LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em
meio eletrônico
História da Literatura Brasileira, de Sílvio Romero
Edição de base:
Biblioteca Nacional – setor de obras
digitalizadas
ÍNDICE
CAPÍTULO II - TEORIAS DA HISTÓRIA DO BRASIL
CAPÍTULO III - A FILOSOFIA DA HISTÓRIA DE BUCKLE E O ATRASO
DO POVO BRASILEIRO
CAPÍTULO IV - O MEIO. FISIOLOGIA DO BRASILEIRO
CAPÍTULO VI - RAÇAS QUE CONSTITUÍRAM O POVO BRASILEIRO O MESTIÇO
NOVAS
CONTRIBUIÇÕES PARA O ESTUDO DO FOLCLORE BRASILEIRO
O BRASIL
SOCIAL E OS ELEMENTOS QUE O PLASMARAM OS MÉTODOS E PROCESSO DA ESCOLA DE LE
PLAY
1.º FATOR
ANTROPETNOLÓGICO – O ÍNDIO
2º FATOR
ANTROPETNOLÓGICO – O NEGRO
3º FATOR
ANTROPETNOLÓGICO – O PORTUGUÊS
III.
AS INFLUÊNCIAS ESTRANGEIRAS
IV.
SENTIDO TEÓRICO DA LITERATURA BRASILEIRA
V. FASES
EVOLUTIVAS DA LITERATURA BRASILEIRA
DA CRÍTICA E
SUA EXATA DEFINIÇÃO
TRABALHOS
ESTRANGEIROS E NACIONAIS SOBRE A LITERATURA BRASILEIRA – DIVISÃO DESTA
– ESPÍRITO GERAL DESTE LIVRO
As pátrias letras, entre outras
muitas lacunas, mostram bem claramente a grande falha causada pela ausência de
trabalhos históricos. Se não existe uma história universal escrita por
brasileiro, se a nossa própria história política, social e econômica tem sido
apenas esboçada e foi mister que estrangeiros no-la ensinassem a escrever, no
terreno da literatura propriamente dita a pobreza nacional ostenta-se ainda
maior.
O livro de Ferdinand Wolf, Le
Brésil Littéraire (1863), tem sido, e continua a ser com razão, o oráculo
de todos na matéria; porque é único em seu gênero. O escritor austríaco foi o
primeiro a fazer um quadro mais ou menos inteiro de nossa literatura, quadro
pálido e incorreto, é certo, mas que se impõe, por estar no singular. E já lá
vão bastantes anos que o livro foi publicado, e até bem pouco era o compêndio
oficial de nossos cursos!
Antes de Ferdinand Wolf ainda a
estrangeiros coube a tarefa de traçar as primeiras notícias de nossas letras.
Bouterwek, na História da
Literatura Portuguesa (1804), Sismondi, nas Literaturas do meio-dia da
Europa (1819), e Ferdinand Denis, no Resumo da História da Literatura de
Portugal (1825), foram os primeiros que falaram de nossos poetas e
escritores.1
Não é para surpreender, porque
todos sabemos que foram eles os organizadores da história da literatura
portuguesa, da qual a nossa era considerada um apêndice. Depois é que Almeida
Garrett escreveu o seu Bosquejo da História da Poesia e da Língua Portuguesa
(1826).2
A indigência brasileira não é,
pois, mais do que um prolongamento do velho pauperismo lusitano.
Os escritores portugueses deste
século, Costa e Silva, Lopes de Mendonça, Inocêncio da Silva, Latino Coelho,
Luciano Cordeiro, Teófilo Braga, Camilo Castelo Branco e outros, nos seus
trabalhos sobre a literatura de sua pátria, são portadores de algumas notícias
de nossa vida intelectual, tudo ainda como um acessório do pensamento da antiga
metrópole.
A
autores nacionais só devemos alguns pequenos ensaios, parcas monografias,
noções destacadas de uma ou outra época de nossa literatura, ou análise por
acaso de algum escritor predileto.
Os
principais dentre eles vêm a ser: Januário da Cunha Barbosa – Parnaso
Brasileiro (1831); Abreu e Lima – Bosquejo histórico, político e
literário do Brasil (1835); Domingos de Magalhães – Discurso
sobre a História da Literatura do Brasil (1836); Norberto e Silva
– Bosquejo da História da Literatura Brasileira, nas modulações
poéticas (1841), e mais tarde alguns estudos na Minerva Brasiliense
(1843), na Revista Popular (1861) e na Brasília Biblioteca de Autores
Nacionais (1863); Pereira da Silva – Parnaso brasileiro (1843)
e Plutarco brasileiro (1847), transformados depois em Varões ilustres
do Brasil nos tempos coloniais (1858); Varnhagen – Florilégio da
poesia brasileira (1851 e 53); Fernandes Pinheiro – Discurso sobre
a poesia em geral e em particular no Brasil, na tradução de Jó por Elói Ottoni (1852), e também no Curso
Elementar de Literatura Nacional (1862), e no Resumo de história
literária (1872); Antônio Joaquim de Meio – Biografias de alguns
poetas e homens ilustres da Província de Pernambuco (1858); Sotero dos Reis
– Curso de Literatura Portuguesa e Brasileira (1866); Antônio
Henriques Leal – Panteon maranhense (1873); Joaquim Manuel de
Macedo – Ano biográfico brasileiro (1876); José Antônio de Freitas
– Lirismo Brasileiro (1877); J. S. – Manual de literatura ou
estudos sobre a literatura dos principais povos da América e Europa
(1878); Leri dos Santos – Panteon Fluminense (1880); Sacramento Blake
– Dicionário bibliográfico brasileiro (1883); Ignotus – Sessenta
anos de jornalismo (1883); Melo Morais Filho – Curso de Literatura
Nacional (1881) e Parnaso brasileiro (1885); F. A. Pereira da Costa
– Dicionário biográfico de pernambucanos célebres (1882). –
Contêm também notícias literárias – a Revista do Instituto Histórico,
os Anais da Biblioteca Nacional, os Arquivos do Museu Nacional e
as Efemérides Nacionais, do Dr. Teixeira de Melo (1881). Juntem-se a
tudo isto escritos diversos de José de Alencar, Quintino Bocaiúva, Machado de
Assis, Franklin Távora, Araripe Júnior, Macedo Soares, Eunápio Deiró, José
Veríssimo, Clóvis Beviláqua, Artur Orlando, Oliveira Lima, Lívio de Castro,
Medeiros e Albuquerque, Viveiros de Castro, Augusto Franco e outros.
O
livro de Ferdinand Wolf, feito às pressas, não tem vistas teóricas; é um
produto artificial e diplomático. O tom geral é ditirâmbico, e, entre outros,
os exageros sobre o merecimento de seu principal inspirador, Gonçalves de
Magalhães, provocam hoje o riso. As obras de Bouterwek, Sismondi, Ferdinand
Denis e Garrett, escritas especialmente sobre a literatura portuguesa, são
muito lacunosas no que respeita ao Brasil.
Os
escritores portugueses, atrás citados, acham-se no mesmíssimo caso, e os
brasileiros, conquanto mais conhecedores do assunto, só quiseram escrever
quadros isolados e só trataram de alguns tipos destacados. É inútil analisá-los
agora; seus méritos e defeitos serão estudados no correr deste trabalho.
Exporei
desde logo o espírito geral deste livro. Empreendo, declaro-o de princípio, a
história literária nacional com uma idéia ministrada por estudos anteriores.
Pode ser um mal; mas é necessário; são precisos tentamens destes para explicar
o espetáculo da vida brasileira.
A
história do Brasil, como deve hoje ser compreendida, não é, conforme se julgava
antigamente e era repetido pelos entusiastas lusos, a história exclusiva dos
portugueses na América. Não é também, como quis de passagem supor o
romanticismo, a história dos Tupis, ou, segundo o sonho de alguns
representantes do africanismo entre nós, a dos negros
É
antes a história da formação de um tipo novo pela ação de cinco fatores,
formação sextiária em que predomina a mestiçagem. Todo brasileiro é um mestiço,
quando não no sangue, nas idéias. Os operários deste fato inicial têm sido: o
português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira.
Tudo
quanto há contribuído para a diferenciação nacional, deve ser estudado, e a
medida do mérito dos escritores é este critério novo.
Tanto
mais um autor ou um político tenha trabalhado para a determinação de nosso
caráter nacional, quanto maior é o seu merecimento. Quem tiver sido um mero
imitador português, não teve ação, foi um tipo negativo.
Faltam
os elementos para fazer um quadro vivaz e palpitante da vida íntima dos autores
brasileiros. Os tempos passados são como mortos; falta a nota viva. O hábito
das memórias e correspondências não tem sido até hoje seguido no Brasil.
Daí uma lacuna. “Há dois modos, disse muito bem Edmond Scherer, de
escrever a história literária: pode-se pender para as considerações gerais,
referir os efeitos às suas causas, distinguir, classificar. Mas pode-se também
tomar por alvo reviver este mundo de poetas e escritores no meio que tão
grandes cousas produziu, procurar surpreender estes homens em sua vida de todo
o dia, desenhar-lhes a fisionomia, recolher as picantes anedotas a seu
respeito, e é forçoso declarar que esta segunda maneira de escrever a história
literária encerra muito atrativo. É
talvez mais realmente instrutiva do que a primeira. Esta faz compreender o
encadeamento dos fatos, a segunda faz conhecer os homens. E que há no
mundo que nos interesse mais do que nossos caros semelhantes, e entre estes
quem mais do que aqueles cujas obras nos encantam ainda, passados duzentos ou
trezentos anos? Quanto a mim, daria todas as filosofias da arte e da história
por simples bagatelas e pilhérias literárias ou anedóticas, por um volume de
Boswell ou de Saint-Simon.”3
Tudo
isto é certo e eu daria também por uma história à
Acresce
também que o encanto que se encontra neste último gênero de história literária,
proveniente de um conhecimento mais familiar do viver dos homens, não consiste
especialmente no desvendamento de um ou outro segredo, na prática de uma ou
outra singularidade, na convivência de uma ou outra anedota. Tudo seria
estéril, se não deixasse ao leitor meios de elevar-se a vistas mais amplas e
concernentes à humanidade em geral.
O
conhecimento que se busca, ao surpreender os atos mais íntimos de um escritor,
deve sempre visar uma maior compreensão de sua individualidade e das relações
desta com o seu país e das deste com a humanidade.
Um
conhecimento, que se não generaliza, fica improfícuo e estéril, e, assim, a
história pinturesca deve levar à história filosófica e naturalista.
Neste
terreno buscará permanecer este livro, por mais lacunoso que ele possa vir a
ser. Seu fito é encontrar as leis que presidiram e continuam a determinar a
formação do gênio, do espírito, do caráter do povo brasileiro.
Para
tanto é antes de tudo mister mostrar as relações de nossa vida intelectual com
a história política, social e econômica da nação; será preciso deixar ver como
o descobridor, o colonizador, o implantador da nova ordem de cousas, o
português em suma, foi-se transformando ao contato do índio, do negro, da
natureza americana, e como, ajudado por tudo isso e pelo concurso de idéias
estrangeiras, se foi aparelhando o brasileiro, tal qual ele é desde já e
ainda mais característico se tornará no futuro.
Uma
dificuldade secundária se me antolha, ao pôr o pé à entrada deste terreno. É
sabido que muitos escritores brasileiros dos tempos coloniais transportaram-se
em moços, ou em crianças, para a metrópole e de lá não voltaram mais. Deve ser
contemplado na história da literatura brasileira um Antônio José, por exemplo,
que do Brasil só teve o nascimento? Por outro lado, portugueses houve que,
mudados para a América, aqui ficaram e se desenvolveram. Devem ser contados
entre os nossos autores um José de Anchieta e um Antônio Gonzaga? Não trepido
em os incluir no número dos nossos; os primeiros porque beberam no berço esse quid
indefinível que imprime o cunho nacional, e porque suas obras, de torna-viagem
recebidas com simpatias, vieram aqui influir; os segundos, porque,
transformados ao meio americano, viveram dele e para ele.
Mas
não fica aí: muitos escritores portugueses, especialmente autores de crônicas,
que permaneceram mais ou menos limitadamente entre nós e escreveram obras sobre
o Brasil, deverão ser contemplados? É o caso de Pero Vaz de Caminha, Gandavo,
Fernão Cardim, Gabriel Soares, Simão de Vasconcelos, Simão Estácio da Silveira,
outros. Assim como não devem ser considerados escritores portugueses alguns
brasileiros que no reino residiram temporariamente, como Borges de Barros ou
Porto Alegre, também não se podem contemplar os portugueses citados em o número
dos nossos autores. Seria um redondíssimo absurdo, que nos levaria a contar
também como brasileiros Hans-Staden, Thevet, João de Léry, Cláudio
d’Abbeville, Ivo d’Evreux, Marcgrav, Laet, Piso, Lamartinière e
muitos mais. Seriam também nossos, por tal método, Spix, Martius, Neuwied,
Langsdorff, Saint-Hilaire, Castelneau, Hartt, George-Gardner, Wappaeus,
Expilly, Jacques Arago, D’Assier, Agassiz e o próprio Darwin.
Só
contemplarei, portanto, como nossos os nascidos no Brasil, quer tenham saído,
quer não, e os filhos de Portugal, que no Brasil viveram longamente, lutaram e
morreram por nós, como Anchieta e Gonzaga nos tempos coloniais, e, como
políticos, nos tempos modernos, Clemente Pereira e Limpo de Abreu. Todos estes
tiveram do reino só o berço, sua vida foi brasileira e pelos brasileiros.
Em
rápida excursão só me deterei ante os talentos de mérito que saem engrandecidos
do aparelho da crítica e justificam-se à luz do método indicado.
Não
tratar-se-á de saber qual foi o primeiro brasileiro que escreveu uma poesia ou
um livro, e outras tantas questões impertinentes e ociosas.
Nada
se terá que ver com alguns frades despreocupados ou ociosos que mataram o tempo
a escrever versos latinos, ou a publicar sensaborias
Pretendo
escrever um trabalho naturalista sobre a história da literatura
brasileira. Munido do critério popular e étnico para explicar o nosso caráter
nacional, não esquecerei o critério positivo e evolucionista da nova filosofia
social, quando tratar de notar as relações do Brasil com a humanidade em geral.
Nós
os brasileiros não pensamos ainda muito, por certo, no todo da evolução
universal do homem; ainda não demos um impulso nosso à direção geral das
idéias; mas um povo que se forma não deve só pedir lições aos outros; deve
procurar ser-lhes também um exemplo. Ver-se-á em que consiste nossa pequenez e
o que devêramos fazer para ser grandes.
Esta
obra contém duas partes bem distintas; no primeiro livro indicam-se os
elementos de uma história natural de nossas letras; estudam-se as condições de
nosso determinismo literário, as aplicações da geologia e da biologia às
criações do espírito.
Nos
demais livros faz-se a traços largos o resumo histórico das quatro grandes
fases de nossa literatura: período de formação (1500-1750), período
de desenvolvimento autonômico (1750-1830), período de transformação
romântica (1830-1870) e período de reação crítica (de 1870 em
diante).
A
primeira época inicia-se com a descoberta do país, passa pela invasão
holandesa, pelos Palmares, pelos Emboabas e Mascates e
chega aos meados do século XVIII. A segunda, com a descoberta das minas,
mostra certo impulso autonômico do país dentro dos limites de suas forças e
tradições étnicas. A terceira, que principia com o romantismo político de
Constant no tempo de nossa independência, acentua-se mais a datar da retirada
do primeiro imperador, e, através de muita imitação, máxime de franceses, teve
o mérito de afastar-nos da esterilidade do lusitanismo literário. A
quarta fase é a da reação crítica e naturalista, em que buscamos de novo nossas
tradições à luz das idéias realistas, procurando harmonizar umas com outras.
Tal
é a divisão natural da história literária brasileira. Se é certo que as fases
de uma literatura não se determinam com a mesma segurança com que os velhos
cronistas marcavam o nascimento e a morte dos reis – seus protetores, e
se é verdade que as datas aqui indicadas não têm esse rigor mesquinho, servem
bem para indicar os grandes marcos de nossa evolução mental. Os anos de 1500 e
1750, que encerram o primeiro período, justificam-se, aquele, porque daí partiu
o conhecimento do pais; o outro, porque na última metade do século XVIII,
alterando-se o nosso sistema colonial e econômico, preparou-se a grande escola
mineira, talvez o período mais brilhante e original de nossa poesia.
A
data de 1830, se não marca uma época literária no estreito sentido, designa-a
no lato; porque determina a invasão completa do romantismo na política e seu
trasbordamento na literatura.
Constant
precedeu Lamartine na Europa e aqui; a evolução literária seguiu-se, como
sempre, à política.
Quanto
a 1870, que abre a quarta e última fase, pode determinar-se que o romantismo
começou a receber os primeiros e mais rudes golpes a datar desse tempo.
O
positivismo filosófico francês, o naturalismo literário da mesma procedência, a
crítica realista alemã, o transformismo darwiniano e o evolucionismo de Spencer
começaram a espalhar-se em alguns círculos acadêmicos, e uma certa mutação
foi-se operando na intuição corrente. Todos os anos crescia o número dos
combatentes; foram eles os primeiros que no Brasil promoveram a reação seguida
e forte contra o velho romantismo transcendental e metafísico.
Cumpre
declarar, por último, que a divisão proposta não se guia exclusivamente pelos
fatos literários; porque para mim a expressão literatura tem a amplitude que
lhe dão os críticos e historiadores alemães. Compreende todas as manifestações
da inteligência de um povo: política, economia, arte, criações populares,
ciências... e não, como era de costume supor-se no Brasil, somente as
intituladas belas-letras, que afinal cifravam-se quase exclusivamente na
poesia!...
TEORIAS DA
HISTÓRIA DO BRASIL
Todo
e qualquer problema histórico e literário há de ter no Brasil duas faces
principais: uma geral e outra particular, uma influenciada pelo momento europeu
e outra pelo meio nacional, uma que deve atender ao que vai pelo grande mundo e
outra que deve verificar o que pode ser aplicado ao nosso país.
A
literatura no Brasil, a literatura em toda a América, tem sido um processo de
adaptação de idéias européias às sociedades do continente. Esta adaptação nos
tempos coloniais foi mais ou menos inconsciente; hoje tende a tornar-se
compreensiva e deliberadamente feita. Da imitação tumultuária, do antigo
servilismo mental, queremos passar à escolha, à seleção literária e científica.
A darwinização da crítica é uma realidade tão grande quanto é a da biologia.
A
poderosa lei da concorrência vital por meio da seleção natural, a saber, da
adaptação e da hereditariedade, é aplicável às literaturas, e à crítica incumbe
comprová-la pela análise dos fatos.
A
hereditariedade representa os elementos estáveis, estáticos, as energias das
raças, os predicados fundamentais dos povos; é o lado nacional das literaturas.
A adaptação exprime os elementos móveis, dinâmicos, genéricos, transmissíveis
de povo a povo; é a face geral, universal das literaturas. São duas forças que
se cruzam, ambas indispensáveis, ambas produtos naturais do meio físico e
social.
Tal
é a razão por que todo poeta, todo romancista, todo dramaturgo, todo crítico,
todo escritor brasileiro de nossos dias tem a seu cargo um duplo problema e há
de preencher uma dupla função: deve saber do que vai pelo mundo culto, isto é,
entre aquelas nações européias que imediatamente influenciam a inteligência
nacional, e incumbe-lhe também não perder de mira que escreve para um povo que
se forma, que tem suas tendências próprias, que pode tomar uma feição, um
ascendente original. Uma e outra preocupação são justificáveis e fundamentais.
Se é uma cousa ridícula a reclusão do pensamento nacional numas pretensões
exclusivistas, se é lastimável o espetáculo de alguns escritores nossos,
atrasados, alheios a tudo quanto vai de mais palpitante no mundo da
inteligência, não é menos desprezível a figura do imitador, do copista servil e
fátuo de toda e qualquer bagatela que os paquetes nos tragam de Portugal, ou de
França, ou de qualquer outra parte...
Para
que a adaptação de doutrinas e escolas européias ao nosso meio social e
literário seja fecunda e progressiva, é de instante necessidade conhecer bem o
estado do pensamento do Velho Mundo e ter uma idéia nítida do passado e da
atualidade nacional.
Eis
o grande problema, eis o ponto central de todas as tentativas de reformas entre
nós, e eis por onde eu quisera que começassem todos os portadores de novos
ideais para o Brasil, todos os transplantadores de novas filosofias, de novas
políticas, de novas escolas literárias.
E
é o que não vejo, é o que ainda não se fez.
Não
é mais do que ter lido por acaso Zola, ou Daudet, ou Rollinat, e atirar com
eles à face do país, como se tudo estivesse feito!...
Deve-se
começar por conhecer a fundo as diversas teorias da história do Brasil, e, pelo
estudo deste problema, compreender a sucessão das escolas literárias entre nós.
Indicarei
somente os lados mais salientes do assunto.
As
principais teorias da história do Brasil são a de Martius, a de Buckle, a de
Teófilo Braga, a de Oliveira Martins, a dos discípulos de Comte e a dos
sectários de Spencer. Ficam aí enumeradas em sua ordem cronológica.
O
célebre botanista bávaro Carlos Frederico Filipe de Martius preparou em 1843
uma dissertação sob o título – Como
se deve escrever a história do Brasil.
Nesse
pequeno trabalho, um dos mais interessantes que tenho lido de penas
estrangeiras sobre o Brasil, Martius abriga-se ao grande princípio moderno das
nacionalidades, coloca-se num ponto de vista etnográfico e indica em traços
rápidos os diversos elementos do povo brasileiro.
Os
selvagens americanos e os seus costumes e suas aptidões psicológicas, os negros
africanos e seus hábitos, os portugueses e suas vantagens de gente civilizada,
tudo isto deve ser interpretado escrupulosamente; porque de tudo isto é que
saiu o povo brasileiro.
É
exato; resta apenas que se diga como é que estes elementos atuaram uns sobre os
outros e produziram o resultado presente.
Em
uma palavra, a teoria de Martius é puramente descritiva; ela indica os
elementos; mas falta-lhe o nexo causal e isto seria o principal a esclarecer. É
uma concepção incompleta.
E
como alguns já têm por vezes exagerado a simplíssima indicação de Martius, o
mero conselho do notável bávaro, aqui lhe reproduzo as próprias palavras para
que bem claro se veja a distância entre esse rápido roteiro e a doutrina deste
livro sobre o problema etnográfico brasileiro.
Escreveu
Martius:
“Qualquer que se encarregar de escrever
a história do Brasil jamais deverá perder de vista quais os elementos que aí
concorreram para o desenvolvimento do homem. São, porém, estes elementos de
natureza muito diversa, tendo para a formação do homem convergido de um modo
particular três raças, a saber: a de cor de cobre ou americana, a branca ou
caucasiana e, enfim, a preta ou etiópica. Do encontro, da mescla, das relações
mútuas e mudanças dessas três raças, formou-se a atual população, cuja história
por isso mesmo tem um cunho muito particular. Pode-se dizer que a cada uma das
raças humanas compete, segundo a sua índole inata, segundo as circunstâncias
debaixo das quais ela vive e se desenvolve, um movimento histórico
característico e particular. Portanto, vendo nós um povo novo nascer e
desenvolver-se da reunião e contato de tão diferentes raças humanas, podemos
avançar que a sua história se deve desenvolver segundo uma lei particular das
forças diagonais. Cada uma das particularidades físicas e morais, que
distinguem as diversas raças, oferece a este respeito um motor especial; e
tanto maior será a sua influência para o desenvolvimento comum, quanto maior
for a energia, número e dignidade da sociedade de cada uma dessas raças. Disso
necessariamente se segue que o português que, como descobridor, conquistador e
senhor, poderosamente influiu naquele desenvolvimento, o português, que deu as
condições e garantias morais e físicas para um reino independente; que o
português se apresenta como o mais poderoso e essencial motor. Mas também
decerto seria um grande erro para todos os princípios de historiografia
pragmática, se se desprezassem as forças dos indígenas e dos negros importados,
forças estas que igualmente concorreram para o desenvolvimento físico, moral e
civil da totalidade da população. Tanto os indígenas como os negros reagiram
sobre a raça predominante.”
A
determinação precisa do que devemos, em nossa vida geral, aos três fatores
principais de nossas populações, nem por sombra se acha nessas linhas do
ilustre autor da Flora Brasiliensis, que também e principalmente deixou
em completo esquecimento o ponto fundamental do problema: – o mestiço,
sobre o qual peculiarmente se deve insistir, estudando amplamente o especial
quinhão de cada fator e definindo o caráter do resultado.*
O
afamado autor da História da civilização na Inglaterra, aparecida em
1857, ocupou-se do Brasil detidamente.4
H.
T. Buckle, como é sabido, divide as civilizações em primitivas e modernas,
predominando naquelas a ação das leis físicas sobre o homem, e nestas sendo o
inverso a verdade.
As
civilizações antigas desenvolveram-se nos países onde as condições de vida eram
fáceis, nas. penínsulas, à margem dos grandes rios, onde eram abundantes o
calor e a umidade. Só o Brasil para o filósofo inglês abre uma exceção à regra;
por causa dos ventos alísios, das chuvas torrenciais, dos miasmas...
que tornam aqui a natureza superior ao homem.
Daí,
para o escritor britânico, umas tantas cousas, e, entre outras, a falta de uma
civilização primitiva brasileira e ainda hoje, segundo a sua expressão, o nosso
inveterado barbarismo.
Esta
doutrina, além de ser falsa na descrição geral do clima brasileiro, é em
demasia exterior; é cosmológica demais. Em sua pretensiosidade de explicar
puramente pela física do globo as civilizações primitivas e atuais, é
incompleta e estéril. Ainda quando a determinação das condições mesológicas do
Brasil fosse exata, e absolutamente não é, haveria uma distância e não pequena
a preencher: a ação do meio nas raças para aqui imigradas, levando-as a tomarem
certa e determinada direção, forçosa e fatalmente, e não outra qualquer. É um
círculo vicioso; explica-se o clima pela civilização e a civilização pelo
clima. Aí há lacuna; atiram-nos frases ao rosto, supondo que nos enchem a
cabeça de fatos. No capítulo seguinte a teoria de Buckle será estudada
miudamente.
Teófilo
Braga, o conhecido professor português, não teve por alvo consciente escrever
uma teoria da história do Brasil; fez uns reparos sobre a vida literária do
país e nada mais. É no prólogo do Parnaso português moderno,
reproduzido ampliadamente nas Questões de literatura e arte portuguêsa. Braga
acredita que o lirismo da Europa meridional teve uma origem comum. Esta fonte
geral foram populações turanas, descidas da alta Ásia, divididas em dois
grandes grupos, um que fez viagem pelo Norte da Europa e outro que a fez
através da África, vindo ambos convergir na Espanha.
Na
América deu-se uma semelhante marcha de povos turanianos. A
braquicefalia do basco francês e a dolicocefalia do basco espanhol provam o
fato para a Europa. A suposta dolicocefalia das raças da América do Norte e a
pretendida braquicefalia geral das da América Meridional demonstram o fenômeno
para o Novo Continente.
Tudo
isto é muito vago e também muito aventuroso; são presunções que nada têm de
positivo, nada têm de provado; são divagações que se acham em desacordo com
fatos demonstrados.
A hipótese de Teófilo Braga,
tirada das idéias de Retzius, Beloguet, Pruner-Bey e Varnhagen, para ser aceita
deveria justificar os seguintes fatos:
a)
O monogenismo das raças humanas e sua
origem comum na Ásia, o que não é nada fácil no estado atual da ciência e
diante justamente dos trabalhos de Paulo Broca, que o escritor português chama
sem razão em seu auxílio;5
b)
c)
A veracidade da tríada de Max-Müller de que os
povos do mundo se dividem em arianos, semitas e turanos, empresa
difícil ante a lingüística das raças uralo-altaicas, polinésias, malaias,
africanas e americanas;
d)
e)
A emigração dos turanos para a
América;
f)
g)
A redução dos povos deste continente a
esse ramo único;
h)
i)
A ausência entre as tribos do Brasil
daqueles conhecimentos metalúrgicos e astronômicos que passam pelos caracteres
mais notáveis da civilização turana;
j)
k)
Enfim, demonstrar a identidade do
desenvolvimento das raças americanas e asiáticas, um impossível a olhos vistos.
l)
Antes
que se haja feito o que aí se indica, tudo o que se disser sobre a velha tese
do asiatismo dos povos americanos é pintar n’água, ou escrever na
areia. É a mais antiga de todas as teorias sobre a origem dos americanos e
ressente-se de influência bíblica.
“A
América, diz o homem que melhor conheceu a pré-história do Brasil – o Dr.
Lund –, a América já era habitada em tempos em que os primeiros raios da
história não tinham ainda apontado no horizonte do Velho Mundo, e os povos que
nessa remotíssima época habitavam nela eram da mesma raça daqueles que no tempo
do descobrimento aí habitavam.
“Estes
dois resultados na verdade pouco se harmonizam com as idéias geralmente
adotadas sobre a origem dos habitantes desta parte do mundo; pois que, quanto
mais se vai afastando a época do seu primeiro povoamento, conservando ao mesmo
tempo os seus antigos habitantes os seus caracteres nacionais, tanto mais
vai-se desvanecendo a idéia de uma origem secundária ou derivada.”6
O
sábio Lund prossegue, provando com as suas descobertas arqueológicas a
diferenciação cada vez mais crescente entre os povos brasileiros primitivos e
as raças chamadas mongólicas, à medida que nos afastamos dos tempos modernos. É
a mesma intuição do grande Morton na América do Norte.
Desaparecem
assim o velho estribilho de uma pretensa cultura dos povos do Brasil, que por imensas
catástrofes retrogradaram, segundo se afirma, e a enfadonha tese do mongolismo,
ces ridicules robinsonades, como disse um sábio europeu.
O
encontro de um ou outro artefato cerâmico, mal estudado no vale do Amazonas, é
um fato isolado, muito diverso do que se devia dar no resto do país; é antes de
tudo um fato explicável pela proximidade da civilização do Peru, ou da América
Central, ou das Antilhas.
Quanto
distava a sobriedade do grande Lund da afoiteza leviana de uns pretensiosos
muito conhecidos, que a andam aí a dizer que os Tupis eram os cários, ou
os normandos, ou os fenícios, ou os mongóis, ou os turanos,
e não sei mais que povos que colonizaram a América.
É
possível uma certa intermitência na arte entre os povos amazonenses, fenômeno
cem vezes repetido no curso da história de todas as artes. Que prova isto? O
turanismo? uma velha civilização oriunda da Ásia? Absolutamente não.
Os
estudos científicos sobre as raças americanas começam apenas no Brasil.
Reduzem-se por ora a pequenos trabalhos sobre craniologia, lingüística e
arqueologia artística e industrial. Não existem muitos fatos demonstrados, os
materiais são ainda limitadíssimos; entretanto, já temos uma dúzia de teorias
para explicar a origem dos Tupis-Guaranis e dos americanos em geral.
Não
quero contestar os conhecimentos práticos de nossos savants sobre alguns
assuntos referentes aos selvagens; mas é tal a falta de senso crítico, tal a
incapacidade filosófica de alguns desses savants, que os seus escritos
merecem ir para o fogo. Apelam para os chins, para os japoneses, os tártaros,
os cários, os egípcios, os fenícios, os normandos, os judeus, os turanos, para
filiarem neles os pobres Tupis... Querem uniformizar tudo, buscar para tudo um
similar no Velho Mundo. Uma boa interpretação dos fatos levá-los-ia por certo a
conclusões diversas.
Acabariam
com a mania de reduzir a um tipo único as raças americanas, e ao mesmo tempo
veriam nelas um produto deste solo; compreenderiam melhor a semicultura antiga
do vale do Amazonas, sua filiação na cultura idêntica dos indígenas das
Antilhas, e tantos outros fatos simples em si e obscurecidos por fantasiosos
sistemas. Uma das marchas migratórias dos antigos povos americanos que parecem
mal esclarecidas atualmente, é a de uma corrente de norte a sul, partindo das
Antilhas, das costas da América Central e da atual república da Venezuela, e
chegando ao interior do Brasil, estacionando vastamente no vale do Amazonas. O
estudo comparativo das antigüidades das Antilhas e da região amazônica
demonstraria definitivamente o fato.
No
valiosíssimo escrito de Otis F. Mason, inserto no Annual Report of
the Smithsonian Institution, do ano de 1876, sobre as antigüidades de Porto
Rico, imensos são os pontos de contato entre os produtos ali descritos e
aqueles que se encontram no Pará.
Despertam
especial menção os amuletos representando animais, figuras humanas, etc.,
fabricados de matérias diversas, e especialmente de uma pedra verde, semelhante
ao jade, of green jadelike material, diz o Dr. Mason. São as muiraquitãs
do Amazonas. Dentro da própria América acham-se os elementos para a explicação
do que se encontra ao Norte do Brasil. Desprezemos de uma vez as teorias que
recordam o velho biblicismo que o Sr. Teófilo Braga anda nesta questão a
defender erradamente.
Concedendo
porém tudo, admitindo a identidade das origens do lirismo português e
tupinambá, como quer o escritor português, que daí se poderá inferir para a
filosofia da história brasileira?
Nada.
A tese do autor açoriano é puramente literária e não visa a uma explicação
científica de nosso desenvolvimento social.
Oliveira
Martins em seu livro O Brasil e as colônias portuguesas enxerga todo o
interesse dramático e filosófico da história nacional na luta entre os jesuítas
e os índios de um lado e os colonos portugueses e os negros de outro. Um
semelhante dualismo é em grande parte de pura fantasia, e, no que tem de real,
não passa de um fato isolado, de pouco valor e duração, fenômeno cedo
esvaecido, que não pode trazer em seu bojo, como um segredo de fada, toda a
latitude da futura evolução do Brasil. É um simples incidente de jornada,
alçado à categoria do princípio geral e dirigente; é uma destas sínteses fúteis
com que alguns novelistas da história gostam de nos presentear de vez em
quando.
A
teoria do positivismo religioso sobre a nossa história é mais genérica e
compreensiva. Falo em positivismo religioso, porque ele se me antolha o
único equilibrado, lógico e inteiro. O comtismo é aquilo, ou não é nada.
O
cisma de Littré foi estéril, ilógico e anárquico.
O
digno escritor estava por certo no direito de ir com o mestre até onde quisesse
ou pudesse; o que não tinha era o direito de limitar-lhe as crenças e as
conclusões da doutrina. Não sou positivista; acho o comtismo um sistema
atrasado e compressor, que faz uma figura apoucada ao lado do evolucionismo
inglês e do naturalismo alemão. Se de Comte saíram Littré e Laffitte, de Darwin
destacaram-se Spencer e Haeckel, e não vacilo na escolha; mas julgo que a seita
dos ortodoxos é superior à dos outros.
Comte
não escreveu diretamente sobre o Brasil; seus sectários nacionais Teixeira
Mendes e Aníbal Falcão desenvolveram o que eles chamam a teoria da pátria
brasileira.7
Meu
plano neste rápido esboço não exige a exposição miúda das vistas contidas nos
escritos citados desses dois autores. Basta-me resumir. A nação brasileira é
uma pátria colonial, pertencente ao grupo das pátrias ocidentais. Logo
ao sair da luta holandesa, o Brasil reunia em si as condições de uma pátria:
solo contínuo, governo independente e tradições comuns. O destino brasileiro
pode formular-se assim: “O prolongamento americano da civilização
ibérica, a que cada vez mais se assimilarão, até unificação total, os índios e
os negros importados, ou os seus descendentes.”
Na
guerra holandesa venceu definitivamente o elemento ibérico, representante da
civilização latina; destarte o Brasil escapou à ação dissolvente da Reforma, do
deísmo, e está em melhores condições para adotar a doutrina regeneradora
do que os Estados Unidos, por exemplo. É isto em essência.
O
que é verdadeiro não é novo, e o novo não é verdadeiro. Que o Brasil é uma
ex-colônia, que é do grupo das nações filiadas na civilização ocidental, e que
tem as condições indispensáveis a uma nacionalidade, ou elas sejam – solo
contínuo, governo e tradições comuns, como quer Comte, recordações e esperanças
comuns e a vontade decidida de viver debaixo das mesmas leis e compartilhar os
mesmos destinos, como ensina Renan, ou comunhão de raça, de religião, de língua
e de território, como escreve Scherer, que ao Brasil cabe tudo isto, já todos o
sabiam antes das demonstrações recentíssimas. Que a guerra holandesa foi um
fenômeno notabilíssimo; que ali triunfou Portugal com a civilização
católico-latina contra a Holanda e a civilização germânico-protestante, e que
nessa epopéia os colonos brasileiros viram-se quase sós, desamparados da
mãe-pátria; que na luta entraram as três raças; que as duas chamadas inferiores
devem ser incorporadas à nossa vida social, de tudo isto sabia-se no Brasil,
desde que houve alguém que se lembrasse de escrever-lhe a história. Tudo isto é
velho, velhíssimo.
Mas
a necessidade indeclinável de haver na América representantes da civilização
ibérica e a superioridade indiscutível desta sobre a civilização germânica, é o
que não me parece de todo evidente.
A
indispensabilidade desse dualismo histórico, representante na Europa de duas
tendências opostas, devendo necessariamente reproduzir-se na América, é muito
simétrica demais para não ser em grande parte de pura fantasia.
Era
necessário para as pátrias ocidentais que o português vencesse no Brasil o
holandês protestante e que o inglês derrotasse nos Estados Unidos o
francês católico!
É
muito cômodo. E afinal, por que se não há de dar o mesmo na Oceania em geral e
notadamente na Austrália, onde o elemento germânico quase não encontra o seu
competidor? São terras novas, habitadas por selvagens a desaparecerem a olhos
vistos, que estão sendo colonizadas por europeus, representantes da civilização
ocidental. Por que não se há de repetir ali o dualismo salutar?
A
teoria da história de um povo parece-me que deve ser ampla e compreensiva, a
ponto de fornecer uma explicação completa de sua marcha evolutiva. Deve
apoderar-se de todos os fatos, firmar-se sobre eles para esclarecer o segredo
do passado e abrir largas perspectivas na direção do futuro.
Seu
fim não é só mostrar o que esse povo tem de comum com os outros; sua obrigação
é ao contrário exibir os motivos das originalidades, das particularidades, das
diferenciações desse povo no meio de todos os outros. Não lhe cumpre só dizer,
por exemplo, que o Brasil é o prolongamento da cultura portuguesa a que se
ligaram vermelhos e negros. Isto é muito descarnado e seco; resta ainda saber
como estes elementos atuaram e atuarão uns sobre os outros e mostrar as causas
de seleção histórica que nos vão afastando de nossos antepassados ibéricos e de
nossos vizinhos também filiados na velha cultura ibera. Se a teoria de Buckle é
em demasia cosmográfica, a de Martius demasiado etnológica, a dos discípulos de
Comte é em extremo social, sem atender a outros elementos indispensáveis.
A filosofia da história de um povo
qualquer é o mais temeroso problema que possa ocupar a inteligência humana. São
conhecidas as dificuldades quase insuperáveis dos estudos sociológicos. Uma
teoria da evolução histórica do Brasil deveria elucidar entre nós a ação do
meio físico, por todas as suas faces, com fatos positivos e não por simples
frases feitas; estudar as qualidades etnológicas das raças que nos
constituíram; consignar as condições biológicas e econômicas em que se acharam
os povos para aqui imigrados nos primeiros tempos da conquista; determinar
quais os hábitos antigos que se estiolaram por inúteis e irrealizáveis, como
órgãos atrofiados por falta de função; acompanhar o advento das populações
cruzadas e suas predisposições; descobrir assim as qualidades e tendências
recentes que foram despertando; descrever os novos incentivos de psicologia
nacional que se iniciaram no organismo social e determinaram-lhe a marcha
futura. De todas as teorias propostas a de Spencer é a que mais se aproxima do
alvo, por mais lacunosa que ainda seja.8
A FILOSOFIA
DA HISTÓRIA DE BUCKLE E O ATRASO DO POVO BRASILEIRO
Para
bem compreender a posição presente do povo brasileiro e o seu desenvolvimento
histórico, à luz das idéias científicas que reinam na atualidade, é mister
lançar um olhar sobre a moderna concepção da história, e insistir sobre a de
Buckle especialmente. Este autor mais de perto nos toca a nós brasileiros,
porquanto dos modernos reformadores da história é, o que mais se ocupa com o
Brasil, e terei, por necessidade, de apreciar as palavras duras, porém no fundo
exatas, que escreveu a nosso respeito. Tanto mais é isto necessário, quanto
embalde se procuraria em nossos historiadores, no tocante à filosofia da
respectiva ciência, outra coisa além de declamações mais ou menos
inadmissíveis.
Geralmente
se repete que o XIX século foi o século da história, como o anterior fora o da
filosofia. Este dito que, desde o autor das Cartas sobre a História de
França, tem valido por verdadeiro, não passa talvez de uma dessas sínteses
caprichosas com que se costumam caracterizar as épocas com perda para a
verdade. Outros têm dito que aquele foi o tempo das ciências naturais; alguns
que foi o da crítica... Mas o certo em tudo isto é que as três características
se supõem e se completam; não é mais possível a história sem a crítica, como
não é admissível esta sem as ciências naturais. Eis o grande fato firmado pelo
século XIX nos seus últimos anos: estabelecer os outrora ditos estudos morais
sobre bases experimentais. O processo tem sido complicado e longo; foi mister
passar em revista o método de todas as ciências e expulsar do seu conselho mais
de uma pretendida sem validade em seus títulos. O desenvolvimento gradativo de
todos os fatos observáveis, alçado à altura de princípio dirigente, mostrou a
necessidade de melhor estabelecer a genealogia científica: a nova
classificação, quaisquer que sejam ainda as dissonâncias entre os filósofos,
tem por base tal princípio.
Em
conseqüência deste novo modo de ver e de julgar é que a expulsão de algumas
supostas organizações científicas tornou-se inevitável. Está muito longe de ser
perfeito o acordo neste ponto entre alguns dos maiores pensadores que
contribuíram para o grande resultado.
Ao
lado da nova classificação das ciências que se desenvolve na ordem crescente da
complexidade dos fenômenos e na decrescente de sua generalidade, poderia, a meu
ver, inscrever-se outra, não como classificação orgânica das ciências, senão
como uma notação histórica de seu desenvolvimento, no que diz respeito ao grau
atingido de sua certeza. Não seria inexato, por esta forma, dizer que elas têm
sido ciências propriamente ditas, quase-ciências e falsas ciências. Quem
não colocaria entre as primeiras – a matemática, a astronomia, a
física...; em o número das segundas – a psicologia, a história, a
economia política...; e no terceiro grupo – a metafísica e a teologia
clássicas, desconcertadas irmãs da astrologia e da alquimia? Toda a ordem de
estudos, tendo por objetivo o homem e a sociedade, tem ficado por enquanto na
segunda classe, por não haver atingido aquele grau de certeza que constitui o
brilho próprio das completas ciências. A história acha-se aí; e, por maiores
que tenham sido os esforços de Buckle e seus continuadores, ela parece
resignada a não deixar por ora o círculo de suas companheiras: as quase-ciências.
O
movimento romântico dos primeiros anos do século XIX trouxe a paixão pelo
passado, e, desde a grande obra de Hallam sobre a Idade Média, apareceu na
história a tendência pinturesca e representativa, contrabalançada pela que se
intitulava filosófica. O certâmen das duas escolas rivais já pertence por sua
vez à história, que luta por adquirir novos princípios e devassar novos
horizontes.
Não
padece dúvida que os modernos reformadores já deram um notável passo que parece
definitivo. Não é outro senão o grande resultado de que já falei: a aplicação
dos processos experimentais ao estudo dos acontecimentos humanos. Ë a última
fase a que chegaram os trabalhos históricos; mas isto ainda não lhes garante,
quanto a mim, a segurança completa e inabalável da ciência, por mais que o
digam alguns dos pensadores que, como Buckle, lhes querem atribuir este
caráter.
Por
mais firmes que pareçam os achados de Draper, Bagehot, Buckle, Lazarus e
Marselli; por mais inteirados que se mostrem dos métodos de Lyell, Wundt,
Virchow, a história em suas mãos não é ainda uma ciência capaz de verificações
certíssimas e indubitáveis. Muito menos o é tratada pelos pinturistas e
filósofos da escola francesa. Ernesto Renan em artigo comemorativo de Aug.
Thierry, inserto nos seus Ensaios de moral e crítica publicados em 1859,
ainda fala em frases sonoras das cenas pinturescas do insigne historiador e das
dissertações filosóficas de Guizot. Nesse tempo não lhe eram conhecidas as
aplicações novas da geologia e da fisiologia aos fatos humanos e ele ignorava
as lacunas dos dois notáveis mestres.
Henry
Thomas Buckle, morto em 1862, aos trinta e nove anos, depois de haver em 1857
publicado sua Civilização na Inglaterra, ficou por muito tempo quase
totalmente desconhecido no Brasil.
Quando
muito, alguns dele tinham notícia pela crítica de Littré, senão pela
superficial e lacunosa História da Literatura Inglesa Contemporânea de
Odysse Barot. Mui raros o teriam lido. Seu espírito foi influenciado pelos
trabalhos de Comte adicionados aos de Whewell e Mill. Quételet com sua
transformação matemática da estatística foi também de um peso decisivo para
ele, bem como a geral corrente do tempo que o lançava no encalço das idéias de
caráter demonstrado e científico. Sua obra, que não passou da Introdução,
é geralmente considerada um notável sucesso no domínio dos estudos históricos.
O primeiro volume contém a filosofia do nobre pensador; os outros dois trazem
exemplificações práticas de máximo interesse tomadas aos anais da França,
Escócia, Espanha e da própria Inglaterra. É naquele que mais se revela o
reformador amestrado. Detenhamo-nos ante ele.
Começando
pelo problema da liberdade, estuda a questão das influências a que cedem as
ações humanas, tais como o influxo das leis físicas, o da religião, do governo,
e da literatura, e acaba por um esboço sobre a origem dos estudos históricos,
seu estado na Idade Média e uma apreciação sobre a inteligência inglesa até o
século XVIII. Em tudo mostra uma erudição variada e um pensamento firme,
revestidos por um estilo simples e fluente.
Buckle
rebela-se contra o método dos metafísicos na inquirição das leis do espírito
humano e no modo de tratar a história. Ele exclama um pouco rudemente:
“As long as the human mind is only studied according to the narrow and
contracted method of metaphysicians, we have every reason for thinking that the
laws which regulate its movements will remain unknown.”1 Estas
palavras quando foram proferidas pelo ilustre escritor não revelavam ainda uma
tão vulgar e comumente aceita verdade entre os mais proeminentes pensadores do
mundo, como o manifestam hoje. Ele pois detalhou um pouco a sua demonstração.
Sem desconhecer certa influência dos processos metafísicos sobre mui poucas das
leis da associação e talvez sobre as modernas teorias da visão e
do tato, nota-lhes a diametral oposição em que se acham com os métodos
histórico e científico. O metafísico estuda um só pensamento, e o historiador
muitos; as ciências indutivas devem esmiuçar os fatos e isolar cada um para
melhor determiná-los, e pelo processo da vulgar filosofia é impraticável o
isolamento de um fenômeno espiritual, que, por outra parte, não se pode
subtrair à influência das circunstâncias exteriores. Além de que as duas
grandes classes de metafísicos, – os idealistas e os sensualistas,
– chegam sobre as leis do espírito a contrárias afirmações, em sua
ciência o pensamento é o instrumento e ao mesmo tempo a matéria sobre que ele
se exerce. Isto produz um peculiar embaraço. É a impossibilidade de formar uma
vista compreensiva do todo dos fenômenos mentais, porquanto, por mais extensiva
que possa ser tal vista, excluirá sempre o estado do pensamento pelo qual ou no
qual ela é formada. Não assim nas ciências físicas que têm a seu serviço uma
grande porção de métodos. Tal defeito radical impede, a seus olhos,
a psicologia de ser uma ciência e de chegar a qualquer resultado aproveitável.
Buckle
exagerou. Imbuído das negativas conclusões de Comte sobre o estudo dos fatos subjetivos,
era concludente que recusasse-lhe a nota de rigorismo científico; mas não que
chegasse a desconhecer-lhe qualquer eficácia.
Como
se lhe afigurou que a história podia ser erigida ao grau de ciência, ela que é
ainda mais complexa que a psicologia? Como saltar dos estudos biológicos, que
tratam da vida em geral, para a história, desprezando as leis dos fatos
intelectuais, sensíveis e morais? Não posso compreender que se faça da
sociologia uma ciência quando não se admite uma psicofísica. A seriação das
ciências fica por tal modo truncada.9
Desde
agora cumpre notar um equívoco de Emílio Littré. Em sua crítica, um pouco
animada, contra o historiador inglês, ele declara ocupar-se com a sua obra,
porque o escritor cedeu à influência de Comte e dela quis, até certo ponto,
separar-se! Só por isso? Quando muito –
“il ne fait pas fi du demi-positivisme; ce sont des
acheminements...”
E
qual seria para Littré o inteiro positivismo?
Seria
o do próprio Littré, que também se separou do mestre em mais de um ponto
decisivo? Será o de P. Laffitte, o S. Pedro da escola, segundo Renan?10
Como
quer que seja, o velho escritor teve um certo gosto em andar apurando
ortodoxias positivistas, máxime com os dignos pensadores da escola inglesa.
Mill, Spencer, Buckle sofreram os seus golpes, nem sempre com muita razão.
Não
há maior cegueira de que esta de supor o positivismo uma doutrina compacta,
cujos sectários se acham acordes, pronunciando a última palavra da ciência! A
célebre definição de Huxley – que a seita comtesca é um catolicismo
sem o elemento cristão – é verdadeira. Não poucos foram sem dúvida os
méritos e vantagens do sistema; este porém tem sido ultrapassado. Contribuiu
para certos resultados; mas, sacrificando a alguns prejuízos, tem desdenhado,
por exemplo, algumas das fecundas verdades anunciadas por Darwin. Admira que
alguns escritores brasileiros proclamem a seu público que são discípulos de
Comte in totum e ao mesmo tempo do sábio inglês último citado, isto é,
que aceitam em cheio todas as conclusões dos dois mestres que totalmente se
repelem em mais de um ponto de máximo interesse, como sobre a idéia da vida
e a da sociedade.
Cumpre
ser completamente despido de senso crítico para destarte fornecer provas de que
se não pode entender os sistemas em seus resultados fundamentais.
Poderiam
ser ambos aceitos; mas com reduções indispensáveis e vastíssimas.
Continuemos.
Declarado
por Buckle ineficaz para a história o processo dos metafísicos, é-o também o
dos teólogos. Ambos os métodos desconheceram a lei da normalidade natural dos
fatos humanos: o primeiro criando a doutrina do livre arbítrio, e o
outro fundando a da predestinação. – “The theory of
predestination is founded on a theological hypothesis: that of free will on a
metaphysical hypothesis.”
Destituída
de todo o fundamento humano e racional, a predestinação dos acontecimentos não
perdurou longamente nas tentativas de filosofia da história até ao presente
feitas. É doutrina que não precisa de refutação. Por outro lado o dogma da
liberdade completa de nossas ações e dos fatos históricos é correspondente à
doutrina do acaso; não existe mais uma lei para a história; predomina o
capricho dos agentes e a glorificação sobre-humana dos heróis, que
dirigem o curso dos acontecimentos a seu bel-prazer.
Buckle
insurge-se contra esta apreciação e chega a traçar a refutação de seu principal
argumento, que se funda na inerrância da consciência. Sem muito trabalho
foi-lhe fácil mostrar o caráter relativo desta faculdade, sempre mudando de
crenças e afirmações no curso evolucional da humanidade. Encarada também no
indivíduo, diz-nos ele com a maior veracidade: “Consciousness is
infallible as to the fact of its testemony; but fallible as to the truth.”11
Abandonados
os dois métodos insustentáveis, o historiador pretende substituí-los pelos
processos fundamentais das ciências naturais, dizendo que as ações humanas são
determinadas somente por seus próprios antecedentes e têm o caráter de
uniformidade, produzindo os mesmos resultados sob as mesmas circunstâncias,
podendo ser perturbadas ou dirigidas pela ação dos meios. São estas as suas palavras: “Rejecting, then, the
metaphysical dogma of free wiil, and the theological dogma of predestined
events, we are driven to the conclusion that the actions of men, being
determined solely by their antecedents, must have a character of uniformity,
that is to say, must, under precisely the same circumstance, always issue in
precisely the sarne results. And as all antecedents are either in the mind or
out of it, we clearly see that ali the variations in the results, in other
words, all the changes of which history is full, ali the vicissitudes of the
human race, their progress or their decay, their happiness or their misery,
must be the fruit of a double action; an action of external phenomena upon the
mind, and another action of the mind upon the phenornena.”
O autor recorre a Quételet, que,
com a transformação da estatística pelo cálculo das probabilidades, prova, de
ano a ano, a repetição gradativa dos mesmos crimes, do emprego das mesmas armas
para igual número de assassinatos e de suicídios; a repetição da celebração de
igual soma de casamentos!...
Não
há como negar os fatos esclarecidos pelo ilustre calculista belga e comprovados
pelos mais sérios observadores.
As ações humanas são regidas por
um complexo de leis que inconscientemente para nós atiram-nos no caminho da
vida corno uns quase atores. Mas a história, que não é uma cadeia de
fatos sempre novos e desarmônicos com seus antecedentes, como já se pretendeu,
será certo que se repita? Os dados estatísticos não podem chegar até aí; a
marcha da história é evolucional, e tanto basta para que não haja repetição,
como não existe disparatada incoerência.
É
onde está porém o grande embaraço.
Esta
liberdade, que por alguns motivos a ciência moderna acaba de reduzir a
proporções pouco amplas, não deixa de existir ao menos em uma forma tão
aparente, que será sempre impossível pesar a massa das circunstâncias e o
conjunto dos móveis infinitos que, a um só tempo, dirigem a trama complicadíssima
dos acontecimentos humanos.12
Buckle reconhece que as leis do
pensamento reagem sobre a ação das leis físicas; e não irá aí a confissão de
elemento autônomo até certo ponto, ainda que obscuro, e capaz de perturbar a
uniformidade científica das investigações históricas?
Parece
que esta consideração restringe o caráter altamente científico da história,
ainda que dirigida por mãos como as de Buckle ou Littré.
Por
falar neste último, não é fora de lugar o reduzir um pouco as aparências de
verdade de uma sua proposição contra o autor da Civilização na Inglaterra.
Increpa-o por haver confundido as leis do espírito humano com as leis da
história. Diz ele: “Rien dans
l’esprit humain ne montre qu’il doive y avoir une évolution
historique. Cette évolution est un fait que l’on constate
expérimentalement comme tous les autres faits; mais ou ne la déduit pas de
l’étude psychique.”13 Eis o
resultado a que se chega, quando se admite uma história-ciência, e se despreza,
como de todo inútil, uma psicologia científica! A distinção das duas categorias
de leis é incompreensível, e sobretudo para um positivista. Para quem, como E.
Littré, não concebe o espírito humano em sua totalidade, senão desenvolvido e
representado na história, que outras são as suas leis além das desta última?
Certamente
E. Littré, com toda a gravidade que o distinguia, não respeitou muito a memória
do seu celebrado mestre quando escreveu aquele período.
O
sábio inglês divide as leis que dirigem a história em físicas e mentais; estas
últimas subdivide-as em intelectuais e morais.
Agora
é que se revela o lado mais original de sua obra; são os capítulos mais
profundos. Começa pela apreciação das leis físicas.
As
influências desta ordem, a que a raça humana mais poderosamente cede, podem
para ele ser classificadas em quatro categorias: clima, alimentação, solo e
aspecto geral da natureza. Este último
merece-lhe máxima atenção. Diz-nos: “The last of these classes, or what
the call the general Aspect of Nature, produces its principal results by
exciting the imagination, and by suggesting those innumerable superstitions
which are the great obstacles to advancing knowledge. And as in the infancy of
a people the power of such superstitions is supreme, it has happened that the
various Aspects of Nature have caused corresponding varieties in the popular
character, and have imported to the national religion particularities which,
under certain circumstances, it is impossible to efface.”14
Firmado
especialmente em Mill, nega a distinção original das raças explicando-lhes as
diferenças posteriores pelas quatro leis que formulou. Não parece bem
fundamentado o asserto. Não há dúvida que as diversidades de climas, solos,
alimentos... contribuem para que perdurem as separações das raças; é preciso
porém ir um pouco adiante e declarar que, sendo os climas e mais agentes
físicos anteriores às raças, a diversidade destas é já de si originária e
primordial, isto é, surgiu com elas mesmas desde o seu primeiro aparecimento.
Pela
lei darwínica da transformação dos seres, entendida o mais latamente, as raças
despontaram diferentes em climas diferentes também. Os climas depois disto só
têm feito conservar e fortalecer as predisposições nativas.
O
escritor britânico divide a civilização em dois grandes ramos, – a da
Europa e a de fora dela; na primeira predomina o esforço do homem sobre a
natureza; na outra é o contrário que se nota. Esta distinção é caprichosa. A
civilização só é antiga e moderna, oriental e ocidental, da Europa ou
extra-européia nos livros medíocres de filosofia da história, que assinalam
leis contraditórias para cada uma delas. No vasto e completo conceito ela é uma
só, que evolucionalmente se tem desenvolvido até nós.
Podem-se-lhe
quando muito, e é até necessário, marcar fases sucessivas, como mais ou menos
acertadamente o praticou Comte e outros muitos antes e depois dele.
Todos
os tempos e todos os países devem ser estudados, porque todos hão contribuído
para o geral progresso; a lei da filiação tem seu maior complemento exatamente
na história. Se a civilização está atualmente na Europa, não será verdade que
lhe veio da Ásia e que já tem passado para a América? Obcecado pelas
contradições dos climas e aspectos da natureza, o notável pensador chegou a
erigir a sua distinção infundada em uma lei da cultura humana. Neste ponto é
excelente a refutação de Littré, que escreve com franqueza: “É um erro, e
não há aí base alguma para a filosofia da história. Para que se pudesse sociologicamente
dividir a civilização em européia e extra-européia fora preciso que a
civilização da Europa fosse autoctônica. Ora, ela não o é. Foi nas bordas da
Ásia, nessa Grécia, metade européia e metade asiática, que apareceu a
civilização da Europa destinada a tornar-se a civilização universal; porém o
facho só ali se acendeu pela chama comunicada por nossos antepassados da Ásia e
da África. A proposição de Buckle só é verdadeira quando limitada a um período
recente; mas ainda assim ela foge e escorrega por outro lado, porquanto a
civilização saída da Europa implanta-se na América, na Austrália, começa a
transformar a Índia, maravilha o Japão, todos os países onde, segundo o
pretendido axioma, a natureza é mais poderosa que o homem.”15
Tudo
perfeitamente achado, exceto a falsidade do axioma. É verdade que os diversos
climas, até os mais agros, são adequados às diferentes raças que produziram,
sendo exata até certo ponto a increpação feita por. Littré ao princípio que
desdenha. Mas, tendo-se em vista a civilização moderna, que é, como ele o
reconhece, toda de implantação, não se deve desconhecer a justeza da lei que
tacha de presumida. O fato da emigração de povos originários de países diversos
para climas totalmente estranhos garante-me nesta afirmação. Não deve ser
esquecido que os arianos, por exemplo, que se acham hoje espalhados por todas
as latitudes do globo, encontraram climas mais favoráveis a seu desenvolvimento
numas paragens do que noutras. Poder-se-á dizer que as colônias européias
estabelecidas há quatro séculos na Ásia, África, América e Oceania encontraram
por toda a parte um clima que fosse igualmente favorável ao seu florescimento?
Será certo que a natureza de algumas regiões não lhes tem constituído bastantes
embaraços, e nalgumas paragens quase insuperáveis?
Buckle,
passando a tratar da influência das leis mentais, dá maior quinhão às intelectuais
do que às morais. Nisto nem sempre vai razão e profundeza.
Como
se vê, é ele um experimentalista em largo sentido, pelo método e pela essência
das idéias. Reforçado o seu sistema pelas novas concepções do darwinismo, a
exemplo de Bagehot, é ele um bom sistema da história científica.
A explicação das civilizações
antigas, vai buscá-la na física das regiões onde se desenvolveram. Calor e
umidade, fertilidade da terra e um vasto sistema fluvial, eis as condições
primordiais para o desenvolvimento das civilizações primitivas. Prova-o com a
Índia para a Ásia, o Egito para a África, o México e o Peru para a América.
Mas
como é que o Brasil, e este é ponto a que almejava chegar, como é que o Brasil,
possuindo em tão larga escala os dois fatores, não foi a sede de uma
civilização antiga?
O
escritor britânico recorre, para explicar esta lacuna, a um certo agente
destruidor, que impossibilitou a ação dos outros. Ouçamo-lo detidamente:
“O
agente a que eu aludo é o vento geral, – vento alísio (trade-wind),
admirável fenômeno pelo qual todas as civilizações anteriores às da Europa
foram grande e perniciosamente influenciadas. Este vento abrange não menos de
560 de latitude: 28° ao norte do equador e 28° ao sul. Nesta larga extensão,
que compreende alguns dos mais férteis países do mundo, o vento geral sopra
durante todo o ano, ora do nordeste, ora do sudeste. As causas desta regularidade são agora bem conhecidas e
sabe-se que dependem em parte do deslocamento do ar no equador, e em parte do
movimento da terra: por isso o ar frio dos pólos é constantemente impelido para
o equador e produz assim os ventos do norte no hemisfério setentrional e os
ventos do sul no meridional. Estes ventos são afastados do seu curso natural
pelo movimento da terra quando se volve em seu eixo de oeste para leste. E como
a rotação da terra é mais rápida no equador do que em qualquer outra parte,
acontece que na vizinhança daquele a velocidade é tão grande que compele os
movimentos da atmosfera dos pólos, e forçando-os noutras direções, dá origem a
estas correntes orientais, chamadas ventos gerais, – ventos alísios.
“O que porém agora nos interessa não é
uma explicação dos ventos gerais, e sim uma explanação do modo como este grande
fenômeno prende-se à história da América do Sul. O vento geral, soprando na
costa oriental da América do Sul e procedendo de leste, atravessa o oceano
Atlântico e deixa pois a terra cheia de vapores acumulados em sua passagem.
Estes vapores, tocando à praia em intervalos periódicos, são condensados em
chuva; e como seu progresso para oeste é obstado pela cadeia gigantesca dos
Andes, que não podem passar, empregam toda sua umidade no Brasil, que por isso
é muitas vezes alagado pelas mais destruidoras torrentes. Esta abundante cópia
de umidade, sendo ajudada pelo vasto sistema fluvial peculiar à parte oriental
da América, e acompanhada pelo calor, tem estimulado o solo a uma atividade sem
igual em qualquer outra parte do mundo. O Brasil, que é quase tão grande como
toda a Europa, é coberto de uma vegetação de incrível profusão. Tão viçoso e
luxuriante é o seu crescimento que a natureza parece extravasar-se num brinco
de vaidosa força. Uma grande parte desta imensa região é entrelaçada por densas
e enredadas florestas, cujas magníficas árvores, florescendo com beleza sem
rival, e marchetadas de mil cores, despedem seus produtos com inexcedível
prodigalidade. Em suas franças aninham-se pássaros de esplêndida plumagem, que
pousam em seus altos e escusos recessos. Por baixo, suas bases e troncos são
embaraçados por matos rasteiros, plantas trepadeiras, inúmeras parasitas, tudo
borbulhando de vida. Ali existem em demasia miríadas de insetos de todas as
variedades, reptis de forma estranha e singular, serpentes e lagartos listrados
com fatal beleza; todos acham meios de existência nesta vasta oficina e armazém
da natureza. E para que nada falte a esta terra de maravilhas, as florestas são
cercadas por enormes prados, que, fumegando de calor e umidade, suprem com
alimento manadas inumeráveis de gados silvestres, que pastam e engordam em suas
ervas; as planícies próximas, ricas de outras formas de vida, são a morada
predileta dos animais mais sutis e ferozes, que preiam uns aos outros, porém
que parece nenhum poder humano ter esperanças de extirpar.
“Tal
é a força e abundância de vida por que é colocado o Brasil acima de todos os
outros países do mundo.
“Entre esta pompa e
esplendor da natureza porém nenhum lugar foi deixado para o homem!... É
reduzido à insignificância pela majestade que o cerca. As forças que se lhe
opõem são tão formidáveis que ele nunca foi apto a lhes fazer frente, nunca foi
capaz de resistir à sua acumulada pressão. O Brasil todo, a despeito de suas
inúmeras vantagens aparentes, tem permanecido inteiramente inculto, vagando
seus habitantes selvagens e impróprios para resistir aos obstáculos que a
generosidade da natureza pôs em seu caminho. Os aborígines, como todo o povo na
infância da sociedade, foram adversos a empresas, e, sendo desconhecedores das
artes com que se removem os obstáculos físicos, nunca intentaram opor-se às
dificuldades que obstaram ao seu progresso social.
“Estas
dificuldades entretanto são tão sérias que durante cerca de quatro séculos os
recursos da ciência européia têm sido em vão empregados no intuito de
afugentá-las. Ao longo da costa do Brasil há sido introduzida da Europa uma
certa cópia de cultura que os naturais por seus próprios esforços nunca teriam
alcançado. Tal cultura porém, em si mesma muito imperfeita, nunca penetrou nos
recessos do país, e no interior até agora existe um estado de coisas semelhante
ao que dantes existia. O povo ignorante, e além disto brutal, não praticando
nenhuma restrição, e não reconhecendo lei alguma, continua a viver em seu
antigo e inveterado barbarismo. Neste país as causas físicas são tão
ativas e produzem seu império em uma escala de tal magnitude, que tem sido até
hoje impossível escapar aos efeitos de sua ação combinada. Os progressos da
agricultura são paralisados por florestas intransitáveis, e as colheitas são
estragadas por inumeráveis insetos. As montanhas são por demais altas para
serem escaladas; os rios por demais largos para serem vadeados ou cobertos com
pontes; cada coisa foi aí produzida para reprimir o pensamento humano e conter
a sua crescente ambição. Destarte as energias da natureza têm encadeado o
espírito do homem. Nenhures é tão penoso o contraste entre a grandeza do mundo
externo e a pequenez do interno. O pensamento intimidado por esta luta desigual
não só tem sido incapaz de avançar, como sem o auxílio estrangeiro teria
indubitavelmente recuado. Até ao presente, com todos os proventos,
constantemente introduzidos da Europa, não existem sinais de progresso real;
não obstante a freqüência de estabelecimentos coloniais, menos de um quinto da
terra é cultivado.
“Os
hábitos do povo são tão bárbaros como dantes, e, quanto a seu número, é muito
digno de notar-se que o Brasil, a região onde mais que nas outras os recursos
físicos são mais poderosos, onde os animais e vegetais são mais abundantes,
onde o solo é regado pelos mais nobres rios e a costa ornada pelos melhores
portos, este imenso território, que é maior que doze vezes o tamanho da França,
contém uma população que não excede a seis milhões de almas.16 Estas considerações
suficientemente explicam por que é que em todo o Brasil não existem momentos da
mais imperfeita civilização, nenhum sinal de que o povo tenha, em período
algum, saído por si mesmo do estado em que se achava quando o seu país foi
descoberto. No Brasil o calor do clima foi acompanhado por uma irrigação dupla,
proveniente, de um lado, do imenso sistema fluvial próprio da costa oriental,
e, de outro, da abundante umidade depositada pelos ventos gerais. Desta
combinação resulta que a fertilidade sem igual, tão grande quanto podia
interessar ao homem, derrocou os cálculos deste, paralisando seu progresso por
uma exuberância que, se fosse menos excessiva, o teria ajudado.”17
Esta memorável passagem, que devia
ser meditada por todos os brasileiros, é verdadeira em seu sentido geral; mas
envolve mais de uma inexatidão.
É certo que os primitivos
habitantes do país não ultrapassaram os últimos degraus da selvageria; é exato
ainda que a nossa atual civilização é toda impregnada de barbarismo. Só os
patriotas desajuizados poderão contestá-lo. Buckle porém pelo menos incompleto
quando faz depender as civilizações antigas do calor e umidade, ou da
fertilidade da terra e de um vasto sistema fluvial. A filosofia da história,
sempre que maneja um princípio único, expõe-se a equívocos. O princípio
invocado pelo autor inglês não é tão exato e profundo como lhe pareceu,
porquanto civilizações antigas existiram em regiões onde senão encontram tais
requisitos. Basta ponderar o caso das civilizações da Síria, Fenícia, Grécia e
Etrúria, países tão diferentes da Índia, Egito, México e Peru.
Ainda
mais: regiões existem, dotadas das qualidades encomiadas, que não foram a sede
de civilizações antigas. A grande península denominada Indochina em sua quase
totalidade, a Austrália e as regiões do Níger e do Congo são a prova.
Pelo
que toca ao Brasil, favorecido em larga escala pelas condições exigidas, o
agente perturbador, na frase de Buckle, é o trade-wind, que faz o país
periodicamente ser devastado pelas mais impetuosas torrentes.
Creio
que vai aqui alguma dose de engano.
Se alguma cousa periódica nota-se
no clima do Brasil, não são devastadoras enchentes, e sim calamitosas e
destruidores secas! Toda a enorme região que se estende das margens do São
Francisco às do Parnaíba e ainda além é o teatro regular de tão desastroso
fenômeno. Mais de um terço talvez do país fica assim flagelado em conseqüência
do calor; onde pois as umidades acarretadas pelos ventos gerais?
O
fato tem-se repetido dezenas de vezes nos últimos quatro séculos, e ainda
agora, sob os nossos olhos, tem sido aquela região devastada pela seca
aterradora.
Não
quero, nem posso com isto contestar a ação maléfica dos ventos gerais; mas
torno patente que a sua energia não é tão poderosa como supôs o sábio inglês; e
a prova mais cabal é que o fenômeno inverso do produzido por tais ventos
repete-se constantemente. Temos um mau clima não por excesso de chuvas, sim por
excesso de sua falta. Pelo menos em grande parte do país é o que se nota.
Não
há dúvida que, quando vêm as chuvas, são às vezes torrenciais, o que causa
verdadeiro desequilíbrio: ou completa seca, ou chuvas por demais abundantes.
Isto porém não é sempre.
Se
pois nosso clima é mais poderoso do que o homem, como é costume velho dizer-se,
é mais pela terrível arma das secas com que joga do que pelas enchentes com que
nos castiga.
Outro
equívoco de Buckle é quando fala de nossas maravilhas e de nossos empecilhos
naturais. Exagera umas para também avolumar os outros.
Os
empecilhos são: as grandes matas que se não podem transitar, os rios que se não
podem passar, as montanhas que se não podem transpor, e a abundância dos
animais mais ferozes e daninhos, que ou devastam as plantações ou impedem o
ingresso nos recessos do país!
O
autor, que nunca visitou o Brasil, foi vítima do maravilhoso no inventário dos
obstáculos que a natureza nos opõe.
É
um erro dizer-se que temos as mais soberbas e impenetráveis matas do mundo.
Viajantes muito autorizados são acordes em atestar que o interior do país é
todo calvo, só existindo florestas na pequena cinta dita das matas ou nas
margens dos grandes rios. A maior porção do país não oferece tal obstáculo, se
é que assim se pode considerar uma floresta.
O que se nos apresenta agora como
um defeito, nossos românticos, embriagados de prodígios, sempre nos
apresentavam como uma excepcional vantagem!
“Os
rios mais largos...” É ainda uma abusão romântica. A maior parte dos que
figuram em nossas cartas geográficas ou não existem realmente ou não merecem
tal designação. Não passam de leitos secos quase todo o ano, e apenas cheios na
época das chuvas. Quase todos os rios do Norte do Brasil se acham neste caso.18
Restam
o sistema do Amazonas, o do São Francisco e o do Prata.
Estes três são verdadeiramente
notáveis, e é por amor deles que se formou a extravagante idéia de que todos os
rios do Brasil são gigantescos. Olhando-se de perto, desaparece um pouco a
miragem. Quanto ao Prata, é óbvio que nos não pertence, e dos seus principais
concorrentes só possuímos a parte superior e mais insignificante do curso, as
cabeceiras, por assim dizer. É o caso do Paraná, Paraguai e Uruguai.
Pelo
que toca ao São Francisco, que é só o grande rio que podemos chamar
exclusivamente nosso, o seu sistema é relativamente limitado e abrange poucos
confluentes.
O
Amazonas é que é exatamente colossal, e ainda assim não se pode dizer com
Buckle que seja mais um estorvo do que um auxiliar, além de que só aproveita
diretamente a um quinto talvez de nosso território e à parte mais despovoada.
É
a única região do Brasil onde aparecem as chuvas destruidoras de que fala o
inglês.
“As
montanhas tão altas que se não podem galgar.....” E esta? O país é pouco
montanhoso e nossos picos mais altos são de quarta ou quinta ordem em face de
seus congêneres do Velho e Novo Mundo. Temos poucas serras e que se não
distinguem muito por sua altura.
Não
sei onde estejam o nosso Himalaia, os nossos Andes e os nossos Alpes, que aliás
não vedaram, segundo o nosso autor, a civilização das respectivas regiões.
O
filósofo britânico iludiu-se com as narrações fantásticas dos viajantes,
sedentos de maravilhas e despropósitos.
Muitas
das cadeias de montanhas que figuram em nossos mapas só existem no papel.
E,
quando possuíssemos altíssimas montanhas, elas não seriam um estorvo, como o
não são por aí algures.
O
autor da História da Civilização na Inglaterra, ávido por dar os motivos
de nosso atraso, os não determinou exatos.
Em
um lugar ele diz que os fenômenos, que mais terrivelmente podem impressionar a
imaginação dos homens, desanimando-os, são os vulcões, os tremores de
terra e os furacões. Ora, nosso país tem sido isento de tais crises
medonhas, e por que não o alegou a nosso favor?
“Os
animais mais gigantescos e ferozes...” Erro ainda. Nossa fauna nem é a
mais rica, nem a mais terrível do mundo. Nós não temos o elefante, o camelo, o
hipopótamo, o leão, o tigre, o rinoceronte, a zebra, a girafa, o búfalo, o
gorila, o chimpanzé, o condor e a águia.
Nossos
tipos animais mais temíveis, a onça e a anta, não suportam o
paralelo com seus rivais do Antigo Continente.
E
mister acabar de uma vez com estes inventos, favoráveis ou desfavoráveis, com
que há sido costume iludir-nos. Temos sido sempre vítimas da exageração: os
nossos rios, montanhas, matas, feras... são sempre os mais gigantescos do
mundo, o que é uma vantagem, dizem os patriotas; o que é um empecilho, diz
Buckle; o que é um erro, digo eu.
Referindo-se
aos nossos proventos, o historiador apresenta a fertilidade da terra, sem
rival em qualquer outra parte, porém que, sendo em demasia
exagerada, transforma-se
Primeiramente,
ser a fertilidade, ainda que excessiva, um prejuízo, é coisa que se não admite
facilmente. Depois, tal uberdade, tão extraordinária, não existe.
Possuímos
muitas terras ruins e incapazes de cultura; contamos já muitas terras que os
lavradores denominam cansadas, isto é, já quase impróprias de cultivo. Onde
pois a fertilidade assombrosa e sem rival em todo o mundo?
Aqueles
que conhecem a nossa lavoura, que definha não porque as terras sejam férteis
demais, sabem perfeitamente que os grandes agricultores de café e cana vivem
a botar matas abaixo a fim de ter terras virgens para novas plantações, por
ficarem depressa as outras cansadas. Eu não contesto a fertilidade do solo
brasileiro; fora um paradoxo. Contesto porém que a fertilidade seja um
predicado do Brasil, como alguns querem, ou seja maior aqui do que por todo
alhures.
Tudo
é relativo, e a uberdade de nosso solo também.
Quem
não se lembra da célebre arquigrandeza do Brasil na descrição de Rocha Pita?19
Tudo aquilo foi tomado a sério, e,
depois dos conhecidos versos de Gonçalves Dias, não existiram patrioteiros,
terrível casta de Lovelaces da pátria, que não proclamassem, para
desnortear-nos o critério, que este país era o paraíso da terra.
Buckle
é verdadeiro na pintura que faz de nosso atraso, não na determinação dos seus
fatores.
Estes, a meu ver, são primários ou
naturais, secundários ou étnicos e terciários ou morais. Os
principais daqueles vêm a ser – o excessivo calor, ajudado pelas secas na
maior parte do país; as chuvas torrenciais no vale do Amazonas, além do
intensíssimo calor; a falta de grandes vias fluviais nas províncias
entre o São Francisco e o Parnaíba; as febres de mau caráter reinantes
na costa. O mais notável dos secundários é – a incapacidade
relativa das três raças que constituíram a população do país. Os últimos
– os fatores históricos chamados política, legislação, usos,
costumes, que são efeitos que depois atuam também como causas.
Dado porém que Buckle fosse de
todo exato quanto às causas que determinaram o atraso do Brasil primitivo, os
motivos por ele apontados não deveriam, ante ele próprio, justificar o nosso
abatimento atual, porquanto para esse autor as leis que regem a civilização de
hoje não são as mesmas que presidiram ao desenvolvimento das civilizações
antigas. Até certo ponto é isto exato, tanto que as vantagens do México e do
Peru, que, segundo o escritor, foram a causa de sua grandeza passada, continuam
ali a vigorar, o que não impede que um e outro estejam atualmente a par, senão
muito abaixo, do Brasil no tocante à civilização. Ali houve decadência, apesar
das vantagens, e aqui progresso, malgrado os obstáculos. Como explicar tal
anomalia? E que, quanto ao Brasil, o historiador inglês é, em parte, mais
fantástico do que profundo; é que só pelo clima, bom ou mau, não se explicam as
civilizações hodiernas. São a prova as repúblicas do Prata, que possuem
excelente clima, doce e ameno, e que nos não excedem em cultura, por mais que
alcem a cabeça e façam retumbar as frases quixotescas.
Um país pode possuir um clima
melhor que outro, e ser menos civilizado. Provam o caso a Espanha e a Alemanha.
É que para explicar o andar e progresso da civilização de hoje é mister pesar
as três categorias de fatores que deixei enumerados.
O MEIO
FISIOLOGIA
DO BRASILEIRO
“Os
climas quentes, diz Michel Lévy, estendem-se entre os trópicos, e desde os
trópicos até os graus 30 e 35 de latitude austral e boreal.”20 Por esta classificação o Brasil fica
todo contido na categoria dos climas quentes.
Entretanto,
a configuração topográfica e geológica do país não permite que se o tome como
um corpo bruto, confuso, indistinto, marcado por uma só característica
mesológica.
As
palavras do higienista francês abrem aqui margem para uma exceção. O Brasil
oferece nada menos de duas zonas climatéricas diferentes, – a quente, que
se estende da sua fronteira norte até o trópico de Capricórnio, e a fresca, que
compreende as terras ao sul do trópico, a que se podem ligar os terrenos altos
das antigas províncias imediatamente próximas. É um erro grosseiro confundir
cousas tão distintas. É certo que a mor parte do país, o verdadeiro Brasil,
está contido na zona tórrida, que encerra quase todas as terras baixas do
litoral, de um clima quente e úmido, e as altas dos sertões do Norte, de clima
quente e seco desde a fronteira setentrional até São Paulo. Uma parte desta
última, e as três províncias meridionais – Paraná, Santa Catarina e Rio
Grande do Sul – ficam além do trópico e gozam de um clima suave. Sabe-se
que a Serra do Mar nestas últimas regiões aproxima-se do litoral, oferecendo
para o interior uma vasta lombada de terrenos altos de um clima quase europeu.
Além
disto as terras elevadas dos platôs do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas, se
não têm a frescura das regiões meridionais, não se podem confundir com as
terras quentes do Centro e do litoral do Norte. Constituem um clima temperado e
ameno.
Estabelecida
esta redução, que faço às palavras de Lévy, trate-se do Brasil como de um país
tropical. Não existem estudos regulares sobre a mesologia brasileira.
Os
trabalhos nacionais e estrangeiros são quase infrutíferos neste ponto; desde os
idílios de Simão de Vasconcelos e Rocha Pita sobre a pureza e suavidade do céu
e do ar deste suposto paraíso terreal, até as objurgatórias do inglês
Buckle contra este inferno do mundo, quase só se nos deparam declamações
e futilidades, sempre contraditórias. Certos autores europeus, acostumados a
tratar dos climas inóspitos das colônias que suas nações possuem na zona
tórrida da África, Ásia e Oceania, falando do Brasil, são levados, sem mais
exame, a aplicar-lhe o que só é verdadeiro daquelas regiões. A zona tropical se
lhes a figura constantemente o país dos furacões, dos terremotos medonhos, dos
cataclismos impossíveis, dos vulcões que bombardeiam o ar, do siroco, do simum,
do chansim, dos temporais homéricos, do caos
Os
nossos ventos alísios não nos atiram no despenhadeiro d’águas, como a Buckle
quis parecer. Os geógrafos de gabinete expõem-se a ilusões deste gênero. O
corpo do Brasil forma uma espécie de vasto triângulo irregular, compreendendo
zonas diversas, com duas grandes bacias hidrográficas: a do Amazonas e a do
Paraná, com inúmeros afluentes, que, com outras bacias secundárias, cortam o
país, de norte a sul, ou de oeste a leste. A zona quente admite uma divisão
geral: a) as terras mais ou menos pantanosas das costas, as do grande vale do
Amazonas e do Paraguai, onde reinam as moléstias hepáticas e as febres
palustres; b) a região sertaneja, compreendendo todo o interior norte do país,
o teatro das secas. A região fresca também sofre uma divisão: a) as três
províncias meridionais, onde vagueia o minuano frio e ríspido; b) as terras altas
das províncias intermédias, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas, região que não
tem o calor e a uberdade do Norte, nem a esterilidade relativa dos terrenos do
extremo Sul. As notas, todavia, predominantes no clima do país são, pois, o
calor e a umidade, com todo o seu cortejo formado pelo impaludismo. Daí um
certo abatimento intelectual, uma superficialidade inquieta, uma
irritabilidade, um nervosismo, um hepatismo que se revela nas letras, – o
que tudo não degenera em delírio; porque o exterior do país é risonho, as
montanhas reduzidas e poéticas e não colossais e fantásticas como as da Índia,
por exemplo. Seja dada a palavra a um especialista: “Os habitantes dos
climas equatoriais experimentam desde o nascer os efeitos do calor.
Experimentam-nos sem interrupção até a morte; sua organização, composta de
elementos de uma hereditariedade especial, é a expressão mais verdadeira e
completa do poder desse agente; ela carrega o selo da ação solar como todos os
produtos da natureza que a cerca. O calor exalta os órgãos da periferia e
determina um movimento centrífugo: exageração habitual das funções exteriores,
relaxamento das funções centrais, tal o ritmo dos indígenas da zona tórrida. O
calor árido contrai, encrespa, irrita seus tecidos cutâneos; o calor úmido os
distende pelo suor e muitas vezes pelas erupções; num caso e noutro, os fluidos
são levados para debaixo da pele, que perde a cor e adquire um alto grau de
sensibilidade; os órgãos que simpatizam diretamente com a pele recebem um igual
impulso, especialmente os sentidos e o aparelho genital. A sobreexcitação
cutânea tem como conseqüência a depressão vital das mucosas; as forças
digestivas languescem; a elaboração do quilo é incompleta; o sangue, fornecido
além disso por uma alimentação pouco substancial, fica seroso e pouco
estimulante; levado aos pulmões, cuja atividade está diminuída, não se
arterializa tão completamente como nos climas frios, onde a respiração é mais
enérgica.
“O
Dr. Copeland notou que nos países quentes escapa-se uma porção menor de ácido
carbônico pelas vias respiratórias; o carbono predomina, então, nos fluidos
orgânicos, que não têm plasticidade, e vai fixar-se no pigmento, cuja formação
tende a aumentar. A economia ficaria sobrecarregada desse princípio contrário à
vida se o não expulsasse em parte pela pele e pelo fígado, que se anima com uma
atividade suplementar à do pulmão: o carbono, que esta víscera não elimina sob
a forma de ácido carbônico, o fígado se encarrega de evacuá-lo debaixo da forma
de bílis, pelo tubo digestivo. Em todas as épocas da vida, desde o estado
embrionário, observa-se este antagonismo entre o fígado e o pulmão; ligados por
uma relação inversa de desenvolvimento e atividade, logo que um destes órgãos
se enfraquece, o outro se exalta; o clima nisto opera como a idade e as
moléstias; cria idiossincrasias especiais e amortece as que dantes existiam.
“A
transpiração cutânea, a secreção da bílis, a deposição mais copiosa do pigmento
são o tríplice trabalho, que domina a fisiologia dos países quentes; a pele e o
fígado são os órgãos mais vivos e sobre eles se dirige mais freqüentemente a
iminência mórbida. Aí a forma mais ordinária da saúde não será, pois, o
temperamento sangüíneo que mostra uma qualificação e uma hematose perfeitas;
manifestam-se como tipo mais genérico os caracteres do predomínio bilioso, os
sinais de uma verdadeira saturação de carbono, combinados com os do
temperamento linfático e os do nervoso.
“A constituição dos
indígenas testemunha a influência enervadora do clima: todos os observadores assinalam
neles o contraste da fraqueza radical, do relaxamento dos tecidos, da
indolência e da apatia, com a exaltação do sistema nervoso, o fogo das paixões,
os borbotões desordenados de atividade física e moral. O enfraquecimento geral
destas raças é também favorecido pela natureza do regime alimentício, pouco
reparador no fundo, apesar dos condimentos incendiários com que se esforçam
para despertar a inércia de seus órgãos
digestivos enfraquecidos pelos excessos venéreos, que cometem pelo
estímulo especial do clima, pelas desordens de toda a espécie a que as levam
sua luxúria natural, a ociosidade e o despudor dos costumes.
“A afeção dominante nestes
climas na estação seca é uma febre contínua remitente, acompanhada de
congestões rápidas que se operam, já no encéfalo ou nas meninges, já no tubo
digestivo e anexos. Com esta afeção coincidem as moléstias locais, febris ou
apiréticas: o calor seco dispõe para as hiperemias cerebrais, as meningites, as
encefalites, as apoplexias. O brilho da reverberação solar provoca oftalmias; a
pele, sede de uma estimulação constante, se cobre de erupções diversas. Os
aparelhos digestivo e biliar se irritam por seu lado, diretamente ou por
simpatia: as colites, as disenterias, as hepatites, mostram-se em multidão,
cercadas de febre violenta, ordinariamente de natureza palustre, que não custa
a imprimir seu cunho particular em todas estas flegmasias; até as febres
traumáticas revestem-se deste tipo especial.
“A
estação úmida vem acabar, por sua ação dissolvente, a prostração da economia,
gasta pela sobreexcitação produzida pelos calores da estação precedente. As
primeiras chuvas, que refrescam a terra ressequida, fermentam a camada de
detritos orgânicos que a cobrem; logo depois a superfície do solo se enche de
lamas e umidades fétidas, e sobre toda a extensão da zona tórrida operam-se
emanações deletérias, máxime nas costas cobertas de mangues e pântanos, nos
terrenos baixos e nas terras cobertas de mato; aparecem então as endemias de
febres intermitentes e remitentes, seguidas ou complicadas com hepatite,
disenteria, ou cólera-morbo; as lesões locais apresentam maior propensão para a
supuração e a gangrena.
“Ao
passo que a febre da estação seca se faz notar pela perseverança da
sobreexcitação inicial até o momento da catástrofe, a da estação úmida começa
por sintomas de abatimento, e acompanha-se de uma prostração que progride com a
decomposição dos fluidos orgânicos; por isso foi chamada febre biliosa pútrida
por muitos observadores dos países quentes.”21
É
a descrição mais ou menos exata do Brasil. Temos uma população mórbida, de vida
curta, achacada e pesa-rosa em sua mor parte. E que relação tem isto com a
literatura brasileira? Toda. É o que explica a precocidade de nossos talentos,
sua extenuação pronta, a facilidade que temos em aprender e a superficialidade
de nossas faculdades inventivas.
O
trabalho intelectual é no Brasil um martírio; por isso pouco produzimos; cedo
nos cansamos, envelhecemos e morremos depressa.
A
nação precisa mais de um regímen dietético acertado e caprichoso do que mesmo
de um bom regímen político. O brasileiro é um ser desequilibrado, ferido nas
fontes da vida; mais apto para queixar-se do que para inventar, mais
contemplativo do que pensador; mais lirista, mais amigo de sonhos e palavras
retumbantes do que de idéias científicas e demonstradas. Não temos filosofia,
nem ciência, nem a grande poesia impessoal dos grandes gênios europeus. Temos o
palavreado da carolice, a mística ridícula do beatério enfermo e fanático, de um
lado, e de outro, os devaneios fúteis da impiedade impertinente e fácil; na
poesia, o lirismo subjetivista, mórbido, inconsistente, vaporoso, nulo.
A
nação não ama de frente a natureza, nem se une a ela pela ciência, ou pela
arte. Os moços quase nunca têm uma inspiração sua, nacional, brasileira; não
neutralizam a fraqueza original de nosso espírito pelo regímen saudável da
ciência, pelo estudo sério e pela higiene do corpo. Não conhecem os segredos do
pensamento original e autonômico, nem procuram casar suas idéias aos arroubos
de nossa natureza. Os literatos preferem desconhecer o país e o povo,
seqüestrar-se d’alma nacional e viver enclaustrados nas cidades,
entregues ao sonho polucional de umas cismas raquíticas; abandonados, segundo a
frase gráfica de um escritor europeu, a uma espécie de extravasamento, de onanismo
intelectual. O rapaz aos vinte anos, entre nós, quase sempre está viciado, e
aos trinta é velho de corpo e de espírito.
É
a razão de toda essa galeria pátria, merencória e sombria, de tísicos e
histéricos, mortos antes dos trinta anos, onde estão Álvares de Azevedo,
Casimiro de Abreu, Bernardino Ribeiro, Castro Alves, Junqueira Freire, Macedo
Júnior, Dutra e Melo, Franco de Sá, e muitos e muitos outros, extenuados ao sol
da pátria, é certo; mas também desorientados pelas quimeras de uma educação
misantrópica e prejudicial.
Todos
estes moços são um mau exemplo para nós os de hoje; havemos mister de tipos
mais varonis, de lutadores mais valentes.
O
grande prestígio da ciência e indústria modernas está no poder de neutralizar
as influências deprimentes do mundo exterior. Compenetremo-nos disto; lancemos
mão de todos os seus recursos; tenhamos a educação do real, a higiene
experimental do espírito. Neste ponto parece que vamos retrogradando. A geração
dos homens vigorosos vai-se acabando, como se vão acabando as nossas matas;
temos hoje em paga o beribéri, a febre-amarela, e um descrédito cada vez mais
crescente aos olhos do estrangeiro.22
A
ação do meio físico em sociologia e na literatura pode-se determinar pelo
clima, pelo aspecto geológico e topográfico do país, pela alimentação do povo.
Quanto a esta, consistente entre nós, pela mor parte, em féculas e grãos, é
pouco nutriente e incapaz de avigorar um povo sadio. Faz-se exceção talvez para
os sertanejos das zonas pastoris do Norte e do Rio Grande do Sul que, em regra,
são vigorosos. Os habitantes das matas e das praias são de ordinário anêmicos e
enfraquecidos.
O
clima está quase nas condições da descrição de Michel Lévy, que ficou transcrita.
Resta o aspecto geral da natureza. Se a ação das duas outras forças é mais
poderosa, como agente estático, a da última é uma lei de evolução, de
renovamento, de adaptação cenogenética. Por este lado, a fisionomia geral do
Brasil pode influir muito sobre a formação de nosso gênio particular de nação.
Não
temos monstruosidades naturais; nem desertos como os da África e da Arábia, nem
savanas e estepes como as da Rússia e da República Argentina, nem montanhas
fantasmagóricas como as do Indostão e do Tibete, nem vulcões como os do México
e Peru; nem o sol de fogo da Austrália, nem o céu nublado do Norte da Europa. O
nosso céu é brilhante; as tardes e as manhãs límpidas; o todo do país é
onduloso e coleado de montanhas acessíveis, as costas cheias de anfractuosidades
amenas e suaves, onde não estruge um mar aterrador. Se não temos um golfo de
Gasconha no oceano, não temos também o Saara, nem o Himalaia em terra.
As
noites são claras e tépidas. Tudo nos convida para as concepções naturalistas,
calmas, serenas, sem nebulosidade. Oxalá a obra dos homens corrija a natureza
no que ela aqui tem de mau e desenvolva os bons germens que ela aqui tanto nos
prodigaliza!
Se
a nossa literatura, submetida a um exame sério, não justificar este lado bom de
nosso meio, será que os agentes maléficos hão só nela influído. Creio, porém,
que, por este lado, tudo não foi em pura perda para nós. O caráter prático do
português, aliado a raças tropicais, como a tupi e a africana, não produziu
somente entre nós tipos enfermiços e desequilibrados; produziu também homens
válidos, de uma lucidez de espírito, de uma intuição pronta e segura, que
constitui o melhor título de nossas populações
Se
o clima não criou as raças que constituem nossa população, composta de gentes
para aqui imigradas, ele as pode modificar e modifica efetivamente. Hoje que
este fato empírico está descoberto e estudado, cumpre-nos não caminhar às cegas
como hordas selvagens. A política e a ciência brasileiras têm aí diante um
problema a solver e a dirigir.
A
ação do clima tem contribuído para nossa integração nacional; na literatura ela
tem ajudado a efusão sentimental de nosso lirismo, mais doce, suave e ardente
do que o lirismo herdado dos portugueses.
Nossa
linguagem é mais musical e eloqüente; nossa imaginação mais opulenta.
Procuremos sair do lirismo subjetivista e afrontemos vastas concepções. Temos
elementos que Portugal não possui: um país vasto e rico, de um clima mais
variado do que o do reino, uma população mais abundante e composta de raças que
lá não existem. Não precisamos de fantasiar teorias sobre o meio e o povo para
nossa característica.
Temos
os fatos reais; é só averiguá-los.
O
Brasil não é, não pode, não deve mais ser uma cópia da antiga metrópole.
É
mais que tempo de firmarmos definitivamente nossa completa independência
intelectual. Há muito que o reino não nos pode mais ser um modelo.
Nesse
trabalho lento de diferenciação o clima é um aliado nosso. Este belo e
esplendente céu da zona tórrida, na frase do velho Ivo d’Evreux, deve ser
contado como um agente de transformações. As atuais populações do país não
vivem mais nele como estrangeiras; afizeram-se ao solo; prendem-se-lhe já por
um sem-número de tradições, de hábitos, de interesses; a vida brasileira já tem
um molde particular, seu, mais ou menos caracterizado. Quem sabe até onde um
dia chegará entre nós a ação do clima? Só os séculos futuros pode-lo-ão dizer.
Esse
influxo determina-se empiricamente pelos resultados contraditórios a que
frações de uma mesma raça chegaram em regiões diversas. Que distância entre os
arianos da Itália e da Grécia e os da Índia! Aqui o calor produziu todos estes
terríveis efeitos eloqüentemente assinalados por Hipólito Taine:
“O
sol da Índia é terrível; ninguém o pode suportar com a cabeça descoberta,
exceto as populações indígenas de pele escura. Figurai-vos, debaixo de um céu
sufocante, uma raça estrangeira saída de um país temperado ou quase frio: os
exercícios do corpo tornam-se intoleráveis; o gosto pelo repouso e pela
preguiça começa; o estômago não tem mais necessidades; os músculos amolecem-se;
os nervos tornam-se excitáveis; a inteligência sonhadora e contemplativa, e
vereis formar-se o povo esquisito que os viajantes nos descrevem hoje: uma
sensibilidade feminina e estremecedora; uma delicadeza de percepção
extraordinária; uma alma situada lá nos confins da loucura, capaz de todos os
furores, de todas as fraquezas e de todos os excessos, pronta a desconjuntar-se
ao menor choque, vizinha da alucinação, do êxtase, da catalepsia; uma
imaginação pululante, cujos sonhos monstruosos amoldam e torcem o homem como
gigantes esmagam um verme.”23
Eis aí a que ficou reduzida pelo
clima da Índia a raça mais progressiva e inteligente da terra. Se o nosso céu
não é tão déspota, não deixa de sê-lo também até certo ponto. Conjuremos sempre
por novas levas de imigrantes europeus a extenuação de nosso povo; conjuremo-la
por meio de todos os grandes recursos da ciência. É esta a lição dos fatos.
A NAÇÃO
BRASILEIRA COMO GRUPO ETNOGRÁFICO E PRODUTO HISTÓRICO
É
incontestável a tendência moderna para reduzir as chamadas ciências morais a
uma prolação da história natural. Depois que o homem deixou de ser o centro e a
medida das coisas, depois que se lhe marcou o genuíno lugar na criação, o modo
de tratar a história e os outros ramos científicos, que se lhe prendem, sofreu
uma alteração radical.
A
antiga maneira de fazer a crítica literária fundada nas regras eternas
do bom gosto, modificou-se de uma vez e foi obrigada a aceitar a
relatividade de seus conceitos.
Desde
Buckle e Gervinus, começou-se a estudar a ação dos diferentes meios sobre
os diversos povos; desde Taine e Renan, admitiu-se, além disso, o influxo
divergente das raças nas criações religiosas e artísticas.24
Antes
destes escritores essa intuição era existente; eles a tornaram clássica e
vulgar.
Começaram
a aparecer então os exageros, e os diletantes literários não tiraram mais da
boca as palavras meio e raça!... Sobre a antiga retórica
fundou-se outra com seus termos místicos e sagrados. Improvisaram-se teorias
fantasiosas sobre povos de formação recente, e, entre outros, Portugal, por
exemplo, teve sua raça peculiar nos moçárabes e seu meio
absolutamente distinto do resto das Espanhas pela vizinhança do mar, que
não é, por certo, uma exceção portuguesa!...
Entretanto,
os fatos aí estão para impor-nos grande reserva: de um lado, a verdade
inconcussa de que as velhas raças pré-históricas são quase desconhecidas e que
as raças históricas, como as dos arianos, semitas e altaicos, desde a mais
remota antigüidade, têm vivido no mais completo cruzamento e quase fundidas. O
critério para a sua separação é quase puramente lingüístico, e a lingüística é
um critério bem fraco em etnografia, especialmente entre os povos modernos e
recentes, resultantes da fusão de muitas raças.
Por
outro lado, o estudo da mesologia começa apenas a esboçar-se e ainda não se
sabe totalmente como os meios modificam os povos. Tudo isto é certo e
é-o também que estes, por sua parte, reagem contra aqueles. O meio não
funda uma raça; pode modificá-la e nada mais. Deve-se, neste assunto, contar
com o fator humano, isto é, com uma força viva prestes a reagir contra
todas as pressões por intermédio da cultura.
Não
contesto a ação dos meios e das raças, que é um achado definitivo doravante na
ciência.25 Imponho-me
somente algum cuidado no manejo de meu assunto: a literatura pátria.
O
povo brasileiro é um grupo étnico estreme e característico, ou é uma determinada
formação histórica? Nem uma nem outra coisa, respondo resolutamente.
Não
é um grupo étnico definitivo; porque é um resultado pouco determinado de três
raças diversas, que ainda acampam em parte separadas ao lado uma da outra.
Não
é uma formação histórica, uma raça sociológica, repetindo a palavra de
Laffitte, porque ainda não temos uma feição característica e original. Temos
porém os elementos indispensáveis para tomar uma face étnica e uma maior coesão
histórica.
Quando
se trata de caracterizar a nação brasileira, é claro que não deve ser no ar,
fantasticamente, e sim em relação ao povo de que ela principalmente descende e
diante daqueles que a cercam. Se o povo português não se distingue
etnologicamente do espanhol, nós temos elementos para separarmo-nos
consideravelmente do nosso ascendente europeu e dos povos vizinhos que nos
cercam.
A
raça ariana, reunindo-se aqui a duas outras totalmente diversas, contribuiu
para a formação de uma sub-raça mestiça e crioula, distinta da européia. A
introdução do elemento negro, não existente na mor parte das repúblicas
espanholas, habilita-nos, por outro lado, a afastar-nos destas de um modo bem
positivo.
As
condições especiais de nossa geografia vêm também em nosso auxílio. Não é tudo;
uma circunstância, por assim dizer pré-histórica, e de que não se tem medido
todo o alcance, aparece para auxiliar a característica do povo brasileiro. A
principal família indígena, que ocupava esta porção da América, não se
confundia com qualquer outra. Os brasílio-guaranis povoavam justamente a
mor porção desta parte do continente, onde se vieram estabelecer o negro e o
português.
Este
fato concorre para separar-nos ainda mais das gentes hispano-americanas, que,
além de não possuírem o elemento africano, tiveram um vasto cruzamento indígena
de todo diverso do selvagem do Brasil. À vista deste fato, depreende-se por si
mesmo que toda a margem esquerda do Paraguai e do Paraná é genuinamente
brasileira pela origem primitiva de seus habitantes, e seria hoje uma parte do
Brasil, se o não tivesse obstado a fraqueza ou a inépcia dos governos português
e imperial.
O
povo brasileiro, como hoje se nos apresenta, se não constitui uma só raça
compacta e distinta, tem elementos para acentuar-se com força e tomar um
ascendente original nos tempos futuros. Talvez tenhamos ainda de representar na
América um grande destino cultur-histórico.
Dentro
dos limites de uma só família humana, ramos vários podem oferecer tendências e
aptidões diversas. Os franceses, italianos e alemães pertencem ao mesmo grupo
ariano, e que diversidade entre eles de manifestações espirituais !... No
Brasil a tendência à diferenciação pode ser ainda maior do que entre aqueles
povos, se circunstâncias anômalas e retardatárias não se vierem interpor ao
nosso desenvolvimento, como é muito para temer.
Encerrando
o assunto deste capítulo e respondendo à questão que ele contém, em poucas
palavras, direi:
A
estatística mostra que o povo brasileiro compõe-se atualmente de brancos
arianos, índios tupis-guaranis, negros quase todos do grupo banto e mestiços
destas três raças, orçando os últimos certamente por mais de metade da
população. O seu número tende a aumentar, ao passo que os índios e negros puros
tendem a diminuir. Desaparecerão num futuro talvez não muito remoto, consumidos
na luta que lhes movem os outros ou desfigurados pelo cruzamento.
O
mestiço, que é a genuína formação histórica brasileira, ficará só diante do
branco quase puro, com o qual se há de, mais cedo ou mais tarde, confundir.
Não
é fantasia: calculavam-se em três milhões talvez os índios do Brasil; hoje onde
estão eles? Reduzidos a alguns milhares nos remotíssimos sertões do interior.
Computavam-se
também em alguns milhões os negros arrancados d’África pela cobiça dos
brancos e hoje chegam eles por certo apenas a uns dois milhões.
As
pestes e as guerras fizeram aos indígenas o que os trabalhos forçados fizeram
aos africanos. As selvas não estão mais povoadas de caboclos, para serem
caçados pelas bandeiras; os portos d’África estão fechados aos
navios negreiros.
A
conseqüência é fácil de tirar: o branco, o autor inconsciente de tanta
desgraça, tirou o que pôde de vermelhos e negros e atirou-os fora como cousas
inúteis. Foi sempre ajudado neste empenho pelo mestiço, seu filho e seu
auxiliar, que acabará por suplantá-lo, tomando-lhe a cor e a preponderância.
Sabe-se
que na mestiçagem a seleção natural, ao cabo de algumas gerações, faz
prevalecer o tipo da raça mais numerosa, e entre nós das raças puras a mais
numerosa, pela imigração européia, tem sido, e tende ainda mais a sê-lo, a
branca. É conhecida, por isso, a proverbial tendência do pardo, do mulato em
geral, a fazer-se passar por branco, quando sua cor pode iludir.
Quase
não temos mais famílias estrememente arianas; os brancos presumidos
abundam. Dentro de dois ou três séculos a fusão étnica estará talvez completa e
o brasileiro mestiço bem caracterizado.
Os
mananciais negro e caboclo estão estancados, ao passo que a imigração
portuguesa continua e a ela vieram juntar-se a italiana e a alemã. O futuro
povo brasileiro será uma mescla afro-indiana e latino-germânica, se perdurar,
como é provável, a imigração alemã, ao lado da portuguesa e italiana.
Ouçamos
um homem prático, o Dr. Hermann Rentschler: “Nos Estados Unidos, onde
havia mais índios e negros do que no Brasil, a experiência tem demonstrado que
no decorrer do tempo o índio e o negro desapareceram em contato
com o branco.26 O Brasil não deve
contar seriamente com os índios e negros como elementos de uma civilização futura,
ainda que estenda até eles os benefícios do ensino primário. As futuras
gerações do Brasil, se for aproveitada a colonização alemã, constituirão um
povo misto de brasileiros propriamente ditos, portugueses e alemães. Os
descendentes do novo povo misto serão superiores a seus antecessores,
portugueses e alemães, como elemento de colonização. Transportemo-nos, em
espírito, ao futuro do Brasil: aí veremos um povo misto, mais
apto e capaz do que seus progenitores para a cultura das terras; porque serão
habituados desde o nascimento ao clima e à vida do país. Uma nacionalidade
não é um fato primeiro, que surja num dia certo do fundo tenebroso da história.
Segundo o pensar de um notável etnólogo, é ao contrário o resultado de uma
grande quantidade de combinações, de fusões, de eliminações e de associações,
de toda a espécie. Uma vez formada, ela constitui um quadro indestrutível que
se impõe aos elementos novos que se lhe vêm juntar; mas a unidade, nisto, como
no mais, é um termo e não um princípio original.”27
Estes
fatos ficariam sem vigor para a história literária, se, ao lado do cruzamento
físico, se não desse também o das idéias e sentimentos. A união neste solo de
povos em tão variados estádios da inteligência influiu na psicologia do povo
brasileiro. Os negros para aqui transportados estavam, ao que suponho por
fatos, no momento primeiro do fetichismo, fase primordial da idade teológica.
Os
índios achavam-se no período da astrolatria, momento mais adiantado do estado
fetichista.28
Os
portugueses eram monoteístas, último momento do teologismo; mas tinham grandes
resíduos da época anterior – o politeísmo.
Daí
uma grande confusão no conjunto das crenças e tradições brasileiras, que
encerram elementos contraditórios de todas as fases do pensamento.
Somos um povo em via de formação;
não temos, pois, vastas e largas tradições nacionais. Negros e índios pouco
puderam fornecer, e os portugueses já tinham, com a Renascença, esquecido em
parte as tradições da Idade Média, quando o inconsciente das coisas os atirou
às nossas plagas. Daí o estado fragmentário de nossa literatura popular.
RAÇAS QUE CONSTITUÍRAM O POVO BRASILEIRO O
MESTIÇO
No estudo
dos povos que formaram a atual nação brasileira o primeiro lugar há de ser dado
ao português.
Não é que
ele só por si, como supuseram sempre os retóricos das velhas crenças, tenha
constituído o nosso presente estado e tenha sido o fator único de nossa
civilização. Este modo de pensar arbitrário e incorreto é um dos muitos erros
que devo atacar de frente. O lugar de honra deve ser dado ao português; porque
ele, sem ser o único, é o principal agente de nossa cultura.
Não vejo que
seja necessário, neste ponto, impertinentemente repetir sobre a etnografia das
populações da Península Hispânica aquilo que sobre ela já, por muitas vezes,
tem sido bem dito.
Bastam
poucas palavras.
Aceitando a
aparição do homem sobre a Terra na época terciária, no período do eoceno,
segundo os mais ousados antropologistas, nada se sabe de positivo sobre os
habitantes pré-históricos da Península Ibérica. Têm-se de admitir ali
populações autóctones, que viriam prolongando-se pelos períodos geológicos
seguintes – mioceno, plioceno, pós-plioceno.
Neste último
pisa-se um terreno mais sólido, e fatos mais averiguados se antolham ao
observador. Passa-se às idades da pedra lascada e polida, e chega-se à idade
dos metais. Então já muitas imigrações tinham por certo vindo sobrepor-se aos
primitivos autóctones, e entra-se plenamente na fase quase histórica dos povos
precursores dos semitas e arianos, raças metalúrgicas, impropriamente
denominadas turanas e mais acertadamente uralo-altaicas. Os iberos, ao que se
presume, pertencem a esta família. Vieram depois os lígures, os fenícios, os
celtas; formaram-se os celtiberos; chegaram os cartagineses; mais tarde os
romanos; e, finalmente, os suevos, os godos e os árabes.
A população
da Península descende, como se vê, de uma origem variadíssima, onde entraram os
primitivos indígenas, os uralo-altaicos, os semitas e os arianos. As quatro
principais raças humanas estão ali representadas. O português é um resultado
complicadíssimo da história; desmembrado, além de tudo, da comunhão espanhola,
tem sempre tendido a caracterizar-se à parte. A ousadia de seus marinheiros e o
livro dos Lusíadas foram os mais valentes operários nessa obra de
cenogênese nacional. No século mais brilhante de sua história, veio até as
nossas plagas tomar aos Tupis esta vasta região, onde fundou uma nacionalidade,
que deve ser no futuro a representante, até certo ponto, de suas tradições.
Portugal oferece um espetáculo singular na história: o século de sua
florescência foi também o século de seu desmoronamento. Duzentos anos lhe
bastaram para crescer e fortificar-se; em 1500 apresenta-se opulento, trabalha
na evolução geral da humanidade; dita aí a sua palavra; recolhe-se e cai. O
Brasil não chegou a fruir as vantagens da grandeza de seus pais. Colonizado
muito depois de descoberto, quando o século já ia em meio, este belo país
assistiu bem cedo ao cativeiro da mãe-pátria. Franceses, ingleses, holandeses e
até espanhóis disputaram-no. A colônia teve de sustentar grandes lutas para
conservar-se fiel à metrópole. Estes fatos retardaram-lhe o desenvolvimento.29
Qual era,
entretanto, nesse tempo o estado intelectual de Portugal? – Bem
lisonjeiro. Tal deve ser a resposta. Um país que tinha Gil Vicente, Camões,
Cristóvão Falcão, João de Barros, Sá de Miranda e Ferreira, atravessava uma
fase brilhante do pensamento. Os colonos portugueses para aqui transportados
vinham de posse de uma cultura adiantada. Por que motivo, pois, não dirigiram a
colonização mais sabiamente, aproveitando os índios, adaptando-os a si? Duas
causas fornecem a explicação do fenômeno: a índole do caboclo, refratária à
cultura, e a imperícia do governo da metrópole. Sabe-se que de João III em
diante a nação começou a perder os largos estímulos, o povo a definhar, o
jesuitismo a expandir-se e a carolice desenfreada a erguer o colo.
A Espanha
espreitava de longe e no momento azado pôs a mão sobre a presa.
Não se trata
aqui de escrever a história exterior do Brasil, senão de indicar a traços
rápidos as primeiras sementes do pensamento nacional.
Concebe-se
facilmente que os portugueses não vieram para este país no primeiro século de
sua descoberta em vastas levas para um território exíguo; passaram-se em
pequenas porções a estabelecer-se isoladamente num território vastíssimo.
Formaram-se por isso núcleos isolados, quase incomunicáveis, à vista das
dificuldades de relações existentes então no país.
São Vicente,
São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Maranhão foram os principais
centros da população portuguesa no Brasil durante mais de duzentos anos.
Daí um certo
caráter contraditório entre esses núcleos, que não vieram a formar outras
tantas populações distintas em vida e tradições; porque os colonizadores,
oriundos de um país exíguo e centralizado, pensavam pelo mesmo molde, e, por um
fenômeno singular, as principais tribos selvagens brasileiras pertenciam a uma
só raça e tinham a mesma intuição das coisas.
Os
portugueses, quanto ao seu regímen mental, estavam numa fase monotéica
alimentada pelo catolicismo; mas diluída, de um lado, por muitos resquícios
fetichistas, e, de outro, pela confusão metafísica. Era no tempo transitório da
Renascença e da Reforma, época de renovamento, de que o velho
reino não pôde tirar largos proventos. O regímen teocrático, ajudado pelos
jesuítas, amordaçara a nação, que na América viu nos índios mais os hereges que
deviam ser extirpados do que os braços que podiam ser aproveitados.
A
consideração de ter o jesuíta se aliado ao índio contra o português e o negro,
não tem valor contra fatos mais gerais. O português na América procedia de
acordo com suas idéias, com sua intuição do mundo e da humanidade; e um tal
modo de pensar era em grande parte de formação fanática e jesuítica. Se os
padres da companhia, contradizendo-se, deixavam escravizar o negro e protegiam
o índio, é que em seus cálculos eles sonhavam um império exclusivamente seu,
formado sobre o indígena. O inconsciente da história venceu-os; na luta pela
existência o português suplantou o caboclo e o jesuíta. O negro serviu-lhe de
arma e de apoio; tal o seu grande título histórico
Ao português
devemos a colonização por uma raça européia, seu sangue e suas idéias, que nos
prendem ao grande grupo de povos da civilização ocidental. Pertencente, porém,
ao grêmio dos povos ibero-latinos, trouxe-nos também seus prejuízos de toda
casta, políticos, sociais, religiosos, econômicos, e tantos males crônicos que
lavram n’alma daqueles povos.
Passemos aos
indígenas. Existem já alguns trabalhos de valor sobre as populações selvagens
brasileiras. Os escritos de Frederico Hartt, Batista Caetano, Ferreira Pena,
Couto de Magalhães, José Veríssimo, Batista de Lacerda, Rodrigues Peixoto e
Barbosa Rodrigues, lançam alguma luz sobre o estado intelectual dos
Tupis-Guaranis. Serão aproveitadas neste livro para o estudo de suas
antigüidades, poesia, danças, música e línguas. Sobre certas particularidades
de seu viver de preferência devem ser ouvidos os velhos cronistas, e entre
todos o Padre Ivo d’Evreux, o mais minucioso.
Eu acredito
na origem poligenista do homem, defendida por Morton, Nott, Agassiz, Littré e
Broca.
Parece-me um
exagero, ditado por uma velha preocupação ortodoxa, reduzir todas as raças
humanas a uma só origem avita primitiva.
A unidade
das espécies vivas é um fato positivo, demonstrado desde Lamarck; elas porém
não se desenvolveram num centro único para dali emigrarem; surgiram por
transformações espontâneas em vários pontos do globo.
É o que
aconteceu com o homem; em mais de um ponto da terra o animal, seu precursor,
chegou espontaneamente ao estado de produzi-lo.
Parece-me
que nesta questão Vogt e Broca interpretam melhor o verdadeiro sentido do
transformismo do que Haeckel.
As raças
americanas são um produto do meio americano. Desde a época do megatério o homem
tem sempre existido nesta parte do mundo. As nações aqui encontradas no tempo
da descoberta não se devem, todavia, confundir com os homens das cavernas.
No próprio
seio do continente formaram-se raças diversas, de maior ou menor energia
intelectual, que reagiram umas sobre as outras.
A desastrada
hipótese do Sr. Barbosa Rodrigues, que os faz provir dos escandinavos, e a de Varnhagen
que os derivava dos cários, são tão justificáveis, como as daqueles que os
supunham oriundos dos judeus, quando dispersos pelo mundo no século primeiro de
Jesus.30
Inaceitáveis
são também as hipóteses que os fazem vir da Ásia, da Oceania ou da África. À
bibliomania emperradamente ortodoxa deve-se esse impertinente esforço para
procurar parentescos aos americanos entre os antigos descendentes de Jafet, Sem
e Tur; arianos, semitas e pretensos turanos têm sido chamados para ascendentes
dos nossos indígenas.
Por que
motivo o Velho Mundo havia de ter o privilégio de produzir tantas raças e o
Novo Continente nenhuma? Os habitantes da América vieram, como se diz, da
Europa ou da Ásia, e os destas regiões donde vieram? A dificuldade remove-se;
mas não é resolvida.
Agassiz
provou que as raças humanas distinguem-se entre si na mesma proporção em que se
distinguem a fauna e a flora de sete ou oito centros diversos do mundo. Estes
reinos de criação, como ele os chamou, ou reinos de aparição, na
frase de Rialle, oferecem a singularidade de que os homens neles originados
aproximam-se dos antropóides do respectivo habitat.31
Os
argumentos dos monogenistas contra o indigenismo dos povos americanos têm sido
vitoriosamente combatidos. Não é este o lugar de entrar em miúdas considerações
sobre os motivos que me levam a aceitar as conclusões da grande escola de
Morton e Nott.32
Basta-me
ponderar que os dois novos argumentos dos adversários são também improcedentes.
O primeiro é tirado da ausência n’América dos animais antropomorfos,
gibão, orango, gorila, chimpanzé, considerados como os mais próximos parentes
do homem, por descenderem de um antepassado comum. Este argumento é uma
aplicação imponderada, torcendo-se-lhe o sentido, da doutrina darwiniana ao
problema da origem dos americanos. Sabe-se que, se interpretado num sentido por
Haeckel, o transformismo prende-se à teoria monogenista do homem, não é menos
exato que mais largamente interpretado nesta questão por Broca, coaduna-se
perfeitamente com a doutrina contrária – o poligenismo.
Além de
tudo, o fato alegado não tem por si grande valor.
Desvia-se
perfeitamente o golpe, advertindo que jamais foi o homem considerado um filho,
um descendente dos antropomorfos. É apenas considerado um parente colateral
mais ou menos afastado. Se não é filho, também não é irmão; é um primo em
segundo ou terceiro grau.
Sua
existência num ponto qualquer não implicaria necessariamente a aparição da
parentela colateral.
Acresce
também que o animal que Darwin supõe ter sido o progenitor imediato do homem,
não foi ainda encontrado em parte alguma da Terra, nem mesmo em estado fóssil.
Esta importante lacuna dá-se em todo o mundo e não somente n’América. A
conseqüência, pois, tirada contra este continente é precipitada.
O outro
argumento, desenvolvido pelo Professor Henrique Fischer, de Friburgo, e
levianamente adotado pelo fantasista Barbosa Rodrigues, foi vitoriosamente
batido por A. W. Meyer, mineralogista
Deixem-se as
teorias aventurosas e estudem-se os americanos como um produto do continente.
O Abade
Hervás classificara em quatro grandes troncos as raças da América do Sul:
– Araucânios, Guaranis, Quéchuas e Caribes. – A.
d’Orbigny, em três: Ando-Peruvianos, Pampianos e Brasí1io-Guaranis.
Batista Caetano, aventando a idéia de uma redução, parece todavia conformar-se
provisoriamente com a divisão de d’Orbigny. Os índios do
Brasil constituíam o grupo dos Brasílio-Guaranis, chamados também Tupis,
ou simplesmente Guaranis. Havia, porém, algumas tribos que foram por Martius
tiradas do grande tronco: Guaicurus, Jês, GucKs, e outras. Batista
Caetano supõe. haver aqui exagero.
“É
embalde, diz ele, que se pretende multiplicar a divisão das tribos americanas
sem motivo plausível, nem fundamento, quer nos caracteres etnográficos, quer na
linguagem. A uniformidade do tipo americano permanece e subsiste em confronto
com os outros tipos, e as diferenças que apresentam entre si os diversos povos
são apenas variedades, e não são maiores que as que apresentam povos da mesma
família indo-européia entre si, e ainda mais os variegados povos asiáticos. As
simples condições geográficas, como o pensaram Humboldt e Alcide
d’Orbigny, são suficientes para determinar as diferenças que se supõem
consideráveis, e que bem examinadas não no são efetivamente; as simples
condições geográficas, quando nada mais importem, acarretam diferença no modo
de viver e nos costumes, que paulatinamente influem na organização e na índole
da população. Pouco mais de três séculos têm decorrido desde a descoberta das
terras de Santa Cruz, e entretanto o luso-americano do Pará ou do Ceará já se
diferença bastante do luso-americano da montanhosa província de Minas ou das
terras proporcionalmente frias do Rio Grande do Sul.”
Dou como
certa a hipótese do autoctonismo das raças americanas e aceito como provável a
classificação de d’Orbigny, quanto às nações da América Meridional. No
que toca aos índios do Brasil, acompanho a Batista Caetano nas reduções que faz
às classificações de Martius.34
Qual era,
porém, o estado intelectual e moral dos índios do Brasil? É preciso
considerá-los quanto às suas indústrias, suas crenças religiosas, suas idéias
políticas e sociais.
Estavam os
indígenas brasileiros quase todos no período da pedra polida, idade que se
segue à da pedra lascada e é seguida pela dos metais. O Dr. Couto de Magalhães
supõe que no Brasil não se encontram vestígios de utensílios e armas da idade
da pedra lascada. Acredita que os nossos índios passaram por esta fase em
alguma outra região, e, quando imigrados para o Brasil, achavam-se na idade
superior.35
Sabe-se que
as diferentes raças não passam pelos mesmos estádios da inteligência ao mesmo
tempo; hoje, na fase da indústria e da ciência européia, ainda há povos que
empregam a pedra lascada, ou um pouco menos.
Pelo estudo
geológico, porém, é certo ser bastante raro o caso de encontrar-se a pedra
polida fora dos terrenos recentes.36
A ser exato o que pensa o Dr. Couto de Magalhães, seria forçada a conclusão de
que o homem terciário e o quaternário não existiram no Brasil, o que fere de
frente as descobertas do Dr. Lund. Se, como pensava este sábio, o Brasil desde
a época do pós-plioceno e mesmo a datar da do plioceno era
habitado, desde que a espécie humana existe sobre a Terra, ela existiu no
Brasil.
Deveria ter
aqui atravessado todas as fases de seu desenvolvimento, deveria ter usado da
pedra lascada. Se esta não tem sido encontrada, é que os estudos neste sentido
não têm, por certo, sido bem dirigidos.
Investigações
bem acertadas poderão resolver o problema. Uma folha do Rio Grande do Sul
publicou estas palavras que dão testemunho do homem geológico no Brasil e
também da pedra lascada:
“Carlos
de Koseritz recebeu do dr. Rösch dois crânios antiqüíssimos, que o ilustre
engenheiro achou num sambaqui da província do Paraná e cuja antigüidade remonta
a milhares de anos. São documentos interessantíssimos do homo americanus
em sua forma primitiva.
“A
extraordinária espessura dos crânios, que atinge de
Achados
destes poder-se-ão repetir quando estudos vastos forem iniciados, e então as
pedras lascadas hão de aparecer, ao lado do homem contemporâneo do megatério.
Carlos de Koserítz, meu bom e saudoso amigo,
“O dr.
Lund, dizem Zaborowski e Moindron, explorou mais de oitocentas cavernas, e numa
delas encontrou ossadas de trinta indivíduos da espécie humana, no mesmo grau
de decomposição dos ossos dos animais fósseis que as acompanhavam.
“Era
impossível não concluir daí ser o homem contemporâneo do megatério, cuja idade
na América do Sul corresponde à do mamute na Europa.”
Os sábios
europeus, tendo em alta conta os trabalhos de Lund, tiraram deles as conclusões
que o distinto dinamarquês só limitadamente se atreveu a tirar. Não só o homem
geológico existiu no Brasil, como foi deste país que partiu uma das primeiras
provas de tão notável verdade científica.
Quanto às
armas de pedra que os nossos índios usavam, delas sabemos desde o tempo de Ivo
d’Evreux, que nos não diz se da lascada ou da polida. “Lá para o
lado do oeste havia uma nação, de que nunca se falou, desconhecida por todos os
Tupinambás, moradora nos matos na distância de mais de 400 ou 500 léguas da
ilha, sem conhecer a vantagem dos machados e das foices, pois apenas se serviam
dos machados de pedra, e assim viviam, etc.”38
Por este
falar do bom padre, dir-se-ia que aquilo era um fato singular e que os
Tupinambás conheciam as foices e machados de ferro. Devemos observar, porém,
que o a capuchinho assim se expressava em 1614, e os povos com quem lidou,
havia muitos anos, andavam em contato com os europeus. Sílices lascados foram
achados em Mercedes, perto de Buenos Aires, segundo Joly.39 O que mais interessa
consignar é que o tupi-guarani, tendo passado da pedra lascada, já empregava a
polida.
A razão não
milita também do lado do autor do Selvagem, quando dá o índio por
completo agricultor, sem ter sido pastor. Quando se diz que um povo é pastor ou
e agricultor, não se quer dizer que ele não conheça um ou outro uso da
indústria próxima; dá-se-lhe o nome da indústria predominante. Os nossos
índios, segundo o testemunho de antigos e modernos, viviam e vivem ainda quase
exclusivamente da caça e da pesca; eram um povo caçador. Podemos ler todo um
volume de Gabriel Soares, ou de Ivo d’Evreux, mui pouco se nos depara
sobre a agricultura dos selvagens. Da caça e da pesca encontram-se muitos
esclarecimentos.
Como
poderia, além de tudo, o guarani ter sido noutras paragens pastor, e não trazer
consigo os seus animais domésticos para a nova pátria? O período pastoril
constitui uma fase importantíssima na vida dos povos; cria proventos que não
mais se perdem; a passagem para um estádio superior não importa o esquecimento
das aptidões adquiridas. Se nosso selvagem tivesse domesticado alhures animais,
tê-los-ia trazido ao Brasil.40
Os índios
eram nômades, caçadores; estavam no grau de atraso do homem geológico;
dificilmente podiam ter sido agricultores. As tribos ainda hoje em estado
puramente selvagem não têm outra agricultura, além do cultivo da mandioca em
diminuta escala e ainda menos do milho talvez. Só algumas tribos sedentárias do
litoral desenvolveram-se mais neste sentido, especialmente os extintos Tamoios.
Além das
armas e instrumentos de pedra, além de suas indústrias de caça e pesca, e do
conhecimento de uma ou outra planta, possuíam nossos indígenas uma arte
cerâmica ainda na infância.41 Talhas,
panelas, púcaros e igaçabas constituíam-na.
Sob o ponto
de vista religioso o caboclo tem sido diversamente apreciado. Ivo
d’Evreux, noutros pontos bem-informado, assim se exprime: “Estes
selvagens sempre chamaram a Deus Tupã, nome que dão ao trovão, à maneira
do que se pratica entre os homens, isto é, terem as obras-primas o nome do
autor. Note-se, porém, que este nome no singular não se aplica aos relâmpagos e
trovões, que rebentam e iluminam todas as partes, por cima da cabeça dos
selvagens, aterrando-os, porque sabem e reconhecem que eles são formados pela
poderosa mão d’Aquele que habita nos Céus. Por intermédio do
intérprete informei-me dos velhos do país se eles acreditavam que este Tupã,
autor do trovão, era homem como eles. Responderam-me que não, porque, se fosse
um homem como nós, seria um grande senhor, e como poderia ele correr tão
depressa, do oriente para o ocidente, quando troveja ao mesmo tempo
sobre nós e nas quatro partes do mundo, tanto em França, como sobre nós? Demais
se fosse homem, era necessário que outro homem o fizesse, porque todo
homem procede de outro homem. Ainda mais: Jeropari é o criado de Deus,
e nós não o vemos, ao passo que todo o homem se vê, e por isso não pensamos que
Tupã seja um homem.
“Mas,
repliquei eu: que pensais que ele seja? Não sabemos, responderam; porém
pensamos que existe em toda parte, e que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros
ainda não falaram com ele; pois apenas falam com os companheiros de Jeropari.
“Eis a
crença de Deus, sempre pela natureza impressa nos espíritos dos
selvagens, que contudo não o reconheciam por meio de preces e de suplícios.
Acreditavam naturalmente nos espíritos bons e maus. Chamam os bons
espíritos ou anjos – Apoiauené, e os maus ou diabos – Uoiupia.
Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por diversas vezes.
“Pensam
que os anjos lhes trazem chuva em tempo próprio, que não fazem mal às suas
roças, que não os castigam, nem os atormentam, que sobem ao Céu para contar
a Deus o que se passa aqui na Terra, que não causam medo nem à noite, nem
nos bosques, que acompanham e protegem os franceses. Pensam que os diabos estão
sob o domínio de Jeropari, que era criado de Deus, e que por suas
maldades Deus o desprezou, não querendo mais vê-lo, nem aos seus, pelo que
aborrecia os homens e nada valia; que os diabos impedem a vinda das chuvas em
tempo próprio, que os trazem em guerra com seus inimigos, que os maltratam, e
lhes fazem medo, habitando ordinariamente em aldeias abandonadas, especialmente
em lugares onde têm sido sepultados os corpos de seus parentes.”
Dificilmente
se poderia encontrar um mais completo espécimen de superfetação religiosa.
Eis aí um
capítulo inteiro de teologia católica superposto às crenças dos Tupis. Ali está
o Deus, todo-poderoso, incompreensível, imenso, onisciente, presente em toda a
parte, criador do Céu e da Terra; ali aparecem os anjos, e também os demônios
com Satã à frente. A ingenuidade do Padre Ivo, porém, traiu-se quando
disse que o Deus do índio era o tupã, e que tupã é trovão, e
quando asseverou que o selvagem não lhe prestava nenhum culto!... Adestrado, o
padre previne a objeção tirada da palavra empregada no singular ou no plural.
O estudo do
regímen mental de uma raça não se determina senão à vista do complexo de suas
crenças e de suas idéias. Na ordem das armas e dos utensílios o índio estava na
idade de pedra; na esfera das indústrias era caçador; nas idéias religiosas
estava no período do teologismo puro, no segundo momento do fetichismo: a
astrolatria. Não podia ser monoteísta. Também não era politeísta, como parece
ensinar o Dr. Couto de Magalhães, quando lhe empresta uma mitologia de Anhangá,
Curupira, Jeropari, Caapora, Saci-Pererê, Boitatá, Urutau, Rudá,
Uirapuru, Boiaçu, etc., com Tupã à frente.42
Em 1874 tive
ensejo de combater o celebrado etnólogo neste ponto e escrevi estas palavras:
“Os selvagens de nosso país estavam no grau de atraso do homem geológico,
o homem da idade de pedra. Não podiam ter uma religião que reconhecesse um Ser
Supremo. O contrário é desdenhar ou desconhecer os achados da crítica
moderna, que assinala os diferentes períodos das formações das mitologias, das
religiões e da poesia. Umas tribos desgarradas pelos desertos e matas, e outras
reunidas em paupérrimas palhoças, sem indústria assinalável, usando da pedra
para utensílios, como o homem das cavernas, sem tradições, sem heróis, sem
história, não podiam possuir a noção do Ser Supremo, como não podiam ter
uma verdadeira poesia. Estavam pouco além da época de puro naturalismo, em que
o terror faz crer que as nuvens, os trovões (tupã), as tempestades, são
seres ferozes que se devem respeitar. A grei cabocla, encarada por todas as
faces por que pode ser pela ciência, à luz de idéias sãs e longe do influxo de
caducos prejuízos, achava-se em um dos mais remotos degraus da escala da
civilização. Caçador, ainda hoje no seu descendente, nem sequer o índio estava
além daquela segunda fase do período fetíchico, a idade da astrolatria,
de que fala Augusto Comte. Prova-o o seu culto do Sol e da Lua, Guaraci e
Jaci, ainda um pouco indeciso, é verdade. É lícito dizer que já havia passado
a época do mais flutuante naturalismo. Demonstra-o o complexo de sua intuição
do mundo, acorde com o dos povos ainda no mesmo estado, um dos mais recônditos
da pré-história, onde é dado penetrar.
“Não cumpre
só dizer, como fez o Dr. Couto de Magalhães, que o selvagem não era monoteísta;
é mister mostrar o que ele foi. É claro que não era ainda politeísta,
como talvez suponha o ilustre indianólogo.”43
Tive grande
prazer de ver confirmadas por um homem competente, o Sr. José Veríssimo, tais
idéias aventadas, há alguns anos, e que não deixaram de causar estranheza a
mais de um leitor.44
Agora o estado social e político do
brasílio-guarani. Existem guias antigos e modernos. Entre estes Couto de
Magalhães assinala vários tipos da família, variando do exclusivismo rigoroso
dos Guatós e Xambioás, até o comunismo das mulheres dos Caiapós.
“O comunismo das mulheres entre estes , diz o autor do Selvagem,
consiste nisso: a mulher desde que atinge a idade em que lhe é permitido entrar
em relação como homem, concebe daquele que lhe apraz. No período da gestação a
amamentação é sustentada pelo pai do menino, o qual pode exercer igual cargo
para com outras, que durante períodos idênticos moram na mesma cabana. Desde que
a mulher começa a trabalhar é livre de conceber do mesmo homem, ou pode
procurar outro, passando para este o encargo da sustentação da prole anterior.
“Notarei
que entre os selvagens o menino começa a cuidar da própria subsistência desde
os dez anos, sendo contudo auxiliado pelos parentes até que baste a si
mesmo”.
Segundo este autor, os Guatós e os Xambioás,
sem serem monógamos, são o mais exagerado tipo dos direitos do homem sobre a
mulher. Nessas tribos as mulheres não têm licença nem de olhar para um homem
estranho; são recatadíssimas. Entre os Xambioás existe a casta anômala e
torpe dos homens destinados a viri-viduarum; são indivíduos que em mais
nada se ocupam e são sustentados pela tribo.
As adúlteras
são queimadas vivas.
O matrimônio
precoce é impedido com as maiores cautelas. O casamento é aos vinte e cinco
anos de idade, ou mais comumente aos trinta. A virgindade no homem é, quase
sempre, mantida até essa época.
Entre os
testemunhos antigos destaca-se o do venerando Ivo d´Evreux. Não é possível
extratar aqui o infinito número de noções que se me deparam na obra do padre
francês.
Limito-me a rápidas indicações. Ivo d´Evreux
consigna entre os índios do Maranhão a antropofagia, a entrega das filhas e
parentes aos hóspedes, a punição do adultério, a escravidão, o uso constante de
guerras, danças, música, o uso de fumar, de bebidas fermentadas, pinturas e
incisões no corpo, o hábito de ajudarem-se no trabalho, formando o que hoje
chamamos putirão. Tinham os chefes ou maiorais, que ordinariamente eram
os mais distintos na guerra.
Do notável
clássico ouçamos um belo trecho, que pinta bem ao vivo o caráter e o espírito
do selvagem:
“Indaguei
e procurei saber muito o modo como se preparavam para a guerra, não me
contentando só com as informações. Em primeiro lugar as mulheres e suas filhas
preparam a farinha de munição, e em abundância, por saberem naturalmente que um
soldado bem nutrido vale por dois, que a fome é a coisa mais perigosa num
exército, por transformar os mais valentes em covardes e fracos, os quais, em
vez de atacar o inimigo, buscam meios de viver.
“É
diferente da usual esta farinha de munição, por ser mais bem cozida e misturada
com carimã para durar mais tempo; embora menos saborosa, porém mais sã e
fresca. Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas ou consertar as
que já possuem próprias para este fim, porque é necessário que sejam compridas
e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões, e contudo são
feitas de uma árvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos e ramos, ficando
apenas o tronco bem direito em toda a sua extensão, e então tiram-lhe a casca e
racham-na, dando-lhe meio pé de largura e profundidade: neste caso lançam-lhe
fogo nessa fenda por meio de cavacos bem secos e vão queimando pouco a pouco o
interior do tronco; raspam com uma chapa de aço e assim vão fazendo até que o
tronco esteja todo cavado, deixando apenas duas polegadas de espessura, e
depois com alavancas dão-lhe forma e largura. Estas canoas conduzem às vezes
200 ou 300 pessoas com as suas competentes munições.
“São
conduzidas por mancebos fortes e robustos, escolhidos de propósito, por meio de
remos de pás, de três pés cada um, que cortam as águas a pique e não de
travessia. Em terceiro lugar preparam as suas penas de cores vermelhas,
amarelas, verde-gaio e violetas, que prendem aos cabelos com uma espécie de
cola ou grude.
“Enfeitam
a testa com grandes penas de araras e outros pássaros semelhantes, de cores
variadas, e dispostas à maneira de mitra, que amarram atrás da cabeça.
“Nos
braços atam braceletes também de penas de diversas cores, tecidos com fio de
algodão, semelhante à mitra de que acabamos de falar.
“Nos
rins usam de uma roda de penas de cauda de ema, presas por fios de algodão,
tintos de vermelho, cruzando-se pelos ombros à maneira de suspensórios, de
sorte que, ao vê-los emplumados, dir-se-ia que são emas que têm penas nestas
três partes do corpo. Quis saber por intermédio do meu intérprete por que
traziam sobre os rins estas penas de emas: responderam-me que seus pais lhes
deixaram este costume, para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra,
imitando a ema, pois ela quando se sente mais forte ataca atrevidamente o seu
perseguidor, e quando mais fraca abre as suas asas, despede o vôo e arremessa
com os pés areia e pedras sobre seus inimigos; assim devemos fazer,
acrescentaram eles.
“Estou
certo de que muitas pessoas se admirarão, não só do que acabo de dizer, mas
também como é possível buscarem estes selvagens meios de governarem-se entre a
prática dos animais... Estes selvagens imitam com a maior perfeição possível os
pássaros e animais do seu país, os quais eles exaltam nos cantos que recitam em
suas festas. Porque nos pássaros de sua terra predominam as cores verde-gaio,
vermelha e amarela, eles gostam de panos e vestidos destas três cores. Porque
as onças e os javalis são os animais mais ferozes do mundo, eles arrancam os
seus dentes, e os trazem nos lábios e orelhas a fim de parecerem mais
terríveis. As penas das armas são postas nas extremidades dos arcos e flechas.
Assim e preparados, bebem publicamente o vinho de muai, e dizem, adeus
aos que ficam.”
Pelo que se
acaba de ler, bem se pode avaliar que o autor fala de tribos, que já tinham dos
europeus aprendido o uso do aço e do ferro, e que possuíam uma tal ou qual
agricultura, consistente na manipulação de sua planta sagrada – a
mandioca. A indústria predominante era, no entanto, a dos povos caçadores. O
Padre Ivo d’Evreux escrevia mais de um século depois da descoberta; esta
circunstância não deve ser esquecida.
Nem todas as
tribos indígenas, além disso, tinham um igual desenvolvimento intelectual; é
lícito admitir uma certa gradação por este lado.
Resta-me
falar dos povos negros que entraram em nossa população. Eram quase todos do
grupo banto. São gentes ainda no período do fetichismo, brutais,
submissas e robustas, as mais próprias para os árduos trabalhos de nossa
lavoura rudimentar. O negro é adaptável ao meio americano; é suscetível de
aprender; não tem as desconfianças do índio; pode viver ao lado do branco,
aliar-se a ele. Temos hoje muitos pretos que sabem ler e escrever; alguns
formados em Direito, Medicina, ou Engenharia; alguns comerciantes e ricos;
outros jornalistas e oradores. Ao negro devemos muito mais do que ao índio; ele
entra em larga parte em todas as manifestações de nossa atividade. Cruzou muito
mais com o branco.
O mestiço é
o produto fisiológico, étnico e histórico do Brasil; é a forma nova de nossa
diferenciação nacional.
Nossa
psicologia popular é um produto desse estado inicial. Não quero dizer que
constituiremos uma nação de mulatos; pois que a forma branca vai prevalecendo e
prevalecerá; quero dizer apenas que o europeu aliou-se aqui a outras raças, e
desta união saiu o genuíno brasileiro, aquele que não se confunde mais com o
português e sobre o qual repousa o nosso futuro.
Durante
muitos e muitos anos reinou o vulgar preconceito sobre a imensa inteligência e
a enorme robustez das populações cruzadas. Supunha-se que as gentes mestiçadas
dispunham de vantagens excepcionais e maravilhosas.
A observação
das populações das colônias européias da América e da Oceania mostrou haver
engano naquelas afirmativas gratuitas. Apareceu então uma tremenda reação e
chegou-se ao ponto de proclamar a completa hibridação das gentes cruzadas, isto
é, sua fraqueza e esterilidade radical no fim de um certo número de gerações.
Um estudo
porém mais despreocupado desta questão provou não existir na humanidade o
fenômeno característico do hibridismo. Ou se considere a humanidade um gênero
dividido em diversas espécies, ou uma espécie dividida em diferentes
variedades, é sempre certo que estas coabitam entre si e produzem uma
descendência fecunda, ainda que não tão válida como a das raças-mães.45
Sobre a
questão étnica entre nós, minhas observações levam-me às conclusões seguintes:
1ª – O
povo brasileiro não corresponde a uma raça determinada e única;
2ª – É
um povo que representa uma fusão; é um povo mestiçado;
3ª –
Pouco adianta por enquanto discutir se isto é um bem ou um mal; é um fato e
basta;
4ª – A
palavra mestiçagem aqui não exprime somente os produtos diretos do
branco e do negro e do índio; expressa em sentido lato todas as fusões das
raças humanas e em todos os graus no Brasil, compreendendo também as dos
diversos ramos da raça branca entre si;
5ª –
Esta característica é verdadeira no presente e no futuro, quer predomine sempre
a atual mescla índio-áfrico-portuguesa, quer venham a predominar, mais ou menos
remotamente, os elementos italiano e germânico, trazidos por uma colonização
até hoje mal dirigida e pior localizada;
6ª – O
elemento branco tende em todo o caso a predominar com a internação e o
desaparecimento progressivo do índio, com a extinção do tráfico dos africanos e
com a imigração européia, que promete continuar;
7ª – Comparando-se o Norte e
o Sul do país, nota-se já um certo desequilíbrio, que vai tendo conseqüências
econômicas e políticas: ao passo que o Norte tem sido erroneamente afastado da
imigração, vai esta superabundando no Sul, introduzindo os novos elementos,
fato que vai cavando entre as duas grandes regiões do país um valo profundo, já
de si preparado pela diferença dos climas;
8ª – O
meio de trazer o equilíbrio seria distribuir a colonização regularmente e
cuidadosamente por todas as zonas do país, facilitando às nossas populações a
assimilação desses novos elementos;
9ª –
Se o não fizerem, as três províncias do extremo Sul terão, em futuro não muito
remoto, um tão grande excedente de população germânica, válida e poderosa, que
a sua independência será inevitável;
10ª –
Como quer que seja e em todo o caso, a população do Brasil será sempre o
resultado da fusão de diversas camadas étnicas.
TRADIÇÕES
POPULARES CANTOS E CONTOS ANÔNIMOS ALTERAÇÕES DA LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL
O
complexo das tradições populares brasileiras é mais variado do que o das
portuguesas; porquanto nós possuímos todas estas e mais as que nos foram
legadas pelos índios e pelos negros.
Temos
problemas etnográficos e lingüísticos que não existem em Portugal.
O
primeiro trabalho a fazer neste terreno era, depois de coligir os materiais,
indicar o que pertence a cada uma das raças que constituíram o nosso povo, e,
por último, quais são as produções recentes originadas dos mestiços e das
populações atuais.45
Comecemos
pela poesia anônima.
Aí
os autores diretos são os portugueses ou seus descendentes brancos e mestiços;
não porque os índios e os negros não tivessem também uma poesia rudimentar; mas
porque, predominando a língua portuguesa, as canções tupis e africanas tinham
de passar para esta língua, a fim de derramarem-se entre as populações novas.
Só
improvisaram na língua portuguesa, como sua, os europeus e seus descendentes.
Os negros e índios, reduzidos à escravidão, ficavam, porém, bilíngües; falavam
seu idioma nativo e o português. Este fenômeno ainda hoje é vulgaríssimo.
Os
negros e índios bilíngües sabiam naturalmente as canções originais de sua raça
e podiam comunicá-las aos seus descendentes na língua adotiva. Assim se
explicam os fenômenos da justaposição de duas línguas num mesmo canto, e da
existência de certos cantos espalhados em nosso idioma, os quais são de feição
evidentemente tupi ou africana.
Ainda
hoje com algum esforço seria possível coligir poesias originais em tupi e em
africano.
Neste
último não vi ainda uma composição qualquer poética, nem me consta que no
Brasil alguém tenha colhido da boca dos pretos da Costa as suas canções. Já não
acontece o mesmo em relação aos índios; possuímos uma dúzia de fragmentos,
insignificantes em verdade, coligidos por Martius, Baena, Couto de Magalhães e
Barbosa Rodrigues.
Em
línguas africanas, pois, nós brasileiros não temos documentos para nossa poesia
popular.
Em
tupi temos muito poucos e em português muitíssimos.
Ouçamos
os versos tupis.
Os
seguintes foram coligidos por Spix e Martius:
“Nitio
xa potar cunhang
Setuma
sacai waá;
Curumu
ce mana mamane
Boia
a Cai majané.
Nitio
xa potar cunhang
Sakiva
açu waá
Curumu
ce monto-montoque
Tiririca
majané.
Scha
mann ruma, curi
Tejerru
iaschió.
Aiqué
Caracara-i
Serapiró
aramu eurt.
Scha mann rumaé curi
Ce nombore caó puterpi
Aiqué Tatu memboça
Ce jutûma aramu curi.”46
Eis
a tradução portuguesa preparada por Norberto Silva:47
“Não
quero mulher que tenha
As
pernas bastante finas,
A
medo que em mim se enrosquem
Como
feras viperinas.
Também
não quero que tenha
O
cabelo assaz comprido,
Que
em matos de tiririca
Achar-me-ia
perdido.
Quando
me vires sem vida,
Ah!
não chores, não, por mim,
Deus
que o Caracaraí
Deplore
meu triste fim.
Quando
me vires sem vida
Atira-me
à selva escura,
Que
o tatu há de apressar-se
Em
me dar a sepultura.”48
São
estas as palavras cantadas na festa do Sairé no Pará como se lêem em Baena:
“Itá
camuti pupé
Neiássucana
pitanguê
Puranga
ité...
E
Jesus e Santa Maria.
Santa
Maria caian puranga
Imembuira
inauerá
Iuaté
pupé.
Sicou
curussá
Uassu
pupé,
Ianga
turama
Rerassu...
E
Jesus e Santa Maria.”
Tradução:
– “Em uma pia de pedra foi batizado o menino Deus.” “Santa
Maria é uma mulher bonita; o seu filho é como ela; no alto Céu está numa cruz
grande para guardar a nossa alma.”49
O
Dr. Couto de Magalhães coligiu estes versos:
A
RUDÁ
“Rudá,
Rudá,
Iuaka
pinaié,
Amana
reçaiçu...
Iuaka
pinaié,
Aiuetê
Cunhã –
Puziuera
oikó
Ne
mumanuara ce recé
Quahá
caaruca pupé.”
Versão: – “Ó Rudá, vós
que estais nos Céus e que amais as chuvas... vós que estais no Céu... fazei com
que ele (o amante) por mais mulheres que tenha as ache todas feias; fazei com
que ele se lembre de mim esta tarde quando o sol se ausentar no
ocidente.”
À
LUA CHEIA
“Cairé,
cairé nu
Manuara
danù çanù
Eré
ci, eru cika
Piape
amu
O
manuara ce recé
Quahá
pit una pupé.”
Versão: – “Eia, ó
minha mãe (a lua); fazei chegar esta noite no coração dele (do amante) a
lembrança de mim.”
À
LUA NOVA
“Catiti,
Catiti
Iamara
notiá
Notiá
iamara
Epeju...
(fulano)
Emu
manuara
Ce recé (fulana)
Cuçukui xa ikó
Ia,
é anhi i pia pora.”
Tradução:
– “Lua Nova, ó Lua Nova! assoprai em fulano lembrança de mim;
eis-me aqui estou em vossa presença; fazei com que eu tão-somente ocupe o seu
coração.”
O
Sr. Barbosa Rodrigues colheu estes:
“Beque
bequiqui capipim otegê,
Ochê
urupunum rane egê,
Ochê
urubê am aum egê;
Beque
mum ochê capicape nansum.”
Tradução:
– “Vejam, meus amigos, que os serviços que temos agora com estes
dentes nos foram deixados por nossos avos.
Mais
estes:
“Purgatório
porá etá
Uputare
nemoessaua
Semué
catu palhy,
Anhangá
supeuara.
Upauana
tecó puranga
Oike
teco pêssassu,
Ianeara
tecó ressé
Um
umátecó puranga.”
Tradução:
– “Ensina-me, bom padre, rezas com que possamos salvar nossas almas
do Purgatório. A vida santa acabou-se e por vontade do bom Deus começa outra,
isto é, a vida do trabalho.”50
Além
destes fragmentos poéticos, em língua selvagem só conheço uma cançoneta
coligida pelo Dr. Couto de Magalhães na República Argentina, a qual não é aqui
transcrita por não ser brasileira.51
Pelo
caráter destas pequenas canções, recentemente coligidas, é bem claro que não
são elas um testemunho da genuína poesia primitiva do selvagem brasileiro.
Foram colhidas mais de três séculos depois da conquista e entre populações
postas em contato com o branco.
Não
creio que os Tupis-Guaranis tivessem uma verdadeira poesia. Esta começa na fase
do politeísmo, ou, pelo menos, nas últimas fases do fetichismo, e nossos índios
não tinham chegado a tal grau de cultura.
Sua poesia devia ser ainda muito
indecisa. É certo que Fernão Cardim, Ivo d’Evreux e Gabriel Soares falam
a miúdo das danças dos índios acompanhadas de cantos; estes porém deviam ser
muito rudimentares e de mui pouco alento poético.
Certamente
não tinham ainda uma mitologia nem uma história dramatizada com seus heróis.
Não possuíam uma poesia cíclica, que, se existisse, deveria chamar a atenção de
homens como José de Anchieta e Nóbrega. Todavia, é de crer que possuíssem coisa
melhor do que os fragmentos citados.
Dos
negros, como disse, nada existe coligido; e eles ainda menos do que os índios
eram senhores de uma poesia, no sentido que esta tem entre os povos, cujas
mitologias são conhecidas.
Alguns
de seus costumes passaram, por certo, às nossas populações. Se pelo lado das
tradições intelectuais, em geral devemos talvez mais aos índios, os pretos
levam-lhes decidida vantagem no fato do cruzamento e como fatores econômicos.
Como contribuintes para a formação de nossa população e de nossa riqueza,
deixam a perder de vista os selvagens.
A
averiguação deste fato pertence mais à estatística e à economia política do que
à história literária. Nesta a ação do negro é muito apreciável na formação do
mestiço. Se não se conhece um só negro, genuinamente negro, livre de mescla,
notável em nossa história, conhecem-se inúmeros mestiços, que figuram entre os
nossos primeiros homens.52
Pelo
que toca à influência dos pretos no espírito e no caráter literário do povo
brasileiro, ela ficará ainda por muito tempo tida no estado de contribuição
anônima. Neste ponto os seus rivais índios e portugueses tiveram vantagens, que
os africanos nunca encontraram no Brasil.
Os
portugueses vinham de um país culto, possuidor de uma literatura feita; vinham
como donos da terra implantar aqui uma organização social ao seu modelo.
Os
índios entravam em relações com os colonizadores, cuja atenção é natural que
despertassem. Daí um grande número de obras relativas aos gentios brasileiros,
considerados, desde logo, como um objeto de estudo. Os missionários lhes
aprendiam as línguas, e, entre outros, Anchieta compôs poesias, autos e outros
trabalhos
A
população negra atual do país é quase em sua totalidade de crioulos, criados
fora das condições precisas para serem um documento de inquirição. Os negros da
Costa, aliás agora em pequeno número, estão também desviados de seu sentir
africano.
Além
disto, os estudos feitos no original, sobre a África, apenas começam em nossos
dias e são mais referentes à geografia e à antropologia geral e exterior, do
que à análise das lendas, dos mitos, do pensamento africano em suma.
A
falta de documentos não quer dizer que o negro não tenha influído
intelectualmente no Brasil; por uma indução geral e bem firmada devo concluir
no sentido afirmativo.
A
pobre raça escravizada não teve nunca o direito de entrar na história; seu
trabalho intelectual foi anônimo, bem como o seu trabalho físico. Ainda mesmo
em fatos altamente épicos, em fenômenos extraordinários, como o do Estado
dos Palmares, a história é anônima. Como se chamava o herói negro, o último
Zumbi, que sucumbiu à frente dos seus nos Palmares? Ninguém sabe.
É
de justiça conquistar um lugar para o africano em nossa história: não é o
domínio exclusivo do africanismo que peço; exijo apenas mais eqüidade na
distribuição dos papéis em nossa luta de quatro séculos.
No conflito das três línguas no
Brasil, tendendo a dos conquistadores a predominar, deixou-se contudo saturar
de elementos estranhos, tomados às outras. É assim que ainda existem versinhos
cantados em português e tupi, ou em português e africano. São exemplo do
primeiro caso os dois célebres fragmentos citados pelo Dr. Couto de Magalhães:
“Te
mandei um passarinho,
Patuá miri pupé;
Pintadinho
de amarelo,
Yporanga ne iaué.
Vamos
dar a despedida,
Mandu sarará,
Como
deu o passarinho,
Mandu sarará.
Bateu
asa, foi-se embora,
Mandu sarará,
Deixou
a pena no ninho,
Mandu sarará.
Em português e africano temos
estes que coligi em Pernambuco:
“Você
gosta de mim,
Eu
gosto de você;
Se
papai consentir,
Ó,
meu bem,
Eu
caso com você...
Alê, alê, calunga,
Muçunga, muçunga-ê.
Se
me dá de vestir,
Se
me dá de comer,
Se
me paga a casa,
Ó,
meu bem,
Eu
moro com você...
Alê, alê, calunga,
Muçunga, muçunga-ê”.
Na Idade Média viu-se o mesmo
entre o latim e as línguas novilatinas. A seguinte quadrinha, bem conhecida, é
uma prova longínqua desse fato:
“Tristis est anima mea,
Com
saudades de meu bem;
Et quare conturbas me,
Eu
não quero mais ninguém.”53
A
música dos negros é monótona: os seus instrumentos não passam do marimbau,
do mutungo (uma cuia com ponteiros de ferro), do tambaque (espécie de
tambor) e do pandeiro.
A
dança é uma série de pulos, requebros e gatimanhos.
A
música dos índios era mais variada, e os seus instrumentos mais numerosos.
– O samba, estou hoje convencido, é de origem indígena. Fernão
Cardim, que escreveu em 1583, assim a ele se refere: “Fazem seus trocados
e mudanças com tantos gatimanhos e trejeitos que é coisa ridícula; de ordinário
não se bolem de um lugar, mas estando quedos em roda fazem o mesmo com o corpo,
mãos e pés; não se lhes entende o que cantam; mas disseram-me os padres, que
cantavam em trovas quantas façanhas e mortes tinham feito seus
antepassados.”54
É
claramente a origem dos nossos xibas e sambas atuais em que são
exímias as populações do interior. Não os acho ridículos, como supôs Fernão
Cardim; são a música e a dança na infância, e a infância é ingênua e não
ridícula.55
Os
principais instrumentos dos índios são: – o mimbitarará (espécie
de buzina); o pemi (cometa); o caruqué (feito de um tronco de
madeira leve ocado); o mimê (buzina); o muremuré (feito de
ossos); o chicuta (feito do espique do jupati); o membi-chuê
(feito de taboca), etc.56
No
corpo de nossa poesia popular a ação do caboclo é mais sensível nas composições
a que se pode dar o nome de romances de vaqueiros, como – Rabicho da
Geralda, Boi Espácio, Boi Prata, Vaca do Burel, etc.
A
influência africana parece estar num certo número de chulas, como a Moqueca
e outras, e nos versos de reisados, cheganças, congos, taieiras,
etc.57
Os
portugueses contribuíram com os romances marítimos e cavalheirescos, e uma
multidão de cantigas soltas, que todas têm suas equivalentes nas coleções
européias. Entre os romances, ainda hoje se cantam no Brasil: – D. Barão,
D. Infanta, Noiva Roubada, Bernal Francês, D. Duarte e Donzilha,. Nau
Catarineta, D. Maria e D. Arico, Conde Alberto, D. Carlos de Montealbar, D.
Branca, Iria a Fidalga, Pastorinha, O Cego, e outros.58
Ao
mestiço pertence a obra de transformação de algumas canções originais, que não
encontram congêneres nas coleções portuguesas.
O
complexo de nossa poesia popular pode-se dividir em quatro grandes categorias:
1 – romances e xácaras; 2 – reisados e cheganças;
3 – orações e parlendas; 4 – versos gerais ou quadrinhas.
Os
contos populares dividem-se em portugueses, americanos, africanos,
e alguns de origem mestiça e mais recente.
Indicar
no corpo das tradições, contos, canções, costumes e linguagem do atual povo
brasileiro, formado do concurso de três raças, que há quatro séculos se relacionam,
mostrar o que pertence a cada um dos fatores, quando muitos fenômenos já se
acham baralhados, confundidos, amalgamados; quando a assimilação de uns por
outros é completa aqui, e incompleta ali, não é tão insignificante, como à
primeira vista pode parecer. Quais são na poesia os agentes criadores e quais
os transformadores? O agente transformador por excelência tem sido entre
nós o mestiço, que por sua vez já é uma transformação; ele porém tem por seu
lado atuado também como criador. Os criadores são diretos e indiretos e
são as três raças e o mestiço.
Mas
será verdade, repito, que os Tupis e os africanos tivessem uma viva poesia
rudimentar, que haja passado às nossas populações atuais? Eu o creio, mas eis
aí uma grande dificuldade. Fala-se muito da poesia dos índios dos três
primeiros séculos da conquista; mas mui poucos e insignificantes são, como já
se viu, os fragmentos coligidos; e quanto aos africanos nada se tem colhido.
Demais, os hinos líricos e épicos, cantados pelo povo brasileiro, são, como disse,
vazados nos moldes da língua portuguesa. Como marcar o veio negro e o vermelho
em canções que afetam uma só forma? As dificuldades abundam. Incontestavelmente
o português é o agente mais robusto de nossa vida espiritual.
Devemos-lhe
as crenças religiosas, as instituições civis e políticas, a língua e o contato
com a civilização européia. Na poesia popular a sua superioridade como
contribuinte é, portanto, incontestável.
Pertencem-lhe,
como disse, todos os romances cavalheirescos, e todos os que têm correspondentes
nas coleções européias. São ainda obra sua a mor parte das canções soltas em
quadrinhas, que em Sergipe têm o significativo nome de versos gerais.
As
relações da raça superior com as duas inferiores tiveram dois aspectos
principais:
a)
relações meramente externas, em que os portugueses, como civilizados, não
poderiam assaz modificar sua vida intelectual, que tendia a prevalecer, e só
poderiam contrair um ou outro hábito e empregar um ou outro utensílio na vida
ordinária;
b)
relações de sangue, tendentes a modificar as três raças e a formar o mestiço.
No
primeiro caso, compreende-se desde logo que a ação dos índios e dos negros
sobre o europeu nada tinha de profunda e radical; no segundo a transformação
fisiológica produzia um tipo novo, que, se não eclipsava o europeu, ofuscava as
duas raças inferiores. Na poesia popular portanto, depois do português, é o
mestiço o principal produtor. Aos selvagens e africanos, que não são autores
diretos, coube aí mesmo, porém, uma ação mais ou menos eficaz.
Nos
romances de vaqueiros há influxo indiano, e nos versos de reisados,
cheganças, congos e taieiras influência africana, como
afirmei.
Os autores diretos, repita-se, que cantavam na língua como sua, foram
os portugueses, seus descendentes brancos e os mestiços.
Quanto
aos índios, e aos negros principalmente, verdadeiros pariás, forçados ao uso de
uma língua imposta, a sua ação foi indireta ainda que real. Na formação da
psicologia do atual brasileiro, a que iam transmitindo suas tendências
intelectuais, com todas as suas crenças, anexins, lendas e fantasias, é que se
nota o seu influxo.
A
ação fisiológica dos sangues negro e tupi no genuíno brasileiro, explica-lhe a
força da imaginação e o ardor do sentimento.
Não
deve aí haver vencidos e vencedores; o mestiço congraçou as raças e a
vitória deve assim ser de todas três.
Pela
lei da adaptação, elas tendem a modificar-se nele, que, por sua vez,
pela lei da concorrência vital, tendeu e tende ainda a integrar-se à
parte, formando um tipo novo em que há de predominar a ação do branco.
Pertencem-lhe
diretamente em nossa poesia popular todas as cantigas que não encontram
correspondentes nas coleções portuguesas, como todos os romances sertanejos,
muitas xácaras e versos gerais de um sabor especial. Nestas criações mistas
dá-se cumulativamente a ação das três raças; ao mestiço pertencem, como
próprios, o langor lírico e os cálidos anelos da paixão.
Nos
contos e lendas é direta a ação das três raças e a influência do mestiço ainda
muito insignificante, a não ser como agente transformador. Temos, já notei,
contos de origem portuguesa, americana, africana, mestiça (formação recente).
E
não é só nas canções e nas histórias populares que se encerra
tudo o que devemos às três raças que habitam no país. Aos portugueses devemos
as dádivas principais de nossa civilização lacunosa; somos-lhes obrigados pelas
idéias políticas e sociais que nos regem; ainda hoje sua velha legislação civil
é a nossa. A ordem religiosa, a política, a jurídica e a social são entre nós
obra européia.
É
inútil comentar a influência da ação combinada destas instituições sobre o
desenvolvimento de um povo.
Os
índios não são credores só do influxo dos seus areitos ou ieroquis e
de suas lendas. O uso de muitas plantas medicinais, o emprego de muitas
indústrias rudimentares, a manipulação de muitas substâncias comestíveis
devemos aos selvagens. Muitos outros usos e costumes, e até crenças
fantásticas, como a do Caipora, passaram às nossas populações atuais. É
verdade que as lendas de Sumé, Jeropari e outras, conhecidas dos
eruditos, perderam-se para a inteligência popular.
A
raça africana tem tido no Brasil uma influência enorme, somente inferior à da
raça européia; seu influxo penetrou em nossa vida íntima e por ele moldou-se em
grande parte nossa psicologia popular. É fácil compreendê-lo. A raça
africana entre nós, ainda que não dirigida por um impulso próprio, deve também
ser contada como raça invasora, e esta circunstância merece atenção.
O
português julgou-se fraco para repelir o selvagem e para o amanho das terras, e
recorreu a um auxiliar poderoso, – o negro da África.
Ao
passo que o índio tornava-se improdutivo, fugia, esfacelava-se e morria,
durante mais de três séculos foram chegando levas e levas de africanos
robustos, ágeis e domáveis, e foram fundando as fazendas e engenhos, as vilas e
as cidades, e permanecendo no seio das famílias coloniais.
O
índio, em geral, foi um ente que se viu desequilibrado e feneceu; o negro um
auxiliar do branco que prosperou...
Acresce
que o número de africanos, transportados ao Brasil, durante mais de trezentos
anos, foi muito superior à população cabocla primitiva.
Computam-se
em milhões, e toda essa gente válida e fecunda fez prosperar o país.
O
próprio fato da escravidão serviu para ainda mais vincular os pretos aos
brancos.
As
escravas, e raro era o colono que não as tinha, viviam no seio das famílias ao
serviço doméstico. Daí o cruzamento natural; apareciam os mestiços e novos
laços se criavam.
Os
negros trabalhavam nas roças, produzindo o açúcar, o café e todos esses gêneros
chamados coloniais, que a Europa consumia. Só pelos três fatos da
escravidão, do cruzamento e do trabalho, é fácil aquilatar a imensa influência
que os africanos tiveram na formação do povo brasileiro. A escravidão, apesar
de todos os seus vícios, operou como fator social, modificando nossos hábitos e
costumes. Habilitou-nos por outro lado a arrotear as terras e suportar em
descanso as agruras do clima. Desenvolveu-se como força econômica, produzindo
as nossas riquezas, e o negro foi assim um robusto agente civilizador. O
cruzamento modificou as relações do senhor e do escravo, trouxe mais doçura aos
costumes e produziu o mestiço, que constitui a massa de nossa população, e em
certo grau a beleza de nossa raça. Ainda hoje os mais lindos tipos de nossas
mulheres são essas moças ágeis, fortes, vividas, de tez de um doce amorenado,
de olhos negros, cabelos bastos e pretos, sadias jovens, em cujas veias circulam,
por certo já bem diluídas, muitas gotas de sangue africano.
O
trabalho escravo foi todo o nosso passado.
O
negro influenciou toda a nossa vida íntima e muitos nossos costumes nos foram
por ele transmitidos.
Não
foi provavelmente isto um grande bem; mas é um fato irrecusável. Muitos de
nossos bailados, danças e músicas populares, uma literatura inteira de canções
ardentes, têm esta origem.
O
índio, por seu lado, foi também mui cruamente tratado, e é admirável que,
nestas condições, não tenhamos sofrido até aqui guerras de raças, além dos
pequenos episódios dos Emboabas, Palmares, Mascates e Balaios.
De tudo que fica dito é fácil
tirar a conclusão. Dos três povos que constituíram a atual população
brasileira, o que um rastro mais profundo deixou foi por certo o português;
segue-se-lhe o negro e depois o indígena. À medida, porém, que a ação direta
das duas últimas tende a diminuir, com a internação do selvagem e a extinção do
tráfico dos pretos, a influência européia tende a crescer com a imigração e
pela natural propensão para prevalecer o mais forte e o mais hábil. O mestiço é
a condição dessa vitória do branco, fortificando-lhe o sangue para habilitá-lo
aos rigores de nosso clima.
É
em sua forma ainda grosseira uma transição necessária e útil, que caminha para
aproximar-se do tipo superior.
Passemos a outra questão. As
alterações da língua portuguesa na América são um objeto interessante de
estudo. Não sei por que as questões lingüísticas são às vezes discutidas com a
paixão das questões religiosas e políticas têm maltratado, estudando este
assunto. Entretanto, os que de parte a parte, portugueses e brasileiros se são
simples e não reclamam doestos. A língua portuguesa, cuja origem, fosse qual
fosse, não vem aqui a indagar, era falada por um pequeno povo da Europa. No
século XVI, descoberto o Brasil, passou ela com os colonos a este solo. A
corrente bifurcou-se, portanto.
Como
as línguas são organismos que se desenvolvem e transformam, esse fato foi-se
dando no Brasil e em Portugal ao mesmo tempo, isto é, tanto aqui como lá a
língua se foi desenvolvendo, ou alterando, como quiserem.
Desde
que a corrente se tinha bifurcado, cada um dos veios novos começou a
modificar-se à parte, independente um do outro. A língua não é hoje em Portugal
a mesmíssima de 1500; não o é também no Brasil.
Acresce
que, não sendo as modificações feitas de acordo entre os dois países, o que
seria por natureza impossível, o português do Brasil difere hoje muito do de
Portugal. É isto um fato orgânico do desenvolvimento lingüístico e não há aí
motivo para mágoas ou zombarias.
Neste
assunto há as seguintes questões a propor:59
se o luso-brasileiro é um dialeto; se temos dialetos particulares em algumas
províncias; se aumentamos o léxicon português com termos abanheengas; se
o enriquecemos de termos africanos; se o mesclamos de termos novos de origem
secundária; se alteramos a significação de algumas palavras portuguesas; se
produzimos alterações fonéticas na língua; se, finalmente, as produzimos
sintáticas. Respondo: O luso-americano não constitui ainda um dialeto acentuado
do português europeu; mas contém elementos que o hão de tornar cada vez mais
distinto deste. Existe também em algumas províncias a tendência para a formação
de dialetos particulares, especialmente no Pará e
Possui
certos termos populares que lhe são próprios, como: pinima, espingolado,
corteleiro, barbatão, munã, quiba, corrimboque, inhaca, quindim, e outros.
Alterou
o significado de algumas palavras portuguesas, exemplo: faceira, que é
no Brasil mulher casquilha e em Portugal carne das faces de boi; babado,
que no Brasil são folhos da saia e em Portugal não tem tal sentido; moqueca,
que no Brasil é um guisado de peixes e em Portugal é termo de agricultura; canastra,
cesto de vime em Portugal, no Brasil caixa não abaulada, etc.
As
alterações de pronúncia são inúmeras. Temos agora documentos para apreciá-las,
sem que os portugueses possam reclamar, e vêm a ser o novo Dicionário
Português de Caldas Aulete e melhor ainda o de Ad. Coelho. Por eles se vê,
por exemplo, que em Portugal se diz murrere, curtare, murtífero,
etc., etc., e no Brasil a pronúncia é outra e bem diversa.
As
alterações fonéticas são variadíssimas.”60
As
modificações sintáticas também já começam a caracterizar-se. As principais
versam sobre a colocação dos pronomes; o emprego das preposições a e em;
o uso de diminutivos; a tendência dos portugueses para confundirem o pronome
relativo com o recíproco; o emprego dos possessivos; a perda de alguns sufixos
na linguagem do Brasil; o quase esquecimento do mais-que-perfeito simples e do
futuro do indicativo; o uso de verbos gerais acompanhados de substantivos; a
troca do presente do indicativo pelo imperfeito, etc.
Neste
assunto podem ser consultados os Rascunhos sobre a Gramática da
Língua Portuguesa pelo Dr. Batista Caetano, o célebre indianólogo.
RELAÇÕES ECONÔMICAS AS INSTITUIÇÕES POLITICAS E
SOCIAIS DA COLÔNIA, DO IMPERIO E DA REPÚBLICA
Não é hoje uma simples suposição,
mas um fato firmado na história, que o estado de riqueza ou pauperismo de um
povo influi diretamente na formação de sua literatura. As nações sem descanso,
ocupadas exclusivamente em adquirir o indispensável à vida, não podem ter uma
cultura, que exige uma classe de indivíduos que estejam resguardados da
obrigação penível de conquistar o pão cotidiano. Por isto a civilização antiga
só apareceu em países favorecidos pela natureza, onde a produção da riqueza foi
fácil e pronta, e um certo bem-estar pôde reinar nas classes superiores da
sociedade.
O primo
vivere é tão certo para os povos como para os indivíduos; o homem antes de
ser um ente histórico é um indivíduo biológico.
Entre nós esta lei geral da
história tem uma aplicação rigorosa; porquanto, a despeito de nossa riqueza
aparente, somos uma nação pobre em sua generalidade, onde a distribuição do
dinheiro é viciosa, onde a posse das terras é anacrônica. Aquele anda nas mãos
dos negociantes estrangeiros; estas sob o tacão de alguns senhores feudais. A
grande massa da população, espoliada por dois lados, arredada do comércio e da
lavoura, neste país essencialmente agrícola, como se costuma dizer, moureja por
aí abatida e faminta, não tendo outra indústria em que trabalhe; pois que até
os palitos e os paus de vassoura mandam-se vir do estrangeiro... Não é este o
lugar mais ver próprio para descobrir os andrajos da nação e mostrar os corpos
enfraquecidos, que, sem trabalho nem pão, são a grande fonte onde o fazendeiro
vai buscar os servos, que chama agregados, e o governo os seus capangas,
os seus votantes e os seus soldados!...
Basta-me
abrir a nossa história de quatrocentos anos, malbaratados por aqueles que
deviam dirigir a nação, e ver que a quatro se podem reduzir os movimentos mais
acentuados da literatura do Brasil: a escola baiana do século XVII, que
se aureola com o nome de Gregório de Matos; a mineira do século XVIII,
que se assina com a firma de Gonzaga e Durão; a fluminense da primeira
metade do XIX século, desenvolvida principalmente na corte do Império, sob a
inspeção do governo, ora com fluminenses, como Gonçalves de Magalhães e Macedo,
ora com provincianos, que eram atraídos ao Instituto Histórico para serem ali
desnorteados e separados do país, como Gonçalves Dias e Porto Alegre; e
finalmente sobre estes movimentos isolados de uma ou outra província, o grande
abalo nacional, que aí vem maravilhoso de todos os cantos, do Pará como
do Rio Grande do Sul, torrente ainda mal definida, hasteando todas as
bandeiras, mas tendo um só alvo: – a mutação social.
Pois bem!
Míope será quem não reconhecer por trás destes acontecimentos literários outros
tantos momentos econômicos do país: nos primeiros séculos da colônia o açúcar;
no século XVIII o ouro; mais tarde o café; e agora que todos
estes produtos estão desacreditados nos mercados europeus, onde não podem lutar
com rivais mais aperfeiçoados, nós, que não temos mais a África e o ventre das
pretas para nos socorrerem em nossa miséria, aproximamo-nos da grande crise
econômica, que aí vem espumante e fatal!...
Mas
continuemos as considerações literárias em suas relações com a economia
brasileira.
Lançando as
vistas sobre o Brasil por este lado, vejo que possuímos hoje uma lavoura
arruinada, um comércio quase todo estrangeiro, uma pequena indústria nos
centros populosos, de que nem se deve falar, e em duas ou três províncias a
criação de gados. Quanto à primeira, fundada em grandes propriedades, que têm
os nomes extravagantes de fazendas e de engenhos, retalhou o país
em vastos lotes, verdadeiros restos das antigas capitanias, onde algumas dúzias
de enfatuados baxás moviam ainda há pouco sem piedade o bacalhau nos
pobres negros e não raro o azorrague nos agregados. Estes são uma
espécie de boêmios, sem domicílio certo; pois que, ao menor capricho do
senhor das terras, têm de pôr os trastes às costas e mudar-se.
O agregado
não pode reunir pecúlio, é submisso como um servo da gleba; uma grande cota de
seus produtos é para os fazendeiros e senhores de engenho. É mui de ver a
arrogância destes em suas relações com os proletários. Assim, pois, não temos a
pequena lavoura organizada. A grande, rotineira e pervertida, é uma extorsão
cruel feita aos proletários rurais.
Latifundia
perdiderunt Italiam, disse Plínio; as fazendas e os engenhos estão
perdendo o Brasil, é o brado que sai, com razão, de todos os lados. O comércio
é em parte uma pirataria em grosso, movida contra os pobres agricultores,
endividados e perdidos.
O grande é
quase todo estrangeiro e o pequeno quase absolutamente português, isto é, ainda
infelizmente estrangeiro. A pequena indústria, exercida nas cidades e vilas
pelos nacionais, é quase insignificante.
As fazendas
e estâncias pastoris estão no mesmíssimo caso das fazendas de café e
dos engenhos de açúcar. Que resta, pois, para o grosso da população? O
pauperismo completo, ou os empregos públicos, isto é, uma forma bastarda ainda
de pauperismo... Neste meio os filhos daqueles que podem, negociantes ou
agricultores, vão para os estudos, alinhavam os preparatórios, fazem um curso
de Medicina, Direito, ou Engenharia, e, ou vão engrossar as fileiras dos
empregados públicos, ou agitar-se nas aventuras temerosas de uma política relapsa
e torpe; ou, estes são poucos, pelo exercício de sua profissão conseguem fazer
alguma coisa na vida. No meio de tudo isto, quem entre nós escreve e quem entre
nós lê? Não são, decerto, os lavradores, os negociantes, os criadores, os
industriais, os políticos, nem os administradores. Somente as classes
acadêmicas e alguns empregados públicos saídos dessas classes. É a regra geral.
A mais
completa indiferença pelo que é produto intelectual brasileiro aqui reina. Os
poucos que têm a moléstia das letras e se esforçam por aviventar o pensamento
nacional ao contato das grandes idéias do mundo culto, sem afogar esta
nacionalidade nascente num pélago de imitações sem critério, esses não são
ouvidos pelo geral do público, ocupado em bater palmas ao último folhetim ou
aos últimos versinhos chegados de Lisboa ou de Paris...
As raízes
deste desarranjo pasmoso vão perder-se no solo empedernido dos tempos coloniais
e imperiais.
O Império
continuou, sob um falso constitucionalismo, o velho absolutismo e a antiga
miopia da metrópole. Que os norte-americanos continuem a trilhar as sendas da
inteligência inglesa, é coisa que deve ser aplaudida; porque a Inglaterra sabe
pensar; que o Brasil continue a copiar Portugal, é uma triste herança da
história, que todo bom patriota deve modificar e corrigir.
Durante mais
de três séculos foi o Brasil governado por prepostos de um governo absoluto.
Retalhado a princípio em capitanias, mal divididas e mal determinadas, que
foram entregues a alguns aventureiros e áulicos, o que nos fez ter também nossa
idade feudal, passou depois ao domínio direto da coroa, que tratou de
segregá-lo do mundo e explorá-lo. Num e noutro sistema o índio era considerado
uma fera, que devia ser caçada; o negro uma máquina, que se devia estupidificar
para produzir; o peão português, o colono, um ente de sangue bastardo, distante
do sangue azul, escravo dos fidalgos e de El-Rei, Nosso Senhor!... Nestas
condições, as populações que se iam formando no país traziam a marca da origem:
– a submissão.
Nada de
franquias e privilégios municipais. A instrução era nula; a imprensa proibida;
as comunicações com o estrangeiro vedadas. A Inquisição florescia e os
conventos abundavam; o jesuíta maquinava a formação de um vasto Paraguai. As
questões de justiça estavam em grande parte nas mãos dos governadores e eram,
em alçada superior, decididas na metrópole. No exército, o filho do país não
subia aos altos postos; reinava o regímen dos privilégios e exclusões.
O povo não
tinha vida autonômica, nem tinha iniciativa; a justiça lhe era ministrada como
um favor do monarca. As sesmarias territoriais eram concedidas aos portugueses,
que também monopolizavam o comércio. Na ordem puramente intelectual, a educação
era jesuítica; desenvolvia-se a memória, com prejuízo do raciocínio. A escravidão
no seio das famílias veio consolidar este complicado sistema de abatimento, de
alheação da vida independente. Desde o princípio, toda a população dividiu-se
em duas grandes classes: – senhores e escravos. Aqueles eram os
portugueses, ou seus descendentes; os outros – os negros e os índios! Os
mestiços destas duas classes, quando livres, eram tratados com rigor; porque se
tinha em larga escala o preconceito da cor... As décadas foram passando; e o
tempo foi robustecendo esta obra da injustiça e da extorsão. Daí saiu o Império
do Brasil, país de senhores, de grandes, de magnatas; mas terra sem povo, no
alto sentido da palavra! E como Portugal foi sempre uma feitoria inglesa, nas
relações exteriores nós o somos também, e nas internas governa-nos ainda o
europeu com todos os seus abusos, com todos os seus prejuízos. A nossa
independência, sendo um fato histórico de alcance quase nulo, não tendo havido
aqui uma revolução que afogasse os velhos preconceitos, não nos abriu uma fase
de autonomia e liberalismo. A República nada tem melhorado neste sentido por
enquanto.
De alguns
tempos a esta parte, começou-se a ver entre a evolução normal das sociedades e
os movimentos revolucionários uma antinomia que de fato não existe; a revolução
é um dos processos indispensáveis à marcha das nações. Se nós a tivéssemos
feito, não estaríamos hoje quase nas mesmas condições do regímen colonial,
anterior a
As academias
são poucas e de criação recente. Ainda hoje há muita dificuldade para a
aquisição de cultura neste país; os cursos, além de raros, são espalhados a grandes
distâncias da mor parte dos estados. Os livros são caros; a carreira das letras
não traz vantagens; a vida intelectual não oferece atrativos; não há editores
nem leitores para obras nacionais; por isso quase ninguém escreve, para não ser
esmagado pela concorrência estranha.
O meio
social não é estimulante; o abandono nos comprime; a vida brasileira é dura e
prosaica. Reina aí a monotonia e a submissão, ou esta seja dos agregados aos
fazendeiros; dos votantes aos chamados chefes de partido; dos deputados aos
ministros; dos ministros ao chefe do Estado; do chefe do Estado aos governos
estrangeiros; ou seja do comércio nacional aos capitalistas ingleses; dos
lavradores ao comércio; do povo aos políticos e dos políticos às conveniências;
ou seja de certos jornalistas aos governos; dos literatos aos maus livros
franceses, sempre e sempre é a submissão... Ousados ímpetos, tumultuosos
arrancos de juvenilidade e força raras vezes têm saído do seio do povo
brasileiro, na esfera política e na literária. Poucos se me deparam no curso de
nossa história.
O fenômeno é
explicável: povo educado, como um rebanho mole e automático, sob a vergasta do
poder absoluto, vibrada pelos governadores, vice-reis, capitães-mores e pelos
padres da Companhia; povo flagelado por todas as extorsões, – nunca
fomos, nem somos ainda uma nação culta, livre e original.
O moderno
constitucionalismo é uma comédia vulgar, corrupta e sandia, que nos envergonha
a nossos próprios olhos, quer no Império, quer na República.
O leitor
perdoará esta linguagem. Este livro, não quero que seja uma crônica recheada de
fastos anedóticos; quero que seja um protesto, um grito de alarma de são
brasileirismo, um brado de entusiasmo para um futuro melhor. Todo escritor
nacional na hora presente está carregado do imperioso dever de dizer toda a
verdade a nosso povo, ainda que pelo rigor tenha de desagradar geralmente. Não
há muito um esperançoso escritor estrangeiro, aliás nosso amigo, escreveu isto:
“A situação funcional da população brasileira pode ser expressa em uma só
palavra: o Brasil não tem povo!”61
É duro; mas
é a verdade.
Envergonhemo-nos
disto e reajamos. Façamo-lo pelo trabalho, por todas as ousadias para a luz;
lutemos, conquistemos o nosso lugar; rechacemos todas as antigualhas podres e
todas as inovações insensatas; sejamos fortes e calmos. Instruamo-nos e
travemos a grande luta de nossa regeneração social, econômica e literária. Já é
tempo de olharmos para trás, lançar as vistas sobre o caminho percorrido há
quatrocentos anos e conhecermos que pouco, bem pouco, temos feito como nação
culta.
Tomemos
todos os encargos que os séculos nos legaram e aparelhemo-nos para solvê-los.
Trabalhemos
também para a humanidade. A questão não é só de produzir café; há também certas
necessidades morais que é crime preterir.
As relações
econômicas e sociais da Colônia e do Império ainda se acham de pé; é tempo de
destruí-las e abrir uma nova fase à vida e ao pensamento nacional.
Dando
incremento às classes produtoras, preparando um maior número de cidadãos aptos
à vida dos tempos modernos, iremos formando o nosso povo, que será então capaz
de resistir às classes parasitas que têm em suas mãos os nossos destinos...
PSICOLOGIA NACIONAL PREJUÍZOS DE EDUCAÇÃO
IMITAÇÃO DO ESTRANGEIRO
O célebre Alexandre
Herculano, em seu declínio intelectual, deu a certas idéias e fatos novos,
firmados pela ciência moderna, o nome de gongorismo científico.
Um
positivista brasileiro, crente ortodoxo, repetiu com júbilo o dito do autor da História
de Portugal: “Declaro com franqueza que adoto de todo a denominação
que Herculano aplicou uma vez às produções da anarquia científica de nosso
tempo, a todas estas ciências novas que se denominam antropologia,
etnografia, pré-história, ciência das religiões... Ele chamou toda esta mixórdia
incoerente e palavrosa um gongorismo científico. O dito é feliz e
merece ser conservado.”62
Quanto a nós
todos, gongóricos incorrigíveis, perdidos na anarquia mental, às oposições
sistemáticas de Comte contra a psicologia, a lógica, a economia política, a
medicina, a anatomia que vai além dos tecidos, e a astronomia que ultrapassa
nosso sistema planetário.., temos a juntar a de seus discípulos ortodoxos
contra a crítica religiosa, a pré-história, a antropologia, a etnografia...
Lubbock, Broca, Vogt... com a sua antropologia; Baur, Strauss, Ewald... com a
sua ciência das religiões, quebraram inutilmente a cabeça num fatras
incohérent et verbeux...
Mas enquanto
a luz diurna da verdade definitiva não espancar todas as toleimas da anarquia
mental; enquanto a paz universal dos espíritos não fizer repousar a humanidade
na imobilização inefável da filosofia e da religião supremas, seja permitido
ainda ler algumas páginas verbosas de alguns gongóricos atrasados e supor
possível uma etnologia, ou psicologia dos povos (Volkerpsychologie), e
nesse sentido falar de uma psicologia do povo brasileiro.
Vem a ser o
complexo de tendências e intuições do espírito nacional; alguma coisa que o
indivíduo só por si não explica, que só o povo em sua amplitude genérica deixa
notar claramente. Assim como há um espírito da época (Zeitgeist), que
domina um momento dado da história, há um espírito comum (Algeist), que
determina a corrente geral das opiniões de um povo.
Pelo que
toca à nação brasileira, os documentos não se acham coligidos, nem utilizados
de forma alguma. Os nossos costumes públicos e particulares, nossa vida de
família, nossas tendências literárias, artísticas e religiosas, todas as
ramificações, enfim, da atividade popular, não têm sido objeto de um estudo
particular e aturado. Nós desconhecemo-nos a nós mesmos.
Não se pode
talvez dizer que o brasileiro, tomado individualmente, seja descuidoso de si
próprio; considerado porém em geral, como tipo sociológico, o povo brasileiro
apático, sem iniciativa, desanimado. Parece-me ser este um dos primeiros fatos
a consignar em nossa psicologia nacional. É assinalável a propensão que temos
para esperar, nas relações internas, a iniciativa do poder, e, no que é referente
à vida intelectual, para imitar desordenadamente tudo quanto é estrangeiro, scilicet,
francês.
Para o fim,
que me proponho, basta-me consignar estes dois fenômenos, filhos primogênitos
de nossa educação lacunosa: o poder como centro de tudo, o estrangeirismo como
instigador do pensamento.
A nação
brasileira não tem pois em rigor uma forma própria, uma individualidade
característica, nem política,
Esta
linguagem não agrada: veritas odium parit, sabe-se desde Cícero. Uma
outra forte abusão do povo brasileiro é esta justamente: a relutância que temos
em ouvir a verdade a nosso respeito, diga-se de passagem.
Quando se
fala na política inglesa, alemã, francesa, italiana, americana, ou numa
literatura destes povos, sabe-se o que se quer dizer.
No Brasil
não é assim. Temos uma literatura incolor; os nossos mais ousados talentos
dão-se por bem pagos quando imitam mais ou menos regularmente algum modelo
estranho.
Neste ponto
as provas são tantas, que há apenas dificuldade na escolha. Recorde o leitor os
nossos últimos movimentos literários. As quatro derradeiras escolas poéticas
desabrochadas no país foram a hugoana, a realista, a parnasiana,
a decadista. A primeira trai-se por seu próprio nome; a segunda,
quer na feição satânica do baudelairismo, quer na epicuriana do zolaísmo,
não é mais do que uma imitação mais ou menos pronunciada das tendências que
esses sistemas indicam; o mesmo no que se refere às duas últimas.
Na filosofia
e ciências é a mesmíssima coisa. O povo brasileiro não pertence ao número das
nações inventivas; tem sido, como o português, organicamente incapaz de
produzir por si.
Tanto quanto
se deve aos povos fracos aconselhar que busquem exemplo nas grandes nações
criadoras, eu avisara os brasileiros das vantagens que lhes podem advir da
lição das gentes anglo-germânicas, corrigindo as debilidades latinas.
Tocando em
fatos diretos, basta não esquecer que as robustas gentes do Norte, tendo hoje à
sua frente ingleses e alemães, está reservado o papel histórico, já vinte vezes
cumprido, de tonificar de sangue e idéias os povos latinos, célticos e ibéricos
do Meio-Dia.
Fechado o
ciclo da Antigüidade, decaído o império romano, às raças germânicas coube a
herança e a tarefa de preparar a Idade Média, criar as nações novas e abrir a
era moderna.
Destarte a
Inglaterra, a França, Portugal, Espanha e Itália são outras tantas criações em
que o gênio germânico veio dar viço ao elemento latino. Preparando estes novos
destroços com o romanismo religioso, foi ainda a Reforma, obra daquelas
gentes, que veio abalar de novo as consciências à busca de idéias mais sãs.
Mas é
sobretudo nas letras e ciências que o grande influxo inventivo daqueles povos
se faz sentir.
Além das
novas intuições iniciadas pelo romantismo, dali partiu, em tempos anteriores, o
renascimento das matemáticas e da astronomia pela escola de João de Gemund,
Purbach, Nicolau Pfyirt, Copérnico e Kepler. Dali vieram em o cálculo
infinitesimal e integral de Leibnitz e Newton, a um hipótese cosmogônica dos
gases de Kant, que Laplace pôs em cálculo, a termodinâmica de Meyer e Joule e a
análise espectral de Bunsen e Kirchoff, duas concepções que dominam a física
moderna, a teoria celular de Schwann e das Virchow, a intuição evolutiva do
mundo, desenvolvida por Oken e Híeckel, a psicofísica de Weber e Fechner, sem
falar em criações científicas, como a lingüística, a crítica religiosa, a
mitografia, e nos imensos trabalhos de erudição histórica, arqueológica e
etnográfica, não esquecendo a renovação da biologia por Darwin, a da filosofia
por se Spencer.
Importa por
certo definir, a traços largos, em várias esferas essa intuição anglo-germânica
em relação ao Brasil.
Vejamos
rapidamente a ordem literária, filosófica e política.
Em
literatura, há a distinguir o que diz respeito à poesia, romance, etc., e o que
se refere à crítica literária propriamente dita.
A poesia é
como a linguagem; ambas partem da natureza; mas ambas são organismos que se
desenvolvem, que evoluem por sua conta. “A poesia, diz Rodolfo von
Gottschall, funda-se na natureza e na verdade, as quais não são, entretanto,
seu objeto, seu alvo determinado. Este consiste em tirar delas o belo, o que
importa dizer que a obra d’arte se deve desenvolver como um organismo
independente.”
A poesia
deve ter a intuição de seu tempo; não tem por fim fazer ciência nem fotografar
a realidade crua; ela não é hoje, não deve ser, pelo menos, condenada à
afetação dos clássicos, com seus deuses, dos românticos, com seus
anjos, ou dos realistas, com suas prostitutas; ela deve também lutar
pelas idéias, sem despir a sua forma fulgurante e lírica.
Em crítica
literária, deve dominar a idéia capital de uma revisão franca dos títulos dos
nossos escritores, juízo que não deve trepidar ante o rigor e nem ter medo da
algazarra pública, por mais desabrida que se ostente.
Neste
terreno tem-se feito já alguma coisa. Um dos problemas que se conseguiu
modificar em seu sentido obsoleto foi o do nacionalismo literário. Era uma
velha teima a de procurar um certo nativismo flutuante e incorreto, que
nem mesmo sabia o que visava.
O conceito
desse nativismo atravessou duas fases, que não devem mais ser confundidas, como
o têm sido comumente.
Na primeira
tinha veleidades étnicas e andava à procura de uma raça que nos caracterizasse
e, por via de regra, dizia mal das outras. Ora era o português, ora o negro,
ora o caboclo. Este predominou. Convencidos mais tarde os nativistas do que
havia de artificial nessas tentativas, abandonaram a idéia de raça e
apegaram-se à de classes fundadas nas grandes divisões geográficas do
país.
Ficaram
neste ponto.
Não era mais
o caboclo, ou o negro, ou o luso;63 passou-se ao sertanejo, ao
matuto, ao caipira, ao praieiro, etc. Tudo isto, porém,
externamente.
Talhavam-se
vestes e enroupava-se esta gente e nada mais. Entretanto, o Brasil não é nada
disto; porque é mais do que tudo isto. Aqueles são tipos reais, é certo; mas
particulares, isolados, e não enchem toda a galeria pátria. Há um espírito
geral que os compreende, que os domina; é o espírito popular, subjetivo à
nação, que não se pode fabricar, que deve ser espontâneo. O caráter nacional
não está em se falar em maracás e tangapemas, tampouco está em se
lembrar o xiba, o bumba-meu-boi, o samba, etc. Deve estar
no sentimento original, no sentir especial do brasileiro.
O
nacionalismo não há de, pois, ser uma tese objetiva de literatura, a caçada de
um título; deve-se antes estudar o nosso povo atual em suas origens, em suas
produções anônimas, definindo a sua intimidade emocional, a sua visualidade
artística.
Deve-se
proceder ao estudo de nossa poesia e crenças populares, com a convicção do
valor dessa contribuição etnológica, desse subsídio anônimo para a compreensão
do espírito da nação.
Em filosofia
não se há de supor toda a ciência humana contida nos livros do espiritualismo,
do ecletismo ou do positivismo franceses...
É mister
beber em outras fontes. Na ciência experimental existe esse realismo
transformista, esta intuição evolucionista do mundo, em que o homem não reina
como senhor com o seu antropomorfismo pretensioso.
Na síntese
filosófica deve-se banir todo dogmatismo, toda fórmula com pretensões a
absoluta. Chamada a tratar dos mais gerais problemas que não têm podido até
aqui ser o objeto de uma ciência particular, a filosofia, se tem por obrigação
não desprezar o ensino das ciências, não deve, por outro lado, sair do terreno
de uma síntese provisória, de um ponto de vista crítico, objetivo; não pode ter
a veleidade de impor uma fórmula definitiva e muito menos a de constituir-se
uma religião.
A concepção
da sociedade precisa sair fora de todos os velhos processos políticos,
imprestáveis e gastos.
A filosofia
política e social não se funda na idéia da autoridade; não quer a ditadura em
nome do rei, nem em nome de um monopólio da ciência, como pretende certo
oportunismo incongruente; funda-se antes na idéia da luta. Há uma seleção
social, como existe uma natural. Este transformismo à Darwin tem duas faces, a
adaptação normal, hereditária, conservadora, e a adaptação cenogenética, em que
o mais forte devora o mais fraco, a adaptação revolucionária. Esses dois
processos são indispensáveis: evolução e revolução, a natureza e a consciência.
Eis aí, a
traços rápidos, a propaganda que eu faria se tivesse qualidades tribunícias. Em
todo caso, nas páginas deste livro, consignadas ficam as linhas gerais de um
programa.
É ainda uma
das idéias mais queridas da intuição anglo-germânica a guerra à centralização
do pensamento nacional, a oposição à imitação do parisismo.
O Brasil é o
Rio de Janeiro!... dizemos, macaqueando inconsideradamente a frase – a
França é Paris!...
Não cansarei
de bradar contra semelhante absurdo. Não somente há tendências diversas na
literatura das províncias ao norte e ao sul como as há especialmente das
províncias para a capital e tais diferenças devem ser mantidas.
Nunca houve
quem dissesse: a Alemanha é Berlim... os Estados Unidos são Washington... a
Inglaterra é Londres... Haeckel disse bem: “Contra a centralização da
ciência alemã, que seria especialmente perigosa na capital do Império, seremos
garantidos pela aptidão à diferenciação e ao individualismo de nosso espírito
nacional.” Entre nós sempre se tendeu para a centralização em tudo.
Eu estou
muito longe de aceitar a superioridade intelectual das nossas províncias
meridionais sobre as do Norte, e vice-versa; mas dou como provada a existência
de certas diferenças características que não devem passar despercebidas aos
novelistas e autores de estudos de costumes.
Há dois
livros, dois dos melhores romances escritos no Brasil, que podem ser tomados
como prova do que deixo dito: as Memórias de um Sargento de Milícias de
Manuel de Almeida e Um Estudo de Temperamento de Celso de Magalhães. São
dois escritores mortos na flor dos anos; um nunca saiu do Rio de Janeiro e o
outro do Norte do Brasil. Podem servir de base para um estudo comparativo.
Cotejem-se as cenas, o estilo, as descrições de um e outro. Vejam-se em ambos
as dissonâncias do meio e conhecer-se-á que tenho razão. Apreciarei,
entretanto, as objeções opostas. Reduzem-se a duas: que se quer proclamar a
preferência do Norte; que não temos ainda uma literatura e muito menos duas...
A primeira cai por si mesma; porquanto não se trata de superioridades, como a
má-fé finge crer. A outra argumentação é também inconsistente.
Aí anda confusão
entre um fenômeno histórico e um fenômeno crítico. O Brasil tem decerto uma
literatura; porque tem tradições suas e tem possuído homens de talento que
sobre elas produziram obras d’arte.
Não foi
inutilmente que apareceram Matos, Durão, Basílio, Gonçalves Dias, A. de
Azevedo, Martins Pena, Agrário de Meneses, Alencar, Macedo, Varela, Tobias
Barreto, Manuel de Almeida e Celso de Magalhães. Estes nomes pertencem à
história; não é possível passar sobre eles uma esponja para satisfazer
caprichos. É uma questão diversa, que pertence à crítica e não à história,
saber se essa literatura é pobre ou opulenta, original ou não. Julgo-a pobre;
mas é sempre uma literatura.
Não levemos
a nossa fraqueza ao ponto de pormonos a repetir as extravagâncias e os caprichos
de alguns autoritários estrangeiros.
Militam a
favor da tese que defendo fatos de ordem física e moral.
O aspecto do
solo e o clima são diversos no Sul e Norte do país.
Depois de
Gervinus e Buckle todos conhecem a enorme influência destas condições sobre a
vida de um povo e a organização dos poetas e artistas.
Os costumes
divergem consideravelmente. A linguagem apresenta também dessemelhanças.
O primeiro
fato, o de ordem física, é assinalado por Martius na sua descrição botânica do
Brasil; o segundo por Batista Caetano nos seus estudos lingüísticos.
Se não é
possível confundir as populações do Norte com as do Sul em pequenos países
europeus; se é exata a diferença entre o Algarve e o Minho, a Provença e a
Normandia, a Suábia e o Meclemburgo, o Piemonte e Nápoles, a Escócia e a
Inglaterra, as Astúrias e a Andaluzia,
A grandeza
futura do Brasil virá do desenvolvimento autonômico de suas províncias, hoje
estados. Os bons impulsos originais que neles aparecerem devem ser secundados,
aplaudidos.
Não sonhemos
um Brasil uniforme, monótono, pesado, indistinto, nulificado, entregue à
ditadura de um centro regulador das idéias. Do concurso das diversas aptidões
dos estados é que deve sair o nosso progresso. A grande alma nacional, apesar
de muito batida de infortúnios, não caiu ainda na imobilidade chinesa.
Continuai, continuai, poetas e romancistas, estudai os costumes reproduzi nos
vossos cantos e nas vossas novelas o bom sentir do povo, quer do Norte, quer do
Sul; marcai as diferenças e os laços existentes entre estas gentes irmãs, que
são o braço e o coração do Brasil. Não é de vossos estudos, interessantes ao
observador e ao psicólogo, que nos pode vir o mal. Que seria melhor: uma pátria
uniforme, morta, gelada, ou vivace e múltipla em suas manifestações? Daí não
vem perigo. Não se chama isto dividir a literatura nacional em duas; é apenas
afirmar a unidade na multiplicidade. Destarte, quando falam nas dissonâncias
existentes entre as populações da langue-d’oil, e as da langue-d’oc,
em trouvêres e troubadours, os críticos não dividem a antiga
literatura francesa
NOVAS CONTRIBUIÇÕES PARA O ESTUDO DO FOLCLORE BRASILEIRO
Um dos
fenômenos mais interessantes no estudo das criações populares é o que se
poderia chamar o mestiçamento de todas elas nos países de formação colonial.
Sem ser
exclusivo das gentes novas, porque o fenômeno se deu sempre desde a mais remota
antigüidade, porque desde esses primórdios os povos se misturaram, é nas terras
modernamente povoadas que o fato se deixa surpreender mais em flagrante.
As lendas,
as canções, os contos, os mitos, a língua e até as danças deixam-se misturar de
produtos de proveniências diversas.
Já nos Estudos
sobre a poesia popular brasileira tínhamos nós mostrado esse caso de
mestiçamento de nossa literatura popular e anônima, indicando as várias origens
de nossos cantos e contos, destacando as fontes portuguesas, indianas e
africanas.
O mesmo
fizemos em relação às transformações da língua portuguesa no Brasil.
Vimos agora
juntar mais alguns fatos, especialmente neste último terreno.
O escritor
que primeiro entre nós chamou a atenção para o fato da justaposição de versos
tupis e portugueses em nosso folclore poético foi Couto de Magalhães,
benemérito propagandista que é da moda fingir esquecer hoje
“Te
mandei um passarinho,
Patuá miri
pupé;
Pintadinho
de amarelo,
Yporanga ne
iaué.
Vamos dar a
despedida,
Mandu
sarará,
Como deu o
passarinho,
Mandu
sarará,
Bateu asa,
foi-se embora,
Mandu
sarará,
Deixou a
pena no, ninho,
Mandu
sarará.”
Multas outras
canções deste gênero devem existir
Admira que
não as tenham coligido os que têm viajado aquelas regiões.
Mas não
foram as línguas dos selvagens americanos as únicas que entraram nessa obra de
mestiçamento. O elemento indígena que devemos no Brasil e em toda a América
Latina considerar como a rocha geral e indestrutível que serve de base às
edificações posteriores, ou como o tronco em que os brancos ou negros se vieram
enxertar, não ficou só em campo a concorrer com o colono europeu. O elemento
africano, a favor do qual, seja dito de passagem, se deveriam criar também
largos serviços de proteção como se está fazendo para com o índio, o elemento
africano entrou também na faina e viu muitas de suas danças, lendas, tradições
e costumes entrarem no trabalho de confluência com os fatos congêneres de
proveniência européia.
Se não nos
enganamos, fomos nós os primeiros a coligir e publicar versos populares em
português e africano, em que se nota o mesmo fenômeno apontado por Couto de
Magalhães entre o português e o tupi.
Exemplo do
fato são versinhos colhidos em Pernambuco e já publicados:
“Você
gosta de mim,
Eu gosto de
você;
Se papai
consentir,
Ó, meu bem,
Eu caso com
você...
Alê, alê,
calunga,
Muçunga,
muçunga-ê.
Se me dá de
vestir,
Se me dá de
comer,
Se me paga a
casa,
Ó, meu bem,
Eu moro com
você...
Alê, ala,
calunga,
Muçunga,
muçunga-ê.”
Mais tarde,
muito mais tarde, passando por Pernambuco, em 1900, colhemos mais um trecho
desses versinhos, que são cantados e servem para acompanhar uma dança.
É este:
“Você
gosta de coco,
De coco de
dendê,
Arrumo meu
baú,
Ó, meu bem,
Vou morar
com você...
Alê, alê,
calunga,
A música,
que sabemos de cor, é muito graciosa e mereceria bem a pena de ser escrita. E
aqui fazemos uma declaração e exprimimos um anelo.
Ainda hoje,
entre parêntesis, nos lembramos dos tons da mor porção dos nossos cantos
populares. Temos feito esforços para conseguir músico de saber e talento capaz
de as tomar por escrito. Não nos tem sido possível.
Não há
muito, por influência do nosso amigo Osório Duque Estrada, entramos em relações
com o ilustre maestro Alberto Nepomuceno, que escreveu diversas canções. Por
seus muitos afazeres não pôde continuar.
Devem estar
em seu poder as peças que escreveu.
De novo
exprimimos o voto de que seria para desejar que algum sabedor se apresentasse
para escrever a nossa música popular. Nós ficamos às ordens para cantar o que
sabemos; nós e pessoas de nossa família, onde o elemento nortista predomina.
Fechado o
parêntesis, prossigamos.
Novas
cantigas temos conseguido, nas quais se dá o entrelaçamento da língua
portuguesa com algum dialeto africano.
Algumas são
toadas que acompanham danças; outras são dizeres de brinquedos infantis;
outras, finalmente, são orações, ou parlendas.
O elemento
negro, ainda muito forte na Bahia, como em geral nas regiões da antiga cultura
da cana-de-açúcar e nas zonas da primitiva mineração, mantém suas festas, suas
danças, seus costumes em verdadeiro estado de flagrante mestiçamento com os
outros elementos existentes na população do país.
Os seguintes
versos tomamo-los de genuína negra baiana crioula, é certo, mas filha direta de
africanos:
“Nosso
rei de Congo,
Mumbica,
Onde
havemo’ achá-lo,
Senhora?
“Ai,
ai, tesumento,
Qui tate,
Ai, ai,
cambaete,
Senhora...”
A música é
digna de estudo pela forte coloração africana que a reveste.
Servem tais
versos e outros muitos para ser cantados por pretos no acompanhamento da
procissão de S. Benedito e Nossa Senhora do Rosário.
Outros em
música diferente:
“Nosso
rei D. Cariongo,
Ou João Caramundá,
Arreda,
arreda, tira, tira,
Deixa
passar.”
Ou estes, já
noutra música e onde não ocorrem palavras africanas; mas a língua portuguesa
– tem sofrido a degradação peculiar do africanismo:
“Valha-me
São Benedito,
O amoroso
Senhor,
Valha-me seu
bento Filho,
Valha-me o
seu resplandor,
Rezemos
cinco mistérios
Pra Nossa Mãe
do Rosário.”
São versos
cantados por pretos na procissão de S. Benedito e Nossa Senhora do Rosário,
dissemos nós.
De todos os
santos da corte celeste S. Benedito é o mais querido das gentes negras. Têm-no
na conta de seu patrono e protetor.
Não sabemos
por que motivo igualmente assim consideram a Virgem do Rosário, a quem
consagram especial devoção e de cujas irmandades são eles as figuras
principais, senão únicas.
Em nossa terra,
em Sergipe, a procissão de Nossa Senhora do Rosário tem sainete especial. O
andor de S. Benedito é infalível, não falta e é o mais bem enfeitado.
A população
inteira acompanha a procissão, formando imensa cauda aos andores.
Homens e
mulheres, velhos e moços, ricos e pobres, brancos, mulatos, caboclos,
mamelucos, caborés, cafusos, mestiços de todas as gradações seguem
indistintamente.
Os pretos
espalham-se também pelo meio da enorme multidão; mas o dia é deles e por isso
são os que se mostram mais contentes.
Um crescido
magote deles vai em destaque adequado e em uniforme especial. São os congos;
formam a guarda das três rainhas, dentre as quais se salienta a Rainha
Perpétua.
Vão armados
de grandes espadagões. Uns forcejam por tirar, destramente, com as pontas das
espadas, a coroa da Rainha, defendida por outros. Tudo isto no meio de danças e
cantares. É muito gracioso.
Mas S.
Benedito não é um só instante esquecido.
A mor parte
dos versos do repertório são-lhe dirigidos pelos congos e taieiras. Estas
são um grupo de bonitas mulatas, na flor da idade, faceiras, vestidas de branco
e muito bem enfeitadas. Cantam os congos:
Que santo é
aquele
Que vem no
andor?
É São
Benedito
Mais Nosso
Senhor.
Que santo é
aquele
Que vem de
charola?
É São
Benedito
Mais Nossa
Senhora.
Que santo é
aquele
Que vem por colá?
É São
Benedito
Que vai pro
altar.”
Não é,
porém, somente nas ocasiões solenes das grandes festas da Igreja que a ação do
negro se faz sentir.
Até nos
brinquedos ou jogos infantis (folguedos, como se diz em Sergipe),
nota-se a sua influência.
Curioso
exemplo depara-se-nos no famoso jogo – de uma, duas argolinhas, que,
aqui mesmo no Rio de Janeiro, temos ouvido cantado e precedido de dizeres
africanos:
“Aiuê-dandê,
Aiuê-dandá,
Gato camungira,
Deixa a
senhora passar.
– Uma,
duas argo linhas,
Finca o pé
na pampolinha.
O rapaz que
jogo faz?
Faz o jogo
do gamão.
Conta bem,
Manuel João,
Conta bem,
que vinte são.
Arrecolhe
este pezinho
Na conchinha
duma mão.”
Dá-se igual
fato nas parlendas e orações. A prova está nesta prece para pedir sol:
“Sambe-quisambe,
Quisambiriçá,
Que eu quero
sol
Para sambar.
Caracol,
caracol,
Quantos dias
tem de sol?
Santa Justa,
ajustai;
Santa Clara,
clareai;
Santo
Antônio, mandai sol
Pra enxugar
o meu lençol.”
Fenômeno semelhante
deve-se estar dando nas colônias italianas de São Paulo entre a língua
portuguesa e a daqueles imigrantes. Conquanto, ao que parece, a língua de
Camões tenda a predominar ali, mesmo nas aldeias, lugarejos e fazendas, para
não falar nas grandes cidades, o italiano e vários de seus dialetos são
vulgares e o mestiçamento das línguas deve-se ter mostrado até na poesia
popular.
Devem
existir naquelas paragens poesias italianas cheias de palavras portuguesas e,
vice-versa, poesias em português contendo vocábulos italianos. Estas em maior
número.
Os
folcloristas de São Paulo incumbam-se da tarefa de as coligir.
O mesmo deve
estar acontecendo nas colônias alemãs de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do
Sul. Nessas zonas, porém, do país, há de ser mais provável a existência de
poesias em idioma germânico com uma ou outra palavra portuguesa, do que a de
poesias portuguesas com expressões alemãs.
O pouco
cruzamento, ou melhor, o quase nenhum cruzamento que se nota ali entre as duas
raças, é mais que suficiente para explicar o caso. Já não se dá o mesmo entre
as populações brasileiras e as uruguaias da fronteira.
Os
descendentes de portugueses e espanhóis entrelaçam-se perfeitamente naquelas
zonas.
As línguas
dão testemunho de igual tendência. Damos aqui um curiosíssimo exemplo nos
versos de um brinquedo popular coligidos em Sant’Ana do Livramento.
É um diálogo
entre um pastorzito e uma matrona, no qual nota-se que o texto espanhol vai
sendo adulterado por elementos portugueses:
“– Al de oro, al de prata,
Que jogando la jadrez,
Una señora me ha dito
Que bellas filhas teneis.
– Si las tengo, no las tengo,
No las tengo para usted,
Que el pão que Deus
me ha dado
Ellas comen e yo también.
– Pois
me vou mui igñorado
A el palacio
de El-Rei,
A contar vou a la
reina
Y al hijo de Ei-Rei también.
– Volve, volve, pastorzillo,
No seas tan descortés,
Que das tres filhas
que tengo
La más bella te darei.
– Levo
esta por esposa,
Por esposa e
por mujer,
Que parece
una rosa
Acabada de
nacer.”
Neste caso é
evidente ser o texto na íntegra primitivamente
O tema é
puramente herdado de velhos romances da Península Ibérica, que de fragmentos
épicos que eram em princípio, passaram a simples pretextos de folguedos
infantis.
No fundo é a
mesma idéia que ainda hoje se canta em rondas de crianças no Norte do Brasil,
como neste trecho que colhemos em Sergipe, na cidade da Estância, há já
bastantes anos:
“–
Onde mora
De língua de
prata,
De ouro e
lanceta?
– Que
queres com ia Condessa,
Cavaleiro que
o perguntas,
Tão disposto
e confiado?
– Manda
el-rei Nosso Senhor
Que das
filhas que vós tendes,
Por favor
mandareis uma
Para com ele
casar.
– Nem
por ouro, nem por prata,
Nem por
sangue de Aragão,
Tirareis as
minhas filhas
De mosteiro
em qu’elas’ stão.
– Tão
alegres que viemos
E tão
tristes que tornamos,
Pela filha
de
De língua de
prata,
De ouro e
lanceta.
– Vinde
cá, ó cavaleiro,
Pareceis
homem de bem,
Subi aquele
mosteiro:
Escolhei a
que convém.
– Esta
quero, esta não quero
Vestidinha
de amarelo.
– Vós
levais a minha filha:
Vede lá como
a tratais.
– O
pão que o rei comer
Também ela
há de comer,
E a seda que
o rei vestir
Também ela
há de vestir.
– Sentai-vos
aqui, menina,
A coser e a
bordar,
Que do Céu
vos há de vir
Uma agulha e
um dedal;
O dedal será
de ouro,
A agulha
será de prata,
Palmatória
de marfim
As mãozinha
de alfenim.”
Restos de
antiquíssimo romance ou xácara, estes versos, bastante deturpados, são
acompanhados de uma toada musical de caráter arcaico.
O fenômeno
da fusão e mestiçamento das cantigas populares, romances, xácaras, orações,
parlendas. versos gerais, loas... não se denuncia somente na linguagem;
manifesta-se também nas fontes mais íntimas das inspirações. A mesma psicologia
popular é a primeira a transformar-se.
Existem
entre nós inúmeros exemplos dessa espécie de mestiçamento psicológico, que
chamamos mestiçamento moral.
Romances e
xácaras se nos deparam por este Brasil em fora que são casos irrefragáveis
dessa espécie de hibridação. São produtos recentes de nossas atuais populações
mestiçadas, moldados sobre velhos elementos tradicionais, inteiramente
transformados pelos cantores modernos, caipiras, tabaréus, matutos ou
sertanejos.
Pudemos
apanhar, recitado por um preto da fazenda de Sant’Ana do Paraibuna, do
Estado do Rio de Janeiro, uma espécie de romance conhecido por O caso de
João Alves Flor, que é digno de atenção. Aí não há mistura de línguas;
nota-se o falar corrente entre as gentes do interior, no qual a linguagem tem o
sabor das criações imediatas do povo rude.
O tom, o
gosto, o estilo, se de estilo se pode falar em casos tais, é puramente
brasileiro – tabaréu ou matuto.
Eis aqui:
“Numa
manhã de domingo
O valentão
Alves Flor
Se vestiu e
se aprontou
Para furtar
Leonor.
– Meu
filho, dou-te o conselho,
Se acaso
queres tomar:
Tira a sela
do cavalo,
Acho bom que
não vá lá.
– O
cavalo está selado
Que o menino
já selou;
Embora
qu’eu morra hoje,
Inche na
ponta da faca,
eu vou
furtar Leonor.
Levou o
cigarro feito
Para pedir
fogo a ela.
No passar
pelo sobrado,
Avistou-a na
janela.
– Não
vim aqui passear,
E nem vim
lhe visitar,
Vim saber da
sua boca
Se comigo
quer casar.
– Meu
anjo, peça a meu pai,
Sem menage
de ninguém,
E se meu pai
consentir,
Meu negro,
quero também.
Nisto
apareceu o velho
Cuma cara de
leão:
– Deus
lhe guarde, meu senhor.
– Boas
tardes, meu patrão.
– Se
quiser desapear,
Ou se quiser
descansar,
Isso aí é
uma janela,
A porta da
frente é cá.
– Não
quero desapear,
E nem quero
descansar;
Vim lhe
pedir Leonor
Para com ela
casar.
– Eu
não dou a minha filha
Pra homem de
correntão,
De
guarda-peito e gibão;
Quase todos
são velhacos,
E a maior
parte é ladrão.
– Meu
senhor, não diga isso,
Tenho a ela
muito amor,
Nessa minha
pouquidade
Me acho com
qualidade
Pra casar com
Leonor.
– Vem
cá, Pedro, vem cá, Paulo,
Vem cá,
Chico Venceslau,
Bota o cabra
no quadrado,
Quero ver
gemer no pau.
João Alves,
quando ouviu isto,
Deu de rédea
na carreira,
Até que
errando o caminho,
Saiu numa
capoeira,
Onde se
achava uma velha.
– Minha
velha, venha cá,
Tenha de mim
compaixão,
Se vancê quiser
ganhar
Vinte e
cinco patacão,
É ir
correndo depressa
Neste
caminho a seguir,
Perguntar a
Leonor
Em que noite
quer fugir.
A velha saiu
correndo,
A modo que
ia voando,
Conversou
com Leonor
E veio logo
voltando.
– Leonor
manda dizer:
Na noite de
quarta-feira
Vancê vá
atrás do muro,
Pisando
muito seguro
Por detrás
da bananeira.
Mas mesmo
nem de encomenda,
Na noite de
quarta-feira
O velho
desconfiou,
Pois durante
toda a noite
O velho não
se deitou.
Esteve a
noite inteirinha
Dum lado e
doutro acordado,
Com o ouvido
bem atento
E seu
bacamarte armado.
De sorte que
nesta noite
A Leonor não
fugiu,
E o pobre do
Alves Flor
De frio
quase que engiu.
No dia de
quinta-feira,
O velho
pôs-se de pé:
– Minha
mulher, venha cá,
Venha cá,
minha mulher;
Preste a
maior atenção,
Não se deixe
engambelar,
Sentido com
Leonor,
Não deixe
ela se arrumar.
O velho foi
pro roçado,
A velha
foi-se deitar.
Leonor se
aproveitou
E foi logo
se aprontar.
Quando a
velha levantou,
Achou a
trouxa arrumada.
– Ó
Leonor, minha filha,
Eu pilhei
tua massada.
Leonor, ó
minha filha,
Pra que é
este vestido?
– É
p’a mode mudar este,
Veja como
está rompido.
Eu me sinto
adoentada,
Estou com
pouca saúde;
A senhora dá
licença
Qu’eu
vá ao banho no açude?
– Minha
filha Leonor,
Você quer é
me enganar,
O tempo está
de calor,
Banho frio
lhe faz mal.
– Deixa
disso, minha mãe,
Que disso
nenhum mal vem,
Tomar banho
no calor
Nunca fez
mal a ninguém.
– Chiquinha
e mais a Maria,
Acompanhem
Leonor.
– Minha
mãe, com este bando,
Leve o
diabo, eu não vou.
– Minha
filha Leonor,
O que é que
disse seu pai?
Escute cá,
minha filha,
Me diga por
que não vai.
– Elas
não vão fazer nada,
Vão pra lá
só conversando,
Apenas pra
me espiar
E depois
estar mangando.
– Minha
filha Leonor,
Eu lhe quero
muito bem,
Você pode ir
sozinha...
Vai depressa
e logo vem.
– Minha
mãe, minha mãezinha,
É sempre boa
pra mim;
Então,
adeus, até logo,
Sua bênção,
mamãe, sim?
Ao cabo de
meia hora
A velha
desconfiou,
O que é que
faz minha filha,
Que é que
faz Leonor?
O açude está
enchendo,
Quem sabe
não se afogou
Chiquinha,
que já sabia
Da grande
velhacaria,
No ar assim
dirigiu:
– Minha
mãe ainda é boba,
A Leonor já
fugiu...
– Chiquinha,
minha Chiquinha,
Que estás
dizendo? Ai! ai!
Nós hoje
temos serviço
Com as
zangas do teu pai.
A velha saiu
correndo
Na direção
do roçado.
Ai achou o
marido
Que
descansava amuado.
Dirigiu-se
para ele
Numa falinha
dengosa:
– A
nossa filha fugiu,
Venho lhe
trazer a nova.
O velho se
levantou,
Levantou
todo tremendo,
Arrumou coas
mãos na velha
– Danada,
que está dizendo?–
A velha caiu
no chão
Entre
gemidos e ais.
Pedindo:
– Por Deus do Céu,
Meu velho,
não me dê mais.
A velha saiu
dali
Suspirando e
soluçando,
E o velho,
como malvado,
De vez em
quando açoitando.
Deu tal tranco
na coitada
Ao passar
uma cancela,
Que a pobre
caiu no chão,
Rebentou uma
canela.
– Chiquinha
e mais a Maria,
Vão lá para
a camarinha.
– Meu
pai, para que nos quer?
– Inda
tu falas, mulher?
Vão lá para
a camarinha
Provar do
relho do boi,
Pra mode vocês
não ir
Como a outra
já se foi.
A Chiquinha
quando viu
Que a surra
era demais
– Maria,
se tens coragem
Hoje damos
no papai.
Uma segurou
nos pés,
Outra deu um
empurrão,
Foi acima,
foi abaixo,
Deram com o
velho no chão.
A velha
foi-se arrastando
– Deixem
tirar meu quinhão.
Puxou a cara
barbada,
Deu
quatrocentas dentadas,
Oitocentos
beliscão.
Ao cabo de
quinze dias,
Chiquinha
viu Leonor.
– No
dia em que eu fugi,
Mana, como
se arrumou?
– No
dia que vancê fugiu
Até meu pai
apanhou,
E toda a
casa esparramou.”
Nestas e nas
demais peças citadas não quisemos, por inútil e por demais antiestético,
reproduzir com inteiro rigor os dizeres de todo errados das pessoas do povo
mais grosseiras e completamente incultas.
Toda gente
sabe que o pessoal mais atrasado diz – teia, teiado, cuié, muié, véio,
véia, artá, fio, fia, Lianô, amô, resprendô, em lugar de telha, telhado,
colher, mulher, velho, velha, altar, resplendor, e outros casos assim.
Toda gente
sabe igualmente que essas classes populares não respeitam o plural dos nomes.
Dizem: rezemo cinco mistério, oitocento beliscão, etc., em vez de
– rezemos cinco mistérios, oitocentos beliscões, etc.
Não
pronunciam o r final do infinito dos verbos. Dizem: querê, amá,
ganhá, fazê, fugi, em lugar de querer, amar, ganhar, fugir. O mesmo
com as consoantes finais das palavras: calô, má por calor, mal.
Se
quiséssemos observar um rigorismo escusado, deveríamos, por exemplo, ter
grafado:
“Minha
fia Lianô,
Você qué é
m’enganá;
O tempo está
de calô,
Banho frio
lhe faz má.”
A propósito
da xácara de João Alves Flor, qualquer bochechas e, sobre esse caso
popular e repetidíssimo de tentativa de rapto e posterior fuga de uma rapariga
do campo, teceria curiosas coisas sobre a teoria dos casamentos exogâmicos
primitivos, citaria as doutrinas de Mac-Lenan e de Morgan, lembraria o rapto de
Helena das Sabinas e outras galhardias da espécie.
Não o
faremos nós. As simples distâncias de posição, fortuna, cor e outras do mesmo
gênero, existentes em nossas populações, como aliás entre as populações de todo
o globo, explicam perfeitamente a necessidade que têm, às vezes, os
pretendentes de raptar as namoradas ou induzi-las a fugirem.
E nem se
creia ser isto peculiar somente às classes mais baixas do povo. Dá-se também
nas rodas mais altas.
Sabemos de
curiosíssimos casos de fugas de filhas de fazendeiros, senhores de engenho,
negociantes abastados, políticos influentes, de todo explicáveis, sem ser
preciso recorrer à teoria da sobrevivência da exogamia tribal dos tempos
recônditos.
Até ministros
e diplomatas tiveram alguma vez de recorrer à fuga das noivas, senão ao rapto
delas.
Poderíamos
narrar alguns, se não fora talvez indiscrição.
Um fato
digno de estudo observamos sempre nas investigações a que procedemos no terreno
do folclore nacional: a falta de criações relativas aos acontecimentos de nossa
história e de nossa política.
Não nos
referimos, é claro, à ausência de criações mitológicas ou sequer heróicas, do
gênero das primitivas inspirações arianas da espécie daquelas, a cujo número
pertencem os Vedas, o Ramaiana, a Ilíada, os Edas, os
Niebelungen, o Mabinogion. Deste gênero nem o próprio Portugal
nem a mesma Espanha os possuem.
Dos
primitivos iberos não restam criações poéticas de qualquer espécie, como não
restam das primeiras gentes que senhorearam grande porção da Península,
segundo, em parte, a lição de Jubainville, ampliada e robustecida por Martins
Sarmento: os lígures. Mesmíssimo é o fato relativamente a fenícios e
cartagineses, povos que, aliás, foram sempre paupérrimos de criações míticas e
épicas.
Pelo que
toca a celtas e gregos, sua evolução poética e mitológica já se tinha, de há
muito, dado noutras regiões, quando vieram se estabelecer na Península.
Das
conquistas romana, suévica, visigótica e árabe e nem é preciso falar, por
comparativamente recentes. A fase mitológica e até a heróica de tais gentes já
noutras paragens tinha passado.
A falta que
notamos no cancioneiro brasileiro é a de simples referência aos mais notáveis
fatos da nossa história social e política e aos seus homens representativos
mais eminentes.
A ausência
não se pode dizer completa, porque encontram-se duas canções, uma relativa ao
Filgueiras da revolução de 1824 em Pernambuco e províncias próximas até ao
Ceará, e outra referente ao fato da Independência em 1822.
A primeira
explica-se perfeitamente. O que o povo no Filgueiras principalmente viu –
foi o tipo de perfeito bandido, porque outra coisa não foi essa espécie de
Ferrabrás, de valentão e desordeiro, ao que se depreende da leitura do mais
sugestivo dos historiadores brasileiros, o mais desabusado, o que melhor
enxerga as questões sociais, – o perspicaz João Brígido.
Os
sertanejos, em cujos centros floresce o banditismo, conhecem-lhe os tipos
principais, que se distinguem por suas façanhas.
É por isso
que nosso cancioneiro é tão rico em xácaras encomiadoras de bandidos ou
facínoras, como o Lucas da Feira, o José do Vale, o Cabeleira e
outros assim.
O Filgueiras
entra perfeitamente no grupo.
As
populações sertanejas são ainda hoje as únicas que, entre nós, se acham nas
condições precisas para a produção da poesia anônima.
Natural é,
por outro lado, que elas decantem os tipos que mais as impressionam. Este é o
caso, como disse, dos bandidos célebres e também dos cantadores e menestréis
famosos, como Manuel do Ó Bernardo, Manuel do Riachão, Rio Preto e
outros menos ilustres. Tal o motivo de aparecer também crescido número de
xácaras relativas a esses menestréis.
Fora desses
seus homens prediletos, – os sertanejos cantam apenas o boi, o marruá, o
guadimar, – chefe de rebanho, – para eles muito mais ilustres do
que os imperadores ou presidentes de república.
O ciclo de
romances de vaqueiros dedicados a animais famosos é avultado.
O Boi
Espácio, o Rabicho da Geratda, o Boi Surubim, o Boi Prata,
a Vaca do Burel – são do número.
A outra
canção de tipo histórico é, dissemos, relativa ao tempo e ao fato da nossa
independência política.
Bem
analisada, porém, se conhece que foi obra de algum Sócrates de aldeia, de
determinado indivíduo inculto na altura do meio, e não genuinamente popular.
Temos por
assentado, pois, que nem as cenas do povoamento primitivo do país nos séculos
XVI e XVII, nem as façanhas dos bandeirantes, nem as guerras dos holandeses e
franceses, nem as dos espanhóis no Sul, nem as lutas dos Mascates e Emboaba,
nem as cenas da mineração, nem mesmo a Independência, nem as guerras da
Cisplatina, do Prata e do Paraguai – determinaram a produção de ciclos
poéticos às nossas musas populares.
Pelo que toca
à última dessas guerras, houve aí durante algum tempo uma espécie de
rapsodista, – de nome Sant’Ana, – que cantava rudes estrofes
de sua lavra, relativas aos feitos daquela campanha. Andaram em folhetos e
pertencem claramente ao gênero literatura de cordel, como o Testamento
do Galo e outros produtos análogos.
Não é a
genuína poesia popular.
Se é certo
que as nossas populações do Centro, onde se nos poderia ainda deparar o
fenômeno curiosíssimo da elaboração da poesia anônima, não se interessam pelas
questões políticas, levantadas quase exclusivamente na capital do país, não é
menos verdade que a musa anônima do populacho da grande cidade, mui raramente,
entretanto, se lembra de caricaturar os nossos grandes homens.
Mas, mesmo
aí nessa baixa esfera, a produção é escassíssima.
Aqui vamos
incluir tudo que encontramos de caráter político em nosso cancioneiro popular.
Eis a peça
relativa à Independência, corrente sob a denominação de Conversa Entre um
Corcunda e um Patriota:
C. – Deus lhe guarde, meu senhor.
P. – Venha com Deus, cavaleiro,
Venha logo
me dizendo
Se é
corcunda ou brasileiro.
Vejo-lhe
divisado
Na cabeça um
grande galo,
Bem me
parece ser
Da vazante o
espantalho.
C. – Sim, senhor, eu sou corcunda
E morro pelo
meu rei;
Esta divisa
que trago
É da sua
real lei.
Se o senhor
é patriota,
Provisório
cidadão,
Se fala
contra o meu rei,
É judeu, não
é cristão.
E com isto
já me vou,
Não quero
mais esperar;
O senhor é
jacobino
Pelo modo de
falar.
P. – Dê-me atenção, meu senhor,
Não se faça
esfurecido,
Um homem
apaixonado
Não dá prova
de entendido.
Eu conheço o
seu caráter,
Não é de
tolo e vazio,
Mostra ser
de bem pensante,
Ou dalgum
escriturário.
Faça-me a
honra de apear,
Venha-me dar
um clarão;
Só o senhor
pode dizer-me
O que é a
Constituição;
E também da
Independência,
De Dom Pedro
Imperador,
Tudo me
explique agora,
Eu lhe peço
por favor.
C. – Se o senhor fala-me sério,
Se não é
adulação,
Eu lhe direi
de que consta
A nova
Constituição.
P. – Ora, senhor, creia em mim,
Que muito
sério lhe falo,
Não passo de
um homem néscio,
Não sei onde
canta o galo.
C. – Estes malvados pedreiros,
Carbonários
da nação,
Que, por
serem cristãos,
Não querem
ter rei nem roque,
E menos
religião.
Só por isto
desprezaram
O nosso bom
rei Dom João.
A lei deles
é anarquia
Da tal
Constituição,
Cativando desumanos
Sem ter quem
lhes vá à mão.
Não querem
saber de missa,
E menos de
sacramento,
Mofam de tudo que
diz
Nosso Santo
Testamento.
Veja, pois,
por que rigor
Chamam a nós
marinheiros,
Arrocham de
pau e peia,
Morram todos
ao chumbeiro.
Uns homens
nobres em tudo,
No sangue e
no proceder,
De famílias
ilustradas
Muitos deles
vêm a ser,
Filhos de
duques, marqueses,
Dos infames
patriotas
De condes e
de morgados.
Têm sido
desfeiteados...
Estas feras
doravante
Só em si
maldade encerra;
Desprezam o
nosso rei,
Que Deus nos
deu na terra:
Um homem
santo e pio,
Um refúgio
de esperança,
O nosso Dom
João Sexto,
Filho da
real Bragança.
Esta família
ilustrada,
Que o mesmo
Deus destinou
Pra seus
filhos governarem,
Serem de nós
supriô...
Mas agora
estou contente
De ver tudo
isto acabado,
Uns mortos e
outros presas,
Outros
tantos enforcados.
Adeus, pois;
tenha saúde,
Creia nisto
que lhe digo,
Fuja desses
patriotas,
Que são
nossos inimigos.
Mas já está
se acabando
A maldita rebelião,
Ficando só
no Brasil
A fé pura de
cristão.
P. – Tratemos da Independência.
C. – Isto é passo muito errante,
Que Dom
Pedro no Brasil
Não pode ser
imperante.
P. – Por quê? Ele não é Bragança?
C. – Se o rei ainda é vivo
Não pode se
dar herança.
P. – Já não posso, seu corcunda,
Sua loucura
aturar,
Quer por
gosto, quer por força,
Ouça-me
agora falar.
Diga-me,
homem sem brio,
Amante do
cativeiro,
Somos terra,
somos gado,
Que Dom
Pedro seja herdeiro?
Quando Deus
formou o mundo,
Qual foi o
rei que deixou?
Não deixou
um só Adão,
De todos
progenitor?
Deste mesmo
Adão não fez
Deus no Céu,
para seu mando,
Uma mulher
para ele
Produzir o
gênero humano?
Desses
pobres camponeses
Produziu
todas nações,
Algum dia
eles tiveram
Fidalguias
ou brasões?
Onde foi Bragança
haver
Esse seu
sangue ilustrado?
Só se foi
por outro Adão
Que por Deus
não foi deixado.
Só se dessa
descendência
De gente que
Deus não fez,
Saiu toda a
jerarquia,
Condes,
duques e marquês.
Abra os
olhos, homem tolo,
Adore o Deus
verdadeiro,
Aquele que
por nós morreu
Como
inocente cordeiro.
Se esse rei
é tão real,
Como adulas
a Dom João?
Pode este no
morrer
Não cair em
podridão,
Ressuscitar
aos três dias
O rei, filho
de Maria?
C. – Eu cá sigo o rei Davi
Que o mesmo
Deus consagrou.
P. – Isto lá eu não duvido
E também por
isto estou.
Mas quem era
o rei Davi?
Era um pobre
coitado,
Era um
simples pastorzinho
Do rebanho
de seu gado.
Que é do
nosso rei Davi?
Agora só há
tiranos,
Dissolutos,
incivis,
Pelas
vaidades profanos.
C. – Já é tarde, vou andando,
Tenha mão,
seu papagaio,
Você diz
– cadê a tropa
Do coitado
do Pinheiro;
É certo que
lá andei
E que dele
sou soldado...
P. – Perseguiste teus patrícios
Como lobos
defamados;
Nos casais
que tu cercaste
Também foste
carniceiro;
E ajudaste a
tirar
A vida, a
honra, o dinheiro;
Ajudaste a
degolar
Teus irmãos,
mansos cordeiros.
Que
desgraça, seu corcunda,
Entre os
mesmos brasileiros!..
Desprezar os
seus irmãos
Como lobos
carniceiros!
Esta
injúria, seu corcunda,
Reclama o
Deus verdadeiro.
C. – Meu amigo, já estou certo
De quanto me
tem narrado,
Já me pesa
de ter sido
Pra meus
irmãos tão malvado.
Roto o véu
do engano,
Nova vida eu
terei,
Bom patriota
serei;
Podem contar
comigo:
Defender a
nossa pátria
E morra o
nosso inimigo.”
Em relação ao grande fato da
Independência não se nos deparou outra composição qualquer.
Pode ser que
tenha existido; mas anda de todo esquecida.
As guerras
dos Mascates, dos Emboabas, dos Palmares, nada inspiraram
que se tivesse conservado na tradição.
O mesmo
aconteceu com a Inconfidência, a revolução de
Em 1879
encomendamos a nosso grande e saudoso amigo Carlos de Koseritz, fazer estudo e
colheita da poesia popular rio-grandense para incluir na coleção dos Cantos
Populares do Brasil que andávamos preparando.
Entre muitas
quadrinhas que nos enviou, nada encontramos acerca da famosa revolução.
A revolta
pernambucana de 1824 produziu, como já advertimos, os versinhos relativos ao Filgueiras.
São estes:
“–
O que tens, Joaquim Inácio,
Que de cores
vens mudado?
– Meu
cunhado Gonçalinho
Foi preso
para o Escalado.
O Filgueira
assim que soube
Mandou
chegar seu cavalo,
E correu à
rédea solta
Em busca do
Cantagalo.
Foi chegando
e foi dizendo
Com a sua
mansidão:
– Quero
meu sobrinho solto
Que o vejo
na prisão.
Responde o
cabo da tropa,
Por ser
homem malcriado:
– Seu
sobrinho há de ser solto
Depois de eu
morto e picado.
Respondeu
Joaquim Inácio
Com a sua
opinião:
– Meu
tio, peça favor
A gente, a
tapuio – não.
Puseram uma
pistola
Nos peitos
de Joaquim Inácio;
A bala
entrou pela frente,
Foi sair no
espinhaço.
Filgueira,
com esta ação,
Ficou muito
estomagado,
Passou mão
ao bacamarte
Pra derrubar
o Escalado.
O mulato
João de Brito,
Mulato de
estimação,
Nos galhos
das marmeleiras,
Lá deixou
seu mandrião.
– O
que tens, José Luís,
Que de
trajes vens mudado?
– Com
o repuxo do Filgueira
Saí todo
escangalhado.”
De D. Pedro II, que foi imperador do Brasil por sessenta
anos e o governou durante cinqüenta com espírito dez de justiça verdadeiramente
raro, apagados são os vestígios que nos ficaram até hoje no cancioneiro
popular.
“Atirei
um limão n’água,
De pesado
foi ao fundo;
Os peixinhos
responderam:
Viva Dom
Pedro Segundo.”
Esta
ouvimo-la em Pernambuco e no Rio de Janeiro. No Recife coligimos estas:
“Chover,
chover,
Ventar,
ventar...
É nos braços
de Maria
Que eu me
quero acalentar.
Amor, amor,
Querido
amor,
É de nosso
Imperador...
Todo mundo
me dizia
Que o
Horizonte não saía,
Com prazer e
alegria.
Amor, amor,
Querido
amor,
Este povo
brasileiro
É de nosso
Imperador.”
São pequenos
trechos quase sem significação, rápidas referências ao monarca, provindas dos
improvisadores e menestréis das cidades.
Das grandes
massas incultas vinha o silêncio, a indiferença.
Os garotos
do Rio de Janeiro produziram quadrinhas, das quais coligimos estas duas há
muitos anos:
“Quando
ia hoje
Pela Rua das
Violas,
Pedro
Segundo
Deu um tiro
de pistola.
Quando ia
hoje
Pela Rua do
Sabão,
Pedro
Segundo
Deu um
grande escorregão.”
Ninguém se
admire deste desrespeito para com o grande imperador, porque outras ilustres
personagens não foram mais felizes.
Deodoro da
Fonseca, o soldado cavalheiresco, assinalado na Guerra do Paraguai pelos mais
heróicos feitos, Deodoro – o fundador da República, nada inspirou à musa
anônima, além destes versinhos que integralmente reproduzimos:
“Indo
esta tarde
Passear pela
cascata,
Encontrei o
Deodoro
Namorando
uma mulata.
A moça do
Deodoro
É uma grande
caloteira,
Mandou fazer
um vestido,
Não pagou a
costureira.”
Já se vê,
portanto, que não foram só os nossos grandes tipos da história da colônia que
nada, ou quase nada, inspiraram às musas populares.
Os homens e
os feitos da fase imperial e dos dias da República acham-se em idênticas circunstâncias.
A revolta da
armada, que trouxe, durante seis meses, a vida nesta cidade em condições
anormalíssimas, inspirou apenas esta quadrinha que devotamente recolhemos:
“Floriano
não vai ao mar,
Custódio não
vem à terra,
Faça favor
de dizer
Não é grande
coisa e quase nada significa. Qual a razão dessa pobreza, desse quase mutismo
da inspiração anônima do povo brasileiro, pelo que toca à sua história
política?
A resposta
não é difícil.
Desde os
primeiros tempos da constituição de nossas populações, estas se viram sempre
segregadas em grupos, esparsas e separadas entre si. Circunstância era esta já
por si suficiente para dificultar a formação de uma forte consciência coletiva,
um vivaz sentimento de nacionalidade. Não foi só isto: uma administração
compressora e rapace habituou o nosso povo, desde suas origens, a considerar
com maus olhos a governança e tudo que com ela se relaciona. Os chamados
aspectos políticos não podiam escapar a esse desprestígio, a essa falta de
simpatia.
As massas
mais incultas, que são as que produzem o folclore, nunca se acharam entre nós
presas de grandes paixões gerais, dessas que abalam de alto a baixo a alma dos
povos.
Arredadas de
toda e qualquer co-participação na gerência de seus destinos, habituaram-se a
ver os negócios nacionais manipulados na Capital pelo grupo a isto afeito desde
os primórdios.
Lisboa, em
primeira e última instância, durante três séculos, com a sucursal da Bahia, ao
princípio, e do Rio de Janeiro, depois, teve sempre o cuidado de conter as
gentes brasileiras nas malhas da administração asfixiante do antigo regime
absoluto.
O Império,
por mais que se prodigalizasse em leis liberais, já encontrara a massa geral da
população do país demasiado acostumada a ser dirigida por toda a parte por
espertos politiqueiros, facilmente mantidos pela centralização do sistema.
A Capital se
encarregava de pensar politicamente por toda a gente. As populações das
diversas zonas do país, até hoje, permaneceram nesse alheamento, sabiamente
mantido pelos doutores em politicagem, pelos mestres no fabricar eleições. A
poesia emudeceu.
Nas cidades,
capitais dos estados, existe, por certo, grande efervescência política, mas
sempre no sentido dos arranjos e proventos que possam tirar os que dela vivem.
Nesses meios
a poesia popular não passa de grosseiros desabafos da garotagem inteligente.
Nos altos
sertões, as gentes pastoris, na grande liberdade do seu viver, ao contato
direto da natureza, nos largos descampados, circulados pelas belíssimas
perspectivas das serranias longínquas, são as únicas que ainda descantam as
façanhas dos seus heróis.
Estes são,
porém, os bandidos famosos por seus feitos de valentia, ou os bois, célebres
por sua destreza.
Nas
produções da musa popular a poesia, a música e a dança se entrelaçam por tal
modo, que muitas vezes é impossível dizer qual delas predomina; dificílimo é
marcar nelas o momento preponderante, como dizem os alemães. Recentemente
coligi oito peças nas quais se me depara o fato aludido.
Foram
colhidas no Rio de Janeiro, mas da boca de pessoa natural da cidade de
Laranjeiras (Sergipe) e ali aprendidas.
São: O
Jogo ou Folguedo da Trança, O Jogo ou Brinquedo do Maracujá, A
Sereia, Belas Frutinhas, O Engenho, A Faisca, O Ferreiro, A Geraldina.
Nas cinco
primeiras a música e a dança entram em partes que se poderiam dizer iguais; nas
três últimas os versos são rapidíssimos e mero pretexto para a dança que
predomina.
Depostas
aqui no papel, as letras dessas funções não têm graça nenhuma; em seu meio
natural, cantadas e dançadas, constituem encantadores divertimentos populares.
Descreverei
um por um, mas lhes ficarão ausentes a alma que está nos cantos e bailados.
O Folguedo
da Trança é um apêndice dos reisados do Natal e Ano-Bom. À casa,
onde vão cantar, mandam moças uma vara enfeitada, numa das extremidades da qual
há um suporte que a faz conservar-se em pé e na outra estão presas dez longas
fitas de cores diversas. A vara é colocada na sala e fica oculta por uma
cortina. À hora aprazada, surgem dez moças, lindamente enfeitadas, cantando à
porta da sala, pedindo licença para entrar. Correm, depois, a cortina e surge a
vara com as longas fitas pendentes. Cada rapariga segura numa fita e vão
cantando a fazer com elas uma complicada trança. Há sempre um grupo que faz de coro.
À entrada cantam todos:
Canto:
“Senhora
dona da casa,
Doce creme
de virtude,
A mais bela
juventude.
Coro:
Bote para
fora
Queijo,
caruru,
Vatapá,
canjica,
Arroz e
peru.
Canto:
Viva o dono
da casa,
Viva a nossa
função
O sincero
das palmas,
A noite de
São João.
Coro:
Bote para
fora
Queijo,
caruru,
Vatapá,
canjica,
Arroz e
peru.”
Canto:
“A
nossa amizade
Vai sempre
crescendo
Na trança de
fitas
Que vamos
tecendo...
Coro:
Viva o dono
da casa,
Viva a nossa
função,
O sincero
das palmas,
A noite de
São João.
Canto:
Vamos todas
juntas,
Correndo
contentes,
Saudar as
pessoas,
Que aqui
estão presentes.
Coro:
Viva o dono da
casa, etc.
Canto:
São cantos
da roça,
São flores
agrestes,
São penas
das asas
Dos anjos
celestes...
Coro:
Viva o dono
da casa, etc.”
Vão
cantando, assim, versos, mais ou menos adequados, e o respectivo estribilho,
até findarem a trança.
Em meio das
quadrinhas puramente populares introduzem algumas de evidente origem literária,
que se popularizaram e entraram para o repertório geral. Deste número é aquela
última:
“São
cantos da roça,
São flores
agrestes, etc.”
O Brinquedo
do Maracujá é também um apêndice aos reisados e cheganças. Nos Cantos
Populares do Brasil (2ª edição, pág. 173) dei uma versão sergipana algum
tanto diferente da que vou agora referir. Essa versão, já publicada, anda
também inserta, por dádiva minha, em coleções de Melo Morais Filho. A este
escritor comuniquei, em tempo, várias canções e poesias populares; entre outras
contam-se a Nau Catarineta, a Borboleta, o Pica-Pau, os Mouros,
os Marujos, etc.
O Brinquedo
do Maracujá consiste em coisa muito simples; o principal nele é a música,
que, infelizmente, não sei reproduzir.
Numa sala,
enfeitada de arbustos, entre os quais se nota um fingido pé de maracujá, quando
não é uma grande ramada dele próprio, surge uma rapariga, belamente vestida de
branco e adereçada de laços vistosos. Vai faceiramente, em passos medidos,
fingindo que apanha maracujás dos arbustos que tem em sua frente e canta com
denguices.
Há sempre,
corno na folgança acima referida, um grupo que representa o coro.
Canta a
moçoila com requebros:
Canto:
“Senhores,
me dêem licença,
Licença me
queiram dar,
Venho pedir
licença
Pra apanhar
maracujá.
Coro:
Ecô...
ecô!...
Apanhar
maracujá...
Maracujá
perruxe
No balaio de
sinhá...
Canto:
Senhores, me
dêem licença,
Licença me
queiram dar,
Que eu vou
buscar minha irmã
Pra apanhar
maracujá.
Coro:
Ecô...
ecô...
Apanhar
maracujá...
Maracujá
miúdo
No balaio de
iaiá...
Canto:
Senhores, me
dêem licença,
Licença me
queiram dar,
Que os
baianos gostam muito,
Por ser doce
singular...
Coro:
Ecô...
ecô...
Apanhar maracujá,
etc.
Canto:
Minha irmã
me chamou
Pra apanhar
maracujá,
Senhores, me
dêem licença
Licença me
queiram dar...
Coro:
Ecô...
ecô...
Apanhar
maracujá, etc.”
E prossegue
neste estilo; mas a dança e a música valem tudo.
São coisas
que só vistas e gozadas in loco, em meio das gentes provincianas nos
seus dias de alegre expansão. Na dança da Sereia a festa é ainda
mais animada.
Andam a
percorrer as ruas moças e rapazes, conduzindo uma bela menina, vestida de
sereia. Chegam a uma casa, pedem licença, entram, deixando fora, à espera, a
sereia. Cantam, então, em coro, convidando-a para entrar e dançar.
Rompe o
coro:
“Ó,
minha sereia,
Vem, entra
pra dentro,
Que o dono
da casa
Dá
consentimento.”
A sereia
entra, cantando uma melopéia sentidíssima:
“Não
têm dó do meu penar!...
Coro:
Quem traz a
sereia,
Traz bom
cabedal,
Traz o rei
dos peixes
Das ondas do
mar...
Sereia:
Coro:
Ó, minha
sereia,
Que vem do
sertão,
Quando ela
dança,
Ganha
patacão...
Sereia:
Coro:
Ó, minha
sereia,
Que vem da
Estância,
Como ela
brinca
Com tanta
arrogância!
Sereia:
Coro:
Ó, minha
sereia,
Que vem do
Penedo,
Quando ela
brinca,
Ela brinca
sem medo...
Sereia:
Coro:
Ó, minha
sereia,
Que vem da
Bahia,
Como ela
dança,
Com toda a
alegria...
Sereia:
Vocês se
admiram
De me ver
cantar,
Quanto mais
se vissem
Sereia no
mar...
Sou sereia,
pesco peixes,
Nestes mares
tenho fama;
Na minha
cabeça
Vereis uma
dama.
Sou dama,
sou de Cupido,
Piso
descalça nas flores;
Batam
palmas, digam viva!
Morra quem
não tem amores.”
Batem todos
palmas e a sereia sai, acompanhada do grupo que representa o coro.
A pessoa,
que me repetiu todos esses versos, sabe-lhes as respectivas solfas. A da Sereia
é belíssima; é uma das mais interessantes amostras da música popular que
tenho ouvido.
O folguedo
das Belas Frutinhas é singelíssimo. Um par de meninos, elegantemente
vestidos, entra na sala; a menina traz uma cestinha cheia de frutas; vai
andando pela sala, aproximando-se dos assistentes, fingindo vender as frutas.
Cantam:
Ela:
“Que
belas frutinhas
Eu ando
vendendo...
Ele:
Bela
pastorinha,
Por ti ando
sofrendo.
Ela:
Que belos
cajás,
Que sabem
cheirar...
Ele:
Venha cá,
menina,
Que os quero
comprar...
Ela:
Que lindas
goiabas,
Mais belas
não há...
Ele:
Deixe ver,
menina,
Que as quero
comprar!
Ela:
Que belas
frutinhas
De tantos
primores!
Ele:
Venha cá,
menina!
Serei teus
amores...
Repetem,
sempre com muito chiste, versos iguais a estes, sendo muito aplaudidos; porque,
para tais folgares, são escolhidos os meninos de belas vozes e ar
desembaraçado.
O Engenho
entra na categoria dos reisados, como o Antônio Geraldo, o Cego
e outras. É muito simples, como são todas as criações populares. Um grupo
de rapazes e raparigas sai a representar pelas casas. Entrados na sala,
destaca-se do grupo uma figura que representa o engenho ou moenda, voltando-se
sobre si mesma. Canta:
A figura:
“–
Deus lhes dê mui boa noite.
Coro:
– Oh!
engenho!
– Boa
noite lhes dê Deus,
– Oh!
engenho...
–
Qu’eu não sou mal ensinado,
– Oh!
engenho...
– Ensino
meu pai me deu...
– Oh!
engenho...
– Meu
engenho de vapor,
– Oh!
engenho...
– Faz
açúcar, não faz mel,
– Oh!
engenho...
– À
falta de um caldeireiro,
– Oh!
engenho...
– Que
está mal com a mulher.
– Oh!
engenho..
A figura que
faz de engenho, canta, como se vê, quadrinhas, que são, de verso,
entremeadas pelo coro com o estribilho – Oh! engenho!
Aqui vão
algumas delas:
“Catarina,
minha negra,
Está na
cozinha de branco,
Cozinhando
um caranguejo,
Pegado ali
no barranco.
Minha
senhora dos ovos,
Ou me venda,
ou me dê um,
Que eu estou
de amores novos,
Não posso
estar em jejum.
Meu engenho
de vapor
Faz três
dias que não mói...
Moa de
cana-caiana;
Desta banda
é que me dói.
Meu engenho
está quebrado,
Mandei
chamar o doutor
Para ver
esta doença,
Para curar
esta dor...
Tudo isto no
meio de trejeitos cômicos que provocam grandes gargalhadas.
Em todas
essas folganças a música, o verso e a dança equilibram-se, entram em pé de
igualdade como adverti.
Agora vamos
apreciar três danças, nas quais são os versos e as toadas puros pretextos para
o sapateado.
A mais
curiosa é a Faísca.
Um grupo de
raparigas, acompanhadas de muitas pessoas que fazem de coro, apresenta-se.
Os assistentes e a gente do coro fazem roda; o coro, já adestrado, canta:
“Tira
a faísca do pé, ó – Fulana”
dizendo o
nome de uma das dançarinas.
Esta sai ao
centro e inicia a dança, sempre ao tom de
“Tira a
faísca do pé, ó...”
A dançarina
finge, efetivamente, tirar alguma coisa dos pés.
É
inacreditável a destreza, o requebrado, a variedade de jeitos, gestos e
posições que toma a dançarina, ao som de um tão simples estribilho. Este,
quando o coro pressente que a rapariga está cansada, brada por outra, que surge
logo a tomar o lugar daquela que se retira.
Deve haver
nisto tudo longínqua influência berbere e árabe, que recebemos dos
colonizadores portugueses.
Na dança do Ferreiro
a coisa é diferente.
São dois
grupos de rapazes e moças que dançam, movendo-se em sentido contrário.
Cantam
quadras, ponteadas sempre pelo coro com o estribilho – Dom... dom...
Assim:
“Ó
ferreiro, ó ferreiro,
Dom...
dom...
Oh! que
maldição!
Dom... dom...
Quando tem o ferro.
Dom...
dom...
Falta-lhe o
carvão...
Dom...
dom...
– Ó
ferreiro, ó ferreiro,
Dom...
dom...
Bate o malho
com vigor,
Dom...
dom...
Quando a
gente se descuida,
Dom...
dom...
O
ferreiro... já malhou.
Dom... dom...
E assim por
diante, sempre a dançarem, com muita animação, combinando passes e requebros os
dois grupos em sentido inverso; quando um avança para a frente, o outro recua
paralelamente, como igual só vi na dança das taieiras, no Lagarto.
Esta dança,
ao que me diz a minha informante, substituiu em Laranjeiras e outras terras
sergipenses a antiga do – Vira o Beco.
Nesta a
cantilena era por este modo:
“Pelo
olho da rua,
Teté, vira o
beco...
Fugindo
depressa,
Teté, vira o
beco...
Pela porta
do meio,
Teté, vira o
beco...
Pela porta
da frente,
Teté, vira o
beco...
Torna a
revirar,
Teté, vira o
beco...
Foge, foge
sempre,
Teté, vira o
beco...”
Esta caiu
O coro
– canta:
“–
Batam palmas, digam vivas,
À Geraldina
desta função;
Seja bem
aparecida,
Geraldina do
coração.
– Lá
vem a lua saindo
Por um canudo
de prata,
Vai ferindo,
vai matando
O coração
daquela ingrata.
– Batam
palmas, digam vivas, etc.
– Lá
vem a lua saindo
Por um
enorme canudo.
Uma velha
descascada,
Um velho com
casca e tudo.
– Batam
palmas, digam vivas, etc.
– Da
Bahia me mandaram
Um tabaréu
de presente,
Amarrado na
cintura,
Fazendo
careta à gente...
– Batam
palmas, digam vivas, etc.
– Da
Bahia me mandaram
Um presente
num balaio,
Quando fui a
descobrir
Era arroz de
papagaio...
– Batam
palmas, digam vivas, etc.”
E vai por diante a brincadeira:
sempre a dança, revezando-se os pares e o coro a repetir quadras populares,
como as que ficam citadas.
E já agora
não me despeço do assunto, sem depor aqui uma nota muito a propósito.
Um erro
muito repetido entre os críticos, principalmente portugueses, que se têm
ocupado da poesia popular brasileira, é confundirem-na com certo gênero a que
entre nós se deu o nome de modinhas.
Ora
consideram as modinhas como a nossa poesia popular por excelência; ora as dão
como a mais perfeita encarnação de nosso lirismo; não raro chegam a dá-las como
a origem mesma desse lirismo. Coisas todas estas erradas. Teófilo Braga e José
Antônio de Freitas repisaram todos esses erros.
Não é raro
ler coisas assim: “A modinha é a mais rica das formas por que se
manifesta a inspiração poética de nosso povo.”
É isto
inexato. A modinha nem é a forma mais rica do nosso lirismo popular, nem é a
forma mais perfeita de nosso lirismo culto.
A forma mais
rica da poesia popular são os romances, as xácaras, as orações,
os reisados, as cheganças, os versos gerais. O povo
não faz, nunca fez modinhas.
Por outro
lado, as mais extraordinárias manifestações do gênero lírico dos grandes poetas
brasileiros não consistiram jamais em modinhas.
Pode-se
dizer que das faladas modinhas existem duas espécies: uma é de lundus e canções
devidas a poetastros, que tentaram, sem gênio e desastradamente, imitar as
criações populares; mas tais produções híbridas nem são a genuína poesia
anônima, filha do gênio da raça, nem são obras literárias de valor. Constituem
um gênero secundário em que se deliciam os Catulos Cearenses de todos os
tempos.
Outra é a de
leves produções de nossos melhores líricos, postas em solfa por músicos de
talento.
São as
melhores. Deste número quem já não terá ouvido cantar o – Meu Anjo,
Escuta – de Gonçalves Dias, o – Não Vês Quantos Passarinhos
– de Fagundes Varela, os – Anjos do Mar – de
Álvares de Azevedo, o – Gondoleiro do Amor – de Castro
Alves, o – Eu Amo o Gênio ou Neste Mundo Juncado de Enganos
– de Tobias Barreto? Quem não as terá ouvido e também poesias de
Bernardo Guimarães, Aureliano Lessa, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e de
quase todos os nossos melhores poetas?
Nem nos pastiches
dos poetastros, nem nos belos versos dos bons poetas, ninguém se lembrará,
com razão, de enxergar a poesia popular.
Dá-se apenas
o seguinte: quando nas modinhas de origem puramente literária, os versos são
belos e singelos e a música é simples e boa, essas canções correm de boca em
boca e se popularizam. Daí é que proveio o erro dos críticos: tomarem a
poesia bárdica popularizada pela genuína poesia popular.
Nos Estudos
Sobre a Poesia Popular Brasileira já tinha prevenido os espíritos contra
esse erro nestas palavras: “As modinhas brasileiras são, por assim
falar, a forma bárdica de nossa poesia popular. São criação de autores
conhecidos que, inspiradas no lirismo tradicional do povo, facilmente se
espalharam e se tornaram quase anônimas.
“É
impossível dar um catálogo das principais, quando Domingos Caldas Barbosa só
por si escreveu uma coleção inteira. Vários repertórios têm sido feitos e os
principais são: A Viola de Lereno, A Cantora Brasileira e A Lira do
Trovador.
“As
modinhas, ainda que muito interessantes, não se devem confundir com a genuína
poesia popular.”
O erro,
porém, corre ainda aí as ruas impávido.
O BRASIL
SOCIAL E OS
ELEMENTOS QUE O PLASMARAM OS MÉTODOS E PROCESSO DA ESCOLA DE LE PLAY
Duas
especiais circunstâncias puseram-me no encalço das idéias que vão ser expostas:
a observação atenta dos fatos passados no período republicano, que se vai
atravessando, e o conhecimento mais íntimo das doutrinas e ensinamentos da
chamada escola da Ciência Social – de Le Play, H. de Tourville,
Ed. Demolins, P. Rousiers, A. de Préville, P. Bureau e tantos outros, aos quais
se devem, a meu ver, os melhores trabalhos existentes sobre a índole das
nações.
A República
teve a vantagem de revelar este querido povo brasileiro tal qual é, entregue a
si próprio ou aos seus naturais diretores, o que vem a ser a mesma coisa.
Os vícios e
defeitos de sua estrutura social tornaram-se patentes aos observadores
imparciais e cultos.
Até a
Independência, o Brasil tinha aparecido sempre sob a tutela da realeza
portuguesa que o havia dirigido, guiado, afeiçoado, por assim dizer, ao sabor
de seus planos e desejos, até onde governos podem influir na estrutura das
massas sociais sobre que lhes cumpre velar.
No regímen
passado, igual tutela tinha sido exercida pela monarquia nacional que se
poderia considerar, em mais de um sentido, uma continuação, um prolongamento da
realeza-mãe. Poder-se-ia dizer que havia uma força estranha a estorvar o povo
no seu andar normal. Hoje este obstáculo jaz desfeito. Não existe mais tal
embaraço ou tal desculpa. O observador não encontra tropeços de caminho.
As doutrinas
do evolucionismo spenceriano tinham-me posto na pista do desdobramento dos
vários ramos da atividade humana; tinham-me despertado a atenção para as
formações díspares dos povos mestiçados, nomeadamente os da América do Sul, e,
por esse caminho, havia sido conduzido às conclusões a que cheguei em todos os
meus escritos acerca de minha pátria. Os processos da escola de Le Play
fizeram-me penetrar mais fundo na trama interna das formações sociais e
completar as observações exteriores de ensino spenceriano. É uma confirmação,
em última instância, de conclusões obtidas por outros meios e estradas.
A história
destes dezoito anos de República tem servido, aos espíritos sem preocupações
mesquinhas, para aclarar toda a história colonial, regencial e imperial do
Brasil. O período da Regência sobretudo se esclarece com uma intensa luz nova. A coesão, a unidade,
a estabilidade constitucional do país, a íntima organização da nação eram,
grande parte, puramente ilusórias. A República manifestou o Brasil tal qual é:
e, por isso, é o governo que lhe convém, com a condição de ser vazado em moldes
conservadores, num unitarismo contido por um forte governo central. É o que se
vai ver na luz do sistema de Le Play e Henri de Tourville.
Claro é que
de tal doutrina não tenho a fazer aqui uma exposição esmiuçada: apenas as
linhas principais para compreensão do leitor.
Os homens cultos dentre os nossos médicos,
engenheiros, magistrados, advogados, oficiais de curso de terra e mar, que são
os verdadeiros intelectuais do Brasil, têm quase geralmente andado ao
par doutras doutrinas, as do positivismo, do evolucionismo, do socialismo, por
exemplo, e não têm lançado as vistas sobre os belos trabalhos da escola de Le
Play, cujo nome uma ou outra vez há sido citado com evidente desconhecimento de
seu ensino. Que eu saiba, é esta a primeira vez que entre nós se faz um apelo
mais sério a esse método e sistema. Não é que lhe aceite todas as idéias.
Sobre o
conceito de raça, verbi gratia, a célebre escola, suponho eu,
confunde o sentido antropológico com o sociológico; porque parece não ligar
importância ao primeiro e só admitir o segundo. Figura-se-me isto uma simples
ilusão francesa. Também não lhe aceito de todo a classificação dos fenômenos
sociais, que me parece mais uma nomenclatura de problemas e questões.
Como quer
que seja, os méritos da escola, a despeito desta e doutras divergências, se me
antolham preciosíssimos para quem quer conhecer a fundo um país qualquer e a
gente que o habita.
Em primeiro
lugar, lança mão, para tal fim, de processos de acurada observação local,
estudando em monografias especiais cada região do país sob as mais variadas
faces, conforme uma enumeração de questões, que são outros tantos aspectos
fundamentais da vida social. Só depois de reunida grande massa de documentos do
gênero é que os grandes mestres do sistema se atrevem a formular quadros gerais
desta ou daquela nacionalidade e estabelecer as leis de seu desenvolvimento.
Neste gênero são dignos de detida leitura os livros de Edmond Demolins, P.
Rousiers, Poinsard e outros.
A enumeração
ou classificação dos problemas sociais deve partir dos fatos mais íntimos e indispensáveis
à vida, sem os quais nem a própria subsistência da gente a estudar seria
possível. Tais são os meios de existência, que se chamam lugar, trabalho,
propriedade, bens móveis, salário, economias ou poupanças. Entre
estes seis grupos de meios de existência, que dão lugar a variadíssimas
questões, como se pode ver em Henri de Tourville –
O estudo
destes assuntos, no tempo e no espaço, tem dado lugar a algumas conclusões
estáveis. Destarte, a humanidade mais ou menos em conjunto tem atravessado três
grandes idades sociais: – a idade das produções espontâneas e dos aparelhos
ou instrumentos manejados pelo braço, a idade das máquinas movidas pelos
animais, pelos ventos, pelas águas correntes, a idade do
carvão-de-pedra, do vapor e da eletricidade, aplicados à produção das
subsistências e ao serviço dos transportes.
As
revoluções operadas na vida social por essas várias alterações introduzidas no
regímen do trabalho são da mais considerável importância.
A família,
estudada quer historicamente, quer na atualidade, apresenta quatro modalidades
típicas, do maior valor para quem quiser compreender a índole das sociedades a
que servem elas de base – uma sociedade vale pelo que vale nela a
família. Os quatro tipos são: família patriarcal, família quase-patriarcal,
família-tronco (souche), família instável, aceitando as modificações feitas
nas doutrinas de Le Play por seus discípulos.
O velho
mestre só tinha classificado a família em três tipos e acertadamente foi
corrigido neste ponto. Eis a definição das quatro modalidades, conforme
Maurício Vignes: “A família patriarcal é aquela na qual os pais de
não pensam em preparar seus filhos para que eles venham a criar uma posição
livre; porque a extensão do solo disponível, o fraco crescimento da população e
das necessidades permitem aos filhos ficarem na indivisão. Quando estas circunstâncias,
que facilitam a vida em comum nos domínios paternos, vêm a desaparecer, quando
o número dos casais, reunidos em um mesmo sítio, fica fora de proporção com a
produtividade das terras, ou das oficinas de trabalho, quando o equilíbrio
entre as subsistências que estas produzem e a população que nelas reside é
roto, é preciso que algumas famílias se destaquem. Limita-se assim a família
patriarcal a cinco, ou quatro, ou três casais e seus filhos. Um dia, sob o
impulso das mesmas causas, a família se reduz a dois casais, – o do pai
e o herdeiro escolhido para continuador. Estamos assim em face da família
quase-patriarcal. A transmissão integral da oficina de trabalho a um
só filho é, neste caso, com efeito, um vestígio da transmissão integral em proveito
de todos; a transmissão individual substituiu a transmissão integral coletiva.
Os filhos que não herdam em bens recebem sua cota em dinheiro, mas como não
foram criados com o pensamento de deixar a terra natal, nada os prepara no
sentido de vencerem na luta pela vida. Saídos de uma comunidade, continuam a
contar com ela, a apelar para ela em seus embaraços e em seus desânimos.
“A família-tronco
(souche) não é, como a precedente, uma redução da família patriarcal. As
sociedades que têm este gênero de família por base, as sociedades de
formação particularista, se originaram nas costas da Escandinávia, em
conseqüência da invenção da barca a velas e das condições de iniciativa e
isolamento impostas a essas gentes enérgicas pela pesca marítima. Tal família
funda-se na educação individualista dada aos filhos. Esta educação os leva, às
vezes, a abandonar o pai para melhor trabalhar, empregar melhor as próprias
forças. Às vezes, um filho consente em ficar, sob a promessa de lhe ser
integralmente transmitida a oficina de trabalho. Outras vezes recusa; porém,
até neste caso, a família não perde o seu caráter fundamental; porque o
isolamento dos pais e a saída de todos os filhos originam-se do desenvolvimento
das qualidades de iniciativa e de coragem dos últimos e tendem ao progresso da
atividade geral e das virtudes cívicas. Na família-tronco, os filhos, colocados
entre dois deveres, o de piedade filial e o de labor social, sacrificam o
primeiro, em conseqüência, aliás, dos incitamentos dos próprios pais, que renunciam
a guardar perto de si seus descendentes, reclamados pela pátria e pelo
trabalho. E, pois, se o indivíduo voluntariamente se desprende da família, é
para consagrar mais intensamente sua atividade ao aumento das riquezas e das
forças gerais.
“Os hábitos,
oriundos do espírito da família, cedem o passo aos costumes impostos pelo
devotamento à sociedade.
“Não é
em tão boas razões que se funda a família instável. Nesta faltam dois
característicos essenciais, existentes na família precedente: falta a educação
viril dada aos filhos; e, além disso, se não existe a transmissão hereditária
integral, não é porque os filhos recusem prestar-se a ela, por trazerem em si
as largas esperanças e os vastos pensares, cuja realização é incompatível com o
apego à profissão paterna, não; é porque a transmissão integral se tornou ou
inútil pelo retalhamento da propriedade, ou impossível em conseqüência do
influxo dissolvente da legislação e do princípio da partilha igual
A família
instável deriva, portanto, da falta de espírito familiar, da falta de domínios
aglomerados e do princípio da igualdade, em espécie, imposta por uma legislação
retrógrada.”
Estes quatro
gêneros de família, oriundos de certas e determinadas particularidades étnicas
e históricas e, muito de perto, de condições especiais de lugar, trabalho e
propriedade, dão origem a duas categorias de sociedades humanas: as sociedades
de formação comunária (communautaire) e as sociedades de formação
particularista.
As sociedades
de formação comunária, expressão esta que se não deve confundir com o termo
comunista no sentido que hoje lhe dá certa ramificação do moderno
socialismo, compreendem as diversas variedades de gentes que procuram resolver
o problema da existência, apoiando-se na coletividade, na comunhão, no grupo,
quer da família, quer da tribo, quer da classe, quer dos poderes públicos, do
município, da província, do Estado. As de formação particularista encerram
as diversas variedades que buscam resolver o problema da existência,
apoiando-se unicamente na energia individual, na iniciativa privada, e tiram o
nome do fato de nelas conservar o particular toda a independência em relação
ao grupo.
Pondo de
parte as sociedades simples de caçadores e pescadores selvagens, cujo
característico principal é não ter família, as sociedades complexas, em
cujo número, abrindo a lista, devem ser contadas as gentes pastoris do
Oriente e os pescadores progressivos da Escandinávia, pertencem a uma ou
a outra das duas categorias citadas. As comunárias, que são em muito
maior número do que as particularistas, apresentam três modalidades
típicas, conforme a espécie de família que lhes serve de apoio: comunária de
família, tendo por fundamento a família patriarcal; comunária de família
e de Estado, tendo por base a família quase-patriarcal; comunária de
Estado, firmada na família instável. As duas primeiras predominam no
Oriente asiático e europeu; a última no Meio-Dia ocidental da Europa e na
América do Sul.
As
sociedades de formação particularista apresentam duas modalidades: ou
dá-se a escolha de um continuador do patrimônio e da oficina de trabalho, o
que, além da forte educação moral e do grande espírito de iniciativa, faz a
sociedade revestir-se dum belo aspecto patriarcal no largo sentido; ou, com a
plena liberdade de testar da parte dos pais, os filhos nem sequer pensam em
lhes suceder, contentando-se com as qualidades de caráter que herdam. A
primeira modalidade é corrente na Europa escandinava, na Inglaterra, na
Holanda, na planície saxônica; a segunda nos Estados Unidos.
Sob o ponto
de vista específico do trabalho, que vem a ser a grande mola que move e afeiçoa
as sociedades humanas, cumpre não perder de vista que várias têm sido as fases
atravessadas pela espécie, partindo ela do simples apanhamento de
substâncias, que se prestavam ao alimento, e dos produtos espontâneos da caça
e da pesca, que demandavam rudimentares esforços, passando pela recolta
ou coleta da arte do pastoreio e das produções frutíferas
arborescentes, seguindo pela cultura maior ou menor, até chegar à cultura
intensa e vastíssima e às indústrias complicadas dos tempos hodiernos.
Cada um
destes gêneros de trabalho, cada uma destas oficinas de produção, cada uma
destas maneiras de agenciar os meios de existência trazia e traz conseqüências
especiais indeléveis, dificílimas de apagar, porque elas constituem o substratum
íntimo das sociedades.
Claro é, por
outro lado, que a humanidade, tomada em seu todo, ou considerada em seu
conjunto, não atravessou toda ela ao mesmo tempo e de parceria cada uma das
fases dessa gradação. As situações recíprocas dos povos divergem.
A posição do
Brasil, seu verdadeiro estado social, esclarecido com este critério íntimo dos
elementos primários e essenciais da vida, é que me proponho a elucidar.
Infelizmente
só em traços largos e em linhas gerais; porque um estudo regular e completo do
Brasil, sob tal método, exigiria três ou quatro volumes, firmados em duzentas
ou trezentas monografias... que não existem, que estão por fazer...
Seria
preciso estudar acuradamente, sob múltiplos aspectos, cada um dos povos que
entraram na formação da nação atual; dividir o país em zonas; em cada zona
analisar uma a uma todas as classes da população e um a um todos os ramos da
indústria, todos os elementos da educação, as tendências especiais, os
costumes, o modo de viver das famílias de diversas categorias, as condições de
vizinhança, de patronagem, de grupos, de partidos; apreciar especialmente o
viver das povoações, vilas e cidades, as condições do operariado em cada uma
delas, os recursos dos patrões, e cem outros problemas, dos quais, nesta parte
da América, à retórica politicante dos partidos em luta nunca ocorreu cogitar.
E porque a
tal ou qual civilização de que tanto, hoje, infantilmente, nos orgulhamos, é,
no Brasil, em suas manifestações mais elevadas, produto transplantado,
figura-se-me preferível, antes de dividir o país em zonas para examiná-las, dar
logo de princípio notícia certa do estado social dos fatores que constituíram
as atuais gentes brasileiras. São antecedentes históricos, indispensáveis
ao conhecimento íntimo das gerações de
hoje, principalmente se se tiver em vista penetrar na índole de tais
fatores sob o aspecto social e não dar simples e incongruentes de
descrições dos usos externos, que nada quase adiantam e para nada quase
prestam. Outro critério, outro alvo, que outro intuito devem trazer diverso
resultado.
Na 1ª edição
desta História, – já alguma coisa ficou dita acerca do assunto, sob um
ponto de vista muito geral, e não no peculiar sentido específico a que ora se
alude.
É verdade, e
eu não o ignoro, que o bom-tom da crítica, da historiografia, das
dissertações políticas, de tudo, em suma, que se escreve no Brasil a respeito
de coisas da terra, é o de tratar o país e a sua gente como se isto aqui fosse
feito de pedaços da Alemanha, da Inglaterra, da Suíça, da França, no que elas
contam de mais culto, de mais progressivo, de mais adiantado. No geral dos
nossos escritores, das três categorias principais que nos têm andado a iludir e
a que já se fez mais de uma vez alusão, este país não é o Brasil real que o
estudo e a verdade revelam, senão um Brasil fantasmagórico imaginado por eles
para uso de seu incorrigível diletantismo.
Não pode
haver maior inconveniência aos olhos dessa gente do que lembrar o incômodo
problema das origens...
Perturbar a
auto-idolatria de sublime prosápia desses arianos puro-sangue é, perante
eles, praticar um ato da maior indiscrição, do mais acentuado desazo...
Em que pese,
porém, às alterosas pretensões desses despeitados praguejadores, creio ser
possível ainda afirmar não ter sido a ciência inventada para lisonjear-lhes a
vaidade; tem ela outros desígnios.
É ainda
lícito, para conhecer um povo, sondar-lhe as origens, máxime se o problema a
solver é o da exata determinação de sua estrutura social.
Ou se
admitam, ao que me parece mais acertado, os dois significados diversos do termo
raça, o antropológico e o sociológico, ou só se aceite este
último, a questão etnográfica é a base fundamental de toda a história, de toda
a política, de toda a estrutura social, de toda a vida estética e moral das
nações.
E, quando se
queira reduzir toda a extensão do assunto ao que se convencionou chamar de raça
sociológica, maior será a gravidade do problema; porque maiores ficarão
sendo as responsabilidades dos que têm a seu cargo a direção dos povos. Sim; se
o conceito de raça não pertence à história natural do homem, não é um fenômeno
antropológico, e, sim, meramente um produto da história civil, um fato
sociológico, vale isto afirmar que a raça como formação, por assim dizer,
consciente do próprio homem, é um resultado de seleção voluntária, é alguma
coisa que se faz, que se prepara, que se dirige, que se afeiçoa ao sabor dos
desejos daqueles a quem mais de perto cabe a função de organizar e dirigir. No
primeiro caso, trata-se de alguma coisa de inconsciente, de mecânico, de
necessário, cujos defeitos só mui lentamente, por processos adequados, é
possível muito de leve corrigir.
No segundo
estamos em face de um fenômeno histórico, humano, social, cujo processus é
suscetível de ser acompanhado com discernimento e convenientemente modificado
ao sabor dos nossos planos, dos nossos desejos, dos nossos ideais. Num caso, a
vontade humana é quase impotente; noutro é ela o elemento principal, e, se lhe
não agradar o resultado, é porque não soube ou não quis tomar a sério a sua
própria missão. Dos dois significados, pois, do termo, o de conseqüências mais
graves para os diretores de povos novos, como o brasileiro, é exatamente aquele
a que se apegam os pretensiosos que temem ver desfeitos certos cálculos da
vaidade em face da realidade das fontes donde dimanam.
E não é sem
razão indicar aqui em prevenção aos incautos donde e quando proveio essa
idolatria pela intitulada raça sociológica ou histórica em ódio ao verdadeiro
sentido naturalístico da coisa. Foi de certo tempo a esta parte. Vários
escritores, e entre eles até os que no conceito antropológico da raça, como
Taine e Renan, tinham feito repousar a base mais segura de seus estudos de
lingüística, de crítica religiosa, de literatura e de estética, entraram a se
desdizer e a reduzir o mais possível o valor da originária distinção das raças
humanas. Era e é evidentemente um capricho para encobrir e desculpar os
defeitos nacionais. Neste intuito tanto mais têm procurado encurtar o valor do
fato antropológico, quanto têm alargado o do fato histórico. Já alguns têm
chegado a asseverar: não existem e até nunca existiram raças antropologicamente
distintas e livres de mesclas, têm existido e existem ainda hoje apenas raças
historicamente formadas.
Eis aí a
pretensão em toda a sua nudez. Aqui anda erro conscientemente arranjado e
aplaudido. Para chegar a isso preparam de propósito a confusão e chegam ao
ponto de, por sofisma, para o desacreditarem, estender o conceito de raças aos
simples ramos, simples garfos, meras variedades de um grupo étnico qualquer, no
claro empenho de, pela exageração da coisa, mostrar-lhe a sem-razão.
Nada disto,
porém, colhe perante a ciência, severa em seus métodos e estudos. Falam-nos
abusivamente de raça portuguesa, espanhola, francesa, italiana, alemã, inglesa,
holandesa, norueguense, sueca, flamenga, polaca, latina, grega... meras
variedades da raça ariana, para, pelo absurdo, mostrando as condições
históricas em que se formaram essas nações, entre si sempre emaranhadas, chegar
à negação do fato geral: a distinção originária dos anos em face, não dos
membros esparsos do seu mesmo grupo, senão diante de semitas, uralo-altaicos,
malaios, dravidianos, polinésios, negritos, africanos, americanos.
O absurdo é
patente.
O valor da
história ninguém o contesta em bom juízo, na caldeação, diga-se assim, das
populações arianas entre si e até com populações mais antigas na Europa e na
Ásia para a formação das nacionalidades em que veio a dividir-se a grande raça. – Hindus,
persas, helenos, italianos, celtas, germanos, eslavos, primeiro, e, depois,
franceses, espanhóis, portugueses, alemães, ingleses, suecos, norueguenses,
flamengos, holandeses, russos, polacos – são, por certo, produtos da
história, estes muito mais do que aqueles.
Se a
história, porém, explica quase por si só a formação de cada uma das variedades,
por exemplo, em que se dividiram os diversos ramos da grande raça
ariana, já não consegue com igual facilidade dar o porquê da distinção dos
aludidos ramos e muito menos a razão da diferença entre a citada raça
e as outras raças inconfundíveis, que, com ela, formam o conjunto do
gênero humano. Sim, se é relativamente fácil mostrar, historicamente, como se
formaram, verbi gratia, as variedades do ramo latino, portugueses,
espanhóis, franceses, italianos, já não é historicamente fácil explicar por que
latinos e germânicos, celtas e helenos, eslavos e iranianos, hindus e lígures
(admitindo que estes últimos sejam arianos) se distanciaram tanto entre si; e
muito menos cômodo é, pelo mesmo processo, dar os motivos da radical
diferenciação entre os arianos e os malaios e os negros n’África e os
polinésios... Este é que é o fato contra o qual não valem esconjuros, despeitos
e sofismas.
A famosa
ação da história, por mais que se tenha agitado o homem nos últimos dez ou doze
mil anos, que tantos deve haver desde a civilização do Egito, da Caldéia, da
Assíria, de Babilônia e mesmo da China, por mais que tenha destruído e misturado
povo, não conseguiu ainda apagar as inconcussas verdades da antropologia e da
etnografia.
Pode ser que
ainda o venha a conseguir; mas, por enquanto, é cedo para falar nisso... Tal o
forte motivo pelo qual é necessário contar sempre, em nossa própria história,
em nossa própria vida, com o fator etnológico. À espera da mais ou menos
fantástica extinção total das diferenças étnicas entre as nações, a humanidade
ficará talvez, não dez, mas trinta ou cinqüenta ou cem mil anos, e até lá a
antropologia terá sempre razão e direito de se fazer ouvir. Verdade é que, nos
últimos quatro séculos, depois que os europeus correram todos os mares e terras
e se arrogaram o direito de tomar conta das regiões que dizem ocupadas por selvagens
e gentes inferiores, muito tem sido feito, na crença dos sonhadores,
no sentido da indistinção almejada. Olhando-se, porém, de mais perto para o
fato, a grandeza do resultado se reduz a bem pouco, porquanto, não conseguindo
aniquilar o negro e o amarelo, pôde apenas o branco desbaratar
quase por toda a parte o vermelho, pondo, porém, em seu lugar, na
América do Sul principalmente, um variegadíssimo contingente de mestiços, mais
variados de cores, segundo a expressão de Quatrefages, do que a multidão de
gatos que habitam nossos telhados...
Como quer
que seja, e em todo caso, o tal processo de igualização, até onde é possível, é
um processo de morte e aniquilamento direto ou indireto. O direto é
posto em prática pelos anglo-saxônios, a gente colonizadora por excelência; o indireto,
que é o de cruzamento, foi e continua a ser mais do gosto dos
ibero-latinos, o segundo grupo notável de gentes colonizadoras do Renascimento
a esta parte. Pelo primeiro método têm desaparecido quase geralmente os
indígenas dos Estados Unidos e de várias zonas da Oceania.
O mesmo
tentarão fazer, aí, com muitíssimo menor êxito, aos negros da África, logo que
a península estiver quase toda na posse de ingleses e alemães, iguais os
últimos aos seus parentes neste particular. Não é que uns e outros destruam em
diretas e monstruosas hecatombes os selvagens ou os tratem pior do que os
espanhóis e portugueses. É que criam nos países submetidos e conquistados uma
ordem de coisas em que as raças inferiores não se podem manter. Prestam
serviços, como animais de carga, enquanto se formam as cidades, os canais, as
estradas, os portos, a drenagem do solo, o desbravamento das matas, as linhas
telegráficas; porém não cruzam, definham e morrem. Os restos que ficam, como os
negros nos Estados Unidos, vivem debaixo da perpétua suspeição, ilhados da
população branca. É o resultado a que chegam, por via de regra, povos escuros
em contato e sob o domínio direto das gentes xantocróides do Norte da
Europa. Esses belos exemplares humanos de pele alva, louros e olhos azuis são
inconscientemente um fermento de morte para os pobres selvagens. Não assim os
cabelos melanocróides do Meio-Dia. Estes são gentes de tez morena,
cabelos pretos, olhos negros ou pardos, e são já, sem menor dúvida, resultado
de misturas de brancos com berberes, altaicos, mongolóides e negros no imenso
laboratório circular do Mediterrâneo. Inconscientemente, espontaneamente,
sentem-se atraídos pelas Vênus escuras das terras tropicais. Cruzam com elas. É
um processo indireto de riscar povos do livro da vida, apagando-lhes os
característicos étnicos; mas é mais humano e não digo mais meritório, porque
não são coisas filhas de reflexão consciente. E este tem sido o caso dos
portugueses no Brasil por quatrocentos anos, e há de ser e está sendo em grande
escala o dos italianos, que de São Paulo, para onde principalmente têm
convergido, hão de espalhar-se, já cruzados e integrados nas populações da
terra, por todo o planalto central do país.
Enquanto,
porém, este último fato se não dá, releva tratar de nossos fatores étnicos como
eles nos são fornecidos pela história e pela ação diuturna da vida durante os
quatro séculos decorridos da descoberta até agora: portugueses, índios e
africanos. Eis aí os três povos, antropológica e etnograficamente
distintos, que nos têm vindo a forjar, a amalgamar na incude e no cadinho da
história, cujo estado interno e social é preciso sondar, agora por método novo,
para ser possível o exato conhecimento da alma brasileira de hoje.
De nós
outros é que se pode dizer desde já, e cada vez mais se poderá afirmar no
futuro, que vamos formando uma raça histórica, em o sentido geralmente
dado a esta expressão. Um fragmento da bela e valorosa raça ariana, já de si
muito desfigurado e constituindo um caso disso que se chama raça histórica
– os portugueses –, aliou-se a duas raças, genuinamente
antropológicas, completamente diversas sob vários aspectos: índios americanos e
negros da África.
1.º FATOR ANTROPETNOLÓGICO – O ÍNDIO
É mister
começar pelo índio. Ele representa na população do país o elemento mais antigo,
mais adaptado ao solo, mais aclimado, mais conhecedor das várias zonas, mais
numeroso durante dois séculos; aquele que, a despeito de lutas posteriores, foi
o arrimo primário a que se acostou o invasor, direi melhor, os invasores,
porquanto, sendo já em 1500 constante o tráfico de africanos e crescido o
número de escravos negros em Portugal, deve admitir-se a opinião de Varnhagen,
o qual acreditava na vinda de gente desta procedência ao Brasil, desde a viagem
de Pedro Álvares Cabral. Por tais motivos o índio se me antolha como o leito
sobre o qual se distendeu a população futura, ou, se quiserem, o velho tronco
em que se vieram enxertar os elementos estranhos.
O português
e o negro não destruíram senão limitadamente o silvícola americano. Cruzaram
com ele. Assimilaram-no e foram por ele assimilados. O drama dessa fusão, dessa
dupla operação étnico-social, até hoje mal descrito e mal compreendido pelos
historiadores e sociólogos brasileiros, será páginas adiante esboçado.
Os estudos
americanos em geral, na Europa ou no continente, têm pecado todos por alguns
vícios intrínsecos, que os têm corrompido e tornado até agora perfeitamente
inúteis para deles se tirar uma conseqüência qualquer.
Os missionários
e colonos inteligentes do século XVI, que deixaram notícias escritas dos nossos
selvagens, eram demasiado incompetentes para uma observação regular, capaz de
surpreender os mais íntimos fatos sociais e a fundamental psicologia dessas
gentes rudes.
E, todavia,
é onde se encontram hoje as notações de mor valia acerca de tudo que lhes diz
respeito. Fizeram meras descrições; mas neles vai hoje o investigador sociólogo
achar os materiais mais ou menos adequados para suas conclusões.
Já não é o
mesmo o caráter e o préstimo dos escritos dos colonos e missionários dos
séculos XVII e XVIII. Inimizados, brigados uns com os outros, por motivo
exatamente dos índios, seus relatórios, memórias, cartas e notícias sobre o
tema de suas desavenças e lutas revestem as cores de estudadas apologias ou
desdenhosas caricaturas. É mister nesse caso respigar com parco afã e
desconfiado critério.
Os
naturalistas e etnólogos do século XIX, a despeito de todas as suas pretensões,
nada mais têm feito até agora do que alguns estudos das línguas e dos usos e
costumes, mais ou menos exteriores, dos quais têm precipitadamente a desfeito
brotar classificações, classificações e mais classificações. Entendem eles que
com alguns róis de raças e línguas e de línguas e raças está tudo feito. E até
os mais eminentes, como Martius, von den Steinen, Ehrenreich, não saíram daí.
Que dizer dos de segunda ou terceira ordem, como H. von Ihering e E. Goeldi?
Este último, em conferência realizada em 1896 sob o pomposo título – Estado
Atual dos Conhecimentos Acerca dos Índios do Brasil – , não sai do
sáfaro terreno das classificações. Mas aí mesmo comete o lapso de não citar
Rodrigues Peixoto, que retificou a classificação de Prichard, Batista Caetano,
que corrigiu a de Hervás e de Martius.
Fala, é
certo, em Capistrano de Abreu, de quem dá apenas o nome, sem declarar que ele
emendou a classificação de von den Steinen e ampliou-lhe os estudos do
bacairi... É gente que ainda hoje se supõe em mundo virgem e em terreno por ela
conquistado.64
É pena que
esses naturalistas sejam tão alheios às questões sociológicas. Ainda hoje
pensam que, com o classificarem os índios brasileiros em quatro grupos
principais, – Jês, Caraíbas, Nuaruaques e Tupis, ou em
cinco, segundo Capistrano de Abreu, que a estes junta o grupo importantíssimo
dos Cariris, está tudo feito. Completo engano.
O reduzir a
quatro ou cinco grupos povos primitivos da Ásia, da África ou da Europa ou da
Oceania ou da América não faz caminhar um passo o saber positivo da humanidade,
nem esclarece numa linha os problemas sociais.
Ainda menos
adiantam as impertinentes questões continuadamente levantadas pelos autores
brasileiros durante quase todo o correr do século XIX, a respeito dos gentios.
Reduziam-se, por via de regra, às seguintes: se houve ou não injustiça no modo
como os colonizadores trataram os índios; se estes eram ou não civilizados;
quais os melhores processos para o conseguir; se iam em progresso, ao tempo da
descoberta do país, ou estavam retrogradando; se eram os donos da terra com
direito de repelir os invasores; se eram ou não os genuínos representantes do
povo brasileiro... Parece incrível que se gastasse tanto papel e tinta em
discutir tais frioleiras.
Ainda em
meados do século, os mais empenhados no debate não eram os medíocres escritores
da ocasião; eram os melhores talentos e as maiores ilustrações, Gonçalves Dias,
Gonçalves de Magalhães, J. Francisco Lisboa e F. A. Varnhagem.
Os dois
poetas tomaram o partido dos caboclos e os dois historiadores o dos portugueses.
Os temas discutidos foram estes, segundo J. F. Lisboa, que lhes chamava importantes
questões: “Os selvagens, que os primeiros exploradores encontraram no
Brasil, eram um povo bruto e feroz, destituído de toda e qualquer virtude, ou
degeneraram da primitiva grandeza e magnanimidade ao contato da escravidão a que os sujeitaram? Eram eles
proprietários da terra que pisavam, e – com direito exclusivo à sua
posse, – tinham porventura o de repelir os invasores europeus que
pretendiam turbá-la? Foi deveras uma desgraça para estas regiões que na luta
travada entre uns e outros, a vitória se declarasse pelo arcabuz e pela espada,
contra a flecha e o tacape?
“Qual
era a população provável do Brasil ao começar a colonização portuguesa? Podia
ela computar-se por milhões? Foram os portugueses que a ferro e fogo
aniquilaram tantas e florescentes aldeias? A nação brasileira atual de quem
descende, dos portugueses ou dos selvagens? Foram estes os que deram a base
para o nosso caráter social? Será a coroa da nossa prosperidade o dia de sua
inteira reabilitação?”65
Tais os
pontos esclarecidos por F. Lisboa em resposta a Gonçalves Dias, em 1854.
Pouco
depois, F. A. de Varnhagen, mais acaloradamente ainda que o seu predecessor do
Maranhão, debatia estes capítulos contra os selvagens: “Eram os que
percorriam o nosso território, à chegada dos cristãos europeus, os seus
legítimos donos? Viviam independentemente da falta do ferro e de conhecimento
da verdadeira religião, em um estado social invejável? Esse estado melhoraria,
sem o influxo externo que mandou a Providência por meio do cristianismo? Havia
meio de os reduzir e amansar, sem empregar a coação pela força? Houve grandes
excessos de abuso nos meios empregados para essas reduções? Dos três principais
elementos de povoação, índio, branco e negro, que concorreram ao
desenvolvimento de quase todos os países da América, que predomina hoje no
nosso? Quando se apresentam discordes ou em travada luta estes três elementos
no passado, qual deles devemos supor representante histórico da nacionalidade
de hoje?”66
Eis aí:
parece o discretear de preparatorianos em decidir quem foi maior, Alexandre ou
César, Aníbal ou Napoleão...
São debates
sem alcance, insolúveis ou impertinentes. Não é isso que havemos mister. A
questão é uma só: qual o estado de cultura do índio, ou quais as suas
qualidades sociais e como e com que entrou na formação do povo brasileiro. Tudo
o mais é pintar n’água.
E o seu
estado social tem de ser procurado no que e fundamental na vida: trabalho,
propriedade, família, organização da existência. A Ciência Social chegou
neste ponto a conclusões certas, cujo valor e veracidade tenho confirmado nos
escritos das melhores autoridades existentes acerca dos costumes dos selvagens
brasileiros. Podem eleger-se os principais Gabriel Soares e Fernão Cardim,
representando o que há de mais seleto no assunto em todo o século XVI, quando
os cronistas diziam sine ira ac studio o que viam; Francisco Lisboa e
Adolfo Varnhagen, simbolizando a ciência brasileira de meados do século XIX, principalmente
nas investigações históricas, em que ainda não foram excedidos; e, finalmente,
Couto de Magalhães e Capistrano de Abreu, falando estes pela mesma ciência nos
últimos anos do aludido século; podem eleger-se, dizia, estes notáveis
espíritos, todos eles confirmarão as conclusões que vão ser ora referidas.
Habituado a
estudos do gênero, segundo o método descrito, habituado a sondar a organização
social através dos fatos desconexos acumulados pelos viajantes, com a simples
leitura do livro, aliás magnífico, de Crevaux, Voiages dans l’Amérique
du Sud, Edmond Demolins chegou a este resultado, quanto aos selvagens desta
parte do mundo, resultado aqui reproduzido, resumindo fortemente as páginas do
ilustre escritor.
Vamos agora
apreciar, pondera ele, o último grau de desorganização social em que possa cair
a humanidade.
O tipo que
nos vai oferecer este espécimen é o índio das florestas da América do Sul.
A região
difere dos estepes e das savanas, sob o ponto de vista do clima e das produções
vegetais e animais. O trabalho deve aí estar organizado de modo
divergente. É o que se vai ver. Nos solos florestais, as populações não podem
se entregar nem à arte pastoril nem à caça em ponto grande, a
caça de animais em numerosas manadas; não lhes resta como meio principal de
existência senão a pequena caça. Tem-se a isto de juntar a pesca
fluvial e a coleta de frutas selvagens, que são ainda uma espécie de
caça. Como a arte pastoril, a caça e a pesca desse gênero são um trabalho de simples
coleta, atraente, portanto. O atrativo da caça e da pesca deve ser
assinalado, porque mostra como, em certos casos, pastores podem facilmente se
transformar em caçadores e mostra também a imensa dificuldade de transformar
caçadores em agricultores e industriais.
A caça não
exige nenhuma providência: a presa de cada dia fornece o alimento desse
dia. Deve até ser consumida mais ou menos imediatamente, porque não pode se
conservar por muito tempo. E um gênero de trabalho, pois, acessível ao geral
dos homens.
Se por esses
caracteres gerais, a caça e pesca se parecem com a arte pastoril, diferem dela
por muitas condições essenciais que modificam complemente o tipo social.
1º Superioridade
da mocidade em face da velhice. – A cata e a presa da caça exigem
qualidades especiais: agilidade, destreza, força, qualidades estas que se
encontram mais peculiarmente nos moços. Estes podem cedo bastar-se a si mesmos,
e são levados a constituir vida à parte, a fim de guardarem para si o fruto de
seu trabalho e exonerarem-se dos deveres d’assistência para com os velhos
pais. É um modo de trabalho que dá à mocidade a superioridade sobre a velhice:
a autoridade e a influência passam dos pais aos filhos.
2.º Desenvolvimento
do individualismo. – A arte pastoril conserva juntos todos os membros
da família; a grande caça dos animais em manadas, como o bisão, reúne
ainda os homens; a pequena, a dos animais esparsos, nem ao menos dá para
formar os clãs de caçadores, como entre os Peles-Vermelhas. Cada um tem,
as mais das vezes, interesse em isolar-se, em fazer a caçada por sua própria
conta: qualquer caçador é um concorrente. Esta tendência ao individualismo é
ajudada pelas facilidades que a pequena caça oferece. O jovem pastor não é
tentado a separar-se da grande comunidade patriarcal, porque não pode viver sem
rebanho, nem arranjá-lo facilmente. É, pois, quando outros motivos não
existissem, retido no lar pela dificuldade material de afastar-se. A autoridade
paterna é, deste modo, singularmente fortificada pela natureza das coisas.
É inteiramente
o inverso entre caçadores; os trabalhos para a colocação dos que se retiram são
os mais elementares e menos custosos imagináveis. As habitações não passam de
palhoças de paus e ramos, cobertas de palha.
Os móveis,
por causa das mudanças freqüentes, são mais rudimentares. Os aparelhos de caça
e pesca estão no mesmo caso. Tudo os leva a separarem-se.
Deve-se ter,
porém, todo o cuidado em não confundir esse individualismo amorfo e
dissolvente, que deforma os selvagens, com o forte particularismo, que
caracteriza os povos mais progressivos da Terra. O primeiro reduz a sociedade a
uma espécie de pulverização individual, o outro assegura ao particular, ao
cidadão, a maior soma de independência em face do Estado, sem lhe retirar a
aptidão para constituir associações, quer na vida privada, quer na vida
pública. A diferença é radical e não deve ser esquecida.
3º Limitação
dos meios de existência. – A caça esgota-se com facilidade; a
subsistência torna-se difícil e a questão da alimentação transforma-se em preocupação
grave. A incerteza dos meios de existência dá aos selvagens um estômago
particularmente complacente. Podem ficar muitos dias sem comer e absorver
depois, se a coleta é abundante, uma quantidade prodigiosa de alimentos. Estas
circunstâncias fazem nascer as guerras incessantes de tribos contra
tribos e, nalguns pontos, o canibalismo.
Nem ao menos
podem eles, os selvagens desta parte da América, preparar e levar a efeito as
formidáveis invasões em busca de novos céus e novas terras, pelas dificuldades
especiais do meio e mais ainda pela falta de cavalos e de outros animais de
condução. Voltam-se então contra os seus próprios semelhantes.
4º Necessidade
e dificuldade das migrações periódicas. – A caça força o selvagem a
migrações periódicas. Tem ele de seguir os animais em seus diversos
esconderijos, ora afundando-se na mata para alcançar os claros e descampados
onde se reúnem certos animais, ora vindo à margem dos rios a pescar os peixes
andadores, como o cumaru, ou recolher os ovos das tartarugas. Se,
porém, o caçador é obrigado a tais migrações, é-lhe, por outro lado, dificílimo
levá-las a efeito. Enquanto tudo é caminho na savana e no estepe, tudo é
obstáculo nas matas. As veredas não são franqueadas e a vegetação as torna
rapidamente impraticáveis. Por isso várias tribos ficam muitas vezes sem
relações entre si e encontra-se não raro um dialeto para cem índios.
Tais são as
circunstâncias que desenvolvem nestes selvagens, mais ainda do que entre os
caçadores de bisões e de búfalos, um costume que mais acentua a desorganização
da família: – o abandono dos velhos, dos doentes, das crianças, e, em
geral, todos os que não se podem transportar facilmente.
A despeito
dessas dificuldades que assaltam de vez em quando os caçadores, eles preferem
esse reinado atraente das produções espontâneas do solo e das águas. Sentem
repugnância invencível em passar para o regímen da cultura e, por isso,
só a mais elementar e que tenha
os caracteres da simples coleta, quase tão singela como a pesca e a
caça, existe entre eles: a da mandioca, do milho, da banana, do inhame. Pode
dizer-se destes selvagens que praticam vagamente o regime da propriedade tribal,
quanto ao solo; – da propriedade familial ou grupal, quanto
à choupana (ou oca), e da propriedade individual, quanto aos
instrumentos rudimentares de trabalho. Mas se o solo é de todos, a extensão do
percurso acessível a cada grupo é restrita.
Esta
limitação provém, em primeiro lugar, das dificuldades da circulação que prendem
os caçadores em um território
relativamente limitado, e, em segundo lugar, da natureza das produções
espontâneas, que são suscetíveis de esgotar-se facilmente, forçando os grupos a
defender com energia contra os vizinhos o acesso de seu território de caça.
A verdadeira
propriedade do selvagem é a sua destreza, sua força, sua agilidade,
que são coisas exclusivamente pessoais, que não se transmitem. A
grave questão da transmissão da propriedade não existe. Nenhum laço, nem
até material, liga as gerações entre si, tornando-as solidárias. O mau, o
dissolvente individualismo triunfa.
Tudo está
mostrando que essas gentes, tendo ficado caçadoras ou pescadoras, não puderam
constituir a família patriarcal, tipo característico dos pastores. O
exercício da autoridade paterna é obstado pela superioridade que a caça outorga
aos moços sobre os velhos. A pulverização de apagada e rudimentar família
instável substitui a forte coesão da família patriarcal.
Nesta a
estabilidade é garantida pela perpetuidade em torno de um mesmo lar, móvel ou
fixo.
Não existe
solução de continuidade entre as sucessivas gerações.
Aqui é o
inverso: a imperfeita família se dissolve periodicamente, fragmentando-se para
se reconstruir momentaneamente em torno de novos lares, tão pouco estáveis
quanto os precedentes. Não e mais uma árvore secular, é uma planta de vida
efêmera. É fato conhecido que os povos de famílias patriarcais transmitem
sucessivamente as tradições e as lendas mais antigas de suas raças. Ainda hoje
a lembrança de Timur, do famoso Tamerlão, é viva debaixo das
tendas; conserva-se em cantos repetidos entre os mongóis. Não se dá o mesmo com
os selvagens, que não têm passado, porque seu lar é instável, não se presta à
conservação e transmissão das velhas recordações da raça. Quem conhece as
tradições dos selvagens da América, da Austrália ou da Nova Zelândia?67
Vê-se bem,
por estes fatos, que a perpetuidade do lar constitui para as raças um sólido
fundamento de suas nacionalidades. Os pais em conservando junto a si até à
morte todos os filhos, ou, ao menos, um deles, inculcam naturalmente o conjunto
dos ensinamentos, das idéias, dos hábitos, das tradições que receberam pelo
mesmo modo. Cada geração se prende intimamente a todas as que a precederam.
Compreende-se, sem que seja mister insistir, a que fica reduzida a autoridade
paterna num regímen que afasta tão prematura e tão completamente os filhos dos
pais. A função do pai limita-se aos encargos mais estritamente indispensáveis:
a procriação e os cuidados materiais da infância; a mocidade fica fora de sua
influência, a idade madura escapa-lhe de todo. A organização da família humana
tende a modelar-se pela dos animais. Os filhos são pequenos selvagens alheios a
quaisquer práticas morais; a religião se reduz a superstições grosseiríssimas,
ao terror dos maus espíritos, cujo influxo se conjura com feitiçarias e
sortilégios. Este gênero de incipiente família instável acarreta consigo outra
conseqüência grave: deixa sem refúgio e sem amparo os órfãos, os doentes, os
velhos, em uma palavra, os fracos, os incapazes, ao passo que o lar patriarcal
está sempre aberto para recolher os inválidos da vida: podem nunca sair ou
voltar sempre em caso de infortúnio.
A organização
dos poderes públicos é análoga à da família. Diverge, portanto, entre
caçadores e pastores. Entre estes o mecanismo dos poderes públicos é
concentrado na família; entre caçadores, desagregada ela e reduzida à expressão
mais simples, é imprópria para preencher as funções. Não são os velhos,
considerados incapazes, que poderiam assumir o pesado encargo de resistir aos
incessantes ataques das tribos vizinhas. Para isso é mister ser moço, vigoroso,
empreendedor. O poder pertence aos mais fortes. Estes o exercem
arbitrariamente, como sói acontecer com toda autoridade que repousa na força e
tem por intuito principal – a guerra.
O poder é
despótico e cruel; cada tribo é organizada para a defesa e para o ataque, e
deve estar prestes para o que der e vier. E não é sem razão que as tabas e
ocas selvagens são ornamentadas por horrorosos troféus. O estado
permanente de guerra desenvolve a forma de autoridade mais arbitrária; a
fraqueza extrema, a instabilidade da família tornam essa autoridade invasora, o
que não priva que tal poder seja também essencialmente instável. É a força que
faz os chefes; é a força que os derriba: eles fazem tremer, porém eles tremem
também. Todos os viajantes que visitaram os selvagens notaram esse traço de
seus costumes.68
Este quadro
é verdadeiro em suas linhas gerais. Mas duas considerações atenuam, até certo
ponto, as suas cores, que poderiam ser mais carregadas: é que o ilustre
escritor, de um lado, obedecendo ao preconceito da unidade originária de todos
os homens, vê nos selvagens da América do Sul gentes que, na origem, possuíram
a família patriarcal, vindo a trocá-la pela instável no correr de
milênios em sua nova residência; e, de outro lado, conhece os aludidos alarves,
como lhes chamava Gabriel Soares, pelo livro do dr. Crevaux, onde se acham
descritos os índios já algum tanto cultos do platô das Guianas e do vale do
Amazonas, em contato com os brancos desde mais de três séculos. Se Edmond
Demolins não fosse fiel à sua preocupação inicial e conhecesse os selvagens
pelo citado G. Soares, por exemplo, ou Cardim, ou outros escritores do primeiro
século da conquista, haveria de ver que, no Brasil, muitos deles não passaram
de meros apanhadores; que não chegaram a constituir nem mesmo a família
instável existente noutras raças; que não tinham conceito certo de
propriedade; que não formavam tribos organizadas e apenas simples grupos
(tabas), subdivididos em clãs rudimentares (ocas) tendo por
base quase indistinta promiscuidade e não o parentesco. O
individualismo dissolvente era ainda mais acentuado do que pareceu ao sábio
sociólogo francês.
Sua
descrição, porém, é aceitável como o retrato das raças mais adiantadas dentre
os índios brasileiros.69 E
como muitos dos traços de nossa psicologia nacional de hoje estão ali em
gérmen! E como somos levianos em não estudar as nossas origens para conhecer
donde partem nossos defeitos e procurar corrigi-los!
E como somos
superficiais em buscar fora a fonte de nossos males, atribuindo-os aos
governos, quando ela está em nós mesmos, e aqui todos d’alto a baixo,
governos e povos, provêm da mesma origem e padecem da mesma doença: o vício
originário e constitucional!
Mas não se
antecipem fatos e conclusões. Urge prosseguir.
2º FATOR ANTROPETNOLÓGICO – O NEGRO
É tempo de
apreciar o fator africano, um dos elementos essenciais e predominantes
na formação brasileira.
O negro
acha-se nas mesmas condições do selvagem da América do Sul. “Le type des chasseurs des forêts africaines doit
être placé à la suite du type que nous venons de décrire.”70
O inconsciente da história ligou os dois tipos no Brasil... Haverá nisto
mero acaso? Não o sei dizer.
Se acerca
dos índios tiveram lugar pequenas discussões algum tanto ingênuas, a respeito
dos negros o silêncio tem sido na ciência do país absolutamente completo.
Muita
estranheza causaram em várias rodas nacionais o haverem esta História da
Literatura e os Estudos Sobre a Poesia Popular Brasileira reclamado
contra o olvido proposital feito nas letras nacionais a respeito do contingente
africano e protestado contra a injustiça daí originada.
Entre nós,
nos derradeiros tempos, sobretudo, alguns espíritos, inteligentes, honestos e
desabusados, têm estudado os índios sob vários aspectos.
Dos negros é
que ninguém se quis jamais ocupar, cometendo-se, assim, a mais censurável
ingratidão.
Qual a carta
etnográfica d’África ao tempo do descobrimento do Brasil, época em que
começou este a importar escravos dalém-mar? E no século XVII, que nos forneceu
centenas de milhares de africanos? E no XVIII, que prosseguiu fartamente na
messe? E no XIX, até 1850, que se excedeu no terrível comércio? Qual então a
classificação das raças, a situação política de vários Estados do continente
fronteiriço? Qual o grau de cultura em que se achavam? Qual a organização
social dessas gentes? Quais as tribos de que nos trouxeram cativos? E em que
número? Que lhes devemos na ordem econômica, social, política? Ninguém o sabe
ainda hoje!... Ninguém jamais quis sabê-lo, em obediência ao prejuízo da cor,
com medo de, em mostrando simpatia em qualquer grau por esse imenso elemento da
nossa população, passar por descendente de raça africana, de passar por
mestiço!... Eis a verdade nua e crua. É preciso acabar com isto; é mister
deixar de temer preconceitos, deixar de mentir e restabelecer os negros no
quinhão que lhes tiramos: o lugar que a eles compete, sem a menor sombra de
favor, em tudo que tem sido, em quatro séculos, praticado no Brasil.
E o que mais
admira, o que é mais censurável, sem dúvida, é que o não tenham já feito tantos
negros inteligentes, tantos mestiços ilustrados, que abundam em elevadas
posições no país.
Preferem,
como os velhos que se pintam, iludirem-se a si próprios: darem-se por latinos,
celtas, e creio que até helenos... Não pode haver nada mais cômico.
Sim; nada mais para fazer rir sobre a terra do que apreciar o ciplomb com
que a mestiçada nacional, na sua imensa escala cromática, em reuniões,
sociedades, congressos, grupos, academias, assembléias, tropas de terra e mar,
todo qualquer ajuntamento, e em suma, em que apareçam cem brasileiros para
cima, caso em que a proporção dos misturados para os brancos supostos puros é
sempre de noventa e cinco a noventa e nove por cento, nada mais cômico do que o
sério com que a imensa mestiçada fabula de si própria pouco mais ou menos como
se constituísse uma reunião de fidalgos anglo-saxões ou de antigos Eupátridas
do mais puro sangue... Ah! Deus! Quando se acabará essa cegueira e nosso povo,
para seguir firme o seu caminho, tratará de conhecer suas origens sem ilusões e
sem preconceitos?
Depois de
proferido o citado rebate sobre o esquecimento em que sempre no Brasil se
deixou o estudo de nossas origens africanas, apareceram uns pequenos escritos
na Bahia acerca do feiticismo dos pretos daquela zona e de alguns levantes
que ali se deram, por eles promovidos, em fins do século XVIII e nas
primeiras quatro décadas do século seguinte.
Não deixam
de ter algum interesse essas achegas para o conhecimento das aludidas origens;
mas, evidentemente, por esse caminho, iremos ter às produções anedóticas ao
gosto das já referidas a respeito de índios. O que havemos mister é conhecer, à
luz dos novos processos da ciência social, o estado exato das sociedades
africanas que enviaram representantes ao Brasil e a parte com que entraram na formação
da nova nacionalidade aqui fundada. Esta é a questão; o mais é esgrimir no ar.
Felizmente,
na falta de estudos brasileiros, existe o admirável, e magnífico livro de A. de
Préville – Les Sociétés Africaines. Leur origine; leur
évolution; leur avenir, que derrama uma luz intensíssima no assunto.
O autor é um
dos mais autorizados discípulos ela escola de Le Play, um dos mais eminentes
companheiros de H. de Tourville, Ed. Demolins, P. de Rousiers.
O objeto do
livro é como se fosse um assunto estritamente nacional; e, por isso, é aqui
resumido em suas teses capitais.
O continente
africano, espécie de pia gigantesca, como lhe chamava Livingstone, é um
platô alto cercado quase completamente por montanhas, próximas da costa.
Divide-se em
quatro regiões perfeitamente distintas, que são outras tantas zonas sociais
igualmente definidas.
Cada uma
dessas zonas é o habitat de raças e sociedades divergentes.
A seguir do
norte para o sul, a sucessão das regiões mais é a seguinte, segundo as próprias
expressões de A. de La fabula Préville:
A zona dos
desertos do Norte, que é seca, onde a vegetação arborescente é quase nula
ou pouco considerável; constitui um todo de vastos desertos ou estepes mais ou
menos pobres; confina com a Ásia, de que é um prolongamento.
A zona do
planalto central ou área equatorial, onde as chuvas cotidianas asseguram
uma umidade constante, favorável ao crescimento das árvores; é um imenso maciço
de florestas luxuriantes e pantanosas, no qual abundam a grande e a pequena
caça.
A zona dos
desertos do Sul, que reproduz a secura crescente da do Norte.
E,
finalmente, a zona montanhosa, situada a leste, formada por um
emaranhamento de vales florestais e de cumeadas ervosas.
Cada uma
dessas grandes zonas se subdivide, sob o ponto de vista do clima, dos recursos
da vida, e, portanto, do trabalho e da organização social, em várias regiões.
Destarte, a dos desertos do Norte, que não interessa diretamente a este estudo,
por não ser habitada por negros e sim pelos brancos, berberes, divide-se
em: região dos pastores cavaleiros, região dos pastores cameleiros, região
dos pastores cabreiros, região dos pastores vaqueiros, seguindo do norte
para o sul.
A zona
montanhosa de Leste, que merece peculiar atenção a quem estuda a raça negra,
por ser uma espécie de officina gentium no continente preto, por ser o
ponto ali primeiro povoado por elas e donde ainda hoje irradiam para oeste e
sul, possui: pequenos platôs ervosos, próprios para a indústria pastoril,
terrenos de pastoreio artificial e cultura; paragens adequadas à caça; terras
próprias para a coleta de frutos espontâneos do solo.
A zona dos
desertos do Sul apresenta as seguintes modalidades: savanas, estepes pobres,
territórios de caça.
A zona do
Centro, que é a região da mata equatorial, mais pujante ainda do que a do
Amazonas, que lhe é fronteiriça, divide-se em quatro regiões distintas: a da
mandioca, a da banana, a do tocusso (eleusine), a do sorgo (dourah), do sul
para o norte.
Pondo de
parte os árabes, que se têm metido na África pelo menos desde três ou
quatro séculos antes de Cristo, mais ou menos intensamente, e com assinalada
atividade desde o século VII da nossa era; sem falar dos europeus, que,
desde o século XV, têm fundado feitorias e colônias em suas costas; excluindo
os egípcios e berberes, contados entre as gentes brancas, ou
quase, e os hotentotes, que são incluídos entre os povos amarelos, os
habitantes das três zonas de Leste, Centro e Sul são pretos, ramificados em
três grupos: Bantos, Xiluques, Etíopes. Estes últimos se subdividem em Abissínios
e Galas; parecem uma formação mestiça, devida a antiquíssimos
cruzamentos com os primitivos Aditas. Os Abissínios, por sua
posição próxima ao Egito, e outras vantagens naturais, civilizaram-se até certo
ponto e escapam às considerações feitas por A. de Préville sobre o complexo das
gentes pretas africanas. Não assim os Galas e menos ainda os Bantos e
Xiluques. As raças negras, tomadas em conjunto, mostram muitos pontos de
semelhança com os índios do Brasil e diversos pontos de divergência. Entre
estes avultam o fato de serem várias delas dadas à indústria do pastoreio, nas
regiões de Leste e Sul, e o fato de se dedicarem algumas aos trabalhos
agrícolas. Pode-se até dizer que o negro só deixa de ser pastor onde não pode
absolutamente dar-se a esse gênero de vida, na zona do Centro, infestada pela
famosa mosca tsé-tsé, mortal aos rebanhos, e só não exerce a cultura,
onde lhe é também impossível nessa mesma zona na parte da mata, quase
impenetrável. Infelizmente o império da tsé-tsé orça por 10 milhões de
quilômetros quadrados, um terço da África, igual à Europa inteira, e só a
extensão da intensa mata sobe a cerca de um milhão de quilômetros.
Grande
porção das gentes negras vive circunscrita nestes limites, entregue à caça e à
coleta, com todos os inconvenientes próprios destes meios de viver, e, onde e
possível, a um rudimentar cultivo do solo.
O maior
número dos africanos vindos para o Brasil foi da zona típica subequatorial.
Mas,
acompanhando Préville, veja o leitor o caráter social do preto zona por zona e
vá, desde já, reparando nos pontos de semelhança existentes entre esse caráter
e o de vários grupos das populações brasileiras.
Começando
pela originalíssima região montanhosa de Leste, o primeiro núcleo de populações
negras a despertar a atenção é o das que se dão ao pastoreio nos platôs
cobertos de ervas. A vida pastoril, porém, nessas paragens está mui longe de se
parecer com a dos pastores nômades, organizados em famílias patriarcais, do
imenso estepe central asiático, com a dos pastores nômades do grande deserto do
Norte africano e até com a dos estepes pobres dos hotentotes no Sul do
continente. Os pequenos platôs ervados das montanhas de Leste são demasiado
estreitos para dar lugar ao regímen nômade, que é substituído pelo de mudança
simples de pastagens ou retiros. Os franceses chamam a isto le régime de
transhumance, le pâturage transhumant, c’est-à-dire qu’on établit
deux stations pour les troupeaux, l’une d’hiver, l’autre
d’été, segundo as próprias palavras do autor que vou compendiando.
Temos o fato entre nós em nossa enormíssima zona pastoril, que abrange todo o
Brasil central, desde o alto Norte nas margens do Rio Branco em o maciço da
Guiana até a fronteira da República do Uruguai, com exceção apenas do corte
produzido pelo Amazonas; temo-lo ainda muito comum, principalmente na região
típica que vai do Paraguaçu da Bahia ao Itapicuru do Maranhão, sem o termo
técnico. Em Sergipe, chama-se mudar o gado de pasto ou de solta; em
Minas diz-se mudar o gado de retiro, ao que me asseverou o Dr. Carlos
Lindenberg, ilustrado agricultor e criador estabelecido na cidade de Campanha.
Em Portugal traduz-se transhumance por deambulação.
Na
vastíssima extensão do Brasil pastoril, porém, o fenômeno se dá em escala muito
menor e sem as conseqüências acarretadas peculiarmente em África na região de
que se trata. Ali a família tende a tornar-se sedentária em uma das
residências, ordinariamente a de inverno, mais própria para a conservação dos
laticínios, e a enviar uma parte de seus membros com os rebanhos, quando estes
se deslocam para a estação de estio. Só por este fato fica ela cortada em duas,
pelo menos, durante uma parte do ano.
A posse dos
pequenos platôs tem sido desde os primórdios disputada, dando origem a perpétuo
estado de guerra, mantido pela estreiteza dos aludidos planaltos. É mister
manter-se a gente neles contra os ataques de novos invasores e contra as
reivindicações incessantes dos antigos possuidores esparsos nas vizinhanças.
Não é só este estado de defensiva o resultado da residência nos apertados
sítios; ela estimula também à ofensiva; não raro as pastagens se tornam
insuficientes e é preciso ocupar as do vizinho. O rebanho pelas epidemias
reduz-se muitas vezes a nada; é necessário fazer a razzia nos mais
próximos. Sob o influxo dessas necessidades de defesa e de ataque – um
grupo se desprende da família sedentária: é o dos combatentes, dos guerreiros,
dos moços. E eis a oficina de trabalho da família dividida pelo
menos em três oficinas isoladas: a do pai, que fica no ponto mais
favorável das pastagens, o mais defensável; a dos pastores ou kraat
de trabalho, composto de jovens de ambos os sexos, encarregados de vigiar
os rebanhos nos pastos de estio ou de inverno; a dos guerreiros ou kraal
militar, dedicado à defesa do solo e às expedições de razzias. Em
tal meio a guerra é uma questão de vida e morte, é um modo de trabalho. O
serviço das armas exerce sobre o grupo social preponderância irrecusável. A família,
o clã, a nação são constituídos para a guerra. Os meninos de
ambos os sexos permanecem longe do lar até a idade de quatorze anos nos kraals
de pastoreio, pertencentes às várias famílias. Quando o filho de um chefe local,
um chefe de clã, atinge àquela idade, tem de entrar no serviço da
guerra, seguido de todos os seus companheiros da mesma idade. Cada pai dá a seu
filho algumas cabeças de gado para seu uso pessoal, e todos juntos partem para
o kraal, ocupados pelos El-Morans ou jovens guerreiros, da
subdivisão. As pastoras acompanham ainda aí os pastores: ficam com eles no kraal
guerreiro, como dantes no kraal de gado, para os serviços domésticos
e preparo dos alimentos. E eis ainda neste segundo estado a mistura dos sexos,
longe da rudimentar família, que fica sempre fora da formação da mocidade. O El-Moran
não exerce outro ofício além do da guerra. Suas armas, seu escudo, sua
tenda de couro, todos os seus petrechos são fabricados pelo El-Gono, mísero
escravo habitante das aldeias conquistadas, ao qual incumbem também todos os
trabalhos, além da guarda do rebanho do acampamento, e é conservado na mais
completa abjeção. O jovem soldado não fica ocioso. O campo móvel não é
resguardado por nenhuma fortificação; sua segurança repousa na vigilância das
sentinelas regularmente colocadas.
No intervalo
de suas horas de guarda, o El-Moran deve aprender a melodia selvagem do
canto de guerra, escutar em silêncio intermináveis discursos, ou fazê-los, se
lho mandam; aprender em manobras metódicas nas cercanias do acampamento o
manejo das armas, e, sobretudo, instruir-se na grande arte de furtar com
destreza os utensílios, o marfim ou os rebanhos. Este ponto é capital; porque
se se deixa agarrar, sua cabeça, fincada em uma estaca, virá a ornar a porta de
uma aldeia inimiga. Os bandos, sempre ambulantes dos El-Morans, servem
de guarnição ao país; espreitam todas as passagens, que os soldados conhecem
admiravelmente por tê-las percorrido, quer efetivamente no correr das
expedições quer pelos olhos do alto de algum cume elevado. Caem tais bandos de
improviso, ao sul, a leste e ao oeste, nos pontos que o grande conselho,
assistido pelo grande mágico ou Libon, designa como objetivo das razzias,
ou, quando chamados em socorro, mediante salário, por algum chefe de sua
raça, residente em terras afastadas, intervêm em seu favor contra os rivais
sustentados por outros bandos, formados pelo mesmo modelo.
Quando a
razzia é bem sucedida ou o salário em reses é pago ao bando, trata-se da
partilha do espólio, tiradas de antemão numerosas cabeças de gado em proveito
do Libon, o mágico, cujos conselhos são tão preciosos. A divisão do
restante ocasiona brigas sanguinolentas. Os valentões, os insolentes,
consultando apenas a própria avidez, apoderam-se dos animais, segundo sua
conveniência, e desafiam os companheiros a vir tomá-los. A regra é que se,
contra todos, conseguem defender, durante três dias, a presa, ela não será mais
disputada. É então que se dão as verdadeiras batalhas.
Sucumbem
mais guerreiros nestas desavenças do que durante a sortida em terra inimiga.
Matar,
porém, por este modo é permitido, porque todo o homem, que não sabe garantir a
sua pele, não merece senão o esquecimento.
Surpreende-se
aqui a profunda diferença existente entre as raças originadas dos pastores
nômades e as formadas nos pequenos platôs ervados. O lugar do patriarca está
vazio e a partilha, fim natural das operações da comunidade, efetua-se com a
força do braço.
Foi do
rebanho do pai que os El-Morans tiraram a primeira subvenção em gado,
necessária à sua administração no acampamento; é, em troca, o rebanho paterno
que se enriquece com os animais capturados por seus filhos, ao menos em grande
parte. Contribui, destarte, o emigrante militar para conservar o lar donde
saiu, viveiro de guerreiros, até a morte do pai. Quando esta se dá, o mais
velho, o mais antigo dos El-Morans saídos de casa, e chamado às pressas
e toma posse da sucessão, que lhe toca inteira. Sai com saudades da corporação
militar, casa-se logo que chega a sazão em que nascem os bezerros. É um caso de
transmissão integral do patrimônio, bem diverso, porém, do que se dá nas
famílias patriarcais em que persiste a indivisão para todos, passando ao
mais velho apenas a autoridade moral, e também divergente do que se dá
nas famílias-troncos, base das sociedades de formação particularista,
nas quais o herdeiro é antes associado à gestão; é um escolhido por
certas qualidades. O pastor dos pequenos planaltos não conhece seus filhos
e nenhum destes é preparado para a sucessão, porque as oficinas do trabalho em
que eles se formaram são alheias à direção dos chefes de família. A razão que
limita a um só o número dos herdeiros é uma idéia de luta constante contra os
vizinhos para a conservação dos pequenos platôs de pastagem, idéia inspirada
pela própria estreiteza desses platôs.
Neste gênero
de sociedade, nesta espécie de países de recursos limitados, importa limitar
também o número dos casais estabelecidos no território. As noivas são compradas
por um certo número de vacas e o costume tem estabelecido que, até a morte do
pai, os filhos não as podem possuir como próprias, o que retarda até lá os
casamentos.
Com o
sistema de vida em comum para a mocidade dos dois sexos – o El-Moran acharia
mulher grátis; mas os filhos oriundos desta união, os bastardos nascidos
nos kraals de guerra, pertencem ao pai da mulher. A casa que se
quisesse assim fundar seria um lar sem filhos, e, portanto, caduco; seria em
proveito do avô materno e de seu futuro herdeiro que os moços trabalhariam,
quer dizer, pilhariam no futuro; seria ele que receberia o preço do casamento
das filhas. Em tais condições, pode praticar-se a união livre, mas não o
casamento, o aumento normal dos lares estabelecidos, direito que pertence só ao
filho mais velho e só pela morte do progenitor.
O
primogênito, uma vez transformado de El-Moran em El-Morua, em
chefe de casa e senhor de rebanho, não sonhará mais com proezas pessoais; seu
cuidado será multiplicar, com o rebanho, o enxame de defensores do solo e
roubadores de gado. Tendo vivido, como se viu, longe das vistas do pai, num
meio turbulento e brutal, não recebeu nenhuma formação moral, nenhuma tradição;
não aprendeu a honrar senão a força material e a coragem feroz.
O antigo
chefe da família, que não tomava mais na guerra, morto de moléstia ou velhice e
não no brilho da força, em meio de façanhas, não prestava mais para nada. Por
isso não obtém as honras fúnebres, reservadas aos heróis caídos na luta. O
herdeiro toma nos ombros esse cadáver, que nenhuma auréola enobrece, e o lança
fora do recinto da casa, atrás do curral dos animais. Depois as hienas e aves
de rapina deixam ali apenas alguns ossos limpos, em que o caminhante dá com o
pé, ou que os meninos do kraal, rindo, atiram uns aos outros, em seus
brinquedos.
Nos lares
desses montanheses, pois, desorganizados pela guerra, não existem respeitosas
tradições firmadas na memória dos maiores; não existe culto doméstico, religião
na família; e, como é mister ao homem um culto, o povo inteiro entregar-se-á às
superstições da magia, à influência dos Libons ou fazedores de chuva,
que se gabam de poder refrescar à vontade as pastagens, impedir a
mortandade dos animais, predizer a vitória ou a derrota.
Que
contraste pasmoso com o tipo patriarcal, existente entre os pastores nômades!
Que diferença entre esse patriarca sempre presente, formado no lar pelos
antepassados, revestido de autoridade tradicional, afeiçoando seus descendentes
ao molde de que ele mesmo é um exemplo, e este El-Morna, cujos filhos e
filhas correm aventuras ao longe e crescem debaixo da direção única dos
camaradas, tomados por chefes por causa do vigor do seu braço!
Que
diferença entre o antepassado reverenciado, ao qual, vivo ou morto, se dirigem
os sinais do mais absoluto respeito, a inclinação, a prostração, e este
chefe de kraal, que seu herdeiro, naturalmente, sem o mais leve remorso,
vai atirar à estrada!
Donde nasce
esta oposição tão completa nas idéias e nos hábitos? Provém em grande parte de
uma simples diferença na organização do trabalho, da separação completa, nos
pequenos platôs em questão, entre a oficina de trabalho dos filhos e a do pai.
Mas, para dar a explicação completa do último fato, que é puramente africano,
forçoso é admitir a ausência de tradições patriarcais anteriores no seio da
raça que povoou aqueles sítios e neles se entrega à indústria do pastoreio transhumant.
Resta
examinar a sorte dos filhos mais moços, por ocasião da morte do pai,
quando o mais velho toma posse do rebanho. Eles, os irmãos mais moços, nada
podem pretender na sucessão; porém, daí por diante, todo o gado conquistado por
eles lhes pertencerá. Ficarão ainda algum tempo em serviço, reunindo recursos,
aguerrindo-se cada vez mais, tomando sobre os seus jovens camaradas uma
influência crescente. Quando julga a ocasião oportuna, o veterano entre eles, e
com o recurso dos companheiros d’armas, desce das alturas, conduzindo
diante de si seu pequeno rebanho.
Levando suas
boas amigas, toma uma direção já seguida por seus predecessores e invade
algumas aldeias das terras baixas, onde os negros, expulsos em épocas passadas
das alturas, vivem da coleta e de exígua cultura. Impõe tarefas e
tributos para sustentar seu gado, suas gentes e a ele mesmo; torna-se senhor do
solo, toma o governo e funda, destarte, uma dessas che farias de aldeia encontradas
por toda parte na África pelos viajantes, desde as bases das montanhas de Leste
até o divisor das águas do Congo.
Uma vez
estabelecido, esse invasor tenta acrescentar seu império pelo comércio e pela
guerra, pela política, pelas alianças com os chefes vizinhos da mesma raça e os
bandos de seus antigos camaradas. Tal é a origem de um grande número de reis
negros, de quase todos aqueles que são senhores de aldeias compreendidas na
zona montanhosa e mesmo dos que se encontram, até o coração do platô central,
ainda de posse, em sinal de nobreza, e a despeito das dificuldades do lugar, de
alguns animais que se tornam quase selvagens.
Esses chefes
implantam-se facilmente no meio das populações das terras baixas, porque estas
populações são completamente desorganizadas sob o ponto de vista social, pois
a constituição da família se acha nelas inteiramente arruinada, em razão
das mudanças a que foram forçadas, das conquistas que sofreram; ao passo que os
emigrantes dos pequenos platôs ervosos saem de um clã mais ou menos sólido,
estão pelas circunstâncias afeitos a uma disciplina séria. Esses chefes,
impostos pela força, são considerados como senhores, por direito de conquista,
da região sobre a qual se estende sua ação. Não constituem, porém, a
propriedade privada do solo, desconhecida em suas pastagens. Usarão do poder
para fazer respeitar o território, para manter nele uma certa ordem proveitosa
a seus interesses, para compelir o povo à cultura, se a coleta e a caça
não forem suficientes.
Não recuarão
diante de nenhuma repressão sanguinária, de nenhuma explosão bárbara. Não
podendo mais roubar gados, farão razzias de escravos. Não se acham no
caso de ensinar a seus súditos as qualidades que não receberam em sua educação;
o respeito da mulher, a autoridade paterna, a compaixão, o culto privado. Sua
corte será dissoluta, seu governo absoluto e feroz; a influência dos
feiticeiros será para eles onipotente, o tráfico dos escravos se organizará
sob sua direção. Tal é o quadro geral da África negra, já desde essas mais
adiantadas gentes da região montanhosa de Leste, quadro que se vai cada vez mais tornando
escuro, à medida que se vai estendendo às populações das outras zonas, ainda
mais desorganizadas.
E este é o
caso dos habitantes das regiões baixas, vizinhas dos pequenos planaltos ervosos,
que o autor passa a examinar por miúdo. Não o acompanharei nesta excursão,
altamente instrutiva, porque mais urgente é o estudo das gentes do Sul e do
Centro, donde ao Brasil veio a mor parte dos africanos importados. Limito-me,
sempre com Préville, seguido quase pelas mesmas palavras, a dizer que as
populações das terras baixas, vizinhas dos planaltos de pastagens, foram dali
repelidas e forçadas, em novos sítios, a trabalhos diferentes dos do pastoreio,
vindo a sofrer uma tríplice deformação: a primeira pela necessidade de se
submeterem a chefes militares; a segunda, como vencidas, pela privação de seus
meios primitivos de existência; a terceira sob a ação de novos modos de
trabalho impostos pela natureza dos lugares que as receberam após a derrota. A
caça, a coleta de frutas, a cultura impuseram-se-lhes, conforme a natureza
dos habitats.
Mas nem
todos os repelidos da grande região de Leste, ponto inicial dessa vibração que
põe, segundo a frase do autor, em movimento e desloca perpetuamente as populações
negras, como o comprovam todos os exploradores, têm ficado nas regiões baixas
vizinhas.
Muitos se
têm dirigido para o Sul ou para o Oeste, onde os seus destinos têm sido assaz
divergentes, conforme as novas residências.
Deste número
são as gentes que formam o grande grupo étnico denominado banto, das
quais provieram em mor escala os negros passados ao Brasil, não só bantos, do
Sul, como do Centro.
Nas savanas
da zona meridional fixaram-se mais ou menos muitos grupos desses emigrados, que
são geralmente denominados Cafres, cujos principais representantes são Zulus,
Matebeles, Macololos, Bectuanas, Damaras, Herreros, Ovambos, Amboelas e
outros menos famosos.
Já de si
desastradamente organizados no seu remotíssimo viver nas altas regiões de
Leste, ainda mais imperfeitas são as linhas gerais de seu estado social nas
belas savanas do Sul africano.
As
deformações acentuaram-se notavelmente no correr da longa e morosíssima
retirada através das ervagens das montanhas. Para resistirem aos que os
impeliam a sair, para deslocarem-se e porem-se em marcha em boa ordem, salvando
os gados, para abrirem caminho em meio de populações hostis que era mister
desalojar de posições de difícil acesso, os atuais habitantes d’África
austral foram obrigados a submeter-se cada vez mais a uma disciplina militar
implacável. O que se chama a sociedade civil, da qual o casal do chefe
da família, do El-Morua, é uma representação, como se viu, foi nesses
pobres emigrados absorvido pelo comando militar absoluto.
Estes grupos
não se podem mais denominar nem famílias, nem clãs, nem tribos: são, como dizem
os missionários do Zambeze, – regimento. Os chefes locais são indunas
ou capitães.
Só eles, e
isto raramente, são consultados pelo rei; formam um conselho de
guerra, que julga os delitos e só aplica duas espécies de penas: a mutilação
e a morte.
Quando uma
sociedade, pondera o autor, que vou seguindo quase literalmente, se transforma
a esse ponto, quando todas as suas forças vivas se concentram nas mãos dos que
governam, sendo estes puramente militares, é que ela atravessou circunstâncias,
nas quais a família se tornou insuficiente para garantir aos seus membros a
satisfação das primeiras necessidades: o pão cotidiano e a segurança da
existência. Compreende-se, sem esforço, a dificuldade que se mostrou, desde o
começo da longa migração, para conduzir separadamente os rebanhos
pertencentes a cada El-Morua ou chefe de família; forçoso era juntar os
animais em um só comboio que os bandos armados pudessem proteger.
No fim de
longos prazos de jornadas e lutas, era impossível proceder a partilhas e
especialmente repartir as perdas, consideradas como sofridas por todos.
De tudo
ressalta a necessidade de formar séries de rebanhos comuns, cujo administrador
é o chefe de guerra, o que ordena os movimentos e deve assegurar a alimentação
dos combatentes. Destarte, pode dizer-se que se achavam invertidas as posições:
na montanha, como se viu, os rebanhos conseguidos pelos kraals de guerra, pelos
diversos El-Mornas, iam engrossar os rebanhos dos chefes de família, dos
diversos El-Moruas; agora é o contrário: subsiste só o rebanho
pertencente ao campo de guerra, engrossado pelos rebanhos particulares dos
chefes de casa. É uma transformação radical, prenhe de conseqüências graves.
Despojado da
gestão, que era sua função própria, o chefe de família retoma a lança, entra na
fileira e vai perdendo aos poucos suas qualidades de previdência postas em
prática em tempo de pastoreio de ambulante, e agora inúteis no meio de
um verdadeiro regimento. Só, ao invés disso, o chefe encarregado de tudo
dirigir, de fazer viver toda a partida, conserva essa qualidade da previdência.
Concentra em suas mãos os interesses de todos, dirige o rebanho e reúne em
torno de si as mulheres que se encarregam da manipulação do leite. Este chefe
torna-se, além de patrão geral, um diretor do trabalho; torna-se,
por isso, muito poderoso, conserva hereditariedade em sua família, à qual,
e só a ela, as circunstâncias conservam a idéia de previsão e de governo. E
assim a raça de pequenos patrões, com suas casas independentes dos pequenos
platôs ervosos, chega aos pastos da zona do Sul transformada em regimento,, com
um pequeno número de capitães hereditários, senhores de tudo, dos
guerreiros, das mulheres, dos rebanhos...
Nas
pastagens mais uniformes da África austral acham-se mudadas as condições de
trabalho, ao mesmo tempo que o caráter da raça.
O regime de
simples deambulação (transhumance) já não é mais possível para o gado,
porque a alternativa das estações seca e úmida produz ao mesmo tempo as
mesmas modificações na região inteira. A vida nômade, qual a praticam os
moradores dos desertos do Norte, é impossível ao cafre, como já se disse,
porque a existência dos pastores nômades, mongóis, semitas, berberes ou
arianos, ontem como hoje, supõe o laço patriarcal na família e na tribo, o
respeito das tradições dos maiores, a autoridade dos anciãos, a solidariedade
baseada no parentesco, coisas todas estas que jamais os negros possuíram, nem
até nos famosos platôs da região montanhosa de Leste e ainda menos, se é
possível, nas regiões do Sul e do Centro.
O capitão
não é um patriarca, é um explorador e um dominador feroz, que usa das
qualidades de um mando que pôde conservar, não como pai devotado, sim como
senhor interesseiro e implacável.
Seu regimento
é para ele uma coisa que lhe pertence, não é sua família.
Se as
grandes migrações são interditas aos povos cafres em virtude de sua
constituição social, se o pastoreio de ambulante, que corrige a desigualdade
das estações, lhes escapa, forçoso lhes é o reduzirem seus rebanhos ao número
mínimo de cabeças que a terra pode alimentar na estação seca, a mais
desvantajosa. Não se pode, pois, viver exclusivamente de gado, e deve-se
recorrer à cultura, aliás fácil e remuneradora pelas condições
favoráveis do clima.
Os pastes
são, em geral, nas savanas do Sul, limitados por espaços infestados de abrolhos
e espinhais ou por verdadeiras florestas que tornam as comunicações difíceis de
uns para outros. Cada clã habita separadamente as vastas ilhotas aptas ao
pastoreio. Retida pelas fronteiras naturais e pela resistência dos vizinhos, a
cabilda torna-se sedentária e entrega-se à cultura. E como a guerra e constante
nas fronteiras, entre essas gentes arregimentadas, todo homem é soldado, o que
vale dizer que à mulher incumbe o trabalho da terra. Os homens, nos intervalos
das expedições, passam os dias a fumar e a beber em roda do Kraal e das
cabanas do capitão. A mulher vem a ser, desta forma, o verdadeiro
trabalhador e produtor entre os Cafres.
Ora, as
necessidades das primitivas retiradas guerreiras já tinham grupado as mulheres
em torno do chefe e sob a sua direção.
Compreende-se
que esse mandão poderoso reclame o maior número possível de tais trabalhadores.
Nas expedições de guerra – não se captura somente o gado do inimigo,
leva-se também uma parte da população. Os homens são massacrados, salvo os que
podem fugir a tempo do campo de batalha; as mulheres tornam-se escravas; os
filhos, levados com elas, reparam as perdas que os contínuos combates infligem
aos vencedores.
Os meninos,
criados no exército, tomarão nele lugar mais tarde; as meninas serão mais tarde
desposadas pelos indunas (capitães), ou pelo rei. Até doze anos
todos os meninos, nascidos na tribo ou tomados de fora, são alimentados
exclusivamente de leite. Desde que podem andar, vão duas vezes por dia todos
juntos ao kraal do capitão, e sob a inspeção deste oficial, tomam por si
mesmos sua refeição nas tetas das vacas.
Só por este
traço tão característico pode avaliar-se o que resta da família!... Um capitão
do bando a substitui nas funções mais necessárias e mais íntimas!...
Tome-se nota do fato.
Acima desses
capitães de bando, origem certa de nossos capitães-de-mato e
de muitos outros mandões, que sempre infestaram todo o interior do
Brasil, oriundos deles, dos caciques selvagens e de certos chefes de
solares portugueses, acima de tais capitães está o rei, capitão dos
capitães. A autoridade superior, porém, exercida pelo rei, não chega a contrabalançar
a influência de que gozam os capitães sobre cada uma de suas companhias,
influência que não é o resultado de uma intimidação de momento, mas uma
verdadeira força social, ligada à função de patrão e de diretor do
trabalho, exercida pelos tais capitães. Infelizmente a destruição da
família levou as coisas a este triste resultado.
O capitão
facilmente percebe o poderoso laço que o prende a seus homens, serve fielmente
o rei, por causa das distribuições de reses feitas por ele depois da vitória,
cujo principal elemento foi o agrupamento sob suas ordens de um grande número
de companheiros. Mas, quando se sente bastante rico e bastante forte para
escapar ao mando real, um rebento de ambição brota em seu cérebro. Quando se
julga, por modos vários, preparado para a empresa, emigra, deserta com sua
companhia e seu rebanho e vai por sua conta ocupar uma terra afastada, cujos
habitantes submete.
Estes,
privados de seus gados, são coagidos a nutrir por meio de tributos, cobrados
sobre suas culturas, suas caças, suas coletas, o bando invasor que fica
formando uma espécie de casta superior, tendo só ela direito ao rebanho de
bois. Os parentes do feliz capitão, seus guerreiros notáveis e os filhos,
filhas e, até, sobrinhas destes – governam as aldeias e fazem entrar os
impostos... Por este método é que têm tido origem os afamados governichos
africanos de Macololos, Metabeles, Zulus e outras gentes do continente
tenebroso.
A
devastação, o roubo dos gados, a escravidão dos que escapam, têm sido o viver
normal das gentes negras desde os mais remotos tempos. É regra que tem sido
descrita por todos os que as têm visitado desde o século XV até hoje.
A formação
exclusivamente militar dos povos que habitam a região das savanas, vencedores
ou vencidos, é a causa da fragilidade do laço nacional entre eles. Este laço é
quebrado nos vencidos pela supressão do kraal de gado do seu capitão;
nos vencedores pela deserção constante, e, por assim dizer, clássica, dos
respectivos capitães. É uma espécie de endêmica traição política de que,
parece, várias amostras, como sobrevivência, têm aparecido nos modernos tempos
entre os régulos brasileiros e seus mais chegados capitães. Em
África o fato tem sido e é ainda hoje corrente.
Tornado inkosi,
isto é, rei, o antigo induna, ou capitão, informa
Préville, que tenho estado, repito, a compendiar, acha-se, por sua vez, nas
condições do inkosi, por ele abandonado, a saber, tendo sob suas ordens oficiais
possuidores cada um de seu kraal de gados, aos quais impõe a
autoridade que ele acaba de sacudir por sua conta. Estes, após prazo mais ou
menos curto, ou longo, conforme as circunstâncias, pelo exercício mesmo de suas
funções patronais, são fustigados a ter para com o seu rei ou inkosi exatamente
a mesma conduta, o mesmo proceder que ele próprio tinha seguido com vantagens:
evadirem-se traiçoeiramente para o Norte, pois é invariavelmente nesta direção
que se têm feito os movimentos dos Bantos, depois de sua segunda pátria
nas savanas meridionais.
O verdadeiro
centro de agrupamento, de recrutamento social, o ponto inicial e
persistente comum a todos os membros da aglomeração, entre os Cafres, é,
claramente, o rebanho que possui o rei ou o capitão.
Por isso nas
guerras incessantes, que são o fato predominante da zona, os rebanhos são
sempre a atração e o lucro do combate: o vencido, despojado do seu gado, é
condenado, por isso mesmo, à morte nacional.
A
importância, que tem para o vencedor nada deixar escapar de rebanho e de gente
da população inimiga, é que ditou as regras da tática catre: enquanto o
centro fica imóvel, guardando as reses, as duas alas do exército se estendem à
direita e à esquerda em um vasto movimento rotatório, a fim de encurralar
completamente o adversário. Mas nem todos os povos vencidos são destruídos; um
grande número, até de antigos cafres, é simplesmente reduzido à
escravidão. O exército dos senhores, acampado em torno da residência real e
submetido a dura disciplina, escreve E. Reclus, citado em Préville, o exército
dos senhores, infinitamente mais reduzido em número do que as populações
escravizadas, só pelo terror pode dominar: aparece, ora num ponto ora noutro,
devastando campos, pilhando os animais... Gentes outrora sedentárias
tornaram-se hordas de fugitivos, abandonando aldeias e culturas quando se
aproxima o exército do rei. O trabalho das minas lhes é interdito para que se
não enriqueçam; a caça do elefante, nas regiões mais ao norte em que ele
aparece, lhes é vedada, por ser uma ocupação nobre e escravos não se deverem
igualar aos senhores...
Alguns
desses destroços de gente deixaram de criar gado; os mandandas, habitantes
das planícies situadas perto do rei de Gaza, puseram-se a criar cachorros, na
esperança de que ao menos esta carne desprezada não lhes seria tomada por seus
opressores.
E são estas
as gentes consideradas a raça afetiva por sonhadores fantasistas,
preocupados em arranjar trindades, trios e trilogias!...
O caráter
social dos bantos meridionais está, evidentemente, ainda mais deteriorado do
que o dos seus parentes das regiões altas de Leste.
Não são
eles, porém, os únicos habitadores africanos do Sul do continente. Nos estepes
de Sudoeste residem os Hotentotes, que não são negros, como já ficou
dito, e no deserto de Kalahari e vizinhanças os Boximanes.
Daqueles
nada há a dizer que interesse ao Brasil; dos outros, dos quais nos vieram não
poucos exemplares, basta referir que esses íncolas de magros terrenos de caça,
impróprios para o pastoreio e para a cultura, andam reduzidos à maior
desorganização pelas dificuldades de uma vida quase sempre errante e sem
recursos certos. É uma poeira de homens, diz o ilustre escritor, sem laço, sem
resistência contra as incursões dos estrangeiros. De tempos imemoriais, os Boximanes
foram um celeiro de escravos para Hotentotes e Cafres.
É tempo de
passar à zona equatorial do Centro, o grande império da tsé-tsé, a
região sem rebanhos, sem pastores, a região da rudimentar cultura, da pura
coleta e da grande e pequena caça, a verdadeira África, viveiro de escravos
para a América durante perto de quatro séculos e durante mais de quatro mil
anos para o Velho Mundo.
A rápida
vista lançada sobre as gentes de Leste foi exigida pelo fato de ali estarem em
gérmen as fontes das populações africanas, segundo a melhor crítica; o leve
olhar atirado aos povos do Sul foi imposto pela necessidade de mostrar a
primeira deformação dos africanos negros, logo ao sair de seu ponto de partida
e pelo fato de que muitos milhares dos escravos importados no Brasil foram dali
provindos.
A
apreciação, porém, do caráter social das gentes do Centro, dos africanos
subequatoriais, impõe-se a quem quer que pretenda saber duas linhas acerca da
formação, da constituição e do caráter da sociedade brasileira. Em que pese a
fátuos pretensiosos de todas as formas e feitios, ali está uma das fontes caudais
que despejaram no Brasil, durante quase quatrocentos anos, numerosíssimos
contingentes para a argamassa de sua população. Assim o quiseram, assim o
tenham. Não é mais do que viver séculos do trabalho alheio, escravizando duas
raças, e depois pretender arrancar as páginas da história para fantasiar
fidalguias. Não é mais do que fazer do país um vastíssimo harém de
índias, pretas, mulatas cor de canela, e morenas cor de jambo, segundo
o lirismo dengoso dos D. Juans colonizadores e patrícios, e, agora, impor
silêncio ao sangue... A enormíssima mestiçada brasileira labuta numa
situação psicológica verdadeiramente original: tem ódio ao branco e procura por
todos os modos passar por branca! – É curioso. Falta-lhe a coragem de
dar-se pelo que realmente é...
A imensa
zona africana do Centro, manancial da mor parte dos vinte e tantos milhões de
negros escravos que importamos, divide-se em quatro regiões, caracterizadas
pela planta, cujo produto serve de base à alimentação das respectivas
populações: a mandioca, a banana, o tocusso (eleusine), o sorgo (dourah).
Servir de
base à alimentação é, talvez, um simples modo de dizer, porque a verdadeira
base se encontra na caça. Vamos lidar, pois, com gentes caçadoras, ao jeito
mais ou menos dos índios brasileiros; e digo mais ou menos, porque em África,
na região ora estudada, existe a grande caçada dos enormes quadrúpedes, que não
se encontram entre nós, como já notei, páginas atrás.
As
populações africanas, quer as berberes do Norte, quer as abissínias, quer
as negras estudadas de leste a sul, dão-se, como se viu, à arte
pastoril, e modificam-se, conforme as variações impostas pela natureza a esse
gênero de trabalho. Na zona do Centro uma modificação ainda mais radical se
efetua nas gentes negras.
Aí
desaparecem os grandes auxiliares do homem: o boi, o cavalo, o camelo, a cabra.
Raros exemplares desta e do boi são conservados num e noutro ponto, com enormes
dificuldades. Alguns cães, também dificilmente conservados, e aves, constituem
a provisão de animais domésticos. A causa deste fenômeno estranho, como já
disse, repetindo sempre Préville, o que, ainda uma vez o noto, o leitor deve
sempre ter em vista, é a mosca tsé-tsé, também chamada mosca-do-elefante,
cuja picada é causa de morte certa para o boi, o cavalo e o cão.
O homem é imune. Mas é forçado a viver sem o auxílio dos principais animais
domésticos, auxílio indispensável, até certo ponto, para os mais elementares
trabalhos de simples coleta, de pequena cultura, de mera extração, de
fabricação e de transportes.71
Na
vastíssima zona do Centro está o teatro de uma organização social particular.
As cabildas que passaram as fronteiras dos domínios da tsé-tsé foram
aquelas que, não se podendo manter nas regiões vizinhas, se acharam compelidas
a penetrar e a ficar na terrível zona. Tiveram de transformar-se quanto aos
meios de existência e à estrutura social.
A grande
caçada, isto é, a caçada aos grandes animais, os búfalos, hipopótamos e
elefantes, exige agrupamentos numerosos, que se podem chamar clãs de caça. É
recrutamento que se faz fora dos laços do sangue; porque as famílias estão já
desorganizadas de antemão, quer anteriormente a seu recalcamento para dentro
das matas equatoriais, quer pela prática diária da caça aos pequenos animais;
porque não se deve esquecer que as grandes caçadas são relativamente pouco
numerosas e vão-se tornando cada vez mais espaçadas.
No vale do
Congo, como no do Amazonas, os efeitos dessa espécie de trabalho são: a
imprevidência, a superioridade outorgada à mocidade sobre a velhice, o
desenvolvimento do espírito de mau individualismo dispersivo, o relaxamento do
berço familiar, a poligamia, a cultura pelas mulheres, a indiferença dos pais
para com os filhos.
A família,
assim desorganizada, não tem ação sobre os indivíduos que compõem o clã ou
bando da grande caça, não pode, além disso, lhes dar a mínima proteção
contra o chefe ao qual os submetem as necessidades do trabalho. Este chefe é
naturalmente vigoroso; e o hábito do perigo lhe inspira o desprezo da vida alheia.
A disciplina torna-se inexorável e o poder absoluto do diretor não pode sofrer
nenhuma oposição. As cabildas de caçadores reúnem-se ao som sinistro de enormes
tambores, espalhados nas matas. Tais cabildas têm numerosíssimos ensejos para
mutuamente se guerrearem.
A caça se
desloca diante da perseguição de que é objeto; o elefante torna-se raro, chega
a desaparecer de certos sítios, exatamente os que são habitados pelos caçadores
mais intrépidos; a ocupação por estes de novos territórios; o encontro das
cabildas ou clãs; as queixas freqüentes que esses homens violentos têm a
levantar uns contra os outros; a penúria, enfim, todas essas circunstâncias são
causas constantes de guerra. Os chefes de caçadores tornam-se chefes de
guerreiros; os bandos de caçadores tornam-se tropas de combatentes. A guerra é
para eles uma variante da caça; e é bradando – Bobo, bobo, carne,
carne – que se lançam sobre o inimigo.
Quanto à mais
notável de todas as caçadas, a do elefante, dá ela lugar à operação da
partilha que exige a presença do chefe. A graxa e a carne utilizadas são em
quantidade enorme.
A carne é
dividida em mantas, que são moqueadas, exatamente como faziam os
índios do Brasil, dos quais os negros em assunto de caça, coleta e lavoura nada
tiveram a aprender e sim muito a ensinar. Uma parte cabe a cada caçador; a
parte do chefe é um terço, ou metade, do animal todo, conforme os casos.
Cabem-lhe, além disso, certas partes do fato, mocotós, orelhas, pedaços
delicados, na opinião dessas gentes, e, demais, todo o marfim. O
comércio a que este dá lugar é antiqüíssimo; e foi ele então como hoje o
atrativo das caravanas para o interior da África. Quase todo anda nas mãos dos chefes
ou pequenos reis. É um monopólio que lhes dá imenso poder, de onde
nascem graves conseqüências.
A
imprevidência dos caçadores e o aparecimento da penúria geral trazem aos chefes
repetidas ocasiões de utilizarem a riqueza oriunda desse privilégio, comprando
gêneros que revendem aos homens e mulheres de sua aldeia, dos quais quase
espontaneamente se constituem senhores, especialmente dos meninos. As
caravanas, traficadoras de marfim desde a mais remota antigüidade, desde sete
ou oito mil anos atrás, fornecem uma saída segura para os escravos que o rei
não utiliza diretamente, além daqueles que elas constantemente preiam por sua
conta. É no comércio do marfim, pois, que se deve procurar a origem do tráfico
dos negros para o Egito, Núbia, Arábia, Índia, Assíria, Babilônia, Pérsia,
Judéia e Fenícia desde os mais longínquos tempos.
E eis o
resultado geral, no Centro da África, da influência do trabalho da caça sobre
as populações: modificação da família e de todos os agrupamentos sociais no
sentido da escravidão.
Mas esta
síntese das sociedades da zona central, da região de caça, tomadas em conjunto,
não dispensa a caracterização das gentes de cada uma das quatro porções em que
aquela zona se subdivide.
Cumpre,
antes de ir adiante, não deixar em esquecimento um traço de grande valor.
A religião
dos negros caçadores da mata é muito mais sombria do que a dos pastores de
Leste e do Sul.
Os
feiticeiros não são mais os fazedores de chuva; são fabricantes de
filtros e de encantamentos, destinados a fascinar a caça, a afugentar as feras.
São mestres eméritos na fabricação de venenos, cujo emprego se liga à arte da
caça, e eles estendem às suas artimanhas mágicas e feitiçarias de caráter
vário. As misteriosas trevas da floresta, cujos impenetráveis labirintos podem
homiziar a morte a cada passo, o isolamento e a falta de apoio resultantes da profunda desorganização
da família, arrebatam o caçador para os terrores supersticiosos, entretidos
cuidadosamente pelos feiticeiros. Estes empregam todos os meios para entreter
tais pavores, simulando aparições sinistras, fantasmas medonhos, e não se
esquecendo de se darem sempre como tendo o preciso poder para conjurar os
gênios malignos que infestam as florestas.
A imensa
zona das matas africanas se divide em quatro regiões especiais, como já se
disse e repetiu. Cada uma destas subdivisões não é influída só pelo clima e
pela espécie de cultura que supre, na alimentação, as deficiências, que se vão
cada vez tornando maiores, da caça; sofre também cada uma delas o influxo
especial das populações que as cercam e nelas entram. Destarte a chamada região
da mandioca, que é das do Centro a mais meridional, é invadida pelos Cafres
do Sul; as denominadas da banana e do tocusso pelas cabildas
diretamente descidas das montanhas de Leste, de Galas e Xiluques; a
intitulada do sorgo, colonizada, há milênios, pelos Xiluques, tem
sempre permanecido sob a pressão das incursões dos berberes. Daí, sob a
influência desses três fatores, diferenciações mais ou menos acentuadas.
O enorme
vale do Congo, especialmente na margem esquerda do portentoso rio, e a bacia do
Ogouê ou Gabão, são as terras, por excelência, da mandioca.
A cultura
desta planta é a mais própria para os que se iniciam na arte agrícola; exige
muito pouco trabalho e dá grandes resultados. Nela tudo se aproveita: o amido,
a fécula, as folhas, os brotos.
Tem apenas o
defeito de cansar depressa a terra, o que força os negros, neste mesmo
sentido, aliás, já influídos pela caça que escasseia, a mudarem-se de um sítio
para outro. Esta necessidade de mudanças perpétuas opõe-se à constituição da
propriedade e contribui para manter a instabilidade das famílias. Os Cafres militarizados,
cuja descrição já foi dada, facilmente se estabeleceram desde remotos tempos e
estabelecem, ainda hoje, nas terras ocupadas pelos caçadores e os forçam à
cultura.
Os
vencedores, segundo o costume cafre, atribuem a seu capitão, tornado
rei, a posse do solo.
Fundam novas
aldeias e as povoam de cativos, homens e mulheres capturados nos matos, e de
fugitivos, que procuram escapar a um senhor e caem sob o domínio de outro.
O rei coloca
à frente de suas aldeias seus principais guerreiros e, de preferência, os
membros de sua parentela, homens ou mulheres. Há, assim, uma contínua
fermentação de povos em toda a zona; a instabilidade de todas as agremiações
políticas é completa.
As conseqüências
de um tal estado de coisas refletem-se imediatamente na organização da família,
se este nome se pode dar ao fraquíssimo agrupamento pelos laços de sangue
porventura ainda subsistentes entre estes negros.
Não sendo
mais retidos em torno do kraal, porque não possuem mais rebanhos, os
pretos da zona central seguem a mãe, quando ela se separa de seu homem
ou vai morar noutra aldeia. Este laço materno se estende até as sobrinhas e
primas germanas nas famílias dos chefes, que se arrogam uma certa posse
territorial. Mas entre o resto da população quebra-se, em cada geração, porque
não se apóia em nenhuma posse da terra; porquanto o rápido esgotamento ou
cansaço do solo, já notado em gêneros de cultura dirigidos sem o menor
método, impede a constituição das propriedades particulares originadas do
trabalho.
O direito
territorial dos chefes é um direito de guerra, repousa no poder militar por
eles exercido.
Homem ou
mulher, o chefe de aldeia não faz cultivar para si só: o poder de que se acha
investido, deve-o a um chefe superior, a quem obedece; entrega ao capitão ou quilola
uma parte da coleta; é até por causa da percepção deste imposto que
é investido de autoridade.
O quilola,
por seu turno, é encarregado especialmente de recolher os tributos das
aldeias para os levar ao rei. É uma vasta máquina hierárquica destinada
a obrigar o povo a cultivar para os conquistadores.
Mantidos
estes pela coesão militar, ocupam as posições de mando. A população está, pois,
dividida em duas classes: uma inferior, forçada ao trabalho por ordem
alheia, desorganizada pela constituição social que deve à caça, e uma superior,
que força a outra à cultura, dirige-lhe o trabalho e recebe os proventos.
Graças à disciplina que a mantém, esta classe substitui facilmente os chefes de
caçadores, e forma espécies de dinastias que se conservam no poder pelo
rigor.
A recepção
do imposto tem lugar, em todos os graus, com um enorme aparelho militar e com o
barulho ensurdecedor de tambores.
É
verdadeiramente o senhor que recebe a cota de humildes servidores; estes,
delegados dos moradores das aldeias, prostram-se diante do chefe, esfregando-se
com o pó do chão. Às vezes o rei se resolve a dar uma volta por seus
domínios e a receber as contribuições em casa dos súditos.
Empreende
continuamente expedições para punir o atraso, a negligência ou a recusa do
imposto, e muita vez toma este pretexto para executar terríveis razzias. O
poder do tirano sobre seus capitães ou quilolas só se mantém por
uma disciplina de ferro: a etiqueta é severa e as mais leves faltas são
punidas. Só existem duas espécies de pena: a mutilação e a morte!
Cumpre
notar, afinal, que os negros da região da mandioca, costumados à
lavoura, foram sempre, em todos os tempos, procurados pelos traficantes de
escravos. As Antilhas, o Brasil, os Estados Unidos forneceram-se ali dos negros
chamados – Gongos, feios, acrescenta Préville, mas robustos e
trabalhadores. Esse mercado está hoje fechado; e, todavia, a exportação por
terra continua em vasta escala para o Oriente e para outras regiões da própria
África.
A região
chamada da banana é aquela em que a floresta subequatorial africana é
mais rude e intensa.
Aí param os
invasores bantos ou cafres meridionais.
Deve existir
um grave motivo que, na África Central, faz parar aqueles guerreiros e os
impede de levarem mais adiante sua colonização agrícola. É o que se vai ver.
A região de
que se trata, situada debaixo do equador, estendendo-se ao Norte e ao Sul, mais
naquela do que nesta direção, recebe uma enormíssima quantidade de chuva
durante todo o ano e todos os dias.
A zona
inteira, além de sua proximidade da linha dos equinócios, está colocada no
ponto em que se encontram as três séries de inclinações ou declives, que
formam os grandes acidentes da África interior.
A imensa
curva norte, descrita pelo Congo, é determinada pela linha na qual vêm morrer
as descidas dos platôs dos desertos do Sul, a queda meridional das cumeadas
entre Nilo-Congo-Tchad e os últimos contrafortes da zona montanhosa de Leste.
É, por
certo, posição que convém a um maciço de matas virgens.
A altura e a
dimensão das árvores, no âmago das florestas, dão abrigo a uma tão inextricável
vegetação, mais baixa, que se emaranha sob suas sombras; e é tal o cerrado de
troncos, ramos, lianas, cipós, matos e folhas; tão espesso o conjunto de tal
aglomeração de paus de todas as formas e tamanhos, que impossível quase é a
travessia, o que explica a razão pela qual as terras que se avizinham do alto
da curva do grande rio não têm habitantes em grande extensão e têm ficado,
sempre, fora das explorações tentadas antes de Stanley e Schweinfurth. Tais
dificuldades impediram o passo aos exploradores europeus e aos próprios Bantos.
Sob o ponto
de vista da cultura, considerável dificuldade origina-se da falta de estação
seca e vem a ser o pulular contínuo das ervas, nomeadamente das altas e
fortes gramíneas equatoriais, nas clareiras derrubadas da floresta. As roçagens
e sachaduras para suprimir ervas são de nenhum efeito, porque estas, sob a ação
da umidade constante entretida pelas chuvas diárias, pululam e crescem por
encanto. São um obstáculo para quaisquer plantações que quisessem confiar à
terra.
Por isso, na
região florestal, vizinha do equador, o principal alimento, tirado do reino
vegetal, não é devido à cultura, sim fornecido por uma essência arborescente,
que é a banana.
A região das
matas equatoriais e da banana atravessa a África inteira, desde a zona dos
grandes lagos próximos às terras altas de Leste, até o golfo de Guiné. Fica
entre as terras congolesas, próprias ao cultivo da mandioca, e as regiões
situadas ao Norte, nas quais predomina a lavoura de cereais. Pode ser dividida,
por sua vez, em dois climas diferentes.
Nas regiões
mais baixas, como são as meridionais confinantes com as terras da mandioca,
domina o regime florestal puro: nas partes mais altas, nas quais a região das
matas se aproxima das montanhas de Leste e de Oeste, nota-se modificação do
clima em sentido mais favorável à vida.
A zona
inferior, e puramente florestal, constitui um imenso território de caça.
É a lúgubre
e fantástica floresta descrita por Staley, pondera Préville, e à qual o
explorador americano atribuiu uma extensão de
Nestas
florestas virgens inextricáveis, que parecem sem limites, vagam as hordas
ameaçadoras dos selvagens Avissibas, dos ferozes Pauins, Fãs ou Ossiebas,
cujas incursões no Congo Francês e no Congo Português são de vulgar
notícia.
Outra raça,
curiosíssima, ali residente, é a dos Pigmeus.
As terras
mais altas, mais secas, posto que sujeitas às chuvas equatoriais, são próprias
para as bananeiras, plantadas ou limpas de mato em vista da coleta
dos frutos. À bananeira deve juntar-se outra árvore preciosa, a palmeira
de azeite (Eloeis guineensis), produtora do conhecidíssimo azeite-de-dendê
e do, menos vulgar no Brasil, vinho-de-dendê, chamados também azeite
e vinho-de-palma. O óleo serve para variados arranjos culinários; o
vinho põe ao alcance dos negros, por um simplíssimo trabalho de mera coleta, a
bebedeira diária e geral.72
Nestas
terras, que devem ser classificadas entre as de coleta, a banana e o
óleo de dendê constituem o fundo da alimentação, associados a diversos produtos
espontâneos: inhame, batata-doce, milho e caça, fato constante de toda a
zona central africana. É um viver mais fácil do que o dos simples caçadores da
mata pura e dos Bantos do Sul, plantadores de mandioca disciplinados
pelo trabalho.
As gentes da
zona da banana acham-se organizadas em clãs baseados sobre o trabalho da coleta.
São curiosos
exemplos destes povos, com tal organização, os famosos reinos de Daomé, na
extrema ocidental, e Mombutu, na extrema oriental da zona de que se
trata. São antropófagos.
Como em toda
a zona central africana, a família entre os negros que fazem da coleta da
banana a base principal de sua alimentação, apresenta um mínimo de coesão e
fixidez; o princípio de agrupamento não é para eles a tradição patriarcal
inexistente, é o trabalho da coleta, ao qual concorrem utilmente os
meninos e as mulheres. Por outro lado, é preciso ser forte para defender contra
os viandantes e os vizinhos e, principalmente, contra o invasor, atraído pela
abundância, uma safra sempre pendente, que não custa a fazer brotar e
crescer, e que garante fartamente o pão de cada dia. É mister ser numeroso para
ser forte.
Daí o
agrupamento em grandes aldeias de cabildas que se arregimentam em torno de um
chefe, cujo poder é justificado pela necessidade.
A força de
coesão que dá o agrupamento em grande número não é empregada. somente na
defensiva. Compreende-se bem que um povo dado ao mesmo tempo à coleta da banana
e do dendê, à caça do elefante e do búfalo, sempre em armas, sempre prestes
para o que der e vier, deve empreender, sem a menor cerimônia, expedições
contra as nações vizinhas. As devastações dos de Daomé são famosas. Não o são
menos as dos de Mombutu. A leste e sul desse reino, nos países que margeiam o
Bomocandi e Quibali, residem negros dados à cultura, possuidores de algumas
cabras e sem chefes poderosos. São os Monfus, considerados pela
aristocracia bananal dos Mombutus como raça inferior. Os chefes do
pavoroso reino, de permeio com as sortidas para prear búfalos e elefantes,
ordenam amiudadas razzias entre aquelas gentes desprezadas. Ao grito de carne!
carne! atiram-se sobre os pobres selvagens e voltam trazendo cabras e
cativos. E, como os de Mombutu, não precisam de auxiliares para suas levíssimas
culturas, nem desejam, de modo algum, para aumentar o número de seus
guerreiros, que indivíduos estranhos ao clã sejam admitidos a compartilhar da
coleta de suas bananeiras e de seus elwis, a sorte dos prisioneiros é
decidida por outra forma: são comidos! As cerimônias do sacrifício têm
muitos pontos de contato com as dos selvagens do Brasil. Idêntico é o hediondo
espetáculo dos troféus de crânios que orlam de lado a lado as longas ruas das
aldeias.
Nada é mais
adequado para impelir uma sociedade por esse caminho do canibalismo do que a
organização em clã defensivo como essa que é imposta aos negros que vivem da
coleta da banana. Esta forma de sociedade é adaptada ao clima equatorial de
uma só estação, onde a safra dos frutos está sempre pendente.
O
exclusivismo gerado por este modo de agrupamento, o soberano desprezo para com
todo o indivíduo que não faz parte da cabilda, transpiram de tudo e em tudo se
fazem sentir. Tal é o caso em toda a região entre os Acas, Pauínos, Balalos,
Maneúnas, Ugandas, Mombutus e Daomés mesmo depois da destruição dos
fortes remos dos três últimos povos pelos ingleses e franceses.
A observação
dos fatos, que influem positivamente nas sociedades, pondera ainda o escritor,
dá a explicação das causas de tão estranhos costumes. Compreende-se a coesão
que liga as sociedades que vivem da coleta, o poder absoluto, extenso,
centralizado na mão dos chefes, que sobre elas se alevantam, a ferocidade e os
apetites repugnantes como esses dessa espécie de negros. Desde o sopé das
montanhas de Leste até ao golfo de Guiné, desde os Mombutus e Ugandas
até os Daomés e Iorubas, o espetáculo é o mesmo: o
agrupamento de um grande número de mulheres em torno de um chefe de casa
perpetuamente bêbedo de vinho-de-palma, as razzias de cativos nas
regiões próximas ao reino, a polícia disfarçada e presente por toda parte, o
número excessivo de funcionários e a instabilidade de suas posições, a guarda
do rei e seus regimentos de guerreiros e de amazonas, os hediondos troféus de
crânios à roda do paço real, enfim, os massacres e sangrentas orgias
costumeiras aptas a conservarem o canibalismo em estado tradicional e, por
assim dizer, constitucional.
Essas
truculentas gentes, que atualmente chegam até estacionar nas vizinhanças do
Atlântico, devem sua origem a antigas e formidáveis migrações vindas do
Oriente, através das florestas equatoriais.
A. de
Préville fala, com segurança, de uma numerosa e irresistível invasão que chegou
até o mar, no século XVI. Neste ponto posso vir em auxílio do meu prestimoso
guia.
Ele quer-se
referir à tremenda invasão de 1558, que levantou todo o antigo Império do
Congo, visitado em fins do século XV por Diogo Cão.
De irrupções
anteriores àquela falam os velhos João de Barros, Manuel de Faria e Sousa, Rui
de Pina e Duarte Pacheco. Da de 1558 tratam Duarte Lopes, Frei Luís de Sousa,
Garcia Mendes, Castelo Branco, que eram contemporâneos.
“Depois
de estabelecidas relações dos portugueses com os reis do Congo e seus súditos,
escreve Forjaz de Serpa Pimentel, consolidando as narrativas de antigos
escritores, depois de estabelecidas relações dos portugueses com os reis do
Congo e seus súditos, invadiram-no em 1558 as tribos selvagens dos Afacas,
Majacas, Mazacas, Iacas, Djagos ou Jingas, as quais percorriam,
guiadas por valentes chefes, a África Central de leste a oeste, lançando a
morte e o extermínio por toda a parte. Chegaram até Banza N’Bazi ou
Ambasse (a S. Salvador dos Portugueses), onde destruíram tudo, até a
própria catedral e os templos cristãos, que os portugueses já ali tinham
erigido, não encontrando resistência porque o rei do Congo, a sua corte, os
missionários, a população inteira da cidade, à aproximação dos invasores, se
haviam refugiado numa das ilhas que os portugueses ocupavam no Zaire (o Congo
dos mapas modernos), pouco acima de Boma e donde só saíram, reconstruindo a
capital, depois de El-Rei de Portugal ter mandado, em seu socorro, uma
expedição sob o comando de Francisco de Gouveia, expedição que conseguiu
expulsar os Iacas do país, deixando, porém, já o império negro do Congo em
rápida e progressiva decadência.”73
É a
confirmação completa do fato assinalado por Préville e a perfeita justificação
das idéias a que ele chegou por diverso caminho.
Cumpre-me,
apenas, acrescentar que de tais truculentos invasores da África ocidental, a
despeito de sua fereza, os negociantes de escravos, os negreiros, enviaram
durante trezentos e cinqüenta anos alguns milheiros de exemplares. Que bela
aquisição! Que interessantes exemplares da raça afetiva!
Poucas palavras
mais a respeito dos pretos das regiões do tocusso e do sorgo, estará
finda esta resenha das gentes africanas que ajudaram a formar a população
brasileira no espaço de cerca de quatro séculos.
Comecemos
pelos primeiros.
Nas terras
baixas de Guiné, a produção, em ponto grande, de banana e do óleo-de-palma pode
estender-se até o 7º grau de latitude norte e chegar, em certas paragens, até o
10º; na parte oriental, porém, da vasta região própria para estes produtos o 4º
grau norte é, em regra, o limite ao seu desenvolvimento, por causa da altitude
das terras. Além do Rio Uelé, acaba a região da coleta e entra-se no
país denominado Sandeh, habitado pelos Niam-Niams, terríveis
bárbaros que tomaram parte nas invasões do século XVI. O centro do país
constitui as cumeadas e espigões que dividem os afluentes do Nilo Branco e do
lago Tchad e os do rio Ubanghi. Privados dos rebanhos por causa da tsé-tsé, privados
da banana, do dendê e da mandioca, os Niam-Niams arrojam-se com todo o
ardor à caça, abundante na região. Javardos, macacos, esquilos, trepadores
vários, concorrem com os elefantes, leopardos, veados e cabras monteses. Mas
nem sempre há a fartura; ao contrário, há estações no ano em que o elefante
deixa os platôs e embrenha-se nas florestas, onde é dificílimo preá-lo. Os
pequenos e tímidos animais, por outro lado, espantados, na mata, com o barulho
feito pelo elefante, quando sopra, se espoja nos brejos, quebra os ramos secos
ao passar, sacode as árvores em que se coça, fogem. A grande e a pequena caça
se reduzem consideravelmente.
Os Niam-Niams
ou comedores atiram-se a tudo: inhames, raízes, comestíveis,
cortiços de abelhas selvagens (cera e mel), ratos, rãs, lagartas... não
esquecendo as formigas de asas (térmites), das quais extraem um óleo brilhante
sem mau gosto. Surge a antropofagia e com ela o costume de comer o fiel
companheiro do homem: o cão!
Nesta zona,
porém, desmentindo o fato, sempre notado, do reduzido número das gentes
puramente caçadoras, a população é numerosa. Igual desmentido, pondera o guia
que vou seguindo, se nota entre os Bantos da região da mandioca e os
descendentes de galas da região da banana. É que estas plantas suprem
fartamente as falhas da caça. Na região ora estudada, esse papel é representado
pela planta chamada pelos abissínios dacussa (tsada agussa), conhecida
pelos portugueses, afirmo eu, desde o tempo em que estabeleceram suas primeiras
relações com a Etiópia, em tempos de D. João II, denominada por eles, imitando
o termo abexim, tocusso ou tacussa. Os franceses chamam-lhe eleusine,
conservando-lhe o nome científico (eleusina-coracafla), porque só a
conhecem pelos livros. Os negros trouxeram o tocusso ao Brasil,
É uma planta
da família das gramíneas, não da tribo das Panicéias e sim da das Cloridéias.
É o trigo do Sandeh; mas um trigo pobre em amido e qualidades nutritivas; é
recurso ali dos caçadores, tanto mais quanto sua cultura é facílima e pode ser
feita, quase exclusivamente, pelas mulheres. Cada um tem que tomar cuidado de
sua colheita e, por isso, estabelece-se no meio das suas culturas. Não existem
cidades nem aldeias; cada lugarejo contém duas ou três famílias, isto é,
duas ou três palhoças, em cada uma das quais vive uma mulher com os filhos, e,
mais, a casa do marido. O país é cheio de numerosos contrafortes que partem das
montanhas de Leste, separados por vales florestais, perfeitamente
intransponíveis e defensáveis.
Com tal
disposição natural dos lugares, a ação dissolvente produzida pelo trabalho da
caça tem formado um reinículo ou vice-reinículo de cada um desses planaltos. É
uma multidão de pequenos povos governados com o mais infrene despotismo por
pequenos chefes. Rei (bié) ou vice-rei (bainqui), o chefe traça
para si uma vasta propriedade, cultivada por suas mulheres que são numerosas, e
por escravos tirados de raças submetidas. A Mbanga, residência do régulo, se
reconhece logo entre as diversas cabanas, espalhadas no platô, pelos numerosos
escudos suspensos nas vizinhanças, nas árvores ou em postes, pelos sons das
cornetas de marfim, pelo retumbar do grande tambor suspenso na praça. Alguns
guerreiros de escol noite e dia, às ordens do senhor, montam guarda nesta praça
cercada pelas residências reais. Cabanas circulares com tetos cônicos
d’altura excepcional servem para morada do rei, de cada uma de suas
mulheres, de corpo de guarda, de tesouro e de celeiros. É o rei que espreita a
aparição dos bandos de elefantes, faz dar pelo tambor sinal da batida e
apodera-se por isso de todo o marfim e metade da carne. Conduz freqüentes
expedições de guerra contra as aldeias; dá o exemplo da cultura, fazendo
produzir seus campos, comendo o tocusso e ofertando a seus hóspedes e
visitantes a excelente cerveja feita daquele grão. É quem faz os casamentos.
Quando
alguém se quer casar – faz o pedido ao reizito, que lhe arranja mulher a
jeito. Os pais da noiva não são consultados, nem recebem nada do futuro genro.
A explicação desta singularidade, em desacordo com o que se passa em toda a
África, provém de ser a mulher votada ao trabalho de cultura, cuja iniciação e
superintendência geral pertence ao rei, e nesta qualidade de alto padrão dos
operários agrícolas, que são as mulheres, arroga-se o direito de colocá-las
como lhe parece conveniente. Estes reis são conquistadores, que se consideram
verdadeiros donos de seus súditos, formam verdadeiras dinastias e exercem um
poder rigorosamente despótico!
O chefe
Muquia (um dos tais régulos do Sandeh visitado pelo moderno viajante grego
Potagos), o chefe Muquia, escreve o viajante citado em Préville, mandou chamar
os homens que deviam me acompanhar; tendo-os atirado por terra, bateu-os
desapiedadamente, ordenando-lhes combatessem até a morte, se preciso fosse, por
mim e por seu irmão mais moço que ia acompanhar-me em seu lugar. Ajuntava que
se eles nos abandonassem, fá-los-ia morrer, a eles, a suas mulheres e a seus
filhos...
O medo que
inspiram tais régulos, ajunta outro viajante, o Dr. Schweinfurth, também
referido no meu guia neste assunto, o terror que inspiram a seus súditos é inacreditável;
conta-se que, no só intuito de lembrar o direito de vida e de morte de que se
acham investidos, escolhem uma vítima na multidão, lançam-lhe um laço ao
pescoço e abatem-lhe a cabeça com a sua própria mão!... É mais um traço
da crueldade negra que parece apta a esclarecer a grande afetividade de que são
dotadas todas essas gentes.
Mais duas ou
três páginas a respeito das populações da região do sorgo, e estará completo
este inquérito sobre os africanos pretos, caudalosíssima fonte de que se alimentou
a formação de vários povos americanos.
Em toda a
região da tsé-tsé, a caça, substituindo o trabalho pastoril, forma, sob
o ponto de vista social, pondera ainda Préville, uma espécie de tela geral na
qual se vêem desenhar as modificações ocasionadas por outras influências.
Nas regiões,
já percorridas, da mandioca, da banana e do tocusso, a umidade do clima e a
certeza das estações secas desenvolvem a vegetação arborescente de preferência
a qualquer outra; geram a floresta e dão, ipso facto, à caça a
preferência sobre todos os outros modos de vida.
Essa região,
porém, tem um limite caracterizado no norte da zona central, pela parada dos
povos antropófagos e de suas culturas de tocusso. Ao sair das florestas virgens
e das bananeiras, a recolta do mau trigo dos caçadores é já indício da
moderação das estações úmidas que dão ao grão tempo de se formar. O clima
melhora progressivamente no sentido da redução da umidade; a mata cede o passo
à cultura até as fronteiras dos grandes desertos setentrionais, onde se torna
ela de novo impossível, por motivos opostos aos da região florestal. A cultura
preponderante, na zona de que se trata, é o sorgo (dourah), também
chamado milho-da-índia e milho-de-guiné. É o cereal dominante na África e Ásia,
em toda a imensa área compreendida entre as terras equatoriais e os desertos
secos que atravessam essas duas partes do mundo. Entre os próprios pastores
árabes do Soldão o pão ou bolo de sorgo é de extrema importância, quanto mais
entre as populações pretas privadas de gados ainda por causa da terrível tsé-tsé.
A primeira
conseqüência das condições do lugar vem a ser: pela ausência do pastoreio e da
caça como meio seguro de existência, os homens não podem entregar-se senão à
cultura; trabalham nos campos com suas mulheres e filhos. A poligamia ilimitada
em uso entre os caçadores não tem mais razão de ser, o número das esposas entre
estes povos agricultores parece reduzir-se a três. O laço social que reúne as
famílias é baseado nas necessidades da cultura.
O trabalho
determina então a reunião em aldeias, e faz aparecer o chefe natural nesses
pequenos clãs.
Entre os
chefes de família que vivem separados uns dos outros cada um em sua cabana, a
massa é imprevidente. Depois da coleta, durante a estação seca em que nada se
tem a fazer, o maior número desses pretos vive largamente sem a menor economia.
As mulheres batem no pilão durante todo o dia e assam continuamente os bolos de
massa. Enorme quantidade de grão que deveria durar até à colheita seguinte, é
posta a fermentar para o fabrico de uma grande provisão de cerveja. Vive-se a
beber, a mandriar, a jogar, e antes do fim do ano os grandes potes da predileta
bebida estão vazios e até os grãos que serviam de semente acabados. Surge a
necessidade, a penúria. Come-se, então, toda a casta de alimárias.
Quando volta
a sazão das chuvas, e o tempo de proceder a novas plantações, a maioria dos
negros nem sequer possui sementes para plantar em suas roças. É quando intervém
o indispensável patronato.75 Algum
velho econômico empresta aos esbanjadores sob condições vantajosas. O devedor
torna-se por um certo número de dias servo do credor, que, tendo sabido guardar
grande cópia de sementes, tem necessidade de braços suplementares para bem
utilizá-la.
O velho,
quando é previdente, está em condições de economizar, o número de bocas em sua
casa tem diminuído com o estabelecimento dos moços que vão fazer vida à parte;
em sua provisão de grãos há um estoque disponível; e, quando tem casado filhas,
a moeda em ferros de enxada, pás e cavadores (é a moeda da terra) está
aglomerada em seu tesouro. Surge-lhe a clientela de todos os lados; os seus
devedores, que se tornam outros tantos jornaleiros e servidores, cercam-no.
Seu
prestígio aumenta. Acreditam que entretém relações com o feitiço do
sítio.76
Nas
proximidades da aldeia avulta uma moita de mato, ou, às vezes, uma grande
árvore, escapa da queimada, por cuidadoso aceiro, e cercada de um parapeito de
terra. É o templo do feitiço. Depois do trabalho do dia e a refeição da tarde,
os habitantes da aldeia, sentados à porta de suas cabanas, fumando enormes
cachimbos, gozam da fresca do crepúsculo. De repente, fortes barulhos fazem-se
ouvir do lado do bosque sagrado. Todas as vistas se voltam para lá. Luzernas
movediças, cabeças medonhas, vultos ameaçadores aparecem. Às vezes uma voz
sinistra se escuta, denunciando um furto, ou qualquer outro crime, com
tremendas imprecações e ameaças aos culpados. É o ferreiro da aldeia, que, por
ordem do velho chefe, seu principal cliente, simula a aparição do feitiço. Na
manhã seguinte encontrará perto do bosque sagrado as ofertas dos indivíduos
amedrontados: cabaças de mel, galinhas, etc.
Tal é um dos
processos de governo do velho rico ou mieré.
Os mierés
são simples patrões necessários; porque têm a suficiente previdência e salvam a
população, todos os anos, da fome. Em comparação aos chefes de tantas e tantas
outras gentes africanas, que foram estudadas, constituem uma bela exceção. Mas,
a medalha tem reverso, pondera, afinal, o ilustre analista.
Para
percebê-lo, basta levar um pouco mais longe a observação dos fatos,
concernentes à vida pública entre os negros
do sorgo.
A família do
mieré participa da sorte comum a todas as da aldeia, que são perfeitos tipos da
família instável: os filhos estabelecem-se à parte desde a mocidade, e nenhum
deles herda exclusivamente a posição criada pelo pai em seus velhos dias.
A situação
patronal instável é periodicamente desfeita pela morte. E ainda mais
radicalmente é destruída entre esses negros, do que noutras sociedades que têm
o mesmo regímen, porque eles nem ao menos possuem, como próprio, o solo que
cultivam ou mandam cultivar. Nenhuma influência séria, portanto, se pode
perpetuar na aldeia e menos ainda estender de uma aldeia a outras, ligar entre
essas minúsculas sociedades esparsas as relações que pode criar e manter a
existência de uma aristocracia rural, que transmita integralmente a herança
paterna a uma série de herdeiros escolhidos, adestrados no governo dos negócios
locais. Por isto as aldeias da região do sorgo são constituídas isoladamente e
a raça que as habita desconhece todo liame nacional.
Nenhuma
coesão, nenhum acordo, existe entre elas; a região inteira está dividida em
pequenas comunidades independentes que vivem entre si em uma completa anarquia.
Por isto, ainda fácil foi aos árabes vaqueiros das fronteiras o fundarem no sul
dos seus desertos a multidão de sultanatos ali existentes, juntando milhares e
milhares de aldeias negras submetidas a tributo e a razzias de escravos.
E eis por que na zona central africana a região do sorgo foi sempre e é ainda
hoje o principal teatro do tráfico dos negros. Homens, mulheres, e até os
meninos habituados à cultura, são procurados e assaltados em massa para os trabalhos
agrícolas dos oásis do grande deserto quando não são nas próprias aldeias
reduzidos à mais dura escravidão. A raça dos Bongos, dos Mitus, dos Belandas
tem quase desaparecido devido a uma exploração desenfreada e a devastações
inauditas.
Os escravos
Bambarras figuraram outrora em avultado número a bordo dos navios negreiros
carregados para a América. Cultivam hoje os campos do Daomé e os oásis do Adar
e de Marrocos. Os árabes e seus mestiços muçulmanos, os reis pretos da costa de
Guiné exploram estas populações, cujo fracionamento paralisa nelas toda
resistência. E esse fracionamento é a conseqüência de uma constituição social
que leva à instabilidade de todas as posições. Tal é e tem sido durante dezenas
e dezenas de séculos o estado real das populações negras da África.
O grande
sociólogo francês, nas precedentes páginas resumido e condensado, atribui tão
deprimente situação ao que ele chama a grande singularidade das gentes negras:
não haverem em parte alguma da terra e em tempo algum da história chegado a
conhecer a organização patriarcal da família.
Para a
escola de Le Play é a exceção única conhecida: todas as raças arianas, semitas,
uralo-altaicas, mongólicas, todas, até as americanas das Montanhas Rochosas,
México e Peru, passaram por um organizador período patriarcal; as gentes pretas
nunca...
A essa
circunstância finalmente atribui o ilustre cientista o que denomina o grande
fato social africano: o tráfico de escravos desde a mais remota antigüidade até
aos dias de agora...
Depois
ver-se-á a conseqüência de tudo isto na psicologia geral dos brasileiros.
3º FATOR ANTROPETNOLÓGICO – O PORTUGUÊS
É tempo de
passar à característica dos portugueses, os colonizadores, que foram o
principal fator da nacionalidade que se tem estado a formar nesta porção da
América de quatro séculos a esta parte.
De acordo
com os métodos de observação social, preceituados em regras especiais, pela
escola de Tourville, a caracterização dos portugueses tem de ser feita como se
fez a dos índios e negros, levando em conta as diversas zonas do país, suas
principais produções, gêneros de trabalho impostos ao homem, natureza dos meios
e modos de viver, constituição intrínseca da família, organização dos grupos
sociogênicos, que são as células da sociedade, da qual as famílias são as
moléculas e os indivíduos os átomos.
Conhecido o
estado presente do povo, uma indução, fundamentada pelos fatos, facilitará a
apreciação de suas origens étnicas e de seu evolver histórico.
Só por este
processo se chegará a saber a razão dos constantes queixumes dos portugueses
contra seus governos, de quem esperam os favores, todos os favores da
Providência, e a quem, ao mesmo tempo, assacam as maiores injúrias, exatamente
como os brasileiros.
Só assim se
descortinará o motivo por que até ilustres sociólogos e economistas, como
Basílio Teles, Anselmo de Andrade, Rocha Peixoto, Bento Carqueja, Ripamonti,
são tão hábeis e perspicazes em descobrir os males de sua pátria e tão
desazados em procurar-lhes as causas, as fontes e os remédios.
Só assim se
poderá pôr termo às fantasias etnográficas de modernos escritores, que ora se
enamoram de celtas, ora de lígures, ora de romanos, ora de visigodos, ora de
fenícios, ora de árabes, para explicar a fisionomia e a alma das gentes
portuguesas, deixando, quase sempre, no olvido o velho tronco primitivo, o
ibero, e moderno enxerto mais viçoso – o suevo.
Vejamos.
As
diferenças geográficas e climatológicas em Portugal, com serem reais e muito
dignas de atenção e estudo, não são tão consideráveis, quanto têm parecido a
espíritos superficiais ou levianos.
A dar-lhes
crédito, o Norte português guardaria, com relação ao Sul, distância pouco mais
ou menos comparável, sob o aspecto climatológico, à que vai da Venezuela à
Patagônia, ou da Sibéria à Índia meridional.
São
imaginosos exageros refutados de antemão pela exigüidade de um país, que não
passa de
É lícito,
todavia, dividir Portugal, se se quiser seguir de oeste para leste, em duas
zonas: a marítima e a central; ou se se preferir mudar de sul a norte, em três
regiões geográficas principais, – correspondentes a três zonas sociais,
mais ou menos distintas: a região que vai do Atlântico Sul ao Tejo, a que corre
do Tejo ao Douro, a que se distende deste último ao Minho e terras fronteiras
da Galiza.
Na primeira
predominam as planícies e campinas, ora lisas, ora onduladas, próprias para a
pastorícia, criação e engorda de gados de várias castas, além da leve cultura
da vinha e de frutos.
Na segunda
notam-se ainda, principalmente no litoral, alguns caracteres da primeira,
contrastados pelas terras altas, planaltos e serras do sistema beirense, mais
próprias das terras baixas, para a já lembrada cultura da vinha e dos frutos, e
as altas para o pastoreio de bois, cabras e ovelhas, nos declives e fundos
relvosos. Na terceira é característica a variedade dos terrenos, sob o ponto de
vista da altitude, que chega a dar lugar a regiões frias, temperadas e quentes.
Daí certa variedade de culturas, nas quais se nota, porém, sempre o
predomínio da vinha, dos frutos, dos legumes e cereais.
Note-se,
desde já, a repetição fundamental dos mesmos produtos e das mesmas variedades
de trabalho.
As três
grandes zonas subdividem-se, naturalmente, em diversas regiões, determinadas
pela presença ou proximidade do mar, pelas montanhas e planaltos, pela ação dos
rios.
Assim, bem
distintos são, na primeira, o Algarve, antigo Cyneticum, arborizado,
fertilizado pelo oceano, que o cerca a oeste e sul, o Alentejo propriamente
dito e a Estremadura meridional.
Na segunda
há a distinguir a região marítima da Estremadura e da província do Douro, das
terras centrais das Beiras.
O mesmo se
tem de fazer entre os distritos marítimos do Minho e os sertões de
Trás-os-Montes.
Foi pelo Sul
que se deu, na proto-história, o mais antigo, e, a todos os respeitos,
fundamental, povoamento do país. Foi por ali que entraram os iberos, ou berberes
daquém-estreito,77 base
principal, indelével, inapagável das populações históricas de toda a península,
tronco primordial e resistente, no qual todos os subseqüentes achegos étnicos
não passam de enxertos, mais ou menos fecundos e viáveis.
Pelo
Algarve, pois, deve principiar o presente inquérito. Alguns dos traços mais
significativos do caráter português acham-se ali desenhados com a maior
nitidez. Alguns deles, dos mais fundamentais, mantêm-se por todo o país em fora
até à raia da Galiza; outros obliteram-se ou apagam-se mais ou menos em
diversas paragens por serem de ordem secundária.
O português
é, destarte, o mesmo essencialmente por toda a parte, a despeito de leves
diferenças.
O Algarve é
uma das regiões mais encantadoras de toda a Europa. Lembra as abençoadas terras
da Grécia e da Ásia anterior. É uma espécie de anfiteatro suavemente debruçado
sobre o mar, formando uma bela planície, paradisíaco jardim. Clima geralmente
temperado e primaveril, apenas de manso perturbado pelos calores do estio,
refrigerados, entretanto, pelas brisas do oceano.
Terra de
levíssimas culturas arborescentes que se coroam de frutas de toda a casta,
cercada de águas piscosas, de portos e ancoradouros de fácil acesso, corre ali
a vida sem embaraços e dificuldades, como nos lembrados sítios helênicos e do
continente fronteiro.
Os dons da
terra, dos rios, pequenos mas numerosos, e do mar, oferecidos sem o esforço, e
em profusão jamais desmentida, são os mais aptos para procriarem uma raça de
gentes alegres, palradoras, expansivas, indolentes por gênio, para os duros
trabalhos, que não conhecem aliás, e, gostosamente, afeitas aos leves serviços
da pesca, um quase divertimento, ou de suavíssima cultura que não passa de mera
jardinagem, da colheita de frutos, um festim.
De toda a
região privilegiada que vai do cabo de São Vicente ao estreito de Gibraltar e
onde se contém o moderno Algarve, Cyneticum dos antigos, dizia já
Estrabão: “Sabe-se que acima do litoral compreendido entre o Promontório
Sagrado e as Colunas de Hércules o país não passa, pode-se dizer, de continuada
planura; ora esta planície é cortada de falhas ou depressões, que, semelhando
vales de grandeza média ou pelo menos leitos de rios, partem do mar e penetram
no interior das terras por muitas centenas de estádios, e, como no preamar as
águas irrompem enchendo-os, os barcos podem singrá-los como nos rios e até mais
facilmente, porque a navegação se faz como na descida das correntes; nenhum
obstáculo a estorva, e o movimento ascendente da maré a favorece, como acontece
nas águas dos rios.”78
Com estes e
outros recursos não admira que o principal e quase exclusivo gênero de trabalho
das populações algarvias seja a simples colheita de produtos naturais, como a
pesca, ou de frutos de leves culturas arborescentes, como não admira que a bela
região serrana que ali existe esteja ainda até hoje quase de todo inculta.79
Figos, uvas
(reduzidas a passas ou não), amêndoas, alfarrobas, batatas-doces, milho, alguma
cevada, pouco centeio e parco trigo – constituem as principais espécies
cultivadas, que, ao lado da pesca, formam a base da alimentação e do comércio
de toda a zona.
A natureza
do país, seu clima, sua produção modificaram, mas só de leve, a índole do
berbere, fazendo dele, de pastor que era nas quebradas e serranias do Atlas e
nos desertos adjacentes do Norte d’África, um cultivador de frutos
arborescentes, ou um mero pescador, ao jeito, aliás, do que já praticava nos
oásis centrais, na região dentre o Atlas e o mar, nas costas da Berberia desde
Marrocos até Túnis.
Os penosos
labores da pesada lavoura e das ásperas indústrias não são para gentes desse
feitio e caráter.
Ficaram para
os escravos, que sempre existiram em África e ali até época comparativamente
recente. Neste passus sociológico o meio, a raça e a história dão-se as
mãos em completo desacordo. E não é motivo para cóleras nem queixumes. Prova de
completo desconhecimento dos ensinos da ciência social é mostrar espanto, por
não ser o Algarve uma terra clássica de lavradores
Sabe-se do
enorme progresso que tem tido a ostreicultura nos modernos tempos em França,
Itália, Inglaterra, Estados Unidos e outros países. No Algarve é que existem de
toda a costa de Portugal as melhores espécies, capazes de rivalizar com as
francesas, as mais afamadas no comércio. Espanta-se o Sr. Rocha Peixoto do
abandono em que jaz aí esse gênero de indústria; porque não quer dar o preciso
apreço ao gênio das populações.
Esses
requintes virão, talvez, algum dia. “Exceção do pequeno banco da
Trafaria, escreve o citado publicista, é o Algarve que encerra a melhor ostra
de Portugal, esperando que a iniciativa particular encete este gênero de
cultura, tão urgente e indispensável ao país, tão remunerador para quem nisso
pense e cuide.”80
São
conselhos de arte política, que deverão ser atendidos, quando urgir a
necessidade e com ela se tiver transformado o caráter do povo. À ciência
social, porém, corre o dever de o descrever como ele é, e não como poderia ter
sido ou poderá vir a ser, conforme nossos sonhos e fantasias.
Gentes
comunárias de origem, descendentes fundamentalmente de berberes patriarcais, na
dupla forma da família e da propriedade, os algarvios, como todos os
portugueses aliás, foram, no curso da história, reforçados em suas tendências
originárias do século VIII ao século XII ou melhor XIII, pois que sua
reconquista aos árabes foi em 1249, cento e dez anos após a independência do
reino.
Sabe-se
hoje, depois principalmente dos belos estudos de Léon Poinsard, que, sob o nome
de árabes, foram os berberes os mais numerosos e mais decididos dominadores da
Península na média idade.81
Cumpre
também não esquecer que berberes foram na mor parte os auxiliares que fenícios
e cartagineses levaram à Ibéria durante séculos, como o foram as aguerridas
hostes de almorávidas e almóadas que ali estanciaram na fase do intitulado
domínio árabe. Releva, finalmente, não olvidar a imensa escravaria moura, só
libertada no século XV, libertada da condição servil, mas não extinta da vida.
Tudo isto vale dizer que a velha estirpe dos valentes iberos (berberes) foi
alimentada: 1º – nas épocas proto-históricas em repetidas invasões; 2º
– na fase dos fenícios e de seus colonos cartagineses; 3º – no
período destes últimos como república independente; 4º – na famosa
invasão dos árabes; 5º – nos tempos dos almóadas; 6º – na
importação constante de escravos da Maurúsia fronteiriça, Mauritânia dos
romanos.
Os povos de
tronco ibérico, enumerados em Estrabão e cuidadosamente por ele distinguidos
dos fenícios, dos célticos, dos romanos e de todos os povos residentes, então,
na Península, não eram, nem são, agora, em seus descendentes, gentes de
formação particularista, dotadas de forte iniciativa criadora, de audaciosos
impulsos de renovação, progresso e riqueza. A legislação civil de Roma, com seu
péssimo regímen sucessório, com a transmissão parcelada da propriedade,
legislação que do período dos romanos passou ao visigótico e aos modernos sem
ser interrompida na época árabe, pois que o muçulmano deixava aos súditos de
origem romano-goda o seu direito, – essa legislação veio abalar
profundamente a constituição patriarcal das gentes hispânicas, fazendo desses
comunários de família, de formação estável, verdadeiros comunários de Estado,
de formação abalada, conforme a fraseologia de Ed. Demolins.82
Ficaram de
posse das fraquezas e defeitos da primitiva e persistente constituição social,
sem as suas grandes vantagens. Não têm mais o apoio direto e constante do
grupo, do clã, da família, que de patriarcal se tornou instável; falta-lhes a
iniciativa do tentar, a autonomia do querer, a audácia do empreendimento, a
coragem irrefreável da luta, o estímulo do progredir e do avançar, a atração
irresistível do grande, a loucura do futuro, quero dizer, a fé inabalável num
ideal coletivo, deslumbrante e invejado no mundo.
São alegres
e prazenteiros, folgazões, sabendo ser equilibrados e mansos.
Colhem
frutos, fazem e bebem bons vinhos, pescam em barcos leves ao pé das praias e
cantam loas e serranilhas nas fáceis travessias de um comerciar de feitio quase
primitivo.
Deles
escreve Oliveira Martins, num de seus momentos de feliz diagnose dos tipos
populares:
“O
algarvio é um andaluz. Ao contrário do alentejano, tudo o interessa, de tudo
fala, agita-se em permanência, com uma vivacidade quase infantil. No Algarve
não há o silêncio e a impassibilidade; há o constante movimento, o falar, o
cantar – de uma população como a dos gregos das ilhas, ora embarcados nos
seus navios de cabotagem, ora ocupados nos seus campos que são jardins... O
constante marulhar da onda, sobre a qual, debruçado como um eirado está o
Algarve, põe no pensamento uma permanente agitação, meio tonta, meio
encantadora. Ao calor de um sol já africano, no estio, no meio de uma constante
primavera, no inverno, o algarvio desconhece a dureza da vida: nem os frios o
obrigam à indústria para se vestir, nem a fome ao duro trabalho da enxada para
comer.
“Enquanto
voga sobre o mar, mercadejando, cresceu-lhe no campo a figueira, a amendoeira,
a laranjeira, cuja seiva o sol se encarrega de transformar todos os anos
São verdades
palmares, da mais fácil e imediata observação, que confirmam o que acima ficou
escrito.
Entremos nas
famosas solidões do Alentejo, como se costuma dizer nos livros de propaganda
agrícola em Portugal.
Quem ouve
falar em solidões, pode ficar a supor que se trata de terras desoladas,
verdadeiros desertos. Mas, é simples figura de retórica.
Os
escritores portugueses querem evidentemente referir-se ao ainda parco
povoamento e ao reduzido cultivo agronômico daquelas paragens. Quanto às terras
e às regiões em si – são das de maior valia em toda a Europa.
Deduzidas
pequenas faixas ao pé do oceano e nas margens do Guadiana, faixas algum tanto
paludosas, mas aproveitáveis para indústrias, apropriadas, a grande região que
compreende o alto e o baixo Alentejo, além da que se pode chamar a Estremadura
transtagna, é rica e variada de aspectos.
Era a região
ocidental a célebre Mesopotâmia de Estrabão, região dentre o Tejo e Anas, que o
velho geógrafo não se cansa de gabar. Seria cair em erro imperdoável supor
incluída na mente do autor grego essa região na tal Mesopotâmia, porque
ele evidentemente aplicava essa expressão às terras sertanejas do coração da
Espanha, onde os dois rios correm paralelos, ao passo que na fronteira
portuguesa o Anas se curva de todo para o sul, afastando-se consideravelmente
de seu companheiro.
Sem cair em
tal erro, ainda assim é lícito estender à região de que ora me ocupo os
entusiásticos louvores do antigo escritor.
Chama para
logo a atenção a deliciosa península de Setúbal e a ubertosa zona que, sob o
nome de Ribatejo, acompanha em grande extensão o formoso rio. Terra de
abundante e facílima cultura de frutos arborescentes, a ela ostenta a granel
vinhedos, olivedos, pinhais, laranjais, não falando já em fartas messes de
cereais de toda a ordem. Isto desde remotos tempos. Já o citado mestre grego se
referia às férteis campinas, e aos olivais e vinhedos de ambas as margens
do Tejo.84
Mas as
vastas regiões centrais é que definem bem a geografia alentejana.
Leite de
Vasconcelos85 fala nos seus
infinitos montados de azinho e sobro, onde raro serpeia um rio ou brota uma
fonte e na tristeza dos seus descampados... Parece que se refere a um
trecho das terras dos últimos contrafortes do Atlas perto do deserto.
Oliveira
Martins86 adoça o quadro, falando da
terra e do homem em poucas palavras. Tendo despendido sem-número de frases com
o Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Algarve, Estremadura, e principalmente com as
costas marítimas do Sul, Centro e Norte do país, o pinturesco historiador pouco
escreve do Alentejo; mas esse pouco é aproveitável:
“Fronteira
aberta da Espanha, a raia apenas o divide da Estremadura castelhana. As mesmas
planícies onduladas, as mesmas culturas cerealíferas, as mesmas florestas de
sobros e azinhos, as mesmas vinhas, os mesmos costumes, os mesmos homens
– estão de um lado e doutro da fronteira.
“Torrada
pelo sol a face, o olhar vivo, o gesto livre, o porte nobre e seguro, bizarro,
folgazão, hospitaleiro e comunicativo, o alentejano exprime no seu todo a
grandeza um tanto austera do chão sobre que vive. Os seus campos são um granel,
os seus montados um viveiro. Quando nas longas e alinhadas estradas, entre
lençóis de matas de azinho escuro, ao calor de um sol dardejante, divisamos ao
longe uma pequena nuvem de poeira que a luz ilumina, e ouvimos o tilintar
alegre das campainhas e guizos nas coleiras dos machos, é o caseiro que a trote
largo, a cara redonda e alegre, vai à feira de Vila Viçosa em maio, ou à de
Évora em junho, tratar dos negócios da lavoura. À distância vem o arneiro no
seu carro toldado, guiando a récua de machos carregados de odres de vinho; logo
o pastor com o grande manto de pele de cabra, o cajado ao ombro,
conduzindo as ovelhas, a vara de porcos, gordos como texugos, ou a boiada loura
de longas hastes. O sol ardente dá tom a todas as cores, vida a todos os
movimentos: sufoca-se, a poeira cega, a pele transuda.
O alentejano diz pouco e raro
canta; não é misantropia, é indiferença; o idílio não pode seduzir quem vive em
ampla comunhão com o campo largo, o céu sempre azul, o sol sempre em
fogo.”
Parece um
trecho de Eugênio Fromentin, descrevendo paisagens e cenas do Sael ou até das
boas zonas da Cabília ou do Tuaregue.87
E note-se
que O. Martins se referiu nas frases citadas apenas ao alto Alentejo, deixando
no olvido a parte meridional da província.
Aqui as
campinas ainda mais se alargam, as pastagens avultam, as condições vantajosas
para a pastorícia crescem, e mantêm-se mais intensamente as velhas qualidades
da raça ibérica, um tanto modificadas no Sul, no Algarve, pela presença do mar.
E aí se vão
prender os motivos do constante alvitrar de Al. Herculano, quando não cessa de
falar nas vastidões, nos latifúndios da propriedade rural no Alentejo, nos pastos
comuns ali existentes, contra os quais ingenuamente se insurge. Aí se vai
filiar a observação de Basilio Teles, quando estigmatiza os “precedentes
históricos que imobilizaram o Alentejo na fase do nomadismo”.88
Tais e
tantas objurgatórias não se fariam ouvir, se se quisesse atender ao caráter
fundamental da raça donde descendem os que têm nas veias o sangue português ou
espanhol, e não se andasse somente a sonhar com o celta, o lígure, o romano, o
visigodo, que entraram, cada qual com sua cota, não resta dúvida, a colaborar
com o meio no processo de diferenciação das gentes da Península, mas sem lhes
apagar jamais o cunho nativo e imorredouro.
Aqueles pastos
comuns são um survival da antiquíssima organização comunária e
patriarcal do ibero, ainda hoje vigente nas terras dalém-estreito, organização
abalada na Península pelo mercantilismo púnico (fenício e cartaginês) e
derrocada pelo estéril individualismo do direito e da política egoística dos
romanos. Nos costumes do povo, porém, a análise sociológica vai descobrir os
vestígios da antiga estrutura milenária.
A região que
se distende do Tejo ao Douro constitui o âmago da terra portuguesa, a parte
principal, orgânica, fundamental do país, como indivíduo geográfico e entidade
política.
Ali se
encerram a Estremadura de ao norte do Tejo, as duas Beiras e a moderna
província do Douro. Mas não há mister prestar atenção às divisões
administrativas de Portugal.
O aspecto
climatológico, geográfico e social é que atrai.
A zona é das
mais originais que se possa imaginar. Encerrada entre os dois maiores rios da
Península, na porção inferior de seu curso, poder-se-ia chamar também uma Mesopotânia,
se os dois grandes rios, paralelos como ali são, não se distanciassem tanto
um do outro.
Fortalecida
pela ossatura granítica da serra da Estrela, que a domina, é articulada bem ao
meio pelo Mondego e para os lados pelo Côa, o Vouga, o Nabão, e outros, correndo
uns para o oceano e diversos para o Tejo, ou para o Douro. Portugal iniciou a
independência nas terras de além Douro, e, bem mais tarde, é que passou para o
lado de além Tejo; desde, porém, que dominou de um rio a outro, estava
constituído e teve disso consciência. Não foi embalde que Estrabão limitou a
Lusitânia pelo Tejo, do lado do sul, e Augusto a limitava no Douro, da parte do
norte. Ali é que está o cerne do país, o peito de aço da gente portuguesa. Dos
dois lados, à foz dos grandes rios, as duas belas capitais da política, da
vida, da riqueza do país, – Lisboa e Porto; ao centro, – a cidade
do pensamento, – Coimbra –, sobre o Mondego, que nasce e morre em
terras lusitanas.
A fisionomia
das populações dessa privilegiada região – reflete a feição mais
característica do povo todo, que já nos é conhecida desde o Algarve e Alentejo.
Dividamos a
zona em duas porções: as terras baixas distendidas ao longo do oceano, entre
ele e as serranias de Leste, e as terras altas e acidentadas do interior até a
raia de Espanha.
Os férteis
distritos marítimos de Lisboa, Santarém, Leiria, Coimbra, Aveiro, Porto enchem
a região. Importa dizer que estamos a pisar terras abundantes de portos,
lagunas, admiráveis praias, campos, planícies e declives que se vão pouco a pouco
alteando até as encostas das serras. Paragens, pois, onde reinam a facílima
indústria da pesca, e a doce cultura da vinha, do milho, dos frutos de toda a
espécie, das nozes, das olivas, das amêndoas, das castanhas, conforme os sítios
são mais ao mar ou mais ao centro, mais baixos ou mais altos.
Os distritos
de serra acima distinguem-se pela aspereza do clima, mas são cheios de vales e
encostas selvosas mui adequadas ao pastoreio e criatório de gados vários; bois,
ovelhas, cabras, que se fazem pastar, mudando de sítios, conforme as estações
de estio ou inverno, ao gosto das deambulações que, de época imemorial,
o berbere pratica no Atlas. Em zonas propícias desenvolve-se a cultura de
frutos ou cereais, e a pequena indústria de tecidos em atelier de família,
como no Minho e em Trás-os-Montes.
O moderno
escritor que mais inteligentemente descreveu as gentes das várias províncias
portuguesas foi Oliveira Martins, e, por isto, a ele recorro de novo neste
passo. Dele diz Basílio Teles, o notável economista, que dispunha de erudição
excessivamente superficial, mas possuía intuição histórica que seria injusto
desconhecer.89 Há nisto evidente
engano: o eloqüente autor da História de Portugal e de Portugal
Contemporâneo não primava pela erudição vasta e segura, nem era dotado de
ampla e perspicaz intuição histórica, nem tinha o senso etnográfico; o que o
distinguia amplamente era um potentíssimo talento de escritor, além da
faculdade pinturesca de retratar os quadros da natureza e as cenas do povo:
paisagens naturais, aspectos populares, eis as duas armas mais fortes desse
valoroso espírito, que, por outro lado, dispunha de cultura geral que o elevava
a certa altura, mesmo quando cometia os maiores erros e caía nas mais estranhas
heresias. Eis como descreve o caráter dos homens do Tejo:
“Nem o
calor tisna de verão as vegetações, nem o frio do inverno as atrofia.
“Por
tudo isto, a população abunda, sem exorbitar, como no Minho; e o habitante
reúne à laboriosidade de uma vida agrícola a liberdade de uma existência mais
ampla. A flora é variada, reunindo o pinheiro bravo e o manso, a vinha, a
oliveira e o carvalho, o trigo, o milho e o centeio.”
Eis como
fala dos habitantes da costa do Mondego que ao Douro:
“Descendo do mar o beirão é
anfíbio: pescador e lavrador. A lavoura nasce do mar: os carros são barcos,
adubos as algas e mariscos. Ao lado de um talhão de milho está uma marinha de
sal. O mar insinua-se pelos canais retalhando a planície, em cujo centro, como
uma artéria, corre o Vouga.
“A
três léguas da costa vê-se fundeado um barco, as mulheres cosendo as redes, ao
lado, sobre a terra úmida e negra, os bois a lavrá-la, ou o cavador a abri-la à
enxada.”
Agora avista
as gentes das partes mais altas das Beiras, e brada:
“O pastor
quase bárbaro dessas cumeadas da serra, abordoado ao seu cajado, vestido de
peles, seguindo o rebanho de louras ovelhas, é talvez o ascendente dos
companheiros de Viriato. Por estas eminências tapetadas de relva no estio, e de
neves no inverno, nem as vilas, nem as árvores se atrevem a subir: só o nômade
pastor as habita. Do alto de seu trono de rochas vê gradualmente ir
nascendo a vida pelas encostas: primeiro o zimbro, rasteiro e roído pelo gado,
circunda os altos nus; logo aparecem os piornos, as urzes brancas, os carvalhos;
depois, já à meia altura da encosta, os castanheiros, as lavouras, os enxames
das vilas.”
Encontra
agora em caminho os homens da encosta ocidental da serra da Estrela:
“O
beirão habitante da encosta ocidental, onde o ar é mais úmido do que em Trás-os-Montes,
as chuvas mais abundantes, a temperatura igual; onde o castanheiro colossal, o
cedro, o carvalho e o pinheiro bravo põem na paisagem todos os tons e grandeza
própria das árvores que vivem séculos; o beirão é menos vivo, mas mais robusto.
Quem divagou por essas terras admirou de certo a estrutura hercúlea desses
homens, cuja face não luz com um brilhante reflexo de vida interior, mas acusa
um pleno desenvolvimento da vida animal.
“Terra
de audazes bandidos, anacrônicos representantes de uma independência de
outras cidades, a Beira é o viveiro de musculosos trabalhadores que vão
todos os anos, pelo estio, lavrar as glebas do sul do Tejo, levemente
vestidos nas suas bragas curtas de linho, descalços, a camisola de lã
agasalhando o tronco, o barrete na cabeça, a manta e a enxada ao ombro.”
Finalmente
topa os povos da encosta oriental:
“A
exposição oriental ou transmontana das abas da serra da Estréia – e dos
serros subalternos da Guardunha dá à província da Beira Baixa um novo aspecto:
há maior secura no ar e as chuvas são menos abundantes; os olivais medram
melhor, e os habitantes juntam à vida agrícola a industrial, tecendo as lãs dos
rebanhos da serra.”90
É admirável
a concordância entre tudo isto, entre todas estas incisivas e firmes pinturas e
as páginas de Estrabão, escritas há dois mil anos.
Pastorícia,
nomadismo, deambulações, grosseria de costumes, banditismo, ao lado da
fertilidade da terra nas baixas e da aspereza dos sítios mais altos, tudo está
para ler-se no velho geógrafo, – que leva vantagem ao moderno historiador
em ter senso bastante para não confundir os iberos da Lusitânia com os célticos
de outras regiões da Espanha.
Convém
ouvir; é instrutivo:
“Ao
norte do Tejo dilata-se a Lusitânia habitada pela mais poderosa das nações ibéricas
e que entre todas por mais tempo deteve as armas romanas. Este país tem por
limites ao sul o Tejo, a oeste e norte (o geógrafo incluiu a atual Galiza na
Lusitânia) o oceano, a oriente as possessões dos Carpetanos, dos Vetões,
dos Vaceus... Toda a região oriental é elevada e áspera mas
para baixo até o mar o país só forma uma planura apenas interrompida por
algumas montanhas de altura medíocre... O país que descrevemos é rico e fértil;
rios grandes e menores o cortam, correndo paralelos ao Tejo. Na maior parte
podem subir-se, e arrastam palhetas de ouro em grande quantidade. As mais
conhecidas destas correntes a partir do Tejo são o Mundas (Mondego) e o Vácua
(Vouga); ambos podem subir-se a curta distância apenas.
“Vem
depois o Douro, cuja origem é muito longínqua, banha Numância e muitos outros
lugares pertencentes quer aos Celtiberos, quer aos Vaceus; e grandes
navios podem subi-lo por cerca de 800 estádios... Trinta povos diversos habitam
a região compreendida entre o Tejo e a fronteira dos Artabros; mas, ainda que
este país seja naturalmente rico em frutos e gado e também em
ouro, prata e outros metais, a maioria destes povos renunciou a aproveitar
estas riquezas naturais para viver vida de salteadores; sempre na
verdade viveram em guerras entre si, ou com os seus vizinhos dalém do Tejo, até
que os romanos reduziram este estado de coisas, fazendo descer porção das
gentes da montanha para a planície, reduzindo a maior parte das suas cidades a
simples burgos, fundando ao mesmo tempo algumas colônias entre eles. Foram os
serranos que iniciaram a desordem, habitando um país triste e selvagem,
possuindo só o necessário, desceram a cobiçar o bem de seus vizinhos. Estes por
sua vez tiveram para os repelir de abandonar os seus próprios trabalhos, e como
eles mesmos se puseram a guerrear em vez de cultivar a terra, o país
pela falta de cuidados cessou de produzir alguma coisa, nem mesmo os frutos
que lhe eram naturais, a ponto de se tornar em verdadeiro abrigo de salteadores...
Os lusitanos, segundo contam, são excelentes para armar emboscadas e
descobrir pistas; são ágeis, rápidos, destros... Todos estes montanheses são
sóbrios, bebem só quase água; deitam-se no chão; têm cabelos compridos e
flutuantes à maneira das mulheres... O seu principal alimento é a carne de
cabra. Nos seus sacrifícios imolam bodes, cavalos e os prisioneiros de
guerra. Nas três quartas partes do ano o único alimento na montanha são as
glandes de carvalho, que, secas, quebradas e pisadas, servem para fazer pão...
“O
vinho é raro e o pouco que se fabrica é em breve consumido nos grandes
banquetes de família, tão freqüentes entre estes povos.”91
Parece um
trecho moderno de Léon Poinsard sobre as gentes de Marrocos, ou de A. de
Préville sobre as sociedades berberes em geral.92
Não há
mister de antecipar. Urge dar ponto a resenha das zonas geográficas,
climatológicas e sociais de Portugal.
Chegamos ao
extremo Norte; faltam-nos o antigo d’Entre Douro e Minho e
Trás-os-Montes.
O famoso
Minho é a região mais povoada de Portugal, a de propriedade rural mais
dividida, a de gentes mais ativas no trabalho e no labutar da vida. Comprimida
entre o Douro e o Minho, a valorosa zona é cheia de sítios pitorescos, de belas
veigas, de férteis campos, de encostas aprazíveis.
Cortada pelo
Cávado e o Lima, que formam vales deliciosos de beleza e uberdade, é a terra de
Viana do Castelo, Braga e Guimarães, célebres na história política e
eclesiástica do país, e de um sem-número de vilas e aldeias, ruidosas e alegres.
Na margem norte do Douro, quase à foz, espraia-se a cidade do Porto, que
preside a todo esse extremo Norte de Portugal. Centro de indústrias, comércio e
navegação, constitui o núcleo primitivo da expansão e das liberdades
democráticas portuguesas.
Antiquíssimo
povoado ibérico, ao que se pode presumir, foi, desde alta antigüidade,
reforçado pelo lígure no sentido do aferro ao solo, e, durante duzentos anos no
começo da Idade Média, pelo suevo no sentido da liberdade, do self-government
da autonomia popular.
Do que fica
dito, não se vá supor ser toda a região marcada por um só aspecto e toda cheia
de férteis paragens; deparam-se-nos, ao contrário, ali serros e penedias
imprestáveis, num solo em extremo acidentado. As culturas principais são
– a vinha, o milho, o centeio, batatas, hortaliças, castanhas, olivas,
nozes, frutos em abundância entre os quais avultam as peras, os figos e os
damascos. Cultivam-se o trigo e a cevada em pequena escala. Todos estes
trabalhos são feitos quase sempre em tom festivo e alvissareiro. As desfolhadas
do milho, as mondas e vindimas são tão alegres e ruidosas como as romarias sem
número que se fazem por toda essa região nas sazões propícias.93
A região de
Trás-os-Montes é a continuação da anterior. Separada do Minho pelas serras da
Cabreira e do Gerez, alteia-se, abrindo entre essas serras e as do Marão e
Padrela o vale do Tâmega. O clima torna-se mais seco; desaparece a vinha em
latadas e impera a vinha em cepas; desaparece o vinho verde e surge o maduro. A
chamada terra quente das margens do Douro, de Sabor, do Corgo, do Tua,
do Pinhão é zona de vinho, nozes, castanhas, amêndoas, laranjas, centeio,
cevada, azeitonas.
A região dos
planaltos, intitulada terra fria, é próspera em castanhas, nozes,
batatas, centeio, possuindo bons pastos para o gado bovino.
A terra
temperada, que medeia entre os planaltos e as margens dos rios, é abundante
em frutos, milho, batatas, castanhas, nozes, terra clássica, pois, de frutos
arborescentes, como os famosos da Grécia e da Ásia anterior.
Não há
motivo para não ser ouvido ainda uma vez, a última, o pitoresco paisagista da
história portuguesa:
“Quem alguma vez transpôs o
Tâmega, decerto observou a diferença da paisagem e do caráter e aspecto dos
habitantes de aquém e de além desse rio. O transmontano, vivo, ágil, robusto,
destaca-se para logo do minhoto, obtuso mas paciente e laborioso, tenaz,
persistente e ingênuo. Além do Tâmega o clima é seco, poucas as chuvas, grande
o calor no fundo dos apertados vales, mas temperado nas alturas; intensos os
frios hibernais que coroam de neve as montanhas e gelam a água pelos vales.
Aquém as brisas do mar, estacadas na sua derrota pelas serras, condensam-se e
produzem as chuvas copiosas: por isso no Minho o pendor ocidental das serras do
oriente é sanado pelos numerosos e sucessivos rios paralelos, cujos vales,
reunindo-se junto à costa, formam a primeira das planícies litorais, do Norte,
de Portugal. Habita essa região planturosa uma população abundante, ativa, mas
sem distinção de caráter, nem elevação de espírito: conseqüência necessária da
umidade e da fertilidade... O Minho é uma Flandres... As chuvas precipitam-se
abundantes sobre um chão lavrado de canais; a umidade torna plácidos os
temperamentos e entorpece a vivacidade intelectual, que nem um frio demasiado
irrita, nem um calor excessivo faz fermentar... Temperado o clima, sem
excessivos afastamentos hibernais, a população satisfeita, feliz, e bem nutrida
de vegetais e de ar úmido, oferece o exemplo de um exército de laboriosas
formigas, sem coisa alguma do alado e brilhante de um enxame de abelhas.
Além Tâmega
as louras messes de trigo, os pâmpanos rasteiros, o carvalho nobre e o gigante
castanheiro vestem os pendores de elevadas serras, cujas cristas dentadas de
rochas, no inverno coroadas de neves, se recortam no fundo azul do firmamento,
dando fixidez e nobreza ao quadro, e infundindo o quer que de elevado no
espírito...
Aquém Tâmega
o cenário muda: a umidade cria em toda parte vegetações abundantes; não há um
palmo de terra donde não broto um enxame de plantas; mas como o solo é breve,
como a rocha aflora por toda a parte, e os campos nascem do terreno vegetal
formado nas anfratuosidades do granito pelas folhas e ramos decompostos, e nos
estuários dos rios pelos sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e
humilde, o pinho marítimo de constituição débil, o carvalho um pigmeu, enleado
ainda pelas varas das vides suspensas. A densidade da população completa a obra
da natureza, numa região onde o vinho não amadurece: o ácido picante dá-lhe uma
semelhança das bebidas fermentadas do Norte, cidra ou cerveja, e com ela ao
gênio do povo, caracteres também semelhantes ao dos bretões ou flamengos.
A vegetação
de si mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão dos homens; as necessidades
ferozes da população abundando produzem uma cultura que é mais
hortícola do que agrícola: pequeninos campos, circundados por pequeninos
vales, orlados de carvalhos pigmeus, decotados, onde se penduram os cachos das
uvas verdes. No meio disto formiga a família: o pai, a mãe, os filhos, imundos,
atrás duns boizinhos, anões que lavram uma amostra de campo ou puxam uma
miniatura de carro. Sob um céu enevoado quase sempre, pisando um chão quase
sempre alagado, encerrado num vale abafado em milhos, dominado em torno por
florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, sem abundante luz, nem
largos horizontes, o formigueiro dos minhotos não pode despegar-se da terra,
como que se confunde com ela; e, com os seus bois, os seus arados e enxadas,
formam um todo, donde se não ergue uma voz de independência moral, embora a
miúdo se levante o grito de resistência utilitária.”94
Parece uma
sátira. Há aí fundo de verdade num sentido muito geral; mas o poético escritor,
no desesperado empenho de distinguir o transmontano do minhoto, carregou
demasiado a mão neste último. Retira-lhe todo o ideal, toda a poesia, toda a
grandeza e elevação d’alma; redu-lo a um animal puramente utilitário.
Empobrece o solo, fá-lo quase sempre alagado e tolda o céu às mais das vezes.
Quão diversa é a impressão de D. Antônio de Castro em seu alegre livro – No
Minho!...
Oliveira
Martins teve evidentemente a preocupação de imitar e seguir as pegadas de Taine
na pintura que fez da Holanda em Philosophie de l’Art aux Pays-Bas. Por
isso transforma os trêfegos minhotos em flamengos e a sua terra numa Flandres,
quando não chega a ser nem uma Gironde!...
Dou
testemunho diverso ao do paisagista português: atravessei o Minho em vários
sentidos; fui do Porto ao Gerez: estive em Famalicão, Caldas das Taipas,
Guimarães, Braga, em numerosas aldeias, em Leça da Palmeira, em Matozinhos,
estive na região marítima e em serra acima; em parte alguma vi essas constantes
chuvas, esse céu sempre sombrio, esses carvalhinhos anões, esse raquitismo
geral das árvores e dos animais.
Atravessei
igualmente Trás-os-Montes; passei por Peso da Régua, Vila Real, Vila Pouca de
Aguiar, Pedras Salgadas até Chaves, e, se reconheço alguma diferença nos tons
da paisagem e no caráter do povo, não vai isto até ao ponto de o afastar tão
enormemente do minhoto como faz o eloqüente historiador. Há uma terra que se
parece bem com as alturas de Trás-os-Montes – são os planaltos, as
elevações, as serras do Minho. Os dois povos são bem irmãos.
Como quer
que seja, eis-nos chegados ao fim de nossa excursão. Qual a moralidade a tirar
desse trabalho, em relação à índole social dos portugueses e a sua direta
influência no caráter dos brasileiros?
É o que
deverei indicar infelizmente em traços rápidos.
Não basta
descrever pitorescamente os habitantes das várias províncias, e dar, como
Oliveira Martins ou qualquer outro, algumas notas exteriores de seu viver.
Indispensável
seria fazer um estudo aprofundado de todas elas, sob o ponto de vista especial
do viver de cada uma, conforme os sítios em que se encontra: – montanhas,
planaltos, vales, planícies, praias, e os recursos de que dispõem, de época
imemorial a esta parte.
Alguma coisa
como fez Edmond Demolins para a sua França no admirável livro de geografia
social – Les Français d’Au jourd’hui.
Ver-se-ia em
ação a natureza do Lugar e do Trabalho e assistir-se-ia à
formação lenta de cada um dos tipos sociais em que se decompõe a nação
portuguesa.
Não passarei
de rápidas notas e conclusões gerais.
A primeira
observação a fazer é que a exigüidade do país, que lhe garante um clima quase
igual por toda a parte, com exceção dalguns pontos serranos mais altos, traz
como conseqüência imediata a quase identidade das culturas.
Leves
diferenciações podem-se dar e podem ser notadas; mas o tom é o mesmo por toda a
parte. Não se deve perder de vista que as denominações de terras frias e
terras quentes são às mais das vezes mero luxo retórico. Temperadas é o que
são todas elas, apenas com a exceção indicada. Aí mesmo devemos estar
prevenidos contra possíveis exageros.
As serras
mais altas de Portugal, cujos píncaros são inaproveitados, não passam de
Essa é a
razão pela qual, estudando as produções portuguesas, encontra-se o seguinte
resultado: a) Arte pastoril: Minho, Trás-os-Montes, Douro, Beiras,
Estremadura, Alentejo, Algarve, isto é, Portugal inteiro, havendo apenas, como
de razão, maior recrudescência nas Beiras, e no Alentejo; b) Produções
frutíferas arborescentes:95 Minho
(vinha, oliveira, castanheiro, nogueira); Trás-os-Montes (nogueira,
castanheiro, oliveira, vinha, amendoeira, laranjeira); Douro (oliveira, vinha,
castanheiro) Beiras (vinha, castanheiro, nogueira, oliveira); Estremadura
(vinha, laranjeira, oliveira, castanheiro); Alentejo (vinha, oliveira,
castanheiro, nogueira); Algarve (vinha, oliveira, amendoeira, castanheiro).
Já não é
preciso falar nos figos, damascos, peras, cerejas, amoras, pêssegos, maçãs,
ameixas, existentes quase por toda a parte; c) Cereais, legumes, hortaliças,
etc.: Minho (milho, centeio, cevada, trigo, batatas, hortaliças);
Trás-os-Montes (centeio, trigo, milho, cevada, batatas) Douro (trigo, centeio,
milho, hortaliças); Beiras (trigo, centeio, milho, cevada); Estremadura (trigo,
centeio, cevada, milho); Alentejo (trigo, centeio, milho, arroz, cevada);
Algarve (trigo, cevada, centeio, milho).
As notas
predominantes neste quadro, as que mais se repetem entre as culturas principais,
são: vinho, castanha, noz, azeitona, milho e centeio. São ali as primeiras a
base da exportação comercial e as últimas a do alimento do povo, ao par de
legumes, hortaliças. O trigo, que deveria incomparavelmente ser mais cultivado,
deixa déficit de subsistência, tendo de ser importado em notável escala.
Como entra
pelos olhos adentro, a gente portuguesa, com tão agradáveis espécies de
culturas, não passou, em lavoura, da mera jardinagem e da simples colheita remuneradora,
quase sem trabalho.
É o caso das
terras privilegiadas da orla mediterrânea e regiões próximas – em França,
Espanha, Itália, Grécia e Ásia anterior.
O labutar
duro, penoso, áspero, fatigante do trabalho agrícola das zonas pobres, dos
solos ingratos, nunca foi partilha dos compatriotas de Camões.
I. O MEIO – II. A RAÇA – III. AS
INFLUÊNCIAS ESTRANGEIRAS – IV. SENTIDO TEÓRICO DA LITERATURA BRASILEIRA
– V. SUAS FASES PRINCIPAIS
A literatura
brasileira não se furta às condições gerais de toda a literatura antiga ou
moderna, – ser a resultante de três fatores fundamentais: o meio, a
raça, as correntes estrangeiras. Da ação combinada deste três
agentes, atuando nas idéias e nos sentimentos de um dado povo, é que se
originam as criações espirituais a que se costuma dar o nome de literatura. É
que se deixou de ver em tais criações a obra do acaso, do capricho ou das
imposições de um poder estranho qualquer. Eram estas últimas presumidas
manifestações da metafísica do absoluto em tal ordem de assuntos. A
crítica moderna desterrou de seu seio esta classe de fantasmas. É que chegou
definitivamente a estabelecer que a literatura é apenas um ramo das criações
artísticas, a arte da palavra escrita ou falada, que, como toda a arte, não
passa de um capítulo da sociologia, qual acontece à religião, à moral, ao
direito, à política, à ciência, à indústria. Ora, o fundamento de toda a
sociologia, a sua condição primordial, vêm a ser – terra e gente,
o meio e a população. E como na humanidade, desde os seus
primórdios, se começou a formar a consciência mais ou menos nítida da
identidade dos seus destinos, a despeito da variedade dos meios e das raças,
claro é que, desde cedo, começou a dar-se a troca das idéias, o intercâmbio
espiritual, que veio estabelecendo a solidariedade geral e formulando o que nós
ousamos chamar a lei da persistência e da eqüipolência das forças
espirituais entre os povos, ad instar do que se dá com as forças
naturais no mundo físico. Desde os antigos tempos as nações, quer entre os
ocidentais, quer entre as gentes do Oriente, andaram sempre a passar de uma às
outras os produtos da inteligência e do afeto, fenômeno rítmico que no mundo
moderno assume o aspecto de completa evidência. A ânsia de vaidade do
pensar e do sentir entre os homens, tentada pela monarquia e o direito com os
romanos, pela religião com a Igreja na Idade Média, pela ciência e indústria
com os modernos, não é mais do que uma das faces da cada vez maior troca de
idéias e emoções entre os povos, uma das mais eminentes e flagrantes
manifestações da sempre presente e indestrutível consciência da identidade
dos destinos humanos, base, a nosso ver, de toda a sociologia e de toda a
moral. É por isso que em todas as literaturas, máxime nas que se começam a
formar e nas que são ainda jovens, se faz sentir inegavelmente a influência
estrangeira que ao historiador e ao crítico incumbe descobrir e descrever.
Toda
literatura desdobrada no curso dos séculos oferece, destarte, o espetáculo de
um gérmen, de um organismo que se desenvolve, já sob o estímulo de
forças internas, inerentes a si mesmo, já sob a pressão de correntes estranhas
que partem de um ou mais pontos do horizonte intelectual do mundo num tempo
dado.
Infelizmente
estas correntes estranhas têm sido quase as únicas notadas na literatura
brasileira por alguns pseudocríticos que dela se têm ocupado.
Não que eles
houvessem tido a precisa perspicácia para descobrir e apontar a razão, a
origem, a ordem sucessiva, as mutações várias da influência estrangeira em
nossas letras, em nossa arte, em nossa política, em nossa economia, em todas as
esferas, em suma, da atividade nacional. E que o tivessem feito com todo o
apuro e requinte científico, ainda assim ressaltaria aos olhos a incompetência
de crítica tão unitária e estreita – a ponto de persistir no erro de não
ver nos fenômenos espirituais da nação, quer intelectuais, quer emotivos, senão
a face mais superficial e exterior.
Assim, pois,
cumpre não perder de vista serem os fatores primordiais e permanentes
de nossa vida espiritual, respectivo de nossa literatura, – a natureza
e a raça, que lhe constituem o organismo e a alma, e ser o fator móbil,
variável, externo – a influência, a imitação estrangeira. Aberra
quem desconhece os primeiros; erraria quem escondesse o último.
Há mister
estudá-los mais de perto.
Os velhos
críticos e historiadores retóricos nacionais até bem pouco tempo não tinham a
menor idéia das relações que, porventura, pudessem existir entre o meio brasileiro
e a literatura pátria e muito menos entre esta e o caráter da nossa raça.
Só após um
decênio inteiro (1870-1880) de estudos e propagandas feitas pela escola
inovadora do Recife, no claro intuito de preencher essa lacuna, é que, tendo
passado a nova intuição ao Brasil em geral, se chegou a falar no assunto; mas
as mais das vezes por mero luxo de frases feitas, de palavras de efeito.
O lado sério
do assunto, o nexo causal, entre essas duas grandes forças e suas
inevitáveis conseqüências, é geralmente descurado. É preciso indicá-lo aqui por
fatos palpáveis e indiscutíveis.
I
O meio, e
por esta expressão se deve entender o aspecto geral da natureza, o clima, a
temperatura, a constituição geológica e geográfica do país e seus conseqüentes
imediatos – o trabalho, a alimentação e as condições fisiológicas e
sociais da população, o meio tem operado entre nós como agente
diferenciador em toda a direção da vida nacional, pelos fatos e circunstâncias
que se vão enumerar.
A marcha do
povoamento do país, as condições políticas da nação, as relações econômicas,
jurídicas, sociais, todas estas coisas, até as intuições estéticas têm sido, em
grande parte, ajeitadas e modificadas pelo meio.
Vejamos as relações
políticas.
Na imensa
pêra sul-americana, como dizem uns, no enorme presunto d’América do Sul,
como se poderia chamar, o Brasil, ocupando talvez mais do terço, constitui uma
região especial que se distingue por mais de uma singularidade.
Tendo em
geral a mesma configuração dessa parte inteira do Continente, é, no seu núcleo
central, a região mais antiga do Novo Mundo e, talvez, da Terra. Era uma enorme
ilha primitiva, que se veio ligar ao planalto mais recente dos Andes e ao das
Guianas, por movimentos geológicos específicos e mais diretamente pela ação dos
dois consideráveis rios que a circulam – o Amazonas e o
Paraguai-Paraná-Prata
Logo daqui
decorrem três conseqüências, que, influindo no corpo inteiro do país, originam
condições a um tempo sinérgicas e divergentes às respectivas populações: a) a
extensão do território que dá lugar a nada menos de trinta ou quarenta zonas
diversas climatológicas, acarretando outras tantas modalidades demográficas e
sociais; b) a existência de quatro grandes depressões que circundam o
planalto, operando a singularidade da repetição no longínquo Ocidente e no alto
Norte de um clima aproximadamente idêntico ao da costa e produzindo semelhanças
sociais iniludíveis; e) a articulação do planalto com as depressões que
o cercam dos quatro lados por sistemas fluviais que correm nas quatro direções,
formando do país um todo compacto e uniforme, garantidor da unidade política,
só perturbável pelos erros dos homens, não pelas imposições da natureza. É só
olhar para o mapa e ver com olhos desprevenidos a distensão imponente e
simétrica do colosso brasileiro: a unidade na variedade, ou a variedade na
unidade, é aí a primeira dádiva do solo. Dessa primordial circunstância da
terra promana conseqüência inapreciável de ordem política.
O corpo do
país não é desagregado, como o da esparsa América Espanhola, tomada em seu
conjunto, nem indistinto e uniforme como o do Uruguai, do Chile, de Portugal,
da Bélgica, da Holanda, ou mesmo da própria França. Destarte, se, por um lado,
não é desequilibrado e desunido, a ponto de ter ao Norte uma grande massa de
terrenos, à guisa do México e América Central, ligados por um simples istmo
montanhoso e quase intransitável ao corpo de suas irmãs do Sul, às terras da
Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia e Chile, separadas também estas
últimas da Argentina, do Paraguai e Uruguai pelo espinhaço gigantesco dos
Andes, e seus contrafortes, o que tudo produz um corpo desarticulado, disforme,
desconexo, que se havia de fatalmente dividir; não é, por outro lado, uma
pequena região inteiriça e compacta, como a Lacônia, a Fenícia ou a Judéia,
apta a uma organização demasiado unitária e compressiva. Por isso o Brasil não
poderá, não deverá nunca ser um Estado em demasia centralizado como a França,
nem dissolvido em várias nações, como a América Espanhola, que já nasceu
desunida!... Um governo sui-generis, original, novo, espécie de
compromisso entre o regime unitário e o federativo, será, supomos nós, o
resultado a que há de chegar a política brasileira, evitando os excessos das
Constituições de 1824 e 1891, simples obras de doutrinários abstratos e
fantasistas, que não tinham amplo e seguro conhecimento de nosso povo nem do
nosso país. A experiência falha da centralização imperial e a experiência
desastrosa do exagerado federalismo republicano hão de ceder o passo a um
regime mais em harmonia com o meio físico em que se move a jovem nacionalidade.
O Brasil é
um possante triângulo, cuja porção central, a antiga ilha, o planalto, está
hoje, como dissemos, cercada por quatro grandes depressões, que são as faixas
de terras novas que o ligam às regiões vizinhas e ao mar: a depressão do vale
amazônico ao Norte; a do Paraguai-Paraná, prolongada no mesmo sentido pelo
Guaporé e Madeira ao Oeste, a dos campos rio-grandenses ao Sul, a oceânica do
lado oriental. O divisor das águas, entre as duas bacias que são como as pontas
de enorme compasso, não é, às mais das vezes, senão um chapadão pouco elevado,
deixando quase tocarem-se as águas dos dois sistemas, que dão origem a inúmeros
rios, os quais constituem um simétrico regime arterial, próprio para articular,
unir e dar vida ao corpo inteiro. Como um verdadeiro poder moderador, bem perto
das fontes do Paraná, cujos principais afluentes nascem próximo às origens de
consideráveis afluentes do Amazonas, forma-se o gigante brasileiro por
excelência, o imponente São Francisco, que se encarrega de manter as regiões
intermédias entre os dois rivais, cortando-as bem ao meio.
Nestas
condições, é fácil compreender que a União brasileira, antes de ser uma dádiva
da história e da política, era já uma exigência da natureza; mas essa unidade
não é incompatível com a variedade, que a própria extensão do país, dividida em
trinta ou quarenta zonas geográficas diversas, é a primeira a indicar e a
impor.
Daí as
aspirações descentralizadoras, que acharam expressão no Ato Adicional de
1834 no tempo do Império e na Constituição Republicana atual, e a
necessidade que se faz sentir da revisão desta última, no sentido de apertar os
laços da União, em dias da República, não falando já em ação semelhante no
antigo regime expressa na Lei de Interpretação do aludido Ato
Adicional.
A ação,
pois, do habitat brasileiro nas correntes gerais da organização política do
país apresenta-se nítida.
Indiquemos,
de relance, outras variações do assunto.
O consensns
existente entre todas as grandes manifestações da vida mental do povo
leva-nos a isto.
Vejamos
rápido a face jurídica: a influência do meio nacional no desenvolvimento do direito
pátrio.
A extensão
do país, produzindo as grandes distâncias, foi a causa determinante, não só das
linhas gerais de sua primitiva divisão territorial, que o Império e a República
não se atreveram a mudar, e ficou sendo a base da divisão
político-administrativa, como ainda da formação lenta da vida social e jurídica.
Daí, certos tipos divergentes das legislações locais das antigas capitanias,
das províncias do tempo imperial e dos Estados hodiernos, ao lado das medidas
convergentes, indispensavelmente exigidas pela Monarquia e agora pela União
Republicana.
Foi ainda o
meio que influiu na divisão, por vezes tentada, da Colônia em dois governos e
na criação do Estado do Maranhão e Grão-Pará, já não falando na formação morosa
das capitanias de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Santa Catarina e Rio Grande
do Sul e na singular separação do chamado Distrito Diamantino, com regímen
especial até o começo do século XIX.
Foi e
continua ainda a ser o meio o principal fator a influir na legislação
industrial e no sistema de impostos, segundo as zonas são mineiras,
cafeeiras, açucareiras, criadoras ou extrativas.
Foi ainda
ele que ocasionou a especial legislação sobre as comunicações internas, já
proibidas, já permitidas, nos tempos coloniais, e é ainda hoje o fator
principal no sistema de viação férrea, de comunicação e trânsito de mercadorias
entre os Estados, e nomeadamente no temeroso problema da imigração estrangeira,
que tem sido mal encarreirada no Brasil, enchendo-se o Rio Grande do Sul, Santa
Catarina e Paraná de alemães e São Paulo de italianos, ao passo que os Estados
do Norte têm sido inteiramente descurados.
Foi ainda
ele que determinou o fato da escravidão, criando o sistema de resgate dos
índios e das bandeiras para os cativar, ao mesmo tempo que
levava o colono reinol a ajudar-se do braço africano para desbravar este
país tropical. E é preciso, por fim, afirmar que o meio tem sido e continua a
ser poderoso agente jurídico, influindo nos costumes, os hábitos, o trabalho, a
economia e tantos outros elementos determinadores de nossa especial fisiologia
e psicologia nacional, que todos criam relações jurídicas e provocam quase
sempre a ação da lei.
Passemos
desde já a indicar a influência do meio nas criações estéticas e literárias.
Aqui, além
de todos os fatos já apontados, que todos agem por modos vários, diretos e
indiretos, avulta o aspecto geral da natureza.
É uma das
faces mais distintas de nosso país.
Todas as
zonas desta parte da América oferecem ao observador encantos e belezas em
elevado grau. Costas, matas, montanhas, planaltos, chapadas, campos e
tabuleiros, rios e lagos – tudo traz a marca desta imensa oficina de
pitoresco.
A variedade
é aí a regra geral. As costas, na orla litorânea do Rio Grande do Sul, são de
areias e dunas como as da Dinamarca e do Báltico. De Santa Catarina ao Espírito
Santo são cercadas, do lado de terra, de belíssimos anfiteatros de serras e
montanhas de desencontradas alturas, já ermas de mato em vários picos, já
cobertas de luxuosa vegetação quase
Não findam
aí, porém, as mutações da cinta litorânea brasileira.
Da Bahia a
São Luís do Maranhão, a costa mostra aqui e ali, em começo, alguns morretes de
barro vermelho, alternando com as praias d’alvíssimas areias, como dorsos
mosqueados de animais estranhos vistos ao longe; depois seguem os lençóis
prateados dos areais intérminos por toda a extensão da costa desde o Itapicuru
do Sul (Bahia) até o Itapicuru do Norte (Maranhão). Aqui e ali há cômoros
movediços.
Tal sertão,
tal praia: cremos poder afirmá-lo.
Ao sertão do
planalto do Sul, desde metade do Rio Grande até os limites setentrionais de
Minas, corresponde, pelo mar, do Norte do Rio Grande até o Sul da Bahia, a
costa montanhosa acima descrita; a esse sertão mais alto, mais rico, mais
fresco – o litoral mais variegado e pitoresco. Ao sertão do planalto do
Norte, mais seco, mais áspero, da Bahia ao Maranhão, corresponde o litoral
desolado das areias e dunas, severamente poético em sua monotonia, quebrada
aqui e ali pelas fozes dos rios e os matagais que de ordinário geram.
De São Luís
do Maranhão até além das fronteiras do Brasil surge o panorama da mata
marítima, a mata que entra pelo mar ou o mar que entra por ela adentro.
“O
navegador, diz uma testemunha ocular, o navegador parece estar presenciando o
espetáculo de uma Fata Morgana, quando desta costa vê emergindo do horizonte
umas copas despregadas primeiramente, ganhando sucessivamente e aos poucos seu
tronco cada uma, reunindo-se finalmente em compacto e ininterrupto debrum
florestal, que periodicamente do mar surge e periodicamente é inundado ainda
pelas salsas ondas.” É a mata costeira, precursora da mata amazonense.
Compreende-se o surto de estranha poesia daí evolado, capaz de inspirar poetas,
pintores, romancistas e quantos sintam n’alma os impulsos do belo,
desperto pela natureza.
O talento
não pode ficar mudo diante de tais cenas. Antônio Vieira, por ter ali passado,
deve a esse meio alguma das suas mais poderosas páginas descritivas. A
descrição da Ilha dos Nengaíbas é deste número.
Ainda nestas
paragens verifica-se a nossa asserção: a tal sertão, tal praia.
Ao sertão
amazônico, se esse nome merece, coberto de rios e florestas, havia de
corresponder costa coberta de matas alagadiças. Tal é o Brasil, visto do mar.
Em terra, a
prodigiosa mutabilidade dos aspectos do céu e do solo escapa a qualquer
definição. A região dita da mata, ao longo da zona marítima, é variadíssima de
feições. Oiteiros, campos, trechos de floresta, serras, cascatas, rios,
riachos, vales, encostas e descalvados, de tudo se encontra, e cada trecho tem
a sua fisionomia.
A região
florestal, propriamente dita, no vale amazônico, no Pará, Amazonas e Mato Grosso,
atenta a quase nenhuma assimilação de tais paragens ao nosso viver geral de
nação, pois que ainda não as povoamos, não tem quase nada influído em nossa
estesia.
A mata
familiar aos nossos poetas é a de São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe,
Pernambuco, Maranhão... isto é, a que está para aquela outra na mesma proporção
em que a serra do Mar está para os Andes, ou a Mantiqueira para o Himalaia.
Talvez não
tenhamos, sob o ponto de vista da doce harmonia de todas as notas influidoras
de nosso meio, perdido demasiado com esse descuidoso abandono. Seria uma nota
desacorde num coro de deliciosa melodia. “Há grandeza, escreveu Alf.
Wallace, há grandeza e solenidade na floresta tropical, porém pouca beleza ou
brilhantismo de cor. As enormes árvores escoradas de sapopembas, os troncos
gretados, as extraordinárias raízes aéreas, as trepadeiras retorcidas e
enrugadas e as elegantes palmeiras são o que fere a atenção. Porém tudo é
lôbrego e silencioso, e o homem sente-se aliviado ao ver de novo o céu azul e
sentir os raios tostantes do sol.” Talvez não tenhamos demasiado perdido
com a pouca influência da truculenta paisagem equatoriana sob o ponto de vista
dos influxos em geral sempre suaves do meio; mas perdemos, certamente, pelo que
diz respeito aos fortes estímulos que dali podem provir à imaginativa. Nosso
lirismo tem acolá muito a assimilar.
O homem
sente-se, escreveu Wallace, aliviado ao ver de novo o céu azul e sentir os
raios tostantes do sol. – E o que não nos falta pelo Brasil
E como tão
diferentemente devem tão variegados aspectos ter influído nas populações!
O complexo
do país não está ainda suficientemente povoado e detidamente descrito e
estudado sob essa curiosa relação.. Em resumo, porém, ousamos asseverar que os
dois lados maus do clima brasileiro, a falta de chuvas no sertão do Norte e o
impaludismo nas regiões baixas da costa e das margens dos rios, duas coisas,
como se vê, exclusivas de limitadas porções do território, esses dois lados
maus de nosso clima, aliás facilmente corrigíveis, são de sobra resgatados por
preciosíssimas qualidades que o meio aqui nos prodigaliza. A ausência de
vulcões, de terremotos, de temporais assustadores, de ciclones, de tempestades
de neve, de geleiras deslocáveis, de desertos, de animais monstruosos, tem
trazido, cremos nós, esse acentuado espírito de confiança, de destemor, de
sossegada placidez e doce quietude, muito para louvar em nossa população.
Os
brasileiros atravessam durante dez ou vinte meses uma epidemia de cólera,
febre-amarela, varíola ou peste bubônica, que faria despovoar pela fuga Buenos
Aires ou Nápoles em quatro ou cinco dias, como se nada houvesse!... É a mesma
indiferente calma com que vivemos aqui seis meses em constante bombardeio, na
revolta da armada, sem que ninguém desse por isso, sem que as mulheres e as
crianças deixassem de dar seus diários passeios costumeiros, apesar de
repetidas mortes nas ruas.
O constante
aspecto primaveril das árvores, das várzeas, das montanhas, do céu, de tudo que
nos cerca, imprimiu, por outro lado, em nosso senso estético as duas qualidades
que melhor o distinguem: a efusão lírica na poesia, o colorido vivo da paisagem
na pintura. Lirismo e paisagem são, destarte, as notações mais vivazes da nossa
capacidade artística.
A terra das
tardes morenas e tépidas, das noites deslumbrantes, das manhãs vivas e
cheirosas, dos pássaros de variegada plumagem, das folhagens sempre verdes, das
flores sempre à lacremente vivas, tinha naturalmente de ser terra de
descritivos na lírica e na pintura. É a nota fundamental a que as demais têm de
se ajuntar.
Mas onde a
ação das condições especiosas do meio brasileiro se deixa pegar em flagrante é
no estudo de como se operou e se vai operando o povoamento da terra.
A existência
inestimável do mar que nos banha numa imensa costa, que abrange um lado inteiro
do país e é um dos fatores, e dos mais poderosos, da independência da nação e
da união entre seus filhos, foi o primeiro veículo por onde se começou a
efetuar o povoamento do território e ainda hoje é o meio mais eficaz das
comunicações entre os seus habitantes. Durante quase dois séculos, os novos
íncolas, na frase pinturesca de Frei Vicente do Salvador, andaram arranhando
na costa como caranguejos. O velho cronista não suspeitava que assim mesmo
é que tinha de ser, por exigências telúricas do novo habitat.
Os primeiros
núcleos de população tinham fatalmente de ser nas praias do mar, donde era mais
possível a comunicação com a mãe-pátria, e onde a vida era mais fácil. A
existência das matas virgens e cerradas, próximas às costas, constituía uma
dificuldade inicial ao devassamento e povoamento interior da terra,
circunstância ainda mais agravada pela proximidade, nas costas do Sul, das
serranias que circulam o planalto central. Serras e matas demoraram o passo aos
povoadores, o que ainda mais, aos olhos da história, faz avultar a ação quase
miraculosa dos que fundaram São Paulo, fato excepcional em pleno século XVI.
Mas a terra
tem aberturas para o mar: os grandes rios. Este foram o segundo fator
poderoso no povoamento do país pelos colonos reinóis. O São Francisco, o
Paraíba do Sul, presidiram às primeiras entradas que avançaram pelos sertões.
De perto os seguiram o Amazonas, o Parnaíba, o Itapicuru, o Mearim, o
Jequitinhonha, o rio de Contas e outros de menor vulto.
E, o que
ainda mais consigna a importância desses inigualáveis condutores do homem, é o
fato de não terem sido só os rios que endireitam o curso para as bandas
orientais do planalto os que dirigiram as entradas dos povoadores. Igual
concurso toparam este nos rios, singularidade notável do Brasil, que, nascidos,
por assim dizer, quase na costa, lhe correm no sentido oposto: o Iguaçu, o
Paranapanema, o Tietê, o rio Grande, o das Mortes, o Paraná. Hoje em dia o
Juruá, o Purus, o Acre, o Madeira são portadores de gente para os mais altos
recessos do Continente, como já dantes o tinham também sido o Paraguai, o
Cuiabá, o São Lourenço, o Paranaíba e em muito menor escala o Araguaia e
Tocantins. E não é só: os grandes campos de criação, adjacentes a muitas dessas
imponentes correntes d’água que retalham o pátrio solo, foram outros
tantos auxiliares do povoamento.
Destarte, em
contraste aos agricultores da costa e da próxima zona das matas,
formava-se no Norte a população de criadores dos sertões longínquos, que
tiveram no gado um auxiliar poderosíssimo para a descoberta e desbravamento do
país. Em tudo isto é flagrante a ação do meio, encaminhando o povoar da terra,
fenômeno que se repete, pouco mais tarde, em mor escala talvez, na descoberta e
povoamento das regiões montanhosas e mineiras de Goiás, Mato Grosso e
Minas. Foi o incitamento da posse de tantas riquezas ocultas no seio das serras
sertanejas, que, açulando a cobiça dos homens, os levou a descobrirem e
povoarem tantas e tão consideráveis porções de nosso território. É o caso da borracha
agora no alto Norte e grande Oeste. Assim: aqui o mar, ali a mata; aqui os
rios, ali as montanhas; acolá os campos, além os minérios, o ouro, o diamante,
os seringais, foram outras tantas forças já favoráveis, já embaraçadoras à ação
do colono no povoamento da terra.
E, nesta
ordem de idéias, cumpre não esquecer a correlação existente entre o movimento
de população que se opera no Norte e o fenômeno mesológico das secas reinantes
periodicamente em certa porção daquele território. É o que determina em dias de
agora, o êxodo de cearenses para o Amazonas e o Acre.
Sempre a
influição do meio.
Nação sem
base econômica não se pode conceber e nem se pode manter. Por este lado o
influxo do meio é fatal; a colaboração da terra é fato iniludível e capital.
– Vejamos, pois, de relance, as relações econômicas, esboçadas
entre nós pelas próprias condições de nosso país.
A falta
relativa de numerosas ilhas e penínsulas, nesse mar a tantos respeitos tão
considerável e prestimoso, além da corrente dos ventos muito mais constante do
oceano para a terra do que da terra para o oceano, afastou os íncolas
primitivos dos grandes labores da navegação.
Comparados
aos habitantes das Antilhas e do Arquipélago Malaio, eles desaparecem numa
inferioridade absoluta. Sua navegação rudimentar não passava dos rios, das
enseadas, dos portos e paragens abrigadas da costa.
O
brasileiro, a despeito da ascendência portuguesa, é ainda hoje quase refratário
à vida do mar, e, assim, nossas indústrias marítimas são muito limitadas, quase
nulas...
A própria navegação costeira anda
quase toda nas mãos de estrangeiros, navegação, aliás, cada vez mais embaraçada
pelo fenômeno geológico do levantamento progressivo das costas por toda a
longuíssima zona marítima do país, com exceção apenas do extremo Norte, da foz
do Amazonas para cima, onde se produz o fenômeno inverso. Todos os portos da
República estão a reclamar consideráveis e colossais reparos que os conservem
francos e capazes. É na terra que, exclusivamente quase, se abre a arena do
labutar brasileiro pela vida. O primeiro presente por ela feito ao aventureiro
europeu foi o das ricas madeiras das matas próximas à costa. Durante cem anos e
mais, o pau-brasil, o cedro, o jacarandá e outros frondosos gigantes da
floresta forneciam o carregamento dos navios que aportavam às nossas plagas. As
resinas, as gomas, os pássaros entravam por alguma coisa nessas cotas
primitivas. Ainda hoje, as matas em estado virgem constituem um especial
regímen às populações que as avizinham ou nelas mais ou menos vivem.
As florestas
do Amazonas e de Mato Grosso são os tipos clássicos, digamos assim, da floresta
no Brasil. Ali a população sedentária, em rigor, não existe. Percorrem-nas
tribos errantes que entretêm algum comércio com as malocas mais estáveis da borda.
A expressão borda-da-mata, indicadora dos limites florestais, é
geral no Brasil. É aí que estacam as populações fixas e senhoras do solo. As
florestas do Amazonas e Mato Grosso são a região das indústrias extrativas por
excelência. A borracha, a salsaparrilha, a castanha, são os produtos
prediletamente procurados. Na borda da floresta, borda-da-mata, existe
ali a rudimentar lavoura de gêneros tropicais: cacau, tabaco,
cana-de-açúcar, mandioca, arroz, milho... Mas isto é a exceção: o homem é
ali ainda, originariamente, pescador, caçador e, modernamente, seringueiro.
Indústria
peculiaríssima da floresta é esta dos seringueiros, tipos nômades que
levantam acampamento em monções próprias, internam-se pela mata dentro, ao
sabor do curso dos grandes rios, ao serviço dos regatões, espécie nova
de comerciantes também nômades que fazem a compra da borracha e doutros
produtos congêneres, por conta dos aviadores, negociantes das praças de
Belém e Manaus. É bem de ver que o meio é aí o principal propulsor de tão
singulares peculiaridades.
As matas do
Maranhão, a de Ilhéus na Bahia, a do Espírito Santo, a de Minas, a de Goiás,
com serem muito menos consideráveis do que as de Mato Grosso e vale amazônico,
representam peculiar papel nas indústrias locais com as suas madeiras, o que
também acontece às do Paraná e Santa Catarina ao longo do Iguaçu, do Xapecó e
do Xopim. Nas regiões circunvizinhas destas no planalto, representam papel
especial as araucárias brasilienses, os pinheiros do Paraná, que constituem
florestas ralas e abertas, e as vegetações de erva-mate, fontes de indústrias
especiais. Idênticas são as condições de Mato Grosso, nas regiões do Sul,
limitadas pelos campos e chapadas do planalto a leste e o vale do Paraguai ao
ocidente. Por todas estas zonas, a produção industrial é dádiva direta da mata,
qual aconteceu aos íncolas da costa durante a mor porção do primeiro século da
descoberta e povoamento do Brasil. O meio determina por todas essas paragens o
prolongamento do regímen primitivo. Mas, é certo, as coisas não poderiam no
perímetro das costas por muito tempo prolongar um viver tão elementar e um
sistema econômico tão aleatório. Penetrado o interior do país, pouco que fosse,
a mata tinha de ser sacrificada a largos trechos para dar lugar a culturas
estáveis. A lavoura da cana teve então em todo o Norte do país a
primazia e veio a constituir a principal base econômica da Colônia por quase
três séculos.
O tabaco foi
também, desde logo, um adjuvante, porém de menor importância, ao lado doutros
produtos menos consideráveis, talvez, como ramos de comércio e mais valorosos
para a alimentação das populações que se iam formando.
A mandioca,
o arroz, o feijão, o milho, o coco, a batata,
a banana exerceram nesse mister a função primordial. Ainda hoje é
esse, fundamentalmente, o aspecto geral de nossa agricultura por todo o Norte,
Centro e grande parte do Sul do país. A lavoura, porém, sem criação, como base
da alimentação popular, não se pôde jamais compreender. O colono precisava da
carne, e, se o mar e os rios lhe davam o peixe, as capoeiras e matas lhe davam
a caça e as aves, era isto um passo apenas preliminar que era mister transpor
em larga escala. O descobrimento dos campos, tabuleiros e chapadas do
interior do país abriu-lhe logo a perspectiva da criação em grande.
Abordado
principalmente pelo São Francisco, pelo Itapicuru maranhense, pelo Parnaíba,
pelo Grajaú, desvendou-se o sertão do Norte, a zona criadora, e
as fazendas de criar, as fazendas de gado constituíram-se a fonte de
riqueza de uma região imensa e vieram a competir com os engenhos de açúcar da
costa e da mata. Destarte o açúcar, como base da exportação, a rês e
os cereais, como base da alimentação e da riqueza interna do povo
brasileiro, constituem a mais antiga e a mais durável manifestação da indústria
nacional estável, logo após o curto momento da espontânea exploração florestal.
E, se esta é ainda hoje mantida nas regiões que de relance apontamos, aquelas
que a sucederam se espalharam pelo país quase inteiro, garantindo-nos nesta
asserção a larga exploração pastoril do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do
Norte, Paraíba, Pernambuco, Minas, Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, e até
do Pará nas chapadas que vão subindo em demanda do planalto da Guiana, não
falando já no caso singularíssimo de Marajó. São indústrias simples, quase
primitivas, presentes imediatos do meio.
Intercorrentemente,
os colonos do Sul, as gentes do Rio de Janeiro e de São Paulo, também plantavam
cana-de-açúcar e cereais na costa e na região serrana. Só mais tarde o
sertanejo paulista que foi e é ainda criador de gados em regiões apropriadas,
no devassar sertões preando o índio para o escravizar, é que veio a abrir novo
e passageiro momento na vida econômica da nação: a fase mineira, o
período do ouro e do diamante. Goiás, Mato Grosso e Minas foram os oferentes de
tamanhas e tão fugazes riquezas.
Enquanto a
mineração foi coisa, por assim dizer, espontânea, fácil, natural, simples
presente, mera dádiva do meio, o Brasil foi a terra do ouro e dos brilhantes.
Quando se fizeram indispensáveis as grandes e dispendiosas obras d’arte,
a moda passou. E ainda aí nossa tese se justifica. Mas a natureza é mãe
inesgotável em seus dons: fechado o ciclo do ouro, abriu o do café. A terra
roxa deixava rasgar os ubertosos seios para fazer brotar a planta sagrada,
fonte excelsa da riqueza pública durante todo o período do Império e ainda
hoje, rivalizando apenas com ela a seringueira equatorial.
A lição que
brota deste fatos é a do caráter pouco inventivo de nossas criações
industriais, sempre dominadas, senão produzidas principalmente e até
diretamente pelo simples influxo do meio. Este é que tem dado de graça as
madeiras, a borracha, a erva-mate, a castanha, a salsaparrilha; quase de graça
o ouro, as pedras preciosas, as manadas de gado; e por módico esforço o cacau,
o tabaco, o açúcar e o café.
Em tudo isto
a colaboração do meio tem sido capital, ainda naquelas produções em que mais se
acentua o labor do homem.
Em nossa
agricultura, ontem e hoje rudimentar, num canavial, por exemplo, dos engenhos
de Pernambuco, os famosos engenhos admirados em 1580 pelo Padre Cardim, mais
tinha que ver a fertilidade, o calor e a umidade da terra do que a carpa de
cinqüenta ou cem cativos.
Mas aí mesmo
se notam os pontos de convergência existentes na atividade brasileira por todo
o país. A grande extensão deste é por tal arte articulada pelo planalto, pelos
rios, pelas matas, pelos campos igualmente repartidos pelo país inteiro, que
vemos a indústria de criar no alto Norte do Amazonas e Pará e no extremo Rio
Grande do Sul, em Minas, como em Goiás e Mato Grosso, em Pernambuco e Ceará e
Rio Grande do Norte e Paraíba e Bahia e Piauí e Maranhão, como
E, como
ainda o calor e a umidade são espalhados pelo país quase todo, dotando-o de
fertilidade mais ou menos intensa, quase por toda a parte, a lavoura não é
privilégio desta ou daquela zona exclusiva.
A
determinação do influxo do meio físico em a marcha do povoamento do país e ainda
nas linhas gerais da política, do direito, das artes e letras e da economia
nacional, com ser muito, não é ainda tudo. Resta saber como vai sendo modelado
o povo sob o aspecto fisiológico e, como conseqüência, o aspecto moral.
A nosologia, os costumes, as tendências sociais constituem a face, talvez, mais
interessante do assunto.
O Brasil é
um dos mais perfeitos tipos dos países tropicais. Distendido de 5°
No imenso
reino neotrópico, na frase dos naturalistas, o Brasil constitui por isso região
perfeitamente caracterizada, que não é lícito confundir com as que a cercam,
– andina, guianense e argentina.
A
característica geral dos climas tropicais, tão lucidamente descrita por
médicos, geógrafos e higienistas, vem a ser: calor e umidade com o cortejo
funesto do impaludismo. A superexcitação dos órgãos da periferia com prejuízo
dos órgãos centrais, a transpiração exagerada da cútis, o antagonismo entre o
pulmão e o fígado, encarregado de trabalho duplo, a secreção da bílis, a
deposição copiosa do pigmento, são predicados predominantes na fisiologia
desses países.
Assim, os
caracteres do tipo fisiológico mais geral na população brasileira, máxime nas
formosas depressões de que temos tantas vezes falado (menos a do extremo Sul),
são os do temperamento bilioso, sinal de uma verdadeira saturação do carbono,
combinados com os do temperamento linfático e os do nervoso, como asseveram os
higienistas.
Erraria,
entretanto, quem aplicasse rigorosamente esse critério ao Brasil todo, ao país
Feita,
porém, esta concessão à unidade climatológica do Brasil, quão largas brechas há
ainda para a variedade! Esta é múltipla, numerosíssima.
O Brasil
conta trinta ou quarenta grandes zonas diversas de aspecto e clima, dissemos
mais de uma vez, que devem ser tratadas diversamente, sob pena de falseamento
completo de tudo o que se afirmar dele por este lado. E dentro de todas essas
zonas existem pontos privilegiados que são já e hão de constituir no futuro
cada vez mais o paraíso daqueles que os aproveitarem.
Primeiramente,
temos, mesmo na zona das depressões que cercam o planalto, a região de campos e
coxilhas do Rio Grande do Sul, refrescada por periódicas chuvas no verão e
ventos frios no inverno, sempre de clima sadio e aprazível.
No imenso
perímetro da costa, pedaços existem de praias secas, expurgadas de quaisquer
pântanos e mangues, sítios apropriados a banhos de mar nas estações calmosas,
de clima ameno e salubre. Não há um só dos estados marítimos que não possua uma
dezena de trechos desses.
Mas é na
enorme ossatura do planalto que a mor variedade se prodigaliza.
Aproximando
da costa nas regiões do Sul do país desde metade do Rio Grande até o Espírito
Santo, oferece profusão de climas deliciosos.
Já na região
serrana rio-grandense, que com a de Santa Catarina e a do Paraná tem inúmeros
pontos de contato, Caxias, Passo Fundo, Santa Maria, Nova Hamburgo e Cruz Alta,
nada têm a invejar aos melhores climas da Espanha, de Portugal e da Itália.
Toda a
imponente zona dos campos gerais de Santa Catarina e Paraná se acha em idênticas
circunstâncias, bastando lembrar Lajes, Curitibanos, Castro, Ponta Grossa,
Guarapuava e mesmo Curitiba, cujo céu e cuja temperatura nem por sombras faz
lembrar que se está em clima tropical. Igual privilégio cabe às regiões altas
de São Paulo, Goiás do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais, nos quais trechos
existem, como Campos do Jordão, Cunha, Uberaba, Campanha, Cambuquira,
Barbacena, Oliveira, Diamantina, que podem figurar entre os mais deliciosos do
mundo.
O mesmo deve
ser afoitamente afirmado de extensíssimas paragens dos campos altos e chapadões
de Mato Grosso, caracterizados pela mesma feição dos congêneres de São Paulo,
Minas e Goiás. São terras todas elas de clima subalpino, céu quase
invariavelmente azul-claro, atmosfera leve, transparente, ar seco, fresco,
amigo complacente da vida.
São dádivas
essas dos três sistemas de montanhas dominadoras do planalto: o Oriental ou
do Mar, caprichoso criador de paisagens como de mais esquisita beleza
não existem na terra, tendo a fantasia de, a poucas horas do Rio de Janeiro,
dar um trecho de paraíso como Teresópolis; o das Vertentes ou Central
e o do Espinhaço ou Ocidental, três consideráveis sistemas
orográficos que se ramificam num dédalo de serras, tão curioso como o das águas
que percorrem o país em todos os sentidos e por todos os lados. É preciso banir
a idéia de ser o planalto uma espécie de tabuleiro chato ocupando todo o Centro
do Brasil; não; sobranceiro ao mar, é ele alterado por sua vez em várias
direções por séries de montanhas de diversas altitudes. Daí a multiplicidade
encantadora de seus aspectos e a grande variedade de seus climas.
Uma das mais
curiosas, sob todos os aspectos, é a região sertaneja do extremo leste do
Brasil, entre o Itapicuru da Bahia e o Itapicuru do Maranhão. São as terras
mais orientais de nosso país, mais fronteiriças d’África, compreendendo
os Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas,
Sergipe e parte da Bahia. É o sertão típico do Norte, a famosa região
periodicamente açoitada pela falta de chuvas. Clima quente e seco: dias
ardentes sob um sol de fogo, noites frescas e até frias em varias paragens,
campos e chapadas cobertas de macega carrasquenta e áspera; vegetação enfezada
de catingueiras. Salubridade boa, a despeito de tudo.
Nas serras,
que também ali existem do sistema oriental, Ibiapaba, Borborema, Baturité,
Caicós, Gurgueia e outras, existem paragens deliciosas. O mesmo se repete nos
sertões do Maranhão e nas terras altas do Pará e Amazonas, infelizmente até
agora pouco aproveitadas.
Nas próprias
terras baixas amazonenses são paludosas somente as margens dos lagos e dos rios
de água preta, que entram no grande rio-mar; porque as ribas deste não no são,
segundo o testemunho insuspeito de conhecedores diretos.
Mas que têm
a ver essas coisas com a fisiologia e, como conseqüência, com o caráter
nacional? O homem é o que ele come, dizia Büchner; o homem tem a feição do meio
que habita, asseveram todos, e é a verdade.
Os moradores
das terras baixas e quentes das praias e das matas são, em regra geral,
anêmicos, apáticos, achacados em qualquer grau de desarranjos hepáticos.
Esta
influência mesológica, que leva ao desprendimento de pouca energia, é auxiliada
pela quase geral fertilidade da terra, que produz com pouco trabalho, e, nas
zonas piscosas, peculiarmente no imenso vale amazônico, pelas facilidades de
viver que mantêm o grosso da população num bem-estar aparente, inimigo do
progresso, por não aguilhoar o esforço, a iniciativa, fontes de todo
adiantamento. Na região das matas, na zona dos engenhos de açúcar, só o regime
da escravidão pôde levar de vencida os duros trabalhos próprios a tal
indústria, hoje decadente a olhos vistos.
As gentes
dos climas congêneres de Mato Grosso e Goiás acham-se em iguais condições.
Já não se dá
o mesmo com os gaúchos dos campos do Rio Grande. Carnívoros eméritos,
campeadores audazes, são guapos,
alegres, fanfarrões, bulhentos, como gente de boa saúde e vida aventurosa.
Os criadores
de serra acima, dos campos do planalto, do Rio Grande a Minas, acham-se
igualmente em boas condições de saúde e atividade.
Os
agricultores também de serra acima, no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas
Gerais, são gentes sóbrias, fortes, bem-humoradas, como produtos naturais de um
clima são.
Diversa é a
condição dos sertanejos do Norte, da famosa região das secas. Aí, a pobreza do
solo, os rigores e incertezas do clima, variando entre a fartura nas sazões
propícias das chuvas e a miséria nas quadras calamitosas, formaram um povo sui-generts.
Fracos de
aparência e de aspecto, são pertinazes, enérgicos, resistentes em grau notável.
São um tanto tristes, mas confiantes, resignados, afeitos ao trabalho aprendido
diretamente da áspera luta com a natureza. Não são dissimulados nem fingidos;
têm a rude sinceridade do sol de seus sertões, duro e severo como eles.
De todas
essas parcelas de gentes diversas, espalhadas por este país em fora, ainda mui
pouco estudadas em seus hábitos, em seus costumes locais, em sua psicologia, é
que se forma o grosso da população brasileira, da qual as gentes das cidades de
Belém, de São Luís, do Recife, da Bahia, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de
Porto Alegre e de outras menos consideráveis constituem um troço à parte, pela
considerável influência estrangeira aí reinante, e, por isso, não são as mais
próprias para nos definirem em nosso caráter específico.
II
É tempo de
passar a outro fator em nossas letras e em nossa vida social d’alto a
baixo: a raça.
Conquanto reconheçamos
a extraordinária influência do meio, cremos ainda superior – a da raça.
Esta
expressão tem hoje dons principais sentidos em sociologia: o antropológico e o
histórico. De certo tempo a esta parte, principalmente após a derrota dos
franceses na Guerra de 1870, vários escritores, entre este até os que no
conceito antropológico da raça, como Taine e Renan, tinham feito
repousar a base mais segura de seus estudos de lingüística, de crítica
religiosa, de literatura e de arte, entraram a se desdizer e a reduzir o mais
possível o valor da originária distinção das raças humanas.
Neste
intuito tanto mais têm procurado encurtar o valor do fato antropológico quanto
o têm alargado
Se a
história, porém, explica quase por si só a formação de cada uma das variedades
dos diversos ramos da grande raça, já não consegue com igual
facilidade dar o porquê da distinção dos aludidos ramos e muito menos a
razão da diferença entre a citada raça e as outras raças inconfundíveis
que com ela formam o conjunto do gênero humano. São três problemas diversos.
Sim, se é relativamente fácil mostrar, historicamente, como se formaram, por
exemplo, as variedades do ramo latino, – portugueses, espanhóis,
franceses, italianos; já não o é, historicamente, explicar por que latinos e
germânicos, celtas e helenos, eslavos e iranianos, hindus e lígures (admitindo
que este últimos sejam arianos) se distanciam tanto entre si; e muito menos
cômodo é, pelo mesmo processo, dar os motivos da radical diferenciação entre os
arianos e os malaios e os negros d’África e os polinésios...
Este é que é
o fato contra o qual não valem sofismas.
A história,
por mais que se tenha agitado nos últimos oito ou dez mil anos, que tantos
devem datar desde os inícios da civilização do Egito, da Caldéia, da Assíria,
de Babilônia e mesmo da China, não conseguiu, por mais que tenha destruído e
misturado povos, não conseguiu ainda apagar as inconcussas verdades da
antropologia e da etnografia.
Pode ser que
ainda o venha a conseguir; mas por enquanto é cedo para falar nisso. Tal o
forte motivo pelo qual é necessário contar em nossa própria história com o
fator etnológico, por mais que isto possa ferir preconceitos. À espera de uma
total extinção de todas as diferenças étnicas entre as nações, a humanidade
ficará, talvez, outros oito ou dez mil anos, ou mais, e até lá a antropologia
terá sempre razão.
Verdade é
que nos últimos quatro séculos, depois que os europeus correram todos os mares
e terras e se arrogaram o direito de tomar conta das regiões ocupadas pelos que
chamam selvagens e gentes inferiores, muito tem sido feito no sentido da
indistinção almejada. Mas tem sido por um processo de morte, de aniquilamento
direto ou indireto. O direto é posto em prática pelos anglo-saxônios, a
gente colonizadora por excelência; o indireto, que é o do cruzamento, é,
e sempre foi, mais do gosto dos ibero-latinos, o segundo grupo de gentes
colonizadoras do Renascimento a esta parte.
Pelo
primeiro processo têm desaparecido quase geralmente os indígenas dos Estados
Unidos e de quase toda a Oceania. O mesmo acontecerá provavelmente aos
indígenas da África, logo que toda a península estiver na posse de ingleses e
alemães, iguais os últimos aos seus parentes neste particular. Não é que uns e
outros destruam em diretas e monstruosas hecatombes os selvagens, ou os tratem
pior que os espanhóis e portugueses. É que criam nos países submetidos e
conquistados uma ordem de coisas em que as raças inferiores não se podem
manter. Prestam serviços, como animais de carga, enquanto se formam as cidades,
os canais, as estradas, os portos, a drenagem do solo, o desbravamento das
matas, as linhas telegráficas; porém depois não cruzam, definham e morrem. Os
restos que ficam, como os negros nos Estados Unidos, vivem debaixo de perpétua
ameaça, desprezados, ilhados da população branca. É o resultado a que chegam
por via de regra povos em contato e sob o domínio das gentes xantocróides do
Norte da Europa. Esses belos exemplares humanos, de pele alva, cabelos louros e
olhos azuis, são inconscientemente um fermento de morte para os pobres
selvagens. Não assim os melanocróides do Meio-Dia. Estes são gentes de
tez morena, cabelos pretos, olhos negros ou pardos, e são já, sem dúvida,
resultado de misturas de brancos com berberes, líbios, cuxitas e negros no
imenso laboratório circular do Mediterrâneo. Inconscientemente, espontaneamente
praticam o processo indireto de apagar povos do livro da vida; mas é mais
humano, e não diremos mais meritório, porque são coisas filhas de reflexão
consciente. É uma queda, um pendor biológico instintivo e nada mais.
E este tem
sido o caso dos portugueses no Brasil por quatrocentos anos; e há de ser e está
sendo em grande escala o dos seus congêneres italianos, que de São Paulo, para
onde principalmente ora têm convergido, se hão, provavelmente, de espalhar, já
cruzados e integrados com as populações da terra, pelo planalto central inteiro
do país. Pelo que toca às colônias germânicas do Sul, não se têm deixado até
agora assimilar, e poderão ser no futuro, mais ou menos remoto, causa de
perturbação, se não forem pela língua integradas nas populações nacionais.
Enquanto,
porém, este últimos fatos se não dão, releva tratar de nossos fatores étnicos
como eles nos são fornecidos pela história e pela ação diuturna da vida durante
os quatrocentos anos decorridos da descoberta até agora: portugueses, índios
e africanos.
Eis aí os
três povos, antropológica e etnograficamente distintos, que nos têm vindo a forjar,
a amalgamar na incude e no cadinho da história.
De nós
outros é que se pode dizer, desde já, e cada vez mais se poderá afirmar no
futuro, que estamos formando uma raça histórica, em o sentido agora
geralmente dado a esta expressão. Um fragmento da bela e valorosa raça ariana,
já de si constituindo um caso disso que se chama raça histórica (os
portugueses), aliou-se a duas raças completamente diversas, sob todos os
aspectos: índios americanos e negros d’África.
Os
portugueses são hoje o resultado do cruzamento complicadíssimo de selvagens da
época quaternária com iberos, lígures, fenícios, celtas, cartagineses, romanos,
suevos, godos e árabes. Predominam neles, ao que parece, os velhos troncos
iberos, modificados pelos elementos arianos, os mais progressistas que
estacionaram na Península.
A nação
portuguesa, pintada pelos fantasistas da época romântica, eivados ainda da
mania de celticismo, como gente triste e melancólica, é, ao contrário, um povo
serenamente equilibrado, docemente alegre e expansivo. Prova-o o fato de ser
talvez o povo da Europa que mais se diverte de uma banda para outra em festas e
romarias de toda a espécie, um daqueles em que o trabalho do campo é mais
prazenteiramente feito em meio de cantigas e folganças de toda a casta, ajudado
pela brandura do clima e pela paisagem risonha da terra. É gente em geral farta
e feliz, sem extravagâncias de temperamento, sem monstruosidades de caráter. Da
Europa é a terra onde tem havido menos revoluções, onde se dão menos suicídios
e onde o verdadeiro e pavoroso pauperismo brilha pela ausência.
É um povo
apaziguado, brando de índole, avesso a tiranias e crueldades.
As classes
plebéias têm como divertimento predileto o fado e jamais sentiriam
prazer nas corridas de touros em que se destripam vinte cavalos e se dão
outros acidentes terríveis...
São os
portugueses, ao que se pode observar, não muito inventivos e empreendedores.
Assim,
algumas das notas puras e firmes que em nossa alma popular contamos, nos
provieram deles, bem como algum tanto da nossa falta de ousadia para os grandes
empreendimentos industriais e outros quaisquer.
Seu legado
entre nós é vastíssimo. Devemos-lhes a língua, a religião, o direito,
a arte, a poesia, a literatura, todas as manifestações
espirituais que nos fazem co-partícipes da moderna cultura ocidental. Mas essa
contribuição imensa com que entraram para a formação da psique nacional, se
viu, desde os primórdios, ir modificando, pela ação do meio e pelo cruzamento
com os índios e com os africanos, cruzamento produtor dos mestiços
de todos os graus que formam a grande maioria da população brasileira. Os
três fatores étnicos não se acham aqui, como, com flagrante erro, se tem dito
recentemente, apenas superpostos. Abstração feita dalguns milhares de
portugueses da atual colônia existente entre nós, dalguns milhares de índios
sem mescla esparsos no alto Norte, no longínquo Oeste, ou noutros recessos do
país, e de cerca de dois milhões de negros puros espalhados por toda a parte, a
restante população nacional tem amalgamado os elementos que a formaram e tende
a fundi-los cada vez mais intensamente. Com a extinção do tráfico
d’africanos, o gradual desaparecimento dos índios e a constante entrada
d’europeus, poderá vir a predominar de futuro, ao que se pode supor, a feição
branca em nosso mestiçamento fundamental inegável.
Passemos aos
índios.
O que a
ciência tem podido apurar até hoje, no que se refere à classificação das tribos
índias do Brasil, se reduz ao que se vai seguir. É resultado devido aos estudos
de Hervás, d’Orbigny, Martius, Couto de Magalhães, continuados por Carlos
von den Steinen, Ehrenreich, resumidos por Capistrano de Abreu. Os dois
alemães, por último citados, conseguiram, além de pequenos grupos divergentes,
reduzir os selvagens brasileiros a quatro ramos fundamentais: Tupis,
Nuaruaques, Caraíbas e Jês. O escritor brasileiro por último
referido, aos quatro ramos juntou mais um: o dos Cariris. São conclusões
fundadas nos vocabulários, mais dessemelhantes entre os nossos índios do que a
estrutura gramatical. Os Cariris, por Steinen e Ehrenreich considerados
grupo divergente, são-no de fato, segundo o autor brasileiro, mas constituindo
um importante ramo, perfeitamente caracterizado, o que se nos antolha tanto
mais considerável, quanto de todos os selvagens americanos foram, em nossa
opinião, os que mais se amalgamaram, em todo o Brasil oriental, com os
conquistadores europeus, mais talvez do que os próprios Tupis.
Os Cariris
estão hoje representados, em vários graus de cruzamento, nas populações sertanejas
do planalto do Norte, desde a Bahia até a fronteira do Maranhão. Mas ouçamos a
condensação de Capistrano de Abreu:
“O
primeiro grupo tratado pelos portugueses, que por isso desde logo estudaram a
língua, e propagaram-na além de sua área primitiva, é o de Tupis.
“Encontraram-nos
em quase todo o litoral desde o Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, no
médio Uruguai, no Paraná, no Paraguai e por oeste até quase os Andes
(Chirigoanos), no baixo e no médio São Francisco, na margem meridional do
Amazonas; mais tarde apareceram em outros lugares. Suas denominações locais
entre outras são as seguintes: Tapes, Carijós, Tupiniquins, Tamoios, Temiminós,
Tupinaéns, Tabajaras, Rariguaras, Caetés, Petiguares, Jurunas, Maués,
Mundurucus, Apiacás. Às vezes uma só tribo tem mais de um nome: assim, os
índios do Rio a si próprios chamavam Tupinambás e eram chamados Tamoios pelos
de São Paulo.
“Entre
o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul este grupo subdivide-se em três
seções menores: Carijós, Tupiniquins e Tupinambás. Seu centro de irradiação
parece ter sido o Paraná, entre São Paulo, Minas e Goiás. Uns desceram o rio,
outros foram para o N. O., outros para N. E. Os Tupis do Amazonas, Mundurucus,
Maués, Jurunas, provavelmente esgalharam do tronco comum antes do descobrimento
da América; os Tupinambaranas do Madeira, os Tupinambás do Maranhão e terras
adjacentes emigraram depois de começada a colonização do Brasil. Diziam os do
Maranhão que sua pátria primitiva ficava no trópico de Capricórnio.
“O
segundo grupo, com o qual os portugueses só amiudaram contato no século XVII, é
o dos Cariris ou Quiriris (voz tupi, os tristonhos). Aparecem
pelo interior desde o Paraguaçu e rio São Francisco até o Parnaíba; serras do
Ceará e Paraíba guardam-lhes o nome. Variam os apelidos locais: Tremembés,
Jucás, Jaicós, Icós, Curemas, Sucurus, etc. Pelo que contavam alguns, suas
migrações partiram do Norte, de um lago encantado, que bem pode ser o Amazonas.
As tradições dos Tupinambás, quais foram colhidas na Bahia e em Pernambuco,
apresentam este tapuias como os primeiros moradores do litoral. Por Paraíba e
Ceará deixaram os vestígios em Tupis. nomes de rios do sertão ou da costa
(Siridó, Sibiró, Ciará, Choró [Siaró?], Sitiá). A sua internação é ali
contemporânea do descobrimento do Brasil. Que em alguns lugares mais para o
norte é até posterior, se apura da Memória de Maurício de Heriarte sobre o
Maranhão. Para o sul parece que se estendiam muito em outro tempo, como mostram
as denominações tão características de Orobó na costa do Espírito Santo, as de
Tremembés, e Quiririm
“Hoje
não resta mais tribo independente que se filie ao grupo dos Cariris, mas talvez
ainda se saiba alguma cousa da língua em sertões de Pernambuco, nas
proximidades de Vila Bela.
“No
terceiro grupo, chamado Jé por Martius e Paulo Ehrenreich, figuram com o
nome de Aimorés, ao sul da Bahia, de Botucudos
“É
opinião de Paulo Ehrenreich, – quem melhor estudou este índios, que seu
centro de migração foram Espírito Santo e Minas Gerais, onde avultam mais
atrasados, simples apanhadores, em estado muito primitivo; seus representantes
no interior encontram-se mais adiantados e progressivos. Seriam assim suas
migrações no sentido de este para oeste, como seu desenvolvimento. Entretanto,
parece mais provável o contrário, isto é, que tenham vindo de onde ainda hoje
são mais abundantes: entre Mearim, Tocantins e Araguaia. Prova-o sua
distribuição, que vem terminar em cunha sobre o litoral; prova-o ainda melhor a
inação e a ignorância dos Aimorés em frente do oceano, a cujas ondas nunca se
confiaram. Dos Jês os que maior área geográfica povoaram foram os
Caiapós, chamados Ibirajaras pelos Tupis e Bilreiros pelos portugueses, por
causa do porrete de que se serviam. Sua presença é atestada no varadouro de
Camapuã, nas águas do Paraná, nas do São Francisco, no Araguaia, nas pontas do
Xingu, no Tapajós em meio dos Bacairis, que os rememoram entre seus aliados e
benfeitores.
“Quarto
grupo formam os Caraibas, chamados Pimenteiras em terras entre o São
Francisco e o Parnaíba, Apiacás no Tocantins, Bacainis e Enaucucuas no Xingu,
Cnixanás, Pianagotos, Macuxis, Acawoys, Wanás no Amazonas e Guaiana. Seu centro
de dispersão, segundo Carlos von den Steinen, que primeiro revelou este grupo
na pureza de suas linhas fundamentais, localiza-se entre o Madeira e o Tapajós,
donde emigraram principalmente para o Norte. Na Guaiana travaram lutas
encarniçadas contra os Maipurés. Em algumas das Antilhas mataram todos os
homens e apossaram-se das mulheres; por isso existem ali dois idiomas, o dos
homens puro caraíba, o das mulheres puro maipuré.
“Quinto
grupo são os Maipurós de Gilii, Nuaruaque de Steinen, Aruãs e
Nheengaíbas (denominação tupi – os
que falam mal) da foz do Amazonas, Wapixamas e Manaus da Guaiana,
Paramaris do Purus, Custenaús do Xingu, Guanás do
Paraguai. De todos os grupos é o que possui a área geográfica mais dilatada,
pois vai das Guaianas ao Paraguai, e ainda transborda para os estados vizinhos.
Parece terem partido do Norte; avultam hoje em maior número no rio Purus.
“Além
deste cinco grupos mais consideráveis, outros se encontram menores, salteados
umas vezes, como os Guaitacás de Campos, ou constituindo núcleos mais
vigorosos, como Guaicurus, Charruas e Minuanos em águas platinas,
Panos em águas amazônicas. Vinham eles se encaminhando para terras
brasileiras? Foram antes delas rechaçados? O presente não sabe ainda responder,
e a resposta pode esperar-se sem impaciência, pois os cinco grupos aduzidos
abarcam a quase totalidade do gentio pré-cabrálio.
“Assim,
tem-se em suma que os Tupis, do Sul, do rio Paraná provavelmente, pelo
litoral e pelo interior chegaram até o Atlântico, os Andes e o Amazonas; os Cariris
do Norte foram descendo o litoral, até que os Tupiniquins primeiro e depois
os Tupinambás os foram tangendo para o sertão, rumo leste-oeste, ao mesmo tempo
que de oeste para este vinha os Jês afocinhar-se no oceano entre
Espírito Santo e Bahia; finalmente, os Caraibas, comprimidos à esquerda
pelos Maipurés, que tinham atravessado o Amazonas, e à direita pelos Jês,
talvez acossados por seu turno pelos Tupis ou Cariris, dirigiram-se para o
Norte, levando as devastações até o mar que guarda seu nome.”
O caráter
das diversas tribos divergia em mais de um ponto. Havia e há, porém, certas
linhas gerais comuns a todas elas.
Em religião
estavam na transição do puro naturalismo animista para as primeiras concepções
politeísticas: achavam-se no começo da astrolatria, iniciando um culto vago ao
Sol e à Lua. Daí provinha a espécie de dualismo, existente entre muitas tribos,
de um princípio luminoso e bom e de um princípio mau e tenebroso.
Em indústrias
estavam no período da simples recolta ou mero apanho, vivendo de tudo que a
natureza facilmente prodigaliza, frutos, raízes, aves, gafanhotos, formigas;
outros eram caçadores, ou melhor ainda, pescadores. Alguns iniciavam uma
agricultura rudimentar, cultivando a mandioca, planta sagrada entre todas, o
aipim, o milho, o inhame.
Em política
estavam no período das primeiras formas tribais, sob o mando espiritual dos pajés
e o tempo dos caciques, muito menos poderosos que os primeiros. Não
tinham propriedade imóvel, nem organização social e política fixa: mudavam de
residência com a maior facilidade: eram nômades. Não tinham animais domésticos,
nem conheciam o uso dos metais.
Pelo lado
psicológico – tinham sentidos
agudíssimos, vista capaz de conhecer rasto do inimigo nos caminhos, depois de
muitos dias, ou, na espuma dos rios e lagos, a
passagem de canoas muito antes acontecida, ouvido e olfato nas mesmas
condições de apuro.
Aos índios
deve a nossa gente atual, especialmente nas paragens em que mais cruzaram, como
é o caso no Centro, Norte, Oeste e Leste
e mesmo Sul do país, muitos dos conhecimentos da caça e da pesca, várias
plantas alimentares e medicinais, muitas palavras da linguagem corrente, muitos
costumes locais, alguns fenômenos da mítica popular, várias danças plebéias e
certo influxo na poesia anônima, especialmente no ciclo de romances de
vaqueiros, muito corrente na região sertaneja do Norte, na famosa zona das
secas, entre o Paraguaçu e o Parnaíba, a velha pátria dos Caniris. Foi do caráter
deste que os nossos sertanejos de agora, nomeadamente jagunços e
cangaceiros, tomaram o seu ânimo triste, resignado, resistente, mas com
tendência à depredação; e foi deles que herdaram a acuidade dos sentidos,
extraordinária em tais gentes. Pelo que toca ao mestiçamento com os índios, é
quase impossível enumerar casos, tantos são eles. Seria preciso citar as
principais famílias de São Paulo, desde os tempos de Caiubi, Piqueribói e
Tibiriçá, as de Minas, Goiás, Mato Grosso, Pará, Amazonas, Maranhão,
Ceará, Pernambuco, Bahia, o Brasil todo,
Passemos aos
negros.
Entre nós,
alguns espíritos inteligentes e desabusados têm já estudado os nossos índios
sob vários aspectos.
Dos negros é
que ninguém se quis jamais ocupar, cometendo-se, assim, a mais censurável
ingratidão de toda a nossa história.
Qual a carta
etnográfica d’África ao tempo do descobrimento do Brasil? Qual a
classificação de suas raças, de seus povos? Qual o estado de cultura em que se
achavam? De que tribos eram os que vieram para cá e em que número? Que lhes
devemos? Ninguém sabe!... Ninguém quis jamais saber, com receio do prejuízo
europeu, que tem sido um dos nossos grandes males, com medo de mostrar simpatia
para com os escravizados, e passar por descendente deles, passar por mestiço...
Eis a verdade.
É preciso
acabar com isto; é indispensável restituir aos negros o que lhes tiramos: o
lugar que lhes compete em tudo que tem sido praticado no Brasil. E o que mais
admira é que o não tenham feito tantos negros e mestiços ilustrados, existentes
no país.
A densidade
relativa da população d’África, difícil de sujeitar, em comparação à
indígena do Brasil, e a agrura do clima, mais rigoroso do que o nosso, foram a
causa principal do abandono quase completo, em que, durante perto de quatro
séculos, deixaram os portugueses suas possessões naquele continente. Preferiram
constituí-las um viveiro inesgotável donde tiraram gente por mais de trezentos
anos para as suas terras d’América. O tráfico de africanos para a própria
Europa meridional existiu desde a primeira metade do século XV.
Desde os
tempos do infante D. Henrique começara o nefando comércio, segundo o testemunho
de João de Barros. Pouco depois de iniciado, Portugal e Espanha viram os
seus mercados, segundo Perdigão Malheiro, inundados de africanos. Sevilha
e Lisboa eram verdadeiras alfândegas desse abominável negócio. Os destinados a
Portugal tinham de passar necessariamente pela capital do reino para, segundo o
Reg. da Fazenda de 1514, ser pago o competente imposto. Destarte, poucos anos
após, com o florescimento do negócio, Lisboa apresentava no mercado anualmente
E assim
como, sabe-se hoje por documentos autênticos, na carga dos navios que, desde
1500, voltavam daqui para Portugal, iam infalivelmente alguns escravos índios para engrossar a fazenda dos especuladores da
metrópole, assim também traziam sempre nesse tempo, tais navios, quando de lá
regressavam, escravos negros nas suas equipagens. Logo após entraram a
trazê-los destinados aos moradores aqui estabelecidos.
De 1532 em
diante, com o início regular do povoamento da terra, estabeleceu-se o tráfico
direto d’África. A. Cochin, firmado em estatísticas sérias, calcula em
100 milhões os escravos africanos, durante três séculos, tidos entre as
colônias de toda a América!...
Aceitando-se
o cálculo de José Bonifácio, que orçava os introduzidos no Brasil em uma média
anual de 40 mil, temos que, de 1550 e 1850, em trezentos anos, entraram em
nossos portos 12 milhões de homens d’África, isto é, cifra imensamente
superior à das entradas de portugueses, que jamais passaram da média de
Nem o
tráfico se iniciou em 1550, senão muito antes; nem acabou definitivamente em
1850 e sim em 1858.
E, para
mostrar quão módico era o cálculo de José Bonifácio, basta lembrar que em 1846,
depois da extinção do tráfico em lei e não nos costumes, entraram 50.324
negros; em 1847 – 56.172; em 1848 – 60.000; em 1849 – 54.000!
Ora, a
população de Portugal em 1732 era de 1.793.000 habitantes; em 1801, de
2.966.000, o que vale dizer que ainda menor tinha sido nos dois séculos
anteriores, não podendo absolutamente ocorrer senão com a citada média de
E, tendo
sido, desde 1500, limitada a população indígena brasileira, pois é dubitável
que passasse então de uns três milhões de silvícolas, espalhados por imenso
território, número que se tem vindo progressivamente a reduzir cada vez mais,
sobram motivos pelos quais é lícito afirmar ter sido, desde os inícios da
colonização, o africano o elemento principal do povoamento e da riqueza do
país. É a lição dos fatos contra os quais bambeiam e caem imbeles todos os
sofismas imagináveis.
É só
confrontar: se era em 1801 de 2.966.000 o número dos habitantes em Portugal, o
dos colonos no Brasil em 1817, isto é, apenas dezesseis anos depois, já era de
3.817.900, dos quais apenas 1.043.000 brancos, e cerca de 700.000 índios puros,
sendo os restantes 2.074.900 negros e mestiços de todas as gradações. É, porém,
de presumir que em os 1.043.000 brancos do censo apenas a metade fosse de
brancos reais, não o sendo os outros senão
Em primeiro
lugar destacam alguns autores, como representantes dos mais inferiores
selvagens primitivos, os Bozimanes, e logo em seguida os Hotentotes. Uns
e outros constituem tipos à parte na etnografia africana.96
Os povos
restantes formam três grandes grupos: a) o Siro-Berbere, chamado também Camita
ou do Norte, compreendendo os egípcios e os berberes; b) o Etiópico,
chamado também Núbio, a Leste e parte do Centro do continente,
composto de duas variedades principais – os Abissínios e os Galas;
e) os Negros propriamente ditos, no Centro e parte do Sul, com duas
ramificações principais – o Xiluque ou de Guiné, com vários
ramos no Centro, e ao Sul o Banto, subdividido em três ramos: –
oriental, central, ocidental. Destes grupos, menos do Siro-Berbere, vieram gentes
ao Brasil. Tudo mais entrou na razzia em proporções divergentes. Os dois
grupos mais sacrificados foram: o de Guiné, expressão coletiva de grande
quantidade de gentes diversas, e o Banto, nome impropriamente aplicado
por Bleek aos povos sul-africanos, que não são Boximanes nem Hotentotes.
O tráfico
d’escravos para o Brasil começou nas ilhas de São Tomé, Cabo Verde,
Ano-Bom e Príncipe e nas costas do mar de Guiné, costas do Marfim, do Ouro, da
Mina, dos Escravos. Estendeu-se pelo Congo, cujo litoral era então todo
pertencente a Portugal; passou a Angola; dobrou o cabo e chegou a Moçambique e
Zanzibar, também atingidos pelo Centro pelos sertanistas negreiros.
Pela simples
enumeração dos nomes conservados na tradição e que ainda hoje podem ser ouvidos
de quaisquer africanos velhos, vê-se ter sido avultado o número das tribos,
mananciais de cativos.
Os nomes
– mandinga, fula, jalofo, joruba, haúcct, felupo, cangala, cabinda,
jeje, jinga, bemba, monjolo, moçambique, benguela, caçanje, libolo, são
repetidos nesta indistinção cruel dos arrolamentos incômodos. É mister pôr
ordem nisto. Felizmente existem já trabalhos portugueses, aptos a derramar luz
no assunto. É que hoje são forçados a estudar o negro, porque têm de se avir
com ele em suas dilatadas colônias. Não o podem mais cativar; impossível, e
seria loucura, exterminá-lo; têm que incorporá-lo, e daí a necessidade de o
conhecer. E o têm feito com tino e inteligência.97
Começando
pelo grupo de Guiné, importamos: Jalofos, aptos à vida do mar; Mandingas,
convertidos em geral ao maometismo, inteligentes e empreendedores; Jorubas,
ou Minas, como lhes chamamos, fortes, robustos, quase todos
maometanos e tão hábeis quanto os Mandingas; Hausscis, cuja língua é a
mais espalhada no Soldão; Felupos, os mais selvagens da zona; Fulas, divididos
em Fulas-Pretos, Fulas-Vermelhos, Futa-Fulas, Fulas-Forros, sendo os Fulas
mais puros descendentes de tronco camita, sectários de Maomé, e os
mais valentes e melhor organizados em todo o país. Ainda dos indígenas dos
grupos de Guiné e Nigrícia importamos: os Balantos, gentios
democratas, vivendo em povoações independentes e sendo cada chefe de clã
absolutamente autônomo; os Biafadas, senhores de regular império
destruído em parte pelos Bijagoses. Estes, de que nos vieram alguns exemplares,
são robustos, atléticos, esforçados, bons marinheiros e criadores. Vieram-nos
também Papéis ou Pepéis, Manjacos, Nalus, Banhuns em estados
vários de cultura.
Passando ao Congo
e Angola, encontramos as gentes do grupo Banto, das quais nos
tocaram, em primeiro lugar, os Bacongos, cujo vasto reino entrado em
relações com os portugueses desde os descobrimentos de Diogo Cão, era um dos
mais adiantados d’África em os séculos XV e XVI. Sofreram os Bacongos pavorosa
invasão dos Jagas ou Diagas em 1558, dos quais se livraram com o
auxílio dos portugueses. Estes ficaram os suseranos do país, cujos reis,
convertidos ao cristianismo, se declararam vassalos de Portugal.
Tivemos
também muitos exemplares dos citados invasores Jagas e de seus afins
– Bangalas.
Dentre os Bantos
mais puros tocaram-nos, além dos Bacongos citados, os Cabindas, excelentes
trabalhadores, os Muçurongos, os Exicongos, os Bamba e os Holos,
pertencentes ao grupo Fiote.
Os Ambaquistas,
ladinos, hábeis sofistas, amigos da escrita, servindo, preferentemente, de
secretário dos sobas (régulos) do sertão; os Maquicos, altos,
esbeltos, ágeis, robustos, destros caçadores; os Guiçamas, valentes e
industriosos, bons extraidores de sal, abundante em suas terras; os Libolos,
pacíficos agricultores; de todos este, filiados no grupo – Bunda, também
vieram muitos exemplares para cá.
E, mais, dos
Bananos, os Babueros, os Bailundos, altos, fortes,
aguerridos; os Bienos, artistas; os Mondohes,, todos pertencentes
ao grupo Bundo.
Finalmente,
dos Janguelas, ou Baganjelas, Ambuelas, mineradores de ferro, Guimbandes,
pacíficos e artistas, Banhanecas e Bancumbis, pastores e
agricultores, também foram enviados rebentos ao Brasil.
Dos Bantos
orientais (Moçambique) chegaram a nós representantes dos Macuas, inteligentes
e faladores; dos Ajãs, relacionados havia séculos com árabes; dos Manindis,
e Manguanguaras, mais selvagens; dos Nianjas ou Manganjas,
inteligentes e pacíficos; dos Múvias, povos costeiros; dos Pimbes;
dos Maraves, adversários dos Pimbes; dos Sengas, mercadores
de marfim; dos Muzimbas, repelidos mais tarde pelos Tavalas, que
são ainda a raça predominante no país entre o Zambeze e o Luia de Mazoe, de
todos estes nos vieram também escravos.
O mesmo se
deu com os Mazuzuros, povos criadores de gado e dados à mineração; com
os Vátuas ou Zulus, também chamados Angonis ou Mangonis,
guerreiros e bem organizados; com os Tongas ou Bitongos, inferiores
em raça e cultura; com os Mabuinjelas, os Maxanganas, os Macuácuas,
os Maxopes, os Mindongues, os Landins, nome genérico
dado aos povos de raças diversas, seguidores dos usos dos Vátuas ou Mangonis,
gentes quase todas estas dadas à pastorícia e à agricultura.
Não foram,
porém, só as numerosas tribos de Guiné, da Nigrícia ou África
subtropical, e as do grupo Banto que serviram de viveiro à
escravidão brasileira. Os vários ramos de Boximanes e Hotentotes entraram com
seu contingente. Deles nos provieram – alguns Bacancalas, Bacubais,
Bacorocas, Bacuandos, Bacace queres, e, provavelmente, Basutos e Rexuanas.
Releva não esquecer o contingente do grupo Núbio. Foram os saídos
desta última fonte os mais inteligentes escravos brasileiros. Seu número,
porém, foi muito reduzido em confronto com os demais.
Os negros
d’África em comparação aos indígenas d’América, nomeadamente os do
Brasil, apresentam a seguinte característica: eram e são, desde muitos séculos,
muito mais numerosos do que aqueles; em contato com os europeus, não se
deixaram exterminar nem subjugar de todo; estavam, quase todos, em grau de
cultura superior ao daqueles, conhecendo já os animais domésticos, os metais, a
agricultura (vê-se que fazemos exceção dos Quíchuas do Peru e dos Astecas do
México); os transportados para a América nem definharam, nem desapareceram; ao
contrário, civilizaram-se, crescendo ao lado dos brancos, nos Estados Unidos,
por exemplo, onde existem alguns milhões, e no Brasil, onde, com seus parentes
mestiços, constituem a máxima parte da população. Não estavam todos, é certo,
no mesmo grau de cultura; mas de seu contato com os árabes, desde o VII século,
com os egípcios e os berberes, desde épocas imemoriais, tinham na mor parte de
suas tribos chegado já a notável grau de adiantamento.
Com o apoio
de muitos fatos pode-se concluir, com segurança, que temos razão em considerar
mais adiantado o estado social dos africanos, mesmo os subtropicais, do que o
dos nossos indígenas.
O caráter
daqueles em geral é mais expansivo do que o dos índios da América. São gentes
de ânimo mais alegre, mais sadias, mais robustas, mais resistentes. No Brasil
devemos-lhes muito.
Na
demografia pátria, já o dissemos, representam por enquanto, por si e por seus
parentes mestiços, dois terços da população. Escusado é querer apagar a
importância deste fato. Só em futuro, mais ou menos remoto, se for, entre nós,
reforçado o elemento português e o europeu em geral for bem encaminhado por
todas as zonas do país, é que se há de mudar essa proporção.
Na ordem
econômica, foram eles principalmente que abriram os caminhos, desbravaram as
terras, cultivaram os engenhos e fazendas, mineraram os terrenos
auríferos e diamantinos e fizeram todo o serviço doméstico; foram assim os
principais fautores da riqueza pública e particular. No exército e na marinha
foram em todos os tempos o núcleo de resistência de nossa força armada, e a
eles cabe, em boa justiça, o melhor das glórias de nossa história militar.
Desde
Henrique Dias que se sentiram co-partícipes dos destinos desta terra e jamais
regatearam seu sangue em defesa da pátria comum.
Na história
política, civil, literária, artística, sua colaboração foi de todos os tempos,
por intermédio principalmente de seus parentes mestiços, com seus jornalistas,
seus oradores, seus jurisconsultos, seus poetas, seus artistas, bastando só citar
um Cruz e Sousa, um Luís Gama, um Natividade Saldanha, um Justiniano da Rocha,
um Ferreira de Meneses, um Guedes Cabral, um Silva Alvarenga, um Visconde de
Jequitinhonha, um José Maurício, um Caldas Barbosa, um Henrique de Mesquita, um
Gonçalves Dias, um Lívio de Castro, um Eunápio Deiró, um André Rebouças e
tantos outros. Claro é que nesta incompleta lista de mortos ilustres estão
incluídos mestiços de todas as gradações, desde os mais escuros até os que se
podiam perfeitamente confundir com os melânios do Sul da Europa.
No contato
perene de nossas famílias influíram os negros profundamente no caráter nacional
por meio de seus hábitos, de suas usanças, de suas predileções, de suas lendas,
de seus cantos, de suas tendências psicológicas.
Os
entendidos vêem logo a perspectiva imensa que esses fatos abrem para o lado
d’alma nacional. E sem dificuldade percebem como a influência africana
inoculou-se na índole brasileira desde os primeiros alvores de nossa formação.
As pretas eram as amas-de-leite e de criação dos filhos dos
colonizadores europeus desde 1550 ou mesmo antes.
Não é
preciso juntar mais nada para se compreender esse fenômeno que, noutro livro,
chamamos – o mestiçamento moral, ao lado do mestiçamento físico,
que se ia, desde então, dando também em larga escala.
Não era,
porém, só o negro que entrava nessa imensa obra de diferenciação de si próprio
para a integração de um tipo novo: o tipo brasileiro. O índio, está
implicitamente dito, durante os dois primeiros séculos principalmente, foi
também incorporado pela escravidão e pelo cruzamento. Daí a formação dos mestiços
de todas as gradações, a que já temos aludido, e dos quais, entre os fatores
étnicos de nossa literatura, falta-nos dizer mais algumas palavras.
Antes de
tudo, releva agitar, sem rebuço, a vexata quaestio de saber se houve ou
não vantagem na imensa mestiçagem dada no Brasil, como em toda a América Latina
e nas zonas dos Estados Unidos tomadas aos espanhóis, convém não esquecer,
entre as três raças principais que o vão povoando.
Alguns
românticos fantasistas, desses que andaram por muitos anos se iludindo com
sonhos, entraram a acumular vacuidades neste assunto, nomeadamente no que se
refere à questão da mestiçagem.
Nutridos de
ilusões, ei-los que acariciavam a doce miragem da imensa superioridade dos
tipos cruzados. Era uma extravagância em luta com inúmeros fatos e negada todos
os dias pela agitação anárquica das nações latino-americanas. Não podia durar
muito. A ciência teve de estudar o assunto e deu fácil desmentido aos
sonhadores pelo órgão de Nott, na Carolina, Luisiana e Flórida; de Long, na
Jamaica; de Jacquinot, Waitz, Hamilton Smith, van Amringe e Seeman, nas
Antilhas
Broca,
porém, provou que nas raças humanas, conquanto as mais afastadas entre si
produzam bastardos menos fecundos do que as mais próximas, todavia entre elas
todas se dá sempre a paragenesia, caso em que os mestiços diretos são
estéreis entre si ou em sua segunda ou terceira geração, mas os de segundo
sangue são indefinidamente férteis; e a eugenesia, caso em que as duas
ordens de mestiços são indefinidamente fecundas. Esta segunda hipótese, a eugenesia,
dá-se principalmente entre as raças menos afastadas, como, verbi gratia,
os povos morenos do Meio-Dia da Europa, os índios d’América e negros
d’África.
É,
felizmente, o caso dos portugueses no Brasil e dos espanhóis nas suas antigas
possessões no Continente.
Destarte,
podemos, à luz dos fatos e da ciência, concluir: o incorporamento direto do
índio e do negro entre nós foi conveniente para garantir o trabalho
indispensável à produção da vida econômica do povo novo que se ia formar; e o
mestiçamento deles com o europeu foi vantajoso: a) para a formação de
uma população aclimada ao novo meio; b) para favorecer a civilização das
duas raças menos avançadas; c) para preparar a possível unidade da
geração futura, que jamais se daria, se os três povos permanecessem isolados em
face um do outro sem se cruzarem; d) para desenvolver as faculdades
estéticas da imaginativa e do sentimento, fato real no próprio antigo
continente, como o demonstrou o ilustre de Gobineau.98
Manda a
verdade, porém, afirmar que essa almejada unidade, só possível pelo
mestiçamento, só se realizará em futuro mais ou menos remoto; pois será mister
que se dêem poucos cruzamentos dos dois povos inferiores entre si,
produzindo-se assim a natural diminuição deste, e se dêem, ao contrário, em
escala cada vez maior com indivíduos da raça branca.
E, mais
ainda, manda a verdade afirmar ser o mestiçamento uma das causas de certa
instabilidade moral na população, pela desarmonia das índoles e das aspirações
no povo, que traz a dificuldade da formação de um ideal nacional comum.
Temos sido
uma nação mestiçada, como muitas outras, nomeadamente todas as da América
Latina, circunstância esta que os argentinos fingem comicamente ignorar;
sê-lo-emos ainda por muitos séculos como todos os sul-americanos, porquanto,
por mais apagados que fiquem, de futuro, certos germens que contribuíram para
formar-nos, eles aí estarão latentes, porque aqui, como em o mundo físico, tudo
se transforma e nada se destrói. Os defeitos apontados, porém, são defeitos que
podem ser reduzidos por uma severa educação.
Aos mestiços
devemos, na esfera literária, mais do que aos outros elementos da nossa
população, as cores vivas e ardentes de nosso lirismo, de nossa pintura, de
nossa música, de nossa arte em geral.
III
A
civilização na América, respective no Brasil, é um processo de aclimação
e, inevitavelmente, de transformação da cultura européia, o que
importa dizer que, conquanto entremos ou devamos entrar nesse curioso processus
com vários elementos nossos, alguns dos quais já, nestas páginas, foram
passados em revista, todavia os germens e, digamos assim, os modelos, as formas
do pensamento cultural vêm de fora, vêm da Europa e dos Estados Unidos.
E não é,
pois, sem interesse indicar em síntese a marcha do processo imitador.
Como era
natural, durante os três primeiros séculos, quando ainda não tínhamos nem
autonomia política, nem literária, o modelo que seguimos foi a metrópole, dupla
imitação, porque era daquilo que ela fazia e daquilo que ela imitava. Assim, as
letras portuguesas em geral nos três séculos, e as espanholas, peculiarmente
durante o XVII, e as italianas durante o XVIII, foram o nosso guia.
A literatura
francesa tomou o ascendente na época romântica, de 1830
Houve um
momento (
No Brasil,
porém, o fato se complicou de certa dificuldade especiosa. Tivemos um momento
duas espécies de alemanismo: o literário, defendido, propagado
por Tobias Barreto; e o da imigração, encomiado principalmente por
Escragnolle Taunay, não falando já numa terceira fórmula que foi sempre a que
principalmente defendemos: o alemanismo consistente em ensinar e demonstrar
o valor, a importância, a influência política, social, histórica do elemento
teutônico na civilização mundial, modo de pensar este que se conciliava com
o do escritor sergipano, por nós aplaudido.
Ora, as duas
correntes eram inarmônicas e os dois propagandistas cordialmente adversários.
Tobias desejava, aplaudia o alemanismo, isto é, a assimilação da cultura
e do pensamento alemão, como meio de fortalecer-nos a nós mesmos e
habilitar-nos a lutar com os tedescos no momento oportuno. Era inimigo franco
da colonização germânica pelo modo como tem sido feita no Sul do Brasil.
Taunay,
francês de origem, detestava as gentes alemãs, a sua cultura, a sua intuição
das coisas, tanto, e isto é decisivo, que em vários romances seus encarnou
sempre o ridículo nalgum tipo germânico. Queria a colonização teutônica, pela
ânsia de nos ver crescer e prosperar. O juízo definitivo no tocante a essas
duas correntes opostas, é que ambas elas têm um lado bom e uma face má. O lado
bom da propaganda do autor dos Estudos Alemães está no alargamento
inegável que o conhecimento da vida espiritual daquele grande povo traz ao
pensamento não só dos brasileiros, como de qualquer nação que o estude e
assimile. A face menos conveniente está na desatenção aos impulsos nacionais,
sempre dignos de nota, e no exclusivismo que poderia advir da freqüência
constante e reiterada com um só agente diretor no terreno das idéias.
O que havia
de acertado na propaganda de Taunay era o zelo por fortalecer o nosso povo e ir
apagando progressivamente os maus lados do mestiçamento atual.
O que havia
e há de mau em suas idéias era e é não atender que o duplo problema que tinha
em vista não se resolve pelo sistema de aglomeração de homens de uma gente estranha
à nossa em uma zona do país.
Dividi-los,
espalhá-los, difundi-los para serem assimilados e não perturbarem a nação
brasileira, que é uma formação luso-americana, é o que convém.
IV
SENTIDO
TEÓRICO DA
LITERATURA BRASILEIRA
O problema
teórico da evolução brasileira, quer sob o ponto de vista literário, quer
tomada ela em sua completa generalidade, abrangendo todas as faces da atividade
nacional, não se deixa resolver, como desastradamente pensam alguns, só pela
apreciação da maior ou menor importância que aos nossos próprios olhos tenhamos
dado ao nosso país e a nós mesmos. A causa é muito mais complexa.
Era natural,
sem dúvida, antolhar-se aos primeiros colonos, ainda desprovidos de quaisquer
comodidades e recursos, a terra como melancólica. O mesmo ainda hoje
acontece ao imigrante que, ao chegar, se vê falho de colocação, desequilibrado
diante do desconhecido.
Quantas
belas cidades européias não parecem insípidas ao viajante estrangeiro que a
elas chega, desconhecendo os prazeres e particularidades da vida local! É o
caso, notavelmente, de Londres, sempre aborrecida dos forasteiros que ali se
demoram cinco ou seis dias, e sempre encantadora aos que se deixam ficar por
dilatados meses e anos. E é gente que viaja com conforto e para se divertir...
Era também natural que o desenvolvimento progressivo da cultura, da
vida civil e do conhecimento das riquezas do país, fixando mais o colono ao
solo, o fizesse ver com melhores olhos as belezas da terra. Naturalíssimo era
que a população nova, oriunda dos colonizadores, quando viesse a preponderar em
número, se considerasse igual e até superior em predicados aos filhos da
metrópole.
Estes
fenômenos se deram sempre, desde que o homem se lembrou de descobrir e
colonizar terras. Não são peculiares ao Brasil e não podem servir de base ou
ponto de partida para uma diferenciação de nosso caráter. São em demasia
genéricos.
Além disso,
não é de todo certo que no primeiro momento, no tempo de Nóbrega, Anchieta,
Aspilcueta Navarro, Gandavo, Gabriel Soares, todos, apesar de certo pessimismo
reinante desde então e que nunca mais nos abandonou completamente, recrudescendo
de tempos a tempos, todos achassem melancólica a terra e tratassem-na com
desdém. José de Anchieta cantou mais de um ditirambo às suas maravilhas, e o
mesmo fizeram seus companheiros e contemporâneos. Gabriel Soares, por exemplo,
quase só tem louvores para os recursos naturais do país por toda a magnífica
descrição que faz da costa brasílica, desde o Amazonas até muito além do Rio da
Prata. O melhor de seus encômios deixou-o, como era de ver, para a Bahia, a
terra de sua residência e empreendimentos. “Atrás fica dito, escreveu ele
no começo da segunda parte do seu admirável Tratado, passando pela Bahia
de Todos os Santos, que se não sofria naquele lugar tratar-se das grandezas
dela, pois não cabiam ali; o que se faria ao diante mui largamente, depois que
se acabasse de correr a costa com que temos já concluído. Da qual podemos agora
tratar e explicar o que se dela não sabe para que venham à notícia de todos os
ocultos desta ilustre terra, por cujos merecimentos deve de ser mais
estimada e reverenciada do que agora é... Como El-Rei D. João III de
Portugal soube da morte de Francisco Pereira Coutinho, sabendo já das grandes
partes da Bahia, da fertilidade da terra, dos bons ares, maravilhosas águas e
da bondade dos mantimentos dela, ordenou...”99
Assim falava
o maior observador português que pisou terras da América, em 1587, e em tais
palavras muito aquém ficou do venerável Anchieta, que dois anos antes já tinha
dito: “Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosques e não se vê em
todo o ano árvore e nem erva seca. Os arvoredos se vão às nuvens de admirável
altura e grossura e variedades de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes
dá graça é que há neles muitos passarinhos de formosura e variedade e em seu
canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos e canários de
Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para
louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos, que os lindos e artificiais de
Portugal ficam muito abaixo. Há muitas árvores de cedro, áquila, sândalos e
outros paus de olor e várias cores e tantas diferenças de folhas e flores, que
para a vista é grande recreação e pela muita variedade não se cansa de
ver.”100
Boa terra, algo
melancólica, em o dizer do mesmo padre, essa de que se contam tantas
maravilhas e muitas e muitas mais, no próprio escrito citado, que calamos por
brevidade, não escondendo que no ano mesmo da chegada dos primeiros jesuítas,
1549, escrevia Nóbrega a seu mestre o Dr. Navarro, falando da cidade de
Salvador: “É muito salubre e de bons ares, de sorte que sendo muita a
nossa gente e mui grandes as fadigas, e mudando da alimentação com que se
nutriam, são poucos os que enfermam e este depressa se curam.
“A
região é tão grande que, dizem, de três partes em que se dividisse o mundo,
ocuparia duas; é muito fresca e mais ou menos temperada, não se sentindo muito
o calor do estio; tem muitos frutos de diversas qualidades e mui saborosos; no
mar igualmente muito peixe e bom.
“Similham
os montes grandes jardins e pomares, que não me lembra ter visto pano de rãs
tão belo. Nos ditos montes há animais de muitas diversas feituras, quais nunca
conheceu Plínio, nem deles deu notícia, e ervas de diferentes cheiros, muitas e
diversas das de Espanha; o que bem mostra a grandeza e beleza do Criador na
tamanha variedade e beleza das criaturas.”101
Escusado é
recorrer a Cardim.
E assim,
pois, por uma passagem dos velhos cronistas de quinhentos em desfavor da
terra, citam-se vinte em prol dela, e, pelo que toca aos habitantes, os
jesuítas são naquele período acordes em considerar os colonos portugueses muito
mais viciados do que os índios e mestiços do país. Na era de seiscentos, por
outro lado, se um autor dos Diálogos das Grandezas do Brasil e um Frei
Vicente do Salvador não cansam de bendizer da terra, no que são continuados em
princípios de setecentos por Pita e Andreoni, entre esses. quatro
escritores, e contemporâneos dos dois últimos, surge a diabólica figura de
Gregório de Matos, negação completa do fervoroso otimismo de todos eles. É que
os maiores ou menores gabos que nos mereçam a terra e seus habitadores, já o
dissemos, as maiores ou menores censuras que lhes façamos, questão afinal do
temperamento de quem escreve ou da feição do tempo em que vive, não são um
critério rigoroso e completo de caracterização de nossa índole, como povo, em
qualquer das esferas em que nos tenhamos exercitado.
Evidentemente
o problema se deixará melhor solver, se se apelar para fenômenos mais peculiares
e profundos, para fatores mais enérgicos e eficazes.
De que se
trata? Nada mais, nada menos do que definir o brasileiro, caracterizá-lo em
face do português, cuja língua ele fala na América, cuja civilização ele
representa
Tal critério
novo, por nós estabelecido nos Estudos sobre a poesia popular e na História
da Literatura Brasileira.
Fernando
Wolf (1863) nem por sombra teve o pressentimento deste modo de ver, como já
houve quem insinuasse. Primeiramente, porque não estabeleceu as bases da
doutrina étnica brasileira; depois porque não assentou nela as leis de nosso
desenvolvimento espiritual; e mais, porque não diz uma palavra sequer do
elemento africano; e mais ainda, porque não definiu o mestiço; porque
não determinou o que se lhe deve no Brasil; porque não definiu os outros
concorrentes, indicando a contribuição de cada um; e, finalmente, porque, em
todo o seu livro, quando, só uma vez, alude, de passagem e rapidamente, ao
assunto, é para negar (veja-se bem: para negar) a influência direta
dos habitantes primitivos do país (só fala nestes) e de seus
descendentes na psique nacional. São
estas as suas palavras: “Ce n’est qu’indirectement que ces
habitants primitis du pays, par leurs unions avec les colons, et par les
races mêlées (mamelucos et mestiços) qui en sont sorties, ont exercé sur le
développement du caractère brésilien et par conséquent sur la littérature de ce
peuple une influence...
Eis aí a que
se reduz a indicação do critério etnográfico em Wolf, um escritor tão pouco
conhecedor de nossa vida espiritual, como ela é realmente, que chegou a negar
a influência direta do mestiço em nossas letras!... E Gonçalves Dias?!
Bastaria
esta só pergunta para desconcertar, não tanto ao velho escritor austríaco,
senão a quem ainda hoje tem o desplante de considerar o seu atabalhoado livro a
última palavra em história da literatura brasileira!...
Já antes,
outro fantasista, numa irritação de momento, tinha atribuído ao botânico
Martius o nosso peculiar modo de pensar.
O censor
queria referir-se à dissertação por aquele cientista publicada em 1845 na Revista
do Instituto Histórico, sob o título – Como se deve escrever a
História do Brasil, memória para a qual nós mesmo tínhamos sido exatamente
o primeiro a chamar a atenção da crítica nacional. É mister desconhecer
completamente o trabalho de Martius para levantar fantasias, como essa, sobre
ele. O famoso botanista, no escrito citado, dá apenas um conselho e faz uma
enumeração meramente exterior dos elementos que entraram em nossa população.
Não os estuda; não os aprecia em sua ação mútua; não os mostra fusionando-se e
reagindo uns sobre outros; não tenta a determinação, nem ao menos vaga, do que
devemos a cada um dos três fatores principais de nossa nacionalidade em
particular e a todos eles conjuntamente. Deixa, o que é fundamental na questão,
em completo esquecimento o ponto saliente do problema – o mestiço, sobre
quem peculiarmente deveria insistir, estudando, repetimos, o especial quinhão
de cada fator e definindo o caráter do resultado.
É o que não
fez o ilustre bávaro, e não quis ver o apaixonado crítico. Felizmente a
doutrina, como a formulamos e expusemos, desde 1870, penetrou fundo no
pensamento nacional, que já começa a apreciar devidamente suas conseqüências
práticas e já a vai empregando até como base de obras artísticas e literárias:
romances, contos, dramas, etc.
Não é tudo.
De certo
tempo a esta parte, é de notar a insistência com que se tem andado, com
evidente preocupação, a proclamar Varnhagen o criador da história da
literatura brasileira!... Criador... como e por quê? Se a própria história
geral, Varnhagen não a criou, como poderá ter criado a história da literatura?
Varnhagen não fez mais do que, sem plano, sem sistema, sem doutrina, sem
filosofia, sem análise, sem síntese, escrever meia dúzia de biografias destacadas
de poetas e escritores e a introdução da seleta a que pôs o nome de Florilégio
da poesia brasileira: pouco mais fez do que repetir Barbosa Machado,
Januário Barbosa, Norberto Silva, Pereira da Silva e outros mais. Varnhagen não
tinha capacidade teórica e filosófica, e pouco além ia de pesquisas puramente
eruditas. Se fazer biografias e apurar datas e fatos anedóticos fosse criar
história literária, não haveria livro mais fraco em o gênero do que a História
da Literatura Inglesa – de Taine, porque ali o grande mestre nem faz
biografias, nem apura questiúnculas bibliográficas.
Não é
verdade que Varnhagen tivesse, como alguns têm afirmado, precedido Fernando
Denis e Norberto Silva no tratar historicamente as coisas literárias
brasileiras. Neste particular são-lhe não só anteriores os escritos de Barbosa
Machado, Bouterweck, Sismondi, como os primeiros e decisivos de Fernando
Denis, Norberto Silva, não falando já nos de Januário Barbosa, Almeida
Garrett, Nunes Ribeiro, Pereira da Silva, Gonçalves de Magalhães e outros.
Não é também
verdade que tivesse, como igualmente se tem dito, sido o autor da História
Geral do Brasil quem primeiro tivesse contado o gentio entre os fatores de
nossa literatura. Esteticamente, tinham-no feito antes dele algumas
dúzias de poetas; criticamente, todos os autores acima citados. Cumpre
advertir, finalmente, que o termo fator é mal empregado em relação a
esses críticos e historiadores: este consideram sempre o índio mais como
um assunto a ser tratado pela poesia e pelo romance do que como um fator
da literatura.
V
FASES
EVOLUTIVAS DA
LITERATURA BRASILEIRA
Fernando
Wolf, em 1863, dividia a história da literatura brasileira nos períodos
seguintes: 1º) do descobrimento do Brasil ao fim do século XVII; 2º) primeira
metade do século XVIII; 3º) segunda metade do século XVIII; 4º) do
princípio do século XIX ao ano de 1840; e 5º) de 1840 ao ano em que publicou
seu Brésil Littéraire (1863).
O defeito
desta enumeração de fase é ser demasiado fragmentada e não atender ao critério
do desenvolvimento das idéias em sua determinação. Por que fazer dos primeiros
cinqüenta anos do século XVII um período literário no Brasil? Que houve então
de especial na evolução espiritual dos brasileiros? Não se percebe facilmente.
Que motivos aconselham a marcar uma fase com os primeiros quarenta anos do
século XIX? Menos justificável ainda é este período.
Fernandes
Pinheiro, em 1872,
Por nossa
vez, nesta História, desde a 1ª edição, indicamos esta divisão: período
de formação (1500-1750); período de desenvolvimento autonômico (1750-1830);
período de transformação romântica (1830-1870); período de reação
critica e naturalista, ao princípio, e, depois, parnasiana e simbolista (1870
em diante até os dias atuais).
Classificação
esta atenta mais ao movimento das idéias e coadunada melhor com os fenômenos
intelectuais da nação.
Entretanto,
esta mesma divisão de períodos pode ser melhorada, tendo-se o cuidado de marcar
por fecho de cada fase e início da seguinte um fato literário característico
como propusemos no prólogo à 2ª edição (retro, pág. XXXVII).
Destarte,
teremos: – período de formação (de 1592, data suposta da 1ª edição
da Prosopopéia, de Bento Teixeira Pinto, a 1768, data da publicação das Obras
poéticas, de Cláudio Manuel da Costa); período de desenvolvimento
autonômico (de 1768, da mesma data das Obras poéticas, de Cláudio, a
1836, ano da publicação dos Suspiros Poéticos, de Gonçalves de
Magalhães); período de reação romântica (de 1836, ano dos Suspiros
Poéticos, a 1875, época do aparecimento dos Ensaios e estudos de
filosofia e crítica, de Tobias Barreto); período de reação crítica e
naturalista, e, depois, parnasiana e simbolista (de 1875, ano
dos citados Ensaios, em diante, até os dias atuais).
Não é tudo.
É uma divisão em quatro períodos, cujos dois primeiros se escoaram, como se vê,
dentro da época do classismo e podem por isso, sem inconveniente, reduzir-se a
um só, o que nos levaria a esta divisão tripartida: – período de
formação ou período clássico, de
E, como
nesta divisão tripartida os dois últimos momentos têm inúmeros pontos de
contato, não passando, no fundo, de uma reação contra os velhos ideais
clássicos, sendo a reação das novas escolas contra o romantismo puramente
artificial, pois não são elas mais do que romantismo disfarçado, é possível,
numa vista sintética, reduzir ainda mais a classificação, e teremos: – período
de formação ou período clássico, de
A primeira
fase, dentro das forças do regímen do classicismo e do absolutismo régio,
começa incipientemente desde quando se fundaram as primeiras escolas de
Humanidades no Brasil, e espíritos, como Nóbrega, Anchieta, Cardim, Luís da
Grã, Gandavo, Gabriel Soares e outros iguais, ensinaram ou escreveram nesta
parte d’América, formando desde logo discípulos da estatura de Vicente do
Salvador e Antônio Vieira; inicia-se de fato, no terreno da produção
espiritual, com a publicação da Prosopopéia; passa pelo proto-romantismo
da escola de Minas; assiste à independência política do país e chega quando a
elite intelectual da terra entra a interessar-se diretamente pela renovação das
idéias que se operava então na Europa: a segunda segue daí, dessa nítida
consciência que já tínhamos de nós mesmos, e desdobra-se por todo o século XIX,
ligando o proto-romantismo mineiro ao romantismo propriamente dito e às escolas
que subseqüentemente o substituíram.
DA CRÍTICA E SUA EXATA DEFINIÇÃO
Não é uma
discussão de caráter metafísico acerca da índole do fenômeno intelectual, a que
se dá o nome de crítica, que me proponho apresentar. É coisa muito mais modesta
e de caráter mais prático.
Depois de
exercer a crítica por quarenta anos seguidos, não é muito, num tempo em que
tudo se põe em questão, procurar saber a natureza da disciplina que, em troca
dalguns prazeres espirituais, traz sempre tantos dissabores aos seus adeptos.
E afirmo
desde logo: apesar de prender as suas primeiras raízes em Aristóteles e haver
passado através de Plotino e Quintiliano, quero dizer, apesar de seus dois mil
duzentos e noventa anos de idade, não existem dois críticos que a definam do
mesmo modo e formem dela o mesmo conceito. Não será de admirar quando se sabe
que ainda hoje se anda a indagar quais as noções exatas dos próprios fatos e
princípios fundamentais das ciências.
Que é a
matéria? E a força? E o movimento? E o átomo? E o éter? E a substância? E o
fenômeno? E o espaço? E o tempo? E a célula? E a vida?
Depois dos escritos
de Le Bon, H. Poincaré, Fr. Houssay, Emile Picard, Keyserling, não falando já
nos de Lorentz, Stallo, Maxwell, J. J. Thomson, Ol. Lodge, é temeridade ter a
pretensão de resposta decisiva.
E, em se
tratando de ciências e disciplinas que se ocupam das criações humanas, cresce
de ponto a luta e a desordem aparece quase sempre.
Ainda agora,
L. Ward, Giddings, Novicow, Gumplowicz, R. Worms, de Greef, Bouglé, Durkheim
escreveram volumes inteiros para delimitar e definir o que seja a sociologia.
Sobre a
moral nem é preciso insistir. Lévy-Brühl demonstrou num livro excelente que em
seu domínio a confusão chega a ser irritante: nem ao menos se tem conseguido
geralmente firmar a distinção entre os fatos morais e a ciência da
moral, entre esta e a arte prática que possa dela advir. Fabulam ainda
de uma ciência normativa da moral, como se não fosse isto uma contradictio
in adjecto, como se esse desiderato não fosse coisa posterior, de caráter
secundário, mera conseqüência do ensino científico da ética. Nesse domínio
realmente a perturbação excede a todos os limites.
Ainda agora,
não se faz a distinção precisa entre os fatos morais (agentes e impulsos da
conduta humana no meio das múltiplas relações sociais) e o conhecimento
empírico desses fenômenos. Nem entre este conhecimento empírico primitivo e
popular e as regras ou normas também empíricas de conduta que daí se
originaram. Nem tampouco entre os aludidos fatos e a ciência positiva deles.
Nem, finalmente, entre esse saber científico e as aplicações práticas que dele
se possam tirar para a conduta normal dos homens.
Em religião,
seria loucura procurar exemplos do contrário. Benjamin Kidd, em seu livro
admirável – A Evolução Social, dá a lista de 15 autores, dos mais
eminentes, que formularam definições contraditórias do conceito da religião.
Poderia
elevá-los, se o quisesse, ao décuplo.
Pois bem: em
crítica, o espetáculo é ainda mais esquisito, para não dizer –
deprimente.
Que é a
crítica? É uma ciência? É uma arte? É um capítulo da estética? É um capítulo da
lógica aplicada?
Tem métodos
seus especiais? O emprega os processos comuns a todas as ciências?
Aplica-se
somente à literatura e à arte, ou pode-se aplicar a todas as criações
espirituais da humanidade?
Neste último
caso, em que se distingue das ciências que destas se ocupam?
Qual o
sentido das expressões – crítica filosófica, crítica científica, crítica
política, crítica jurídica, além de crítica artística e crítica literária?
Não conheço
respostas sérias e completas a estas perguntas. Não se me deparam nem em
Lessing, nem em Winckelmann, nem em Sainte-Beuve, nem em Taine, nem
Nenhum delimitou
o terreno, nem definiu a natureza da crítica; nenhum designou o seu lugar na
classificação das ciências, se é que ela é uma ciência, ou deu a razão por que
a expulsava do cânon daquelas, se é que não mostra as qualidades requeridas
para ser contada em seu número.
E nem
resolve a questão surdir com a escapatória de não ser a crítica uma ciência e
sim pura e simplesmente um estudo, porque estudo, sem valor científico,
para nada presta, não tem mérito algum no terreno das idéias, não passando de
fantasias ou divagações.
E como é que
espíritos tão eminentes, que escreveram páginas críticas de tão subido valor,
são falhos num ponto de tanta gravidade, num ponto capital?
Este singular fenômeno provém de
quatro motivos principais: a força da tradição, que trouxe como conseqüência
imediata a confusão entre a crítica e a ciência da arte e da literatura
(Estética) e com a história de ambas; o vago e indeterminado do termo crítica;
darem-se como elementos especiais da crítica fatores que o são antes da sociologia
em geral e das ciências que a compõem; darem-se, finalmente, como processos
privativos da crítica, práticas e normas que lhe não competem e sim a outras
disciplinas do pensamento.
O imponente
progresso das ciências físicas e mais ainda os maravilhosos resultados de suas
aplicações práticas e industriais, coisas que se nos afiguram recentes, senão
contemporâneas e hodiernas, têm relegado para longe, para uma espécie de
lusco-fusco histórico, a extraordinária e imorredoura achega dos iniciadores
antigos. Poetas, sábios, filósofos, políticos, legisladores, artistas,
pensadores de todos os matizes tiveram por encargo a mais espinhosa das
missões: a de instituir os modelos e determinar as formas mesmas do
entendimento humano.
E esse
trabalho de achar os modelos e formas imperecíveis do pensamento teórico
representa um legado, cujo valor sobrepuja o de todas as conquistas
posteriores.
Não foi
embalde que a inteligência ocidental esteve assente à escola de gregos e
romanos, sem a mais breve interrupção, por um milênio seguido.
É por isso
que ainda agora a filosofia, a estética, a religião, o direito dos antigos
constituem a medula do pensar moderno nesses domínios, por mais que às vezes
julguemos ao contrário.
Os estudos
dos fatos da natureza física, demandando longas, penosas e repetidas
observações e experiências, como dependentes do tempo, não chegaram nem podiam
chegar à perfeição, o que não quer dizer sejam para desprezar a matemática, a
astronomia, a física e a história natural dos antigos.
Mas onde
eles fizeram maravilhas foi nos estudos que têm por objeto o homem mesmo e suas
produções espirituais.
A gramática,
a lógica, a retórica, a poética, ao lado da política, da ética e da
jurisprudência de gregos e romanos, conservadas durante o período da Idade
Média, aperfeiçoadas até em certos pontos pela escolástica, receberam novo
reforço, nova vida, durante os três séculos do Renascimento e do período
clássico.
A própria
Reforma, filha do ensino dos humanistas, era um apelo ao cristianismo greco-romano
primitivo.
As famosas
revoluções filosóficas de Bacon e Descartes, no que elas têm de mais alevantado
e significativo, foram mais uma reação contra o tradicionalismo da ortodoxia
cristã, o espírito autoritário e dogmático da Igreja, do que uma repulsa ao
pensamento teórico antigo, cujo surto livre, ao contrário, procuravam
ressuscitar.
Por isso é
que o egrégio Buckle pôde dizer que o eminente pensador do Discours de
Os esforços
desses primeiros restauradores da filosofia ocidental nos tempos modernos
dirigiram-se diretamente contra a teologia reinante.
Foi uma
guerra não especialmente a Aristóteles e sim às excrescências que o dogmatismo
católico tinha acumulado sobre as doutrinas do filósofo.
O que mais
nos interessa, porém, neste momento é o caso da retórica e poética.
As condições
da metafísica antiga, mais oriunda das forças internas do espírito do que da
generalização rigorosa de grandes séries de fatos observados, imprimiram aos
estudos relativos às produções intelectuais e emotivas caracteres específicos,
uns úteis, outros nocivos, difíceis de extirpar.
A intuição
artística das gentes helênicas tinha chegado à perfeição. A poesia, nas suas
múltiplas ramificações do lirismo, da epopéia, da tragédia, da comédia, ao lado
da eloqüência, da orquéstrica, da estatuária, da arquitetura e da própria
pintura, tinha-se constituído numa pujança incomparável.
A prosa, a
palavra escrita, nada deixava a desejar em graça, clareza, simplicidade e
harmonia.
Um
pensamento pomposo e equilibrado traduzia-se, revelava-se, tomando as formas
que lhe eram mais adequadas, formas nas quais o matiz, o brilho, o colorido
eram uma dádiva da singeleza e da naturalidade.
O fenômeno é
tão extraordinário que Lecky, autor da História da moral na Europa, acha
de difícil explicação “que nos apertados limites e na reduzida população
dos Estados gregos pudessem ter nascido tantos homens de gênio, que, em
filosofia, poesia épica, dramática ou lírica, em eloqüência falada ou escrita,
em política, em escultura, em pintura e provavelmente também em música,
atingiram os graus mais elevados da perfeição humana”.
Esta
opinião, aliás corrente entre os principais críticos europeus, é citada e
aplaudida por Benjamin Kidd que ajunta: “Durante todo o século XIX as
novas investigações feitas em todos os ramos dos conhecimentos humanos
fizeram-nos intimamente conhecer a vida intelectual dos gregos. A unanimidade
dos testemunhos, provenientes das diversas ramificações das ciências, todos
eles comprovadores da média elevada do desenvolvimento intelectual neste povo
singular, é digna de admiração.
“Não
são só inteligências como as de Sócrates, Aristóteles, Platão, Fídias, que
parecem superiores, quando atentamente as examinamos, levando em conta as
circunstâncias e o estado dos conhecimentos da época.
“É
antes o desenvolvimento intelectual médio do conjunto do povo que se revela
realmente muito grande.
“No
que se refere ao desenvolvimento dos espíritos isolados e da cultura geral,
parece realmente que os gregos tinham estado mais adiantados do que nós.”103
Kidd,
deixando de lado críticos, literatos, filósofos e historiadores, recorre aos
porta-bandeiras da ciência positiva e cita o célebre Galton, autorizado mestre
da ciência positiva e estatística. O testemunho do autor do Gênio
hereditário é decisivo: “A raça mais capaz, de que a história tenha
guardado memória, é, sem sombra de dúvida, a grega, considerando-se, de um
lado, as obras-primas, ainda sem iguais, que produziu em todos os distritos da
atividade intelectual, e, de outro, a reduzida cifra da população que deu
origem aos autores de semelhantes obras-primas.
“Resulta
dos fatos observados que a capacidade média da raça ateniense, avaliando-a pelo
mais baixo, é dois graus mais elevada do que a nossa, isto é, tão elevada acima
de nós quanto o somos acima dos negros africanos. Esta apreciação, por mais
extraordinária que possa parecer, é confirmada pela inteligência fina e aguçada
da gente de Atenas, diante da qual recitavam-se obras literárias, exibiam-se
obras d’arte, de um caráter sério e distinto, que nossa raça, em média,
seria incapaz de compreender e basta, para ficarmos edificados sobre o valor
médio da inteligência de nossa raça, lançar o olhar ao mostrador de uma biblioteca
de caminho de ferro.”
Depois
disto, depois de tais palavras, ninguém pode nem deve admirar-se de que as
regras, as normas, os ensinamentos, os conselhos que os gregos deixaram,
naqueles assuntos em que foram mestres incomparáveis, tenham permanecido
através dos tempos e sejam ainda hoje a essência do que se pensa a respeito. É
como se alguém viesse mostrar espanto diante da persistência do direito romano
em toda a jurisprudência hodierna.
Olhando-se
para o fundo da nossa afamada crítica moderna, lá se hão de deparar os
sedimentos imperecíveis da Retórica e da Poética dos gregos.
Isto, porém,
digo-o com todo o respeito, falsificou d’alto a baixo o conceito mesmo da
crítica, que entrou a desviar-se de sua índole própria e a tomar indebitamente
o lugar de outras disciplinas do espírito.
O peso
extraordinário da tradição trouxe inconvenientes que urge bem determinar, para
que sejam eliminados e não fiquem como eterno fermento de confusão.
Os
extraordinários dotes artísticos dos gregos foram a causa principal do mais
sério desvio que têm experimentado a estética e a crítica no correr dos
séculos.
A graça, a
beleza equilibrada e rítmica, por assim dizer, de suas criações de arte
impunha-se a todos os espíritos.
Os encantos
da poesia, da tragédia, da comédia, da eloqüência, sobretudo, embriagavam todas
as almas, sedentas de emoções.
Eram as
artes da palavra, as mais intelectuais de todas, de pronto e imediato efeito.
Que se
poderia desejar de melhor?
Tinha-se
atingido à perfeição.
Mas o grego,
o heleno não era só o homem da imaginação e do sentimento, era também o homem
do raciocínio; não era só o sonhador emotivo, era o raciocinador implacável;
não era só artista por temperamento, era também metafísico por índole.
Daí o açodamento
com que se atirou a reduzir a regras, a normas, a preceitos práticos, a sua
própria capacidade e mestria em assuntos artísticos, nomeadamente nas citadas
artes da palavra.
Daí a
retórica e a poética, isto é, um acervo de fórmulas técnicas, um processus, uma
praxe, em suma, a ser seguida pelos oradores e poetas de todos os gêneros.
Se a
construíram para as artes plásticas, a arquitetura, a estatuária, a pintura,
essa não chegou até nós em corpo de doutrina.
À Retórica e
à Poética, objeto das cogitações de Aristóteles e seus imediatos sucessores,
coube a função de representar o saber dos gregos no terreno estético.
Esse saber,
em Retórica, não passava de um punhado de regras sobre o discurso e suas partes
componentes a que se juntaram, mais tarde, outras sobre os tropos e
figuras da linguagem, e, mais tarde ainda, outras sobre alguns gêneros em
prosa, como a novela, a epistolografia e, às vezes, a história. Em Poética, não
passou de preceitos acerca do poema épico, do gênero lírico em seus vários matizes,
do gênero dramático que consistia somente na tragédia e na comédia, escritas
sempre
Os bons
gregos não sabiam, e nem o podiam, e isto os desculpa, que a genuína técnica
tem de suceder à ciência perfeita e positiva; não reparavam que, por maior que
fosse o seu gênio criador nas artes, a técnica, para valer, não havia de
originar-se do reduzido conhecimento empírico que eles possuíam dos assuntos
sociológicos; não tinham na devida conta que a sua retórica e poética não
podiam passar de meros conselhos sem valor científico; não desconfiavam que
ciência normativa é absurdo, é perfeita contradie tio in adjecto. Eles
têm, porém, as condições do tempo para os justificar. Os modernos, é que não
podem alegar os mesmos motivos.
Essa ciência
espúria, entretanto, perturbou os espíritos, dificultando a formação da genuína
ciência das artes e da literatura: a Estética, que ainda agora forceja por
constituir-se, é ainda até o presente cheia de tropeços.
Não foi,
porém, só com os fenômenos artísticos, cumpre ponderar, que se deu esse
desacerto inicial.
O mesmo fato
se repetiu para com os fenômenos lingüísticos, morais, jurídicos, políticos e
econômicos.
O caso da
linguagem é, entre todos, muito ilustrativo.
Antes que
existisse a ciência da linguagem, a lingüística moderna, verdadeira ciência
natural, como qualquer ramo da biologia, ciência de recentíssima criação, já
existia a gramática, a famosa arte de falar e escrever corretamente.
Esta
precipitada coleção de regras e preceitos, tomando o lugar da genuína ciência,
embaraçou-lhe o advento e constituição por muito tempo.
O exemplo da
moral é também muito curioso, porque ainda hoje muita gente boa persiste em
considerá-la uma ciência de normas. É que, também, sob o conhecimento empírico
de certas praxes de conduta, os antigos entenderam de formular a infalível arte
dos bons costumes, a ética.
Só agora, à
luz dos processos da sociologia, é que se vai compreendendo que a ciência dos
móveis dos atos humanos tem raízes muito mais variadas e profundas, que
demandam estudo muito mais perspicaz do que as regras da velha ética.
O próprio
direito, cientificamente estudado pelos métodos naturalísticos, só hoje é que
se vai constituindo.
Os juristas,
ao menos, compreendem, e não negam mais, que o direito começou pela praxe, pelas
normas processualísticas.
A lição de
R. von Ihering neste ponto é esmagadora. É que este grande jurista havia
largamente entrado na corrente renovadora dos diversos ramos das ciências
sociais.
A própria
política, a despeito das pungentes lutas de todos os tempos, teoricamente,
ainda agora sofre dos graves embaraços da prática dos gregos, erigida em
ciência.
Incalculáveis
são os males que têm advindo aos povos e aos governos de meia dúzia de noções
falsas ou incompletas que nos advieram dos antigos sobre república,
monarquia, democracia, aristocracia, oligarquia e outras formas políticas
que eles insuficientemente conheceram e cristalizaram em definições que temos
todos a simpleza de tomar por outros tantos dogmas.
E até os
fenômenos econômicos não escaparam a essa contingência. Bem antes de se haver
constituído a respectiva ciência sobre o alicerce do conhecimento da vida
industrial de todos os povos, os gregos escreveram Econômicas, que
tinham o caráter de artes práticas, ao jeito do que fizeram com as suas
políticas, éticas, poéticas, retóricas, lógicas e metafísicas. Principalmente
em Xenofonte e Aristóteles se acham elas.
Resulta de
todas estas rapidíssimas considerações que ao gênio dos helenos sobraram
qualidades criadoras, que os levaram a construir a priori, em todos os
domínios do pensamento, suprindo, deste modo, as lacunas de um saber pouco
avultado, pela exigüidade do tempo e condições sociais de então.
Resulta mais
que de seu incontrastável prestígio ficaram no saber moderno diversos desvios,
peníveis de afastar.
Resulta,
finalmente, que na história de qualquer ciência, nas que se ocupam da natureza
e nas que tratam do homem e da sociedade, é indispensável distinguir, como já de
leve adverti, os estádios seguintes:
1º –
Os fatos, indispensável ponto de partida, que se não devem confundir com
as suas explicações, quaisquer, teóricas;
2º –
Um primeiro conhecimento deles, espontâneo, empírico, incompleto, pois;
3º – Uma arte, praxe,
prática, técnica, ou como lhe queiram chamar, também empírica e vacilante;
4º – A
genuína ciência de formação tardia, experimental, positiva;
5º – A
nova prática, técnica ou arte, racionalmente deduzida dos princípios
científicos certos.
Deixando de
parte o segundo e o terceiro momentos, por pertencentes aos velhos tempos,
restam, atualmente, como iniludíveis e insofismáveis: as séries de fatos, a
ciência de cada uma dessas séries, a técnica racional e
conscientemente estabelecida.
Que tem a
ver tudo isto com a crítica?
É o que se vai mostrar.
Quando se
começou a falar em crítica, como sinônimo de apreciação de assuntos literários,
existiam apenas a cogitar de tais assuntos a velha poética e a velha retórica,
de mero valor prático, como se viu, sem base científica séria.
A crítica
teve necessariamente, fatalmente, de confundir-se com elas, conforme se tratava
de obras em verso ou em prosa.
A genuína
ciência das artes, respective da literatura, que não é outra coisa mais
do que a arte da palavra escrita ou falada, – a Estética – , não
existia.
O termo só
ontem, por assim dizer, na segunda metade do século XVIII, foi criado por
Baumgarten; a coisa tem estado a constituir-se até agora sob os esforços de
numerosos pensadores.
De recentes
tempos para cá, rolando em desuso a retórica e a poética, passou a crítica a se
confundir com a estética, na parte em que trata das belas-letras, parte esta
que se poderia chamar literonomia, literologia ou, melhor, estoliteratura.
Quando a
confusão não se faz diretamente com a ciência da estética, faz-se com a
história da arte e da literatura. Nada de mais fácil demonstração. Não precisa
ir longe; pelo que toca à confusão com a Retórica e Poética, basta abrir o
livro de F. Brunetiêre – L’Êvolution des Genres dans
l’Histoire de
Conquanto se
ocupe exclusivamente do desenvolvimento da crítica em França, fácil é ver pela
lei do consensus, que mostra o paralelismo de todos os fenômenos
sociológicos, o ritmo evolutivo daquela disciplina do espírito foi o mesmo em
toda a Europa.
Como de
razão, o autor da Evolução dos gêneros faz partir das primeiras
manifestações do humanismo na Itália a origem da crítica.
Então ela
não era ali mais do que gramática, retórica e poética, mesmo nas
suas mais ousadas investidas.
Em França o
mesmo acontecia. Brunetière não o diz, porque a intuição que ele próprio teve
da crítica, até morrer, foi demasiado estreita e eivada de impertinente
classicismo; não o diz; mas é a lição que sai dos fatos ainda narrados por ele
a seu modo. Em França, naquele período, durante o século XVI, Du Bellay escreve
a Defesa e ilustração da língua francesa, apontada como a mais remota
origem da crítica naquele país.
Pelo próprio
título se conhece, à primeira vista, que se trata de gramática e retórica.
E para que não reste a menor sombra de dúvida sobre o próprio modo de
pensar do autor moderno acerca desses seus antigos confrades toma ele a
precaução de avisar-nos: “C’est la critique philologique base
nécessaire, base indispensable encore aujourd’hui, de la critique
littéraire, et dont les procédés ou méthodes ont bien pu se perfectionner
depuis lors, mais dont l’objet est demeuré le même.”
Para
Brunetière, seja dito de passagem, é claro, toda a critica se reduz à crítica
literária, tendo por base necessária e indispensável – a gramática.
Logo depois
de Du Bellay e seu livro lembrado, aparece Júlio César Scaligero, com a sua Poética,
vasto repertório de regras e exemplos, tomados às letras clássicas, cuja
maior novidade é dar preferência aos latinos sobre os gregos. Neste sentido é
acompanhado por Vauquelin de
No século
seguinte as coisas seguiram o mesmo curso; e a fase mais brilhante do chamado
período clássico.
Desde
Malherbe até Fontenelle, passando por Chapelain, Scudéry, Balzac, Boileau e
Carlos Perrault, a crítica, se semelhantes cogitações gramaticais e retóricas
merecem o nome de crítica, não passou da mesma toada do século anterior, apenas
com maior apuro na questão da regra das três unidades e um formalismo
cada vez mais exigente. É o tempo da
criação da Academia Francesa e Chapelain lhe dava por missão: “... travailler
à la pureté de notre langue, et la rendre capable de la plus haute éloquence;
que, pour cet effet, ii fallait premiêrement en régler les termes et les
phrases, par un ample Dictionnaire et une Grammaire fort
exacte, qui lui donnerait une partie des éléments qui lui manquaient; et
qu’en suíte on pourrait acquérír le reste par une Poétique que
l’on composerait pour servir de rêgle à ceux qui voudraient écrire en
vers et en prese.” Vê-se nitidamente que este terrível Chapelain é o
avoengo irrecusável da turba de impertinentes que forcejam hoje por meter no
cabresto das regras da colocação dos pronomes, do infinito pessoal, e doutras
gafeiras do gênero, as audácias de todos os talentos, os surtos de todas as
almas, o gênio de todas as individualidades.
Do século
XVII, no ponto precípuo à crítica, a culminância está
Dele concluiu o historiador da Evolução dos gêneros: “S’il
y a donc un art d’écrire, s’il y a surtout un art de rimer,
s’il y a un art de flatter l’oreille, mettons que Boileau ne
l’ait pas connu ou pratiqué lui-même, il en a pourtant enseigné les
leçons.”
Releva
acrescentar que da famosa querela dos antigos e modernos,
Esse pendor
se encontra em Perrault e Fontenelle.
Era
prematuro. No século seguinte Dubos e Diderot andariam pelo mesmo caminho; mas
o geral dos espíritos, em cujo número pontificavam Fénelon, com seus Diálogos
sobre a eloqüência (1718), Voltaire, o grande Voltaire, revolucionário em
religião, mas ultraconservador em literatura, com numerosos opúsculos e com o exemplo
de suas tragédias, Fréron, Marmontel, o próprio Rousseau e a generalidade dos
Enciclopedistas, até
Nos
primeiros dias do século XIX, com Staél e Chateaubriand, e, mais tarde, com
Villemain, Guizot e Cousin, os ensinamentos e tradições da retórica, da poética
e da gramática alargam-se pelo estudo comparativo das letras estrangeiras e se
deixam substituir em parte pela história. Mas as velhas tendências lá estão no
fundo: na crítica perdura o vezo de a confundir com a arte de bem dizer, de bem
escrever, de bem falar, de bem aplicar as regras, de bem imitar os modelos.
A roupagem
histórica não chega para ocultar o íntimo das coisas para quem sabe ver claro.
A crítica, na Europa toda, e
nomeadamente em França, até Villemain, não passou essencialmente de uma
prolação dos ensinos da velha poética e da velha retórica, modificados,
ampliados por considerações histórico-sociais, neste ou naquele ponto, conforme
o temperamento dos autores.
Era natural que,
com a constituição da estética em ciência independente, a ossificada tendência
de considerar a crítica uma função capaz de aplicar-se unicamente às produções
literárias e, quando muito, também aos produtos da Arte em geral, com a qual se
começava a ver que a literatura tinha pontos afins, era natural que a crítica
se modificasse no sentido de passar a considerar-se um capítulo da mesma
estética e a confundir-se com ela, guardando, porém, sempre aparelhamentos
tomados à história.
Estética e
história, duas disciplinas inteiramente diversas da crítica, passaram a
constituí-la.
Nas origens
da estética moderna trabalharam, sobretudo na Alemanha, poetas, historiadores,
filósofos e psicólogos. Por isso é que os nomes de Lessing, Schiller, Herder,
Winckelmann, Kant, Hegel e Herbart fulgem aí com forte intensidade.
Schopenhauer, Fechner, Vischer tinham de seguir a mesma rota, em que haviam de
ser acompanhados por Hartmann e outros. A ciência tinha de ficar
definitivamente constituída.
De então em
diante, a crítica não tem passado de fragmentos de estética, entremeados de
considerações históricas e, por vezes, de motivos psicológicos.
É esta a sua
fisionomia em Sainte-Beuve, que a costuma também diluir em divagações
anedóticas.
É o seu
caráter d’alto a baixo em Taine, que lhe imprime, porém, feições de um
sistematismo ferrenho.
O ousado
pensador francês teve mais intensamente que ninguém, nos tempos modernos, a
tendência de subsumir inconscientemente a crítica na estética.
Que foi que
ele procurou esclarecer e definir?
O ideal na
arte, a filosofia da arte, a filosofia da arte na Grécia, a filosofia da arte
na Itália, a filosofia da arte nos Países Baixos.
Nada mais
claro: são os títulos mesmos de seus livros de crítica.
Se a eles se
juntarem seus Ensaios e sua História da Literatura Inglesa, ainda
e sempre o fato é o mesmo e a minha tese está de pé.
O grande
espírito de L’Intelligence, nestes livros, como nos primeiros,
discute teses e teorias estéticas, nas páginas em que trata de idéias gerais e
doutrinárias, ou faz história, nas páginas em que narra fatos e acontecimentos.
Tudo quanto
diz de meio, raça, momento, caráter predominante, “faculté
maitresse” – são outras tantas forças que presidem à origem e
formação das criações de todas as artes e não da literatura somente, devendo
esta ser contada no meio daquelas, como arte da palavra.
Ora, tudo
isto é pura estética e não é crítica.
Além disto,
não seria difícil mostrar que todos aqueles famosos elementos não presidem só
ao evoluir das artes e da literatura, não são indispensáveis só à estética,
senão ao desenvolvimento de todas as criações do homem, científicas,
religiosas, políticas, morais, jurídicas, econômicas, a toda a sociologia,
Cumpre não
esquecer que Sainte-Beuve e o próprio Taine, fazendo, nos melhores momentos,
inconscientemente, estética, acreditavam que estavam a construir a crítica em
ciência autônoma.
O mesmo já
se não pode dizer do célebre Ruskin, o maior crítico inglês em todos os tempos.
Este
cultivava deliberada e conscientemente a estética e a ela reduzia toda a sua
crítica.
Quase
escusado é passar por outros escritores do gênero.
Apenas
rápidos olhares nos mais eminentes.
O belo
espírito do autor dos Problêmes de Pesthétique Contemporaine e de L’Art
au point de vue sociologique parece que não tinha dúvida que o seu criticar
entrava plenamente nos domínios da pura estética.
E de fato,
Guyau, discutindo puras teses literárias, como a natureza, as leis e o
futuro do verso, fazia-o em obras em que discutia problemas de estética. Os
próprios títulos de seus livros não deixam a menor dúvida a respeito.
Hennequin
poderia fazer ilusão, neste ponto, porque deu a seu livro fundamental o nome de
Esse jovem,
cujo merecimento era grande, mas não deve ser exagerado, como é hábito em
certos círculos, prosistematicamente colocar-se em pontos de vista opostos ao
do autor da História da Literatura Inglesa. Poderia, por isto, ser
chamado um Taine retourné.
Este
procurava tornar na crítica, quero dizer na estética, salientes os fatores
mesológicos, etnográficos e fisiológicos; o autor d’A Crítica
científica procura batê-lo nestes pontos e substituir no estudo dos autores
aqueles elementos explicativos por considerações puramente psicológicas,
sociais e estéticas.
Taine
procurava mostrar a gênese, a formação do gênio dos escritores; Heunequin
tentava de preferência mostrar-lhes a influência, procurando ver quem os lia,
quem os admirava.
Era o tainismo
às avessas.
Em seu livro,
composto de cinco rápidos capítulos, predominam, d’alto a baixo, as
questões estéticas. E tanto é isto verdade que o próprio autor aconselha que se
substitua pela expressão – estopsicologia – a palavra –
crítica.
Por este
lado é mais lógico do que o seu grande êmulo.
Que se
poderá dizer de um Scherer, de um Brunetière, de um Lacombe?
Nas
variadíssimas obras desses mestres há um pouco de tudo.
Quando
diretamente estudam fatos lingüísticos, religiosos, políticos, morais,
históricos, filosóficos, sociológicos... fazem obra de cientistas em cada um
destes domínios.
Quando
diretamente apreciam dramas, comédias, tragédias, poemas, romances, contos,
discursos... fazem obra ainda de cientistas, como cultores da estética, no ramo
em que se ocupa de literatura, tal qual se tratassem de quadros, estátuas,
monumentos, estampas, partituras...
A parte de
pura crítica que existe em suas obras é, como se verá mais além, aquela em que
analisam os livros dos que versaram aqueles assuntos.
No estudo
direto de um poeta, de um romancista, dum dramaturgo, dum orador, enganam-se
quando pensam que estão a fazer o seu mister de críticos.
E tanto que,
quando generalizam, caem de cheio dentro da estética.
É assim, por
exemplo, que o incomparável Scherer, esse modesto espalhador de idéias, que não
tem a fama que merece, porque não fez grandes e pesados livros, é assim que
ele, numa página magnífica, expondo a doutrina de uma nova crítica, fala
constantemente da arte, faz-lhe repetidos apelos, como se estivesse a escrever
conscientemente um capítulo de pura estética.
Nessa página
admirável, o autor dos belos livros sobre Melchior Grimm, Alexandre Vinet e
Diderot, em poucas linhas traça um programa e emite idéias que foram a
fonte inspiradora da Introduction à l’Histoire Littéraire, de
Lacombe, e da citada Êvoiution des Genres dans i’Histoire de
Convém
ouvir, porque esclarece muito o assunto:
“Tenho
pensado”, escreve Scherer, “algumas vezes que haveria um novo
gênero de crítica a tentar. A teoria dos meios fracassou sem sombra de dúvida,
porque só nos dava o que existe de mais geral, de mais vago, de mais abstrato
na literatura, quero dizer, o que há de mais estranho à literatura. A crítica
foi bem inspirada e logrou mais fazer compreender e apreciar a obra literária,
quando lhe procurou o segredo na pessoa do autor, nas circunstâncias de sua
vida, nas particularidades de sua educação, na análise, em suma, de seu caráter
e na narrativa de seus destinos. Aí, porém, falta ainda uma coisa: o
encadeamento dos fatos literários, o sentimento da evolução, para a qual
concorrem todos os esforços dos artistas e da arte. E é
justamente isto, se me não engano, o que faltaria procurar; porque as artes também
estão sujeitas à lei do progresso, não como as ciências ou a indústria, mas por
um modo que lhes é peculiar. Na indústria qualquer descoberta vem juntar-se às
precedentes, aumentar-lhes o poder e fornecer, por seu turno, a pedra básica, o
ponto de partida de um novo progresso. É uma massa que sem cessar vai
aumentando de volume e rodando sobre o declive com ligeireza crescente. Há nos
mais belos trabalhos desta ordem alguma coisa de impessoal; a obra entra no uso
geral e perde a marca do inventor, se é que algum dia a teve. É exatamente o
contrário nas artes. A obra d’arte é, acima de tudo,
pessoal. É por aí que ela vale. É por este predicado que ela existe. É por este
lado que ela dura. Os séculos não apagam esses caracteres imperecíveis da
beleza que foram ligados pelo gênio criador. Não é tudo: uma obra d’arte
não se liga às que a precederam como uma conseqüência e uma dedução; e não
acarreta necessariamente após si outros triunfos de gênio, outras obras ainda
mais perfeitas. Bem longe disso: há intermitências da produção artística; direi
mais, uma obra-prima, por isso mesmo que é inimitável, um artista, só
pelo fato de ser soberano no gênero em que é eminentemente superior, dá, por
assim dizer, um golpe fatal nesse gênero. Quebra o molde de que se serviu.
Ensaiaram-se Iliadas, depois de Homero, Eneidas, depois de
Virgílio, tragédias, depois de Racine, dramas, depois de Shakespeare, Faustos,
depois de Goethe; a literatura anda cheia destas imitações, pastiches; ao
invés do progresso, em certo modo matemático e fatal, que assinalei linhas
acima, na ciência e na indústria, é, ao contrário, a decadência. Apresso-me,
apenas, em dizer que esse declínio não é a morte: a arte não morre,
transforma-se. A alma humana encontra em suas profundezas novos tesouros de
idéias, novas regiões de afetos, novos modos de expressão.
“Depois
da arte ática, a arte gótica; depois de Ésquilo, Shakespeare; um
Goethe, depois de um Dante. Ah! certamente surgem tempos de esterilidade e de
aridez, nos quais o solo parece esgotado, os céus vazios, o gênio aniquilado;
mas é justamente nesses duros momentos que se deve crer, – crer contra as
aparências, contra a evidência, – ter fé na humanidade, no espírito, na
imortalidade da poesia!
“Eis
um ponto que parece firmado: a arte não procede por um encadeamento de
descobertas, por um progresso contínuo. A obra-prima não chama como
conseqüência outra obra-prima mais admirável ainda. Mas, se assim é, dir-me-ão,
não existe nenhuma lei de continuidade nas artes, nenhum princípio de
desenvolvimento na sucessão das obras, e, portanto, nenhum meio de escrever a
história da pintura, da música, da poesia?
“Uma
história, efetivamente, não é uma série de biografias e supõe uma concatenação
de fatos; se cada artista aparecesse ali, só, isolado e como que caído
do céu, não haveria outra coisa a fazer senão escrever a vida dos pintores,
como fez Vasari, ou a vida dos poetas, como praticou o Dr. Johnson. Respondo
por uma distinção. Há duas coisas na obra literária: a primeira, a concepção
criadora, o poder de execução, a parte do gênio, é aquela de que falei, o
elemento puramente, estritamente individual. (É o acontecimento de
Lacombe.) O gênio criador, porém, por mais individual que seja, prende-se por
muitas faces a seu século e a seu grupo.
“Este
escritor recebeu a mesma instrução que os seus contemporâneos, viveu das mesmas
idéias, experimentou os mesmos sentimentos, e, quando por sua vez quis
escrever, tomou assuntos que lhe eram deparados pelas preocupações da época;
adotou os gêneros que eram consagrados pelo gosto reinante; manifestou-se
necessariamente, em uma palavra, sob uma forma que lhe foi fornecida pelo
estado da sociedade e da literatura no momento em que escreveu. Shakespeare,
para ainda uma vez citar um nome que simbolize de modo irrecusável esse duplo
caráter da inspiração, o teatro de Shakespeare compõe-se de dois elementos: o
gênio de um homem e a cultura de um século.
“Releva
acrescentar que este Shakespeare, este gênio que, por muitas faces, é o produto
do seu século, vai agir sobre este século, por seu turno, que suas obras vão
enriquecer o patrimônio literário de sua nação e da humanidade, que elas
tenderão a imprimir (é a instituição de Lacombe) uma direção ao gosto,
que se tornarão um desses influxos de que se compõe a atmosfera social em que
se formarão os escritores do futuro.
“De
sorte que, afinal, vemos produzir-se aqui alguma coisa de análogo às condições
da ciência e da indústria: uma espécie de trabalho impessoal e de progresso
geral; o lado menos característico das artes, o menos interessante, o menos divino,
mas um lado pelo qual elas entram na cadeia das causas e dos efeitos, oferecem
ao observador uma evolução apreciável e podem ser consideradas historicamente.
É em virtude deste princípio e desta distinção que pode haver uma história
geral das literaturas (e das artes) e uma história dos diversos gêneros
literários (e artísticos).”
Passando
desta exposição geral doutrinária, Edmond Scherer prossegue, aplicando a teoria
num belíssimo quadro evolução do gênero romance, como era de razão num artigo
consagrado a Balzac.
Ou eu me
engano muito, ou estão ali os germens do livro de P. Lacombe – Introduction
à l’Histoire Littéraire (1898) e do curso de F. Brunetière – a
que me tenho referido, começado a publicar em livro, de que saiu apenas o
primeiro volume – L’Évolution des Genres dans I’Histoire
de
Meu fito,
citando o autor das Mélanges d’Histoire Religieuse, o menos
pretensioso e o mais ilustrado dos críticos franceses, foi mostrar que para os
altos espíritos, não raras vezes, ou, melhor, quase sempre, a crítica é apenas
um capítulo da estética.
E, de fato,
a página referida é um excelente esboço do princípio que rege a evolução, o
desenvolvimento da arte em geral, incluindo em seu seio a arte da palavra
– agir a literatura.
É isto
legítimo, sem dúvida, como puro trabalho de ciência da estética, de exposição
de suas leis, de suas teorias, de suas doutrinas.
Não é,
porém, legítima a teima de chamar isto crítica; porque uma das duas será então
inútil, desnecessária. Se a crítica se confunde com a estética, basta-nos um
nome só, porque um só é o corpo de doutrinas, uma só é a ciência.
Será assim?
Ver-se-á
depois.
Entretanto,
esta constante confusão é geral. Não são só os chamados críticos que incidem na
indistinção.
Podê-lo-ia
provar ainda com Faguet, Rod, Brunetière, de Sanctis, Settembrini, G. Brandès,
Matthew Arnold, de Vogüé e outros e outros.
Não são só
eles; os romancistas e dramaturgos, quando se ocupam de crítica, resvalam em
cheio para a estética.
O caso de
Zola é típico.
Vede se ele
procurou definir o que é crítica, nem sequer o que é literatura, o que é
romance ou outros problemas deste gênero.
O ponto
culminante de sua crítica é determinar o que vem a ser Arte, da qual deu aquela
famosa definição: um trecho da natureza visto através de um temperamento, que
uma vez tive a ousadia de ampliar, juntando ao termo natureza a palavra sociedade,,
porque a arte, principalmente a literária, se preocupa muito mais com a
sociedade do que com a natureza.
Um dramatista
alemão, Amo Holz, criticando a fórmula de Zola, chegou a esta conclusão: “A
arte tende a refazer a natureza; e a refaz na razão dos meios de reprodução de
que dispõe e da destreza com que os emprega...”
É uma
discussão interessantíssima em que teve o ensejo de entrar B. Hanappier,
corrigindo, por sua vez, com suma habilidade, a teoria de Arno Holz.
Mas sempre
– pura estética. Mesmíssimo o exemplo do portentoso Tolstói, que escreveu
um livro inteiro – Que é a arte?, no qual avança, seja dito de
passagem, grandes absurdos acerca de Shakespeare e Wagner.
Indico
apenas, não é ocasião de discutir.
Cumpre-me
ajuntar, terminando este ponto, que a contraprova da confusão assinalada entre
estética e crítica é digna de notar-se nos puros estetas.
É deste último
caso amostra irrecusável o excelente livro de Ernesto Grosse – Os
começos da arte – , onde o ilustre autor, querendo determinar a
índole da ciência da arte, recorre aos críticos, entre os quais nomeia Dubos,
Herder, Taine, Hennequin, Guyau, cujas doutrinas rapidamente analisa.
A tese está
provada por este lado.
Mas, afinal,
que é, que deve ser a crítica? Refiro-me à crítica em si, sem mais confusões
quaisquer com retórica, ou poética, ou história, ou estética.
O termo critica,
posto que incorreto em várias acepções, por andar aplicado às coisas mais
heterogêneas, trazendo, por um lado, trevas e equívocos ao debate, traz-lhe,
por outra face, intensa luz.
Na linguagem
popular, e no sentido mais espalhado, crítica é sinônimo de censura, sátira,
descompostura e até maledicência.
De um
sujeito de más palavras contra tudo, diz-se – é um crítico; de quem dá
uma informação rigorosa sobre alguém, diz-se – fez-lhe uma forte crítica.
Toma, como
adjetivo, o significado de mau, de duro, de rigoroso ou até de inclemente: os
tempos são críticos, a conjuntura, a situação é crítica.
Em
patologia, quer popular, quer científica, tem o significado geral de caso,
circunstância ou emergência que encerra gravidade, ou perigo mais ou menos
iminente: idade crítica, dias críticos, fase crítica.
Significa
também, em sentido mais especial e chegado a nosso assunto, juízo, modo de
julgar, gosto, opinião, modo de ver e apreciar.
Etimologicamente,
esta é a acepção que lhe é própria; porque se origina do grego krinein, julgar,
kriniô, eu julgo; donde kritikos, crítico, quer como adjetivo,
propriamente dito, quer como substantivo, o que julga.
Bastava esta
só indicação etimológica para mostrar a sem-razão dos que teimaram ou teimam
ainda em considerar a crítica um estudo, uma investigação, uma pesquisa ou até
uma ciência especial, tendo por objeto a literatura e, quando muito, as artes,
quaisquer.
O bom senso
geral reagiu sempre a seu modo, já contra a estreiteza dos críticos em
confinarem na literatura as suas pesquisas, já contra a pretensão de suporem a
crítica uma ciência, independente, especial, autônoma.
Na linguagem
comum, o criticar era e é função que se aplica e deve aplicar a tudo neste
mundo.
No terreno
das idéias, a expressão crítica se tem aplicado a várias disciplinas que
nada têm que ver com as belas-letras; mas sempre de modo esquerdo e indeciso.
Assim é que, desde época remota, se tem empregado a clássica expressão regras
de crítica histórica.
Por uma
ampliação explicável se tem falado em critica homérica, critica filológica, e
também em crítica mitológica, crítica bíblica, crítica religiosa.
Os leitores
conhecem os significados dessas denominações, algumas das quais se referem,
aliás indevidamente, às ciências modernamente constituídas, como sejam a da
lingüística, a das mitologias e religiões comparadas.
Não é só: os
amplos estudos das ciências físicas e naturais da filosofia, sob o influxo
evolucionista, a constituição da sociologia, tornaram vulgares os dizeres:
– crítica científica, crítica filosófica, crítica social.
A crítica
das instituições jurídicas, dos sistemas políticos, das teorias econômicas, das
doutrinas morais são outras tantas designações correntes.
Ora, claro é
que uma coisa, que se aplica, que se tem aplicado a todas as criações da
humanidade, – artísticas, religiosas, jurídicas, morais, políticas,
econômicas, científicas, – nem pode ser uma ciência à parte, uma nova
ciência livre, independente, autônoma; nem se pode deixar asfixiar no mero
estudo das belas-letras.
O exemplo de
Kant, mostrando que a crítica se aplica ao próprio instrumento do pensamento, e
que chamou de crítica da razão pura sua teoria do conhecimento, de crítica
da razão prática sua doutrina da moral, e de crítica do juízo estético sua
análise das faculdades artísticas, o exemplo de Kant era apto a desfazer todas
as dúvidas.
A crítica
não é um sistema, uma teoria, uma doutrina feita e completa, uma ciência.
Não existe
uma só das conhecidas classificações das ciências que a inclua em seu número,
nem pode existir; porque a crítica é apenas um processo, um método, um controle,
que se deve aplicar às criações do espírito, em todos os ramos de sua
atividade.
Como tem
sido tratada até aqui pelos homens do ofício, a pobre crítica, insisto, de um
lado, se vê amesquinhada por andar reduzida a uma espécie de bisbilhotice sobre
literatura e literatos e, às vezes, artes e artistas; e, por outro lado, se vê,
sem títulos sérios, indebitamente endeusada, erigida à categoria de ciência
especial, que, aliás, por mais que se agite, a coitada! não achou ainda um
assento em nenhuma classificação conhecida! e não poderá jamais achar, porque
ela não tem um assunto seu, só e exclusivamente seu, que possa dar lugar a uma
organização científica à parte.
Que é,
então, ela? que função exerce que a justifique?
Já deixei
dito e repetido que ela abarca toda a área do pensamento, aplica-se a todas as
criações humanas, a todas as pesquisas e construções espirituais, quer as que
tratam da natureza cósmica, físico-química, biológica, quer as que se reportam
ao mundo psíquico, político, moral, sociológico.
Nas criações
sociológicas quaisquer, cumpre distinguir, como já ficou acima notado: os fatos
ou fenômenos, que são a matéria-prima, digamos assim, das nossas
elaborações mentais; o conhecimento ou ciência deles, e
acrescentarei agora, a crítica, que é um especial controle, indispensável
para a firmeza das conquistas feitas. Nomeadamente nas criações conscientes,
filhas da cultura, nas quais os fatos ou fenômenos a esclarecer
são produzidos pelo próprio homem, seu papel é relevante, conspícua a sua
missão.
Nas
produções da matemática, da física, da astronomia, da química, da biologia, ela
se tem exercido menos abundantemente, por alguns motivos de fácil intuição.
A
dificuldade intrínseca de tais assuntos, o círculo reduzido dos seus cultores e
do público a que se dirige, o interesse remoto de suas doutrinas, que, com ser
de primeira ordem para os entendidos, não é imediato para a massa geral,
explicam plenamente o caso.
Antes de a
definir, porque a definição deve brotar dos fatos mesmos, vamos ver,
praticamente, a crítica em todos os seus domínios.
Tomemos uma
classificação de todas as produções intelectuais, emotivas e práticas da
humanidade, a mais completa possível, o que importa traçar a carta dos
fenômenos sociológicos.
Temos: ciência,
religião, arte, indústria, política, direito, moral, o que vale dizer que
na sociedade se nos deparam criações científicas, religiosas, artísticas,
industriais, políticas, jurídicas e morais.
Mas aqui se
dá um caso interessante: as criações científicas, a ciência, para dizer a coisa
numa só palavra, não se contenta com esmerilhar o mundo exterior, o mundo
físico, a natureza, como se costuma falar. Não. A ciência investe pelos
domínios de suas companheiras de origem e quer, a todo o transe, explicá-las
também, determinar-lhes o sentido, o alcance, o valor. Temos, pois, de um modo
geral, ciências da natureza e ciências da sociedade: uma naturologia e
uma sociologia. A primeira divide-se em tantas ciências quantos são os
aspectos consideráveis do mundo exterior e desdobra-se em matemática,
mecânica, física, astronomia, geogenia, química, biologia.
Numa
transição e passagem legítima entre a natureza e a sociedade depara-se-nos a psicologia,
a antropologia, a etnografia e a lingüística.
Nos puros
domínios da sociedade encontram-se a ciência das religiões, que não tem
ainda nome próprio (não se deve confundir com a velha teologia), que se chama
impropriamente – crítica religiosa, e se deveria denominar –
religiologia, ou melhor, religionomia; a estética; a economia,
impropriamente chamada economia política ou nacional; a política propriamente
dita ou ciência da administração do Estado; o direito ou jurisprudência;
a moral ou ética.
Junte-se a
esse quadro geral a filosofia e a história, porque todos esses
fenômenos e as respectivas ciências podem ser considerados numa síntese
construtora, ou no seu desdobramento no tempo, e teremos o quadro completo.
Não se deve
esquecer, porém, que todas essas ciências pressupõem e são dominadas,
d’alto a baixo, por uma espécie de propedêutica que lhes determina a
índole e fornece os métodos: a lógica.
Onde
aparecerá a crítica?
Vamos ver.
Suponhamos que
estudo os fenômenos de extensão, forma, situação, número, coexistência no
espaço, sucessão no tempo, os fenômenos matemáticos, em suma, faço obra de
cientista. Suponhamos que de minhas pesquisas escrevo um ou mais livros, faço
ainda obra de cientista.
Mudemos a
hipótese: suponhamos que não escrevo um livro de minhas investigações, mas
escrevo uma análise da Geometria analítica de Comte; faço, neste caso,
obra de crítico.
Assim, temos
os fatos mecânicos, físicos, astronômicos, químicos, biológicos... Se os estudo
e escrevo sobre eles em qualquer de suas ramificações, faço obra de ciência.
Se, porém, analiso os Princípios de Newton ou a Mecânica celeste, de
Laplace, ou a Evolução da matéria, de Le Bon ou a sua Evolução das
Forças, ou a Síntese Química, de Berthelot, ou a Origem das
Espécies de Darwin ou a sua Descendência do Homem, faço obra de
crítica.
É sempre
assim em todos os domínios. Se faço pesquisas de psicologia experimental e
escrevo a respeito, produzo obra de ciência; se analiso os trabalhos de
Fechner, ou de Delbef, ou de Wundt, faço obra de crítica.
Passemos a
assuntos mais chegados à ciência social.
Se pratico
atos de um culto qualquer, produzo um fenômeno, um fato de ordem
religiosa. Se, porém, escrevo um livro acerca da religião em geral ou acerca
das religiões da Índia, ou da África, ou da Oceania, sobre o bramanismo ou o
budismo, o maometismo ou o cristianismo, escrevo obra de cientista nesse ramo
dos conhecimentos humanos, a que se tem dado o nome de religiões comparadas,
que melhor fora, como já ponderei, chamar religionomia ou religiologia.
Se, porém,
traço um estudo, uma análise, uma apreciação da Origem de todos os cultos, de
Dupuis, ou da História das origens do Cristianismo, de Renan, ou da
ciências Introdução à História do Budismo, de Eugênio Burnouf, ou da Vida
de Jesus, de Strauss, ou das Doutrinas religiosas dos Judeus, de
Michel Nicolas, ou de qualquer outro trabalho do gênero, de Albert Réville, de
colani, de Reuss, de Coquerel, de Christian Baur, faço, então, obra de crítica.
O mesmo nos
assuntos lingüísticos. Se estudo e escrevo sobre um grupo qualquer de línguas,
faço obra de ciência. Se analiso a Gramática comparada das línguas
indo-européias, de Bopp, ou a das línguas românicas de Diez, ou a História
e sistema comparado das línguas semíticas, de Renan, ou as Lições sobre
a linguagem, de Max Müller, produzo, nesse caso, obra de crítica.
Se faço
quadros ou estátuas, ou gravuras, ou partituras, ou romances, ou dramas, ou
poemas, ou discursos, estou a produzir fenômenos artísticos. Se não os produzo,
mas escrevo deles, discuto-os, classifico-os, noto-lhes as relações com o meio
histórico e a atmosfera social, com as crenças, a política, os costumes, as
instituições, faço, nessa hipótese, a obra desses cientistas a que se dá o nome
de estetas, de cultores da ciência das artes estética.
Se aprecio,
estudo, analiso os livros dos que deles escreveram, faço, no caso, obra de
crítica.
Assim, se escrever uma
dissertação, uma memória, um livro qualquer sobre a arte grega, ou a italiana,
ou a holandesa, ou a flamenga, farei trabalho de cientista, de esteta.
Se analisar
o admirável livro de Fromentin, Les Maîtres d’autrefois, ou o de
Boutmy, sobre a Arquitetura grega, ou os de Taine, sobre A arte na
Itália e A arte nos Países Baixos, escreverei obra de crítico.
Não é só:
nos puros domínios da literologia, ou literonomia, ou melhor, estoliteratura,
ou como lhe queiram chamar, que é aquela parte da estética que se ocupa da arte
da palavra, se escrevo uma história da literatura inglesa, ou da alemã, ou da
italiana, ou da francesa, ou da grega, faço obra de cientista, de esteta, nas
apreciações gerais, doutrinárias e teóricas, e de historiador, na parte
puramente narrativa.
Se, porém,
analisar a História da Literatura Inglesa de Taine, agirei como crítico.
O mesmo será se proceder de igual forma com a História da Literatura Alemã, de
Julian Schmidt, ou a História da Literatura Italiana, de Settembrini, ou
a História da Literatura Francesa, de Jouleville, ou da literatura grega
de Ottfried Müller, ou de Croiset.
Ainda mais,
se escrever um estudo acerca de um poeta ou de um romancista ou de um
dramaturgo, falarei como esteta, farei o que se deve chamar estoliteratura; se
analisar os estudos dos outros a respeito, exercerei função de crítico.
Assim, se
tratar de Balzac, o farei como cultor da estética literária e como historiador;
se apreciar o estudo de Taine sobre ele, o meu papel será o de mero crítico. O
mesmo acerca de qualquer outro: Tolstói, Ibsen, Zola, Lamartine, Hugo,
Musset...
Se me
ocupar, não já de um tipo das letras e das artes em sua personalidade íntegra,
e, sim, de uma só de suas produções, as posições serão sempre as mesmas.
Se escrever
um artigo sobre Dominique, de Fromentin, fá-lo-ei como esteta; se
analisar o que dele escreveu Scherer, estarei na crítica.
Se apreciar
o Salvador Rosa, de Carlos Gomes, ou a Norma, de Bellini, estarei
na estética; se tomar por tema o que deles escreveu Tobias Barreto, ficarei na
crítica.
É inútil
continuar os exemplos: o mesmo se dá em todas as outras ordens da atividade
social: industriais, políticas, jurídicas e morais...
Se trabalho,
planto e colho café, por exemplo, os produtos da minha atividade são fatos de
ordem industrial ou econômica. Se escrevo desses fatos, faço obra de ciência,
entro para o grupo de Aclam Smith, de Say, de Chevalier, de Schmoller...
Se analiso o
Tratado das finanças, de Leroy-Beaulieu, ou o dos Câmbios
estrangeiros, de Goschen, ou os livros de Carey, ou os de Wagner ou de
qualquer outro economista, não saio da crítica.
Se produzo
obra acerca do direito romano, minha ação é de cientista, de cultor da ciência
jurídica, de jurisconsulto; já não será assim se me limitar à análise e estudo
do Espírito do Direito Romano, de Ihering.
O mesmo, se
escrever um tratado de política ou me reduzir a apreciar os Princípios de
política, de Holtzendorff, ou a Política, de Bluntschli, fizer um
livro de moral, ou me confinar na esmerilhação da Crítica da razão prática, de
Kant, ou na Moral e ciência dos costumes, de Lévy-Brühl, ou nos Princípios
de moral, de Spencer.
Idêntico é o
fato em filosofia, conforme trato diretamente dos fenômenos filosóficos e da
apreciação dos autores e sistemas, ou reduzo a minha ação a analisar o que
deles disseram outros.
Igual em
história: se alguém escreve uma história do Brasil, faz obra de cientista, de
cultor da ciência da história num dos seus ramos. Se estuda as obras de
Varnhagen acerca desse distrito do saber, corrigindo-as, ampliando-as, modificando-as
nuns pontos, retificando-as noutros, está em pleno domínio da crítica.
Vê-se, pois,
claro, que a crítica, na qualidade de disciplina mental, é alguma coisa que se
pode aplicar, não diretamente aos fenômenos ou fatos quaisquer da natureza ou
da sociedade, porque esta é a função própria da ciência, sim às vistas,
teorias, doutrinas, interpretações que de tais fatos deram os que deles se
ocuparam.
Existe,
entretanto, uma ciência que preside ao desdobrar das ciências, servindo para
todas elas de elemento formador indispensável: a lógica, a ciência das formas
do mundo subjetivo, as formas do pensamento, as formas da razão e do
raciocínio. A crítica é uma parte dessa ciência quando ela se encarrega
praticamente de verificar se as leis que regem as criações espirituais foram
convenientemente utilizadas pelos que delas escreveram.
Pode ser
definida: “A parte da lógica aplicada que, de posse das leis reguladoras
das condições e da origem e desenvolvimento dos fenômenos quaisquer da natureza
e da sociedade, examina o acertado ou errôneo emprego dessas leis nos escritos
que de tais fenômenos se ocuparam.” Ou, talvez melhor: “A parte da
lógica aplicada, que, estudadas as condições que originam as leis que regem o
desenvolvimento de todas as criações do espírito humano, científicas,
artísticas, religiosas, políticas, jurídicas, industriais e morais, verifica o
bom ou mau emprego feito de tais leis pelos escritores que de tais criações se
ocuparam.”
Vê-se que a
crítica não é mais do que um simples controle das vistas alheias.
E o estudo
das individualidades, estudo que tem sido levado a grande esmero?
Quem o fará?
A situação é
a mesma, sem a mínima discrepância, e a resposta já está implícita e até
explicitamente dada, bastando lembrar o que afirmei em referência a Balzac e
outros mais.
Se se toma
um tipo das ciências, da arte, das letras, da política, para objeto de estudo,
e se lhe prepara a característica, o trabalho é de duas forças que se combinam:
uma ciência qualquer, conforme a esfera em que se desenvolveu a personalidade,
e a história que dá conta da sua ação.
Destarte, se
me encarrego do tipo de Virgílio, suas obras, seu valor na evolução das letras,
estarei em plena estoliteratura, nas partes teóricas que, porventura,
intercalar no meu estudo, e no terreno da história, na parte da narrativa de
fatos e acontecimentos.
Se, porém,
me ocupar do Virgílio, de Sainte-Beuve, ficarei na esfera da crítica.
Por tal
modo, se escrever sobre Taine, estarei na estoliteratura, na filosofia, na
política, assuntos todos esses por ele versados, e na história tanto quanto
esta tem obrigação de ocupar-se do movimento intelectual dos povos. Se analisar
o livro de Aulard, o de Giraud, o de Berzalotti, o de L. Roure, a respeito do
ilustre francês, estarei em mera crítica. Se escrever de Cromwell, ou de
Gregório VII, ou de São Paulo, farei nesses casos política, religionomia e
história; farei, porém, crítica se apreciar o livro de Carlyle sobre o
primeiro, o de Villemain acerca do segundo, o de Renan relativamente ao
terceiro.
Se me
esforçar por traçar um perfil de Rubens, minha tarefa será de esteta e
historiador; se me detiver em analisar a imponente característica do grande
pintor, devida à pena de Eugène Fromentin, no livro de ouro Les Maitres
d’autrefois, não passarei da crítica.
Seria impertinência multiplicar os
exemplos.
NOTAS
1 Domingos de
Magalhães – Opúsculos Históricos e Literários, pág. 245
2 Teóf. Braga.
– Manual da História da Literatura Portuguesa, pág. 453. –
Antes de Garreti, Barbosa Machado, na Biblioteca Lusitana, trouxe
algumas notícias de autores brasileiros.
3 Etudes Critiques de Littérature, pág. 275, Paris, 1876.
* Cf. neste tomo
os estudos de S. R. sobre o assunto. (Nota de
Nelson Romero).
4 Vide History of Civilization in
5 Questões de
Literatura e Arte Portuguesa – O artigo é de 1877.
6 Vide nas Memórias
de Antropologia de Broca os admiráveis trabalhos sobre o monogenismo e
poligenismo das raças humanas e sobre a hibridação. Vide
especialmente a refutação das teorias de Retzius e Pruner-Bey sobre os
primitivos habitantes da Europa e de Max-Müller sobre o turanismo das
raças predecessoras dos arianos e semitas. Vide ainda minha Etnografia
Brasileira.
7 Revista do
Instituto Histórico, n. 23, de outubro de 1844.
8 Vide de Teixeira
Mendes – A Pátria Brasileira, Rio de janeiro, 1881. De Aníbal
Falcão – Fórmula da Civilização brasileira, no Diário de Pernambuco,
ns.
9 Z. Moindron – De 1ª Ancienneté de
l’Homme, Bain, Lógica.
10
11 Z. Moindron, ibid.
12 Sobre a questão
da liberdade, vejam-se as interessantes obras dos italianos Herzen Ferri.
13
14 Buckle, ibid.
15
16 O autor escrevia
em 1857.
17 History of
Civilization in England.
18 Vide vários
relatórios enviados ao chefe da comissão para o levantamento da carta geral do
país, o Sr. Beaurepaire Rohan. Sobre todos é digno de nota o do finado senador
Tomaz Pompeu de S. Brasil.
19 História da
América Portuguesa, in principio.
20 Traité d’Hygiène, 1º
volume.
21 Lévy, ibid.
22 Isto foi escrito
em 1880. Hoje o quadro é menos sombrio no tocante às febres.
23 Nouveaux Essais de Critique et d’ Histoire.
24 Renan e Taine
tinham sido antecedidos pelo Conde de Gobineau.
25 Nem o podia
fazer, quando fui dos primeiros a marcá-la em nossas letras, na Literatura
Brasileira e a Crítica Moderna e noutros escritos.
26 Sr. Rentschler
ilude-se em grande parte no que diz do desaparecimento do negro nos Estados
Unidos.
27 Contribuição
para a Psicologia Comparada dos Povos.
28 Vide minha – Etnografia Brasileira.
29 Vide Découverte et Colonisation du Brésil, por
A. Debidour.
30 Sobre as raças
pré-históricas do Brasil vide as cartas de Lund publicadas na Revista do
Instituto Histórico e os trabalhos eraniológicos de Rodrigues Peixoto e
Batista de Lacerda impressos nos Arquivos do Museu Nacional e os
modernos trabalhos de von den Steinen e Ehrenreich.
31 Types of Mankind, de
Nott e Gliddon.
32 Vide Etnografia
Brasileira e o opúsculo Os cantos e Contos Populares do Brasil e o Sr.
Teófilo Braga, pelo autor.
33 A. W.
Meyer, Die Nephritfrage Kein ethnologisches Problem, 1883. – Tendo
eu, no País, ns. 23 e 24, de outubro de 1884, divulgado no Brasil a doutrina de
Meyer, em meu artigo O Sr. Barbosa Rodrigues e a questão da pedra nefrite, o
ilustre professor enviou-me mais os quatro opúsculos seguintes: Ein neuer
Fundort von Nephrit in Asien, 1883; Einzweiter Rohnephritfund in
Steiermark, 1883; Rohjadeit aus der Schweiz, 1884; Ueber Nephi
und ahnlisches Material aus Alaska, 1884.
34 As
classificações de Hervas, d’Orbigny, Martius e Batista Caetano
cedem presentemente o passo à classificação de von den Steinen: Tupís,
Caraíbas, Nu-aruaques, Gucks.
35 O Selvagem.
36 Z. Moindron, Ancienneté
de l’Homme, pass. – É a regra geral, que só admite raras
exceções.
37 Gazeta de Porto
Alegre de 20 de junho de 1881.
38 Ivo
d’Evreux, História da Missão dos Padres Capuchinhos, Trad. do dr.
C. Marques.
39 L’Homme
avant les Métaux.
40 Vide minha Etnografia
Brasileira, no cap. sobre Couto de Magalhães.
41 Barbosa
Rodrigues, Antiguidades do Amazonas, in Ensaios de Ciência.
Tenha-se, porém, muito cuidado com as exagerações deste
autor, quando entra a desvairar sobre a hipótese escandinava, que não
sei como ele conciliará com os empréstimos tomados recentemente a H. Fischer,
que considera os nossos índios oriundos do Turquestão.
42 O
Selvagem, 2ª parte
43 Vida do autor o
opúsculo Etnologia Selvagem. – Já em 1872 tinha-me expressado
neste sentido no Movimento, do Recife.
44 Vide o artigo Religião
dos tupís-guaranís, na Revista Brasileira, de 1º de julho de 1880.
45 Broca, Memórias
de Antropologia, vol. III; nas memórias sobre a hibridação.
45 Vide Contos
Populares do Brasil e Contos Populares do Brasil coligidos pelo autor.
Nestes dois livros e nos Estudos sobre a Poesia Popular Brasileira –
procurei preencher esta velha lacuna de nossa literatura.
46 Reise in Brasilien, München,
1823; tomo III.
47 Na obra de Spix
e Martius vem uma tradução alemã dos versos tupís; Eduardo Laemmert fez dela
uma tradução portuguesa verbum ad verbum. Sobre esta fez Norberto Silva
suas quadrinhas.
48 Revista
Popular, tomo IV.
49 Ant. S. M.
Baena, Ensaio Corográfico sobre a Província do Pará.
50 Revista
Brasileira, 1º de julho de 1881, tomo IX, – Na sua Poranduba
Amazonense o Sr. Barbosa Rodrigues insere vários outros cantos dos
selvagens.
51 Vide O
Selvagem, – Não esquecer os que vêm, como disse, na Paranduba
Amazonense do Sr. Barbosa Rodrigues.
52 Ao findar do
século XIX deu-se o caso de Cruz e Sousa.
53
Velho da Silva, Gabriela.
54
Fernão Cardim, Narrativa Epistolar.
55
Sobre este assunto é digno de leitura o artigo do Sr. Barbosa Rodrigues –
O canto e a dança silvícula, publicado na Revista Brasileira.
56
Dados bebidos no citado artigo do Sr. Barbosa Rodrigues.
57
Vide os Estudos sobre a Poesia Popular Brasileira, pelo autor.
58
Vide Contos Populares do Brasil, pelo autor.
59
Tendo já tratado desenvolvidamente desta questão nos Estudos sobre a Poesia
Popular no Brasil, limitar-me-ei a poucas palavras agora.
60
Pode ser consultado neste ponto O idioma do Hodierno Portugal comparado com
o do Brasil, do Dr. Paranhos da Silva. Pode-se também ver Estudos sobre
a Poesia Popular no Brasil, que trata do assunto largamente.
61
Vide L. Couty, L’ Esclavage ou Brasil.
62 Luis
de Camoens, por Miguel Lemos.
63 O negro
foi sempre aliás pouco aquinhoado.
64
Vide Boletim do Museu Paraense, vol. II, nº 4; dezembro de 1898.
65 Obras
de João Francisco Lisboa, II, edição de 1865.
66 História
Geral do Brasil, II, edição de 1857.
67 Os
selvagens transmitem apenas de geração em geração insignificantes concepções
míticas. Posso afirmar, modificando em
parte as asserções de Demolins.
68 Les Grandes Routes des Peuples (Essai
de Géographie Sociale), – Les routes de l’Antiquité. Fiz uma
consolidação resumida.
69 Deixo,
para não sobrecarregar demasiado estas páginas, de transcrever trechos
comprobativos de G. Soares, F. Varnhagen, F. Lisboa, Couto de Magalhães e
Capistrano de Abreu.
70
Demolins, op. cit.
71
Cumpre chamar a atenção para a palavra coleta. Segundo a escola de Le
Play, existem certos trabalhos de fácil produção, arborescente fruto:
tâmaras, castanhas, nozes, amêndoas, etc., trabalhos que os franceses denominam
de simple cueillette. Ora, a melhor tradução de cueillette seria colheita,
se, em português, esta palavra não se aplicasse também aos produtos dos
mais complicados, difíceis e penosos trabalhos da cultura da terra. Por isso
verto sempre o termo francês por coleta, quando tem o referido sentido.
72
Vide, além de A. de Préville, sobre esta zona – Um Ano no Congo, por
Jaime Pereira de Sampaio Forjaz de Serpa Pimentel, Lisboa, 1899; e mais –
As Colônias Portuguesas, por Ernesto J. C. e Vasconcelos, Lisboa, 1896;
e mais – A raça negra sob o ponto de vista da civilização da África, por
A. F. Nogueira, 1881.
73 J. P. de S.
Forjaz de Serpa Pimentel – Um Ano no Congo.
74 Vide Caminhoá
– Botânica.
75 Patronage é
o termo francês; significa, é claro, a ação protetora do patrão; pode-se também
traduzir por proteção, patrocínio, padroado. Escreveria, no caso do texto,
patronagem, se não tivesse medo da fúria purista que se apoderou agora dos
aristarcos do Rio de Janeiro.
76 Fétiche é
o termo francês, tirado do nosso feitiço. E dizer que de torna-viagem, tem sido
traduzido por fetiche!
77 Em toda esta
excursão, para maior clareza, falo como se estivesse escrevendo em Portugal, em
Lisboa, por exemplo.
78 Descrição da
Península Ibérica (Livro 3º da Geografia de Estrabão), 1ª parte; da
tradução de Gabriel Pereira.
79 Ferreira
Deusdado, Corografia de Portugal.
80 A Terra
Portuguesa.
81 Vide – A
Pátria Portuguesa, pelo autor.
82 Vide: Ed. Demolins, “Les Routes de l’Antiquité”,
“Les Français d’ aujourd’hui”, “
83 História de
Portugal, 2ª edição, 1880, I.
84 Estrabão, III,
III, 1.
85 Religiões da
Lusitânia, II.
86 História de
Portugal, I.
87 Vide do grande pintor: Une Année dans le Sahel, e mais – Un
Eté dans le Sahara.
88 Estudos
Históricos e Econômicos. Cf. O problema agrícola, pelo mesmo. Vid.
Herculano: Opúsculos, tomo VII, passim; Anselmo de Andrade: Portugal
Econômico.
89 Estudos
Históricos e Econômicos.
90 Op. cit., I.
91 Op. cit., III, III. Trad. de
Gabriel Pereira.
92 L. Poinsard –
93 Vide – D.
Antônio da Costa – No Minho.
94 Op. cit., I.
95 Neste número a Escola da Ciência Social – conta
principalmente – o castanheiro, a nogueira, a oliveira, a amendoeira, a
aveleira e a vinha.
96 Autores há, que consideram os Hotentotes um ramo da
raça amarela imigrado na África. Outros dão os Boximanes como mestiços.
97 Vide – Um Ano no Congo, por Jaime Pereira de
Sampaio Forjaz de Serpa Pimentel, Lisboa, 1899; – As Colônias
Portuguesas, por Ernesto J. de C. e Vasconcelos. Lisboa, 1896; – A
Raça Negra sob o ponto de vista da civilização da África, por A. F.
Nogueira, Lisboa, 1881. – Convém não esquecer os trabalhos de Serpa
Pinto, Capelo e Ivens, e, mais, Etnografia e História Tradicional dos Povos
da Lunda, por Henrique Augusto Dias de Carvalho, Lisboa, 1890.
98 Essai sur
l’Inégalité des Races Humaines, passim.
99 Tratado Descritivo do Brasil, edição do Rio de
Janeiro, de 1866.
100 Materiais e Achegas para a História e Geografia do
Brasil, tomo I.
101 Materiais e Achegas,
II.
102 Civilization in
England, II.
103 Évolution Sociale, tr. franc.
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