda mão; fazia pechinchas de cal e
tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso chão vazio, cujo aspecto
tomava em breve o caráter estranho de
uma enorme barricada, tal era a variedade dos objetos que ali se apinhavam
acumulados: tábuas e sarrafos, troncos
de árvore, mastros de navio, caibros, restos de carroças, chaminés de barro e
de ferro, fogões desmantelados, pilhas
e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de areia e
terra vermelha, aglomerações de telhas
velhas, escadas partidas, depósitos de cal, o diabo enfim; ao que ele, que
sabia perfeitamente como essas coisas
se furtavam, resguardava, soltando à noite um formidável cão de fila.
Este cão era pretexto de eternas resingas com a
gente do Miranda, a cujo quintal ninguém de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem correr o risco de
ser assaltado pela fera.
— É fazer o muro! dizia o João Romão, sacudindo os
ombros.
— Não faço! replicava o outro. Se ele é questão de
capricho eu também tenho capricho!
Em compensação, não caia no quintal do Miranda
galinha ou frango, fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse imediato sumiço. João Romão protestava
contra o roubo em termos violentos, jurando vinganças terríveis, falando em
dar tiros.
— Pois é fazer um muro no galinheiro! repontava o
marido de Estela.
Daí a alguns meses, João Romão, depois de tentar um
derradeiro esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho,
resolveu principiar as obras da estalagem.
— Deixa estar, conversava ele na cama com a
Bertoleza; deixa estar que ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é
que não lhe entre pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas
braças, mas seis, oito, todo o quintal e até o próprio sobrado talvez!
E dizia isto com uma convicção de quem tudo pode e
tudo espera da sua perseverança, do seu esforço inquebrantável e da fecundidade prodigiosa do seu dinheiro,
dinheiro que só lhe saia das unhas para voltar multiplicado.
Desde que a febre de possuir se apoderou dele
totalmente, todos os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha uma
preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira
os piores legumes, aqueles que, por
maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um
ovo, do que no entanto gostava imenso;
vendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores.
Aquilo já não era ambição, era uma
moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a
moeda. E seu tipo baixote, socado, de
cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a
venda, da venda às hortas e ao
capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando
para todos os lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os
olhos, de tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.
Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável.
Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam os aluguéis; as
propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e
outra de velas, e os trabalhadores
passavam de manhã e às Ave-Marias, e a maior parte deles ia comer à casa de
pasto que João Romão arranjara aos
fundos da sua varanda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser
tão afreguesada como a dele. Nunca o
seu negocio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora,
muito mais, que nos anos anteriores.
Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras;
o balcão estava cada vez mais lustroso,
mais gasto. E o dinheiro a pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a escorrer
da gaveta para a barra, aos cinqüenta e
aos cem mil-réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos.
Afinal, já lhe não bastava sortir o seu
estabelecimento nos armazéns fornecedores; começou a receber alguns
gêneros diretamente da Europa: o vinho,
por exemplo, que ele dantes comprava aos quintos nas casas de atacado,
vinha-lhe agora de Portugal às pipas, e
de cada uma fazia três com água e cachaça; e despachava faturas de barris de
manteiga, de caixas de conserva,
caixões de fósforos, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias.
Criou armazéns para depósito, aboliu a quitanda e
transferiu o dormitório, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de tamanho e ganhou mais duas portas.
Já não era uma simples taverna, era um bazar em que
se encontrava de tudo, objetos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensílios de escritório, roupa de riscado
para os trabalhadores, fazenda para roupa de mulher, chapéus de palha próprios
para o serviço ao sol, perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos
de amor, e anéis e brincos de metal ordinário.
E toda a gentalha daquelas redondezas ia cair lá,
ou então ali ao lado, na casa de pasto, onde os operários das fábricas e
os trabalhadores da pedreira se reuniam
depois do serviço, e ficavam bebendo e conversando até as dez horas da noite,
entre o espesso fumo dos cachimbos, do
peixe frito em azeite e dos lampiões de querosene.
Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até
dinheiro adiantado, quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordenado não fosse
inteirinho parar às mãos do velhaco. E sobre este cobre, quase sempre
emprestado aos tostões, cobrava juros
de oito por cento ao mês, um pouco mais do que levava aos que garantiam a
divida com penhores de ouro ou prata.
Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção
que se atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez em
alugá-las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar
lá, porque ficavam a dois passos da obrigação.
O Miranda rebentava de raiva.
— Um cortiço! exclamava ele, possesso. Um cortiço!
Maldito seja aquele vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das janelas!... Estragou-me a casa,
o malvado!
E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se,
e protestando aos berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o infernal baralho dos pedreiros e
carpinteiros que levavam a martelar de sol a sol.
O que aliás não impediu que as casinhas
continuassem a surgir, uma após outra, e fossem logo se enchendo, a
estenderem-se unidas por ali a fora,
desde a venda até quase ao morro, e depois dobrassem para o lado do Miranda e
avançassem sobre o quintal deste, que
parecia ameaçado por aquela serpente de pedra e cal.
O Miranda mandou logo levantar o muro.
Nada! aquele demônio era capaz de invadir-lhe a
casa até a sala de visitas!
E os quartos do cortiço pararam enfim de encontro
ao muro do negociante, formando com a continuação da casa deste um grande quadrilongo, espécie de pátio de
quartel, onde podia formar um batalhão.
Noventa e cinco casinhas comportou a imensa
estalagem.
Prontas, João Romão mandou levantar na frente, nas
vinte braças que separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de altura, coroado de
cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande portão no centro, onde
se dependurou uma lanterna de vidraças
vermelhas, por cima de uma tabuleta amarela, em que se lia o seguinte, escrito
a tinta encarnada e sem ortografia:
"Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e
tinas para lavadeiras".
As casinhas eram alugadas por mês e as tinas por
dia; tudo pago adiantado. O preço de cada tina, metendo a água, quinhentos
réis; sabão à parte. As moradoras do cortiço tinham preferência e não pagavam
nada para lavar.
Graças à abundância da água que lá havia, como em
nenhuma outra parte, e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender a roupa, a concorrência
às tinas não se fez esperar; acudiram lavadeiras de todos os pontos da
cidade, entre elas algumas vindas de
bem longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde coubesse
um colchão, surgia uma nuvem de
pretendentes a disputá-los.
E aquilo se foi constituindo numa grande
lavanderia, agitada e barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas
hortaliças verdejantes e os seus
jardinzinhos de três e quatro palmos, que apareciam como manchas alegres por
entre a negrura das limosas tinas
transbordantes e o revérbero das claras barracas de algodão cru, armadas sobre
os lustrosos bancos de lavar. E os
gotejantes jiraus, cobertos de roupa molhada, cintilavam ao sol, que nem lagos
de metal branco.
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela
umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que
parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como
larvas no esterco.
II
Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para
dia, ganhando forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela
exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que
lhe crescia junto da casa, por debaixo
das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas do que serpentes, minavam
por toda a parte, ameaçando rebentar o
chão em torno dela, rachando o solo e abalando tudo.
Posto que lá na Rua do Hospício os seus negócios
não corressem mal, custava-lhe a sofrer a escandalosa fortuna do vendeiro "aquele tipo! um miserável, um sujo,
que não pusera nunca um paletó, e que vivia de cama e mesa com uma negra!"
À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu
azedume, quando ele, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido numa preguiçosa, junto à
mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha
da estalagem numa exalação forte de
animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo,
quente e sensual, que o embebedava com
o seu fartum de bestas no coito.
E depois, fechado no quarto de dormir, indiferente
e habituado às torpezas carnais da mulher, isento já dos primitivos sobressaltos que lhe faziam, a ele, ferver o
sangue e perder a tramontana, era ainda a prosperidade do vizinho o que
lhe obsedava o espírito,
enegrecendo-lhe a alma com um feio ressentimento de despeito.
Tinha inveja do outro, daquele outro português que
fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre; daquele outro que, para ser
mais rico três vezes do que ele, não teve de casar com a filha do patrão ou com
a bastarda de algum fazendeiro freguês da
casa!
Mas então, ele Miranda, que se supunha a última
expressão da ladinagem e da esperteza; ele, que, logo depois do seu casamento, respondendo para Portugal a um
ex-colega que o felicitava, dissera que o Brasil era uma cavalgadura carregada
de dinheiro, cujas rédeas um homem fino empolgava facilmente; ele, que se tinha
na conta de invencível matreiro, não passava
afinal de um pedaço de asno comparado com o seu vizinho! Pensara
fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo de uma brasileira mal-educada e sem escrúpulos de virtude! Imaginara-se
talhado para grandes conquistas, e não passava de uma vitima ridícula e sofredora!... Sim! no fim de contas qual fora a
sua África?... Enriquecera um pouco, é verdade, mas como? a que preço? hipotecando-se a um diabo, que
lhe trouxera oitenta contos de réis, mas incalculáveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjara a vida, sim, mas teve
de aturar eternamente uma mulher que ele odiava! E do que afinal lhe
aproveitar tudo isso? Qual era afinal a
sua grande existência? Do inferno da casa para o purgatório do trabalho e
vice-versa! Invejável sorte, não havia
dúvida!
Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua
filha, o desgraçado nem sequer gozava o prazer de ser pai. Se ela, em vez
de nascer de Estela, fora uma
enjeitadinha recolhida por ele, é natural que a amasse e então a vida lhe
correria de outro modo; mas naquelas
condições, a pobre criança nada mais representava que o documento vivo do
ludibrio materno, e o Miranda estendia
até à inocentezinha o ódio que sustentava contra a esposa.
Uma espiga a tal da sua vida!
— Fui uma besta! resumiu ele, em voz alta,
apeando-se da cama, onde se havia recolhido inutilmente.
E pôs-se a passear no quarto sem vontade de dormir,
sentindo que a febre daquela inveja lhe estorricava os miolos.
Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim,
senhor! Para esse é que havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava hoje
tão livre e desembaraçado como no dia
em que chegou da terra sem um vintém de seu! esse, sim, que era moço e podia
ainda gozar muito, porque quando mesmo
viesse a casar e a mulher lhe saísse uma outra Estela era só mandá-la para o diabo
com um pontapé! Podia fazê-lo! Para
esse é que era o Brasil!
— Fui uma besta! repisava ele sem conseguir
conformar-se com a felicidade do vendeiro. Uma grandíssima! No fim de
contas que diabo possuo eu?... Uma casa
de negócio, da qual não posso separar-me sem comprometer o que lá está
enterrado! um capital metido numa rede
de transações que não se liquidam nunca, e cada vez mais se complicam e mais me
grudam ao estupor desta terra, onde
deixarei a casca! Que tenho de meu, se a alma do meu crédito é o dote, que me
trouxe aquela sem-vergonha e que a ela
me prende como a peste da casa comercial me prende a esta Costa d’África?
Foi da supuração fétida destas idéias que se formou
no coração vazio do Miranda um novo ideal — o título. Faltando-lhe temperamento próprio para os vícios fortes
que enchem a vida de um homem; sem família, a quem amar e sem imaginação para poder gozar com as prostitutas, o
náufrago agarrou-se àquela tábua, como um agonizante, consciente da morte, que
se apega à esperança de uma vida
futura. A vaidade de Estela, que a principio lhe tirava dos lábios incrédulos
sorrisos de mofa, agora lhe comprazia à
farta. Procurou capacitar-se de que ela com efeito herdara sangue nobre, que
ele, por sua vez, se não o tinha
herdado, trouxera-o por natureza própria, o que devia valer mais ainda; e desde
então principiou a sonhar com um
baronato, fazendo disso o objeto querido da sua existência, muito
satisfeito no intimo por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro, sem ter, nunca
mais, de restituí-lo à mulher, nem ter de deixá-lo a pessoa alguma.
Semelhante preocupação modificou-o em extremo. Deu
logo para fingir-se escravo das conveniências, afetando escrúpulos sociais, empertigando-se quanto podia e
disfarçando a sua inveja pelo vizinho com um desdenhoso ar de
superioridade condescendente. Ao
passar-lhe todos os dias pela venda, cumprimentava-o com proteção, sorrindo sem
rir e fechando logo a cara em seguida,
muito sério.
Dados os primeiros passos para a compra do titulo
abriu a casa e deu festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabelos brancos, rejubilou com isso.
Zulmira tinha então doze para treze anos e era o
tipo acabado da fluminense; pálida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas do nariz, das pálpebras e
dos lábios, faces levemente pintalgadas de sardas. Respirava o tom úmido
das flores noturnas, uma brancura fria
de magnólia; cabelos castanho-claros, mãos quase transparentes, unhas moles e
curtas, como as da mãe, dentes pouco
mais claros do que a cútis do rosto, pés pequeninos, quadril estreito mas os
olhos grandes, negros, vivos e
maliciosos.
Por essa época, justamente, chegava de Minas,
recomendado ao pai dela, o filho de um fazendeiro importantíssimo que dava belos lucros à casa comercial de Miranda e
que era talvez o melhor freguês que este possuía no interior.
O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze anos e
vinha terminar na corte alguns preparatórios que lhe faltavam para entrar na
Academia de Medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da Rua do Hospício mas
o estudante queixou-se, no fim de
alguns dias, de que ai ficava mal acomodado, e o negociante, a quem não
convinha desagradar-lhe, carregou com ele para a sua residência particular de Botafogo.
Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com
umas delicadezas de menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco extravagante e gastador, que não
despendia um vintém fora das necessidade de primeira urgência. De resto, a não
ser de manhã para as aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé de
casa senão em companhia da família, deste.
Dona Estela, no cabo de pouco tempo, mostrou por ele estima quase
maternal e encarregou-se de tomar conta da sua
mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho tinha
ordem franca do pai.
Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer
coisa, reclamava-a de Dona Estela, que por sua vez encarregava o marido de comprá-la, sendo o objeto lançado
na conta do fazendeiro com uma comissão de usurário. Sua hospedagem custava duzentos e cinqüenta mil-réis por
mês, do que ele todavia não tinha conhecimento, nem queria ter. Nada lhe
faltava, e os criados da casa o
respeitavam como a um filho do próprio senhor.
À noite, às vezes, quando o tempo estava bom, Dona
Estela saia com ele, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta ate à
praia e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas, levava-o em
sua companhia.
A criadagem da família, do Miranda compunha-se de
Isaura, mulata ainda moça, moleirona e tola, que gastava todo o vintenzinho que pilhava em comprar capilé na
venda de João Romão; uma negrinha virgem, chamada Leonor, muito ligeira e viva, lisa e seca como um moleque,
conhecendo de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta tecnologia da
obscenidade, e dizendo, sempre que os
caixeiros ou os fregueses da taverna, só para mexer com ela, lhe davam
atracações: "Óia, que eu me queixo
ao juiz de orfe!", e finalmente o tal Valentim, filho de uma escrava que
foi de Dona Estela e a quem esta havia
alforriado.
A mulher do Miranda tinha por este moleque uma
afeição sem limites: dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes,
levava-o consigo a passeio, trazia-o
bem vestido e muita vez chegou a fazer ciúmes à filha, de tão solicita que se
mostrava com ele. Pois se a caprichosa senhora ralhava com Zulmira por causa do
negrinho! Pois, se quando se queixavam os dois, um contra o outro, ela nunca dava razão à filha! Pois se
o que havia de melhor na casa era para o Valentim! Pois, se quando foi
este atacado de bexigas e o Miranda,
apesar das súplicas e dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona
Estela chorava todos os dias e durante
a ausência dele não tocou piano, nem cantou, nem mostrou os dentes a ninguém? E
o pobre Miranda, se não queria sofrer
impertinências da mulher e ouvir sensaborias defronte dos criados, tinha de dar
ao moleque toda a consideração e fazer-lhe humildemente todas as vontades.
Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro
hóspede além do Henrique, o velho Botelho. Este, porém, na qualidade de parasita.
Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos,
antipático, cabelo branco, curto e duro, como escova, barba e bigode do mesmo teor; muito macilento, com uns
óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho da pupila e davam-lhe à cara
uma expressão de abutre, perfeitamente
de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios: viam-se-lhe ainda
todos os dentes, mas, tão gastos, que
pareciam limados até ao meio. Andava sempre de preto, com um guarda-chuva
debaixo do braço e um chapéu de Braga
enterrado nas orelhas. Fora em seu tempo empregado do comércio, depois corretor
de escravos; contava mesmo que estivera
mais de uma vez na África negociando negros por sua conta. Atirou-se muito
às especulações; durante a guerra do
Paraguai ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda desandou e,
de malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave
de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desilusões, cheio de hemorróidas, via-se totalmente sem recursos
e vegetava à sombra do Mirada, com quem por muitos anos trabalhou em rapaz, sob as ordens do mesmo
patrão, e de quem se conservara amigo, a princípio por acaso e mais tarde por necessidade.
Devorava-o, noite e dia, uma implacável amargura,
uma surda tristeza de vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não lhe ter sido possível
empolgar o mundo com as suas mãos hoje inúteis e trêmulas. E, como o seu atual estado de miséria não lhe permitia abrir
contra ninguém o bico, desabafava vituperando as idéias da época.
Assim, eram às vezes muito quentes as sobremesas do
Miranda, quando, entre outros assuntos palpitantes, vinha à discussão o
movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco.
Então o Botelho ficava possesso e vomitava
frases terríveis, para a direita e para a esquerda, como quem dispara
tiros sem fazer alvo, e vociferava imprecações, aproveitando aquela válvula para desafogar o velho ódio acumulado
dentro dele.
— Bandidos! berrava apoplético. Cáfila de
salteadores!
E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em setas
envenenadas, procurando cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude, a beleza, o talento,
a mocidade, a força, a saúde, e principalmente a fortuna, eis o que ele não
perdoava a ninguém, amaldiçoando todo
aquele que conseguia o que ele não obtivera; que gozava o que ele não
desfrutara; que sabia o que ele não
aprendera. E, para individualizar o objeto do seu ódio, voltava-se contra o
Brasil, essa terra que, na sua opinião,
só tinha uma serventia: enriquecer os portugueses, e que, no entanto, o
deixara, a ele, na penúria.
Seus dias eram consumidos do seguinte modo:
acordava às oito da manhã, lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espírito de vinho; depois ia ler
os jornais para a sala de jantar, à espera do almoço; almoçava e sala, tomava
o bonde e ia direitinho para uma
charutaria da Rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado até às horas do
jantar, entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fora, defronte dele.
Tinha a pretensão de conhecer todo o Rio de Janeiro e os podres de cada um em
particular. Às vezes, poucas, Dona Estela encarregava-o de fazer pequenas
compras de armarinho, o que o Botelho
desempenhava melhor que ninguém? Mas a sua grande paixão, o seu fraco, era a
farda, adorava tudo que dissesse
respeito a militarismo, posto que tivera sempre invencível medo às armas
de qualquer espécie, mormente às de fogo. Não
podia ouvir disparar perto de si uma espingarda, entusiasmava-se porém
com tudo que cheirasse a guerra; a presença de um oficial em grande uniforme tirava-lhe lágrimas de comoção;
conhecia na ponta da língua o que se referia à vida de quartel; distinguia ao primeiro lance de olhos o
posto e o corpo a que pertencia qualquer soldado e, apesar dos seus achaques,
era ouvir tocar na rua a corneta ou o
tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar, e, muita vez, quando dava por
si, fazia parte dos que acompanhavam a
tropa. Então, não tornava para casa enquanto os militares neo se recolhessem.
Quase sempre voltava dessa loucura às
seis da tarde, moído a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de
marchar horas e horas ao som da música
de pancadaria. E o mais interessante é que ele, ao vir-lhe a reação,
revoltava-se furioso contra o maldito
comandante que o obrigava àquela estopada, levando o batalhão por uma
infinidade de ruas e fazendo de propósito o caminho mais longo.
— Só parece, lamentava-se ele, que a intenção daquele
malvado era dar-me cabo da pele! Ora vejam! Três horas de marche-marche por uma soalheira de todos os
diabos!
Uma das birras mais cômicas do Botelho era o seu
ódio pelo Valentim. O moleque causava-lhe febre com as suas petulâncias de mimalho, e, velhaco, percebendo quanto
elas o irritavam, ainda mais abusava, seguro na proteção de Dona Estela. O parasita de muito que o teria estrangulado,
se não fora a necessidade de agradar à dona da casa.
Botelho conhecia as faltas de Estela como as palmas
da própria mão. O Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e muitas vezes lhas confiara em
ocasiões desesperadas de desabafo, declarando francamente o quanto no intimo
a desprezava e a razão por que não a
punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a razão; entendia também
que os sérios interesses comerciais
estavam acima de tudo.
— Uma mulher naquelas condições, dizia ele
convicto, representa nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum
a gente despreza! Agora, você o que devia
era nunca chegar-se para ela...
— Ora! explicava o marido. Eu me sirvo dela como
quem se serve de uma escarradeira!
O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a
mulher, concordava em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de admiração. Mas por outro lado, quando
ouvia Estela falar do marido, com infinito desdém e até com asco, ainda
mais resplandecia de contente.
— Você quer saber? afirmava ela, eu bem percebo
quanto aquele traste do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a primeira camisa que vesti!
Desgraçadamente para nós, mulheres de sociedade, não podemos viver sem esposo,
quando somos casadas; de forma que tenho de aturar o que me caiu em sorte, quer
goste dele quer não goste! Juro-lhe,
porém, que, se consinto que o Miranda se chegue às vezes para mim, é
porque entendo que paga mais à pena ceder do que puxar discussão com uma besta daquela ordem!
O Botelho, com a sua encanecida experiência do
mundo, nunca transmitia a nenhum dos dois o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim que, certa ocasião,
recolhendo-se à casa incomodado, em hora que não era do seu costume, ouviu,
ao passar pelo quintal, sussurros de
vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura, onde em geral
não ia ninguém.
Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser
percebido, descobriu Estela entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar
espiando, sem tugir nem mugir, e, só quando os dois se separaram, foi que ele
se mostrou.
A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de
vermelho que estava, fez-se cor de cera; mas o Botelho procurou tranqüilizá-los, dizendo em voz amiga e
misteriosa:
— Isso é uma imprudência o que vocês estão
fazendo!... Estas coisas não é deste modo que se arranjam! Assim como fui eu, podia ser outra pessoa... Pois numa casa em
que há tantos quartos, é lá preciso vir meterem-se neste canto do quintal?...
— Nós não estávamos fazendo nada! disse Estela,
recuperando o sangue-frio.
— Ah! tornou o velho, aparentando sumo respeito:
então desculpe, pensei que estivessem... E olhe que, se assim fosse, para mim seria o mesmo, porque acho isso a coisa
mais natural do mundo e entendo que desta vida a gente só leva o que come!... Se vi, creia, foi como se nada visse, porque
nada tenho a cheirar com a vida de cada um!... A senhora está moça, está
na força dos anos; seu marido não a
satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto é o mundo, e, se é torto,
não fomos nós que o fizemos torto!...
Até certa idade todos temos dentro um bichinho-carpinteiro, que é preciso
matar, antes que ele nos mate! Não lhes
doam as mãos!... apenas acho que, para outra vez, devem ter um pouquinho mais
de cuidado e...
— Está bom! basta! ordenou Estela.
— Perdão! eu, se digo isto, é para deixá-los bem
tranqüilos a meu respeito. Não quero, nem por sombra, que se persuadam de que...
O Henrique atalhou, com a voz ainda comovida:
— Mas, acredite, seu Botelho, que...
O velho interrompeu-o também por sua vez,
passando-lhe a mão no ombro e afastando-o consigo:
— Não tenha receio, que não o comprometerei,
menino!
E, como já estivessem distantes de Estela,
segredou-lhe em tom protetor:
— Não torne a fazer isto assim, que você se
estraga... Olhe como lhe tremem as pernas!
Dona Estela acompanhou-os a distância, vagarosamente,
afetando preocupação em compor um ramalhete, cujas flores ela ia colhendo com muita graça, ora toda vergada
sobre as plantas rasteiras, ora pondo-se na pontinha dos pés para alcançar os heliotrópios e os manacás.
Henrique seguiu o Botelho até ao quarto deste,
conversando sem mudar de assunto.
— Você então não fala nisto, hein? Jura?
perguntou-lhe.
O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhara
em flagrante e que ficara bom tempo à espreita.
— Falar o quê, seu tolo?... Pois então quem pensa
você que eu sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas
estou convencido que não dará... Quer saber? eu até simpatizo muito com você,
Henrique! Acho que você é um excelente
menino, uma flor! E digo-lhe mais: hei de proteger os seus negócios com
Dona Estela...
Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e
afagava-as.
— Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se
meta com donzelas, entende?... São o diabo! Por dá cá aquela palha fica um homem em apuros! agora quanto às outras,
papo com elas! Não mande nenhuma ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque, no fim de contas, nas circunstâncias
de Dona Estela, é até um grande serviço que você lhe faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e
pilha a jeito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse ouro em pó!
sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo
de que não é só a ela que você faz o obséquio, mas também ao marido: quanto
mais escovar-lhe você a mulher, melhor
ela ficará de gênio, e por conseguinte melhor será para o pobre homem, coitado!
que tem já bastante com que se aborrecer lá por baixo, com os seus negócios, e
precisa de um pouco de descanso quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a! que a porá macia
que nem veludo! O que é preciso é muito juizinho, percebe? Não faça outra criançada como a de hoje e continue para
diante, não só com ela, mas com todas as que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando! menos as de
casa aberta, que isso é perigoso por causa das moléstias; nem tampouco donzelas! Não se meta com a Zulmira! E creia
que lhe falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simpático, porque
o acho bonito!
E acarinhou-o tão vivamente dessa vez, que o
estudante, fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo, enquanto o velho lhe dizia em voz
comprimida:
— Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!...
III
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava,
abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma
assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de
neblina as derradeiras notas da ultima guitarra da noite antecedente,
dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.
A roupa lavada, que ficara de véspera nos
coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão, esbranquiçadas no lugar da
lavagem e em alguns pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha
e triste, feita de acumulações de
espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças
congestionadas de sono; ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar
das ondas; pigarreava-se grosso por
toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o cheiro quente do café aquecia,
suplantando todos os outros;
trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias;
reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava já,
e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças que ainda não andam.
No confuso rumor que se formava,
destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar
de marrecos, cantar de galos, cacarejar
de galinhas. De alguns quartos saiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na
parede, a gaiola do papagaio, e os
louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se
à luz nova do dia.
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum
crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente,
debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já
prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez
dos braços e do pescoço, que elas
despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não
se preocupavam em não molhar o pêlo, ao
contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas
e as barbas, fossando e fungando contra
as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar
de cada instante, um entrar e sair sem
tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as
saias; as crianças não se davam ao
trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás
da estalagem ou no recanto das hortas.
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos
os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído
compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na venda;
ensarilhavam-se discussões e resingas;
ouviam-se gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se
naquela fermentação sangüínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e
nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.
Da porta da venda que dava para o cortiço iam e
vinham como formigas; fazendo compras.
Duas janelas do Miranda abriram-se. Apareceu numa a
Isaura, que se dispunha a começar a limpeza da casa.
— Nhá Dunga! gritou ela para baixo, a sacudir um
pano de mesa; se você tem cuscuz de milho hoje, bata na porta, ouviu?
A Leonor surgiu logo também, enfiando curiosa a
carapinha por entre o pescoço e o ombro da mulata.
O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande
cesta à cabeça e o seu banco de pau fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio do pátio, à espera dos
fregueses, pousando a canastra sobre o cavalete que ele armou prontamente.
Em breve estava cercado por uma nuvem
de gente. As crianças adulavam-no, e, à proporção que cada mulher ou cada
homem recebia o pão, disparava para
casa com este abraçado contra o peito. Uma vaca, seguida por um bezerro amordaçado,
ia, tilintando tristemente o seu
chocalho, de porta em porta, guiada por um homem carregado de vasilhame de
folha.
O zunzum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas
italianas, ali mesmo da vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho
com o seu arfar monótono de máquina a vapor. As corridas até à venda
reproduziam-se, transformando-se num
verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas
apinhavam-se latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de madeira em cima; sentia-se o trapejar
da água caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as suas tinas; outras
estendiam nos coradouros a roupa que ficara de molho. Principiava o trabalho.
Rompiam das gargantas os fados
portugueses e as modinhas brasileiras. Um carroção de lixo entrou com grande
barulho de rodas na pedra, seguido de
uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro.
E, durante muito tempo, fez-se um vaivém de
mercadores. Apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros de tripas e
fatos de boi; só não vinham hortaliças,
porque havia muitas hortas no cortiço. Vieram os ruidosos mascates, com as suas
latas de quinquilharia, com as suas
caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu fornecimento de caçarolas e
chocolateiras, de folha-de-flandres.
Cada vendedor tinha o seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das
sardinhas, com as cestas do peixe
dependuradas, à moda de balança, de um pau que ele trazia ao ombro. Nada mais
foi preciso do que o seu primeiro
guincho estridente e gutural para surgirem logo, como por encanto, uma enorme
variedade de gatos, que vieram correndo
acercar-se dele com grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas
e miando suplicantemente. O sardinheiro
os afastava com o pé, enquanto vendia o seu peixe à porta das casinhas, mas os
bichanos não desistiam e continuavam a
implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente tapava mal servia ao
freguês. Para ver-se livre por um
instante dos importunos era necessário atirar para bem longe um punhado de
sardinhas, sobre o qual se precipitava
logo, aos pulos, o grupo dos pedinchões.
A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por
alcunha a "Machona", portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos
e grossos, anca de animal do campo.
Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Ana das Dores, a quem
só chamavam a "das Dores" e
outra donzela ainda, a Nenen, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos
diabos, que gritava tanto ou melhor que
a mãe. A das Dores morava em sua casinha à parte, mas toda a família habitava
no cortiço.
Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva
ou desquitada; os filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim, afirmavam que fora casada e que largara
o marido para meter-se com um homem do comércio; e que este, retirando-se para a terra e não querendo soltá-la ao
desamparo, deixara o sócio em seu lugar. Teria vinte e cinco anos.
Nenen dezessete. Espigada, franzina e forte, com
uma proazinha de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes que a queriam sem
ser para casar. Engomava bem e sabia fazer roupa branca de homem com muita perfeição.
Ao lado da Leandra foi colocar-se à sua tina a
Augusta Carne-Mole, brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta anos, soldado de policia,
pernóstico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado e um luxo de
calças brancas engomadas e botões
limpos na farda, quando estava de serviço. Também tinham filhos, mas ainda
pequenos, um dos quais, a Juju, vivia
na cidade com a madrinha que se encarregava dela. Esta madrinha era uma cocote
de trinta mil-réis para cima, a Léonie,
com sobrado na cidade. Procedência francesa.
Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus
chinelos e na sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem, conversava, ria e
brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar
as calças de brim, ninguém mais lhe via os dentes e então a todos falava teso
e por cima do ombro. A mulher, a quem
ele só dava tu quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial
no cortiço, honestidade sem mérito,
porque vinha da indolência do seu temperamento e não do arbítrio do seu
caráter.
Junto dela pôs-se a trabalhar a Leocádia, mulher de
um ferreiro chamado Bruno, portuguesa pequena e socada, de carnes duras, com uma fama terrível de leviana
entre as suas vizinhas.
Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota,
a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio
de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos
desvairados, dentes cortados à navalha,
formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos e ainda retintos
apesar da idade. Chamavam-lhe
"Bruxa".
Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha
Florinda. A primeira, mulata antiga, muito seria e asseada em exagero: a
sua casa estava sempre úmida das
consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o mau humor punha-se logo a espanar, a
varrer febrilmente, e, quando a raiva
era grande, corria a buscar um balde de água e descarregava-o com fúria pelo
chão da sala. A filha tinha quinze
anos, a pele de um moreno quente, beiços sensuais, bonitos dentes, olhos
luxuriosos de macaca. Toda ela estava a
pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem à mão de
Deus Padre, aos rogos de João Romão,
que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das
compras que Florinda fazia diariamente
à venda.
Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel,
porque ali na estalagem lhes dispensavam todos certa consideração, privilegiada pelas suas maneiras graves de
pessoa que já teve tratamento: uma pobre mulher comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma casa de chapéus,
que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha e fraca,
a quem Isabel sacrificou tudo para educar,
dando-lhe mestre até de francês. Tinha uma cara macilenta de velha portuguesa devota, que já foi gorda, bochechas moles de
pelancas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da boca como saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos
castanhos, sempre chorosos engolidos pelas pálpebras. Puxava em bandos sobre as
fontes o escasso cabelo grisalho untado de óleo de amêndoas doces. Quando saia
à rua punha um eterno vestido de seda preta,
achamalotada, cuja saia não fazia rugas, e um xale encarnado que lhe
dava a todo o corpo um feitio piramidal. Da sua passada grandeza só lhe ficara uma caixa de rapé de
ouro, na qual a inconsolável senhora pitadeava agora, suspirando a cada pitada.
A filha era a flor do cortiço. Chamavam-lhe
Pombinha. Bonita, posto que enfermiça e nervosa ao último ponto; loura,
muito pálida, com uns modos de menina de
boa família. A mãe não lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo porque o médico
a proibira expressamente.
Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do
comércio, estimado do patrão e dos colegas, com muito futuro, e que a adorava e
conhecia desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se fizesse
já. É que Pombinha, orçando aliás pelos
dezoito anos, não tinha ainda pago à natureza o cruento tributo da
puberdade, apesar do zelo da velha e dos sacrifícios que esta fazia para cumprir à risca as
prescrições do médico e não faltar à filha o menor desvelo. No entanto,
coitadas! daquele casamento dependia a
felicidade de ambas, porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um
tio seu, de quem mais tarde havia de ser sócio, tencionava, logo que mudasse de
estado, restituí-las ao seu primitivo círculo social. A pobre velha desesperava-se com o fato e pedia a
Deus, todas as noites, antes de dormir, que as protegesse e conferisse à filha
uma graça tão simples que ele fazia,
sem distinção de merecimento, a quantas raparigas havia pelo mundo; mas, a
despeito de tamanho empenho, por coisa
nenhuma desta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de "ser
mulher", como dizia ela. E
"que deixassem lá falar o doutor, entendia que não era decente, nem tinha
jeito, dar homem a uma moça que ainda não fora
visitada pelas regras! Não! Antes vê-la solteira toda a vida e ficarem
ambas curtindo para sempre aquele inferno da
estalagem!"
Lá no cortiço estavam todos a par desta história;
não era segredo para ninguém. E não se passava um dia que não interrogassem duas e três vezes a velha com
estas frases:
— Então? Já veio?
— Por que não tenta os banhos de mar?
— Por que não chama outro médico?
— Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!
A velha respondia dizendo que a felicidade não se
fizera para ela. E suspirava resignada.
Quando o Costa aparecia depois da sua obrigação
para visitar a noiva, os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silêncio com um respeitoso ar de lástima e
piedade, empenhados tacitamente por aquele caiporismo, contra o qual não
valiam nem mesmo as virtudes da Bruxa.
Pombinha era muito querida por toda aquela gente.
Era quem lhe escrevia as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as contas; quem lia
o jornal para os que quisessem ouvir. Prezavam-na com muito respeito e
davam-lhe presentes, o que lhe permitia certo luxo relativo. Andava sempre de
botinhas ou sapatinhos com meias de cor, seu vestido de chita engomado; tinha as suas joiazinhas
para sair à rua, e, aos domingos, quem a encontrasse à missa na igreja de São
João Batista, não seria capaz de
desconfiar que ela morava em cortiço.
Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino,
um sujeito afeminado, fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caia,
numa só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre
entre as mulheres, com quem já estava
tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo; em presença
dele falavam de coisas que não exporiam
em presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e das
suas infidelidades, com uma franqueza
que o não revoltava, nem comovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se
disputavam, era sempre Albino quem
tratava de reconciliá-los, exortando as mulheres à concórdia. Dantes
encarregava-se de cobrar o rol das
colegas, por amabilidade; mas uma vez, indo a uma república de estudantes,
deram-lhe lá, ninguém sabia por quê, uma
dúzia de bolos, e o pobre-diabo jurou então, entre lágrimas e soluços,
que nunca mais se incumbiria de receber os róis.
E daí em diante, com efeito, não arredava os
pezinhos do cortiço, a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde pelas ruas e à
noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por esse
divertimento; ajuntava dinheiro durante
o ano para gastar todo com a mascarada. E ninguém o encontrava, domingo ou dia
de semana, lavando ou descansando, que
não estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao
pescoço, e, amarrado à cinta, um
avental que lhe caia sobre as pernas como uma saia. Não fumava, não bebia
espíritos e trazia sempre as mãos
geladas e úmidas.
Naquela manhã levantara-se ainda um pouco mais
lânguido que do costume, porque passara mal a noite. A velha Isabel, que lhe ficava ao lado esquerdo, ouvindo-o
suspirar com insistência, perguntou-lhe o que tinha.
Ah! muita moleza de corpo e uma pontada do vazio
que o não deixava!
A velha receitou diversos remédios, e ficaram os
dois, no meio de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias.
E, enquanto, no resto da fileira, a Machona, a
Augusta, a Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha conversavam de tina a
tina, berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço,
defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de
trouxas, e iam ruidosamente tomando lagar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas,
onde se não distinguia o que era galhofa e o que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos os
casulos do cortiço saiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que havia
ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha
agora o retinir dos alviões e das picaretas. O
Miranda, de calças de brim, chapéu alto e sobrecasaca preta, passou lá
fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo Henrique que ia para as
aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada, entrou solene,
atravessou o pátio, sem falar a
ninguém, nem mesmo à mulher, e recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de
mascates, o Delporto, o Pompeo, o
Francesco e o Andréa, armado cada qual com a sua grande caixa de
bugigangas, saiu para a peregrinação de todos os dias, altercando e praguejando em italiano.
Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar
à Machona pela Nhá Rita.
— A Rita Baiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que
ela arribou!
A Leocádia explicou logo que a mulata estava com
certeza de pândega com o Firmo.
— Que Firmo? interrogou Augusta.
— Aquele cabravasco que se metia às vezes ai com
ela. Diz que é torneiro.
— Ela mudou-se? perguntou o pequeno.
— Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas
a mulata tem coisas lá. Você o que queria?
— Vinha buscar uma roupa que está com ela.
— Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão,
que talvez te possa dizer alguma coisa.
— Ali?
— Sim, pequeno, naquela porta, onde a preta do
tabuleiro está vendendo! Ó diabo! olha que pisas a boneca de anil! Já se
viu que sorte? Parece que não vê onde
pisa este raio de criança!
E, notando que o filho, o Agostinho, se aproximava
para tomar o lugar do outro que já se ia:
— Sai daí, tu também, peste! Já principias na
reinação de todos os dias? Vem para cá, que levas! Mas, é verdade, que
fazes tu que não vais regar a horta do
Comendador?
— Ele disse ontem que eu agora fosse à tarde, que
era melhor.
— Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois
mil-réis, que é fim do mês. Olha! Vai lá dentro e diz a Nenen que te entregue a roupa que veio ontem à noite.
O pequeno afastou-se de carreira, e ela lhe gritou
na pista:
— E que não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá
ido!
Uma conversa cerrada travara-se no resto da fila de
lavadeiras a respeito da Rita Baiana.
— É doida mesmo!... censurava Augusta. Meter-se na
pândega sem dar conta da roupa que lhe entregaram... Assim há de ficar sem um freguês...
— Aquela não endireita mais!... Cada vez fica até
mais assanhada!... Parece que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que houver, aparecendo pagode, vai tudo pro
lado! Olha o que saiu o ano passado com a festa da Penha!...
— Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma
pouca-vergonha! Est’ro dia, pois você não viu? levaram ai numa bebedeira, a dançar e cantar à viola, que nem sei o que
parecia! Deus te livre!
— Para tudo há horas e há dias!...
— Para a Rita todos os dias são dias santos! A
questão é aparecer quem puxe por ela!
— Ainda assim não e má criatura... Tirante o
defeito da vadiagem...
— Bom coração tem ela, até demais, que não guarda
um vintém pro dia de amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo!
— Depois é que são elas!... O João Romão já lhe não
fia!
— Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos;
quando ela tem dinheiro é porque o gasta mesmo!
E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar,
e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercício.
Ao passo que, em torno da sua
tagarelice, o cortiço se embandeirava todo de roupa molhada, de onde o sol
tirava cintilações de prata.
Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama
dos coradouros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao Nascente, caiadinhas de novo,
reverberavam iluminadas, ofuscando a vista. Em uma das janelas da sala de
jantar do Miranda, Dona Estela e
Zulmira, ambas vestidas de claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz
surda, indiferentes à agitação que ia lá embaixo, muito esquecidas na sua
tranqüilidade de entes felizes.
Entretanto, agora o maior movimento era na venda à
entrada da estalagem. Davam nove horas e os operários das fábricas chegavam-se para o almoço. Ao balcão o
Domingos e o Manuel não tinham mãos a medir com a criadagem da vizinhança;
os embrulhos de papel amarelo
sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermitência dentro da gaveta.
— Meio quilo de arroz!
— Um tostão de açúcar!
— Uma garrafa de vinagre!
— Dois martelos de vinho!
— Dois vinténs de fumo!
— Quatro de sabão!
E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de
todos os tons.
Ouviam-se protestos entre os compradores:
— Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no
fogo!
— Ó peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o
que fazer!
— Seu Manuel, não me demore essa manteiga!
Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias
arrepanhadas no quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma panela à outra, fazendo pratos,
que João Romão levava de carreira aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admitira-se um novo
caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada comensal que ia chegando,
recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminável lista das comidas que
havia. Um cheiro forte de azeite frito predominava. O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca
de café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho queimado. Uma algazarra medonha, em que
ninguém se entendia! Cruzavam-se conversas em todas as direções, discutia-se a berros, com valentes punhadas sobre as
mesas. E sempre a sair, e sempre a entrar gente, e os que saiam, depois
daquela comezaina grossa, iam radiantes
de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.
Num banco de pau tosco, que existia do lado de
fora, junto à parede e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinelos de couro cru, esperava,
havia já uma boa hora, para falar com o vendeiro.
Era um português de seus trinta e cinco a quarenta
anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um
chapéu de feltro ordinário: pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os
olhos todavia, humildes como os olhos
de um boi de canga, exprimiam tranqüila bondade.
— Então ainda não se pode falar ao homem? perguntou
ele, indo ao balcão entender-se com o Domingos.
— O patrão está agora muito ocupado. Espere!
— Mas são quase dez horas e estou com um gole de
café no estômago!
— Volte logo!
— Moro na cidade nova. É um estirão daqui!
O caixeiro gritou então para a cozinha, sem
interromper o que fazia:
— O homem que ai está, seu João, diz que se vai
embora!
— Ele que espere um pouco, que já lhe falo!
respondeu o vendeiro no meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá!
— Mas é que ainda não almocei e estou aqui a
tinir!... observou o Hércules com a sua voz grossa e sonora.
— Ó filho, almoce ai mesmo! Aqui o que não falta é
de comer. Já podia estar aviado!
— Pois vá lá! resolveu o homenzarrão, saindo da
venda para entrar na casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com
ar curioso, medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos os que ai
se apresentavam pela primeira vez.
E assentou-se a uma das mesinhas, vindo logo o
caixeiro cantar-lhe a lista dos pratos.
— Traga lá o pescado com batatas e veja um martelo
de vinho.
— Quer verde ou virgem?
— Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já
não vem sem tempo!
IV
Meia hora depois, quando João Romão se viu menos
ocupado, foi ter com o sujeito que o procurava e assentou-se defronte dele, caindo de fadiga, mas sem se queixar,
nem se lhe trair a fisionomia o menor sintoma de cansaço.
— Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Ele
falou-me de um homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lajedo.
— Sou eu.
— Estava empregado em outra pedreira?
— Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me
dela e quero passar adiante.
— Quanto lhe dão lá?
— Setenta mil-réis.
— Oh! Isso é um disparate!
— Não trabalho por menos...
— Eu, o maior ordenado que faço é de cinqüenta.
— Cinqüenta ganha um macaqueiro...
— Ora! tenho aí muitos trabalhadores de lajedo por
esse preço!
— Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como
o senhor não encontra por cinqüenta mil-réis quem dirija a broca, pese a pólvora e lasque fogo, sem lhe
estragar a pedra e sem fazer desastres!
— Sim, mas setenta mil-réis é um ordenado
impossível!
— Nesse caso vou como vim... Fica o dito por não
dito!
— Setenta mil-réis é muito dinheiro!...
— Cá por mim, entendo que vale a pena pagar mais um
pouco a um trabalhador bom, do que estar a sofrer desastres, como o que sofreu
sua pedreira a semana passada! Não falando na vida do pobre de Cristo que ficou
debaixo da pedra!
— Ah! O Machucas falou-lhe no desastre?
— Contou-mo, sim senhor, e o desastre não
aconteceria se o homem soubesse fazer o serviço!
— Mas setenta mil-réis é impossível. Desça um
pouco!
— Por menos não me serve... E escusamos de gastar
palavras!
— Você conhece a pedreira?
— Nunca a vi de perto, mas quis me parecer que é
boa. De longe cheirou-me a granito.
— Espere um instante.
João Romão deu um pulo à venda, deixou algumas
ordens, enterrou um chapéu na cabeça e voltou a ter com o outro.
— Ande a ver! gritou-lhe da porta do frege, que a
pouco e pouco se esvaziara de todo.
O cavouqueiro pagou doze vinténs pelo seu almoço e
acompanhou-o em silêncio.
Atravessaram o cortiço.
A labutação continuava. As lavadeiras tinham já ido
almoçar e tinham voltado de novo para o trabalho. Agora estavam todas de chapéu de palha, apesar das toldas que se
armaram. Um calor de cáustico mordia-lhes os toutiços em brasa e cintilantes de
suor. Um estado febril apoderava-se delas naquele rescaldo; aquela digestão
feita ao sol fermentava-lhes o sangue. A
Machona altercava com uma preta que fora reclamar um par de meias e
destrocar uma camisa; a Augusta, muito mole sobre a sua tábua de lavar, parecia derreter-se como sebo; a Leocádia
largava de vez em quando a roupa e o sabão para coçar as comichões do quadril e das virilhas,
assanhadas pelo mormaço; a Bruxa monologava, resmungando numa insistência de
idiota, ao lado da Marciana que, com o
seu tipo de mulata velha, um cachimbo ao canto da boca, cantava toadas
monótonas do sertão:
"Maricas tá marimbando,
Maricas tá marimbando,
Na passage do riacho
Maricas tá marimbando."
A Florinda, alegre, perfeitamente bem com o rigor
do sol, a rebolar sem fadigas, assoviava os chorados e lundus que se tocavam na estalagem, e junto dela, a
melancólica senhora Dona Isabel suspirava, esfregando a sua roupa dentro da
tina, automaticamente, como um
condenado a trabalhar no presídio; ao passo que o Albino, saracoteando os seus
quadris pobres de homem linfático,
batia na tábua um par de calças, no ritmo cadenciado e miúdo de um cozinheiro a
bater bifes. O corpo tremia-lhe todo, e
ele, de vez em quando, suspendia o lenço do pescoço para enxugar a fronte, e
então um gemido suspirado subia-lhe aos
lábios.
Da casinha número 8 vinha um falsete agudo, mas
afinado. Era a das Dores que principiava o seu serviço; não sabia engomar sem cantar. No número 7 Nenen cantarolava em
tom muito mais baixo; e de um dos quartos do fundo da estalagem saia de espaço a espaço uma nota áspera de trombone.
O vendeiro, ao passar por detrás de Florinda, que
no momento apanhava roupa do chão, ferrou-lhe uma palmada na parte do corpo então mais em evidência.
— Não bula, hein?!... gritou ela, rápido,
erguendo-se tesa.
E, dando com João Romão:
— Eu logo vi. Leva implicando aqui com a gente e
depois, vai-se comprar na venda, o safado rouba no peso! Diabo do galego Eu não te quero, sabe?
O vendeiro soltou-lhe nova palmada com mais força e
fugiu, porque ela se armara com um regador cheio de água.
— Vem pra cá, se és capaz! Diabo da peste!
João Romão já se havia afastado com o cavouqueiro.
— O senhor tem aqui muita gente!... observou-lhe
este.
— Oh! fez o outro, sacudindo os ombros, e disse
depois com empáfia: — Houvesse mais cem quartos que estariam cheios! Mas é tudo gente séria! Não há chinfrins
nesta estalagem; se aparece uma rusga, eu chego, e tudo acaba logo! Nunca
nos entrou cá a policia, nem nunca a
deixaremos entrar! E olhe que se divertem bem com as suas violas! Tudo gente
muita boa!
Tinham chegado ao fim do pátio do cortiço e, depois
de transporem uma porta que se fechava com um peso amarrado a uma corda, acharam-se no capinzal que havia
antes da pedreira.
— Vamos por aqui mesmo que é mais perto, aconselhou
o vendeiro.
E os dois, em vez de procurarem a estrada,
atravessaram o capim quente e trescalante.
Meio-dia em ponto. O sol estava a pino; tudo
reverberava a luz irreconciliável de dezembro, num dia sem nuvens. A
pedreira, em que ela batia de chapa em
cima, cegava olhada de frente. Era preciso martirizar a vista para descobrir as
nuanças da pedra; nada mais que uma grande mancha branca e luminosa, terminando
pela parte de baixo no chão coberto de cascalho miúdo, que ao longe produzia o efeito de um betume
cinzento, e pela parte de cima na espessura compacta do arvoredo, onde se não distinguiam outros tons mais do que nódoas
negras, bem negras, sobre o verde-escuro.
À proporção que os dois se aproximavam da imponente
pedreira, o terreno ia-se tornando mais e mais cascalhudo; os sapatos
enfarinhavam-se de uma poeira clara. Mais adiante, por aqui e por ali, havia
muitas carroças, algumas em movimento, puxadas
a burro e cheias de calhaus partidos; outras já prontas para seguir, à
espera do animal, e outras enfim com os braços para o ar, como se acabassem de
ser despejadas naquele instante. Homens labutavam.
À esquerda, por cima de um vestígio de rio, que
parecia ter sido bebido de um trago por aquele sol sedento, havia uma
ponte de tábuas, onde três pequenos,
quase nus, conversavam assentados, sem fazer sombra, iluminados a prumo pelo
sol do meio-dia. Para adiante, na mesma
direção, corria um vasto telheiro, velho e sujo, firmado sobre colunas de pedra
tosca; ai muitos portugueses
trabalhavam de canteiro, ao barulho metálico do picão que feria o granito. Logo
em seguida, surgia uma oficina de
ferreiro, toda atravancada de destroços e objetos quebrados, entre os quais
avultavam rodas de carro; em volta da
bigorna dois homens, de corpo nu, banhados de suor e alumiados de
vermelho como dois diabos, martelavam
cadenciosamente sobre um pedaço de ferro em brasa; e ali mesmo, perto
deles, a forja escancarava uma goela infernal, de onde saiam pequenas línguas de fogo, irrequietas e gulosas.
João Romão parou à entrada da oficina e gritou para
um dos ferreiros:
— O Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do
portão!
Os dois homens suspenderam por um instante o
trabalho.
— Já lá fui ver, respondeu o Bruno. Não vale a pena
consertá-lo; está todo comido de ferragem! Faz-se-lhe um novo, que é melhor!
— Pois veja lá isso, que a lanterna está a cair!
E o vendeiro seguiu adiante com o outro, enquanto atrás
recomeçava o martelar sobre a bigorna.
Em seguida via-se uma miserável estrebaria, cheia
de capim seco e excremento de bestas, com lugar para meia dúzia de animais. Estava deserta, mas, no vivo fartum
exalado de lá, sentia-se que fora habitada ainda aquela noite. Havia depois
um depósito de madeiras, servindo ao
mesmo tempo de oficina de carpinteiro, tendo à porta troncos de arvore, alguns
já serrados, muitas tábuas empilhadas,
restos de cavernas e mastros de navio.
Daí à pedreira restavam apenas uns cinqüenta passos
e o chão era já todo coberto por uma farinha de pedra moída que sujava como a
cal.
Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se
trabalhadores, uns ao sol, outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona
ou de folhas de palmeira. De um lado
cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a picareta; de outro afeiçoavam
lajedos a ponta de picão; mais adiante faziam paralelepípedos a escopro e
macete. E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima
brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que vinha do
cortiço, como de uma aldeia alarmada;
tudo dava a idéia de uma atividade feroz, de uma luta de vingança e de ódio.
Aqueles homens gotejantes de suor,
bêbados de calor, desvairados de insolação, a quebrarem, a espicaçarem, a
torturarem a pedra, pareciam um punhado
de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os
contemplava com desprezo, imperturbável
a todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem
um gemido que lhe abrissem as entranhas
de granito. O membrudo cavouqueiro havia chegado a fralda do orgulhoso monstro
de pedra; tinha-o cara a cara, mediu-o de alto a baixo, arrogante, num desafio
surdo.
A pedreira mostrava nesse ponto de vista o seu lado
mais imponente. Descomposta, com o escalavrado flanco exposto ao sol, erguia-se
altaneira e desassombrada, afrontando o céu, muito íngreme, lisa, escaldante e
cheia de cordas que mesquinhamente lhe
escorriam pela ciclópica nudez com um efeito de teias de aranha. Em certos
lugares, muito alto do chão, lhe haviam
espetado alfinetes de ferro, amparando, sobre um precipício, miseráveis
tábuas que, vistas cá de baixo, pareciam palitos, mas em cima das quais uns atrevidos pigmeus de forma humana
equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante.
O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lástima. O
seu gesto desaprovava todo aquele serviço.
— Veja lá! disse ele, apontando para certo ponto da
rocha. Olhe para aquilo! Sua gente tem ido às cegas no trabalho desta pedreira. Deviam atacá-la justamente por
aquele outro lado, para não contrariar os veios da pedra. Esta parte aqui é
toda granito, é a melhor! Pois olhe só
o que eles têm tirado de lá — umas lascas, uns calhaus que não servem para
nada! É uma dor de coração ver estragar
assim uma peça tão boa! Agora o que hão de fazer dessa cascalhada que ai está
senão macacos? E brada aos céus, creia!
ter pedra desta ordem para empregá-la em macacos!
O vendeiro escutava-o em silêncio, apertando os
beiços, aborrecido com a idéia daquele prejuízo.
— Uma porcaria de serviço! continuou o outro. Ali
onde está aquele homem é que deviam ter feito a broca, porque a explosão punha abaixo toda esta aba que é
separada por um veio. Mas quem tem ai o senhor capaz de fazer isso?
Ninguém; porque é preciso um empregado
que saiba o que faz; que, se a pólvora não for muito bem medida, nem só não se
abre o veio, como ainda sucede ao
trabalhador o mesmo que sucedeu ao outro! É preciso conhecer muito bem o
trabalho para se poder tirar partido
vantajoso desta pedreira! Boa é ela, mas não nas mãos em que está! É muito
perigosa nas explosões; é muito em pé!
Quem lhe lascar fogo não pode fugir senão para cima pela corda, e se o sujeito
não for fino leva-o o demo! Sou eu quem
o diz!
E depois de uma pausa, acrescentou, tomando na sua
mão, grossa como o próprio cascalho, um paralelepípedo que estava no chão:
— Que
digo eu?! Cá está! Macacos de granito! Isto até é uma coisa que
estes burros deviam esconder por vergonha!
Acompanhando a pedreira pelo lado direito e
seguindo-a na volta que ela dava depois, formando um ângulo obtuso, é que
se via quanto era grande. Suava-se bem
antes de chegar ao seu limite com a mata.
— Que mina de dinheiro!... dizia o homenzarrão,
parando entusiasmado defronte do novo pano de rocha viva que se desdobrava na presença dele.
— Toda esta parte que se segue agora, declarou João
Romão, ainda não é minha.
E continuaram a andar para diante.
Deste lado multiplicavam-se as barraquinhas; os
macaqueiros trabalhavam à sombra delas, indiferentes àqueles dois. Viam-se panelas ao fogo, sobre quatro pedras, ao ar
livre, e rapazitos tratando do jantar dos pais. De mulher nem sinal. De vez
em quando, na penumbra de um ensombro
de lona, dava-se com um grupo de homens, comendo de cócoras defronte uns
dos outros, uma sardinha na mão
esquerda, um pão na direita, ao lado de uma garrafa de água.
— Sempre o mesmo serviço malfeito e mal
dirigido!... resmungou o cavouqueiro.
Entretanto, a mesma atividade parecia reinar por
toda a parte. Mas, lá no fim, debaixo dos bambus que marcavam o limite da pedreira, alguns trabalhadores dormiam à
sombra, de papo para o ar, a barba espetando para o alto, o pescoço
intumescido de cordoveias grossas como
enxárcias de navio, a boca aberta, a respiração forte e tranqüila de animal
sadio, num feliz e pletórico resfolgar
de besta cansada.
— Que relaxamento! resmungou de novo o cavouqueiro.
Tudo isto está a reclamar um homem teso que olhe a sério para o serviço!
— Eu nada tenho que ver com este lado! observou
Romão.
— Mas lá da sua banda hão de fazer o mesmo! Olará!
— Abusam, porque tenho de olhar pelo negócio lá
fora...
— Comigo aqui é que eles não fariam cera. isso juro
eu! Entendo que o empregado deve ser bem pago, ter para a sua comida à farta, o
seu gole de vinho, mas que deve fazer serviço que se veja, ou, então, rua! Rua,
que não falta por ai quem queira ganhar
dinheiro! Autorize-me a olhar por eles e verá!
— O diabo é que você quer setenta mil-réis...
suspirou João Romão.
— Ah! nem menos um real!... Mas comigo aqui há de
ver o que lhe faço entrar para algibeira! Temos cá muita gente que não precisa estar. Para que tanto macaqueiro,
por exemplo? Aquilo é serviço para descanso; é serviço de criança! Em vez
de todas aquelas lesmas, pagas talvez a
trinta mil-réis...
— É justamente quanto lhes dou.
— ... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de
cinqüenta, que fazem o dobro do que fazem aqueles monos e que podem servir para outras coisas! Parece que nunca
trabalharam! Olhe, é já a terceira vez que aquele que ali está deixa cair o
escopro! Com efeito!
João Romão ficou calado, a cismar, enquanto
voltavam. Vinham ambos pensativos.
— E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro,
muda-se cá para a estalagem?...
— Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova,
tendo o serviço aqui!...
— E a comida, forneço-a eu?...
— Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras
saem-lhe da venda...
— Pois está fechado o negócio! deliberou João
Romão, convencido de que não podia, por economia, dispensar um homem daqueles. E pensou lá de si para si:
"Os meus setenta mil-réis voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em
casa!"
— Então estamos entendidos?...
— Estamos entendidos!
— Posso amanhã fazer a mudança?
— Hoje mesmo, se quiser; tenho um cômodo que lhe há
de calhar. É o número 35. Vou mostrar-lho.
E aligeirando o passo, penetraram na estrada do
capinzal com direção ao fundo do cortiço.
— Ah! é verdade! como você se chama?
— Jerônimo, para o servir.
— Servir a Deus. Sua mulher lava?
— É lavadeira, sim senhor.
— Bem, precisamos ver-lhe uma tina.
E o vendeiro empurrou a porta do fundo da
estalagem, de onde escapou, como de uma panela fervendo que se destapa,
uma baforada quente, vozeria
tresandante à fermentação de suores e roupa ensaboada secando ao sol.
V
No dia seguinte, com efeito, ali pelas sete da
manhã, quando o cortiço fervia já na costumada labutação, Jerônimo apresentou-se junto com a mulher, para
tomarem conta da casinha alugada na véspera.
A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta
anos, boa estatura, carne ampla e rija, cabelos fortes de um castanho fulvo,
dentes pouco alvos, mas sólidos e perfeitos, cara cheia, fisionomia aberta; um
todo de bonomia toleirona, desabotoando-lhe
pelos olhos e pela boca numa simpática expressão de honestidade simples
e natural.
Vieram ambos à boleia da andorinha que lhes
carregou os trens. Ela trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de
paninho de algodão e na cabeça um lenço
vermelho de alcobaça; o marido a mesma roupa do dia anterior.
E os dois apearam-se muito atrapalhados com os
objetos que não confiaram dos homens da carroça; Jerônimo abraçado a duas formidáveis mangas de vidro, das
primitivas, dessas em que se podia à vontade enfiar uma perna; e a Piedade
atracada com um velho relógio de parede
e com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim atravessaram o pátio
da estalagem, entre os comentários e os
olhares curiosos dos antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de desconfiança os inquilinos novos que
surgiam.
— O que será este pedaço de homem? indagou a
Machona da sua vizinha de tina, a Augusta Carne-Mole.
— A modos, respondeu esta, que vem para trabalhar
na pedreira. Ele ontem andou por lá um ror de tempo com o João Romão.
— Aquela mulher que entrou junto será casada com
ele?
— É de crer.
— Ela me parece gente das ilhas.
— Eles o que têm é muito bons trastes de seu!
interveio a Leocádia. Uma cama que deve ser um regalo e um toucador com um espelho maior do que aquela peneira!
— E a cômoda, você viu, Nhá Leocádia? perguntou
Florinda, gritando para ser ouvida, porque entre ela e a outra estavam a Bruxa e a velha Marciana.
— Vi, Rico traste!
— E o oratório, então? Muito bonito!...
— Vi também. É obra de capricho. Não! eles sejam lá
quem for, são gente arranjada... Isso não se lhes pode negar!
— Se são bons ou maus só com o tempo se saberá!...
arriscou Dona Isabel.
— Quem vê cara não vê corações... sentenciou o
triste Albino, suspirando.
— Mas o número 35 não estava ocupado por aquele
homem muito amarelo que fazia charutos?... inquiriu Augusta.
— Estava, confirmou a mulher do ferreiro, a
Leocádia, porém creio que arribou, devendo não sei quanto, e o João Romão então esvaziou-lhe ontem a casa e tomou
conta do que era dele.
— É! acudiu a Machona; ontem, pelo cair das duas da
tarde, o Romão andava aí às voltas com os cacarecos do charuteiro. Quem sabe, se o pobre homem não levou a
breca, como sucedeu àquele outro que trabalhava de ourives?
— Não! Este creio que está vivo...
— O que lhe digo é que aquele número 35 tem mau
agouro! Eu cá por mim não o queria nem de graça! Foi lá que morreu a Maricas do Farjão!
Três horas depois, Jerônimo e Piedade achavam-se
instalados e dispunham-se a comer o almoço, que a mulher preparara o melhor e o mais depressa que pôde. Ele
contava aviar até a noite uma infinidade de coisas, para poder começar a
trabalhar logo no dia seguinte.
Era tão metódico e tão bom como trabalhador quanto o
era como homem.
Jerônimo viera da terra, com a mulher e uma
filhinha ainda pequena, tentar a vida no Brasil, na qualidade de colono de
um fazendeiro, em cuja fazenda mourejou
durante dois anos, sem nunca levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de
mãos vazias e uma grande birra pela
lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha que sujeitar-se a
emparelhar com os negros escravos e
viver com eles no mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem
aspirações, nem futuro, trabalhando
eternamente para outro.
Não quis. Resolveu abandonar de vez semelhante
estupor de vida e atirar-se para a Corte, onde, diziam-lhe patrícios, todo
o homem bem disposto encontrava furo.
E, com efeito, mal chegou, devorado de necessidades e privações, meteu-se a
quebrar pedra em uma pedreira, mediante
um miserável salário. A sua existência continuava dura e precária; a mulher já
então lavava e engomava, mas com
pequena freguesia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para não
morrer de fome e pagar o quarto da
estalagem.
Jerônimo, porém, era perseverante, observador e
dotado de certa habilidade. Em poucos meses se apoderava do seu novo ofício e, de quebrador de pedra, passou logo
a fazer paralelepípedos; e depois foi-se ajeitando com o prumo e com a esquadria e meteu-se a fazer lajedos; e
finalmente, à força de dedicação pelo serviço, tornou-se tão bom como os
melhores trabalhadores de pedreira e a
ter salário igual ao deles. Dentro de dois anos, distinguia-se tanto entre os
companheiros, que o patrão o converteu
numa espécie de contra-mestre e elevou-lhe o ordenado a setenta mil-réis.
Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o
que o pôs assim para a frente; duas outras coisas contribuíram muito para isso: a força de touro que o tornava
respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e,
talvez, principalmente, a grande
seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma
honestidade a toda prova e de uma
primitiva simplicidade no seu modo de viver. Sala de casa para o serviço e do
serviço para casa, onde nunca ninguém o
vira com a mulher senão em boa paz; traziam a filhinha sempre limpa e bem
alimentada, e, tanto um como o outro,
eram sempre os primeiros à hora do trabalho. Aos domingos iam às vezes à missa
ou, à tarde, ao Passeio Público; nessas
ocasiões, ele punha uma camisa engomada, calçava sapatos e enfiava um paletó;
ela o seu vestido de ver a Deus, os
seus ouros trazidos da terra, que nunca tinham ido ao monte de socorro,
malgrado as dificuldades com que os dois lutaram a principio no Brasil.
Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente,
sadia, honesta, forte, bem acomodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando sempre tão
boas contas da obrigação, que os seus fregueses de roupa, apesar daquela mudança para Botafogo, não a deixaram quase
todos.
Jerônimo, ainda na cidade nova, logo que
principiara a ganhar melhor, fizera-se irmão de uma ordem terceira e tratara de
ir pondo alguma coisinha de parte.
Meteu a filha em um colégio, "que a queria com outro saber que não ele, a
quem os pais não mandaram ensinar
nada". Por último, no cortiço em que então moravam, a sua casinha era a
mais decente, a mais respeitada e a
mais confortável; porém, com a morte do seu patrão e com uma reforma estúpida
que os sucessores dele realizaram em todo o serviço da pedreira, o colono
desgostou-se dela e resolveu passar para outra.
Foi então que lhe indicaram a do João Romão, que,
depois do desastre do seu melhor empregado, andava justamente à procura de um homem nas condições de
Jerônimo.
Tomou conta da direção de todo o serviço, e em boa
hora o fez, porque dia a dia a sua influência se foi sentindo no progresso do trabalho. Com o seu exemplo os
companheiros tornavam-se igualmente sérios e zelosos. Ele não admitia
relaxamentos, nem podia consentir que um preguiçoso se demorasse ali tomando o
lagar de quem precisava ganhar o pão. E alterou o pessoal da pedreira, despediu alguns trabalhadores,
admitiu novos, aumentou o ordenado dos que ficaram, estabelecendo-lhes
novas obrigações e reformando tudo para
melhor. No fim de dois meses já o vendeiro esfregava as mãos de contente e via,
radiante, quanto lucrara com a
aquisição de Jerônimo; tanto assim que estava disposto a aumentar-lhe o
ordenado para conservá-lo em sua
companhia. "Valia a pena! Aquele homem era um achado precioso! Abençoado
fosse o Machucas que lho enviara!" E
começou a distingui-lo e respeitá-lo como não fazia a ninguém.
O prestigio e a consideração de que Jerônimo gozava
entre os moradores da outra estalagem donde vinha, foi a pouco e pouco se reproduzindo entre os seus novos
companheiros de cortiço. Ao cabo de algum tempo era consultado e ouvido, quando qualquer questão difícil os
preocupava. Descobriam-se defronte dele, como defronte de um superior, até o
próprio Alexandre abria uma exceção nos
seus hábitos e fazia-lhe uma ligeira continência com a mão no boné, ao
atravessar o pátio, todo fardado, por
ocasião de vir ou ir para o serviço. Os dois caixeiros da venda, o Domingos e o
Manuel, tinham entusiasmo por ele.
"Aquele é que devia ser o patrão, diziam. É um homem sério e destemido!
Com aquele ninguém brinca!" E, sempre
que a Piedade de Jesus ia lá à taverna fazer as suas compras, a fazenda
que lhe davam era bem escolhida, bem medida ou bem pesada. Muitas lavadeiras
tomavam inveja dela, mas Piedade era de natural tão bom e benfazejo que não
deva por isso e a maledicência murchava
antes de amadurecer.
Jerônimo acordava todos os dias às quatro horas da
manhã, fazia antes dos outros a sua lavagem à bica do pátio, socava-se depois com uma boa palangana de caldo de
unto, acompanhada de um pão de quatro; e, em mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grossos pés sem meias
metidos em um formidável par de chinelos de couro cru, seguia para a pedreira.
A sua picareta era para os companheiros o toque de
reunir. Aquela ferramenta movida por um pulso de Hércules valia bem os clarins de um regimento tocando alvorada. Ao
seu retinir vibrante surgiam do caos opalino das neblinas vultos cor de
cinza, que lá iam, como sombras,
galgando a montanha, para cavar na pedra o pão nosso de cada dia. E, quando o
sol desfechava sobre o píncaro da rocha
os seus primeiros raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de
granito, aquele mísero grupo de
obscuros batalhadores.
Jerônimo só voltava a casa ao descair da tarde,
morto de fome e de fadiga. A mulher preparava-lhe sempre para o jantar alguma das comidas da terra deles. E ali,
naquela estreita salinha, sossegada e humilde, gozavam os dois, ao lado um do
outro, a paz feliz dos simples, o
voluptuoso prazer do descanso após um dia inteiro de canseiras ao sol. E,
defronte do candeeiro de querosene,
conversavam sobre a sua vida e sobre a sua Marianita, a filhinha que estava no
colégio e que só os visitava aos
domingos e dias santos.
Depois, até às horas de dormir, que nunca passavam
das nove, ele tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta, junto com a mulher, dedilhar os fados da sua terra.
Era nesses momentos que dava plena expansão às saudades da pátria, com aquelas cantigas melancólicas em que a sua
alma de desterrado voava das zonas abrasadas da América para as aldeias tristes da sua infância.
E o canto daquela guitarra estrangeira era um
lamento choroso e dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes do que uma oração em alto-mar, quando a tempestade
agita as negras asas homicidas, e as gaivotas doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos pressagos, tontas
como se estivessem fechadas dentro de uma abóbada de chumbo.
VI
Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia
de abril. Muita luz e pouco calor.
As tinas estavam abandonadas; os coradouros
despidos. Tabuleiros e tabuleiros de roupa engomada saiam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das
próprias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das
saias de chita de cor. Desprezavam-se os grandes chapéus de palha e os aventais de aniagem; agora as portuguesas
tinham na cabeça um lenço novo de ramagens vistosas e as brasileiras
haviam penteado o cabelo e pregado nos
cachos negros um ramalhete de dois vinténs; aquelas trancavam no ombro xales de
lã vermelha, e estas de crochê, de um
amarelo desbotado. Viam-se homens de corpo nu, jogando a placa, com grande
algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma árvore, conversava
ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres
ensaboavam os filhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a
darem-lhes murros, a praguejar, e as crianças berravam, de olhos fechados, esperneando. A casa da
Machona estava num rebuliço, porque a família ia sair a passeio; a velha
gritava, gritava Nenen, gritava o
Agostinho. De muitas outras saiam cantos ou sons de instrumentos; ouviam-se
harmônicas e ouviam-se guitarras, cuja
discreta melodia era de vez em quando interrompida por um ronco forte de
trombone.
Os papagaios pareciam também mais alegres com o
domingo e lançavam das gaiolas frases inteiras, entre gargalhadas e assobios. À porta de diversos cômodos,
trabalhadores descansavam, de calça limpa e camisa de meia lavada, assentados
em cadeira, lendo e soletrando jornais
ou livros; um declamava em voz alta versos de "Os Lusíadas:, com um
empenho feroz, que o punha rouco.
Transparecia neles o prazer da roupa mudada depois de uma semana no corpo. As
casinhas fumegavam um cheiro bom de
refogados de carne fresca fervendo ao fogo. Do sobrado do Miranda só as duas
últimas janelas já estavam abertas e, pela
escada que descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de águas
servidas. Sentia-se naquela quietação
de dia inútil a falta do resfolegar aflito das máquinas da vizinhança, com que
todos estavam habituados. Para além do solitário capinzal do fundo a pedreira
parecia dormir em paz o seu sono de pedra; mas, em compensação, o movimento
era agora extraordinário à frente da
estalagem e à entrada da venda. Muitas lavadeiras tinham ido para o portão, olhar
quem passava; ao lado delas o Albino,
vestido de branco, com o seu lenço engomado ao pescoço, entretinha-se a chupar
balas de açúcar, que comprara ali mesmo
ao tabuleiro de um baleiro freguês do cortiço.
Dentro da taverna, os martelos de vinho branco, os
copos de cerveja nacional e os dois vinténs de parati ou laranjinha sucediam-se por cima do balcão, passando das
mãos do Domingos e do Manuel para as mãos ávidas dos operários e dos trabalhadores, que os recebiam com
estrondosas exclamações de pândega. A Isaura, que fora num pulo tomar o seu
primeiro capilé, via-se tonta com os
apalpões que lhe davam. Leonor não tinha um instante de sossego, saltando de um
lado para outro, com uma agilidade de mono, a fugir dos punhos calosos dos
cavouqueiros que, entre risadas, tentavam agarrá-la; e insistia na sua ameaça do costume: "que se queixava
ao juiz de orfe", mas não se ia embora, porque defronte da venda viera
estacionar um homem que tocava cinco
instrumentos ao mesmo tempo, com um acompanhamento desafinado de bombo, pratos
e guizos.
Eram apenas oito horas e já muita gente comia e
palavreava na casa de pasto ao lado da venda. João Romão, de roupa mudada como os outros, mas sempre em mangas
de camisa, aparecia de espaço em espaço, servindo os comensais; e a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem
domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panelas e enchendo
os pratos.
Um acontecimento, porém, veio revolucionar
alegremente toda aquela confederação da estalagem. Foi a chegada da Rita Baiana, que voltava depois de uma ausência
de meses, durante a qual só dera noticias suas nas ocasiões de pagar o aluguei
do cômodo.
Vinha acompanhada por um moleque, que trazia na
cabeça um enorme samburá carregado de compras feitas no mercado; um grande peixe espiava por entre folhas de
alface com o seu olhar embaciado e triste, contrastando com as risonhas cores
dos rabanetes, das cenouras e das
talhadas de abóbora vermelha.
— Põe isso tudo ai nessa porta. Ai no número 9,
pequeno! gritou ela ao moleque, indicando-lhe a sua casa, e depois pagou-lhe o carreto. — Podes ir embora,
carapeta!
Desde que do portão a bisparam na rua, levantou-se
logo um coro de saudações.
— Olha! quem ai vem!
— Olé! Bravo! É a Rita Baiana!
— Já te fazíamos morta e enterrada!
— E não é que o demo da mulata está cada vez mais
sacudida?...
— Então, coisa-ruim! por onde andaste atirando
esses quartos?
— Desta vez a coisa foi de esticar, hein?!
Rita havia parado em meio do pátio.
Cercavam-na homens, mulheres e crianças; todos
queriam novas dela. Não vinha em traje de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que lhe deixava ver o pé
sem meia num chinelo de polimento com enfeites de marroquim de diversas
cores. No seu farto cabelo, crespo e
reluzente, puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um pedaço de
baunilha espetado por um gancho. E toda
ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas
aromáticas. Irrequieta, saracoteando o
atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda,
pondo à mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua
fisionomia com um realce fascinador.
Acudiu quase todo o cortiço para recebê-la.
Choveram abraços e as chufas do bom acolhimento.
Por onde andara aquele diabo, que não aparecia para
mais de três meses?
— Ora, nem me fales, coração! Sabe? pagode de roga!
Que hei de fazer? é a minha cachaça velha!...
— Mas onde estiveste tu enterrada tanto tempo,
criatura?
— Em Jacarepaguá.
— Com quem?
— Com o Firmo...
— Oh! Ainda dura isso?
— Cala a boca! A coisa agora é séria!
— Qual! Quem mesmo? Tu? Passa fora!
— Paixões da Rita! exclamou o Bruno com uma risada.
Uma por ano! Não contando as miúdas!
— Não! isso é que não! Quando estou com um homem
não olho pra outro!
Leocádia, que era perdida pela mulata, saltara-lhe
ao pescoço ao primeiro encontro, e agora, defronte dela, com as mãos nas cadeiras, os olhos úmidos de comoção, rindo,
sem se fartar de vê-la, fazia-lhe perguntas sobre perguntas:
— Mas por que não te metes tu logo por uma vez com
o Firmo? por que não te casas com ele?
— Casar? protestou a Rita. Nessa não cai a filha de
meu pai! Casar? Livra! Para quê? para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo; pensa logo que a gente é
escrava! Nada! qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono
do que é seu!
E sacudiu todo o corpo num movimento de desdém que
lhe era peculiar.
— Olha só que peste! considerou Augusta, rindo,
muito mole, na sua honestidade preguiçosa.
Esta também achava infinita graça na Rita Baiana e
seria capaz de levar um dia inteiro a vê-la dançar o chorado.
Florinda ajudava a mãe a preparar o almoço, quando
lhe cheirou que chegara a mulata, e veio logo correndo, a rir-se desde longe, cair-lhe nos braços. A própria
Marciana, de seu natural sempre triste e metida consigo, apareceu à janela,
para saudá-la. A das Dores, com as
saias arrepanhadas no quadril e uma toalha por cima amarrada pela parte de trás
e servindo de avental, o cabelo ainda por pentear, mas entrouxado no alto da
cabeça, abandonou a limpeza que fazia em casa e veio ter com a Rita, para
dar-lhe uma palmada e gritar-lhe no nariz:
— Desta vez tomaste um fartão, hein, mulata
assanhada?...
E, ambas a caírem de riso, abraçaram-se em
intimidade de amigas, que não têm segredos de amor uma para a outra.
A Bruxa veio em silêncio apertar a mão de Rita e
retirou-se logo.
— Olha a feiticeira! bradou esta última, batendo no
ombro da idiota. Que diabo você tanto reza, tia Paula? Eu quero que você me dê
um feitiço para prender meu homem!
E tinha uma frase para cada um que se aproximasse.
Ao ver Dona Isabel, que apareceu toda cerimoniosa na sua saia da missa e com o seu velho xale de Macau, abraçou-a e
pediu-lhe uma pitada, que a senhora recusou, resmungando:
— Sai daí diabo!
— Cadê Pombinha? perguntou a mulata.
Mas, nessa ocasião, Pombinha acabava justamente de
sair de casa, muito bonita e asseada com um vestido novo de cetineta. As mãos ocupadas com o livro de rezas, o
lenço e a sombrinha.
— Ah! Como está chique! exclamou a Rita, meneando a
cabeça. É mesmo uma flor! — e logo que Pombinha se pôs ao seu alcance, abraçou-lhe a cintura e deu-lhe um
beijo. — O João Costa se não te fizer feliz como os anjos sou capaz de
abrir-lhe o casco com o salto do
chinelo! Juro pelos cabelos do meu homem! — E depois, tornando-se séria,
perguntou muito em voz baixa a Dona
Isabel: — Já veio?... ao que a velha respondeu negativamente com um
desconsolado e mudo abanar de orelhas.
O circunspecto Alexandre, sem querer declinar da
sua gravidade, pois que estava fardado e pronto para sair, contentou-se em
fazer com a mão um cumprimento à mulata, ao qual retrucou esta com uma
continência militar e uma gargalhada que o
desconcertaram.
Iam fazer comentários sobre o caso, mas a Rita,
voltando-se para o outro lado, gritou:
— Olha o velho Libório! Como está cada vez mais
duro!... Não se entrega por nada o demônio do judeu!
E correu para o lugar, onde estava, aquecendo-se ao
belo sol de abril, um octogenário, seco, que parecia mumificado pela idade, a fumar num resto de cachimbo, cujo
pipo desaparecia na sua boca já sem lábios.
— Êh! êh! fez ele, quando a mulata se aproximou.
— Então? perguntou Rita, abaixando-se para
tocar-lhe no ombro. Quando é o nosso negócio?... Mas você há de deixar-me primeiro abrir o bauzinho de folha!...
Libório riu-se com as gengivas, tentando apalpar as
coxas da Baiana, por caçoada, afetando luxúria.
Todos acharam graça nesta pantomimice do velhinho,
e então, a mulata, para completar a brincadeira, deu uma volta entufando as saias e sacudiu-as depois sobre
a cabeça dele, que se fingiu indignado, a fungar exageradamente.
E entre a alegria levantada pela sua reaparição no
cortiço, a Rita deu conta de que pintara na sua ausência; disse o muito
que festou em Jacarepaguá; o entrudo
que fizera pelo carnaval. Três meses de folia! E, afinal abaixando a voz,
segredou às companheiras que à noite
teriam um pagodinho de violão. Podiam contar como certo!
Esta última noticia causou verdadeiro júbilo no
auditório. As patuscadas da Rita Baiana eram sempre as melhores da estalagem. Ninguém como o diabo da mulata
para armar uma função que ia pelas tantas da madrugada, sem saber a gente como foi que a noite se passou tão depressa.
Além de que "era aquela franqueza! enquanto houvesse dinheiro ou
crédito, ninguém morria com a tripa
marcha ou com a goela seca!"
— Diz-me cá, ó Leocadinha! quem são aqueles jururus
que estão agora no 35? indagou ela, vendo o Jerônimo à porta da casa com a
mulher.
— Ah! explicou a interrogada, é o Jeromo e mais a
Piedade, um casal que inda não conheces. Entrou ao depois que arribaste. Boa gente, coitados!
Rita carregou para dentro do seu cômodo as
provisões que trouxera; abriu logo a janela e pôs-se a cantar. Sua
presença enchia de alegria a estalagem
toda.
O Firmo, o mulato com quem ela agora vivia metida,
o demônio que a desencabeçara para aquela maluqueira, de Jacarepaguá, ia lá jantar esse dia com um
amigo. Rita declarava isto às companheiras, amolando uma faquinha no tijolo da
sua porta, para escamar o peixe;
enquanto os gatos, aqueles mesmos que perseguiam o sardinheiro, vinham, um a
um, chegando-se todos só com o ruído da
afiação do ferro.
Ao lado direito da casinha da mulata, no número 8,
a das Dores preparava-se também para receber nesse dia o seu amigo e dispunha-se a fazer uma limpeza geral nas
paredes, nos tetos, no chão e nos móveis, antes de meter-se na cozinha.
Descalça, com a saia levantada até ao
joelho, uma toalha na cabeça, os braços arregaçados, viam-na passar de carreira,
de casa para a bica e da bica outra vez
para casa, carregando pesados baldes cheios de água. E daí a pouco apareciam
ajudantes gratuitos para os arranjos do
jantar, tanto do lado da das Dores, como do lado da Rita Baiana. O Albino
encarregou-se de varrer e arrumar a
casa desta, entretanto que a mulata ia para o fogão preparar os seus quitutes
do Norte. E veio a Florinda, e veio a
Leocádia, e veio a Augusta, impacientes todas elas pelo pagode que havia
de sair à noite, depois do jantar. Pombinha não apareceu durante o dia, porque estava muito ocupada, aviando a
correspondência dos trabalhadores e das lavadeiras: serviço este que ela deixava para os domingos.
Numa pequena mesa, coberta por um pedaço de chita,
com o tinteiro ao lado da caixinha de papel, a menina escrevia, enquanto o dono ou dona da carta ditava em
voz alta o que queria mandar dizer à família. ou a algum mau devedor de
roupa lavada. E ia lançando tudo no
papel, apenas com algumas ligeiras modificações, para melhor, no modo de
exprimir a idéia. Pronta uma carta,
sobrescritava-a, entregava-a ao dono e chamava por outro, ficando a sós com um
de cada vez, pois que nenhum deles
queria dar o seu recado em presença de mais ninguém senão de Pombinha. De sorte
que a pobre rapariga ia acumulando no
seu coração de donzela toda a súmula daquelas paixões e daqueles
ressentimentos, às vezes mais fétidos do
que a evaporação de um lameiro em dias de grande calor.
— Escreva lá, Nhã Pombinha! disse junto dela um
cavouqueiro, coçando a cabeça; mas faça letra grande, que é pra mulher entender! Diga-lhe que não mando desta feita
o dinheiro que me pediu, porque agora não o tenho e estou muito acossado
de apertos; mas que lho prometo pro
mês. Ela que se vá arranjando por lá, que eu cá sabe Deus como me coço; e que,
se o Luís, o irmão, resolver de vir, que mo mande dizer com tempo, para ver se
se lhe dá furo à vida por aqui; que isto de vir sem inda ter p’ronde, é fraco negócio, porque as
coisas por cá não correm lá para que digamos!
E depois que a Pombinha escreveu, acrescentou:
— Que eu tenho sentido muito a sua falta dela; mas
também sou o mesmo e não me meto em porcarias e relaxamento; e que tenciono mandar buscá-la, logo que Deus me
ajude, e a Virgem! Que ela não tem de que se arreliar por mor do dinheiro não
ir desta; que, como lá diz o outro: quando não há el-rei o perde! Ah! (ia
esquecendo!) quanto à Libânia, é tirar daí o juízo! que a Libânia se atirou aos
cães e faz hoje má vida na Rua de São Jorge; que se esqueça dela por vez e
perca o amor às duas coroas que lhe
emprestou!
E a menina escrevia tudo, tudo, apenas
interrompendo o seu trabalho para fitar, com a mão no queixo, o cavouqueiro,
à espera de nova frase.
VII
E assim ia correndo o domingo no cortiço até às
três da tarde, horas em que chegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo Porfiro, trazendo aquele o violão e o
outro o cavaquinho.
Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato
pachola, delgado de corpo e ágil como um cabrito; capadócio de marca, pernóstico, só de maçadas, e todo ele se
quebrando nos seus movimentos de capoeira. Teria seus trinta e tantos anos,
mas não parecia ter mais de vinte e
poucos. Pernas e braços finos, pescoço estreito, porém forte; não tinha
músculos, tinha nervos. A respeito de
barba, nada mais que um bigodinho crespo, petulante, onde reluzia cheirosa a
brilhantina do barbeiro; grande
cabeleira encaracolada, negra, e bem negra, dividida ao meio da cabeça,
escondendo parte da testa e estufando em grande gaforina por debaixo da aba do chapéu de palha, que ele punha de
banda, derreado sobre a orelha esquerda.
Vestia, como de costume, um paletó de lustrina
preta já bastante usado, calças apertadas nos joelhos, mas tão largas na bainha
que lhe engoliam os pezinhos secos e ligeiros. Não trazia gravata, nem colete,
sim uma camisa de chita nova e ao pescoço,
resguardando o colarinho, um lenço alvo e perfumado; à boca um enorme
charuto de dois vinténs e na mão um grosso porrete de Petrópolis, que nunca sossegava, tantas voltas lhe dava ele a
um tempo por entre os dedos magros e nervosos.
Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio;
ganhava uma semana para gastar num dia; às vezes, porém, os dados ou a
roleta multiplicavam-lhe o dinheiro, e
então ele fazia como naqueles últimos três meses: afogava-se numa boa pândega
com a Rita Baiana. A Rita ou outra.
"O que não faltava por aí eram saias para ajudar um homem a cuspir o cobre
na boca do diabo!" Nascera no Rio
de Janeiro, na Corte; militara dos doze aos vinte anos em diversas maltas de
capoeiras; chegara a decidir eleições nos
tempos do voto indireto. Deixou nome em várias freguesias e mereceu abraços,
presentes e palavras de gratidão de
alguns importantes chefes de partido. Chamava a isso a sua época de paixão
política; mas depois desgostou-se com o
sistema de governo e renunciou às lutas eleitorais, pois não conseguira
nunca o lugar de continuo numa repartição pública — o seu ideal! —Setenta mil-réis mensais: trabalho das nove às três.
Aquela amigação com a Rita Baiana era uma coisa
muito complicada e vinha de longe; vinha do tempo em que ela ainda estava
chegadinha de fresco da Bahia, em companhia da mãe, uma cafuza dura, capaz de
arrancar as tripas ao Manduca da Praia. A
cafuza morreu e o Firmo tomou conta da mulata; mas pouco depois se
separaram por ciúmes, o que aliás não impediu que se tornassem a unir mais tarde, e que de novo brigassem e de novo se
procurassem. Ele tinha "paixa" pela Rita, e ela, apesar de volúvel como toda a mestiça, não podia
esquecê-lo por uma vez; metia-se com outros, é certo, de quando em quando, e
o Firmo então pintava o caneco, dava
por paus e por pedras, enchia-a de bofetadas, mas, afinal, ia procurá-la, ou
ela a ele, e ferravam-se de novo, cada
vez mais ardentes, como se aquelas turras constantes reforçassem o combustível
dos seus amores.
O amigo que Firmo trazia aquele domingo em sua
companhia, o Porfiro, era mais velho do que ele e mais escuro. Tinha o cabelo encarapinhado. Tipógrafo. Afinavam-se
muito os dois tipos com as suas calças de boca larga e com os seus chapéus ao lado; mas o Porfiro tinha outra linha:
não dispensava a sua gravata de cor saltando em laço frouxo sobre o peito da
camisa; fazia questão da sua bengalinha
com cabeça de prata e da sua piteira de âmbar e espuma, em que ele equilibrava
um cigarro de palha.
Desde a entrada dos dois, a casa de Rita esquentou.
Ambos tiraram os paletós e mandaram vir parati, "a abrideira para muqueca baiana". E não tardou que se
ouvissem gemer o cavaquinho e o violão.
Ao lado chegava também o homem da das Dores, com um
companheiro do comércio; vinham vestidos de fraque e chapéu alto. A Machona, Nenen e o Agostinho, já de
volta do seu passeio à cidade, lá estavam ajudando. Ficariam para o rega-bofe.
Um rumor quente, de dia de festa, ia-se formando
naquele ponto da estalagem.
Tanto numa casa, como na outra, o jantar seria às
cinco horas. Rita "botou" vestido branco, de cambraia, encanudado a
ferro. Leocádia, Augusta, o Bruno, o
Alexandre e o Albino jantariam com ela no número 9; e no número 8, com a das
Dores, ficariam, além dos parentes
desta, Dona Isabel, Pombinha, Marciana e Florinda.
Jerônimo e sua mulher foram convidados para ambas
as mesas, mas não aceitaram o convite para nenhuma, dispostos a passar a tarde
ao lado um do outro, tranqüilamente como sempre, comendo em boa paz o seu
cozido à moda da terra e bebendo o seu
quartilho de verde pela mesma infusa.
Entretanto, os dois jantares vizinhos principiaram
ruidosos logo desde a sopa e assanharam-se progressivamente.
Meia hora depois vinha das duas casas uma algazarra
infernal. Falavam e riam todos ao mesmo tempo; tilintavam os talheres e os copos. Cá de fora sentia-se perfeitamente
o prazer que aquela gente punha em comer e beber à farta, com a boca cheia, os
beiços envernizados de molho gordo. Alguns cães rosnavam à porta, roendo os
ossos que traziam lá de dentro. De vez em
quando, da janela de uma das casas aparecia uma das moradoras, chamando
a vizinha, para entregar um prato cheio,
permutando as duas entre si os quitutes e as petisqueiras em que eram
mais peritas.
— Olha! gritava a das Dores para o número 9, diz à
Rita que prove deste zorô, pra ver que tal o acha, e que o vatapá estava muito gostoso! Se ela tem pimentas, que me
mande algumas!
Do meio para o fim do jantar o baralho em ambas as
casas era medonho. No número 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O português amigo da das Dores,
já desengravatado e com os braços à mostra, vermelho, lustroso de suor, intumescido de vinho virgem e leitão de
forno, repotreava-se na sua cadeira, a rir forte, sem calar a boca, com a
camisa a espipar-lhe pela braguilha
aberta. O sujeito que a acompanhara fazia fosquinhas a Nenen, protegido no seu
namoro por toda a roda, desde a
respeitável Machona até ao endemoninhado Agostinho, que não ficava quieto um
instante, nem deixava sossegar a mãe, gritando um contra o outro como dois
possessos. Florinda, sempre muito risonha e esperta, divertia-se a valer e, de
vez em quando, levantava-se da mesa, para ir de carreira levar lá fora ao
número 12 um prato de comida à sua velha que, à última hora, vindo-lhe o aborrecimento, resolvera
não ir ao jantar. À sobremesa o esfogueado amigo da dona da casa exigiu que
a amante se lhe assentasse nas coxas e
dava-lhe beijos em presença de toda a companhia, o que fez com que Dona
Isabel, impaciente por afastar a filha
daquele inferno, declarasse que sentia muito calor e que ia lá para a porta
esperar mais à fresca o café.
Em casa de Rita Baiana a animação era inda maior.
Firmo e Porfiro faziam o diabo, cantando, tocando bestialógicos, arremedando a fala dos pretos cassanges.
Aquele não largava a cintura da mulata e só bebia no mesmo copo com ela; o
outro divertia-se a perseguir o Albino,
galanteando-o afetadamente, para fazer rir à sociedade. O lavadeiro
indignava-se, dava o cavaco".
Leocádia, a quem o vinho produzira delírios hilaridade, torcia-se em
gargalhadas, tão fortes e sacudidas que
desconjuntavam a cadeira em que ela estava; e, muito lubrificada pela
bebedeira, punha os pesados pés sobre os de Porfiro, roçando as pernas contra as dele e deixando-se apalpar pelo
capadócio. O Bruno, defronte dela, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, falava e
gesticulava sem se levantar, praguejando ninguém sabia contra quem. O
Alexandre, à paisana, assentado ao lado
da mulher, conservava quase toda a sua seriedade e pedia que não fizessem tanto
barulho porque podiam ouvir da rua. E
notou, em voz misteriosa, que o Miranda tinha vindo já espiar por várias vezes
da janela do sobrado.
— Que espie as vezes que quiser! bradou a Rita. Pois
então a gente não é senhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os
amigos que entender?!... Que vá pro diabo que o lixe! Eu não como nem bebo do
que é dele!
Os dois mulatos e o Bruno também eram da mesma
opinião. "Pois então! Desde que se não ofendia, nem prejudicava a safardana nenhum com aquele divertimento,
não havia de que falar!"
— E que não entiquem muito, ameaçou o Firmo, que
comigo é nove! E o trunfo é paus!
O Porfiro exclamou:
— Se se incomodam com a gente... os incomodados são
os que se mudam! Ora pistolas!
— O domingo fez-se pra gozar!... resmungou o Bruno,
deixando cair a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa.
Mas ergueu-se logo, cambaleando, e acrescentou,
despindo o braço direito até o ombro:
— Eles que se façam finos, que os racho!
O Alexandre procurou acalmá-lo, dando-lhe um
charuto.
Em uma outra casinha do cortiço acabava de estalar
uma nova sobremesa, engrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de italianos mascates, onde o
Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andréa representavam as principais figuras.
Todos eles cantavam em coro, mais
afinados que nas outras duas casas; quase, porém, que se lhes não podia ouvir
as vozes, tantas e tão estrondosas eram
as pragas que soltavam ao mesmo tempo. De quando em quando, de entre o grosso e
macho vozear dos homens, esguichava um
falsete feminino, tão estridente que provocava réplica aos papagaios e aos
perus da vizinhança. E, daqui e dali,
iam rebentando novas algazarras em grupos formados cá e lá pela estalagem.
Havia nos operários e nos trabalhadores
decidida disposição para pandegar, para aproveitar bem, até ao fim, aquele dia
de folga. A casa de pasto fermentava
revolucionada, como um estômago de bêbedo depois de grande bródio, e arrotava
sobre o pátio uma baforada quente e
ruidosa que entontecia.
O Miranda apareceu furioso à janela, com o seu tipo
de comendador, a barriga empinada para a frente, de paletó branco, um guardanapo ao pescoço e um trinchante
empunhado na destra, como uma espada.
— Vão gritar pra o inferno, com um milhão de raios!
berrou ele, ameaçando para baixo. Isto também já é demais! Se não se calam, vou daqui direito chamar a policia!
Súcia de brutos!
Com os berros do Miranda muita gente chegou à porta
de casa, e o coro de gargalhadas, que ninguém podia conter naquele momento de alegria, ainda mais o pôs fora de
si.
— Ah, canalhas! O que eu devia fazer era
atirar-lhes daqui, como a cães danados!
Uma vaia uníssona ecoou em todo o pátio da
estalagem, enquanto em volta do negociante surgiam várias pessoas,
puxando-o para dentro de casa.
— Que é isso, Miranda! Então! Estás agora a dar
palha?...
— O que eles querem é que encordoes!...
— Saia daí papai!
— Olhe alguma pedrada, esta gente é capaz de tudo!
E via-se de relance Dona Estela, com a sua palidez
de flor meia fanada, e Zulmira, lívida, um ar de fastio a fazê-la feia, e
o Henriquinho, cada vez mais bonito, e
o velho Botelho, indiferente, a olhar para toda esta porcaria do mundo com o
profundo desprezo dos que já não
esperam nada dos outros, nem de si próprios.
— Canalhas! repisava o Miranda.
O Alexandre, que fora de carreira enfiar a sua
farda, apresentou-se então e disse ao negociante que não era prudente
atirar insultos cá pra baixo. Ninguém o
tinha provocado! Se os moradores da estalagem jantavam em companhia de amigos,
lá em cima o Miranda também estava
comendo com os seus convidados! Era mau insultar, porque palavra puxa palavra,
e, em caso de ter de depor na policia,
ele, Alexandre, deporia a favor de quem tivesse razão!...
— Fomente-se! respondeu o negociante, voltando-lhe
as costas.
— Já se viu chubregas mais atrevido?! exclamou
Firmo, que até ai estivera calado, à porta da Rita, com as mãos nas
cadeiras, a fitar provocadoramente o
Miranda.
E gritando mais alto, para ser bem ouvido:
— Facilita muito, meu boi manso, que te escorvo os
galhos na primeira ocasião!
O Miranda foi arrancado com violência da janela, e
esta fechada logo em seguida com estrondo.
— Deixa lá esse labrego! resmungou Porfiro, tomando
o amigo pelo braço e fazendo-o recolher-se à casa da mulata. Vamos ao café, é o que é, antes que esfrie!
Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se
diversos moradores do cortiço, jornaleiros de baixo salário, pobre gente miserável, que mal podia matar a fome com o
que ganhava. Ainda assim não havia entre eles um só triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber
um trago. A proposta foi aceita alegremente.
E a casa dela nunca se esvaziava.
Anoitecia já.
O velho Libório, que jamais ninguém sabia ao certo
onde almoçava ou jantava, surgiu do seu buraco, que nem jabuti quando vê chuva.
Um tipão, o velho Libório! Ocupava o pior canto do
cortiço e andava sempre a fariscar os sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo a um e a outro, como um
mendigo, chorando misérias eternamente, apanhando pontas de cigarro para fumar no cachimbo, cachimbo que o sumítico
roubara de um pobre cego decrépito. Na estalagem diziam todavia que Libório tinha dinheiro aferrolhado, contra o que ele
protestava ressentido, jurando a sua extrema penaria. E era tão feroz o
demônio naquela fome de cão sem dono,
que as mães recomendavam às suas crianças todo o cuidado com ele, porque o
diabo do velho, quando via algum
pequeno desacompanhado, punha-se logo a rondá-lo, a cercá-lo de festas e a
fazer-lhe ratices para o engabelar, até conseguir furtar-lhe o doce ou o
vintenzinho que o pobrezito trazia fechado na mão.
Rita fê-lo entrar e deu-lhe de comer e de beber;
mas sob condição de que o esfomeado não se socasse demais, para não rebentar ali mesmo.
Se queria estourar, fosse estourar para longe!
Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando
inquieto para os lados, como se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar, empurrando os
bocados com os dedos, agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez meter para
dentro do corpo.
Causava terror aquela sua implacável mandíbula,
assanhada e devoradora; aquele enorme queixo, ávido, ossudo e sem um dente, que parecia ir engolir tudo, tudo,
principiando pela própria cara, desde a imensa batata vermelha que ameaçava
já entrar-lhe na boca, até as duas
bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira, inclusive a
sua grande calva, lisa como um queijo e
guarnecida em redor por uns pêlos puídos e ralos como farripas de coco.
Firmo propôs embebedá-lo, só para ver a sorte que
ele daria. O Alexandre e a mulher opuseram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar de rir, apesar do espanto,
vendo aquele resto de gente, aquele esqueleto velho, coberto por uma pele seca,
a devorar, a devorar sem tréguas, como
se quisesse fazer provisão para uma outra vida.
De repente, um pedaço de carne, grande demais para
ser ingerido de uma vez, engasgou-o seriamente. Libório começou a tossir, aflito, com os olhos sumidos, a cara
tingida de uma vermelhidão apoplética. A Leocádia, que era quem lhe ficava
mais perto, soltou-lhe um murro nas
costas.
O glutão arremessou sobre a toalha da mesa o bocado
de carne já meio triturado.
Foi um nojo geral.
— Porco! gritou Rita, arredando-se.
— Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo!
disse Porfiro. Parece que nunca viu comida, este animal!
E notando que ele continuava ainda mais sôfrego por
ter perdido um instante:
— Espere um pouco, lobo! Que diabo! A comida não
foge! Há muito ai com que te fartares por uma vez! Com efeito!
— Beba água, tio Libório! aconselhou Augusta.
E, boa, foi buscar um copo de água e levou-lho a
boca.
O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato.
Arre diabo! resmungou Porfiro, cuspindo para o
lado. Este é mesmo capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas!
Albino, esse, coitado! é que não comia quase nada e
o pouco que conseguia meter no estômago fazia-lhe mal. Rita, para bolir com ele, disse que semelhante fastio era
gravidez com certeza.
— Você já começa, hein?... balbuciou o pobre moço,
esgueirando-se com a sua xícara de café.
— Olha, cuidado! gritou-lhe a mulata. Pouco café,
que faz mal ao leite, e a criança pode sair trigueira!
O Albino voltou para dizer muito sério à Rita que
não gostava dessas brincadeiras.
Alexandre, que havia acendido um charuto, depois de
oferecer outros, galantemente, aos companheiros, arriscou, para também fazer a sua pilhéria, que o sonso do
Albino fora pilhado às voltas com a Bruxa no capinzal dos fundos da
estalagem, debaixo das mangueiras.
Só a Leocádia achou graça nisto e riu a bandeiras
despregadas. Albino declarou, quase chorando, que ele não mexia com pessoa alguma, e que ninguém, por
conseguinte, devia mexer com ele.
— Mas afinal, perguntou Porfiro, é mesmo exato que
este pamonha não conhece mulher?...
— Ele é quem pode responder! acudiu a mulata. E
esta história vai ficar hoje liquidada! Vamos lá, ó Albino! confessa-nos tudo, ou mal te terás de haver com a gente!
— Se eu soubesse que era para isto que me chamaram
não tinha vindo cá, sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu não sirvo de palito!
E ter-se-ia retirado chorando, se a Rita não lhe
cortasse a saída, dizendo, como se falasse a uma criatura do seu sexo,
mais fraca do que ela:
— Ora não sejas tolo! Deixa-te ficar ai! Se deres o
cavaco é pior!
Albino limpou as lágrimas e foi sentar-se de novo.
Entretanto, a noite fechava-se, refrescando a tarde
com o sudoeste. Bruno roncava no lugar em que tinha jantado. A Leocádia passara livremente a perna para cima da de
Porfiro, que a abraçava, bebendo parati aos cálices.
Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem lá para
fora; e todos, menos o Bruno, dispuseram-se a deixar a sala, enquanto o velho Libório! pedia a Alexandre um cigarro
para despejar no cachimbo. Servido, o filante desapareceu logo, correndo
ao faro de outros jantares. Rita,
Augusta e Albino ficaram lavando a louça e arrumando a casa.
Lá fora o coro dos italianos se prolongava numa
cadência monótona e arrastada, em que havia muito peso de embriaguez. Junto à porta de várias casas faziam-se
grupos de pessoas assentadas em cadeiras ou no chão; mas a roda da Rita Baiana
era a maior, porque fora engrossada
pelos convivas da das Dores. O fumo dos cachimbos e dos charutos elevava-se de
toda a parte. Decrescera o ruído geral;
fazia-se a digestão; já ninguém discutia e todos conversavam.
Acendeu-se o lampião do pátio. Iluminaram-se
diversas janelas das casinhas.
Agora, no sobrado do Miranda é que era o maior
barulho. Saia de lá uma terrível gritaria de hipes e hurras, virgulada
pelo desarrolhar de garrafas de
champanha.
— Como eles atacam!... observou Alexandre, já de
novo sem farda.
— E, no entanto, reprovam que a gente coma o que é
seu com um pouco mais de alegria! comentou a Rita. Uma súcia!
Falou-se então largamente a respeito da família do
Miranda, principalmente de Dona Estela e do Henrique. A Leocádia afiançou que, numa ocasião, espiando por
cima do muro, trepada num montão de garrafas vazias que havia no pátio do cortiço, vira a sirigaita com a cara
agarrada à do estudante, aos beijos e aos abraços, que era obra; e assim que os
dois deram fé que ela os espreitava, deitaram a fugir que nem cães apedrejados.
A Augusta Carne-Mole benzeu-se, com uma invocação à
Virgem Santíssima, e o companheiro do amigo da das Dores, que insistia no seu namoro com a Nenen,
mostrou-se muito admirado com a noticia, "supunha Dona Estela um modelo de seriedade".
— Qual! negou Alexandre. Isso por ai é tudo uma
pouca-vergonha, que faz descrer um homem de si mesmo! Eu também já vi de uma feita bem boas coisas pela sombra
dela na parede; mas não era com o estudante, era com um sujeito que lá ia às vezes, um barbado, careca e comido de
bexigas. E a pequena vai pelo mesmo conseguinte...
Esta novidade produziu grande surpresa no grupo
inteiro. Quiseram os pormenores e o Alexandre não se fez de rogado: o namoro da Zulmira era com um rapazola magro,
de lunetas, bigode louro, bem vestido, que lhe rondava a casa à noite e às vezes de madrugada. Parecia estudante!
— O que eles têm feito? inquiriu a das Dores.
— Por enquanto a coisa não passa de namorico da
janela para a rua. Conversam sempre naquela última do lado de lá de fora. Já os tenho apreciado quando estou de
serviço. Ele fala muito em casamento e a pequena o quer; mas, pelo jeito, o
velho é que lhe corta as asas.
— Ele não tem entrada na casa?
— Não! Pois isso é que eu acho feio...! Se ele quer
casar com a menina, devia entender-se com a família e não estar agora daqui debaixo a fazer-lhe fosquinhas!
— Sim, intrometeu-se o Firmo; mas não vê que aquele
mesmo, o Miranda, vai dar a filha a um estudante! Guarda-a para um dos seus... Quem sabe até se o bruto não tem
já de olho por ai algum cafezista pé-de-boi!... Eu sei o que é essa gente!
— Por isso é que se vê tanta porcaria por esse
mundo de Cristo! disse a Augusta. Filha minha só se casará com quem ela bem
quiser; que isto de casamentos empurrados à força acabam sempre desgraçando
tanto a mulher como o homem! Meu marido
é pobre e é de cor, mas eu sou feliz, porque casei por meu gosto!
— Ora! Mais vale um gosto que quatro vinténs!
Nisto começou a gemer à porta do 35 uma guitarra;
era de Jerônimo. Depois da ruidosa alegria e do bom humor, em que palpitara àquela tarde toda a república do
cortiço, ela parecia ainda mais triste e mais saudosa do que nunca:
"Minha vida tem desgostos,
Que só eu sei compreender...
Quando me lembro da terra
Parece que vou morrer..."
E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram
acordando. E, por fim, a monótona cantiga dos portugueses enchia de uma alma desconsolada o vasto arraial da
estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade que vinha lá de cima,
do sobrado do Miranda.
"Terra minha, que te adoro,
Quando é que eu te torno a ver?
Leva-me deste desterro;
Basta já de padecer."
Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos
desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o
cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam
vibrantemente com um chorado baiano.
Nada mais que os primeiros acordes da música crioula para que o sangue de toda
aquela gente despertasse logo, como se
alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e
outras, cada vez mais ardentes e mais
delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e
suspiros soltos em torrente, a correrem
serpenteando, como cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos,
chorados em frenesi de amor; música
feita de beijos e soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo
estalar de gozo.
E aquela música de fogo doidejava no ar como um
aroma quente de plantas brasileiras, em torno das quais se nutrem, girando,
moscardos sensuais e besouros venenosos, freneticamente, bêbedos do delicioso
perfume que os mata de volúpia.
E à viva crepitação da música baiana calaram-se as
melancólicas toadas dos de além-mar. Assim à refulgente luz do trópicos amortece a fresca e doce claridade dos céus
da Europa, como se o próprio sol americano, vermelho e esbraseado, viesse,
na sua luxúria de sultão, beber a
lágrima medrosa da decaída rainha dos mares velhos.
Jerônimo alheou-se de sua guitarra e ficou com as
mãos esquecidas sobre as cordas, todo atento para aquela música estranha, que vinha dentro dele continuar uma
revolução começada desde a primeira vez em que lhe bateu em cheio no rosto,
como uma bofetada de desafio, a luz deste sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou
no ouvido o estribilho da primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o suco da primeira fruta provada nestas
terras de brasa, e lhe entonteceu a alma o aroma do primeiro bogari, e lhe transtornou o sangue o cheiro
animal da primeira mulher, da primeira mestiça, que junto dele sacudiu as saias
e os cabelos.
— Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a
companheira, estranhando-o.
— Espera, respondeu ele, em voz baixa: deixa ouvir!
Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por
um acompanhamento de palmas.
Jerônimo levantou-se, quase que maquinalmente, e
seguido por Piedade, aproximou-se da grande roda que se formara em torno dos dois mulatos. Ai, de queixo
grudado às costas das mãos contra uma cerca de jardim, permaneceu, sem tugir
nem mugir, entregue de corpo e alma
àquela cantiga sedutora e voluptuosa que o enleava e tolhia, como à robusta
gameleira brava o cipó flexível,
carinhoso e traiçoeiro.
E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por
uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de
prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios
de uma graça irresistível, simples,
primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito
de mulher.
Ela saltou em meio da roda, com os braços na
cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a
esquerda, ora para a direita, como numa
sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já
correndo de barriga empinada; já
recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando num
prazer grosso que nem azeite, em que se
não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava
um gemido prolongado, estalando os
dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os
quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e
abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto
a carne lhe fervia toda, fibra por
fibra, tirilando.
Em torno o entusiasmo tocava ao delírio; um grito
de aplausos explodia de vez em quando, rubro e quente como deve ser um grito saído do sangue. E as palmas
insistiam, cadentes, certas, num ritmo nervoso, numa persistência de loucura.
E, arrastado por ela, pulou à arena o
Firmo, ágil, de borracha, a fazer coisas fantásticas com as pernas, a
derreter-se todo, a sumir-se no chão, a
ressurgir inteiro com um pulo, os pés no espaço, batendo os calcanhares, os
braços a querer fugirem-lhe dos ombros,
a cabeça a querer saltar-lhe. E depois, surgiu também a Florinda, e logo
o Albino e até, quem diria! o grave e circunspecto Alexandre.
O chorado arrastava-os a todos, despoticamente,
desesperando aos que não sabiam dançar. Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico
segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que
não podiam ser sem o cheiro que a
mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante,
meiga e suplicante.
E Jerônimo via e escutava, sentindo ir-se-lhe toda
a alma pelos olhos enamorados.
Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese
das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das
sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o
atordoara nas matas brasileiras; era a
palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o
veneno e era o açúcar gostoso; era o
sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu
azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a
muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as
fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para
lhe cuspir dentro do sangue uma
centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de
prazer, uma larva daquela nuvem de
cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa
fosforescência afrodisíaca.
Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto
não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de
uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice
de flores americanas, dessas muito
alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente
sobre os limosos pântanos sombrios,
onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade.
E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas
dançaram, mas o português só via a mulata, mesmo quando, prostrada, fora
cair nos braços do amigo. Piedade, a
cabecear de sono, chamara-o várias vezes para se recolherem; ele respondeu com
um resmungo e não deu pela retirada da
mulher.
Passaram-se horas, e ele também não deu pelas horas
que fugiram.
O circulo do pagode aumentou: vieram de lá defronte
a Isaura e a Leonor, o João Romão e a Bertoleza, desembaraçados da sua faina, quiseram dar fé da patuscada um
instante antes de caírem na cama; a família do Miranda pusera-se à janela, divertindo-se com a gentalha da estalagem;
reunira povo lá fora na rua; mas Jerônimo nada vira de tudo isso; nada vira
senão uma coisa, que lhe persistia no
espírito: a mulata ofegante a resvalar voluptuosamente nos braços do Firmo.
Só deu por si, quando, já pela madrugada, se
calaram de todo os instrumentos e cada um dos folgadores se recolheu à casa.
E viu a Rita levada para o quarto pelo seu homem,
que a arrastava pela cintura.
Jerônimo ficou sozinho no meio da estalagem. A lua,
agora inteiramente livre das nuvens que a perseguiam, lá ia caminhando em silêncio na sua viagem misteriosa. As
janelas do Miranda fecharam-se. A pedreira, ao longe, por detrás da última
parede do cortiço, erguia-se como um
monstro iluminado na sua paz. Uma quietação densa pairava já sobre tudo; só se
distinguiam o bruxulear dos pirilampos
na sombra das hortas e dos jardins, e os murmúrios das árvores que sonhavam.
Mas Jerônimo nada mais sentia, nem ouvia, do que
aquela música embalsamada de baunilha, que lhe entontecera a alma; e compreendeu perfeitamente que dentro dele
aqueles cabelos crespos, brilhantes e cheirosos, da mulata, principiavam a
formar um ninho de cobras negras e
venenosas, que lhe iam devorar o coração.
E, erguendo a cabeça, notou no mesmo céu, que ele
nunca vira senão depois de sete horas de sono, que era já quase ocasião de entrar para o seu serviço, e resolveu não
dormir, porque valia a pena esperar de pé.
VIII
No dia seguinte, Jerônimo largou o trabalho à hora
de almoçar e, em vez de comer lá mesmo na pedreira com os companheiros, foi para casa. Mal tocou no
que a mulher lhe apresentou à mesa e meteu-se logo depois na cama, ordenando-lhe que fosse ter com João Romão e
lhe dissesse que ele estava incomodado e ficava de descanso aquele dia.
— Que tens tu, Jeromo?...
— Morrinhento, filha... Vai, anda!
— Mas sentes-te mal?
— Ó mulher! vai fazer o que te disse e ao depois
então darás à língua!
— Valha-me a Virgem! Não sei se haverá chá preto na
venda!
E ela saiu, aflita. Qualquer novidade no marido,
por menor que fosse, punha-a doida. "Pois um homem rijo, que nunca
caia doente? Seria a febre amarela?...
Jesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar nisso era bom! Credo!"
A notícia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras.
— Foi da friagem da noite, afirmou a Bruxa, e deu
um pulo à casa do trabalhador para receitar.
O doente repeliu-a, pedindo-lhe que o deixasse em
paz; que ele do que precisava era de dormir. Mas não o conseguiu: atrás da Bruxa correu a segunda mulher, e a
terceira, e a quarta; e, afinal, fez-se durante muito tempo em sua casa um
entrar e sair de saias. Jerônimo perdeu
a paciência e ia protestar brutalmente contra semelhante invasão, quando, pelo
cheiro, sentiu que a Rita se aproximava
também.
— Ah!
E desfranziu-se-lhe o rosto.
— Bons dias! Então que é isso, vizinho? Você caiu
doente com a minha chegada? Se tal soubera não vinha!
Ele riu-se. E era a primeira vez que ria desde a
véspera
A mulata aproximou-se da cama.
Como principiara a trabalhar esse dia, tinha as
saias apanhadas na cintura e os braços completamente nus e frios da
lavagem. O seu casaquinho branco
abria-lhe no pescoço, mostrando parte do peito cor de canela.
Jerônimo apertou-lhe a mão.
— Gostei de vê-la ontem dançar, disse, muito mais
animado.
— Já tomou algum remédio?...
— A mulher falou ai em chá preto...
— Chá! Que asneira! Chá é água morna! Isso que você
tem é uma resfriagem. Vou-lhe fazer uma xícara de café bem forte para você beber com um gole de parati, e me
dirá se sua ou não, e fica depois fino e pronto para outra! Espera ai!
E saiu logo, deixando todo quarto impregnado dela.
Jerônimo, só com respirar aquele almíscar, parecia
melhor. Quando Piedade tornou, pesada, triste, resmungando consigo mesma, ele sentiu que principiava a
enfará-lo; e, quando a infeliz se aproximou do marido, este, fora do costume,
notou-lhe o cheiro azedo do corpo.
Voltou-lhe então o mal-estar e desapareceu o último vestígio do sorriso que ele
tivera havia pouco.
— Mas que sentes tu, Jeromo?... Fala, homem! Não me
dizes nada! Assim m’assustas... Que tens, diz’-lo!
— Não cozas o chá. Vou tomar outra coisa...
— Não queres o chá? Mas é o remédio, filhinho de
Deus!
— Já te disse que tomo outra mezinha. Oh!
Piedade não insistiu.
— Queres tu um escalda-pés?...
—
Toma-lo tu!
Ela calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim tão
áspero e seco, mas receou importuná-lo. "Era naturalmente a moléstia que o
punha rezinguento."
Jerônimo fechara os olhos, para a não ver, e
ter-se-ia, se pudesse, fechado por dentro, para a não sentir. Ela, porém,
coitada! fora assentar-se à beira da
cama, humilde e solicita, a suspirar, vivendo naquele instante, para e
exclusivamente, para o seu homem,
fazendo-se muito escrava dele, sem vontade própria, acompanhando-lhe os menores
gestos com o olhar, inquieta, que nem um cão que, ao lado do dono, procura
adivinhar-lhe as intenções.
— ‘Stá bem, filha, não vais tratar do teu
serviço?...
— Não te dê isso cuidado! Não parou o trabalho!
Pedi à Leocádia que me esfregasse a roupa. Ela hoje tinha pouco que fazer e...
— Andaste mal...
— Ora! Não há três dias que fiz outro tanto por
ela... E demais, não foi que tivesse o homem doente, era a calaçaria do capinzal!
— Bom, bom, filha! não digas mal da vida alheia!
Melhor seria que estivesses à tua tina em vez de ficar ai a murmurar do próximo... Anda! vai tomar conta das tuas
obrigações.
— Mas estou-te a dizer que não há transtorno!...
— Transtorno já é estar eu parado; e o pior será
pararem os dois!
— Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!
— E eu acho que isso é tolice! Vai! anda!
Ela ia retirar-se, como um animal enxotado, quando
deu com a Rita, que entrava muito ligeira e sacudida, trazendo na mão a fumegante palangana de café com parati e no
ombro um cobertor grosso para dar um suadouro ao doente.
— Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a
mulata.
E deixou-se ficar.
Rita, despreocupadamente, alegre e benfazeja como
sempre, pousou a vasilha sobre a cômoda do oratório e abriu o cobertor.
— Isso é que o vai pôr fino! disse. Vocês também,
seus portugueses, por qualquer coisinha ficam logo pra morrer, com uma cara da última hora! E ai, ai, Jesus, meu
Deus! Ora esperte-se! Não me seja maricas!
Ele riu-se assentando-se na cama.
— Pois não é assim mesmo? perguntou ela a Piedade,
apontando para o carão barbado de Jerônimo. Olhe só pr’aquela cara e diga-me se não está a pedir que o
enterrem!
A portuguesa não dizia nada, sorria contrafeita, no
intimo, ressentida contra aquela invasão de uma estranha nos cuidados pelo seu homem. Não era a inteligência nem a
razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado
de toda a fêmea pelas outras, quando sente
o seu ninho exposto.
— Está-me a parecer que agora te achas melhor,
hein?... desembuchou afinal, procurando o olhar do marido, sem conseguir disfarçar de todo o seu descontentamento.
— Só com o cheiro! reforçou a mulata, apresentando
o café ao doente. Beba, ande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, encontrá-lo pronto, ouviu? — E
acrescentou, falando à Piedade, em tom mais baixo e pousando-lhe a mão no ombro carnudo: — Ele daqui a nada deve estar
ensopado de suor; mude-lhe toda a roupa e dê-lhe dois dedos de parati, logo que peça água. Cuidado com o vento!
E saiu expedida, agitando as saias, de onde se
evolavam eflúvios de manjerona.
Piedade chegou-se então para o cavouqueiro, que já
tinha sobre as pernas o cobertor oferecido pela Rita, e, ajudando-o a levar a tigela à boca, resmungou:
— Deus queira que isto não te vá fazer mal em vez
de bem!... Nunca tomas café, nem gostas!...
— Isto não é por gosto, filha, é remédio!
Ele com efeito nunca entrara com o café e ainda
menos com a cachaça; mas engoliu de uma assentada o conteúdo da tigela, puxando em seguida o cobertor até às ventas.
A mulher tratou de abafar-lhe bem os pés e foi
buscar um xale para lhe cobrir a cabeça.
— Trata de sossegar! Não te mexas!
E dispôs-se a ficar junto da cama, a vigiá-lo, só
andando na ponta dos pés, abafando a respiração, correndo a cada instante
à porta de casa para pedir que não
fizessem tanta bulha lá fora; toda ela desassossegada, numa aflição quase
supersticiosa por aquele incômodo de
seu homem. Mas Jerônimo não levou muito que a não chamasse para lhe mudar a
roupa. O suor inundava-o.
— Ainda bem! exclamou ela, radiante.
E, depois de fechar hermeticamente a porta do
quarto e meter um punhado de roupa suja numa fresta que havia numa das paredes, sacou-lhe fora a camisa molhada,
enfiando-lhe logo outra pela cabeça; em seguida tirou-lhe as ceroulas e
começou, munida de uma toalha, a
enxugar-lhe todo o corpo, principiando pelas costas, passando depois ao peito e
aos sovacos, descendo logo às nádegas,
ao ventre e às pernas, e esfregando sempre com tamanho vigor de pulso, que era
antes uma massagem que lhe dava; e
tanto assim que o sangue do cavouqueiro se revolucionou.
E a mulher, a rir-se, lisonjeada, ralhava:
— Tem juízo! Acomoda-te! Não vês que estás
doente?...
Ele não insistiu. Agasalhou-se de novo e pediu
água. Piedade foi buscar o parati.
— Bebe isto, não bebas a água agora.
— Isto é cachaça!
— Foi a Rita que disse para te dar...
Jerônimo não precisou de mais nada para beber de um
trago os dois dedos de restilo que havia no copo.
Sóbrio como era, e depois daquele dispêndio de
suor, o álcool produziu-lhe logo de pronto o efeito voluptuoso e agradável da
embriaguez nos que não são bêbedos: um delicioso desfalecer de todo o corpo;
alguma coisa do longo espreguiçamento que
antecede à satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar
por ela algum tempo, aproxima-se afinal de nós, numa avidez gulosa de beijos. Agora, no conforto da sua cama, na doce
penumbra do quarto, com a roupa fresca sobre a pele, Jerônimo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da pedreira
ardente e do sol cáustico; ouvindo, de olhos fechados, o ronrom monótono da máquina de massas, arfando ao
longe, e o zunzum das lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um
interminável cantar de galos a porfia,
enquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente, anunciando um defunto da
paróquia.
Quando Piedade chegou lá fora, dando parte do bom
resultado do remédio, a Rita correu de novo ao quarto do doente.
— Então, que me diz agora? Sente-se ou não
melhorzinho?
Ele voltou para a rapariga o seu olhar de animal
prostrado e, por única resposta, passou-lhe o braço esquerdo na cintura e procurou com a mão direita segurar a dela.
Queria com isto traduzir o seu reconhecimento, e a mulata assim o entendeu, tanto que consentiu: mal, porém, a sua carne lhe
tocou na carne, um desejo ardente apossou-se dele; uma vontade desensofrida
de senhorear-se no mesmo instante
daquela mulher e possuí-la inteira, devorá-la num só hausto de luxúria,
trincá-la como um caju.
Rita, ao sentir-se empolgar pelo cavouqueiro,
escapou-lhe das garras com um pulo.
— Olhe que peste! Faça-se de tolo, que digo à sua
mulher, hein? Ora vamos lá!
Mas, como a Piedade entrava na salinha ao lado,
disfarçou logo, acrescentando noutro tom:
— Agora é tratar de dormir e mudar de roupa, se
suar outra vez Até logo!
E saiu.
Jerônimo ouviu as suas ultimas palavras já de olhos
fechados e, quando Piedade entrou no quarto, parecia sucumbido de fraqueza. A lavadeira aproximou-se da cama
do marido em ponta de pés, puxou-lhe o lençol mais para cima do peito e afastou-se de novo, abafando os passos. À
porta da entrada a Augusta, que fora fazer uma visita ao enfermo,
perguntou-lhe por este com um gesto
interrogativo; Piedade respondeu sem falar, pondo a mão no rosto e vergando
desse lado a cabeça, para exprimir que
ele agora estava dormindo.
As duas saíram para falar à vontade; mas, nessa
ocasião, lá fora no pátio da estalagem, acabava de armar-se um escândalo medonho. Era o caso que o Henriquinho da
casa do Miranda ficava às vezes à janela do sobrado, nas horas de preguiça,
entre o almoço e o jantar, entretido a ver a Leocádia lavar, seguindo-lhe os
movimentos uniformes do grosso quadril e o tremular das redondas tetas à larga dentro do cabeção de chita. E, quando
a pilhava sozinha, fazia-lhe sinais brejeiros, piscava-lhe o olho, batendo com a mão direita aberta sobre
a mão esquerda fechada. Ela respondia, indicando com o polegar o interior
do sobrado, como se dissesse que fosse
procurar a mulher do dono da casa.
Naquele dia, porém, o estudante apareceu à janela,
trazendo nos braços um coelhinho todo branco, que ele na véspera arrematara num leilão de festa. Leocádia
cobiçou o bichinho e, correndo para o depósito de garrafas vazias, que ficava
por debaixo do sobrado, pediu com muito
empenho ao Henrique que lho desse. Este, sempre com seu sistema de conversar
por mímica, declarou com um gesto qual
era a condição da dádiva.
Ela meneou a cabeça afirmativamente, e ele fez-lhe
sinal de que o esperasse por detrás do cortiço, no capinzal dos fundos.
A família do Miranda havia saído. Henrique, mesmo
com a roupa de andar em casa e sem chapéu, desceu à rua, ganhou um terreno que existia à esquerda do sobrado e,
com o seu coelho debaixo do braço, atirou-se para o capinzal. Leocádia esperava por ele debaixo das mangueiras.
— Aqui não! disse ela, logo que o viu chegar. Aqui
agora podem dar com a gente!...
— Então onde?
— Vem cá!
E tomou à sua direita, andando ligeira e meio
vergada por entre as plantas. Henrique seguiu-a no mesmo passo, sempre com
o coelho sobraçado. O calor fazia-o
suar e esfogueava-lhe as faces. Ouvia-se o martelar dos ferreiros e dos
trabalhadores da pedreira.
Depois de alguns minutos, ela parou num lugar
plantado de bambus e bananeiras, onde havia o resto de um telheiro em ruínas.
— Aqui!
E Leocádia olhou para os lados, assegurando-se de
que estavam a sós. Henrique, sem largar o coelho, atirou-se sobre ela, que o conteve:
— Espera! preciso tirar a saia; está encharcada!
— Não faz mal! segredou ele, impaciente no seu desejo.
— Pode-me vir um corrimento!
E sacou fora a saia de lã grossa, deixando ver duas
pernas, que a camisa a custo só cobria até o joelho, grossas, maciças, de uma brancura levemente rósea e toda marcada
de mordeduras de pulgas e mosquitos.
— Avia-te! Anda! apressou ela, lançando-se de
costas ao chão e arregaçando a fralda até a cintura; as coxas abertas.
O estudante atirou-se, sôfrego, sentindo-lhe a
frescura da sua carne de lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho.
Passou-se um instante de silêncio entre os dois, em
que as folhas secas do chão rangeram e farfalharam.
— Olha! pediu ela, faz-me um filho, que eu preciso
alugar-me de ama-de-leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne-Mole, nesta última barriga,
tomou conta de um pequeno ai na casa de uma família de tratamento, que lhe
dava setenta mil-réis por mês!... E
muito bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... Se me arranjares
um filho dou-te outra vez o coelho!
E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante não
largava, começou a queixar-se dos repelões que recebia cada vez mais acelerados.
— Olha que matas o bichinho! reclamou a lavadeira.
Não batas assim com ele! mas não o soltes, hein!
Ia dizer ainda alguma coisa, mas acudiu-lhe o
espasmo e ela fechou os olhos e pôs-se a dar com a cabeça de um lado para
o outro, rilhando os dentes.
Nisto, passos rápidos fizeram-se sentir galgando as
plantas, na direção em que os dois estavam; e Henrique, antes de ser visto,
lobrigou a certa distancia a insociável figura do Bruno.
Não lhe deu tempo a que se aproximasse; de um salto
galgou por detrás das bananeiras e desapareceu por entre o matagal de bambus, tão rápido como o coelho que,
vendo-se livre, ganhara pela outra banda o caminho do capinzal.
Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da
mulher, esta ainda não tinha acabado de vestir a saia molhada.
— Com quem te esfregavas tu, sua vaca?! bradou ele,
a botar os bofes pela boca.
E, antes que ela respondesse, já uma formidável
punhada a fazia rolar por terra.
Leacádia abriu num berreiro. E foi debaixo de uma
chuva de bofetadas e pontapés que acabou de amarrar a roupa.
— Agora eu vi! sabes! Nega se fores capaz!
— Vá à pata que o pôs! exclamou ela, com a cara que
era um tomate. Já lhe disse que não quero saber de você pra nada, seu bêbedo!
E, vendo que ele ia recomeçar a dança, abaixou-se
depressa, segurou com ambas as mãos um matacão de granito que encontrou a seus pés, e gritou, erguendo-o
sobre a cabeça:
— Chega-te pra cá e verás se te abro aqui mesmo ou
não o casco!
O ferreiro compreendeu que ela era capaz de fazer o
que dizia e estacou lívido e ofegante.
— Arme a trouxa e rua! sabe?
— Olha a desgraça! Tinha de muito assentado de ir!
Queria era uma ocasião! Nem preciso de você pra nada, fique sabendo!
E, para meter-lhe mais raiva, acrescentou,
empinando a barriga:
— Já cá está dentro com que hei de ganhar a vida!
Alugo-me de ama! Ou pensará que todos são como você, que nem para fazer um filho serve, diabo do sem-préstimo?
— Mas não me hás de levar nada de casa! Isso te
juro eu, biraia!
— Ah, descanse! que não levarei nada do que é seu,
nem preciso!
— Põe essa pedra no chão!
— Um corno! Eu arrumo-ta na cabeça se te chegas pra
cá!
— Sim, sim, sim, contanto que te musques por uma
vez!
— Pois então despache o beco!
Ele virou-lhe as costas e tornou lentamente por
onde viera, de cabeça pendida, as mãos nas algibeiras das calças, aparentando
agora um soberano desprezo pelo que se passava.
Só então foi que ela se lembrou do coelho.
— Ora gaitas! disse, endireitando-se e tomando
direção contrária à do marido.
Este fora ai direito ao cortiço narrar, a quem
quisesse ouvir, o que se acabava de dar. O escândalo assanhou a estalagem inteira, como um jato de água quente sobre
um formigueiro. "Ora, aquilo tinha de acontecer mais hoje mais amanhã! —
Um belo dia a casa vinha abaixo! — A
Leocádia parecia não desejar senão isso mesmo!" Mas ninguém atinava com
quem diabo pilhara o Bruno a mulher no
capinzal. Fizeram-se mil hipóteses; lembrando-se nomes e nomes, sem se chegar a
nenhum resultado satisfatório. O Albino
tentou logo arranjar a reconciliação do casal, jurando que o Bruno estava
enganado com certeza e que vira mal.
"Leocádia era uma excelente rapariga, incapaz de tamanha safadagem!"
O ferreiro tapou-lhe a boca com uma
bolacha, e ninguém mais se meteu a congraçá-los.
Entretanto, o Bruno entrara em casa e lançava pela
janela cá para fora tudo o que ia encontrando pertencente à mulher. Uma cadeira fez-se pedaços contra as pedras,
depois veio um candeeiro de querosene, uma trouxa de roupas, saias e
casaquinhos de chita, caixas de chapéus
cheias de trapos, uma gaiola de pássaros, uma chaleira; e tudo era arremessado
com fúria ao meio da área, entre o
silêncio comovido dos que assistiam ao despejo. Um chim, que entrara para
vender camarões e parara distraído
perto da janela do ferreiro, levou na cabeça com uma bilha da Bahia e berrava
como criança que acaba de ser esbordoada.
A Machona, que não podia ouvir ninguém gritar mais alto do que ela, caiu-lhe em
cima aos murros e o pôs fora do portão
com tremenda descompostura. "Era o que faltava que viesse também aquele
salamaleque do inferno para azoinar uma
criatura mais do que já estava!" Dona Isabel, com as mãos cruzadas sobre o
ventre, tinha para aquela destruição um
profundo olhar de lástima. Augusta meneava a cabeça tristemente sem
conceber como havia mulheres que procuravam
homem, tendo um que lhes pertencia. A Bruxa, indiferente, não
interrompera sequer o seu trabalho; ao passo que a das Dores, de mãos nas
cadeiras, a sala pelo meio das canelas, um cigarro no canto da boca, encarava
desdenhosa a sanha daquele marido, tão
brutal como o dela o fora.
— Sempre os mesmos pedaços de asno!... comentava
franzindo o nariz. Se a tola da mulher só lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, ficam enjoados, e, se
ela não toma a sério a borracheira do casamento, dão por paus e por pedras,
como esta besta! Uma súcia, todos eles!
Florinda ria, como de tudo, e a velha Marciana
queixava-se de que lhe respingaram querosene na roupa estendida ao sol. Nessa ocasião justamente, um saco de café,
cheio de borra, deu duas voltas no ar e espalhou o seu conteúdo, pintalgando
de pontos negros os coradouros. Fez-se
logo um alarido entre as lavadeiras. "Aquilo não tinha jeito, que diabo!
Armavam lá as suas turras e os outros é
que haviam de aturar?!... Sebo! que os mais não estavam dispostos a suportar as
fúrias de cada um! Quem parira Mateus
que o embalasse! Se agora, todas as vezes que a Leocádia se fosse espojar no
capinzal, o bruto do marido tinha de
sujar daquele modo o trabalho da gente, ninguém mais poderia ganhar ali a sua
vida! Que espiga!" Pombinha
chegara à porta do número 15, dando fé do barulho, com uma costura na
mão, e Nenen, toda afogueada do ferro de engomar, perguntava, com um frouxo
riso, se o Bruno ia reformar a mobília da casa. A Rita fingia não ligar
importância ao fato e continuava a
lavar à sua tina. "Não faziam tanta festa ao tal casamento? Pois que
agüentassem! Ela estava bem livre de sofrer
uma daquelas!" O velho Libório chegara-se para ver se, no meio da
confusão, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona, notando que o Agostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do
lugar em que se achava:
— Sai daí, safado! Toca lá no quer que seja, que te
arranco a pele do rabo!
Um irmão do santíssimo entrara na estalagem, com a
sua capa encarnada, a sua vara de prata em uma das mãos, na outra a salva do dinheiro, e parara em meio do
pátio, suplicando muito fanhoso: "Uma esmola para a cera do Sacramento!"
As mulheres abandonaram por um instante
as tinas e foram beijar devotamente a colombina imagem do Espírito Santo.
Pingaram na salva moedinhas de vintém.
Todavia, o Bruno acabava de despejar o que era da
mulher e saia de novo de casa, dando uma volta feroz à fechadura. Atravessou por entre o murmurante grupo dos
curiosos que permaneciam defronte de sua porta, mudo, com a cara fechada, jogando os braços, como quem, apesar de ter
feito muito, não satisfizera ainda completamente a sua cólera.
Leocádia apareceu pouco depois e, vendo por terra
tudo que era seu, partido e inutilizado, apoderou-se de fúria e avançou sobre a porta, que o marido acabava de
fechar, arremetendo com as nádegas contra as duas folhas, que cederam logo,
indo ela cair lá dentro de barriga para
cima.
Mas ergueu-se, sem fazer caso das risadas que
rebentaram cá fora e, escancarando a janela com arremesso, começou por sua vez
a arrasar e a destruir tudo que ainda encontrara em casa.
Então principiou a verdadeira devastação. E a cada
objeto que ela varria para o pátio, gritava sempre: "Upa! Toma,
diabo!"
— Aí vai o relógio! Upa! Toma, diabo!
E o relógio espatifou-se na calçada.
— Aí vai o alguidar!
— Aí vai o jarro!
— Aí vão os copos!
— O cabide!
— O garrafão!
— O bacio!
Um riso geral, comunicativo, absoluto, abafava o
baralho da louça quebrando-se contra as pedras. E Leocádia já não precisava acompanhar os objetos com a sua
frase de imprecação, porque cada um deles era recebido cá fora com um coro que berrava:
— Upa! Toma, diabo!
E a limpeza prosseguia. João Romão acudiu de
carreira, mas ninguém se incomodou com a presença dele. Já defronte da porta do Bruno havia uma montanha de cacos
acumulados; e o destroço continuava ainda, quando o ferreiro reapareceu, vermelho como malagueta, e foi galgando a
casa, com um raio de roda de carro na mão direita.
Os circunstantes o seguiram, atropeladamente, num
clamor.
— Não dá!
— Não pode!
— Prende!
— Não deixa bater!
— Larga o pau!
— Segura!
— Agüenta!
— Cerca!
— Toma o porrete!
E Leocádia escapou afinal das pauladas do marido, a
quem o povaréu desarmara num fecha-fecha.
— Ordem! Ordem! Vá de rumor! exclamava o vendeiro,
a quem, aproveitando a confusão, haviam já ferrado um pontapé por detrás.
O Alexandre, que vinha chegando do serviço nesse
momento, apressou-se a correr para o lugar do conflito e cheio de autoridade intimou o Bruno a que se
contivesse e deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir para a estação no
mesmo instante.
— Pois você não vê esta galinha, que apanhei hoje
com a boca na botija, não me vem ainda por cima dar cabo de tudo?!... interrogou o Bruno, espumando de raiva e
quase sem fôlego para falar.
— Porque você pôs em cacos o que é meu! gritou
Leocádia.
— Está bom! está bom! disse o polícia, procurando
dar à voz inflexões autoritárias e reconciliadoras. Fale cada um por sua vez! Seu marido... acrescentou ele,
voltando-se para a acusada, diz que a senhora...
— É mentira! interrompeu ela.
— Mentira?! É boa! Tinhas a saia despida e um homem
por cima!
— Quem era? — Quem foi? — Quem era o homem?
interrogaram todos a um só tempo.
— Quem era ele, no fim de contas? inquiriu também
Alexandre.
— Não lhe pude ver as fuças!... respondeu o
ferreiro; mas, se o apanho, arrancava-lhe o sangue pelas costas!
Houve um coro de gargalhadas.
— E mentira! repetiu Leocádia, agora sucumbida por
uma reação de lágrimas. Há muito tempo que este malvado anda caçando pretexto para romper comigo e, como
eu não lho dou...
Uma explosão de soluços a interrompeu.
Desta vez não riram, mas um bichanar de cochichos
formou-se em torno do seu pranto.
— Agora... continuou ela, enxugando os olhos na
costa da mão; não sei o que será de mim, porque este homem, além de tudo, escangalhou-me até o que eu trouxe
quando me casei com ele!...
— Não disseste que já tinhas ai dentro com que
ganhar a vida?... É andar!
— É falso! soluçou Leocádia.
— Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu
refle; está tudo terminado! Seu marido vai recebê-la em boa paz...
— Eu?! esfuziou o ferreiro. Você não me conhece!
— Nem eu queria! retorquiu a mulher. Prefiro
meter-me com um cavalo de tílburi a ter de aturar este bruto!
E, catando em casa alguma coisa sua que ainda
havia, e recolhendo do montão dos cacos o que lhe pareceu aproveitável,
fez de tudo uma grande trouxa e foi
chamar um carregador.
A Rita saiu-lhe ao encontro.
— Para onde vais tu?... perguntou-lhe em voz baixa.
— Não sei, filha, por ai!... Hei de encontrar um
furo!... Os cães não vivem?...
— Espere um instante... disse a mulata. Olha,
empurra a trouxa ai para dentro do meu cômodo. — E correndo ao Albino, que lavava: — Passa-me no sabão aquela roupa,
ouviste? E, quando Firmo acordar, diz-lhe que precisei ir a rua.
Depois, deu um pulo ao quarto, mudou a saia
molhada, atirou nos ombros o seu xale de crochê e, batendo nas costas da companheira, segredou-lhe:
— Anda cá comigo! não ficarás à toa!
E as duas saíram, ambas sacudidas, deixando atrás
de si suspensa a curiosidade do cortiço inteiro.
IX
Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas
as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois
dedos de parati "pra cortar a friagem".
Uma transformação, lenta e profunda, operava-se
nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de
crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e
amoroso. A vida americana e a natureza
do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o
comoviam; esquecia-se dos seus
primitivos sonhos de ambição; para idealizar felicidades novas, picantes e
violentas; tornava-se liberal,
imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria
desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, às imposições do sol e do
calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os
conquistadores aventureiros.
E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos
os seus hábitos singelos de aldeão português: e Jerônimo abrasileirou-se. A sua casa perdeu aquele ar sombrio e
concentrado que a entristecia; já apareciam por lá alguns companheiros de
estalagem, para dar dois dedos de
palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A
revolução afinal foi completa: a
aguardente de cana substituiu o vinho; a farinha de mandioca sucedeu à broa; a
carne-seca e o feijão-preto ao bacalhau
com batatas e cebolas cozidas; a pimenta-malagueta e a pimenta-de-cheiro invadiram
vitoriosamente a sua mesa; o caldo
verde, a açorda e o caldo de unto foram repelidos pelos ruivos e gostosos
quitutes baianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo caruru; a couve à mineira
destronou a couve à portuguesa; o pirão de fubá ao pão de rala, e, desde que o
café encheu a casa com o seu aroma
quente, Jerônimo principiou a achar graça no cheiro do fumo e não tardou a
fumar também com os amigos.
E o curioso é que quanto mais ia ele caindo nos
usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam,
posto que em detrimento das suas forças
físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as
intenções poéticas dos sertanejos,
quando cantam à viola os seus amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados
para a esperança de tornar à terra,
agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de
céu e mar, já se não revoltavam com a
turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte
dos maravilhosos despenhadeiros
ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um
monarca gigante, que o sol veste de
ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens tocam de alvos turbantes de
cambraia, num luxo oriental de arábicos
príncipes voluptuosos.
Ao passo que com a mulher, a S’ora Piedade de
Jesus, o caso mudava muito de figura. Essa, feita de um só bloco,
compacta, inteiriça e tapada, recebia a
influência do meio só por fora, na maneira de viver, conservando-se inalterável
quanto ao moral, sem conseguir, à
semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova pátria que adotaram.
Cedia passivamente nos hábitos de
existência, mas no intimo continuava a ser a mesma colona saudosa e
desconsolada, tão fiel às suas tradições como
a seu marido. Agora estava até mais triste; triste porque Jerônimo
fazia-se outro; triste porque não se passava um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste,
porque chegava a estranhá-lo, a desconhecê-lo, afigurando-se-lhe até que cometia um adultério, quando à noite
acordava assustada ao lado daquele homem que não parecia o dela, aquele homem
que se lavava todos os dias, aquele
homem que aos domingos punha perfumes na barba e nos cabelos e tinha a boca
cheirando a fumo. Que pesado desgosto
não lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repelindo o
caldo que ela lhe apresentava ao
jantar, disse-lhe:
— Ó filha! por que não experimentas tu fazer uns
pitéus à moda de cá?...
— Mas é que não sei... balbuciou a pobre mulher.
— Pede então à Rita que to ensine... Aquilo não
terá muito que aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ela preparou aqueles doutro dia. Souberam-me
tão bem!
Este resvalamento do Jerônimo para as coisas do
Brasil penalizava profundamente a infeliz criatura. Era ainda o instinto
feminil que lhe fazia prever que o
marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a queria para mais nada e
havia de reformar a cama, assim como
reformou a mesa.
Jerônimo, com efeito, pertencia-lhe muito menos
agora do que dantes. Mal se chegava para ela; os seus carinhos eram frios
e distraídos, dados como por
condescendência; já lhe não afagava os rins, quando os dois ficavam a sós,
malucando na sua vida comum; agora nunca era ele que a procurava para o
matrimônio, nunca; se ela sentia necessidade do marido, tinha de provocá-lo. E, uma noite, Piedade ficou com
o coração ainda mais apertado, porque ele, a pretexto de que no quarto
fazia muito calor, abandonou a cama e
foi deitar-se no sofá da salinha. Desde esse dia não dormiram mais ao lado um
do outro. O cavouqueiro arranjou uma
rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em casa da
Rita.
Uma outra noite a coisa ainda foi pior. Piedade,
certa de que o marido não se chegava, foi ter com ele; Jerônimo fingiu-se indisposto, negou-se, e terminou por
dizer-lhe, repelindo-a brandamente:
— Não te queria falar, mas... sabes? deves tomar
banho todos os dias e... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se muito! É preciso trazer o corpo
sempre lavado, que, ao se não, cheira-se mel!... Tem paciência!
Ela desatou a soluçar. Foi uma explosão de
ressentimentos e desgostos que se tinham acumulado no seu coração. Todas
as suas mágoas rebentaram naquele
momento.
— Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te
disso!
Ela continuou a soluçar, sem fôlego, dando arfadas
com todo o corpo.
O cavouqueiro acrescentou no fim de um intervalo:
— Então, que é isto, mulher? Pões-te agora a fazer
tamanho escarcéu, nem que se cuidasse de coisa séria!
Piedade desabafou:
— É que já não me queres! Já não és o mesmo homem
para mim! Dantes não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!
E os soluços recrudesciam.
— Não digas asnices, filha!
— Ah! eu bem sei o que isto é!...
— E bobagem tua, é o que é!
— Maldita hora em que viemos dar ao raio desta
estalagem! Antes me tivera caldo um calhau na cabeça!
— Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus
te não castigue.
Esta rezinga chamou outras que, com o correr do
tempo, se foram amiudando. Ah! já não havia dúvida que mestre Jerônimo andava meio caldo para o lado da Rita
Baiana; não passava pelo número 9, sempre que vinha à estalagem durante o dia,
que não parasse à porta um instante,
para perguntar-lhe pela "saudinha". O fato de haver a mulata lhe
oferecido o remédio, quando ele esteve incomodado, foi pretexto para lhe fazer
presentes amáveis; pôr os seus préstimos à disposição dela e obsequiá-la em extremo todas as vezes que a visitava.
Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito da Leocádia,
por exemplo; pois, desde que a Rita se
arvorara em protetora da mulher do ferreiro, Jerônimo afetava grande interesse
pela "pobrezinha de Cristo".
— Fez bem, Nhá Rita, fez bem!... A se’ora mostrou
com isso que tem bom coração...
— Ah, meu amigo, neste mundo hoje por mim, amanha
por ti!...
Rita havia aboletado a amiga, a princípio em casa
de umas engomadeiras do Catete, muito suas camaradas, depois passou-a para uma família, a quem Leocádia se alagou
como ama-seca; e agora sabia que ela acabava de descobrir um bom arranjo num colégio de meninas.
— Muito bem! muito bem! aplaudia Jerônimo.
— Ora, o quê! O mundo é largo! sentenciou a baiana.
Há lugar pro gordo e há lugar pro magro! Bem tolo é quem se mata!
Em uma das vezes em que o cavouqueiro
perguntou-lhe, como de costume, pela pobrezinha de Cristo, a mulata disse
que Leocádia estava grávida.
— Grávida? mas então não é do marido!...
— Pode bem ser que sim. Barriga de quatro meses...
— Ah! mas ela não foi há mais tempo do que isso?...
— Não. Vai fazer agora pelo São João quatro meses
justamente.
Jerônimo já nunca pegava na guitarra senão para
procurar acertar com as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a chegar-se e o último a ir
embora; e durante o pagode ficava de queixo bambo, a ver dançar a mulata, abstrato, pateta, esquecido de tudo; babão.
E ela, consciente do feitiço, que lhe punha, ainda mais se requebrava e
remexia, dando-lhe embigadas ou
fingindo que lhe limpava a baba no queixo com a barra da saia.
E riam-se.
Não! definitivamente estava caído!
Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um
remédio que lhe restituísse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ela no quarto, acendeu velas de cera,
queimou ervas aromáticas e tirou sorte nas cartas.
E depois de um jogo complicado de reis, valetes e
damas, que ela dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que saia do baralho uma frase
cabalística, declarou convicta, muito calma, sem tirar os olhos das suas cartas:
— Ele tem a cabeça virada por uma mulher trigueira.
— É o diacho da Rita Baiana! exclamou a outra. Bem
cá me palpitava por dentro! Ai, o meu rico homem!
E a chorar, limpando, aflita, as lágrimas no
avental de cânhamo, suplicou à Bruxa, pelas alminhas do purgatório, que
lhe remediasse tamanha desgraça.
— Ai, se perco aquela criatura, S’ora Paula,
lamuriou a infeliz entre soluços; nem sei que virá a ser de mim neste mundo
de Cristo!... Ensine-me alguma coisa
que me puxe o Jeromo!
A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e
desse a beber ao seu homem, no café pela manhã, algumas gotas das águas da lavagem; e, se no fim de algum
tempo, este regime não produzisse o desejado efeito, então cortasse um pouco
dos cabelos do corpo, torrasse-os até os
reduzir a pó e lhos ministrasse depois na comida.
Piedade ouviu a receita com um silêncio respeitoso
e atento, o ar compungido de quem recebe do médico uma sentença dolorosa para um doente que estimamos. Em
seguida, meteu na mão da feiticeira uma moeda de prata, prometendo dar-lhe coisa melhor se o remédio tivesse bons
resultados.
Mas não era só a portuguesa quem se mordia com o
descaimento do Jerônimo para a mulata, era também o Firmo. Havia muito já que este andava com a pulga atrás
da orelha e, quando passava perto do cavouqueiro, olhava-o atravessado.
O capadócio ia dormir todas as noites com a Rita,
mas não morava na estalagem; tinha o seu cômodo na oficina em que trabalhava. Só pelos domingos é que ficavam
juntos durante o dia e então não relaxavam o seu jantar de pândega. Uma
vez em que ele gazeara o serviço, o que
não era raro, foi vê-la fora das horas do costume e encontrou-a a conversar
junto à tina com o português. Passou
sem dizer palavra e recolheu-se ao número 9, onde ela foi logo ter de carreira.
Firmo não lhe disse nada a respeito das
suas apreensões, mas também não escondeu o seu mau humor; esteve impertinente e
rezingueiro toda a tarde. Jantou de cara
amarrada e durante o parati, depois do café, só falou em rolos, em dar cabeçadas
e navalhadas, pintando-se terrível,
recordando façanhas de capoeiragem, nas quais sangrara tais e tais tipos de
fama; "não contando dois galegos
que mandara pras minhocas, porque isso para ele não era gente! — Com um par de
cocadas boas ficavam de pés unidos para
sempre!" Rita percebeu os ciúmes do amigo e fez que não dera por coisa
alguma.
No dia seguinte, às seis horas da manhã, quando ele
saia da casa dela, encontrou-se com o português, que ia para o trabalho, e o olhar que os dois trocaram entre si era
já um cartel de desafio. Entretanto, cada qual seguiu em silêncio para o seu
lado.
Rita deliberou prevenir Jerônimo de que se
acautelasse. Conhecia bem o amante e sabia de quanto era ele capaz sob a influência dos ciúmes; mas, na ocasião em
que o cavouqueiro desceu para almoçar, um novo escândalo acabava de
explodir, agora no número 12, entre a
velha Marciana e sua filha Florinda.
Marciana andava já desconfiada com a pequena,
porque o fluxo mensal desta se desregrara havia três meses, quando, nesse dia, não tendo as duas acabado ainda o
almoço, Florinda se levantou da mesa e foi de carreira para o quarto. A
velha seguiu-a. A rapariga fora vomitar
ao bacio.
— Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a
toda com um olhar inquiridor.
— Não sei, mamãe...
— Que sentes tu?...
— Nada...
— Nada, e estás lançando?... Hein?!
— Não sinto nada, não senhora!...
A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe
violentamente o vestido, levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o
corpo, tateando-lhe o ventre, já
zangada. Sem obter nenhum resultado das suas diligências, correu a chamar a
Bruxa, que era mais que entendida no
assunto. A cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os braços no
avental, e foi ao número 12; tenteou de
novo a mulatinha, fez-lhe várias perguntas e mais à mãe, e depois disse
friamente:
— Está de barriga.
E afastou-se, sem um gesto de surpresa, nem de
censura.
Marciana, trêmula de raiva, fechou a porta da casa,
guardou a chave no seio e, furiosa, caiu aos murros em cima da filha. Esta,
embalde tentando escapar-lhe, berrava como uma louca.
Abandonaram-se logo todas as tinas do pátio e
algumas das mesas do frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o número 12, batendo na
porta e ameaçando entrar pela janela.
Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga
que se debatia no chão, perguntava-lhe gritando e repetindo:
— Quem foi?! Quem foi?!
E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas
ventas.
— Quem foi?!
A pequena berrava, mas não respondia.
— Ah! não queres dizer por bem? Ora espera!
E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura no
canto da sala.
Florinda, vendo iminente o cacete, levantou-se de
um pulo, ganhou a janela e caiu de um salto lá fora, entre o povo amotinado.
Coisa de uns nove palmos de altura.
As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendê-la
da mãe, que surgiu logo à porta, ameaçando para o grupo, terrível e armada de pau.
Todos procuraram chamá-la à razão:
— Então que é isso, tia Marciana?! Então que é
isso?!
— Que é isto?! É que esta assanhada está de
barriga! Está ai o que é! Para tanto não lhe faltou jeito, nem foi preciso que
a gente andasse atrás dela se matando,
como sucede sempre que há um pouco mais de serviço e é necessário puxar pelo
corpo! Ora está ai o que é!
— Bem, disse a Augusta, mas não lhe bata agora,
coitada! Assim você lhe dá cabo da pele!
— Não! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E
ela há de dizer quem foi ou quebro-lhe os ossos!
— Então, Florinda, diz logo quem foi... É melhor!
aconselhou a das Dores.
Fez-se em torno da rapariga um silêncio ávido,
cheio de curiosidade.
— Estão vendo?... exclamou a mãe. Não responde,
este diabo! Mas esperem, que eu lhes mostro se ela fala, ou não!
E as lavadeiras tiveram de agarrar-lhe os braços e
tirar-lhe o cacete, porque a velha queria crescer de novo para a filha.
Ao redor desta a curiosidade assanhava-se cada vez
mais. Estalavam todos por saber quem a tinha emprenhado. "Quem foi?! Quem foi?!" esta frase apertava-a num
torniquete. Afinal, não houve outro remédio:
— Foi seu Domingos... disse ela, chorando e
cobrindo o rosto com a fralda do vestido, rasgado na luta.
— O Domingos!...
— O caixeiro da venda!...
— Ah! foi aquele cara de nabo? gritou Marciana. Vem
cá!
E, agarrando a filha pela mão, arrastou-a até à
venda.
Os circunstantes acompanharam-na ruidosamente e de
carreira.
A taverna, como a casa de pasto, fervia de
concorrência.
Ao balcão daquela, o Domingos e o Manuel aviavam os
fregueses, numa roda-viva. Havia muitos negros e negras. O baralho era enorme. A Leonor lá estava, sempre aos
pulos, mexendo com um, mexendo com outro, mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando apalpões rudes
de mãos de couro nas suas magras e escorridas nádegas de negrinha virgem Três
marujos ingleses bebiam gengibirra, cantando, ébrios, na sua língua e mascando
tabaco.
Marciana na frente do grande grupo e sem largar o
braço da filha, que a seguia como um animal puxado pela coleira, ao chegar à porta lateral da venda, berrou:
— Ó seu João Romão!
— Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro,
atrapalhado de serviço.
Bertoleza, com uma grande colher de zinco gotejante
de gordura, apareceu à porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta gente reunida, gritou para seu homem:
— Corre aqui, seu João, que não sei o que houve!
Ele veio afinal.
Que diabo era aquilo?
— Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a
cobriu, deve tomar conta dela!
João Romão ficou perplexo.
— Hein! Que é lá isso?!
— Foi o Domingos! disseram muitas vozes.
— O seu Domingos!
O caixeiro respondeu: "Senhor..." com uma
voz de delinqüente.
— Chegue cá!
E o criminoso apresentou-se, lívido de morte.
— Que fez você com esta pequena?
— Não fiz nada, não senhor!...
— Foi ele, sim! desmentiu-o a Florinda. — O caixeiro
desviou os olhos, para a não encarar. — Um dia de manhãzinha, às quatro horas, no capinzal, debaixo das
mangueiras...
O mulherio em massa recebeu estas palavras com um
coro de gargalhadas.
— Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas,
hein?!... disse o patrão, meneando a cabeça. Muito bem! Pois agora é tomar conta da fazenda e, como não gosto de
caixeiros amigados, pode procurar arranjo noutra parte!...
Domingos não respondeu patavina; abaixou o rosto e
retirou-se lentamente.
O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se
então pela venda, pelo portão da esta agem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se em pequenos magotes que
discutiam o fato. Principiaram os comentários, os juízos pró e contra o caixeiro; fizeram-se profecias.
Entretanto, Marciana, sem largar a filha, invadira
a casa de João Romão e perseguia o Domingos que preparava já a sua trouxa.
— Então? perguntou-lhe. Que tenciona fazer?
Ele não deu resposta.
— Vamos! vamos! fale! desembuche!
— Ora lixe-se! resmungou o caixeiro, agora muito
vermelho de cólera. — Lixe-se, não!... Mais devagar com o andor! Você há de casar: ela é menor!
Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a
velha.
— Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos!
E despejou da venda, gritando para todos:
— Sabe? O cara de nabo diz que não casa!
Esta frase produziu o efeito de um grito de guerra
entre as lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas por uma grande indignação.
— Como, não casa?!...
— Era só o que faltava!
— Tinha graça!
— Então mais ninguém pode contar com a honra de sua
filha?
— Se não queria casar pra que fez mal?
— Quem não pode com o tempo não inventa modas!
— Ou ele casa ou sai daqui com os ossos em sopa!
— Quem não quer ser loto não lhe vista a pele!
A mais empenhada naquela reparação era a Machona, e
a mais indignada com o fato era a Dona Isabel. A primeira correra à frente da venda, disposta a segurar o
culpado, se este tentasse fugir. Com o seu exemplo não tardou que em cada
porta, onde era possível uma escapula,
se postassem as outras de sentinela, formando grupos de três e quatro. E, no
meio de crescente algazarra, ouviam-se
pragas ferozes e ameaças:
— Das Dores! toma cuidado, que o patife não espirre
por ai!
— Ó seu João Romão, se o homem não casa,
mande-no-lo pra cá! Temos ainda algumas pequenas que lhe convêm!
— Mas onde está esse ordinário?!
— Saia o canalha!
— Está fazendo a trouxa!
— Quer escapar!
— Não deixe sair!
— Chame a polícia!
— Onde está o Alexandre?
E ninguém mais se entendia. À vista daquela agitação,
o vendeiro foi ter com o Domingos.
— Não saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por
enquanto. Logo mais lhe direi o que deve fazer.
E chegando a uma das portas que davam para a
estalagem, gritou:
— Vá de rumor! Não quero isto aqui! É safar!
— Pois então o homem que case! responderam.
— Ou dê-nos pra cá o patife!
— Fugir é que não!
— Não foge! não deixa fugir!
— Ninguém se arrede!
E, como a Marciana lhe lançasse uma injúria mais
forte, ameaçando-o com o punho fechado, o taverneiro jurou que, se ela insistisse com desaforos, a mandaria jogar
lá fora, junto com a filha, por um urbano.
— Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua
obrigação, que eu não posso perder tempo!
— Ponha-nos então pra cá o homem! exigiu a mulata
velha.
— Venha o homem! acompanhou o coro.
— É preciso dar-lhe uma lição!
— O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. Já
lhe falei... Está perfeitamente disposto! E, se não casar, a pequena terá
o seu dote! Vão descansados; respondo
por ele ou pelo dinheiro!
Estas palavras apaziguaram os ânimos; o grupo das
lavadeiras afrouxou; João Romão recolheu-se: chamou de parte o Domingos e disse-lhe que não arredasse pé de
casa antes de noite fechada.
— No mais... acrescentou, pode tratar de vida nova!
Nada o prende aqui. Estamos quites.
— Como? se o senhor ainda não me fez as contas?!...
— Contas? Que contas? O seu saldo não chega para
pagar o dote da rapariga!...
— Então eu tenho de pagar um dote?!...
— Ou casar... Ah, meu amigo, este negócio de três
vinténs é assim! Custa dinheiro! Agora, se você quiser, vá queixar-se à policia... Está no seu direito! Eu me
explicarei em juízo!...
— Com que, não recebo nada?...
— E não principie com muita coisa, que lhe fecho a
porta e deixo-o ficar às turras lá fora com esses danados! Você bem viu como estão todos a seu respeito! E, se há
pouco não lhe arrancaram os fígados, agradeça-o a mim! Foi preciso
prometer dinheiro e tenho de cair com
ele, decerto! mas não é justo, nem eu admito, que saia da minha algibeira
porque não estou disposto a pagar os
caprichos de ninguém, e muito menos dos meus caixeiros!
— Mas...
— Basta! Se quiser, por muito favor, ficar aqui até
à noite, há de ficar calado; ao contrário — rua!
E afastou-se.
Marciana resolveu não ir ao subdelegado, sem saber
que providências tomaria o vendeiro. Esperaria até ao dia seguinte
"para ver só!" O que nesse
ela fez foi dar uma boa lavagem na casa e arrumá-la muitas vezes, como
costumava, sempre que tinha lá as suas
zangas.
O escândalo não deixou de ser, durante o dia,
discutido um só instante. Não se falava noutra coisa; tanto que, quando, já
à noite, Augusta e Alexandre receberam
uma visita da comadre, a Léonie, era ainda esse o principal assunto das
conversas.
Léonie, com as suas roupas exageradas e barulhentas
de cocote à francesa, levantava rumor quando lá ia e punha expressões de assombro em todas as caras. O seu vestido
de seda cor de aço, enfeitado de encarnado sangue de boi, curto, petulante, mostrando uns sapatinhos à moda com um salto
de quatro dedos de altura; as suas lavas de vinte botões que lhe chegavam até
aos sovacos; a sua sombrinha vermelha, sumida numa nuvem de rendas cor-de-rosa
e com grande cabo cheio de arabescos
extravagantes; o seu pantafaçudo chapéu de imensas abas forradas de
velado escarlate, com um pássaro inteiro grudado à copa; as suas jóias caprichosas, cintilantes de pedras finas; os
seus lábios pintados de carmim; suas pálpebras tingidas de violeta; o seu cabelo artificialmente louro;
tudo isto contrastava tanto com as vestimentas, os costumes e as maneiras
daquela pobre gente, que de todos os
lados surgiam olhos curiosos a espreitá-la pela porta da casinha de Alexandre;
Augusta, ao ver a sua pequena, a Juju, como vinha tão embonecada e catita,
ficou com os dela arrasados de água.
Léonie trazia sempre muito bem calçada e vestida a
afilhada, levando o capricho ao ponto de lhe mandar talhar a roupa da mesma fazenda com que fazia as suas e pela
mesma costureira; arranjava-lhe chapéus escandalosos como os dela e
dava-lhe jóias. Mas, naquele dia, a
grande novidade que Juju apresentava era estar de cabelos louros, quando os
tinha castanhos por natureza. Foi caso
para uma revolução na estalagem; a noticia correu logo de número a número, e
muitos moradores se abalaram do cômodo
para ver a filhita da Augusta "com cabelos de francesa".
Tal sucesso pôs Léonie radiante de alegria. Aquela
afilhada era o seu luxo, a sua originalidade, a coisa boa da sua vida de cansaços depravados; era o que aos seus
próprios olhos a resgatava das abjeções do oficio. Prostituta de casa
aberta, prezava todavia com admiração e
respeito a honestidade vulgar da comadre; sentia-se honrada com a sua estima;
cobria-a de obséquios de toda a
espécie. Nos instantes que estava ali, entre aqueles seus amigos simplórios,
que a matariam de ridículo em qualquer outro lugar, nem ela parecia a mesma,
pois até os olhos lhe mudavam de expressão. E não queria preferências: assentava-se no primeiro banco, bebia água
pela caneca de folha, tomava ao colo o pequenito da comadre e, às vezes, descalçava os sapatos para enfiar os
chinelos velhos que encontrasse debaixo da cama.
Não obstante, o acatamento que lhe votavam
Alexandre e a mulher não tinha limites; pareciam capazes dos maiores
sacrifícios por ela. Adoravam-na.
Achavam-na boa de coração como um anjo, e muito linda nas suas roupas de
espavento, com o seu rostinho redondo,
malicioso e petulante, onde reluziam dentes mais alvos que um marfim.
Juju, com um embrulho de balas em cada mão, era
carregada de casa em casa, passando de braço a braço e levada de boca em boca, como um ídolo milagroso, que todos
queriam beijar.
E os elogios não cessavam:
— Rica pequena!...
— É um enlevo olhar a gente pro demoninho!
— É mesmo uma lindeza de criança!
— Uma criaturinha dos anjos!
— Uma boneca francesa!
— Uma menina Jesus!
O pai acompanhava-a comovido, mas solene sempre,
parando a todo momento, como em procissão, à espera que cada qual desafogasse por sua vez o entusiasmo pela
criança. Silenciosamente risonho, com os olhos úmidos, patenteada em todo o
seu carão mulato, de bigode que parecia
postiço, um ar condolente e estúpido de um profundo reconhecimento por aquela
fortuna, que Deus lhe dera à filha,
enviando-lhe dos céus o ideal das madrinhas.
E, enquanto Juju percorria a estalagem, conduzida
em triunfo, Léonie na casa da comadre, cercada por uma roda de lavadeiras e crianças, discreteava sobre
assuntos sérios, falando compassadamente, cheia de inflexões de pessoa prática
e ajuizada, condenando maus atos e
desvarios, aplaudindo a moral e a virtude. E aquelas mulheres, aliás tão
alegres e vivazes, não se animavam,
defronte dela, a rir nem levantar a voz, e conversavam a medo cochichando, a
tapar a boca com a mão, tolhidas de
respeito pela cocote, que as dominava na sua sobranceria de mulher loura
vestida de seda e coberta de brilhantes.
A das Dores sentiu-se orgulhosa, quando Léonie lhe pousou no ombro a
mãozinha enluvada e recendente, para lhe perguntar pelo seu homem. E não se fartavam de olhar para ela, de
admirá-la; chegavam a examinar-lhe a roupa, revistar-lhe as salas, apalpar-lhe as meias, levantando-lhe o
vestido, com exclamações de assombro à vista de tanto luxo de rendas e
bordados. A visita sorria, por sua vez
comovida. Piedade declarou que a roupa branca da madama era rica nem como a da
Nossa Senhora da Penha. E Nenen, no seu
entusiasmo, disse que a invejava do fundo do coração, ao que a mãe lhe observou
que não fosse besta. O Albino
contemplava-a em êxtase, de mão no queixo, o cotovelo no ar. A Rita Baiana levara-lhe
um ramalhete de rosas. Esta não se
iludia com a posição da loureira, mas dava-lhe apreço talvez por isso mesmo e,
em parte, porque a achava deveras
bonita. "Ora! era preciso ser bem esperta e valer muito para arrancar
assim da pele dos homens ricos aquela porção
de jóias e todo aquele luxo de roupa por dentro e por fora!"
— Não sei, filha! pregava depois a mulata, no
pátio, a uma companheira; seja assim ou assado, a verdade é que ela passa muito bem de boca e nada lhe falta: sua boa
casa; seu bom carro para passear à tarde; teatro toda a noite; bailes quando
quer e, aos domingos, corridas,
regatas, pagodes fora da cidade e dinheirama grossa para gastar à farta! Enfim,
só o que afianço é que esta não está
sujeita, como a Leocádia e outras, a pontapés e cachações de um bruto de
marido! É dona das suas ações! livre
como o lindo amor! Senhora do seu corpinho, que ela só entrega a quem muito bem
lhe der na veneta!
— E Pombinha?... perguntou a visita. Não me
apareceu ainda!...
— Ah! esclareceu Augusta. Não está ai, foi à
sociedade de dança com a mãe.
E, como a outra mostrasse na cara não ter
compreendido, explicou que a filha de Dona Isabel ia todas as terças, quintas
e sábados, mediante dois mil-réis por
noite, servir de dama numa sociedade em que os caixeiros do comércio aprendiam
a dançar.
— Foi lá que ela conheceu o Costa... acrescentou.
— Que Costa?
— O noivo! Então a Pombinha já não foi pedida?
— Ah! sei...
E a cocote perguntou depois, abafando a voz:
— E aquilo?... Já veio afinal?...
— Qual! Não é por falta de boa vontade da parte
delas, coitadas! Agora mesmo a velha fez uma nova promessa a Nossa Senhora da Anunciação... mas não há meio!
Daí a pouco, Augusta apresentou-lhe uma xícara de
café, que Léonie recusou por não poder beber. "Estava em uso de remédios..." Não disse, porém, quais
eram estes, nem para que moléstia os tomava.
— Prefiro um copo de cerveja, declarou ela.
E, sem dar tempo a que se opusessem, tirou da
carteira uma nota de dez mil-réis, que deu a Agostinho para ir buscar três garrafas de Carls Berg.
A vista dos copos, liberalmente cheios, formou-se
um silêncio enternecido. A cocote distribuiu-os por sua própria mão aos circunstantes, reservando um para si. Não
chegavam. Quis mandar buscar mais; não lho permitiram, objetando que duas e
três pessoas podiam beber juntas.
— Para que gastar tanto?... Que alma grande!
O troco ficou esquecido, de propósito, sobre a
cômoda, entre uma infinita quinquilharia de coisas velhas e bem tratadas.
— Quando você, comadre, agora me aparece por lá?...
quis saber Léonie.
— Pra semana, sem falta; levo-lhe toda a roupa.
Agora, se a comadre tem precisão de alguma... pode-se aprontar com mais pressa...
— Então é bom mandar-me toalhas e lençóis...
Camisas de dormir, é verdade! também tenho poucas.
— Depois d’amanhã está tudo lá.
E a noite ia-se passando. Deram dez horas. Léonie,
impaciente já pelo rapaz que ficara de ir buscá-la, mandou ver se ele por acaso estaria no portão, à espera.
— É aquele mesmo que veio da outra vez com a
comadre?...
— Não. É um mais alto. De cartola branca.
Correu muita gente até à rua. O rapaz não tinha
chegado ainda. Léonie ficou contrariada.
— Imprestável!... resmungou. Faz-me ir sozinha por
ai ou incomodar alguém que me acompanhe!
— Por que a comadre não dorme aqui?... lembrou
Augusta. Se quiser, arranja-se tudo! Não passará bem como em sua casa, mas uma noite corre depressa!...
Não! não era possível Precisava estar em casa essa
noite: no dia seguinte pela manhã iriam procurá-la muito cedo.
Nisto chegou Pombinha com Dona Isabel.
Disseram-lhes logo à entrada que Léonie estava em casa do Alexandre, e a
menina deixou a mãe um instante no
número 15 e seguiu sozinha para ali, radiante de alegria. Gostavam-se muito uma
da outra. A cocote recebeu-a com
exclamações de agrado e beijou-a nos dentes e nos olhos repetidas vezes.
— Então, minha flor, como está essa lindeza!
perguntou-lhe, mirando-a toda.
— Saudades suas... respondeu a moça, rindo bonito
na sua boca ainda pura.
E uma conversa amiga, cheia de interesse para
ambas, estabeleceu-se, isolando-as de todas as outras. Léonie entregou à Pombinha uma medalha de prata que lhe
trouxera; uma tetéia que valia só pela esquisitice, representando uma fatia de
queijo com um camundongo em cima.
Correu logo de mão em mão, levantando espantos e gargalhadas.
— Por um pouco que não me apanhas... continuou a
cocote na sua conversa com a menina. Se a pessoa que me vem buscar tivesse chegado já, eu estaria longe. — E
mudando de tom, a acarinhar-lhe os cabelos: — Por que não me apareces!...
Não tens que recear: minha casa é muito
sossegada... Já lá têm ido famílias!...
— Nunca vou à cidade... É raro! suspirou Pombinha.
— Vai amanhã com tua mãe; jantam as duas comigo...
— Se mamãe deixar... Olha! ela ai vem. Peça.
Dona Isabel prometeu ir, não no dia seguinte, mas
no outro imediato, que era domingo. E a palestra durou animada até que chegou, daí a um quarto de hora, o rapaz por
quem esperava Léonie. Era um moço de vinte e poucos anos, sem emprego e sem fortuna, mas vestido com esmero e muito
bem apessoado. A cocote, logo que o viu aproximar-se, disse baixinho à menina:
— Não é preciso que ele saiba que vais lá domingo,
ouviste?
Juju dormia. Resolveram não acordá-la; iria no dia
seguinte.
Na ocasião em que Léonie partia pelo braço do
amante, acompanhada até o portão por um séquito de lavadeiras, a Rita, no pátio, beliscou a coxa de Jerônimo e
soprou-lhe à meia voz:
— Não lhe caia o queixo!...
O cavouqueiro teve um desdenhoso sacudir d’ombros.
— Aquela pra cá nem pintada!
E, para deixar bem patente as suas preferências,
virou o pé do lado e bateu com o tamanco na canela da mulata.
— Olha o bruto!... queixou-se esta, levando a mão
ao lagar da pancada. Sempre há de mostrar que é galego!
X
No outro dia a casa do Miranda estava em preparos
de festa. Lia-se no "Jornal do Comércio" que Sua Excelência fora agraciado pelo governo português com o
titulo de Barão do Freixal; e como os seus amigos se achassem prevenidos para
ir cumprimentá-lo no domingo, o
negociante dispunha-se a recebê-los condignamente.
Do cortiço, onde esta novidade causou sensação,
via-se nas janelas do sobrado, abertas de par em par, surgir de vez em quando Leonor ou Isaura, a sacudirem tapetes
e capachos, batendo-lhes em cima com um pau, os olhos fechados, a cabeça torcida para dentro por causa da poeira que
a cada pancada se levantava, como fumaça de um tiro de peça. Chamaram-se novos criados para aqueles dias. No salão da
frente, pretos lavavam o soalho, e na cozinha havia rebuliço. Dona Estela,
de penteador de cambraia enfeitado de
laços cor-de-rosa, era lobrigada de relance, ora de um lado, ora de outro, a
dar as suas ordens, abanando-se com um
grande leque; ou aparecia no patamar da escada do fundo, preocupada em soerguer
as saias contra as águas sujas da
lavagem, que escorriam para o quintal. Zulmira também ia e vinha, com a sua
palidez fria e úmida de menina sem
sangue. Henrique, de paletó branco, ajudava o Botelho nos arranjos da casa e,
de instante a instante, chegava à
janela, para namoriscar Pombinha, que fingia não dar por isso, toda
embebida na sua costura, à porta do número 15, numa cadeira de vime, uma perna dobrada sobre a outra, mostrando a
meia de seda azul e um sapatinho preto de entrada baixa; só de longo em longo espaço, ela desviava os
olhos do serviço e erguia-os para o sobrado. Entretanto, a figura gorda e encanecida do novo Barão, sobre-casacado,
com o chapéu alto derreado para trás na cabeça e sem largar o
guarda-chuva, entrava da rua e atravessava
a sala de jantar, seguia até a despensa, diligente esbaforido, indagando se já
tinha vindo isto e mais aquilo,
provando dos vinhos que chegavam em garrafões, examinando tudo, voltando-se
para a direita e para a esquerda, dando ordens, ralhando, exigindo atividade, e
depois tornava a sair, sempre apressado, e metia-se no carro que o esperava
à porta da rua.
— Toca! toca! Vamos ver se o fogueteiro aprontou os
fogos!
E viam-se chegar, quase sem intermitência, homens
carregados de gigos de champanha, caixas de Porto e Bordéus, barricas de cerveja, cestos e cestos de mantimentos,
latas e latas de conserva; e outros traziam perus e leitões, canastras
d’ovos, quartos de carneiro e de porco.
E as janelas do sobrado iam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente,
saído do fogo, e travessões, de barro e
de ferro, com grandes peças de carne em vinha d’alhos, prontos para entrar no
forno. À porta da cozinha penduraram
pelo pescoço um cabrito esfolado, que tinha as pernas abertas, lembrando
sinistramente uma criança a quem
enforcassem depois de tirar-lhe a pele.
Todavia, cá embaixo, um caso palpitante agitava a
estalagem: Domingos, o sedutor da Florinda, desaparecera durante a noite e um novo caixeiro o substituía ao balcão.
O vendeiro retorquia atravessado a quem lhe
perguntava pelo evadido:
— Sei cá! Creio que não podia trazê-lo pendurado ao
pescoço!...
— Mas você disse que respondia por ele! repontou
Marciana, que parecia ter envelhecido dez anos naquelas últimas vinte e quatro horas.
— De acordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos
de fazer?... É ter paciência!
— Pois então ande com o dote!
— Que dote? Você está bêbeda?
— Bêbeda, hein? Ah, corja! tão bom é um como o
outro! Mas eu hei de mostrar!
— Ora, não me amole!
E João Romão virou-lhe as costas, para falar à
Bertoleza que se chegara.
— Deixa estar, malvado, que Deus é quem há de punir
por mim e por minha filha! exclamou a desgraçada.
Mas o vendeiro afastou-se, indiferente às frases
que uma ou outra lavadeira imprecava contra ele. Elas, porém, já se não mostravam tão indignadas como na véspera;
uma só noite rolada por cima do escândalo bastava para tirar-lhe o mérito
de novidade.
Marciana foi com a pequena à procura do subdelegado
e voltou aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer enquanto não aparecesse o delinqüente. Mãe e
filha passaram todo esse sábado na rua, numa roda-viva, da secretaria e
das estações de polícia para o
escritório de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto dispunham
para gastar com o processo, despachando-as, sem mais considerações, logo que se
inteiravam da escassez de recursos de ambas as partes.
Quando as duas, prostradas de cansaço, esbraseadas
de calor, tornaram à tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali moravam, recolhiam-se já
com os balaios vazios ou com o resto da fruta que não conseguiram vender
na cidade, Marciana vinha tão furiosa
que, sem dar palavra à filha e com os braços moídos de esbordoá-la, abriu toda
a casa e correu a buscar água para
baldear o chão. Estava possessa.
Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto uma
porcaria! Parece que nunca se limpa o diabo desta casa! É deixá-la fechada uma hora e morre-se de fedor! Apre!
isto faz peste!
E notando que a pequena chorava:
— Agora deste para chorar, hein? mas na ocasião do
relaxamento havias de estar bem disposta!
A filha soluçou.
— Cala-te, coisa-ruim! Não ouviste?
Florinda soluçou mais forte.
— Ah! choras sem motivo?... Espera, que te faço
chorar com razão.
E precipitou-se sobre ela com uma acha de lenha.
Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e
atravessou de uma só carreira o pátio da estalagem, fugindo em desfilada pela rua.
Ninguém teve tempo de apanhá-la, e um clamor de
galinheiro assustado levantou-se entre as lavadeiras.
Marciana foi até o portão, como uma doida e,
compreendendo que a filha a abandonava, desatou por sua vez a soluçar, de braços abertos, olhando para o espaço. As
lágrimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E logo, sem transição, disparou da cólera, que a convulsionava desde a manhã da
véspera, para cair numa dor humilde enternecida de mãe que perdeu o filho.
— Para onde iria ela, meu pai do céu?
— Pois você desd’ontem que bate na rapariga!...
disse-lhe a Rita. Fugiu-lhe, é bem feito! Que diabo! ela é de carne, não é
de ferro!
— Minha filha!
— É bem feito! Agora chore na cama que é lugar
quente!
— Minha filha! Minha filha! Minha filha!
Ninguém quis tomar o partido da infeliz, à exceção
da cabocla velha, que foi colocar-se perto dela, fitando-a imóvel, com o seu desvairado olhar de bruxa feiticeira.
Marciana arrancou-se da abstração plangente em que
caíra, para arvorar-se terrível defronte da venda, apostrofando com a mão no ar e a carapinha desgrenhada:
— Este galego e que teve a culpa de tudo! Maldito
sejas tu, ladrão! Se não me deres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa.
A bruxa sorriu sinistramente ao ouvir estas últimas
palavras.
O vendeiro chegou à porta e ordenou em tom seco à
Marciana que despejasse o número 12.
— É andar! É andar! Não quero esta berraria aqui!
Bico, ou chamo um urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã — rua!
Ah! ele esse dia estava intolerante com tudo e com
todos; por mais de uma vez mandara Bertoleza à coisa mais imunda, apenas porque esta lhe fizera algumas
perguntas concernentes ao serviço. Nunca o tinha visto assim, tão fora de si,
tão cheio de repelões; nem parecia
aquele mesmo homem inalterável, sempre calmo e metódico.
E ninguém seria capaz de acreditar que a causa de
tudo isso era o fato de ter sido o Miranda agraciado com o titulo de Barão.
Sim, senhor! aquele taverneiro, na aparência tão
humilde e tão miserável; aquele sovina que nunca saíra dos seus tamancos e da sua camisa de riscadinho de Angola;
aquele animal que se alimentava pior que os cães, para pôr de parte tudo, tudo,
que ganhava ou extorquia; aquele ente
atrofiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus privilégios e
sentimentos de homem; aquele
desgraçado, que nunca jamais amara senão o dinheiro, invejava agora o Miranda,
invejava-o deveras, com dobrada
amargura do que sofrera o marido de Dona Estela, quando, por sua vez, o
invejara a ele. Acompanhara-o desde que
o Miranda viera habitar o sobrado com a família; vira-o nas felizes
ocasiões da vida, cheio de importância, cercado de amigos e rodeado de aduladores; vira-o dar festas e
receber em sua casa as figuras mais salientes da praça e da política; vira-o
luzir, como um grosso pião de ouro,
girando por entre damas da melhor e mais fina sociedade fluminense; vira-o
meter-se em altas especulações
comerciais e sair-se bem; vira seu nome figurar em várias corporações de gente
escolhida e em subscrições, assinando
belas quantias; vira-o fazer parte de festas de caridade e festas de regozijo
nacional; vira-o elogiado pela imprensa e aclamado como homem de vistas largas
e grande talento financeiro; vira-o enfim em todas as suas prosperidades, e
nunca lhe tivera inveja. Mas agora,
estranho deslumbramento! quando o vendeiro leu no "Jornal do
Comércio" que o vizinho estava
barão — Barão! — sentiu tamanho calafrio em todo o corpo, que a vista
por um instante se lhe apagou dos olhos.
— Barão!
E durante todo o santo dia não pensou noutra coisa.
"Barão!... Com esta é que ele não contava!..." E, defronte da sua preocupação, tudo se convertia em comendas e
crachás; até os modestos dois vinténs de manteiga, que media sobre um pedaço de papel de embrulho para dar ao
freguês, transformava-se, de simples mancha amarela, em opulenta insígnia de
ouro cravejada de brilhantes.
À noite, quando se estirou na cama, ao lado da
Bertoleza, para dormir, não pôde conciliar o sono. Por toda a miséria
daquele quarto sórdido; pelas paredes
imundas, pelo chão enlameado de poeira e sebo, nos tetos funebremente velados
pelas teias de aranha, estrelavam
pontos luminosos que se iam transformando em grã-cruzes, em hábitos e veneras
de toda a ordem e espécie. E em volta
do seu espírito, pela primeira vez alucinado, um turbilhão de grandezas que ele
mal conhecia e mal podia imaginar,
perpassou vertiginosamente, em ondas de seda e rendas, velado e pérolas, colos
e braços de mulheres seminuas, num
fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos cor-de-ouro. E nuvens de caudas
de vestidos e abas de casaca lá iam,
rodando deliciosamente, ao som de langorosas valsas e à luz de
candelabros de mil velas de todas as cores. E carruagens desfilavam reluzentes, com uma coroa à
portinhola, o cocheiro teso, de libré, sopeando parelhas de cavalos grandes. E intermináveis mesas estendiam-se, serpenteando
a perder de vista, acumuladas de iguarias, numa encantadora confusão de flores, luzes, baixelas e cristais, cercadas
de um e de outro lado por luxuoso renque de convivas, de taça em punho,
brindando o anfitrião.
E, porque nada disso o vendeiro conhecia de perto,
mas apenas pelo ruído namorador e fátuo, ficava deslumbrado com o seu próprio sonho. Tudo aquilo, que agora lhe
deparava o delírio, até ai só lhe passara pelos olhos ou lhe chegara aos
ouvidos como o eco e reflexo de um
mundo inatingível e longínquo; um mundo habitado por seres superiores; um
paraíso de gozos excelentes e
delicados, que os seus grosseiros sentidos repeliam; um conjunto harmonioso e
discreto de sons e cores mal definidas
e vaporosas; um quadro de manchas pálidas, sussurrantes, sem firmezas de
tintas, nem contornos, em que se não
determinava o que era pétala de rosa ou asa de borboleta, murmúrio de
brisa ou ciciar de beijos.
Não obstante, ao lado dele a crioula roncava, de
papo para o ar, gorda, estrompada de serviço, tresandando a uma mistura de suor
com cebola crua e gordura podre.
Mas João Romão nem dava por ela; só o que ele via e
sentia era todo aquele voluptuoso mundo inacessível vir descendo para a terra, chegando-se para o seu alcance,
lentamente, acentuando-se. E as dúbias sombras tomavam forma, e as vozes duvidosas e confusas transformavam-se em
falas distintas, e as linhas desenhavam-se nítidas, e tudo se ia esclarecendo e
tudo se aclarava, num reviver de
natureza ao raiar do sol. Os tênues murmúrios suspirosos desdobravam-se em
orquestra de baile, onde se distinguiam
instrumentos, e os surdos rumores indefinidos eram já animadas conversas, em
que damas e cavalheiros discutiam
política, artes, literatura e ciência. E uma vida inteira, completa, real, descortinou-se
amplamente defronte dos seus olhos
fascinados; uma vida fidalga, de muito luxo, de muito dinheiro; uma vida de
palácio, entre mobílias preciosas e objetos
esplêndidos, onde ele se via cercado de titulares milionários, e homens
de farda bordada, a quem tratava por tu, de igual para igual, pondo-lhes a mão no ombro. E ali ele
não era, nunca fora, o dono de um cortiço, de tamancos e em mangas de
camisa; ali era o Sr. Barão! O Barão do
ouro! o Barão das grandezas! o Barão dos milhões! Vendeiro! Qual! era o famoso,
o enorme capitalista! o proprietário sem igual! o incomparável banqueiro, em
cujos capitais se equilibrava a terra, como imenso globo em cima de colunas feitas de moedas de ouro. E
viu-se logo montado a cavaleiras sobre o mundo, pretendendo abarcá-lo com
as suas pernas curtas; na cabeça uma
coroa de rei e na mão um cetro. E logo, de todos os cantos do quarto, começaram
a jorrar cascatas de libras esterlinas,
e a seus pés principiou a formar-se um formigueiro de pigmeus em grande movimento
comercial; e navios descarregavam pilhas e pilhas de fardos e caixões marcados
com as iniciais do seu nome; e telegramas faiscavam eletricamente em volta da sua cabeça; e paquetes de todas as
nacionalidades giravam vertiginosamente em torno do seu corpo de colosso, arfando e apitando sem trégua; e
rápidos comboios a vapor atravessam-no todo, de um lado a outro, como se o cosessem com uma cadeia de vagões.
Mas, de repente, tudo desapareceu com a seguinte
frase:
— Acorda, seu João, para ir à praia. São horas!
Bertoleza chamava-o aquele domingo, como todas as
manhãs, para ir buscar o peixe, que ela tinha de preparar para os seus fregueses. João Romão, com medo de ser
iludido, não confiava nunca aos empregados a menor compra a dinheiro; nesse
dia, porém, não se achou com animo de
deixar a cama e disse à amiga que mandasse o Manuel.
Seriam quatro da madrugada. Ele conseguiu então
passar pelo sono.
Às seis estava de pé. Defronte, a casa do Miranda
resplandecia já. Içaram-se bandeiras nas janelas da frente; mudaram-se as cortinas, armaram-se florões de murta à
entrada e recamaram-se de folhas de mangueira o corredor e a calçada. Dona
Estela mandou soltar foguetes e queimar
bombas ao romper da alvorada. Uma banda de música, em frente à porta do sobrado, tocava desde essa hora. O Barão madrugara
com a família; todo de branco, com uma gravata de rendas, brilhantes no
peito da camisa, chegava de vez em
quando a uma das janelas, ao lado da mulher ou da filha, agradecendo para a
rua; e limpava a testa com o lenço;
acendia charutos, risonho, feliz, resplandecente.
João Romão via tudo isto com o coração moído.
Certas dúvidas aborrecidas entravam-lhe agora a roer por dentro: qual
seria o melhor e o mais acertado: — ter
vivido como ele vivera até ali, curtindo privações, em tamancos e mangas de
camisa; ou ter feito como o Miranda,
comendo boas coisas e gozando à farta?... Estaria ele, João Romão, habilitado a
possuir e desfrutar tratamento igual ao
do vizinho?... Dinheiro não lhe faltava para isso... Sim, de acordo! mas teria
animo de gastá-lo assim, sem mais nem
menos?... sacrificar uma boa porção de contos de réis, tão penosamente
acumulados, em troca de uma tetéia para o
peito?... Teria animo de dividir o que era seu, tomando esposa, fazendo
família; e cercando-se de amigos?... Teria animo de encher de finas iguarias e vinhos preciosos a barriga dos outros,
quando até ali fora tão pouco condescendente para com a própria?... E, caso resolvesse mudar de vida
radicalmente, unir-se a uma senhora bem-educada e distinta de maneiras,
montar um sobrado como o do Miranda e
volver-se titular, estaria apto para o fazer?... Poderia dar conta do
recado?... Dependeria tudo isso somente
da sua vontade?... "Sem nunca ter vestido um paletó, como vestiria uma
casaca?... Com aqueles pés, deformados
pelo diabo dos tamancos, criados à solta, sem meias, como calçaria sapatos de
baile?... E suas mãos, calosas e
maltratadas, duras como as de um cavouqueiro, como se ajeitariam com a
luva?... E isso ainda não era tudo! O mais difícil seria o que tivesse de dizer aos seus convidados!... Como deveria
tratar as damas e cavalheiros, em meio de um grande salão cheio de espelhos e cadeiras douradas?...
Como se arranjaria para conversar, sem dizer barbaridades?..."
E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o
coração, um desejo forte de querer saltar e um medo invencível de cair e quebrar as pernas. Afinal, a dolorosa
desconfiança de si mesmo e a terrível convicção da sua impotência para
pretender outra coisa que não fosse ajuntar
dinheiro, e mais dinheiro, e mais ainda, sem saber para que e com que fim,
acabaram azedando-lhe de todo a alma e tingindo de fel a sua ambição e
despolindo o seu ouro.
"Fora uma besta!... pensou de si próprio,
amargurado: Uma grande besta!... Pois não! por que em tempo não tratara de habituar-se logo a certo modo de viver, como
faziam tantos outros seus patrícios e colegas de profissão?... Por que,
como eles, não aprendera a dançar? e
não freqüentar sociedades carnavalescas? e não fora de vez em quando à Rua do
Ouvidor e aos teatros e bailes, e
corridas e a passeios?... Por que se não habituara com as roupas finas, e com o
calçado justo, e com a bengala, e com o
lenço, e com o charuto, e com o chapéu, e com a cerveja, e com tudo que os
outros usavam naturalmente, sem
precisar de privilégio para isso?... Maldita economia!"
— Teria gasto mais, é verdade!... Não estaria tão
bem!... mas, ora adeus! estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem quisesse!... Seria um homem
civilizado!...
— Você deu hoje para conversar com as almas, seu
João?... perguntou-lhe Bertoleza, notando que ele falava sozinho, distraído do serviço.
— Deixe! Não me amole você também. Não estou bom
hoje!
— Ó gentes! não falei por mal!... Credo!
— ’Stá bem! Basta!
E o seu mau humor agravou-se pelo correr do dia.
Começou a implicar com tudo. Arranjou logo uma pega, à entrada da venda, com o fiscal da rua: "Pois ele
era lá algum parvo, que tivesse medo de ameaças de multas?... Se o bolas do
fiscal esperava comê-lo por uma perna,
como costumava fazer com os outros, que experimentasse, para ver só quanto lhe
custaria a festa!... E que lhe não rosnasse muito, que ele não gostava de cães
à porta!... Era andar!" Pegou-se depois com a Machona, por causa de um gato desta, que, a semana
passada, lhe fora ao tabuleiro do peixe frito. Parava defronte das tinas
vazias, encolerizado, procurando
pretextos para ralhar. Mandava, com um berro, saírem as crianças de seu
caminho: "Que praga de piolhos!
Arre, demônio! Nunca vira gente tão danada para parir! Pareciam ratas!"
Deu um encontrão no velho Libório.
— Sai tu também do caminho, fona de uma figa! Não
sei que diabo fica fazendo cá no mundo um caco velho como este, que já não presta pra nada!
Protestou contra os galos de um alfaiate, que se
divertia a fazê-los brigar, no meio de grande roda entusiasmada e
barulhenta. Vituperou os italianos,
porque estes, na alegre independência do domingo, tinham à porta da casa uma
esterqueira de cascas de melancia e
laranja, que eles comiam tagarelando, assentados sobre a janela e a calçada.
— Quero isto limpo! bramava furioso. Está pior que
um chiqueiro de porcos! Apre! Tomara que a febre amarela os lamba a todos! maldita raça de carcamanos! Hão de
trazer-me isto asseado ou vai tudo para o olho da rua! Aqui mando eu!
Com a pobre velha Marciana, que não tratara de
despejar o número 12, conforme a intimação da véspera, a sua fúria tocou ao delírio. A infeliz, desde que Florinda
lhe fugira, levava a choramingar e maldizer-se, monologando com persistência
maníaca. Não pregou olho durante toda a noite; saíra e entrara na estalagem
mais de vinte vezes, irrequieta, ululando, como uma cadela a quem roubaram o cachorrinho.
Estava apatetada; não respondia às perguntas que
lhe dirigiam. João Romão falou-lhe; ela nem sequer se voltou para ouvir. E o
vendeiro, cada vez mais excitado, foi buscar dois homens e ordenou que
esvaziassem o numero 12.
— Os tarecos fora! e já! Aqui mando eu! Aqui sou eu
o monarca!
E tinha gestos inflexíveis de déspota.
Principiou o despejo.
— Não! aqui dentro não! Tudo lá fora! na rua!
gritou ele, quando os carregadores quiseram depor no pátio os trens de Marciana. Lá fora do portão! Lá fora do
portão!
E a mísera, sem opor uma palavra, assistia ao
despejo acocorada na rua, com os joelhos juntos, as mãos cruzadas sobre as canelas, resmungando. Transeuntes paravam a
olhá-la. Formava-se já um grupo de curiosos. Mas ninguém entendia o que
ela rosnava; era um rabujar confuso,
interminável, acompanhado de um único gesto de cabeça, triste e automático. Ali
perto, o colchão velho, já roto e
destripado, os móveis desconjuntados e sem verniz, as trouxas de molambos
úteis, as louças ordinárias e sujas do
uso, tinham, tudo amontoado e sem ordem, um ar indecoroso de interior de quarto
de dormir, devassado em flagrante
intimidade. E veio o homem dos cinco instrumentos, que, aos domingos, aparecia
sempre; e fez-se o entra-e-sai dos
mercadores; e lavadeiras ganharam a rua em trajos de passeio, e os tabuleiros
de roupa engomada, que saiam,
cruzaram-se com os sacos de roupa suja, que entravam; e Marciana não se
movia do seu lugar, monologando. João Romão
percorreu o número 12, escancarando as portas, a dar arres e empurrando
para fora, com o pé, algum trapo ou algum frasco vazio que lá ficara abandonado; e a enxotada, indiferente a tudo,
continuava a sussurrar funebremente. Já não chorava, mas os olhos tinha-os ainda relentados na sua muda
fixidez. Algumas mulheres da estalagem iam ter com ela de vez em quando,
agora de novo compungidas, e faziam-lhe
oferecimentos, Marciana não respondia. Quiseram obrigá-la a comer; não houve
meio. A desgraçada não prestava atenção
a coisa alguma, parecia não dar pela presença de ninguém. Chamaram-na pelo nome repetidas vezes; ela persistia no seu ininteligível
monólogo, sem tirar a vista de um ponto.
— Cruzes! parece que lhe deu alguma!
— A Augusta chegara-se também.
— Teria ensandecido?... perguntou à Rita, que, a
seu lado, olhava para a infeliz, com um prato de comida na mão. Coitada!
— Tia Marciana! dizia a mulata. Não fique assim!!
Levante-se! Meta os seus trens pra dentro! Vá lá pra casa até encontrar arrumação!...
Nada! O monólogo continuava.
— Olhe que vai chover! Não tarda a cair água! Já
senti dois pingos na cara.
Qual!
A Bruxa, a certa distancia, fitava-a com
estranheza, igualmente imóvel, como um efeito de sugestão.
Rita afastou-se, porque acabava de chegar o Firmo,
acompanhado pelo Porfiro, trazendo ambos embrulhos para o jantar. O amigo da das Dores também veio. Deram três
horas da tarde. A casa do Miranda continuava em festa animada cada vez
mais cheia de visitas; lá dentro a
música quase que não tomava fôlego, enfiando quadrilhas e valsas; moças e
meninas dançavam na sala da frente, com
muito riso; desarrolhavam-se garrafas a todo instante; os criados iam e vinham,
de carreira, da sala de jantar à
despensa e à cozinha, carregados de copos em salvas; Herinque, suado e
vermelho, aparecia de quando em quando à
janela, impaciente por não ver Pombinha, que estava esse dia de passeio
com a mãe em casa de Léonie.
João Romão, depois de serrazinar na venda com os
caixeiros e com a Bertoleza, tornou ao pátio da estalagem queixando-se de que tudo ali ia muito mal. Censurou os
trabalhadores da pedreira, nomeando o próprio Jerônimo, cuja força física aliás
o intimidara sempre. "Era um
relaxamento aquela porcaria de serviço! Havia três semanas que estava com uma
broca à-toa, sem atar, nem desatar; afinal ai chegara o domingo e não se havia
ainda lascado fogo! Uma verdadeira calaçaria! O tal seu Jerônimo, dantes tão apurado, era agora o
primeiro a dar o mau exemplo! perdia noites no samba! não largava os rastros
da Rita Baiana e parecia embeiçado por
ela! Não tinha jeito!" Piedade, ouvindo o vendeiro dizer mal do seu homem,
saltou em defesa deste com duas pedras
na mão, e uma contenda travou-se, assanhando todos os ânimos. Felizmente, a
chuva, caindo em cheio, veio dispersar
o ajuntamento que se tornava sério. Cada um correu para o seu buraco, num
alvoroço exagerado; as crianças despiram-se
e vieram cá fora tomar banho debaixo das goteiras, por pagode, gritando, rindo,
saltando e atirando-se ao chão, a
espernearem; fingindo que nadavam. E lá defronte, no sobrado, ferviam brindes,
enquanto a água jorrava copiosamente,
alagando o pátio.
Quando João Romão entrou na venda, recolhendo-se da
chuva, um caixeiro entregou-lhe um cartão de Miranda. Era um convite para lá ir à noite tomar uma chávena
de chá.
O vendeiro, a principio, ficou lisonjeado com o
obséquio, primeiro desse gênero que em sua vida recebia; mas logo depois voltou-lhe a cólera com mais ímpeto ainda.
Aquele convite irritava-o como um ultraje, uma provocação. "Por que o
pulha o convidara, devendo saber que
ele decerto lá não ia?... Para que, se não para o enfrenesiar ainda mais do que
já estava?!... Seu Miranda que fosse à tábua com a sua festa e com os seus
títulos!"
— Não preciso dele para nada!... exclamou o
vendeiro. Não preciso, nem dependo de nenhum safardana! Se gostasse de festas, dava-as eu!
No entanto, começou a imaginar como seria, no caso
que estivesse prevenido de roupa e aceitasse o convite: figurou-se bem vestido, de pano fino, com uma boa cadeia de
relógio, uma gravata com alfinete de brilhantes; e viu-se lá em cima, no meio
da sala, a sorrir para os lados,
prestando atenção a um, prestando atenção a outro, discretamente silencioso e
afável, sentindo que o citavam dos lados em voz mortiça e respeitosa como um
homem rico, cheio de independência. E adivinhava os olhares aprobativos das pessoas sérias; os óculos
curiosos das velhas assestados sobre ele, procurando ver se estaria ali um
bom arranjo para uma das filhas de
menor cotação.
Nesse dia serviu mal e porcamente aos fregueses;
tratou aos repelões a Bertoleza e, quando, já as cinco horas, deu com a Marciana, que, uns negros por compaixão
haviam arrastado para dentro da venda, disparatou:
— Ora bolas! pra que diabo me metem em casa este
estupor?! Gosto de ver tais caridades com o que é dos outros! Isto aqui não é acoito de vagabundos!...
E, como um polícia, todo encharcado de chuva,
entrasse para beber um gole de parati, João Romão voltou-se para ele e disse-lhe:
— Camarada, esta mulher é gira! não tem domicilio,
e eu não hei de, quando fechar a porta, ficar com ela aqui dentro da venda!
O soldado saiu e, daí a coisa de uma hora, Marciana
era carregada para o xadrez, sem o menor protesto e sem interromper o seu monólogo de demente. Os cacaréus foram
recolhidos ao depósito público por ordem do inspetor do quarteirão. E a Bruxa
era a única que parecia deveras impressionada com tudo aquilo.
Entretanto, a chuva cessou completamente, o sol
reapareceu, como para despedir-se: andorinhas esgaivotaram no ar; e o cortiço palpitou inteiro na trêfega alegria
do domingo. Nas salas do barão a festa engrossava, cada vez mais estrepitosa;
de vez em quando vinha de lá uma taça quebrar-se no pátio da estalagem,
levantando protestos e surriadas.
A noite chegou muito bonita, com um belo luar de
lua cheia, que começou ainda com o crepúsculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo que de costume, incitado
pela grande animação que havia em casa do Miranda.
Foi um forrobodó valente. A Rita Baiana essa noite
estava de veia para a coisa; estava inspirada; divina! Nunca dançara com tanta graça e tamanha lubricidade!
Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca
de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de
volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo
gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num
desespero de luxúria que penetrava até ao tutano com línguas finíssimas de
cobra.
Jerônimo não pôde conter-se: no momento em que a
baiana, ofegante de cansaço, caiu exausta, assentando-se ao lado dele, o
português segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão:
— Meu bem! se você quiser estar comigo, dou uma
perna ao demo!
O mulato não ouviu, mas notou o cochicho e ficou,
de má cara, a rondar disfarçadamente o rival.
O canto e a dança continuavam todavia, sem
afrouxar. Entrou a das Dores. Nenen, mais uma amiga sua, que fora passar o
dia com ela, rodavam de mãos nas
cadeiras, rebolando em meio de uma volta de palmas cadenciadas, no
acompanhamento do ritmo requebrado da
música.
Quando o marido de Piedade disse um segundo
cochicho à Rita, Firmo precisou empregar grande esforço para não ir logo
às do cabo.
Mas, lá pelo meio do pagode, a baiana caíra na
imprudência de derrear-se toda sobre o português e soprar-lhe um segredo, requebrando os olhos. Firmo, de um salto,
aprumou-se então defronte dele, medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido. Jerônimo, também
posto de pé, respondeu altivo com um gesto igual. Os instrumentos
calaram-se logo. Fez-se um profundo
silêncio. Ninguém se mexeu do lugar em que estava. E, no meio da grande roda,
iluminados amplamente pelo capitoso
luar de abril, os dois homens, perfilados defronte um do outro, olhavam-se em
desafio.
Jerônimo era alto, espadaúdo, construção de touro,
pescoço de Hércules, punho de quebrar um coco com um murro: era a força tranqüila, o pulso de chumbo. O outro,
franzino, um palmo mais baixo que o português, pernas e braços secos,
agilidade de maracajá: era a força
nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobressalto do primeiro
instante. Um, sólido e resistente; o
outro, ligeiro e destemido, mas ambos corajosos.
— Senta! Senta!
— Nada de rolo!
— Segue a dança, gritaram em volta.
Piedade erguera-se para arredar o seu homem dali.
O cavouqueiro afastou-a com um empurrão, sem tirar
a vista de cima do mulato.
— Deixa-me ver o que quer de mim este cabra!...
rosnou ele.
— Dar-te um banho de fumaça, galego ordinário!
respondeu Firmo, frente a frente; agora avançando e recuando, sempre com um dos
pés no ar, e bamboleando todo o corpo e meneando os braços, como preparado para
agarrá-lo.
Jerônimo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o
adversário com um soco armado; o cabra, porém, deixou-se cair de costas, rapidamente, firmando-se nas mãos o
corpo suspenso, a perna direita levantada; e o soco passou por cima, varando
o espaço, enquanto o português apanhava
no ventre um pontapé inesperado.
— Canalha! berrou possesso; e ia precipitar-se em
cheio sobre o mulato, quando uma cabeçada o atirou no chão.
— Levanta-se, que não dou em defuntos! exclamou o
Firmo, de pé, repetindo a sua dança de todo o corpo.
O outro erguera-se logo e, mal se tinha
equilibrado, já uma rasteira o tombava para a direita, enquanto da esquerda ele
recebia uma tapona na orelha. Furioso, desferiu novo soco, mas o capoeira deu
para trás um salto de gato e o português sentiu um pontapé nos queixos.
Espirrou-lhe sangue da boca e das ventas. Então
fez-se um clamor medonho. As mulheres quiseram meter-se de permeio, porém o cabra as emborcava com rasteiras
rápidas, cujo movimento de pernas apenas se percebia. Um horrível sarilho
se formava. João Romão fechou às
pressas as portas da venda e trancou o portão da estalagem, correndo depois
para o lugar da briga. O Bruno, os mascates, os trabalhadores da pedreira, e
todos os outros que tentaram segurar o mulato, tinham rolado em torno dele,
formando-se uma roda limpa, no meio da qual o terrível capoeira, fora de si,
doido, reinava, saltando a um tempo
para todos os lados, sem consentir que ninguém se aproximasse. O terror
arrancava gritos agudos. Estavam já todos
assustados, menos a Rita que, a certa distância, via, de braços
cruzados, aqueles dois homens a se baterem por causa dela; um ligeiro sorriso
encrespava-lhe os lábios. A lua escondera-se: mudara o tempo; o céu, de limpo
que estava, fizera-se cor de lousa;
sentia-se um vento úmido de chuva. Piedade berrava reclamando polícia; tinha
levado um troca-queixos do marido,
porque insistia em tirá-lo da luta. As janelas do Miranda acumulavam-se
de gente. Ouviam-se apitos, soprados com
desespero.
Nisto, ecoou na estalagem um bramido de fera
enraivecida: Firmo acabava de receber, sem esperar, uma formidável
cacetada na cabeça. É que Jerônimo
havia corrido à casa e armara-se com o seu varapau minhoto. E então o mulato,
com o rosto banhado de sangue,
refilando as presas e espumando de cólera, erguera o braço direito, onde se viu
cintilar a lamina de uma navalha.
Fez-se uma debandada em volta dos dois adversários,
estrepitosa, cheia de pavor. Mulheres e homens atropelavam-se, caindo uns por
cima dos outros. Albino perdera os sentidos; Piedade clamava, estarrecida e em
soluços, que lhe iam matar o homem; a
das Dores soltava censuras e maldições contra aquela estupidez de se
destriparem por causa de entrepernas de mulher; a Machona, armada com um ferro de engomar, jurava abrir as fuças a
quem lhe desse um segundo coice como acabava ela de receber um nas ancas; Augusta enfiara pela porta do fundo da
estalagem, para atravessar o capinzal e ir à rua ver se descobria o marido, que talvez estivesse de serviço no
quarteirão. Por esse lado acudiam curiosos e o pátio enchia-se de gente de
fora. Dona Isabel e Pombinha, de volta
da casa de Léonie, tiveram dificuldade em chegar ao número 15, onde, mal
entraram, fecharam-se por dentro,
praguejando a velha contra a desordem e lamentando-se da sorte que as lançou
naquele inferno. Entanto, no meio de
uma nova roda, encintada pelo povo, o português e o brasileiro batiam-se.
Agora a luta era regular: havia igualdade de
partidos, porque o cavouqueiro jogava o pau admiravelmente; jogava-o tão
bem quanto o outro jogava a sua
capoeiragem. Embalde Firmo tentava alcançá-lo; Jerônimo, sopesando ao meio a
grossa vara na mão direita, girava-a com
tal perícia e ligeireza em torno do corpo, que parecia embastilhado por uma teia
impenetrável e sibilante. Não se lhe
via a arma; só se ouvia um zunido do ar simultaneamente cortado em todas as
direções.
E, ao mesmo tempo que se defendia, atacava. O
brasileiro tinha já recebido pauladas na testa, no pescoço, nos ombros,
nos braços, no peito, nos rins e nas
pernas. O sangue inundava-o inteiro; ele rugia e arfava, iroso e cansado,
investindo ora com os pés, ora com a cabeça, e livrando-se daqui, livrando-se
dali, aos pulos e às cambalhotas.
A vitória pendia para o lado do português. Os
espectadores aclamavam-no já com entusiasmo; mas, de súbito, o capoeira mergulhou, num relance, até as canelas do
adversário e surgiu-lhe rente dos pés, grupado nele, rasgando-lhe o ventre com
uma navalhada.
Jerônimo soltou um mugido e caiu de borco,
segurando os intestinos.
— Matou! Matou! Matou! exclamaram todos com
assombro.
Os apitos esfuziaram mais assanhados.
Firmo varou pelos fundos do cortiço e desapareceu
no capinzal.
— Pega! Pega!
— Ai, o meu rico homem! ululou Piedade, atirando-se
de joelhos sobre o corpo ensangüentado do marido. Rita viera também de carreira lançar-se ao chão junto dele,
para lhe afagar as barbas e os cabelos.
— É preciso o doutor! suplicou aquela, olhando para
os lados à procura de uma alma caridosa que lhe valesse.
Mas nisto um estardalhaço de formidáveis pranchadas
estrugiu no portão da estalagem. O portão abalou com estrondo e gemeu.
— Abre! Abre! reclamavam de fora.
João Romão atravessou o pátio, como um general em
perigo, gritando a todos:
— Não entra a polícia! Não deixa entrar! Agüenta!
Agüenta!
— Não entra! Não entra! repercutiu a multidão em
coro.
E todo o cortiço ferveu que nem uma panela ao fogo.
— Agüenta! Agüenta!
Jerônimo foi carregado para o quarto, a gemer, nos
braços da mulher e da mulata.
— Agüenta! Agüenta!
De cada casulo espipavam homens armados de pau,
achas de lenha, varais de ferro. Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se
ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira
vez. Enquanto se tratava de uma simples
luta entre dois rivais, estava direito! "Jogassem lá as cristas, que o
mais homem ficaria com a mulher!" mas agora tratava-se de defender a
estalagem, a comuna, onde cada um tinha a zelar por alguém ou alguma coisa querida.
— Não entra! Não entra!
E berros atroadores respondiam às pranchadas, que
lá fora se repetiam ferozes.
A polícia era o grande terror daquela gente,
porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropício;
à capa de evitar e punir o jogo e a
bebedeira, os urbanos invadiam os quartos, quebravam o que lá estava, punham
tudo em polvorosa. Era uma questão de
ódio velho.
E, enquanto os homens guardavam a entrada do
capinzal e sustentavam de costas o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas, arrancavam
jiraus, arrastavam carroças, restos de colchões e sacos de cal, formando às
pressas uma barricada.
As pranchadas multiplicavam-se. O portão rangia,
estalava, começava a abrir-se; ia ceder. Mas a barricada estava feita e todos entrincheirados atrás dela. Os que
entravam de fora por curiosidade não puderam sair e viam-se metidos no surumbamba. As cercas das hortas voaram A
Machona terrível fungara as saias e empunhava na mão o seu ferro de
engomar. A das Dores, que ninguém dava
nada por ela, era uma das mais duras e que parecia mais empenhada na defesa.
Afinal o portão lascou; um grande rombo abriu-se
logo; caíram tábuas; e os quatro primeiros urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos a pedradas e garrafas
vazias. Seguiram-se outros. Havia uns vinte. Um saco de cal, despejado
sobre eles, desnorteou-os.
Principiou então o salseiro grosso. Os sabres não
podiam alcançar ninguém por entre a trincheira; ao passo que os projetis, arremessados lá de dentro, desbaratavam o
inimigo. Já o sargento tinha a cabeça partida e duas praças abandonavam o campo, à falta de ar.
Era impossível invadir aquele baluarte com tão
poucos elementos, mas a polícia teimava, não mais por obrigação que por necessidade pessoal de desforço. Semelhante
resistência os humilhava. Se tivessem espingardas fariam fogo. O único
deles que conseguiu trepar à barricada
rolou de lá abaixo sob uma carga de pau que teve de ser carregado para a rua
pelos companheiros. O Bruno, todo sujo
de sangue, estava agora armado de um refle e o Porfiro, mestre na capoeiragem,
tinha na cabeça uma barretina de
urbano.
— Fora os morcegos!
— Fora! Fora!
E, a cada exclamação, tome pedra! tome lenha! tome
cal! tome fundo de garrafa!
Os apitos estridulavam mais e mais fortes.
Nessa ocasião, porém, Nenen gritou, correndo na
direção da barricada.
— Acudam aqui! Acudam aqui! Há fogo no número 12.
Está saindo fumaça!
— Fogo!
A esse grito um pânico geral apoderou-se dos
moradores do cortiço. Um incêndio lamberia aquelas cem casinhas enquanto o diabo esfrega um olho!
Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em
salvar o que era seu. E os policiais, aproveitando o terror dos adversários, avançaram com ímpeto, levando
na frente o que encontravam e penetrando enfim no infernal reduto, a dar espadeiradas para a direita e para a
esquerda, como quem destroça uma boiada. A multidão atropelava-se,
desembestando num alarido. Uns fugiam à
prisão; outros cuidavam em defender a casa. Mas as praças, loucas de cólera,
metiam dentro as portas e iam invadindo
e quebrando tudo, sequiosas de vingança.
Nisto, roncou no espaço a trovoada. O vento do
norte zuniu mais estridente e um grande pé-d’água desabou cerrado.
XI
A Bruxa, por influência sugestiva da loucura de
Marciana, piorou do juízo e tentou incendiar o cortiço.
Enquanto os companheiros o defendiam a unhas e
dentes, ela, com todo o disfarce, carregava palha e sarrafos para o número 12 e preparava uma fogueira. Felizmente
acudiram a tempo; mas as conseqüências foram do mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando
como aquela ao fogo, não escaparam à devastação da polícia. Algumas
ficaram completamente assoladas. E a
coisa seria ainda mais feia, se não viera o providencial aguaceiro apagar
também o outro incêndio ainda pior,
que, de parte a parte, lavrava nos ânimos. A polícia retirou-se sem levar
nenhum preso. "A ir um iriam todos
à estação! Deus te livre! Demais, para quê? o que ela queria fazer, fez! Estava
satisfeita!"
Apesar do empenho do João Romão, ninguém conseguiu
descobrir o autor da sinistra tentativa, e só muito tarde cada qual cuidou de pregar olho, depois de reacomodar,
entre plangentes lamentações, o que se salvou do destroço. O tempo
levantou de novo à meia-noite. Ao
romper da aurora já muita gente estava de pé e o vendeiro passava uma revista
minuciosa no pátio, avaliando e
carpindo, inconsolável e furioso, o seu prejuízo. De vez em quando soltava uma
praga. Além do que escangalharam os
urbanos dentro das casas, havia muita tina partida, muito jirau quebrado,
lampiões em fanicos, hortas e cercas
arrasadas; o portão da frente e a tabuleta foram reduzidos a lenha. João Romão
meditava, para cobrir o dano, carregar
um imposto sobre os moradores da estalagem, aumentando-lhes o aluguel
dos cômodos e o preço dos gêneros. Viu-se numa
dobadoura durante o dia inteiro; desde pela manhã dera logo as
providências para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa possível: mandou buscar novas
tinas; fabricar novos jiraus e consertar os quebrados; pôs gente a remendar o
portão e a tabuleta. Ao meio-dia teve
de comparecer à presença do subdelegado na secretaria da polícia. Foi mesmo em
mangas de camisa e sem meias; muitos do
cortiço o acompanharam, quer por espírito de camaradagem, quer por simples
curiosidade.
Uma verdadeira patuscada esse passeio à cidade!
Parecia uma romaria; algumas mulheres levaram os seus pequenitos ao colo; um
magote de italianos ia à frente, macarroneando, a fumar cachimbo; alguns cantavam.
Ninguém tomou bonde; e por toda a
viagem discutiram e altercaram em grande troça, comentando com
gargalhadas e chalaças gordas o que iam encontrando, a chamar a atenção das ruas por onde desfilava
a ruidosa farândola.
A sala da polícia encheu-se.
O interrogatório, exclusivamente dirigido a João
Romão, era respondido por todos a um só tempo, a despeito dos protestos e das ameaças da autoridade, que se viu tonta.
Nenhum deles nada esclarecia e todos se queixavam da polícia, exagerando
as perdas recebidas na véspera.
A respeito de como se travara o conflito e quem o
provocara, o taverneiro declarou que nada podia saber ao certo, porque na
ocasião se achava ausente da estalagem. De que tinha certeza era de que as
praças lhe invadiram a propriedade e puseram em cacos tudo o que encontraram, como se aquilo lá fosse roupa de
francês!
— Bem feito! bradou o subdelegado. Não resistissem!
Um coro de respostas assanhadas levantou-se para
justificar a resistência. "Ah! Estavam mais que fartos de ver o que pintavam os morcegos, quando lhes não saia
alguém pela frente! Esbodegavam até à última, só pelo gostinho de fazer
mal! Pois então uma criatura, porque
estava a divertir-se um bocado com os amigos, havia de ser aperreada que nem
boi ladrão?... Tinha lá jeito? Os rolos
era sempre a polícia quem os levantava com as suas fúrias! Não se metesse ela
na vida de quem vivia sossegado no seu
canto, e não seria tanto barulho!..." Como de costume, o espírito de
coletividade, que unia aquela gente em
círculo de ferro, impediu que transpirasse o menor vislumbre de
denúncia. O subdelegado, depois de dirigir-se inutilmente a um por um,
despachou o bando, que fez logo a sua retirada, no meio de uma alacridade mais
quente ainda que a da ida.
Lá no cortiço, de portas adentro, podiam
esfaquear-se à vontade, que nenhum deles, e muito menos a vitima, seria capaz
de apontar o criminoso; tanto que o
médico, que, logo depois da invasão da polícia, desceu da casa do Miranda à
estalagem, para socorrer Jerônimo, não
conseguiu arrancar deste o menor esclarecimento sobre o motivo da navalhada.
"Não fora nada!... Não fora de
propósito!... Estavam a brincar e sucedera aquilo!... Ninguém tivera a menor
intenção de fazer-lhe mossa!..."
Rita mostrou-se de uma incansável solicitude para
com o ferido. Foi ela quem correu a buscar os remédios, quem serviu de ajudante ao medico e quem serviu de
enfermeira ao doente. Muitos lá iam, demorando-se um instante, para dar fé;
ela, porém, desde que Jerônimo se achou operado, não lhe abandonou a cabeceira;
ao passo que Piedade, aflita e atarantada, não fazia senão chorar e arreliar-se.
A mulata, essa não chorava; mas a sua fisionomia
tinha uma profunda expressão de mágoa enternecida. Agora toda ela se sentia apegar-se àquele homem bom e forte;
àquele gigante inofensivo, àquele Hércules tranqüilo que mataria o Firmo
com uma punhada, mas que, na sua
boa-fé, se deixara navalhar pelo facínora. "E tudo por causa dela! só por
ela!" Seu coração de mulher
rendia-se cativo a semelhante dedicação ensangüentada e dolorosa. E ele, o
mísero, interrompia as contrações do rosto para sorrir defronte dos olhos
enamorados da baiana, feliz naquela desgraça que lhe permitia gozar dos seus
carinhos. E tomava-lhe as mãos, e
cingia-lhe a cintura, resignado e comovido, sem uma palavra, sem um gesto, mas
a dizer bem claro, na sua dor
silenciosa e quieta de animal ferido, que a amava muito, que a amava
loucamente.
Rita afagava-o, já sem a menor sombra de escrúpulo,
tratando-o por tu, ameigando-lhe os cabelos sujos de sangue com a polpa macia da sua mão feminil. E ali mesmo
em presença da mulher, dele, só faltava beijá-lo com a boca, que com os olhos o
devorava de beijos ardentes e sequiosos.
Depois da meia-noite dada, ela e Piedade ficaram
sozinhas velando o enfermo. Deliberou-se que este iria pela manhã para a Ordem de Santo Antônio, de que era irmão. E,
com efeito, no dia imediato, enquanto o vendeiro e seu bando andavam lá às voltas com a polícia, e o resto do cortiço
formigava, tagarelando em volta do conserto das tinas e jiraus, Jerônimo, ao
lado da mulher e da Rita, seguia dentro
de um carro para o hospital.
As duas só voltaram de lá à noite, caindo de
fadiga. De resto, toda a estalagem estava igualmente prostrada e morrendo
pela cama, se bem que nesse dia as
lavadeiras em geral gazeassem o trabalho; as que tinham roupa com mais pressa
foram lavar fora ou arrastaram bacias
de banho para debaixo das bicas, à falta de melhor vasilha para o serviço.
Discutiu-se a campanha da véspera sem
variar o assunto. Aqui era um que lembrava as suas proezas com os urbanos,
descrevendo entusiasmado os pormenores
da luta; ali, outro repetia, cheio de empáfia, os desaforos que dissera depois
nas bochechas da autoridade; mais
adiante trocavam-se queixas e recriminações; cada qual, mulheres e
homens, sofrera o seu prejuízo. ou a sua arranhadura, e mostravam entre si, numa febre de
indignação, os objetos partidos ou a parte do corpo escoriada.
Mas às nove da noite já não havia viva alma no
pátio da estalagem. A venda fechou-se um pouco mais cedo que de costume. Bertoleza atirou-se ao colchão, estrompada;
João Romão recolheu-se junto dela, porem não conseguiu dormir; sentia calafrios
e pontadas na cabeça. Chamou pela amiga, a gemer, e pediu-lhe que lhe desse
alguma coisa para suar. Supunha estar com
febre.
A crioula só descansou quando, muitas horas
adiante, depois de mudar-lhe a roupa, o viu pegar no sono; e daí a pouco,
às quatro da madrugada, erguia-se ela,
com estalos de juntas, a bocejar, fungando no seu estremunhamento pesadão,
e pigarreando forte. Acordou o caixeiro
para ir ao mercado; gargarejou um pouco d’água à torneira da cozinha e foi
fazer fogo para o café dos
trabalhadores, riscando fósforos e acendendo cavacos num fogareiro, donde
começaram a borbotar grossos novelos de
fumo espesso.
Lá fora clareava já, e a vida renascia no cortiço.
A luta de todos os dias continuava, como se não houvera interrupção. Principiava o burburinho. Aquela noite bem
dormida punha-os a todos de bom humor.
Pombinha, entretanto, nessa manhã acordara abatida
e nervosa, sem animo de sair dos lençóis. Pediu café à mãe, bebeu, e tornou a abraçar-se nos travesseiros,
escondendo o rosto.
— Não te sentes melhor hoje, minha filha?...
perguntou-lhe Dona Isabel, apalpando-lhe a testa. Febre não tens.
— Ainda sinto o corpo mole... mas não é nada...
isto passa!...
— Foi de tanto gelo, que tomaste em casa de
madama!... Não te dizia?... Agora, o melhor é dar-te um escalda-pés!...
— Não, não, por amor de Deus! Daqui a pouco estou
em pé!
Às oito horas, com efeito, levantava-se e fazia,
indolentemente, o alinho da cabeça, defronte do seu modesto lavatório de ferro. Dir-se-ia sem forças para a menor
coisa; toda ela transpirava uma contemplativa melancolia de convalescente;
havia uma doce expressão dolorosa na limpidez cristalina de seus olhos de moça
enferma; um pobre sorriso pálido a entreabrir-lhe as pétalas da boca, sem lhe alegrar os lábios, que pareciam
ressequidos à mingua de beijos de amor; assim delicada planta murcha, languesce e morre, se carinhosa
borboleta não vai sacudir sobre ela as asas prenhes de fecundo e dourado pólen.
O passeio à casa de Léonie fizera-lhe muito mal.
Trouxe de lá impressões de íntimos vexames, que nunca mais se apagariam por toda a sua vida.
A cocote recebeu-a de braços abertos, radiante com
apanhá-la junto de si, naqueles divãs fofos e traidores, entre todo aquele luxo extravagante e requintado próprio para
os vícios grandes. Ordenou à criada que não deixasse entrar ninguém,
ninguém, nem mesmo o Bebê, e assentou-se
ao lado da menina, bem juntinho uma da outra, tomando-lhe as mãos, fazendo-lhe
uma infinidade de perguntas, e
pedindo-lhe beijos, que saboreava gemendo, de olhos fechados.
Dona Isabel suspirava também, mas de outro modo; na
sua parva compreensão do conforto, aqueles impertinentes espelhos, aqueles móveis casquilhos e aquelas cortinas
escandalosas arrancavam-lhe saudosas recordações do bom tempo e avivavam a sua
impaciência por melhor futuro.
Ai! assim Deus quisesse ajudá-la!...
Às duas da tarde, Léonie, por sua própria mão
serviu às visitas um pequeno lanche de foie-gras, presunto e queijo, acompanhado de champanha, gelo e água de
Seltz, e, sem se descuidar um instante da rapariga, tinha para ela extremas solicitudes de namorado; levava-lhe a comida
à boca, bebia do seu copo, apertava-lhe os dedos por debaixo da mesa.
Depois da refeição, Dona Isabel, que não estava
habituada a tomar vinho, sentiu vontade de descansar o corpo; Léonie franqueou-lhe um bom quarto, com boa cama,
e, mal percebeu que a velha dormia, fechou a porta pelo lado de fora, para melhor ficar em liberdade com a pequena.
Bem! Agora estavam perfeitamente a sós!
— Vem cá, minha flor!... disse-lhe, puxando-a
contra si e deixando-se cair sobre um divã. Sabes? Eu te quero cada vez mais!... Estou louca por ti!
E devorava-a de beijos violentos, repetidos,
quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua
simplicidade, não podia saber qual era.
A cocote percebeu o seu enleio e ergueu-se, sem
largar-lhe a mão.
— Descansemos nós também um pouco... propôs,
arrastando-a para a alcova.
Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo da
cama e, toda perplexa, com vontade de afastar-se, mas sem animo de protestar, por acanhamento, tentou reatar o
fio da conversa, que elas sustentavam um pouco antes, à mesa, em presença
de Dona Isabel. Léonie fingia
prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o
colo. Depois, como que distraidamente,
começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido.
— Não! Para quê!... Não quero despir-me...
— Mas faz tanto calor... Põe-te a gosto...
— Estou bem assim. Não quero!
— Que tolice a tua...! Não vês que sou mulher,
tolinha?... De que tens medo?... Olha! Vou dar exemplo!
E, num relance, desfez-se da roupa, e prosseguiu na
campanha.
A menina, vendo-se descomposta, cruzou os braços
sobre o seio, vermelha de pudor.
— Deixa! segredou-lhe a outra, com os olhos
envesgados, a pupila trêmula.
E, apesar dos protestos, das súplicas e até das
lágrimas da infeliz, arrancou-lhe a última vestimenta, e precipitou-se contra
ela, a beijar-lhe todo o corpo, a
empolgar-lhe com os lábios o róseo bico do peito.
— Oh! Oh! Deixa disso! Deixa disso! reclamava
Pombinha estorcendo-se em cócegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca e virginal, que enlouqueciam a
prostituta.
— Que mal faz?... Estamos brincando...
— Não! Não! balbuciou a vitima, repelindo-a.
— Sim! Sim! insistiu Léonie, fechando-a entre os
braços, como entre duas colunas; e pondo em contacto com o dela todo o seu corpo nu.
Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas
duas grossas pomas irrequietas sobre seu mesquinho peito de donzela impúbere e o rogar vertiginoso daqueles
cabelos ásperos e crespos nas estações mais sensitivas da sua feminilidade,
acabaram por foguear-lhe a pólvora do
sangue, desertando-lhe a razão ao rebate dos sentidos.
Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes,
fremindo-lhe a carne em crispações de espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de luxúria, irracional, feroz,
revoluteava, em corcovos de égua, bufando e relinchando.
E metia-lhe a língua tesa pela boca e pelas
orelhas, e esmagava-lhe os olhos debaixo dos seus beijos lubrificados de
espuma, e mordia-lhe o lóbulo dos ombros, e agarrava-lhe convulsivamente o
cabelo, como se quisesse arrancá-lo aos punhados. Até que, com um assomo mais forte, devorou-a num abraço de todo o
corpo, ganindo ligeiros gritos, secos, curtos, muito agudos, e afinal desabou para o lado, exânime,
inerte, os membros atirados num abandono de bêbedo, soltando de instante a
instante um soluço estrangulado.
A menina voltara a si e torcera-se logo em sentido
contrário à adversária, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando o
seu pranto, envergonhada e corrida.
A impudica, mal orientada ainda e sem conseguir
abrir os olhos, procurou animá-la, ameigando-lhe a nuca e as espáduas. Mas Pombinha parecia inconsolável, e a outra
teve de erguer-se a meio e puxá-la como uma criança para o seu colo, onde ela
foi ocultando o rosto, a soluçar
baixinho.
— Não chores assim, meu amor!...
Pombinha continuou a soluçar.
— Vamos! Não quero ver-te deste modo!... Estás
zangada comigo?...
— Não volto mais aqui! nunca mais! exclamou por fim
a donzela, desgalgando o leito para vestir-se.
— Vem cá! Não sejas ruim! Ficarei muito triste se
estiveres mal com a tua negrinha!... Anda! Não me feches a cara!...
— Deixe-me!
— Vem cá, Pombinha!
— Não vou! Já disse!
E vestia-se com movimentos de raiva. Léonie saltara
para junto dela e pôs-se a beijar-lhe, à força. os ouvidos e o pescoço, fazendo se muito humilde, adulando-a,
comprometendo-se a ser sua escrava, e obedecer-lhe como um cachorrinho,
contanto que aquela tirana não se fosse
assim zangada.
— Faço tudo! tudo! mas não fiques mel comigo! Ah!
se soubesse como eu te adoro!...
— Não sei! Largue-me!...
— Espera!
— Que amolação! Oh!
— Deixa de tolice!... Escuta, por amor de Deus!
Pombinha acabava de encasar o último botão do
corpinho, e repuxava o pescoço e sacudia os braços, ajustando bem a sua roupa ao corpo. Mas Léonie caíra-lhe aos
pés, enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias.
— Olha!... Ouve!... — Deixa-me sair!
— Não! não hás de ir zangada, ou faço aqui um
escândalo dos diabos! — E que mamãe já acordou com certeza!...
— Que acordasse!
Agora a meretriz defendia a porta da alcova.
— Oh! meu Deus! Deixe-me sair!
— Não deixo, sem fazermos as pazes...
— Que aborrecimento!
— Dá-me um beijo!
— Não dou!
— Pois então não sais!
— Eu grito!
— Pois grita! Que me importa!
— Arrede-se daí, por favor!...
— Faz as pazes...
— Não estou zangada, creia! Estou é indisposta...
Não me sinto boa!
— Mas eu faço questão do beijo!
— Pois bem! Está ai!
E beijou-a.
— Não quero assim! Foi dado de má vontade!...
Pombinha deu-lhe outro.
— Ah! Agora bem! Espera um nada! Deixa arranjar-me!
É um instante!
Em três tempos, lavou-se ligeiramente no bidê,
endireitou o penteado defronte do espelho, num movimento rápido de dedos, e
empoou-se, perfumou-se, e enfiou camisa, anágua e penteador, tudo com uma
expedição de quem está habituada a vestir-se
muitas vezes por dia. E, pronta, correu uma vista de olhos pela menina,
desenrugou-lhe a saia, consertou-lhe melhor os cabelos e, readquirindo o seu ar
tranqüilo de mulher ajuizada, tomou-a pela cintura e levou-a vagarosamente até
à sala de jantar, para tomarem vermute
com gasosa.
O jantar foi às seis e meia. Correu frio, não tanto
por parte de Pombinha, que aliás se mostrava bem incomodada, como porque Dona Isabel, dormindo até o momento
de a chamarem para mesa, sentia-se aziada com o foie-gras. A dona da casa, todavia, não se forrou a desvelos e fez por
alegrá-las rindo e contando anedotas burlescas. Ao café apareceu Juju, que
a criada levara a passear desde logo
depois do almoço, e uma afetação de agrados levantou-se em torno da
pequerrucha. Léonie pôs-se a conversar
com ela, falando como criança, dizendo-lhe que mostrasse a Dona Isabel "o
seu papatinho novo!"
Mais tarde, no terraço, enquanto fumava um cigarro,
tomou a mão de Pombinha e meteu-lhe no dedo um anel com um diamante cercado de pérolas. A menina
recusou o mimo, formalmente. Foi preciso a intervenção da velha para que
ela consentisse em aceitá-lo.
Às oito horas retiraram-se as visitas, seguindo direitinho
para a estalagem. Durante toda a viagem Pombinha parecia preocupada e triste.
— Que tens tu?... perguntou-lhe a mãe duas vezes.
E de ambas a filha respondeu:
— Nada! Aborrecimento...
No pouco que dormiu essa noite, que foi a do
baralho com a polícia, teve sonhos agitados e passou mal todo o dia
seguinte, com molezas de febre e dores
no útero. Não arredou pé de casa, nem para ver os destroços do conflito. A
noticia do defloramento e da fuga de
Florinda, como a da loucura da velha Marciana, produziu-lhe grande abalo nos
nervos.
Na manhã imediata, a despeito de fazer-se forte,
torceu o nariz ao pobre almoço que Dona Isabel lhe apresentou carinhosa. Persistiam-lhe as dores uterinas, não vivas,
mas constantes. Não teve animo de pegar na costura, e um livro que ela tentou
ler, foi por várias vezes repelido.
As onze para o meio-dia era tal o seu
constrangimento e era tal o seu desassossego entre as apertadas paredes do
número 15, que, malgrado os protestos da velha, saiu a dar uma volta por detrás
do cortiço, à sombra dos bambus e das mangueiras.
Uma irresistível necessidade de estar só,
completamente só, uma aflição de conversar consigo mesma, a apartava no
seu estreito quarto sufocante, tão
tristonho e tão pouco amigo. Pungia-lhe na brancura da alma virgem um
arrependimento incisivo e negro das
torpezas da antevéspera; mas, lubrificada por essa recordação, toda a sua carne
ria e rejubilava-se, pressentindo delicias
que lhe pareciam reservadas para mais tarde, junto de um homem amado, dentro
dela balbuciavam desejos, até ai mudos
e adormecidos; e mistérios desvendavam-se no segredo do seu corpo, enchendo-a
de surpresa e mergulhando-a em fundas
concentrações de êxtase. Um inefável quebranto afrouxava-lhe a energia e
distendia-lhe os músculos com uma
embriaguez de flores traiçoeiras.
Não pôde resistir: assentou-se debaixo das árvores,
um cotovelo em terra, a cabeça reclinada contra a palma da mão.
Na doce tranqüilidade daquela sombra morna,
ouvia-se retinir distante a picareta dos homens da pedreira e o martelo
dos ferreiros na forja. E o canto dos
trabalhadores ora mais claro, ora mais duvidoso, acompanhando o marulhar dos
ventos, ondeava no espaço, melancólico
e sentido, como um coro religioso de penitentes.
O calor tirava do capim um cheiro sensual.
A moça fechou as pálpebras, vencida pelo seu
delicioso entorpecimento, e estendeu-se de todo no chão, de barriga para o
ar, braços e pernas abertas.
Adormeceu.
Começou logo a sonhar que em redor ia tudo se
fazendo de um cor-de-rosa, a princípio muito leve e transparente, depois mais
carregado, e mais, e mais, até formar-se em torno dela uma floresta vermelha,
cor de sangue, onde largos tinhorões rubros se
agitavam lentamente.
E viu-se nua, toda nua, exposta ao céu, sob a
tépida luz de um sol embriagador, que lhe batia de chapa sobre os seios.
Mas, pouco a pouco, seus olhos, posto que bem
abertos, nada mais enxergavam do que uma grande claridade palpitante, onde o sol, feito de uma só mancha
reluzente, oscilava como um pêndulo fantástico.
Entretanto, notava que, em volta da sua nudez
alourada pela luz, iam-se formando ondulantes camadas sangüíneas, que se agitavam, desprendendo aromas de flor. E,
rodando o olhar, percebeu, cheia de encantos, que se achava deitada entre
pétalas gigantescas, no regaço de uma
rosa interminável, em que seu corpo se atufava como em ninho de veludo
carmesim, bordado de ouro, fofo, macio,
trescalante e morno.
E suspirando, espreguiçou-se toda num enleio de
volúpia ascética.
Lá do alto o sol a fitava obstinadamente, enamorado
das suas mimosas formas de menina.
Ela sorriu para ele, requebrando os olhos, e então
o fogoso astro tremeu e agitou-se, e, desdobrando-se, abriu-se de par em par em duas asas e principiou a fremir,
atraído e perplexo. Mas de repente, nem que se de improviso lhe inflamassem
os desejos, precipitou-se lá de cima
agitando as asas, e veio, enorme borboleta de fogo, adejar luxuriosamente em
torno da imensa rosa, em cujo regaço a
virgem permanecia com os peitos franqueados.
E a donzela, sempre que a borboleta se aproximava
da rosa, sentia-se penetrar de um calor estranho, que lhe acendia, gota a gota, todo o seu sangue de moça.
E a borboleta, sem parar nunca, doidejava em todas
as direções ora fugindo rápida, ora se chegando lentamente, medrosa de tocar com as suas antenas de brasa a pele
delicada e pura da menina.
Esta, delirante de desejos, ardia por ser alcançada
e empinava o colo. Mas a borboleta fugia.
Uma sofreguidão lúbrica, desensofrida, apoderou-se
da moça; queria a todo custo que a borboleta pousasse nela, ao menos um instante, um só instante, e a fechasse
num rápido abraço dentro das suas asas ardentes. Mas a borboleta, sempre
doida, não conseguia deter-se; mal se
adiantava, fugia logo, irrequieta, desvairada de volúpia.
— Vem! Vem! suplicava a donzela, apresentando o
corpo. Pousa um instante em mim! Queima-me a carne no calor das tuas asas!
E a rosa, que tinha ao colo, é que parecia falar e
não ela. De cada vez que a borboleta se avizinhava com as suas negaças, a flor arregaçava-se toda, dilatando as
pétalas, abrindo o seu pistilo vermelho e ávido daquele contato com a luz.
— Não fujas! Não fujas! Pousa um instante!
A borboleta não pousou; mas, num delírio, convulsa
de amor, sacudiu as asas com mais ímpeto e uma nuvem de poeira dourada desprendeu-se sobre a rosa, fazendo
a donzela soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto sob aquele eflúvio
luminoso e fecundante.
Nisto, Pombinha soltou um ai formidável e despertou
sobressaltada, levando logo ambas as mãos ao meio do corpo. E feliz, e cheia de susto ao mesmo tempo, a rir e a
chorar, sentiu o grito da puberdade sair-lhe afinal das entranhas, em uma
onda vermelha e quente.
A natureza sorriu-se comovida. Um sino, ao longe,
batia alegre as doze badaladas do meio-dia. O sol, vitorioso, estava a
pino e, por entre a copagem negra da
mangueira, um dos seus raios descia em fio de ouro sobre o ventre da rapariga,
abençoando a nova mulher que se formava
para o mundo.
XII
Pombinha ergueu-se de um pulo e abriu de carreira
para casa.
No lugar em que estivera deitada o capim verde
ficou matizado de pontos vermelhos. A mãe lavava à tina, ela chamou-a com instância, enfiando cheia de alvoroço pelo
número 15. E aí, sem uma palavra, ergueu as saias do vestido e expôs a Dona
Isabel as suas fraldas ensangüentadas.
— Veio?! perguntou a velha com um grito arrancado
do fundo d’alma.
A rapariga meneou a cabeça afirmativamente,
sorrindo feliz e enrubescida.
As lágrimas saltaram dos olhos da lavadeira.
— Bendito e louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
exclamou ela, caindo de joelhos defronte da menina e erguendo para Deus o rosto e as mãos trêmulas.
Depois abraçou-se às pernas da filha e, no
arrebatamento de sua comoção, beijou-lhe repetidas vezes a barriga e
parecia querer beijar também aquele
sangue abençoado, que lhes abria os horizontes da vida, que lhes garantia o
futuro; aquele sangue bom, que descia
do céu, como a chuva benfazeja sobre uma pobre terra esterilizada pela seca.
Não se pôde conter: enquanto Pombinha mudava de
roupa, saiu ela ao pátio, apregoando aos quatro ventos a linda noticia. E, se não fora a formal oposição da menina,
teria passeado em triunfo a camisa ensangüentada, para que todos a vissem bem e para que todos a adorassem, entre hinos de
amor, que nem a uma verônica sagrada de um Cristo.
— Minha filha é mulher! Minha filha é mulher!
O fato abalou o coração do cortiço, as duas
receberam parabéns e felicitações. Dona Isabel acendeu velas de cera à frente
do seu oratório, e nesse dia não pegou mais no trabalho, ficou estonteada, sem
saber o que fazia, a entrar e a sair de casa,
radiante de ventura. De cada vez que passava junto da filha dava-lhe um
beijo na cabeça e em segredo recomendava-lhe todo o cuidado. "Que não apanhasse umidade! que não bebesse
coisas frias! que se agasalhasse o melhor possível: e, no caso de sentir o corpo mole, que se metesse logo na
cama! Qualquer imprudência poderia ser fatal!..." O seu empenho era pôr o
João da Costa, no mesmo instante, ao
corrente da grande novidade e pedir-lhe que marcasse logo o dia do casamento; a
menina entendia que não, que era feio,
mas a mãe arranjou um portador e mandou chamar o rapaz com urgência. Ele
apareceu à tarde. A velha convidara
gente para jantar; matou duas galinhas, comprou garrafas de vinho, e, à noite,
serviu, às nove horas, um chá com
biscoitos. Nenen e a das Dores apresentaram-se em trajos de festa; fez-se muita
cerimônia; conversou-se em voz baixa,
formando todos em volta de Pombinha uma solicita cadeia de agrados, uma
respeitosa preocupação de bons desejos, a
que ela respondia sorrindo comovida, como que exalando da frescura da
sua virgindade um vitorioso aroma de flor que
desabrocha.
E a partir desse dia Dona Isabel mudou
completamente. As suas rugas alegraram-se; ouviam-na cantarolar pela
manhã, enquanto varria a casa e
espanava os móveis.
Não obstante, depois do tremendo conflito que
acabou em navalhada, uma tristeza ia minando uma grande parte da estalagem. Já
se não faziam as quentes noitadas de violão e dança ao relento. A Rita andava
aborrecida e concentrada, desde que
Jerônimo partiu para a Ordem; Firmo fora intimado pelo vendeiro a que
lhe não pusesse, nunca mais, os pés em casa, sob pena de ser entregue à polícia; Piedade, que vivia a dar ais,
carpindo a ausência do. marido, ainda ficou mais consumida com a primeira
visita que lhe fez ao hospital; encontrou-o frio e sem uma palavra de ternura
para ela, deixando até perceber a sua
impaciência para ouvir falar da outra, daquela maldita mulata dos
diabos, que, no fim de contas, era a única culpada de tudo aquilo e havia de ser a sua perdição e mais
do seu homem! Quando voltou de lá atirou-se à cama, a soluçar sem alívio, e
nessa noite não pôde pregar olho, senão já pela madrugada. Um negro desgosto
comia-a por dentro, como tubérculos de tísica, e tirava-lhe a vontade para tudo que não fosse chorar.
Outro que também, coitado! arrastava a vida muito
triste, era o Bruno. A mulher, que a principio não lhe fizera grande
falta, agora o torturava com a sua
distancia; um mês depois da separação, o desgraçado já não podia esconder o seu
sofrimento e ralava-se de saudades. A
Bruxa, a pedido dele, tirou a sorte nas cartas e disse-lhe misteriosamente que
Leocádia ainda o amava.
Só Dona Isabel e a filha andavam deveras
satisfeitas. Essas sim! nunca tinham tido uma época tão boa e tão
esperançosa. Pombinha abandonara o
curso de dança; o noivo ia agora visitá-la, invariavelmente, todas as noites;
chegava sempre às sete horas e
demorava-se até às dez; davam-lhe café numa xícara especial, de porcelana; às
vezes jogavam a bisca, e ele mandava
buscar, de sua algibeira, uma garrafa de cerveja alemã, e ficavam a
conversar os três, cada qual defronte do seu copo, a respeito dos projetos de felicidade comum; outras vezes o Costa,
sempre muito respeitador, muito bom rapaz, acendia o seu charuto da Bahia e deixava-se cair numa
pasmaceira, a olhar para a moça, todo embebido nela. Pombinha punha
alegrias naqueles serões com as suas
garrulices de pomba que prepara o ninho. Depois do seu idílio com o sol
fazia-se muito amiga da existência,
sorvendo a vida em haustos largos, como quem acaba de sair de uma prisão e
saboreia o ar livre. Volvia-se carnuda
e cheia, sazonava que nem uma fruta que nos provoca o apetite de morder. Dona
Isabel, ao lado deles, toscanejava do
meio para o fim da visita, traçando cruzes na boca e afugentando os bocejos com
voluptuosas pitadas da sua insigne
tabaqueira.
Fixado o dia do casamento, o assunto inalterável da
conversa era o enxoval da noiva e a casinha que o Costa preparava para a lua-de-mel. Iriam todos três morar juntos;
teriam cozinheiro e uma criada que lavasse e engomasse. O rapaz trouxera
peças de linho e de algodão, e ali, à
luz amarela do velho candeeiro de querosene, enquanto a mãe talhava camisas e
lençóis, a filha cosia valentemente
numa máquina que lhe oferecera o noivo.
Uma vez, eram duas da tarde, ela pregava rendas
numa fronha de almofada, quando o Bruno, cheio de hesitações, a coçar os cabelos da nuca, pálido e mal asseado, disse-lhe,
encostando-se à ombreira da porta:
— Ora, Nhã Pombinha... tinha-lhe um servicinho a
pedir... mas vosmecezinha anda agora tão tomada com o seu enxoval e não há de querer dar-se a maços...
— Que queres tu, Bruno?
— N’é nada, é que precisava que vosmecezinha me
fizesse uma carta p’raquele diabo... mas já se vê que não tem cabimento... Fica pr’ao depois!
— Uma carta para tua mulher, não é?
— Coitada! É mais doida do que ruim! Pois se a
gente até dos brutos tem pena!...
— Pois estás servido. Queres para já?
— Não vale estorvar! Continue seu servicinho! Eu
volto pr’outra vez!...
— Não! anda cá, entra! O que se tem de fazer,
faz-se logo!
— Deus lhe pague! Vosmecezinha é mesmo um anjo! Não
sei a quem se chegue a gente ao depois que já lhe não tivermos cá!...
E continuou a louvar a bondade da rapariga,
enquanto esta, toda serviçal, preparava numa mesinha redonda os seus apetrechos de escrita.
— Vamos lá, Bruno! que queres tu mandar dizer à
Leocádia?
— Diga-lhe, antes de mais nada, que aquilo que
quebrei dela, que dou outro! Que ela fez mal em quebrar também o que era meu, mas que fecho os olhos! Águas passadas
não movem moinho! Que sei que ela agora está desempregada e aos paus; que está a dever para mais de mês na estalagem;
mas que não precisa dar cabeçadas: que me mande cá o senhorio, que me entendo com ele. Que acho bom que ela deixe
a casa da crioula onde come, porque a mulher já se queixou e já disse, a
quem quis ouvir, que aquilo lá não era
ponto de vadios e mulheres de má vida! Que ela, se tivesse um pouco de tino,
nem precisava estar às migalhas dos
outros, que eu na forja fazia para a trazer de barriga cheia e mais aos filhos
que Deus mandasse... — Principiava a
tomar calor. — Que a culpada de tudo isto é só ela e mais ninguém! tivesse um
bocado de juízo e não precisava
envergonhar a cara por ai...
— Isso já está dito, Bruno!
— Pois arrame-lhe outra vez a ver se ela toma brio!
— E que mais?
— Que lhe não quero mal, nem lhe rogo pragas, mas
que é bem feito que ela amargue um pouco do pão do diabo, pra ficar sabendo que uma mulher direita não deve
olhar se não pra seu marido; e que, se ela não fosse tão maluca...
— Já aí vai você repetir inda uma vez a mesma
cantiga!...
— Mas diga-lhe sempre, tenha paciência, Nhã
Pombinha!... Que ainda estaria aqui, comigo, como dantes, sem agüentar repelões de estranhos!...
— Adiante, Bruno!
— Diga-lhe...
E interrompeu-se.
Ora, que mais ele tinha a dizer?...
Coçou a cabeça.
— Veja, Bruno, você é quem sabe o que precisa
escrever a sua mulher...
— Diga-lhe...
Não se animava.
— Que...
— Diga-lhe... Não! não lhe diga mais nada!...
— Posso então fechar a carta?...
— Está bom... resmungou o ferreiro, decidindo-se.
Vá-lá! Diga-lhe que...
— Que...
Houve um silêncio, no qual o desgraçado parecia
arrancar de dentro uma frase que, no entanto, era a única idéia que o
levava a dirigir-se à mulher. Afinal,
depois de coçar mais vivamente a cabeça, gaguejou com a voz estrangulada de
soluços:
— Diga-lhe que... se ela quiser tornar pra minha
companhia... que pode vir... Eu esqueço tudo!
Pombinha, impressionada pela transformação da voz
dele, levantou o rosto e viu que as lágrimas lhe desfilavam duas a duas, três a três, pela cara, indo afogar-se-lhe
na moita cerdosa das barbas. E, coisa estranha, ela, que escrevera tantas
cartas naquelas mesmas condições; que
tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos trabalhadores do
cortiço, sobressaltava-se agora com os
desalentados soluços do ferreiro.
Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre;
depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas
misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo,
desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em pleno desenvolvimento,
uma lucidez que a deliciava e
surpreendia. Não a comovera tanto a revolução física Como que naquele instante
o mundo inteiro se despia à sua vista,
de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os segredos das suas paixões.
Agora, encarando as lágrimas do Bruno,
ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais
fortes, de músculos valentes, de patas
esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana
e delicada mão da fêmea.
Aquela pobre flor de cortiço, escapando à estupidez
do meio em que desabotoou, tinha de ser fatalmente vítima da própria inteligência. À mingua de educação, seu
espírito trabalhou à revelia, e atraiçoou-a, obrigando-a a tirar da substância
caprichosa da sua fantasia de moça ignorante e viva a explicação de tudo que
lhe não ensinaram a ver e sentir.
Bruno retirou-se com a carta. Pombinha pousou os
cotovelos na mesa e tulipou as mãos contra o rosto, a cismar nos homens.
Que estranho poder era esse, que a mulher exercia
sobre eles, a tal ponto, que os infelizes, carregados de desonra e de ludíbrio, ainda vinham covardes e
suplicantes mendigar-lhe o perdão pelo mal que ela lhes fizera?...
E surgiu-lhe então uma idéia bem clara da sua
própria força e do seu próprio valor.
Sorriu.
E no seu sorriso já havia garras.
Uma aluvião de cenas, que ela jamais tentara
explicar e que até ai jaziam esquecidas nos meandros do seu passado, apresentavam-se agora nítidas e
transparentes. Compreendeu como era que certos velhos respeitáveis, cujas
fotografias Léonie lhe mostrara no dia
que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos e
submissos, pagando a escravidão com a
honra, os bens, e até com a própria vida, se a prostituta, depois de os ter
esgotado, fechava-lhes o corpo. E continuou a sorrir, desvanecida na sua
superioridade sobre esse outro sexo, vaidoso e fanfarrão, que se julgava senhor
e que no entanto fora posto no mundo
simplesmente para servir ao feminino; escravo ridículo que, para gozar um
pouco, precisava tirar da sua mesma
ilusão a substância do seu gozo; ao passo que a mulher, a senhora, a dona dele,
ia tranqüilamente desfrutando o seu
império, endeusada e querida, prodigalizando martírios que os miseráveis
aceitavam contritos, a beijar os pés
que os deprimiam e as implacáveis mãos que os estrangulavam.
— Ah! homens! homens!... sussurrou ela de envolta
com um suspiro.
E pegou de novo na costura, deixando que o
pensamento vadiasse à solta, enquanto os dedos iam maquinalmente pregando as
rendas naquela almofada, em que a sua cabeça teria de repousar para receber o
primeiro beijo genital.
Num só lance de vista, como quem apanha uma esfera
entre as pontas de um compasso, mediu com as antenas da sua perspicácia mulheril toda aquela
esterqueira, onde ela, depois de se arrastar por muito tempo como larva, um
belo dia acordou borboleta à luz do sol. E sentiu diante dos olhos aquela massa
informe de machos e fêmeas, a comichar, a fremir concupiscente, sufocando-se uns aos outros. E viu o Firmo e o
Jerônimo atassalharem-se, como dois cães que disputam uma cadela da rua; e viu o Miranda, li defronte,
subalterno ao lado da esposa infiel, que se divertia a fazê-lo dançar a seus
pés seguro pelos chifres; e viu o
Domingos, que fora da venda, furtando horas ao sono, depois de um trabalho de
barro, e perdendo o seu emprego e as
economias ajuntadas com sacrifício, para ter um instante de luxúria entre as
pernas de uma desgraçadinha
irresponsável e tola; e tornou a ver o Bruno a soluçar pela mulher; e outros
ferreiros e hortelões, e cavouqueiros,
e trabalhadores de toda a espécie, um exército de bestas sensuais, cujos
segredos ela possuía, cujas íntimas
correspondências escrevera dia a dia, cujos corações conhecia como as
palmas das mãos, porque a sua escrivaninha era um pequeno confessionário, onde toda a salsugem e todas as fezes
daquela praia de despejo foram arremessadas espumantes de dor e aljofradas de lágrimas.
E na sua alma enfermiça e aleijada, no seu espírito
rebelde de flor mimosa e peregrina criada num monturo, violeta infeliz,
que um estrume forte demais para ela
atrofiara, a moça pressentiu bem claro que nunca daria de si ao marido que ia
ter uma companheira amiga, leal e
dedicada; pressentiu que nunca o respeitaria sinceramente como a um ser
superior por quem damos a vida; que
nunca lhe votaria entusiasmo, e por conseguinte nunca lhe teria amor; desse de
que ela se sentia capaz de amar alguém,
se na terra houvera homens dignos disso. Ah! não o amaria decerto, porque o
Costa era como os outros, passivo e
resignado, aceitando a existência que lhe impunham as circunstâncias,
sem ideais próprios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos de ambição, sem vícios trágicos, sem capacidade para
grandes crimes; era mais um animal que viera ao mundo para propagar a espécie; um pobre-diabo enfim que já a adorava
cegamente e que mais tarde, com ou sem razão, derramaria aquelas mesmas lágrimas, ridículas e
vergonhosas, que ela vira decorrendo em quentes camarinhas pelas ásperas e
maltratadas barbas do marido de
Leocádia.
E não obstante, até então, aquele matrimônio era o
seu sonho dourado. Pois agora, nas vésperas de obtê-lo, sentia repugnância em dar-se ao noivo, e, se não
fora a mãe, seria muito capaz de dissolver o ajuste.
Mas, daí a uma semana, a estalagem era toda em
rebuliço desde logo pela manhã. Só se falava em casamento; havia em cada olhar um sangüíneo reflexo de noites
nupciais. Desfolharam-se rosas à porta da Pombinha. Às onze horas parou um
carro à entrada do cortiço com uma
senhora gorda, vestida de seda cor de pérola. Era a madrinha que vinha buscar a
noiva para a igreja de São João
Batista. A cerimônia estava marcada para o meio-dia. Toda esta formalidade
embatucava os circunstantes, que se
alinhavam imóveis defronte do número 15, com as mãos cruzadas atrás, o rosto
paralisado por uma comoção respeitosa;
alguns sorriam enternecidos; quase todos tinham os olhos ressumbrados d’água.
Pombinha surgiu à porta de casa, já pronta para
desferir o grande vôo; de véu e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda. Parecia comovida; despedia-se dos
companheiros atirando-lhes beijos com o seu ramalhete de flores artificiais.
Dona Isabel chorava como criança,
abraçando as amigas, uma por uma.
— Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que
lhe dê um bom parto, quando vier a primeira barriga.
A noiva sorria, de olhos baixas. Uma fímbria de
desdém toldava-lhe a rosada candura de seus lábios. Encaminhou-se para o portão, cercada pela bênção de toda aquela
gente, cujas lágrimas rebentaram afinal, feliz cada um por vê-la feliz e em
caminho da posição que lhe competia na
sociedade.
— Não! aquela não nascera para isto!... sentenciou
o Alexandre, retorcendo o reluzente bigode. Seria lástima se a deixassem ficar aqui!
O velho Libório, cascalhando uma risada decrépita,
queixou-se de que o maganão do Costa lhe passara a perna roubando-lhe a namorada.
Ingrata! Ele que estava disposto a fazer uma
asneira!
Nenen deu uma corrida até à noiva, na ocasião em
que esta chegava à carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca, pediu-lhe com
empenho que se não esquecesse de mandar-lhe um botão da sua grinalda de flores
de laranjeira.
— Diz que é muito bom para quem deseja casar!... e
eu tenho tanto medo de ficar solteira!... É todo o meu susto!
XIII
À proporção que alguns locatários abandonavam a
estalagem, muitos pretendentes surgiam disputando os cômodos desalugados.
Delporto e Pompeo foram varridos pela febre amarela e três outros italianos
estiveram em risco de vida. O número dos hóspedes crescia; os casulos
subdividiam-se em cubículos do tamanho de sepulturas; e as mulheres iam
despejando crianças com uma regularidade de gado procriador. Uma família;
composta de mãe viúva e cinco filhas solteiras, das quais destas a mais velha
tinha trinta anos e a mais moça quinze, veio ocupar a casa que Dona Isabel
esvaziou poucos dias depois do casamento de Pombinha.
Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali
perto, o "Cabeça-de-Gato". Figurava como seu dono um português que
também tinha venda, mas o legitimo proprietário era um abastado conselheiro,
homem de gravata lavada, a quem não convinha, por decoro social, aparecer em
semelhante gênero de especulações. E João Romão, estalando de raiva, viu que
aquela nova república da miséria prometia ir adiante e ameaçava fazer-lhe à
sua, perigosa concorrência. Pôs-se logo em campo, disposto à luta, e começou a
perseguir o rival por todos os modos, peitando fiscais e guardas municipais,
para que o não deixassem respirar um instante com multas e exigências
vexatórias; enquanto pela sorrelfa plantava no espírito dos seus inquilinos um
verdadeiro ódio de partido, que os incompatibilizava com a gente do
"Cabeça-de-Gato". Aquele que não estivesse disposto a isso ia
direitinho para a rua, "que ali se não admitiam meias medidas a tal
respeito! Ali: ou bem peixe ou bem carne! Nada de embrulho!" É inútil
dizer que a parte contrária lançou mão igualmente de todos os meios para
guerrear o inimigo, não tardando que entre os moradores da duas estalagens
rebentasse uma tremenda rivalidade, dia a dia agravada por pequenas brigas e
rezingas, em que as lavadeiras se destacavam sempre com questões de freguesia
de roupa. No fim de pouco tempo os dois partidos estavam já perfeitamente
determinados; os habitantes do "Cabeça-de-Gato" tomaram por alcunha o
titulo do seu cortiço, e os de "São Romão", tirando o nome do peixe
que a Bertoleza mais vendia à porta da taverna, foram batizados por
"Carapicus". Quem se desse com um carapicu não podia entreter a mais
ligeira amizade com um cabeça-de-gato; mudar-se alguém de uma estalagem para
outra era renegar idéias e princípios e ficava apontado a dedo; denunciar a um
contrário o que se passava, fosse o que fosse, dentro do círculo oposto, era
cometer traição tamanha, que os companheiros a puniam a pau. Um vendedor de
peixe, que caiu na asneira de falar a um cabeça-de-gato a respeito de uma briga
entre a Machona e sua filha, a das Dores, foi encontrado quase morto perto do
cemitério de São João Batista. Alexandre, esse então não cochilava com os
adversários: nas suas partes policiais figurava sempre o nome de um deles pelo
menos, mas entre os próprios polícias havia adeptos de um e de outro partido; o
urbano que entrava na venda do João Romão tinha escrúpulo de tomar qualquer
coisa ao balcão da outra venda. Em meio do pátio do "Cabeça-de-Gato"
arvorara-se uma bandeira amarela; os carapicus responderam logo levantando um
pavilhão vermelho. E as duas cores olhavam-se no ar como um desafio de guerra.
A batalha era inevitável. Questão de tempo.
Firmo, assim que se instaurara a nova estalagem,
abandonou o quarto na oficina e meteu-se lá de súcia com o Porfiro, apesar da
oposição de Rita, que mais depressa o deixaria a ele do que aos seus velhos camaradas
de cortiço. Daí nasceu certa ponta de discórdia entre os dois amantes; as suas
entrevistas tornavam-se agora mais raras e mais difíceis. A baiana, por coisa
alguma desta vida, poria os pés no "Cabeça-de-Gato" e o Firmo
achava-se, como nunca, incompatibilizado com os carapicus. Para estarem juntos
tinham encontros misteriosos num caloji de uma velha miserável da Rua de São
João Batista, que lhe cedia a cama mediante esmolas. O capoeira fazia questão
de ficar no "Cabeça-de-Gato", porque ai se sentia resguardado contra
qualquer perseguição que o seu delito motivasse; de resto, Jerônimo não estava
morto e, uma vez bem curado, podia vir sobre ele com gana. No
"Cabeça-de-Gato", o Firmo conquistara rápidas simpatias e
constituíra-se chefe de malta. Era querido e venerado; os companheiros tinham
entusiasmo pela sua destreza e pela sua coragem; sabiam-lhe de cor a legenda
rica de façanhas e vitórias. O Porfiro secundava-o sem lhe disputar a primazia,
e estes dois, só por si, impunham respeito aos carapicus, entre os quais, não
obstante, havia muito boa gente para o que desse e viesse.
Mas ao cabo de três meses, João Romão, notando que
os seus interesses nada sofriam com a existência da nova estalagem e, até pelo
contrário, lucravam com o progressivo movimento de povo que se ia fazendo no
bairro, retornou à sua primitiva preocupação com o Miranda, única rivalidade
que verdadeiramente o estimulava.
Desde que o vizinho surgiu com o baronato, o
vendeiro transformava-se por dentro e por fora a causar pasmo. Mandou fazer
boas roupas e aos domingos refestelava-se de casaco branco e de meias,
assentado defronte da venda, a ler jornais. Depois deu para sair a passeio,
vestido de casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabelo à
escovinha; pôs a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que ele agora
tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Já não era o mesmo
lambuzão! E não parou aí: fez-se sócio de um clube de dança e, duas noites por
semana, ia aprender a dançar; começou a usar relógio e cadeia de ouro; correu
uma limpeza no seu quarto de dormir, mandou soalhá-lo, forrou-o e pintou-o;
comprou alguns móveis em segunda mão; arranjou um chuveiro ao lado da retrete;
principiou a comer com guardanapo e a ter toalha e copos sobre a mesa; entrou a
tomar vinho, não do ordinário que vendia aos trabalhadores, mas de um especial
que guardava para seu gasto. Nos dias de folga atirava-se para o Passeio
Público depois do jantar ou ia ao teatro São Pedro de Alcântara assistir aos
espetáculos da tarde; do "Jornal do Comércio", que era o único que
ele assinava havia já três anos e tanto, passou a receber mais dois outros e a
tomar fascículos de romances franceses traduzidos, que o ambicioso lia de cabo
a rabo, com uma paciência de santo, na doce convicção de que se instruía.
Admitiu mais três caixeiros; já não se prestava
muito a servir pessoalmente à negralhada da vizinhança, agora até mal chegava
ao balcão. E em breve o seu tipo começou a ser visto com freqüência na Rua
Direita, na praça do comércio e nos bancos, o chapéu alto derreado para a nuca
e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a meter-se em altas
especulações, aceitava ações de companhias de títulos ingleses e só emprestava
dinheiro com garantias de boas hipotecas.
O Miranda tratava-o já de outro modo, tirava-lhe o
chapéu, parava risonho para lhe falar quando se encontravam na rua, e às vezes trocava com ele dois dedos de palestra
à porta da venda. Acabou por oferecer-lhe a casa e convidá-lo para o dia de
anos da mulher, que era daí a pouco tempo. João Romão agradeceu o obséquio,
desfazendo-se em demonstrações de reconhecimento, mas não foi lá.
Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a
mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, em nada, em nada absolutamente,
participava das novas regalias do amigo; pelo contrário, à medida que ele
galgava posição social, a desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira.
João Romão subia e ela ficava cá embaixo, abandonada como uma cavalgadura de
que já não precisamos para continuar a viagem. Começou a cair em tristeza.
O velho Botelho chegava-se também para o vendeiro,
e ainda mais do que o próprio Miranda. O parasita não saia agora depois do
almoço para a sua prosa na charutaria, nem voltava à tarde para o jantar, sem
deter-se um instante à porta do vizinho ou, pelo menos, sem lhe gritar lá de
dentro: "Então, seu João, isso vai ou não vai?..." E tinha sempre uma
frase amigável para lhe atirar cá de fora. Em geral o taverneiro acudia a
apertar-lhe a mão, de cara alegre, e propunha-lhe que bebesse alguma coisa.
Sim, João Romão já convidava para beber alguma
coisa. Mas não era à loa que o fazia, que aquele mesmo não metia prego sem
estopa! Tanto assim que uma vez, em que os dois saíram à tardinha para dar um
giro até à praia, Botelho, depois de falar com o costumado entusiasmo do seu
belo amigo Barão e da virtuosíssima família deste, acrescentou com o olhar
fito:
— Aquela pequena é que lhe estava a calhar, seu
João!...
— Como? Que pequena?
— Ora morda aqui! Pensa que já não dei pelo
namoro?... Maganão! O vendeiro quis negar, mas o outro atalhou: