LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Obra Poética de Gregório de Matos


Edição de Referência:

Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição,

Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.

 

 

 

 

 

ANDANÇAS DE UMA VIOLA DE CABAÇA

 

DESCREVE A DEPLORÁVEL PESTE, QUE PADECEO A BAHIA NO A. 1686, A QUEM DISCRETAMENTE CHAMÁRAM BICHA, PORQUE VARIANDO NOS SINTOMAS, PARA QUE A MEDICINA NÃO SOUBESSE ATALHAR OS EFFEYTOS, MORDIA POR DIFFERENTES BOCCAS, COMO A BICHA DE HERCOLES. TAMBEM LOUVA O CARTITATIVO ZELO DE ALGUMAS PESSOAS COM OS ENFERMOS.

 

ENCONTRO QUE TEVE COM HUMA DAMA, MUY ALTA CORPOLENTA, E DESENGRAÇADA.

 

FUGINDO HUMA MULATINHA COM O SUGEYTO, QUE A TINHA FORRADO, DESCREVE O POETA OS EXCESSOS, E SENTIMENTO, QUE MOSTRAVA HUMA FULANA DE LIMA SUA SENHORA.

 

CO CIRRO NOS ESTREFOLHOS.

 

AUSENTE DE SUA CASA PONDERA O POETA O SEU MESMO ÊRRO, EM OCCASIÃO DE SER BUSCADO POR SUA MULHER.

 

A HUMA DAMA FULANA DE MENDONÇA FURTADO, COM QUEM FOY O POETA ACHADO POR SUA MULHER.

 

DESCREVE UM HORROROSO DIA DE TROVÕES.

 

DECANTA OS ESTRAGOS QUE NO BOQUEIRÃO DE SANTO ANTONIO FAZIA HUM SURUCUCÚ, EM QUEM PASSAVA DESDE HUMA PAÇA DESCALVAGADA, ONDE SE RECOLHIA DE DIA.

 

REGRA DE BEM VIVER, QUE A PERSUASÕES DE ALGUNS AMIGOS DEO A HUNS NOYVOS, QUE SE CASAVAM.

 

A VASCO MARINHO FALCÃO, QUE SENDO HOMEM VELHO, E ACHACOSO SE CASOU COM HUMA MULHER MOÇA, E FORMOSA.

 

O MULEIRO, E O CRIADO.

 

DESCREVE O POETA HUMA BOCCA LARGA.

 

AO CASAMENTO DE HUM SUGEYTO VALENTE COM HUMA ELENA DE TAL.

 

PASSANDO DOUS FRADES FRANCISCANOS PELA PORTA DE AGUEDA PEDINDO ESMOLLA, DEO ELA UM PEYDO, E RESPONDEO HUM DELLES ESTAS PALAVRAS "IRRA, PARA TUA THIA".

 

PONDERA MISTERIOSO EM AMORES O DESCUIDO, COM QUE HUMA DAMA CORTOU O SEU DEDINHO QUERENDO APARAR HUMA PENA PARA ESCREVER A SEU AMANTE.

 

SONHO QUE TEVE COM HUMA DAMA ESTANDO PREZO NA CADEYA.

 

A LUIZA ÇAPATA QUERENDO, QUE O AMIGO LHE DESSE QUATRO INVESTIDAS DUAS DE DIA, E DUAS DE NOYTE.

 

A HUMA DAMA QUE SE ENCARECIA DE FORMOSA POR VENDER-SE CARO.

 

A BITANCOR, QUE NA PRIMEYRA VEZ QUE COM ELLA CONVERSOU O POETA, LOGO FOI ADMITTIDO SEM A MINIMA REPUGNANCIA.

 

A THOMAZ PINTO BRANDÃO QUEYXANDOSE DE HUMA MULA QUE LHE TINHA PEGADO HUA MULATA, ÂQUEM DAVA DIVERSOS NOMES, POR DISFARCE, DIXENDO HUMAS VEZES, QUE ERA INGUA, E OUTRAS QUEBRADURA.

 

A FRANCISCO PEREYRA DE AZEVEDO NASCENDO-LHE UM NETO NA MESMA HORA, EM QUE LHE MORREO UMA NETA.

 

CHICA OU FRANCISCA HUMA DESENGRAÇADA CRIOLLA, QUE CONVERSAVA COM O POETA E SE ARRIPIAVA TODA ZELOSA DE Ò VER CONVERSAR COM MARIA JOÃO, NO MESMO TEMPO, EM QUE ELLA NÃO FAZIA ESCRUPULO DE ADMITIR HUM MULATO.

 

ENFURECIDO O POETA DAQUELLES CIUMES DESCOMPOSTOS LHE FAZ ESTA HORRENDA ANATOMIA.

 

A HUM AMIGO APADRINHANDOLHE A ESCRAVA DE ALCUNHA A JACUPEMA, A QUEM SUA SENHORA QUERIA CASTIGAR PELO FURTO DE HUM OVO.

 

À PENDENCIA QUE TEVE MARAVA DE LEMOS COM VICENCIA POR RESPEYTO DE ANTONIO DE MOURA A QUE ACODIO HUM CAPM. HYPOCRITA QUE TRAZIA HUM CRUCIFIXO AO PESCOÇO.

 

A CARIDADE COM QUE ESTA MESMA VICENCIA AGAZALHAVA TREZ AMANTES.

 

BAXA QUE DERAM A ESTA VICENCIA, POR DIZER-SE QUE EXHALLAVA MAO CHEYRO PELO SUVACOS, E SE FOY METTER COM JOANNA GAFEYRA.

 

INTENTA AGORA O POETA DESAGRAVAR A VICENCIA JUSTAMENTE SENTIDA DOS SEUS VERSOS.

 

CELEBRA O POETA À HUMA GRACIOSA DONZELLA, E NÃO MENOS FORMOSA DE MARAPE CHAMADA ANTONIA.

 

A BRAZIA DO CALVARIO OUTRA MULATA MERETRIZ DE QUEM TAMBEM FALLAREMOS, QUE ESTANDO EM ACTO VENEREO COM HUM FRADE FRANCISCANO, LHE DEO UM ACIDENTE A QUE CHAMÃO VULGARMENTE LUNDUZ, DE QUE O BOM FRADE NÃO FEZ CASO, MAS ANTES FOY CONTINUANDO NO MESMO EXERCICIO SEM DESENCAVAR, E SOMENTE O FEZ, QUANDO SENTIO O GRANDE ESTRONDO, QUE O VAZO LHE FAZIA.

 

A HUMA DAMA QUE POR UM VIDRO DE ÁGUA TIRAVA O SOL DA CABEÇA.

 

HUMA FORMOSA MULATA, A QUEM HUM SARGENTO SEU AMASIO ARROJOU AOS VALADOS DE HUMA HORTA.

 

RESSENTIDA TAMBEM COMO AS OUTRAS O POETA LHE DÁ ESTA SATISFAÇÃO POR ESTILLO PROPORCIONADO AO SEU GENIO.

 

AO PROVEDOR DA FAZENDA REAL FRANCISCO LAMBERTO FAZENDO NA RIBEYRA O FAMOSO GALLEÃO S. JOÃO DE DEOS.

 

OUTRA MULATA, DE QUEM O POETA FALLA ENTRE AS BORRACHAS DO JUIZADO DE NOSSA SENHORA DO EMPARO TAMBEM SE RESENTIO DA AFRONTA, E ELLE À SATISFAZ AGORA NA MESMA FORMA.

 

LOUVA O POETA OBSEQUIOZAMENTE O GRANDE ZELO, E CARIDADE, COM QUE ANTONIO DE ANDRADE JUIZ, QUE ERA DOS ORPHÃOS DESTA CIDADE DA BAHIA SENDO DISPENSEYRO DA SANTA CASA DE MISERICORDIA TRATAVA AOS POBRES DOENTES DO HOSPITAL.

 

DISPARATES NA LINGUA BRAZILICA A HUMA CUNHÃA, QUE ALI GALANTEAVA POR VICIO.

 

A HUMA DAMA, QUE MANDANDO-A O POETA SOLICITAR LHE MANDOU DIZER QUE ESTAVA MENSTRUADA.

 

A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU HUM REGISTRO DE SANTA JULIANA QUE HAVIA TIRADO POR SORTES EM SANTA ANNA.

 

A HUMA NEGRA QUE TINHA FAMA DE FEYTICEIRA CHAMADA LUIZA DA PRIMA.

 

A PEDITORIO DE HUMA DAMA QUE SE VIO DESPREZADA DE SEU AMANTE.

 

A MANUEL FERREIRA DE VERAS NASCENDOLHE HUM FILHO, QUE LOGO MORREO, COMO TAMBÉM AO MESMO TEMPO HUM SEO IRMAO, E AMBOS FORAM SEPULTADOS JUNTOS EM N. SENHORA DOS PRAZERES.

 

A HUMA CRIOLA POR NOME IGNACIA QUE LHE MANDOU PARA GLOZAR O SEGUINTE.

 

A MARGARIDA, MULATA PERNAMBUCANA QUE CHORAVA AS ESQUIVANÇAS DE SEU AMANTE COM PRETEXTO DE LHE HAVER FURTADO HUNS CORÁES.

 

A HUMA DAMA GRATIFICANDOLHE O FAVOR, QUE POR SUA INTERCESSÃO ALCANÇARA.

 

A CERTO HOMEM DE DISTINÇÃO QUE SE COSTUMAVA  EMBEBEDAR E QUEIMANDO-SE-LHE A CASA FICOU ELLE ILLEZO, E TODA A FAMILIA.

 

LAMENTA A MULHER DESTE MESMO SUGEYTO A MÁ SORTE, QUE TEVE EM SE CASAR COM HOMEM DETALCONDIÇÃO, PORQUE ACTUALMENTE ESTAVA BEBADO.

 

A AMAZIA DÊSTE SUJEITO QUE FIADA NO SEU RESPEITO SE FAZIA SOBERBA, E DESAVERGONHADA.

 

A MORTE DE AFONÇO BARBOZA DA FRANCA AMIGO DO POETA.

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

ÀS DUAS MULATAS PREZAS FINGE O POETA, QUE VISITA NESTES DOUS SONETOS INTERLOCUTORES. FALLA COM A MAY.

 

FALLA O POETA COM A  FILHA.

 

PINTURA ADMIRAVEL DE HUMA BELLEZA.

 

DESAYRES DA FORMOSURA COM AS PENSÕES DA NATUREZA PONDERADAS NA MESMA DAMA.

 

A OUTRO SUGEYTO QUE ESTANDO VARIAS NOYTES COM HUMA DAMA, À NÃO DORMIO POR NÃO TER POTENCIA; E LHE ENSIÁRAM, QUE TOMASSE POR BAXO HUMAS TALHADAS DE LIMÃO, E METTEO QUATRO.

 

A CERTO SUGEYTO DE SUPPOSIÇÃO, QUE TENDO-SE RETIRADO DA CÔRTE E VIVIA NA SOLEDADE DE HUMA QUINTA MANDOU AO POETA A SEGUINTE DÉCIMA.

 

RESPONDE O POETA A SEGUINTE DECIMA COM ESTE SONETO.

 

AO DOUTOR FRANCISCO XIMENES, QUE INDO A CASA DE SUA DAMA, ACHOU O LUGAR OCCUPADO POR OUTRO, A QUEM DESAFIOU: MAS NÃO PROIBIO, NEM PÔDE O LOGRO DOS AMORES.

 

A HUM AMIGO PEDINDOLHE HUMA CAIXA DE TABACO.

 

A CERTO BARQUEIRO DE MARAPÈ PRESUMIDO DE GENTIL, VALENTE, E NAMORADO, O QUAL TINHA POR GURUMETE DA NAO, EM QUE O POETA VEYO DE PORTUGAL.

 

MESMO BARQUEIRO E PELO MESMO CASO.

 

CELEBRA A CARREYRA QUE DEO HUM CABOCLO A HUM SUGEYTO, QUE ACHOU COM HUMA NEGRINHA ANGOLLA, COM QUEM ELLE FALAVA.

 

A HUMAS FREYRAS QUE MANDÁRAM PERGUNTAR POR OCIOSIDADE AO POETA A DIFINIÇÃO DO PRIAPO E ELLE LHES MANDOU DIFINIDO, E EXPLICADO NESTAS DÉCIMAS.

 

A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU HUM CRAVO EM OCCASIÃO, QUE SE LHE QUEIXAVA DE CERTO AGGRAVO.

 

NOVAS DO MUNDO QUE LHE PEDIO POR CARTA HUM AMIGO DE FORA POR OCCASIÃO DA FROTA.

 

A HUMA DAMA QUE TINHA UM CRAVO NA BOCCA.

 

POR AVISO CELESTIAL DAQUELLA GRANDE PESTE, QUE CHAMARAM BICHA APPARECEO HUM FUNEBRE, HORROROSO, E ENSANGUENTADO COMETTA NO ANNO 1689 POUCOS DIAS ANTES DO ESTRAGO. ASSENTAVÃO GERALMENTE, QUE ANNUNCIAVA ESTERILIDADE, FOMES, E MORTES: POREM VARIAVÃO NOS SUGEYTOS DELLAS, COMO COUSA FUTURA. O POETA APPLICA COMO MAIS PRUDENTE CONTRA OS QUE SE ASSIGNALAVÃO EM ESCANDALOS NAQUELLE TEMPO.

 

A HUMA DAMA QUE LHE PEDIO HUM CRAVEYRO.

 

PERTENDE AGORA (POSTO QUE EM VÃO) DESENGANAR AOS SEBASTIANISTAS, QUE APPLICAVÃO O DITO COMETTA À VINDA DO ENCUBERTO.

 

NA ERA DE 1686 QUIMERIAVÃO OS SEBASTIANISTAS A VINDA DO ENCUBERTO POR HUM COMETTA QUE APPARECEO. O POETA PERTENDE EM VÃO DESVANECELOS TRADUZINDO HUM DISCURSO DO PE. ANTONIO VIEYRA QUE SE APPLICA A EL REY D. PEDRO II.

 

POR OCCASIÃO DO DITO COMETTA REFLETINDO O POETA OS MOVIMENTOS QUE UNIVERSALMENTE INQUIETAVAM O MUNDO NAQUELA IDADE, O SACODE GERALMENTE COM ESTA CRIZI.

 

NECESSIDADES FORÇOSAS DA NATUREZA HUMANA.

 

A HUMA DAMA QUE SE DESVIADA DE LHE FALAR.

 

A HUM LIVREYRO QUE COMEU HUM CANTEYRO DE ALFACES.

 

DEFINIÇÃO DO AMOR.

 

A DOUS IRMÃOS FULANOS DA CRUZ, QUE FORAM PREZOS POR FURTAREM HUM ESPADIM A HUM SURDO DA PRAYA, TENDO JA FURTADO HUMAS SALVAS, QUE PEDIRAM EMPRESTADO PARA TIRAREM A ESMOLLA PARA N. SENHORA DA PALMA DE QUE FORAM DEGRADADOS PARA ANGOLLA.

 

MANAS, DEPOIS QUE SOU FREIRA.

 

AS TRÊS IRMÃS FORMOSAS DAMAS PARDAS, QUE MORAVAM NO AREYAL.

 

DÉCIMA

 

A HUM NEGRO DE ANDRE DE BRITO SOLICITADOR DE SUAS DEMANDAS GRAM TRAPACEYRO, E ALCOVITERO CHAMADO O LOGRA, A QUEM HUM IMAGINARIO VAZOU HUM OLHO.

 

AO MESMO CRIOLLO, E PELO MESMO CASO.

 

A HUMA DAMA QUE LHE PEDIO OS CABELLOS.

 

A MEDIDA PARA O MALHO.

 

A HUMA PENDENCIA QUE TEVE O MULATO QUIRINGA COM HUM MOURO NA CADEYA, PELA QUAL FOY CASTIGADO: ESTANDO O POETA NESSA OCCASIÃO TAMBEM PREZO.

 

ADMIRAVEL EXPRESSÃO DE AMOR MANDANDO-SE-LHE PERGUNTAR, COMO PASSAVA.

 

MULATINHAS DA BAHIA.

 

AJUIZA AS DIFERENÇAS, E TOTAL DIVORCIO DE PORTUGAL COM CASTELLA PROFETIZADAS MUYTO ANTES PELOS PRUDENTES.

 

É MEU DAMO TANTO MEU.

 

A HUMA NEGRA CHAMADA EVA RECOLHIDA DE HUM CLERIGO EM MARÉ, QUE ENGANOU AO POETA FAZENDO-O ESPERAR.

 

SENHOR SOLDADO DONZELO.

 

DESPEDIDA EM CANTIGAS AMOROSAS QUE FAZ A HUMA DAMA QUE SE AUSENTAVA.

 

A DOMINGOS NUNES DO COUTO VIZINHO DO POETA A QUEM BURLARAM HUNS AMIGOS FINGINDO-SE OFFICIAIS DE JUSTIÇA, E BATENDO ESTRONDOSAMENTE NA PORTA, ELLE COMO CRIMINOSO FUGIO PELO QUINTAL FAZENDO, E PADECENDO TUDO, O QUE O POETA PINTA.

 

PINTURA GRACIOSA DE HUMA DAMA CORCOVADA.

 

VEM, QUE ESTOU PARA TAS DAR.

 

DESCREVE O QUE LHE ACONTECEO EM S. GONÇALLO DO RIO VERMELHO COM AVISTA DE HUMA DAMA FORMOSA, E BEM ADORNADA.

 

APPLICA O POETA O CASO SEGUINTE A IGNACIO PISSARO SENDO APANHADO COM HUA MOÇA POR SEUS IRMÃOS.

 

DESCREVE METHAFORICAMENTE AS PERFEYÇÕES DE HUMA DAMA PELOS NAYPES DA BARALHA.

 

A D. MARTHA SOBRAL QUE SENDOLHE PEDIDA DO POETA HUMA ARROBA DE CARNE DE HUMA REZ, QUE MATÁRA, RESPONDEO, QUE LHA FOSSE TIRAR DO OLHO DO CU.

 

A HUM CADRA DA INDIA QUE SE AGARRAVA À ESTA MARTHA VIVENDO DE ENGANAR POR FEYTICEYRO À SUAS ESCRAVAS, E A OUTRAS.

 

MORTO O CABRA LHE FAZ O POETA O TESTAMENTO NA MANEYRA SEGUINTE.

 

A DUAS IRMÃS TAMBEM PARDAS DE IGUAL FORMOSURA.

 

FRETEI-ME CO'A TINTUREIRA.

 

A HUMA PENDENCIA QUE TIVERAM DOUS AMANTES A VISTA DA DAMA JUNTO AO CONVENTO DE S. FRANCISCO.

 

COM CACHOPINHA DE GOSTO.

 

A CERTO HOMEM QUE ESTANDO COM HUMA DAMA À NÃO DORMIO, POR VIR HUMA LUZ NESSA OCCASIÃO FICANDOSE COM HUM ANEL DA MESMA DAMA.

 

ASSUMPTO QUE HUMA DAMA MANDOU AO POETA.

 

RESPOSTA DO POETA.

 

RETRATO DO RICO FEYTIO DE HUM CELEBRE GREGORIO DE NEGREYROS, COM QUEM GRACEJAVA O POETA, E EM QUEM MUYTAS VEZES FALLA.

 

AO NASCIMENTO DE HUMA MENINA QUE SE DIZIA SER FILHA DE JOAN DE MORALEZ CASTELHANO AMIGO DO POETA FEZ SILVESTRE CARDOSO UNS DESCONCERTADOS VERSOS, AO QUE O POETA FEZ ESTAS DÉCIMAS.

 

NÃOPODIA O POETA LEVAR EM CAPELLO O CONTINUADO MENTIR DESTE SILVESTRE CARDOZO, E POR ISSO O SACODE AGORA.

 

AO MESMO SUGEYTO NÃO SÓ POR MENTIR MUYTO, MAS TAMBEM POR NEGAR HUMA FORNICAÇÃO, EM QUE FOY VISTO COM HUA NEGRA.

 

A PROPENÇÃO COM QUE ESTE SILVESTRE CARDOZO SEMPRE QUERIA IMITAR O PEYOR.

 

À NEGRA MARGARIDA, QUE ACARIAVA HUM MULATO CHAMANDOLHE SENHOR COM DEMAZIADA PERMISSÃO DELLE.

 

O HOMEM MAIS A MULHER.

 

NAMOROU-SE DO BOM AR DE HUMA CRIOLLINHA CHAMADA CIPRIANA, OU SUPUPEMA, E LHE FAZ O SEGUINTE ROMANCE.

 

DESCREVE AGORA O POETA, COMO OBRIGÀRAM HUM SUGEYTO A CASAR COM HUMA MOÇA, TENDO DADO HUNS PONTOS NO VAZO PARA SE FINGIR DONZELLA.

 

DUAS MULATAS QUE INDO A FESTA DE SAM CAETANO SE LHE QUEBRÀRAM AS CORDAS DA REDE COM PUBLICO DESAYRE.

 

A OUTRA DAMA QUE GOSTAVA DE O VER MIJAR.

 

DEFINIÇÃO DE POTENCIAS.

 

ERGUIAM-SE TREZ MULHERES A HUM MESMO TEMPO PARA CHEGAR AO CONFISSIONARIO EM NOYTE DE NATAL E A MAIS CORPULENTA DELLAS SOLTOU HUM TRAQUE COM A FADIGA DE CHEGAR PRIMEYRO.

 

A HUMA MOÇA QUE PERDEO DOUS CASAMENTOS AJUSTADOS, O PRIMEYRO COM HUM FLAMENGO, QUE SE DESCULPOU AO DEPOIS QUE TINHA FEYTO VOTO DE CASTIDADE, E O SEGUNDO COM HUM SOLDADO, QUE SE EMBEBEDAVA, E FUGIO DEPOIS DE A ROUBAR.

 

A HUMA MULHER QUE SE BORROU, ESTANDO NA IGREJA EM QUINTA FEIRA DE ENDOENÇAS.

 

A HUMAS DAMAS DE LA VIDA AYRADA, QUE INDO E VINDO AO DIVERTIMENTO DE HUMA ROÇA ZOMBAVAM DA HONESTIDADE DE HUMA IRMÃA CASADA.

 

A HUMA MULATA APELIDADEA MONTEYRA QUE DAVA DE ALCOUCE.

 

A DAMAZIA QUE DAVA PRESSA À HUMA SAYA QUE SE ESTAVA FAZENDO, PARA BOTAR NUMA FESTA, DIZENDO SER SUA SENDO ELLA DE SUA SENHORA.

 

A HUMA DAMA QUE ESTAVA SANGRADA.

 

A HUMA DAMA CHAMADA JOSEPHA, QUE EM NOYTE DE SAM JOÃO LHE REBENTOU HUM FOGUETE BUSCAPE ENTRE AS PERNAS, DE QUE FICOU BEM MAL TRATADA.

 

A HUMA DAMA, A QUEM SOLICITANDO-A O POETA, LHE PEDIO DINHEYRO, DE QUE ELLE SE DESEMPULHA.

 

A HUMA DAMA QUE MACHEAVA OUTRAS MULHERES.

 

A HUM SUGEYTO, QUE LHE MANDOU HUM PIRÚ CEGO, E DOENTE.

 

A HUMA DAMA QUE MANDANDO-SE COSSAR EM HUMA BRAÇO PELO SEU MOLEQUE, E SENTINDO, QUE DAQUELLE CONTACTO SE LHE ENTEZAVA O MEMBRO, O CASTIGOU.

 

ENCONTRO QUE TIVERAM DOUS NAMORADOS.

 

A QUATRO NEGRAS QUE FORAM BAYLAR GRACIOSAMENTE A CASA DO POETA MORANDO JUNTO AO DIQUE.

 

HUMA MULATA DAMA UNIVERSAL DE QUEM JA FALLAMOS, SATYRIZA AGORA O POETA O FAUSTO COM QUE FOY SEPULTADA A MAY.

 

ERA DESTA MULATA BASTANTEMENTE DESAFORADA E O POETA, QUE À NÃO PODIA SOFFRER LHE CANTA A MOLIANA.

 

SENTIO-SE BRAZIA GRAVEMENTE DESTA SATYRA, E O POETA AGORA CAVILLOSAMENTE À SATISFAZ COM ESTAS DÉCIMAS.

 

A HUMA MULATA DENTUÇA, QUE TAMBEM VIVIA ESCANDALIZADA, VINDO HUM DIA DA FESTA DE SAM GONÇALLO, ONDE COM OUTRAS DANÇOU A MANGALAÇA, A GARUPA DE SEU AMASIO PASSANDO PELO POETA LHE PEDIO HUNS VERSOS.

 

A SAGACIDADE CAVILLOSA, COM QUE O RELIGIOSOS FR. PASCOAL FEZ PRENDER A THOMAZ PINTO BRANDÃO: DÀ O POETA CONTA A HUM AMIGO DA CIDADE DESDE A VILLA DE S. FRANCISCO.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANDANÇAS DE UMA VIOLA DE CABAÇA

 

Fazia apreço particular de huma viola, que por suas

curiosas mãos fizera de cabaço, frequentado diverti-

mento de seus trabalhos; e nunca sem ela foy visto nas

funções a que o convidavam.

 

 

Manuel Pereira Rabelo, licenciado

 

Que eu o ponho à viola

na postura de um cruzado

Tem-na lá, senhor vizinho,

a minha Ilária, Senhor?

Fugiu perdida de amor

pela manhã bem cedinho

 

 

 

 

DESCREVE A DEPLORÁVEL PESTE, QUE PADECEO A BAHIA NO A. 1686, A QUEM

DISCRETAMENTE CHAMÁRAM BICHA, PORQUE VARIANDO NOS SINTOMAS,

PARA QUE A MEDICINA NÃO SOUBESSE ATALHAR OS EFFEYTOS, MORDIA POR

DIFFERENTES BOCCAS, COMO A BICHA DE HERCOLES. TAMBEM LOUVA

O CARITATIVO ZELO DE ALGUMAS PESSOAS COM OS ENFERMOS.

 

 

Deste castigo fatal,

que outro não vemos, que iguale,

serei Mercúrio das penas,

e Coronista dos males.

Tome esta notícia a Fama,

para que voe, e não pare,

e com lamentáveis ecos

soe numa, e noutra parte.

Ano de mil, e seis centos

oitenta e seis, se contar-se

pode por admiração,

escutem os circunstantes.

Chegou a morte à Bahia,

não cuidando, que chegasse,

aqueles, que não temiam

seus golpes por singulares.

Representou-nos batalha

com rebuços no disfarce,

facilitando a peleja

para segurar o saque.

Mas tocando a degolar

levou tudo a ferro, e sangue

divertindo a medicina

com variar os achaques.

Fez estrago tão violento

em discretos, ignorantes,

em pobres, ricos, soberbos,

que nenhum pode queixar-se.

Ao discreto não valeram

seus conceitos elegantes,

nem ao néscio o ignorar,

que ofensas hão de pagar-se.

Ao rico não reparou

de seu poder a vantagem,

nem ao soberbo o temido

nem ao pobre o humilhar-se.

Ao galante o ser vistoso,

nem ao polido o brilhante,

nem ao rústico descuidos,

que a vida há de acabar-se.

E se algum quis de manhã

rosa brilhante ostentar-se,

chegava a morte, e se via

funesta pompa de tarde.

Emudeceu as folias,

trocou em lamento os bailes,

cobriu as galas de luto,

encheu de pranto os lugares.

Foi tudo castigo em todos

por esta, e aquela parte,

se aos pobres faltou remédio,

aos ricos sobraram males.

Para o sexo feminino

veio a morte de passagem,

deixando-lhe, no que via

exemplo para emendar-se.

Nos inocentes de culpa

foi a morte relevante,

que tanto a inocência livra,

quanto condena o culpável.

Pela caterva etiópia

passou tocando rebate,

mas corpos, que pagam culpas,

não é bem, que à vida faltem.

Já se via pelas ruas

de porta em porta chegar-se

um devoto Teatino

intimando a confessar-se.

Quem para a morte deixara

negócio tão importante,

porque as lembranças da vida

negam da morte o lembrar-se.

Os campanários se ouviam

uma hora em outra dobrarem,

despertadores da morte,

porque aos vivos Ihe lembrasse.

Fez abrir nos cemitérios

em um dia a cada instante

para receber de corpos,

o que tinham de lugares.

Foi tragédia lastimosa,

em que pode ponderar-se,

que a terra sobrando a muitos,

se viu ali, que faltasse.

Os que nela não cabiam,

quando vivos, hoje cabem

numa sepultura a três,

quero dizer a três pares.

Viam-se as enfermarias

de corpos tão abundantes,

que sobrava a diligência,

para que a todos chegassem.

O remédio para as vidas

era impossível achar-se,

porque o número crescia

cada minuto, e instante.

Titubeava Galeno

com a implicância dos males,

porque o tributo das vidas,

mandava Deus, que pagassem.

O Senhor Marquês das Minas,

que Deus muitos anos guarde,

zeloso como cristão,

liberal como Alexandre:

Preveniu para a saúde,

Para que em tudo acertasse,

dividirem-se os enfermos

por casas particulares.

Este zelo foi motivo,

de que todos por vontade

(digo os possantes) mostraram,

serem próximos amantes.

Havia um novo hospital,

onde se admirou notável

o zelo de uma Senhora

Dona Francisca de Sande:

Mostrando como enfermeira

o desvelo em toda a parte,

e administrando a mezinha,

a quem devia de dar-se.

Consolando a quem gemia,

animando os circunstantes,

tolerando o sentimento

de que assim não acertasse.

Não reparando nos gastos

da fazenda, que eram grandes,

porque só quis reparar

vidas, por mais importantes.

O Marquês como Senhor

quis em tudo aventejar-se,

abrindo para a pobreza

os tesouros da vontade.

Repartia pelos pobres

esmolas tão importantes,

que o seu zelo nos mostrava

querer, que nada faltasse.

Publicando geralmente,

que a ele os pobres chegassem,

porque ao remédio de todos

sua Excelência não falte.

Mas se estava Deus queixoso,

que muito passasse avante

este castigo de culpas,

mais que inclemência dos ares.

Finalmente que a Bahia

chegou a extremo tão grande,

que aos viventes parecia

querer o mundo acabar-se.

Punha a morte cerco às vidas

tão cruel, e exorbitante,

que em três meses sepultou

da Bahia a maior parte.

Ah Bahia! bem puderas

de hoje em diante emendar-te,

pois em ti assiste a causa

de Deus assim castigar-te.

Mostra-se Deus ofendido,

nós sem desculpa que dar-lhe;

emendemos nossos erros,

que Deus porá termo aos males.

 

 

 

 

ENCONTRO QUE TEVE COM HUMA DAMA, MUY ALTA

CORPOLENTA, E DESENGRAÇADA.

 

 

1    Mui alta, e mui poderosa

      Rainha, e Senhora minha,

      por poderosa Rainha,

      Senhora por alterosa:

      permiti, minha formosa,

      que esta prosa envolta em verso

      de um Poeta tão perverso

      se consagre a vosso pé,

      pois rendido à vossa fé

      sou já Poeta converso.

 

 

2    Fui ver-vos, vim de admirar-vos,

      e tanto essa luz me embaça,

      que aos raios da vossa graça

      me converti a adorar-vos:

      servi-vos de apiedar-vos,

      ídolo d'alma adorado,

      de um mísero, de um coitado,

      a quem só consente Amor

      por galardão um rigor,

      por alimento um cuidado.

 

3    Dai-me por favor primeiro

      ver-vos uma hora na vida,

      que pela vossa medida

      virá a ser um ano inteiro:

      permiti, belo luzeiro

      a um coração lastimado,

      que por destino, ou por fado

      alcance um sinal de amor,

      que sendo vosso o favor

      será por força estirado.

 

4    Fodamo-nos, minha vida,

      que estes são os meus intentos,

      e deixemos cumprimentos,

      que arto tendes de comprida:

      eu sou da vossa medida,

      e com proporção tão pouca

      se este membro vos emboca,

      creio, que a ambos nos fica

      por baixo crica com crica,

      por cima boca com boca.

 

 

 

 

FUGINDO HUMA MULATINHA COM O SUGEYTO, QUE A TINHA FORRADO,

DESCREVE O POETA OS EXCESSOS, E SENTIMENTO, QUE MOSTRAVA HUMA

FULANA DE LIMA SUA SENHORA.

 

 

1    Fonseca — Senhora Lima, o que tem,

                           que amanheceu tão sentida?

                           diga-me por sua vida,

                           assim Deus Ihe faça bem:

                           diga-me qual é, e quem

                           Ihe causa tanta tristeza?

                           porquanto eu por natureza

                           sinto, se é ingratidão,

                           ou talvez murmuração

                           dessa sua sutileza.

 

2    Lima —     Que hei de ter, minha Fonseca?

                         Um tormento, que me mata.

                         Fugiu Ilária a mulata,

                         porque já não quer ser peca:

                         despediu-se assim tão seca.

      Fons. —     Não chore, que ela virá.

      Lim.   —    Jesus! que o mundo dirá!

                         que a mandei a Sor Martinho.

      Fons. —    Veja em casa do vizinho.

      Lim.   —    Meu Estrela, tem-na lá?

 

3    Estr. —       Quem, Senhora, cá tão cedo?

      Lim. —        Ilária, Senhor, pergunto,

                          que não sei, se algum defunto

                          ma levou tanto em segredo;

                          Ai vida cansada! hei medo,

                          pelo que se há de dizer.

                          Onde se iria esconder,

                          se ela não sabe caminho,

                          nem carreira? Meu vizinho.

       Estr. —      Senhora Lima? Lim. Que hei de fazer?

 

4     Lim. —       Chica, que é de Ilarinha?

                          dize, negra do diabo.

                          Vai vê-la, senão teu rabo

                          pagará, por vida minha;

       Chic. —     Eu não sei da mulatinha,

                          nem me entendo com papéis:

                          quem deu cinqüenta mil-réis

                          a deve de ter em casa

                          porque aqui nunca fez vaza.

        Lim. —      Ó putona, isso dizeis?

 

5      Chic. —     Digo, que Ilária é forra.

        Lim. —       Há de ser, quando eu morrer,

                           que isso está no meu querer;

                           cala essa boca, cachorra:

                           traga-me aqui logo, e corra,

                           que hei de quebrar-lhe o focinho.

                           Tem-na lá, senhor vizinho,

                           a minha Ilária, Senhor?

        Estr. —      Fugiu perdida de amor

                           pela manhã bem cedinho.

 

 

 

 

CO CIRRO NOS ESTREFOLHOS

 

MOTE

 

Ó meu pai, tu qués, que eu morra?

 

 

1    Co cirro nos estrefolhos

      se queixava um negro cono

      de ver, Ihe fincava o mono

      o fodedor dos antolhos:

      e revirando-lhe os olhos

      dizia a puta cachorra,

      desencaixa um pouco a porra,

      eu venho a regalar-me,

      e tu fodes a matar-me?

      Ó meu Pai, tu qués, que eu morra?

 

2    Fretei uma negra mina

      e fodendo-a todo o dia

      a coitada não podia

      porém era puta fina:

      a porra nela se inclina

      inclino com força a porra,

      e forcejando a cachorra

      ela me disse esperai,

      e eu Ihe disse chegai,

      Ó meu Pai, tu qués, que eu morra?

 

 

 

 

AUSENTE DE SUA CASA PONDERA O POETA O SEU MESMO ÊRRO,

EM OCCASIÃO DE SER BUSCADO POR SUA MULHER.

 

 

MOTE

 

Foi-se Brás da sua aldeia,

Sabe Deus, se tornará,

que viu no caminho a Menga,

e a Gila não quer ver mais.

 

1    Brás um Pastor namorado

      tão nobre, como entendido

      das Pastoras tão querido,

      como na aldeia invejado:

      dos arpões do Amor crivado

      tanto os sentidos Ihe enleia,

      Menga, e tanto se Ihe afeia

      Gila em seu ciúme esquivo,

      que por um, e outro motivo

      Foi-se Brás da sua aldeia.

 

2    Gila, que esta ausência sente,

      movida de seus pesares

      correu terras, passou mares

      zelosa, e impaciente:

      nenhuns vestígios persente

      das passadas, que Brás dá,

      mas tendo notícia já,

      que o leva um novo cuidado,

      disse, se vai namorado,

      Sabe Deus, se tornará.

 

3    No tempo, em que Brás me olhava,

      e a vista não divertia,

      então sim que me queria,

      e de querer me adorava:

      porém hoje, que da aljava,

      de Amor, que tanto o derrenga,

      anda ferido: que arenga,

      que razão, que pundonor

      há de virar a um Pastor,

      que viu no caminho a Menga?

 

4    Se anda atrás de uma beleza,

      um garbo, uma bizarria,

      e é homem Brás, que varia

      por gosto, e por natureza,

      quem o tirará da empresa

      de merecer prendas tais,

      se os meus suspiros, e ais

      valem com ele tão pouco,

      que se anda por Menga louco,

      E a Gila não quer ver mais.

 

 

 

 

A HUMA DAMA FULANA DE MENDONÇA FURTADO, COM

QUEM FOY O POETA ACHADO POR SUA MULHER.

 

 

1    Rifão é justificado

      desde o Índio ao Etiópio,

      que sabendo muito próprio,

      muito mais sabe o furtado:

      eu deste engodo levado,

      que desde menino ouvia,

      forçado da simpatia,

      ou da minha ardente chama,

      a furto da própria Dama,

      a vossa nata comia.

 

2    Comendo uma, e outra vez

      da nata, que Amor cobiça,

      o demo, que tudo atiça,

      descobriu tudo, o que fez:

      deu-me a Dama tal revés,

      tal repúdio, e tal baldão,

      sabendo a minha traição,

      como é de crer de uma Dama,

      que me achou na vossa cama

      co mesmo furto na mão.

 

3    Não tive, que Ihe alegar,

      ou que dar-lhe por desculpa,

      que quem tem gosto na culpa,

      o perde em se desculpar:

      não consiste o meu pesar

      em perder esta mulher,

      sinto, Senhora, o perder

      junto com a vossa afeição

      uma, e outra ocasião

      de torná-la a ofender.

 

4    Mas se a ocasião deixei,

      como não me deixa amor!

      Não vos gozarei traidor,

      e fiel vos gozarei:

      até agora vos logrei

      com susto, que acabou já,

      agora vos logrará

      amor sem susto, e cuidado,

      e quando não for furtado,

      gosto, Mendonça, será.

 

 

 

 

DESCREVE UM HORROROSO DIA DE TROVÕES.

 

 

Na confusão do mais horrendo dia,

Painel da noite em tempestade brava.

O fogo com o ar se embaraçava,

Da terra, e ar o ser se confundia.

 

Bramava o mar, o vento embravecia,

A noite em dia enfim se equivocava,

E com estrondo horrível, que assombrava,

A terra se abalava, e estremecia.

 

Desde o alto aos côncavos rochedos,

Desde o centro aos altos obeliscos

Houve temor nas nuvens, e penedos.

 

Pois dava o Céu ameaçando riscos

Com assombros, com pasmos, e com medos

Relâmpagos, trovões, raios, coriscos.

 

 

 

 

DECANTA OS ESTRAGOS QUE NO BOQUEIRÃO DE SANTO ANTONIO

FAZIA HUM SURUCUCÚ, EM QUEM PASSAVA DESDE HUMA PEÇA

DESCALVAGADA, ONDE SE RECOLHIA DE DIA.

 

 

Acabou-se esta cidade,

Senhor, já não é Bahia,

já não há temor de Deus,

nem d´EI-Rei nem da Justiça.

Lembra-me, que há poucos anos,

inda não há muitos dias,

que para qualquer função

de um crime a prisão fervia.

Iam por esse sertão

ao centro de Jacobina

prender a algum matador,

inda que fosse a espadilha.

E hoje dentro na praça

nas barbas da Infantaria,

nas bochechas dos Granachas

com polé, e forca à vista,

Que esteja um surucucu

com soberana ousadia

feito Parca das idades,

cortando os fios às vidas:

Com tantas mortes às costas,

e que não haja uma rifa

de paus, que ao tal matador

o Basto Ihe ponha em cima!

É muito brabo rigor

o desta Cobra atrevida,

que esteja na estrada pública

fazendo assaltos à vista.

Onde está Gaspar Soares,

que não vai a esposa fita

no Lazão lançar-lhe a gorra,

e metê-la na enxovia?

Se está no mato emboscada,

no seu mocambo metida,

mandem-lhe um terço ligeiro

de Infantes de Henrique Dias

Se dizem, que está na peça,

dêem-lhe fogo à culambrina,

já que faz peças tão caras,

custe-lhe esta peça a vida.

Vão quatro, ou seis artilheiros

cavalgar-lhe a artilharia,

porque sendo noite dê

fogo a toda cousa viva.

Tira com balas ervadas,

a que não há medicina,

porque as traz sempre na boca

com venenosa saliva.

O caso é monstrosidade,

porém não é maravilha,

que hajam cobras, e lagartos

entre tanta sevandija.

Só digo, que é boa peça,

porque na peça escondida

vela na peça de noite

dorme na peça de dia.

 

 

 

 

REGRA DE BEM VIVER, QUE A PERSUASÕES DE ALGUNS AMIGOS

DEO A HUNS NOYVOS, QUE SE CASAVAM.

REGRA PARA A NOIVA

 

 

Será primeiramente ela obrigada,

Enquanto não falar, estar calada:

Item por nenhum caso mais se meta

A romper fechaduras da gaveta,

Salvo, se por temer algum agouro,

Quiser tirar de dentro a prata, e ouro.

Lembre-se de ensaboar, quem a recreia,

Porém não há de ser de volta, e meia,

E para parecer mulher, que poupa,

Não se descuide em romendar-lhe a roupa,

Mas porém advertindo, que há de ser,

Quando ele de raiva a não romper,

Que levar merecia muito açoite

Por essa, que rompeu onte onte a noite

Furioso, e irado

Diante de seu Pai e seu Cunhado,

Que esteve em seu romper com tal azar.

E eu em pontos também de me rasgar.

Irá mui poucas vezes à janela,

Mas as mais que puder irá à panela:

Ponha-se na almofada até o jantar,

E tanto há de cozer, como há de assar:

Faça-lhe um bocadinho mui caseiro,

Porém podendo ser, coma primeiro,

E ainda que o veja pequenino,

Não Ihe dê de comer como a menino.

Quando vier de fora, vá-se a ele,

E faça por se unir pele com pele,

Mas em Ihe dando a sua doencinha,

De carreira se vá para a cozinha,

E mande a Madalena com fervor

Pedir a sua Mãe água-de-flor;

Isto deve observar sem mais propostas,

Se quiser a saúde para as costas.

Isto deve fazer,

Se com o bem casado quer viver;

E se a regra seguir,

Cobrará boa fama por dormir,

Na qual interessado muito vai

Seu Cunhado, seu Pai, e sua Mãe.

E adeus, que mais não posso ou mais não pude;

Ninguém grite, chitom, e haja saúde.

 

DOTE

PARA O NOIVO SUSTENTAR OS ENCARGOS DA CASA

Uma casa para morar .......................................................................... de botões

Com seu quintal .................................................................................... de ferro

Um leito .................................................................................................. de carro

Uma cama ............................................................................................. de bobas

Com seus lençóis ................................................................................. de Itapoã

Suas cortinas ........................................................................................ de muro

Um vestido de seda ............................................................................. de cavalo

Com seus botões ................................................................................. de fogo

Um guarda-pé ....................................................................................... de topadas

Um vaqueiro .......................................................................................... do sertão

Dous gibões ......................................................................................... de açoute

Um com mangas .................................................................................. de mosquetaria

Outro com mangas .............................................................................. de tede

Uma saia .............................................................................................. de malha

Uma saia .............................................................................................. de dentro a fora

Uma cinta ............................................................................................. de desgostos

Um manto de fumo .............................................................................. de chamin

Dous pares de meias ......................................................................... canadas

Uns sapatos ......................................................................................... de pilar.

 

ROUPA BRANCA

Duas camisas ................................................................................... de enforcado

Arrendadas com as rendas ............................................................. do verde peso

Duas fraldas ...................................................................................... da serra

Dous lenços de caça ........................................................................ do mato

Dous guardanapos ........................................................................... de cutilaria

Para a mais roupa duas

    Peças de pano ...............................................................................do rosto.

TRASTES DE CASA

Uma caixa grande ............................................................................ de guerra

Outra meã ......................................................................................... de muchachins

E outra pequenina ............................................................................ de óculos

Dous contadores da Índia ................................................................ Manuel de

                                    Faria e Sousa, e Fernão Mendes Pinto

Duas cadeiras ................................................................................. do espinhaço

Uma cadeira para o estrado ......................................................... de navio

Dous caixões .................................................................................. de fervura

Uma armação fresca para

    A cama ....................................................................................... de xaréus

Um espelho .................................................................................... de viola.

 

PEÇAS DE OURO

Uns brincos para as orelhas .......................................................... de junco

Dous cordões para o pescoço ...................................................... de franciscanos

Duas manilhas para os

    Braços .......................................................................................... de copas, e espadas

Quatro memórias para os

    Dedos ........................................................................................... da Morte

                                Do Inferno, do Paraíso, e outra de Galo.

 

PEÇAS DE SERVIÇO OITO

O Canário, o Cãozinho, o Pandalunga, o vilão,

O Guandu, o Cubango, a Espanholeta, e um

Valente negro em Flandres.

Para chamar estes negros

    Uma campainha ............................................................................ na garganta

Dão-lhe mais duas toalhas .............................................................. de arrenegado

Uma salva .......................................................................................... de artilharia

Para se alumiar duas velas ............................................................. de gávea

Para rezar umas contas ................................................................... de quebrados

Para sair fora uma rede ................................................................... de arrasto

E para a limpeza um

    Servidor ......................................................................................... de VM.

 

COMESTIVOS

Carneiro .......................................................................................... de sepultura

Picado ............................................................................................. de bexigas

Tortas .............................................................................................. de um olho

Pastéis ............................................................................................ de estrada

Almôndegas ................................................................................... de capim.

 

FRUITAS

Figos ........................................................................................ fêmeas

Limas ....................................................................................... surdas

Maçãs ...................................................................................... de espada, e escaravelho

 

PARA OS DIAS DE PEIXE

Caldo ....................................................................................... de grãos

Agulhas ................................................................................... de osso

Lampreias ............................................................................... de termo

DOCES

Morgados ............................................................................... sem renda

Marmelada ............................................................................. de caroço

Cidrão ..................................................................................... de pé de muro

E muitos doces ...................................................................... afagos.

 

PARA SEUS DIVERTIMENTOS

Uma quinta ............................................................................... feira

Com duas fontes ..................................................................... nos braços

E para os gastos ..................................................................... 500 selos na fralda.

 

 

 

 

A VASCO MARINHO FALCÃO, QUE SENDO HOMEM VELHO, E ACHACOSO

SE CASOU COM HUMA MULHER MOÇA, E FORMOSA

 

 

Tem Vasco para seus danos ..................................................... noventa anos,

e por mazela tem outra ............................................................ potra

há mais males que le apontes? ................................................ fontes.

Dessa sorte não me contes

que é galharda, e limpa a Dama,

que escolher quis para a cama

noventa anos, Potra, e Fontes

Tem na boca muito vivas ............................................................ gengivas,

com que as palavras acaba ....................................................... com baba,

tem uma tromba, que diz ............................................................ nariz.

Dama, que empregar se quis

em tão suzanário rosto,

tenha por espelho ao gosto

gengivas, Baba, e Nariz.

Seu corpo é saco de grossos .................................................... ossos.

Correm-lhe das luzes belas ........................................................ ramelas,

e que mais há, que lhe corra? .................................................... borra.

Mil vezes borrada morra

dama de tão pouca estima,

que quis para pôr em cima

ossos, Ramelas, e Borra.

 

 

 

 

O MULEIRO, E O CRIADO.

 

MOTE

 

Caralho do Muleiro é feito de papelão,

arreita pelo inverno,

para foder no verão.

 

GLOSA

 

1    O Muleiro, e o Criado

      tiveram grande porfia

      sobre qual deles teria

      mor membro, e mais estirado:

      pôs-se o negócio em julgado,

      e botando ao soalheiro

      um, e outro membro inteiro,

      às polegadas medido,

      se viu, que era mais comprido

      O caralho do Muleiro.

 

2    Disto Criado apelou,

      e foi a razão, que deu,

      que o membro então mais cresceu,

      porque então mais arreitou:

      logo alegou, e provou

      não ser bastante razão

      a polegada da mão

      para vencer-lhe o partido.

      que suposto que é comprido,

      É feito de papelão.

 

3    Item sendo necessário,

      disse mais, que provaria,

      que se era papel, se havia

      abaixar como ordinário:

      que o membro era mui falsário

      feito de um pobre quaderno,

      tão fora do uso moderno,

      que se uma Moça arreitada

      lhe dá no verão entrada,

      É para foder no inverno.

 

4    E que depois de se erguer,

      é tão tardo, e tão ronceiro,

      que há de mister o Muleiro

      seis meses para o meter:

      porque depois de já ter

      aceso como um tição,

      engana a putinha então,

      pois pedindo a fornicasse,

      lhe dizia, que esperasse

      Para foder no verão.

 

 

 

 

DESCREVE O POETA HUMA BOCCA LARGA.

 

 

1   É justa razão, que eu gabe,

      boca, a vossa perfeição,

      porque vos caiba a razão,

      onde a razão vos não cabe:

      quem conhecer-vos não sabe,

      não teme tamanha empresa,

      que vos faz a natureza,

      para ser do mundo espanto,

      pois nele não cabe tanto,

      como na vossa grandeza.

 

2    Os extremos, que mostrais,

      quando esses beiços abris

      lisos, delgados, sutis,

      brancos, como dois cristais,

      em nada são naturais,

      que até esses dentes belos

      usurparam aos cabelos,

      e tem com eles trocada

      a cor castanha, e dourada,

      e são pardos, e amarelos.

 

3    E se os outros escondidos

      somente o riso os declara,

      vós, boca, de pouco avara

      os tendes desimpedidos:

      porque todos os sentidos

      os tenham sempre presentes,

      os olhos sempre luzentes

      podem sem pestanejar

      em tão remoto lugar

      ver a beleza dos dentes.

 

4    Amor, que as almas condena,

      por melhor as conquistar,

      para ensinar a atirar,

      que sejais meu branco ordena:

      não creais, que por pequena

      vos há de errar a medida,

      antes minha alma duvida

      de escapar-lhe em toda a toca,

      se a medida dessa boca

      houver de dar a ferida.

 

5    Aviso, graça, e saber,

      amor, cuidado, e desejos,

      quando for grande o bocejo,

      em vós não se hão de esconder:

      tesouro não podeis ser,

      mas sois mina descoberta,

      sendo cousa muito certa,

      que a serem os dentes de ouro

     éreis má para tesouro,

      por andares sempre aberta.

 

 

 

 

AO CASAMENTO DE HUM SUGEYTO VALENTE COM HUMA ELENA DE TAL.

 

 

MOTE

 

Uma Helena por garbosa

Páris troiano a roubou

porém Miguel conquistou

outra Helena mais formosa.

 

 

1    Dous monstros a Roma bela

      deram princípio e mofina,

      uma casada à ruína,

      o princípio uma donzela:

      uma troiana, uma estrela,

      um sol, um raio, uma rosa

      abrasou Tróia formosa;

      porém há de se entender

      não por sol qualquer mulher

      Uma Helena por garbosa.

 

2    Páris troiano Juiz,

      que no monte Ida se achou,

      o pomo à Vênus julgou

      por mais bela, e mais feliz:

      à Juno Deusa infeliz

      tanto ofendeu, e irritou,

      e tanto a Deusa forjou,

      que tentando-o, a que roubasse

      a Helena, e Tróia abrasasse,

      Páris Troiano a roubou.

 

3    Hoje melhor imitada

      Vemos de Páris a pena,

      Páris perdeu pela pena,

      Miguel ganhou pela espada:

      pela fidalguia herdada,

      pela riqueza, que herdou,

      Miguel a Helena ganhou;

      Páris amante descalço,

      perdeu por roubar de falso,

      Porém Miguel conquistou.

 

4    Miguel ditoso se alista

      por conquistador do amor,

      serviu, ganhou uma Flor,

      e está Senhor da conquista:

      Páris julgando a revista

      civil, e contenciosa

      de uma, e Outra Deusa irosa

      teve uma Helena roubada,

      mas a Miguel foi julgada

     Outra Helena mais formosa.

 

 

 

 

PASSANDO DOUS FRADES FRANCISCANOS PELA PORTA DE AGUEDA

PEDINDO ESMOLLA, DEO ELA UM PEYDO, E RESPONDEO HUM

DELLES ESTAS PALAVRAS "IRRA, PARA TUA THIA"

 

 

1    Sem tom, nem som por detrás

      espirra Águeda à janela,

      mas foi espirro de trela,

      porque tal estrondo faz:

      que um Reverendo Sagaz

      lastimado, do que ouvia,

      se já não foi, que sentia

      ouvia tal ronco ao traseiro,

      disse para o companheiro,

      "irra para tua Tia".

2    Sentiu-se Águeda do irra,

      e disse, perdoe, Frade,

      quem pede por caridade,

      não se agasta com tal birra:

      aqui nesta casa espirra

      todo o coitado, e coitada;

      passe avante, que isto é nada,

      e se acaso se enfastia,

      será para sua Tia,

      ou para seu camarada.

3    Basta, que se escandaliza

      do meu cu, porque se caga?

      Venha cá, boca de praga,

      que cousa mais mortaliza?

      o peido, que penaliza,

      é sorrateiro, e calado:

      o peido há de ser falado,

      ou ao menos estrondoso,

      porque aquele, que é fanhoso,

      é peido desconsolado.

4    Quantas vezes, Frei Remendo,

      dará co meio do cu

      peido tão rasgado, e cru,

      que lhe fique o rabo ardendo?

      perdoe, pois, Reverendo,

      não cuidei, tão bem ouvia;

      e se esmola me pedia,

      aceite-o por caridade,

      se não servir para um Frade,

      leve-o para tua Tia.

 

 

 

 

PONDERA MISTERIOSO EM AMORES O DESCUIDO, COM QUE HUMA

DAMA CORTOU O SEU DEDINHO QUERENDO APARAR HUMA PENA

PARA ESCREVER A SEU AMANTE

 

 

1    Para escrever intentou

      Nise uma pena aparar,

      e começando a cortar,

      o seu dedinho cortou:

      incontinenti a largou

      sentida desta ocasião,

      e com tão justa razão

      chorosa sente: porque

      teve neste golpe pé,

      para sentir-se da mão.

 

2    Duas penas descontente

      padece Nise em verdade,

      da ferida a crueldade,

      e viver de Fábio ausente:

      qual destas duas mais sente

      difícil é de advertir;

      mas eu venho a concluir,

      que mais sente Nise amante

      viver de Fábio distante,

      do que chegar-se a ferir.

 

3    Quisera a Fábio escrever

      por dar alívio a seu mal,

      porém a sorte fatal

      não lho consentiu fazer:

      quis-lhe o gosto perverter,

      dando-lhe o golpe, que a assusta,

      por cuidar, que é cousa justa

      mostrar, quando Nise chora,

      que esse Fábio, a quem adora,

      gotas de sangue lhe custa.

 

4    Bem claramente constou

      de Nise na mão ferida,

      que o ser liberdade, e vida

      tudo a Fábio sujeitou:

      discreta, e entendida andou

      neste amoroso embaraço,

      pois para apertar o laço

      mais da sua sujeição,

      que o firma nesta ocasião,

      mostrou o sangue do braço.

 

5    Queixosa Nise em verdade

      se mostrou nesta ocasião,

      não da ferida da mão,

      do golpe sim da saudade:

      porque com tal crueldade

      a move de Fábio a ausência,

      que sem haver resistência

      no peito, que amante o adora,

      Lágrimas de sangue chora

      com repetida veemência.

 

6    De propósito parece,

      que se deu Nise este corte,

      porque um amor, que é tão forte,

      só bem assim se encarece:

      e quem duvida, o fizesse

      para dar-nos a entender,

      que quis seu sangue verter

      para mostrar sua fé,

      que tanto ama a Fábio, que

      quer dar-lhe o sangue a beber.

 

 

 

 

SONHO QUE TEVE COM HUMA DAMA ESTANDO PREZO NA CADEYA.

 

 

Adormeci ao som do meu tormento:

E logo vacilando a fantesia

Gozava mil portentos de alegria,

Que todos se tornaram sombra, e vento.

 

Sonhava, que gozava o pensamento

Com liberdade o bem, que mais queria,

Fortuna venturosa, claro dia;

Mas ai, que foi um vão contentamento!

 

Estava, Clóris minha, possuindo

Desse formoso gesto a vista pura,

Alegre glórias mil imaginando:

 

Mas acordei, e tudo resumindo,

Achei dura prisão, pena segura:

Oh se sempre estivera assim sonhando!

 

 

 

 

A LUIZA ÇAPATA QUERENDO, QUE O AMIGO LHE DESSE QUATRO

INVESTIDAS DUAS DE DIA, E DUAS DE NOYTE.

 

 

1    Uma com outra são duas

      pela minha tabuada,

      e vós, Mulata esfaimada,

      quereis duas vezes duas:

      se isso vos dera por luas,

      e o quiséreis cada mês,

      dera-vos três vezes três;

      mas quatro entre dia, e noite,

      dar-vos-ei eu tanto açoite,

      que farão dez vezes dez.

 

2    Pois, Puta, essa vossa crica

      tão gulosa é de rescaldos,

      que cuidais que os nossos caldos

      os compramos na botica?

      o caldo não multiplica,

      quando entre quatro virilhas

      se liquida em escumilhas,

      e vós a lavadas mãos

      quereis um caldo de grãos,

      por um caldo de lentilhas?

 

3    É o caldo uma quinta-essência,

      e tal, que uma gota fria

      produz uma Senhoria,

      e talvez uma Excelência:

      se tendes dele carência,

      e por fartar a vontade

      o quereis em quantidade,

      não trateis não de esgotar

      os culhões de um secular,

      ide à barguilha de um Frade.

 

4    Puta, se a vossa Ração

      hão de ser quatro à porfia,

      dormi com quatro em um dia,

      e quatro se vos darão:

      mas tirá-las de um Cristão,

      que apenas janta, e não ceia,

      e não dará foda, e meia,

      isso é mais que crueldade,

      e mais tendo vós um Frade,

      que é gato que nunca mea.

 

5    Mudai pois os pensamentos,

      e se não heis de quietar

      com uma do secular,

      ide servir aos conventos:

      que os leigos já macilentos,

      esvaídos, e esgotados

      com um mês de amancebados

      cobram tão grande fastio,

      que já pagam de vazio

      dois mil vasos alugados.

 

6    No Filho do Caldeireiro

      tendes emprego adequado,

      pois aos malhos ensinado

      fode com um malhadeiro:

      se no vale, ou se no oiteiro

      lhe dais a mama, e o peito,

      e achais, que é moço de jeito,

      na parte do olhinho morto

      tendes razão, pois é torto,

      mas tem o membro direito.

 

 

 

 

A HUMA DAMA QUE SE ENCARECIA DE FORMOSA POR VENDER-SE CARO.

 

 

Dizem, que é mui formosa Dona Urraca.

Quem o sabe, ou quem viu esta minhoca?

Poderá ter focinho de Taoca,

E parecer-me a mim uma macaca.

Hei de querê-la, sem ver-lhe a malaca

Em risco de estar podre a Sereroca?

E se ela acaso for galinha choca,

Como hei de dar por ela uma pataca?

A mim me tenham todos por velhaco

Se amar a tal fragona por capricho,

Sem primeiro revê-la até o buraco.

Que pode facilmente o muito lixo,

Por não limpar às vezes o mataco,

Terem-lhe os caxandés tapado o esguicho.

 

 

 

 

A BITANCOR, QUE NA PRIMEYRA VEZ QUE COM ELLA CONVERSOU

O POETA, LOGO FOI ADMITTIDO SEM A MINIMA REPUGNANCIA.

 

 

1    Querendo obrigar-me Amor

      depois de tanta afeição

      me pôs na palma da mão

      a discreta Bitancor:

      agradeci-lhe o favor,

      e querendo-o pôr nas palmas,

      agonizando entre calmas

      de amor minhas altivezes,

      lhe rendi a alma mil vezes

      porque não tive mil almas.

 

2    Multipliquei de artifício

      o rendimento, e amor,

      porque uma alma a seu candor

      era curto sacrifício:

      e ela destra no exercício

      de amor, e seu rendimento,

      com gosto, e contentamento

      me agradeceu por então

      medir eu minha afeição

      pelo seu merecimento.

 

3    Que lhe caísse eu em graça,

      seus olhos o não desdizem,

      porque sempre os olhos dizem,

      o que dentro n'alma passa:

      graças a Amor, que a desgraça

      não veio empecer-me aqui,

      porque muitas vezes vi,

      que enamorado, e rendido

      por perder o merecido

      até o perder-me perdi.

 

4    Ela me dá por perdido,

      e está disposta a querer-me,

      cum que não perco o perder-me,

     pois já a tenho merecido:

      um amor tão bem sortido

      por mãos de uma divindade:

      este amor em realidade,

      que não trazer-me um ninguém

      da fortuna no vaivém

      do tempo na eternidade.

 

 

 

 

A THOMAZ PINTO BRANDÃO QUEYXANDOSE DE HUMA MULA QUE LHE TINHA

PEGADO HUA MULATA, ÂQUEM DAVA DIVERSOS NOMES, POR DISFARCE,

DIXENDO HUMAS VEZES, QUE ERA INGUA, E OUTRAS QUEBRADURA.

 

 

Fábio: essa bizarria,

essa flor, donaire, e gala,

mui mal empregada está

em uma cara caraça.

Sobre ser caraça o rosto,

dizem, que a dita Mulata

de mui dura, e rebatida

tem já o couro couraça.

Item que está muito podre,

e não escusa esta Páscoa

para secar os humores

fazer da salsa salsada.

Não me espanto, que nascessem

tais efeitos de tal causa,

que de Mulata sai mula,

como de mula Mulata.

Um dia dizeis, que é íngua,

no outro, que não é nada,

e eu digo, se não for mula,

que será burra burrada.

Mas direi por vossa honra,

que é quebradura sem falta,

que de cantar, e bailar

mil vezes o talo estala.

Ponde de contra-rutura

umparche na parte inchada

comfunda, porque a saúde

fique na funda fundada.

 

 

 

 

A FRANCISCO PEREYRA DE AZEVEDO NASCENDO-LHE UM NETO

NA MESMA HORA, EM QUE LHE MORREO UMA NETA.

 

 

Até vir a manhã serena, e pura

A estrela-d'alva está resplandecente,

Mas quanto o sol se mostra mais Luzente,

Tanto ela se retira mais escura.

 

Enfim rompe do sol a formosura

As frias nuvens desfazendo ardente,

Quando se vê nascido no Oriente,

Então morta se vê na sepultura.

 

No céu de vossa casa Luminoso

Mariana assistiu estrela bela,

Até nascer-lhe de Pero o sol formoso:

 

E se o Sol se vê nele, e a estrela nela,

Sendo nascido o Sol, era forçoso,

Que se havia de ser defunta a estrela.

 

 

 

 

CHICA OU FRANCISCA HUMA DESENGRAÇADA CRIOLLA, QUE CONVERSAVA

COM O POETA E SE ARRIPIAVA TODA ZELOSA DE Ò VER CONVERSAR COM

MARIA JOÃO, NO MESMO TEMPO, EM QUE ELLA NÃO FAZIA

ESCRUPULO DE ADMITIR HUM MULATO.

 

 

1    Estais dada a Berzabu,

      Chica, e não tendes razão,

      sofrei-me Maria João,

      pois eu vos sofro a Mungu:

      vós dais ao rabo, e ao cu,

      eu dou ao cu, e ao rabo,

      vós com um Negro, um diabo,

      eu com uma Negrinha brava,

      pois fique fava por fava,

      e quiabo por quiabo.

 

2    Vós heis de achar-me escorrido,

      não vo-lo posso negar,

      eu também o hei de achar

      remolhado, e rebatido

      assim é igual o partido,

      e mesmíssima a razão,

      porque quando o vosso cão

      dorme co'a minha cadela,

      que fique ela por ela,

      diz um português rifão.

 

3    Vós dizeis-me irada e ingrata,

     co'a mão na barguilha posta

      "eu me verei bem disposta!"

      e eu digo-vos: "Quien se mata?"

      eu vou-me à putinha grata,

      e descarrego o culhão,

      vós ides ao vosso cão,

      e regalais o pasmado,

      leve ao diabo enganado,

      e andemos co'a procissão.

 

4    Chica, fazei-me justiça,

      e não vo-la faça eu só,

      eu vos deixo o vosso có,

      vós deixai-me a minha piça:

      e se o demo vos atiça

      mamar numa e noutra teta,

      pica branca, e pica preta,

      eu também por me fartar

      quero esta pica trilhar

      numa greta, e noutra greta.

 

5    Dizem, que o ano passado

      mantínheis dez fodilhões

      branco um, nove canzarrões,

      o branco era o dizimado,

      o branco era o escornado,

      por ter pouco, e brando nabo;

      hoje o vosso sujo rabo

      me quer a mim dizimar,

      que não hei de suportar

      ser dízimo do diabo.

 

6    Chica, dormi-vos por lá,

      tendo de negros um cento,

      que o pau branco é corticento

      e o negro é jacarandá:

      e deixai-me andar por cá

      entre as negras do meu jeito,

      mas perdendo-me o respeito,

      se o vosso guardar quereis,

      contra o direito obrareis,

      sendo amiga do direito.

 

7    Sois puta de entranha dura,

      e inda que amiga do alho

      sois uma arranha-caralho

      sem carinho, nem brandura:

      dou ao demo a puta escura,

      que estando a todas exposta,

      não faz festa ao de que gosta;

      dou ao demo o quies vel qui,

      e não para quem a encosta.

 

8    Quem não afaga o sendeiro,

      de que gosta, e bem lhe sabe,

      vá-se dormir cuma trave,

      e esfregue-se cum coqueiro:

      seja o cono presenteiro,

      faça o mimo o agasalho

      ao membro, que lhe dá o alho,

      e se de carinho é escassa,

      ou vá se enforcar, ou faça

      do seu dedo o seu caralho.

 

 

 

 

ENFURECIDO O POETA DAQUELLES CIUMES DESCOMPOSTOS

LHE FAZ ESTA HORRENDA ANATOMIA.

 

 

Vá de aparelho,

vá de painel,

venha um pincel

retratarei a Chica

e seu besbelho.

É pois o caso

que a arte obriga,

que pinte a espiga

da urtiga primeiro

e logo o vaso.

A negra testa

de cuiambuca

a põe tão cuca,

que testa nasce, e em cuia

desembesta.

Os dous olhinhos

com ser pequenos

são dois venenos,

não do mesmo tamanho

maiorzinhos.

Nariz de preta

de cocras posto,

que pelo rosto

anda sempre buscando

onde se meta.

Boca sacada

com tal largura,

que a dentadura

passeia por ali

desencalmada.

Barbinha aguda

como sovela,

não temo a ela,

mas hei medo à barba:

Deus me acuda.

Pescoço longo,

socó com saia,

a quem dão vaia

negros, com quem se farta

de mondongo.

Tenho chegado

ao meu feitio

do corpo esguio,

chato de embigo,

erguido a cada lado.

Peito lazeira

tão derribado,

que é retratado

ao peito espaldar

debaixo da viseira.

Junto as cavernas

tem as perninhas

tão delgadinhas,

não sei, como se tem

naquelas pernas.

Cada pé junto

forma a peanha,

onde se amanha

a estátua do pernil,

e do presunto.

Anca de vaca

mui derribada,

mais cavalgada,

que sela de rocim,

charel de faca.

Puta canalha,

torpe, e mal feita,

a quem se ajeita

uma estátua de trapo

cheia de palha.

Vamos ao sundo

de tão mau jeito,

que é largo, e estreito

do rosto estreito, e largo

do profundo.

Um vaso atroz,

cuja portada

é debruada

com releixos na boca,

como noz.

Horrível odre,

que pelo cabo

toma de rabo

andar são, e feder

a cousa podre.

Modos gatunos

tem sempre francos,

arranha os Brancos,

e afaga os membros só

dos Tapanhunos.

Tenho acabada

a obra, agora

rasguem-na embora,

que eu não quero ver Chica

nem pintada.

 

 

 

 

A HUM AMIGO APADRINHANDOLHE A ESCRAVA DE ALCUNHA A JACUPEMA,

A QUEM SUA SENHORA QUERIA CASTIGAR PELO FURTO DE HUM OVO.

 

 

Se acaso furtou, Senhor,

algum ovo a Jacupema,

o fez só, para que gema

cos pesos do meu amor:

não creio do seu primor,

que furte a sua senhora,

sendo franca, e não avara,

porque para ela campar,

escusa claras comprar,

pois negra val mais que clara.

 

 

 

 

À PENDENCIA QUE TEVE MARANA DE LEMOS COM VICENCIA POR RESPEYTO

DE ANTONIO DE MOURA A QUE ACODIO HUM CAPm. HYPOCRITA QUE TRAZIA

HUM CRUCIFIXO AO PESCOÇO.

 

 

1    Botou Vicência uma armada

      de uma canoa, e dous remos

      contra Marana de Lemos,

      que estava numa emboscada:

      por uma encoberta estrada

      entrou no reduto, e logo

      o Capitão, disse "fogo":

      e vendo arder o seu fato

      o Capitão, que é beato,

      tomou as de Vila Diogo.

 

2    Por Diogo Pissaro grita,

      que acuda a casa queimada,

     que Vicência vinha assada

      por ver a Marana frita:

      Pissaro, que perto habita

      entrou, e vendo as disputas

      de putas tão dissolutas,

      disse (porque elas teimam)

      aqui-d'El-Rei, que se queimam

      de ciúmes duas putas.

 

3    Marana a nenhum partido

      a praça quis entregar,

      que é soldado singular,

      nas campanhas de Cupido:

      Vicência tinha vencido,

      pois entrou na fortaleza,

      mas Deus sabe, o que Ihe pesa

      de não poder conseguir.

      haver então de sair

      com armas, e mecha acesa.

 

4    Não pôde dizer-lhe ali

      esta honra militar,

      que Marana por se armar

      quis a mecha para si:

      o que há, que notar aqui

      é, que uma, e outra velhaca

      dando tão grande matraca,

      e o sentinela, que brama,

      o General sobre a carna

      roncava como uma vaca.

 

5    Se é certo, que o General

      em tal conflito roncou

      é, que a prima noute andou

      visitando o arraial:

      como por todo o arrebal

      andou qual Jacurutu,

      sempre à espera de um Tatu,

      que do laço Ihe escapou,

      com pé leve se deitou,

      dormiu com pesado cu.

 

6    Vicência a passos contados

      perdeu a praça, e a presa,

      porque é por sua simpleza

      moça de bofes lavados:

      mas o Capitão dá brados

      de lidar sempre com isto,

      e de um, e doutro anticristo

      se deseja em liberdade,

      como há de ver, se há verdade

      nas cartas, e no seu Cristo?

 

 

 

 

A CARIDADE COM QUE ESTA MESMA VICENCIA AGAZALHAVA TREZ AMANTES.

 

 

Com vossos três amantes me confundo,

Mas vendo-vos com todos cuidadosa,

Entendo, que de amante, e amorosa

Podeis vender amor a todo o mundo.

Se de amor vosso peito é tão fecundo,

E tendes essa entranha tão piedosa,

Vendei-me de afeição uma ventosa,

Que é pouco mais que um selamim sem fundo.

Se tal compro, e nas cartas há verdade,

Eu terei quando menos trinta Damas,

Que infunde vosso amor pluralidade.

E dirá, quem me vir com tantas chamas,

Que Vicência me fez a caridade,

Porque o leite mamei das suas mamas.

 

 

 

 

BAXA QUE DERAM A ESTA VICENCIA, POR DIZER-SE QUE EXHALLAVA MAO

CHEYRO PELO SUVACOS, E SE FOY METTER COM JOANNA GAFEYRA.

 

 

Lavai, lavai, Vicência, esses sovacos,

Porque li num pronóstico almanaque,

Que vos tresanda sempre o estoraque,

E por isso perdeste casa, e cacos.

Hoje que estais vizinha dos buracos

Das pernas gafeirais, dareis mor baque,

Que tanta caca hei medo, que vos caque,

E que fujam de vós té os macacos.

Tratai de perfumar-vos, e esfregar-vos,

Que quem quer esfregar-se, anda esfregada,

Senão ide ser Freira, ou enforcar-vos.

Porque está toda a terra conjurada,

Que antes de vos provar, hão de cheirar-vos,

E lançar-vos ao mar, se estais danada.

 

 

 

 

INTENTA AGORA O POETA DESAGRAVAR A VICENCIA

JUSTAMENTE SENTIDA DOS SEUS VERSOS.

 

 

Os vossos olhos, Vicência,

tão belos, como cruéis,

são de cor tão esquisita,

que não sei, que cor Ihes dê.

Se foram verdes, folgara,

que o verde esperança é,

e tivera eu esperanças

de um favor vos merecer.

Os azuis de porçolana

força é, quer pesar me dêem,

que porçolanas não servem,

onde não hei de comer.

Se são negros vossos olhos,

é já luto, que trazeis

pelos homens, que haveis morto

a rigores, e desdéns.

Mas sendo tais olhos pares,

no mundo outro par não têm,

pois nem os Pares de França

podem seus escravos ser.

Se os vossos olhos se viram

um a outro alguma vez,

como se namorariam!

e se quereriam bem!

Que de amores se disseram

um a outro, que desdéns!

meus olhos se chamariam,

meu sol, minha luz, meu bem,

Um pelo outro chorando,

ambos chorariam, que

quando os olhos vêem chorar,

força é, que chorem também.

Mas por isso a natureza

catelosamente fez

entre os olhos o nariz,

com que os olhos se não vêem.

Que se um a outro se viram,

Vicência, tivera eu

no prezar dos vossos olhos

a vingança, que hei mister.

 

 

 

 

CELEBRA O POETA À HUMA GRACIOSA DONZELLA, E NÃO

MENOS FORMOSA DE MARAPE CHAMADA ANTONIA.

 

1    Vi-me Antônia, ao vosso espelho,

       e com tal raiva fiquei,

       que não sei, como julguei

       por linda, a quem me faz velho:

       mas tomei melhor conselho

       de então não enraivecer,

       que se do sol ao correr

       vai murchando o Girassol,

       que muito, que o vosso sol

       me fizeste envelhecer.

 

2    O com que mais me admirais,

      é, que com tanto arrebol

      para vós não sejais sol,

      pois sois flor, e não murchais.

      Como os passos naturais

      do Sol pela esfera pura

      mo legam toda a criatura,

      e o sol sempre se remoça,

      assim mesmo não faz mossa

      em si o sol da formosura.

 

3    Tantos anos sol sejais,

      que com giros soberanos

      enchais dos mortais os anos,

      e os vossos nunca os enchais:

      a todos envelheçais,

      como é próprio na oficina

      da luz sempre matutina,

      sintam do sol as pisadas

      as idades mais douradas,

      vós sejais sempre menina.

 

 

 

 

A BRAZIA DO CALVARIO OUTRA MULATA MERETRIZ DE QUEM TAMBEM

FALLAREMOS, QUE ESTANDO EM ACTO VENEREO COM HUM FRADE

FRANCISCANO, LHE DEO UM ACIDENTE A QUE CHAMÃO VULGARMENTE

LUNDUZ, DE QUE O BOM FRADE NÃO FEZ CASO, MAS ANTES FOY

CONTINUANDO NO MESMO EXERCICIO SEM DESENCAVAR, E SOMENTE O FEZ,

QUANDO SENTIO O GRANDE ESTRONDO, QUE O VAZO LHE FAZIA.

 

 

1    Brásia: que brabo desar!

      vós me cortastes o embigo,

      mas inda que vosso amigo,

      não vos hei de perdoar:

      pusestes-vos a cascar,

      e invocastes os Lundus;

      Jesus, nome deJesus!

      quem vos meteu no miolo,

      que se enfeitiçava um tolo

      mais que co jogo dos cus?

 

2    O Fradinho Franciscano

      sendo um servo de Jesus,

      que Ihe dava dos Lundus,

      se é mais que os Lundus magano?

      tinha ele limpado o cano

      quatro vezes da bisarma,

      e como nunca desarma

      tão robusta artilharia,

      dos lundus que Ihe daria,

      se ele estava co'aquela arma?

 

3    Chegados os tais lundus

      os viu no vosso acidente,

      que se os vê visivelmente

      também Ihe dera o seu truz:

      desamarrados os cus,

      porque o Frade desentese,

      foi-se ele, pese a quem pese,

      e vós assombrada toda,

      perdestes a quinta foda,

      e talvez que fossem treze.

 

4    O melhor deste desar

      é, que o Padre, que fodia,

      quando o jogo Ihe acudia,

      vos tocava o alvorar:

      vos enforcando no ar

      esse como a balravento,

      então o Frade violento

      entrava como um cavalo,

      e o cono com tanto abalo

      zurrava como um jumento.

 

5    Eu não vi cousa mais vã,

      do que o vosso cono bento,

      pois com dous dedos de vento

      roncava uma Itapoã,

      estava agora louçã,

      crendo, que salva seria

      toda aquela artilharia,

      mas vós o desenganastes,

      quando o murrão Ihe apagastes

      com chuva, e com ventania.

 

6    Se achais, que vos aniquilo,

      porque mais pede inda o caso,

      digo, que há no vosso vaso

      as catadupas do Nilo:

      e se o vaso vos perfilo

      com rio tão hediondo;

      crede, que o Nilo redondo

      com todas as sete bocas

      tem ruído, e vozes poucas

      à vista do vosso estrondo.

 

7    Ninguém se espanta, que vós

      venteis com tal trovoada,

      porque de mui galicada

      tendes no vaso comboz:

      é caso aqui entre nós,

      que se o membro é uma viga,

      em tocando na barriga

      uma enche, e outra extravasa,

      e vaso, que enche, e vaza,

      como de marés se diga.

 

8    Tantas faltas padeceis

      fora do vaso, e no centro,

      que nada ganhais por dentro,

      por fora tudo perdeis:

      já por isso recorreis

      ao demo, a quem vos eu dou,

      e tanto vos enganou,

      que o Frade o demo sentindo,

      dele, (e de vós) foi fugindo,

      e co demo vos deixou.

 

9    O demo, que é mui manhoso,

      veio então a conjurar-vos,

      que à força de espeidorrar-vos

      veja o mundo um Frei Potroso:

      coitado do religioso

      corria com reverência,

      nos culhões tendo esquinência

      de vossa ventosidade,

      mas se a casta tira o Frade,

      sei, que há de ter paciência.

 

 

 

 

A HUMA DAMA QUE POR UM VIDRO DE ÁGUA

TIRAVA O SOL DA CABEÇA.

 

 

1    Qual encontra na luz pura

      a Mariposa desmaios,

      tal de Clóri sente a raios

      assaltos a formosura:

      remédio a seu mal procura,

      mas com ser a doença clara,

      já eu Iha dificultara,

      temendo em tanto arrebol,

      que tirar da testa o sol,

      lhe custa os olhos da cara.

 

2    Posto que o sol não resista,

      temo, que ali não faleça,

      porque se ofende a cabeça,

      nunca desalenta a vista:

      nesta pois de ardor conquista

      vejo a Clóri perigar,

      pois querendo porfiar,

      das duas uma há de ser,

      ou não há de ao sol vencer,

      ou sem vista há de ficar.

 

3    Mas Clóri assim achacada

      que está, é cousa sabida,

      menos do sol ofendida,

      que da lua perturbada:

      que esteja Clóri aluada,

      é inferência comua,

      pois se ao sol da fonte sua

      perturbam nuvens de ardores,

      quando ao sol sobem vapores,

      é nas mudanças da lua.

 

4    Se Clóri se persuadira,

      que só da lua enfermara,

      da cabeça não curara,

      mas aos pés logo acudira:

      se o calor porém Ihe inspira,

      que o seu mal todo é calor,

      pois o maior ao menor

      por razão deve prostrar,

      para as do sol sepultar,

      procure as chamas do amor.

 

5    Mas se as do fogo não quer,

      bem se val das armas d'água,

      que só pode em tanta frágua

      tanto vidro alívio ser:

      nele o mal remédio ter,

      o mesmo sol o assegura,

      que se nas águas procura

      em seus ardores abrigo,

      quem tem em cristal jazigo,

      acha em vidros sepultura.

 

 

 

 

 

HUMA FORMOSA MULATA, A QUEM HUM SARGENTO SEU

AMASIO ARROJOU AOS VALADOS DE HUMA HORTA.

 

 

1    Que cantarei eu agora,

      Senhora Dona Talia,

      com que todo o mundo ria,

      do pouco que Jelu chora:

      inspira-me tu, Senhora,

      aquele tiro violento,

      que àJelu fez o Sargento;

      mas que culpa o homem teve?

      não fora ela puta leve,

      para ser péla do vento.

 

2    Dizem, que ele pegou dela,

      e que gafando-a no ar,

      querendo a chaça ganhar

      a jogou como uma péla:

     fez chaça a branca Donzela

      lá na horta da cachaça,

      que mais de mil peças passa,

      e tal jogo o homem fez,

      que eu Ihe seguro esta vez,

      que ninguém Ihe ganha a chaça.

 

3    Triste Jelu sem ventuta

      ali ficou enterrada,

      mas foi bem afortunada

      de ir morrer à sepultura:

      poupou a esmola do Cura,

      as cruzes, e as confrarias,

      pobres, e velas bugias,

      e como era lazarenta,

      depois de mui fedorenta

      ressuscitou aos três dias.

 

4    Dizem, que depois de erguida

      da morte se não lembrou,

      que como ressuscitou,

      se tornou à sua vida:

      eu creio, que vai perdida,

      e me diz o pensamento,

      que há de ter um fim violento,

      como se Ihe tem fadado,

      ou nas solas de um soldado,

      ou nas viras de um sargento.

 

 

 

 

 

RESSENTIDA TAMBEM COMO AS OUTRAS O POETA LHE DÀ ESTA

SATISFAÇÃO POR ESTILLO PROPORCIONADO

AO SEU GENIO.

 

 

Jelu, vós sois rainha das Mulatas,

E sobretudo sois Deusa das putas,

Tendes o mando sobre as dissolutas,

Que moram na quitanda dessas Gatas.

Tendes muito distantes as Sapatas,

Por poupar de razões, e de disputas,

Porque são umas putas absolutas,

Presumidas, faceiras, pataratas.

Mas sendo vós Mulata tão airosa

Tão linda, tão galharda, e folgazona,

Tendes um mal, que sois mui cagarrosa.

Pois perante a mais ínclita persona

Desenrolando a tripa revoltosa,

O que branca ganhais, perdeis cagona.

 

 

 

 

AO PROVEDOR DA FAZENDA REAL FRANCISCO LAMBERTO FAZENDO

NA RIBEYRA O FAMOSO GALLEÃO S. JOÃO DE DEOS.

 

 

Fazer um passadiço de madeira,

Pelo qual se haja de ir daqui a Lisboa,

E fazermos pessoa por pessoa

Vizinhos de São Paulo, ou da Ribeira.

Esta alta ponte estável, e veleira

Tal virtude terá de popa a proa,

Que orbes avizinhando a esta coroa,

A esfera habitaremos derradeira.

Por esta ponte, e passadiço de ouro

Conduzireis os pomos mais fecundos

Que o de Vênus esférico tesouro.

E serão vossos anos tão jucundos

Em todo o Orbe, que o Planeta Louro

Dirá, que dais a Pedro novos mundos.

 

 

 

 

OUTRA MULATA, DE QUEM O POETA FALLA ENTRE AS BORRACHAS DO

JUIZADO DE NOSSA SENHORA DO EMPARO TAMBEM SE RESENTIO DA

AFRONTA, E ELLE À SATISFAZ AGORA NA MESMA FORMA.

 

1    Marta: mandai-me um perdão

      em qualquer continha benta

      tocada na vossa venta

      passada por vossa mão:

      porque ainda que a contrição

      que tenho, de que entre nós

      haja ofensa tão atroz,

      é obra, que tanto monta,

      que me hei de tocar a conta,

      ou me hei de ir tocar em vós.

 

2    Quero, que me perdoeis,

      e para me perdoar,

      sendo ara do meu altar,

      nela é força, me toqueis:

      assim me indulgenciareis

      por esta obra meritória,

      que ofreço à vossa memória,

      pela qual no foro externo

      podeis livrar-me do inferno,

      e levar-me à vossa glória.

 

3    Maldita seja a caraça,

      que me meteu na cabeça;

      que éreis vós, Marta, má peça,

      para ir perder vossa graça:

      e agora que a vista embaça

      em tão alta galhardia,

      praguejarei noite, e dia

      a patifa, que me ordena,

      que pegando então na pena

      vos metesse na folia.

 

 

4    Vós sois a gala das Pardas,

      e como sol das Mulatas

      sombra fazeis às Sapatas,

      que presumem de galhardas:

      formosuras são bastardas

      todas as mais formosuras,

      mas eu tomara às escuras

      topar vosso fraldelim,

      porque novo para mim

      assentara-lhe as costuras.

 

 

 

 

LOUVA O POETA OBSEQUIOZAMENTE O GRANDE ZELO, E CARIDADE, COM

QUE ANTONIO DE ANDRADE JUIZ, QUE ERA DOS ORPHÃOS DESTA CIDADE

DA BAHIA SENDO DISPENSEYRO DA SANTA CASA DE MISERICORDIA

TRATAVA AOS POBRES DOENTES DO HOSPITAL.

 

 

1    Senhor Antônio de Andrade,

      não sei, se vos gabe mais

      as franquezas naturais,

      ou se a cristã caridade:

      toda esta nossa Irmandade,

      que a pasmos emudeceis,

      vendo as obras, que fazeis,

      não sabe decidir não,

      se igualais o amor de Irmão,

      ou se de Pai o excedeis.

 

2    Ou, Senhor, vós sois parente

      de toda esta enfermaria,

      ou vos vem por reta via

      ser Pai de todo o doente:

      quem vos vê tão diligente,

      tão caritativo, e tão

      inclinado à compaixão,

      dirá de absorto, e pasmado,

      que entre tanto mal curado,

      só vós fostes homem são.

 

3    Aquela mesma piedade,

     a que vos move um doente,

      vos mostra evidentemente

      homem são na qualidade:

      de qualquer enfermidade

      são aforismos não vãos,

      que enfermaram mil Irmãos,

      mas se o contrário se alude,

      somente a vossa saúde

      foi contágio de mil sãos.

 

4    Quem não sarou desta vez,

      fica muito temeroso,

      que Ihe há de ser mui penoso

      acabar-se-vos o mês:

      ninguém jamais isto fez,

      nem é cousa contingente

      o ficar toda esta gente

      com perigo tão atroz,

      que se acabe o mês a vós,

      para mal de outro doente.

 

 

 

 

DISPARATES NA LINGUA BRAZILICA A HUMA CUNHÃA,

QUE ALI GALANTEAVA POR VICIO.

 

 

1    Indo à caça de tatus

      encontrei Quatimondé

      na cova de um Jacaré

      tragando treze Teiús:

      eis que dous Surucucus

      como dous Jaratacacas

      vi vir atrás de umas Pacas,

      e a não ser um Preá

      creio, que o Tamanduá

      não escapa às Gebiracas.

 

2    De massa um tapiti,

      um cofo de Sururus,

      dous puçás de Baiacus,

      Samburá de Murici:

      Com uma raiz de aipi

     vos envio de Passé,

      e enfiado num imbé

      Guiamu, e Caiaganga,

      que são de Jacaracanga

      Bagre, timbó, Inhapupê.

 

3    Minha rica Cumari,

      minha bela Camboatá

      como assim de Pirajá

      me desprezas tapiti:

      não vedes, que murici

      sou desses olhos timbó

      amante mais que um cipó

      desprezado Inhapupê,

      pois se eu fora Zabelê

      vos mandara um Miraró.

 

 

 

 

A HUMA DAMA, QUE MANDANDO-A O POETA SOLICITAR LHE MANDOU

DIZER QUE ESTAVA MENSTRUADA.

 

 

O teu hóspede, Catita,

foi mui atrevido em vir

a tempo, que eu hei mister

o aposento para mim.

Não vou topar-me com ele,

porque havemos de renhir,

e há de haver por força sangue,

porque é grande espadachim.

Tu logo trata de pôr

fora do teu camarim

um hóspede caminheiro

que anda sempre a ir, e vir.

Um hóspede impertinente

de mau sangue, vilão ruim:

por mais que Cardeal seja

vestido de carmesim.

Despeje o hóspede a casa,

pois Ihe não custa um ceitil,

e a ocupa de ordinário

sem pagar maravedi.

Não tenhas hóspede em casa

tão asqueroso, tão vil,

que até os que mais te querem

fujam por força de ti.

Um hóspede aluado,

e sujeito a frenesis,

que em sendo quarto de lua

de fina força há de vir.

Que diabo há de sofrê-lo,

se vem com tão sujo ardil,

a fazer disciplinante,

quem foi sempre um serafim?

Acaso o teu passarinho

é pelicano serril,

que esteja vertendo sangue

para os filhos, que eu não fiz?

Vá-se o mês, e venha o dia,

em que eu te vá entupir

essas cruéis lancetadas

com lanceta mais sutil.

Deixa já de ensangüentar-te,

porque os pecados que eu fiz,

não é bem, que pague em sangue

o teu pássaro por mim.

 

 

 

 

A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU HUM REGISTO DE SANTA

JULIANA QUE HAVIA TIRADO POR SORTES EM SANTA ANNA.

 

 

Não me maravilha não,

tirares hoje em Santa Ana

uma Santa Juliana,

e o touro por um grilhão:

porque a vossa devoção

é certo, que a meus adornos

decretou estes subornos,

para que veja a minha alma,

que por dar à Santa a palma,

me prende hoje pelos cornos.

 

 

 

 

A HUMA NEGRA QUE TINHA FAMA DE FEYTICEIRA

CHAMADA LUIZA DA PRIMA.

 

 

1    Dizem, Luíza da Prima,

      que sois puta feiticeira,

      no de puta derradeira,

      no de feiticeira prima:

      grandemente me lastima,

      que troqueis as primazias

      a lundus, e a putarias,

      sendo-vos melhor ficar

      puta em primeiro lugar,

      em último as bruxarias.

 

2    Mas é certo, e sem disputa,

      que isso faz a idéia vossa,

      pois para bruxa sois moça,

      e sois velha para puta:

      que os anos vos computa

      e a idade vos arrima,

      esse a fazer vos anima

      pela conta verdadeira

      no de puta derradeira,

      no de feiticeira prima.

 

3    Esta é forçosa ocasião,

      de que o Cação vos passeie,

      porque é força que macheie

      um cação a outro cação:

      enquanto a fornicação

      o fazeis naturalmente,

      e quanto o enjeitar a gente

      é tanto, o artifício, e tal,

      que exercendo o natural,

      obrais endiabradamente.

 

4    Isto suposto, Luizica,

      vos digo todo medroso,

      que deve ser valeroso

      o homem, que vos fornica;

      porque se vos comunica

      toda a noite com sojornos

      o demo dos caldos mornos

      com seu priapo à faísca,

      à fé que a muito se arrisca,

      quem põe ao Diabo cornos.

 

5    Dormi c'o diabo à destra,

      e fazei-lhe o rebolado,

      porque o mestre do pecado

      também quer a puta mestra:

      e se na torpe palestra

      tiveres algum desar,

      não tendes, que reparar,

      que o Diabo, quando emboca,

      nunca dá a beijar a boca,

      e no cu o heis de beijar.

 

6    Se foi vaso de eleição

      São Paulo a passos contados,

      vós pelos vossos pecados

      sois vaso de perdição:

      toda a praga, e maldição

      no vosso vaso há de entrar,

      e a tal termo há de chegar

      esse vaso sempiterno,

      que há de ser da vida inferno

      onde as porras vão parar.

 

 

 

 

A PEDITORIO DE HUMA DAMA QUE SE VIO

DESPREZADA DE SEU AMANTE.

 

 

Até aqui blasonou meu alvedrio,

Albano, meu, de livre, e soberano,

Vingou-se, ai de mim triste! Amor tirano,

De quem padeço o duro senhorio.

E não só se vingou cruel, e impio

Com sujeitar-me ao jugo desumano

De bem querer, mas de querer-te, Albano,

Onde é traição a fé, e amor desvio.

Se te perdi, não mais que por querer-te,

Paga tão justa, quanto merecida,

Pois com amar não soube merecer-te.

De que serve uma vida aborrecida?

Morra, quem teve a culpa de perder-te:

Perca, quem te perdeu, também a vida.

 

 

 

 

A MANUEL FERREIRA DE VERAS NASCENDOLHE HUM FILHO, QUE LOGO

MORREO, COMO TAMBÉM AO MESMO TEMPO HUM SEO IRMAO, E AMBOS

FORAM SEPULTADOS JUNTOS EM N. SENHORA DOS PRAZERES

 

 

Um prazer, e um pesar quase irmanados,

Um pesar, e um prazer mas divididos

Entraram nesse peito tão unidos,

Que Amor os acredita vinculados.

No prazer acha Amor os esperados

Fruitos de seus extremos conseguidos,

No pesar acha a dor amortecidos

Os vínculos do sangue separados.

Mas ai fado cruel! que são azares

Toda a sorte, que dás dos teus haveres,

Pois val o mesmo dares, que não dares.

Emenda-te, fortuna; e quando deres,

Não seja esse pesar em dous pesares,

Nem um prazer enterrado nos Prazeres.

 

 

 

 

A HUMA CRIOLA POR NOME IGNACIA QUE LHE

MANDOU PARA GLOZAR O SEGUINTE

 

MOTE

 

Para que seja perfeito

um bem feito cono em tudo,

há de ser alto, carnudo

rapadinho, enxuto, estreito.

 

 

1    Inácia, a vossa questão,

      quem crerá, que é de uma preta,

      mas vós sois preta discreta,

      criada entre a discrição:

     a proposta veio em vão,

      pois a um tolo de mau jeito

      tínheis vós proposto o pleito:

      ele respondeu em grosso,

      que o cono há de ser o vosso,

      Para que seja perfeito.

 

2    Vós com tamanha tolice

      ficastes soberba, e inchada,

      porque vistes tão gabada

      a proposta, e parvoíce:

      mas quem, Inácia, vos disse,

      que o vosso batido escudo

      era macio, e carnudo,

      se é tão magro, e pilhancrado,

      devendo ser gordo, e inchado

      Um bem feito cono em tudo:

 

3    Agora quero mostrar-vos,

      que o vosso Mandu magriço

      vos pôs um cono postiço

      para efeito de louvar-vos:

      hoje hei de desenganar-vos,

      que o Mandu pouco sisudo

      vos engana, e mente em tudo:

      tendes raso, e esguio cono,

      e para dar-se-lhe abono

      Há de ser alto, carnudo.

 

4    Se o vosso cono há de ser

      molde de cono melhor,

      qualquer cono, que bom for,

      nisso se bota a perder:

      mas antes deve entender

      todo o cono de bom jeito,

      que para ser mais perfeito,

      não há de imitar-vos já,

      e desta sorte será

      Rapadinho, enxuto, estreito.

 

 

 

 

A MARGARIDA, MULATA PERNAMBUCANA QUE CHORAVA AS ESQUIVANÇAS

DE SEU AMANTE COM PRETEXTO DE LHE HAVER FURTADO

HUNS CORÁES.

 

 

1    Carira: por que chorais?

      que é perdição não vereis,

      as pérolas, que perdeis

      pela perda dos corais?

      pérolas não valem mais

      dos vossos olhos chorados,

      que de coral mil ramadas?

      pois como os olhos sentidos

      vertem por corais perdidos

      pérolas desperdiçadas?

 

2    Basta já, mais não choreis,

      que os corais, todos sabemos,

      que não tinham os extremos,

      que vós por eles fazeis:

      que os quereis cobrar, dizeis:

      mas como em cobrança tal

      meteis tanto cabedal?

      como empregais nesta empresa

      o aljôfar, que val, e pesa

      muito mais do que coral?

 

3    Vós sois fraca mercadora,

      pois em câmbio de uns corais

      tais pérolas derramais,

      quais as não derrama Aurora:

      sempre o negócio melhora

      as Damas do vosso trato,

      mas sem risco, e mais barato:

      e em vós é fácil de crer,

      que os corais heis de perder,

      sobre quebrar no contrato.

 

4    Se vós adita o sentido,

      que o mar cria coral tanto,

      e no mar do vosso pranto

      se achará o coral perdido:

      levais o rumo torcido,

      e ides, Carira, enganada,

      porque a água destilada,

      que té os beiços vos corria,

      muito coral vos daria

      de cria, mas não de achada.

 

5    Se tratais ao camarada

      de ladrão, de ladronaço,

      porque vos tirou do braço

      coral, que val pouco, ou nada:

      é, que estais apaixonada,

      bem que com pouca razão:

      mas ponde-lo de ladrão,

      quando os corais bota fora,

      e não os pondes na hora,

      que vos rouba o coração.

 

 

 

 

A HUMA DAMA GRATIFICANDOLHE O FAVOR, QUE POR

SUA INTERCESSÃO ALCANÇARA.

 

 

1    Quem tal poderia obrar,

      se não vossa perfeição,

      beijo-vos, Senhora, a mão,

      por tal favor alcançar:

     e para graças vos dar,

      é bem, que obséquio vos faça,

      que quem só sobe com graça

      ao trono de merecer,

      é bom, que eu venha a dizer,

      que é toda cheia de graça.

 

2    Não tenho, que encarecer,

      o quanto estou obrigado,

      que, o que me dá vosso agrado,

      é digno de agradecer:

      pois ninguém pode fazer

      o que quer meu coração,

      senão que a vossa afeição,

      quis na mão levar a palma,

      do que rendido a minha alma

      vos beija a palma da mão.

 

 

 

 

A CERTO HOMEM DE DISTINÇÃO QUE SE COSTUMAVA EMBEBEDAR E

QUEIMANDO-SE-LHE A CASA FICOU ELLE ILLEZO, E TODA A FAMILIA.

 

 

1    O vício da Sodomia

      em Gomorra, e em Sodoma

      Lavrava como carcoma,

      e como traça roía:

      quis Deus arrancar num dia,

      e arrancou de um lanço só,

      porque reduzindo em pó

      a cidade, e sua gente,

      livrou do incêndio somente

      toda a família de Lot.

 

2    Segundo Lot ao burlesco

      temos hoje em Andrezão,

      como sodomita não,

      como bebedor tudesco:

      estava dormindo ao fresco,

      e roncando a seu prazer

      para a cachaça cozer,

      e por mais que a palhoça arda,

      Deus Ihe defende, e resguarda,

      ele, família, e mulher.

 

3   O vulgo, que é todo asnal,

      tem este caso horroroso

      por prodígio milagroso,

      sendo cousa natural:

      porque tomado um sendal,

      ou qualquer lenço tomado,

      e em jeribita ensopado,

      se o fogo se Ihe puser,

      a jeribita há de arder,

      sem ser o lenço queimado.

 

4    Assim o nosso Andrezão

      de jeribita atacado

      não podia ser queimado

      num fio do casacão:

      a palhoça ardeu então

      porém a pele maldita

     seria cousa esquisita,

     que pudesse em fogo arder,

     porque a pele vinha a ser

    o lenço da jeribita.

 

5    E suposta esta livrança

      entre Sodoma, e Tudesco

      ou há grande parentesco,

      ou mui grande semelhança:

      quem quiser com confiança

      entrar no fogo veemente,

      escuse o ser inocente,

      como os Moços do Salmista,

      trate de ser flautista,

      e beba muita aguardente.

 

6    Lá no forno do Pombal

      Vila do Conde Valido,

      quando está mui acendido

      entra (prodígio fatal!)

      um vilão de ânimo tal,

      que dentro vira a fogaça,

      com que a todo o povo embaça,

      sem o mistério alcançar,

      e eu agora venho a dar,

      que vai cheio de vinhaça.

 

7    E pois o nosso Andrezão

      leva o fogo de vencida,

      para toda a sua vida

      temos nele um borrachão:

      e como é mui asneirão,

      e em tudo tão material,

      fará um discurso tal,

      que a beber, e mais beber

      há de escapar, e viver

      no dilúvio universal.

 

8    Engana-se o asneirão,

      porque no final juízo

      há de acabar, que é preciso,

      vinho, vide, cepa, e chão:

      tudo há de acabar então,

      e quando ache o Brichote

      escondido algum pipote,

      como é tão geral a mágoa,

      porque morra, dar-lhe-ão água,

      que é veneno de um vinhote.

 

 

 

 

LAMENTA A MULHER DESTE MESMO SUGEYTO A MÁ SORTE,QUE TEVE EM SE

CASAR COM HOMEM DETALCONDIÇÃO, PORQUE ACTUALMENTE ESTAVA BEBADO.

 

 

MOTE

 

Mofina mulher,

que tão mal casou!

Ai que se lá vou

hei-vos de moer.

 

1    Coitada de quem

      teve tal marido,

      que bebe o vestido,

      e sem ele vem:

      porventura alguém

      pode tal sofrer?

      Mofina mulher,

      que tão mal casou!

      Ai que se lá vou

      hei-vos de moer.

 

2    Mofina de mim,

      nunca eu fora feita

      por não ser sujeita

      a um vilão ruim:

      Até o chapim

      me foi já beber.

      Mofina mulher,

      que tão mal casou!

      Ai que se lá vou

      hei-vos de moer.

 

3    Melhor me tivera

      meu Pai encerrada,

      num canto fechada

      melhor estivera,

      e não conhecera,

      quem me há de beber!

      Mofina mulher,

      que tão mal casou!

      Ai que se lá vou

      hei-vos de moer.

 

4    Sobre camarões

      Sem comer mais nada

      Só de uma assentada

      bebe dez tostões:

      vendeu os calções,

      só para beber.

      Mofina mulher,

      que tão mal casou!

      Ai que se lá vou

      hei-vos de moer.

 

5    Darei um pregão:

      sabia todo o mundo,

      que é poço sem fundo

      este Beberrão:

      com tal condição

      há de já morrer.

      Mofina mulher,

      que tão mal casou!

      Ai que se lá vou

      hei-vos de moer.

 

 

 

 

A AMAZIA DÊSTE SUJEITO QUE FIADA NO SEU RESPEITO

SE FAZIA SOBERBA, E DESAVERGONHADA.

 

 

1    Puta Andresona, eu pecador te aviso,

      que o que amor te tiver, não terá siso;

      tu te finges não ser senão honrada

      e nunca vi mentira mais provada:

      porque de mui metida, e atrevida

      te vieste a sair com ser saída;

      mas quando de ti, Puta, não cuidara,

      fazeres tais baratos de tal cara!

 

2    Esse vaso encharcado, qual Danúbio

      dá a crer, que és puta inda antes do dilúvio:

      tão velha puta és, que ser podias

      Eva das putas, mãe das putarias,

      e por puta antiquíssima puderas

      dar idade às idades, e era às eras;

      e havendo feito putarias artas,

      inda hoje dás a crer, que te não fartas.

 

3    Entram na tua casa a seus contratos

      Frades, Sargentos, Pajens, e Mulatos

      porque é tua vileza tão notória,

      que entre os homens não achas mais que escória:

      a todos esses guapos dás a língua,

      e por muito que dês não te faz míngua:

      antes és linguaraz, e a mim me espanta,

      que dando a todos, tenhas língua tanta.

 

4    Mas isso te nasceu, puta Andresona,

      de seres puta vil, puta fragona:

      que o falar da janela, e da varanda,

      só se achará em putas de quitanda.

      Cal-te, que a puta grave, qual donzela,

      geme na cama e cala na janela:

      mete a língua no cu, e havendo míngua

      quando deres ao cu darás à língua.

 

5    Pois te deixas calar sempre por baixo,

      e lá para calar-te tens o encaixe,

      cal-te um dia por cima atroadora,

      que já se enfada quem na rua mora:

      e diz até uma Preta, e mais não erra,

      que a ovelha ruim é, a que berra;

      cal-te Andresona, que de me aturdires,

      tomei eu a ocasião de hoje me ouvires.

 

 

 

 

A MORTE DE AFONÇO BARBOZA DA FRANCA AMIGO DO POETA.

 

 

Quem pudera de pranto soçobrado,

Quem pudera em choro submergido

Dizer, o que na vida te hei querido,

Contar, o que na morte te hei chorado.

Só meu silêncio diga o meu cuidado,

Que explica mais que a voz de um afligido,

Porque na esfera curta de um sentido

Não cabe um sentimento dilatado.

Não choro, amigo, a tua avara sorte,

Choro a minha desgraça desmedida,

Que em privar-me de ver-te foi mais forte.

Tu com tanta memória repetida

Acharás nova vida em mãos da morte,

Eu triste nova morte às mãos da vida.

 

 

 

 

AO MESMO ASSUMPTO.

 

 

Alma gentil, esprito generoso,

Que do corpo as prisões desamparaste,

E qual cândida flor em flor cortaste

De teus anos o pâmpano viçoso.

Hoje, que o sólio habitas luminoso,

Hoje, que ao trono eterno te exaltaste,

Lembra-te daquele amigo, a quem deixaste

Triste, confuso, absorto, e saudoso.

Tanto a tua vida ao céu subiste,

Que teve o céu cobiça de gozar-te,

Que teve a morte inveja de vencer-te.

Venceu-te o foro humano, em que caíste,

Goza-te o céu, não só por premiar-te,

Senão por dar-me a mágoa de perder-te.

 

 

 

 

ÀS DUAS MULATAS PREZAS FINGE O POETA, QUE VlSlTA NESTES

DOUS SONETOS INTERLOCUTORES. FALLA COM A MAY.

 

 

Perg. Dona Secula in seculis Ranhosa,

           Por que estais aqui presa, Dona Paio?

Resp. Dizem, que por furtar um Papagaio:

           Porém mente a querela maliciosa.

Perg. Estais logo por ladra, e por gulosa:

           Não vos lembra o jantar de Fr. Pelaio?

Resp. Então traguei de carne um bom balaio,

           e de vinha uma selha portentosa.

Perg. Para tanto pecado é curta a sala,

           Ide para a moxinga florescente,

           Onde tanta vidrada flor exala.

Resp. Irei, que todo o preso é paciente;

           Porém se hoje furtei cousa, que fala,

           Amanhã furtarei secretamente.

 

 

 

 

FALLA O POETA COM A FILHA.

 

 

Perg. Bertolinha gentil, pulcra, e bizarra,

          Também vos trouxe aqui o Papagaio?

Resp. Não, Senhor: que ele fala como um raio,

           E diz, que minha Mãe Ihe pôs a garra.

Perg.  Isso está vossa Mãe pondo à guitarra,

           E diz, que há de pagá-lo para Maio.

Resp. Ela é muito animosa, e eu desmaio,

           Se cuido no Alcaide, que me agarra.

Perg. Temo, que haveis de ser disciplinante

           Por todas estas ruas da Bahia,

           E que vos há de ver o vosso amante.

Resp. Quer me veja, quer não: estimaria,

           Que os açoutes se dêem ao meu galante,

           Porque eu também sei ver, e vê-lo-ia.

 

 

 

 

PINTURA ADMIRAVEL DE HUMA BELLEZA.

 

 

Vês esse Sol de luzes coroado?

Em pérolas a Aurora convertida?

Vês a Lua de estrelas guarnecida?

Vês o Céu de Planetas adorado?

O Céu deixemos; vês naquele prado

A Rosa com razão desvanecida?

A Açucena por alva presumida?

O Cravo por galã lisonjeado?

Deixa o prado; vem cá, minha adorada,

Vês desse mar a esfera cristalina

Em sucessivo aljôfar desatada?

Parece aos olhos ser de prata fina?

Vês tudo isto bem? pois tudo é nada

À vista do teu rosto, Caterina.

 

 

 

 

DESAYRES DA FORMOSURA COM AS PENSÕES DA NATUREZA

PONDERADAS NA MESMA DAMA.

 

 

Rubi, concha de perlas peregrina,

Animado Cristal, viva escarlata,

Duas Safiras sobre lisa prata,

Ouro encrespado sobre prata fina.

Este o rostinho é de Caterina;

E porque docemente obriga, e mata,

Não livra o ser divina em ser ingrata,

E raio a raio os corações fulmina.

Viu Fábio uma tarde transportado

Bebendo admirações, e galhardias,

A quem já tanto amor levantou aras:

Disse igualmente amante, e magoado:

Ah muchacha gentil, que tal serias,

Se sendo tão formosa não cagaras!

 

 

 

 

A OUTRO SUGEYTO QUE ESTANDO VARIAS NOYTES COM HUMA DAMA, À NÃO

DORMIO POR NÃO TER POTENCIA; E LHE ENSINÁRAM, QUE TOMASSE POR

BAXO HUMAS TALHADAS DE LIMÃO, E METTEO QUATRO.

 

 

1    Tal desastre, e tal fracasso,

      com razão vos chega ao vivo,

      que eu não vi nominativo

      com tão vergonhoso caso:

      do Oriente até o Ocaso,

      desde o Olimpo até o Baratro,

      do Orbe por todo o teatro

      se diz, que sois fraca rês,

      porque às três o Demo as fez

      mas vós nem três, nem as quatro.

 

2    Quatro noites de desvelo

      fostes passar com Joana,

      tocaram-vos a pavana,

      bailastes o esconderelo:

      um homem do vosso pêlo

      que dirá em tal desvario,

     senão que foi tanto o frio,

      tanto essas noites ventou,

      que a cera se não gastou

      por não pegar o pavio.

 

3    Isto é para insensatos,

      não para os gatos de lei,

      nem para mim, que bem sei,

      que o frio é, que arreita os gatos:

      deixemos esses recatos,

      demos na verdade em cheio,

      o que eu pressuponho, e creio,

      é, que era alheia a mulher,

      e a vossa porra não quer,

      levantar-se com o alheio.

 

4    Vos quereis adrede errar,

      porque nos alheios trastes

      uma vez que vos deitastes,

      força será levantar:

      se vos não hão de emendar

      estas lições de Gandu,

      dai a porra a Berzabu,

      que não presta para o alho,

      ou tomai este caralho

      metei-o, amigo, no cu.

 

5    Engano foi de capricho

      a mezinha do Limão,

      pois a cura do pismão

      é uma, e outra a do bicho:

      para entesar esse esguicho,

      e endurecer esse cano

      o remédio é um sacamano,

      e se sois de fria casta,

      e nada disto vos basta,

      sede frade franciscano.

 

6    Meter um limão sem tédio

      no cu, é cousa de bruto,

      é remédio para puto,

      não para as putas remédio:

      em todo o Antártico prédio

      não se viu tal asnidade,

      porque se na realidade

      sois tão frio fodedor,

      como curais o calor,

      se enfermais de frialdade.

 

 

 

 

A CERTO SUGEYTO DE SUPPOSIÇÃO, QUE TENDO-SE RETIRADO

DA CÔRTE E VIVIA NA SOLEDADE DE HUMA QUINTA

MANDOU AO POETA A SEGUINTE DÉCIMA.

 

 

Goze a Corte o ambicioso

de aplausos, e vaidades,

que eu cá nestas soledades

o melhor descanso gozo:

aqui vivo cuidadoso

de descuidos, e este estado

julgo bem-aventurado,

que o melhor estado, cuido,

é aquele, em que o descuido

vem a ser todo o cuidado.

 

 

 

 

RESPONDE O POETA A SEGUINTE DECIMA COM ESTE SONETO.

 

 

Ditoso Fábio, tu, que retirado

Te vejo ao desengano amanhecido

Na certeza do pouco, que hás vivido,

Sem para ti viver no povoado.

Enquanto nos palácios enredado

Te enlaçaram cuidados divertido,

De ti mesmo passavas esquecido,

De ti próprio vivias desprezado.

Mas agora que nessa choça agreste,

Onde, quanto perdias, alcançaste,

Viver contigo para ti quiseste.

Feliz mil vezes tu, pois começaste

a morrer, Fábio, desde que nasceste,

Para ter vida agora, que expiraste.

 

 

 

 

AO DOUTOR FRANCISCO XIMENES, QUE INDO A CASA DE SUA DAMA,

ACHOU O LUGAR OCCUPADO POR OUTRO, A QUEM DESAFIOU: MAS

NÃO PROIBIO, NEM PÔDE O LOGRO DOS AMORES.

 

 

1    Foi um tonto amancebado

      de noite ao seu palomar,

      foi por se descarregar,

      e saiu mais carregado:

      tinha-lhe o leito ocupado

      outro mais madrugador,

      e quando ouviu o rumor,

      de quem batia de fora,

      estava ele nessa hora

      batendo às portas do amor.

 

 

2    Logo acabou de bater,

      e prevendo pelo tino,

      que quem vinha era um menino,

      jogou com ele a esconder:

      lá dentro se foi meter

      na última camarinha,

      e dando com Macotinha,

      E Guiomar moças modernas,

      deitou-se entre quatro pernas,

      e ficou mui de perninha.

 

3    Fizeram tanta galhofa

      as duas mal maridadas,

      que ouvindo o tonto as risadas

      se foi queixando da mofa:

      entrou, e vendo na alcova

      os três de la vida airada

      arrancou da sua espada,

      e disse ao outro Alfaqui,

      com tal descanso está aqui?

      não o assusta uma estocada?

 

4    O outro, que era mau cão,

      sem mudar de cabeceira,

      não Ihe falou de cadeira,

      respondeu-lhe de colchão:

      e enchendo-se de paixão,

      que o tonto Ihe ocasionou,

      num pistolete pegou,

      e pondo-lhe no focinho,

      Ihe disse: ande, maganinho,

      e ele em vez de andar, voou.

 

5    Plantou na sala a falua,

      donde disse ao fanfarrão

      saca afuera, valentão,

      se é homem, eu vou para a rua:

      saiu com a espada nua

      mas o outro na mesma hora

      saltou pela cama fora,

      e chegando à porta já

      Ihe disse: amanhã será,

      que eu quero foder agora.

 

6    Fechou a porta, e no centro

      disse, entre as quatro Paredes,

      lá de fora dormiredes

      enquanto eu durmo cá dentro:

      foi-se como a bom coentro

      o tonto com leda cara,

      e me dizem se gabara,

      quando o caso referira,

      que posto que o não ferira,

      ao menos o encurralara.

 

7    O cupido encurralado,

      vendo-se senhor do bolo,

      rebolou como um crioulo

      sobre o vaso amulatado:

      e porque quis ir poupado

      ao duelo do outro dia,

      parou, e a Puta dizia,

      fornique quanto quiser,

      que fraco nunca há de ser.

      como é, quem o desafia.

 

8    Então com forças dobradas

      o Moço encendido em fogo

      se foi picando no jogo,

      e foi dobrando as paradas:

      a Puta ouvindo as pancadas

      do fuzil, e pedernal,

      ficou de todo mortal,

      vendo correr pela cama

      entre dilúvios de chama

      incêndios de radical.

 

9    Vinha amanhecendo já,

      quando ele vestido, e armado

      diga, disse, a esse barbado,

      (se acaso tornar por cá)

      que me busque, e me achará

      nos desempenhos forçosos,

      de cornos tão afrontosos;

      sendo, que não deve estar

      sentido de eu Ihos plantar,

      a um traidor dous aleivosos.

 

10    Se é Pedro de malas artes,

        que com tão sujos modilhos

        por comer a dous carrilhos

        fala por ambas as partes:

        e com tão infames artes

        vai recolhendo as maquias

        das Partes todos os dias,

        saiba, que as come em má fé,

        porque bem conhece, que é

        letrado de aleivosias.

 

11    Com isto se foi embora

        entendendo a cada passo

        que encontrava co madraço,

        que o veio esperar cá fora:

        e se tão fraco não fora,

        assim havia de ser:

        mas essa noite é de crer

        que estaria em seu beco

        ele a engolir em seco,

        quando a puta a se foder.

 

12    Acabado o desgostinho

         mandou-o a Puta chamar,

        que um corno não é desar,

        que a um destes mude o focinho:

        veio ela com todo alinho,

        ele embravecido, e irado

        lhe disse, é bem empregado

        depois de eu vender o mundo

        pata comprar-lhe esse sundo

        tirá-lo por mal comprado.

 

13    Ela disse-lhe um dichote,

        e o tontinho, ou asnaval

        abriu a boca sem sal,

        e sorriu-se a meio trote:

        com um, e outro risote

        o pôs ela tão virado,

        que ficou logo assentado

        por um artigo de paz,

        que ela ao outro machacaz

        lhe mandou este recado.

 

14    A esse magano dizei,

        que eu não sou louca perene

        que troque um Doutor Ximene

        nem pelo cetro d'El-Rei;

        que se uma noite Iho dei,

        foi por um certo respeito;

        foi-lhe o recado direito

        com aviso de antemão,

        e dando-se, o asneirão

        se deu por mui satisfeito.

 

 

 

 

A HUM AMIGO PEDINDOLHE HUMA CAIXA DE TABACO.

 

 

Senhor: o vosso tabaco

que muito me ensoberbeça,

se uns fumos lança à cabeça

mais divinos, que os de Baco:

e bem, que nunca em meu caco

entra tão rico alimento,

por isso mesmo eu intento

para meu proveito, e pró,

porque me deis desse pó,

mandar-vos este memento.

 

 

 

 

A CERTO BARQUEIRO DE MARAPÈ PRESUMIDO DE GENTIL, VALENTE, E

NAMORADO, O QUAL TINHA POR GURUMETE DA NAO, EM QUE

O POETA VEYO DE PORTUGAL.

 

 

Gentil-homem, valente e namorado

Trindade vem a ser de perfeições,

Com que a vós triunviro dos varões

Vos teme a morte, e vos venera o fado.

Pelo gentil Adônis sois pintado,

Pelo valente o Marte das nações,

Que unir, e conformar contradições

Só em vós se viu já facilitado.

Sobretudo, Senhor Manuel Fernandes,

Podereis ser de Enéias Palinuro

E conduzir de Europa Ulisses grandes:

Pois trazíeis o barco tão seguro,

Quando passei para esta nova Flandes,

Que o mar me parecia vinho puro.

 

 

 

 

MESMO BARQUEIRO E PELO MESMO CASO.

 

 

1    Por gentil-homem vos tendes,

      por valente, e namorado,

      que a um Fernandes não é dado,

      e cai melhor em um Mendes:

      e pois as prendas retendes,

      que em boa filosofia

      nenhuma em vós caberia,

      tão grande amor me deveis,

      que porque vós o dizeis,

      vo-lo creio em cortesia.

 

2    Só por cerimônia urbana

      me resolvera eu a crer,

      que podeis formoso ser

      tendo olhos de porcelana:

      se vo-lo diz vossa mana

      (que se a tendes, preta é)

      por vos manter nessa fé,

     sabei, que vos troca as prosas,

      porque são mui mentirosas

      as Negras de Marapé.

 

3    Que sois valente, bem creio,

      que esses pulsos, essas pernas,

      e o grosso dessas cavernas

      me estão dizendo "temei-o":

      eu vos creio, e vos recreio,

      não faleis mais nisso: tá,

      porque em rigor, claro está,

      que um valentão D. Ortis

      me assusta quando mo diz,

      e outra vez, quando me dá.

 

4    Mas quanto a ser namorado,

      nisso consiste a questão,

      que esta vez vos vou à mão,

      como quem vos vai ao dado:

      todo o Americano Estado,

      que digo? este mundo inteiro

      namorei eu tão primeiro,

      que nisto de namorar

      podeis vós comigo estar

      a soldada de escudeiro.

 

5    Sou namorado de chapa,

      e de idade pueril

      de Portugal, e Brasil

      tenho namorado o mapa:

      nenhuma cara me escapa,

      e em todo o rosto me embarco,

      e vós no salgado charco

      (posto que em vãos pensamentos)

      sempre andais bebendo os ventos,

      que é bom para o vosso barco.

 

 

 

 

CELEBRA A CARREYRA QUE DEO HUM CABOCLO A HUM SUGEYTO, QUE

ACHOU COM HUMA NEGRINHA ANGOLLA, COM QUEM ELLE FALAVA.

 

 

1    Arre lá co Aricobé,

      como ele é corredor,

      porque fiz co pecador,

      o que já com São Tomé:

      o pobre teve bom pé,

      e esta parte não é má,

      pois se ao chinelo não dá,

      e no fugir não insiste,

      creio, que diria o triste,

      se isto assim é, arre lá.

 

2    O pobrete inadvertido

      de avançada tão medonha,

      diz, que não tendo vergonha,

      só então se viu corrido:

      e sendo a pulso seguido

      do cioso Paiaiá,

      sem dizer cobé, nem pá,

      gritava por toda a rua,

      se te deixo a fêmea tua,

      que me queres? arre lá.

 

3    Não deu por isto o Tapuia

      cortesão do Santo Sé,

      que apertava mais o pé,

      só para Ihe dar na cuia:

      vendo o pobre esta aleluia,

      que tanto susto Ihe dá,

      ajuntava a perna à pá

      para mais veloz correr,

      que quanto isto de morrer

      faz mui mal cabelo cá.

 

4    Nada disto Ihe valeu,

      nem o dar tanta passada,

      porque quando nada nada

      alguma cousa Ihe deu:

      na fugida não perdeu,

      mais que o que se falará:

      se bem, que mais sentirá

      que se diga em todo o ano,

      que o Tapuia desumano

      sabe mais do que cará.

 

5    O Frecheiro a pouco custo

      dizia, porque é magano,

      o cão livrou-se do dano,

      mas não se livrou do susto:

      irracionalmente injusto

      o vulgo me chamará,

      mas eu pouco se me dá,

      porque no caso presente

      quis, que conhecesse a gente,

      se é gente o Barabauá.

 

6    Não é de beiço furado

      o cabocolo maligno,

      que me pareceu menino

      só em ser demasiado:

      se bem, que por ter gostado

      do que qualquer gostará,

      quem o desculpe, haverá,

      no cometer este excesso,

      que eu também morro (confesso)

      por este có mangará.

 

7    Com que afagos a negrinha

      ao pobrete trataria,

      uma onde se Ihe ia,

      e outra onda se Ihe vinha,

      medrosa estava a pretinha,

      que nunca a cor mudará,

      e como não era má,

      que a qualquer outra acontece,

      não quis o pobre morresse

      entre mil soluços cá.

 

8    Este gostinho roubou

      o Tatu do Carapai,

      pois sem dançar o chegai,

      no pobrezinho chegou:

      porque logo que os achou

      um de lá, outro de cá,

      disse a ambos arre lá,

      na minha casa, velhaca,

      vos tira cá o meu faca,

      minha comer catucá.

 

9    A negra, que nisto estava,

      já que fazer não sabia,

      porque se de um gosto ria,

      também de um susto chorava:

      desta maneira gritava

      "Paí na matá, a lá lá,

      aqui sá tu mangalá,

      saiba Deus e todo o mundo,

      que me inguizolo mavundo

      mazanha, mavunga, e má"

 

10    O Tapuia é mui valente,

         pouco digo, valentão,

         pois no centro do sertão

         fez já fugir muita gente:

         e se na ocasião presente

         se diz, que costas virara

         (cousa, em que qualquer repara)

         é, pois que a discursar entro,

         porque fora do seu centro

         jamais cousa alguma pára.

 

11    Também diz, que se deu costas

         já depois do susto feito

         foi, porque certo sujeito

         de o prender fazia apostas:

         entre pergunta, e respostas

         diz mais, que fugira só,

         porque na garganta um nó

         (que este bem cego seria)

         se Ihe punha, quando ouvia

         aripotá treminó.

 

12    Ao Cabocolete iníquo,

        antes que em raiva se engafe

        Ihe fez o cu tafe tafe,

        e a bunda fez tico tico:

        estava feito um Perico,

        porque aqui, e ali se escancha,

        sentindo-se muito a mancha,

        de quando preso o levavam,

        dos rapazes, que gritavam,

        pois que é isso? vai na lancha!

 

 

 

 

A HUMAS FREYRAS OUE MANDÁRAM PERGUNTAR POR OCIOSIDADE AO

POETA A DIFINIÇÃO DO PRIAPO E ELLE LHES MANDOU DIFINIDO, E

EXPLICADO NESTAS DÉCIMAS.

 

 

1    Ei-lo vai desenfreado,

      que quebrou na briga o freio,

      todo vai de sangue cheio,

      todo vai ensangüentado:

      meteu-se na briga armado,

      como quem nada receia

      foi dar um golpe na veia,

      deu outro também em si,

      bem merece estar assi,

      quem se mete em casa alheia.

 

2    Inda que pareça nova,

      Senhora, a comparação,

      É semelhante ao Furão,

      que entra sem temer a cova:

      quer faça calma, quer chova,

      nunca receia as estradas,

      mas antes se estão tapadas,

      para as poder penetrar,

      começa de pelejar

      como porco às focinhadas.

 

3    Este lampreão com talo,

      que tudo come sem nojo,

      tem pesos como relojo,

      também serve de badalo:

      tem freio como cavalo,

      e como frade capelo,

      é cousa engraçada vê-lo

      ora curto, ora comprido,

      anda de peles vestido

      curtidas já sem cabelo.

 

4    Quem seu preço não entende,

      não dará por ele nada,

      é como cobra enroscada,

      que em aquecendo se estende:

      é círio, quando se acende,

     é relógio, que não mente,

      é pepino de semente,

      tem cano como funil,

      é pau para tamboril,

      bate os couros lindamente.

 

5    É grande mergulhador,

      e jamais perdeu o nado,

      antes quando mergulhado

      sente então gosto maior:

      traz cascavéis como Assor,

      e como tal se mantém

      de carne crua também,

      estando sempre a comer,

      ninguém Ihe ouvirá dizer,

      esta carne falta tem.

 

6    Se se agasta, quebra as trelas

      como leão assanhado,

      tendo um só olho, e vazado,

      tudo acerta às palpadelas:

      amassa tendo gamelas

      doze vezes sem cansar,

      e traz já para amassar

      as costas tão bem dispostas,

      que traz envolto nas costas

      fermento de levedar.

 

7    Tanto tem de mais valia,

      quanto tem de teso, e relho,

      é semelhante ao coelho,

      que somente em cova cria:

      quer de noite, quer de dia,

      se tem pasto, sempre come,

      o comer Ihe acende a fome,

      mas às vezes de cansado

      de prazer inteiriçado

      dentro em si se esconde, e some.

 

8    Está sempre soluçando

      como triste solitário,

      mas se avista seu contrário,

      fica como o barco arfando:

      quer fique duro, quer brando,

      tem tal natureza, e casta,

      que no instante, em que se agasta,

      (qual Galgo, que a Lebre vê)

      dá com tanta força, que,

      os que tem presos, arrasta.

 

9    Tem uma contínua fome,

      e sempre para comer

      está pronto, e é de crer,

     que em qualquer das horas come:

      traz por geração seu nome,

      que por fim hei de explicar,

      e também posso afirmar,

      que sendo tão esfaimado,

      dá leite como um danado,

      a quem o quer ordenhar.

 

10    É da condição de Ouriço,

        que quando lhe tocam, se arma,

        ergue-se em tocando alarma,

        como cavalo castiço:

        é mais longo, que roliço,

        de condição mui travessa,

        direi, porque não me esqueça,

        que é criado nas cavernas,

        e que somente entre as pernas

        gosta de ter a cabeça.

 

11    É bem feito pelas costas,

        que parece uma banana,

        com que as mulheres engana

        trazendo-as bem descompostas:

        nem boas, nem más respostas

        Ihe ouviram dizer jamais,

        porém causa efeitos tais,

        que quem exprimenta, os sabe,

        quando na língua não cabe

        a conta dos seus sinais.

 

12    É pincel, que cem mil vezes

        mais que os outros pincéis val,

        porque dura sempre a cal,

        com que caia, nove meses:

        este faz haver Meneses,

        Almadas, e Vasconcelos,

        Rochas, Farias, e Teles,

        Coelhos, Britos, Pereiras,

        Sousas, e Castros, e Meiras,

        Lancastros, Coutinhos, Melos.

 

13    Este, Senhora, a quem sigo,

        de tão raras condições,

        é caralho de culhões

        das mulheres muito amigo:

        se o tomais na mão, vos digo,

        que haveis de achá-lo sisudo;

        mas sorumbático, e mudo,

        sem que vos diga, o que quer,

        vos haveis de oferecer

        a seu serviço contudo.

 

 

 

 

A HUMA DAMA QUE LHE MANDOU HUM CRAVO EM OCCASIÃO,

QUE SE LHE QUEIXAVA DE CERTO AGGRAVO.

 

 

1    Nise, vossa formosura

      queixosa de certo agravo

      me dá hoje uma no cravo

      e a outra na ferradura:

      uma verde, outra madura

      achei no vosso craveiro,

      que o cravo é favor inteiro;

      mas cravo com queixa ao pé

      é o mesmo que dizer, que

      o gosto não, mas o cheiro.

 

2    Que mal fica ao meu intento,

      que o cheiro me queirais dar?

      dai-mo vós sempre a cheirar,

      que eu co cheiro me contento:

      quando um roçagante vento

      passa de uma em outra rosa,

      e de cada flor cheirosa

      Ihe leva a fragrância inteira,

      se assim por seu modo a cheira,

      também por seu modo a goza.

 

3    Se com soberba, e jactância

      de uma flor tão rescendente

      me dais o cheiro somente,

      eu tomo a flor, e a fragrância:

      se eu entrar na verde estância,

      onde Amor vos tem disposto,

      crede do meu bom suposto,

      que em vendo o vosso craveiro,

      Ihe hei de tomar não só o cheiro,

      mas hei de tomar-lhe o gosto.

 

4    Hei de ser como o vilão,

      e com boa, ou com má fé,

      se vós me deres o pé,

      vos hei de tomar a mão:

      e se nem o pé me dão

      vossos rigores tão vãos,

      tão ímpios tão maus cristãos,

      nem por isso afrouxarei,

      porque outro pé buscarei,

     para beijar-vos as mãos.

 

5    Se o cheiro agora me toca,

      logo o gosto me dareis,

      que vós, Nise, bem sabeis,

      que ao nariz se segue a boca:

      nunca o bocado se emboca,

      sem que se cheire primeiro,

      agora me dais o cheiro,

      e depois que eu o cheirar,

      sei mui bem, que me heis de dar

      o vaso, e mais o craveiro.

 

6    Depois que o vaso tiver,

      que me dará vosso amor,

      hei de colher-vos a flor,

      se no vaso flor houver:

      se não sempre sois mulher,

      que na cabeça vos entre

      ser justo, se reconcentre

      minha carne em vossa olha,

      com que em vez de flor eu colha

      um fruito de vosso ventre.

 

 

 

 

NOVAS DO MUNDO QUE LHE PEDIO POR CARTA HUM AMIGO

DE FORA POR OCCASIÃO DA FROTA.

 

 

França está mui doente das ilhargas,

Inglaterra tem dores de cabeça,

Purga-se Holanda, e temo Ihe aconteça

Ficar debilitada com descargas.

 

Alemanha Ihe aplica ervas amargas,

Botões de fogo, com que convaleça.

Espanha não Ihe dá, que este mal cresça.

Portugal tem saúde e forças largas.

 

Morre Constantinopla, está ungida.

Veneza engorda, e toma forças dobres,

Roma está bem, e toda a Igreja boa.

 

Europa anda de humores mal regida.

Na América arribaram muitos pobres.

Estas as novas são, que há de Lisboa.

 

 

 

 

A HUMA DAMA QUE TINHA UM CRAVO NA BOCCA.

 

 

1    Vossa boca para mim

      não necessita de cravo,

      que o sentirá por agravo

      boca de tanto carmim:

      o cravo, meu serafim,

      (se o pensamento bem toca)

      com ele fizera troca:

      mas, meu bem, não aceiteis,

      porque melhor pareceis,

      não tendo o cravo na boca.

 

2    Quanto mais que é escusado

      na boca o cravo: porque

      prefere, como se vê

      na cor todo o nacarado:

      o mais subido encarnado

      é de vossa boca escravo:

      não vos fez nenhum agravo

      ele de vos dar querela,

      que menina, que é tão bela,

      sempre tem boca de cravo.

 

 

 

 

POR AVISO CELESTIAL DAQUELLA GRANDE PESTE, QUE CHAMARAM BICHA

APPARECEO HUM FUNEBRE, HORROROSO, E ENSANGUENTADO COMETTA NO

ANNO 1689 POUCOS DIAS ANTES DO ESTRAGO. ASSENTAVÃO GERALMENTE,

QUE ANNUNCIAVA ESTERILIDADE, FOMES, E MORTES: POREM VARIAVÃO NOS

SUGEYTOS DELLAS, COMO COUSA FUTURA. O POETA APPLICA COMO MAIS

PRUDENTE CONTRA OS QUE SE ASSIGNALAVÃO EM ESCANDALOS NAQUELLE

TEMPO.

 

 

Se de estéril em fomes dá o cometa,

não fica no Brasil viva criatura,

Mas ensina do juízo a Escritura,

Cometa não o dar, senão trombeta.

 

Não creio, que tais fomes nos prometa

Uma estrela barbada em tanta altura;

Prometerá talvez, e porventura

Matar quatro saiões de impreialeta.

 

Se viera o cometa por coroas,

Como presume muita gente tonta,

Não lhe ficara Clérigo, nem Frade.

 

Mas ele vem buscar certas pessoas:

Os que roubam o mundo com a vergonta,

E os que à justiça faltam, e à verdade.

 

 

 

 

A HUMA DAMA QUE LHE PEDIO HUM CRAVEYRO.

 

 

O craveiro, que dizeis,

não vo-lo mando, Senhora,

só porque não tem agora

o vaso, que mereceis:

porém se vós o quereis,

quando por vós eu me abraso,

digo em semelhante caso,

sem ser nisso interesseiro,

que vos darei o craveiro,

se vós me deres o vaso.

 

 

 

 

PERTENDE AGORA (POSTO QUE EM VÃO) DESENGANAR AOS SEBASTIANISTAS,

QUE APPLICAVÃO O DITO COMETTA À VINDA DO ENCUBERTO.

 

 

Estamos em noventa era esperada

De todo o Portugal, e mais conquistas,

Bom ano para tantos Bestianistas,

Melhor para iludir tanta burrada.

Vê-se uma estrela pálida, e barbada,

E deduzem agora astrologistas

A vinda de um Rei morto pelas listas,

Que não sendo dos Magos é estrelada.

Oh quem a um Bestianista pergunta,

Com que razão, ou fundamento, espera

Um Rei, que em guerra d'África acabara?

E se com Deus me dá; eu Ihe dissera,

Se o quis restituir, não o matara,

E se o não quis matar, não o escondera.

 

 

 

 

NA ERA DE 1686 QUIMERIAVÃO OS SEBASTIANISTAS A VINDA DO ENCUBERTO POR HUM COMETTA QUE APPARECEO. O POETA PERTENDE EM VÃO DESVANECELOS TRADUZINDO HUM DISCURSO DO Pe. ANTONIO VIEYRA

QUE SE APPLICA A EL REY D. PEDRO II.

 

 

1    Ouçam os sebastianistas

      ao Profeta da Bahia

      a mais alta astrologia

      dos sábios Gimnosofistas:

      ouçam os Anabatistas

      a evangélica verdade,

      que eu com pura claridade

      digo em literal sentido

      que o Rei por Deus prometido

      é: quem? Sua Majestade.

 

2    Quando no campo de Ourique

      na luz de um raio abrasado

      viu Cristo crucificado

      El-rei Dom Afonso Henrique:

      para que Ihe certifique

      afetos mais que fiéis,

      Senhor, disse, aos infiéis

      mostrai a face divina,

      não a quem a Igreja ensina

      a crer tudo, o que podeis.

 

3    E Deus vendo tão fiel

      aquele peito real,

      auspicando a Portugal,

      quis ser o seu Samuel:

      na tua Prole novel

      (diz) hei de estabelecer

      um império a meu prazer:

      e crê, que na atenuação

      da dezasseis geração

      então hei de olhar, e ver.

 

4    A dezasseis geração

      por cômputo verdadeiro

      assevera o Reino inteiro

      ser o quarto Rei D. João:

      e da prole a atenuação

      (conforme a mesma verdade)

      vê-se em Sua Majestade,

      pois sendo de três varões

      com duas atenuações

      se tem posto na unidade.

 

5    Logo em boa conseqüência

      na Pessoa realçada

      de Pedro está atenuada

      desta Prole a descendência:

      logo com toda a evidência

      e a luz da divina luz

      se vê, que o Pedro conduz

      o olhar, e ver de Deus,

      que ao primeiro Rei, e aos seus

      prometeu na ardente cruz.

 

6    E se o tempo é já chegado,

      perguntem-no a Daniel,

      que no sétimo aranzel

      o traz bem delineado:

      diz o Profeta sagrado,

      que a quarta fera inumana

      tinha na testa tirana

      dez pontas, e que entre as dez

      uma de grã pequenhez,

      surgiu com potência insana.

 

7    Que esta ponta tão pequena,

      mas tão potente, e tão forte

      a três das grandes deu morte

      cruel, afrontosa, e obscena:

      quer dizer, que a sarracena

      potência, ou poder tirano

      do pequeno Maometano

      tirara a seu desprazer

      as três partes do poder

      do grande império Romano.

 

8    E que pelo perjuízo,

      que a pequena ponte fez,

      das dez maiores as três

      as chamou Deus a juízo,

      e as condenou de improviso

      ao fogo voraz, que as coma,

      e daqui o Profeta toma

      (pois Deus assim a condena)

      o fim da gente Agarena,

      e seita do vil Mafoma.

 

9    Continuando a visão,

      refere a história sagrada,

      que esta audiência acabada

      chagou Deus um Rei cristão,

      ao qual Ihe entregou na mão

      seu império prometido;

      logo bem tenho inferido,

      que o sarraceno acabado

      é o tempo deputado

      de ser este império erguido.

 

10    E pois a gente otomana

         vendo esta sua ruína

        na luz da espada divina

        em tanta armada Austriana:

        pode a Nação Lusitana

        confiada neste agouro

        preparar a palma, e louro,

        para o Príncipe Cristão,

        que há de empunhar o bastão

        do império de Deus vindouro.

 

11    Pode a Nação Lusitana,

        que foi terror do Oriente

        confiar, que no Ocidente

        o será da Maometana:

        pode cortar a espadana

        em tal número, e tal soma,

        que, quando o tempo a corcoma,

        digamos com este exemplo,

        que abriu, e fechou seu templo

        o Bifronte Deus em Roma.

 

12    Estes secretos primores

        não são da idéia sonhados,

        são da escritura tirados,

        e dos Santos Escritores:

        e se não cito os Doutores,

        e poupo esses aparatos,

        é, porque basta a insensatos

        por rudeza, e por cegueira,

        que em prosa o compôs Vieira,

        traduziu em versos Matos.

 

 

 

 

POR OCCASIÃO DO DITO COMETTA REFLETINDO O POETA OS MOVIMENTOS

QUE UNIVERSALMENTE INQUIETAVAM O MUNDO NAQUELA IDADE, O

SACODE GERALMENTE COM ESTA CRIZI.

 

 

1    Que esteja dando o Francês

      camoesas ao Romano,

      castanhas ao Castelhano,

      e ginjas ao Português:

      e que estejam todos três

      em uma seisma quieta

      reconhecendo esta treta

      tanto à vista, sem a ver.

      Será: mas porém a ser

      efeitos são do cometa.

 

2    Que esteja o Inglês mui quedo

      e o Holandês mui ufano

      Portugal cheio de engano,

      Castela cheia de medo:

      e que o Turco viva ledo

      vendo a Europa inquieta,

      e que cada qual se meta

      em uma cova a temer,

      tudo será: mas a ser

      efeitos são do cometa.

 

3    Que esteja o francês zombando,

      e a Índia padecendo,

      Itália olhando, e comendo,

      Portugal rindo, e chorando:

      e que os esteja enganando,

      quem sagaz os inquieta,

      sem que nada Ihes prometa!

      Será: mas com mais razão,

      segundo a minha opinião

      efeitos são do cometa.

 

4    Que esteja Angola de graça,

      o Marzagão cai não cai,

      o Brasil feito cambrai,

      quando Holanda feita caça:

      e que jogue a passa-passa

      conosco o Turco Maometa,

      e que assim nos acometa!

      Será, pois é tão ladino:

      porém segundo imagino,

      efeitos são do cometa.

 

5    Que venham os Franchinotes

      com engano sorrateiro

      a levar-nos o dinheiro

      por troco de assobiotes:

      que as patacas em pipotes

      nos levem à fiveleta!

      Não sei se nisto me meta!

      Porém sem meter-me em rodas,

      digo, que estas cousas todas

      efeitos são do cometa.

 

6    Que venham homens estranhos

      às direitas, e às esquerdas

      trazer-nos as suas perdas,

      e levar os nossos ganhos!

      e que sejamos tamanhos

      ignorantes, que nos meta

      em debuxos a gazeta!

      Será, que tudo é pior:

      mas porém seja, o que for,

      efeitos são do cometa.

7    Que havendo tantas maldades,

      como exprimentado temos,

      tantas novidades vemos,

      não havendo novidades:

      e que estejam as cidades

      todas postas em dieta,

      mau é: porém por decreta

      permissão do mesmo Deus,

      se não são pecados meus,

      efeitos são do cometa.

 

8    Que se vejam sem razão

      no extremo, em que se vêem,

      um tostão feito um vintém,

      e uma pataca um tostão;

      e que estas mudanças vão

      fabricadas à curveta,

      sem que a ventura prometa

      nunca nenhuma melhora!